A Primeira Noite de Plantão
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Agudo segundo que trouxe fogo em direção ao meu cigarro para queimar as pontas da incerteza, num duelo da mente e do ocaso. Seria tão agradável, com as razões postas em xeque mais uma vez, desfrutar do colar da segurança.
Logo eu, médico de respeito, renomado doutor. Deixar-me permitir tamanha ausência de decoro. Porém, como resistir ao trepidante chamado: “O senhor me ensina”?
As palavras mais pesadas de captar.
Fui professor em Harvard. Tive experiências com mentes brilhantes, mas não tão sinceras e plácidas. Meus ouvidos incharam como ondas sonoras espessas no espaço, correndo em busca da sintonia. Como delicadíssimo pedido saído de uma bandeira amante da pátria. Incorrigível e sensata. Não podia haver um “não”. Eu saberia quando seria tão indelicado, tanto quanto matar sem sentido.
Os pelinhos eram brilhantes e deslizavam sobre a camada flácida da boca aberta. E o toque que enchia os pensamentos de culpas continuava esvaindo-se em banais artifícios de conquista. Soltaram-se sorrisos em favor da proeza que nunca se sentiu, mas que toda mística em volta suscitava um bravo descobrimento. Pero, Vás! Encaminhava-se às novas terras.
Serelepe encontro com a nudez provocante e sem pudor. Mulheres conheceram a magia dos rituais e saíram sem cobrir suas vergonhas.
Aqueles sinais graciosos que apareciam em cima da testa iam em direção automática à grande escultora que permanecia calada, soltando lágrimas de desejo.
A inocência transparecia a verdade. Foi o axioma máximo de todos.
Conviver com isso era me transformar; transmutar; remexer-me e desfazer-me; refazer-me.
Imagem noturna; gemidos. Esse som me fazia enxergar a direção correta. As covas que precisavam de sementes e a terra inteira que implorava por salvação. O correto e inabalável caldeirão de rosas, apenas, que carregava todas as fragrâncias dos campos e todos os desejos do mundo.
“O senhor pode ser meu professor.”
Uma convenção tradicional figurava a disputa de sentidos. A mais dolorosa cor de culpa que pintava todos os órgãos do pecado. Eu estava em meia-idade.
“O doutor...”
“O senhor doutor”
“Um grande exemplo”
“Um primor de rigor”
Atingido por mil léguas de distância da realidade, existia eu. Sem ser médico nem senhor. Com vontades e desejos, com folga e segredo.
Havia uma imensidão de eus conflitantes. Nunca imaginei que serenava discórdias além de desejos fluidos e naturais. Mas eram convenções.
Contratos comigo mesmo que se estabeleciam desde o nascer. Que organizavam o distanciamento entre o bem e o mal, numa balança quantitativa de sintomas nunca diagnosticados e sem receita.
Um belo sono estancaria essa marginalidade. Mas não dormia, por não conseguir. Não respirava, por não poder falar. Nem conseguia enxergar por poder imaginar o que seria da vida. O que era a vida? Esse estalar de pouco tempo no complexo mutirão de famintos.
Lembrei-me de menino e menina. Sabia das aparências e vontades minhas, e como as domei em nome de algo que não se palpava nem se sentia. Apenas se camuflava sobre um cobertor de irrealidades: a reputação.
O que seria um belo adormecer transformou-se no desejo de nunca acordar. Havia feito aquilo; meu corpo sabia e agradecia uma parte, a outra se julgava. Mas como resistir?
“Venha, faça-me aprender.”
Deu-me vontade de bater, surrar até não sentir mais as minhas próprias mãos. Aquela mulher não podia se atrever assim. Deixá-la mole como se um caminhão tivesse atropelado ou como se as estrelas caíssem, todas, de uma só vez, sobre aquele ponto brilhante e flamejante. Mas não pude. Sempre fui assim: contendo-me com um olhar de linhas grossas e agudez ferina, gentil e melindrosa.
Arrebatamos uma aula sincera, com todos os requintes pedagógicos do sexo, delicadeza e calmaria.
“É com o senhor que devo aprender.”
Era verdade. Como a verdade podia ser tão cruel? Ou o fato de não a encarar por medo podia ser crueldade? Fiz o que pude para ajudar. Acho que isso quis dizer que respondi às expectativas dos outros e às minhas também.
Não era nenhum jogo entre Deus e o Diabo, mas encontrar um sentido para tudo aquilo. Bastava a saciedade para ser válido. Ambos os resultados foram idênticos. Nunca pude imaginar um desfecho tão complacente. Cúmplices. As duas nódoas se misturaram em alquimia rítmica, soando baladas oitentistas regadas a alucinógenos espirituais. Uma nova voz se apresentou naquele meio, trazendo uma força vital de clareza nos acordes mais destoantes. Era algo novo e bem-sucedido.
Agora o vício avançava e voltava à imagem de um bebê, descobrindo os passos e as palavras. Dois adultos fazendo doidices sem razão, unindo a esfera do oculto no labor cotidiano.
Quanto à liberdade, essa gigantesca explodia naquele instante e chocava tudo, fazendo um reboliço no conceito e transmutando a paz nas águas da dúvida.
Impulso e soluço, regidos a sangue de espada cravado sobre o peito amigo. Sem traição. Sem constipação. Apenas soando orquestralmente os sonhos da própria ilusão de não ser só uma foda, mas a carreira que se tinha a zelar...
Continuei nesse vício de me descobrir, mesmo já sendo feito; de me desconstruir, só para sentir o efeito.
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Agudo segundo que trouxe fogo em direção ao meu cigarro para queimar as pontas da incerteza, num duelo da mente e do ocaso. Seria tão agradável, com as razões…