O Reflexo da Bruxa
Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas fantasmagóricas sob a luz pálida do céu nublado que anunciava uma tempestade. As chaminés, ainda soltavam fios preguiçosos de fumaça, o som das lareiras crepitantes nos interiores, denunciava a existência da vida humana. Uma montanha se erguia imponente ao fundo, parecendo guardar segredos ancestrais, com seu cume envolto em nuvens densas e pela neve. Árvores esqueléticas ladeavam o vilarejo, seus galhos despidos de folhas estendendo-se como mãos ossudas contra o horizonte gelado. Cada passo dado ali afundaria suavemente no gelo, o vento sussurrava histórias esquecidas entre os becos estreitos e desolados.
No limite acinzentado do céu, um alinhamento raro e fascinante tomava forma: os planetas, como joias brilhantes, organizavam-se em uma configuração triangular quase que perfeita. Cada ponto luminoso parecia pulsar com uma energia única, conectando-se ao próximo por linhas imaginárias que formavam um triângulo celestial. O espetáculo transcendia a imensidão do cosmos. O alinhamento triangular era místico, como um símbolo oculto desenhado no firmamento, ecoando a harmonia secreta do universo.
Caminhando sozinha pela neve, ela ergueu os olhos em busca de contemplar aquela visão quase divina. Um arrepio percorreu seu corpo ao deparar-se com a cena, mas, mesmo assim, continuou sua jornada. Cada passo afundava no silêncio gélido, enquanto tentava distinguir o que era real e o que eram projeções de sua mente fatigada.
A longa jornada havia consumido suas forças, deixando-a vulnerável, como uma casca vazia de quem um dia já fora. Atrás dela, ficava uma vida inteira desfeita, fragmentos de memórias que dançavam como fantasmas: euforia, raiva e tristeza se misturavam em um turbilhão que a atormentava sem descanso. Ao inspirar profundamente, sentiu o ar cortante invadir seus pulmões, trazendo uma dor que a fazia se sentir viva, ainda que por um instante. Uma estranha sensação a impelia adiante, guiando seus passos entre as casas desoladas, cujas janelas revelavam visões perturbadoras – sombras imóveis e figuras mórbidas que a observavam, como se zombassem de sua presença ou aguardassem algo mais.
Minerva caminhou a passos lentos até atravessar uma encruzilhada encoberta pela neve, seu vestido estava aos trapos e seus caninos apareciam mostrando sua ansiedade. Os olhos dela buscavam um caminho enquanto ela cobria a cabeça com um lenço de cor púrpura muito escuro. Ao passar por uma árvore robusta, de grandes galhos sem folhas, avistou uma figura sinuosa vestida de negro, segurando um cajado. Aquela pessoa estava ali, recebendo o vento e a neve no rosto, como se já aguardasse sua chegada. Um olhar sombrio e perfurante foi lançado sob a jovem Minerva, olhos frios e brancos como a neve a encaram, mas ela não temeu.
Sem olhar para trás, Minerva continuou seu caminho, passando pelo ser que a observava. Mesmo em silêncio, a mensagem daqueles olhos perfurantes ecoava em sua mente como um sussurro sobrenatural: ela trilhava um caminho que ultrapassava as barreiras do tempo e do espaço, um percurso repleto de riscos. O aviso a envolveu como uma sombra persistente, mas não a deteve. Seus passos permaneciam lentos, e seu olhar voltava-se ao chão, enquanto ela mantinha o rosto parcialmente coberto pelo lenço, tentando escapar do toque cortante do vento.
Adiante, o cenário tornou-se ainda mais desolador. Toda a vegetação estava sepultada sob a neve, transformando o ambiente em um vazio branco e silencioso. Um rio congelado se estendia como uma cicatriz de gelo, guardando uma ponte de madeira antiga e desgastada que estalava com o peso do tempo. Além dela, não havia muito que fosse visível, apenas uma tempestade de neve densa que engolia o horizonte, tornando impossível saber o que a esperava do outro lado. Sem hesitar, Minerva avançou, determinada a atravessar. Cada estalo da ponte parecia um aviso, mas ela ignorava os temores. Com o coração pulsando como o único som vivo naquele mundo, avançou em direção ao desconhecido, encarando a tempestade que era a única forma de descobrir o que aguardava no outro lado, um novo destino ou o próprio fim.
Ao finalmente atravessar a ponte, o gelo ainda cobria tudo, e o céu acinzentado despejava flocos de neve pesados enquanto ela lutava para seguir, seus passos afundando no frio. A alguns metros à frente, a silhueta de um antigo castelo emergiu através da neblina. Exausta, ela imaginou que ali poderia encontrar abrigo e descanso. O castelo erguia-se contra o céu plúmbeo, suas torres recortando a paisagem como lanças de pedra negra. Os muros, envelhecidos pelo tempo, exibiam uma profusão de gárgulas e arcobotantes que se retorciam em formas grotescas. O vento sibilava entre os vitrais góticos, os fragmentos multicoloridos projetavam sombras irreais sobre os corredores vazios que ela percorreria.
Ela aproximou-se das portas colossais, que se abriram sem que precisasse tocá-las, movidas pela força de sua própria magia. Ao adentrar o castelo, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som de seus passos. O ambiente estava escuro e frio, como se há muito tempo estivesse abandonado. Ela suspirou profundamente ao remover o lenço que cobria sua cabeça e ergueu o olhar para observar as hastes das lancetas de metal que adornavam o interior do castelo. Com a mão direita, conjurou uma esfera reluzente que iluminou o local, revelando detalhes ocultos nas sombras.
Nos salões mais profundos, a umidade impregnava o ar com um cheiro de terra antiga e cera derretida. As tapeçarias desgastadas se agarravam às paredes, escadarias em espiral serpenteavam para torres que se perdiam na neblina densa, e passagens secretas escondiam-se entre contrafortes e colunatas, como se a própria arquitetura conspirasse para ocultar mistérios.
Enquanto suas memórias ecoavam em sua mente ao observar o castelo, ela percebeu que havia fugido de um castelo apenas para encontrar refúgio em outro. Explorando os corredores envoltos em penumbra, deparou-se com uma sala oval que chamou sua atenção. Uma longa janela abobadada permitia que um feixe de luz suave iluminasse o ambiente. Estantes repletas de livros antigos e empoeirados alinhavam-se ao longo das paredes curvas enquanto, no centro da sala, uma mesa exibia pergaminhos enrolados.
Ela perambulava pela sala, os olhos analisando a disposição dos móveis e se detendo nos títulos dos livros alinhados nas estantes. Os títulos chamavam a sua atenção, Os Manuscritos Enóquicos e Os Três Livros da Filosofia Oculta estavam entre eles. Para enxergar melhor, conjurou uma esfera de luz branca que flutuou acima de sua cabeça, banhando o ambiente com um brilho frio e pálido.
Folheando outros livros da estante, ela encontrou um bestiário sem nome na capa e entre páginas amareladas, deparou-se com criaturas que nunca havia visto antes, seres distintos, oriundos de dimensões além da compreensão. Ao parar numa página em particular, um nome saltou aos seus olhos: Ttyphrssett. A descrição era de uma criatura inominável, com pele pálida e elástica, marcada por rugas profundas e atravessada por um emaranhado de veias pulsantes em tons de roxo intenso. Os olhos, desprovidos de íris e retina, eram abismos opacos, poços de vazio absoluto. Da protuberância que formava sua boca, despontavam dentes afiados como lâminas agudas, enquanto seu corpo, esguio e esquelético, sustentava uma cabeça longa e curvada, grotesca em sua forma.
Ela ficou imóvel por longos segundos, os olhos fixos na ilustração ao lado da descrição. Havia algo perturbadoramente fascinante naquele ser, mas o que mais prendeu a atenção de Minerva foi uma nota que leu abaixo da imagem. De acordo com o bestiário, aquela criatura manifestava-se apenas durante um raro alinhamento de quatro planetas: Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.
Esse evento cósmico liberava uma energia ancestral, tão poderosa que era capaz de rasgar o tecido do cosmo, abrindo uma fenda para dimensões esquecidas. Dessa brecha insondável, banhada em sombras e ecos de magias primordiais, emergia o Ttyphrssett uma entidade que surgia dos reflexos, seu toque poderia devorar lentamente a alma de todos que tivessem a desventura de cruzar seu caminho.
Ao ler essas palavras, a memória do estranho fenômeno que havia presenciado no céu, lhe veio à mente como um presságio. Fechando o livro, devolveu-o à estante, como se pudesse, com esse gesto, trancar o conteúdo que lá estava. Decidida a afastar as imagens que invadiam sua mente, Minerva saiu da biblioteca. A pequena esfera de luz flutuante continuava a iluminá-la, projetando sombras alongadas pelas paredes do castelo enquanto ela caminhava. A escuridão ao redor parecia cada vez mais densa.
Ela subiu uma escada em espiral, por longos minutos, até se deparar com um corredor que se estendia como um túnel infindável, ladeado por portas altas e angulosas, todas idênticas em uma geometria opressiva. O silêncio ali não era natural e parecia carregado por um peso invisível, como se algo esquecido observasse das sombras. Minerva caminhava hesitante, sentindo a atmosfera ao seu redor, até que seus olhos pousaram em uma porta distinta das demais. Gravado em sua superfície desgastada, o símbolo do ouroboros que reluzia fracamente, aquilo evocou memórias fragmentadas do conhecimento de sua vida passada.
Com um gesto sutil, ela murmurou um encantamento e a fechadura cedeu sem resistência, como se a madeira e o ferro tivessem esperado por seu comando. A porta se abriu com um ranger estridente, e o espaço adentro revelou-se um quarto abandonado ao tempo. O ar ali dentro era denso, impregnado pelo cheiro de poeira. No centro do aposento, uma cama solitária jazia sob um manto de poeira. Sem se importar com a sujeira, Minerva se deitou sobre os lençóis ásperos e embolorados, e enquanto sua consciência esvaía-se no torpor do sono, sentiu, ou imaginou sentir, um murmúrio longínquo vibrando sob a estrutura do quarto.
Quando despertou, algumas horas depois, o silêncio era estático. Ainda deitada, seus olhos vagaram pelo aposento até pousarem sob um objeto à sua frente. Encostado contra a parede, diretamente oposto à cama, um grande espelho retangular erguia-se como um monólito. Suas bordas de prata, manchadas pelo tempo, contrastavam com o véu negro que ocultava o vidro concavo do reflexo. Minerva ergueu-se lentamente, seus passos ecoaram surdos no chão empoeirado enquanto se aproximava do espelho. Um frio espectral percorreu sua pele quando sua mão se estendeu para tocar o tecido denso e opaco.
Seus olhos tremeluziram quando, em um movimento rápido, ela removeu o tecido que cobria o espelho. Por alguns instantes, encarou o próprio reflexo como se o visse pela primeira vez. A superfície do espelho, embaçada pelo tempo, distorcia levemente sua imagem, mas ainda era possível discerni-la. A esfera luminosa se aproximou novamente, projetando uma penumbra entre ela e o vidro. Seu cabelo negro, desgrenhado e esvoaçante, estava preso apenas por duas mechas reunidas com um broche na parte de trás. A calça de linho escura mostrava sinais de desgaste, e as botas finas e rendadas já acumulavam sujeira e umidade da neve. O longo casaco Garrick Coat preto e acinturado, abarrotado e coberto por marcas de uso, exibia manchas acinzentadas. Ela fitou sua própria imagem e, por um instante, tudo o que viu foi a figura de um pedinte.
Após alguns instantes contemplando a própria visão, seu reflexo começou a tremeluzir em fios de luz roxa, distorcendo-se em ondas etéreas. Seus olhos, antes familiares, tornaram-se violetas, vibrando com uma luminescência antinatural. De súbito, ela deu um passo para trás, o coração disparado sem compreender o que estava acontecendo. O seu próprio reflexo tinha ganhado vida!
Então, a figura no espelho vociferou um zunido lancinante, alto como o lamento de uma banshee, rasgou o ar, obrigando-a a cobrir os ouvidos e se encurvar sob a dor. Sua imagem continuou a se contorcer, desfeita em sombras púrpuras e pulsantes, até dar lugar a algo grotesco.
Diante dela, uma figura corpulenta e esquelética emergia em distorção, seu crânio alongado desafiando qualquer lógica geométrica. Mandíbulas se abriam além dos limites normais, expondo fileiras de dentes finíssimos, como agulhas de marfim manchado, que reluziam à luz de uma fonte invisível. No lugar dos olhos, apenas poços esbranquiçados e vazios, devorando a realidade.
Os membros do ser, longos e desproporcionais, terminavam em garras multifacetadas que se dobravam e desdobravam com movimentos imprevisíveis, como se seguissem um ritmo ditado por forças além da compreensão humana. Aquilo começou a se posicionar para fora do espelho e seu deslocamento não era uma caminhada, tampouco um rastejar, mas um fluir espectral, um deslizamento silencioso negando as leis da gravidade. Minerva tentou fugir daquela visão anormal a passos rápidos em direção a porta do quarto, mas a criatura a perseguia. Ela estava desprovida de armas, tinha apenas a sua magia consigo e era com ela que contava.
Minerva corria a passos longos pelo corredor enquanto ouvia o remexer corpulento e estranho daquela criatura pelo ar, ela não estava apavorada em si, mas não queria precisar usar sua magia final como último recurso, por isso, tentou fugir da criatura para lutar contra ela à distância e, talvez, queimá-la com suas chamas ou eletrocutá-la com seus raios. As cenas de como abater aquilo passavam por sua mente enquanto ela buscava a saída do castelo. A criatura avançou rapidamente, movendo-se junto às paredes e saltando pelo corredor escuro. À frente estava um vitral e Minerva mirou os vidros desenhados com a pintura de um demônio alado cavalgando um corcel; ela iria jogar a criatura contra o vitral ou a si mesma.
Sua mente trabalhava febril, traçando possibilidades, pesando: fogo? Raios? Qual magia poderia desfazer aquela aberração que parecia tecida pela própria Hela?
A coisa se aproximava. O zunido de sua presença se confundia com os ventos uivantes que atravessavam os corredores do castelo. E então, com um estalo súbito, ela saltou, as garras se estendendo para capturá-la. Minerva girou sobre os calcanhares e lançou um raio crepitante de suas mãos, a centelha azul iluminando por um instante a abominação que avançava. O feixe a atingiu em cheio, mas a criatura apenas vacilou, a pele translúcida pulsando em padrões doentios, como se sua própria carne se contorcesse para se recompor.
O impacto do ataque empurrou Minerva alguns passos para trás, até que suas costas tocaram uma parede fria. Não havia mais para onde correr. À sua direita, uma janela alta se erguia, seus vitrais manchados por marcas acinzentadas. A criatura rugiu, e o som que emanou de sua garganta era vibrante e gutural.
Minerva não hesitou. Com um gesto rápido, ergueu as mãos e projetou uma explosão de chamas contra o chão. Então, antes que ele pudesse reagir, ela lançou-se contra a vidraça. O vidro explodiu ao seu redor, cada fragmento refletindo as chamas como facas suspensas sob o ar. E a criatura, movida pelo próprio ímpeto, seguiu-a na queda.
O frio atingiu Minerva antes mesmo de tocar o chão. O impacto foi violento, os flocos de neve cederam sob seu corpo, mas não o suficiente para amortecer sua queda. O mundo girou por um instante, levando com ele o céu escuro, as torres do castelo, a criatura retorcendo-se na queda. A bruxa cerrou os dentes, sentindo o gosto metálico do sangue. A luta ainda não havia terminado.
Ela abriu os olhos e as suas escleras pulsavam em vermelho vivo, ressaltando o azul brilhante, cor de safiras, aquele fenômeno indicava a sua irritação. Ela ergueu-se aos poucos da neve, estava coberta pelos flocos. Ao ficar de pé, olhou para o céu e viu os planetas ainda em perfeito alinhamento triangular, então, teve a certeza de que estava em confronto com o Ttyphrssett.
O silêncio se fez presente, mostrando que algo estava errado, onde estava ele? O ataque veio sem aviso. Algo cortou o ar ao seu lado, rápido como a lâmina de uma guilhotina, e ela mal teve tempo de esquivar-se antes que garras invisíveis rasgassem seu ombro. O vento trouxe um roçar fantasmagórico. O inimigo era o próprio véu de gelo que a cercava, ele se camuflara com a neve.
A criatura atacou novamente. Desta vez, ela estava à espera do golpe. Com um giro preciso, ela usou sua magia fazendo surgir de suas mãos as garras de loba que não encontraram resistência, rasgando o invisível. Um grasnar disforme soou, e por um breve instante, luzes arroxeadas brilharam, revelando a silhueta da aberração. Minerva viu seus dentes escancarados que logo se dissiparam invisíveis. Sem hesitar, ela ergueu as mãos já naturais e liberou uma torrente de chamas. O fogo crepitou, dourado e impiedoso, iluminando o vazio onde a coisa se camuflava e mais uma vez o golpe revelou o corpo disforme, contorcendo-se em brasas e luzes púrpuras, a criatura urrou, mas não cedeu.
Minerva ergueu um escudo esférico ao seu redor, protegendo-se do monstro, ela sentia os golpes frenéticos contra o escudo invisível. Ela precisava dar um fim àquilo; seus olhos vermelhos estavam frenéticos e atentos a cada movimento. Concentrada e decidida, ela já sabia o que fazer. Sussurrou palavras, baixinho, enquanto desenhava círculos, linhas e setas ao seu redor. Os sigilos cintilavam no ar enquanto ela pronunciava as palavras cuidadosamente.
Sua voz entrecortada pelo vento gelado que uivava ao seu redor, fez as palavras escaparem de seus lábios roucamente; eram sílabas distorcidas, fragmentos de uma língua oculta. A cada símbolo que traçava no ar, o tecido da realidade tremeluzia, como se uma força invisível hesitasse em ceder às vontades da bruxa.
A criatura sentiu o que ela estava articulando, então, o escudo esférico tremeu sob impactos cada vez mais violentos. A coisa não apenas atacava, mas berrava dissonante, uma reverberação além do espaço tangível. Minerva cerrou os dentes ao se concentrar e a criatura voltou a aparecer no meio da neve, ela quebrou o encanto da camuflagem.
Os sigilos, agora incandescentes como brasas azuladas, começaram a girar em torno de seu corpo. O chão sob os pés da criatura ruiu em um abismo e seres obscuros e monstruosos surgiram, presenças cujos olhos fitavam o Ttyphrssett.
A criatura golpeou, com um frenesi desesperado, o escudo. Fissuras finíssimas serpentearam pela superfície translúcida do escudo, como rachaduras em vidro prestes a se estilhaçar. O monstro sabia que estava sendo banido, que seu domínio sobre este mundo se desfazia como névoa ao sol nascente.
Minerva ergueu os braços, as mãos envoltas em uma luz ofuscante, e gritou a última palavra de suas preces: "Eligos". O ar ao redor explodiu em um clarão sinuoso, um relâmpago de luz e trevas entrelaçadas. A criatura emitiu um grunhido estranho e seu corpo esticou-se, distorceu-se, tornando-se um vórtice esbranquiçado com tons violetas que foi sugado para dentro do abismo onde os espectros sombrios o aguardavam. Por um instante, tudo ficou imóvel quando o abismo se fechou levando a criatura.
Ela deixou escapar um suspiro sôfrego, a neve tornava a cair lentamente, dissolvendo os últimos vestígios da batalha. Minerva permanecia de pé, a respiração entrecortada, os olhos ainda brilhando com o resquício de um poder que se dissipava. O que enfrentara não era apenas uma criatura, era um fragmento de algo muito pior. Algo que, do outro lado do abismo entre os mundos, agora conhecia seu nome.
Batendo a neve dos ombros, ela ergueu o olhar para o céu, onde o alinhamento dos astros lançava um ar espectral sobre a vastidão nevada. Um arrepio percorreu sua espinha; havia algo de inquietante naquela dança cósmica, como se a própria estrutura do universo estremecesse diante de forças sidéreas. Seus olhos vermelhos voltaram ao natural e, mais tranquila, pensou no que mais ela poderia encontrar naquele lugar tão distinto. Então, retomando sua avidez, ela virou-se e caminhou retornando em direção aos portais do castelo, no limiar das dimensões.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
Pergaminhos do caos sangrento
Na penumbra úmida do Castelo Drácula, Arale Fayax, a felina xamã viajante e hospedeira do alcácer noturno, debruçou-se sobre um diário poeirento, oculto…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na penumbra úmida do Castelo Drácula, Arale Fayax, a felina xamã viajante e hospedeira do alcácer noturno, debruçou-se sobre um diário poeirento, oculto no subsolo de uma livraria decrépita.
As páginas sussurravam segredos selados, e ao folheá-las, sentiu um torpor gelado.
De súbito, o papel dissolveu-se em névoa, e ela foi tragada por um vórtice de palavras e símbolos arcanos.
Ao emergir, viu-se diante de uma ponte tecida de arco-íris manchado de rubi. O solo fremia, e trovões retumbavam em um firmamento tingido de azul-acinzentado. Adiante, numa sala selada, repousava uma ânfora de cristal, onde um líquido rosa e espesso pulsava, reminiscente do sangue corrompido de sua linhagem ancestral.
No exílio de eras, um presságio bradava:
A xamã eleita, em rosa consumida,
Foi pela treva impura convertida,
No sangue selado, em sombra escrava.
Os ancestrais de Arale buscavam pela criatura nefasta que possuíra sua oráculo predestinada, subvertendo-lhe a alma pura. Seu sangue, antes sagrado, tornara-se néctar maldito, e nele a entidade foi selada. Agora, ali diante da ânfora, Arale sentiu um murmúrio vibrar no éter.
As sombras se contorceram, e um espelho velado se ergueu ao fundo. O manto negro que o cobria deslizou por conta própria, revelando o horror do Ttyphrssett. A criatura exsudava a essência pútrida dos famintos, sua pele lacerada por incontáveis dentes que lhe rasgavam a boca por dentro. O fenômeno Nemonium se fazia presente—o tempo quebrava-se, realidades se chocavam.
Com seu machado e lâminas em punho, Arale avançou.
Sua máquina de escrever, ela a cravou no solo enquanto ela pulsava pergaminhos de sangue e registrava a criatura em seu bestiário cósmico e de ossos...
O monstro, ágil como um trovão em queda, deslizou pelo salão, buscando envolvê-la em seus longos membros. Suas veias púrpuras pulsavam com fome ancestral.
Em riste, Arale investiu.
A lâmina rasgou a carne do ser, mas a dor era combustível para sua fúria. Num assalto cruel, Ttyphrssett enlaçou-a, puxando-a para a superfície gélida do espelho. Arale sentiu sua carne arder, a barreira entre mundos prestes a consumi-la. Mas com um último fôlego, cravou sua adaga rubra no coração pútrido da besta.
Os rugidos da criatura eram a sinfonia da ruína. Seus membros se contorceram, estilhaçando o vidro do espelho em um turbilhão de trevas e ecos de gritos esquecidos. A ânfora ressoou, vibrando como se as próprias trevas tentassem eclodir.
De aço e chamas, dançou com a fera,
Cortando sombras, desafiando a espera,
O fim sangrento, escrito e previsto.
A lâmina rasgou a carne do ser, mas a dor era combustível para sua fúria.
Num assalto cruel, Ttyphrssett enlaçou-a, puxando-a para a superfície gélida do espelho.
Arale sentiu sua carne arder, a barreira entre mundos prestes a consumi-la. Mas com um último fôlego, cravou seu machado com sua lâmina rubra no coração pútrido da besta.
O espelho explodiu em fragmentos de sombras e ecos de gritos.
A ânfora ressoou, vibrando como se as próprias trevas tentassem eclodir.
Arale sabia que o lacre se enfraquecia, o ar estava pútrido e pesado, enguias, águas vivas de sangue e bolhas de veneno e dor e escuridão pulsavam com relâmpagos de sangue pulsantes...
Um tremor abissal eclodia, a terra gritava,
o ar sufocava, o céu derretia...
Fora do castelo, uma cidade impossível erguia-se.
Figuras pálidas caminhavam entre cabras de olhos sombrios.
O canto dos Doutrinadores ecoava de uma catedral sepulcral, oferecendo-lhe absolvição.
Mas Arale não buscava salvação....
Ela buscava a verdade.
Adiante, a Ponte Sem Fim surgia em meio à tempestade.
Se a cruzasse, enfrentaria seus maiores arrependimentos.
Mas era um preço que estava disposta a pagar.
Sob o céu fendido pelo Nemonium,
Arale seguiu,
sabedora de que o véu entre realidades
jamais se fechava para aqueles que ousavam conhecer seus segredos.
Na fenda do tempo, onde a sombra jaz,
O sangue selado em ânfora persiste,
O horror renasce, o ciclo insiste,
E só a lâmina audaz a ruína traz.
Na ponte insana, o vento entoa um pranto,
Lamento frio de almas esquecidas,
São vozes tristes, dores divididas,
Segredos mortos que retornam tanto.
Avança Arale, o olhar de ferro e encanto,
A sombra ao pé, as chagas não dormidas,
No peito, as mágoas são feridas
Que sangram a cada suspiro e canto.
Mas eis que surge um vulto espectral,
Da fenda antiga, um rosto conhecido,
Olhos vazios, do pranto infernal.
A xamã caída, outrora luz, perdida,
Ergue a mão em chamado desleal,
A ânfora pulsa, sedenta, esquecida...
Em tom soturno, o vento traz um nome,
Sussurra em brisa o fado e a perdição,
Arale treme, entre dor e visão,
Pois sente a ânfora chamá-la ao seu tome.
O líquido rosa escorre em puro dome,
Goteja lento, em mágica atração,
O tempo sangra, em cruel perdição,
A felina xamã sorri, selando a fome.
Recolhe do solo sua máquina de escrever de ossos
Mágica o tomo, o machado pulsa o elixir,
Mas se beber, cairá na ruína,
Se recusar, a ponte ruirá,
Ao coexistir, mortos cantarão sua sina.
Eis o dilema, entre luz e os pesares,
Os horrores, as cores, de um obscuro passado que alumia,
Nas sombras do éter, ela há de permanecer,
Criogenia dos pergaminhos do caos sangrento...
Há de eximir tal perigrinação?
Um coração que brada sepulcral,
A neve dança em véu de funeral,
Turva o olhar em névoa carmesim,
Na noite gélida, cântico abismal,
Ergue-se ao vento, soturno e sem fim.
Trepida o solo sob o passo vil,
A sombra ri em eco abissal,
Lâminas brilham em duelo febril,
A ruína espreita em jugo infernal.
Sangue na neve, um rubro espectral,
A xamã clama, a fúria a devora,
No abraço da morte, laço mortal.
Por entre as fendas, o tempo implora,
Arale ruge, em queda final,
O gelo a cobre, a treva a chora.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Capítulo 5: Renascimento
O desassossego noturno retornou para açoitar-me. Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
5º relato
O desassossego noturno retornou para açoitar-me.
Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais, pois esse texto reflete meu estado de espírito perturbado — o registro começou minutos após os eventos.
Eu, notívaga inata e teimosa em semelhante proporção, insistia em lutar contra a minha natureza. Contudo, compreendi que a noite não me trará descanso, mas poderá ser aliada nas minhas aventuras por lugares desconhecidos, internos ou externos a mim.
Contarei sobre um evento terrível e curioso, onde tive que enfrentar os limites da realidade. Novidade! Escavei coragem de um solo árido, até então, nunca regado por mim.
***
Algumas horas antes
Os sonhos arrastavam e sugavam-me para um oceano revolto por correntezas perfurantes. O despertar foi acompanhado de um grito. Gélido ar aspergia lâminas que perfuravam minha pele desnuda, mas as janelas estavam, hermeticamente, fechadas. De onde provinham?
Gritei por Lisa. Nada. Onde ela estava? Já prevendo outra incursão pelos recônditos do Castelo à procura da gata que tinha paixão por entrar em enrascadas, apoiei meu pé direito para levantar-me e o chão quase me paralisou, tamanha frieza com que me recebera.
Estranho. Não lembro de ter presenciado frio tão intenso desde que chegara aqui, mas imaginei ser normal. O chão estava coberto com uma textura peculiar. Ao passar suavemente o pé naquela superfície, ouvi um farfalhar, algo macio, gelado... Neve! O assoalho era um campo nevado!
Não confiei estritamente no tato, meus sentidos estavam diferentes. Não era? NÃO ERA?! Poderia confiar nos meus olhos? Acendi o abajur e a luz iluminava o tapete de gelo, entretanto, permanecia não acreditando no que estava vendo, sentindo.
Estabilizei meus pensamentos. Óbvio que eventos bizarros acontecem no Castelo, por que eu estou surpresa? Vesti um casaco longo de lã em tom de caramelo e uma calça preta justa em um tecido quente e escuro; para aquecer o pescoço, enrolei um lindo cachecol xadrez macio e completei o look calçando as botas de couro preto de cano alto. A quem pertencia aquelas roupas? Saí do quarto e embrenhei-me pelo corredor, cujo chão também estava revestido de neve límpida.
Enquanto percorria os imensos corredores do Castelo, recordava o último encontro com o Drácula: o momento que estava diante das três portas, que ele havia me ofertado, mas nas quais não adentrei. Será que ele havia ficado chateado com a minha rejeição? O que ele poderia fazer com Lisa? Vampiros podem alimentar-se do sangue de animais? Afastei o último pensamento, bobagem pensar que a criatura elegante poderia agir de forma tão vil.
Afligida pela dúvida, segui em direção àquele salão. Tudo estava diferente. Não era mais um salão de festas suntuoso, adornado de luxos e enfeites dourados. Diante da frustração de não encontrar a minha Lisa, nem as portas ou o Drácula, fechei os olhos e, ao abri-los, percebi estar na área externa do Castelo, no jardim!
Guiada pela maldita curiosidade, vasculhei ao redor. O luar iluminava a vegetação esverdeada, sem vestígios de que ali houvera caído neve. Passei pela estradinha com pedras âmbar, a mesma que havia utilizado quando cheguei aqui, mas agora descendo em direção ao portão principal. A temperatura estava amena e senti tanto calor que retirei o casaco e o cachecol.
A caminhada seguia perturbada por pensamentos terríveis, cuja racionalidade insistia em questionar o porquê daquelas alterações bruscas de temperatura e condições climáticas. Calei essa voz que gritava por explicações, pois este local não segue leis e princípios conhecidos.
Cheguei ao portal. Suas folhas eram como espelhos retangulares preenchidos por uma substância semelhante à névoa negra, pulsava e parecia ferver. Aproximei-me, sussurros incompreensíveis me instigaram a tocar na cascata nebulosa. Deveria? Óbvio que não! Mas eu me permiti ir além.
A névoa envolveu-me por completo, preencheu cada centímetro do meu rosto, cabelo, membros e tronco, e sentia-me levitar. Meu corpo, tomado por aquela força ficou em posição horizontal, flutuando. Primeiro foi a minha cabeça que passou por um dos retângulos-folha. Ao longe avistei uma criatura horrível, sem olhos, pele translúcida e com tantos dentes pequenos e afiados que mal podia contá-los.
Sustentada pelo medo-força atravessei, sem de fato mover nenhum músculo, o limiar que separava o Castelo do “Nenomium”, um lugar onde coisas ainda mais impossíveis poderiam acontecer. Amaldiçoei, novamente, a minha curiosidade!
Terminada a transição, percebi que a única coisa que me pertencia era o amálgama de sentimentos, mas agradeci por não ter largado o casaco e o cachecol, pois do outro lado estava deveras frio.
A criatura horrível permanecia inerte, mas sorria de forma a gerar um insensato desconforto, e em fração de segundos, devido sua agilidade excessiva, locomoveu-se e parou frente a mim. O fato de não conseguir sondar seus olhos inexistentes aumentou meu receio.
Agarrou-me pelo pescoço com tanta brutalidade que pensei ser o meu fim. Foi quando ela apareceu, alta, esguia e coberta com longo manto negro, que conferia-lhe um aspecto misterioso, imponente. Uma mulher, acompanhada de dezenas de cabras negras, surgida do além para livrar-me das garras da criatura sem olhos. Com voz firme ordenou para que ele me soltasse. E tal como um servo fiel e obediente abriu de imediato as mãos constituídas de dedos compridos e pele descamadas. Fui ao chão.
Havia sido por pouco. Ao contrário do que costumam dizer, talvez como forma de romantizar a partida, o desespero causado pela aproximação da morte não te faz recordar nada, eu lutava tanto pela minha vida que não tinha tempo hábil para pensar nas coisas passadas. Arrependimentos não foram companheiros.
Recobrei o ar e o pouco de dignidade que ainda me restava. Em todo momento a mulher permaneceu quieta, observando-me. Quando consegui reconstruir a minha eu interior, perguntei seu nome e recebi um silêncio constrangedor como resposta. Teci mais algumas perguntas, as quais nenhuma resposta recebia. Perguntei por Lisa, e ela apontou para o portal, entendi que ela estava no Castelo. Quase morri por uma missão inútil!
Agora, pensando com calma, pergunto-me se eu realmente iria morrer. Tudo aqui é fantástico, não seria a morte uma possibilidade de viver outras vidas, um renascimento carnal e espiritual? Por que eu ainda tenho medo?
Voltemos ao relato. Explicou-me o que era o “Nenomium”. Por fim, disse-me que eu tinha duas opções: ficar naquele local e descobrir verdades almejadas ou voltar para o Castelo e para Lisa. Eu estava realmente preparada para enfrentar situações adversas e desconhecidas? Não! Eu não estava pronta, e não ignorei os meus instintos de sobrevivência, aquela noite já havia me proporcionado emoções intensas e meu pescoço ainda doía. Levantei-me e segui com passos firmes em direção ao portal para retornar ao Castelo. No entanto, ao recordar-me de me despedir, virei-me, mas a mulher misteriosa já não estava lá. Um calafrio percorreu minha espinha e então corri. Não podia depender da sorte novamente: encontrar outra vez aquela criatura voraz não era algo que eu pretendia arriscar.
Do outro lado, de fato, encontrei Lisa. Jazia em frente à porta principal. Seu corpinho estava retorcido, aproximei-me e vi o fio vermelho da vida escorrendo de sua boca. Quem a machucou? Aquela maldita criatura?
Gritei por ajuda. Após muitos gritos e lamentos, Drácula veio ao meu encontro. O rosto impassível emoldurava um sorriso aterrador, imaginei que por culpa e o impedi de se aproximar. Ele ficou me olhando, sem mover um músculo, como que a contemplar meu sofrimento. Esperou eu ficar mais calma e então disse que meu sangue poderia curá-la. À princípio, hesitei, isso era absurdo! Depois refleti:
Que mal poderia fazer? O sangue poderia sim ser a corda com a qual eu a salvaria do abismo que sugara sua frágil vida...
Procurei por um material pontiagudo nos meus bolsos, e é claro que não encontrei nada. Aquelas roupas nem eram minhas! Drácula fitava-me com um olhar que agora entendi ser de compaixão. Na incerteza da sua culpa, cedi. Aceitei os dentes dele cravados em meu pulso, uma leve fisgada seguida de um frenesi instantâneo e indescritível. Não era prazer, orgasmo ou euforia, mas ao mesmo tempo era tudo isso.
Eu o deixaria sugar toda a minha energia, a sensação de não sentir dor, agonia ou tristeza mantinha-me em posição servil, silente. Mas ele cumpriu o combinado, parou o ritual a tempo. O braço perfurado liberou o líquido, o elixir salvador foi vertido na boca da indefesa Lisa. Ela, como quem desperta de um sonho profundo, abriu os olhinhos brilhantes como um céu estrelado. Aproximou-se de mim, delicada, esfregando-se em meu peito, como se pudesse sussurrar um agradecimento mudo pelo sacrifício. Eu chorava e sorria, um turbilhão de emoções dançava em meu ser, enquanto meus olhos buscavam os dele — Drácula!
O que ele fez comigo? Seus olhos, um enigma sombrio, carregavam segredos que eu não podia decifrar, mas havia algo diferente, algo que atravessava o silêncio entre nós. Um laço invisível, inquebrável, parecia nascer ali, conectando-nos de forma mais profunda do que jamais imaginei. Éramos agora partes de um mesmo destino, entrelaçados pela eternidade.
E Lisa, como um raio de sol após a tempestade, está linda e melhor do que nunca.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
17. Castelo Vampírico: O bem que eu quero, esse eu não faço; o mal que não quero, esse faço
07 de janeiro? - Fiquei olhando por um tempo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
07 de janeiro? - Fiquei olhando por um tempo, ela deitada em meio a pedaços de vários tamanhos do lampião quebrado e ela já não era aquela criatura assustada de alguns momentos atrás, estava diferente. Ela percebeu que eu a estava observando, mas continuou a montar o lampião bem concentrada em sua tarefa. Me levantei e fui me sentar na cadeira de frente a escrivaninha, cansada do dia de hoje, cansada de tanta coisa que eu ainda teria que fazer e pensar em fazer, e esperei até que ela terminasse, ouvindo os sons sutis que ela fazia. Logo depois, saiu debaixo da cama devagar, trazendo o lampião consigo completamente montado e se sentou no chão de pernas cruzadas, parecia já se sentir à vontade no quarto e na minha presença. Me olhou com aqueles olhos profundos e falou:
— Eu sinto que isso é sagrado, mas não me recordo o que seja, apenas senti que precisava consertá-lo. — sua boca não se mexia, ela tinha voltado a falar dentro da minha cabeça de novo.
Ela levantou o lampião, intacto, sem ranhuras ou partes faltando, e o estendeu em minha direção para que eu pegasse. Seus olhos não se mexiam ou piscavam enquanto me observava, peguei o lampião e eu não sabia se deveria agradecê-la pelo conserto, mas ela esperava por alguma coisa. A situação já era estranha o suficiente para que eu enrolasse demais e não fosse direto ao assunto.
— Escute, você quer eu abra o livro não é, para que suas memórias voltem? — eu disse logo.
Ela confirmou com a cabeça.
— Mas pensando agora, você já esteve junto do livro antes, lá no laboratório, por que não o abriu?
Ela desviou o olhar e me respondeu:
— Há algo nesse livro que me impede de tocá-lo. Só sei que, por mais que eu tente, ele me rejeita, por isso preciso que alguém faça isso por mim.
Sua fala me deixou com um pouco de suspeita. Que tipo de coisa seria tão específica para mantê-la longe do livro?
— Você vai abrir o livro? — ela perguntou sem emoção nenhuma.
— Vou, mas com uma condição. Tem algo que eu preciso fazer, eu vou abrir o livro e te ajudar a lembrar, mas você tem que prometer que vai me ajudar também.
— Eu prometo te ajudar — ela disse e eu queria acreditar que ela falava a verdade, pois não conseguia interpretar suas intenções.
— Ótimo, então vamos começar — respondi.
Virei a cadeira de frente à escrivaninha e peguei o livro por baixo de uns papéis que utilizei para escondê-lo, a criatura se levantou e ficou em pé atrás de mim, esperando o livro ser aberto. A sensação de ansiedade, a vontade de escondê-lo novamente e deixá-lo pra lá, voltou, mas abri o livro. Algo estranho vibrava dentro de mim, e eu não sabia definir o que era. As páginas do livro amareladas, desbotadas, letras e imagens que pareciam vivas, comecei a sentir um desconforto se formar, uma dor que latejava e dava um gosto metálico à minha boca. As palavras não faziam sentido, tudo estava embaralhado, mesmo que eu tentasse focar nas palavras, elas pareciam dançar à minha vista e eram impossíveis de serem entendidas ou lidas. Pude sentir a frustração crescer dentro de mim, me preparei tanto para abrir esse maldito livro e agora não podia compreendê-lo, eu estava irritada.
— Você consegue lê-lo? — a criatura perguntou.
— Não, as palavras mudam, se misturam, parecem não querer ser lidas. — eu disse frustrada, e parecia que falar isso em voz alta para a criatura parecia me irritar ainda mais. — Preciso pensar no que fazer, prometi que iria te ajudar a recuperar suas lembranças e vou encontrar um jeito de fazer isso. Só que quero parar por hoje, o dia foi cansativo e um pouco frustrante, amanhã eu resolvo isso.
A criatura concordou com um leve inclinar de cabeça. Eu estava cansada, frustrada e algo dentro de minhas entranhas se movimentava. Fui dormir e a criatura se sentou na cadeira na frente da escrivaninha com o olhar fixo no livro que ela também não conseguia ler, ficou assim por horas enquanto eu me deixava ser vencida pelo sono.
08 de janeiro? — Fui acordada bem cedo por um som estrondoso, parecia que viria um temporal. Sem demora fui ao encontro do professor Monm, levando o livro. Eu precisava da ajuda dele, então fui incomodá-lo mais uma vez. Fiquei feliz por encontrá-lo, sentado em meio a livros. Quando me viu entrar, não vi surpresa em seu olhar, parecia que já me esperava. Dei bom dia a ele que me respondeu com sua cordialidade de costume, sentei-me em uma cadeira à sua frente e dei a ele o livro.
— Então, esse é o livro que tem tirado o seu sono? — ele murmurou, passando a mão na capa de couro velha.
— Sim, eu tentei ler, mas as palavras se embolam. — disse, gesticulando ansiosa demais para me controlar.
O professor Monm abriu o livro e seu rosto ficou sério, concentrado. Os olhos correndo sobre as páginas. Então ele fechou o livro, olhou para mim e disse:
— Também não consigo lê-lo, Rute.
Eu fiquei irritada, eu sabia que não era culpa dele não conseguir ler o livro, mas acabei sendo hostil com o professor.
— Mas como? Você é o mais qualificado para isso, não é? — a irritação na minha voz me surpreendeu.
O professor esfregou o rosto e pude notar desconforto na sua expressão.
— Não é questão de ser ou não qualificado, o livro está protegido por alguma magia. Há duas forças agindo sobre esse livro, uma que a bloqueia para que seu conteúdo não seja compreendido e a outra é a alma de quem criou o livro, esta alma influencia o portador a manter o livro neste castelo.
— E como só de olhar para ele você consegue saber tudo isso? — disse confusa.
— Bom, não é a primeira vez que dou essa informação a alguém. — ele disse com um quase rir.
— Então o que pode ser feito? — eu disse respirando fundo e tentando manter a calma e já envergonhada por falar com o professor daquela forma grosseira.
— Talvez a criatura saiba a forma de desbloquear o livro, ela parece estar conectada a ele, talvez precisemos de magia para trazer suas memórias de volta, um ritual talvez? — ele disse isso olhando para criatura, parecia esperar uma reação dela.
— Um ritual? — eu disse aquilo quase sem acreditar que saía da minha boca, mas o que eu esperava agora senão mais coisas sobrenaturais fora do meu campo de experiência.
— Sim, um ritual, pode ser arriscado, já que não tem como prever a intenção da criatura, mas como você está tão convicta disso, acredito que vá querer arriscar? — ele me perguntou, mas parecia já saber a resposta.
— Sim, eu vou arriscar, mas quem realizaria esse ritual, não entendo nada de magia.
— A criatura é a única que tem uma real ligação com esse livro, se ela fizer esse ritual com você, talvez você consiga acessar as memórias dela e consiga desbloquear esse livro. — Monm disse.
Olhei para o livro e para a criatura, que ficou sentada em um canto da biblioteca apenas observando e esperando.
— Tudo bem, se é o que precisa ser feito, então vamos fazer. — me levantei já pegando o livro. O professor Monm concordou com a cabeça, sua expressão demonstrava preocupação.
— Eu posso te ajudar com isso sim, Rute, e encontrar alguém que faça o ritual, Ameritt talvez, se ela concordar, mas recomendo fortemente que espere, deixe que eu fale com ela, para saber se este é o momento propício para rituais.
— Mas por que preciso esperar? — falei me sentando de novo.
— Um fenômeno complexo vai se iniciar no castelo, Rute, o nemonium. E não tem como prever o que pode ocorrer se um ritual for iniciado durante esse fenômeno, consigo visualizar diversos resultados, mas não consigo prever com exatidão qual deles irá ocorrer. Ele é um lapso temporal, tudo fica fora de lugar, o castelo e tudo que há nele é levado para fora do seu limiar, tudo é realocado, fendas se abrem nas realidades infinitas dos multiversos e de todos os tempos e isso pode trazer seres desconhecidos. Então me ouça Rute, me deixe conversar com Ameritt primeiro, ela saberá o melhor a ser feito.
Professor Monm foi de encontro à Ameritt me deixando na biblioteca na companhia da criatura, sei que não deveria questionar a ajuda do professor Monm ou mesmo de Ameritt, mas às vezes penso se eles não teriam coisas melhores a fazer do que me ajudar nessas tarefas fora do comum. Alguns minutos depois ele voltou na companhia de Ameritt, o professor me disse que já havia explicado à Ameritt sobre o bloqueio do livro e da alma que estava nele. Ameritt então disse:
— Você sabe o que está pedindo, Rute-besin, entende o perigo disso?
— Sim, eu sei do nemonium. — respondi depressa — O professor Monm me explicou.
— Você entende que talvez o livro não possa ser lido? Que as lembranças da criatura podem não voltar, que se voltarem ela pode não ser o que você espera? E que a alma presa ao livro pode ser perigosa? Vai valer o risco?
— Só tem uma maneira de descobrir. — eu disse convicta. Ameritt me olhou por um tempo, me examinando. Parecia esperar que eu hesitasse, que eu desistisse da ideia.
— Eu farei o ritual, Rute-besin, não quero que sozinha você mexa com coisas que não entende, mas tenho algumas condições, você vai ouvir e fazer cada coisa que eu disser para ser feita.— sua voz estava calma, mas seu rosto tinha uma expressão dura. — Você concorda com as condições?
— Sim — concordei logo.
— Esse ritual de ligação é simples em teoria, porém bastante complexo na prática, isso vai requerer que você e a criatura se conectem mais profundamente, unindo a intenção de ambas, é bastante arriscado, Rute-besin, vocês vão estar vulneráveis a qualquer coisa. Você tem certeza de que quer continuar com isso?
Olhei para criatura e seu olhar não transmitia nada. Concordei com a cabeça.
— Então me siga, tenho um lugar perfeito para isso. — disse Ameritt, fazendo sinal para que seguíssemos ela.
Eu, a criatura e o professor fomos com ela até a estufa onde eu tinha encontrado o livro. Ameritt começou a pegar diversos itens em diferentes prateleiras, velas, sal grosso e ervas secas.
— Vou traçar um círculo de proteção, vocês ficarão dentro dele, esse círculo vai impedir que qualquer coisa entre ou saia do círculo. — ela disse isso enquanto organizava os materiais no chão. Ela colocou o livro no centro do círculo e explicou:
— Você precisa tocar o livro, então você será uma ponte para que as lembranças se revelem. A criatura irá te tocar, eu recitarei um encantamento que vai forçar o livro a revelar as lembranças para vocês.
Ameritt acendeu as velas ao redor do círculo de sal e ervas, murmurando palavras em uma língua que eu não entendia. O professor Monm, no canto perto da porta, estava calmo; verificando, de tempos em tempos, seu relógio de bolso. O ar começou a ficar mais denso, Ameritt pediu para que entrássemos dentro do círculo, eu me sentei, a criatura se ajoelhou na minha frente e o livro entre nós.
— Coloque suas mãos no livro, Rute-besin — ela ordenou, olhou para criatura. — E você toque nela.
Coloquei as mãos sobre o livro, sua capa fria e áspera, a criatura ajoelhada de frente a mim, estendeu as mãos e a pôs devagar sobre a minha cabeça. Ameritt começou a recitar o encantamento, sua voz ia ganhando ritmo e vibrava dentro daquele local, o livro começou a aquecer. Olhei para a criatura e seus olhos começaram a brilhar com uma luz dourada e intensa. Fechei meus olhos e senti algo dentro de mim ser puxado para fora, como se algo externo estivesse tentando fazer o que estivesse dentro de mim sair para que tomasse seu lugar.
— Concentre-se, Rute-besin, mantenha o controle. — gritou Ameritt.
Mantive meus olhos fechados e me concentrei na voz de Ameritt, me concentrei em trazer as memórias da criatura de volta. E de repente o mundo a minha volta desapareceu, minha mente se tornou vazia, apenas trevas e silêncio; depois sussurros, vozes, gritos de horror e lamentos. Mantive minhas mãos sobre o livro, e senti uma energia me atravessar como um soco no estomago, tão forte que parecia me ultrapassar. Minha mente foi preenchida de lembranças que não eram minhas, sons que iam aumentando de intensidade até se tornarem imagens bem vividas, florestas escuras, sangue, medo, morte, assassinato, um desejo incontrolável de fazer o mal, uma grande figura esculpida em pedra escura vestindo um manto negro. Eu sentia a criatura vibrar, suas mãos apertando minha cabeça, seus dedos entre meus cabelos pressionando e vibrando, eu ouvia palavras incompressíveis. As imagens pareciam ficar mais claras, eu via uma mulher correr para dentro de uma catedral imponente e escura.
As imagens ficaram mais rápidas, como se jogadas no meu cérebro uma atrás da outra, algumas rápidas demais para que eu pudesse acompanhar e guardá-las em minha mente. Eu via a mulher vestida de preto, vi sua alegria enquanto tirava a vida dos que cruzavam seu caminho, eu vi o livro, depois ela entrando no castelo Drácula, ela tirando a vida de outras criaturas com um olhar impassível. A última imagem era a mulher falando palavras que eu não conseguia entender e depois somente vazio, o nada. As imagens se dissiparam e finalmente eu consegui abrir meus olhos, olhei para criatura e seus olhos bem abertos brilhavam com uma luz azul muito forte que também saía de sua boca escancarada. A única coisa que eu conseguia sentir ao olhar para ela era medo e repulsa, me desvencilhei dela, me levantei e sai correndo, Ameritt continuou proferindo o encantamento e Monm, em vão, gritou para que eu continuasse dentro do círculo.
Corri para fugir daquela vontade de fazer o mal, e me vi dentro do castelo, a temperatura despencava com violência, e o frio que eu estava sentindo naquele momento era incômodo e devastador. Caminhei pelos corredores do castelo, me arrastando, eu estava perdida em lembranças que não eram minhas, pensamentos e vozes que eu não conseguia controlar. Os fragmentos de lembranças da criatura queimaram a minha mente, desesperança, desprezo, raiva, um vazio que eu não conseguia preencher, eu me sentia um nada, um sussurro sem uma origem, um ser sem forma, apenas uma vontade vazia de sentir. Pelas janelas do castelo eu via uma tempestade de neve a cada minuto ficar mais agressiva, junto com sons de trovões que pareciam fazer meu interior vibrar, escorada nas paredes do castelo eu conseguia sentir ele também vibrar.
Um trovão ressoou e o som da ventania parecia um lamento, eu sentia estar perdendo a sanidade, eu não conseguia me controlar e voltar ao ponto de equilíbrio dentro da minha cabeça. Os corredores pareciam ficar mais escuros e dentro de mim eu desejava que fosse a falta de iluminação e não um princípio de desmaio, a escuridão começou a ser tingida de uma azul acinzentado, ganhando cada vez mais intensidade. A cada corredor que eu passava para chegar ao meu quarto, comecei a observar que todos os quadros e espelhos estavam cobertos por um manto negro. Tudo parecia tão sufocante, tão odioso e desprezível! Um estrondo cortou o ar, que fez meu coração disparar, meu olhar foi atraído para um dos espelhos cobertos que estava à minha esquerda, parecia pulsar como um coração assustado, e eu juro que eu ouvi minha própria voz sussurrar dentro daquele espelho, as palavras no início não pareciam claras, o som da nevasca lá fora parecia impedir que eu entendesse, até que a voz aumentou e eu a ouvi soltar essas palavras:
“Você não suportou o sofrimento dela, não é? A infelicidade dela te fazia infeliz e você deu um fim a isso.”, “Você queria matá-la, você desejava isso tão profundamente que não conseguiu resistir ao impulso, não foi? E agora não consegue lidar com a culpa.”, “O amor sujo e indigno que ela tinha por você foi o que a enlouqueceu, você não soube lidar e deu fim a isso, não foi?”, “Você a fez pecar, prometendo que sempre estariam juntas, e agora ela está morta e você ficou feliz por isso, confesse!”
Eu não conseguia me afastar, e um impulso tão visceral quanto o desconforto que eu estava sentindo me fez ir até o espelho. “É apenas um espelho, não há nada lá.” eu disse pra mim mesma, tentando me convencer da lógica, tentando colocar a razão no controle. Eu ergui o manto e a criatura que apareceu no espelho era um pesadelo esculpido em carne, sua pele pálida e bastante esticada sobre seu corpo grande, veias pulsantes, olhos sem íris e retina. E o seu sorriso horrendo com dentes, muitos finos feito agulhas, que me fez congelar. Por uma questão de segundos, achei que aquilo era o meu reflexo, que o ritual, as lembranças, toda aquela confusão e ódio, tinha me transformado naquela criatura horrenda, e não nego que seria um castigo muito bem-merecido por todo mal, que naquele momento, eu estava desejando fazer. Aquele ser cheirou o ar em minha direção, ainda dentro do espelho. Joguei o espelho no chão, que ficou em pedaços, respirei aliviada apenas para logo depois sentir algo apertar meu calcanhar, o que me fez cair no chão com um som abafado e batendo minha cabeça na queda. Eu estava sendo puxada para dentro dos fragmentos do espelho por um braço longo, eu não tinha forças para me desprender, estava tonta e fraca, não tinha forças para lutar contra. Um brilho, então, azulado e muito forte, preencheu o local onde eu estava, fazendo a criatura do espelho guinchar e soltar meu calcanhar. Alguém tinha vindo em meu socorro.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Velian: No Limite do Vazio
Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual de prazer e sobrevivência, tornara-se algo mais sombrio e impulsivo. Ele matava mais que o necessário, mas nunca de forma descuidada. Como um predador meticuloso, seduzia homens e mulheres com sua presença magnética, arrastando-os para noites de prazer e promessa, apenas para desaparecer sem deixar vestígios. Para alguns, deixava apenas um vácuo insuportável de paixão não correspondida; para outros, um destino mais definitivo, corpos drenados em quartos de motéis baratos, em vielas abafadas ou em apartamentos frios onde apenas o cheiro do sangue indicava que algo terrível havia acontecido.
Ele queria se sentir vivo, queria encontrar sentido em sua fome, em seu jogo de sedução e destruição, mas tudo o que encontrava era mais vazio. A paixão ardente dos amantes logo se tornava uma poeira esquecida, o terror dos moribundos se dissipava na banalidade da rotina da cidade. O caos que ele causava não lhe trazia nenhuma epifania, apenas uma sensação crescente de que estava fugindo de algo que nem mesmo compreendia.
Numa noite particularmente abafada, Velian se viu em seu quarto, um refúgio de sombras e silêncio, onde apenas a cidade distante, viva e indiferente, pulsava lá fora. Sentia-se cansado, exausto de sua própria existência. Estava farto das promessas de prazer e do gosto do sangue quente. Farto da imortalidade que não lhe trazia respostas, apenas mais perguntas sem solução. Ele se deitou dentro de seu caixão, não para descansar, mas para escapar.
Então, o chamado veio.
Ele sentiu o ar mudar, a realidade tremer. A grande cidade de Fortaleza ficou para trás, e, quando abriu os olhos novamente, estava no Castelo Drácula, envolto em névoa e frio. Os ventos obscuros rugiam contra as muralhas ancestrais, e flocos de neve dançavam no ar gélido, trazendo uma sensação de deslocamento impossível. O tempo havia se partido. O mundo, por um instante, parecia outra coisa, algo entre o real e o inexistente.
Ele caminhou lentamente pelos corredores da fortaleza até os portões exteriores, onde encontrou um mundo que não deveria estar ali. Casas estendiam-se ao horizonte, como se um lapso do tempo e do espaço tivesse arrastado toda uma civilização para dentro do limiar do Castelo. E foi ali, no meio desse cenário de distorção e silêncio, que a viu.
Uma mulher de manto negro, segurando um cajado de carvalho com uma pedra negra incrustada na voluta, guiava um pequeno rebanho de cabras negras. Seus olhos refletiam algo ancestral, algo que Velian não sabia nomear. Ela não parecia pertencer a esse mundo, mas tampouco destoava dele. Algo em seus olhos lhe diziam que ela conhecia a natureza vampírica, mas também não era um deles, parecia ser também uma magista poderosa e Velian já tinha conhecido bruxas e magistas grandiosas, mas era algo que não só dominava, mas que parecia possuir toda a magia conhecida e desconhecida do universo. Ela era como uma sombra que sempre estivera ali, pairando, apenas esperando que ele a notasse.
Ele se aproximou, sentindo um misto de irritação e fascínio.
— Quem é você? — Sua voz era baixa, arrastada, como se cada palavra fosse um peso que carregava há séculos.
A mulher ergueu os olhos para ele e sorriu levemente, um sorriso que era tão antigo quanto a noite.
— Sou a pergunta que nunca terá resposta, Velian.
Ele sentiu um arrepio percorrer seu corpo, não de medo, mas de algo mais profundo, um reconhecimento involuntário. Por meio de suas várias leituras ao longo dos anos sobre mitologias, deusas e deuses antigos, parecia que o vampiro estava diante da deusa da própria noite, conhecida pelos gregos pelo nome de Nix, uma deusa que até o própria Zeus temia. Mas Velian desejou continuar o diálogo com esse ser tão desconhecido, primordial e poderoso e em seu tom desafiador, crítico e sarcástico de vampiro secular respondeu:
— Eu já tive todas as respostas — murmurou, desviando como o olhar. — Mas nenhuma delas valeu de nada.
— Porque você fez as perguntas erradas.
O vampiro soltou uma risada irônica e amarga.
— Então me diga, qual é a pergunta certa?
A mulher tocou o cajado no chão, e a realidade ao redor deles pareceu oscilar, como se estivessem flutuando entre mundos.
— Por que você continua?
Velian ficou em silêncio.
— Você bebe sangue para sobreviver, mas não sente mais prazer nisso. Seduz humanos, mas não se importa com eles. Provoca paixões e abandona-as, mas isso não preenche nada. Mata, mas a morte se tornou banal. Então, por que você continua?
Ele sentiu a irritação crescer dentro de si.
— Porque não há outra opção. Eu existo, e essa existência tem um preço.
— Mas quem lhe disse que você precisa pagar esse preço assim?
O silêncio caiu entre eles. A mulher parecia esperá-lo chegar a uma conclusão por si mesmo.
Velian respirou fundo, um hábito humano que ele nunca abandonara.
— Eu sinto... como se estivesse abandonado pelo próprio universo. Como se nada importasse. Mas eu não quero desaparecer.
A mulher assentiu.
— É essa a verdade. Você não quer desaparecer. Você tem medo do vazio, mas também tem medo da existência. Então fica preso na dúvida, na monotonia, na repetição. Mas as dúvidas são sua única salvação.
Ele olhou para ela com um misto de desconfiança e curiosidade.
— Por que você diz isso?
— Porque são as dúvidas que o fazem continuar. O desejo morre, o prazer desaparece, as paixões são efêmeras. Mas a dúvida... essa nunca o abandona. É ela que o mantém de pé, mesmo quando você acredita que não há mais sentido. É ela que o faz buscar algo, mesmo sem saber o quê.
Velian sentiu um frio estranho percorrer seu corpo. Havia algo certo nas palavras dela. Algo incômodo, mas verdadeiro.
— Eu achei que espalhar caos e destruição me fizesse sentir vivo — admitiu, quase para si mesmo.
— Mas só o deixou mais vazio.
— Sim.
A mulher se aproximou, sua voz tornando-se um sussurro antigo, um eco de algo perdido no tempo.
— Então, pare de buscar sentido em fins e comece a buscar sentido no próprio caminho.
Velian sentiu um peso deixar seu peito, mas não sabia o que isso significava. Ele olhou para a mulher, mas ela já estava se afastando, desaparecendo na névoa.
— Espere. Quem é você, de verdade?
Ela virou-se uma última vez, e seus olhos brilharam como estrelas distantes.
— Eu sou o que você sempre soube, mas nunca quis aceitar.
E então, ela sumiu.
O Castelo Drácula retornou ao seu estado habitual, e Velian sentiu-se sozinho novamente. Mas, desta vez, a solidão parecia diferente. Ele não sabia explicar o que havia aprendido, mas sabia que algo dentro dele havia mudado.
Velian voltou para seu quarto, na cidade de Fortaleza, nordeste do Brasil e lembrou por que decidiu habitar ali, os costumes nordestinos e cearenses eram hilários, engraçados e as pessoas eram mais simpáticas e possuíam um animo para a vida diária que o fascinava, diferente da frieza europeia, e isso o despertou por um tempo, mas o vampiro também percebeu a pouca força, consciência e vontade de organização social para enfrentar problemas coletivos que a raça humana enfrentava ali naquela região e isso junto de todas as mazelas que já existiam também na antiga Europa e em outras partes do mundo.
Assim, mais uma vez, o vampiro entendeu seu tédio, sua chateação e medo do vasto mundo que parecia não parar de crescer de forma caótica sem uma finalidade e um sentido e Velian percebeu o quando ainda se apegava a essa ideia mortal de sentido e de coerência no vasto mundo e decidiu dormir um sono longo. Não porque estivesse cansado, mas porque precisava de introspecção. Apenas o Castelo poderia acalentá-lo, e ele esperaria até que fosse chamado novamente.
E, enquanto o vento soprava lá fora, trazendo consigo os sussurros da noite, Velian fechou os olhos, mergulhando na escuridão não apenas de seu quarto e seu caixão, mas também de seus próprios pensamentos.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Diário de Áurea Lihran — Trecho nº1
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão. Em uma profunda tristura, vejo-me irreconhecível em meu âmago, perdida no esquecimento. Vejo Rosaemoris congeladas no tempo, aguardam-me em uma paciência serena. Ouço corvos brancos próximos, nos céus de tom azul-marinho, eles crocitam minha angústia. Eles são como o triste piano em meu peito, o agouro da minha condição.
Mesmo sem lembrar do que vivi, a saudade é a lágrima que verte em um carmesim profundo, dos meus olhos aos meus lábios. “Selenoor é esta lua lúgubre que vês, doce vestal, ela te irriga como planta rara; ouça-a azulescida em teu peito…” — Cantara Lahgura até desaparecer como miragem. Como é sê-la? Poderosa, mágica… quem é Lahgura? Quem sou? Esta anil atmosfera enternece-me… é sopro de melancolia e temo que redigir essa abíssica verdade, leva-me ainda mais em sua silente imersão hostil.
Alguém bate à porta, suave como mãos femininas… creio ser uma visitante disposta a me salvar do meu azúleo afogamento interior.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
O Memórum de Olga Nivïttz: Masqarilla
— Por que tão irreconhecível, caríssima Olga? — Dissera Drácula, tomando seu liquor-carmesim. Sorri ao ouvi-lo, sempre me agradava a sua presença…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
— Por que tão irreconhecível, caríssima Olga? — Dissera Drácula, tomando seu liquor-carmesim. Sorri ao ouvi-lo, sempre me agradava a sua presença, entretanto a máscara dourada e ornamentada impedia-o de saber de minhas expressões faciais. Meu longo vestido escarlate em veludo, possuía um fardo pouco hostil, com detalhes em cetim e renda negra. Era de beleza estonteante, melancólico como quem o vestia.
— Prefiro a discrição, meu querido. — Respondi-lhe com voz suave, aproximando-me dele enquanto observava-me no espelho do aposento, magnífico espelho com adornos em voluta.
— Hum… deixas o fardo de anfitrião em meu dorso para que possas usufruir do anonimato. — Proferiu com suave escárnio. Toquei-lhe a face, sutilmente.
— És um sui generis anfitrião, amável Conde. Sabes que quanto mais pessoas souberem quem sou, mais risco há de vir sobre este alcácer atemporal. — Relembrei. Drácula apenas assentiu. Meu lar vincula-se a mim; minha dor é sua dor, tanto quanto meu prazer e meu pensar; o fim da minha existência sucumbiria cada torre que fora aqui, um dia, erguida; a cruz da consciência pelos que residem n’este imo, no antro de sangue vivo e scripta manent, não é apenas um adorno. Espíritos e corpos, criaturas e entidades; sob minha proteção, pelo meu Castelo. Embora, em sua ironia e humor característicos, Drácula impulsione em verbo a verdade de seu encargo de Anfitrião, ele sabe que sem tal ventura sob si — e sem a minha solidão por cautela e dever, os males que podem emergir externo ao meu controle serão, decerto, fatais a todos e, em especial, a ele.
Entretanto tais pensares não afloraram em meu ser naquele instante. Ver-me o reflexo tão gracioso em ouro e veludo escarlate, trouxe-me uma sutil languidez advinda d’outros males. Ouvia ao fundo a valsa do salão e os risos longínquo dos tantos convivas. Vi, quebrantando minha distração emocional, Drácula levantar-se, aproximando-se de mim; o espelho de Sirenniha era o único capaz de refleti-lo. Atrás de mim, envolveu-me com seus braços e pôs em meu pescoço um belíssimo colar.
— Para que, mesmo irreconhecível, sejas a mais bela d’este fabuloso evento. — Sussurrara acariciando-me os ombros. Toquei o colar.
— Fascinante… do que é feito? — Indaguei encantada pelo lume dourado profundo, quase enegrecido e envelhecido, daquela joia rara.
— Chamo de nithiurium. Há de sedar as tuas angústias pelo período que usá-lo; reluz em dourado arcano, pois há um sigilo em seu fecho. É o mesmo sigilo que há de prensar sutilmente o teu pescoço, se assim desejares. — Toquei o fermoir, senti a energia de Pherhesí.
— Como tu poderás salvar-me da morte por asfixia? — Drácula sorriu.
— Tomei as necessárias precauções, minha Dama. — Olhou-me, então, somente como teus olhos o poderiam fazer. — Teu fascínio pela dor não alcançará a capacidade suave d’este pequeno artefato. A lapidação e seu poder estão na medida para o teu prazer, não para tua morte.
Toquei a face de Drácula, acariciando-o em agradecimento.
— Permita-me… — Disse, beijando-me o dorso de minha mão esquerda. — Uma primeira dança. — Assenti, reverenciando-o. Iniciamos os movimentos calmos e sincronizados. Sem palavras a pronunciar, pois, não era preciso. Drácula sempre fora meu confidente, sabendo minhas dores e amores, meus pecados mais sombrios; a cor viva de meu sangue amaldiçoado. No fim da dança, beijou-me a fronte e, depois, meus lábios — sobre a máscara que cobria toda a face. Ergueu-me sua taça vazia, indicando que buscaria mais liquor para sua bel fascinação. Dei-lhe adeus e o vi sair pelos umbrais. Tal como pressenti e intui ao dar-lhe minha seiva de vida, Drácula, quando próximo, é uma companhia intrigante e agradável, capaz de quebrantar minha catatônica introspecção, permitindo clareiras abrirem-se sobre a densa floresta que me sou, todavia, sob familiar circundante solitude, segui para meu destino: o salão da Masqarilla.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Capítulo 4: Da selva de pedras e espectros do passado
Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
4º relato
“Nascida na selva de pedra,
poluição e concreto, vis companhias,
na prisão onde a alma se quebra,
vivo e morro em rígidas galerias.”
Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei, o local que era a extensão do que eu sentia, vivia. Era uma criatura da cidade, nasci em meio à cacofonia de ruas lotadas de pessoas que se embarravam, e não se conheciam. Era mais uma na multidão, minhas questões só importavam para mim. Grandes poetas exaltavam a natureza, por suas belezas e capacidade de recomeçar, respeitando os ciclos e estações — em contraste com a nossa existência caótica e perturbada. Não ouso dizer que eles não tiveram suas dificuldades, mas para mim é extremamente difícil falar sobre essas belezas e sobre os sentimentos bonitinhos. Eu somente salvo a mim quando mergulho nas águas turvas e inóspitas das palavras brutas e sentimentos controversos.
A atmosfera lúgubre do Castelo aflora esses sentimentos, mas não estou infeliz. Sinto-me cada vez mais impulsionada a criar. As palavras escorrem das minhas mãos e encontram abrigo no papel límpido, agora desvirtuado pela tinta magenta ou negra. Na tela, fenômenos semelhantes ocorrem, e as pinceladas dançam na superfície como se fossemos a completude um do outro.
Após horas de criações, muitas das quais foram descartadas, pois estou cada vez mais exigente — o tempo me é amigo, e eu posso me dar ao luxo de recriar sem me preocupar com prazos ou com pagamentos batendo à porta.
***
Não sei precisar se estava acordada ou dormindo, mas sentia-me num estado de semiconsciência, como se houvesse ingerido alguma substância alucinógena (O que será que Ameritt colocou naquele chá que trouxera para mim?), mas percebi estar a contemplar a minha última obra: era o infinito, o fundo negro com degradê de tons diferentes do negro mais brilhante que já pude ver em uma tinta. As estrelas brilhavam, causando impressão de estarem se mexendo e pulsando no ritmo das batidas do meu coração. As luzes-estrelas se aproximavam e cresciam de tamanho, estavam em velocidades distintas, cada uma seguindo o ritmo autoimposto.
Não conseguia parar de fitar aqueles belos pontos brancos brilhantes. Minha visão não ficou totalmente enuviada, mas ao passar os olhos por cada uma delas sentia um leve desconforto, semelhante ao que se sente em uma montanha russa: um incômodo que você não recusa, pois diverte, e aceita todas as vezes que lhe oferecem.
Fiquei naquela posição por um tempo que não soube determinar. As luzes perfuraram o limiar infinito-tela e romperam a barreira da realidade: as luzes projetaram-se para fora, como hologramas e tornaram-se espectros das pessoas do meu passado, justamente aquelas que não queria encontrar novamente. Gritei. Virei-me para sair do quarto, não podia permanecer naquele local com aqueles execráveis.
— Siga-me — disse Meia-noite.
— Você novamente... então estou sonhando?
— Vamos!
Eu o acompanhei, não me importava para onde ele iria me levar dessa vez, mas qualquer lugar seria menos aterrorizante do que permanecer ali, com eles.
Corríamos por caminhos e corredores, novamente, nunca percorridos anteriormente por mim. Os corredores eram iluminados por luzes violetas, cujo reflexos nas paredes pareciam recriar seres etéreos, ora divinos, ora fantasmagóricos. Será que novamente eu seria obrigada a entrar naquela banheira?
Parei. Exigi que Meia-noite me dissesse para onde iríamos.
— Não, eu não a levarei novamente para a banheira. Mas você precisa enfrentar seus demônios, senão ficará sendo constantemente assombrada por eles.
— Não há alguma forma de esquecer tudo isso? Eu não aguento mais!
— Há uma forma, mas você estará disposta a entregar-se?
— Eu não sei, depende do que me será exigido...
— Você irá descobrir...
Um frio gélido lambeu minha espinha. Meia-noite esboçou um sorriso enigmático, mas que me assombrou. Continuamos seguindo um destino incerto para mim, mas agora andávamos calmamente. Aos poucos as luzes do ambiente foram transmutando-se de violeta para leves tons de escarlate. Ouvia sussurros entrecortados e sôfregos concediam ao local aspecto dantesco.
Chegamos a um salão amplo. Os lustres transbordavam luzes vermelhas. Havia estantes recheadas de livros clássicos, com capas vermelhas, verdes e azuis belíssimas e estilizadas com letras douradas, que reluziam como se feitas de ouro (e provavelmente eram, pois o luxo não era problema naquele Castelo). Os vastos móveis, mesas, armários e cristaleiras eram adornados de objetos metálicos de prata e ouro envelhecido, cujos reflexos enuviavam minha visão. As poltronas e cortinas eram de veludo vermelho, similar as que tinham no meu quarto. Enquanto observava maravilhada cada detalhe, nos móveis, teto e paredes, percebi que ao fundo havia quatro portas, e Meia-noite, antevendo a minha pergunta, começou a proferir:
— Atrás de cada porta haverá um acontecimento de sua vida, uma violência que foi causada por um daqueles que estiveram em seu quarto. Você poderá interferir, poderá eliminá-lo da forma que quiser. Mas saiba que qualquer alteração do seu passado irá reverberar no presente: Novas versões suas serão criadas. A sua versão atual será a principal e continuará aqui no Castelo, em segurança, mas não terá consciência das outras, elas também não saberão sobre você. Elas terão novos destinos, outras pessoas irão cruzar os caminhos delas. Elas poderão passar por situações muito piores que as suas, mas você irá se livrar das suas dores, pois todas as memórias tristes que envolviam o eliminado serão apagadas, como se nunca tivessem ocorrido.
— Todas?
— Sim, todas. Mas as suas outras versões poderão continuar o tormento...
Eu nunca me considerei uma pessoa altruísta. Não fazia trabalho voluntário ou doações, não porque não considerava importante, mas porque gastava meu tempo tentando sobreviver na selva de pedras e, sendo sincera, não queria me esforçar para deixar os outros bem. Mas eu nunca fiz o mal para os outros de forma deliberada. A ideia de condenar outra pessoa — ainda que versões de mim — à uma vida miserável me incomodou extremamente.
Quando virei para falar para Meia-noite que iria recusar a tal proposta, deparei-me com uma figura enigmática. Esse Castelo ainda me deixará entregue à loucura!
Permaneci inerte enquanto fitava-o, e ele retribuía minha hesitação com um olhar cortante. Era alto, belo e trazia sobre os ombros uma capa negra com finos entalhes dourados, conferindo-lhe um ar altivo. Alguém que já havia encontrado anteriormente.
— Drácula? — Perguntei com voz quase inaudível.
— Sim... Fiquei intrigado com a vossa escolha. Faz eras que não cruzo o caminho de um mortal cujo coração, embora puro, pulsa dissabores e destila amargura.
— Eu não tenho o coração puro...
— Quero lhe mostrar algo... — disse ele, com o olhar sombrio e hipnotizante, enquanto apontava para uma estreita passagem entre as estantes, onde antes havia quatro portas, agora desaparecidas.
— Eu não sei se quero entrar...
— Compreendo... Passastes por experiências incompreensíveis neste Castelo, e é natural que as descobertas lhe causem inquietações. Deves adentrar a passagem por tua própria vontade. Aguardarei a tua vinda... Venha quando estiveres preparada.
E, sem aguardar minha resposta, envolveu o rosto com a longa capa e desvaneceu no ar, como se atravessasse um portal oculto para as sombras.
Quais descobertas me aguardam através da passagem? O que Drácula reserva para mim? Espero em breve descobrir.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Sinfonia noturna das palavras
Sob o manto negro da Lua Túrgida, | onde os mistérios nascem das sombras, | você, alma peregrina, ousa encarar o abismo? | O céu tinge-se de azul profundo,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
I.
Sob o manto negro da Lua Túrgida,
onde os mistérios nascem das sombras,
você, alma peregrina, ousa encarar o abismo?
O céu tinge-se de azul profundo,
uma tinta escura que escorre do próprio coração do universo,
e o castelo, desfeito e distante, chora
sob a penumbra rubra de seus terrores antigos.
Ali, entre as paredes de pedra que sussurram,
as criaturas que espreitam nas sombras se erguem,
monstros que não são de carne,
mas do medo que habita as profundezas da alma humana..."
Arale, a felina da noite, a escriba das sombras,
pulsando com a força ancestral das estrelas que se esgueiravam pelas cortinas de veludo negro.
Seus passos eram ecos distantes de uma era esquecida,
onde a própria biblioteca se alimentava do seu silêncio,
onde livros sussurravam, não mais palavras, mas segredos,
não mais histórias, mas destinos que não estavam escritos.
Arale encontra algumas páginas queimadas pelo solo de pedra e algumas folhas voando
próximo às velas de um azul cobalto tingidas pela luz da lua que rasga o vitral próximo à torre da janela do alto do Castelo...
Enquanto andava entre os corredores, foi absorvida pela abissal força da Biblioteca como uma osmose de sangue ali, uma caçadora de pesadelos,
seu machado dourado, refletindo o ouro de um sol que nunca nascera
nem se punha no horizonte daquele castelo desfeito pelo tempo.
As páginas dos livros se abriam, mas suas palavras
não eram mais compostas de tinta e papel. Não, eram entidades,
sombra e carne, ganhando forma sob o olhar atento da felina.
II.
"A Lua Túrgida, pálida e inclemente,
desvenda os segredos ancestrais enterrados nas raízes do tempo,
seus olhos ardentes refletem os horrores do passado,
aqueles que foram esquecidos, mas jamais perdoados.
E você, ser imortal, sente em sua carne
a presença de algo que não pode ser nomeado,
uma fome que reside em seus ossos,
um monstro feito de sombras e silêncio,
buscando a luz que nunca será..."
Um livro se ergue, e do seu interior uma mão sai,
mãos de páginas que se entrelaçam como raízes,
tentando agarrar sua garganta.
Mas Arale, com a fúria da lua cheia,
afasta com um golpe preciso, o machado dourado cortando o vazio
como um fio de lâmina cortando o próprio destino.
— Aqui é o domínio do além, mas ainda sou eu quem escolho o meu caminho —
pensou ela, com seus olhos dourados que ardiam
como se o sol vivesse ali dentro...
III.
"O inverno avassalador surge como uma onda de gelo,
engolindo tudo o que tocou, tudo o que é vivo.
As árvores, curvadas sob o peso da neve,
se transformam em esqueletos de sua própria existência.
Os ventos cortam a carne e a alma,
e a escuridão se estende como um véu eterno.
Mas é nas sombras que a verdade se esconde,
nas cavernas profundas do castelo onde os pesadelos dançam,
onde cada suspiro é um eco do que foi,
do que nunca será..."
Nos quadros das paredes, os rostos antigos
assistiam em silêncio, esperando para se desfazer em sombras.
Mas Arale não se deixou enganar,
sabia que atrás de cada pincelada estava uma criatura à espreita,
silenciosa como os ventos que passavam pela torre do castelo.
Uma figura, um espelho. Da superfície prateada, algo se contorce,
uma figura que a olha como um espelho distorcido.
Arale avança, e no momento em que o machado toca o vidro,
uma explosão de luz e trevas se entrelaça, como se o tempo fosse rasgado.
IV.
"Rosa sangrenta, mandíbula do amor,
tingida pelo sangue da Morte,
um amuleto que pulsa com a energia do fim.
A cada passo, a rosa arde em sua mão,
uma chama vermelha que não se apaga,
um lembrete do abismo que aguarda,
do fim que se esconde atrás das estrelas apagadas.
Se o horror do fim te alcançar,
entregue a rosa à Morte,
pois ela, em sua sabedoria sombria,
te devolverá à vida com um vigor que não pode ser explicado,
um renascimento que é ao mesmo tempo condenação e libertação."
—Eu não sou o reflexo, eu sou o desfecho.
pensou, e o espelho se quebrou, espalhando em pedaços,
não vidro, mas carne e alma que jaziam no fundo de uma realidade
onde o refletido era o predador e o predador o reflexo.
As velas tremeluzem. Mas não são chama,
são olhos, pequenos olhos que queimam com desejo de devorar.
Lá fora, a noite parecia se esticar em um limbo de estrelas apagadas,
mas ali, nas profundezas do castelo, tudo era eternamente noite.
As velas falavam, sussurravam segredos de um mundo
onde o medo se encarnava em formas monstruosas.
Arale levanta o machado,
um golpe certeiro apaga a chama e faz os olhos se desvanecerem
como fumaça no vento do próprio medo.
V.
"Os monstros que habitam o castelo não são apenas de carne,
mas de história, de memórias que ainda sangram,
de pecados que nunca se redimiram.
Eles buscam a luz da Lua Túrgida,
o pálido lume que ilumina o caminho da consciência.
E você, caminhante, está pronto para ver o que eles revelam?
Está pronto para enfrentar os horrores que despertarão dentro de você,
os monstros que estavam sempre ali,
esperando na escuridão do seu ser,
e, quando a Lua Túrgida brilhar,
eles sairão para te encontrar."
Por trás das cortinas, um movimento.
Uma sombra que se arrasta, um vulto no fundo da biblioteca,
onde os livros eram mais vivos que os seres que os liam.
Ela caminha até a estante, suas garras traçando círculos no ar,
e, de repente, um livro se abre, e uma sombra,
uma criatura que jamais deveria nascer de tinta e papel,
salta para o espaço, um monstro de letras disformes.
Com um grito que não mais ecoa,
Arale mergulha na luta, seu machado cortando e perfurando
a carne do monstro que se dissolve em palavras
enquanto ela avança, até o fim de sua missão.
VI.
"Mas não tema, querido leitor, pois você não está sozinho.
Carregue a rosa, com seus espinhos tingidos de carmim,
e saiba que, enquanto o horror te rodeia,
a luz da Lua Túrgida não é só escuridão,
mas uma revelação de quem você realmente é.
Pois dentro de você, nas profundezas mais sombrias,
está a força de enfrentar o abismo,
e, se necessário, se tornar um com ele.
A Lua Túrgida não é uma sentença,
mas um convite, uma jornada sem fim,
onde a morte e a vida dançam juntas
em um ciclo eterno de renovação e destruição..."
Mas no fundo, ela sabe. Ela sempre soubera.
Este não é seu fim, nem seu começo.
A caçadora de palavras, a escriba de garras de aço,
não está ali por uma razão única. Ela busca.
Busca não só o conhecimento que habita aquelas páginas,
mas algo mais, algo que se esconde nas entrelinhas do castelo,
algo que a prende ali, mas a faz sentir-se, ao mesmo tempo, estranha.
O desejo, a fome de um toque humano, um calor vivo,
além das criaturas que caçam e morrem,
além das páginas que ardem e se curvam.
Arale, a felina entre as sombras e os espelhos,
cai de joelhos no chão de pedra fria,
a sua jornada apenas começando,
uma missão espiritual, um ciclo interminável,
mas no final, uma pergunta:
"Onde estão aqueles que podem ver o que sou?"
VII.
"E no fim, quando a penumbra da Lua Túrgida
te envolver como um manto de névoa,
lembre-se: o medo não é o fim,
mas o começo de algo mais profundo,
mais antigo, mais verdadeiro.
A rosa, teu guia, teu guardião,
brilhará na escuridão,
um farol no abismo,
um sinal de que, mesmo no final,
há sempre uma nova página a ser virada,
uma nova história a ser escrita
sob a luz eterna da Lua Túrgida."
Uma resposta desfragmentada se perde, no vento que sopra,
no mesmo instante em que ela ergue a lâmina dourada,
todos os pergaminhos que flertam com a chama e a luz pálida
do luar como uma sinfonia de palavras são de autoria do Drácula,
pronta para o próximo passo e fascinada aos cânticos da Lua Túrgida
sabendo que, no fundo, o castelo era seu espelho,
e ela, mais que uma caçadora, era a alma que fugia de si mesma.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Sonial
Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo, que tremia, desperto com o insistente menear.
De olhos abertos, permaneço deitada sob um infindável jardim de lavandas. Seu aroma adocicado e suave me abraça. Os galhos eram altos o suficiente para envolver meu corpo. Seu leve toque em meu rosto extraiu de mim cócegas e uma lembrança.
Vejo-me deitada preguiçosamente em suas pernas, no nosso sofá da sala. Estamos assistindo a um dos seus filmes preferidos, “Um Corpo que Cai”. Eu amava os filmes do Hitchcock. Minha mãe acabara de passar creme para as mãos. Enquanto meus olhos estavam na televisão, sinto seus dedos macios e cheirosos sobre meu rosto, deixando o aroma marcante de lavanda.
Mas antes que eu me torne melancólica, devolvo-a, o quanto antes, ao cemitério abandonado de memórias. É melhor assim, digo para mim mesma: “Esqueça isto!”. Em seguida, viro a cabeça para a esquerda, e meus olhos se perdem perante os galhos.
A grandiosidade daquele lugar é, sem dúvidas, arrebatadora. Existe uma aura quase celestial. O silêncio sagrado me causa arrepios. Acima de mim, contemplo algo magnífico: trajando um manto alvo está o firmamento e sua imensidão. Um temor se apoderou de mim. Adoto a posição fetal, como forma de me proteger, pois um mísero raio de sol poderia me exterminar. Mas, de alguma forma, nada aconteceu. Apesar de toda vastidão nívea, a luz parecia inofensiva. Não havia nuvens, nem sol nem lua, apenas o vazio opressor.
Decidi me levantar. Limpei as folhas presentes em minhas roupas. Em pé, pude ter a verdadeira dimensão daquele lugar. Caminho, e as lavandas se destacam. Seu balançar é hipnotizante. Será que estou fora do Castelo? Será o fim da minha mísera existência? Será algum efeito alucinógeno daquele preparo feito por Ameritt? O repugnante gosto ainda faz morada em minha boca.
Cuidadosa, caminho enquanto dúvidas pairam sobre minha mente. Olhar em volta e ver apenas o vazio abissal é angustiante. Será que irei parar na vila de Séttimor? Agora, a menção de Ameritt me causa tremor, porém continuo.
Após muito andar, noto algo perturbador. Um horror indescritível dominava meus ossos e entranhas. Meus membros tornaram-se rígidos, como se alguma força de proporções inimagináveis agisse sobre mim.
Elevo meus olhos, e não posso acreditar. Em meio àquela intensa nívea, um colossal e belíssimo umbral, mais escuro que a própria noite, erguia-se no vazio níveo. Trazia adornos vitorianos esculpidos pelos deuses de outra era. Assemelhava-se a um portal. Ao seu lado, havia também uma criatura tão misteriosa quanto aquele lugar. Sua aparência angelical me deixava confortável. Obedeci à sua reverência e, cautelosa, fui ao seu encontro. Estou a dois passos. Sem dúvidas, estava diante de algo grandioso.
— Bem-vinda à Somníria, Rose. Permita que eu me apresente. Meu nome é Lieran, sou o guardião Arquelua do primeiro umbral. Foi-me ordenado guiar-te pelo sonho daquele que teu coração mais anseia.
Sua voz era como um imponente e doce quarteto de vozes cantando em uníssono, algum canto gregoriano secreto que fora esquecido pelo impiedoso tempo. Seu semblante quase angelical me acalmava. Ele tinha cabelos alvos como a neve, e, mesmo com os olhos fechados, parecia saber exatamente quem eu era. Posteriormente, ele me explicou que Somníria é um reino extrafísico que está além da compreensão. Este lugar cuida do plano onírico daqueles que ainda estão vivos, assim como dos que já desencarnaram.
Lieran contou que, em Somníria, tanto os umbrais quanto os guardiões são infindos. Explicou que existem diferentes espécies de guardiões: alguns cuidam dos sonhos, sendo chamados de Arquelua, enquanto outros se dedicam a vigiar pesadelos — os Nocturnos. Disse ainda que há tipos de Nocturnos especializados em pesadelos densos, enquanto outros vagam por pesadelos fúnebres.
Amortecida pelo que acabara de ouvir, observei mais uma vez aquela criatura. Ele se assemelhava a uma escultura de um deus grego esculpido em mármore. Seus traços delicados e marcantes me prendiam, e a possibilidade de entrar em um sonho era intrigante e muito me interessava.
Antes que eu dissesse qualquer palavra, ele fez um gesto para que eu atravessasse o umbral e disse:
— Por favor, tenha cuidado. Visitar sonhos pode ser mortal. Vi que tens alguém em mente. Concentre-se e atravesse. Lembre-se: para retornar, basta dizer meu nome.
Agradeci, respirei fundo e, assim que atravessei, senti uma forte vertigem, como se caísse em queda livre no vazio. Ainda enjoada, abri os olhos e não pude acreditar que funcionara.
Acordei em meu quarto de infância. Tudo estava intacto: os pôsteres de filmes de horror, como Psicose, Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, O Exorcista, O Iluminado, entre outros. Minha estante preta decorada com livros, incluindo romances como Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, O Morro dos Ventos Uivantes — em vida, eu acreditava no amor. Minha escrivaninha estava cheia de cadernos e canetas espalhados. Ao folhear um deles, deparei-me com anotações sobre magia e ocultismo.
Ao vê-las, lembrei-me de um certo livro que está no Castelo. Ele ainda me causa fascínio e repulsa. Recordei sua capa feita de pele, num tom viscoso de carmim quase vivo, suas páginas puídas e o cheiro pútrido que senti ao abri-lo, bem como o toque repulsivo.
Lembro que o livro estava no final da biblioteca, sobre uma mesa redonda vitoriana, coberto por um manto negro. Ele não saiu da minha cabeça: sua natureza desconhecida e o modo como foi confeccionado me intrigavam. Que segredos infindáveis aquelas páginas escondiam? Recordo vagamente ter visto o desenho de um ramalhete naquela terrível noite de nevoeiro.
O Castelo tem me proporcionado experiências inexplicáveis. Aquele baile aterrorizante foi muito marcante. Preciso continuar. Olhei para a direita: algumas roupas estavam empilhadas sobre uma cadeira. É verdade que prometi enterrar estas lembranças, mas decidi fazer este último passeio e despedir-me para sempre.
Tristezas e sorrisos me acompanham. Encosto na maçaneta e sinto um tremor. Ao abrir uma fresta da porta, vejo minha mãe deitada no sofá da sala, como costumava ficar. Mas havia algo perturbador em seu semblante. Seus olhos inertes assistiam à televisão, e o cansaço era visível em suas pálpebras. Seus braços estavam imóveis, e, na palma da mão direita, notei uma marca que parecia um pequeno terço. Deduzi que, em algum momento, ela o segurara com tanto fervor que provocara um ferimento. Após um tempo, uma lágrima caiu de seu rosto, e um sussurro ecoou pela casa:
— Ainda tenho esperanças de que minha filha voltará um dia.
Isso quase arrancou um grito de mim, mas silenciei com as mãos. Não posso mais ficar aqui. A culpa parecia deliciar-se com meu sofrimento. Na cozinha, meu pai preparava o almoço. O cheiro de bife com cebolas fritas me causou enjoo.
Tomada por uma profunda tristeza, murmurei:
— Se não tivesse aceitado aquele convite, talvez estivesse em seu colo, mãe. Eu sinto muito pelas minhas escolhas.
As inevitáveis lágrimas escorreram. Fechei a porta e sussurrei:
— Lieran.
Após isso, senti uma forte sensação de sono até que, finalmente, meu corpo encontrou o solo.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
15. Jardim da Morte: Hadassa
Em uma sala de cinema que parecia saída dos anos 40, com lustres antigos que projetavam pouca luz nas paredes, um cheiro de pipoca…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Em uma sala de cinema que parecia saída dos anos 40, com lustres antigos que projetavam pouca luz nas paredes, um cheiro de pipoca velha que se misturava a um aroma adocicado que possivelmente vinha das figuras que ali entravam. As poltronas velhas de veludo vermelho, que rangiram sob o peso das duas figuras que ali se sentaram no centro, uma do lado da outra. A ceifadora dos que tiram a vida vestia um sobretudo escuro e um chapéu inclinado sobre um dos olhos, enquanto a ceifadora dos apaixonados usava um vestido preto justo, nos lábios um batom vermelho vibrante que contrastava com sua pele na cor de grafite acinzentado, cabelos bem pretos com leves ondas, segurava entre os dedos um cigarro que jamais seria aceso, como uma femme fatale saída de um filme noir. A ceifadora dos que tiram a vida ajeitou a gola de seu sobretudo, seus olhos brancos sem pupilas sob o chapéu de abas largas que lançava uma sombra em seu rosto cinzento, ela parecia deslocada ali, tentando fazer o seu papel, como se aquele tipo de análise fosse de menor gravidade em seu trabalho.
— Esse caso poderia ser resolvido com uma partida de xadrez — ela falou em tom seco.
— Poderia, mas estou testando outras abordagens, uma mistura de LARP com jogo de detetive. — respondeu a ceifadora dos apaixonados, com um sorriso enigmático. — E, aliás, você está perfeita no seu papel de detetive autodestrutivo.
A outra arqueou a sobrancelha.
— Você também está incrível, bem fatal se posso dizer.
Elas riram brevemente.
— Espero que seja direto, detesto enredos sem propósito. — murmurou a ceifadora dos que tiram a vida, cruzando as pernas.
— Calma, apenas assista e depois critique. — respondeu a ceifadora dos apaixonados, sem sair do personagem.
A pouca luz dos candelabros foi se extinguindo e a tela acendeu com um estalo iluminando a escuridão, um nome em letras grandes e brancas surgiu sobre uma imagem em preto e branco de um vaso de flores mortas.
HADASSA
O filme em preto e branco com uma trilha sonora de suspense se inicia, Hadassa em uma cozinha pouco iluminada, ela estava sozinha, esperando a água ferver em uma chaleira. Sentada, perdida em pensamentos, acariciava cicatrizes em seus pulsos. O chiado irritante a desperta de seus devaneios e ela volta a atenção à chaleira, se levanta e prepara o chá. A cena seguinte, ainda na cozinha, a câmera mostra um close do líquido quente sendo derramado na xícara. Uma narração começa suave, enquanto ela em silêncio volta à mesa, a voz de Hadassa ecoando pelos alto-falantes do cinema como se ela estivesse lendo algo:
“Muitas vezes o amor parece um abraço aconchegante, outras vezes, um peso que não conseguimos soltar.”
A narração pausa, Rute aparece na porta da cozinha, um vulto na escuridão, seu rosto calmo, mas sua postura inquieta e seus dedos rígidos no batente da porta, denunciavam sua ansiedade.
— Ainda acordada? — A voz era gentil, mas com uma nota de ansiedade. — E essa água no fogo? Ouvi o chiado da chaleira — ela apontou para a chaleira.
— É que eu fiz chá, para dormir melhor. — Hadassa olhou pensativa para xícara.
Rute foi caminhando até a mesa, seus passos abafados pelo tapete velho e olhou o líquido da xícara e depois para Hadassa.
— Esse chá você encontrou onde?
Hadassa hesitou.
— Uma amiga me recomendou. É natural, sabe?
O silêncio que se formou parecia pesado demais, Rute pegou uma colher.
— Posso experimentar?
Hadassa confirmou que sim com a cabeça. Rute mexeu o chá provando uma gota em seus lábios. Seus olhos ficaram sombrios por um instante, olhou Hadassa, e ficou em silêncio. Em sua cabeça uma lembrança se formou. Uma música mais tensa começa.
— Hadassa, cheguei, trouxe a torta que você pediu. — Rute entra pela porta da frente, com uma sacola na mão.
A câmera segue cada movimento seu, revelando o cansaço em seu rosto de um dia de trabalho exaustivo. Quando chega à sala, ela para de repente, os olhos arregalados, no chão ajoelhada, estava Hadassa, com mãos e roupas manchadas de sangue. Hadassa soluçava, o celular escorregando em sua mão.
— Rute, por favor... me ajude... eu quero conseguir morrer, mas eu não quero ir para o inferno.
Rute ficou paralisada por alguns segundos, mas logo seu instinto tomou o controle, pegou seu celular no bolso da calça e ligou para emergência enquanto procurava algo para estancar o sangramento. A câmera se move lentamente, e foca no rosto de Rute enquanto ela volta para onde Hadassa está, as duas se sentam no sofá, e Rute pressiona o pano no ferimento de Hadassa. Rute abraça a mulher ensanguentada, sua expressão é uma mistura de confusão e um medo avassalador.
Hadassa soluça, as palavras saem de sua boca como se fossem arrancadas.
— Desculpa, eu não queria isso, mas as vozes, elas não param, achei que assim eu teria paz, mas eu senti o inferno dentro de mim e desisti, eu só queria a paz que a morte traz.
A câmera volta para o rosto de Rute, ela fecha os olhos, as lágrimas correndo livre pelo seu rosto, segura Hadassa em seus braços como se pudesse protegê-la dela mesma. O som de batidas na porta preenche a cena, a ajuda havia chegado, mas a sensação de algo irreversível pairava sobre as duas. A cena é trocada, uma trilha sonora mais melancólica, outra cena do passado, Hadassa pegando um envelope pardo que continha algumas ervas, se desfaz do envelope no lixo da cozinha. Logo após, Rute era mostrada examinando o mesmo envelope, com as sobrancelhas franzidas, antes de escondê-lo em uma gaveta. As cenas seguintes eram fragmentos de uma rotina que se tornava cada vez mais comum. Rute agora preparava o chá todas as noites, e oferecia a Hadassa.
— Para sua insônia. — ela dizia, mas seu olhar a traía, talvez culpa ou preocupação, ou outro sentimento que não dava para ser nomeado ainda.
Hadassa parecia cada vez mais frágil, olheiras escurecidas, movimentos lentos, mas seu rosto exibia uma estranha paz. A cena muda, Hadassa em uma pequena sala de estar iluminada por uma lâmpada oscilante, o relógio marcando meia-noite e ela escrevia algo. A câmera focava em sua expressão cansada e em suas mãos trêmulas segurando a caneta. Uma narração se inicia com sua voz:
“Eu sei que você não queria isso, mas você fez o que era preciso. Agora, só espero que consiga conviver com isso...”
A cena é cortada antes que ela terminasse a narração. A próxima cena tomava um tom mais sombrio e a música se torna também mais sombria, Hadassa deitada na cama com o rosto pálido, Rute ao seu lado segurando sua mão. Uma narração com a voz de Hadassa se inicia:
“Você me amou o suficiente para me libertar, mas será que eu a fiz carregar algo que você não merecia?”
A câmera corta para Rute com uma expressão sombria, e então para uma visão de sua mão apertando o punho da xícara que Hadassa usara. A última cena do filme, a música melancólica mais lenta, Rute sentada sozinha à mesa da cozinha, a chaleira estava no fogão, mas vazia. Em suas mãos ela segurava a carta de Hadassa. A câmera se aproxima lentamente enquanto ela lê. A voz de Hadassa narra:
“Eu precisava que fosse você, precisava que fosse por amor, porque só por amor você faria uma escolha que eu não tive coragem de fazer, não lhe pedi nada, mas mesmo assim você me ajudou a encontrar a paz.”
Rute solta a carta, e encara a câmera, seu olhar perdido, seu rosto é uma mistura de dor e cansaço. Ela se levanta e sai andando para outro cômodo deixando a carta sobre a mesa e a câmera foca em uma xícara vazia.
FIM
A ceifadora dos apaixonados se inclina perto da outra ceifadora e sussurra:
— O que achou? Estou aberta às críticas. — disse a ceifadora dos apaixonados.
— Gostei, direto ao ponto. — falou a ceifadora dos que tiram a vida, descruzando as pernas.
— Poético, não acha? O amor transformado em arma, mas sem deixar claro quem das duas puxou o gatilho, romances trágicos sempre me comovem.
A ceifadora dos que tiram a vida deu uma risada seca seguida de um suspiro.
— Poético, não. Eu diria prático, alguém precisava decidir, e parece que Hadassa passou o fardo para Rute, não foi um romance, foi um crime — a ceifadora dos que tiram a vida falou ajeitando o chapéu. — A única pergunta é: quem segurava a arma?
— Ou talvez Rute sempre soubesse que seria o fardo dela. — a ceifadora dos apaixonados deu de ombros. — Hadassa não conseguiria nunca ir até o fim, ela tinha medo. — Ela suspirou e cruzou as pernas.
— Então ela manipulou Rute para alcançar o que queria? — A ceifadora dos que tiram a vida estreitou os olhos.
— Manipular? Não sei, ou apenas confiou que Rute faria, mesmo que não tenha dito uma só palavra. — A ceifadora dos apaixonados tocou o queixo e ficou pensativa. — Talvez Hadassa confiasse que o amor de Rute era maior que o medo que ambas tinham, ainda acredito que foi uma morte por amor. Quando mostrei uma cópia da carta de Hadassa para a ceifadora dos assassinados, ela também disse que era manipulação de Hadassa, por esse motivo ela não quis participar da análise do filme.
— Acho que a hipótese dela talvez esteja certa, Rute quem deu o golpe final, amor ou não, mas ela agiu influenciada por Hadassa.
— Rute sabia o que o chá continha, uma infusão sutil de uma planta tóxica, discreta o suficiente para passar despercebida. Hadassa havia comprado as folhas, mas foi Rute quem decidiu terminar a tarefa, irônico, não é? Evitar que Hadassa se matasse, matando-a lentamente. Ainda acredito que ela fez isso por amor.
— Rute não me parece uma mulher de meias medidas, quando Hadassa disse aquelas palavras, fez aquele pedido de ajuda, algo dentro dela clicou, ela amava Hadassa, mas amor às vezes também é controle, e controle pode ser fatal, então ela abriu mão do controle para que Hadassa pudesse ter paz. — A ceifadora dos que tiram a vida cruzou os braços e ficou pensativa. — Tem a chance de Rute apenas ter matado ela por amor dando o que Hadassa queria, mas também tem a chance de ela ter levado aquele pedido de ajuda ao pé da letra e agido, manipulada por Hadassa que já queria se matar. — parou de falar e ficou refletindo por um tempo. — Vamos deixar ela no jardim à espera até que possamos decidir. — disse a ceifadora dos que tiram a vida, rompendo o silêncio.
— E se nada for concluído? — perguntou a ceifadora dos apaixonados, olhando para a tela vazia.
— Então você ficará responsável por ela até que possamos decidir o que fazer.
— Sempre tão prática, não é? — A ceifadora dos apaixonados deu um sorriso debochado.
— Confio que você vai manter ela entretida, além disso você terá companhia por tempo indeterminado para seus jogos e talvez consiga com ela mais informações.
As duas levantaram juntas ainda discutindo o caso, deixando a sala de cinema na escuridão. A ceifadora dos apaixonados coloca o cigarro na boca, intocado, um movimento encenado, e dá uma risadinha, a outra ceifadora coloca as mãos nos bolsos do sobretudo, caminham em direção à saída, suas sombras projetadas na tela vazia. No fundo da sala, o projetor piscou uma última vez, mostrando o jardim onde Hadassa aguardava, envolta em névoas.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Um brinde aos Vivos
Isabel acordou com o coração na boca, a mente pesada e turva. No silêncio da catedral, um grande anjo de mármore a observava do púlpito…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Isabel acordou com o coração na boca, a mente pesada e turva. No silêncio da catedral, um grande anjo de mármore a observava do púlpito, de seus olhos escorria um líquido vermelho e grosso como lágrimas. Como um véu, o tom vermelho emitido pela lua tocava tudo o que escapava da escuridão da noite.
Com força e desenvoltura que nunca sentira, sentou-se e ouviu os ossos estalarem, como se estivessem sendo usados pela primeira vez na vida. Os estalos secos ecoaram pela nave de forma lúgubre.
O lugar era uma paródia do que um dia fora: depredado e imundo, com um cheiro forte de metal que tomava suas narinas. Estava sentada em um dos vários bancos de madeira maciça, arremessados ou largados de qualquer forma.
— Boa noite, princesa. Dormiu bem? — disse uma voz doce como um canto de sereia.
A alguns metros de distância, estava uma mulher muito magra e alta, com uma palidez disfarçada pelo luar carmesim. O olhar de escárnio e o semblante sério diminuíam Isabel, que se sentia uma pequena presa diante de uma caçadora que ela não teria como enfrentar.
— Quem é você? Onde estou? — perguntou Isabel, a voz trêmula.
Um sorriso amplo tomou a face perfeitamente esculpida da mulher, deformando-a. Ela bateu duas palmas, lembrando Isabel de como os duques das vilas chamavam seus serviçais.
— Creio que você tem razão, menina. As apresentações estão em ordem. Pode me chamar de Marishka. — O sorriso da mulher alva derreteu. — Você está no Castelo Drácula, o inferno de uns e o paraíso de outros.
Um homem raquítico e com tufos parcos de cabelo adentrou a nave por uma discreta porta aos fundos. Ele mirou Isabel à distância, feliz por vê-la viva e inteira. “O mestre ficará satisfeito comigo” cochichou para si mesmo, abrindo um sorriso de poucos dentes avermelhados. O volume da barriga, coberta por roupas de fino trato, ajudava as mãos tortas a segurarem uma bandeja dourada com três taças de tamanhos distintos, preenchidas com um líquido viscoso, de vermelhidão exaltada no brilho da estranha lua. Ele se aproximou, olhando para o chão, com os braços estendidos para a mulher.
— Como solicitou, madame. Uma taça de tenra idade, uma taça de virgem e uma de nobreza.
Usando uma delicadeza sobrenatural, ela apanhou a primeira e menor das taças. Parecia satisfeita e ansiosa. O homenzinho deixou a bandeja no banco e se escondeu em um canto escuro da nave, observando-as.
Marishka cheirou o líquido com júbilo e bebeu um discreto gole. Um brilho de êxtase muito específico atravessou os olhos dela, um brilho que Isabel, em sua juventude, ainda não havia experimentado. Claramente alterada pela estranha bebida, ela cravou as unhas longas e afiadas no braço do banco.
— Fui escolhida para lhe informar que você está noiva de nosso mestre… de nosso marido, na verdade. — Com facilidade, as unhas dela deslizaram pela madeira, arrancando lascas grossas. — Você foi selecionada para ser a quarta entre nós. Suponho que ele esteja entediado com três.
A cena já era louca o suficiente para Isabel. O assunto do noivado foi a certeza que ela precisava para saber que tinha que sair de lá com urgência, mas sentia que algo alertava sobre o perigo iminente de sair correndo — talvez o braço destruído do banco.
— Marishka, eu agradeço a recepção… calorosa, e a oferta, mas só busco encontrar meu pai e voltar para minha vila.
— Seu pai? Não se preocupe, ele estará presente no seu noivado. — Uma risada discreta seguiu, mas anos de saúde debilitada tornaram Isabel alheia às malícias das conversas mundanas. — Querida, sei da sua frágil saúde. Me conte, não deseja ser exímia em todas as áreas da vida? Forte como um urso, sem limites ao que pode fazer e jamais ficar doente novamente?
A mulher sabia o que falar, e a ênfase no "jamais" teve o peso de uma vida na mente de Isabel.
— Jamais ficar doente novamente? — repetiu ela, débil. O dedo indicador da mão esquerda bateu ferozmente na madeira, ansiosa e sedenta por paz. O cheiro inexistente de doença que sempre a acompanhou invadiu sua mente, trazendo memórias de um passado não tão distante.
— Sim… Sim. Nosso mestre irá lhe propiciar um presente digno de reis e rainhas. Sua saúde atual é a de um plebeu comum. Estamos lhe oferecendo saúde… eterna, e mais… — Ela deu um grande gole na bebida, terminando-a de uma vez. Deixou o silêncio retomar o ambiente, a menina já estava pressionada o suficiente.
Isabel só queria sair daquele lugar horrendo, ficar o mais longe possível da mulher. Se levantou, pronta para correr, e viu, para seu horror, um esqueleto onde estava o homenzinho. A caveira a observava, o corpo ósseo coberto por um manto negro e longo. Uma enorme foice em mãos era a única coisa realmente visível no breu.
Ela sempre soube que a morte a viria buscar, sempre caminhou ao lado dela, mas agora a via pela primeira vez. O horror das memórias da tosse de sangue a tomaram novamente; ela tremia vigorosamente.
— Eu… vou considerar sua oferta, Marishka. Há algum local mais apropriado onde eu possa descansar?
— Igor, leve a pequena aos aposentos dela, onde ela possa se recompor. Obrigada pela saborosa companhia. — Novamente, um sorriso surreal, desta vez com caninos longos e afiados como facas.
O homenzinho veio correndo, lambendo a gengiva pelos vãos entre os dentes, saliva escorrendo pelo canto de seus lábios. Ele apanhou a mão da jovem e a arrastou para fora da catedral, na noite banhada em sangue.
— Obrigada a você também, querida amiga. Facilitou muito o meu trabalho. — Ela olhou de lado, observando a morte. O mórbido esqueleto a observou de volta, silencioso e sedento por aquilo que queria, mas não teria ali…
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Diário de Anton S. Miahi VII
Meu inestimável, Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
De Dr. Christopher V. Walker II
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871
Meu inestimável,
Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque de horror que a ciência, por mais que avance, parece incapaz de elucidar.
Eu me encontrava na sala de medicina da Universidade de Paris, acompanhado pelo investigador Jules de Moreau e quatro guardas, enquanto outros seis permaneciam atentos nos corredores. A noite estava turbulenta; lá fora, uma tempestade varria Paris com raios e trovões, e mesmo sob a luz das lâmpadas a óleo, cada clarão projetava sombras que dançavam ao redor dos corpos dispostos sobre as macas. O cheiro de chuva e sangue enchia o ar, misturado ao óleo queimado, impregnando o local de um mal-estar indescritível.
— Diga-me, doutor, — começou Jules, com sua voz grave ressoando pela sala, — qual é a sua teoria? Esses corpos, encontrados nas margens do rio, exangues e com sinais de resistência apenas em um dos braços… é como se algo se alimentasse neles.
Parei ao lado de um corpo, o de uma jovem dama, notando algo que até então havia escapado à nossa análise. Havia uma mancha negra se espalhando ao redor das perfurações em seu pescoço, como um mapa macabro de venenos rastejantes.
— Jules, aproxime-se, veja isto! — murmurei, sentindo uma urgência terrível. — A mancha negra parecia pulsar como algo vivo.
Estávamos ambos petrificados diante daquele detalhe perturbador, até que um trovão estourou sobre nós, silenciando a sala. E então, quase como um sussurro ecoante, uma voz profunda reverberou ao redor.
— “Levantem-se, criaturas da noite…”
Os guardas se aglomeraram na porta, enquanto eu, hipnotizado pela voz, me mantive imóvel junto ao corpo. Foi quando ouvi um som molhado e denso: gotas caíam do corpo da jovem para o chão, formando poças negras e viscosas. De repente, os corpos ao redor começaram a se debater, com espasmos horripilantes, como se tivessem sido tomados por uma força oculta.
Os guardas, tomados pelo medo, sacaram as armas e avançaram, mas mal puderam dar mais que alguns passos antes que um novo trovão apagasse todas as luzes, mergulhando-nos na escuridão. Os relâmpagos entravam pela janela, iluminando uma visão aterradora: os corpos já não estavam sobre as macas.
— Atrás de vocês! — apontei, ao ver o brilho fantasmagórico do relâmpago. No mezanino acima de nossas cabeças, pendia o corpo de um dos guardas, os olhos abertos, agora vazios. O que o segurava era uma criatura de pele pálida, olhos vermelhos como brasas e dentes longos e afiados. O som de sua respiração era como o ranger de ossos.
Sem hesitar, as criaturas lançaram-se sobre nós, e a sala virou um campo de batalha. Os guardas disparavam suas armas, mas cada tiro parecia apenas irritar aquelas coisas. Ouvi os gritos, o som de carne sendo dilacerada, e o sangue começava a escorrer pelo chão em filetes escuros.
Caído ao chão, observava aquele pandemônio, até que senti uma mão forte me puxar. Era Jules, com o rosto contorcido em uma expressão de pura adrenalina.
— Rápido, Walker! Vamos! — Gritou o investigador para mim.
Corremos. Deixamos a sala para trás, os gritos de nossos companheiros ecoando enquanto os guardas do lado de fora, ao ouvir os disparos e os uivos das criaturas, corriam para a sala. Mas nós seguimos na direção oposta, tomando os corredores tortuosos da universidade. Meus passos ressoavam junto aos de Jules, cada batida de nossos pés acompanhada pelo eco do horror que deixávamos para trás.
Os corredores, que antes pareciam frios e vazios, haviam se transformado em um labirinto sinistro, cada sombra, uma ameaça, cada passo um desafio à sobrevivência
Enquanto escrevo, ainda sinto os ecos daquela madrugada sombria pulsarem em minha mente, como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Nossa fuga pelos corredores da universidade foi marcada por gritos, tiros e o som metálico de garras raspando as paredes. Os policiais que enfrentaram aquelas criaturas, mesmo armados, não tinham chance. O som dos disparos era abafado por gemidos, estalos e súplicas – uma cacofonia de morte e terror.
O coração martelava no peito; a respiração, pesada, tornava-se uma tortura. A cada passo, a exaustão aumentava, mas era impossível parar. Jules estava ao meu lado, o rosto pálido e os olhos arregalados, sua mente oscilando entre incredulidade e pavor.
— Doutor, o que eram aquelas… coisas? Por que os mortos voltaram para caçar os vivos? — ele sussurrava, a voz trêmula, quase suplicante.
Fizemos uma curva e avistamos uma porta entreaberta. Sem hesitar, atravessamos o limiar e a fechamos atrás de nós, encostando-se pesadamente contra ela. Jules continuava com suas perguntas, o Colt .36 tremendo em suas mãos. Eu, por minha vez, lutava para organizar meus pensamentos, mas só pude murmurar:
— Meu amigo, é como se todos os conhecimentos médicos e científicos que acumulamos se tornassem inúteis diante dessa aberração…
Naquele momento, Anton, devo confessar que me senti apanhado em uma teia de forças que escapavam ao domínio humano. Devo ter irritado algo ou alguém com minhas investigações, pois aquele mal parecia ter um propósito que me escapava, uma inteligência sinistra e calculista. Senti a urgência de procurar ajuda espiritual. Talvez eu devesse ter passado na Abadia de Saint-Germain-des-Prés, conversado com o padre Bastien antes de continuar esses estudos macabros. Mas não, minha curiosidade foi minha única guia.
Os ponteiros do relógio pendurado na parede indicavam que era quase cinco e meia da manhã. Notei então uma fina linha de fumaça entrando pela fresta sob a porta e avisei a Jules. Em seguida, ouvimos passos pesados se aproximando, e algo arranhando as paredes com um som que fazia o sangue gelar.
— Prepare-se…. — murmurei, agarrando um mancebo de madeira que achei ao lado. Jules verificou o tambor de seu revólver com mãos trêmulas e o ergueu, firmando-se no centro da sala.
As pancadas na porta ficaram cada vez mais violentas, cada golpe fazendo as dobradiças rangerem. Até que, com um guincho arrepiante, a porta foi escancarada, revelando aquela criatura bestial que nos perseguia. Era uma visão saindo dos pesadelos mais profundos: olhos brilhantes e inumanos, dentes longos e afiados como os de um predador, e uma postura arqueada, como se cada movimento fosse uma ameaça.
A coisa avançou, e em um ímpeto, Jules disparou. O tiro atingiu o peito da criatura, mas ela sequer hesitou. Atingiu-o com uma força descomunal, lançando-o ao chão. Girei o mancebo e golpeei a coisa nas costas, mas foi como acertar pedra – ela se voltou contra mim, o olhar faminto e cruel, e senti suas garras arranharem minha pele.
Jules, ferido e sangrando, conseguiu erguer o Colt novamente e disparou contra o rosto da criatura. Ela recuou, emitindo um urro bestial, mas ainda estava longe de ser vencida. Eu, com uma energia que não sabia possuir, desferi mais um golpe, e ela caiu por um instante. Mas o tempo não estava a nosso favor, pois, em breve, ela se ergueria novamente.
Uma última vez, olhei para o relógio – eram seis horas da manhã. Do alto das janelas quebradas, o primeiro raio dourado do sol irrompeu, cortando a escuridão e tocando o chão. Com um novo grito, a criatura recuou, e ao ser tocada pelo feixe de luz, seu corpo começou a se contorcer e emitir um uivo horrível. Ela fugiu para o corredor, mas já não restava dúvida: a luz do sol parecia ser a única coisa que a deteria.
Corremos atrás, mas ao virarmos o corredor, ela já havia desaparecido, como se a noite a tivesse engolido de volta.
Decidimos retornar à sala onde tudo começara. O caminho estava repleto de sangue, corpos e destroços; o cheiro metálico impregnava o ar. Ao chegar, avistei o cadáver da jovem dama ainda sobre a mesa de dissecação. Sobre seus pés, uma poça de líquido negro, denso e fétido, repousava. Olhei para Jules, ambos entendendo que aquela visão era o epítome de tudo que tínhamos presenciado.
Foi quando, mediante um vitral intocado, o sol invadiu o recinto. Um feixe de luz pousou sobre o cadáver da moça. Em instantes, como por um fogo divino, seu corpo começou a arder translúcido, reduzindo-se a cinzas em um espetáculo silencioso e terrível.
O que seria essa essência negra e pútrida, esse sopro de morte que não mais reconheço, Anton?
De Anton S. Miahi V
(Carta para Dr. Christopher)
De Anton S. Miahi V
Bram, 10 de agosto de 1871
Meu querido e estimado amigo,
Recebo a notícia do ataque que sofreu com um assombro que mal consigo expressar. É como se uma sombra imensa houvesse se arrastado das profundezas até nós. Que esses horrores tenham cruzado a fronteira da nossa França, e ainda mais que tenham se voltado contra você, Christopher — um homem de ciência, um pensador! Tais eventos são de uma natureza tão grotesca, tão inumana, que mais se assemelham à obra de criaturas infernais, daquela maldita estirpe que apenas o próprio Diabo poderia conceber. Sua descrição, vívida e apavorante, fez com que a imagem tomasse forma em minha mente: uma cena tão infernal que me pergunto se aqueles corpos não foram possuídos por demônios.
O jornal que me enviou já me havia deixado intrigado e preocupado. No entanto, esta última carta trouxe uma inquietação que atravessa o mero temor — diria até que roça o desespero. Meu amigo, começo a me perguntar se fiz bem em aceitar este convite para cá. Em minha ignorância, pensei que seria uma aventura entre velhos manuscritos e o pó da História, mas me vejo agora questionando a própria essência do que creio real. Imagino o que meu irmão, cuja ausência ainda sinto como uma sombra em meu peito, pensaria disso tudo. Ele sempre teve um senso prático que, talvez, tivesse me feito ver o que agora não posso ignorar. Ele, em sua racionalidade serena, certamente evitaria esse pântano de incertezas que sinto crescer ao meu redor.
Você sabe, Christopher, que prezo a razão acima de tudo. Marcel bem conhece minha mente cética, minha preferência pela lógica. No entanto, aqui estou, numa terra onde a realidade parece brincar com nossas percepções, onde sombras parecem ganhar vida e as portas dos corredores nunca permanecem exatamente onde as deixei. Sinto-me empurrado, atraído como uma marionete, para dentro de uma rede negra e pegajosa que me envolve cada vez mais.
Pior ainda, sou assombrado por visões e criaturas que desafiam o natural, entidades que parecem emergir de histórias que antes eu teria desdenhado, as lendas ciganas que outrora escutamos com ironia entre copos de vinho. Aqueles contos, amigo meu, me rondam agora como presságios, e uma parte de mim teme descobrir o quanto das palavras deles era verdade.
Cada dia que passa me sinto mais enredado neste lugar. É como um abraço apertado, uma serpente invisível que me envolve em laços escuros, me puxando lentamente para um abismo do qual, temo, já não poderei escapar. É com essa sombra que encerro esta carta, esperando que, ao lê-la, encontre alguma solução que me liberte deste feitiço infernal.
Com gratidão e afeto,
Anton S. Miahi
Anton S. Miahi XIV
(Escrito em meu Caderno)
26 de agosto de 1871 — Acordei num sobressalto. O peito arfava, e a mente, desordenada, lutava para discernir o que era realidade e o que era apenas um delírio fugaz da madrugada. Havia... algo. Como uma sombra de lembrança — ou seria uma ilusão? Um rosto... não, era mais uma presença. Monm. O nome veio como um sussurro em minha mente, trazendo um peso indefinível e uma estranha familiaridade. Sinto que falamos, mas os detalhes se dispersam como bolhas de sabão ao vento, frágeis e transparentes.
Levantei-me, ainda vestido com as roupas do dia anterior e com as botas pesadas nos pés. Não me recordo de como cheguei ao quarto, tampouco lembro de ter caído no sono. Caminhei até a janela, puxei as cortinas, e um relâmpago cortou o céu, revelando o cenário montanhoso, áspero e sombrio. O relógio no canto indicava que mal passavam das sete da manhã, mas meu corpo, exausto e enrijecido, teimava em permanecer no torpor da noite.
A cada lampejo de luz, o quarto oscilava entre sombras densas e tons estranhos de lilás. Tudo parecia imóvel, congelado. Os detalhes ao meu redor eram meros espectros de cor: preto, branco e lilás. Como se o próprio tempo hesitasse, mantendo-me aprisionado em uma madrugada eterna.
Então, o som de passos ecoou pelo corredor. Femininos, leves, mas decididos. Uma presença fria pareceu invadir o ar. Virei-me, fixando o olhar na porta entreaberta, e lá, no vão, uma luz amarelada oscilava. Fiquei paralisado. Um aroma de lavanda começou a invadir o quarto, um cheiro familiar, trazendo de volta uma lembrança distante: minha tenda no exército, o pequeno altar de um oficial ao meu lado... "Para concentração, meu amigo. Uma questão de fé", ele sussurrava, queimando aquelas flores secas. O aroma era intenso, mas a lembrança, frágil. Pisquei e tudo se desfez. O aroma se dissipou; a luz, sumira.
Movido por um ímpeto irracional, dei um passo adiante e abri a porta com violência, encarando o corredor vazio. Olhei em ambas as direções, tentando entender para onde poderia ter ido aquele vulto, aquela luz... aquela presença. E foi então que uma voz rasgou o silêncio.
— Senhor Anton! O que diabos você está fazendo saindo assim?
O susto me fez virar rapidamente, encontrando Nestor, meio escondido nas sombras do corredor. Ele me olhava com uma sobrancelha arqueada, e sua expressão oscilava entre o escárnio e a irritação.
— Procurando... alguma coisa, Nestor? — minha voz saiu estranhamente rouca, como se eu mesmo não acreditasse no que estava dizendo.
E então me indaguei em minha mente, — “Como ele chegou ali, sem fazer qualquer som?”.
Ele riu, aquele riso ácido que poderia conduzir qualquer um ao desconforto e tirar do sério.
— Procurando? Ou apenas vagando como um louco? A essa hora, senhor Anton? E pelo que exatamente?
Suspirei, tentando recompor o pouco de sanidade que me restava.
— Eu... ouvi passos. E havia uma luz, um perfume de lavanda...
— Lavanda? Ora, cavalheiro, agora estamos vendo e sentido fantasmas perfumados? — aquele mordomo esboçou um suave sorriso no canto dos lábios com clara intenção de deboche.
— Nestor… — repliquei, com um tom mais firme — Estou falando sério. Não era minha imaginação. Houve algo, ou alguém, aqui.
Ele se aproximou, e a luz mortiça do corredor destacou o brilho sarcástico em seus olhos.
— "Algo ou alguém", você diz... Como Monm, quem sabe? Que de tão... peculiar, deixou você assim, num estado deplorável.
Meu corpo se enrijeceu ao ouvir o nome. Ele havia dito aquilo de propósito. Monm... Sim, fora ele. Ou algo de sua presença em minha memória. É certo que estive com ele e mais alguém... Um misto de inquietação e confusão revolvia meu estômago.
— O que sabe sobre ele, Nestor? Você sempre fala como se soubesse mais do que diz.
O mordomo inclinou a cabeça, os olhos faiscando com um brilho que mesclava curiosidade e desprezo.
— Talvez eu saiba, caro senhor Anton. Mas cabe ao senhor descobrir até onde consegue ir com essas... suspeitas — Ele se virou lentamente, num sussurro gélido, carregado de um peso sombrio. — Ou essas alucinações, você decide!
A frieza em suas palavras ecoava na penumbra. Minha mão tremia, e meu coração pulsava forte, o odor da lavanda ainda parecia impregnar o ar. Mas antes que pudesse argumentar, Nestor já se afastava, o som de seus passos desaparecendo ao dobrar o corredor.
Permaneci ali, estático. Aquele jogo de provocações e segredos estava corroendo o que restava de minha sanidade. Envolto naquela atmosfera densa e carregada de mistérios, me perguntei, mais uma vez, se eu não era, de fato, o louco que Nestor insinuava.
Ouvi um último eco da voz dele, como se a própria sombra das palavras fosse real:
— Cuidado com o que procura, Anton. Às vezes, as respostas nos encontram primeiro.
Naquela tarde — O sussurro final de Nestor ainda flutua em minha mente, como uma sentença envolta em trevas: "No salão de jantar haverá alguém que o acompanhe desta vez. Ela é a que divide o senhorio deste castelo." Suas palavras cortaram o ar, carregadas de algo indizível. Antes que eu pudesse responder, ele desapareceu, engolido pela penumbra do corredor, como uma sombra esvaída no limiar da visão.
Fiquei ali, imóvel, o coração pulsando, a mente embotada. A imagem de Nestor sumindo na escuridão misturava-se às lembranças confusas da noite anterior... Meia-Noite, Uor, Olga Nivïttz. Nomes que ecoavam em minha cabeça, fragmentos de uma realidade que se desintegrava como papel queimado.
— Então... hoje a verei — murmurei, sem saber a quem dirigia minhas palavras, como se a própria escuridão ouvisse e absorvesse minha incerteza.
O silêncio me sufocava. Havia meses que eu residia neste castelo, vagando por seus corredores sombrios, sentindo a presença do próprio Conde Drácula como uma sombra que nunca se dissipa. Mas esta seria minha primeira vez diante dela. Ela, a senhora oculta das muralhas de pedra e das câmaras seladas por mistérios. O que poderiam Monm, Uor e Meia-Noite saber que eu não sabia? E até onde as palavras deles eram dignas de confiança?
Quando dei por mim, já estava em meu quarto, movido por uma vontade instintiva de me preparar. Vasculhei o guarda-roupa, tirando do cabide uma camisa de linho branco — tão claro que quase parecia uma afronta em meio àquela penumbra. Escolhi também um colete de couro negro, a cor das noites eternas que cercam o castelo. Vestindo-me com rapidez, ajustei a camisa, passei a mão pelas botas para livrá-las do pó acumulado, e me pus diante do espelho. Os espelhos, sempre tão traiçoeiros...
— Esta é a imagem que levarei para a presença dela... — sussurrei, observando-me atentamente. Meus próprios olhos pareciam me desafiar, como se escondessem um segredo que até eu desconhecia.
Arrumei o colarinho, alisei a frente do colete e dei um passo para trás, inspecionando o alinhamento de cada peça. Meus dedos estavam frios, mas o espírito... O espírito, eu tentava preparar o melhor que podia. Inspirando fundo, virei-me e saí, meus passos ecoando pelo chão de pedras. Marchava em direção ao inevitável, como um soldado destinado ao sacrifício.
O corredor principal me esperava, longo, sombrio, um túnel de madeira e pedra, iluminado apenas por candelabros de metal corroído que lançavam sombras deformadas nas paredes. Cada vela tremulava com uma leve brisa, como se uma presença invisível me seguisse, ansiosa por ver o que eu descobriria no final desse percurso.
Enquanto avançava, o ar parecia pesar mais, preenchendo meus pulmões com uma umidade densa, como se até o próprio oxigénio carregasse o cheiro de tempos passados. De repente, a decoração do castelo, antes apenas uma extensão da escuridão, pareceu ganhar vida. Paredes adornadas com tapeçarias desbotadas, desenhos de batalhas antigas e figuras de seres esquecidos pelo tempo. Quase podia ouvir os gritos abafados e os sussurros ancestrais que emanavam de cada trama.
Cheguei ao portal principal que me conduziria ao salão de jantar. As portas pesadas de carvalho negro, decoradas com entalhes de criaturas míticas e rostos que observavam com um olhar quase humano, destacavam-se como os guardiões de um segredo profundo. Toquei a madeira fria, hesitando.
"Anton..." minha própria voz soou estranha, como se fosse um eco que retornava de um lugar distante. — O que espera encontrar? E se... se aquilo que lhe disseram for verdade?
Sacudi a cabeça. Não havia mais volta. Empurrei as portas e, de súbito, o salão se revelou, banhado em uma luz mortiça e trêmula. O espaço era vasto, com teto arqueado, decorado com lustres de cristal que pendiam como lágrimas de uma noite eternamente suspensa. O chão era de mármore escuro, onde sombras dançavam, movendo-se como entidades de uma realidade à parte.
No centro do salão, uma mesa imensa, ladeada por candelabros de prata altos e pesados, cujas chamas tímidas lançavam uma luz que não chegava às extremidades da sala. Ali, em uma das cadeiras ao centro, uma figura feminina esperava, imóvel, o olhar fixo e atento.
— É ela. — sussurrei entre dentes.
Meu corpo hesitou, uma mistura de curiosidade e temor congelando cada músculo. Forcei um passo à frente, e foi nesse momento que sua voz rompeu o silêncio.
— Senhor Anton Stefan Miahi... quão fascinante é receber-te n’este momento singular... — proferiu ela, em um tom que parecia dançar entre a formalidade cortês e a introspecção calculada, cada palavra carregando um peso que transcendia o momento. — Revela-me, somos frutos do acaso ou a predestinação trouxera tua calorosa presença à minha neste alvor silente?
— Senhora Nivïttz, eu... não esperava tamanha... hospitalidade — respondi, sentindo o peso de cada palavra enquanto me aproximava.
Ela sorriu com uma seriedade única, e havia algo em sua postura que combinava elegância natural e uma presença quase etérea. Uma mulher de olhar profundo e enigmático, cuja força de personalidade transparecia em cada gesto. Seu modo de falar era impecavelmente rebuscado, como se cada palavra fosse uma peça trabalhada por um artesão.
– É-me um insólito prazer, Senhor Anton. Algumas recepções, devo, entretanto, advertir, são conjecturadas para além da congruente psyché. – disse ela, inclinando a cabeça ligeiramente, como quem pondera a profundidade do desconhecido. – Esta é a seiva rubra e viva d'este meu Castelo: uma reflexão, decerto, da mórbida inquietação dos que sob seu teto residem.
A mesa diante de mim estava repleta de alimentos, alguns familiares, mas muitos outros exóticos, de origem desconhecida. Fome e receio se misturavam em meu estômago.
— Senta-te, Anton, se assim me concedes a ousadia de ordenar — ela me convidou, indicando a cadeira ao seu lado, com um gesto que era, ao mesmo tempo, gracioso e autoritário, como uma monarca distribuindo favores. — Raríssimo sopro de serenidade é este, como uma lacuna dentre o caos; um momento sublime que nos permite apreciar sem pressa... — Um silêncio se alastrou sufocante. — Deleita-se, pois, a efemeridade é o orvalho sob o sol nascente.
Engoli em seco e tomei o assento. O ambiente carregava uma tensão que parecia se solidificar a cada momento. Ela me observava, trazia uma sutileza persuasiva que oscilava com uma seriedade perturbadora e enigmática, uma pista de seus pensamentos complexos.
— Diga-me, Anton… — ela retomou, sua voz envolta em uma cadência quase musical, como se cada palavra fosse selecionada com uma precisão cirúrgica. — O que encontraste, caríssimo, dentre os claustros ocultos e os aposentos sombrios de meu lar, despertara as estranhas de tua inibida curiosidade?
— Pode-se dizer que há muito que me intriga, senhora Nivïttz.. — Respondi, cauteloso. — Mas não sei até onde as descobertas são minhas... ou foram deixadas para que eu as encontrasse.
Ela inclinou-se ligeiramente, os olhos agora com um brilho intensamente curioso.
— O desvelar, em sua quintessência, não se realiza à ínsula de si mesmo. Ao contrário, o buscador e o buscado entrelaçam-se, como se regidos por uma indissociável força, sob silencioso acordo. A seiva que irriga as profundezas d’este alcácer, prezado Anton, tanto quanto o verbo que o fundamenta, possuem anseios e intenções verossímeis, seus arcanos não se manifestam à parte do consciente subjetivo.
Suas palavras caíram sobre mim como um manto pesado, e percebi que ela sabia mais do que demonstrava, que cada frase, cada olhar, escondia significados ocultos, camadas de intenções que não me eram reveladas.
— Como se o castelo tivesse vida própria? — murmurei, mais para mim mesmo.
O frio subiu pela minha espinha, e percebi o quão exposto eu me sentia. Mas Olga mantinha uma postura acolhedora, sincera em sua complexidade.
Ela sorriu, e sua expressão suavizou, mas sem perder o mistério.
— Para um ínfimo resumo, quiçá... Mais que um mero observador, Anton, o Castelo é um anfiteatro mórbido e egrégio, bem como é uma personagem, um narrador e uma testemunha. A sabedoria silente que o habita, acolhe a todos como parte de seu sui generis enredo.
Foi nesse momento que ela inclinou levemente a cabeça, como se observasse algo invisível ao meu lado, e seus olhos ganharam uma profundidade incomum. Ela abriu os lábios, e sua voz veio baixa, quase um sussurro:
— Lilaenatt somnien...— Quase não a compreendi e não sei se este seria a grafia correta do que foi dito por ela, apenas senti um estranho sentimento ao ouvir suas palavras. Parecia um latim arcaico. — Algo ao teu derredor, caro Anton, emana-se e esparge como nódoa instável. — Seus olhos pareciam observa algo além de mim, o que me forçou a revistar minha própria pessoa e os arredores com algum resquício de ceticismo e resistência. — Esta aura... —retomou ela. — Enraíza-se em teus passos pretéritos... um eco de laços ancestrais? Interessante expressão do Atemporal. Vejo alvililás... Pode ser tal vínculo uma sugestão d’um elo inexorável ao teu destino?
Ela estava absorta em sua própria análise daquilo que ela parecia ver e eu não, enquanto este professor apenas buscava entender o que ela dizia.
— O que quer dizer com isso? — perguntei, a tensão na minha voz evidente. — O que você viu?
De um momento a outro ela se levantou lentamente, o olhar ainda fixo em mim, mas agora impenetrável. Algo claramente parecia haver chamado sua atenção. Por um momento, pensei que fosse responder, mas Olga apenas ajeitou o vestido com um gesto meticuloso e recuou um passo.
— Perdoe-me, Anton… — disse ela, suavemente. — Parece que algo requer minha imediata atenção. Hórrido é não mais aprazer-me d’este momento tão interessante. — Sua expressão ficou marmórea.
E assim, em silêncio, ela se retirou. Seus passos eram firmes e ligeiros. Deixando-me sozinho com minhas dúvidas e o eco de suas palavras. Sentia que havia algo mais no que dissera, algo que escapava à minha compreensão, mas que me perseguiria enquanto eu vivesse. Ou, além disso.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Diálogos de Olga Nivïttz por:
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
O Abismo da Vigília
Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas, mas o asfalto ainda exalava o calor acumulado durante o dia. A cidade parecia viva, mas em um estado de convulsão, uma humanidade febril dividida por seus próprios abismos. Ele vagava entre os humanos como um espectador cínico, observando a banalidade e a tragédia de suas vidas.
Nos últimos dias, havia explorado os shoppings abarrotados, os corredores estéreis do aeroporto, os shows de rock onde os corpos se agitavam ao ritmo ensurdecedor da música. Cada lugar era um espelho fragmentado da humanidade: extremos de pobreza e riqueza coexistindo, separados por muros invisíveis, mas palpáveis. Velian percebia o desdém nos olhos dos privilegiados e a desesperança naqueles que lutavam para sobreviver. Humanos tinham nojo de outros humanos, e isso o fascinava e o enojava ao mesmo tempo.
Ele se sentia saturado. A degradação social, a superficialidade dos desejos e a hipocrisia das normas o exauriam. “Como pode eles se apegarem a algo tão vazio e, ainda assim, temerem o vazio verdadeiro?”, pensava. O que antes o atraía nos humanos — sua criatividade, seus impulsos, sua capacidade de amar e destruir com igual fervor — agora parecia reduzido a ecos de uma glória perdida. Velian ansiava por algo além da vigília, algo mais profundo do que essa realidade sufocante. Ele precisava escapar.
O Retorno ao Castelo
Naquela noite, recolheu-se à sua mansão à beira da Praia de Iracema. A casa era um refúgio de silêncio e sombra, isolada do barulho constante da cidade. Em seu quarto, onde a escuridão era absoluta, Velian sentou-se em uma poltrona forrada de veludo, fechou os olhos e começou a meditar. Ele não sabia ao certo o que buscava, mas seu desejo o guiava.
“Castelo Drácula” murmurou, como se invocasse um antigo pacto. “Leve-me de volta.”
E então, como se sua vontade fosse uma chave, sentiu o mundo mudar ao seu redor.
As Trevas Falam
O castelo o recebeu com o mesmo mistério de antes: vastos corredores de mármore negro, candelabros flutuando, o som distante de um piano. Mas desta vez, havia algo mais. Uma presença. As Trevas o envolveram como um véu pulsante, um manto vivo que parecia sussurrar diretamente em sua mente.
“Você voltou ao Castelo Drácula” disseram as Trevas, suas palavras ecoando como se viessem de todas as direções. “O que busca desta vez, Velian?”
Ele suspirou, mas sua resposta foi carregada de sarcasmo. “Talvez eu só queira me esconder da humanidade. Eles são tão... patéticos. Ou talvez eu queira me esconder de mim mesmo.”
As Trevas riram, um som profundo e reverberante. “Você não pode se esconder de nós. Somos as perguntas que você teme fazer, os desejos que não ousa admitir. Diga-me, Velian, o que você realmente quer?”
Ele hesitou, mas então respondeu: “Quero respostas. Sobre o que sou. Sobre o que é real. Sobre o que significa viver quando se está morto.”
“Ah, mas viver,” disseram as Trevas, “não é simplesmente desejar? O desejo, Velian, é a centelha que impulsiona o viver. Você deseja sangue, corpos, experiências. Deseja entender e ao mesmo tempo permanecer envolto em mistério. E ainda assim, teme seus próprios desejos, teme suas próprias dúvidas.”
Velian franziu o cenho. “E o que há para temer no desejo? Ele é tão natural quanto respirar.”
“Natural? Talvez,” responderam as Trevas. “Mas o que você diz do desejo que desafia todas as normas? Seu desejo pelo indefinido, pelo que transcende gênero, forma e limite? Você é atraído tanto pela carne quanto pela essência, tanto pelo masculino quanto pelo feminino — ou pelo que está entre, ou além. Isso o liberta, mas também o prende, não é?”
Ele sentiu as palavras como um golpe. “Eu não sou prisioneiro. Se há algo que sou, é livre.”
Livre?” questionaram as Trevas. “Livre para desejar, mas incapaz de compreender o que realmente deseja? Livre para existir em um corpo que transcende os limites humanos, mas ainda assim preso à dúvida sobre o que significa ser? E a liberdade, Velian, é realmente liberdade se está sempre acompanhada pelo medo do vazio?”
Reflexões Profundas
Velian ficou em silêncio, as palavras das Trevas ecoando em sua mente. Ele sempre se considerara livre — fluido em seus desejos, indefinível em sua identidade. Mas as Trevas estavam certas: essa liberdade vinha com um preço. Ele sentia a tensão entre a atração e a repulsa, o prazer e a culpa, o desejo de se fundir com algo maior e o medo de perder a si mesmo.
“Diga-me,” ele finalmente perguntou, “se viver é desejar, o que significa desejar algo que nunca pode ser alcançado?”
As Trevas pareceram sorrir, mesmo sem forma ou rosto. “Significa que você está vivo, Velian. Pois o desejo é a busca incessante, e a dúvida é o combustível dessa busca. Você busca a verdade, mas teme encontrá-la. Busca amor, mas teme a entrega. Busca a eternidade, mas se pergunta se ela não é apenas outro tipo de prisão.”
Ele fechou os olhos, tentando processar o turbilhão de pensamentos. “E a magia? – Não que Velian não soubesse dos grandes poderes da magia e conseguia executar até mesmo algumas grandes magias ancestrais em seus 700 anos de vida vampiresca, mas perguntava sobre a essência da magia – E os sonhos? Eles são reais ou apenas um reflexo do que queremos que seja real?”
“E se forem ambos?” disseram as Trevas. “O real e o irreal, o tangível e o etéreo. Como você, Velian, que é ao mesmo tempo carne e espírito, gênero e ausência, desejo e dúvida. Você não é um reflexo de sua própria magia?”
Velian sentiu uma onda de exaustão, mas também uma centelha de compreensão. As Trevas não davam respostas; elas apenas ampliavam as perguntas. E talvez fosse isso o que ele precisava.
De Volta à Vigília
Quando despertou, estava de volta ao seu quarto. O silêncio e a escuridão eram os mesmos, mas algo dentro dele havia mudado. As palavras das Trevas ainda ecoavam em sua mente, suas dúvidas e desejos pulsando como uma melodia interminável.
Levantou-se, caminhando até a janela que dava para o mar. A cidade estava viva, mas parecia tão distante quanto as estrelas apagadas no céu. Ele sabia que retornaria ao castelo, mas por agora, precisava se perder mais uma vez entre os humanos, entre suas luzes e sombras, entre seus próprios desejos e dúvidas.
“As Trevas estavam certas,” murmurou para si mesmo. “Viver é desejar, e talvez isso seja o bastante, por enquanto.”
E assim, Velian saiu para a noite, carregando consigo as perguntas sem respostas, as incertezas que o definiam, e o desejo incontrolável de continuar vivendo — e duvidando.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Onde as Névoas se Rompem
O peso do meu próprio corpo não mais existia; o turbilhão de pensamentos e a angústia pareciam nunca ter existido. Meus passos eram leves; quase…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O peso do meu próprio corpo não mais existia; o turbilhão de pensamentos e a angústia pareciam nunca ter existido. Meus passos eram leves; quase poderia flutuar. Uma brisa fria, como antes do amanhecer, tocava meu rosto. Eu estava livre.
Abri meus olhos; quase não podia enxergar. Encontrava-me entre névoas, envolta em um lilás etéreo que me fazia questionar que lugar seria aquele. Estaria eu sonhando? O silêncio era inebriante; se eu tivesse uma alma, com certeza ela estaria vibrante.
— Ane, você veio!
Esforcei-me para olhar entre as névoas que se abriam diante de mim. Lá estava ela, vestida de um branco tão puro que machucava meus olhos.
— Carrie! — Minha irmã parecia um anjo. Corri a seu encontro e a abracei fortemente. — O que faz aqui? Onde estamos?
— Quantas perguntas! Não sei se poderei responder a todas, mas precisava muito ver você. — A pequena que eu tanto amava se soltou do meu abraço e fez um gesto para que eu a seguisse.
Seguimos por um caminho feito de algo que eu não saberia dizer. Estava descalça, mas nada sentia sob meus pés. Talvez andássemos sobre as nuvens, pensei.
— Sim, são como as nuvens... — Carrie parecia adivinhar meus pensamentos. — Por aqui não há outro tipo de sentimento senão o vazio; a existência é uma quimera.
— Aqui é o céu? — perguntei, interessada.
Minha jovem e doce Carrie apenas sorriu.
— Não sou digna de tanto, mas não consigo pensar que não seja. — Nunca havia me visto livre da dor terrena. Antes, o vazio machucava e me fazia ansiar por algo a mais; agora, ele é um deleite. De fato, tenho a companhia de um anjo... uma fada.
— Não, Ane. Você não é digna! — Sua voz agora estava áspera, com um desprezo que eu nunca tinha ouvido antes. Sua fisionomia parecia diferente.
— Carrie... — De maneira repentina, tudo o que antes sentia transformou-se em preocupação.
— Ane, você é um monstro! — Sua face demonstrava medo.
Tentei tocar em seu ombro, mas ela se esquivou de mim, dando um passo para trás.
— Eu nunca tive a intenção...
Não havia percebido, mas a atmosfera, antes tão acolhedora e tão clara, havia enegrecido. O único ponto de luz era uma garotinha de baixa estatura, minha irmã caçula, que agora parecia ter horror de mim.
— Carrie, me perdoa!
— Eu não posso te perdoar, Ane... não mais.
Ela direcionou sua cabeça para o alto e gritou desesperadamente. Tentei mais uma vez me aproximar, mas paralisei diante da cena. Seu vestido branco foi bruscamente tingido de carmesim, enquanto todo o seu frágil corpo tornava-se cadavérico.
Caí de joelhos sobre ela, mas já não havia mais nada além de um tecido branco-carmesim. Não, ali não era mesmo o céu, era o inferno.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
14. Castelo Vampírico: Todo aquele que pede recebe; o que busca encontra; e, àquele que bate, a porta será aberta.
07 de Janeiro? - Fiquei paralisada ao vê-la, olhar para dentro…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
07 de Janeiro? - Fiquei paralisada ao vê-la, olhar para dentro dos seus olhos era como se perder em uma reflexão profunda, olhar para o mar a noite e sentir a sensação de paz, solitude e uma pitada de desamparo. Encarar de seus olhos me fazia sentir leves vertigens e uma profunda sensação de olhar para dentro de si e não encontrar respostas. Ela não me faria mal, isso me tranquilizava, o professor Monm já havia me dito que ela não faria, mas o que fazer agora? Afastei-me dela, ela também se afastou ficando encolhida no canto do quarto, como se estivesse perturbada. Sua voz, que eram muitas, ficavam falando uma por cima da outra como se alguém estivesse mexendo em um rádio procurando a estação certa. Imitava as vozes de Hadassa, a minha, a do homem que estava em meus sonhos e a do professor Monm. Era como se seu sistema tivesse entrado em curto e ela, em pânico, repetisse e repetisse tudo o que ouviu nos meus sonhos. Suas vozes não estavam mais dentro da minha mente, elas estavam saindo de sua boca, como um lamento, um choramingo estridente, a criatura parecia estar em pânico.
Ela estava tremendo e junto com as vozes emitia uma mistura de gemidos e sussurros estranhos que eu não conseguia compreender. Minha mente estava tão confusa por conta do pesadelo e desse despertar abrupto, que eu não sabia como reagir direito àquela situação. Aquela criatura parecia, de algum modo, ter sintonizado meus pesadelos e talvez isso explicasse seu pânico. Ela estava encolhida num canto, um emaranhado desajeitado se apertando na parede como se quisesse desaparecer. Meu primeiro pensamento foi fugir, mas algo em mim me impediu, acho que era curiosidade, eu não sabia o que fazer, o quarto parecia cada vez mais frio, eu não sabia se era o medo ou a criatura que estava provocando isso. Sem pensar demais, peguei uma coberta e joguei sobre ela, na hora os tremores da criatura pararam e o som que ela fazia foi se tornando um pouco mais baixo, mas ainda não era suficiente, minha presença no quarto parecia piorar a situação. Decidi correr para o professor Monm, talvez ele pudesse me ajudar, ele prometeu que viria hoje, eu apenas o faria vir mais cedo. O encontrei na biblioteca e expliquei a situação e minha voz oscilava entre o desespero e a urgência.
— Ela não me fez mal como você disse que não faria — falei com pressa — mas parece estar com medo e eu não sei o que fazer.
Ele não demonstrou surpresa, como se um evento como aquele fizesse parte de sua rotina. Pegou uns instrumentos estranhos dentro de um armário na biblioteca, uma lanterna, uma pequena ampola com um líquido âmbar e um caderno com capa de couro, e caminhamos juntos até o quarto. A criatura ainda estava lá coberta e agora parecia menos tensa, não tinha saído do lugar, nem se mexido. O professor se aproximou com cautela, a examinando com um olhar analítico. Se abaixou, se ajoelhando perto dela.
— Interessante — ele murmurou, levantou devagar a coberta, passando a lanterna, que possuía uma luz azulada, pelo corpo encurvado da criatura. A luz azul revelou cicatrizes e marcas que pareciam runas que pulsavam de leve, utilizou um instrumento em formato de “y” que parecia com um diapasão na cor de bronze com uma pequena pedra lilás no seu centro, ele tocou o diapasão com um outro objeto que parecia uma haste com uma bola na ponta, fiquei a espera de um som que não veio, mas a criatura pareceu vibrar de leve, depois ele colocou a ampola próxima ao rosto da criatura e um cheiro forte e adocicado, que me lembrava frutas vermelhas, se espalhou pelo quarto, e a criatura ergueu a cabeça. Seus olhos encontraram os meus e eu senti uma onda de emoção que não era minha; medo, gratidão, confusão? Eu não sabia ao certo a emoção exata.
— Ela se ligou a você — disse o professor, com um tom de fascínio. — De algum modo captou algo dentro de você. — Ele pegou o caderno de couro, abriu tirando um lápis do meio dele e fez algumas anotações, após isso se levantou e disse. — Preciso investigar isso, ela ficara aqui por enquanto, não irei tocá-la até ter certeza, e te recomendo o mesmo.
Passei o resto da manhã mantendo distância, sem perturbar, mas sem tirá-la de vista. O professor prometeu voltar mais tarde trazendo mais respostas, mas eu só conseguia pensar que cada resposta traria consigo mais perguntas e agora só me restava esperar. A noite chegou mais depressa do que eu esperava. Durante o dia, enquanto eu olhava a criatura, me lembrei de algo que eu havia protelado demais: o livro que eu tinha que abrir. Aquela criatura talvez estivesse conectada ao livro, eu trouxe o livro e o livro a trouxe aqui. Eu senti que o livro era perigoso desde o momento que o vi, mas a ideia de trazer Hadassa de volta parecia mais forte ao pensar nele e eu não conseguia evitar esse pensamento, sentia medo de continuar com a ideia mesmo que eu necessitasse muito colocar ela em prática. Esperei o professor voltar, e meio hesitante, decidi contar tudo sobre o livro e o que eu planejava fazer, carregar isso comigo parecia me sufocar, pois no fundo eu sabia que, se algo desse errado, eu precisaria de ajuda. Ele ouviu tudo em silêncio, com um pesar visível em seu olhar. Assim que terminei, esperei que ele fosse me repreender ou me convencer a desistir desse plano maluco, mas ele apenas suspirou.
— Eu entendo, Rute. — ele disse com sua voz calma e firme. — Entendo, talvez até mais do que você imagina, o que é querer trazer alguém de volta. E eu não vou repreendê-la e muito menos te impedir, mas você precisa entender algo, você chegou até aqui porque o castelo permitiu, encontrou o livro porque ele quis que você encontrasse. Tudo o que aconteceu foi uma combinação das suas escolhas e a permissão e vontade desse lugar. — Ele fez uma pausa, como se escolhesse com cuidado as palavras. — A partir daqui, qualquer coisa que vier será responsabilidade sua, o castelo te ofereceu todas as ferramentas, e você as aceitou, agora cabe a você decidir o que fazer com elas, mas recomendo cautela e muita reflexão, nada que este lugar oferece vem sem um preço.
Sua honestidade me desarmou, depois de ter dito o bastante para me fazer refletir muito antes de dormir, ele foi direto ao assunto em relação a criatura e suas pesquisas.
— Não precisei ir fundo demais em minhas pesquisas, como eu já suspeitava, essa criatura já foi um hóspede do castelo em algum momento, aquele local ao qual você me disse que encontrou o livro talvez fosse seu laboratório. Não posso confirmar com exatidão sua identidade, já que muitos fizeram uso daquele laboratório, só podemos esperar que ela se lembre de quem é. Eu a deixarei aqui com você, tenho outras coisas para resolver no momento, mas não deixe de me procurar se precisar de ajuda, mas acredito que ela não lhe causará problemas.
O professor Monm se foi e deixou a criatura ali, fiquei a olhar por alguns instantes e só conseguia pensar em como neste castelo nada nunca é simples, nem as escolhas e muito menos suas consequências. Os pensamentos me tomaram, as palavras do professor pesavam na minha mente, eu tinha revelado para ele meu plano maluco e agora eu precisava revelar à Ameritt. Era uma necessidade, depois dela ser tão boa comigo, sempre me ouvir e ser uma boa companhia, eu precisava confessar a ela tudo o que eu vinha omitindo em nossas conversas. Fui para o jardim e ela não estava lá, então tomei coragem e fui à casa de Ameritt, pelo menos eu imagino que seja dela, afastada do castelo bem aos fundos do jardim. Andei até os degraus de pedra, observando os musgos e rosa-trepadeiras na fachada da casa também de pedra. Subi os degraus e fui até a porta e me preparei para bater, ainda hesitante. Então aquele incômodo, que não sei explicar, se iniciou dentro de mim, aquele de quando acho que estou incomodando alguém. Bati uma vez e, antes que eu batesse uma segunda vez, a porta se abriu e Ameritt com um sorriso gentil me recebeu.
— Rute-besin, sabia que um dia você apareceria na minha porta. Vamos, entre, não fique aí parada, ou os besouros vão começar a cochichar sobre você. — ela riu baixinho.
Não conseguia não parar de olhar para os pés, eu estava envergonhada e odiava esse sentimento, Ameritt era uma pessoa agradável e eu já tinha criado um certo vínculo com ela, me sentir tímida na sua presença me irritava, talvez o que eu tinha para contar a ela fosse o motivo da minha vergonha.
— Eu…eu espero que não esteja incomodando, eu só achei que deveria vir. — Falei com voz baixa.
— Incomodando? Oras, Rute-besin, você acha mesmo que me incomoda receber visitas? Esses degraus aqui — ela apontou para os degraus desgastados — Já carregaram bem mais peso do que esses seus passos hesitantes.
— Eu não sei por que demorei tanto para vir te visitar, mesmo suspeitando que essa casa era a sua, preferia sempre te esperar aparecer no jardim. Não é nada pessoal, entende? É só que eu às vezes acho que posso incomodar entrando no espaço pessoal de alguém.
— Ah, bobagem, a natureza nunca se incomoda com visitas, se o visitante vem em paz. Tudo encontra seu espaço no tempo certo e hoje é o seu tempo. — ela tocou meu braço de leve me conduzindo a entrar na sua casa.
Entrei olhando ao redor da casa, fascinada com aquele lugar que era tão Ameritt quanto possível. No interior da casa tudo parecia acolhedor como ela, a temperatura era morna, com um calor que vinha da lareira de pedra da sala de estar, decorada com vasos de flores e ervas. O cheiro era uma mistura de ervas, terra úmida e um odor amadeirado sutil. Talvez vindo da sopa que Ameritt sempre preparava. As paredes da sala eram cheias de estantes de madeira escura com alguns poucos frascos etiquetados com um caligrafia cuidadosa: “Óleo de lavanda”, “Besouro Agrilus triturado”, “Óleo de jasmim”, “Funghi seco” e outros que não conseguia enxergar a etiqueta. Havia livros antigos com lombadas desbotadas, herbologia, botânica, entomologia, fitoterapia, enciclopédia das ervas mágicas, muitos livros relacionados a plantas, insetos, fungos e magia. O teto da casa era baixo, sustentado por vigas de madeira grossa de onde estavam suspensos vasos de plantas, como samambaias, jiboia, peperomia e lambari roxo, em alguns cantos, no chão, havia mais plantas, espadas de São Jorge, comigo-ninguém-pode, cactos e outras tantas plantas que eu não conseguia identificar. O chão era de pedra, coberto por tapetes antigos, mas que ainda mantinham suas cores vibrantes. Amortecia os passos e parecia ter uma textura agradável para pisar descalço. Espalhados pela casa, havia móveis antigos de uma madeira bem escura: duas poltronas de veludo verde-musgo com almofadas estampadas de flores, uma mesa baixa de centro e, à frente, um sofá de três lugares, também verde-musgo, com almofadas florais combinando.
— É bonito aqui, tem cheiro de ervas e terra molhada. — respirei profundamente para conseguir guardar o cheiro daquele lar em minha memória.
— Claro que tem — ela disse rindo — Essa casa é teimosa como eu, está sempre cheirando à vida, mesmo que seja a uma vida peculiar. Agora sente naquela poltrona, eu vou preparar um chá e não adianta dizer que não quer, porque a água já está no fogo.
— Você é boa nisso, não é? Em fazer as pessoas se sentirem bem. — A pergunta saiu dos meus lábios sem motivo.
— Não sei te dizer se é talento ou prática que vem com a idade, passo tanto tempo conversando e cuidando de plantas e besouros que, quando aparece uma pessoa, parece fácil. — Ela sorriu para mim e logo saiu para pegar o chá.
Um besouro verde-esmeralda estava parado na mesa de centro me fazendo companhia enquanto Ameritt estava fazendo o chá. A casa parecia exalar segurança, conforto, mistério, algo nos seus objetos, seu cheiro, seus habitantes, pareciam querer contar uma boa história, algo que talvez Ameritt um dia estivesse disposta a compartilhar. Após alguns minutos, ela voltou com uma bandeja com chás e biscoitos, deixou na mesinha à nossa frente e se sentou.
— Pois bem, enquanto toma seu chá, me diga, o que a trouxe até aqui? Problemas para dormir? Tédio? Ou um besouro sussurrando em seu ouvido que era hora? Ou só queria me ver mesmo? — ela riu e tomou um gole de chá.
— Talvez um pouco de cada e uma confissão a fazer, algo que eu não sabia como dizer. — Segurei a xícara com as duas mãos sentindo o cheiro e o vapor do chá.
— Ah, não precisa dizer nada se não quiser, só aparecer aqui é o bastante. Agora tome o chá e não se preocupe com nada. Aliás, você não é um incômodo aqui, é uma visita esperada e sempre bem-vinda.
Respirei fundo, tomei um gole de chá, coloquei a xícara sobre a mesa e despejei nela a minha confissão, toda a verdade sobre o livro, sobre meu plano maluco de trazer Hadassa de volta, sobre a criatura que talvez tenha sido atraída pelo livro. Falei como me sentia culpada de não ter revelado tudo para ela antes, depois de ela ter sido boa comigo. Ela me ouviu em silêncio e, quando terminei, foi minha vez de ficar em silêncio e esperar sua reação, mas tudo o que ela fez foi sorrir de leve e segurar minhas mãos nas suas.
— Oh, Rute-besin, já vi tantas coisas terríveis sendo feitas nesse castelo e também coisas boas. — sua voz estava tranquila — O que está planejando fazer, seja bom ou mal, não me surpreende, mas ouça bem, pense muito antes de agir. E qualquer que seja sua decisão, não hesite em me procurar para pedir ajuda.
As palavras de Ameritt sempre me trazem conforto. Junto com seus chás de ervas e, agora, o aroma acolhedor de sua casa, pela primeira vez me fizeram sentir que eu não precisava justificar minhas escolhas ou o motivo de estar ali. Senti alívio, mas também fiquei mais ciente do peso que minhas decisões teriam a partir de agora. Aproveitei para pedir que Ameritt ajudasse a criatura, que ainda parecia assustada, e pedi um de seus chás calmantes ou algo que pudesse ajudar. Ela concordou e insistiu em levar o chá à criatura. Então, me pediu que fosse para o quarto, prometendo que, após preparar o chá, logo viria.
Voltei para o quarto, sentei-me e fiquei observando a criatura, que ainda tremia levemente, enquanto esperava Ameritt. Quando ela chegou, a reação da criatura foi imediata. Ao vê-la, a criatura se acalmou, como se a reconhecesse. Ameritt se sentou ao lado dela, oferecendo o chá com todo cuidado. Murmurava palavras que eu não conseguia entender, o que só aumentava minha curiosidade. A criatura, que antes me causava desconforto, agora parecia vulnerável. Quando Ameritt foi embora, ela permaneceu imóvel, com o olhar fixo em algo debaixo da cama, como se visse algo que eu não podia enxergar. Não sentia mais medo, apenas curiosidade. Ao observá-la, não pude evitar compará-la a um animal abandonado que sofreu nas ruas ou a uma espécie rara e ainda não catalogada. No entanto, logo me esforcei para afastar esses pensamentos. Ela era mais do que isso. E, com o pouco conhecimento que eu tinha, sabia que não poderia compreender o que ela realmente era.
Decidi sair para espairecer e dar à criatura um pouco mais de tempo sozinha.
Caminhei pelos jardins do castelo por horas, sentindo o cheiro das flores, o vento sobre a minha pele, o silêncio. Apesar de tudo, a presença do castelo era constante, eu o senti me observar, à espera do meu próximo passo. Pensar nele como algo consciente não era mais absurdo, talvez ele sentisse que assim que eu voltasse ao quarto, a decisão que eu vinha adiando por tempo demais estaria tomada: era hora de abrir o livro, eu já havia protelado demais, pensado demais, temido demais. Eu não tinha mais o que perder, pois o que mais me importava já tinha sido perdido e eu agora só estava tentando recuperar. Ao retornar ao quarto, encontrei o espaço onde a criatura estava, vazio, ela não estava mais lá, apenas a coberta jogada no canto. Meu coração começou a acelerar, o professor pediu que eu ficasse de olho nela, e agora ela não estava mais aqui. Ouvi um som sutil vindo debaixo da cama, abaixei bem devagar e a encontrei lá, deitada, segurando pedaços de um velho lampião. Reconheci o objeto de imediato, era o mesmo que usei para atacar o monstro que me feriu no antebraço. A criatura estava concentrada juntando pedaço por pedaço do lampião quebrado.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Guardiã de Somníria
— Dantesca! — Clamou Therodriel. Dantesca observou-o se aproximar, silenciada. — Instabilidades afetaram pesadelos infantes, Emmyliliam está…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
— Dantesca! — Clamou Therodriel. Dantesca observou-o se aproximar, silenciada.
— Instabilidades afetaram pesadelos infantes, Emmyliliam está dedicando-se a cuidar como pode, todavia, receio que haja um olhar-aberto n’algures do reino. — Therodriel estava apreensivo e Dantesca olhou ao seu redor.
— Onde está Lorrt? — Therodriel deu de ombros e Dantesca voou acima com tuas asas negras longas e sublimes.
~ ❦ ~
— Lorrt! — Dantesca desce, calma, pousa frente a Lorrt. O semblante de Lorrt induz à Dantesca uma compreensão intuitiva. — Quem é o olhar-aberto? Vejo em tua fronte que a resposta está disponível ao teu conhecimento. — Lorrt respirou com profundez silente.
— Áurea Lihran… — Dantesca se enfureceu.
— Como é possível? — Indagou incrédula.
— O Castelo Drácula, Dantesca… este lugar ao limiar de tudo trará, não apenas Áurea, mas todos os olhares-abertos que desestabilizarão Somníria. — Dantesca ponderou ao ouvi-lo.
— O que sentiste… ao encontrá-la? — A voz de Dantesca tremeu n’uma suavidade quase imperceptível, Lorrt examinou as expressões mais ínfimas e percebeu.
— Amá-la-ei tal a jura feita em vida, amo-a mesmo que ela não mais possa retribuir este amor. — Lorrt tinha a voz tenra, mas, Dantesca respirou intensa, inconformada.
— Tolo! Mantenha-a afastada de Somníria! — Interrompeu Dantesca, exausta das declarações amorosas de Lorrt. — Caso a instabilidade venha a perdurar em razão deste teu amor inconsequente por uma humana, sucumbirás à morte, regredirás ao chamado… — Ameaçou.
— Não me ameace, Dantesca. — Ela voou, olhando-o com fúria.
— Não é uma ameaça, Lorrt Dierchestein, é uma promessa. — Dantesca se foi, porém, Lorrt a seguiu.
— Nunca prejudicarei Somníria, Dantesca! Por que persegues as minhas atitudes sem sabê-las de fato? — Discutiam à contravento.
— Tu nunca compreendeste o chamado, senhor Dierchestein. E aquela qual chamas de amor-eterno, é, na verdade, o teu fardo-eterno. — Lorrt parou o seu voo, planando entre nuvens densas; olhando Dantesca que, estranhada, igualmente parou para olhá-lo.
— Se devo morrer para continuar amando-a, o farei. Quer tu queiras ou não. Faça o requerimento, Dantesca; expulse-me de Somníria. Basta de ameaças. Basta! — Ficaram em silêncio.
— Apenas quero te proteger… quero que… sintas o que significa ouvir ao chamado de Somníria… e abdicar de tudo… em nome dos pesadelos e sonhos…
— E nunca o fiz? Jamais visitei os sonhos e pesadelos de Áurea. Tenho há incontáveis éons me dedicado à Somníria. Frígido como devo ser… — Lorrt hesitou, lembrou-se de Áurea. — Somníria a trouxe para mim, Dantesca… eu não a procurei. — Dantesca respirou fundo, aproximou-se de Lorrt.
— Eu não… eu não desconfio de ti, querido. Apenas… proteja Somníria tal como o Nocturvo que foste destinado a ser? — Lorrt segurou as mãos de Dantesca.
— Prometo protegê-la. Sucumbo à morte por Áurea, por Somníria e por ti, irmã. — Dantesca deixou escapar um singelo sorriso enfraquecido.
— Não o faça por mim, eu não preciso. — Seu voo perfeito se fez nos ares lilás. Lorrt a observou esvanecer no horizonte.
~ ❦ ~
— E então, Lorrt soube as razões da instabilidade? — Indagou Therodriel. Dantesca pousou, novamente, com graça e beleza.
— Um olhar-aberto, vindo do Castelo Drácula…
— Esse lugar maldito! — Therodriel expressou-se em ódio profundo.
— Acalma-te Therodriel. Lorrt lidou com o problema e lidaremos com os demais que vierem do Castelo. — Dantesca iniciou o evocar de um portal e Therodriel suspirou.
— Farei o possível, porém pouco garanto ter sucesso em meu controle emocional. Esse lugar pode destruir Somníria.
— Não irá! — Dantesca levantou seu tom de voz. — Nada destruirá Somníria. Nada, ninguém, coisa alguma! — Therodriel se assombrou, mas não questionou Dantesca que, em seguida, adentrou o recém-aberto umbral de obsidiana.
~ ❦ ~
— Diga-me, levaste Áurea até Lorrt? — Exprimiu Dantesca, na solidão do mais afastado lugar do reino de Somníria. — Revela-me se é tua vontade! Eu sei da tua consciência, Somníria. — Dantesca olhava para o alto. — Revela-me para que meu medo se dissipe, pois… tu és a razão do que sou… não posso suportar que alguém a ponha em risco… eu sou a tua guardiã, Somníria… — Dantesca fechou seus olhos, em lentidão profunda; um lume alvililás a envolveu, levando-a a um sono profundo.
A revelação em seu sonhar era refulgente: o amor de Lorrt atraiu Áurea, ainda que Lorrt resistisse, cumprindo o seu papel de Nocturvo. O amor não pode ser obstruído. Olhos alados, n’um pálido nada-além, dizem à Dantesca: “Guarda-me ao que guardas o saber das leis transcendentais; à tua intuição”. Dantesca entendeu que algumas leis dobram as sete dimensões e quebrantam os multiversos da vida e do verbo.
— O amor… eu entendo… entretanto, não posso compreender…, pois nunca amei… — Sussurra Dantesca. O lume se dissipa tênue, Dantesca desperta e segue em direção aos portais que precisam de sua atenção.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Capítulo 7 — Culpa e Proteção
Minha consciência era vívida e sólida. Todo o mobiliário ao redor era pálido e tal cor evidenciava, em maior perfeição, a riqueza dos detalhes…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Minha consciência era vívida e sólida. Todo o mobiliário ao redor era pálido e tal cor evidenciava, em maior perfeição, a riqueza dos detalhes vitorianos. A tapeçaria tinha nuances de um lilás rarefeito e pelas fenestras de seus vitrais outrora escarlates, residia um lume profundo e difuso cuja branca essência etérea se manifestava em sua própria condição de fulgor. “Eu... acordei?” — Indaguei em silêncio, aproximando-me devagar até a luz, observando pela janela o Castelo e seu abismo — era o que eu esperava ver. No entanto, confirmando o que eu já pressentia, tudo estava diferente. Vi uma inundação suave de nuvens como uma celestial verdade entre a vida e a morte; um alvililás se expandia na imensidão, e a serenidade silenciosa do derredor era estonteante em sua agradabilidade. Tinha o aspecto de um sonho profundo e belo, porém, sinto que era real, sinto que neste estranho lugar eu estava desperta tal como estou agora.
Ao abrir os umbrais de meu aposento, não vi, pois não havia, o corredor derradeiro. Apenas nuvens. E por elas pude caminhar. A beleza plácida era tão vestal e mágica que, pela primeira vez, senti-me realmente protegida. Um aroma de lavanda cingia-me suave, mas as flores não eram visíveis. O horizonte era perpétuo, não havia sol ou lua, embora tudo estivesse clarificado tal como o dia mais vestal. Pouco depois, enquanto andejava sem rumo, avistei um portal de riqueza insondável. Esculpido no que julguei ser pedras de opalina com seu brilho irisado característico. Neste momento, senti-me instigada a atravessá-lo, como se um estranho chamado silente adviesse do seu interior, embora, aos meus olhos, nada houvesse além de nuvens do outro lado, tal como ali onde eu pisava e tal como em tudo o que havia em todas as direções.
— Tu não pertences a este lugar. — Ouvi. Era um tom suave, embora intenso. Olhei na direção da voz ecoante e avistei uma mulher, de olhos fechados. Seus longos cabelos brancos pareciam movimentar-se suavemente pela brisa. O veemente contraste fascinara-me, pois, sua pele negra-acinzentada, beirando um intenso violeta-escuro, tinha uma perfeição destoante de tantas nuvens e tanta luz. Seus olhos, então, se abriram lentamente, e vi uma íris púrpura e brilhante.
— Nem a este, nem a outro, acredito... — proferi. A mulher sorriu, tinha uma aura serena. Caminhou devagar até se aproximar um pouco mais.
— Seja bem-vinda a Somníria. Se estás aqui, com teus olhos abertos, intriga-me saber de onde vens.
— Não de muito longe — afirmei —, direto de meu leito em um antigo castelo. — Ela pareceu pensativa ao me ouvir.
— O Castelo Drácula, eu suponho. — Eu a olhei com diligência.
— Como sabes? — Minha curiosidade a respeito disto estava estampada em meu semblante. A mulher sorriu outra vez, tão estonteante aura emanava dela.
— Não é fácil chegar a Somníria estando com os olhos abertos como tu estás. Olhos abertos, aqui, significa estar consciente e isso resulta em lembrar-se e lembrar-se resulta em saber que existe. — Ela se aproximou do portal de opalina irisada que, outrora, parecia me chamar e, dentre as plantas lilases ao seu envolto, retirou uma em especial, pálida e com pétalas leves e pequeninas. Entregou-me em seguida, apreciei o perfume doce e sutil da sua natureza. — Sempre-vivas guiarão teus passos em Somníria e, igualmente, por este sonho no portal que chama pela tua alma. — Com as mãos suavemente estiradas, como se indicassem um caminho a seguir, ela direcionava ao portal de opalina irisada. Desejei atravessá-lo outra vez, entretanto, havia mais a saber sobre aquele estranho paraíso.
— Se meus olhos abertos fazem com que a lembrança não se perca de meu lembrar, diga-me teu nome para que o esquecimento seja ainda mais improvável. — Olhei-a e suas pupilas dilataram-se sutilmente.
— Ihvia... — sussurrou. — Peço perdão por não me apresentar a ti, entenda que não há tantos despertos em Somníria e, em consequência, raramente vejo-me na necessidade de uma apresentação formal.
— Não te preocupes, apenas não quero te esquecer... — Havia tanto já esquecido, por esta razão as memórias tornavam-se tudo para mim de modo que eu sentia estar, a cada nova vivência, me preparando para defender, com todas as forças, as minhas novas memórias. Ihvia ficou em silêncio, por um tempo.
— O que tu buscas, Áurea, já está em ti. — Eu não esperava ouvir o que ouvi. — Olhe bem para dentro d’este portal, há algo que te espera no interior dele e, se ele te chama, é valioso que respondas.
— Conheces-me, então? Diga-me como? — Tive esperanças, por instantes, de ter alguém próximo que soubesse quem eu era, ou melhor, quem fui.
— Conheço teus sonhos. No entanto, levo algum tempo até lembrar-me deles e, consequentemente, lembrar de ti. É preciso mansidão para que as recordações aflorem sem dor e sem medo... — Silenciei. Ela parecia falar diretamente o que me tocava no mais íntimo do meu espírito. — Diga-me o que vês, aproxima-te do portal; revela-me o que ouves. — Os umbrais reluziam e o chamado era, não uma voz, mas uma intuição. Aproximei-me de sua esculpida forma e o que antes era apenas infindas nuvens, em sutileza se manifestava em formas e movimentos até transfigurar-se em uma cena esvanecida.
— Uma... mulher... eu mesma... — Proferi em um murmúrio, estando atenta aos detalhes dissipados. Ihvia sorriu quando eu a olhei por um segundo.
— Este é o teu sonho mais recorrente, Áurea. Contudo, ele emerge no teu sono profundo, no subconsciente. Talvez queiras encontrá-lo agora, com teus olhos abertos a ele. — Dissera enquanto eu me aproximava do portal. Sim, eu almejava olhar para o meu sonho recorrente e descobrir as verdades que o habitavam. Em especial pela paz que me trazia o simples aproximar. — Não temas. — Afirmou, no entanto, sua voz já estava longínqua e tão logo vi-me no interior do que outrora assemelhava-se a uma reminiscência.
Tudo ao derredor era pálido, envolvido por uma névoa translúcida com nuances de marfim, era como estar num entardecer melancólico com o sol dourado no horizonte e a sua luz espargindo pelas nuvens no céu, criando esplêndidas matizes. Eu estava em uma casa de madeira, singela e confortável; o sofá com uma colcha de pequi sobre ele ornava com almofadas em tons de bege. Havia um vazo de flores na mesa de centro, neles estavam as sempre-vivas que Ihvia colhera para mim. Eu sabia que eram elas. À esquerda, uma cozinha singela e cuidada, nos mesmos tons, algo era cozido no fogo à lenha, uma panela cujo aroma agradável aquecia o coração. Tomates, talvez? Pimenta e limão? Segui em direção ao cozido, no entanto, um choro tenro me alcançara os ouvidos; um bebê em lamúrias — era um bebê, eu sentia. Segui as ondas do timbre tão delicado e cheguei a um quarto cujos enfeites transmitiam uma sensação macia. Tão logo, avistei um berço.
Meu coração era um relógio cujo tempo contado era célere; meu coração pulsava de uma alegria contida, um amor insondável, uma estranheza precisa. Olhei para o leito e lá estava ele, o bebê; envolto em lã cor de areia, lamuriando como uma pequenina preciosidade. Guiei-me a segurá-lo, era tão petiz... seus olhos se abriam com tanta dificuldade; ainda assim, ao fazê-lo, viu-me admirá-lo e sorriu, sem nenhum dentinho, sem sequer uma expressão facial realmente formada e pronta para a vida. Frágil, tão sensível. Seu choro se foi e, de súbito, ouvi passos apressados e, antes que eu pudesse entendê-los, algo abraçou minha perna esquerda. Olhei para baixo. Uma menina. Decerto deveria ter por volta de quatro anos de idade. Ela sorria. “Mamãe, ele acordou?” — indagara olhando-me nos olhos. Eu era a mamãe, aquela cujo abraço sempre seria a segurança perene; aquela cuja dedicação se estendia pela eternidade. Abaixei-me, deixando o bebê às vistas da menina que, com lentidão e apreço, acariciou-o em sua miúda fronte. O bebê sorriu outra vez.
Minhas lágrimas nasceram em meus olhos e uma dor sutil em meu peito conduziu-me ao choro mais intenso. Aquela cena era sublime... agradável. Um lar construído com amor. O meu lar. Os meus filhos. “O que foi, mamãe? Está emocionada?” — disse a doce criança. Sorri-lhe, tocando-lhe a bochecha n’um carinho verdadeiro. “Diga-me teu nome, pequena? Lembra-me, pois, esqueci-me de tudo...” — pedi, pois, sentia-me acolhida. A garotinha sorriu. “Millimor, mamãe! E esse é meu irmãozinho Ëllior. Promete não esquecer de novo, mamãe?”. Eu prometi. Abracei-a com todo o meu profundo e inalcançável amor. Senti-nos aquecer. Fechei meus olhos e aproveitei o que, talvez, jamais voltasse. Quando pude abrir fazer da visão um sentido ativo novamente, notei que alguém estava próximo, vi sapatos masculinos. Olhei para olhar em sua face, mas despertei antes que o pudesse fazer. Despertei em Somníria.
Por um tempo, fiquei inerte. Lembrando-me. Depois, demasiado abalada, chorei com pesar, soluçando de tristura e angústia entre as límpidas nuvens. Permaneci pelo que me soou ser a eternidade, sozinha entre nuvens lilás, até iniciar uma caminhada que perdurou ainda mais tempo; imersa, porém, em meus pensamentos de saudade, medo e angústia, pouco importava-me a temporalidade das coisas. Desejei habitar o sonho familiar e deixar a vida humana; indaguei de Ihvia havia escolhido isso, pois, estava li em Somníria, porventura tivera uma experiência símil a minha. Por que deduzir que o sonho é de valor inferior à realidade? E por que a realidade seria, de fato, real e não o sonho? Eram dúvidas fidedignas de um ser exausto; imerso em saudades e pavores.
Um murmúrio, todavia, quebrantou meu estado, vinha d’algures dentre aquele infinito. E, embora o local fosse esse contínuo pálido e celeste, não era plano. Assim, descobri aos poucos a origem do sussurro. “Áurea Lihran” — eu ouvia. Vinha de um mastodôntico e deslumbrante portal, constituído por diamantes negros, cingido por purpureanidas ao redor— uma flor que jamais vi pessoalmente, de pétalas n’um violeta-escuro, sépala negra, um degradê sombrio em seu interior, próximo ao óvulo; filetes espinhosos, anteras de uma penugem suave. É considerada uma espécie mágica, de raridade mística; associada à morte e ao medo, polinizada apenas por abelhas-basalto de Amorttam. No interior daquele obscuro umbral, as nuvens se dissipavam em uma escuridão perniciosa. Era... admirável e... amedrontador.
Deslumbrada, aproximei-me e ao passo que o fazia, uma vertigem me acometia e o sussurro, outrora indistinguível, agora era agourento e grave, como a voz de um demônio, como as sete vozes do abismo. Temi e, trêmula, tentei recuar, porém, a energia mórbida do portal induzia-me a seguir até o seu interior; isso me causou uma estranheza e um horror inexplicáveis. No meu coração, parecia haver um violino macabro com acordes fugazes; um violino de mil volutas, em cor de sangue; pois emergia de mim um horror que não se podia medir. No antro daquela escuridão, senti que me aguardava a morte, ou algo pior do que ela; uma morte vertida à vida, impossibilitando que o verdadeiro descansar em paz fosse possível. Era utópico defender-me daquela gravidade infernal; então sucumbi ao seu âmago, mas, não só.
Pouco antes, enquanto o sussurro vinha aos meus ouvidos, um de cada vez, soprando meu nome como uma carne dilacerada o faria se pudesse; como a terra de um cemitério de mortes hediondas, decerto diria se assim fosse capaz. Enquanto uma contagem regressiva longínqua estrangulava-me em pânico, ouvi o som de imensas asas a domar o ar e, em átimos, senti mãos viris segurarem meus braços em tentativas poderosas de impedir que o insalubre negrume engolisse meu corpo e ser. Fiz o possível para olhar para trás e reconhecer aquele que tentava me salvar; porém, fomos tragados e torturados na imensidão negra. Medo. Arrepio. Breu perpétuo e insalubre. Uma imersão em um pesadelo cruel.
Vi-me caída em um lugar hostil e sôfrego, denso e escuro; um tipo de paisagem terrífica onde urros e bramidos de terror se alastravam por todos os lados; senti uma presença tétrica, macabra e perversa próxima a mim, em alguma direção. Até que vi o Piche do Oblívio, caminhando em sua lentidão, vindo até mim, com seu cantarolar moroso e horrendo. Quis correr em uma fuga célere e dediquei-me a isto, porém, quão bárbara era a densa atmosfera, o firmamento em nuvens cinzas e eletricidade em raios, trovões, tudo carmim; fendiam os céus enquanto debaixo deles as sombras e a destruição assombravam. Eu corria... mas, devagar; era contraditório, entretanto, o esforço para o fazer mostrava-me claramente o quão lenta eu estava. E ele, o Piche, vinha atrás de mim, caminhando e, desta vez, com seus olhos vermelhos, talvez sorrisse se tivesse expressão e semblante.
Eu tive medo. Porém, quando ouvi as asas domando, novamente, o ar sufocante; olhei para cima e vi um homem em roupas negras e grandes asas de igual tom, ele descia da imensidão entre centelhas de cor escarlate e estrondos ensurdecedores; atrás de mim, frente ao demônio, ele pousou com elegância e poder; muito mais rápido do que eu, parecia imperar sobre todo o ambiente e ser capaz de agir para além do que a circunstância parecia impor. Vi com perfeição as suas asas, ainda não pude ver a sua face. O homem, portanto, ajoelhou-se no chão e proferiu o que não pude ouvir. Uma imensa marca pálida se materializou, um estigma, um enigma, um sigilo mágico; atravessando o chão de pedra fria e em seu âmago, tão somente, o Piche. O Piche ficou estático e eu senti um impacto em meu peito, como se o aprisionamento da criatura me afetasse, permitindo a minha liberdade.
Enfurecido, o Piche demoníaco do Oblívio, estendeu seu lodo asqueroso, e o envolveu em meu pescoço; seu olhar rubro indicava com evidência a sua ira. O meu anjo protetor — é o que eu poderia pensar ser naquele átimo — desembainhou uma espada negra com lume lilás reluzente, a qual parecia ser etérea, imaterial. Extirpou o lodo sem piedade; e seu urro de dor espalhou-se pelos céus, e no horizonte ecoou. Trêmula e amedrontada, eu nada fazia — era-me impossível diante tamanho terror. O lodo do Piche que envolta de meu pescoço afligia, desfez-se no mesmo instante; e antes que qualquer coisa pudesse acontecer, fui pega pelo anjo e o vento quente colidiu com minha tez lívida, e voei com ele, mesmo mortificada; e vi o Piche do Oblívio na terra fria, dentro do círculo com infindáveis símbolos que pensei nunca ser capaz de compreender.
Então atravessamos o portal e as nuvens brancas, e tons de lilás vestal, se apresentou aos meus sentidos novamente; bem como o aroma de lavanda. Fui colocada, gentilmente, em um amontoado de nuvens confortáveis. Com as mãos cujo toque ela tenro, fui acalmada. Palavras quais, desta vez, ouvi com mais compreensão, irradiou do anjo e fez com que o umbral de diamante negro desaparecesse; sucumbiu como se nunca tivessem existido. Alívio. Alívio em mim e, creio, no anjo; ele finalmente me olhou com seus olhos violeta e com uma ternura cândida que eu compreenderia, pois, no acalmar do meu coração espavorido, o semblante daquele anjo não me pareceu, em nenhuma instância, desconhecido. Levei alguns minutos, pois sentia que estava vasculhando todas as lembranças recuperadas até então; no entanto, seu falar direcionado a mim, trouxe o reconhecimento imediato.
— Tu estás bem, Áurea? — Eu ouvi. Meu coração pulou no peito, causando uma ansiedade súbita.
— Lorrt? — Era Lorrt, ou idêntico a ele? Ou muito parecido? Eu estava perplexa. Instante por instante, eu tinha certeza de que era ele; as lembranças que haviam em mim eram como um sonho vago, cujo sentido principal eu tinha total conhecimento, mas os detalhes vertiam, esvaíam; decerto por isso não notei, em primeira instância, que era Lorrt; contudo, não demorou para a certeza envolver minha alma. Ele fitava-me com um carinho infindo, inenarrável. Eu... entristeci-me, pois, eu não o amava mais como sei que o devo ter amado quando estávamos juntos, mas de tudo esqueci; como poderia revelar isso a ele? “É só um sonho” — eu pensava, tentando crer que tudo era uma criação de minha mente perturbada.
— É... agradável... revê-la... — Ele disse. Um tom manso, viril, terno; uma expressão de paixão, respeito, carinho e saudade. Eu não conseguia retribuir.
— Perdoa-me... eu... não consigo... eu perdi minhas memórias... eu não sinto mais a mesma coisa... — Expressei com uma culpa, uma angústia, sem perceber que talvez não fosse preciso dizer tudo aquilo. O semblante de Lorrt tornou-se infeliz, entretanto, era tão sutil; parecia-me que ele, com uma força profunda, mantinha, o máximo possível, suas emoções controladas. Ele se aproximou.
— Acalme-se. Respire. Não há culpa, nenhuma culpa. — Ele segurou minhas mãos, ajudou-me a me sentir melhor. — Diga-me, tu reconheces o pesadelo que chamara teu nome naquele portal? Reconheces aquela criatura?
— Eu o chamo de... o Piche do Oblívio; aparecera-me quando me doía a lembrança de minha amada mãe e minha família... eu estou amaldiçoada, Lorrt... — Lamuriei, tanto que o lacrimal emergiu com seu brilho cristalino em minhas retinas.
— Maldição? — Lorrt estava visivelmente preocupado.
— Em busca das minhas memórias, fiz um acordo com uma entidade; agora tenho um demônio ao meu lado, dentro de mim, e sinto a dor mais horrenda existente sempre que me vêm à memória novas lembranças. Esta dor materializou-se no Piche.
— Respire devagar, Áurea... Tu sabes onde estás? — Indagou, plácido e sério.
— Ihvia dissera-me que este é o reino de Somníria, e que tenho nele meus olhos abertos e, portanto, estou consciente e posso me lembrar do que acontecer aqui. Ihvia sabia que eu vinha do Castelo Drácula. Há tanto a contar... — Desabei em meu choro, agora translúcido. Lorrt tocou sutilmente meu queixo, levando-me a olhá-lo; no entanto, parecia hesitante em me tocar, assim que eu o olhei, ele se afastou.
— Permita-me ensinar-te um ritual de exorcismo; use-o para manter este demônio afastado sempre que precisar. Não posso trazer ao teu conhecimento uma magia capaz de destruir o vínculo que possuem, pois, isso não é possível em Somníria. No entanto... — Lorrt passou a movimentar as nuvens ao redor. — A quebra temporária do elo, será suficiente para te levar à busca do conhecimento que precisas para realizar o ritual completo. — Olhei, atenta, para ele. E aprendi sobre cada símbolo que ele fazia ser visto com a manipulação das nuvens; cada verbo pronunciado, também fora guardado em minha mente com bastante esforço; compreendi os passos de um ritual mágico perfeito. Lorrt ensinava com brandura e apreço; todas as minhas dúvidas eram sanadas por ele. Em evidência, sucumbira todos os seus sentimentos de modo a priorizar minha proteção, eu percebia.
— Se algo errado ocorrer, Lorrt? — Temi.
— Este não é um ritual forte o suficiente para te causar danos; erros levarão apenas ao súbito desaparecimento dos sigilos em um fogo fátuo. — Compreendi e fiquei em silêncio. Observando-o. Ele fez o mesmo comigo. Olhá-lo acalmava-me, queria amá-lo como amei. Quis abraçá-lo como, decerto, um dia abracei. Porém, de repente, um abalo e um estrondo símil ao do pesadelo, destruiu a contemplação e, também, meus pensamentos, ecoando pela paisagem alvililás.
— Está na hora de despertar, Áurea; quanto mais tu permaneces aqui, mais instável Somníria se torna. — Explicara Lorrt. Mas havia tanto para dizer e perguntar.
— Eu te verei outra vez? Há tanto que eu gostaria de falar... de compreender... — Lorrt não pôde esconder sua tristeza naquele momento, seus olhos lacrimejaram.
— Sim, se assim desejares...
— Como? — Insisti.
— Encontre-me em teus pesadelos, zelarei por eles...
— Meus pesadelos? — Mais um estrondo, seguido de um tremular amedrontador, como se uma chuva se predissesse. Olhei ao redor, assustada. Lorrt se aproximou, segurando, com sutileza, os meus braços. Tocando a ponta de seus dedos em minha fronte.
— Eu vou cuidar de ti, Áurea. — Senti uma dor, como se uma agulha perfurasse minha fronte. — Acorde! — Ouvi e vi, pela última vez, o semblante de Lorrt. E o dossel carmim ressurgiu embaçado; a visão ébria de um adormecer profundo. Toquei a seda negra. “Meu leito...” — sussurrei. Notei que anoitecia. “Eu não esqueci” — murmurei. Mantive-me deitada, apenas relembrando. Somente relembrando. Nada mais.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Rubi Áurea”:
Anotação
Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente, daqui a algumas horas. Por isso, acho inadiável anotar aqui mais uma das experiências inquietantes que venho tendo no castelo…
Na noite anterior, antes de me deitar, nada de mais me sobressaltou. Desde aquela “festividade laranja” — quando observei, incrédulo, junto a Ameritt, o esvoaçar de abóboras pelo espaço do castelo — estou ainda mais “seguro”... acostumado às diferentes surpresas que o ambiente aqui venha me apresentar. Quanto muito, se bem me lembro, somente fui agitado pela recorrente tensão vinda dos corredores, dessa aparente, sensível suspeita de que algo sempre ronda e parece colocar-se por detrás da porta, como se para ouvir ou ter certeza de minha presença…
Para não perder o fio da reflexão, escreverei agora sobre este sonho, essa coisa inédita e aterradora que me aconteceu…
***
Estava eu numa paisagem bucólica, algo campestre — verdadeiro contraponto às paredes e ângulos retos de uma cidade ou mesmo da frieza obscura existente aqui no Castelo.
Sozinho, sem sinal algum de outra presença que não a minha, via-me naquela sensação única de estar e não estar em posse dos meus voluntários movimentos. Olhando para os lados, desejava mesmo intentar saber até onde iam os limites da planície observável; quando dava por mim, lá estava, saltando como jamais poderia na realidade, quase como se me teletransportasse…
O sonho parecia comum, daqueles que, quando menos esperasse, me despertaria e fugiria, para sempre, da lembrança. Porém, o que se seguiu foi o completo oposto.
Diante de mim, logo após ter terminado aquele percurso mágico, instantâneo, deparei-me com uma natureza diferente: flores e ramos de uma vegetação densa, de cor arroxeada, tomavam conta do horizonte à frente e da minha vista. Aquilo não tinha fim; era de uma amplidão desconcertante e visualmente desproporcional ao vazio que eu havia percorrido até então.
Sem poder ignorar a estranha atração da paisagem, pus-me logo a caminho. Lembro de ter chegado com a mesma rapidez aos limites daquele roxo jardim.
As plantas, ali (quando pude confirmar que eram mesmo de natureza vegetal), tinham altura considerável, e, quanto mais mergulhava em direção ao centro da peculiar paisagem, mais eu desaparecia, percebendo claramente que a saída de tal labirinto se tornava cada vez mais difícil.
Nesse momento do sonho, eu já imaginava ter o poder de me retirar dele, assim como sempre procedo em minhas horas de sono. No entanto, deu-se o contrário: completamente consciente, podendo até me dizer num estado súbito de vigília, vi-me como nunca antes em pleno poder de meus sentidos naquela vegetação — estando, também, plenamente ciente de que estava sonhando.
Não posso dizer com absoluta certeza que meus gritos tenham ecoado pelas paredes do Castelo, no momento em que gritei desesperadamente naquele sonho… Caso alguém tenha passado pelo lado de fora do meu cômodo ou mesmo tenha parado por um tempo lá embaixo, pelo jardim, talvez sim… isso é algo que não tenho mesmo como saber.
Motivo houve de tamanho susto.
Convictamente consciente de mim, do meu corpo e do risco que sentia estar correndo, ver aquele chão tremendo, como se fosse abrir sob meus pés, e aquelas mãos enormes, titânicas, se erguerem no horizonte que meus olhos ainda podiam enxergar, fez com que eu me colocasse, como nunca antes, no lugar de um inexpressivo inseto... de um piolho, cujo medo e desespero mostram-se semelhantes ao humano quando em presença de um desconhecido ser maior do que nós.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
13. Castelo Vampírico: A ti foram reveladas muitas coisas, que ultrapassam o alcance do espírito
05 de janeiro? – Decidida a não atender à vontade da criatura…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
05 de janeiro? – Decidida a não atender à vontade da criatura, fechei a cortina e me preparei para dormir. Levantei-me umas três vezes para espiar a criatura pela cortina, e ela continuava lá, sentada no peitoril, encarando o horizonte laranja. A abóbora, como Ameritt havia recomendado, permanecia no lugar. Apenas a cortina nos separava. Mesmo que um incômodo insistisse em se mover por minhas entranhas, preferi confiar que a presença da abóbora dada por Ameritt pudesse me proteger. Então, deixei o cansaço me vencer depois de horas de vigilância inútil.
06 de janeiro? – Despertei, e a primeira coisa que fiz foi verificar se a criatura permanecia na janela. E lá estava ela, admirando o horizonte, como se não tivesse mudado de posição em momento algum. A cena era sublime. Mesmo que um pouco assustadora, havia algo belo na forma como ela contemplava tudo à sua frente. Não perdi muito tempo e fui logo ao encontro de Ameritt. Estava ansiosa para compartilhar com ela o ocorrido. Lá estava ela, colhendo cogumelos, e me recebeu com um sorriso, ouvindo-me com paciência enquanto eu falava sobre a criatura e apontava para a janela do meu quarto, para que ela pudesse vê-la.
Quando terminei de falar sobre a criatura, omitindo o livro, ela riu baixinho enquanto olhava para cima, protegendo os olhos da luz da manhã:
— Há coisas nesse castelo, minha querida Rute-besin, que ultrapassam qualquer entendimento que possamos ter. Para certas respostas, talvez você deva procurar o professor Monm. Talvez ele tenha o conhecimento sobre isso que eu não tenho. Ele pode parecer meio estranho, perdido em pensamentos às vezes, mas sabe exatamente onde está.
Então, com seu jeito peculiar, ao qual eu já havia me acostumado, ela voltou a colher os cogumelos, como se aquilo que eu havia contado fosse apenas mais um dia comum, algo trivial do castelo. Depois da conversa com Ameritt, decidi procurar o professor Monm. Nunca o tinha visto, não sabia sua aparência, mas me recordava um pouco de onde ficava sua sala de aula. Lembro-me do encontro impactante que tive com seus alunos depois de ser perseguida por uma criatura assustadora ao voltar de Séttimor.
Fui àquela sala, mas estava vazia, assim como todas as outras ao redor. Aparentemente, o professor não é uma figura fácil de se encontrar pelos corredores do castelo. Ainda assim, estou aliviada por o castelo, às vezes, conspirar para que certos encontros aconteçam. Quando já sentia vontade de desistir da procura, encontrei-o no corredor. E, junto dele, encontrei a biblioteca que já havia visitado na outra versão do castelo, no dia do baile de máscaras. Um alívio duplo, se posso dizer.
Ele estava parado à porta da biblioteca, como se estivesse à minha espera. Era um homem alto, de pele escura, cabelos e barba bem aparados, muito bem-vestido, com um blazer e uma calça de tweed em um verde bem escuro. Por dentro do blazer, usava uma camisa muito branca e segurava um relógio de bolso.
— Conseguiu o que precisava? — perguntou ele assim que o vi, com um sorriso sutil.
Fiquei confusa a ponto de olhar para trás, procurando algum de seus alunos que pudesse estar vindo atrás de mim.
— Consegui o quê? — perguntei, sem entender.
— Ah, sim, perdão — murmurou ele, como se falasse mais consigo mesmo do que comigo. — Isso ainda não aconteceu.
O comentário me perturbou, mas decidi ignorá-lo. Ameritt havia me prevenido de que o professor poderia parecer meio estranho, então foquei na razão que me levou a procurá-lo. Apresentei-me e disse que Ameritt tinha recomendado procurá-lo para sanar uma dúvida minha. Ao ouvir o nome de Ameritt, ele abriu um grande sorriso e me convidou a entrar na biblioteca e nos sentarmos.
Quebrando meu constrangimento e minha timidez iniciais, fui direto ao assunto. Expliquei a ele sobre o estranho visitante sentado no peitoril da minha janela e mencionei brevemente o livro que havia encontrado. Não revelei muito e omiti o motivo real que me levou a guardar o livro comigo. Ele escutou em silêncio, paciente, esperando que eu terminasse. Respirou fundo, juntou as mãos e, depois de alguns instantes, começou a falar:
— As criaturas desse castelo... Sim, elas nem sempre são simples visões ou espíritos. Algumas, como talvez essa que você descreveu, são fragmentos do castelo: lembranças, reflexos da própria arquitetura deste lugar. Esse castelo tem sua própria memória.
Ele parou, pensativo, e me olhou com intensidade.
— Esse livro que você encontrou talvez também seja uma memória. Cada objeto, cada criatura nesse lugar é um fragmento da memória do castelo. E aquelas que ainda não são, um dia serão. Acredito que essa criatura não irá lhe fazer mal. Se fosse assim, já teria feito. Prometo que irei verificar isso mais a fundo amanhã.
Senti um arrepio com as palavras do professor. Elas não me ofereciam respostas diretas. Ele parecia saber mais do que estava disposto a compartilhar, mas suas palavras me faziam sentir o castelo mais vivo. Depois disso, perguntei a ele se poderia usar a biblioteca para algumas pesquisas que precisava realizar e se ele estaria disponível para tirar eventuais dúvidas. Ele pareceu se animar com o assunto e começou a falar sobre as mentes curiosas que já havia conhecido no castelo, sobre como pessoas movidas pela necessidade de conhecimento o extasiavam.
Não havia dúvidas de que Monm era um ótimo professor. A forma como falava, como se encantava pelo conhecimento e pela partilha de saberes, era maravilhosa. Eu poderia ficar ouvindo-o por horas — e foi o que fiz. Enquanto conversávamos, por um breve momento em que olhei em seus olhos, senti como se algo neles revelasse uma dor antiga. Era uma sensação estranha. Sempre fui péssima em entender sentimentos alheios, mas consegui captar um fragmento de dor, uma dor semelhante à minha, só que amplificada, como se a minha perda fosse apenas uma sombra da dor que Monm vivenciara.
Nunca imaginei que um dia poderia reconhecer em outra pessoa algo tão próximo do que eu sinto. Eu, que antes de fazer parte do castelo duvidava de tudo o que fugisse do alcance da minha lógica, encontrei-me diante de alguém com quem talvez compartilhe uma espécie de luto silencioso. Olhando para ele, o peso que carrego pareceu tornar-se mais claro. Por um momento, pensei em perguntar o que realmente o consumia e se era mesmo luto, talvez até compartilhar um pouco da minha própria história. Mas, assim como eu, ele parecia ter aprendido a manter a dor guardada, protegida dos olhares dos outros.
Quando seus olhos perderam aquela sombra estranha, ele continuou a falar como se nada tivesse acontecido. Afinal, no castelo, talvez seja fácil perder-se — não apenas nos corredores e salas, mas também dentro de si mesmo. Monm e eu, cada um à sua forma, somos habitantes desse labirinto.
07 de janeiro? – Nunca imaginei que, sendo hóspede do castelo, poderia conhecer tantos lugares diferentes como o que conheci à noite. Ontem à tarde, ao retornar ao meu quarto e perceber que a criatura ainda estava no peitoril, senti uma estranha vontade de apenas deixar para lá. Então, fiquei escrevendo até que o sono se tornasse difícil de vencer. Fui para a cama e me entreguei a ele sem resistência, deixando as palavras que ainda poderiam ser escritas soltas na minha mente.
Assim que fechei os olhos, logo os abri e me vi em um lugar que não poderia chamar de sonho. Não era o castelo, e infelizmente também não era a Vila de Séttimor. Era como se eu estivesse em um espaço que escapava a qualquer definição lógica. Não consigo explicar com palavras exatas a sensação que me preenchia.
Ao meu redor, flutuavam algumas bolhas que refletiam lembranças — algumas minhas, outras familiares, porém nubladas. Caminhei em meio a uma névoa lilás, com um perfume sutil de lavanda. Ao tocar minha pele, essa névoa parecia refrescar-me e, aos poucos, suspender minhas sensações.
Logo à frente, havia um homem alto, de pele escura e cabelos e barba muito brancos. Seus olhos, de um branco translúcido, não possuíam íris nem pupilas. Ele usava vestes semelhantes às de um monge, todas brancas, e segurava uma chave. Parecia estar à minha espera.
— Venha. — Ele disse como um sussurro. — É-me ordenado guiar-te para o sonho daquele que teu coração anseia.
E meu coração ansiava, mas eu não tinha certeza de por quem ou pelo quê. Eu o segui por entre um campo de lavandas na direção de uma bela porta de madeira escura adornada de heras. Era apenas uma porta, sem nada: sem uma construção, paredes, nada que eu pudesse entrar. Ele a abriu, e me vi de frente a uma bolha, do tamanho de uma bola de basquete, onde havia uma lembrança. As nuvens que a cobriam se dissiparam, e vi o professor Monm. Ele segurava um relicário com firmeza, mas havia tristeza em seu rosto.
— Éramos… inseparáveis… — murmurou Monm. Sua voz parecia estar distante, cada palavra carregada de dor. — Mas, o tempo… em seu esplendor e perfeição… — Ele olhou para o relicário em suas mãos. — Tornou-se minha obsessão… pois… eu não podia… eu não podia perdê-la…
A imagem dele ali, perdido em sua própria dor, era como olhar para um espelho daquilo que também me feriu por dentro. Amor, culpa, desespero, tudo isso me tomou de maneira violenta: a dor semelhante, o eco suave do que eu sinto por Hadassa. A lembrança dela encheu minha mente, e logo fui sugada para um cenário diferente. Comecei a sentir demais, senti uma vertigem e percebi que algo estava errado. Comecei a ouvir sussurros, vários deles, numa língua que eu não conseguia identificar.
Me vi sozinha, de frente a um grande portão escuro, com criaturas aladas me observando com olhos profundos. O portão se abriu, e fui levada através dele sem ter escolha. Eu queria recuar, acordar, mas estava sendo levada, atraída, indo além de sabe-se-lá-o-quê. Uma grande bolha escura veio até mim, fui tragada por ela, e arrastada para uma das minhas piores memórias. Eu estava como uma observadora: me vi parada, sem reação, olhando para Hadassa. Ela segurava o celular com mãos trêmulas, suas mãos e roupas ensanguentadas. Ela estava chorando e me implorando para ajudá-la.
— Rute, me ajude, eu não quero ir para o inferno. Me ajude, por favor, eu quero morrer, mas não quero ir para o inferno. — Ela gritava enquanto abraçava a minha versão da lembrança, que começou a chorar junto com ela, sem saber o que fazer.
As palavras dela ainda me atormentam quando me distraio e deixo meus pensamentos irem. Comecei a sentir meu coração bater mais depressa, minha respiração estava ofegante. Senti como se uma carga elétrica fluísse por minhas veias e vasos. Queria que aquela lembrança parasse, eu não queria vivenciar aquela cena novamente. Me debati, gritei, mas parecia inútil. Eu não queria sentir tudo aquilo de novo, eu só queria sair dali.
Acordei com um sobressalto, e lá estava a criatura da janela, me sacudindo. Mais próxima que antes, próxima demais. De algum modo, ela havia atravessado a proteção da abóbora de Ameritt e agora me olhava com aqueles olhos que pareciam enxergar através de mim.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…