A Harmonia do Acaso
Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Vós que aqui entrais, abandonai toda a esperança”. — Dante Alighieri
Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar que uma Força maior talvez tenha interferido no destino de alguém. Os fatos ocorrem de forma sincronizada, uma simples ação desencadeando outra e mais outra até que algo inevitável aconteça. Naquela madrugada, após chegar em casa às três horas, depois de mais uma noite de bebedeira, Antônio jamais esperaria que o dia seguinte lhe traria dissabores inomináveis. Como lhe era de costume, chegou em casa, procurou algo para comer, descalçou os sapatos e, ainda mastigando um pedaço de queijo velho – de há muito tempo abandonado na geladeira – jogou-se na cama do jeito que estava e logo caiu no sono, sem se preocupar que a vida teria que continuar dali a algumas horas.
Acordou assustado com o telefone tocando e com o barulho de uma buzina de um caminhão que havia acabado de dobrar a esquina. A casa em que morava – um apartamento de dois quartos no segundo andar de um sobrado antigo – situava-se numa esquina bastante movimentada àquelas horas da manhã. Aquele barulho lhe arrancara de seu sono pesado e o trouxera de volta à sua dura realidade. Ainda meio zonzo pelo susto, ao olhar para o rádio-relógio – que ele esquecera de programar o alarme – na cômoda ao lado da cama, logo se colocou de pé num sobressalto. Estava bastante atrasado para o trabalho. O relógio marcava 08h35, e ele já deveria estar na loja desde as 08h00. Assim que olhou para o telefone e viu que o número identificado era do asilo onde sua mãe estava há mais de dois anos, o ignorou por completo, pensando consigo mesmo: – Na hora do almoço, ligo de volta para saber do que se trata.
Em menos de dez minutos já havia tomado banho e se barbeado. Foi até a cozinha em busca de algo para comer e, como nada de agradável para uma manhã de ressaca fora encontrado, tomou apenas um copo de leite frio. Já vestido com seu uniforme, foi mais uma vez ao banheiro para escovar os dentes e, sem mais delongas, se encaminhar rapidamente para o trabalho. Ao retirar o creme dental do tubo, talvez devido à pressa em que estava, ou mesmo por falta de perícia, conseguiu sujar toda sua camisa – de cor preta – com uma considerável quantidade daquela pasta branca. Por mais que tentasse, não conseguiu, de forma alguma, deixá-la apresentável. A única solução fora usar a mesma camisa do dia anterior – amarrotada, suja de suor, fedendo a cigarro e a todo tipo de odor que um botequim pode oferecer.
Aquele era um dia que ele, de forma alguma, poderia faltar ao trabalho. Um grande artista da música pop iria pessoalmente até a loja buscar um violão estilizado, que havia sido encomendado há dias. No dia da encomenda do tal instrumento, após aquele momento de trocas de gentilezas entre vendedor e cliente – onde certa intimidade se estabelece –, Antônio se aproveitou daquela oportunidade única – que ele há muito tempo aguardava – e, sabendo de quem se tratava, logo relatou sobre sua paixão pela música e também falou sobre suas composições, que certamente, na voz de um grande intérprete, talvez poderiam se transformar em hits de sucesso. Solicitou então àquele artista que, assim que voltasse à loja – se fosse de seu interesse e sem compromisso algum –, pudesse dar uma olhada rápida em suas composições e, quem sabe assim, encontrar alguma canção que lhe interessasse.
Antônio era um homem talentoso e bastante sonhador. Um indivíduo muito trabalhador, mas também muito irresponsável com suas finanças e bastante negligente consigo mesmo. Já na casa dos trinta anos – tal como sua própria mãe, agora abandonada num asilo – ainda não havia se casado e muito menos conseguido algum tipo de sucesso na vida. Filho de uma professora aposentada, que o concebera já madura em anos, quando já contava com quarenta anos. Essa professora – Tia Adélia – uma bela solteirona que havia dispensado várias oportunidades de casamento em sua juventude, preferindo investir seu tempo e disposição em sua carreira pedagógica, certo dia, num baile de carnaval, sob efeito de uma bebida um pouco mais forte, se deixou levar pelos encantos de um sedutor caminhoneiro que estava de passagem pela cidade. O resultado dessa ébria noite de carnaval viria se apresentar ao mundo nove meses depois, na figura de um belo e saudável menino que receberia o nome de Antônio Augusto.
Como não conhecera seu pai – que certamente morrera sem saber da existência de um filho –, fora criado pelo avô – que também se chamava Antônio – que tentou, dentro de suas possibilidades, lhe dar uma boa educação. Seu Antônio tinha, em parceria com seu irmão Jaime, uma serraria na pequena cidade onde moravam. Foi nessa serraria que Antônio Augusto – chamado Toninho – passou sua infância e adolescência aprendendo todo tipo de coisa: tudo o que prestava e também aquilo que não seria de nenhum proveito.
Esse seu tio-avô, Jaime, era a pior espécie de pessoa que poderia servir de exemplo para uma criança. Não era muito achegado ao trabalho duro, bebia como um louco e fumava feito uma chaminé. Era mulherengo ao extremo e tinha meia dúzia de filhos – nenhum deles reconhecido por ele – espalhados por toda a cercania com diversas mulheres diferentes, mulheres essas de índole e caráter bastante duvidosos. Contudo, não há nada no Universo de que não se retire algum proveito. Tio Jaime, por mais que possa parecer ser um indivíduo completamente imprestável, mesmo tendo ensinado o jovem Toninho os diversos segredos da malandragem, também fora o responsável por encaminhá-lo ao mundo da música, ensinando-o a tocar diversos instrumentos musicais. Tio Jaime era um exímio instrumentista e lhe ensinara tudo o que sabia.
Sua mãe se aposentara no mesmo ano em que ele completara 18 anos. Nessa época, seu avô já havia falecido há dois anos; sua avó morreria no ano seguinte, ficando apenas ele e sua mãe morando numa casa enorme. A serraria fora vendida assim que Seu Antônio falecera. Tio Jaime sobrevivia de sua parca aposentadoria e de um ou outro trocado que recebia de algum aluno que o procurava para aprender a tocar algum instrumento musical, mas também viria a falecer em pouco tempo, após uma vida carregada de lascívia e devassidão.
Como Tia Adélia não via muito futuro para o filho numa cidade pequena, decidira se mudar com ele para a cidade grande. Antônio Augusto – que deixara o apelido de Toninho para trás – tentara de todas as formas seguir carreira como artista. Contudo, não obtendo a sorte e a oportunidade necessárias ao estrelato, se firmara como vendedor numa loja de instrumentos musicais, onde trabalhava há mais de dez anos. Sem o tempo necessário e com pouca paciência para com sua mãe, que na senilidade se tornara irascível e taciturna ao extremo, decidira por interná-la num asilo, onde, para desencargo de sua própria consciência, dizia para si mesmo que ela seria muito bem cuidada por profissionais especializados nessa função.
Aquele dia – que não havia começado muito bem – tinha tudo para ser um grande dia. Ele não deixaria que ninharias o abatessem. Vestiu a camisa do dia anterior – mesmo não estando na melhor das condições –, pegou seu crachá e suas chaves e desceu correndo as escadas para ir para seu trabalho. Sabia que o tão esperado artista só estaria na loja após as dez da manhã. Para isso, ele ainda tinha tempo. A questão era que seus atrasos estavam ficando corriqueiros demais, e a nova gerência da loja já o havia advertido naquela mesma semana quanto a tal situação. Quando chegou ao portão de saída de sua casa, lembrou que estava se esquecendo do item mais importante daquele dia – seu caderno de composições. Talvez fosse a coisa mais importante de toda a sua vida. Por isso mesmo, voltou correndo até seu apartamento e, já de posse de tão importante objeto, desceu mais uma vez as escadas que levavam até a saída. No escuro corredor das escadas, sentiu uma estranha presença perto de si e, ao cruzar o portão de saída, teve a sensação de ter visto um vulto passando por ele. Bastante eufórico com as promessas daquele dia e totalmente absorto em seus pensamentos, atravessou a rua sem olhar para os lados e, quando o fez, a única coisa que viu foi uma enorme mancha verde vindo sobre ele. Num último momento, ouviu um estrondoso barulho que misturava sons de buzina, freadas de pneus e uma forte pancada. De repente, havia apenas o silêncio, e tudo ficara completamente escuro...
... Quando conseguiu, por fim, abrir os olhos, estava num lugar estranho, onde parecia estar anoitecendo, mas não conseguia ver os traços de um entardecer, muito menos o menor sinal de um céu estrelado. Ao olhar para cima, o que viu foi a escuridão de um céu que parecia estar nublado, pronto para descarregar uma tempestade a qualquer momento, mas não havia o menor sinal de chuva. O tempo estava quente e abafado, não havia uma única brisa soprando. Havia um fétido odor de coisa podre pelo ar, como se houvesse um esgoto a céu aberto ali por perto e vários velórios acontecendo ao mesmo tempo, com seus vapores de defunto, velas e flores murchando. Levantou-se e logo quis saber onde estava, mas as pessoas que passavam por ele, caminhando a esmo, agiam de forma estranha, não diziam coisa com coisa. Pareciam estar bêbadas, caminhando trôpegas e falando coisas sem nenhum nexo. Alguns pareciam estar em profundo remorso, pois batiam no próprio peito numa inconsolável lamentação.
Decidiu que o melhor a fazer era tentar encontrar alguém que conhecia, para saber que lugar era aquele e, principalmente, tentar entender o que estava fazendo ali, uma vez que deveria estar na loja para encontrar a pessoa que poderia realizar o grande sonho de sua vida. Caminhou sem destino certo por quase uma hora, sem encontrar ninguém que pudesse lhe dar uma explicação plausível; todos que encontrava pelo caminho pareciam estar muito envolvidos em seus próprios problemas. Ninguém interagia com ninguém, era um verdadeiro “cada um por si e Deus por todos”. Contudo, de algum modo, ele teve a estranha sensação de que Deus não estava presente naquele lugar. Sentindo-se cansado e com um gosto estranho de sangue na boca, com o corpo todo dolorido, como se tivesse sido violentamente espancado, não conseguia de forma alguma se lembrar de como chegara ali. Suas pernas estavam doendo pela caminhada, mas não sentia sede, e até mesmo a fome que o açoitava ao se levantar naquela manhã o havia abandonado. Numa das mãos ainda trazia consigo as chaves de casa, que ele não havia colocado nos bolsos, e na outra carregava seu caderno de composições.
A rua pela qual ele caminhava parecia não ter fim, como se estivesse caminhando em círculos, mas, por mais que andasse, não passava pelo mesmo lugar mais de uma vez, como se estivesse numa cidade infinita. Percebeu que, nas casas, as luzes estavam apagadas e todas as portas – de casas, lojas, botequins etc. – estavam fechadas. Havia pessoas de todas as formas e tipos, as mais diversas, pelas ruas. Todas caminhavam de um lado para o outro, tristes e cabisbaixas, e, quando ele tentava interagir com alguém, cumprimentando-as ou lhes perguntando algo, ninguém lhe dava atenção. Depois de certo tempo, que lhe pareceu ser quase uma eternidade, teve a impressão de ter visto, caminhando em sua direção, sua antiga professora do jardim.
Tia Cecília fora sua professora quando ele ainda tinha sete anos, mas, pelo que se lembrava, ela havia morrido há alguns anos num trágico acidente de carro que colhera tanto a vida dela quanto a do marido e de seu único filho – bastardo, diziam as más línguas. Pelo que soubera, eles estavam voltando de uma festa, onde tanto ela como o marido haviam bebido muito e decidiram que o menos ébrio pegaria a direção. O resultado de álcool e direção fora desastroso. Tia Cecília passou por ele como se fosse um completo estranho e nem ao menos lhe respondeu quando ele a cumprimentou, chamando-a pelo nome. Antônio pensou que havia se confundido. Continuou caminhando e, ao dobrar uma esquina, se deparou com seu Tio Jaime, que esse sim o reconhecera. Pois foi Tio Jaime quem lhe direcionou a palavra, questionando o que ele estava fazendo naquele lugar. Muito satisfeito por ter encontrado um rosto conhecido, mas bastante assustado por saber que era alguém que havia falecido há muitos anos, logo questionou seu tio sobre o que significava tudo aquilo, o que, com certa relutância, lhe fora explicado.
— Este lugar tem vários nomes, filho: Hades, Purgatório, Inferno... Aqui nós o chamamos de Umbral. Território desprovido de todo e qualquer sentimento de piedade, não há fraternidade aqui presente, ninguém parece se importar com a dor do outro. Cada um purgando seus próprios pecados, nesse infinito vai e vem de transeuntes ensimesmados. Vez por outra, aparecem por aqui umas pessoas vestidas de branco, transcendendo uma estranha luz azulada, que escolhem alguns dentre os que caminham e os levam consigo. Para onde, ninguém sabe, até porque os que são levados não retornam para contar, e quem os leva nunca diz nada para os que aqui ficam.
O que sei é que muitos, como eu mesmo, ficam bastante tempo por aqui. Após muita reflexão – e tempo para refletir é o que não falta por aqui – cheguei à conclusão de que o tempo passado aqui depende de como foi sua vida no mundo dos vivos. Pois alguns são rapidamente resgatados pelos seres de luz. Quando alguma criança chega, algum ser de luz já está à sua espera e ela é imediatamente levada. É estranho você chegar no mesmo dia em que sua mãe também passou por aqui. Vocês estavam juntos? Tiveram algum acidente?
Naquele momento, Antônio teve um sobressalto e, todo assustado e trêmulo, disse:
— Como assim? Que história é essa? Minha mãe está ou esteve aqui?
Tio Jaime, após um longo suspiro – ou pelo menos algo que pudesse se assemelhar a tal –, respondeu:
— Cheio de perguntas como todo mundo! Sua mãe passou por aqui mais cedo, um pouco antes de você chegar. Mas, como tinha um coração puro e inocente como uma criança, logo foi resgatada por um dos seres que já aguardava. Ela não chegou a me reconhecer como você o fez. Porém, eu a reconheci de imediato e, como estava próximo a ela, pude ouvi-la quando questionou ao ser que a aguardava: “O que seria de você sem ela para protegê-lo?”. O ser, muito gentilmente, respondeu que você ainda teria bastante tempo para endireitar suas veredas...
De repente, uma forte luz que banhava sua face lhe cegou os olhos momentaneamente, e o barulho de uma buzina quase o deixou surdo. Mas o que mais lhe incomodava naquele momento era o irritante som do telefone que tocava insistentemente. Antônio despertou de um terrível pesadelo, seu estômago estava embrulhado e sua cabeça doía terrivelmente. Ao perceber que o telefone não lhe daria paz, decidiu atendê-lo. Era do asilo onde sua mãe estava internada.
— Senhor Antônio Augusto de Albuquerque?
— Sim! Sou eu.
— Infelizmente, não tenho uma boa notícia para o senhor...
Revisão de Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
De como Solas governa Zélis
Seis mil anos antes da invasão do Abismo, um arquidemônio já sombreava o plano terrestre com suas asas. O continente-reino de Zélis era o menor do mundo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Seis mil anos antes da invasão do Abismo, um arquidemônio já sombreava o plano terrestre com suas asas.
O continente-reino de Zélis era o menor do mundo de Palais. O rei Mietaz, da casa Andros, governava naquelas circunstâncias.
O rei, idoso e muito afeiçoado, tinha somente uma filha, a única herdeira de seu reino. A donzela Eneza, porém, já frágil de constituição, contraiu uma doença desconhecida. A notícia abalou o carinhoso rei e seu semblante nunca mais se recompôs.
A enfermidade acamou a princesa: um flagelo cruel, com febres constantes, bolhas pútridas e delírios que, segundo fanáticos, eram possessões. A doença não concedia sequer o benefício da morte.
Eneza sofreu por longos meses; o desesperado rei não encontrava físicos nem doutores que tivessem a causa ou a cura.
Mietaz, num gesto humilhante, enviou cartas e emissários a todos os continentes e reis de Palais. Mas nenhum nobre, nenhum médico, dispunha de solução.
A fagulha de esperança surgiu após um ano de sofrimento. Um visitante chegou à corte.
Forrasis era o nome dele. Pálido, alto, cortês e eloquente; apresentava-se como um diplomata enviado por Sarakh de Alfara.
Mietaz conhecia a fama do rei Alfaro. Sarakh era chamado de “o Prístino”, pois vivera mais de um milênio, sustentado por meios herméticos e controversos. Forrasis sugeria esses meios.
As audiências entre ele e Mietaz tornaram-se frequentes e sempre privadas. Os altos nobres estranharam a ausência do conselho real de Zélis. Mas o rei dizia que se tratava apenas de diplomacia externa.
O secretismo possuía nefastos motivos: o diplomata prenunciou a morte de Eneza e a anarquia de Zélis caso o rei recusasse sua proposta.
O rei, mais desesperado que nunca, aceitaria quase antes de ouvir. A proposta era simples e profana: conjurar o mestre dos segredos, Solas, arquidemônio do Abismo, por meio da demonurgia conduzida por Forrasis.
Naturalmente, Mietaz hesitou. Um arquidemônio como curandeiro? Mas Forrasis garantia: o Abismo já havia curado outros. Sarakh recorrera à alquimeria abissal para se manter vivo e fizera de Alfara uma potência com tal ciência.
Mietaz resistiu por alguns dias. Mas Eneza era sua filha. Sua vida sustentava não apenas o coração do rei, mas também a sucessão de Zélis. Era isso, ao menos, que murmurava para si mesmo, e bastou para que cedesse.
Forrasis logo produziu um símbolo distorcido, um ídolo abissal, como o objeto daquele acordo.
Seu sangue régio devia banhar por treze dias o ídolo; preces numa língua distorcida, que apenas o diplomata conhecia, deviam ser repetidas em sessões demoradas. Para isso, Mietaz mandou construir uma sala oculta, adjacente à sala do trono.
No décimo quarto dia, o ídolo se partiu em estilhaços e Solas se manifestou.
Sua forma era estranha aos olhos humanos: uma coruja altíssima, de pernas longas e nuas. O torso era magro, mas suas asas quase tocavam todas as paredes da câmara. Seus olhos, macabramente vermelhos, ignoravam a presença do rei.
Ele conversou primeiro com Forrasis numa língua profana. Somente depois cedeu um pouco de atenção ao rei, que suava e retraía seu corpo pelo medo, mesmo que o diplomata garantisse a segurança.
O rei vomitou em resposta ao cheiro pútrido de Solas. A pedido de Forrasis, Solas ocultou parte de sua essência. Encolheu-se. Tornou-se uma coruja comum aos olhos de quem o visse. Seu cheiro pútrido também desapareceu.
Mietaz falou, ainda que tremendo, no idioma que sabia, de sua aflição. Revelou suas dores e prestou reverência à criatura. Solas, primeiro em silêncio, respondeu no mesmo idioma do rei.
Solas concordou. Mas em troca, exigiu uma sala do trono, uma coroa real e o título eterno de conselheiro absoluto da coroa de Zélis.
Mietaz hesitou, dessa vez com mais consciência. Olhou para o chão. Suas mãos tremiam. Por um instante, cogitou recusar. Mas ao lembrar-se do estado de Eneza, cedeu de novo. Murmurou para si que era por Zélis… mas sabia, no fundo, que era só por ela.
O contrato foi feito, o ritual selado.
Treze dias depois, Eneza levantou-se da cama. Suas bolhas haviam sumido. Sua pele era clara e firme. Sua saúde perfeita. O rei chorou de alegria. Agradeceu a Solas e prestou mais reverências.
Mas a princesa não parecia a mesma de antes. A amabilidade de seu rosto desapareceu; a gentileza, antes costumeira, não mais existia. Ela desprezava o conselho, o povo, o pariato. Falava pouco, e cada vez mais passava tempo com o demônio. E seu cheiro, quando sentido de perto, era o de um cadáver.
Ao passar das semanas, Mietaz percebeu que foi enganado. Sua filha redespertou como serva de Solas, como fantoche do Abismo.
Todos os sacrifícios que ele ofereceu ao demônio, as crianças e as donzelas, foram somente para alimentar sua transformação. Almas humanas foram os temperos dos remédios.
Ele não suportou o peso da culpa. No segundo mês da “cura” de Eneza, o rei Mietaz se jogou de sua torre.
Sua filha não chorou, nem fingiu luto. Assumiu o trono. Ela dissolveu o conselho e instituiu Solas, trajando agora diversas aparências humanas, como conselheiro real.
Solas, por séculos, atuou como conselheiro real, e como o governante de facto do reino. Por ele, o continente se tornou o centro da tecnologia de Palais. E também o berço da alquimeria abissal.
A corte de Zélis, hoje repleta de vassalos demoníacos, foi uma importante coluna para a Igreja abissal e para o surgimento da fissura em Alfara.
Solas, o arquidemônio dos segredos, ainda governa ali, trajando uma coroa esplendente. Loquaz, simpático, crente de ser o mais sábio dos entes antigos.
Revisão de Sahra Melihssa
Ricardo Zanella
Ricardo Zanella, também Áster e Venez, é tradutor, escritor e poeta por vocação. Nascido no início do milênio, em Itaperuna, Rio de Janeiro, é um ardente mantenedor da antiga poética dos trovadores. Áster escreve por vocação e por necessidade interior, pois, como afirma, “há uma razão suficiente para cada verso”. Acredita na arte literária como o caminho mais belo para a elevação do espírito. É autor de "Abissais", fantasia sombria que mescla o horror metafísico a um vislumbre de redenção. Em seus escritos, o amor cortês é o tema mais recorrente. » Instagram do Autor
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
A Ópera dos Vampiros
As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante do largo palco de madeira rangente. Quando todos estavam bem acomodados e o silêncio reinava, as cortinas vermelhas se abriram sob o tremelicar dos trilhos empoeirados.
O vulto de Melinda foi iluminado pelas luzes manuseadas por Syrrha, uma estranha jovem que guardava consigo uma lamparina e o dever de iluminar o palco. Melinda, que interpretava Christine Daaé, atenta a seu papel, ouviu os espirros do público, contagiados pela poeira. Ela andou vagarosamente até o centro, atraindo a atenção. Aquela plateia tinha olhos mórbidos, como bonecos de cera; pareciam imersos em um encanto sorrateiro que os prendia naqueles bancos.
Uma orquestra peculiar se destacava ao redor do palco; os músicos pareciam petrificados e presos aos seus próprios instrumentos pesados. O maestro produzia movimentos rápidos e rígidos, mas as roupas deles pareciam antigas e puídas pelo tempo. As faces mostravam-se sulcadas e fragilizadas pelo torpor de um sofrimento incomum, como se eles já não pertencessem ao mundo dos vivos, hipnotizados. Cada instrumento — os violinos, cujas cordas rangiam como unhas arranhando algo; oboés, que exalavam um chiado fúnebre; trompas de metal oxidadas — exibiam um véu espesso de pó, como se cada nota fosse expelida de um porão esquecido. Mas nada daquilo impressionava Melinda.
Ao som da orquestra sepulcral, ela entrou vestida com um longo traje de veludo escarlate, que ondulava como sangue sob as luzes do palco. Melinda era magneticamente bela. Seus cabelos ruivos, de um tom acobreado, eram uma cascata de cachos que desciam até a cintura, emoldurando um rosto pálido e aristocrático. Os olhos cor de mel, intensos e levemente entorpecidos, contrastavam com o ambiente imerso na penumbra. Era impossível fitá-la sem sentir-se atraído ou atraída.
Ao atravessar a coxia, ela desfilava em beleza pelo palco de madeira, enquanto sua voz reverberava doce e cálida, ecoando alta pela plateia absorta. Syrrha corria pelo fundo do palco para apontar a iluminação corretamente, contando com a ajuda de pessoas que ela via apenas como vultos na mudança de cenário.
Melinda atuava no teatro particular do Castelo Drácula, e aquela peça era nada menos que “O Fantasma da Ópera”. A ópera preenchia cada canto do teatro em um feitiço sonoro e, a cada nota, um desejo crescente pulsava nas veias dela. Ao fim de cada apresentação, sentia-se sedenta, pois seu canto exigia sacrifício.
Enquanto a vampira guiava os atos em atuação, aqueles vultos que Syrrha via estavam sob seu comando e, pelo comando dela, com apenas um único olhar, eles fizeram descer, por cordas, imagens de candelabros por trás de Melinda, imersa no papel de Christine e do Fantasma. A poeira suspensa dançava em redemoinhos no ar; iluminada pelos feixes de luz difusos, ela parecia tremelicar.
O Fantasma da Ópera entrou em cena, vindo das sombras de uma das coxias; ele deslizou sob o palco. A máscara branca ocultava parte de seu rosto mortiço, mas não podia esconder o sorriso traiçoeiro que se insinuava em seus lábios. Envolto em uma capa negra, ele avançava elegante; cada palavra entoada reverberava à luz vacilante dos candelabros. Era possível distinguir o brilho afiado de seus caninos sempre que sua voz cortava o ar, sugerindo sua realidade por trás do personagem.
A melodia era bela, entoada pela voz una do dueto e pela orquestra, incitando arrepios em Melinda. Enquanto a voz una do dueto se fundia às notas sombrias da orquestra, eles cantavam e encenavam como se estivessem possuídos.
“Those who have seen your face, draw back in fear...”
Melinda caminhava lentamente pelo palco, os braços erguidos em gestos fantasmagóricos, mas seus olhos permaneciam vigilantes. O Fantasma surgia por trás dela, como uma sombra a sugá-la para si; o rosto parcialmente coberto pela máscara branca, a capa ondulante como fumaça ao vento.
“I am the mask you wear...”
“It’s me they hear...”
A orquestra morta, mas vibrante, acompanhava ritmicamente o dueto. Enquanto a jovem dos olhos de mel ali cantava, podia sentir a respiração do Fantasma se aproximando pela sua nuca. Ele a abraçava, entrelaçando-se a ela com uma tensão entre ambos quase palpável, como se o palco fosse real. A voz dele roçava sua pele como um toque gélido.
“Your spirit and my voice in one combined...”
“The Phantom of the Opera is there...”
“Inside your mind...”
Quando o último verso desta parte foi entoado, ele ergueu os braços atrás dela, como se fosse uma entidade que a possuía por inteiro. Os rostos estavam muito próximos um do outro. Neste momento, Melinda o viu olhar por cima de seu ombro; ela sempre esquecia que o nome verdadeiro de seu par não era Erik. Ele olhava para a escuridão além da coxia.
Algo no Fantasma estava levemente estranho naquela noite; ele parecia mais sedento que o normal, mais insano e libidinoso que o usual. Lançou um olhar inquietante para o lugar onde Syrrha se escondia, enquanto cuidava da iluminação, e Melinda sabia o que aquele olhar sádico poderia significar — ele queria sangue. Mas aquela garota não era permitida para eles.
O espetáculo sombrio foi interrompido pelo Fantasma vampiresco, e as cortinas começaram a descer lentamente. A plateia permaneceu imóvel, com olhos vidrados, sorrisos petrificados, mãos imóveis segurando binóculos dourados. Melinda estava confusa.
O Fantasma, movido pelo impulso, deslizou para fora da atuação. Seus olhos escarlates, inflamados pelo desejo de sangue, fixaram-se em Syrrha, a jovem que, nos bastidores, sentiu o perigo. Em um ímpeto febril e faminto, ele avançou sobre ela, mas não conseguiu alcançá-la. Melinda tentou contê-lo, mas não conseguiu e foi arremessada para longe.
Syrrha recuou às pressas entre as cordas; seus dedos trêmulos seguravam a lamparina de óleo que carregava. No desespero da fuga, ela tropeçou. O vidro se partiu com um estalo seco contra o chão de madeira, o que fez com que as chamas, aos poucos, consumissem parte do palco. Um brilho soturno estava nos olhos dela, e uma energia enigmática e ameaçadora, emanada por ela, fez com que o vampiro se afastasse.
Melinda voltou a se aproximar e o segurou pela mão, pedindo para que parasse com aquilo, pois aquela garota não era para eles. O rosto da criança endureceu, como se o tédio e a raiva a possuíssem; uma risada sarcástica ecoou de sua boca. Ela parecia triste e, ao mesmo tempo, impetuosa. Por trás dela, vultos observavam, encobertos por véus negros muito finos. Então, ela revelou aos dois vampiros:
— A dor de vocês foi mais suportável quando vivida como ficção. Eu quis preservar e proteger isso, mas a verdade é a verdade, mesmo que façamos da dor um papel e da morte uma peça.
Um estalo sutil percorreu o ar, e a plateia, antes enfeitiçada, piscou como quem desperta de um longo sonho no umbral. Os vultos de Syrrha atravessaram as pessoas em silêncio... e desapareceram. Os binóculos tombaram das mãos. Murmúrios roucos, de quem desperta, escaparam das gargantas de cada um. Os atores, músicos, espectadores... todos, desnorteados. Aquilo não era apenas um teatro; era uma prisão. E os que ali atuavam não eram meros vampiros, mas sombras aprisionadas num ciclo de encenação eterna, condenadas a repetir papéis que não escolheram.
Aquele foi o fim, o último ato. Estavam libertos, mas quem eram eles de verdade? A plateia se ergueu lentamente. Alguns caíram de joelhos. Outros choraram. A orquestra virou pó. E Syrrha, a guardiã do encanto, tornou-se sua libertadora forçosamente. Melinda observava em silêncio, com uma lágrima de sangue imóvel à beira do olho esquerdo.
Quem era, afinal, seu companheiro de palco? Ela já não se lembrava. E ele desaparecera, deixando para trás apenas a máscara do Fantasma da Ópera, chamuscada pela chama da lamparina. Restaram apenas Melinda e Syrrha, sob o palco, no teatro abandonado por todos, em um silêncio ensurdecedor que queimava os ouvidos como uma tocha pode queimar o véu da ilusão.
Revisão de Tiago Serigy
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Soneto 98, de William Shakespeare
De ti eu me afastei na primavera, | Bem quando o elã de Abril, com seu preparo, | Depôs um ar travesso em toda esfera, | Na qual até Saturno achou amparo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
De ti eu me afastei na primavera,
Bem quando o elã de Abril, com seu preparo,
Depôs um ar travesso em toda esfera,
Na qual até Saturno achou amparo.
Porém, nem pio das aves, nem os cheiros
Das abundantes flores, coloridas,
Fizeram-me escrever algo faceiro,
Querê-las do jardim por mim colhidas.
Prazer nenhum senti no branco lírio,
Tampouco em uma rosa o escarlate:
Amáveis tão somente no idílio
Envolto em ti, se tu fizesses parte.
Distante, pareceu-me inverno, ainda
Que as flores emulassem tua vinda.
—
From you have I been absent in the spring,
When proud-pied April, dress’d in all his trim,
Hath put a spirit of youth in every thing,
That heavy Saturn laugh’d and leap’d with him.
Yet nor the lays of birds, nor the sweet smell
Of different flowers in odour and in hue,
Could make me any summer’s story tell,
Or from their proud lap pluck them where they grew:
Nor did I wonder at the lily’s white,
Nor praise the deep vermilion in the rose:
They were but sweet, but figures of delight,
Drawn after you, you pattern of all those.
Yet seem’d it winter still, and, you away,
As with your shadow I with these did play.
Revisão de Sahra Melihssa
Wallace Azambuja
Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Soneto 66, de William Shakespeare
De tudo farto, à morte, à paz suplico, | Por ver alguém tão bom nascer sem nada, | E quem tem tudo de alegrias rico, | E a fé mais pura e crente tapeada,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
De tudo farto, à morte, à paz suplico,
Por ver alguém tão bom nascer sem nada,
E quem tem tudo de alegrias rico,
E a fé mais pura e crente tapeada,
E as nobres honras mal distribuídas,
E a virginal virtude em maus lençóis,
E a perfeição honesta diluída,
E a força acuada por broncos heróis,
E a arte atada pela autoridade,
E a douta estupidez na direção,
E ouvir fazerem troça da verdade,
E o bom sendo cativo do vilão.
De tudo farto, a tudo adeus daria,
Mas meu amor, a sós, eu deixaria.
—
Tired with all these, for restful death I cry,
As to behold desert a beggar born,
And needy nothing trimm’d in jollity,
And purest faith unhappily forsworn,
And gilded honour shamefully misplaced,
And maiden virtue rudely strumpeted,
And right perfection wrongfully disgraced,
And strength by limping sway disabled
And art made tongue-tied by authority,
And folly, doctor-like, controlling skill,
And simple truth miscalled simplicity,
And captive good attending captain ill:
Tired with all these, from these would I be gone,
Save that, to die, I leave my love alone.
Revisão de Sahra Melihssa
Wallace Azambuja
Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Soneto 28, de William Shakespeare
Como posso voltar a ser feliz, | Estando carecido de descanso? | O mal do dia as noites faz febris, | E assim com dia e noite iguais avanço,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Como posso voltar a ser feliz,
Estando carecido de descanso?
O mal do dia as noites faz febris,
E assim com dia e noite iguais avanço,
Com ambos, mesmo opostos em seus turnos,
Num pacto, consentindo em torturar-me,
Um com fadiga, o outro taciturno
Por tanto me afastar de ti deixar-me.
Em prol do dia, eu falo do teu brilho,
Que a graça trazes, quando o céu nublado;
Co’a noite os elogios também partilho,
Faltando estrelas, tu que a tens dourado.
Mas diariamente o dia atrai tristezas,
E à noite a dor noturna é mais intensa.
—
How can I then return in happy plight,
That am debarred the benefit of rest?
When day’s oppression is not eas'd by night,
But day by night and night by day oppressed,
And each, though enemies to either’s reign,
Do in consent shake hands to torture me,
The one by toil, the other to complain
How far I toil, still farther off from thee.
I tell the day, to please him thou art bright,
And dost him grace when clouds do blot the heaven:
So flatter I the swart-complexion’d night,
When sparkling stars twire not thou gild’st the even.
But day doth daily draw my sorrows longer,
And night doth nightly make grief's length seem stronger.
Revisão de Sahra Melihssa
Wallace Azambuja
Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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O Último Blackwood e a Sombra de Lilith
Sete. O número ecoava no sótão empoeirado, onde a luz morria antes de alcançar os recantos mais profundos. Sete batidas secas do relógio de…
Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Sete. O número ecoava no sótão empoeirado, onde a luz morria antes de alcançar os recantos mais profundos. Sete batidas secas do relógio de pêndulo, cada uma um prego enferrujado fincado no caixão da esperança. Não que houvesse muita esperança por ali. A velha mansão dos Blackwood era um monumento à decadência, suas janelas como olhos vazios fitando a noite eterna que parecia ter se enraizado em seus alicerces.
E eu, Alaric, o último dos Blackwood, era um mero apêndice, um espectro que perambulava por corredores infestados de ecos. Meus dias eram preenchidos com o sussurro de vozes que nunca existiram, o farfalhar de sedas fantasmas e o som distante de um piano que ninguém tocava. Meu único consolo, se é que se pode chamar assim, era a coleção de livros proibidos, volumes encadernados em pele humana e tinta de sangue, que meu pai, em sua loucura final, reuniu no pequeno escritório trancado.
Foi numa noite como tantas outras, quando a lua se escondia atrás de um véu de nuvens pesadas e o vento uivava como um cão faminto, que o selo se quebrou. Não um selo físico, mas a barreira tênue entre o que era e o que deveria ter permanecido esquecido. Eu lia um tomo empoeirado, suas páginas amareladas cheirando a mofo e morte, quando um nome saltou aos meus olhos, gravado em uma caligrafia serpentina: Lilith.
O nome vibrou no ar, uma nota dissonante na sinfonia silenciosa da casa. Uma imagem se formou em minha mente: uma mulher etérea, com cabelos cor de ébano e olhos tão profundos quanto os abismos do inferno, envolta em um véu de mistério e perdição. Lilith. A rainha da noite, a primeira tentação, a sombra que persegue os sonhos dos homens.
Minha respiração engasgou na garganta. Eu conhecia o mito, as lendas sussurradas em cantos escuros. Mas aquilo... aquilo não era uma lenda. Era uma evocação. Meu pai, em sua busca insana por conhecimento, havia ido longe demais. Ele não apenas lera sobre as entidades que habitavam o limiar da realidade; ele as convocara.
Com um arrepio que me percorreu a espinha, percebi que o silêncio da casa não era mais o silêncio da ausência, mas o silêncio da observação. A escuridão não era mais apenas a ausência de luz, mas uma presença palpável, respirando em meu pescoço.
As sombras dançaram nas paredes, projetando formas grotescas que se retorciam e se contorciam, como almas condenadas. O cheiro de rosas murchas e terra revolvida invadiu o ar, misturando-se ao odor metálico de sangue antigo. E então, ouvi-a. Não uma voz audível, mas um sussurro que se infiltrava em minha mente, ecoando meus pensamentos mais sombrios, os segredos que eu guardava de mim mesmo.
— Alaric... — ela sibilou, e o som era como o farfalhar de asas de morcego em um sepulcro. — Você me chamou. Eu vim.
Meus olhos se fixaram na porta do escritório, que agora estava entreaberta, revelando uma escuridão ainda mais densa em seu interior. De lá, emergiu uma figura. Não a etérea Lilith de minha imaginação, mas algo muito mais antigo e terrível. Uma silhueta esguia, envolta em um manto que parecia feito da própria noite, seus olhos brilhando como brasas no inferno.
Ela não caminhava; ela deslizava, como uma nuvem de fumaça, em direção a mim. O ar ao seu redor parecia vibrar com uma energia profana, e o frio que emanava dela era tão intenso que parecia queimar minha pele.
— O que você deseja, Alaric Blackwood? — sua voz, agora mais clara, era um cântico fúnebre, sedutor e letal. — A vida que você conhece está morrendo. Eu posso oferecer outra. Um reino onde as sombras reinam supremas, onde a dor é êxtase e a eternidade é um fardo a ser carregado.
Eu recuei, meus pés enraizados no chão empoeirado, um terror gélido me paralisando. Eu havia brincado com o desconhecido, e agora o desconhecido estava ali, em minha sala, me oferecendo uma escolha que eu não queria fazer.
O silêncio voltou, denso e pesado, enquanto ela aguardava minha resposta. O relógio de pêndulo, lá no sótão, batia a oitava hora. Cada batida, um passo dela em minha direção. Cada batida, uma porta se fechando para o mundo que eu conhecia.
A mansão Blackwood nunca mais seria a mesma. E eu, Alaric, sabia que meu destino estava selado. Nas profundezas daquela noite sem fim, eu estava prestes a descobrir o verdadeiro significado de "nunca mais".
O que você acha que Alaric fará? Ele aceitará a oferta de Lilith ou tentará resistir à escuridão que o cerca?
Revisão de Sahra Melihssa
Bruno Reallyme
Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem.
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Texto e cena: Dramaturgia e narrativa — o teatro como linguagem da vida
“...quero indicar sobretudo que para mim o teatro é ato e emanação perpétua, que nele nada existe de imóvel, que o identifico com um ato verdadeiro…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“...quero indicar sobretudo que
para mim o teatro é ato e
emanação perpétua, que nele
nada existe de imóvel, que o
identifico com um ato verdadeiro, portanto vivo, portanto mágico.”
Sobre teatro e literatura – os desafios do autor em materializar as imagens postas no papel. O teatro consiste em encenar; assim como a vida, quando se assume um papel social. O professor que sai de sua casa, cambaleante, de porre, logo cedo, para contribuir com o belo quadro social, ou a médica, com sua pretensão altruísta de salvar vidas – ou por horas apenas. E assim por diante.
A palavra se desnuda no contexto, na encenação dos gestos e da presença. Quando o teatro vira ação, o espaço cênico ganha novos desdobramentos: o tradicional se dissolve e se estende do convencional ao cotidiano, que ganha corpo e performance, que transforma o espectador em ator ou autor, que assume postura em várias dimensões da vida, como o trabalho, a casa, a rua…
O espaço, como desdobramento do enredo teatral no mundo, também pode ser encontrado no instrumento de investigação – o Organon, de Bertolt Brecht – no seguinte: “O Teatro consiste nisto: em fazer uma viva representação de fatos acontecidos ou inventados entre seres humanos e fazendo-o com a perspectiva da diversão. De qualquer modo, é o que buscamos tratando de teatro novo ou antigo.” A apresentação se emancipa do palco, ganhando suas dimensões mais carnais – para além das páginas. A atração é ética e política, pois cria ação e propicia espaço para o espectador participar ativamente.
O teatro nasce da palavra, mas não se encerra nela. A escrita não busca apenas ser lida: ela quer corpo, gestos, quer ter voz e símbolos visuais pulsando ritmo e presença. Pintar o mundo para além do grafite. Os diálogos não são meros riscos se entoados através das gargantas. O diálogo é potência, como no Teatro do Oprimido ou das Oprimidas:
“Como é que a gente pode, através da visão crítica da sociedade, da visão crítica que a gente tem sobre o real, representar esse real e buscar a conversa, a troca de ideias, a troca de experiência sobre esse real? Ou seja: eu vivo o real, olho para o real com olhos críticos, represento o real e me pergunto: ‘Como é que a gente pode transformar isso mais prático, melhor? Como é que eu posso transformar esse real em uma realidade que seja mais acessível para mim, que seja melhor para a minha vida?’ O diálogo significa que a gente está aberto o suficiente para escutar um ao outro.”
É na conversa entre gestos, expressões e palavras que se constroem pontes necessárias para transportar as transformações sociais que se deseja. Um espaço utópico de resistência.
A mão-de-obra não termina no papel. A literatura se rende ao palco sem perder seu brilhantismo. A palavra se põe pornográfica e se deixa ser tocada pela ação direta. Ela mesma penetra na pele como um espírito, contorce o artista, enche de lágrimas a plateia que se envolve na trama. Ali começa o seu prolongamento: o traço mais generoso de riscos a correr.
A teatralidade está na surdina mais exposta. O espectador não é mais passivo: vira autor – e da própria vida – nos demais convívios e espaços sociais, numa reunião enfadonha, na sua labuta diária ou mesmo com a família. É encontro de raças, gêneros e classes. Mesmo os desavisados sempre atuam com um “prazer de nível superior”, como escreve Brecht, acrescentando que:
“Por esta forma superior de prazer, o teatro leva seu público a uma atitude fecunda, para além do simples olhar. No ‘seu’ teatro, o espectador poderá divertir-se, como se tratasse de um recreio, com tremendas e infindáveis canseiras que lhe dão a subsistência, e com o pavor que lhe inspira a sua interminável transformação. Num teatro deste tipo, o público tem a possibilidade de educar a si próprio da maneira mais simples; de existência, é a arte que a proporciona.”
Dessa forma, o teatro também ensina a estar no mundo. A escutar e a dizer. A atuar. A ter mais presença. O palco se transforma em qualquer lugar de potência da vida: espaço físico e psicológico. O texto precisa de carne, a carne de movimento, e a alma, de florescer.
Revisão de Sahra Melihssa
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Preciso ir embora
Preciso ir embora. Esse pensamento martela no meu coração, quando abro os olhos e não vejo nada, apenas o escuro. Nas pontas dos dedos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Preciso ir embora. Esse pensamento martela no meu coração, quando abro os olhos e não vejo nada, apenas o escuro. Nas pontas dos dedos e na testa sinto um tecido frio e sedoso. Não posso me mexer e sinto as paredes de madeira fechando-se sobre meu corpo... já morto? Preciso ir embora.
Revisão de Tiago Serigy
Taciana Antunes
Taciana Antunes, brasileira, recifense nascida em 1974, é jornalista, publicitária e autora de Canções de Ninar – para não sonhar com os anjos. Entre páginas e silêncios, transita pelo suspense, fantasia e terror. Mãe de Agatha, vive com sua namorada e com Alex, seu gato, tecendo histórias e afetos. Instagram: » @taciantunes
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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A Boneca da Vitrine
O sino badalando na porta indicava a chegada de novos clientes, uma mãe e sua filha. A mãe olhava nostálgica ao seu redor, várias estantes recheadas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O sino badalando na porta indicava a chegada de novos clientes, uma mãe e sua filha. A mãe olhava nostálgica ao seu redor, várias estantes recheadas de bonecas clássicas, de todos os tipos, pano, porcelana e afins, além de uma caixinha, que tocava uma doce música de ninar. A criança, por outro lado, só tinha olhos para uma boneca em específico, a que estava na vitrine. Seu olhar era penetrante e parecia carregar alguma emoção indecifrável. Notando a empolgação da filha com o brinquedo em questão, dirigiu-se ao balcão, onde jazia uma senhora, que já aparentava ter seus 100 anos.
— Quanto custa a da vitrine?
— Não está à venda. — respondia com um tom ranzinza, sem dar brecha a negociações. A mulher assentiu com a cabeça e volta-se à criança, puxando-a pelo braço na tentativa de apresentar outras opções, mas a menina demonstrava-se determinada. Batendo o pé, alegando que apenas a boneca da vitrine lhe serviria, a mãe se via sem muitas opções, mas ao encarar a pequena senhora atrás do balcão, seu olhar era rígido e irredutível.
— O que há de tão especial nessa boneca? Vamos, há várias outras que eu adorava quando tinha a sua idade.
— Não! Eu preciso dessa!
A mulher, já irritada com a desobediência da criança, aperta seu pulso com firmeza, mandando que parasse de se comportar daquela forma. Em resposta, a garota morde sua mãe, fazendo com que a solte, e se lança contra a vitrine. Vidro se espalha por todo o chão, junto à boneca, que se choca contra a madeira.
— O que você fez, pirralha?! — a velha grita, incrédula e carregada de desespero.
A mãe puxa sua filha para longe, reclamando com ela, ao mesmo tempo em que tentava se desculpar com a senhora.
— Minha querida, você está bem? Ela te machucou? Ela não podia fazer isso, não é? Eu pedi para que não lhe perturbasse, mas aquela mulher não sabe controlar a criança. — dizia a dona da loja, direcionando-se para a boneca caída, preocupada, enquanto a ninava em seu colo.
Não demora muito para um estranho cheiro pútrido infestar o ambiente. A senhora se levanta com a boneca nos braços, repetindo consigo mesma que iria cuidar dela. A mãe, incomodada com o odor, tapava seu nariz, exigindo uma explicação para a atitude da filha.
— Ela pediu ajuda. — sussurrou a menina.
— Ela quem? — questionou a mãe.
A garota aponta para a boneca no colo da senhora, a mulher desviou seu olhar lentamente, averiguando a cena questionável, a velha cantarolando enquanto balança aquele brinquedo do tamanho de uma criança de 6 anos. Ela mais uma vez olhou nos olhos daquele ser inanimado, aquele olhar profundo, parecia estar sofrendo.
— Deixe de imaginar coisas, filha, agora peça desculpas! — as palavras que saíam de sua boca eram incapazes de esconder seu claro desconforto com aquele lugar. Porém, mesmo que seus sentidos lhe digam que algo está errado, seu senso lógico não lhe permitia ceder a esses temores ilógicos.
A criança, um pouco nervosa, a pedido da mãe, se aproxima da dona da loja pedindo desculpas.
— Agora quer se desculpar, criança? Mas agora você já machucou ela.
— Se quebramos a boneca, sinto muito, como podemos recompensar? Quanto quer pelos reparos? — indagava-se a mãe.
— Não tem como consertar, mas eu posso substituí-la. — o olhar da velha se fixa na garota, mas seu campo de visão foi cortado. A mulher puxa sua filha, se pondo entre elas.
— O que quer dizer? — sua voz já estava um pouco mais trêmula agora, ainda mais que o cheiro ficou mais forte ao se aproximar da boneca.
— Vocês a quebraram, não dá mais, o mínimo que pode fazer é me dar uma substituta. — a velha mexe no cabelo da boneca, revelando um buraco em sua nuca, um líquido preto escorrendo e alguns vermes comendo o que parecia ser um cérebro exposto.
— Vamos embora, filha. — a mãe puxa sua criança, correndo imediatamente para a porta. Trancada, ela começa a bater, gritando por socorro.
— Mamãe, eu não quero mais ir embora, eu quero fazer companhia para as outras. — diz a menina, sua voz parecia distante, suas pupilas estavam completamente dilatadas.
— Filha! A gente tem que sair daqui logo! Socorro!
— Calma, mamãe, ela vai cuidar bem da gente.
A mulher desesperada, agarrada em sua filha, se chocava contra a porta, que não demonstrava nem sinais de se abrir. Ela virou-se para a velha, que caminhava lentamente, cantarolando a maldita canção da caixa de música. “É isso”, pensou, pegando a caixinha da estante ao lado e jogando-a contra a dona do estabelecimento, que cai com sua cabeça sangrando, assim como a do cadáver que carregava. Ofegante, a mãe apanha a filha em seus braços e corre para os fundos da loja, buscando uma outra saída. A mulher passa rapidamente por um corredor estreito, cheio de tecidos, e no fim, uma porta, que, sem perder tempo, ela abre.
A mãe cai de joelhos, vomitando, o cenário visceral era demais para ela. Vários cadáveres de garotinhas, vestidas com roupas de boneca, podres, todo o ambiente fedia. A menina, por outro lado, parecia maravilhada com o que via, queria todas. Porém, sua exposição àquilo foi abruptamente interrompida, uma mão vinda do corredor agarrou seus cabelos e a puxou de volta. Quando a mãe percebeu, tentou segurar a filha, mas a porta se fechou.
— FILHA! POR FAVOR, NÃO MACHUCA MINHA FILHA! Minha pequena... por quê? — estava aos berros tentando derrubar a porta, enquanto, aos poucos, sua força se esvaía, encolhendo-se, trêmula, agarrando-se aos pequenos corpos que jaziam ali, sussurrando sem parar, “filha”.
O sino, badalando na porta, indicava a chegada de novos clientes, duas garotinhas, uma parecia ter 10 anos, enquanto a outra, 6. Elas estavam encantadas com a variedade de bonecas e com a doce canção de ninar que tocava de uma caixa de música. Mas uma boneca em particular roubou a atenção de ambas. A boneca da vitrine.
Revisão de Sahra Melihssa
Pedro Benicio
Nos anos 2000, em plena capital baiana, nascia um sonhador. Pedro cresceu viajando de estado em estado, nunca se firmando em um único lugar, nunca vivendo uma única vida. Sua cabeça, consequentemente, nunca se prendeu a uma única história, mas ele não queria viver sozinho com esse mar de ideias mágicas. Pedro colocou como meta em sua vida, mostrar ao máximo de pessoas, as mirabolantes aventuras que surgem em sua mente, podendo, talvez, um dia deixar um pouco da sua marca na vida de alguém. » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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A Melodia dos Sepulcros Esquecidos
A bruma gélida da manhã engolia a vila de Oakhaven, transformando as poucas casas em fantasmas cinzentos e o velho cemitério em um mar…
Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula
A bruma gélida da manhã engolia a vila de Oakhaven, transformando as poucas casas em fantasmas cinzentos e o velho cemitério em um mar de lápides disformes. Eu, Ângela Thorne, não pertencia a Oakhaven, nem a lugar algum, na verdade. Minha existência era um eco da própria melancolia que parecia impregnar o ar daquele lugar. Cheguei como um corvo desgarrado, atraída pelo anúncio de uma velha organista que procurava alguém para restaurar o ancestral órgão da igreja local – uma relíquia de carvalho negro e metal enferrujado que, diziam, possuía uma alma própria.
A Reverenda Agnes era uma criatura miúda e envelhecida, seus olhos, contudo, brilhavam com uma luz estranha e persistente, como velas acesas em um túmulo. Sua paróquia, a Igreja de Santa Cecília, era um esqueleto gótico, suas gárgulas observando o tempo com expressões pétreas, suas janelas ogivais escurecidas pelo abandono. O órgão, situado no coro, era o coração pulsante daquele lugar moribundo, um monstro silencioso coberto por um manto de pó e teias de aranha.
Os dias se arrastavam em um ritmo cadenciado pelo tic-tac do relógio da torre, que parecia anunciar a cada batida o fim iminente. Meu trabalho era árduo. Cada peça de madeira, cada tubo de metal, parecia sussurrar segredos antigos, melodias há muito esquecidas. À noite, quando a Reverenda Agnes se recolhia e a vila mergulhava em um silêncio sepulcral, eu sentia a presença. Não era um fantasma, nem um espírito no sentido convencional, mas algo mais sutil, mais antigo. Era a memória da música.
Comecei a ouvir as notas. No princípio, eram apenas fragmentos, murmúrios distantes, como lamentos vindos do solo frio do cemitério adjacente. Mas à medida que o órgão ganhava vida sob meus dedos, as notas se tornavam mais claras, mais definidas. Eram composições que jamais ouvi, harmonias que me envolviam em um véu de tristeza e êxtase.
Uma noite, enquanto limpava as teclas de ébano, encontrei um diário escondido em um compartimento secreto do instrumento. As páginas amareladas, escritas com uma caligrafia elegante e tremida, contavam a história de Elara, a antiga organista da igreja, que vivera no século XVIII. Elara era uma prodígia, mas sua música carregava um tom sombrio, uma obsessão pela morte e pelo luto. O diário revelava que ela acreditava que a música podia transcender o véu da vida e da morte, comunicando-se com os que jaziam sob a terra.
Lá pelas últimas páginas, um desenho me causou um arrepio. Não era uma partitura, mas um diagrama complexo de conexões, quase um mapa estelar, com anotações sobre "ressonâncias etéreas" e "pontos de contato com o véu". E em uma das páginas finais, uma frase repetida várias vezes, com urgência crescente: "A melodia deve ser completa. A melodia deve ser cantada pelos mortos."
Naquela noite, a bruma era mais espessa, o vento mais cortante. As vozes do órgão não eram mais sussurros; eram um coro. Vozes femininas e masculinas, jovens e antigas, lamentando, cantando, e implorando. Senti uma força inexplicável me puxar para o teclado. Meus dedos, como se não fossem meus, começaram a tocar a melodia do diagrama de Elara. As notas fluíram, preenchendo a igreja com um som que era ao mesmo tempo belo e terrivelmente profano.
O chão tremeu. As luzes da igreja cintilaram e se apagaram, mergulhando-me na escuridão mais densa. Mas a música continuou, as vozes dos sepulcros se elevando em um crescendo aterrorizante. Senti as presenças se materializarem ao meu redor, frias e efêmeras. Eram os mortos de Oakhaven, despertados pela melodia que Elara sonhara em completar.
Um deles, uma figura esguia e pálida, se aproximou. Pude ver seus olhos vazios, mas senti sua intenção, uma gratidão sombria. Era Elara. Ela estendeu a mão translúcida em minha direção, um convite silencioso para me juntar à sua orquestra eterna.
O frio me invadiu, e eu soube que não havia retorno. Eu era a condutora da melodia dos sepulcros, a guardiã de um coro que jamais deveria ter sido despertado. O último som que ouvi antes que a escuridão me engolisse completamente foi o do órgão, agora tocando sozinho, uma melodia lúgubre que se espalhava pela noite, prometendo um "nunca mais" para todos que ousassem ouvir.
Revisão de Sahra Melihssa
Bruno Reallyme
Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem.
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Chronos, o Faminto
Sou tal qual o monstro de Goya, | sou a fera cruel que te condena | a ser o alimento da minha fome, | devoro-te com o phallus e com a boca, | sou Chronos, o faminto…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Sou tal qual o monstro de Goya,
sou a fera cruel que te condena
a ser o alimento da minha fome,
devoro-te com o phallus e com a boca,
sou Chronos, o faminto degenerado!
Devoro ferozmente a incerteza quando preciso.
Num estalo de inconsciência perdi-me em ti,
pois tu eras a personificação de um labirinto!
Procurei calcular tuas cilíndricas pernas,
fiz dos meus braços um eficaz compasso
e tracei na tua carne a linha do desejo…
Para te surpreender, vesti-me de matemático,
e multipliquei, com prazer, os seus orgasmos…
Revisão de Tiago Serigy
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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4 Poesias DO ÂMAGO de Tiago Serigy
Tiago Serigy é nascido em Aracaju, Sergipe, e carrega uma alma que pulsa em versos desde a infância. Professor de História e estudante de Jornalismo…
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Tiago Serigy é nascido em Aracaju, Sergipe, e carrega uma alma que pulsa em versos desde a infância. Professor de História e estudante de Jornalismo, constrói narrativas sensíveis, inspiradas pelos clássicos da literatura brasileira do século XIX, música, cinema e pintura — sempre entrelaçando o banal do cotidiano com o eterno, num tom gótico que transforma o banal em transcendente.
Dono de mais de cem sonetos, prosa poética, contos eróticos e crônicas, ele se nutre de influências românticas (Álvares de Azevedo, Cruz e Sousa), simbolistas (Augusto dos Anjos), e contemporâneos ousados como Hilda Hilst e Ana Cristina César. Sua arte vibra entre a brevidade da existência e o desejo de eternizar cada chama da vida.
Selecionei aqui, quatro poesias que chamei de DO ÂMAGO, por serem essencialmente existênciais, nascidas do cerne mais profundo e, portanto, capaz de atravessar a tez e encontrar a alma do leitor.
Em “Naufrágio”, o poema abre como um mar revolto: turbulência de alma e espuma que se faz medo. Transporta o leitor ao interior do caos, onde o abismo se revela cenário íntimo de enfrentamento. É uma composição que ecoa a luta entre a superfície segura e o fundo desconhecido.
Em “À Crusoé”, evocando Robinson Crusoé, Tiago reflecte sobre identidade e isolamento. O eu-lírico confronta-se como um náufrago de si mesmo, erguendo uma ilha interna — metáfora do autoencontro e da invenção de si.
Em “Noites”, um mergulho noturno no âmago da solidão e do desejo. A escuridão se abre em janelas da alma, onde pensamentos flutuam entre a memórias e o silêncio. Um caminhar pelo breu da existência, buscando luz em seus próprios recantos.
Em “Transcende”, fechando o ciclo, este poema sugere uma elevação do espírito. Transcender é romper as amarras da carne e do tempo. O verso ascende, convidando o leitor a buscar a eternidade na simplicidade: um sopro de vida e palavras que erguem o eu para além do corpo.
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Arvoredo
O arvoredo de carvalhos era rodeado por árvores altas e robustas que se aglomeravam em formato circular, um pequeno riacho se estendia…
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O arvoredo de carvalhos era rodeado por árvores altas e robustas que se aglomeravam em formato circular, um pequeno riacho se estendia, brilhante; quando a brisa vespertina tocava as águas cristalinas se assemelhava à prata. Pedras e galhos se espalhavam pela grama verde e caliginosa. Sob o lado esquerdo do riacho, um grande carvalho antigo exibia seus galhos robustos e vibrantes ao vento, sua casca era envelhecida, mostrando sua imponência em comparação aos outros.
Ali, era o santuário das jovens dríades amantes da natureza. Beladona, em especial, costumava visitar o carvalho antigo e sentar-se por longos períodos para observar o pôr do sol e o fim da tarde. Um dia, ao fim de uma tarde gélida, ela se recostou com languidez sobre o carvalho, com delicadeza, tocou a grama entre as raízes, enquanto observava a esfera solar descendo no horizonte. Seus olhos cor de mel estavam fixos no céu enquanto as folhas presas em seus cabelos dançavam junto aos fios de cobre cacheados.
Ela suspirou pesadamente, pensando se encontraria novamente aquela que seu coração tanto almejava encontrar. Quando estava perdida em seus pensamentos, uma doce e ébria voz alcançou seus ouvidos. Era ela — a dríade de cabelos brancos e olhos dourados como a esfera solar. As duas se entreolharam e um sorriso íntimo surgiu no rosto de Beladona. A outra estava de pé, aproximando-se dela, demonstrando uma expressão ávida e contente, mesmo com o olhar melancólico e usual que ela tinha, era como uma deusa da floresta em seu caminhar tranquilo, banhada pela luz amarela do entardecer.
Beladona convidou-a para se sentar ao seu lado, o que ela aceitou alegremente, mexendo nos cabelos brancos, bem perto do ouvido dela a jovem disse, sussurrando, que sentira saudade. Beladona respondeu sorrindo, dizendo que também tinha sentido falta dela e pronunciou seu nome baixinho: Astrid. O sol finalmente se pôs, deixando o ambiente acinzentado para trás, com um último lampejo avermelhado entre as nuvens. Diante da leve escuridão que se instaurou no arvoredo, aos poucos as duas se entrelaçaram. Beladona acariciou os cabelos brancos da outra com os dedos, elas se aproximaram ainda mais, selando um beijo apaixonado. A dríade de pele escura e cabelos brancos avançou aos poucos, os beijos cada vez mais intensos e apaixonados.
A respiração de Beladona estava acelerada sentindo o toque dela quando suas mãos desceram aos poucos pelo seu corpo, tocando carinhosamente seus seios e descendo cada vez mais as carícias, vagarosamente mudou de posição aproximando a boca do pescoço dela permitindo que a língua roçasse em sua pele causando-lhe um arrepio vibrante.
Com os lábios trêmulos e as pernas entrelaçadas entre as raízes sagradas, Beladona sentiu a boca da amante descer por seu colo com devoção. Havia entrega, mas também reverência. A língua dela desenhava trilhas lentas e úmidas sobre a pele, descendo lentamente até o ventre — naquele ponto já desnudo — de Beladona, e a brisa noturna entrava no corpo das duas, causando uma breve sensação de frio ao toque que se desmanchava a cada movimento ardente entre elas.
Recostada ao tronco, Beladona envolveu o pescoço de Astrid com os braços, entrelaçando as pernas ao redor de sua cintura com leveza. Seus corpos se uniram como se florescessem juntas acima de uma flor de lótus. Astrid, com a lentidão de um rito antigo, ergueu o fino vestido de Beladona — cor de folhas secas ao fim do outono, deslizando o tecido por sua coxa exposta. Ao toque, Beladona arfou, um suspiro úmido escapando por entre os lábios entreabertos. As duas se beijaram com doçura faminta, línguas se tocando como se reconhecessem o caminho de cada íntimo desejo.
Os dedos quentes e reverentes de Astrid adentraram os véus de tecido, ultrapassando o limite entre o desejo contido e a entrega. Por dentro dos vestidos, os toques se tornaram mais intensos, mais profundos, e os gemidos, entrecortados e sôfregos, ecoaram entre os galhos. Era amor, era fome, era devoção. Na fusão de suas respirações, os dedos de ambas encontraram o âmago uma da outra. Ali, sob a sombra das árvores e o brilho distante da lua cheia que nascia no céu, o desejo tomou forma e o tempo se dissolveu.
Tomada pelo êxtase, Beladona segurou o corpo de Astrid com ternura firme, erguendo os braços dela com um sorriso cínico. Removeu-lhe o vestido com reverência e, em seguida, despiu-se por completo, libertando a pele de suas amarras de tecido.
Despida, deitou Astrid suavemente sobre a grama fria, sentindo o contraste entre o frescor do chão e o ardor que irradiava de seus corpos. Ajoelhada entre as pernas de Astrid, Beladona inclinou-se com desejo, sua boca descendo com lentidão até encontrar o centro úmido de prazer da amante. Com os joelhos de Astrid apoiados em seus ombros, ela iniciou um movimento delicado e rítmico com a língua, traçando círculos, sentindo em sua boca um sabor semelhante ao que o vinho seco deixa na boca após descer pela garganta.
Os gemidos de Astrid ecoaram entre as copas altas, entrecortados, sôfregos e encantados. Beladona se deliciava com o som e o sabor — era como provar o orvalho que nasce nas folhas ao sereno. Cada reação da outra fazia seu próprio corpo tremer, e o prazer que brotava entre elas parecia impactar também o solo, as árvores e a noite.
Quando os corpos enfim cessaram seus movimentos febris, restaram apenas os sussurros, abafados pela brisa e o som do riacho correndo ao lado. As duas permaneceram despidas, unidas ainda pelo calor, pele com pele, desfrutando da companhia carinhosa e amorosa uma da outra.
Beladona repousou a cabeça sobre o peito de Astrid, ouvindo o coração da amada pulsar em ritmo lento. Os dedos de Astrid se enredavam nos cachos ruivos de Beladona ainda úmidos de suor, enquanto suas bocas não diziam mais nada, não havia mais palavras, apenas silêncio e pertencimento.
Acima delas, o céu se abria em tons profundos, salpicado de estrelas. A lua cheia, já alta, lançava um reflexo pálido e prateado sobre as águas do riacho. As duas dríades contemplaram a cena em quietude, como se o mundo houvesse parado por um instante apenas para que existisse aquele amor. E ali, sob a proteção dos carvalhos e da noite, seus corpos entrelaçados repousaram até o amanhecer.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Sanctitas
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça…
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O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça. Atônita, contemplo o baile sombrio mover-se com extrema volúpia. Meus olhos não eram capazes de acompanhar os movimentos. Fecho os olhos, pois fui acometida por fortes náuseas. Deixo a taça no chão e, vagarosamente, caminho. Mesmo estando longe, era possível ouvir o doce dedilhar sob as cordas dos delicados violinos, assim como as risadas libertinas. Tiro a máscara, e minha tez está febril. Conforme ando, o som das festividades foi se distanciando, se igualando a estranhos sussurros vindos de alguma civilização esquecida há éons.
Em meu íntimo, desejo voltar para o baile. Minhas entranhas suplicam mais um gole do detestável licor. Tento silenciar os pensamentos, contemplando o Castelo. Ao fazer isto, constato que o mesmo se modificou — sua estrutura ganhara dimensões abissais; sofrera, também, graves mudanças. O Castelo estava imerso numa aura lúgubre; cada pedra foi consumida por uma cor inenarrável, profunda e viscosa.
As pedras também sofreram com a presença de terríveis musgos, ocupando as frestas presentes em cada pedra. Noto uma sutil, mas aterrorizante, mudança no ar, tornando árduo o ato de respirar. Vi o véu que guarda segredos além do tempo sendo rasgado perante mim, e então o imaginário se materializou.
— Eram semelhantes a inúmeras partículas de uma pálida poeira, pairando misteriosamente, alcançando todo o interior do Castelo. Fui até uma das janelas e constatei que vinham de fora. As palavras de Evelyn Dubois recaem sobre mim; sorrindo, ela dizia: “Com o passar do tempo, você irá se acostumar.”
A visão que tive foi demasiadamente extraordinária — a poeira ocupava cada centímetro daquela região. O céu ganhara horripilantes pinceladas num desagradável tom de azul-petróleo. Já no horizonte, a magnífica e dourada lua, em sua fase quarto crescente, resplandecia imponente, contornando o cume das montanhas, bem como toda a vegetação, desde as grandes árvores até os pequenos arbustos. Alumiava também os grãos pálidos da arcana poeira, que obedeciam fielmente ao soprar dos ventos. Inclusive, pude sentir um característico cheiro pútrido marítimo, deixando-me atordoada.
Pois bem, estarrecida, afasto-me da janela. Olho em volta; a quantidade de partículas aumentou consideravelmente. Assustada, cubro meu rosto com a mão direita e caminho sem direção, até que encontro um esguio e mal iluminado corredor. Por alguma razão, decido atravessá-lo. À medida que ando, as velas se tornam mais escassas. Noto também que a poeira está se dissipando conforme ando.
Estou entregue à minha própria sorte. Com pesar, observo seu moroso derretimento. Lembrei do meu pai — ele disse que cada vela derretia de uma forma; disse também que o mesmo acontecia com o pavio. Tal lembrança deixou meus olhos marejados. “Ah, pai, queria tanto te ver...” — a frase saiu sem querer, ecoando no imenso corredor. Se eu fechasse os olhos, conseguiria ver sua vasta biblioteca; o cheiro dos livros me acalmava. No centro, havia uma mesa de jacarandá, sempre ornamentada com anotações importantes, livros para pesquisa. Ocupando as laterais, estantes repletas de livros.
Assim como eu, ele era um curioso em relação ao desconhecido. O pouco que sei foi graças a ele. Naquela noite, meus pais não queriam que eu saísse (parecia que estavam prevendo meu terrível destino), mas eles cederam à minha insistência.
Se não fosse por aquele convite — tornei-me taciturna —, onde minh’alma fora devorada por aqueles sedutores e sombrios olhos azuis, eu estaria... Não importa. Estou condenada a carregar a mesma escuridão que meu algoz — ele estava enraizado em meu âmago, e às vezes soprava em meu ouvido verdades incontestáveis. São momentos assim que desejei o aprazível abraço da morte. Porém, algo me resgata do abismo.
Ando mais alguns metros. Vejo uma espécie de aura longínqua e, a princípio, parece disforme. Ando mais depressa, pois era uma visão intrigante. Cheguei perto o suficiente para ver do que se tratava: era uma luz branda, etérea, quase angelical. Fui acometida por uma estranha paz — senti algo semelhante quando estive em Somníria. A quantidade de poeira diminuiu consideravelmente. Paralisada, contemplo o gracioso mover da intrigante luz. Me questiono qual será sua natureza.
Sigo-a até uma porta alta e simples de madeira. Espantada, assisto ela atravessar a porta e desaparecer. Um terrível arrepio percorre meu corpo. Relutante, abro a porta — e não posso crer: achei a biblioteca que incansavelmente busquei. Foi aqui onde encontrei aquele Códex sinistro, que, desde então, havia se tornado uma obsessão. Por breves segundos, esqueci daquela figura espectral. Ela estava no final da biblioteca, levitando próxima da mesa redonda vitoriana, alcançando o abobadado teto — tal qual o famoso espiritualista escocês Daniel Dunglas Home.
Sem dúvidas, era uma visão espantosa. Fechei a porta; sua presença doce preencheu aquele lugar. Era como uma santa. Olhando mais atentamente, havia traços humanos: os cabelos negros ondulados balançavam sob o ar. Vi também um rosto delicado. Os olhos fechados traziam mansidão; já as palmas unidas em oração continham esperança. Para quem seriam aquelas preces?
Fascinada, caminho devagar ao seu encontro. Porém, algo me impede. Escuto, então, passos firmes vindo de fora, acompanhados de um sutil, mas pontual, tique-taque. (Sabia que se tratava de um relógio de bolso, pois era uma das paixões do meu pai.) A porta se abriu lentamente, emitindo um penoso ranger. Mas, antes disso, contemplei a figura sacra desaparecer da mesma forma que surgiu. Um sussurro escapa de meus lábios — mais um evento o qual não teria respostas.
Após isso, uma brisa gélida invadiu aquele âmbito. Meus olhos dançam frenéticos sob as pálpebras. Quem será que adentrou neste recinto? Que presença é esta?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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9 - Uma nova esperança em meio aos destroços
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…
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Relato de Lisa
Alana já sabe sobre as mudanças que se fizeram em mim. De certo modo, me senti aliviada. Você não imagina como é difícil manter-se calada quando o coração está repleto de preocupações e reverberações das ações — incautas — alheias. Esperem. Vou contar-lhes tudo sobre esses últimos dias.
Gatos não têm religião, mas somos espiritualizados de uma forma que o conhecimento limitado humano é incapaz de compreender. Não se sintam ofendidos, mas imaginem uma situação em que vocês precisam explicar sobre a relatividade para um bebê de dois anos. Ninguém diria que o bebê é incapaz ou desprovido de inteligência, mas diriam que ele ainda não é capaz, pois precisa entender primeiro outros conceitos mais básicos. É exatamente assim que os vejo. Meus ancestrais, como já contei anteriormente, são seres além do tempo, míticos e que regem as leis do cosmos. Eu consegui me adaptar a essa existência limitante, mas não suprimi totalmente minhas capacidades cognitivas, e por isso, sei o quanto deve ser difícil para vocês entenderem certas coisas.
Sem mais delongas, porque isso está soando muito estranho, vou contar-lhes o que aconteceu com a minha Alana.
Há cinco dias ela acordou em meio a mais confusões noturnas — não consigo afirmar que aquilo era sonho. Eu não queria ter que usar os artifícios, pois quando adentrei nessa existência havia prometido para mim mesma que não iria interferir nas escolhas dos humanos, entretanto, tudo isso que aflige Alana não foi sua escolha, mas são consequências dos maus atos dos outros. Posso dizer que esse é um grande dilema, contudo, será assunto para outro relato.
Em meio ao conturbado despertar, entre lágrimas e terrores, esbocei a primeira frase audível para ela, que a princípio imaginou estar confusa pelo sono, pelo despertar recente ou pelo desassossego. Demorou para aceitar a realidade. Contei-lhe sobre os olhos flamejantes, minha ancestralidade e falei-lhe sobre Siehiffar Monm: ela te ajudará.
Aquela noite o vento assobiava entre as árvores retorcidas como se carregasse memórias que não deveriam ser lembradas. Alana hesitou de início, mas depois compreendeu que mal também não podia fazer. Partiu, guiada por uma promessa sussurrada por mim ela te ajudará.
Nos recônditos do Castelo havia o pequeno santuário iluminado por uma única vela bruxuleante, a luz parecia resistir por teimosia. Quando a porta rangeu sob o toque da minha tutora, o cheiro de cera derretida e madeira antiga a envolveu. E lá estava ela: Siehiffar.
Sentada em um banco gasto, o véu de linho repousando nos cabelos negros, as mãos postas sobre o colo — havia nela uma quietude que desafiava o mundo. Ela ergueu os olhos ao ouvir a porta, e o olhar que pousou sobre a recém-chegada não foi de julgamento, mas de acolhimento.
— Você veio. — disse Siehiffar com uma voz que parecia ser feita de manhãs brandas e orvalho. — Há dias sinto sua tristeza ecoando pelas paredes do Castelo.
Alana hesitou. (ela sempre hesita, mas faz).
— A minha gat... Lisa me contou sobre você. Eu... não sei por que vim. Só sei que não consigo mais carregar isso. A fé... desapareceu. Ou talvez nunca tenha existido.
Siehiffar se ergueu, seus passos silenciosos como preces. Aproximou-se sem pressa, até chegar de frente à alma atormentada. Tocou-lhe as mãos — mãos frias, que haviam cavado covas para os próprios sentimentos.
— Às vezes — disse ela — a fé se esconde. Não porque tenha deixado de existir, mas porque espera que a procuremos em lugares novos. No silêncio. No desespero. Naqueles instantes em que tudo parece perdido. Na banheira você teve fé, só não te ensinaram o nome daquilo.
— Você fala como se ainda houvesse esperança — e sorriu com amargura.
Siehiffar levou a mão ao coração.
— Porque há. Não a esperança tola de que tudo será fácil ou que as dores desaparecerão. Mas a esperança de que, mesmo com tudo isso, você ainda pode encontrar sentido. Que há beleza até mesmo na dor que transforma e machuca.
Um raio de luar atravessou a vidraça quebrada, banhando o rosto da minha Alana em prata. Pela primeira vez em anos, ela não sentiu apenas frio. Sentiu algo mais. Um calor tênue, sutil, quase imperceptível — a lembrança de um abraço.
— Fique, — disse Siehiffar, apontando o banco. — Não precisa falar. Apenas fique. Às vezes, a fé começa quando simplesmente decidimos não ir embora. Lisa, pode entrar também... É claro que ela sabia que eu estava à espreita. Entrei.
E Alana parecia mais leve do que esteve em anos. Eu sabia que Siehiffar podia ajudá-la, mas sinto que subestimei sua capacidade de amenizar as dores com uma precisão quase cirúrgica.
Se Alana precisará de mais sessões com ela, eu não sei... Só sei que estou disposta a fazer novas concessões se for preciso.
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Capítulo 11 — A fé é a prova de balas
Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso? Pelo que estou lutando realmente? Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante…
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Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso?
Pelo que estou lutando realmente?
Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante que me devora mas não consigo mais seguir esta luz, por quê? Ela me sufoca, me deixa confusa, sinto uma vontade enorme de chorar pois estou sozinha, estou completamente isolada e perdida...
Não sei mais para onde estou indo, não sei mais o que buscar. Quando eu finalmente consegui sair daquele limiar eu percebi: seria aquilo minha última luta? Minha última escapatória?
Ou o início de um umbral que devo mergulhar? Cansada de ser a sina de um povo esquecido, perecido pelo tempo nas cinzas tristes de uma memória distante e falsa que se derrete como lágrima que se desfaz no oceano, sinto-me com tanta dor e saudade do que não sei...
Não sei mais no que acreditar...
Talvez eu esteja tendo uma crise de fé, talvez eu esteja apenas cansada.
Arale não sabia dizer, com precisão, se aquele som de engrenagens gemendo vinha do corcel ou de sua própria alma. Era como se o tempo se estilhaçasse em cada passo metálico da criatura. O Limiar... ah, o Limiar. Um espaço sem lógica, onde até mesmo Deus parecia hesitar antes de entrar. Ali, tudo era sonho febril condensado, e a dúvida era a única verdade estável.
Ela apertava o cabo do machado de plasma como quem se apega a um último pensamento lúcido antes da loucura. O brilho da lâmina vibrava, emitindo um ruído agudo, quase um suspiro — um som que lembrava os delírios de um condenado prestes a ser esquecido pela História. Estava exausta, sim, mas também faminta de sentido, como um espírito que busca uma revelação em meio à miséria do caos.
No caminho, os gobelinus rugiam, grotescos, com suas bocas costuradas por fios de pecado e olhos onde habitavam pequenas constelações mortas. Arale os ignorava. Ela já conhecia aquele tipo de criatura: seres que viviam entre a dúvida e o desejo, entre o riso demoníaco e a oração abortada. Eram sombras que haviam esquecido como era ser inteiro. E ela... ela se recusava a se tornar uma sombra. Ainda não.
Ao longe, no cruzamento de duas montanhas que pareciam suspensas por vontade suicida, uma figura se projetava, como uma cicatriz no espaço: Allant Elirrahz, o cartógrafo. Seu semblante era um mapa da própria decadência do universo — olhos que já haviam testemunhado mais do que qualquer mortal deveria e dedos que tremiam com o peso dos caminhos esquecidos.
— O que buscas, viajante do abismo? — ele perguntou, sem mover os lábios, como se a própria paisagem tivesse falado.
Arale desmontou, sua armadura chiava em protesto. Ela não respondeu com palavras. Estendeu lentamente a mandíbula arrancada de um gobelinus, envolta em prata líquida — um símbolo. Um gesto. Um pacto.
Allant assentiu com um olhar que compreendia o desespero mudo das coisas que não se dizem. E então, do chão, ele arrancou um mapa. Mas este não era feito de papel, nem tecido, nem pedra. Era feito de lembranças — memórias fossilizadas dos que se perderam tentando entender o Limiar.
— Siga a trilha dos olhos enterrados. Lá encontrará o prisma-espelho. Mas cuidado... Citlalmiquiztli a observa. Ela julga os desequilibrados.
À essa altura, o vento começou a zumbir como um velho bêbado recitando maldições. E lá, no horizonte, a figura dela surgiu.
Citlalmiquiztli.
Não como inimiga. Não como aliada. Mas como juíza.
Seu semblante jovial se mantinha, mas seus olhos... seus olhos não perdoavam. Em cada passo, ela pisava em realidades desfeitas. Em cada gesto, o universo parecia suspenso por um fio de cabelo. Ela olhou para Arale como se olhasse para o próprio destino — não com piedade, mas com pesar.
— Procuras justiça... ou vingança? — murmurou, quase com ternura.
Arale não respondeu. Talvez porque não soubesse mais a diferença.
E assim, ambas se encararam:
Uma guerreira do plasma, ferida pela lucidez.
Uma guardiã do cosmos, ferida pelo equilíbrio.
O Limiar assistia.
O tempo chorava.
E o destino, como sempre, permanecia de olhos vendados.
O silêncio que se instaurou entre Arale e Citlalmiquiztli era tão profundo que parecia devorar o próprio som. Um silêncio denso, inquisidor, feito não de ausência, mas de peso — o peso do que não se pode ignorar. Arale sentiu o machado em sua mão vibrar. Não por ameaça. Mas por dúvida.
E foi então que Citlalmiquiztli se aproximou. Seus passos não tocavam o chão, mas feriam a realidade. Cada pegada que deixava exalava símbolos — runas astrais, fósseis de uma linguagem esquecida, que tremeluziam e se apagavam como lembranças de um sonho que morria ao nascer.
— Dizes que buscas sentido, filha do plasma. Mas que sentido existe num universo onde até as estrelas enlouquecem? — perguntou ela, com um sorriso que não era deboche, nem compaixão. Era o sorriso dos que já entenderam que até a luz cansa.
Arale ergueu os olhos. Seu semblante, endurecido pela desconfiança, carregava a lucidez de quem já perdera tudo, menos o desejo de compreender.
— Se há sentido, ele se esconde nos cacos. Nos espelhos quebrados. No espasmo final do que amamos antes de ser devorado pelo absurdo — respondeu. Sua voz soava como se tivesse vindo de outra era. Uma era em que ainda se rezava.
Citlalmiquiztli parou. Estendeu a mão. Um gesto simples. Humano.
— Então prova. Olha.
Arale hesitou. Mas afinal, o que é a hesitação senão a sombra da coragem? Aproximou-se. E viu.
Na palma da mão da guardiã, surgiu o Prisma-Espelho de Sangue de Wendigo.
Mas não refletia luz. Refletia passados negados.
Arale viu a si mesma — não como guerreira, mas como menina, numa estação de mundos abandonados. Sozinha. Viu o momento em que escolheu o plasma, não por heroísmo, mas para não sentir mais o frio do afeto extinto. Viu os rostos que deixou morrer para sobreviver. Viu o riso do primeiro amor, silenciado pela lógica da guerra.
E chorou.
Mas não com lágrimas. Chorou com tremores, com silêncio, com a forma como a respiração se recusava a seguir o ritmo do universo.
— Não se forja uma arma devastadora sem devastar o que te habita — disse Citlalmiquiztli, guardando o prisma como quem sela um destino.
Então, e só então, ela entregou o primeiro item.
— Vais seguir. Ainda há a engrenagem da criatura orgânica e a lamparina da maçã fantasma. Mas te aviso: o que encontras do lado de fora só revela o que se nega dentro.
Arale assentiu. O corcel chiou atrás dela, como se sentisse o peso da revelação.
Ela montou. Seguiu.
Mas agora… cada passo do corcel reverberava memórias que ela nunca quis lembrar.
E Citlalmiquiztli ficou, fitando o céu, como quem consulta um mapa feito de constelações doentias.
Porque Ela sabia: a verdadeira caçada nunca é por objetos.
É por redenção.
O Limiar — esse teatro do impossível — começava a pulsar como um útero cósmico, doente e grávido de delírios. Após deixar para trás o prisma, Arale adentrava uma nova região. O ar ali não se respirava — engolia-se. Pesado, viscoso, úmido como uma confissão não dita.
O corcel de fuligem estancou. Farejava. Sentia. Algo ancestral despertava no ventre da terra, como se o próprio inconsciente universal estivesse prestes a vomitar uma lembrança reprimida demais para ser ignorada.
À frente, uma clareira. No centro, um ser.
Não era bicho. Não era máquina. Era o casamento malsucedido de ambos. Tinha braços como raízes nervosas, olhos em constante mutação, e um torso onde uma engrenagem de osso e carne girava, cuspindo uma gosma que cantava em notas dissonantes. A criatura vivia em sofrimento — mas um sofrimento orgulhoso, como o de um tirano que se recusa a morrer.
E falava.
Não com palavras. Mas com visões.
Arale caiu de joelhos. Um colapso. Não físico, mas existencial.
Ela se viu como mero código — dados emocionais transmutados em circuito de decisão. O que chamava de “alma”, ali, era interpretado como algoritmo de defesa psíquica. Nada mais.
A criatura a olhava e mostrava:
Que não há essência.
Que o instinto reina.
Que tudo que nasce… é para devorar.
E então avançou.
O chão fendeu. As árvores-gritos se enroscaram nos céus.
Mas Arale... ruiu para dentro.
Foi em seu colapso interior que encontrou a fagulha.
Não uma verdade.
Mas uma negação da verdade da besta.
Porque se tudo é instinto, por que ainda hesitamos?
Se a alma é um erro de cálculo, por que ainda morremos por ideias?
Ela ergueu o machado de plasma. Mas não o lançou.
Ela o fincou no próprio peito.
O golpe não a matou. Despertou.
O plasma fez contato com sua memória mais pura — a lembrança de quando amou sem saber o que era o amor.
E isso... não estava na lógica da criatura.
A besta recuou. Urrou. Engasgou-se com o próprio código vital.
E ali, no meio da dor...
a engrenagem orgânica caiu.
Arale a recolheu com mãos trêmulas.
Tinha dentes. Tinha coração. Tinha peso.
Mas também tinha um ritmo.
E pela primeira vez, o universo parecia sussurrar esperança.
Ela montou no corcel, agora exausto.
Mas sabia: só faltava a lamparina da maçã fantasma.
E que no caminho, os mortos — os dela — a esperavam.
A noite caía no Limiar como uma sentença, não como um ciclo. Não havia lua, apenas um céu costurado com fios de saudade. Arale cavalgava com a engrenagem orgânica presa ao peito — pulsando ainda, como um coração transplantado que não esqueceu a vida anterior.
Agora, ela adentrava um bosque.
Não um bosque comum.
Um bosque de árvores que murmuram nomes esquecidos.
Cada folha era uma lembrança.
Cada galho, uma escolha abortada.
E o chão... feito de promessas não cumpridas.
Ela desmontava.
O corcel recuava. Não por medo. Mas por respeito.
Ali, tudo era memória que não quer ser lembrada.
Então a vê.
A Maçã Fantasma.
Ela paira no ar, envolta em névoa translúcida. Uma fruta feita de luz e cheiro — com o aroma exato do lar perdido, do colo da mãe morta, da infância em que ainda era possível rir sem carregar culpa.
Mas a maçã... não brilha sozinha.
Está acesa apenas por um fio de chama interior.
A lamparina que a sustenta é o que Arale busca.
Mas tocá-la requer um preço:
lembrar do que mais se tentou esquecer.
E o Limiar cobra sem piedade.
A presença surge.
Ela.
A própria Arale — mas criança.
Menina, suja, faminta, segurando um brinquedo que não existe mais.
— Você me deixou — diz a criança.
— Eu precisei sobreviver — responde Arale, a guerreira.
— Sobreviveu? Ou apenas esqueceu como era viver?
A lamparina oscila.
A maçã escurece.
Arale faz o impensável.
Ela se ajoelha.
Abraça a criança.
Não com culpa. Mas com ternura.
E diz:
— Eu senti tua falta.
Por um instante, o Limiar treme.
A luz retorna.
A lamparina se acende em definitivo.
Ela a segura. A chama é fria, mas intensa — uma iluminação que não cega, mas revela.
Mostra o que se é, o que se foi, e o que se poderia ter sido.
Agora, com os três itens em mãos —
Arale retorna.
Mas algo mudou.
Ela não é mais só guerreira.
Ela é testemunha.
De si.
Do universo.
Do abismo.
Var’Ghul a espera.
E com o códex umbra, uma arma será forjada.
Mas a pergunta permanece, cintilando como estrela morta:
Que tipo de arma pode carregar o peso de uma alma redimida?
Arale entrega seu machado e aguarda, meditando do lado de fora da torre. Meditou por sete luas e sete sóis. Durante a meditação, ela enxergou um pássaro espiritual chamado Xa´vir lhe solicitando que siga ao horizonte, além do limiar: lá do outro lado da floresta reside uma pequena aldeia que ela precisa seguir...
Arale então abre os olhos e pondera:
— Por que minha máquina de ossos não me forneceu um pergaminho sobre esta missão?
Valgur a clama.
Ao adentrar no salão, ela fica deslumbrada com o que vê.
Seu machado está pulsando com uma lâmina nova, com uma luz de plasma e um cabo de carvalho escuro totalmente restaurado. No centro da lâmina, onde reside um formato de coração, ali fora inserida uma esfera de energia e o prisma. Ao apertar a esfera, o machado se transforma em uma arma que rasga os véus entre os mundos...
Seu machado, o T'Zakrah — A Gume do espírito ancestral — agora também pode transmutar em uma ceifadora com balas.
Nesse instante, a máquina lhe fornece um pergaminho:
“O T’Zakrah, seu tomahawk xamânico, é seu legado ancestral e é forjado da madeira fossilizada do Ipê Fantasma, banhado em prata lunar e embutido com cristais oníricos recolhidos dos sonhos dos antigos. Seu fio é etéreo — corta não só carne, mas também memórias e maldições. No cabo, inscrições em língua indígena extinta dançam ao toque da luz, pulsando com o ritmo do tambor do mundo espiritual. Quando em repouso, murmura cantos de guerra de um tempo perdido...
Ao pressionar a prisma-esfera ou ser girado três vezes no ar e batido contra o solo, o T'Zakrah libera um urro ancestral, evocando o espírito de um Jaguaretê de silício.
O machado se desfaz em partículas de luz âmbar, que orbitam em espiral ao redor do braço do portador — como se ele vestisse o próprio espírito da floresta em guerra.
As partículas se condensam num corpo de uma espingarda alongada, com uma coronha feita de osso de Ent digitalizado e cano duplo pulsante, atravessado por veios de código xamânico que brilham em vermelho-azul, como uma profecia radioativa.
Nome das Munições:
"Bala de Sangue Solar"
Condensada do plasma vital de entidades espectrais derrotadas. Ao atingir o alvo, explode em uma chuva de luz rubra que queima a escuridão como sal em ferida profana.
"Projétil de Próton Verdejante"
Conjurado de partículas bioespirituais — um ataque quântico que atravessa dimensões, desmaterializando qualquer sombra interdimensional que tente escapar da justiça cósmica.
"Munhão T’ata"
Disparo ritualístico que emite um grito ancestral ao ser disparado, causando pânico em entidades das trevas e chamando os espíritos guardiões da floresta digital para cercar o campo de batalha.
Em sua função espiritual, o T’Zakrah não é apenas uma arma — é um ritual ambulante. Ele reconhece apenas aqueles que ouviram o chamado do silêncio entre os trovões. Serve para caçar criaturas do abismo, desfazer pactos de trevas e selar portais abissais com um único golpe ou disparo...”
O pergaminho se cristaliza, então Arale o guarda na bolsa.
— Minha sincera gratidão... — ela acena com a cabeça e então gira a espingarda no ar, encaixando-a em suas costas e partindo para a nova missão que lhe fora revelada em sonhos.
Quando enfim Arale atravessa aquele inóspito vazio surreal de névoa e ilusão, ela chega ao continente de Aurax, uma região gélida e fantasmagórica. Ela avista de longe uma clareira que serpenteia alaranjada, destacando-se naquela mórbida pintura de prata, e então avança em direção à chama de um lar...
Enfim sua máquina de escrever de ossos lhe sangrara um pergaminho.
— Até que enfim, meu bebê... — ela brinca.
O pergaminho dizia:
"Tribo de Kjaarnheim à frente. (Cuidado com os falsos profetas...)"
Então o pergaminho se desfez no ar como pólvora no oceano.
A neve caía como lâminas de vidro sobre o mundo, cortando o silêncio com um sussurro cruel. O céu era um véu de chumbo rasgado por vendavais ululantes, e a névoa engolira tudo exceto os próprios pensamentos de Arale. Ela avançava com o corpo envergado, os ombros pesados de gelo e propósito, em direção à esquecida e sagrada Kjaarnheim, a vila indígena onde os anciões da Névoa Cinzenta ainda recitavam os nomes perdidos das estrelas.
A trilha era quase inexistente, devorada por dunas gélidas em mutação. Cada passo afundava no branco traiçoeiro que escondia rachaduras e galhos congelados como armadilhas. O vento gritava em línguas antigas, tão antigas que talvez nem o tempo as compreendesse. Arale apenas cerrava os olhos e cuspia sangue, o gosto metálico aquecendo a garganta.
Um clarão pulsante estourava na altura da lua de sangue.
Distante. Os olhos queimando da brancura. Um halo translúcido pulsando entre os pinheiros mortos — como se o próprio mundo respirasse dor. Foi ali que eles surgiram. Três lupinos brancos, criaturas geneticamente corrompidas, forjadas em laboratórios obscuros e esquecidos por seus próprios criadores. Gigantescos, com músculos pulsando sob pelagem albina, os olhos vazios, negros, sem alma. Seres que não rosnavam, mas rangiam, como engrenagens orgânicas sedentas por carne. Arale rugia alto.
Arale se deteve. A mão fria buscou a coronha da T’Zakrah, sua espingarda espectral.
A madeira era negra e viva, cravejada com runas escarlates que pulsavam em resposta à presença dos monstros. Arale rapidamente transmutava as armas com maestria, rasgava a palma com a lâmina do machado e deixava o sangue escorrer e em seguida a alquimia.
As balas da T’Zakrah beberam da oferenda. A arma estremeceu em suas mãos.
O primeiro disparo soou como o uivo de um deus morrendo.
A bala de sangue atravessou o peito do primeiro lupino, explodindo sua espinha e lançando entranhas em espiral no ar. Um clarão púrpura iluminou a névoa com espectros famintos. O segundo veio por baixo, rápido demais. Arale girou o corpo, mas as garras rasgaram suas costas, abrindo um sorriso sangrento que fumegava no frio. Ela caiu de joelhos, cuspindo gelo, mas seus olhos brilhavam como brasas.
O machado veio em arco. Um golpe seco, preciso, arrancando a mandíbula do inimigo que ainda vivia tempo suficiente para uivar como um cão de guerra antes de cair.
O terceiro, o maior, investiu.
Ela ergueu o braço esquerdo — o braço cibernético — uma peça de guerra herdada do colapso dos sete xamãs. Dentes se cravaram no metal. Chamas de dor pulsaram em seus nervos. Mas o braço de aço girou com força brutal. Um estalo seco. O crânio do monstro foi esmagado como fruta podre.
Sangue branco e viscoso jorrou em seu rosto.
Ela tombou de lado, arfando. A neve ao redor tingia-se lentamente de vermelho. O céu parecia mais próximo agora, como um teto de ferro prestes a esmagar tudo. Mas ao longe, as primeiras tochas da vila Kjaarnheim tremeluziam entre os pinheiros.
Ela estava ferida. Mas viva.
Os espíritos antigos, enterrados sob a tundra, sussurravam seu nome. Arale, a sangue-da-névoa.
Caçadora da Aurora.
Portadora do Machado-espingarda. T’Zakrah.
A aldeia surgiu como uma miragem sólida no fim da tempestade.
Kjaarnheim — a Última Vigília dos Ventos, como sussurravam os cantores das planícies geladas. Erguida entre falésias cravejadas de gelo e pinheiros retorcidos, a tribo pulsava com um estranho fulgor âmbar, uma fusão ancestral entre tecnologia esquecida e rituais milenares. Tochas plasmáticas queimavam em torres totêmicas feitas de chifres de urso-do-gelo e antenas de relíquias antigas. As ocas não eram meras cabanas, mas cúpulas vivas, entrelaçadas por cipós bioluminescentes que reagiam ao humor dos habitantes — luzes mudando de cor conforme passavam, como se a vila em si tivesse olhos.
Arale cambaleou ao entrar, o manto rasgado, o sangue ainda quente colando suas costas à armadura térmica. Os habitantes interromperam seus afazeres. Nenhum som foi feito. Eles apenas a observaram, os olhos escondidos por máscaras tribais feitas de aço enferrujado, couro de wyren tundral e lentes óticas de precisão adaptadas como visores. Vestiam-se com camadas sobrepostas de peles e placas cerimoniais, cada traje diferente — indicando caçadores, artífices, cuidadores de bestas ou mestres dos circuitos.
Dos confins da praça principal, avançou Thrym Urr-Naal, o Xamã das Três Códices. Alto, encurvado como as árvores tortas da encosta, o velho trajava um manto feito de asas de corvos mecânicos e fios dourados extraídos de núcleos de IA ancestral. Em seu cajado, um motor de dronossauro pulsava como um coração aprisionado. O rosto era parcialmente coberto por um visor rachado que projetava símbolos vivos em sua testa — runas fluídas de uma linguagem que ninguém mais sabia decifrar.
— Tu sangras, viajante dos ecos. — sua voz era rouca como couro velho sendo costurado. — E o sangue é bom. Ele chama. Ele lembra. Ele desperta.
Arale tentou falar, mas sua garganta era uma fornalha gelada. Apenas assentiu, caindo de joelhos diante da chama da praça — um reator nuclear primitivo disfarçado de fogueira cerimonial. Crianças de olhos vivos e cachos revoltos aproximaram-se com cautela, oferecendo a ela peles secas, água infundida com folhas de synarhk e pequenos ossos talhados em forma de lebres e engrenagens — votos de cura.
De uma estrutura mais afastada, cujas paredes eram feitas de painéis solares resgatados e adornadas com presas de cervomáquinas, saiu Darrun Eksveil, o Profeta de Silício e Vapor. Um homem de cabelos acobreados, longos e embebidos em óleos purificados, olhos cobertos por uma viseira neural que reagia ao ambiente com microexpressões matemáticas. Seus dedos eram implantes refinados, capazes de desmontar e reconstruir um behemoth com os olhos vendados. O povo dizia que ele lia o futuro nas quedas de tensão elétrica do vento e ouvia a voz da Terra através dos tremores do código enterrado sob os glaciares.
— Ela é a do presságio. A que carrega o aço que sangra. A conjunção está próxima, Thrym. — disse Darrun, sua voz embalada por microvibrações vocálicas, como se falasse em múltiplas frequências ao mesmo tempo.
— O T’Zakrah respondeu. A Primeira Batalha foi travada. Três sangraram, um rugiu. — completou o xamã, traçando no ar um símbolo com a ponta incandescente do cajado.
A aldeia então cantou.
Uma melodia grave, ressoante, acompanhada por tambores que eram feitos de chassis de velhas torretas de guerra e cordas extraídas de nervos sintéticos de ursos mecânicos. Mulheres com tatuagens luminescentes dançavam com movimentos precisos e circulares, evocando algoritmos de caça. Velhos narradores recitavam em transe a história do Tempo Antes do Código, enquanto um garoto conduzia um rebanho de fenrirs biomecânicos — grandes cães-lobos cujos ossos eram reforçados com titânio e que latiam em pulsos binários.
Ali, homens e máquinas não coexistiam. Eram um só corpo. Uma só mitologia.
Arale, ferida, mas não vencida, olhou para os céus que agora começavam a se abrir, revelando auroras retorcidas dançando como serpentes elétricas. Um silêncio ancestral pousou sobre ela, como uma coroa invisível.
Sabia, em seu sangue ferido, que aquela vila era mais do que refúgio.
O prelúdio da próxima guerra.
Os tambores estavam apenas começando a bater.
Acordou envolta em peles fumegantes de calor antigo, o corpo nu entre camadas macias que ainda cheiravam a musgo, cinza e especiarias minerais. A respiração era lenta, pesada, marcada pelo perfume estranho que preenchia o abrigo — uma mistura de óleo de engrenagens queimadas e raízes aquecidas. A pele de Arale estava limpa, o sangue lavado, os ferimentos cobertos por unguentos negros e cintilantes. Sentia-se leve. Vulnerável. Quase… humana.
O abrigo era um domo de energia filtrada, com paredes respirantes que pulsavam ao ritmo da luz lá fora. Sentado próximo, com os olhos mergulhados em uma planilha etérea de código flutuante, estava Darrun Eksveil, o profeta, o maquinista, o decifrador do invisível.
Seus olhos artificiais projetavam runas sobre as pálpebras — mas naquele momento, eles a fitavam diretamente, como se tentassem decifrar algo mais profundo que algoritmos. Havia nela uma ferocidade suave, felina. E algo nele, sob a camada de lógica e silício, ansiava pelo toque daquela desconhecida que despertava com olhos dourados e peito marcado por cicatrizes antigas.
Darrun desviou o olhar. Rápido demais.
Mas Arale viu.
Sentiu.
O cheiro.
Não como uma humana.
Mas como uma predadora.
Havia feromônio no ar. Aquela excitação primal disfarçada de reverência. O embaraço rastejando sob o silêncio técnico do cientista. Ela sentiu o calor subir à nuca, não de vergonha, mas de alerta.
Vestiu-se com as vestes que lhe haviam deixado: um manto cerimonial de fibras sintéticas trançadas com escamas de dracomarcas, uma calça ajustada feita de couro técnico tribal e um colar de dentes antigos, ainda vibrando com energia residual. Saiu sem dizer uma palavra, guiada pelo instinto que pulsava como bússola ancestral.
Thrym Urr-Naal aguardava.
Diante de uma estrutura ciclópica, meio santuário, meio torre de observação, onde relíquias de tempos esquecidos giravam em órbitas suaves, suspensas por magnetismo primitivo, o xamã erguia o olhar para as constelações ocultas sob o dia. Quando Arale se aproximou, ele sorriu. Um sorriso antigo, orgulhoso e... maravilhado.
— Tu és o eco perdido. O fragmento que não esquecemos. — disse ele. Aproximou-se, tocando o colar em seu pescoço. — Teus ossos vibram com as canções de Gaya.
Ela franziu o cenho.
— Não compreendo.
— Todos aqui nascemos com cauda. Alguns com orelhas. Pelos. Mas isso se perdeu com o tempo, cruzamentos, colapsos. Apenas os mais antigos lembram. Tu és pura. És nossa origem. És… nossa irmã.
A mente de Arale oscilou como um pêndulo. Imagens cruzavam sua consciência: caçadas em florestas que não lembrava ter pisado, vozes em línguas que nunca aprendera, e o brilho de olhos dourados — iguais aos dela — ecoando no passado.
— Viestes de outro tempo, talvez outro plano. Mas o sangue é o mesmo. — disse o xamã. — Este mundo, este que chamamos Gaya, não era sempre assim. Os anciãos dizem que ele colidiu com um outro céu, um plano superior chamado Fractis. E da fúria dessa colisão nasceram os Deuses.
— Jafari. — murmurou Arale, como se o nome lhe fosse sussurrado de dentro.
Thrym assentiu. Seus olhos lacrimejaram.
— O Leão da Luz. Nosso ancestral. E seu primogênito: No’ahki, o Guerreiro da Raiz. Eles enfrentaram o Caos de Fractis. Venceram. Trouxeram ordem. E teu machado, T’Zakrah, foi a lâmina que No’ahki empunhou. És sua herdeira. És a que retorna.
Ela cambaleou. O mundo girou.
— Teu verdadeiro nome, criança do eco, é... — ele sussurrou com solenidade.
— Baskhiat Sual’Ra — filha do trovão e das estrelas errantes.
Naquela noite, em um círculo de fogo azulado, realizaram a Cerimônia da Prisma Tríade. Arale — não, Baskhiat Sual’Ra — bebeu do vinho das almas, uma infusão de seiva de árvores vivas, sangue de lobo-máquina e lágrimas de obsidiana líquida. O calor subiu por sua garganta, queimando seus sentidos.
Ela testemunhou com lágrima nos olhos.
Isis, a Senhora do Véu: Uma feição tão amorosa e amigável**,** olhos que escondiam galáxias, e mãos de cura e destruição.
Nix, a Deusa do Abismo Noturno: com cabelos de serpentes de luz e nua como a noite, pele de estrelas em colapso, a voz um lamento de todas as mães que perderam filhos para o vazio.
Anubis, o Guardião dos Fios da Morte: cabeça de chacal sideral, corpo coberto de engrenagens rúnicas, segurando uma balança onde as almas eram medidas em bytes de destino.
— Há algo que cresce sob tua terra, Ysmir. — disse Isis.
— Um mal antigo, sem nome, sem rosto. — sussurrou Nix.
— Mas tua alma será guiada. Pela guardiã perdida... — completou Anubis.
Na névoa daquele diálogo ela apareceu.
Citlalmiquiztli.
A Deusa-estrela.
Com olhos de quartzo negro e um corpo feito de constelações mortas. Ela caminhava entre as dimensões como bruma. Sua voz, suave e imortal:
— O caminho te aguarda além dos Picos do Gelo da Morte.
No subterrâneo de tua linhagem repousa a pirâmide cybercosmo.
Lá encontrarás aquele que despertou:
Quetzalcóatl. O Senhor das estrelas.
Ela viu — ou sonhou — o vale oculto no coração do México, uma cidade abandonada entre raízes metálicas, e um templo com portas abertas para as almas perdidas. Sentiu o frio da encosta, o cheiro da floresta desconhecida, e o sussurro do dever.
Observar os astros. Proteger o equilíbrio.
Decifrar o destino. Despertou com um sobressalto.
As chamas ainda ardiam. Na parede da caverna, desenhado com o sangue do vinho sagrado, o símbolo dos três deuses pulsava.
— Tenho tantas perguntas... — Arale arfou.
— És da casa Fay´ax. Sua mãe Lyra está conosco, mas, para este povo, você é a representação da linhagem de Sual’Ra, a escolhida de Citlalmiquiztli para ceifar Quetzalcóatl.
— Se eles têm fé em minha origem, devo honrar meus ancestrais e meus descendentes, pois a única coisa que conheço à prova de balas é a nossa fé...
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Cântico da Fé Profanada
“Pois bem antes do verbo, houve o grito. | E bem antes do céu, houve a carne. | E bem antes do amor, houve o medo. | E o medo moldou os deuses.”…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
I – Do Altar que Apodrece
“Pois bem antes do verbo, houve o grito.
E bem antes do céu, houve a carne.
E bem antes do amor, houve o medo.
E o medo moldou os deuses.”
Nos templos soturnos feitos de pedra rachada,
Onde o musgo se cria e o tempo se desfaz,
Há ossadas de deuses, de eras passadas,
Que dormem famintos em uma mentirosa paz.
Erguemos seus nomes com nossas mãos calejadas,
E os fizemos juízes de tudo que ignoramos.
Mas no final de tudo, nas cinzas sagradas,
vemos que deuses... nós sempre fomos.
Tatuamos em nosso âmago a utopia celeste,
Mas oramos de joelhos a um vácuo mordaz.
A alma, em silêncio, de pranto se veste,
E suplica um perdão que não vem jamais.
II – Da Boca dos Deuses Mortos
“Falai, ó esquecidos!
Que vossos nomes se quebrem como vidro
E vossas vozes nos devorem por dentro.”
BAAL (Deus da fertilidade, clima e tempestades)
Eu sou a fome, não a salvação.
Dei ao homem seu primeiro altar,
Feito de carne, suor e traição,
E bebi de sua fé sem cessar.
TIAMAT (Deusa primordial dos mares e mãe dos deuses)
Fui mãe e mar, serpente e véu.
Mas meu ventre foi violado por reis.
Agora durmo no limo do céu,
Gerando imagens que tu nunca vês.
LILITH (Primeira das mulheres, aquela que não se submeteu)
Fizeram-me bruxa, meretriz e serpente,
Mas fui só mulher que negou o jugo.
Na carne de cada fêmea descrente,
Eu sussurro meu nome antigo e vulgo.
ODD-KING Eu não tenho forma, nem dogma, nem fé.
Sou o que resta quando tudo finda.
A fé que me segue... se perde em pé.
O homem que ora... já não se vinda.
III – Da Revelação do Espelho Quebrado
“O altar mais antigo é o corpo.
O templo mais profano é a consciência.
O deus mais cruel é a imagem no espelho.”
O que vês quando fechas os olhos?
Um deus de luz? Um céu distante?
Ou tua própria face em pedaços, gritando num mundo delirante?
Pois tua fé não está no alto,
Mas nas vísceras, no medo de ser.
E o que chamas de belo e divino
É somente teu reflexo a apodrecer.
Tu crias Javés quando sangras no escuro.
Tu clamas por Odin quando a espada falha.
Tu invocas Satã quando queres o impuro,
Mas o nome que gritas... é a tua mortalha.
IV – Do Credo dos Queimados
“Não cremos em salvação.
Não buscamos perdão.
Nossa fé é ferida.
Nosso deus... somos nós, podres, porém em pé.”
Cremos no vazio e na sua beleza.
Cremos no grito que rompe o silêncio.
Cremos que a fé é doença e clareza.
E o homem, um deus em sua existência.
Bebemos do cálice feito de ossos,
Comemos o pão da desesperança,
E cantamos hinos com versos atrozes,
Que rezam à morte, nossa única dança.
Não há céu.
Não há trono.
Só ruína.
Só barro.
E no barro... um sussurro:
Tu és teu próprio inferno.
Cláudio Borba
Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Velian: Sob o Chamado de Nix
Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele odor residual que permanece na pele mesmo depois de muitos banhos. O que fora dito, o que fora silenciado, tudo seguia reverberando dentro dele, como as ondas mansas do mar que vira na partida, batendo sem pressa na memória.
Agora, Fortaleza o recebia novamente, com suas ruas quentes mesmo à noite, onde o suor se misturava ao sal do ar, e os prédios se erguiam como colossos cansados, com as fachadas descascadas pela maresia e pelo tempo. A cidade vibrava em outra frequência, mais bruta, mais nua, mais próxima da pele.
Velian caminhava pelas calçadas irregulares da Aldeota, depois cruzou lentamente o Centro, onde vitrines fechadas refletiam sua figura alongada, espectral, entre restos de lixo e placas enferrujadas. Não tinha pressa.
Procurava sangue, sim — como sempre — mas não apenas para se alimentar ou tentar saciar-se, e sim como quem deseja, ainda que secretamente, sentir-se parte de alguma coisa: um olhar, uma troca de palavras, um encontro improvável no meio da noite suada de uma cidade que parecia tão alheia quanto qualquer outra.
A cada passo, sentia a carne mais densa e o espírito mais leve, como quem se desloca gradualmente entre dois mundos. O Rio ainda latejava nele, com o cheiro doce das manhãs à beira-mar e as conversas enigmáticas com Cassandra, aquela que sempre o fazia sentir-se ao mesmo tempo mais forte e mais vulnerável. Ela ficara — e ele voltava a vagar, como sempre.
Havia ironia nisso, claro: uma criatura tão antiga, tão cheia de histórias, e, ainda assim, eternamente condenada a buscar um sentido nas ruas de cidades modernas, iluminadas por néons decadentes e com o asfalto rachado expondo raízes velhas que insistiam em romper a ordem dos homens.
Mas, naquela noite, algo o atravessou.
Não foi uma voz, nem um clarão súbito. Foi uma espécie de tração invisível, como um músculo antigo que, mesmo atrofiado, ainda sabe se mover.
O Castelo Drácula o chamava.
Velian reconheceu o chamado não com surpresa, mas com aquela espécie de resignação cúmplice, como quem sabe que não poderia ser de outro modo. Sempre que retornava a Fortaleza, era assim: primeiro vagava, depois era puxado — nunca sabia ao certo quando ia acontecer, mas sempre acontecia. A cidade nunca o retinha por completo.
...vazios e, ao sair dali, sentiu que o ar se rarefezia, como se os elementos conhecidos do espaço urbano começassem a se dissolver.
Em poucos passos, já não estava mais na cidade.
O limiar era tênue, quase imperceptível: o concreto quebrado do calçamento cedia lugar ao solo úmido, coberto de folhas mortas, e o som abafado do trânsito se extinguia, substituído pelo sussurro grave das árvores e o canto noturno de pássaros invisíveis.
A floresta sagrada que envolvia o Castelo Drácula o recebia como sempre — sem alarde, sem cerimônia, mas com a gravidade de quem reconhece um de seus.
As ruínas esquecidas surgiam entre as folhagens como espectros de um passado ainda mais antigo que o seu: colunas tombadas, altares carcomidos, fragmentos de deuses anônimos soterrados pelo musgo e pelas raízes. Velian passava a mão sobre uma dessas pedras frias, como quem saúda um irmão adormecido.
E ali, sem necessidade de invocação, a presença se fazia sentir: Nix.
Desta vez, a senhora da noite não apareceu personificada, como figura, nem como entidade delimitada, mas como princípio. A Senhora da Noite. A vastidão que acolhe e engole tudo, a mãe e o túmulo, o véu e o abismo, Mas, Velian sabia que ela estava lá.
Velian ergueu os olhos. O céu, opaco, parecia mais uma pele translúcida do que uma cúpula infinita. Entre os galhos entrelaçados, as estrelas apenas sugeriam sua existência, veladas pelo manto de Nix.
“Salve, Senhora”, disse, quase como quem saúda uma velha amiga — com respeito, mas também com uma ponta de ironia que não conseguia extirpar nem mesmo diante do mistério absoluto.
Continuou caminhando entre as ruínas, sentindo a umidade das folhas sob os pés, o aroma profundo da madeira apodrecida e da terra revirada. Aquelas eram as relíquias que verdadeiramente o comoviam — não os objetos das cidades, não os monumentos de concreto, mas esses sinais silenciosos de uma eternidade que se consome lentamente, mas nunca desaparece por completo.
O Castelo Drácula ergueu-se, enfim, diante dele, imponente e mutilado, com suas torres fendidas e os vitrais quebrados deixando entrar feixes aleatórios de luar que se desfaziam como fumaça.
Velian parou um instante antes de cruzar o limiar. Respirou fundo, não por necessidade — a respiração, há muito, perdera o sentido biológico — mas, como quem deseja ainda sentir o ar, como quem quer lembrar que ainda é corpo, mesmo sendo, sobretudo, espírito.
Sentia-se vazio e cheio ao mesmo tempo.
Carregava a melancolia inevitável de quem já vira demais, perdera demais, desejara demais. Mas também uma esperança tênue — um traço de luz sob as cinzas do tempo, um resíduo de fé na possibilidade de que, ainda assim, pudesse encontrar um outro, ou um outro sentido, ou apenas o próximo capítulo de sua própria errância.
Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo de continuar.
Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.
E ali, naquele breve intervalo entre o fora e o dentro, o antes e o depois, percebeu mais uma vez a estranha maleabilidade do tempo.
Para os homens, o tempo é linha, é flecha, é cronologia. Para ele, o tempo era mais: um tecido espesso e ondulante, ora nó, ora fenda, ora espiral.
As noites de Fortaleza e do Rio de Janeiro sobrepunham-se agora como véus transparentes: o mar ao longe, o cheiro das frutas na calçada, o calor da pele de Cassandra, a textura úmida das ruínas, o hálito frio de Nix. Tudo coexistia, simultâneo e indistinto.
Não havia passado que se encerrasse, nem futuro que prometesse redenção. Apenas camadas, justapostas, ressoando umas nas outras, como ecos infinitos numa caverna sem fundo.
E, contudo, havia ali, naquele excesso, uma espécie de melancolia mansa: a constatação de que nenhum instante se perde, mas, também, de que nenhum pode ser plenamente revivido.
Velian sabia que continuaria a atravessar cidades, florestas, corpos e séculos, sempre tocando o tempo com a ponta dos dedos, mas, sem jamais poder retê-lo entre as mãos.
Essa percepção, contudo, não o paralisava. Ao contrário: alimentava aquela esperança sutil que, como uma lâmina fina, cortava a densidade da noite.
Ainda que tudo fosse transitório, ainda que tudo fosse simultâneo e indomável, ele continuava.
E esse continuar não era desespero, mas, uma escolha — ou talvez, mais honestamente, uma necessidade inscrita em sua própria natureza.
Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo — sempre o desejo — de seguir adiante.
Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.
E ali, sob o olhar invisível de Nix, senhora do mistério e do silêncio, Velian seguiu.
Como sempre.
Como nunca deixaria de ser.
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
8 - Quando a ciência se cala, Deus fala
Estás aí, ó grande Rei dos reis, | entre as paredes deste castelo sepulcral? | Tua infinita sabedoria, ó Cientista do Universo, | penetra as muralhas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
10 de outubro de 1870.
Estás aí, ó grande Rei dos reis,
entre as paredes deste castelo sepulcral?
Tua infinita sabedoria, ó Cientista do Universo,
penetra as muralhas mágicas onde hoje habito?
És santo e sagrado o bastante para isso?
Pois se és, ó Senhor da infinita misericórdia,
eu rogo, eu imploro, pelo teu poderoso perdão.
Tuas pobres ovelhas, fui eu quem atraiu.
Com voz doce, chamei-as ao altar do carrasco.
Prometi salário, dei-lhes sepulcro.
Vendi minha alma por promessas de um homem
que se dizia mestre — e era coveiro.
Desejava ser médica, divina entre os mortais...
e tornei-me discípula do profano.
O hematoma em meu pescoço,
limo do pacto pecaminoso sob minh’alma.
Uma vida ilibada eu manchei,
concordando com suas equações pecaminosas
em monstro eu me transfigurei.
Tu me julgas digna de tua vingança — ou perdão?
Ou serei pó amaldiçoado à margem de tua criação?
Privada de meu pai, em nosso casebre o demônio me encontrou,
um mestre-deus da ciência que, em troca da minha decência,
sob o facho do arco voltaico da medicina — me exibiu.
Todos admiravam nossa inteligência: o mestre e sua pupila devota.
Tu me alçaste aos livros, me pagaste e me acolheste.
Entre as paredes da universidade: tua pupila aplicada.
Entre os lençóis de teu quarto: o velho amante aceito em silêncio.
A morte de Eleanor foi tua segunda máscara que caiu,
e em silêncio te entreguei a minha amiga mais cara.
Além de barregã, agora eu também era assassina.
Depois dela, outras seguiram para o vale da sombra da morte...
Quem dera eu ter essa sorte, pois minha vida tu já tomara...
Zombavas da morte, ser o mestre-deus da ciência não te bastava!
Teu saber te enlouqueceu — e tu quiseste o trono d’Ele.
Liberta-me, ó Deus, da cela onde eu mesma me enclausurei.
Perdoa-me se ouso proferir Teu nome,
pois arrasto o pesado cajado da morte em minha confissão.
Prostro-me, temerosa, diante de Tua justa punição,
mas anseio, por meio dela, o meu sagrado perdão...
Por favor, por favor... se Teus divinos olhos este castelo alcançam,
venha salvar a Tua mais humilde serva da escuridão
Rogo do negro e profundo umbral, ergo o olhar além do véu.
Tudo aquilo que a ciência sequer alcançou...
isso tudo repousa sob o eterno toque de Deus.
Tu és alfa, e tu és ômega.
Em mim a mácula reside, no Teu abraço a remissão.
Eu ignoro o meio de como me perdoar,
mas em Teus olhos brilha a luz da salvação.
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…