Desintegração
Os ossos doem, | Gélidos. | O último abraço | Arrancou-me a pele. | A carne, | Outrora viva, | Longe do corpo | Apodrece…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Os ossos doem,
Gélidos.
O último abraço
Arrancou-me a pele.
A carne,
Outrora viva,
Longe do corpo
Apodrece.
Não foram as lágrimas
Que me martirizaram,
Tampouco a solidão,
Amiga inseparável.
O vazio que há em mim
Me devora,
Consome minha alma,
E a tristeza transborda.
A dor do corpo,
Do espírito,
O nada...
A melancolia tormenta,
Mas também me embala.
Ana Kelly
Ana Kelly, natural de São Paulo (SP), é poeta, escritora, contista e artesã, sócia-proprietária da loja de acessórios e artigos alternativos, Ivory Fairy. Tem poemas e contos publicados como co-autora em diferentes antologias. No ano de 2009 recebeu o prêmio de 1º lugar, em um concurso de poesias do tema “Natureza”, do Projeto Chance... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Queda de Asmodeus
Algum tempo antes de se tornar demônio, Asmodeus foi homem. Rei de Sodoma e de Gomorra, senhor absoluto das cidades gêmeas…
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Algum tempo antes de se tornar demônio, Asmodeus foi homem. Rei de Sodoma e de Gomorra, senhor absoluto das cidades gêmeas, cuja opulência rivalizava com os próprios palácios celestiais.
Nascido de ventre nobre, Asmodeus era belo, inteligente e dotado de uma voz que dobrava vontades como o ferro ao fogo. Sob sua liderança, as cidades floresceram, mas não pela justiça e, sim, pela transgressão. Ele compreendeu cedo que o coração humano ansiava mais pelo prazer do que pela virtude, mais pelo caos do que pela ordem.
Ergueu templos onde a carne era louvada, onde o vinho corria mais que a água e onde os juramentos se quebravam como ramos secos sob o peso da luxúria. Criou leis que celebravam o excesso e puniam a piedade. Fez-se adorado como um deus, e por sua ordem, todos os cultos a Yahweh foram banidos.
Asmodeus acreditava ter vencido os céus. Mas Yahweh o observava.
Foi então que três viajantes chegaram aos portões de Sodoma. Vestiam-se como andarilhos comuns, cobertos de poeira e luz. Mas seus olhos brilhavam com uma intensidade que denunciava o eterno por trás da carne. Eram eles: Miguel, o Guerreiro; Gabriel, o Mensageiro; e Rafael, o Curador.
Foram conduzidos ao palácio sob ordem do próprio rei — curioso com aqueles que ousavam atravessar as terras de Sodoma sem temor ou reverência.
No salão de colunas de mármore e tapeçarias carmesim, Asmodeus os recebeu questionador em seu trono elevado. Seu sorriso era cético. Seus olhos, provocadores:
— Dizei, estrangeiros — disse o rei —, que deus vos envia a este lugar que os céus esqueceram?
Miguel falou primeiro, com voz grave como o trovão:
— Não é o céu que esqueceu Sodoma. Foi Sodoma que cuspiu no céu.
Gabriel avançou, dizendo:
— Yahweh nos envia e trazemos uma advertência, ó rei de prazeres. O tempo do juízo se aproxima. Ainda tens escolha. Ainda podes deter o caos.
Rafael, com compaixão nos olhos, completou:
— Abandona teus ídolos. Rejeita tua vaidade. Liberta teu povo do culto à carne. Yahweh é justo e também misericordioso.
Asmodeus levantou-se. Por um instante, o salão silenciou. Mesmo os nobres decadentes que o cercavam sentiram a tensão. Ele então proferiu:
— Misericórdia? E que misericórdia há em um deus que castiga por amor livre, por desejos naturais, por homens que recusam a culpa?
Miguel estreitou os olhos:
— Não é o desejo que condena. É a perversão do sagrado. Tu criaste uma nação sem alma.
Asmodeus, já inflamado, disse:
— Alma? A alma é uma corrente forjada pelos fracos! Eu dei liberdade a este povo. Transformei o sofrimento em prazer. Queimem os céus, se quiserem, Sodoma não se curvará!
Então Gabriel pronunciou a sentença:
— Assim será. Que teu nome se consuma com tuas cidades, a menos que te arrependas — agora. Esta é a última palavra.
Mas Asmodeus os expulsou do palácio. Ordenou que fossem perseguidos pelas ruas, humilhados, feridos — mas os anjos desapareceram diante dos olhos dos soldados, como se nunca tivessem pisado ali.
Naquela noite, o céu abriu-se com rugidos antigos. Fogo e enxofre começaram a cair como estrelas em fúria. Os templos desabaram. Os gritos de prazer viraram gritos de pavor.
Asmodeus, em sua torre, viu tudo ruir. Correu até o topo, gritou aos céus, não por arrependimento, mas por orgulho ferido:
— Maldito sejas, Yahweh! Se me negas tua criação, então que o abismo me aceite!
E o abismo respondeu. Asmodeus olhou para a escuridão, e dela surgiu Lúcifer.
O Portador da Luz estendeu a mão, e com ela fizera um pacto; poder eterno em troca da alma. Um novo trono — não entre os homens, mas entre os condenados.
Asmodeus, à beira do fim, sorriu. Aceitou.
Seu corpo mortal foi consumido pelo fogo de Yahweh, mas sua essência foi arrancada antes da destruição total. Levado por Lúcifer às profundezas do inferno, renasceu como demônio. Seus olhos, antes humanos, tornaram-se brasas eternas. Sua voz, agora, seduzia até os anjos caídos. E seu nome ecoou entre os salões do Inferno como um novo Príncipe.
Asmodeus, o Rei das Cidades Perdidas. O Patrono da Luxúria. O que desafiou Deus. E sobreviveu.
Desde então, cada vez que a vaidade de um homem desafia o céu, quando um líder usa seu povo como espelho de sua própria decadência, Asmodeus sorri do fundo do abismo, recordando-se do trono que perdeu. E do inferno que ganhou.
Thais Gomes
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
23. Diário da Irmã da Ordem II
Fui convocada para uma missão, irmã Teodora me entregou um pergaminho com um nome, não me deu nenhuma explicação, nenhuma justificativa…
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Data: 8 de julho de 1374
Fui convocada para uma missão, irmã Teodora me entregou um pergaminho com um nome, não me deu nenhuma explicação, nenhuma justificativa, apenas o nome, o destino e uma ordem: “Elimine-o sem deixar rastros”. Dessa vez não era um ambiente controlado, eu iria sozinha para o mundo real, não fiz nenhuma pergunta, apenas fui completar minha missão. Cheguei à cidade e faz meses que não caminho entre os vivos, e depois de tanto tempo longe, eles parecem tão frágeis e distraídos. Meu alvo era um mercador rico e influente, mas aparentemente insignificante, então não posso perder tempo analisando os vivos, quando a ordem quer a sua morte, mas acho que ele deve ser algo mais do que parece, mas não cabe a mim perguntar. Passei o dia observando, ele almoça sempre na mesma taberna, sempre escolhe as mesmas bebidas, tem um guarda-costas que parece depender demais da força bruta, mas acredito que seja descuidado, já percebi ele se distraindo com as belas moças que servem as bebidas. Se eu quisesse poderia acabar com ele ali mesmo, mas não posso deixar rastros, preciso ser cuidadosa e fazer parecer um acidente.
Data: 13 de julho de 1374
Troquei as garrafas na taverna, o mercador vai beber o vinho envenenado essa noite, não irá fazer efeito na hora, apenas dará a ele uma leve indisposição, o suficiente para fazer com que volte para casa mais cedo. O veneno real vai estar no chá que seu criado prepara para ele antes de dormir, pela manhã quando o encontrarem ele já estará morto, o médico vai declarar falha no coração, nada de suspeito, nada que leve até mim ou a ordem.
Data: 14 de julho de 1374
Ele está morto e ninguém suspeita, volto para ordem hoje à noite.
Data: 3 de setembro de 1374
Os jardins da abadia são muito bonitos à noite, há diversas flores que possui, mas há algo nos crisântemos, na forma como desabrocham, no aroma, no formato deles que me é muito agradável. Algumas das flores daqui duram apenas uma estação, depois se tornam irrelevantes. As pessoas também são assim, algumas são tão fascinantes por um tempo e depois se tornam tão sem importância. Logo precisarei de uma nova missão, algo novo para tornar o mundo mais vivido.
Data: 6 de setembro de 1374
A lua hoje estava cheia e muito brilhante, iluminando o jardim da abadia com seu brilho, eu senti algo a admirá-la, um vestígio de emoção que se manteve em mim por longo tempo, isso é raro. Talvez aqui na ordem sempre haja algo que possa me surpreender, “rezo” para que sim.
Data: 3 de outubro de 1374
Irmã Teodora me deu mais uma missão, dessa vez num vilarejo, uma cria vampírica estava causando terror nesse pequeno vilarejo depois que fugiu de seu covil, após seu mestre ser morto por mercenário descuidado. O vilarejo fedia a sangue, caminhei por entre as casas de madeira, procurando minha presa, eu podia ouvir o choro abafado por detrás das portas trancadas, os habitantes sabiam que havia um monstro entre eles, eles só não sabiam onde estava ou onde espreitava. Não precisei procurar muito, pois ele fez o que todos que confiam demais na imortalidade fazem, foi descuidado. então segui seus rastros, uma mulher com a garganta dilacerada caída na entrada de um celeiro e um homem morto ainda segurando um amuleto sagrado de ferro, como se isso pudesse protegê-lo de algo, e mais à frente encontrei o monstro.
Uma cria vampírica novata, nem mesmo era um bom predador ainda, somente uma coisa faminta e sem controle. Podia me ver nele e quase sentir uma pontada de empatia, era isso mesmo, empatia. Ele estava ajoelhado sobre um corpo, bebendo desesperado. Eu me aproximei em silêncio e era tarde demais quando ele me ouviu. Quando ergueu a cabeça eu vi o terror em seus olhos, as irmãs da ordem causavam isso, alívio para os humanos, terror para os monstros. Ele tentou fugir, mas não lhe dei tempo, com meu punhal rasguei sua garganta, cortando um grito antes que ele saísse, o sangue escorreu, ele se debateu, tentou segurar o corte e se afastar, em vão. O joguei no chão e me ajoelhei sobre ele, meu peso sobre o corpo dele enquanto se contorcia, o punhal dessa vez no seu coração, encontrando caminho em meio a algumas costelas, como eu aprendi com irmã Teodora, senti o osso ceder sob a lâmina e pude ouvir o estalo da sua costela partindo, seus olhos arregalaram, e por um instante pude apreciar o puro pavor nos olhos dele. E então acabou, apenas cinzas.
Fiquei no vilarejo para ajudar seus habitantes a enterrarem seus mortos e oferecer os ritos fúnebres para dar paz às suas almas. Eu os ajudei, mas via nos olhos de cada um o medo do monstro que eu era, talvez eu tenha me excedido demais ou mostrado prazer demais ao matá-lo, não sei dizer. A voz em minha mente sussurrou algo naquela noite, não era fome, vontade ou desejo, mas um “obrigada”, ela estava satisfeita. Então por hoje minha vontade está silenciada.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
H. P. Lovecraft – O Arquiteto do Indizível
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo mais antigo e mais forte de medo é o medo do desconhecido.”
— H. P. Lovecraft, “O Horror Sobrenatural na Literatura”
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico.
Criado por sua mãe e avô após a internação e morte de seu pai, Lovecraft encontrou nos livros, nas ruínas vitorianas da Nova Inglaterra e nas vozes do passado (Poe, Dunsany, Chambers) os pilares de sua torre gótica. Desde muito jovem, encantou-se pela ciência, pela astronomia e pelo arcabouço invisível da realidade — ainda que sempre pairasse sobre ele a sombra da instabilidade mental.
Os Tentáculos do Horror Cósmico
Lovecraft não escrevia apenas histórias — ele invocava atmosferas. Não há em sua literatura o vilão clássico, nem o terror fácil do sangue: o que aterroriza é o limite da sanidade, a vastidão impiedosa do cosmos, a presença de seres tão antigos que a própria linguagem é inútil para descrevê-los. Ele chamava isso de “horror cósmico”.
Seus contos mais célebres — como O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, A Cor que Caiu do Espaço, O Caso de Charles Dexter Ward e O Sussurro nas Trevas — compõem o que hoje conhecemos como Mitologia de Cthulhu, um panteão de entidades insondáveis: Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath... nomes que não pedem compreensão, mas silêncio reverente.
Estes deuses não são malignos — são indiferentes. E essa indiferença é o terror maior: o homem não é o centro do universo, mas um ponto irrisório num caos sem propósito.
O Estilo: Arcaísmo e Atmosfera
Lovecraft escrevia como um antiquário da linguagem, com frases longas, palavras rebuscadas, e uma preferência por termos como eldritch, gibbous, cyclopean e tenebrous. Muitos o acusaram de excessivo, mas há beleza no excesso — especialmente quando o objetivo é evocar o indizível.
Ele evitava diálogos extensos, preferia narrações em primeira pessoa, e muitas vezes o horror se dava fora de cena — algo pressentido, mas jamais completamente visto. É um terror mais filosófico que visceral. Sua escrita evoca a vertigem daquilo que jamais seremos capazes de compreender.
Racismo e Sombras Biográficas
Não se pode falar de Lovecraft sem encarar o espelho sombrio de sua alma: ele era profundamente racista. Seus textos e cartas trazem visões xenófobas, elitistas e excludentes, fruto de seu tempo, sim, mas também de suas convicções pessoais. Ele temia o “outro” tanto quanto temia o universo. É doloroso, mas necessário, reconhecer isso — para que possamos ler sua obra com lucidez e senso crítico, sem encobrirmos suas falhas humanas. Aqueles que não lêem Lovecraft por esta razão, não sabem o quão importante é entrarmos em contato com as verdades obscuras do passado, para não as repetirmos os mesmos erros no futuro. Além disso, o quanto devemos separar a obra de seu autor? Esta é uma pergunta viva que devemos colocar sempre em questão; para mim, no caso específico do Lovecraft, quando suas características racistas aparecem nos textos, é profundamente desconfortável; talvez aí esteja o principal horror de suas obras.
Legado Imortal
Lovecraft morreu pobre, com poucos leitores. Mas o tempo, esse devorador de almas, fez justiça póstuma: hoje, ele é reconhecido como o pai do horror moderno. Influenciou Stephen King, Neil Gaiman, Clive Barker, Alan Moore, e ressoa em filmes (O Enigma de Outro Mundo, Alien), jogos, HQs, RPGs e até canções.
A cidade imaginária de Arkham, o livro proibido Necronomicon, os cultos sussurrantes, as criaturas informes — tudo isso se tornou parte do imaginário ocidental, como um evangelho profano.
Epílogo: Diante da Escuridão Insondável
A obra de Lovecraft nos devolve o olhar de uma criatura insignificante diante da eternidade, lembrando-nos de que o universo não foi feito para nós, e talvez jamais nos note.
Penso que, mesmo sabendo que somos poeira, ainda escrevemos, ainda sonhamos, ainda trememos sob as estrelas. Isso é inestimável e, talvez, nos conecte com toda a poderosa forma cósmica que não somos capazes de compreender.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Le Combat des Âmes Fidèles - O Combate das Almas Fiéis
Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Anton S. Miahi – Capítulo XXVII
(Escrito em meu Diário)
"Dei um passo à frente. A batalha me chamava.
E meu sangue... já começava a fervilhar."
Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira, começou a vibrar de modo antinatural, contorcendo-se com uma raiva que não pertencia à carne humana. Era uma aberração em nascimento. Algo inumano, um filho de trevas e necrose.
A cruz que Monm me entregara, ainda no quarto de vigília, jazia em meu pescoço, sob a camisa rasgada pelo tempo e pela guerra. Ela ardia em meu peito como se pressentisse o mal.
Monm, sem hesitar, cravou uma de suas longas adagas no coração da criatura e, em um movimento certeiro, separou-lhe a cabeça do corpo com a outra lâmina curva. O som foi o de um graveto partido sob os pés da justiça.
Observei em silêncio. A cena me arrebatava não por repulsa, mas por uma fascinação sombria.
— Já vi essas coisas antes, Anton. São ghouls. Não estamos só com humanos aqui dentro. — Sua voz era calma e firme, como a de quem aprendeu a reconhecer a noite pelo cheiro. — O vampiro que o matou busca cervos que não pensam.
— Certo. Temos vampiros... ghouls... e o que, em nome do inferno, são essas coisas, Monm? — indaguei em voz baixa, uma raiva latejante crescendo com a curiosidade.
— Aberrações, criaturas de um mundo que Deus está tentando esquecer. Mas nós ainda estamos aqui para lembrá-Lo.
A resposta me atravessou como um salmo distorcido. Cruzamos a porta com a cautela de pecadores num santuário profanado.
O salão se abriu diante de nós como a barriga aberta de uma besta adormecida. Era amplo, tomado por caixas empilhadas, mesas de madeira carcomida, cadeiras tombadas. Um portão no lado esquerdo permitia a entrada de água barrenta e de um sol amarelado, espectral, como se brilhasse de um mundo distante.
Do lado oposto, em meio a um semicírculo de corpos, erguia-se uma criatura dos pesadelos da infância. Caminhava sobre duas pernas, mas nada nela era humano. Devia medir mais de 2,40 metros. Os braços longos terminavam em garras que brilhavam como facas rituais.
A cabeça era ornada por brânquias pulsantes. Os olhos, negros, tinham íris cor de jade. Em suas costas, três apêndices semelhantes a guelras aladas, mas retorcidas, exalavam uma névoa verde-musgo que sussurrava orações num dialeto perdido, talvez náuatle, talvez infernal.
— Anton, a criatura está em vantagem. — sussurrou Monm. — Vamos avançar por trás daquelas caixas.
Assenti em silêncio. Rastejamos como sombras famintas.
Do esconderijo, observamos. Quatro ghouls, espectros de carne mordida e alma ausente, enfrentavam a fera. Tinham olhos turvos, unhas roxas e dentes gastos de tanto roer os mortos. Avançavam com fúria cega, mas sem coordenação divina. A criatura se movia com uma elegância brutal, uma dança de terror e sobrevivência.
Um ghoul foi partido ao meio com um golpe vertical. O outro teve o crânio esmagado pela garra esquerda. Os dois restantes tentaram contornar o monstro, mas a névoa os alcançou. Era um veneno de alma, drenava vontade e luz. Caíram de joelhos, como penitentes corrompidos.
— Aqueles são vampiros poloneses. — sussurrou Monm. — Provavelmente membros do clã Zmora. Eles dominam o miasma e a mente. Têm agilidade acima do comum, e suas lâminas cortam através da fé. Um deles, o de cabelo branco, é Kazimierz. O outro é Dawid, usa duas rapieiras.
Antes que eu pudesse responder, um dos ghouls foi arremessado em nossa direção, revelando nossa presença. O inferno nos acolheu de vez.
Erguemo-nos. As armas, encontradas por acaso num armário durante a noite em que Monm e Siehiffar me resgataram, já estavam em nossas mãos ao entrarmos no armazém. Monm empunhava suas duas adagas longas de prata, e eu segurava firmemente uma rapieira negra de origem desconhecida, também achada naquele momento. Quando o corpo do ghoul foi arremessado para junto de nós, perdemos as armas por alguns segundos no impacto. Mas logo as recuperamos, firmando posição como sentinelas diante da tormenta. Os vampiros nos encararam como caçadores observando uma presa que ousa se armar.
Kazimierz veio primeiro. Deslizou pelo chão com graça férrea. Saltou, girando no ar, e tentou um golpe diagonal com sua adaga de osso. Bloqueei por um triz. A força era assombrosa. Respondi com uma estocada ao flanco, mas ele evaporou em sombra e reapareceu atrás de mim.
— Anton! Cuidado com as ilusões dele! — gritou Monm, lutando com Dawid, que duelava como um dançarino sacrílego.
Monm esquivava-se com maestria. Uma rapieira o raspou no ombro, e ele respondeu com uma adaga cravada na coxa do inimigo. Dawid uivou, o som foi o de vidro estilhaçado por dentro.
Kazimierz tentou morder-me. A cruz sob minha camisa brilhou, e ele hesitou. Aproveitei. A rapieira cortou-lhe o rosto da sobrancelha ao maxilar. Ele recuou, cuspindo sangue negro e blasfêmias em latim corrompido.
— Você ainda reza, humano? — cuspiu.
— Não. Mas minha espada sim. E ela foi batizada.
Golpeei com toda minha força. Kazimierz desviou, mas não viu Monm vindo por trás. Uma das adagas cravou-se em sua nuca. Kazimierz caiu de joelhos. Com um grito, cruzei minha lâmina com a de Monm e decapitamos o maldito.
Dawid, ao ver o fim do irmão, recuou. Mas Monm, agarrando uma perna de cadeira quebrada que jazia próxima a ele, lançou ao chão um punhado de sal marítimo — remanescente de uma das caixas estilhaçadas nas lutas anteriores. O vampiro gritou. Suas pernas queimaram. Corri, saltei, e cravei minha rapieira — não herdada, mas encontrada por acaso como as armas de Monm — em seu peito. Monm finalizou com a estaca improvisada, direto no coração.
Ambos tombaram. O salão silenciou por um instante, até que uma voz gutural rasgou o ar com força ancestral:
— Váš svět se lembrará de mim! Eu sou Václav Vlk! — rugiu o vampiro, a voz mais parecendo um brado bestial do que uma frase compreensível. Não falava com ninguém em particular, mas gritava para a criatura.
Aquela cena proporcionada pelo vampiro nos deu a impressão de ser um clamor de coragem desesperada, uma tentativa de reacender em si a fúria da batalha, como se evocasse sua própria alma pelo nome. Era seu modo de desafiar o abismo com o que lhe restava de bravura.
A fera recuou, como se reconhecesse o nome. Václav, o vampiro que já estava presente desde nossa entrada no armazém, avançava com uma alabarda manchada de um líquido verde claro e tão vivo numa mão e uma pistola de pederneira prussiana na outra. Seus olhos cintilavam com um brilho febril, como de um passado que sangrava na memória da criatura.
O ser imenso começou a recuar, murmurando com insistência, como se as palavras brotassem de um passado ancestral esquecido:
— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl... Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl...
Monm franziu a testa, sua mente mergulhando em lembranças distantes.
— Anton... esse dialeto... me soa familiar. Mas não é latino. Nem é náuatle puro. O que é isso?
— "Tetl"... pedra. "Tlachinolli"... fogo. Eu li isso num códice maia esquecido, salvo pelo convento de Oaxaca. É náuatle ritual... algo sobre guerra sagrada... sobre o coração do mundo. "In cemanahuac yolotl"... "o coração do mundo inteiro"...
— E por que ele está dizendo isso?
— Porque, Monm... ele está se lembrando de quem foi. Ou do que destruiu...
O silêncio voltou a cair como um véu, denso e prenhe de presságios. E eu sabia... o verdadeiro combate ainda estava por começar.
Anton S. Miahi – Capítulo XXVIII
(Escrito em meu Diário)
Václav Vlk avançou contra o monstro com uma fúria que desafiava qualquer concepção de medo. Não havia espaço para hesitação, tampouco para pensamentos racionais. O combate apenas prosseguia, como um cântico infernal que se recusava a cessar. Por um instante, a criatura permaneceu estática, repetindo aquele mantra estranho — uma ladainha de tempos esquecidos. Monm e eu trocamos um olhar rápido, buscando decifrar o significado oculto.
Foi então que percebemos a presença de dois indivíduos ocultos, agachados próximo às caixas na esquina esquerda do portão inundado. Um deles, trajando roupas negras, tentou se mover com discrição, mas foi percebido. A criatura virou o rosto lentamente, e o vampiro também.
Num átimo, Václav dissolveu-se em névoa, reaparecendo diante do fugitivo. Antes que qualquer um de nós pudesse intervir, o vampiro exibia um sorriso sádico. Num gesto fluido, agarrou o pescoço do homem e cravou-lhe os dentes. Um grito agudo ecoou pelo salão, reverberando entre as paredes úmidas. O infeliz debatia-se, mas sua luta cessou gradualmente. O sangue cessou de fluir.
Sim. Ele estava morto.
Monm e eu partimos em direção ao vampiro. Por um instante, minha mente esqueceu a fera ao lado direito. Esse lapso foi imediatamente punido: uma mão colossal me atingiu com brutalidade, lançando-me contra uma pilha de sacos de arroz e caixas despedaçadas. Senti as costelas rangerem.
Václav riu, limpando os lábios com o dorso da mão.
— Que pena, Monm... pensei que viesse com palavras santas. Mas tudo o que vejo são punhais e arrogância.
Monm não respondeu com palavras, mas com um salto fulminante. Suas adagas cintilaram sob a luz turva do galpão. Václav bloqueou o primeiro golpe com a lâmina da alabarda, girando o corpo com leveza, como se dançasse. A arma passou rente ao rosto de Monm, que se abaixou, deslizando por baixo da guarda do inimigo e desferindo um chute na perna do vampiro. O estalo foi seco, mas Václav mal se moveu.
— Já fui caçado por inquisidores, Monm. Você não é o primeiro... e, convenhamos, também não será o último.
— E ainda assim continua vivo. Deve ser frustrante para o inferno te ver de volta toda noite — retrucou Monm, arremetendo com a adaga da esquerda, mirando o ombro. Václav aparou com o cabo da alabarda, recuou e, com a pistola de pederneira na mão livre, disparou.
Monm rolou para o lado, o disparo arrancando faíscas das pedras do chão. Ele se lançou por cima de uma mesa caída, chutando uma cadeira em direção ao vampiro, que a partiu em dois com a lâmina. Antes que pudesse recuperar o fôlego, Monm já estava sobre ele, desferindo uma série de estocadas com precisão cirúrgica.
— Tua dança está velha, Vlk. Seus passos já não assustam ninguém.
— Ainda assim, fazem sangrar! — gritou Václav, golpeando com a haste da alabarda, acertando Monm no flanco. O som de carne e osso sendo atingidos me fez estremecer.
Mas Monm apenas sorriu, com os dentes cerrados.
— Isso doeu. Mas agora... é minha vez.
Num movimento inesperado, Monm agarrou o pulso do vampiro, torceu-o e cravou a adaga na articulação. Václav urrou, deixando cair a pistola. Um golpe certeiro no queixo, e o vampiro cambaleou. Monm chutou seu peito, lançando-o contra uma coluna. A alabarda caiu. Václav se ergueu com dificuldade, o rosto emoldurado por sangue e ira.
— Isso... é por cada alma que você devorou — sussurrou Monm, avançando como um anjo vingador.
Enquanto o combate continuava, tentei me erguer entre a poeira e o arroz espalhado. A dor irradiava das costas e ombros como brasas sob a pele, mas havia uma centelha de gratidão em mim: benditos sejam os sacos de arroz.
Ao virar o rosto, vi um jovem de traços juvenis — talvez quinze anos, ou um pouco menos. Tremia, choramingava, e fazia preces em alemão — palavras que reconheci vagamente de minha infância em Sevilha, quando um velho tutor luterano me ensinava os ecos esquecidos de salmos germânicos, como relíquias de um passado que se recusava a perecer.
Aproximei-me devagar, sem ameaçar.
— Junge... Junge, bist du verletzt? (Garoto... você está ferido?)
Ele olhou para mim com olhos arregalados. Estava pálido como um cadáver recente, mas vivo.
— Ich... ich weiß nicht... sie haben uns geholt... sie... — Ele começou a soluçar, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas.
— Calma... estás seguro por ora. Qual é o seu nome?
— Friedrich. Friedrich Kröger... Ich bin aus Lübeck... (Sou de Lübeck...)
— Friedrich, ouça-me. Você precisa sair daqui. Há uma porta nos fundos. Quando ouvir um estouro — corra. Monm e eu vamos manter essa coisa ocupada.
Ele assentiu lentamente, os lábios movendo-se em oração muda. Seu corpo era só medo, mas os olhos — havia fé neles. Uma fé ainda não devorada.
E naquela hora, percebi que não lutávamos apenas contra carne e ossos distorcidos. Lutávamos para salvar os que ainda lembravam como orar.
Foi nesse momento que a fera urrou, um grito gutural que reverberou nos ossos: não era uma palavra comum, mas um nome — o dele mesmo, urrado com fúria primal.
— Nēhuatl Aloxōtl... Tlāltikpak tzitzimitl! — bradou a criatura, em um dialeto ancestral que escapava das dobras do tempo.
A criatura tornou a rugir, reafirmando seu nome como quem sela a própria maldição:
— Nēhuatl Aloxōtl... in nemiliztli cualli, in miquiztli tlachinolli!
Logo após, num bramido carregado de uma dor que parecia milenar, sua voz rompeu mais uma vez o ar saturado:
— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl!
— Isso foi... nahuatl? — perguntei, franzindo o cenho, tentando vasculhar a memória por aquela cadência extinta.
A criatura tornou a rugir, como se se recordasse de sua própria maldição: — Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl! — bramiu com raiva quase febril.
— "Pedra e fogo... o coração do mundo... não foi ofertado..." — murmurei, traduzindo de forma tosca e instintiva, com um nó na garganta.
Monm girou o rosto, os olhos arregalados.
— Aloxōtl... ouvi esse nome numa ruína perto de Tenochtitlán. Era um espírito de destruição. Um condenado. Um ser que não devia estar aqui.
— Pelo que li em manuscritos antigos — sussurrou Monm, quase em reverência —, não se trata de um deus, mas de algo que ousou aspirar à divindade. Uma entidade do submundo asteca, forjada nos confins insondáveis de Mictlán. Durante um ritual arcaico, o sacerdote incumbido do sacrifício final hesitou, e nesse instante de fraqueza, o processo foi interrompido. Em vez de ascender ao plano dos deuses, a entidade se amalgamou à carne de seu invocador — um sumo sacerdote já corrompido pela ambição e pelo sangue. Desde então, vagou pelas fronteiras da existência, presa entre mundos, entre o éter e a matéria. Forças ocultas, possivelmente ligadas a ritos de translocação do Velho Mundo, o arrancaram de seu tempo e o lançaram para cá, como uma relíquia maldita do México ancestral, retida entre o ontem e o eterno, entre a morte e a memória sagrada.
A criatura urrava para o vazio: uma besta tentando lembrar a si mesma de que ainda existia — ou, talvez, anunciando sua danação ao mundo. Václav hesitou por um breve instante, distraído pela súbita irrupção daquela brutalidade animalesca.
Monm, atento como um lobo à espreita, percebeu a brecha. Estava de frente comigo, tendo o vampiro entre nós. A criatura se encontrava à esquerda de Václav, a mais de dez metros, ainda imersa em sua fúria desgovernada. Aquela era a chance. Nossos olhos se cruzaram, e sem necessidade de palavras, compartilhamos um plano silencioso: era preciso agir com rapidez. Com um leve movimento de cabeça, Monm sinalizou que, a qualquer momento, eu deveria correr.
Václav então se voltou para a criatura, em tom zombeteiro:
— Quem és tu, besta? Um espírito faminto preso em carne e osso? Um cão molhado rosnando contra os vivos? Esperava mais de um espectro milenar!
A criatura respondeu com um grunhido gutural, o som de séculos de ódio condensado em um só instante. Monm, sem perder o ritmo, rebateu com sarcasmo:
— Cuidado, Vlk... alguns cães mordem mais forte que o inferno.
Enquanto a tensão crescia entre as feras, deslizei pelas sombras, cada passo sussurrando segredos ao chão. Mas o monstro percebeu. Seus olhos faiscaram com fúria repentina. Num rompante animalesco, lançou-se contra mim.
O impacto foi devastador. Rolei para o lado, escapando por pouco das garras que despedaçaram o solo. A criatura girou com velocidade absurda, mas eu já me esgueirava entre colunas e destroços. Era a dança do desespero.
Monm aproveitou o momento. Saltou sobre um caixote, alavancando o próprio corpo com as duas lâminas empunhadas. Ignorando a fera, lançou-se diretamente contra Václav Vlk, mirando-lhe a garganta com precisão mortal. Um golpe que teria sido fatal — se Vlk fosse um homem comum. Ao aterrissar, Monm ficou perto demais do monstro, que girou com brutalidade e o lançou contra uma pilastra com um baque seco. Mas ele se levantou, os olhos ainda fixos em Vlk. Era ali que residia o verdadeiro perigo.
Enquanto isso, avancei com ele, olhos cravados na figura do vampiro.
Friedrich, o jovem alemão, permanecia em silêncio, oculto nas sombras, até que recebeu um sinal sutil de minha parte: quando chegasse o momento certo, deveria correr.
Vlk, com seu sorriso cruel e presunçoso, continuava a provocar a fera, divertindo-se com o caos.
— Essa tua arrogância vai te enterrar mais fundo do que essa criatura, Václav — retrucou Monm, sem vacilar.
A fera, enlouquecida, desviou seu olhar em minha direção, captando o rastro dos meus movimentos furtivos. O instinto selvagem tomou o leme; o pouco de controle que ainda restava se desfez.
Num novo surto de fúria, a criatura investiu contra mim. Esquivei-me com precisão treinada — cada gesto ensaiado como um ritual de sobrevivência. E o combate explodiu como um trovão em plena catedral: brutal, frenético, cruel.
Lutávamos: carne contra garras, aço contra ossos. Minha lâmina rapieira feria, desviava, provocava — açoite de precisão em meio à selvageria. Os dentes da besta rasgavam o ar, tentando encontrar minha carne, mas seus ataques falhavam por um fio de segundo, desviados pelo instinto que a dor e o medo haviam aguçado em mim. Ao fundo, Monm, já de pé, avançava novamente contra Václav Vlk, forçando o vampiro a recuar entre imprecações sibilantes e risos ácidos como fel.
A batalha era uma tempestade viva: o cheiro metálico do sangue e da carne queimada flutuava no ar, entrelaçado ao som de passos frenéticos e urros que pareciam brotar das entranhas do próprio inferno.
Friedrich, os olhos arregalados como espelhos de pavor, aguardava — só aguardava — o instante certo para fugir, enquanto ao seu redor o destino se desenrolava em aço e sombras. Sinalizei com um gesto firme, apontando a porta estilhaçada pela colisão com o cadáver do ghoul. Sem hesitar, ele correu. Não olhou para os lados, não gritou, apenas correu, com a alma cravada no instinto de sobrevivência. Ele realmente queria viver.
Não que Monm e eu não desejássemos o mesmo — mas sabíamos demais. Estávamos presos àquele lugar por laços que transcendiam o medo: honra, missão... ou maldição.
Movi-me entre pilhas de caixas, escombros e colunas rachadas, buscando uma posição vantajosa. Quando encontrei um ponto seguro de onde pudesse agir, sinalizei ao meu aliado. Monm captou o gesto, e então — como um maestro no ápice de sua sinfonia — investiu contra o vampiro com uma série de ataques fulminantes. Seus golpes eram rápidos e certeiros, movendo-se com a precisão de um guerreiro treinado além do tempo. Vlk, por sua vez, desviava-se com a graça de um predador antigo, empunhando uma alabarda com uma fluidez quase coreográfica.
Foi nesse instante que percebi algo além. O vampiro começara a recitar palavras em um idioma antigo, estranho e profundamente blasfemo. As vibrações desse discurso pareciam rachar o próprio ar. E então, surgiu uma nova presença.
Sentado sobre um monte de caixas quebradas, havia um ser cadavérico. Usava o que parecia uma coroa retorcida, um cajado disforme nas mãos esqueléticas, e vestes que lembravam restos de veludo cerimonial misturado a mortalhas profanadas. Sua pele era fina como pergaminho seco, e seus olhos... vazios, gélidos, observavam a cena com a paciência de um juiz das eras.
Não havia tempo para contemplações. Voltei-me para o vampiro justo no momento em que Monm me fez novo sinal. Sem palavras, compreendi: o ataque final viria agora.
Monm investiu com fúria controlada. Suas duas adagas riscaram o ar em movimentos oblíquos e alternados, forçando Vlk a recuar até a grande mesa redonda que jazia no centro do salão em ruínas. A madeira rangeu sob seus pés. O vampiro tentou usar a alabarda, mas Monm a prendeu com um giro acrobático de uma das lâminas, enquanto a outra ameaçava sua garganta — travando-o por um instante precioso.
Aproveitei. Lancei-me com toda a força contra o flanco do inimigo. O impacto o desequilibrou — e foi o bastante. Monm saltou, girando no ar como uma sombra viva, e desferiu o golpe final: um corte horizontal que atravessou o pescoço de Vlk. O som foi abafado, como se o tempo se comprimisse ao redor do aço. A cabeça tombou com um baque surdo, rolando pela mesa antes de cair ao chão, estalando contra as pedras como um cálice profano.
O corpo do vampiro ainda estremeceu, como se tentasse agarrar os últimos instantes de uma eternidade roubada. Depois, tombou — e a escuridão ao seu redor pareceu estremecer com seu fim.
Ofegantes, Monm e eu trocamos um olhar — sabíamos que aquilo era apenas o prelúdio. Pois o ser que nos observava, imóvel, ainda não havia feito seu movimento. Mas a criatura — o monstro ancestral — também o percebeu.
Ergueu-se com violência, liberando ao redor uma nuvem de névoa pútrida e tóxica que nos obrigou a recuar alguns passos. O ar se tornava mais denso, os olhos ardiam, e o coração parecia pulsar em outro ritmo diante daquela emanação sobrenatural. Então, como se tomada por uma cólera divina, a criatura bradou seu próprio nome com voz que reverberava nas entranhas do templo:
— Aloxōtl!
E, com a mesma fúria, bradou o nome do reino que a pariu nas trevas:
— Mitclan!
Num ímpeto de fúria atávica, Aloxōtl lançou-se sobre o visitante cadavérico, suas garras envoltas pela neblina venenosa que exalava como um manto de morte. O ar vibrou com a colisão iminente. Mas o estranho se ergueu com uma calma profana, como se cada movimento seu estivesse sintonizado com os relógios do juízo. Quando a criatura alcançou seu alcance, ele ergueu o cajado, que brilhou com uma luz âmbar soturna, desviando o golpe com um arco de energia espectral. Antes que a criatura pudesse contra-atacar com as presas escancaradas, ele girou o cajado como um bastão de sentença, bloqueando a mandíbula infernal com precisão inumana. O som do impacto ecoou como um trovão abafado num túmulo selado — e a batalha transcendia agora os limites da carne, entrando no domínio das forças esquecidas.
A cena que víamos, tanto eu quanto Monm, beirava o patético — mais para nós do que para o recém-chegado. Pelo simples fato de que ele parecia não empregar esforço algum em conter o Aloxōtl.
— Ele... está brincando com ele? — sussurrei, mantendo os olhos fixos na criatura cadavérica.
Monm, limpando o suor da testa com as costas da mão, assentiu com um leve movimento de queixo.
— Parece mais uma dança que um duelo — murmurou. — Mas quem, em nome do Altíssimo, é esse sujeito?
Como se ouvisse a pergunta lançada ao éter, o ser virou-se lentamente para nós. Seus olhos, vazios como a eternidade, cravaram-se nos nossos.
— Chamo-me Tezcal — disse, a voz de barítono soando como um canto sepulcral. — Fui criado das cinzas e do lodo pantanoso do Mitclan, uma fusão sombria de elementos terrenos e divinos, infundida com o sangue de Xolotl. Sou o reflexo entre os mundos. Moldado como um intermediário entre os vivos e os mortos, minha existência tem como objetivo manter o equilíbrio no ciclo da vida e da morte.
— És um necromante? — perguntou Monm, dando um passo adiante.
— Não — respondeu Tezcal, com calma imperturbável. — Sou o eco dos que caminham sem corpo, a vigília dos que repousam em ossos. Não comando os mortos. Eu os ouço.
O silêncio que se seguiu era denso, quase sólido. Aloxōtl, apesar da fúria anterior, recuava em círculos lentos, como um animal que pressente uma força que transcende sua fúria.
— E por que agora? — perguntei. — Por que intervir presentemente?
Tezcal apoiou o cajado no chão. O som ressoou como se ecoasse nas catacumbas do mundo.
— Porque o véu entre os mundos foi rasgado. Vocês o rasgaram. E ele... — olhou para Aloxōtl, cuja névoa começava a perder intensidade — não deveria ter atravessado.
Monm cerrou os punhos.
— Vai destruí-la?
— Não — respondeu Tezcal. — Vou devolvê-lo ao sono que jamais deveria ter sido interrompido.
Tezcal começou a murmurar. Um canto em dialeto azteca, antigo como os ossos da terra, deslizou de seus lábios como uma oração invertida. Gradualmente, o sussurro tornou-se canto pleno, ressoando nas paredes com ecos que pareciam vir de debaixo da pele do mundo. O ar gelou — não com frio comum, mas com o gélido das tumbas abertas. As sombras, até então imóveis, começaram a deslizar pelo chão como serpentes, convergindo para o recitador.
Aloxōtl, num último ato de cólera, tentou investir contra Tezcal — suas garras enegrecidas pelo veneno, sua boca aberta num rugido ancestral. Mas o ambiente pesava como chumbo, e a própria matéria parecia se curvar ao rito.
— Anton... — sussurrou Monm. — Isso... isso é um ritual de banimento?
— Parece mais um julgamento — respondi, com a mão instintivamente sobre a cruz que repousava sob meu manto. E ela queimava. Queimava com um brilho índigo, como se o céu clamasse por ordem.
Tezcal então silenciou. No mesmo instante, a criatura foi tragada do chão por uma areia negra e espessa, que brotou sob seus pés como uma fauce aberta. O som era de carne sendo puxada por ganchos, de ossos esmagando vidro. O odor de carne podre, sangue envelhecido e enxofre empestou o ar. E antes que pudéssemos reagir...
— Não... isso não é apenas magia — tentei dizer, mas a frase morreu em minha boca.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Relíquia
Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O mundo parece cheio de bons homens, mesmo que existam monstros nele”. — Bram Stoker
Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a segurança da água corrente. Essa secular construção é um pequeno palacete assobradado, construído por monges ainda nos tempos medievais. Uma lenda sobre o local remonta a um período onde ainda havia uma fé fervorosa entre os homens. Segundo essa lenda, o Arcanjo Miguel – o Guerreiro de Deus – havia aparecido para dois pescadores na margem do rio e, apontando para uma ilha que ficava no meio das águas daquele caudaloso rio, lhes ordenara que construíssem uma fortaleza, que posteriormente serviria de abrigo a todos aqueles que buscassem a proteção da luz. São Miguel dissera ainda que aquele santuário, estando entre águas correntes, jamais poderia ser transposto por criaturas das trevas.
Esses dois pescadores buscaram auxílio entre os monges pedintes e, em menos de cinco anos, uma resistente fortaleza estava pronta. Contudo, a conselho dos Franciscanos, nenhuma ponte deveria ser construída, ligando as margens do rio àquela protegida ilha, onde agora havia o Santuário de São Miguel Arcanjo. Qualquer acesso a essa fortaleza só poderia ser feito através de barco ou a nado – para algum aventureiro que ousasse enfrentar as fortes correntezas do rio. Somente no final do século XIX, quando aquela fortaleza – abandonada há décadas – foi adquirida por um abastado comerciante inglês, é que uma robusta ponte foi construída, ligando a ilha às margens do rio. Esse rico burguês fez do antigo santuário uma aconchegante pousada e residência própria, para si e sua recém-formada família.
Esse comerciante falecera há alguns anos, deixando a pousada nas mãos de sua esposa e sua única filha. Há rumores que, além da suntuosa estalagem, deixara como herança uma faustosa fortuna para a esposa e a filha. A esposa, mesmo depois de mais de vinte anos de viuvez – e a cada dia com uma aparência mais juvenil – jamais tivera outro relacionamento, mesmo sendo cortejada por diversos homens de toda e qualquer tipo de classe socioeconômica. Com muita seriedade, mantinha sua castidade e o pleno respeito ao luto de uma forma literal, pois, além de sua moral inquestionavelmente ilibada, vestia negro dos pés à cabeça. Cecília era realmente um modelo exemplar de viúva. Talvez devido à sua idoneidade, ou quem sabe em respeito à memória do falecido marido, ninguém jamais a vira fora da estalagem desde que ficara viúva – alguns desocupados mais antigos asseguravam que nem mesmo antes –.
A pousada Eclipse era um lugar quente e confortável, desprovida de luz elétrica devido à sua posição geográfica; mantinha sua iluminação à moda antiga, à luz de velas e lampiões, o que dava ao ambiente um aspecto bastante lúgubre. Além dos odores comuns a todo e qualquer estabelecimento comercial do tipo, cheirava a fumaça de madeira de lei que queimava constantemente numa lareira, acesa a noite toda. Havia também no ar um agradável cheiro de flores silvestres. Era o tipo de estabelecimento que funcionava todas as noites sem exceção, servindo cama e comida, atendendo a qualquer um que pudesse pagar. Havia apenas uma peculiaridade estranha naquela estalagem: nenhum hóspede, independentemente de sua classe social, jamais era convidado a entrar. Quem quisesse adentrar em suas portas deveria fazê-lo livremente.
Aquela era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades. No céu, uma lua nova se despedia no horizonte, deixando atrás de si um céu sem nuvens, bastante estrelado. Com a ausência de seu mais nobre luminar, a noite se tornara escura e bastante traiçoeira para quem andasse às escuras sem conhecer o caminho a ser seguido, ou sem o auxílio de alguma luz artificial. A sorte de qualquer um que ousasse ir até a Pousada Eclipse era a luz dos vários lampiões ao longo da ponte, que iluminavam todo o caminho. Devido ao bom atendimento e à qualidade dos serviços oferecidos, a estalagem era sempre muito movimentada.
O homem no umbral da porta era alto, forte, mas com traços um tanto quanto melancólicos. Tinha olhos claros e distantes. Parecia um sujeito que havia tido uma vida inteira de infelicidade. Trajava vestes surradas, que em outros tempos teriam sido o ápice da moda; entretanto, pareciam estar carecendo urgentemente de uma lavagem há tempos. Essas vestes davam-lhe a aparência de ser um viajante de terras bem longínquas. Sem pedir licença, foi logo entrando e, quando se pronunciou pela primeira vez, percebeu-se que tinha uma voz cavernosa e sussurrante, com um acentuado sotaque das terras do Leste. Para quem conhecia, logo foi fácil perceber que seu principal idioma era o romani – antiga língua dos ciganos –. Contudo, sem muitas dificuldades, conseguia se fazer entender muito bem e foi logo dizendo:
– Boa noite, senhoras! – disse ele, dirigindo-se diretamente a Cecile e sua filha, como se já soubesse que ambas eram as proprietárias do local –. Gostaria de algo forte para beber. E se não for muito tarde e nem muito incômodo, um jantar seria muito bem-vindo.
Rapidamente, um conhaque fora-lhe servido. Após tomar de um único gole a dose oferecida, pediu que a garrafa – mesmo que já pela metade – fosse deixada sobre a mesa. Antes que a garçonete lhe pudesse dizer qualquer coisa, lançou sobre a mesa uma moeda de ouro, pagando adiantado um valor bem acima daquele que imaginava ser por uma garrafa lacrada. A jovem que lhe servira a bebida recolheu a moeda e disse-lhe:
– Seja bem-vindo à nossa humilde casa, cavalheiro! Meu nome é Lilian Leblanc. Aquela que atende no balcão é minha mãe. Seu nome é Cecile Leblanc. Estamos ao seu dispor para atendê-lo da melhor forma possível. Seu jantar será logo servido, nossa cozinha funciona durante toda a noite. O que mais duas humildes estalajadeiras podem lhe ser úteis? Senhor...?
– Rubens! Muito prazer. Eu estou bastante atrasado, terminando de jantar eu já vou embora. Como as coisas estão indo por aqui, madame?
– Alguns reclamam da crise aqui; outros, da seca acolá, e muitos comentam sobre uma tal de Depressão econômica. Mamãe e eu não nos importamos muito com o que acontece lá fora. Temos nossos fregueses cativos e nosso movimento é sempre o mesmo em todas as épocas do ano. Aqui, em nossa humilde casa, tudo ocorre na mais absoluta paz e quietude. Nossos fornecedores nos abastecem continuamente com tudo o que precisamos. Na verdade, há tempos que nem mesmo saímos daqui dessa ilha. Temos sempre muito trabalho por aqui.
– Depressão econômica! Mesmo que seja longa e castigante, não se deve, de forma alguma, ser comparada ao que foi a Peste Negra, a Átila, o Huno, ou a qualquer uma das Cruzadas. Independentemente dos flagelos, o ser humano tem um dom a resistir a qualquer coisa – disse ele, sorvendo mais uma dose do conhaque.
Madame Cecile, que servia outros fregueses no balcão, mas a todo o tempo prestava zelosa atenção naquele sinistro forasteiro, dirigiu-lhe a palavra pela primeira vez, o questionando:
– Que tipo de homem é o senhor? O que o traz à nossa humilde casa, senhor Rubens?
– Peço perdão se disse algo errado, senhora. Sou um humilde viajante em uma importante missão, a serviço de pessoas poderosas do lugar de onde venho. Não sou do tipo de homem perigoso. Sou apenas um viajante. Se o que eu disse ofendeu a senhora ou a essa casa de alguma forma, eu revogo imediatamente. Às vezes me excedo um pouco nas palavras, talvez porque ainda trago na lembrança os velhos costumes de quando eu ainda era professor de História em meu país. Por falar em História, gostaria de lhes contar uma bastante interessante, se permitirem. Quem sabe se, depois de ouvirem o que tenho para dizer, possam me ajudar de alguma forma.
Cecile, que era estalajadeira desde que conseguira alcançar a parte de cima do balcão, sempre acostumada às esquisitices de seus fregueses, deu de ombros, como se, para ela, alguém falando ou ficando em silêncio fosse totalmente irrelevante. Contudo, sabia que o que mais agradava a um viajante, além de uma cama macia, boa comida e bebida farta, era poder compartilhar suas estórias a quem quisesse ouvir. Naquela noite, havia uma dúzia de pessoas presentes, talvez até um pouco mais. Entretanto, a estória seria de maior interesse de mãe e filha.
O forasteiro enchera seu copo até a borda e o emborcou de um único trago. Após limpar a garganta, pediu licença aos presentes e principiou a seguinte narrativa.
– Antes de qualquer coisa ser dita, devo preveni-los que o que tenho a dizer possa parecer uma estória de viajante, ou até mesmo algum desvario de alguém desprovido de suas capacidades mentais. Mas quero que saibam que, da mesma forma que há a luz, também existem as trevas. E, se porventura acreditam em Deus e todas as hostes celestiais, também devem acreditar que haja o príncipe das trevas e seus seguidores – sendo também eles, anjos – que, junto com seu mestre, foram lançados no abismo e reinam naquele lugar onde a esperança não jaz...
... Alguns dizem que o primeiro deles foi Caim, por ter derramado o sangue de seu irmão na terra ainda virgem do pecado. A punição de Deus para esse primeiro homicida havia sido algo severo e exemplar. “... é maldito na terra e que esta não mais lhe dará frutos, sendo, portanto, fugitivo e errante...” Caim fora marcado e condenado a vagar pela terra, sendo eternamente perseguido pelos demais filhos de Adão. Pelo assassínio covarde de seu irmão, a Luz Divina abandonara sua fronte. Caim, uma vez órfão, havia sido adotado pelas trevas, sendo obrigado a viver nas sombras, tendo o sangue como seu único alimento. Uma vez que dera o sangue de seu irmão para que a terra bebesse, Caim e sua prole também assim o faria.
Outros, no entanto, defendem que o primeiro nosferatu foi Judas Iscariotes – o traidor. Aqueles que defendem essa teoria se baseiam nas próprias Escrituras Sagradas, que, ao mesmo tempo que está escrito que Judas, estando amargamente arrependido por ter vendido seu próprio Mestre, atentara contra sua própria vida, há rumores de que a morte – privilégio para todos aqueles que buscam conforto no sono eterno – lhe fora negada. De forma bastante obscura, as Escrituras relatam que o traidor passou a viver num lugar chamado “Aceldama”, ou seja, campo de sangue. Ninguém sabe ao certo o que fora feito do traidor, apenas que desapareceu nas sombras do esquecimento, sem deixar nenhum tipo de vestígio.
Durante séculos, as estórias sobre mortos-vivos caíram no esquecimento, até virarem lendas, e as lendas virarem mitos. Quase uma era se passara sem ninguém mais ouvir falar sobre os filhos das trevas que caminhavam na noite e se alimentavam de sangue, até surgir o príncipe da Valáquia, Vlad Tepes – o Empalador. Contudo, seus súditos o chamavam de Vlad Dracul – o “filho do dragão” – ou, simplesmente, Drácula. Esse príncipe, após perceber que sua imagem se envolvera em diversas estórias de horror e sangue e que certamente chamaria a atenção da Igreja, para evitar que uma Cruzada fosse convocada contra ele, forjara sua própria morte, e seus restos mortais teriam sido levados para a igreja de Santa Maria la Nova, em Nápoles, na Itália.
O que de fato ocorrera é que, com auxílio de alguns súditos mais fiéis que o ajudaram a forjar sua própria morte, se recolhera nas ruínas de um de seus castelos e, usufruindo de sua imortalidade, escondido nas sombras da escuridão, esperou que um longo tempo passasse, até que, por mais uma vez, sua existência caísse por completo no esquecimento.
Em fins do século XIX, essa sinistra criatura emerge mais uma vez na figura de um abastado e temido Conde, que, devido à importância de sua linhagem, não quisera abandonar nem o nome, muito menos o símbolo de seus antepassados. Esse Conde, após séculos e séculos sobrevivendo do sangue e do medo de camponeses inocentes, encontrou seu fim nas mãos de um sábio e destemido cientista holandês, que, além de médico, também era um grande estudioso das ciências ocultas e sabia como poderia colocar um fim ao reinado de terror do Conde...
O forasteiro interrompera sua narrativa, para molhar a garganta com mais uma dose de conhaque. Secou a garrafa e pediu outra, que muito rapidamente lhe fora servida. Empolgado pela atenção que recaíra sobre si e sua inverossímil narrativa, nem mesmo se dera conta de que o sabor da bebida havia mudado. Em seu momentâneo silêncio, percebeu que havia vários sussurros entre os demais presentes. Madame Cecile, sem ser indelicada e aproveitando que o viajante se calara por um momento, aproveitou a ocasião e disse:
– Certamente que o senhor fosse um ótimo professor. Mas, se não estiver enganada, pensei ter ouvido dizer que era um historiador e não um professor de Literatura...
– Ainda não terminei minha história, madame. O melhor ainda está por vir.
... O Conde Drácula, cansado de sua vida monótona em seu castelo – se alimentando de camponeses rudes e donzelas simplórias – decidira partir para a Inglaterra para expandir seu reino de terror em terras civilizadas. Seu corpo e alguns de seus bens pessoais foram transportados em um navio mercante chamado Deméter. Porém, quando esse navio chegou à costa da Inglaterra, todos os tripulantes haviam morrido durante a viagem. Os dois únicos corpos encontrados a bordo – o capitão amarrado ao leme e seu imediato crucificado de cabeça para baixo no mastro principal – estavam com suas veias vazias, sem uma única gota de sangue.
Junto ao capitão, escondido entre suas vestes íntimas, fora encontrado o Diário de bordo do navio, que, além de informações de praxe sobre a viagem e a carga transportada, também relatava a presença de um grande mal a bordo. Nesse diário estava registrada a presença de nove tripulantes a bordo em sua origem, quando o navio partiu do porto de Varna, na Romênia. Contudo, no decorrer da viagem, surgiu a presença de uma passageira clandestina, uma bela mulher que estava escondida entre a carga no porão do navio. Constava nesse mesmo diário que, desses nove primeiros tripulantes, seis deles haviam perecido de forma misteriosa durante a viagem. Um dos tripulantes e a passageira clandestina haviam desaparecido.
Pelos registros, era o médico de bordo, o doutor Clement, um médico desempregado – estudioso de astronomia, filosofia e também especialista em doenças obscuras, segundo ele mesmo – que havia ficado obcecado em caçar e matar o monstro a bordo, que, segundo ele, estava se alimentando do sangue dos tripulantes. Numa das páginas do diário, o capitão relatara que houvera uma terrível luta entre o doutor e um enorme morcego. O doutor tivera vários ferimentos graves, mas também conseguira, com uma cruz de madeira, tendo uma de suas pontas afiadas, ferir seriamente o monstro, que derramara bastante de seu sangue pelo convés do navio. Parte desse sangue fora recolhido pelo doutor, que, segundo ele, seria para análise posterior. Esse foi o último registro da presença do médico a bordo. Após o desaparecimento do médico, a passageira clandestina também não foi mais citada no diário.
O então médico, que ousara enfrentar o suposto monstro de frente, fora dado como desaparecido pela justiça inglesa. A história do Deméter fora logo esquecida – afinal, era apenas mais um navio, dentre tantos, que todos os anos a força da tempestade destruía e lançava seus destroços junto à praia. Doutor Clement, uma vez que juridicamente fora dado como desaparecido ou morto, lançado ao léu do esquecimento, de posse de parte do ouro que era transportado no Deméter e também de algo de um valor inestimável, decidira deixar de vez sua antiga vida de médico – quase todo o tempo desempregado – para trás.
Doutor Clement, sabendo que nenhuma autoridade em Londres, nem mesmo na Inglaterra – ou em qualquer outro lugar que fosse –, o levaria a sério sobre estórias de homens que se alimentam de sangue e poderiam se transformar em enormes morcegos, decidiu que o melhor a se fazer era seguir o exemplo de seu algoz e também ele mesmo, esconder-se nas sombras do esquecimento. Conseguiu novos documentos, trocou de nome e de origem, e após se mudar para o continente, iniciou uma nova vida comprando uma antiga e abandonada fortaleza, que, por séculos, funcionara como uma espécie de leprosário franciscano. Doutor Clement, durante o dia, era um simples estalajadeiro, recebendo em sua pousada viajantes de todos os cantos do mundo, sempre muito atento a todo tipo de estória contada sobre monstros e criaturas estranhas. Entretanto, durante a noite, era um incansável estudioso das ciências ocultas, enquanto sua bela e jovial esposa fazia as vezes de anfitriã do local...
Lilian, que estava próxima ao clandestino, muito interessada na estória que ele contava, após essa última parte da narrativa, se afastara sorrateiramente dele e se aproximara de sua mãe, que estava atrás do balcão com toda sua atenção voltada para o forasteiro, que, após se servir de mais uma satisfatória dose de seu conhaque, continuou:
– Segundo informações muito seguras, Maurice Leblanc – antigo doutor Clement – após ter dado um fim em sua antiga identidade, se mudara para o continente, casando-se em seguida com a estranha passageira que viajara clandestinamente na última viagem do Deméter. Essa mesma fonte me assegurara que o antigo doutor tivera uma filha, que, nos dias atuais, deveria estar com 40 anos ou talvez até um pouco mais. Pelo que ouvi, sua aparência é de alguém com vinte anos apenas. Contudo, o mais estranho de tudo isso seria o fato de sua mãe, a mesma clandestina do Deméter, nunca ter envelhecido um único dia desde o dia em que fora vista pela última vez, quando zarpara do porto de Varna.
Não tenho nenhum interesse com o que acontecera ao doutor Clement, muito menos em sua família, mas tão logo, naquilo que ele retirou do navio, quando, de uma forma bastante inteligente, tanto ele como sua futura esposa saltaram do barco na primeira oportunidade que tiveram após a hercúlea luta travada contra o monstro a bordo. Estou aqui para recuperar aquilo que as pessoas que me contrataram chamam de “Relíquia”. Ou seja, um frasco contendo parte do sangue do Conde Drácula. Essas pessoas a quem me refiro são bastante poderosas e, há tempos, investigam o paradeiro do doutor Clement. Após décadas de sigilosas investigações, suas informações, obtidas por fontes bastante seguras, me trouxeram até aqui.
Há rumores de que, com a morte do Conde, os outros de sua espécie perderam parte de seus poderes. Não conseguem mais transformar outros seres humanos, já não possuem o poder do rejuvenescimento e muito menos o de autorregeneração. São decrépitas criaturas se escondendo nas sombras, sobrevivendo como ratos nos esgotos. Contudo, acreditam que, com o sangue do Conde, qualquer um que o possua poderá tornar-se um mestre vampiro com todos os poderes de outrora. Ou quem sabe, até mesmo, trazer o próprio Conde de volta das profundezas do inferno.
Não tenho certeza se isso seja possível. Mas, por todas as coisas que já vi e ouvi nesse mundo, já não sei se a palavra "impossível" tem mais algum significado. Apenas tenho a plena certeza de que, se Drácula conseguir retornar ao nosso mundo, virá mais forte do que nunca e arrastará todo o ódio dos anjos caídos consigo. Alguns imaginam que, quando Drácula foi morto, assim que chegou àquele lugar onde a esperança não existe, fora recepcionado com honras de Estado, e o lugar à direita do Príncipe das Trevas lhe fora oferecido...
O forasteiro se calara e ficara observando qual seria a reação dos que estavam ali presentes. Seu maior interesse era como mãe e filha agiriam ao ouvir sua história. O que viu e ouviu o deixou bastante irritado, pois toda a estalagem caíra numa grande algazarra. Gargalhadas e gracejos por todos os lados. Uma das mulheres dentre a clientela se molhou de tanto rir. Madame Cecile, após conseguir com muita dificuldade conter o riso, disse ao forasteiro:
– Prezado senhor Rubens, ou seja lá qual for seu verdadeiro nome. Sua história foi realmente fantástica. Nesses dias em que qualquer escrito vira uma obra literária, o senhor bem que poderia virar escritor e, quem sabe, até ganhar aquele prêmio... Como é mesmo o nome?
Alguém dentre os presentes gritara do fundo do salão:
– Nobel!
– Isso mesmo! Prêmio Nobel. Realmente sua imaginação é muito fértil, senhor. Mas, como sou uma boa anfitriã e busco sempre agradar a todos os meus fregueses da melhor maneira possível, não o deixarei vagando sozinho ao léu, como se fosse uma pessoa desequilibrada. Tentarei, dentro de minhas faculdades mentais limitadas, participar de seus devaneios.
Houve mais um turbilhão de gargalhadas por todo o salão.
– Quanto à então "Relíquia", não se preocupe, ela está bem segura aqui dentro dessas paredes. Neste antigo Santuário, nenhuma criatura das trevas pode entrar livremente, exceto se for transportada por um ser inocente. Nenhuma alma viva ou qualquer coisa que caminhe na luz ou nas sombras jamais colocará suas mãos nessa tal Relíquia. Dou-lhe minha palavra...
Ainda bastante irritado, após tentar se levantar e suas pernas não responderem ao seu comando, questionou ele a madame Cecile:
– Como pode ter tanta certeza disso?
Após dar uma gargalhada tão alta que chegou a abalar todas as estruturas da estalagem, causando um silêncio geral em toda a casa, ela lhe respondeu:
– Qualquer coisa, para ser tocada, antes precisa existir. Garanto-lhe que tal coisa, se um dia existiu, não existe mais. Se essa tal Relíquia tivesse existido de fato, com todo esse poder que o senhor imagina, certamente eu já o teria usado em meu benefício há muito tempo...
Alguns dias depois, um destacamento da polícia fez uma batida na Pousada Eclipse à procura de um viajante que fora dado como desaparecido e fora visto pela última vez entrando naquele estabelecimento. Madame Cecília alegara que nada sabia sobre esse fato. Autorizara que toda sua casa fosse revistada e, com um sorriso muito inocente na face, oferecera aos policiais uma rodada de bebidas por conta da casa. O chefe daquela operação, encantado com a beleza e simpatia de Madame Cecília, não apenas aceitara a bebida oferecida, bem como solicitara humildemente mil perdões por tão inconveniente incômodo, ordenando que aquela missão fosse imediatamente dada por encerrada...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Percy Bysshe Shelley: Vida, Obra e Pensamento Crítico
Percy Bysshe Shelley: Vida, Obra e Pensamento Crítico
Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
“Aproxima-se rapidamente o tempo — espero que o senhor, milorde, possa viver para contemplar sua chegada — em que o maometano, o judeu, o cristão, o deísta e o ateu viverão juntos numa única comunidade, compartilhando igualmente os benefícios que provêm de sua associação e reunidos pelos vínculos da caridade e do amor fraterno.”
— Percy Bysshe Shelley
Nascido em 1792, na Inglaterra, Shelley foi um dos mais intensos e visionários poetas do Romantismo inglês. De alma livre e convicções inflamadas, rebelou-se desde cedo contra as amarras da sociedade vitoriana, da religião instituída e das convenções morais. Era o primogênito de uma família aristocrática, mas rejeitou o destino de nobre — preferia o exílio, o pensamento radical e a linguagem da poesia como forma de revolução.
Expulso de Oxford aos 18 anos por escrever um panfleto em defesa do ateísmo, Shelley já demonstrava o espírito incendiário que marcaria toda a sua vida e obra. Casou-se jovem, viveu intensamente e, após a morte trágica de sua primeira esposa, uniu-se à escritora Mary Shelley, autora de Frankenstein. Juntos, formaram uma constelação literária, orbitando também Lord Byron, outro titã das letras e da inquietação.
Coincidentemente, nosso autor Wallace Azambuja trouxe à edição Dívanno uma tradução do poema Ozymandias — o que me levou a um mergulho mais profundo na vida e na obra de Shelley, sobretudo em suas críticas à religiosidade. Sempre que um dos autores da revista traz à tona pensadores e poetas — seja por meio de uma tradução, como neste caso, seja por artigos ou ensaios — , busco ampliar o conteúdo com notas sobre a trajetória e o pensamento do autor mencionado, quando necessário. Essa escolha editorial enriquece a experiência leitora e desenha caminhos mais profundos rumo ao conhecimento.
Ozymandias traz à luz, ainda que de modo poético — e, por isso mesmo, ainda mais penetrante — a transitoriedade do poder; tema que se vincula irrevogavelmente às indagações sobre religião e divindade já abordadas por Shelley em The Necessity of Atheism e na Carta ao Lorde Ellenborough. Mais que isso: o poema nos reconduz à natureza como a única força maior — e decerto inegável — capaz de se sobrepor a tudo aquilo que é construído pelo humano, inclusive suas crenças efêmeras e dogmas desprovidos de razão. Tal como nos versos:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Vejam meus feitos, poderosos, temam!”
Nada resta ao redor: circunda o escombro.
— Tradução de Wallace Azambuja
É fascinante como Shelley tensiona religiosidade, justiça e política em seus ensaios, e como transcende esses mesmos temas, na poesia, para uma dimensão mais elevada e sensível. Sua aparição na edição Dívanno é de suma importância, pois nela nos colocamos sob as asas das divindades etéreas a partir de prismas exploratórios da constituição humana. Eu mesma, sempre inclinada à razão, aproximo-me da fé pelos sentidos, através da poética — e sou capaz de experimentar a ideia de Deus sem a embriaguez religiosa, mantendo-me firme em minha racionalidade. Isso talvez comprove — e, de certo modo, realiza — os conceitos shelleyanos sobre as três fontes da convicção.
Obra — Entre o Ideal e o Abismo
Shelley escrevia como se quisesse incendiar o mundo com seus versos. Sua poesia é marcada por um lirismo elevado, por ideais políticos libertários, e por uma estética que combina o sublime com o etéreo. Era um alquimista da linguagem, fundindo mito, filosofia, natureza e revolução.
Obras essenciais:
“Ozymandias” — Um soneto famoso que reflete sobre o orgulho humano e a inevitável ruína do tempo, como já mencionei. A estátua do rei caído, perdida no deserto, é um símbolo arrebatador da efemeridade do poder.
“Prometheus Unbound” (Prometeu Desacorrentado) — Uma obra dramática e lírica que reimagina o mito grego de Prometeu, o rebelde que desafiou os deuses. Aqui, Shelley faz dele um símbolo da humanidade insurgente. E mais uma vez, a ruína divina.
“Adonais” — Uma elegia devastadora à morte de Keats, outro grande romântico. Nesse poema, a perda torna-se um portal para reflexões sobre a imortalidade da arte e da alma.
“To a Skylark” (A uma Cotovia) — Uma das mais belas canções à natureza, onde o pássaro torna-se arquétipo da inspiração pura e inatingível.
“Mont Blanc” — Um poema filosófico sobre a vastidão da natureza e a mente humana, que dialoga com as paisagens sublimes dos Alpes.
Uma Vida Breve e Trágica
Shelley viveu como se soubesse que não duraria. Exilado na Itália, longe da pátria que o rejeitou, escreveu alguns de seus mais belos poemas em meio à dor, à beleza e à contemplação. Morreu tragicamente aos 29 anos, em 1822, quando seu barco naufragou no mar Tirreno. Quando seu corpo foi encontrado, diz-se que trazia consigo um exemplar de Keats no bolso. Seu coração, retirado das chamas da cremação por Mary, foi envolto em seda e guardado por ela até a morte. Um símbolo perfeito: o coração de Shelley — eterno, irredutível, inflamado.
Legado
Shelley é hoje reconhecido como um dos poetas mais líricos e visionários da história da literatura. Sua obra inspira tanto pela beleza da linguagem quanto pelo poder de seu pensamento libertador. Foi precursor de ideias anarquistas, defensor da igualdade, do amor livre e da imaginação como força de transfiguração do mundo.
Ele acreditava que a poesia era uma arma espiritual, uma forma de revelar o invisível e libertar a humanidade da ignorância e da opressão. Seu espírito vive nos que ainda se recusam a aceitar as verdades impostas e, ao invés disso, sonham, incendeiam e escrevem.
Referências
DA COSTA, M. (2016). Percy Bysshe Shelley — Introdução. Cadernos De Tradução, (36).
SHELLEY, Percy Bysshe. The Necessity of Atheism. Worthing: C. & W. Phillips, 1811.
SCANDOLARA, Adriano. Shelley — duas cenas do ato 3 de Prometheus Unbound. Escamandro, 5 ago. 2013. Disponível em: https://escamandro.wordpress.com/2013/08/05/shelley-duas-cenas-do-ato-3-de-prometheus-unbound/. Acesso em: 31 maio 2025.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Calíope
Engendra a substância de tua bela voz, | Lendo teu poema épico da batalha, | Donde os Titãs, jogados na fornalha | Do poder divino. Oh! Força algoz!…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Engendra a substância de tua bela voz,
Lendo teu poema épico da batalha,
Donde os Titãs, jogados na fornalha
Do poder divino. Oh! Força algoz!
Ornada de grinalda, contempla a sós;
Do monte Parnaso, inspira-se e talha
Na tabuleta, com seu buril, não falha
Em remanescer à poesia uma foz.
Jorrando a paixão do deus Apolo,
Entre suas vestes, dois filhos amaram,
Mas Eagro; talvez mais obtuso,
Deu-te ao ventre as notas de seu falo.
Um Orfeu aventurado cantaram:
A jovem Calíope, seu ar majestoso.
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Nyarlathotep
Nyarlathotep… o caos rastejante… Eu sou o último. Eu direi ao vazio que me atende. Não me lembro ao certo quando tudo começou, mas foi há meses…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Tradução e adaptação por Júlia Trevas
Nyarlathotep… o caos rastejante… Eu sou o último. Eu direi ao vazio que me atende.
Não me lembro ao certo quando tudo começou, mas foi há meses. A tensão, antes política e social, adensou-se com um pressentimento inquietante de um perigo físico hediondo e iminente — um flagelo tão vasto que só podia existir em nossos pesadelos mais sombrios. As pessoas transitavam com seus rostos pálidos e os olhares cautelosos, mexidas por advertências sussurradas, lidas como profecias que ninguém ousava repetir ou reconhecer abertamente. Um sentimento de culpa monstruosa pairava sobre a terra e, dos abismos entre as estrelas, varreram correntes gélidas que faziam os homens estremecerem em seus refúgios escuros e solitários. Ali, existia uma alteração demoníaca na sequência das estações — o calor do outono persistia assustadoramente, e todas as pessoas sentiram que o mundo e talvez o universo, foram entregues do controle de deuses conhecidos e forças, para os deuses que eram desconhecidos e para forças ocultas.
Foi então que Nyarlathotep surgiu, vindo do Egito. Quem ele era, ninguém podia dizer, mas ele parecia com um faraó. Os fellahin se ajoelhavam ao vê-lo, sem entender o porquê. Ele dizia ter emergido da escuridão de vinte sete séculos e tinha recebido mensagens de lugares que não pertenciam a este mundo. Assim, para as terras da civilização veio Nyarlathotep, moreno, esguio e sinistro, sempre comprando estranhos instrumentos de vidro e metal, combinando-os em instrumentos ainda mais estranhos. Ele falou muito sobre as ciências — da eletricidade e da psicologia — dando exibições de poder que deixavam seus espectadores mais que sem palavras, o que elevou sua fama a uma magnitude extraordinária. Homens aconselhavam outros homens a verem Nyarlathotep, eles estremeciam. E onde Nyarlathotep passava, tudo mais se dissipava, pois o alvorecer era dilacerado por gritos de pesadelo que nunca foram tão públicos. Os sábios chegavam a desejar que o sono noturno fosse proibido, para que os lamentos urbanos perturbassem menos brutalmente a pálida e compassiva lua. O satélite cintilava sobre águas verdejantes que escorriam sob pontes antigas, ao passo que velhos campanários desmoronavam contra um céu adoentado.
Eu me lembro quando Nyarlathotep veio para minha cidade — uma terrível e antiga cidade de inúmeros crimes. Meu amigo me contou sobre ele, contou sobre as suas revelações impulsivas e sedutoras. Eu tinha uma ânsia que queimava quando eu desejava seus mais extremos mistérios. Meu amigo me disse que eles eram horríveis e impressionantes, além da minha imaginação febril. O que foi projetado na tela da sala escura prenunciava mistérios que só Nyarlathotep ousava revelar, e que, no estalar de suas faíscas, arrancava dos homens algo que jamais antes fora subtraído — um algo que só se manifestava pelos olhares. Eu ouvi dizer que os que conheceram Nyarlathotep viam coisas que os outros não viam.
Foi no calor do outono que fui com as incontáveis multidões através da noite ver Nyarlathotep. Adentrando a sufocante escuridão noturna e subindo as intermináveis escadas até o quarto da asfixia, envolto em trevas numa tela, eu vi formas encapuzadas no meio de ruínas, douradas faces malignas espiavam por trás de um monumento caído. Eu vi o mundo batalhar contra as trevas, contra ondas de destruição provenientes de além do espaço, lutando, se agitando e girando contra o escurecimento do sol já frio. Então, as faíscas dançaram de modo assombroso ao redor das cabeças dos espectadores, erguendo seus cabelos em arrepio e sombras, mais grotescas do que qualquer descrição poderia abarcar, elas emergiram e pousaram sobre as cabeças, e quando eu, que era o mais frio e científico que os demais, murmurei, tremendo, palavras como “impostura” e “eletricidade estática”, Nyarlathotep expulsou a todos nós, descendo-nos pelas escadarias vertiginosas até as ruas úmidas, tórridas e desertas da meia-noite. Gritei em alto e bom som que não tinha medo e que jamais poderia ter medo, e outros gritavam comigo em busca de consolo. Juramo-nos mutuamente que a cidade permanecera exatamente a mesma ainda viva, e, quando as luzes elétricas começaram a esmaecer, amaldiçoamos a companhia por vezes sem conta e rimos das feições bizarras que fazíamos.
Acredito que senti algo vindo da lua esverdeada, pois, à medida que passávamos a depender de sua luz, deslizamos em estranhas formações involuntárias e parecia que conhecíamos nossos destinos, embora não ousássemos sequer pensar neles. Uma vez, fitamos o pavimento e constatamos que os paralelepípedos estavam frouxos e invadidos pela grama, restando apenas um fio de metal corroído a indicar onde antes corriam os trilhos. Logo em seguida, avistamos um bonde solitário, sem janelas, deteriorado e quase tombado para o lado. Quando fixamos o olhar no horizonte, não conseguimos avistar a terceira torre junto ao rio e a silhueta da segunda ostentava um perfil desfiado no topo, como se o tempo a tivesse consumido por completo. Em seguida, dividimo-nos em fileiras estreitas, cada qual atraída por um rumo distinto. Uma delas desapareceu num beco tortuoso à esquerda, restando apenas o eco de um gemido lancinante. Outra coluna deslizou por uma entrada de metrô engolida pelas ervas daninhas, ecoando uma risada insana. A coluna onde eu estava foi sugada para o campo aberto e logo sentimos um frio estranho, alheio ao calor do outono, pois, ao avançarmos pelo pântano escuro, contemplamos ao nosso redor o brilho lunar infernal da neve maligna. A neve errante e enigmática foi varrida em uma única direção, onde se abria um abismo no qual o brilho apenas acentuava sua escuridão. A coluna seguia exígua, avançando sonâmbula para o precipício. Retive-me por um instante, pois a fenda negra na neve iluminada pelo verde era aterradora, e parecia ecoar o lamento inquietante de meus companheiros ao desaparecerem. Mas minha hesitação foi breve. Como se fosse chamado por aqueles que já haviam partido, flutuei quase sem peso entre os titânicos montes de neve, trêmulo e amedrontado, até ser tragado pelo vórtice cego do inimaginável.
Dotado de uma consciência lancinante e entregue a um delírio mudo, só os deuses antepassados poderiam compreender tal horror. Uma sombra doente e sensível se contorcia em mãos que não eram mãos, circuitando de modo cego pelas mais pavorosas meias-noites da criação em decomposição, cadáveres de mundos mortos, cujas chagas eram cidades, e ventos cadavéricos que roçavam as estrelas pálidas, fazendo-as cintilar com um brilho débil. Para além de tais mundos, vagavam espectros de monstros indescritíveis; colunas difíceis de ver oriundas de templos profanos, estruturados sobre rochas sem nomes sob o firmamento, erguiam-se até os vazios vertiginosos além das esferas de luz e de trevas. E, em meio a este cemitério repulsivo do universo, ecoava o bater ensurdecedor de tambores abafados e o lamento maçante das blasfemas flautas, surgidas de câmaras inconcebíveis e não iluminadas além do Tempo, o pulsar detestável e o sussurrar profano que faziam dançar, lentamente, desajeitadamente e absurdamente os gigantescos deuses supremos e tenebrosos. As gárgulas cegas, mudas e desprovidas de mente, onde a alma é Nyarlathotep
H. P. Lovecraft
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico... » leia mais
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Ordam Noctam
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
E N W
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino. Ao seu redor, um halo perfeito, um arco circular de luz diáfana que parecia emanar do satélite, como um diadema mágico flutuando na noite. O pano de fundo da visão era um azul-marinho profundo que tingia o céu noturno, quase aveludado, salpicado em milhares de estrelas, cada uma cintilando em matizes de branca luminosidade, dispostas em constelações desconhecidas. A névoa tênue que serpenteava pelos beirais góticos das ameias realçava o contraste entre as sombras do castelo e o esplendor etéreo da Lua.
Uma densa névoa cobria os corredores de pedra do Castelo Drácula, escorrendo pelas paredes como um véu e também encobria os pensamentos de Minerva, mergulhados em águas profundas e insondáveis. Naquela noite, a Lua que pairava no céu marcava o momento sagrado em que a própria Lua, a Mulher e a Noite se tornavam uma só entidade arcaica.
Minerva sentia, em seu íntimo, o chamado da escuridão reverberar no peito, como o bater de um tambor antigo anunciando o inevitável. A hora se aproximava, talvez a mesma que a visitara no sonho da clareira dos láparos. Sua magia pulsava sob a pele como eletricidade contida, e seus olhos, já tingidos pela essência da loba, brilhavam em azul ardente, como safiras em chamas anis.
Minerva caminhou lentamente pelos corredores de pedra, onde a luz das tochas tremeluzia. Seus passos ecoaram ao atravessar o umbral da galeria dos espelhos, um santuário onde o silêncio parecia respirar. Ela usava um vestido preto e longo, feito de linho. Os cabelos cacheados estavam presos em um penteado elegante: duas tranças delicadas unidas atrás da cabeça, firmadas por um broche de mariposa prateada. A cada passo, alguns cachos soltos escapavam e saltavam como se tivessem vida própria, dançando na penumbra.
Seus dedos trêmulos apertaram a cruz de Lwccirtt, pendurada em seu pescoço por uma corrente de prata. O artefato parecia pulsar sob sua pele, emitindo um calor que desafiava o frio do castelo. Minerva parou diante do maior dos espelhos, onde seu reflexo começava a distorcer, como se o vidro refletisse além da carne.
Minerva sentia a sua aura lupina estremecendo e uivando dentro de si, enquanto seus olhos marejados perdiam o brilho, tornando-se escuros. A sombra de Lwccirtt não a deixara. Ela sentia a entidade chamando por seu nome, era estranho como uma coceira no interior de seu cérebro. Ela inclinou o corpo sob o próprio reflexo frio, arquejando. Não desejava ceder à vontade daquela criatura, já não sabia se era ela quem clamava por ele ou se ele era quem chamava por seu nome. Irritada por aquela sensação desconfortável, ela iniciou um pequeno ritual de banimento na tentativa de se proteger contra as influências da entidade em sua mente.
Com a voz firme, porém baixa como uma prece murmurada à meia-noite, ela pronunciou o Tetragrammaton: "Ateh... Malkuth... Ve-Geburah... Ve-Gedulah... Le-Olam... Amen." A cada palavra, sua aura lupina se expandia. Ela estendeu o braço diante de si e com os dedos desenhou no ar o primeiro pentagrama flamejante, visualizando linhas incandescentes surgindo do vazio, traços de luz azul anil que cortavam a escuridão como lâminas. Virando-se lentamente para cada ponto cardeal, ela repetiu o gesto e invocou os nomes sagrados com precisão ritualística, cada entonação carregada de intenção:
"YHVH" — ao leste, onde o vento ouviu a prece.
"ADNI" — ao sul, onde a chama tremeluzente da vela cresceu.
"EHEIEH" — ao oeste, onde um espelho estalou, como se algo ali respondesse.
"AGLA" — ao norte, onde o farfalhar de asas foi ouvido.
A cada nome entoado, uma presença se manifestava. Minerva não as via com os olhos comuns, mas sentia-as com a alma: os Arcanjos Raphael, Gabriel, Michael e Uriel alinhando-se ao seu redor, como pilares de luz velada que sustentavam o mundo oculto. Ela ergueu os braços ao alto, a cruz ainda pendendo em seu peito, e declarou:
— Diante de mim, Raphael; atrás de mim, Gabriel; à minha direita, Michael; à minha esquerda, Uriel; e ao meu redor brilha a estrela flamejante, e no centro... Eu a filha da Noite, demando que minha mente seja protegida do chamado de Lwccirtt!
Ao finalizar, ela traçou um círculo ao seu redor, selando o espaço entre os mundos. A energia no ar parecia viva, como se o próprio véu entre as realidades tivesse sido rasgado. O banimento estava completo e Minerva pedia em seu interior que a proteção funcionasse. Ela deitou dentro do círculo mágico que havia projetado no chão, aflita, pedindo que sua prece fosse ouvida. Seu peito dolorido parecia ainda sangrar e a cruz parecia tão pesada que ela evitou segurar.
A bruxa percebeu que o tempo tinha passado quando olhou de relance no espelho e viu que sua aura lupina estava mais tranquila, aninhada ao seu lado. Ela se ergueu, desfazendo o círculo sagrado. Sua mente parecia mais aliviada, mas algo ainda chamava por ela, algo bem mais familiar. Mais uma vez, ela se aproximou de um dos espelhos, sentindo-o vibrar como se algo estivesse prestes a saltar de dentro dele. Uma imagem encapuzada se formou à sua frente.
Sua mãe, a rainha Nuara, se apresentava diante dela no reflexo do espelho, envolta por um manto negro que cobria sua cabeça. No braço esquerdo, ela segurava uma tocha acesa. Minerva tentou ver o que estava por trás, mas além de sua mãe, só conseguia ver a escuridão. A rainha removeu o capuz, revelando seu rosto pálido e olhos sulcados repletos de sabedoria. Elas eram como irmãs gêmeas. Uma luz reverberou no fundo do espelho. Minerva estendeu a mão para Nuara, que atravessou o vidro como um portal.
As duas se entreolharam e Minerva deu um sorriso saudoso, se aproximando para abraçá-la. No centro do grande salão circular dos espelhos, Nuara removeu o seu manto negro sagrado completamente, o símbolo triplo da lua em sua testa era vívido. Ela viera para buscá-la.
As duas se entreolharam por um instante que pareceu suspenso no tempo. Um sorriso suave, carregado de saudade, curvou os lábios de Minerva antes que ela se aproximasse para abraçá-la. O símbolo da lua tríplice, marcado como prata na testa de Nuara, parecia reluzir na luz das pequenas chamas das velas.
— Filha da sombra, núrida, filha minha... — disse Nuara. — As deusas exigem teu parecer. Não podes mais te esconder neste castelo.
— O castelo não me aprisiona. Eu escolhi ficar. — Minerva respondeu. Os olhos dela estavam faiscantes. — Respeito nosso poder, respeito as deusas, mas este lugar... este lugar é onde pertenço.
— Somos filhas da escuridão, Minerva. — retrucou Nuara, dando um passo adiante. — Não me espanta que te sintas em casa num lugar infestado por forças caóticas e criaturas soturnas... tão soturnas quanto nós. Mas os “incidentes” com as entidades cósmicas que encontraste... não são meros desvios. Primeiro foi Ttyphrssett, e agora... o outro. Espero que não cometas o mesmo erro.
— Sei que não fui cautelosa, mas aqui, neste castelo, meu poder pulsa com mais vida. — murmurou Minerva, apertando a cruz de Lwccirtt contra o peito. — Sinto a força crescer em mim.
— A última entidade... aquela que agora sussurra em tua mente... — Nuara olhou fundo nos olhos da filha. — Ela é quase tão antiga quanto as próprias deusas. Sentimos que ela busca uma brecha entre os mundos... por meio de ti.
— Mesmo assim, não desejo partir. — insistiu Minerva. — Aqui é onde me sinto em paz.
— Minerva... — a voz de Nuara suavizou, mas seu tom era grave como um presságio. — Venho como mãe para aconselhar, mas como sacerdotisa, trago o aviso: as deusas te reivindicam. Elas te nomeiam filha da Noite e te chamam para cumprir os votos. Vais continuar recusando a fonte de onde teu poder emana?
— Eu não recuso as deusas... — disse Minerva, com uma sombra de dor. — Mas não desejo me curvar a nenhum dogma. Não quero ser moldada. Quero escolher.
Nuara suspirou. Por um instante, pareceu mais velha do que o tempo.
— Minerva... Minerva... — sussurrou, com pesar e respeito. — Como mãe, te compreendo. Como sacerdotisa, anuncio: se ignorares o chamado, virá uma punição breve... mas inevitável. — As feições de Nuara estavam mudando quando Minerva se aproximou e, com curiosidade, perguntou: — Mãe?
As feições de Nuara estavam a se contorcer como cera derretendo sob uma chama invisível. Seus olhos tornaram-se completamente negros, vastos como o espaço entre as estrelas. A pele da sacerdotisa parecia agora feita de mármore translúcido, pulsando uma luz que não vinha deste mundo. O salão dos espelhos mergulhou em penumbra.
As velas arderam azuladas, despertaram as chamas como vulcões e os reflexos nos espelhos evaporaram, apenas o vazio ficou. Um vento atravessou o salão, trazendo um incenso antigo, fazendo Minerva arquejar, sentindo um nó na garganta e um peso nos ombros ao cravar os olhos no rosto inóspito de Nuara.
Nuara já não estava mais ali, algo mais antigo e sombrio se instalava em seu corpo. Algo que desejava se comunicar com Minerva e o fez.
— Filha do crepúsculo... do sangue e do limiar. — disse uma voz múltipla, entrecortada e vibrante, como se ecoasse de três bocas ao mesmo tempo. — Tu, que carregas o símbolo dos mundos, ouve agora o chamado do Trino Lunar.
As palavras reverberaram pelas paredes como um cântico sendo entoado. A primeira a se manifestar foi Hekate. A voz tornou-se mais grave.
— Eu sou Hekate, guardiã das encruzilhadas, dos véus e dos segredos esquecidos. Tu despertaste Lwccirtt com tua sede de poder e tua recusa ao chamado. Mas o castelo o sente. Ele se ergue e se corrompe por tua presença e teu toque. — Minerva, com a boca entreaberta, estava com a respiração agitada. Uma pausa foi feita.
— Se não reconheceres o Trino, se não curvares tua alma diante da Noite que te fez, serás devorada. Se Lwccirtt não te encontrar, outros te encontrarão. Caninos longos repletos de sede de sangue.
Hekate estendeu o braço e a cruz de tungstênio no pescoço de Minerva flutuou e brilhou com uma luz ofuscante e cobalta. O calor atravessou sua pele por dentro do vestido. As sombras se movimentaram atrás de Nuara, dançando, sussurrando, contorcendo-se em espirais. Quando Hekate silenciou, foi a vez de Nix assumir. O corpo de Nuara relaxou e a voz tornou-se suave, fria como o orvalho em uma cripta de pedra.
— Eu sou Nix — sussurrou ela — a noite que antecede todas as noites. Berço das sombras, véu da origem. Lwccirtt encontrou uma fenda em ti, Minerva. Ele não te tocou, ele te viu. E no espaço entre um pensamento e outro, plantou raízes. — O chão sob os pés de Minerva pareceu oscilar, como se ela fosse cair.
— Tu não és apenas filha de Nuara. És filha da noite. Da escuridão que acolhe, que vê, que cala. Não negue mais o trino. Tuas recusas rasgam os limites do real. Reconhece-nos ou teu corpo será abrigo para o que nem os espelhos ousam refletir!
Minerva estava incrédula e relutante, exibia seus dentes afiados e sua aura de sombras lupina erguia-se por trás dela. Ela arquejava, buscando a calma que havia perdido. Em um momento, fechou seus olhos, buscando silenciar a mente e, quando os abriu, encontrou a face da última deusa.
Com o corpo ereto, mas a alma afundada, Minerva ainda sentia o coração pulsando não só no peito, mas nas pontas dos dedos, nas têmporas, na cruz de tungstênio em seu pescoço. Aquela presença era mesmo real? Eram as deusas... ou algo fingindo ser?
Então, a última voz ecoou — mais baixa, como uma canção esquecida, cantada para embalar o mundo.
— Eu sou Selene, a que dança com a lua e vela o sono dos vivos e dos mortos. A luz que brilha apenas para os que sabem ver no escuro, aquela que guia a carruagem da luz prateada da noite! Não viemos como donas de teu destino, mas como espelhos daquilo que tua alma esconde. Não somos uma prisão de dogmas. Somos a tua força, criança!
As velas tremeluziam em tons leitosos. A sala girava devagar à percepção da jovem bruxa. Minerva manteve-se em silêncio, olhos arregalados. Dentro de si, o turbilhão de perguntas: eram mesmo elas? Ou seria Lwccirtt, sorrindo por trás das máscaras? Selene parecia ouvir seus pensamentos.
— Dúvida é também parte do caminho. A fé cega é tão perigosa quanto o poder não reconhecido. Mas o que há dentro de ti, Minerva, não pode mais ser adormecido. Nós somos o que sempre foste. A trindade que gerou tua alma nas sombras da floresta. A Noite, a Morte, a Vida. A mulher. A loba. A sacerdotisa!
O rosto de Nuara travou-se em uma única expressão até que seus olhos retornaram ao que eram antes e sua cabeça pendeu para frente, ocultando a transformação. Um espelho às costas de Minerva trincou. A fenda serpenteou o vidro como uma raiz e a cruz de tungstênio em seu pescoço esquentou de novo.
Num rompante final, as sombras se recolheram e a pele de Nuara retomou seu tom natural. Seus olhos negros recuperaram o brilho materno, e o contorno de seu rosto, antes esculpido pela presença tripla, amoleceu-se em traços de calor humano. Ela piscou, como que despertando de um sonho, e estendeu a mão para Minerva, num gesto doce e pesaroso. Uma lágrima cintilante verteu do olho esquerdo de Minerva. Ela baixou os olhos e, sem segurar a mão de Nuara, se distanciou com um passo para trás.
Sem uma palavra, Nuara voltou-se para o maior dos espelhos ao fundo do salão. Com dedos firmes, traçou no vidro um símbolo antigo, um círculo entrelaçado por outros círculos. O espelho vibrou, a superfície ondulou como água, e um portal prateado abriu-se diante delas.
Nuara lançou um último olhar à filha, um misto de amor, urgência e saudade, antes de atravessar. O portal se fechou num estalo surdo, deixando apenas o sussurro das velas e o eco distante de um chamado lunar que prometia voltar. Minerva, sozinha novamente, apoiou a mão no espelho frio, sentindo, ainda, a presença das deusas desaparecer e permaneceu ali firme, em sua mente, buscando uma saída para não se entregar a nenhum dos caminhos dispostos. Ela desejava desbravar o próprio caminho, ela era o próprio conhecimento. Sua natureza de loba urgiu em seu interior.
Tomada por um impulso, ela cravou as unhas sobre os próprios braços e rasgou a pele junto da roupa. A carne dela se desdobrou em fiapos elásticos, se soltando do corpo enquanto seus ossos se remodelavam com um estalo, os dedos alongaram-se em patas firmes, a coluna arqueou, tornando-se a lombar lupina, e os músculos se rearticularam abaixo do pelo negro como breu. Em seu lugar, ergueu-se a loba de pelagem espessa e lustrosa e olhos de um azul frio. No chão, ficaram espalhados os pedaços de suas vestes e, ao lado, o broche de mariposa e a cruz de Lwccirtt, abandonados.
Sem hesitar, a criatura correu e saltou por uma das janelas do castelo, rompendo o vidro em estilhaços. Cada pata pousou com leveza sobre o chão após a alta descida. Ela galopou feroz, em disparada, rumo à floresta obscura. O vento noturno assobiava por entre os pinheiros, arrastando consigo o som ritmado de seu tropegar; em poucos instantes, Minerva-loba sumiu na penumbra das árvores, deixando apenas o farfalhar da mata para trás.
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Draco Mater
Na antiga Mesopotâmia, o caos foi teu primor, | Geraste o céu, a terra e os dragões, | Em águas profundas pulsava teu fulgor, | Semente eterna de revoluções…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Na antiga Mesopotâmia, o caos foi teu primor,
Geraste o céu, a terra e os dragões,
Em águas profundas pulsava teu fulgor,
Semente eterna de revoluções.
Com fúria mãe, ergueu-te em tempestade,
Por filhos traídos, juraste o trovão;
Teu corpo vasto, cosmos na verdade,
Vibrou com o grito da criação.
Marduk, com vento e rede, te venceu,
Partiu-te em céu e mar, em noite e dia.
Mas tua essência em tudo permaneceu,
No sopro antigo, a voz da rebeldia.
Tiamat vive em cada insurreição:
Dragão sem jaula, eterna maldição.
Thais Gomes
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Todos os lamentos serão ouvidos
Hoje faz cinco meses desde a grande mudança. Da imagem veio a idealização, a concepção e a efetivação. Ouvi o chamado retumbante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Hoje faz cinco meses desde a grande mudança.
Da imagem veio a idealização, a concepção e a efetivação. Ouvi o chamado retumbante permeado por vozes angelicais que exigiam uma sacra ação. Não ousei olvidar, quem ousaria? A petição era simples, mas requeria dedicação e comprometimento ímpares.
Foram anos de estudos para lapidar um dom concedido por Deus. As aulas de anatomia eram as mais instigantes, estudar cada milímetro de corpos inertes e impuros — impuros pois estavam destituídos do privilégio de adorar e dar graças a Ele. Eu ainda não sabia, mas tudo transcorria a fim de se fazer cumprir a vontade daquEle a quem devo a minha vida.
Todo conhecimento tinha uma finalidade, agora eu o sei. Visualizar o que cada um traz dentro de si é algo divino e assim eu compreendi que fora destinada para aquela missão. Nenhum outro poderia compreender.
Eu era enfermeira. Ainda sou, pois mesmo impedida de exercer minha função, isto me é inato. Há coisas que os olhos mundanos não enxergam — só os escolhidos veem. Só aqueles que foram tocados.
E eu fui.
No início, pensei que fosse exaustão. Vinte e quatro horas de plantão, pacientes morrendo sem dignidade, máquinas apitando, familiares desesperados, médicos indiferentes. Mas naquela noite… naquela noite fatídica, enquanto segurava a mão fria da Dona Lurdes — pele frágil, os olhos quase em paz — ouvi a suave brisa.
Não com os ouvidos. Não como qualquer outro ouviria. Ouvi com a alma. Uma voz que se insinuava: Ela está pronta. Ajude-a a atravessar.
E eu ajudei.
Foi com delicadeza. Uma prece cochichada. Um leve ajuste no equipamento de morfina. Uma transição suave. Celestial. Ela sorriu, juro, no segundo que antecede a partida, sorriu como quem vê a luz no fim do túnel e reconhece o rosto de um anjo. Ali compreendi: eu não era apenas uma enfermeira. Era uma escolhida.
Nos dias seguintes, vieram outros sinais dos pacientes: as auras em suas cabeças e as palavras murmuradas. Estavam inconscientes, logo, só podia ser obra do criador. Ah, também tinha o brilho nos olhos dos que já estavam com um pé na eternidade. Deus me escolheu para conduzir essas almas.
E eu o fiz.
Mas não é fácil. Precisa sensibilidade. Discernimento. Disciplina. Nem todos estão prontos, e nem todos merecem. Eu o ouço. Ainda o sinto. O julgamento não era meu — era apenas um instrumento.
Os outros não entenderam. Disseram que sou diferente. Que ficava muito tempo sozinha na UTI. Que enlouqueci. Que os pacientes precisavam de cuidados paliativos e que eu os matei. Não foi isso! Eles não sabem o que eu sei! Não veem o que eu vejo!
Não é morte. É libertação. Eutanásia celestial, como aprendi a chamar ou foi Ele quem me disse.
Um gesto de amor.
O último foi o Sr. Armando. Setenta e nove anos, falência múltipla dos órgãos, ninguém o visitava mais. Ele segurou minha mão com tanta força e então murmurei: Está na hora.
Lágrimas escorreram do canto dos seus olhos fechados. Paz. Ele partiu em paz.
Ainda hoje sinto a presença dele aqui, me agradecendo.
Escrevo tudo neste diário, pois sei que um dia alguém irá encontrá-lo e poderá entender a minha missão. Talvez outra enfermeira. Talvez outro escolhido. Talvez continue com a sacra ação. Será que outros seres iluminados iguais a mim virão parar nesta caixa de concreto cercada de grades e guardas mal-humorados?
E você, que está lendo isso agora, saiba: não é loucura. É missão. Um chamado. E quando ouvir a voz — aquela voz suave, inconfundível — apenas escute.
E aja com fé.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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22. É a Fonte de vida e ajuda a escapar dos perigos da morte
Data Incerta - Meus olhos ainda ardiam com o sal do oceano e minha mão treme ao escrever tudo isso, seguimos por entre aquela ilha de aparência…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta - Meus olhos ainda ardiam com o sal do oceano e minha mão treme ao escrever tudo isso, seguimos por entre aquela ilha de aparência seca que mais parecia uma ossada gigantesca, que fazia ainda mais me dar conta da minha insignificância. Mara ia à frente, sua silhueta, magra e alongada, parecia por vezes se dissolver no nevoeiro que começava a se espalhar rente ao solo, parecia querer certa distância de mim, caminhava em silêncio. Eu a seguia, cansada, sentindo como se minha alma, se ainda existe uma, pulsasse dentro de mim. Como se eu estivesse caminhando entre realidades, talvez dissociando, porque estamos mesmo caminhando entre realidades, não havia outra explicação lógica. Havia silêncio demais entre nós, aquele silêncio incômodo, palpável, como se minha existência fosse inadequada para ela. Até que ela parou, sua cabeça ergueu de súbito, como se ouvisse algo que para mim não era permitido ouvir.
— Escuta — ela sussurrou.
E então um som estranho, como som de eletricidade abafada, sem direção ou local específico, sufocado pela distância. Viramos ao mesmo tempo e vimos bem ao longe, uma figura difusa, solitária que deslizava em nossa direção, vestida com um manto antigo e escuro, seu rosto oculto por um véu negro espesso. Ela não nos olhava ou ameaçava, apenas caminhava em nossa direção, vinda de sabe-se lá onde, o nevoeiro se condensou e num piscar de olhos ela sumiu. Não houve ruído, apenas a sua ausência súbita no meio daquele nevoeiro, o vento aumentou de intensidade e com ele veio um frio que era mais do que uma mudança brusca de temperatura, era um aviso de que deveríamos sair dali. Mara se virou para mim, com os olhos arregalados e não precisou dizer nada. Corremos, ou pelo menos corri rápido com o pouco de energia que meu corpo permitia, e entramos em uma caverna próxima. A escuridão da caverna nos engoliu, lá dentro era úmido, o ar denso e o cheiro de mineral quase metálico, e a única luz vinha do fundo da caverna, embaçada pelo nevoeiro que invadia. Me recostei na parede fria, ofegante, eu não conseguia parar de olhar para a abertura lá fora, como se a qualquer momento a figura pudesse deslizar até lá e nos encontrar dentro da caverna, eu não sabia o que ela era, para mim não era uma ameaça, mas senti o medo em Mara e isso foi o bastante para me fazer correr.
Fomos mais para o fundo da caverna, o chão sob nossos pés era irregular, coberto de limo, úmido, cada passo nosso era abafado, as paredes eram escuras, riscadas aqui e ali por nervuras metálicas, veios de minerais com um brilho pálido. O teto era arqueado em certas partes, outras erguiam-se como abóbadas de uma catedral esculpida na rocha, outras partes eram tão baixas que nos obrigavam a abaixar a cabeça. Quanto mais adentrávamos a caverna, mais seu ar ficava pesado, impregnado de um odor de sal, ferro e umidade, como se estivéssemos respirando o ar das entranhas da caverna. Gotas dispersas caíam do teto, estalando nas pedras com um som irregular, como uma música experimental e assombrosa, às vezes contínua, outras vezes descompassada. Mara caminhava à frente, sem olhar para trás, os dedos roçando lentamente as paredes, como quem busca uma evidência tátil de que estava no lugar certo e que aquilo era real. Eu não precisava tocar a caverna, eu a sentia sob minha pele, se situando com leves toques gélidos que arrepiavam os pelos do meu corpo, a umidade que começava a ultrapassar as minhas roupas, se infiltrar na minha carne, se fixar na minha consciência. Nós avançamos mais e notei pequenas formas no teto, formações calcárias, finas estalactites como agulhas que pingavam devagar, construindo gota por gota um padrão que jamais seria terminado, algumas pareciam dentes fazendo conjunto com as estalagmites do chão que se projetavam em direção ao teto, algumas delas se unindo uma às outras formando colunas, outras pareciam garras, vestígios de algo que começou a se formar muito antes de nós, e que continuaria mesmo depois de nossa presença ali.
Ao fundo, a caverna se abria numa espécie de sala ampla, do teto, uma escuridão absoluta, o chão ali era mais seco, coberto de pedras quebradas e poeira que formava uma fina nuvem com qualquer movimento nosso. Nos sentamos ali, sem nos olhar, sem trocar palavras, pois não havia necessidade. O som do lado de fora se tornou mais distante, fechei os olhos, e o som do que ouvimos lá fora continuava distante, abafado pelos sons do interior da caverna. Os sons da caverna, indistintos, pareciam carregar o ruído de todas as coisas vivas e mortas, não sabia como eu sabia disso, mas sabia, sentia-me uma hospedeira dentro daquela caverna, não tendo ideia para onde ir e só me restando ali permanecer, ouvir a caverna respirar e esperar o próximo passo de Mara. Antes que eu pudesse descansar direito, Mara se levantou, eu não saberia explicar o sentimento de sentir que eu era repulsiva para ela, mas eu sentia isso, talvez nossa ligação permitisse isso, eu não sei.
Então andamos mais para o fundo da caverna em direção à luz, uma luz prateada difusa, seguimos em direção a ela e foi então que vimos os ossos. Havia crânios empilhados como tijolos, formando paredes, tetos e lustres como uma capela, havia símbolos em excesso, cristãos, iorubás, hindus, judaicos, wiccanos, islâmicos e outros que não reconheci, alguns cobriam os ossos, outros estavam entalhados nos crânios, tudo ali tinha um cheiro seco e pungente. No fundo, sentada sozinha como se fosse parte do cenário, havia uma jovem curvada sobre uma mesa de pedra, escrevendo com uma pena que segurava com os dedos delicados, ao seu redor havia alguns livros e papéis, pequenas relíquias, tudo organizado com cuidado, era dela que vinha a luz prateada. Ela notou nossa presença e levantou os olhos para nós e ficou de pé, ela tinha uma pele de um marrom escuro, um tom tão escuro quanto o meu, olhos âmbar intensos que davam um contraste tão perfeito com o tom escuro de sua pele, cabelos escuros, longos e volumosos, com cachos caindo em cascatas, um fino véu sobre sua cabeça que dava a ela uma aura divina. Seu vestido longo e escuro, com detalhes dourados, parecia uma santa guardiã dos mortos naquele ambiente que possuía uma atmosfera onírica e assombrosa.
— Vocês chegaram — disse com uma voz melodiosa. — Meu pai disse que viriam e eu estava rezando por isso. Aliás, me chamo Siehiffar — disse esboçando um sorriso calmo e fazendo uma leve reverência. — E vocês devem ser Rute e Mara.
Não fiquei surpresa e acredito que nem Mara tenha ficado, com o fato de Siehiffar nos conhecer, todos pareciam saber algo sobre nós, enquanto eu tentava entender quem eu era naquele momento. Eu quis perguntar quem ela era de verdade, como soubera de nós, mas minha garganta permaneceu trancada, esmagada pela densidade daquele lugar. Olhei a parede de ossos à nossa esquerda, só então percebi que as marcas nos crânios não eram apenas símbolos isolados, juntos eles formavam linhas, mapas, trajetos entre as crenças, como se alguém tivesse desenhado uma cartografia sobre os restos de quem em vida acreditou em algo.
— Eles vieram antes de vocês — disse ela estendendo a mão à parede. — E acabaram se tornando parte da estrutura.
Mara estremeceu ao meu lado, eu pude sentir, mais do que ver, que ela apertava as mãos umas contra as outras.
Olhei dentro dos olhos âmbar de Siehiffar e dentro desses olhos vi uma paz que não era deste mundo. Mara estava em silêncio e eu observava Siehiffar, desejando tocar a sua pele, tocar aquela paz com minhas mãos sujas de… dúvidas? Não, de maldade talvez, ou desejo por salvação. Controlei meus impulsos que eu não sabia de onde vinham.
— Quem é seu pai e como ele sabia que viríamos? — perguntou Mara com a voz seca e hostil.
— Abdalla Monm, ele disse que vocês apareceriam aqui no momento certo — ela falou ainda gentil, ignorando a hostilidade na voz de Mara.
— O professor Monm? — eu disse surpresa. — Faz quanto tempo que você está esperando?
— O tempo não é importante aqui, o importante é que vocês estão aqui — falou, mostrando com as mãos um canto da caverna iluminado por velas sobre os crânios da parede. Mas eu e Mara continuamos de pé, ainda absorvendo aquela presença tão viva num local tão cheio de morte.
Ela nos ofereceu água e comida e depois perguntou se poderia ver meu ferimento — aquele que já deveria ter cicatrizado. Concordei, então ela colocou as mãos no meu ferimento, murmurou algo numa língua que não reconheci. Senti um alívio, e a dor que eu já não lembrava mais que sentia, sumiu.
— Isso não sou eu — disse Siehiffar — é a Fonte que flui através de mim, eu apenas a deixo passar. Curei o seu ferimento, mas os danos que ele causou são incuráveis — se virou e olhou para Mara. — Desculpe por não poder fazer algo por você, mas a cura que você precisa não virá de mim. Sentem-se e descansem.
Nos sentamos ali, sobre tapetes antigos estendidos no chão de pedra, nós a ouvimos falar sobre um Deus sem forma, sem nome e sem lógica, que ela chamava de a Fonte, um Deus que estava acima do que existe e não existe, um Deus que não exige, apenas nos convida à contemplação, um deus sem gênero ou rosto.
— Acredito que não se deve buscar a Deus com perguntas — ela disse — mas com atos, com contemplação, no caos e na calmaria da natureza.
Ela falou de mundos dentro de mundos, de lugares que apenas podemos ter acesso em sonhos, de estrelas mortas que ainda emitiam luz, disse que as religiões, todas elas, são um espelho rachado que tenta refletir um rosto que ninguém nunca viu. Ela olhou para nós com carinho e disse:
— Vocês já acreditaram em algo, não é? Antes da dor, da morte, do castelo.
Mara ficou em silêncio e eu não respondi de imediato. Pensei e disse:
— Acreditei, mas hoje não vejo sentido, não vejo propósito nas promessas de salvação que não nos levam a lugar nenhum.
Ela não respondeu, apenas pegou um osso do altar atrás de si, um fêmur humano, com símbolos esculpidos, e o soprou como uma flauta. O som saiu puro e cortante. E eu a observei fazer aquilo e apenas desejei entender o que aquilo significava, ou ela estava apenas tentando me fazer entender que nem tudo precisa fazer sentido ou ser explicado.
— Você pode morrer aqui se quiser, mas também pode renascer. O tempo já não se move aqui, este lugar não está onde o mundo pensa que está. Aqui, o que você sente é o que te guia — ela falou com um leve sorriso.
Estar ali com Siehiffar era ao mesmo tempo agradável e confuso. Minha mente tentava entender suas palavras, sua intenção, mas era tudo cheio de significado, mas sem significado nenhum, como se ela falasse um monte de palavras bonitas, mas nenhuma delas fizesse efeito ou sentido para mim. Mara continuava em silêncio, nem um movimento ou palavra. Estávamos ali cercadas de ossos e símbolos e na companhia de Siehiffar em silêncio, não um silêncio incômodo, mas contemplativo. E em minha cabeça eu pensava no motivo de tudo ali ser tão incompreensível. Então Siehiffar sorriu para mim e disse:
— Acho que algumas perguntas não precisam de respostas.
Ela olhou para nós, se levantou devagar e caminhou até o centro da caverna, seus pés quase não faziam som no chão de pedra da caverna.
— Venham — disse ela, se virando para nós — há algo que quero mostrar a vocês, algo que quero convidá-las a ver, se quiserem, é claro.
Troquei um olhar com Mara e ela assentiu com um leve balançar de cabeça, então fomos. Siehiffar afastou uma tapeçaria de ossos unidos com cabelo humano; atrás dela, uma porta foi aberta com um leve rangido. O corredor que se revelava era longo, escuro e curvado, no fim dele uma luz prateada podia ser vista e, quanto mais avançávamos, mais seu brilho aumentava.
— Este é o caminho da Fonte, na verdade, um deles — ela disse com uma voz calma — é aqui que os que deixaram de acreditar vêm para se lembrar como crer, que os que sangram aprendem a oferecer seu próprio sangue como semente, e é onde o desejo se torna palavra, as palavras se tornam ação.
No fim do corredor havia uma câmara circular. O chão era de pedra, coberto de pequenos símbolos; o ar era espesso como algo que não sei como nomear. No centro, uma mesa de pedra e, sobre ela, uma tigela com um líquido prateado que parecia mercúrio líquido, como as águas dos rios de Séttimor. Siehiffar ficou ao lado da tigela, fechou os olhos e pronunciou palavras incompreensíveis, mas com um tom de voz tão musical que parecia um mantra. Silêncio novamente, e depois ela abriu os olhos e nos encarou com suavidade.
— Rute, Mara, convido vocês a dormirem aqui por uma noite, tendo a Fonte como vigia. Se ouvirem algo, ou sonharem algo, poderão partir e seguir o caminho que foi designado a vocês. Mas, se nada virem, ficarão aqui como todos os outros antes de vocês.
Senti um aperto no peito, mas a ideia de que talvez algo pudesse me impedir de voltar ao castelo foi reconfortante. Mas eu suspeitava que teria sonhos — ou melhor, teria pesadelos.
— Se nossos sonhos forem pesadelos? — perguntei.
— Eles também têm o rosto de Deus, às vezes até mais do que os anjos — Siehiffar sorriu.
Tudo vibrava, tudo me sufocava e eu tinha a certeza que seriam pesadelos o que eu teria, eu queria entender Siehiffar, e ao mesmo tempo não sabia se queria mesmo entender, mas sabia que queria ficar ali. Dormimos ao lado da tigela, deitados sobre mantos antigos que Siehiffar estendeu para nós. Mara ficou um pouco próxima, mas ainda parecia querer manter uma certa distância de mim. Me deitei e o ar parecia denso, demorei para pegar no sono, mesmo cansada, meus pensamentos não me deixavam relaxar e permitir que o sono chegasse, e de repente eu estava sonhando. Não era um sonho comum, o castelo estava lá e eu estava nele e eu era ele, vivo de maneira orgânica: ossos, músculos, tendões, nervos, carne e pele, e eu podia ouvir que em algum lugar dentro dele havia um coração que batia lento no mesmo compasso do meu. Os vitrais pareciam sangrar uma luz vermelha mortiça, as paredes quentes como um corpo vivo e o teto escuro e fundo, mas que ao mesmo tempo parecia o teto de uma catedral.
Andei pelos corredores do castelo e vi ao longe Ameritt andando devagar com um enxerto de flores vermelhas e roxas e cogumelos que cresciam de seus braços, rosto e no topo de sua cabeça. Ela sorria, mas em seus olhos havia lágrimas. Vi o salão do baile vazio e todos os seus espelhos cobertos com panos negros que tremulavam sem vento, vozes sussurrantes e outras guturais pronunciando meu nome. Andei até a biblioteca e vi Monm curvado sobre uma mesa, escrevendo com fúria nomes que eu não conhecia, mas eu sabia, não sei como, serem nomes dos mortos — e o meu nome estava entre eles. Então eu senti Drácula, antes mesmo de o ver; ele estava no alto da escadaria central como um deus abandonado, vestia uma túnica branca cuja borda era vermelha, como se tivesse absorvido uma grande quantidade de sangue do chão do castelo. E cada vez mais sua túnica se tornava vermelha, até o sangue absorvido tomar toda ela. Sua pele alva e seus olhos vermelhos ardiam, me reconheciam como uma igual, e a sensação de ser reconhecida por ele fez meu coração disparar em uníssono ao coração do castelo.
— Você partiu — ele disse com uma voz firme e calma — mas o castelo foi com você.
Ao seu lado estava Hadassa, linda e viva, com um véu escuro que mal cobria metade de seu rosto. A outra metade era osso, o crânio com metade de uma cruz gravada na testa. Sua boca sorria um sorriso ao mesmo tempo conhecido e assustador. Ela segurava um livro — na verdade, o livro de Mara — com dedos que pareciam vivos e também mortos.
— Você fugiu da promessa, Rute? — ela sibilou com aquele rosto que tinha apenas metade dos lábios.
“Que promessa?”, eu pensei e tentei responder, mas minha garganta estava cheia de água salgada.
Então Mara apareceu no sonho, com um vestido longo branco simples, um véu e uma coroa com rosas cheias de espinhos que afundavam na sua cabeça, fazendo linhas de sangue deslizar sobre o véu. Seus pés descalços sangravam na escadaria do castelo, deixando suas pegadas, indo em direção a Drácula.
— Mara! — gritei seu nome e fui andando em sua direção.
Ela parou, virou-se para mim, levantou o véu, e quando ela me olhou, surpresa — não era a minha Mara, translúcida — era uma mulher de carne e osso, com pele de um tom quente, um âmbar escuro, sobrancelhas e olhos escuros muito expressivos e intensos, nariz levemente aquilino e lábios cheios e bem marcados. Senti como se meu coração fosse apertado com muita força. Senti mãos tocarem os meus ombros e me girar com pressa, e lá estava a minha Doppelgänger, aquela que deveria estar na outra versão do castelo, ainda vestida como no baile de máscaras.
— Você tem que voltar — ela gritou.
— Por quê?
— Porque o castelo está em você, e você precisa continuar a escrever — disse, enquanto segurava meus braços, me impedindo de ir em direção a Mara.
— Eu não quero mais escrever, estou cansada — gritei.
— Mas você precisa, mesmo que doa — ela falou, colocando a mão esquerda em meu rosto e o acariciando de leve, e depois me empurrou.
Então o chão se abriu e eu caí num mar de sangue e tinta. Vi as palavras do meu diário se dissolverem naquele líquido viscoso e rubro, minhas memórias escorrerem pelos meus dedos e irem em direção a um fundo com uma luz prateada que vibrava. Então acordei, ainda deitada no manto antigo, tentando me orientar. Mara estava ao meu lado, também desperta.
— Você também…? — não precisei terminar a pergunta, ela logo assentiu.
O líquido na tigela ainda brilhava. Saímos de dentro daquela câmara e, sentada na escrivaninha, estava Siehiffar, concentrada na leitura. Olhou para nós com um sorriso gentil e disse:
— Algumas questões importantes são resolvidas em sonhos. O que vocês farão com o que viram é escolha de vocês.
Não sabia o que fazer com aquele sonho que mais parecia saído da cabeça do próprio David Lynch, mas eu sabia que deveria voltar para o castelo. Mas, ao mesmo tempo, não sentia como se estivesse saído dele. Estou fora dele ou não estou?
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Cálice de Vida
Belos são teus olhos sem vida, | tua pele, teus lábios e tuas maçãs do rosto. | Belo é o sangue que escorre lento | por essa carne que tanto amo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Belos são teus olhos sem vida,
tua pele, teus lábios e tuas maçãs do rosto.
Belo é o sangue que escorre lento
por essa carne que tanto amo.
Desejo adornar-te com meus beijos,
pois te amo com ardor.
Viva em mim, querida,
teu corpo e teu sangue me alimentam.
Da tua carne comerei, do teu sangue beberei
Com amor.
Pois de que adianta um corpo sem vida,
senão para nutrir os que ainda vivem?
E eu vivo para que vivas em mim.
Ao comer de tua carne, ao beber de teu sangue,
selarei contigo uma aliança.
Terei a vida eterna, e tu, querida,
a eternidade em mim.
Sagrada és, e de ti me deleitarei lentamente,
com alegria.
Quando apenas teus ossos restarem,
farei de teu crânio um cálice,
para beber minha salvação.
De teus ossos, forjarei os talheres
com que provarei as próximas iguarias.
Querida, estaremos juntas, em morte e em vida.
Cearei contigo, e tu comigo.
De vida, teu cálice transbordará,
e pela eternidade beberei em tua memória,
pois de mim seu cálice nunca se afastará.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Mensageiro do Último Dia e Lovecraft
O filme O Mensageiro do Último Dia (2020) é inspirado na HQ The Empty Man, criada por Cullen Bunn e Vanesa R. Del Rey. A trama gira em…t
Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
O filme O Mensageiro do Último Dia (2020) é inspirado na HQ The Empty Man, criada por Cullen Bunn e Vanesa R. Del Rey. A trama gira em torno de uma misteriosa seita que venera uma entidade sobrenatural conhecida como "Empty Man", capaz de se propagar através dos pensamentos humanos. A narrativa mistura elementos de terror psicológico, investigação e ocultismo, explorando como ideias perigosas podem ser espalhadas como um vírus, contaminando as mentes das pessoas e corrompendo a realidade à medida que se infiltram no imaginário.
Além da temática sobrenatural, O Mensageiro do Último Dia constrói, através do protagonista, camadas psicológicas que o conduzem a um desfecho inevitável. A trama gira em torno de uma seita que cultua uma entidade misteriosa, desejosa de se manifestar na Terra por meio de um hospedeiro perfeito.
Sob a perspectiva de Fred Botting (2024), observamos uma nuance dos elementos do gótico, que celebram a transgressão dos limites e das normas, projetando temores e fantasias culturais. Aqui, o culto a Nyarlathotep encarna essa transgressão: a fusão entre o sagrado e o profano, o humano e o inominável.
Conseguimos observar nesta entidade uma referência tênue com Nyarlathotep, uma das criaturas do panteão de Lovecraft. No entanto, por trás do enredo de horror cósmico, o filme lança uma crítica sutil, mas contundente, sobre o poder destrutivo das crenças extremas.
Ao longo da história, vemos como a ação desta entidade na mente das pessoas leva indivíduos a cometer atos violentos, inclusive o suicídio, mesmo que coagido, uma possível alusão a como determinadas ideologias ou cultos podem se tornar profundamente nocivos à saúde mental e à vida das pessoas envolvidas. Estes ritos nos evocam o caráter perturbador das seitas lovecraftianas, onde o horror não está apenas no monstro, mas na devoção fanática de seus seguidores.
O filme inicia com um prólogo que não traz os personagens principais, mas que mostra seu significado com o decorrer da trama. Depois, vemos o desenrolar do enredo principal com o desaparecimento de uma adolescente em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Um ex-policial de sobrenome La Sombra, que já carrega em seu nome um vislumbre do que está por vir, começa a investigar o caso. Ele descobre o grupo que cultua a entidade sobrenatural conhecida como "Empty Man", em português “O Mensageiro do Último Dia", que pode ser invocada mediante um ritual macabro. À medida que ele mergulha na investigação, o protagonista é confrontado com alucinações e a sensação de ser vigiado a todo tempo.
No poema em prosa de Lovecraft, Nyarlathotep, um indivíduo relata sobre a chegada desta entidade à Terra e como o mundo se tornou seu reinado macabro. No imaginário de H. P. Lovecraft, Nyarlathotep é um tipo de mensageiro dos deuses extradimensionais. Este é um ser que caminha entre os mortais, trazendo revelações proibidas e incitando rituais estranhos. Da mesma forma, no filme, O Mensageiro surge, mas com a necessidade de ter um receptáculo para recebê-lo, reunindo seguidores em cultos que fazem os preparos para a sua chegada.
Ao final, O Mensageiro não é apenas um simples arauto, mas uma construção objetiva. Temos uma representação sob as crises internas dos personagens: culpa, desejo reprimido e o medo. O pesquisador Gilbert Durand conceitua estes aspectos do imaginário humano como parte do Regime Noturno simbólico da imagem, uma configuração simbólica que luta para impedir a ação da queda, da morte e do tempo.
O culto íntimo ao medo, ao desejo reprimido e à culpa ressoa com a teoria de Durand. O Mensageiro, por este viés, opera como um arquétipo da sombra e, levando em consideração o inconsciente coletivo, de acordo com Jung (2021), o imaginário também pode ser observado como prefiguração dos arquétipos presentes no inconsciente.
O Mensageiro é Nyarlathotep por ser aquele que transita entre mundos, não para guiar à luz, mas para revelar o que foi recalcado no inconsciente individual e coletivo, representando, nas palavras de Jung, a sombra, este aspecto psíquico que reúne tudo aquilo que o ego rejeita e reprime, mas que permanece ativo na psique em seu lado negativo. Sua presença desestabiliza a linearidade racional e confronta o protagonista e os adeptos com o que Durand chamaria de uma imaginação dominada pela angústia, onde o sagrado e o monstruoso se confundem. Logo, este culto a uma divindade antiga pode espelhar o culto que cada um de nós faz aos próprios temores.
REFERÊNCIAS:
BOTTING, Fred. Gótico: Tradução de Marina Sena. Sebo Clepsidra. 2024.
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia geral I Gilbert Durand,tradução Hélder Godinho. – 4° ed. - São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
JUNG, C. O Homem e seus Símbolos; Translation of Maria Lucia Pinho. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 2021.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Gênesis II
Após ler e discernir melhor sobre a suposta origem do que sou hoje, tomei fôlego e segui adiante em mais um capítulo do livro de capa de dragão…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Após ler e discernir melhor sobre a suposta origem do que sou hoje, tomei fôlego e segui adiante em mais um capítulo do livro de capa de dragão; este capítulo se intitulava “Caim Magnus”. Era mais uma narrativa de Igor Dracul sobre o que acontecera com Vlad após o encontro com o vulto grotesco na alcova.
Caim Magnus
Após os muitos dias e muitas noites em que Vlad Tepes havia estado trancafiado no intento que tivesse boa recuperação, ele se levantara no décimo quarto dia com um vigor como se nunca houvesse ficado acamado e beirando à morte. Ele mandara me chamar através de um dos criados de seu Castelo e prontamente eu adentrara seu quarto a fim de atender prontamente ao chamado do meu Senhor. Vlad ainda permanecia com a aparência pálida, tal qual um cadáver. O primeiro pedido que ele me fizera era para ajudar a enterrar o corpo de um moribundo que estava escondido dentro do seu guarda-roupas; ele pedira ao criado que fora me chamar no meio da madrugada do dia anterior, para que trouxesse um dos presos turcos que se encontravam na prisão local de guerra, que se localizava dentro do castelo, e fizera do homem sua primeira refeição. O cadáver se encontrava murcho; talvez o homem fosse mais alto ou mais gordo do que o estado ao qual se encontrava no post mortem. Estarrecido, não sabia por onde começar a perguntar ao meu Senhor o que acontecera afinal na noite passada, e ele já presumindo que isso fosse acontecer, não me deu tempo para pensar muito; me pediu para ajudá-lo a enterrar o corpo no terreno ao lado do castelo. Após voltar para o seu quarto, Tepes me entregara em mãos este livro que escrevo (e, antes que alguém — que possa estar lendo — questione, as páginas do capítulo anterior foram adicionadas posteriormente. Note a costura da folha em cor diferente do resto das páginas originais que vieram no miolo deste livro), para que deixasse o registro por escrito sobre o que acontecera na fatídica noite em que ele e Mihnea estiveram na alcova.
O Conde me confessara que, durante os dias em que se encontrava em coma, a criatura que lhe sorvera o sangue e as forças naquela noite, fizera uma espécie de contato mental. A partir deste contato telepático, a criatura tenebrosa contara sua história e o porquê de ter escolhido Vlad para passar tamanha maldição que lhe pertencia adiante. Dos diálogos que Vlad me fizera registrar aqui, iniciarei com o mais marcante:
— Sua alma é minha, e, em troca de poder, você agora é das trevas.
Segundo Tepes, após ter caído ao chão, imediatamente o ser maligno se conectou com sua mente continuando o diálogo:
— És meu filho e Dela. És a ponte entre o esquecimento e o renascimento. Teu sangue clama pelo abismo, e o abismo respondeu.
E sem resposta de Vlad, que se mantinha em silêncio, a fim de manter sua vida e um pouco da sanidade preservada, o monstro então continuava a contar sua saga:
— Após milênios caminhando entre os mortais e vendo os Primevos corromperem minha maldição, enfraquecido pela tristeza e pela sede de um silêncio eterno, me retirei do mundo. Meus últimos seguidores, pertencentes a uma seita esquecida, selaram meu corpo adormecido em um caixão de ébano, cravejado com símbolos sumérios e hebraicos, banhado em prata lunar, e me carregaram pelo deserto e pelas montanhas do Império Turco-Otomano, buscando o local mais distante da luz — a sua terra Natal: A Valáquia. Ali, entre as florestas antigas e as fortalezas de pedra, eles me enterraram em uma cripta sob o solo amaldiçoado, confiando que o mundo me esqueceria…
Vlad, ainda incrédulo com a história que a criatura lhe contava, tentava se manter mentalmente em silêncio, porém o vulto continuava a narrar sua crônica pessoal:
— Séculos se passaram e chegamos ao século XV. O conflito entre o Império Otomano e a resistência valaquiana atingiu níveis épicos. Você, jovem príncipe Vlad Tepes, cruel estrategista e herdeiro de uma linhagem marcada por sangue e pacto, enfrentou o avanço turco com uma brutalidade que faria até os demônios hesitarem. Em uma batalha particularmente sangrenta, milhares morreram sobre a colina onde eu jazia. O sangue dos mortos da batalha penetrou a terra. O solo gritou. E eu despertei.
Tepes gritou mentalmente com o vulto:
— Você está louco!
O espectro continuou a dialogar:
— Você é feito de medo, homem. Mas aprendeu a usá-lo. É morte vestida de carne. E ainda assim… está vivo.
O Conde passa a encarar o vulto com desdém:
— Vivo o bastante para ver os deuses calarem. E você? Que abismo o pariu?
O monstro se dirige a Vlad, ainda sem hostilidade:
— O abismo é meu espelho. Eu fui o primeiro a matar. O primeiro a ser amaldiçoado.
E você… É meu reflexo quebrado.
Vlad, com certo receio, afirma:
— Você é Caim. O mito… a maldição viva.
A criatura sorri com melancolia e responde:
— Não mito. Não lenda. Apenas memória rejeitada. E você, Vlad, é mais do que príncipe. Tem olhos de condenado… Mas sua alma se recusa a morrer.
Vlad, ainda temeroso, responde:
— Já enterrei todos os deuses em que acreditei. Não procuro redenção.
Caim então retruca:
— Nem eu ofereço. Mas vejo em você a mesma fome que Yahweh não soube curar.
Lilith lhe sussurrou, não foi?
Tepes, então surpreso, respondeu:*
— Como sabes desse nome?
O espectro demoníaco interpelou:*
— Porque ela foi minha mestra. E agora, sussurra a você como sussurrou a mim.
Entenda, você não é um homem comum. É o elo perdido… é o filho que o tempo prometeu.
Vlad questiona, seriamente, firme:*
— E o que você quer de mim?
Caim responde:
— Nada. Mas o mundo… o mundo vai desejar seu sangue. E eu? Eu vim apenas ver o que a dor esculpiu em meu nome…
Lilith - A Deusa Negra
Vlad permaneceu em silêncio, como se paralisado por uma visão maior. Por meio do uso de magia, Caim, como testemunha de um tempo anterior ao tempo, mudara o cenário na mente de Tepes.
Com a voz solene, quase que religiosa, o Amaldiçoado disse:
— Antes do Éden. Antes de a terra ser dividida, ela caminhava entre os Deuses. Lilith… filha de Anu, o Senhor dos Céus. Irmã das estrelas, mãe das serpentes, Centelha viva do abismo primordial. Mas Yahweh, o ciumento, quis moldar o mundo à sua imagem. Roubo disfarçado de criação. E aprisionou Lilith em carne… E transformou Deusa em mulher.
A visão se forma na mente de Vlad: Lilith, resplandecente e imortal, envolta em luzes negras, é arrastada ao barro e moldada como esposa. Ela se ergue no Éden ao lado de Adão, mas seus olhos jamais se curvaram.
O espectro grotesco continuara a narrativa:
— Ele a deu a Adão como prêmio. Mas ela não se dobrou. Ela não nasceu da costela. Ela era anterior a ele. E então Lilith disse:
— Não fui feita para me deitar abaixo do pó, nem para que o barro me comande. Sou anterior à tua imagem, Yahweh. Eu me recuso.
Caim tomara para si a crônica e continuara:
— E foi expulsa, expulsa do Éden, da luz, da memória dos homens. Mas, ao cair… ela não quebrou. Ela despertou.
Em seguida, projetada na mente de Tepes, apareceu a imagem de Lilith em exílio, nua sobre a areia escaldante do mundo antes dos homens. Porém, ao invés de definhar, ela se ergueu em fúria. O sangue dos deuses voltou a queimar nela. Os pássaros caíram do céu. As águas se agitaram, a terra se contorceu.
Caim retomara a narrativa:
— Quando o silêncio dos céus tentou esquecê-la, ela gritou. E o grito rasgou o véu entre os mundos.
Em seguida, Tepes teve a visão de Lilith erguendo os braços. Atrás dela, havia um eclipse. A lua sangrou. Sua voz subiu aos céus, amaldiçoando o trono divino.
Lilith interpelou em tom desafiante:
— Ó Yahweh, você que criou o homem do barro e se envaideceu… Um dos seus filhos se voltará contra você, e dele nascerá uma prole que não morrerá. Sede será seu nome e sangue será sua língua. Eles não adorarão sua luz, eles andarão pela noite; minha herança. E lembrarão que eu fui a primeira a dizer não.
A visão de Vlad se quebrara. Caim estava de joelhos, como quem reviveu um trauma antigo. Vlad o encarou em silêncio, olhos arregalados, e afirmou:
— Você é a praga viva, Caim. O cumprimento da maldição.
Caim respondera sussurrando:
— Eu sou a lâmina da promessa, o filho do pó que ousou erguer-se contra o céu. Ela me fez como resposta ao castigo. E agora, Vlad… você é o próximo capítulo.
E então eu percebi que havia adormecido em parte da narrativa de outro capítulo do livro de capa de dragão, e já não sabia distinguir o que fora escrito e o que fora sonhado. Mas em mim havia a certeza de que algo havia despertado: a chama viva primordial de Lilith.
Thais Gomes
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Ozymandias, de Percy Bysshe Shelley
De um viajante com estrangeira tez | Ouvi: “Sem tronco, dois pernões rochosos | Há no deserto. Sobre essa aridez, | Lascado e em parte, um rosto jaz, cenhoso,…
Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
De um viajante com estrangeira tez
Ouvi: “Sem tronco, dois pernões rochosos
Há no deserto. Sobre essa aridez,
Lascado e em parte, um rosto jaz, cenhoso,
Franzido lábio e olhar de frio montês
Que um escultor tais emoções bem viu,
Inda visíveis no que rude achei,
Feito com mãos de um coração servil;
No pedestal estas palavras teimam:
‘Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Vejam meus feitos, poderosos, temam!’
Nada resta ao redor: circunda o escombro
Da ruína colossal, vazia e extrema,
Somente a areia, plana e sem assombros.”
.
I met a traveller from an antique land
Who said: “Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read,
Which yet survive, stamp’d on these lifeless things,
The hand that mock’d them and the heart that fed;
And on the pedestal these words appear:
‘My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!’
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.”
Percy Bysshe Shelley
Percy Bysshe Shelley (Field Place, Horsham, 4 de agosto de 1792 — Mar Lígure, Golfo de Spezia, 8 de julho de 1822) foi um dos mais importantes poetas românticos ingleses. Shelley é famoso por obras tais como Ozymandias, Ode to the West Wind, To a Skylark, e The Masque of Anarchy, que estão entre os poemas ingleses mais populares e aclamados pela crítica. Seu maior trabalho, no entanto, foram os longos poemas, entre... » leia mais
Wallace Azambuja
Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Enodia
Era o cão que latia, | a Lua enegrecida que reinava… | A fuligem de fogueira sacra a subir, | Enodia atravessando o bosque na madrugada, | fria, atenta, armada,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era o cão que latia,
a Lua enegrecida que reinava…
A fuligem de fogueira sacra a subir,
Enodia atravessando o bosque na madrugada,
fria, atenta, armada,
Abençoando os mortos do Hades e ensinando o lobo pequeno a grunhir.
Mãe dos desajustados, mofinos, maltratados…
Senhora de toda vida que aprende a esgueirar,
Ouro que adorna a margem…
Poeira viajante, oriunda do solo do mar.
Senhora de chuva mansa, de ventania brava,
Impiedosa e fiel,
Maior que os serafins,
Maior que Roma…
Anterior ao reino dos céus.
“Quem é essa?” — perguntam titãs.
Depois, olimpianos.
“Ninguém sabe ao certo…” — diz Zeus.
“Sua andança é incerta,
A face é medonha,
E hoje…
ela caminha sem véu.”
Lídia Machado
Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Drácula e Cristo: entre cruzes, estacas e sangue
No Cristianismo, Satanás é tradicionalmente visto como o oposto de Jesus Cristo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?” — Mateus 16:15
No Cristianismo, Satanás é tradicionalmente visto como o oposto de Jesus Cristo, mas e se, em vez de Satanás, comparássemos Drácula a Cristo? Parece uma ideia herética, e talvez seja mesmo, mas como alguém obcecada por histórias bíblicas e literatura gótica, não pude evitar essa comparação estranha.
Na religião e na literatura, são poucos os personagens que alcançam o status icônico de Jesus Cristo e de Drácula. O primeiro, o Salvador, o segundo, o condenado, mas há algo que os une: ambos são figuras que, no texto, se revelam através dos olhos e das palavras de outras pessoas. Eles não falam de si mesmos diretamente, são descritos, testemunhados, adorados ou temidos. Cada um é conhecido pelo impacto que causa nos que cruzam o seu caminho, gerando fé ou terror. Essa presença indireta cria uma tensão, quase arquetípica: luz e trevas, redenção e condenação, vida e morte. Herético ou não, é um paralelo impossível de se ignorar.
No Novo Testamento, Jesus raramente é descrito fisicamente. Há apenas raras descrições de uma imagem: um homem sem beleza, segundo Isaías 53:2; ou as visões simbólicas do Apocalipse, mas, em essência, Jesus é reconhecido por suas palavras, ensinamentos e milagres, e por como seus discípulos o veem. Em Mateus 16:15-16, ele pergunta: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?”. E Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A identidade divina de Jesus não é proclamada por ele mesmo, mas reconhecida pelo outro, construída pelo efeito que ele exerce sobre os outros. Drácula, da mesma forma, não se apresenta diretamente ao leitor, sua presença é fragmentada em cartas, diários e relatos que compõem o romance de Bram Stoker. Assim como os evangelhos são narrativas dos que seguiram ou testemunharam Cristo, Drácula é um fragmento daquilo que os outros viram, sofreram ou temeram.
Jonathan Harker nos dá alguns desses fragmentos: “Até então, eu tinha notado as costas, de suas mãos, que tinham me parecido brancas e finas; mas, vendo-as mais de perto, pude notar que eram bem grosseiras, com dedos fortes. Por mais estranho que pareça, as palmas das mãos tinham cabelos. As unhas eram compridas e finas, terminando em ponta. Como o Conde se curvasse sobre mim, encostando-me às mãos, não pude conter um tremor” (Capítulo 2). E também: “O que chamara minha atenção era a cabeça do Conde, saindo para fora da janela. Não vi o rosto, mas distingui-o pelo pescoço e pelo movimento de suas costas e braços. De qualquer maneira, não podia me enganar com aquelas mãos, que tivera tantas oportunidades de examinar. [...] Mas meus sentimentos transformaram-se em repulsa quando vi todo o corpo do Conde projetar-se pela janela, vagarosamente, e sair se arrastando pela parede, de cabeça para baixo, com o manto agitando-se ao vento, como asas enormes. A princípio, não pude acreditar no que estava vendo.” (Capítulo 3).
Se Cristo é conhecido pelo amor e pela transformação espiritual que inspira, Drácula é definido pelo horror que provoca. Ambos, porém, são figuras que deixam marcas duradouras em quem os encontra. Há ainda outra comparação evidente: o sangue. No Cristianismo, o sangue de Cristo é o símbolo do perdão e da aliança entre Deus e a humanidade: “Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados” (Mateus 26:28). A Santa Ceia é, até hoje, a comunhão com esse sangue, a memória de uma entrega que promete vida eterna. Em Drácula, há uma inversão disso: o sangue não redime, ele contamina. Quando Mina é forçada a beber do sangue do Conde, não se trata de uma aliança para a remissão dos pecados, mas uma maldição. De um lado, o sangue como comunhão; do outro, como corrupção. Em ambos, ele conecta, transforma e promete a eternidade, mas uma eternidade de salvação e outra, de danação.
Há ainda a relação com a morte: Cristo ressuscita, vence a morte e oferece a promessa de vida eterna. Drácula, por sua vez, desafia a morte, é o morto-vivo, o que se recusa tanto a morrer quanto a viver completamente. Enquanto Jesus promete: “Estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20), Drácula permanece como uma presença material e ameaçadora, que assombra e consome. Ambos também reúnem ao seu redor seguidores. Jesus atrai discípulos dispostos ao sacrifício, fundou uma Igreja que cresce pelo amor e pela palavra. Drácula atrai servos como Renfield, que, seduzido pela promessa de poder e imortalidade, é condenado à loucura e à morte.
E há também o símbolo do sagrado e da luz. Segundo João, Cristo é “a luz que brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram” (João 1:5). Drácula, ao contrário, é repelido pela luz do sol. O crucifixo, símbolo de Cristo, é para o vampiro um instrumento de repulsa e dor: “Instintivamente, avancei para protegê-lo, levantando o Crucifixo e a Hóstia na mão esquerda. É impossível descrever a expressão de ódio que se estampou na fisionomia do Conde. Com um ágil movimento, afastou-se.” (Capítulo 23). Essa comparação, talvez louca, talvez herética, revela, no fundo, o poder das narrativas. Dois personagens que inspiram fé e comunhão, ou terror e repulsa, mas que continuam vivos, lidos, reinterpretados, transformados em símbolos que atravessam gerações. No fim, talvez o que essa comparação sugira é como nós, leitores, somos influenciados pelas figuras que rememoramos ou revisitamos, sejam elas de salvação ou de condenação. E você? Diante dessas duas figuras, com qual delas, consciente ou não, escolhe comungar?
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Supplicatio Damnata - (Súplica dos Condenados)
Sem data — Meu despertar foi pesado. Lento. Tardei a abrir os olhos, como se houvesse em mim um receio instintivo de confrontar o que quer…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Anton S. Miahi XXV
(Escrito em meu Diário)
Sem data — Meu despertar foi pesado. Lento. Tardei a abrir os olhos, como se houvesse em mim um receio instintivo de confrontar o que quer que o mundo, em sua crueza, tivesse a me oferecer. Havia uma sensação estranha, como se algo em minha mente tivesse sido libertado — uma prisão sutil se desfazendo em fragmentos de lembranças. E então, o recordar do encontro com Var’Ghul, a criatura que invadira meu íntimo, expondo segredos que eu mesmo havia enterrado, julgando-os mortos para sempre.
Lá estavam: memórias, sentimentos, angústias... todos exumados com a delicadeza brutal de um coveiro sem alma.
Mas algo me chamou a atenção. O frio — companheiro constante — havia desaparecido. Nem vento, nem chão gelado. Em seu lugar, um calor tênue, uma quietude... uma maciez que envolvia meu corpo fatigado. Abri lentamente os olhos. A luz era suave, amarelada, e sombras dançavam pelas paredes como espectros tímidos.
E então, uma imagem tomou forma: um rosto gentil, sereno, com olhos doces e convidativos. Seus cabelos eram longos e escuros como a noite sem luar. Sua beleza era ímpar, angelical — exótica demais para que eu pudesse descrevê-la com justiça.
De súbito, ergui-me num pulo, quase instintivo — alerta, ainda tomado pela sensação de ameaça. Meus olhos percorreram o ambiente, buscando pistas, tentando entender onde me encontrava.
Ela sorriu com delicadeza. Sua presença, no entanto, não transmitia hostilidade.
— Siehiffar, é como me chamo — disse ela, num tom baixo e educado. Sua voz, de contralto, era como música em câmara fechada — ressoava macia, íntima. — Você é um dos moradores do castelo... daqueles que foram convidados! — Havia uma curiosidade tênue em seu falar, uma leveza que ocultava um mundo de experiências.
— Chamo-me Anton Stefan Miahi. Sou historiador... e oficial do exército francês — respondi, sem saber por que minha língua se soltara com tanta facilidade. — Ainda estamos no Castelo de Drácula?
Deixei os ombros relaxarem, adotando uma postura menos defensiva.
Ela trajava um esplêndido vestido azul, ricamente adornado com rendas em prata e bordados dourados que pareciam brilhar à luz da lareira. Uma tiara dourada repousava em seus cabelos, cravejada de pequenas pérolas e pedras translúcidas. Seus colares pendiam delicados sobre o colo, compondo uma figura que evocava tanto realeza quanto mistério.
— Sim, estamos. Onde mais deveríamos estar? — disse, agora com um sorriso zombeteiro, embora isento de malícia. Seu olhar era jovial, sagaz — um jogo sutil entre o encanto e a astúcia.
— Entendo... — murmurei, hesitando. — Como vim parar neste cômodo? Quem me trouxe?
A pergunta brotou da angústia. Havia algo naquele lugar — em mim — que não se encaixava.
Ela demorou a responder. Voltou-se para a lareira, estendeu os braços até uma pequena mesa de centro. Nela, duas xícaras de porcelana branca, ornadas por folhas azuis, repousavam ao lado de uma chaleira do mesmo padrão, da qual ainda subia um fio de vapor.
Com delicadeza, ela serviu o chá. Estendeu uma das xícaras a mim, reservando a outra para si. Tomei a que me fora oferecida. Ela sorveu um gole com tranquilidade antes de falar.
— Uma pessoa o trouxe até aqui. O senhor estava desacordado. Havia sangue em muitas partes de seu corpo. Suas roupas, rasgadas — disse, pausando para olhar o fundo de sua xícara. — Var’Ghul é uma criatura estranha. Suas ações são, para mim, um mistério constante. Nunca o vi com meus próprios olhos... mas já encontrei os que ele chama de “réus”.
Ela me fitou com uma expressão de pena e estranha curiosidade. Algo em seu olhar fazia minha pele se arrepiar.
— Mortos... ou vivos. Os vivos raramente saem incólumes desses encontros — murmurou, quase triste. Havia em sua voz um eco de vivências amargas. — Senhor Miahi, o castelo chamou por você. Estar aqui é privilégio para alguns, uma saída para outros... mas há quem veja tudo isso como uma prisão. Qual é a sua visão?
A pergunta me atravessou como uma lâmina fria. Ela dissera com tanta leveza... e, no entanto, a questão me lançou ao abismo do pensamento.
Não vim apenas para aprender. Vim para questionar o impossível. E em troca recebi a quebra de paradigmas, a dilaceração da fé, a desconstrução de minha identidade. O castelo tornou-se espelho de tormentos. Um mosaico maldito de enigmas e horrores.
— Este lugar era para ser um templo do saber, senhorita — disse, tentando conter o tremor na voz. — Mas revelou-se um mar tempestuoso. Um quebra-cabeça sujo de sangue e sombras.
— Nem tudo é o que parece — disse ela, indulgente. — Talvez exista algo além. Algo mais...
Antes que ela pudesse concluir, deixei escapar uma risada amarga, quase histérica.
— Neste lugar, senhorita Siehiffar, quase fui morto. Fui levado a outros mundos. Transformaram-me em algo que mal reconheço — meio homem, meio máquina, um híbrido nascido da dor. — Caminhei até a parede e, com meu braço mecânico, esmaguei os punhos contra a pedra com força. — Já vivi horrores antes. Mas nada... nada como isto.
As semanas — os meses — foram apenas sucessivas descidas numa espiral de insanidade. E, mesmo assim, minha maldita curiosidade, minha obsessão em resolver os enigmas... mantinham-me aqui.
— Pois deveria parar de chorar! — rugiu uma voz atrás de Siehiffar. Reconheci de imediato o timbre grave e metálico de Monm.
Ao me virar, lá estava ele, encostado como uma sombra sólida.
— Para um homem que sobreviveu à guerra, parece frágil como vidro — zombou.
Uma mescla de raiva e incredulidade apoderou-se de mim.
— Você sabe que nada do que vivi aqui poderia ser suportado por uma mente comum! — apontei o dedo para ele com fúria contida. — Revivi a morte de meu irmão. Vi o espírito dele... ou aquilo que tomou sua forma. Não sou homem de fé, Monm, mas o sobrenatural me golpeou até que eu sangrasse por dentro.
Ergui meu braço mecânico, adornado com os circuitos do éter. Um símbolo da monstruosidade que haviam me imposto.
— Vamos, Anton... — disse Monm, num tom paternal. — Estás apenas despertando. O mundo tem segredos, e nós conhecemos só uma fração do todo. Tu agias com complacência... e agora, te vês à beira do abismo.
Ele se aproximou mais.
— Cuidado, homem... quem olha demais para o abismo, acaba por ser olhado por ele. E há os que não voltam mais.
Silêncio. A pergunta pairou no ar como um punhal.
— Qual é o caminho que seguirás?
E eu... não soube responder.
Anton S. Miahi XXVI
(Escrito em meu Diário)
10 de novembro de 1871 — Vi-me surpreso quando questionei Monm sobre a data. Em minha mente, acreditava terem se passado somente algumas poucas semanas. O último registro datado remontava a agosto. Esquecera-me de como o tempo, neste lugar é instável, maleável — como se fosse manipulado por mãos invisíveis.
Segundo Monm, estive desacordado por três dias. Quanto aos períodos anteriores… um completo mistério. Mesmo minha estadia na prisão-laboratório de Arturo é um borrão. O confronto com a fera na Igreja parece ter ocorrido há séculos e, ao mesmo tempo, ontem.
Ainda recordo aquele senhor barbudo. Julgo que fosse um líder entre os seus. Solicitou que eu aceitasse algo — o quê, exatamente? Ah, sim... "a verdade da Igreja." Isso mesmo. Soou estranho à época, mas agora me é quase familiar.
Apesar de o reencontro com Monm ter começado de forma um tanto acalorada, logo tive oportunidade de ponderar e buscar respostas. Indaguei-lhe sobre o povoado ao norte, e a Igreja ali presente.
— Monm, quem são aqueles monges que vivem no povoado ao norte do castelo? — Observei o viajante, concentrando nele todo o peso do meu olhar e da minha expectativa.
Ele fitou a lareira, inspirando fundo, como se buscasse forças num passado distante.
— Não achei que se lembraria... mas esqueci que os chamados para este castelo têm algo em comum: seus registros. Certo... — sua pausa foi pesada, quase teatral. Uma sombra de frustração lhe desfigurou o semblante. — Eles são um grupo que, nesta linha do tempo, não teme os eventos do castelo. Parece tratar-se de uma ordem religiosa oriunda da Prússia. Alguns de seus monges... foram corrompidos por Nestor. Aquele vampiro possui o dom de seduzir mentes frágeis.
Essas informações me deixaram inquieto. Uma Igreja prussiana? A Prússia tem garras longas, penetrando em todos os confins. Se vinham de lá, podiam ser católicos, luteranos… ou dissidentes, tachados de hereges, como os de certos grupos na Holanda.
— Presumo que o convite que recebi tenha sido armado por um desses monges. Recordo-me de que era bastante jovem. Pena não ter memorizado sua fisionomia... — Senti minha frustração aflorar. Talvez, se o tivesse observado melhor, poderia agora persegui-lo. — No grupo, há um homem de longa barba branca? Robusto, talvez?
Monm refletiu. Fitou o chão como quem escava a memória. Seus olhos brilharam ao encontrar algo.
— Ah, sim. Esse homem vem da Holanda. Chegou a estas terras há alguns anos, com quase nada. Um andarilho comum. Seu sobrenome é Hans... o nome, Sander. Sander Hans, é assim que se chama. Por quê? — indagou, num tom apático.
— Após meu confronto com a besta vinda do espelho — trazida por um dos monges — ,fiquei caído, ferido. Ele, o tal Sander, falou algo sobre aceitar a verdade da Igreja... que somente isso poderia me salvar. — Minha voz vacilou, mergulhada em uma memória incômoda. Nunca fui de crer em entidades superiores… — Mas, naquele momento, eu queria viver.
Todos os olhares voltaram-se para mim. Um desconforto silencioso se instalou. Um prenúncio.
Siehiffar ajeitou-se no sofá. Seus olhos cintilavam com genuína curiosidade, enquanto Monm apenas mantinha sua atenção fixa em mim.
— Senhor Miahi, que relato peculiar. — Um brilho quase infantil tomou o rosto de Siehiffar, como se houvesse desenterrado uma relíquia. — Então... algo já havia começado antes. Achei que o encontro com a criatura de Olga fosse o início. Mas não. Já havia ecos meses antes.
— Você disse: "criatura da Olga"? — Não pude conter minha surpresa. — Var’ghul foi criação da Olga?
O olhar de Monm para Siehiffar era carregado de reprovação. A jovem mordeu os lábios — como quem se arrepende da travessura dita.
— Siehiffar, às vezes o silêncio é a melhor escolha. — disse Monm, soando como um mestre que repreende a pupila. — Sim, Var’ghul é uma criatura forjada aqui, no castelo. Uma consequência maldita dos experimentos de Drácula com o éter... com objetos, com almas condenadas.
Eu queria não acreditar… mas depois de tudo — depois de ver meu próprio corpo se tornar híbrido de homem e máquina, tal revelação já não me feria com tanta força.
— Certo, certo. — disse Siehiffar, desviando o peso da conversa. — Abdalla, perdão... esses fatos são novos para mim. Mas parece que a fé tornou-se uma chave essencial ao senhor Miahi, ainda que ele próprio não o perceba.
Monm meditou sobre aquela fala, então caminhou em direção ao cesto de lenha, agachando-se em silêncio. Seus gestos denunciavam que arquitetava algo em sua mente.
— Abdalla? — questionei, em voz alta.
— Sim, é esse o nome dele. Não sabia? — Siehiffar soltou uma risadinha e levou a mão à boca. — E eu me chamo Siehiffar Monm.
Essas revelações fizeram-me recostar na poltrona ao lado do sofá onde ela estava.
— Não sabia. Monm nunca me contou. A bem da verdade, nunca tivemos tempo para conversas. Sempre havia algo... interrompendo tudo — falei, quase com incredulidade.
— Anton, isso não é o foco. — A voz de Monm cortou minha dispersão, trazendo-me de volta ao núcleo do mistério. — Há muitas coisas que não pude, não posso e jamais poderei revelar. Siehiffar cresceu neste lugar. Seus olhos veem o mundo de forma distinta. Até para mim, às vezes, ela é um enigma. Uma aprendiz que instiga seu próprio mestre.
Notei, enfim, o ar místico que pairava ao redor dela. Uma presença diferente de tudo o que eu já havia experimentado. Algo nela era... profundamente incomum.
— Var’ghul encontrou um modo de me chamar. — disse Monm. — Aquela criatura é tudo, menos injusta. Quando o encontrei caído em sua torre de julgamento, havia algo em sua mão. A criatura afirmou não tê-lo deixado lá.
De seu bolso, Monm retirou uma corrente e, logo em seguida, um pingente... uma cruz.
Aproximei-me. À luz da lareira, percebi seu contorno singular: pesada, de metal negro, com uma pedra central roxa. Nos extremos, pequenas pedras azuladas, reluzentes.
— É uma ametista. E essas pequenas são labradoritas. — explicou com voz serena, sempre professoral. — Tome. Pelo que sei, é sua.
Ergui meu braço alterado. Ainda era estranho vê-lo assim: mecânico, frio, tão alheio à carne que um dia o cobriu. Aproximei a cruz dos olhos, examinando seus entalhes. Era bela... e estranhamente familiar. Como se murmurasse meu nome do âmago da alma.
Assim que aquele objeto tocou o metal de meu braço, senti algo — primeiro, uma ansiedade crescente; depois um formigamento sutil. A sensação não me era estranha. Já a havia experimentado antes. Sim… com Monm, nos primeiros contatos com as distorções temporais e, mais tarde, na adega do castelo, ao lado de Áurea. Aquilo fora assombroso — um entrelaçar de lembranças minhas e dela, como se o tempo ali não mais obedecesse a Deus.
— Essas sensações do éter e das torções do tempo são incômodas — murmurei.
— Incompreensíveis, até para mim — respondeu Monm, cruzando os braços, o cenho marcado por sombras de inquietação.
— E, no entanto, tão recorrentes — disse Siehiffar, com a voz suave e firme. Havia nela um tom investigativo que me atravessava como uma lâmina polida.
De súbito, um estrondo — um impacto seco e violento nos interrompeu, vindo de algum ponto próximo. Todos voltamos os olhos à porta, a tensão nos envolvendo como neblina espessa. O receio de que algo — ou alguém — invadisse nossa reunião informal apertou nossos peitos.
— Em que parte do castelo estamos, Monm? — perguntei, tentando manter o controle. — Há alguma arma aqui? Algo com que possamos nos defender?
— No flanco noroeste — respondeu com firmeza. — Próximo à torre, mas fora do alcance da busca de Arturo. Mesmo assim, este castelo é... imenso. Vivo. Parece ter vontades próprias.
Fez uma pausa, os olhos vasculhando o aposento.
— Atrás daquela porta, há um corredor que leva a um salão usado como armazém. Há um portão para o exterior e uma rampa em L que desce pela encosta da montanha até o vale. Creio que você conhece essa região, Anton — explicou, enquanto revirava um armário à minha esquerda. Sua voz tornara-se grave, baixa, tentando não denunciar nossa posição.
Então, um grito — quase bestial. Um som gutural que fez meus pelos se eriçarem. Meu coração acelerou. A respiração se tornou densa. Aquilo me transportou de volta à guerra. Era como se a morte soprasse novamente em minha nuca.
Começamos a vasculhar o ambiente, buscando algo que servisse à batalha. Logo, Monm encontrou algo.
— Anton, isto pode ser útil — disse, afastando-se para que víssemos.
Dentro do armário repousavam três armas: duas adagas longas, uma adaga curta e uma rapieira.
— Estou mais habituado a armas longas. Dê-me a rapieira — pedi.
Empunhei-a. Seu peso, seu comprimento, seu equilíbrio — tudo nela me falava. Sentir aquele metal em minhas mãos trouxe-me uma paz estranha, como reencontrar uma antiga companheira.
Monm ficou com as adagas. Para nossa surpresa, Siehiffar, sem hesitar, tomou para si a adaga curta. Um brilho de determinação cintilava em seus olhos. Estávamos armados e, mais do que isso, preparados. O espírito, silente, mas desperto.
— Vamos pensar. Monm, você abre a porta. Eu fico à esquerda. Siehiffar, de frente. Não atacamos primeiro; observamos. — propus, ajustando minha postura de combate.
As pancadas intensificaram-se. Metal contra metal. Sons ocos e ressonantes. Atrás daquela porta, um combate feroz desabava como tempestade sobre penhasco.
Antes que pudéssemos agir, um estrondo seguido por uma explosão. Fomos à porta. Monm posicionou-se atrás dela, eu ao seu lado oposto, e Siehiffar de frente. A urgência pesava no ar.
— Um... — sussurrou Monm, começando a contagem.
Abrimos a porta com cautela. O corredor estava iluminado pelas tochas de Arturo. Nenhum sinal de batalha — mas os sons ainda ecoavam, cada vez mais perto.
Monm se voltou para a jovem.
— Siehiffar, daqui você não passa. Não sabemos o que há adiante. Daqui, você pode fugir pela passagem do tempo.
Sua voz era suave, mas firme. Um mestre zelando por sua pupila. Contudo, ela não se calou.
— Um dia terei de ver o mundo, Monm. E o mundo terá de me ver. — Sua voz era uma chama contida. Pela primeira vez, vi desaprovação em seu semblante.
Monm e eu seguimos. Antes de partir, olhei para trás.
— Quanto antes resolvermos isso, mais rápido voltaremos. — Minhas palavras eram de aço, moldadas pela disciplina militar que me guiava.
O corredor era breve. Ao alcançarmos a porta do armazém, ouvimos gritos — e então a porta explodiu. Um corpo juvenil foi arremessado contra a parede de pedra, tombando ao chão como boneco sem vida.
Aproximei-me das sombras do umbral. No interior, o confronto prosseguia. Monm examinava o corpo: um jovem desfigurado, com vestes negras e uma cruz branca no peito. Um clérigo? Um guerreiro da fé? Mas o que fazia aqui?
Dei um passo à frente. A batalha me chamava.
E meu sangue… já começava a fervilhar.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…