Intumescer
Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique! | Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo | soem em meus ossos como se o próprio firmamento…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique!
Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo
soem em meus ossos como se o próprio firmamento
rasgasse em vísceras de treva, tua sensualidade abraça-me.
Bruxa de orbes cerúleos, amo-te como Gomez Addams.
Abysmal senhora das neblinas e mãe de todos os corvos,
sois meu cálice sanguíneo, sois minha queda, sois meu êxtase.
Em pergaminhos de carne me transfiguro,
folhas que voam em ventania noctívaga,
lágrimas de tinta que copulam com o vácuo.
Eis tu, minha senhora do arcano,
colhes minhas sílabas como se fossem
feridas sagradas em liturgia profana.
Eu que senti no osso do gozo, na culpa,
bálsamo na chaga, a dor é sacramento, e o éter-pecado, altar.
Vede o híbrido ser brandindo ao sexo sobre minha fronte,
desfazendo ídolos em pó e silêncio.
Um anjo corrompido pelo sangue do desejo,
um vampiro sexual,
um lupino que rasga com seu uivo de tesão,
até que apenas tua língua reste,
serpente rubra que me crava, que me possui,
até que não mais eu seja eu,
mas sim um delírio, epifania-mania, carne de tua carne,
espírito tragado pelo teu hálito de tempestade.
Ouvi teu uivo no ventre meu,
clamando sangue, clamando carne, clamando vertigem.
Uivo convosco, Senhora, minha treva plasmática, osmose dos desejos,
uivo contra Céus e contra Deuses, até que a lua, navalha da vida,
talhe nossos corpos em girassóis de pranto. Teu pompoarismo dissolveria meu rosto em teu espelho, tempo derretido a escorrer em teu belíssimo, formoso seio.
Ejaculo para ti a energia, ejaculo para ti minha persona, meu perispírito da noite,
ampulheta onde o instante é gozo e o gozo, eternidade.
Se a vida é labirinto, pois que seja, quero-te obcecadamente.
Eu, andarilho desnudo, me lanço às paredes em chamas,
não buscando saída, mas a coruja da resposta, o guardião da combustão. Incinero-me quando acordo pela manhã e o sol me toca a pele, mas não posso sentir o teu toque. Isso é maldição, isso sangra minha sanidade e meu coração se tomba ao trono do Drácula.
Pois o chão não existe,
apenas o céu me sustenta,
e este céu és minha cara senhoria das sombras.
Teu riso é raio, tua lágrima, oceano,
tua carne, relâmpago que me parte em duas metades.
Não desejo salvação, mas perdição absoluta.
Quero que teu feitiço me devore em chama,
que tua boca seja a guilhotina onde findo,
que teu ventre seja o sacrário onde renasço,
que teu sangue escorra em minha língua como letania de fogo.
Quando tudo em pó se fizer,
quando não houver senão cinza e gemido,
quando o verbo for silêncio e o silêncio for verbo,
então — ó Senhora, ó Bruxa, ó Maré dos Mundos —
seremos nada, seremos tudo, carne e sangue e poesia e êxtase.
Aceita: és minha e de ti me alimentarei, diária sucção de tua geradora de vidas,
e ti receberá minha língua profana e o leite de minha energia sexual em tua face.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
LXXXII
O silêncio, a angústia, assim como o inaperto | em jornada abstrusa | pela dissoluta existência. | Aqui entre a absolvição e a condenação…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O silêncio, a angústia, assim como o inaperto
em jornada abstrusa
pela dissoluta existência.
Aqui entre a absolvição e a condenação
Gotas para aluir a alma
aturdir toda sanidade
O ensejo ao caos interior
Ramos secos de inocência, — O luar lânguido no firmamento
Uma frincha para espíritos livres,
para campos de flores de quimeras.
Os jardins perdidos de seu interior
Astros celestes absortos no infinito, — Crianças da noite
embebidas em tantos pensamentos
Ah, a matiz negra, —Revoltoso mar de seu interior.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Ékstasis
Transcenda, desloca-te... Para um estado de intensa alegria, prazer, admiração ou arrebatamento, no qual a pessoa se sente transportada para fora de si mesma…
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Transcenda, desloca-te...
Para um estado de intensa alegria, prazer, admiração ou arrebatamento, no qual a pessoa se sente transportada para fora de si mesma, do mundo sensível e da rotina diária, seja por exaltação mística, seja por sentimentos intensos.
Histanai, Histanai, Histanai.
Eu sinto o vento gélido batendo nas janelas da minha alma.
Eu sinto o frio da maresia molhando as fechaduras do meu espírito.
O verbo da areia, a noite chega, e com ela suas línguas de estrelas em que cravejo no seio da feitiçaria o sopro do mar em combustão pela alquimia inexplicável deste êxtase vulcânico, sou uma lâmpada na orelha que falta em Van Gogh, sou uma mariposa sendo incinerada em um quadro de Dali que derrete em sua paixão violenta e louca, e rugi para a madrugada até me tornar um animal despedaçado pelas próprias unhas, de tanto arranhar-me a face e masturbar-me pela poesia de sangue que consagra este voluptuoso obcecado desejo de cópula frenética à matinal sucção do clitóris da pintura que emana a chama na noite, e torno-me a chama na noite e o olho triste da máscara rachada no para-brisa que bate violento enquanto a neve cai e se cocriam amor dentro daquele carro cósmico.
E não culpo minha fraqueza, sem poder dar palavras à minha sombra que se incinera em dezenas de páginas de papel que sobrevoam a minha mente em combustão por teu desejo, por desejar-te minha, misteriosa musa, chama gêmea de meu ser em entropia, que fico doente nesse sino que emana ecos de tesão, gritos de trovão, quero lamber-te a carne magística, oráculo da natureza viva, lábaro da minha consciência melada, e domá-la em minha cama de pregos e rosas, e fazê-la impura e pura, liberta e enclausurada, viva, alucinada, minha escrava sexual, e enlouquecer-te, despetrificando esta física em faíscas e brasas, em um rugido na animalesca vontade de rasgar-te, e em teu véu me acidifico, em tua fissura, ao vosso pompoarismo me comprimir e me engasgar, de tanto me saciar em teu fluído que a preciosa vulva escorre, pois minha penetração poética é um invólucro da ideia e da ação, um terror doloroso e saboroso.
Jamais senti algo tão excitante que entorpecesse todos os meus sentidos, diariamente, constantemente, despertaste meu demônio sexual e devo conceder a ele todos os desejos e vontades e ordens pois as correntes do desejo estão em seus pulsos, minhas telepáticas mãos pressionam seu pescoço enquanto enxergo a luxúria em seus olhos de safira.
Uma sádica redenção seria o máximo de meu êxtase, quero sentir em meu tímpano abismático a sinfonia de seus gemidos eclodindo em meu mastro endurecido como carvalho, lhe entrego a torrencial da via láctea quero que se lambuze com o que eu ordenar e seu corpo entregue e nua de alma-mente, conectada, acoplada ao meu órgão sexual giraremos pela loucura desenfreada de meus desejos em conexão com todos os espirais cósmicos de nossa alma é capaz de atingir, o supra-sumo dos chakras, a kundalini acasalando com Ouroboros, a verticalização de nosso animus e anima em uma vertigem de fusão, como uma radiação nuclear, uma supernova de poesia e magia, ao sagrado masculino e ao sagrado feminino, fractais sexuais do verdadeiro poder.
É assim que me sinto, na pele, no osso, no meu átimo, quando lhe imagino nua, quando lhe imagino o gosto de teu beijo, quando lhe lambo por inteira em meus sonhos quando enxergo seu sutiã caído ao chão, quando retiras tua calcinha delicadamente com esses pés de rainha das trevas e então meu lupino íncubo incorpora e o amor fático encontra sua súcubo gulosa em meu membro fálico.
Somos o choque do caos e a loucura,
o sangue e o êxtase, o arrepio e o verbo.
Um trovão ecoa dentro do peito — não o céu, mas o coração em combustão.
Sou a carne que se rasga para deixar sair a chuva.
Não escrevo versos, sou dissolvido neles,
sou a tinta que não dorme, o rio que desagua no mar de teus olhos feiticeira de íris azuis, abismo salgado, onde o meu naufrágio se converte em êxtase.
Meu coração frenético pulsa, minha razão ri em silêncio no meu ombro: a metamorfose já começou, meu corpo se converte em páginas — voam, sangram, rasgam o vento —
cada folha um gemido, cada palavra um osso, bruxa, recolhes minhas sílabas como quem colhe cicatrizes.
Sou livro desmembrado, arremessado à noite, fazendo amor com a névoa como quem deseja a penetração selvagem do invisível e minha sanidade sussurra: a fome é o gozo mais puro,
e eu, dilacerado, aceito, suplico, que tua boca seja a guilhotina do meu pecado, que teu sangue escorra na minha língua como evangelho herético.
Erguei o digno martelo, e em minha fronte despedaça os ídolos:
sou além-homem perdido, mas em teus lábios encontro a vontade de potência transformada em saliva, em carne que lateja, em espírito que arde.
A voz de meu desejo uiva em meu ventre:
"sangue! carne! olhos! êxtase!"
Eu grito contigo, grito contra Deus, contra o nada, contra mim mesmo, até que o grito se converta em silêncio, um silêncio tão vasto que apenas Van Gogh poderia pintar, um silêncio de girassóis rasgados pela navalha da lua.
Dali derrete minha face na ampulheta da paixão, sou tempo líquido, escorrendo pelo teu corpo, formando lagos onde teu reflexo dança, ali me perco, me encontro, me desfaço, me torno.
Quero ser o instante em que teu olhar fere a madrugada com a lâmina azul da loucura,
quero ser o arrepio que transpassa tua coluna, o arrebatamento visceral que rasga a pele e chega à medula, até que não haja distinção entre o que é teu e o que é meu.
Vida-labirinto, caminho nu pelas paredes de fogo, queimando-me em cada curva, em cada espelho, sabendo que o chão não existe — apenas o céu me sustenta, o céu és tu, feiticeira, céu de tempestade, ventre de relâmpagos, tua risada é raio, tua lágrima é maré.
Não busco redenção.
Quero a perdição absoluta, a fusão da carne e do espírito,
quero beber teu riso como vinho negro, quero me abrir em tuas mãos como um corte,
quero ser devorado pelo teu feitiço até que reste apenas cinza e orgasmo,
palavra e silêncio, poeta e sombra,
eu e tu — ou melhor, o nada — porque no nada, amor, somos infinitos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Conto do Corretor de Imóveis: o Diário de Bordo do Demônio
O pergaminho estava manchado de ferrugem e mofo, as bordas esfarelando como casca de árvore antiga, uma relíquia resgatada do fundo de um túmulo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O pergaminho estava manchado de ferrugem e mofo, as bordas esfarelando como casca de árvore antiga, uma relíquia resgatada do fundo de um túmulo úmido ou da sarjeta de algum arquivo esquecido. Atribuído à letra de Jonathan Harker, este texto, no entanto, não constava em nenhuma das edições conhecidas de suas memórias; um fragmento arrancado, talvez, ou censurado pela prudência dos seus editores, que julgaram seu conteúdo demasiado profano ou perturbador para a sensibilidade vitoriana.
O texto inicia-se assim, com a letra trêmula, por vezes quase ilegível, denunciando o tremor febril da mão que o escreveu:
Castelo do Conde Drácula, Noite Sem Lua
Tenho vivido dias que não ouso mais contar em números, pois a contagem se tornou um luxo que a minha mente não pode mais pagar. Não sei se é segunda-feira ou se já se arrasta o oco e frio domingo. Aqui, o tempo não flui; ele é devorado pelas paredes de pedra, digerido no silêncio espectral. A única marca do calendário é a ascensão da lua, que o Conde observa com uma paciência glacial, e as minhas tarefas, que se tornam mais bizarras e exigentes a cada noite que se afunda nas brumas da Transilvânia.
O Conde exige mais de mim. Não mais apenas as escrituras ou os negócios de Hillingham – um pretexto lamentável para me atrair para este calabouço de séculos. Agora, ele me interroga sobre tudo o que Londres esconde em suas entranhas modernas. Ele me esvazia, não de sangue, mas de informação.
Esta noite, fui novamente conduzido à sua biblioteca. Não é apenas vasta; é viva. Seus pilares de madeira escura elevam-se até um teto arqueado, onde sombras dançam, e as estantes se perdem na escuridão, repletas de tomos amarelados e cheiro de adormecimento. Os livros respiram poeira antiga e exalam um ar pesado, de mofo e conhecimento proibido, um aroma que parece alimentar o próprio Conde. A luz de poucas velas, presas em castiçais de prata maciça e retorcida, mal ilumina o centro da mesa, lançando um brilho covarde sobre mapas desdobrados e cadernos de anotações.
— Senhor Harker — disse ele, e a sua voz, grave e ligeiramente anasalada, carregava o som de pedras sendo arrastadas, ou talvez, do gelo quebrado de uma montanha. Ele se aproximou de mim com aquele hálito gélido que parece sorver o calor do ambiente, quase como se fosse uma nevasca localizada, e que parecia apagar a pequena chama das velas.
— Fale-me do vosso mundo. Do vosso... progresso.
Ele não se sentou. Permaneceu de pé, alto e ameaçador, a silhueta projetada pelas velas criando uma figura grotesca e distorcida contra a parede de pedra. Seus olhos brilhavam não como os de um estudante ávido, mas de um predador que fareja a artéria pulsante da modernidade. Havia uma impaciência cruel em sua postura, como um animal enjaulado observando o campo aberto.
Respondi-lhe, tentando manter a compostura, vestindo a máscara da cortesia profissional, embora soubesse que era um corretor de almas, e não de imóveis.
— Vossa Senhoria já possui uma coleção vasta. De que tipo de progresso deseja saber? De arte? De engenharia naval? De... mineração?
Ele sorriu. Um sorriso que não era humano. A linha fina de seus lábios se esticou, revelando uma frieza atemporal.
— Não da arte que é estática, nem dos navios que são lentos. Quero saber das vossas máquinas que falam sem voz. Daquelas que permitem que dois homens separados por milhas se escutem como se estivessem lado a lado, ou que lançam a notícia de um terremoto na Índia sobre uma mesa de café em Fleet Street antes que a terra se acalme.
Percebi, com um horror que gelou a medula dos meus ossos, que ele falava do telefone e do telégrafo. Não era a magia que o assustava, mas a velocidade.
— Sim, Conde. O Telefone. Uma invenção relativamente recente, mas já se espalha pelas cidades, criando uma teia de comunicação que... que encurta distâncias.
— Fascinante — interrompeu ele, a palavra dita com a mesma reverência que se daria a um ritual macabro. Ele passou os dedos longos, cujas unhas pareciam lâminas afiadas e polidas, sobre um atlas aberto, cujas páginas datavam de séculos, como se estivesse tocando um corpo vivo, ou talvez, um mapa de veias.
— Vozes que viajam por fios. Fios que penetram paredes, atravessam ruas, ignoram a escuridão e as fronteiras. Um sistema de veias invisíveis que corre sob a cidade, pulsando com a vida de outros. A própria alma do progresso — e então, ele inclinou-se, o olhar fixo e penetrante. — Um sistema de veias que ninguém vê.
Suas palavras soaram não como uma curiosidade acadêmica, mas como um diagnóstico preciso: não era interesse, era fome. A fome de um ser que depende do isolamento para caçar, e que via o seu campo de caça encolher a cada novo cabo estendido.
Fui obrigado, nas noites seguintes, a desenhar mapas. O Conde me forçava a traçar o labirinto. Usei tinta e carvão para delinear o traçado dos cabos telegráficos que percorriam toda a Europa, atravessando montanhas e mares, para finalmente desembocar no coração de Londres, na central de Holborn. Cada linha era uma artéria que ele desejava cortar, cada estação de retransmissão, um ponto vulnerável.
Mas não era apenas a comunicação.
Mostrei-lhe o labirinto dos esgotos que sustentava a cidade, a infraestrutura complexa que eliminava a sujeira e permitia que a elite esquecesse o subsolo. Mostrei-lhe o metrô, o Underground Railway, aquela serpente de ferro que corria sob os alicerces, vibrando e escavando o ventre de Londres, carregando milhares de almas a velocidades inconcebíveis para a sua época. E o sistema de jornais que, em poucas horas, lançava uma notícia fresa, uma advertência, uma descrição em cada mesa de café e em cada lar, unindo a cidade numa consciência coletiva e instantânea.
Ele absorvia cada detalhe com uma avidez silenciosa e voraz. Era a sua lição de casa. Ele tomava as minhas anotações, copiava-as com sua caligrafia elegante e arcaica, memorizava os nomes das centrais, das estações, dos engenheiros. Ele estava estudando o organismo.
— O vosso Van Helsing — disse ele certa noite, pronunciando o nome como quem mastiga veneno ou uma relíquia sacra. Estávamos na sala principal, onde a luz da lareira criava mais sombras do que calor, e onde ele costumava me reter até as primeiras horas do amanhecer, quando o medo se tornava quase insuportável. — Ele não me teme apenas com cruzes ou estacas. Ele teme a vossa rapidez. A velocidade da palavra.
Ele se levantou, caminhando até a janela, onde a neblina rastejava no pátio exterior.
— Os telegramas que unem caçadores separados. O correio que voa mais rápido que cavalos. Aquele seu telefone que o avisa de uma vítima antes que o sol se ponha. É essa a vossa verdadeira armadura, Harker. A vossa rede.
Seus olhos arderam em um vermelho profundo, a cor de uma brasa na escuridão, e a frieza de sua voz se intensificou, assumindo a solenidade de uma promessa de destruição.
— Para derrotar-vos, devo tornar-me mais veloz que a própria mensagem. Devo me infiltrar no vosso sistema de veias, e drená-lo de vida, de comunicação, de certeza.
Nesse instante, a revelação atingiu-me com a força de um soco no estômago, tirando o pouco ar que ainda me restava. Ele não queria Londres apenas por suas casas senhoriais, nem por suas vítimas, cujos pescoços representavam apenas o combustível necessário para sua travessia. Ele queria Londres por sua rede. Sua trama subterrânea de fios, túneis e informações. Ele planejava um ataque não apenas físico, mas logístico.
Ele era o Demônio, o Corretor de Imóveis, e o maior negócio que ele planejava fechar era a aquisição da infraestrutura do mundo moderno. Ele estava vindo para a civilização, mas não para se esconder nas sombras; estava vindo para aprender a desligá-la.
Mais tarde, encontrei-me sozinho em meu quarto, um pequeno cubículo frio onde a única companhia era o ranger das traves velhas no telhado e o silêncio opressor. Escrevi com o coração em chamas, a pena riscando o pergaminho com uma urgência desesperada. A cada palavra, sentia-me mais próximo da loucura, mas a necessidade de registrar a verdade era mais forte que o instinto de autoconservação.
— Ele não estava aprendendo a viver entre nós. Estava aprendendo a nos desligar. A nos desconectar. A nos isolar, célula por célula.
E assim, termino este registro, sem saber se verei a luz do dia, ou se Londres, minha pátria, minha cidade-máquina pulsante, verá a luz alguma vez mais. Pois temo que, quando Drácula caminhar em nossas ruas — e a ideia me faz sentir náuseas de terror —, não será o sangue que ele drenará primeiro. Será o mundo invisível das conexões que nos mantém unidos, que nos permite gritar por socorro através de milhas, que nos torna um organismo. Ele fará de Londres uma ilha, e então, um deserto de ecos. Ele cortará os fios, e a escuridão será absoluta.
Este fragmento encerra abruptamente, a última palavra distorcida, como se a pena tivesse sido arrancada bruscamente da mão de Harker. Não há continuação. O que resta é apenas o silêncio de uma página em branco, como se as palavras seguintes, o ápice do terror, jamais tivessem conseguido escapar da escuridão para a luz do registro.
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Peregrinus
No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“De onde você vem?”, perguntou o SENHOR. Satanás respondeu: “Estive rodeando a terra, e observando o que nela acontece”. — Jó 2:2
No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Depois de mais uma longa noite de bebedeira, já em alta madrugada, naquela hora fria e silenciosa que antecede os primeiros sinais da aurora, tendo como única companhia uma lua cheia plena e brilhante, mas também já se despedindo no poente, Ewerton retornava para casa – ou pelo menos o pardieiro que ele naquele momento se tornara sua casa – para mais um dia de ressaca, desespero e muitas lamentações.
Caminhando em passos trôpegos, ziguezagueando pela rua, tentando a todo custo se manter de pé devido ao excesso de bebida e pela falta de alimento já de muitos dias, mesmo já não confiando mais na exatidão de seus sentidos que vinham lhe pregando peças nos últimos tempos, pôde ver ao longe que havia alguém sentado nos degraus da porta da igreja. Templo esse que, há não muito tempo atrás, ele mesmo um dia, fora ministro de celebrações e por vezes incontáveis foi arauto das mensagens das Boas-Novas. Ao se aproximar, logo pôde perceber que a pessoa que estava ali em completo abandono naquelas horas tardias era uma mulher, e pela posição que estava sentada com o rosto prostrado entre os joelhos, demonstrava estar num terrível desconsolo.
Ouvindo que ela suspirava ais de tristeza, e pela solidão noturna em que ela ali se encontrava, entendeu muito rapidamente com o restante de cavalheirismo e dignidade que ainda lhe restara, que deveria prestar-lhe algum tipo de auxílio, com delicadeza e parcimônia aproximou-se a ela, e disse-lhe de modo cortês:
– Boa noite, minha senhora. Há algo em que eu lhe possa ser útil?
Com movimentos leves de quem estava há muito tempo na mesma posição, ela sentou de forma ereta e com a face completamente banhada em lágrimas, e com certa dificuldade tentou lhe responder com palavras entrecortadas entre soluços e suspiros de dor:
– Boa noite, meu amigo. Quem dera, se alguém neste mundo cruel pudesse fazer algo em meu socorro. Aquilo que perdi jamais me será restituído e o que me foi tomado não pode ser devolvido.
Ao vê-la falando dessa forma seu coração dilacerado pela dor, se encheu de ternura. Não somente pelas palavras que exemplificavam sua própria situação naquele momento, mas pela forma como ela soube se expressar. De certa forma estava ele muito condoído com aquela bela criatura ali naquele estado de completo desalento. Mesmo com a visão bastante embaçada pela bebida e pela ausência de claridade no local onde se encontravam, ainda assim pôde perceber que era uma bela mulher, ainda transpirando o frescor da juventude, com uma aparência bastante agradável aos olhos e exalando um perfume bastante sedutor. De forma muito gentil, pediu-lhe autorização para que pudesse se sentar ao seu lado. Vênia que de imediato lhe foi outorgada. Com uma estranha expressão ela disse:
– Que pobre e infeliz criatura sou eu para impedir que alguém se sente na porta da casa daquele que é o Pai de todas as criaturas? Sente-se e esteja à vontade.
Ewerton, que naquele momento não sabia discernir o certo do incerto, mesmo não entendendo o porquê de ela ter dito aquelas palavras, com certa dificuldade sentou-se ele ao seu lado, e logo almejou saber o motivo de tanta tristeza numa mesma pessoa. Ela por sua vez, secando os olhos com as costas das mãos, relatou-lhe em poucas palavras sua trágica e inverossímil história.
– Vivíamos outrora numa bela casa onde éramos todos felizes e satisfeitos com tudo ao nosso redor, em tempo algum soubemos o que era necessidade, dor ou tristeza. Nossa existência era baseada numa plenitude infinita de deleites sem fim. Mas por escolhas indevidas, feitas por uma vil influência baseada em promessas infundadas, decidimos por trilhar caminhos obscuros e incertos. Desde então, condenados pela Justiça Divina, eu e meus irmãos somos impedidos de retornarmos para nosso verdadeiro lar e somos obrigados a vagar pelo mundo como pobres peregrinos. Sem termos um destino certo, transitamos por ermos caminhos em busca de um lugar decente onde possamos pelo menos poder lamuriar nossa infinita desgraça sossegadamente.
Ewerton, que naquele momento já não era mais senhor de seu juízo perfeito, esquecendo-se por um instante de sua própria situação desoladora, por mais uma vez, vendo-se como um ministro de Deus, mesmo tropeçando nas palavras, disse-lhe de forma muito afetuosa, como se fosse um pastor se dirigindo a uma ovelha que havia se perdido e fora novamente encontrada.
– Não deixe que a tristeza te assole dessa forma, tome conta de seus sentimentos, por mais terrível que uma tempestade possa parecer, o sol sempre voltará a brilhar novamente. Não se deixe abater tão facilmente, você ainda é jovem e muito bonita...
Nesse momento, ela esboçou um leve sorriso, que à luz do dia, certamente seria bastante sinistro. Ele continuou:
– ... Dias melhores sempre estarão reservados para pessoas iguais a você. Já é muito tarde, não é certo que ninguém esteja na rua a essas horas, principalmente uma mulher indefesa igual a você. Há muitas pessoas ruins e hostis nesse mundo, seres que não têm nenhum apreço pelo seu semelhante. Não posso de forma alguma permitir que algo de ruim aconteça a você.
Ela abaixou a cabeça em reverência, concordando. Ele nem pôde ver que ela esboçava um novo sorriso, tão maquiavélico quanto o anterior, pois estava ele bastante entretido com sua oratória. Juntando forças sem saber de onde, colocou-se ele novamente de pé, gentilmente estendendo-lhe a mão esquerda – na outra mão ainda segurava uma garrafa de bebida – disse-lhe:
– Minha casa não é muito longe daqui, se quiser me acompanhar, posso lhe servir um café, uma cadeira para se sentar e se for de seu agrado tentarei ser um ouvinte atencioso para uma boa conversa. Não tenha medo, sou uma pessoa inofensiva, só consigo causar mal a mim mesmo.
Ela, agarrando-se à mão que lhe era oferecida, tocando de leve com a ponta dos dedos uma brilhante aliança que ele ainda ostentava no dedo, desferiu-lhe um olhar que seria capaz de enxergar os recantos mais profundos de sua alma, e foi logo dizendo:
– Agradeço pela oferta, gentil cavalheiro. Mas não quero ser nenhum tipo de incômodo em sua vida. Longe de mim, causar qualquer problema em quem quer que seja de forma intencional, mesmo que eu quisesse não me é permitido causar-lhe nenhum tipo de mal.
Por um momento, ele olhou tristemente para a aliança e suspirando profundamente ao relembrar sua dolorosa realidade – que por um breve instante fora esquecida – disse-lhe:
– Não se preocupe com isso, minha amada esposa não está mais entre nós. Ela fora arrancada de mim da forma mais injusta possível, e como uma desgraça nunca vem sozinha, junto com ela também se foram o fruto de nosso amor e também toda a minha felicidade. Parece-me que somos dois seres abandonados pela providência divina, eternamente condenados à dor e a uma tristeza sem fim.
Quando disse essas palavras, uma coruja que estava assentada numa árvore próxima e presenciava toda aquela cena, deu um piado ensurdecedor e passou sobre eles num voo rasante até outra árvore logo atrás da igreja. Estando Christine já de pé, percebendo que o convite estava sendo feito de livre e espontânea vontade, decidiu que aceitaria acompanhá-lo até sua casa com a promessa que ele deveria se comportar como um cavalheiro respeitando sua situação de jovem indefesa. Caminhando a seu lado, ainda segurando a mão dele, ela logo quis saber o motivo que de alguma forma ele pudesse imaginar que ambos poderiam ser semelhantes em alguma coisa. Sem muita cerimônia o questionou sobre o que ocorrera à sua esposa e seu filho.
– Filha! Ela se chamava Esther e tinha apenas três anos, era apenas uma inocente criança praticamente ainda de colo. Ela e minha esposa Lucy voltavam de uma celebração na casa de uma irmã que padecia de um mal irremediável e já estando essa irmã no leito de morte, quis minha amada esposa prestar-lhe os últimos votos de fé e de esperança num lugar melhor. Minha amada Lucy sempre fora uma excelente companhia para pessoas nesse tipo de situação. A celebração – mesmo com a situação em si – fora bastante ungida e alegre e se prolongou um pouco mais do que deveria. Já era tarde quando ela retornava para nossa casa, e desde o início da noite caía uma chuva fina, o asfalto estava bastante molhado e escorregadio. Lucy era uma motorista cuidadosa, mas o condutor do caminhão que vinha em sentido contrário, talvez por mil outros motivos, mas principalmente por estar completamente embriagado, não pôde perceber que estava invadindo a pista contrária com seu caminhão carregado com madeira e sem tempo ou destreza necessária, bateu de frente no carro de minha esposa, matando duas pessoas inocentes que naquela hora trágica, retornavam de uma celebração em intenção a uma pessoa em profundo sofrer...
Nesse momento, Ewerton, largando a mão da jovem, cobriu o rosto em completo desespero, e após alguns instantes, tentando segurar os soluços que estavam em sua garganta, olhou para o céu e como se estivesse perguntando para o firmamento com palavras carregadas de ódio e desespero, disse:
– Como um Deus a quem tanto adoramos, que deveria zelar por nós, pode tirar a vida de duas pessoas inocentes que naquele momento estavam justamente a serviço dele?
Pegando sua mão novamente e levando-a aos lábios para um beijo terno, ela disse:
– Pensei que tivesse sido um caminhoneiro bêbado que causara o acidente!
– E por acaso, não consta nas Escrituras Sagradas que não cai uma folha do céu sem que Deus assim o permita?
Se Deus fosse realmente tão bom quanto se autoeleva, não teria permitido a morte de minha querida filha, que nunca causara mal a quem quer que fosse.
– Mas também está escrito que o livre-arbítrio é um presente dos céus aos homens, que lhes fora concedido como dádiva desde o princípio, o direito de escolha: “...Tudo lhe será permitido. Contudo, nem tudo será lícito...” Não deveis jamais questionar os desígnios de Deus.
– Minha filhinha, uma inocente criança de apenas três anos, teve a oportunidade de usufruir do livre-arbítrio?
Questionou ele de forma ríspida.
Alguém certa vez também disse: “... Entre o céu e a terra existe muito mais do que julga a nossa vã filosofia...”
Ao ouvir essas palavras, ele parou de repente e num gesto não tão delicado, soltou sua mão mais uma vez, postando-se de frente a ela, um tanto quanto assustado, e perguntou-lhe:
– Quem é você? De onde vem tanta eloquência numa pessoa de aparência tão jovem?
– Ninguém mais importante do que você mesmo! Alguém que outrora também foi esquecida por Deus. Meu nome é Christine e se pareço sábia é porque a dor e o sofrimento moldaram cada parte do ser em que hoje sou. E tenha mais cuidado com as aparências, Ewerton!
Naquele exato momento estavam de frente a uma grande casa com traços esplêndidos e elegantes. De uma aparência muito bela, mas parecendo estar bastante desmazelada pelo abandono. Parados frente a frente iluminados pelos últimos raios de uma lua poente, ela logo lhe perguntou:
– Aqui é sua casa? Não vai me convidar para entrar e cumprir as promessas que me fez?
Ele, tentando se lembrar em que parte da conversa teria lhe dito seu nome, e ainda assustado com tudo que estava acontecendo, jogou a garrafa de bebida que ainda trazia consigo na lixeira e, pegando as chaves, se encaminhou para abrir o portão que conduzia para um jardim que demonstrava ter sido majestoso em outros tempos. Colocando a mão esquerda em movimento de dúvida sobre a boca, tentando ainda se decidir se deveria convidá-la ou não para entrar em sua casa, pôde sentir próximo às suas narinas um belo perfume que ficara impregnado em sua mão. O cheiro voluptuoso que sentia, o terno olhar que ela lhe desferira naquele momento sob o luar e o senso de cavalheirismo ainda existente dentro dele, foram determinantes para a decisão de convidá-la a entrar nos recantos que outrora vivenciara os dias mais felizes de sua vida. Com gestos de galhardia fez uma reverência e, apontando a entrada de sua casa, convidou-a para que pudesse entrar em seu não tão humilde lar.
Deitada numa aconchegante cadeira de balanço na varanda, estava o animal de estimação de sua filha Esther. Thereze era uma gata de cor preta de um negrume escuro como uma noite sem luar. Seu pelo era tão macio e sedoso que chegava a ser convidativo para uma carícia. Contudo, assim que percebeu a presença daquela estranha mulher adentrando em seu território, esse animal que então tinha sido dócil e extremamente pacífico, ficou arredio e bastante agressivo, colocando-se em posição de ataque com unhas e dentes arreganhados e com o pelo todo eriçado como se estivesse vendo o pior dentre todos os predadores, pronto a lhe tirar a vida. Atravessou na frente da porta de entrada da casa e ficou andando de um lado para o outro barrando a passagem, como se fosse uma devotada sentinela, guardando um tesouro de valor inimaginável. Ewerton pensou que aquele animal estivesse tendo algum tipo de ataque psicótico, talvez devido à falta que estava sentindo de sua estimada dona. Tentou em vão dissuadi-la a liberar a passagem de ambos, mas assim que Christine pôs o pé no primeiro degrau que levava ao alpendre da casa, a gata ficou ainda mais arredia, emitindo sons ensandecidos e demonstrando que de forma alguma permitiria que eles passassem por ela para entrarem na casa. Tanto convidada como anfitrião ficaram estupefatos com aquela estranha atitude de um animal que por natureza deveria ser totalmente absorto a tudo aquilo que acontecia ao seu redor, e muito diferente dos cães não se importava em vigiar a casa de pessoas estranhas.
Já sem muita paciência e com muita vontade de entrar em casa para usar o banheiro – sua bexiga já o estava alertando há um bom tempo que havia necessidade imediata de ser descarregada – Ewerton desferiu um violento pontapé na gata, que foi lançada para longe da porta, que imediatamente foi aberta. Assim que a entrada foi escancarada os dois logo entraram fechando rapidamente a porta atrás de si, pois mal a gata caiu ao chão, assim que se refez da pancada que recebera, lançou-se outra vez a fim de que impedisse a entrada dos dois. Ewerton balançou a cabeça em gesto negativo, mas não mais deu importância à gata, que agora estava do lado de fora da casa. Pediu que Christine se sentasse e se sentisse à vontade, enquanto ele rapidamente pudesse usar o banheiro. Após ter respondido o chamado da natureza, saindo do banheiro que há muitos dias não sabia o que era um gesto de assepsia, disse a Christine que o acompanhasse até a cozinha onde ele lhes prepararia um café bem forte. Christine por sua vez solicitou-lhe para que ela também pudesse usar o banheiro. Mesmo envergonhado pela sujeira acumulada há dias, ele, como um bom anfitrião, pediu perdão pela bagunça e disse-lhe que se sentisse à vontade como se a casa fosse sua. Ela por sua vez, esboçando um estranho sorriso, respondeu quase em murmúrio:
– Não só a casa! Não se preocupe com a bagunça, meu adorável coração partido! Já estive em lugares bem piores, locais que poderia muito facilmente levar qualquer homem à loucura.
Talvez pelo barulho ensurdecedor que a gata fazia no lado de fora, miando e arranhado a porta e as paredes numa tentativa ensandecida de adentrar a casa, ele não conseguiu ouvir corretamente o que ela dissera. Mas, também não se importou muito com aquelas palavras e logo se encaminhou para a cozinha a fim de preparar um saboroso café, pois até ele mesmo naquele momento tão tardio estava ansiando por algo quente e bastante forte para recarregar suas energias e tentar diminuir a enxaqueca que já começava a incomodá-lo. Rapidamente colocou a água no fogo e, sem mais delongas, logo o café ficaria pronto. Christine, que se demorara mais que o normal a se recompor no banheiro, assim que saiu estava totalmente diferente da pobre jovem que fora encontrada se entornando em lágrimas jogada de qualquer forma nas escadarias daquela escura e solitária igreja em horas tão tardias.
A mulher que agora estava encostada no umbral da porta entre a sala e a cozinha de sua casa era uma criatura de uma beleza ímpar. Um corpo esbelto de altura mediana com curvas bem definidas dando-lhe uma aparência sedutoramente voluptuosa. Os longos cabelos negros que caíam em cascata pelos ombros descendo quase até a cintura, com belos cachos parecendo as ondas do mar em seu infinito vai e vem. Destacando-se ainda mais a beleza desse véu noturno, havia duas volumosas mechas pintadas com uma cor avermelhada quase próxima ao cobre. Essas mechas dividiam seu penteado ao meio deixando sua bela face quase toda à mostra. Seus olhos eram de um verde muito brilhante num tom extremamente hipnotizante, seu sorriso inocente era irresistivelmente encantador. Ela havia retocado minuciosamente a maquiagem e em seus lábios agora brilhava um batom na cor de carmim tão púrpuro como o mais puro sangue.
Aquela imagem deixara Ewerton tão boquiaberto que até mesmo o café que ele estava preparando fora esquecido e derramou-se no fogão. O pouco que ainda sobrara foi servido em duas canecas. Oferecendo uma das canecas para Christine, instou que ela se sentasse numa cadeira na mesa de jantar. Ela, ao se aproximar dele para receber o café, pegou a caneca e a colocou sobre a mesa, e olhando no fundo de seus olhos com um sorriso cheio de uma maliciosa volúpia, o questionou se não havia algo um pouco mais forte em casa que ele pudesse lhe oferecer. Ele por sua vez, rapidamente serviu dois copos com uísque e gelo. Christine sorveu apenas um gole de sua bebida, enquanto Ewerton entornou a sua de uma única vez acompanhado de duas aspirinas. Christine perguntou-lhe:
– E por acaso nunca te disseram que não se deve misturar bebidas com nenhum tipo de medicação? Que em alguns casos pode-se levar a pessoa à morte?
Ele de forma bastante desdenhosa, mas ainda assim com gentileza, respondeu:
– Nesse momento da minha vida, a morte não está na minha lista de preocupações, na verdade talvez seja o que eu mais desejo. Pôr um fim em todo esse sofrimento de uma vez por todas.
Christine deu mais um gole em sua bebida e, abraçando-o em seguida, deu-lhe um longo beijo que fez com que ele quase caísse, pois seus joelhos ficaram trêmulos e suas pernas perderam as forças por um breve momento. Ewerton, mesmo se quisesse, jamais poderia se esquivar de tal situação. Aquela bela mulher demonstrava ser inabalável em seus gestos, a copiosidade de seu abraço e o forte perfume que ela usava fez com que ele perdesse completamente todo o controle de seus movimentos, se entregando de corpo e alma aos seus encantos. Entre beijos e carícias ela o foi arrastando para o quarto, como se tivesse estado naquela casa por muitas outras vezes.
Inebriado por tanta beleza e influenciado pelo desejo que agora tomava conta de todo o seu ser, deixou-se ele levar como um cordeiro para o sacrifício. Na mesma cama que um dia fora o leito sagrado onde ele e sua esposa consumaram seu abençoado matrimônio e imaginaram uma vida alegre, cheia de sonhos e prosperidade, agora estava sendo usado para uma orgíaca prática sexual sem nenhum tipo de pudor. Ewerton pôde na penumbra daquela madrugada fria, experimentar delícias que talvez nenhum outro ser vivo tenha sentido nessa existência. Christine com o corpo completamente desnudo se lançava sobre ele e se agitava como se fosse uma serpente. Seus movimentos eram cadenciados como o pulsar de seu próprio coração, naquele momento no mais completo êxtase, Ewerton se esqueceu de tudo que já havia se passado na sua inútil existência sobre essa terra, e numa atitude impensada, influenciado pelo calor do momento disse em palavras claras:
– Faça de mim o que você quiser, sou inteiramente seu!
Christine, que estava sobre ele, o segurando pelos ombros, pareceu por um momento ter ficado maior e mais robusta, as mechas vermelhas de seus cabelos davam a leve impressão de estarem se movendo como se fossem duas serpentes, seu sorriso tinha ficado maleficamente sinistro e em seus olhos havia algo sobrenatural, pois eles haviam sumido por completo, deixando dois infinitos buracos tão negros como azeviche e para completar ainda mais o assombro que naquele momento tomara conta de todo o seu ser, ela com uma voz cavernosa num tom sombriamente grave, disse:
– Já há muito tempo que você me pertence! Eu apenas estava esperando o momento certo para vir buscá-lo para o lugar que lhe será destinado por toda a eternidade. Tal como nós, sentirá você também a ira de Deus sobre todos aqueles que ousam traí-lo.
Naquele último momento de medo e aflição, Ewerton compreendeu quem ela realmente era e tudo o que estava acontecendo. Mesmo tentando usar toda as forças que lhe restavam, não conseguiu se libertar dos braços daquela sinistra criatura que havia adquirido uma aparência terrível aos olhos humanos. Sentiu que um calor intenso subia pelo seu ventre e tomava conta de todo seu corpo, como se uma chama tivesse se acendido em suas partes. Quando pensou que poderia pelo menos gritar em última tentativa pela misericórdia divina, foi consumido por um beijo tépido, seus olhos foram tomados por um intenso clarão que logo se tornou em trevas absolutas...
...Os vizinhos agiram rápido acionando o corpo de bombeiros, mas as chamas foram implacáveis e toda aquela bela casa fora completamente destruída num terrível incêndio. De seu ilustre e outrora simpático residente só sobraram cinzas. Da construção restaram as lembranças de um tempo onde ainda havia paz e felicidade naquele lar. Entre vizinhos e curiosos que assistiam àquele infortúnio sem nada poderem fazer, vagava uma gata preta ronronando entre uma perna e outra em busca de conforto.
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O que saber antes de ler Drácula?
Atualmente, não há quem não conheça Drácula, o icônico vampiro que, desde a sua publicação em 1897, vem servindo de inspiração para outras obras literárias…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Atualmente, não há quem não conheça Drácula, o icônico vampiro que, desde a sua publicação em 1897, vem servindo de inspiração para outras obras literárias, filmes e músicas, moldando para sempre a imagem do vampiro. Mas antes de mergulhar em suas páginas sombrias, é interessante conhecer o contexto em que ele foi criado.
Drácula foi escrito nos últimos anos da década de 1890, em pleno apogeu da era Vitoriana, um período marcado por grandes avanços tecnológicos e industriais, expansão do Império Britânico e profundas transformações sociais, especialmente o crescimento da classe média. Mas, ao lado desse progresso, emergiam medos e ansiedades: fascínio pelo oculto, espiritismo e uma sensação de decadência moral. Obras literárias desse século frequentemente expressam esse choque entre modernidade e tradição.
Sabemos que antes de escrever o famoso romance, Stoker viajou por vários países, o que possibilitou suas pesquisas sobre o folclore europeu e as histórias mitológicas dos vampiros. Em Drácula, temas como o medo do “outro” (representado pela invasão estrangeira) — provavelmente fruto da própria experiência do autor como estrangeiro em diferentes países — é simbolizado pela figura do próprio vampiro, que no romance vive nos Cárpatos e pretende invadir Londres para contaminar o Império e conseguir um exército.
Outros temas polêmicos permeiam a obra; um dos mais discutidos pelos críticos é a repressão sexual e o tabu do desejo feminino, conectando o sobrenatural às tensões culturais da época. No clássico, as mulheres ocupam papel de destaque, não ocupam um lugar de submissão em relação à figura masculina. Mina Harker traduz as ambições intelectuais femininas da época: ocupando um cargo de professora, dona de uma mente aguçada e conhecedora da taquigrafia. Não se pode deixar de mencionar que, dos cinco vampiros presentes no romance, quatro são mulheres: agressivas, sedentas por sangue e ousadas sexualmente.
É interessante notar que, antes da obra de Stoker, os vampiros eram retratados como criaturas grotescas que saíam das sepulturas para aterrorizar vilas. Foi Stoker quem, a partir de suas pesquisas sobre o folclore do leste europeu — onde encontrou inclusive o termo ‘nosferatu’ —, uniu essa tradição à aristocracia vitoriana, transformando o vampiro em uma figura sedutora e carregada de inquietações sobre a sexualidade da época. Alguns teóricos ponderam, inclusive, que o próprio Stoker seria homossexual. Talia Schaffer, membro da Associação Norte-Americana de Estudos Vitorianos, aponta cartas intensamente homoeróticas escritas pelo autor e enviadas ao poeta americano Walt Whitman. Além disso, Stoker iniciou a escrita um mês após a prisão de seu amigo Oscar Wilde por homossexualidade.
Mas o que torna a leitura de Drácula mais fascinante é o uso do romance epistolar. A narrativa não se desenvolve de forma linear; os fatos são apresentados ao leitor por meio de cartas, telegramas, recortes de jornal e trechos de diário. Esse recurso confere verossimilhança ao que está sendo contado e obriga o leitor a unir fragmentos da história através das diferentes perspectivas dos personagens. O resultado é uma tensão constante que alimenta a curiosidade a cada página.
Já comentei um pouco sobre Mina Harker, mas há outros personagens igualmente fascinantes que compõem a trama. Entre eles, destaca-se o próprio Conde Drácula: um aristocrata sedutor e monstruoso, que combina ameaça e charme em uma personalidade única. Lucy Westenra é vítima do próprio desejo reprimido e da corrupção vampírica, ao passo que Van Helsing faz o papel de herói, servindo de ponte entre a ciência e a superstição.
Por fim, recomendo veementemente a leitura deste clássico do horror gótico, não por seu status canônico, mas sim por ser a obra que originou a figura do vampiro moderno. Com mais de 30 adaptações cinematográficas, Drácula permanece uma obra poderosa, que ilustrou com brilhantismo os temores e dilemas políticos e sociais de sua época, mas que continuam a ressoar com força até os dias atuais.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
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Memento Mori
A existência era gélida, angustiante, e drenava suas forças. Ela já havia passado, há muitos e muitos anos, pela excitação do novo, das descobertas e experiências intangíveis…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A existência era gélida, angustiante, e drenava suas forças. Ela já havia passado, há muitos e muitos anos, pela excitação do novo, das descobertas e experiências intangíveis. Não tinha mais curiosidade sobre o que viria a seguir, a noite não era mais a mesma e as pessoas eram cada vez piores e repulsivas**. Naquela noite, em específico,** até o mar, a única coisa que parecia acalentar sua alma, estava agitado demais.
— Minha alma! — disse em voz alta, sorrindo. Há quanto tempo não devia ter uma? Deve ter nascido com uma alma bem ferrada, afinal, para ter se fodido tanto em tão pouco tempo de vida. E não bastasse isso, as inúmeras sequências de escolhas erradas que fez ao longo dos muitos anos, dariam vários capítulos em um livro maldito.
Bom, o fato era que ela preferia o mar em seu estado calmo, por mais incoerente que isso possa soar, sabendo de toda sua imensidão, movimento, energia e seres de todos os tipos que o habitavam, dos microscópicos aos grandes leviatãs. Ainda assim, contemplar a água se movimentando levemente trazia um pouco de paz e conforto ao seu interior, sempre à beira da explosão.
O vento batia frio e úmido em sua pele, e trazia um pouco de areia e o cheiro de que tanto gostava. O céu estava estrelado e via, ao longe, pequenos pontos de luz amarelada de barcos pesqueiros. Olhou para baixo e observou uma embarcação passando sob a ponte que ligava a ilha à cidade — provavelmente seu lugar favorito no mundo. Ela pareceu esboçar um pequeno sorriso no canto de sua boca, mas logo pensou em Maria.
— Puta que pariu, Maria, você tinha que foder tudo! Não é possível que me deixou sozinha nessa merda de universo. — Seu hábito de falar sozinha e ter intensas discussões consigo mesma parecia só piorar. Quem convive muito tempo com a solidão acaba desenvolvendo certas habilidades adaptativas que podem ser muito interessantes. Há alguns anos, ela sentia que estava vivendo a melhor fase de sua existência, algo parecido com uma nova vida. Não estava mais sozinha, havia conhecido Maria e ela mudou seus dias. Toda perseguição, medo, fome, solidão, pareciam ter entrado em modo de stand by. Se conheceram bem ali, onde estava naquele momento, sobre aquele mar e sob aquele céu escuro e estrelado. Maria a viu de longe, parada em cima do parapeito, imóvel e com os braços abertos, parecendo um anjo prestes a cair.
— Ei, o que você está fazendo aí? Posso te ajudar? — Sem resposta, continuou: — Meu nome é Maria, estava dirigindo e vi você. Por favor, desce daí e vamos conversar!
Com um leve rotacionar da cabeça, Maria viu seus olhos pela primeira vez, verdes como esmeraldas, contrastando com sua pele clara e cabelos pretos.
— Posso me aproximar? Entendi que não vai conversar comigo agora, né? Só quero ajudar! Você é linda, está uma noite linda, mas muito fria... — Maria se aproximava lentamente enquanto conversava, quase sem respirar, tinha medo de que ela saltasse dali. Não passava carro algum naquele instante, não havia vento e o mar parecia estático, sem ondas ou som. Ao se aproximar, a uma distância de menos de um braço do parapeito, a mulher ofereceu a mão àquela alma triste e solitária — e ela aceitou. Quando as duas já pisavam sobre o meio-fio, Maria respirou pela primeira vez e percebeu sua taquicardia, respiração acelerada e suor frio.
— Daniela... meu nome é Daniela. — Ela mal abriu a boca para falar, parecia estar em outro lugar, outra dimensão, em outro corpo.
— Oi, Daniela, posso te dar um abraço? — Maria falava com o olhar fixo nos olhos verdes, marcantes e que pareciam contar tanta coisa. Enquanto se aproximava, uma pergunta ficava em sua mente: como uma criança pode ter um olhar que carrega tanto peso?
A garota aparentava ter seus sete ou oito anos de idade, muito bonita, com cabelos pretos caídos na altura dos ombros, porém, um rosto bastante abatido e aparentando preocupações e o peso comum aos adultos. Caminhava como se estivesse dopada, na verdade, fora conduzida por Maria e colocada no carro, no assento do passageiro.
— Daniela, você consegue me dizer onde estão seus pais ou qual o telefone deles? — A menina se manteve calada.
— Eu quero ajudar você, mas não sei por onde começar. Se você quiser ligar para eles ou amigos, ou algum parente, pode usar meu telefone.
— Não tenho ninguém, não tem mais ninguém, sou só eu.
Ao dizer isso, lágrimas escorreram de seus olhos e, instintivamente, a mulher lhe deu um abraço apertado.
— Você tem algum documento? — A menina fez uma negativa com a cabeça. — Então, vamos fazer uma coisa, vou com você à delegacia e tudo vai ser resolvi... — antes que Maria terminasse a frase, a menina arregalou os olhos, dilatou as pupilas, segurou com força o braço da mulher e gritou:
— Não é pra gente ir pra polícia nenhuma, eu não posso ir à polícia! Pra polícia eu tô morta! Se a gente for até lá e eles ficarem sabendo, vão me matar e vão matar você também!
— Calma, Daniela, não tô entendendo nada! Quem vai matar? Como assim você está “morta” pra polícia?
Naquela noite, a vida de Maria mudou. Aos poucos foi entendendo que Daniela não podia andar à luz do dia para não sofrer uma combustão; descobriu que a garota não comia frutas ou biscoitos, mas precisava caçar todas as noites, desde ratos até humanos, pois se alimentava de sangue — sangue esse que fluía nas veias de Maria e que esta não entendia o porquê de a garota não atacá-la; passou também a ser perseguida por um bando de criaturas com dentes caninos enormes, que pareciam voar durante a noite e as caçavam como bestas, sem descanso. A menina parecia ser tratada como algum tipo de oferenda necessária a um ritual cabalístico ferrado que precisava ser feito para que o mundo não acabasse — bem do tipo filme “B”, mas tudo na vida de Maria, naquela época, parecia um filme B. Maria demorou a digerir a ideia, mas entendeu e aceitou que aquela menina era um vampiro. E descobriu também que, naquele dia, na ponte, a menina pretendia se jogar, ela já não aguentava mais sua existência e solidão.
De início, a mulher não compreendia como poderia ser ruim, viver para sempre, poder viajar o mundo, não ser afetada por doenças, fazer, literalmente, o que tivesse vontade. Era tudo o que ela queria — mandar seu chefe ir se foder, bater à porta do escritório de merda onde trabalhava, largar o puto de seu namorado que vivia comendo outras enquanto ela o esperava com a mesa posta e ir embora. Matar vários filhos da puta, viver a luxúria até não aguentar mais, ser perene e atravessar as eras. Caralho, isso seria incrível, era a vida perfeita. Porém, aí que estava o problema: para Daniela não era perfeito, porque não era vida. Era viver escondido, só, atravessando o tempo em uma existência angustiante, vendo e sentindo as dores do mundo. E, em seu caso, presa em um corpo que não acompanhava sua mente — uma mulher, com mais de 100 anos, com corpo e feições de menina, que fora transformada à força, sem romantismos ou poesia envolvidos. Maria não conseguiria, mesmo que quisesse, compreender sua dor, porém tentou acolher da melhor forma que pôde.
Começaram a partir dali, um novo capítulo em suas existências, firmando uma espécie de pacto silencioso que tinha como objetivo, ressignificar seu tempo na Terra. Pode soar muito pretencioso — e era —, mas era o que fazia mais sentido para as duas naquele momento. Juntas, viajaram pelo mundo, observaram o céu noturno de diferentes locais, quase morreram por vezes a fio, leram, ouviram as mais variadas canções e discografias, amavam o cinema e artes em geral, aprenderam diferentes idiomas e caçavam em par. Na verdade, Maria acompanhava e ajudava Daniela na caçada — sabia seduzir muito bem as presas e deixá-las entregues à predadora criança. E isso a excitava bastante. Entretanto, nunca Daniela cogitou matar sua companheira ou condená-la à vida eterna. Estabeleceram uma relação de amizade muito forte, em alguns momentos, eram mãe e filha, em outros, mãe e mãe e, em vários, filha e filha, mas sempre, cúmplices da existência.
Um dia, de repente, como todas as mudanças de rota que a vida pode tomar, Maria foi embora e Daniela nunca mais a viu ou teve notícias. Nos primeiros dias ainda ouvia seu coração bater, um som fraco perdido no tempo, e isso servia de combustível para manter suas buscas. Procurava por Maria em todos os locais que frequentavam, nos bares e restaurantes, nas casas de show e de swing, hospitais, delegacias. Invadiu, inclusive, os covis de bestas ancestrais que as perseguiram por anos... e nada. Em alguns momentos e, em alguns momentos, e locais, o som do coração de sua amada parecia ficar mais forte e isso despertava em si um mecanismo de alerta feral, mas nada se concretizava. A criança se tornara quase uma lenda urbana; por onde passava, o número de assassinatos aumentava, as gangues ficavam vorazes e em modo de vigília, e as notícias sobre um psicopata ou serial killer se espalhavam. Ela se tornara o que a perseguia: uma criatura predadora, fria e monstruosa, que matava por matar e destruía por mais puro instinto. Não tinha sede por sangue, mas por aplacar sua dor e encontrar respostas, encontrar Maria. Talvez porque ela representasse sua tentativa de redenção no universo, não sabia mais dizer. Acima de tudo, a procura por sua companheira havia se tornado algo autodestrutivo; ela não se alimentava, não dormia, apenas matava, procurava, vigiava e não sentia. Não sentia mais nada, por nada ou ninguém. Desde que fora condenada à vida eterna, Daniela já não se sentia mais viva. Porém, agora percebia que a morte real a espreitava como um abutre e era dilacerada, todos os dias, por um punhal agudo que a estripava repetidamente.
Uma noite, ao acordar após exaustão extrema, ela parou de ouvir e sentir o coração de Maria. Não sabia se um dos vampiros a matara, se fora atropelada, ou o que acontecera, mas nunca mais a viu. Preferia crer em uma fatalidade como assassinato, acidente, sequestro... era menos dolorido do que encarar que a companheira a deixara, simplesmente, por não querer mais sua companhia. Pensava que Maria já não aguentava mais olhar seu rosto de boneca maldita, ou ouvir seu choro e lamentos noturnos, ou quem sabe, sentia vontade de ter uma vida comum, caminhar ao sol, amar alguém normal. Nenhum dos outros motivos mais pertinentes tinha tanto peso para Daniela quanto esses. E isso doía. Em algum momento, ela já havia lido em novelas chorosas vampirescas ou visto em filmes, vampiros chorando sangue. Era tudo uma bobagem romantizada, mas no dia em que Maria foi embora, ela acreditou ser verdade, pois perdera ali seu fluido vital.
E, naquele momento, do alto da ponte onde estivera na noite que conheceu Maria, o céu estava bonito e estrelado. Não havia visto uma noite tão perfeita em sua existência centenária, a Via Láctea parecia ter sido pintada para sua apreciação. Seu rosto era acarinhado por uma brisa leve e fresca, com o cheiro do mar que tanto gostava.
E o mar? O mar estava agitado, intenso, com ondas violentas estourando nas pedras, pronto para receber o corpo de Daniela, que , por dentro, estava calmo. Não sabia se tinha uma alma outra vez, mas se tivesse, devia tudo a Maria. Ao pensar nisso, pouco antes de ser abraçada pelo mar que tanto amava, a menina sorriu.
Luiz E. Tassini
Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Gêmeos
O ar da tarde estava tépido, pairando úmido e denso, reverberando com trovões distantes. Doutora Priscila olhava pela janela as escuras nuvens no horizonte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Pensa que o dia passado não volta mais!”. — Dante Alighieri
O ar da tarde estava tépido, pairando úmido e denso, reverberando com trovões distantes.
Doutora Priscila olhava pela janela as escuras nuvens no horizonte e, suspirando doridamente, previu que a noite seria bastante tempestuosa. Naquele momento, aguardava sua última paciente do dia. Era a primeira consulta de uma criança que, segundo os pais, vinha enfrentando sérias crises existenciais devido a visões imaginárias. Nenhum outro detalhe fora informado por telefone.
Perder um ente querido é doloroso para qualquer um, mas, no caso de Priscila — que tinha apenas nove anos na época —, foi algo avassalador. Não pela morte em si, mas por como tudo ocorrera. Sua irmã, Cecília, afogara-se em um pequeno riacho nos fundos do sítio da avó. Ambas sabiam nadar muito bem e costumavam banhar-se nas tranquilas águas cristalinas daquele regato. Contudo, de acordo com o boletim médico, Cecília sofrera um princípio de convulsão após um mergulho e acabou se afogando às margens do riacho. O socorro foi rápido, mas a menina não resistiu e chegou ao hospital já sem sinais vitais.
Com a trágica perda da irmã, Priscila ficou arrasada; trancou-se no quarto e recusou-se a participar do velório. Entretanto, assim que o caixão descia à sepultura, ela teve um ataque de histeria, gritando que sua irmã estava viva, que a deixassem sair do caixão. Debatia-se, implorando que o abrissem, certa de que todos veriam que dizia a verdade. Cecília passara toda uma tarde na agência funerária, fora velada por uma noite e metade de um dia. Todos os presentes testemunharam que, durante todo esse tempo, ela esteve como um cadáver deve estar: completamente inerte.
A mãe das meninas morreu alguns anos depois e foi enterrada na mesma sepultura da filha. Quando os funcionários do cemitério abriram a cova, depararam-se com algo perturbador. A tampa do caixão estava bastante danificada por dentro; o forro, totalmente rasgado; e havia lascas de madeira entre o que restara das mãos da criança, que jazia deitada de lado, como se dormisse tranquilamente.
A partir de então, Priscila — que desde o velório da irmã alegava ver vultos e ouvir sussurros pela casa — nunca mais foi a mesma. Após anos de terapia, buscou na psicologia uma forma de ajudar a si mesma e também crianças traumatizadas como ela.
A secretária avisou que sua última paciente havia chegado. Doutora Priscila pôde ouvir o que a mãe, mesmo em sussurro, dissera à filha quando foram convidadas a entrar:
— Nenhuma palavra sobre o Gabriel...
Como era uma psicóloga muito proativa, Priscila rapidamente iniciou uma interação com as duas belas crianças que entraram em seu consultório. O menino era um rapazinho de cabelos cacheados, faces rosadas e sorriso fácil; a menina, bastante parecida com o irmão, distinguia-se apenas pelos longos cabelos e pela face salpicada de sardas. Os pais, imaginando que ela estava interagindo com sua filha Letícia, nada disseram e ficaram apenas observando.
Doutora Priscila, virando-se para a menina, perguntou qual era seu nome. Ela, muito timidamente, respondeu:
— Letícia...
Os pais ficaram estupefatos quando a psicóloga, olhando para a cadeira vazia ao lado da menina, perguntou:
— E você, rapazinho de cabelos dourados... qual é o seu nome?
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Criaturas que Carregam o Nome de Drácula
Desde que Bram Stoker publicou Drácula em 1897, o conde da Transilvânia deixou de ser apenas um personagem literário para se tornar um ícone cultural..
Imagem: Eric Hunt
Desde que Bram Stoker publicou Drácula em 1897, o conde da Transilvânia deixou de ser apenas um personagem literário para se tornar um ícone cultural. Sua aura sombria atravessou as páginas, o cinema e o teatro, infiltrando-se também na ciência natural. Naturalistas e biólogos, inspirados por seu caráter sinistro, batizaram diversas espécies com o nome de Drácula ou do próprio Stoker. Assim, o vampiro literário ganhou vida no mundo real, fazendo parte da flora, da fauna e até da paleontologia.
Orquídeas do gênero Dracula
As orquídeas Dracula formam um gênero vasto, com cerca de 146 espécies diferentes. Algumas espécies de Drácula são conhecidas por lembrarem o rosto de primatas, como exemplo temos a Dracula simia. Nascem, em sua maioria, nas montanhas úmidas da Colômbia e do Equador, embora algumas espécies tenham sido registradas no Peru, México e em outros países da América Central. Preferem regiões mais escuras das montanhas, com sombra, onde a umidade é bem alta, dificilmente vão estar expostas à luz solar. Cada Dracula possui nomes bem específicos e alguns exemplos incluem: D. diabola, D. nosferatu, D. vampira e D. vlad-tepes.
Papagaio-Drácula (Psittrichas fulgidus)
No norte da Nova Guiné vive o papagaio-Drácula (Psittrichas fulgidus). Diferente dos papagaios tropicais coloridos, este pássaro possui penas negras que recobrem corpo e asas, enquanto o peito e o ventre brilham em vermelho intenso. Em voo, parece um conde emplumado, trajando uma capa de veludo rubro e negro. Apesar do nome, não é um predador sanguinário, ele se alimenta principalmente de figos, outras frutas, flores e néctar. O rosto nu, sem penas, aumenta sua aparência sinistra, mas também facilita a sua alimentação, evitando que resíduos se acumulem.
Imagem: Greg Hume
De cauda curta e porte imponente, mede cerca de 50 cm, e vive entre 20 e 40 anos. Endêmico da Nova Guiné, é alvo do tráfico por suas penas negras e vermelhas, usadas em adornos tradicionais. Desde 2017, está na Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza), classificado como vulnerável.
Morcego-vampiro-gigante (Desmodus draculae)
Entre mais de 1.500 espécies de morcegos, apenas três se alimentam de sangue, todas da América Central e América do Sul e México. O morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), espécie que se alimenta de mamíferos. O morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngii), que tem preferência por aves. E o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata), que também tem preferência por aves.
No passado, porém, existiu um vampiro mais imponente: o Desmodus draculae, ou morcego-vampiro-gigante. Com 50 cm de uma asa a outra, viveu entre 2,5 milhões e 3 mil anos atrás, compartilhando cavernas com preguiças gigantes. Nomeado em homenagem a Drácula, ele se alimentava de mamíferos de grande porte, como um predador noturno da megafauna hoje extinta. Hoje o que resta dele são apenas fósseis, apenas lembranças de que, em eras passadas, até o morcego-vampiro teve representantes grandiosos.
Peixe-Drácula (Danionella dracula)
No sul da Ásia vive o Danionella dracula, um peixe minúsculo onde apenas os machos exibem presas afiadas, usadas não para se alimentar de sangue, mas para duelar por território. Sua anatomia é igualmente estranha: metade do esqueleto de um peixe adulto que nunca se desenvolveu, mantendo-o em estado larval. É como se seu desenvolvimento tivesse sido incompleto, um desvio evolutivo que suspende o corpo no tempo. Assim, o peixe-Drácula vive eternamente jovem, incompleto e estranho, carregando presas afiadas.
Formiga-Drácula (Mystrium camillae)
Imagine uma mordida disparada a 320 km/h, cinco mil vezes mais rápida que um piscar de olhos humano. Essa é a arma da formiga-drácula (Mystrium camillae), do Sudeste Asiático e da Oceania. Suas mandíbulas funcionam como mola, trinco e alavanca combinados, produzindo o movimento mais rápido já registrado no reino animal. Pequenos artrópodes são atordoados, esmagados e levados ao ninho como alimento das larvas. Essas formigas mostram que o vampirismo não se restringe ao sangue, mas também à velocidade letal que devora a vida em frações de segundo.
Aracnídeos das cavernas do gênero Draculoides
No noroeste árido da Austrália, longe da luz, rastejam os Draculoides, aracnídeos que habitam exclusivamente as cavernas. Caminham sobre seis patas, usando duas como antenas sensoriais, e seus pedipalpos (segundo par de apêndices articulados localizados próximos à boca) lembram presas de vampiros. Com eles, capturam pequenos invertebrados, despedaçando-os e sugando seus fluidos vitais. Entre as espécies mais conhecidas estão: D. bramstokeri, D. carmillae, D. belalugosii, D. nosferatu, D. immortalis. Esses aracnídeos perpetuam na biologia o legado do conde e prosperam no escuro das cavernas se alimentando do que resta da vida.
Da orquídea das montanhas ao peixe eternamente jovem, do papagaio rubro ao morcego extinto, da formiga super-rápida ao aracnídeo das cavernas, todos esses são Dráculas da natureza, pois o conde nunca morreu, seu nome apenas se multiplicou em flores, aves, insetos e fósseis, espalhando sua sombra pelo mundo real, provando que a literatura e a ciência compartilham o objetivo de compreender a experiência humana e podem inspirar-se mutuamente para gerar novas ideias e descobertas.
Referências:
COSTA, Maria Clara Nascimento; COSTA, Henrique Caldeira. Drácula pré-histórico. [S. l.]: Ciência Hoje das Crianças, 10 jan. 2020. Disponível em: https://chc.org.br/artigo/dracula-pre-historico/. Acesso em: 27 set. 2025.
HSU, Jeremy. New 'Dracula Fish' Has Fake Fangs. [S. l.]: Live Science, 9 abr. 2009. Disponível em: https://www.livescience.com/3471-dracula-fish-fake-fangs.html. Acesso em: 27 set. 2025.
HUME, Greg. Papagaio-Drácula: conheça essa ave de aparência soturna que remete ao famoso vampiro. [S. l.]: National Geographic Brasil, 28 out. 2024. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2024/10/papagaio-dracula-conheca-essa-ave-de-aparencia-soturna-que-remete-ao-famoso-vampiro. Acesso em: 27 set. 2025.
PERRELLA, Flora. Researchers count 13 new species of fanged arachnids in the Pilbara. [S. l.]: Western Australian Museum, 28 out. 2020. Disponível em: https://visit.museum.wa.gov.au/learn/news-stories/researchers-count-13-new-species-fanged-arachnids-pilbara. Acesso em: 27 set. 2025.
ROYAL BOTANIC GARDENS. Board of Trustees of the Royal Botanic Gardens. Orchidaceae Dracula. [S. l.]: Royal Botanic Gardens, . ?. Disponível em: https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:30001158-2#other-data. Acesso em: 27 set. 2025.
VEIGA, Edison. A incrível formiga drácula, que tem as mandíbulas mais potentes do mundo animal. [S. l.]: BBC News Brasil, 12 dez. 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46531170. Acesso em: 27 set. 2025.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Monstruosidade
O sol resplandecia imponente no firmamento azul-índigo. Diziam que era o dia mais quente do ano. Dentro da taverna, o calor era enlouquecedor; o suor não parava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O sol resplandecia imponente no firmamento azul-índigo. Diziam que era o dia mais quente do ano. Dentro da taverna, o calor era enlouquecedor; o suor não parava de exsudar da minha tez. Comecei a velar as horas com uma certa frequência, porém os ponteiros insistiam em caminhar morosamente. Parecia que o universo se deleitava com minha inquietação.
Apesar dessas adversidades, minha vida era boa. Tinha uma ótima casa. Trabalhar na taverna possibilitou conhecer muita gente e, consequentemente, suas histórias. Algumas eram fantasiosas por demais; era o caso do João, conhecido pela região por ser uma figura peculiar. Muitos o chamavam de “lunático” por conta de seus causos.
Suas narrativas rompiam o limiar entre a sanidade e a insanidade. Enquanto limpava o balcão, ele surgiu. Sorri e acenei; ele retribuíra minha saudação. Sua presença sempre animava o recinto, porém, enquanto caminhava, notei algo estranho. Conforme se aproximava, vi suas feições adquirirem contornos sombrios e seu olhar estava envolto por uma aura indescritível.
Ele trajava uma camiseta preta e calça jeans, ambas rasgadas e manchadas, e, nos pés, chinelos sujos. As poucas pessoas presentes espantaram-se, pois ele parecia desnorteado. Num estado de hipnose, ele se dirigiu até a bancada e sentou-se onde costumávamos conversar, mas permaneceu em silêncio. Aquele comportamento era estranho até para ele.
— Está tudo bem, João? — perguntei com cautela, mas obtive apenas o silêncio perturbador, acompanhado de um contido, mas assustador, sorriso.
Assustados, os clientes foram deixando o local, um por um. Minha atenção estava voltada para cada movimento seu. Sinceramente, não sabia o que iria acontecer. Talvez fosse melhor chamar as autoridades...
— Sangue, ele está vindo, prepare-se, Roberto — sussurrou João enquanto me encarava com olhos inexpressivos.
Nada me prepara para o desconhecido. Aquelas palavras soaram desconexas e confusas. Naquele momento, um desconforto se apoderou de mim; confesso que me senti observado. Repeti a mesma pergunta e obtive uma inesperada reação: ele começou a arranhar a madeira da bancada, gerando um som horrífico. Os movimentos das mãos foram progredindo, chegando ao ponto de as unhas se quebrarem, espalhando gotas escarlates sobre a madeira.
— Você precisa me ouvir. O Mestre está vindo e não há mais nada que possamos fazer — disse enquanto aniquilava e comia insetos como formigas e mosquitos que ocasionalmente surgiam.
Dito isto, pousou seu olhar nos meus e contou-me um dos mais medonhos causos que aquela taverna já ouviu. Sim, havia uma bizarra semelhança com a clássica obra Drácula, de Bram Stoker. Relatou que ouvira o chamado através de um sonho e, desde então, vive para o tal mestre, que lhe prometeu a eternidade através da aniquilação de pequenos insetos. Abismado, disse que aquilo era loucura e humanamente impossível; porém, ele se tornou mais agressivo, o que não é de seu feitio.
Temeroso pela minha vida, mandei que ele fosse embora. Falei que estava cansado e que precisava de uma boa noite de sono, pois o dia havia sido difícil.
João gargalhou de forma insana e alertou para que eu tivesse cuidado, pois hoje o mestre iria fazer uma visita. Deixou a taverna me encarando com um sinistro sorriso, o qual certamente me causaria pesadelos. Saí o mais rápido possível dali. Respirei aliviado ao entrar em casa. Tranquei a porta, liguei as luzes, tomei banho, comi uma lasanha que fiz no dia anterior, escovei meus dentes e me preparei para dormir.
Meu quarto não é tão grande, mas é confortável. Minha cama fica abaixo de uma janela de madeira deteriorada pela cruel maresia. Ao lado direito, uma mesinha de canto com uma moringa de barro e também uma Bíblia severamente desgastada pelas traças e bastante empoeirada. Em frente à cama, havia um aparador com um televisor. Por fim, um ventilador de teto que também sofreu com a maresia. Deitei-me e logo senti a brisa rastejar sutilmente pelas frestas da janela, produzindo uivos agourentos. Alguns minutos se passaram, comecei a sentir as pálpebras pesarem e finalmente consegui dormir.
Em determinada hora, acordei com uma intensa falta de ar. Em vão, meus olhos arregalados fitaram a pálida parede em busca de respostas. A cama de madeira rangia com pesar. — É apenas um pesadelo — repeti essa frase incontáveis vezes, como um mantra. Aquele medo irracional cravou suas perversas garras em meu corpo. Foi quando ouvi algo lá fora.
O som era semelhante a um sutil, mas imponente, bater de asas. Isto foi o suficiente para deixar as janelas inquietas. Em posição fetal, criei os mais irreais e absurdos cenários. Contemplei, então, uma presença abissal projetando uma densa sombra para dentro do cômodo. Em todo momento, ouvia as palavras proferidas por João e até cogitei considerar a existência de uma criatura tão aterrorizante como o personagem Drácula.
Sufocado, com o corpo encharcado pelo inenarrável, ergo uma das mãos em busca da janela. Abri-a e senti um denso vento gélido passar por entre meus dedos suados. Ao fazer isto, vi as sombras adentrarem, exterminando qualquer resquício de luz. Já não era possível enxergar o branco das paredes. Fechei-a imediatamente, mas já era tarde...
Sua monstruosa presença ocupava todo o quarto. No canto, ele estava a me observar. Mesmo com todo o breu, sua palidez era visível, assim como seus resplandecentes caninos. Percebo a nefasta criatura vindo ao meu encontro. Suas presas eram maiores do que havia pensado.
Ele parou, debruçou-se lentamente sobre mim, saboreando meu sofrer. Não consegui desviar de seu olhar vazio. Sua respiração era intragável. Ouço, então, sua boca abrir, revelando milhares de dentes. De sua comprida língua, gotejava uma saliva pútrida e viscosa. Seus olhos eram hipnotizantes. Antes que pudesse dilacerar meu pescoço, fecho os olhos e grito com todas as forças.
Acordo num quarto diferente do meu. A princípio, era tudo nebuloso. Então, ouço a porta abrir. Duas figuras de jaleco se aproximam.
— Vejo que acordou, Roberto. Como está se sentindo? — sua voz calma ecoou pelo recinto.
— Não sei onde estou. O que está acontecendo?
— Me chamo Pedro Sampaio, sou chefe da psiquiatria. O que direi pode ser assustador, peço que ouça com atenção. Faz alguns meses que você está aqui internado. Vizinhos encontraram você aos gritos, completamente histérico, balbuciando frases desconexas...
Minha respiração se alterou. Alguns fragmentos de memória surgiram em minha mente. Não é possível... Ele estava lá, seus dentes. O João estava certo. Tentei me mexer, mas fui contido, pois havia faixas por todo o meu corpo.
— Enfermeiro, por favor, aplique o sedativo. O paciente entrará em surto novamente. Antes de sentir os efeitos entorpecentes, escuto uma voz familiar cruzar o corredor, cantarolando a seguinte frase: “O mestre chegou e precisa de sangue.” João... é você?
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
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O órgão
Um dia, Lorde Vlad resolveu agir. Era o proprietário de um suntuoso castelo, cuidadosamente desenhado por sua falecida esposa, cujo conhecimento…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Um dia, Lorde Vlad resolveu agir. Era o proprietário de um suntuoso castelo, cuidadosamente desenhado por sua falecida esposa, cujo conhecimento em arquitetura permitiu que cada detalhe daquele lugar fosse confeccionado impecavelmente. Ele sempre considerou um exagero todo aquele espaço e recursos empreendidos em bens que ficarão aqui após sua partida — assim como para ela — que nada pode levar em sua jornada junto a Caronte.
Há algum tempo ele sofrera um mal, segundo suas suspeitas, fora revirado de dentro para fora e pretendiam utilizá-lo em uma doentia vivissecção. À medida que a dor aumentava, mais irascível ficava. Quanto mais raiva, mais cansaço.
Estava pálido, alguns de seus servos diziam que estava tão amarelado que parecia as folhas de outono que flutuam a esmo, comparação essa também em decorrência da visível perda de peso.
Afogava suas dores com bebida forte e sempre exigia que esse elixir fosse preparado mais e mais forte. Ele precisava dormir, só assim esqueceria a dor.
Decidiu consultar os oráculos, quaisquer que fossem suas origens e finalidades, desde que lhe oferecessem alguma solução. Chegou aos magos. Ele nunca se interessou em saber quais eram suas fontes, só pretendia obter a cura. Finalmente havia recebido um plano para sua cura. E assim ele decidiu oferecer um jantar.
Todos os homens do reino, entre 25 e 35 anos, foram convidados. O primoroso convite dizia que aquela noite seria uma data especial na história daquele local, pois o Lorde escolheria um dentre aqueles felizardos para receber o castelo e toda sua fortuna como herança. Como pode-se imaginar, todos os convidados não ousaram abster-se do convite.
No dia fatídico, chegaram cedo. Uma fila extensa se formava em frente aos enormes portais do castelo, que só foram abertos no horário exato. Os homens estavam animados e logo já foram servidos barris da bebida que o Lorde tanto apreciava. Após horas de confraternização entre si, finalmente, o grande banquete seria servido.
Mal sabiam eles que todo este tempo Lorde Vlad já os observava, pois pretendera escolher o homem mais respeitoso, sincero e gentil.
Após horas de comilança, Lorde Vlad interrompeu o burburinho e a algazarra generalizada, tocando com um talher de ouro em sua taça repleta do elixir:
— Meus bons homens, espero que tenham apreciado essa singela cerimônia. Não tenho a intenção de atrapalhar vossas conversas, mas preciso contar-lhes algo. Há alguns meses venho sofrendo mazelas, as quais não desejo nem ao pior dos meus inimigos. Em consulta aos sábios, descobri que seres espectrais tentaram contra minha vida e retiraram meus fluidos e órgãos com suas próprias mãos ressequidas. Devolveram as minhas partes para dentro de mim, mas os efeitos desse procedimento horrendo sinto até agora. Não sei até quando durarão meus dias nesta terra e, como não tenho herdeiros, preciso passar meu legado a um de vós aqui presente.
Um silêncio perturbador preencheu o enorme espaço. Mesmo com muitos convidados, ainda havia espaços vazios, mas o ar tornou-se pesado ante a este pronunciamento. Lorde Vlad, por fim, adentrou a espessa névoa que suas palavras haviam procriado:
— Meus bons homens, por obséquio, não me olhem com essas caras funestas. Tudo o que lhes digo é para que entendam meus motivos. Comam e bebam. À meia-noite irei anunciar meu escolhido.
Sob o efeito da bebida, todos os homens voltaram à alegria descomedida de outrora, como se ao se calar Lorde Vlad tivesse despausado a cena e todos pudessem voltar a rodar e girar sem limites.
Meia-noite. Desta vez, o pronunciamento foi exigido após os acordes do suntuoso órgão, que viera de terras longínquas, mas era como se uma marcha fúnebre retumbasse. A música ressoava tão forte que balançava as estruturas ósseas dos presentes. Horlok foi o escolhido, o herdeiro. Era o único sóbrio e sério.
Todos foram convidados a se retirarem. Restava agora a Horlok discutir os termos deste acordo. Deveria ter o seu nome no testamento.
Foi levado a um corredor, permeado de incontáveis portas, que, segundo o servo, eram alguns dos quartos do castelo. Ao final do corredor, chegaram a uma câmara iluminada, onde o Lorde e um senhor com roupas extremamente limpas o aguardavam.
Horlok não conhecia a aparência de autoridades da lei, mas aquele senhor não se parecia com um deles, arriscou pensar que era um médico.
— Sou o doutor Seward. O Lorde precisa saber o quão saudável és, pois não almeja correr risco de que seu castelo caia em mãos inimigas.
E sem esperar qualquer resposta ou reação de Horlok, segurou-o com ajuda dos servos, para que ficasse firmemente colado à mesa. Lorde Vlad estava deitado na mesa ao lado.
Após alguns minutos, Horlok estava inerte. Alguma mistura, que mais tarde seria conhecida como ópio, foi enfiada brutalmente em seu corpo. Suas mãos jaziam em cada um dos lados da mesa. Um corte profundo em seu abdômen permitiu que seu órgão fosse cuidadosamente retirado. O sangue escorria sem parar, mas o doutor não iria perder tempo com isso. Um corpo ao lado esperava ansiosamente pelos novos anos de vida que aquele pedaço marrom iria lhe proporcionar.
E Horlok sucumbiu. E quem diria que a má educação e hábitos torpes daqueles outros homens um dia salvariam-lhes a miserável vida.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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A Melodia da Noite
Em um cemitério antigo, esquecido pelo tempo e pela memória humana, repousava uma presença mórbida, imóvel e serena. As lápides, gastas pelo vento e pela chuva…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Em um cemitério antigo, esquecido pelo tempo e pela memória humana, repousava uma presença mórbida, imóvel e serena. As lápides, gastas pelo vento e pela chuva, desenhavam sombras longas que se confundiam com a escuridão da noite. Ao redor, o ar carregava o cheiro úmido da terra e o sussurrar de folhas secas, como se cada detalhe conspirasse para manter a paz que reinava há séculos. Ninguém poderia imaginar que, sob a terra fria, uma figura masculina descansava na sombra. Muitas almas haviam cruzado o lugar, histórias nasceram e morreram entre túmulos de mármore e pedra, mas nada, nem o tempo nem os viventes, fora capaz de perturbá-lo. Até que, numa noite como qualquer outra, algo rompeu a eternidade do silêncio.
Não era a fome que o despertava, mas uma voz. Uma melodia feminina, doce e cortante, atravessando a terra e o tempo, penetrando a escuridão de seu sono com insistência. Palavras estranhas e ao mesmo tempo familiares ressoavam, acompanhadas por sons metálicos, arranhados, que seu ouvido antigo não conhecia. A combinação era quase dolorosa em sua intensidade. E, ainda assim, havia algo nela que o chamava. Algo que o forçou a abrir os olhos em meio à escuridão de sua tumba, arrancando-o do repouso dos condenados.
Garras longas arrombaram a tampa da tumba, liberando a poeira antiga no ar frio. Da escuridão da câmara subterrânea, a figura do vampiro emergiu. Alto, esbelto, a pele pálida refletindo a luz da lua. Os cabelos loiros, levemente desalinhados, caíam sobre a testa, revelando um rosto aristocrático, de traços delicados e olhos azuis profundos que carregavam séculos de segredos. A capa negra arrastava-se pelo chão, levantando pequenos tufos de poeira, enquanto o resto das roupas — outrora elegantes — denunciava o desgaste do tempo.
Ainda atordoado pelo despertar, ele caminhou entre os túmulos, sentindo o frio da noite penetrar seus ossos imortais, absorvendo cada som, cada cheiro, cada sombra. O chamado daquela voz continuava a guiá-lo, mais insistente a cada passo, conduzindo-o até fora do cemitério. A praça diante dele surgia banhada por lâmpadas mortiças e pelo brilho distante da lua, que parecia conspirar para destacar cada detalhe do mundo desperto ao redor.
Ali, sob a luz difusa, estava ela. Uma mulher que, à primeira vista, parecia pertencer à própria noite. Seu cabelo negro caía sobre os ombros como uma cortina de seda, contrastando com a pele pálida, quase etérea. Os olhos escuros, profundos, carregavam uma melancolia pensativa, reflexiva, uma inteligência silenciosa que se percebia em cada gesto, cada pausa, cada respiração.
Em sua cintura se emoldurava um espartilho sob o longo vestido negro, emanando sensualidade e adornado com rendas, revelando simultaneamente força e delicadeza. A guitarra em suas mãos parecia uma extensão de sua própria alma e corpo; os dedos deslizavam pelas cordas com uma ferocidade natural, extraindo sons que misturavam violência e doçura. Cada nota parecia narrar suas memórias, suas reflexões e sua solidão ao cantar.
Para ela, o mundo desperto e mecânico nunca a fascinara. As luzes artificiais, o barulho das cidades, as obrigações humanas, tudo isso a cansava em demasia. Por isso escolhera a música, por isso tocava à noite, quando a atmosfera da madrugada e o vento frio a tornavam mais viva, mais intensa. E naquela melodia carregada de emoções, havia algo que o vampiro jamais experimentara: uma afinidade silenciosa com sua própria essência eterna.
Ele se escondeu entre as sombras, hipnotizado. Cada acorde atravessava seu ser como uma lâmina, cada pausa da música o fazia flutuar entre o desejo e a curiosidade. Não era apenas o som que o atraía, mas a essência que dela emanava — a melancolia, a capacidade de se destacar do mundo comum, a forma como abraçava a noite como se fosse uma aliada em sua voz.
Quando a última nota cessou e ela parou de cantar, com cuidado ela começou a guardar o instrumento e desmontar seu equipamento. Desmontou o suporte do microfone e o guardou, acomodou a guitarra na bolsa e recolheu os cabos do amplificador enquanto observava ao redor e percebeu a presença dele ao longe. Ele, entre as sombras, deu alguns passos adiante, o magnetismo da presença irradiando em ondas quase tangíveis. A pele branca refletia a luz da lua, os cabelos loiros captavam cada nuance do brilho noturno, e os olhos azuis profundos a analisavam, ironicamente fascinado e envolto em mistério.
— Boa noite — disse ele, a voz grave, carregada de um magnetismo que parecia esticar o ar ao redor.
Ela inclinou a cabeça, apenas curiosa.
— Você estava me ouvindo? Parece diferente das pessoas daqui!
— Diferente? — Ele indagou, com certo sarcasmo, quase em um sussurro. — Sua música me chamou a atenção, seu instrumento que é diferente e sua voz é bela. Quando você toca parece atravessar a noite e os séculos, como se já conhecesse inúmeros segredos.
Ela sorriu levemente, intrigada, tentando entender o fascínio dele, se era por ela ou pela guitarra. Até que indagou:
— E qual seria o nome do meu admirador? — Ele logo respondeu:
— Sou conhecido de muitas formas, mas gostaria que me chamasse de Amdis. E qual é seu nome, minha cara?
Ela colocou a guitarra nas costas, seguida por um trejeito de quem já tinha certa prática, e voltou a atenção para ele ao responder:
— Me chamo Margot, combinando com o amargor da vida.
Os dois iniciaram uma conversa leve, entre risos e olhares cúmplices. Sentaram-se em um dos bancos da praça, ao lado de um esqueleto falso posicionado de forma curiosa: pernas cruzadas, um chapéu na cabeça e um cigarro preso entre os dedos como se estivesse fumando. A estranha figura chamou a atenção de Amdis, o vampiro que brincava de ser humano. Intrigado, ele perguntou o motivo de aquilo estar ali.
Ela explicou que era outubro, mês do Halloween, e que alguns pontos da cidade estavam decorados com enfeites semelhantes. Ela achou estranho ele perguntar, já que estava vestido de uma forma tão não convencional, com roupas tão maltrapilhas, quase como um zumbi. Amdis achou graça e, em um gesto teatral, fingiu fumar o cigarro do esqueleto, arrancando dela uma gargalhada. Ele conseguiu driblar a desconfiança dela dizendo que ele não lembrava de enfeites como aquele nos lugares, mas já estava experimentando seus trajes para a noite da festa.
Entre a conversa, pequenos flertes surgiam inevitáveis, mesmo quando ela tentava disfarçar. Um olhar mais demorado, um sorriso cúmplice e a forma como ele inclinava o corpo na direção dela em alguns momentos. Ele percebia o rubor contido no rosto de Margot, e se divertia em provocar. No fundo, era algo natural, como se aquela atração simplesmente os unisse sem que pudessem evitar.
— Eu gostaria de acompanhá-la, se me permitir passar um tempo com você — murmurou ele, como se desejasse pronunciar aquelas palavras desde seu despertar. — Há um lugar onde o tempo não ousa tocar, onde posso mostrar-lhe o que é realmente a noite. Se quiser...
— Então, “viajante da escuridão”, não sei se devo aceitar — ela provocou, de maneira sutil. Hesitante, não pela estranha imagem dele, mas pelos perigos que a noite realmente reserva para as mulheres.
Ela hesitou apenas por um instante, contemplando a aura sedutora dele, a luz dos postes refletida na pele pálida, e o ar de mistério que o envolvia. Então, ela assentiu, mesmo hesitante. Ele se ofereceu para carregar o instrumento guardado, mas ela recusou e ofereceu a caixa do amplificador para que ele carregasse, assim ele fez. Juntos, eles caminharam um pouco sem rumo.
Por onde passavam estava silencioso, exceto pelo farfalhar de algumas folhas secas sob os passos deles na calçada e o sussurro do vento frio que se infiltrava entre as árvores da praça. Cada passo parecia prolongar o tempo, e a noite ao redor tornava-se mais densa, mais intensa, envolvendo-os em seu manto. Ele caminhava ao lado dela, mas não de forma invasiva, cada movimento era calculado.
Em um momento ela olhou de soslaio, curiosa, e encontrou aqueles olhos azuis que pareciam mergulhados em sua alma. Eles caminharam para longe da praça, seguindo por ruas silenciosas; ela imaginava que iriam até um bar perto dali.
— O que acha de nosso passeio e porque resolveu vir comigo? — perguntou ela, curiosa. — Não acho que há nada em mim que mereça sua atenção além do que eu estava tocando.
Ele liberou um sorriso cínico, um gesto irônico e humano ao responder:
— Não é apenas sua música que me chama a atenção. É você. Sua forma de existir. Como você parece pertencer à noite. Acredito que seja algo raro encontrar alguém que viva assim, que respire o noturno como se fosse ar enquanto canta.
Ela suspirou, quase sem perceber, sentindo o frio da noite misturar-se àquela estranha sensação que percorrera seu corpo ao ouvi-lo pronunciar aquelas palavras. Ela finalmente percebeu um sotaque que não era comum na voz dele.
— Sua voz é estranha, mas sobre o que você falou, eu meio que sempre me senti… deslocada entre as pessoas vivas. O mundo desperto, com sua pressa e barulho, me deixa ansiosa. Talvez, seja por isso que a música se tornou o meu refúgio particular — ela disse, olhando para o céu noturno, a lua estava refletindo um brilho azul em seus cabelos negros. — Aqui, à noite, sinto-me mais viva e tranquila por algum motivo!
Ele permaneceu em silêncio por um instante, absorvendo cada palavra que ela dizia, cada nuance e cada pequena hesitação. Então ele disse, diminuindo o volume na voz:
— Você é diferente, sim. Diferente de tudo que já conheci. A melancolia que carrega não é tristeza; é consciência. Sinto que você possui uma sabedoria que a maioria despreza. Por isso, fascina-me.
Ao ouvi-lo falar, ela se sentiu estranhamente reconhecida, como se ele tivesse lido cada camada que escondia atrás do sorriso e do olhar distante que adornava a face por trás do que cantava.
— E você? — ela perguntou, sem conseguir evitar demonstrar interesse. — O que carrega dentro de si que permite que veja tanto em uma pessoa desconhecida?
Ele sorriu novamente, com aquele ar de ironia e mistério que a deixava inquieta.
— Segredos. Séculos de segredos. Observação. Experiência. Um toque de ironia. E, às vezes, fascínio genuíno pelo que é raro e belo — disse, a voz melodicamente se misturando ao sussurro breve do vento.
Ela sorriu e desviou o olhar quando o silêncio caiu sobre eles, confortável, mas carregado de uma tensão entre eles quase palpável, uma troca de olhares sedutores. A cada passo, uma estranha conexão entre os dois parecia nascer, mesmo sem palavras. A noite parecia dobrar-se ao redor deles, os sons da cidade desaparecendo, substituídos pelo bater do coração dela e pelo ritmo antigo e constante da eternidade dele.
Ela parou por um instante, sentindo a presença dele tão próxima que podia perceber a sutil respiração, mesmo que ele não precisasse respirar. O calor que emanava daquela proximidade despertava nela uma inquietação doce, um desejo não dito.
— Este lugar que estamos indo… — disse ela, inclinando-se na direção dele com um leve deslize na voz, curiosa. — É seguro para mim lá, não é?
Ele inclinou a cabeça, aproximando-se a ponto de seus lábios quase tocarem o ouvido dela, os olhos azuis ardendo sob a luz da lua. Ela estava hipnotizada por ele.
— Seguro… — murmurou, deixando a palavra pairar entre eles, como se tivesse um sabor secreto. — Acredito que isso vai depender do que você entende por segurança. Mas lá, você sentirá a noite como nunca antes. Longe dos vivos, do tempo, do mundo mecânico que insiste em nos moldar. Apenas nós dois e a noite. Você vai gostar da minha companhia!
Ela respirou fundo, sentindo o frio da madrugada penetrar em seus ossos, mas também um calor estranho e intenso que emanava dele. Ela queria abraçá-lo. A melancolia dela encontrou ecos na profundidade da presença dele. Era como se ambos tivessem se reconhecido na “vida” que compartilhavam de maneiras distintas.
— Então, vamos — disse, decidida, mesmo com o coração acelerado. — Mostre-me a sua noite!
Ele assentiu, quase imperceptivelmente, e estendeu a mão. Ela hesitou por uma fração de segundo, mas a tomou, sentindo um arrepio percorrer seu corpo ao toque da pele pálida e fria dele. Cada passo dali em diante parecia mais intenso, cada sombra mais escura, o silêncio mais carregado de significado. O mundo desaparecia atrás deles, e apenas a escuridão testemunhava a aproximação do que viria.
Finalmente, chegaram a um local ermo, uma encruzilhada, afastada do mundo desperto da cidade, onde o vento soprava com mais intensidade, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e das folhas em decomposição. As árvores se inclinavam como testemunhas silenciosas, e a lua cheia banhava o espaço com uma luz prateada, quase líquida. Ali, o tempo parecia dobrar-se; os sons da cidade não mais existiam, apenas o ritmo constante da noite e o silêncio profundo que abraçava cada passo deles.
Ele parou, olhando para ela com os olhos que pareciam abismos. Sua pele branca refletia a luz da lua, tornando-o quase etéreo. A capa empoeirada se espalhava ao redor de seus pés, e o vento agitava os cabelos longos e loiros de forma quase teatral. Eles se aproximaram num ímpeto inevitável assim que ele colocou o amplificador no chão. Quando os corpos se encontraram, ele roçou os lábios frios contra os dela. Ela deixou escapar um suspiro entrecortado de sofreguidão, cedendo ao toque com a urgência de quem desejava muito mais que apenas um beijo.
— Aqui… — disse ele, a voz grave e envolvente — é onde a noite pode tocar você de verdade. Sem distrações, sem medo, apenas nós e o que ela nos oferece.
Ela sentiu o coração acelerar, mas não de medo. Era uma mistura de expectativa e fascínio, como se cada fibra de seu corpo soubesse que algo mudaria para sempre, ela o desejava.
— Eu confio em você — murmurou, a melancolia ainda presente, mas suavizada pela curiosidade e pelo desejo. — Mostre-me, então, a noite que você conhece!
Ele se aproximou, o magnetismo da presença dele tornando-se quase insuportável, e estudou seu rosto com atenção, os olhos dela brilhavam. Cada traço, cada olhar, cada hesitação revelava uma alma rara, e isso o fascinava profundamente, quase de forma perturbadora.
Os olhares se encontraram de novo, e o ar pareceu suspender-se entre eles. Ele a puxou contra o peito, a capa envolvendo-os como um véu de sombras. O beijo veio urgente e faminto. As mãos dele apertavam a cintura dela, suas costas, puxando-a com uma força que a fazia tremer; as mãos dela se perderam nos cabelos loiros, apertando-os enquanto a boca dele a quase devorava.
Ela arfava entre um beijo e outro, sentindo o corpo arder em um misto de desejo e vertigem. O mundo desaparecia, só havia o frio do corpo dele e a chama que aquilo acendia nela. Então, os lábios dele deslizaram pela curva de seu rosto, até a pele exposta do pescoço. O roçar dos lábios frios a fez estremecer, e por um instante ela percebeu o perigo, mas não recuou. Então, num gesto rápido, mas quase poético, ele tocou-lhe o pescoço com os dedos frios.
— É necessário — disse, sua voz baixa e reverberante — que você aceite o dom, se quiser compreender a noite em sua plenitude.
Ela fechou os olhos, sentindo a tensão subir pelo corpo. Por um instante, hesitou, mas o magnetismo dele, a aura eterna e a paixão a tomaram. Quando ele mordeu suavemente a carne, o frio se misturou a uma estranha euforia, e ela sentiu a energia da eternidade percorrer suas veias. A dor era fugaz, substituída por um êxtase sombrio e fascinante, como se a própria essência da noite estivesse se infiltrando nela.
Tudo se dissolveu. Restava apenas a escuridão que pulsava com intensidade, e o vampiro, cuja presença agora se tornava parte de sua própria consciência. A paixão que ela sentia parecia mais aguçada.
Quando o êxtase passou, ela abriu os olhos e percebeu que tudo havia mudado. Amdis estava sentado com ela em seu colo no chão da encruzilhada, afagando os cabelos negros dela com carinho. A guitarra estava a alguns metros de distância deles, como se tivesse sido largada de qualquer jeito perto do amplificador.
Ele sorriu para ela enquanto ela abria os olhos para o mundo noturno, seus olhos pareciam outros, ela enxergava formas perambulando ao redor deles, formas que ela não sabia explicar.
A pele parecia mais clara que antes, os sentidos mais aguçados, cada sombra, cada sussurro do vento, cada farfalhar distante de asas noturnas carregavam uma vida própria. Amdis endireitou a coluna, afastando-se um pouco, apenas o suficiente para contemplá-la melhor. Seus olhos azuis refletiam uma mistura de orgulho cínico e paixão ardente.
— Bem-vinda à noite, vampira Margot! — disse ele, com um sorriso enviesado. — Ao tempo que não termina, à eternidade que não cessa.
Ela olhou para ele, absorvendo a transformação, sentindo-se ao mesmo tempo viva e imortal, uma nova entidade, ligada para sempre à escuridão, à música e à melancolia que agora compartilhava com ele, quem a trouxe para este destino e tinha roubado seu coração.
E naquele silêncio, onde apenas o vento e a lua testemunhavam, dois seres da noite permaneceram lado a lado, eternamente ligados pelo mistério, pelo fascínio e pelo desejo.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Cartas de sangue — "In The Air Tonight II"
Escrevo-te tal epístola sanguínea com esta pena que se banha no meu próprio tormento. | Cada sílaba que deixo aqui é um fio de minha vida, e, no entanto, não cesso…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Escrevo-te tal epístola sanguínea com esta pena que se banha no meu próprio tormento.
Cada sílaba que deixo aqui é um fio de minha vida, e, no entanto, não cesso, porque és tu, sombra de safira, quem devora o que me resta.
Sei que não me lerás ou talvez apenas em sonho, entre véus de lua, mas minha desgraça é a certeza de que, mesmo sem tua presença, continuo a escrever-te, minha amada bruxa. Sou mais obcecado por ti do que pelo sangue das estrelas que me consomem, a poesia que me envenena...
Não há mundo senão este abismo: eu sangrando em silêncio, tu ardendo em feitiço, nenhuma ponte entre nós.
A bruxa recebe tal epístola de um corvo espectral.
Ela conjura um feitiço inscrito em véus de névoa.
Somos almas antigas e artistas do sangue, artesãos do acaso e corações.
Eu sinto teu sangue em minha pele, mesmo nunca o tendo tocado.
Quando a tinta verte de teus dedos, meu coração arde como se fosse lâmpada votiva em templo interdito.
Quisera quebrar a muralha que nos aparta, mas meus encantos se desfazem no vento.
Sou condenada a olhar a distância — teus versos são minhas algemas.
Amo-te, mas esse amor não me liberta: me acorrenta mais fundo.
Ele ouve no peito seu sussurro da noite e lhe responde uivante.
Escrevo além do tempo em páginas que estão quase ilegíveis, corroídas pelo sangue coagulado...
Estou cansado, cara mia.
Não de ti — jamais de ti — mas deste corpo que não mais suporta a poesia sem tua pele, tua carne em êxtase e magia e entrega...
Minhas noites são alucinadas, enlouquecido.
Cada verso é lâmina, cada metáfora, estaca.
Mas se morrer, ao menos morrerei no ato de pronunciar-te.
Talvez tu me invoques em tua noite,
talvez teu feitiço me preserve na memória dos séculos.
Talvez sejamos apenas ausência,
talvez sejamos mito, talvez apenas uma dor que se reconta.
Se houver eternidade, eu te buscarei outra vez.
Não me perdoe, apenas me recorde.
Entoado em língua esquecida, dissolvido no vento...
Vós que escreveste tua vida em meu nome, eu te carrego em minha noite como ferida sagrada.
Poeta,
Nunca nos vimos, e ainda assim tu és meu.
Não no corpo, esse já tombou na maldição que deixaste em minha alma.
Que os séculos nos neguem, que os deuses nos zombem,
nada importa, somos eternos porque nunca fomos. Este é o verdadeiro martírio do amor: nossas cartas e feitiços não se encontram.
Pairam em dimensões diferentes, orbitando-se como astros que jamais colidem. Na distância, nasce uma eternidade de dois corpos que não se tocam, mas que ardem, incessantemente, no mesmo fogo que jamais consome.
Seu sangue se dissipa na noite, ele mergulha na fogueira dos lábios dela.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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26. Diário da irmã da Ordem III
A voz sempre esteve lá, não como um grito, nem como uma ordem, mas como um sussurro paciente no fundo da minha cabeça, sugerindo e esperando…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 5 de outubro de 1374
A voz sempre esteve lá, não como um grito, nem como uma ordem, mas como um sussurro paciente no fundo da minha cabeça, sugerindo e esperando sua vontade ser feita. Quando eu era mais jovem, acreditava que todos ouviam algo assim, que todos sentiam um vazio que precisavam preencher de qualquer forma, mas percebi que o que para os outros não passava de um pensamento momentâneo, para mim era uma vontade constante que precisava ser saciada. Irmã Teodora percebeu, ela sempre percebe tudo com aqueles seus olhos argutos; desde que entrei para a Ordem, ela me observa, medindo cada ação minha. Minha última missão, um tanto chamativa, só confirmou o que ela já desconfiava, e quando chegou à conclusão, não demonstrou medo ou repulsa, apenas veio até mim e me falou das regras.
“As leis da Ordem são a lógica em sua forma mais pura”, ela disse calma. “Elas existem para orientar aqueles que precisam de orientação”. Então ela criou um código, diretrizes adaptadas dentro das leis da Ordem, limites que eu deveria respeitar para uma boa convivência dentro da abadia e fora dela. Não era por moralidade que ela fazia isso, mas por necessidade de me fazer escolher entre um impulso sem propósito e um propósito que serviria a algo muito maior. Se eu fizer a vontade da voz, seguindo as regras obviamente, a voz se acalma, não desaparece, ela sempre está lá, mas fica satisfeita. Sei que irmã Teodora confia em mim para segui-las, sei também que se eu quebrá-las, ela será a primeira a me punir e com razão. Ainda tenho dúvidas se é pelo propósito que continuo aqui ou se pela facilidade de matar sem ser punida; talvez seja por isso que ela continua a me observar.
Data: 15 de outubro de 1374
Hoje fui acompanhar os moribundos, tarefa da Ordem que acho tediosa. Irmã Teodora me levou até um quarto onde jazia a irmã Anatólia; seu corpo estava definhando e sua mente se agarrava à vida, ela não queria partir. “Não podemos impedir a morte, mas podemos torná-la suportável”, disse irmã Teodora. Sentei ao lado da irmã Anatólia e segurei sua mão; sua pele era fina ao toque e seu pulso estava fraco. “Ouça-a”, irmã Teodora ordenou e saiu do quarto, nos deixando a sós. Passei horas ali; ela me contou sobre missões antigas, arrependimentos, desejos que não se realizaram e então, finalmente, ela fechou os olhos e aceitou a morte. Saí do quarto e a irmã Teodora estava à minha espera. “A morte para alguns deve vir como uma amiga e não como uma vingadora e nós somos quem a apresenta”, ela disse. Ainda não entendi muito bem que lição ela está querendo que eu aprenda, mas já entendi que é uma punição.
Data: 29 de outubro de 1374
Nem toda morte é sagrada como a da irmã Anatólia; algumas são roubadas ou profanadas. Aprendi que há criaturas que desonram esse ciclo: os necromantes, ladrões de almas, parasitas do além e tantas outras criaturas que não aceitam o fim e tentam se agarrar à vida de maneiras profanas, e a tarefa da Ordem é destruí-los. Hoje enfrentei um profanado; havia nele um parasita do além que se recusava a sair, usava dele para se alimentar dos vivos. Eu aprendi a matar sem causar sofrimento, mas também aprendi a prolongar o sofrimento se fosse necessário. Então o torturei até que ele saísse do profanado e eu pudesse destruí-lo. Ele se foi, mas o que restou estava um trapo e não merecia piedade; o matei sem hesitar, algo nele implorava por descanso. Ou algo em mim implorava para que ele fosse morto.
Data: 3 de novembro de 1374
Hoje fomos levadas a uma casa onde havia um homem que estava agonizando há dias devido a uma maldição. Sua família havia nos implorado que fizéssemos algo. Irmã Teodora se ajoelhou ao lado dele e perguntou baixo: “Você quer ajuda para atravessar?” O homem, com os lábios secos e os olhos assustados, confirmou com a cabeça. Seu peito subia e descia em pequenos espasmos. Ele tinha medo, e isso ainda o segurava à vida. Irmã Teodora olhou para mim para que eu tomasse seu lugar, então me ajoelhei ao lado dele e repeti as palavras que aprendi: “A morte não é sua inimiga, ela vem para levá-lo ao descanso.” Irmã Teodora olhou para mim. “Faça o que é necessário.” Então dei a ela a bebida que o livrou da dor da maldição e também do fardo da vida e com isso o medo se foi.
Data: 11 de novembro de 1374
Fui enviada para capturar um homem que vendia sangue de vampiro para feiticeiros. Um traidor do ciclo natural. Ele fugiu para as florestas, mas a Ordem é paciente e eu sou paciente. Passamos três noites esperando, observando cada movimento. E quando ele sentiu que estava seguro, cheguei silenciosa enquanto dormia. “Eu sei quem você é”, ele sussurrou, acordando antes que eu o tocasse. “Vocês não são salvadoras, são carrascos.” A lâmina atravessou sua clavícula antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Eu deveria levá-lo vivo, mas naquela noite a voz precisava ser saciada. Seu corpo não merecia ritos; deixei o fogo levar o que restava dele enquanto eu observava. A Ordem nos ensina que os indignos não devem deixar rastros e eu o considerava indigno.
Data: 13 de novembro de 1374
Os vivos e os mortos correm de nós, isso é um fato. Fui enviada para outra missão: convencer um espírito que ele deveria ir. Uma criança morta há algumas semanas em um incêndio, que ainda brincava em um quarto que não existia mais. Irmã Teodora pediu para que eu lidasse com isso, mesmo que ela não dissesse nada, eu entendia aquela missão como uma punição. Me sentei ao lado da criança naquela casa invisível e por horas brinquei com ela até que perdesse o medo de mim. “Você não precisa ficar aqui”, sussurrei para ela. Ela me olhou com aqueles olhos negros e vazios. “Eu não posso ir, tenho que esperar mamãe”, disse ela. “Sua mãe está te esperando no lugar para onde você deve ir”, eu disse. Ela chorou: “Mamãe está morta?” perguntou. Confirmei com a cabeça sem ter certeza se isso era uma verdade. Então ela sumiu. A Ordem nos ensina que devemos libertar as almas, mas nunca nos dizem ao certo para onde elas vão.
Data: 19 de novembro de 1374
A Ordem julga em silêncio, mata em silêncio, mas às vezes também mata diante de todos. Hoje uma mulher que usava cadáveres para rituais proibidos foi trazida diante de nós e depois foi levada a uma praça pública a quilômetros da abadia, para que fosse um exemplo. Estava amarrada, sangrando e sem arrependimentos nos olhos. A praça estava cheia e muitos olhos curiosos observavam. “Ela perturbou o ciclo, ela roubou os mortos de seu descanso”, disse irmã Teodora. “Seu castigo será dado por aquela que está pronta para servir a Ordem.” Então ela olhou para Isolda e os olhares das outras irmãs foram em sua direção. A morte dessa mulher seria a aceitação final de Isolda, uma aceitação que talvez eu nunca chegasse a conseguir. Isolda parou diante da mulher e ela sorriu de modo desafiador. “Eu só roubei corpos, vocês roubam almas”, ela gritou. A lâmina de Isolda atravessou sua garganta, o sangue escorreu e a multidão ficou em silêncio. Isolda foi aceita, mas em que exatamente ela se tornou?
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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VI
Preces silenciosas | Perigosos pensamentos | Um sonho perturbador | Amarga ilusão | Padecer de sua ausência | atribulações para alma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Preces silenciosas
Perigosos pensamentos
Um sonho perturbador
Amarga ilusão
Padecer de sua ausência
atribulações para alma
O flagelo para o amante
O vazio celebra sua dor
Ode para o coração ferido
Abnegada existência
Composição para efêmera existência.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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As gavetas dos últimos dias
São Paulo, terra da garoa e dos mortos. A violência é intensa, isso não podemos negar, e com isso a vida desacontece a todo momento. Aprendemos a lidar com a morte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
São Paulo, terra da garoa e dos mortos.
A violência é intensa, isso não podemos negar, e com isso a vida desacontece a todo momento. Aprendemos a lidar com a morte, ela é nossa fiel escudeira, única acompanhante nos becos, nas estações vazias e viadutos abandonados.
E nunca se sabe quando o encontro fatídico ocorrerá, e ele ocorre para a maioria da população mais cedo do que se pode esperar.
Com o acúmulo de corpos sem vidas, uma Companhia percebeu a demanda e fez uma oferta irrecusável. Uma vez que os cemitérios tradicionais já não comportavam o volume de corpos, surgiu a brilhante ideia: e se eles fossem condicionados verticalmente, tal qual o Japão que adaptou suas lavouras às condições e criou robustos sistemas de hortas verticais. Prédios vazios e sem uso comercial foram transformados em criptas, onde o céu era o limite. E como havia espaço até que as bordas dos edifícios tocassem a beira do firmamento.
Os edifícios eram arrematados em leilões. Empresas que declaravam falência eram as principais ex-proprietárias. Estavam, em sua maioria, em ótimo estado, alguns precisavam ter a energia elétrica religada, pois estavam há meses sem pagamento, mas nada que onerasse a Empresa da morte. O fim da vida tornara-se algo lucrativo e tinham certeza de que logo recuperariam o valor investido, o lucro viria.
Os elevadores eram enormes, como bunkers reforçados de aço, robustos e impenetráveis. Após os possíveis ajustes, cada andar era remobiliado: saíam as baias que antes abrigavam os humanos sobreviventes de suas rotinas miseráveis; entravam as gavetas onde eram condicionados os corpos, agora, sem vida.
A visão daquelas caixas perfeitamente encaixadas causava satisfação para quem observava, tudo era limpo e quieto, o SPA após a vida. Quem visitava esses decorados ficava encantado com a disposição impecável, de certo, esse era o descanso merecido.
Renan era o corretor mais bem-sucedido daquela Companhia. Seus argumentos e simpatia comedida sempre eram convertidos em vendas, mesmo quem não queria, pois dizia não ser “bom agouro comprar o lugarzinho ali”, acabava sendo seduzido por suas dóceis palavras. Se buscar o conforto próprio não era o suficiente, ele apelava para o dos entes queridos, e a esse discurso ninguém ousava olvidar.
Naquele dia tinha agendado uma visita para as 14h, e como de costume chegou mais cedo ao local. Cumprimentou Olivia, a recepcionista com quem tinha uma amizade discreta, e entrou no elevador.
As teclas, numeradas de 1 a 16, o perscrutavam, esperando o momento em que uma delas seria tocada, e após uma espera de milésimos de segundos, a 13ª saiu vencedora.
1, 2, 3...
Quando a gaveta de ferro iniciou a subida, bateu as mãos nos bolsos: “Putz, esqueci o celular”. Apertou o 0, mas o elevador seguiu fielmente sua missão e continuou a subida até o andar selecionado.
4, 5, 6...
Obedecendo a pensamentos intrusivos, apertou a tecla 8, mas o elevador ignorou seu pedido e continuou seguindo cegamente a programação. “Como sou burro, ele respeita a ordem de seleção, agora vai demorar mais ainda para descer, mais uma parada inútil.”
Tentou calar a voz da ansiedade. A caixa de metal finalmente chegou ao 13º andar. Parou. Era esperado as portas demorarem 3 segundos para abrir, sim, ele tinha contado durante algumas crises de ansiedade. O medo de um dia ficar preso dentro daquilo era vencido pelo sedentarismo, subir 13 lances de escadas não iria rolar, mas agora se arrependia da tola decisão. Dez segundos passaram, as portas insistiram em permanecerem cerradas. Pressionou outra tecla, aquela com ícone de telefone para caso de emergência, alguém atenderia e diria que estava tudo bem, seria resgatado. Mas não ouviu voz humana, aliás, não conseguiu distinguir o barulho, parecia uma geladeira que grita do nada na madrugada. Sentia a respiração descompassada, dançando uma música sem ritmo e sem nexo.
“Que droga, respira, 1, 2, 3... Como a Carla ensinou”. Carla era a terapeuta, partes de suas manias e fobias foram amenizadas com as sessões, mas nada o havia de fato preparado para aquilo. O elevador desceu de forma violenta, como se 1, 2, 3 fosse um comando de voz, luzes piscando como uma discoteca infernal.
Parou bruscamente, pareceu ter atingido os limites do solo. Com a freada, Renan caiu de joelhos, que ardiam com o impacto brutal. “Que merda foi essa?”.
As luzes estabilizaram e o coração insistia em sair pela boca, mas ele o engoliu e o forçava a bombear sangue, mesmo irrigando partes que não deveriam, molhado demais. “Pera, eu mijei?”.
Conseguiu levantar-se após empregar força sobre-humana em seus joelhos, as pernas ainda tremiam, mas era de medo.
Apertou novamente o botão que o salvaria, mas nada, outros ruídos surgiram.
Deslizou derrotado na parede em frente à porta, aquela situação era demasiadamente difícil para ele. Olhou para cima, buscando um deus no céu de aço, e encontrou o painel, que indicava o número dos andares, piscando em alto e bom neônio vermelho: -10.
Pensou e riu consigo mesmo que havia chegado a um ciclo, até então, desconhecido do inferno.
Enquanto lamentava sua situação, algo lá fora arranhava a porta e forçava entrada. “Era melhor ter morrido esmagado”.
O teto, obediente à sentença proferida pelo miserável, desceu rápido e implacável. Metal contra carne. Não houve grito, somente os estalos dos ossos cedendo e esmigalhando, fundindo elevador e homem em uma massa disforme única.
Não era o jazigo que havia comprado, mas era o único e último que teria.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
XLI
Os desígnios da alma | esta que sofre com sua ingênua natureza | A inocência corrompida | na vil mortalidade…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Os desígnios da alma
esta que sofre com sua ingênua natureza
A inocência corrompida
na vil mortalidade
A intenção para ir além do cativeiro
num desejo não natural
De ir numa jornada para liberdade
Os complexos pensamentos
do que é corpóreo
traz a clareza em meio a loucura
Num mar sem tranquilidade.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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A última penitência
Já estava acostumado a descer aquela escada de pedra. Tão saturado, que já não percebia mais o cheiro úmido e o fedor de bolor invadindo suas narinas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Já estava acostumado a descer aquela escada de pedra. Tão saturado, que já não percebia mais o cheiro úmido e o fedor de bolor invadindo suas narinas como na primeira vez. Mas ainda sentia o toque molhado das paredes, ao apoiar a mão para não cair. A cada descida, parecia mais velho, como se os degraus roubassem um pouco de sua vitalidade. Aquela escada, escondida atrás do altar, conectava a majestosa nave da igreja à cripta silenciosa no subsolo.
Com os anos, a tarefa tornara-se cada vez mais árdua: seus ossos doíam, e as pedras soltas rangiam sob seus pés como se respondessem ao lamento de suas articulações. O musgo, que crescia livremente pelas paredes e degraus, transformava o caminho em uma armadilha traiçoeira. Mais cedo ou mais tarde, seria ele a habitar aquela cripta.
— Causa da morte? Escorregou nas escadas e bateu a cabeça — resmungou, enquanto descia vagarosamente.
O que tanto ocupava o coroinha, que nunca atendia sua ordem de limpar os degraus? Seria ele o único a respeitar os mortos? O único que se lembrava das almas abandonadas?
— Santo Deus, tende misericórdia deste vosso pobre servo... — murmurou, enquanto os ecos de sua voz se misturavam ao silêncio da cripta. — Talvez eu seja mesmo o único a me importar. Um padre enrugado no fim da vida, que insiste em descer até aqui para orar e acender velas por estas almas esquecidas.
Quando tocou o chão com a ponta dos pés, pareceu que iria cair. A fraca luz da lamparina bruxuleava contra as paredes, sob o efeito de seus braços trêmulos. Eles fraquejavam com o peso dos anos. A luz dançava e iluminava diferentes partes dos esquifes que ali se encontravam. Sem problemas: mortos não enxergam. Portanto, não precisam de luz.
Colocou a lamparina ao lado de um deles. Ajeitou os cabelos, levando-os para trás das orelhas. Retirou a vela do bolso, acendeu o pavio, ajoelhou-se e começou a orar. Tudo ocorria como sempre, de forma mecânica. A mesma sequência de preces; em seguida, cerrava o missal e voltava para a vida lá em cima, não sem antes permanecer mais algum tempo lá, numa tarefa que exigia sua atenção, conforme explicava ao coroinha, sempre que se atrasava.
— Eu oro pelo dever. Nenhuma ovelha deve ser deixada para trás. Até mesmo aqueles que morreram merecem socorro e uma chance de penitência. E eu dou atenção a eles…
Mas, de alguma maneira, se perdia em seus pensamentos: após sua morte, quem faria isso por ele? Provável que prestassem grandes homenagens no seu velório. Mas quem viria até ali? Após ser depositado ali mesmo, quem se lembraria de descer e acender uma vela por ele?
Pensava sobre se o que fizera até ali, fora certo. Achava que na maior parte de sua longa vida, sim. O resto, aquilo que não ousava nem falar para si, deixava quieto e apodrecendo, soterrado por anos de camadas e mais camadas de beatices e ritos sagrados.
Na sua soberba, que nem ele ousava revelar para si mesmo, achava-se superior aos outros: o mais digno de ingressar no céu daquela paróquia. Após anos de servidão, Deus havia de o perdoar sem pestanejar.
Foi quando fez menção de fechar o missal que o notou. Molhou os lábios e engatou mais um pai nosso, depois mais uma ave-maria, enquanto tentava captar com a visão periférica quem tinha ido até ali procurá-lo.
O vulto estava de pé. Tinha a impressão de que era da mesma altura que ele. As costas eram menos encurvadas. Ouvia apenas o som de goteiras, marcando a passagem do tempo, feito um relógio descompassado.
— Não se entrará no céu com meia dúzia de rezas.
O velho padre assustou-se. Aquela voz ecoando no vazio de sua alma. Suas mãos começaram a suar. Empertigou-se. Dançou com os joelhos cansados e doloridos sobre o chão de pedra, procurando uma penitência tolerável. Fez os joelhos e os quadris chacoalharem em conjunto. Isso lhe conferia uma aparência fraca e patética.
— Dançar sobre os joelhos também não adiantará… O passado é imutável.
— É por isso que ele deve ser deixado onde está. Vá embora!
— Eu não teria tanta certeza… — O homem retrucou. — Nele, não se muda nada, mas é dele que nasce o futuro.
Quem quer que fosse, estava tentando intimidá-lo. Reparou que, após terminar de falar, o homem molhou os lábios. A luz iluminava apenas a metade de baixo de seu rosto, o qual achou familiar. Tinha a impressão de que já o conhecia. Quando ia perguntar se a arquidiocese havia mandado alguém para visitá-lo, o homem continuou:
— O passado molda o futuro. Hoje, Katia e Helena foram separadas.
— Não conheço Katia, nem Helena. Vá embora, estou ocupado! Logo atendo o senhor lá em cima.
— Teria conhecido! — O homem interrompeu o padre rudemente. — Mas negou abrigo para ambas, na época das chuvas. Perderam a casa para a enchente. Uma delas morreu.
— Não pode me julgar, o senhor não é Deus!
— Será mesmo que não sou? Mas garanto que o Maurício pode julgar.
— Não quero saber desse Maurício.
— É o mendigo que você expulsou ontem. Suicidou-se. Achou que não era digno, nem na casa de Deus.
— Eu não sou responsável por isso.
— Tudo isso sem mencionar sobre você e o coroinha, bem aqui. Santo Deus!
— Eu parei há tempos... Me arrependi, já dei a conhecer o meu crime no confessionário. Cumpri a penitência. Nada devo — respondeu calmamente.
— Acho engraçado como um homem pensa que pode apagar pecados após o sacramento da confissão.
— Além de pagar a minha penitência, eu não voltei a pecar, deixei o coroinha em paz.
— Que arrogante!
Aquele que debatia com o padre constatou.
— Nenhuma penitência lavará o pecado que repousa nessa cripta.
O homem encostou um ombro numa coluna de pedra, umedeceu os lábios antes de continuar a falar:
— Os homens não têm poder algum sobre o que é digno de perdão ou não. A única liberdade que lhes foi dada é o livre-arbítrio. Pensa que está tomando um atalho para o céu, quando mente para si mesmo.
— Agora, apenas dou vazão aos meus instintos, aliviando-me aqui.
Eximiu-se o religioso de sua culpa.
— Por que não na privacidade de seu quarto? — questionou o homem com genuína curiosidade.
— Não é o ato… é o pecado que me excita — disse, ajeitando o que tinha entre as pernas.
— Culpado!
— Não... Mas quem é você? Eu não sabia que estava sendo julgado. Isto é um absurdo! — o padre protestou.
— A sua penitência será não mais visitar essa cripta. Se insistir, invariavelmente aparecerei, mas dessa vez nada direi! — advertiu o homem, seu rosto ainda oculto pelas sombras.
O pároco, com medo que fosse alguém da alta cúpula da Igreja, saiu em disparada. Ao cruzar com o indivíduo, notou que ele ajeitava o cabelo atrás da orelha.
Não esperou que o homem saísse de lá e, como naquela semana não ouviu e nem recebeu nenhuma visita ou ligação de algum bispo, ou arcebispo, achou que o episódio com o homem misterioso da cripta era fruto de sua mente que não dormia há dias. Permaneceu alguns dias longe da cripta, mas após a missa de domingo, desceu até lá.
Após cumprir seu rito em homenagem aos mortos, já ia subindo as escadas. Mas conforme subia a escada, sentiu algo se avivar em meio às suas calças e não conseguiu se controlar. Deixou a lamparina em uma das saliências de pedra na parede, ergueu a batina e ali, no escuro, começou a acariciar-se. Terminou o ato feliz e satisfeito, até sorria, tendo certeza de que a conversa na cripta que correra na semana passada, fora um delírio de sua parte…
Subia as escadas com a cabeça abaixada, prestando atenção aos degraus. Estacou repentinamente, quando viu que havia um homem parado em um deles. Reparou que os sapatos eram iguais aos seus, arriscaria dizer que até eram do mesmo número. Foi erguendo a cabeça, reparando que a calça e a batina eram as mesmas. Até que chegou ao rosto.
Abriu a boca estupefato. O homem era uma cópia perfeita sua, mas a expressão era de decepção. Sem dizer uma palavra, empurrou-o escada abaixo. O padre bateu a cabeça várias vezes, o que causou sangramento cerebral e morte.
O novo padre da paróquia incumbiu o coroinha de cuidar da cripta da igreja, local onde o corpo mais recente a habitar fora o do último padre que morrera ali mesmo no subsolo. Toda semana o coroinha descia para limpar as tumbas e lavar o chão. Sempre acendia uma vela para o antigo padre.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
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Caveira
Esta nossa matéria é embebida | de muito narcisismo e vaidade... | Nada dela se nos dispõe à vida: | só há cansaço além de enfermidade…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Esta nossa matéria é embebida
de muito narcisismo e vaidade...
Nada dela se nos dispõe à vida:
só há cansaço além de enfermidade.
Abre qualquer jazigo e vê se o peito
de algum poeta morto arqueja agora...
Repara, amigo, aí de que sou feito:
de carne podre que o verme devora.
Contudo, embora seja decadente,
esta carne há de ser regenerada
noutro modo de vida permanente.
Contra toda vaidade enraizada
em mim, sigo a lutar a esta maneira:
trazendo ante os meus olhos a caveira,
só para me lembrar de que sou nada.
Thiago Amorim
Thiago Amorim terá seu primeiro livro, Scintilla Poetica, publicado pela Editora Telha em breve. Formado em Letras, o autor busca sua inspiração nos clássicos, tais: Camões, Florbela, Álvares de Azevedo entre outros. Sua escrita é clássica e o que mais o atrai na Literatura Gótica é "a morte como tema de reflexão sobre a condição humana". Além da literatura, o autor é multiartístico, é professor de dança e realiza oficinas e workshops. » leia mais...
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O Sapateiro e o Gigante
Na beira do oceano ficava uma aldeia de pescadores. Era um vilarejo pequeno, lugar muito pacato onde a maioria dos homens trabalhava no mar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Na beira do oceano ficava uma aldeia de pescadores. Era um vilarejo pequeno, lugar muito pacato onde a maioria dos homens trabalhava no mar, seus barcos de pesca espalhados pela baía de águas calmas, que se formava logo em frente à praia branca do píer. Ali também morava um sapateiro, moço novo que tinha aprendido a profissão com seu velho pai. Desde pequeno ele ajudava a engraxar os sapatos, reformar couro gasto e colar meias-solas. O rapaz tornou-se muito bom naquele ofício e aprendeu a construir botas muito resistentes. Seus sapatos tinham ótima qualidade, encaixavam perfeitamente nos pés dos clientes, amorteciam a pisada com a base cheia de cortiça e a costura apertada não deixava que qualquer umidade adentrasse. Além de tudo, eram bonitos, com forma perfeita e verniz de brilho impecável.
As botas que ele fazia eram muito apreciadas pelos navegantes e aventureiros que vez ou outra passavam pela aldeia. Também tinha exímia habilidade com sapatos finos, com seu acabamento primoroso para vestir autoridades e também belas moças. Ele, como ninguém, sabia fazer saltos firmes que ainda assim eram confortáveis.
O sapateiro ficou conhecido pela qualidade do seu trabalho, viajantes de todo o mundo aproveitavam para fazer suas encomendas quando seus navios mercantes estavam aportados, principalmente os marinheiros que precisavam de botas resistentes para a lida no mar, que não fossem se corroer facilmente com a umidade e o sal.
A vida naquela aldeia era muito calma e lenta, os anos se passaram vagarosamente durante toda a juventude do sapateiro. Todo dia, com o nascer do sol no leste, os barcos eram desamarrados do píer e enchiam a paisagem até onde o horizonte se confunde com o céu. Quando caía a noite, as luzinhas no mar, guiadas pelo pequeno farol que ficava no desfiladeiro da ponta da praia, regressavam para o atracadouro e esperavam até o dia seguinte para partir novamente em busca de mais cardumes.
O sapateiro tinha sua oficina bem perto da praia e trabalhava o dia todo observando os barcos dos pescadores, ele conhecia muito bem qual era cada um, tinha uma visão privilegiada e desde longe identificava as cores e listras dos barcos de madeira dos seus amigos e familiares. Ele mesmo não gostava do balanço do mar, nas poucas vezes que esteve sobre as águas, logo quis estar de volta em terra firme. Seu negócio era a firmeza de uma banquetinha de madeira e as fôrmas de sapatos onde esticava o couro. A luz do sol ajudava a enxergar seus afazeres e por isso nunca forçava a vista em trabalhar depois do anoitecer. Iniciava cedo a sua rotina, mas também nunca apressou nenhuma encomenda.
Apesar de tudo, ele tinha sua proximidade com o mar, o azul era uma imensidão companheira quando desviava os olhos por alguns instantes naquela visada do grande manto com suas espumas e seus brilhos prateados na ondulação das águas. Depois voltava ao seu trabalho, com sapatos no colo, sobre o avental de lona sujo de graxa e verniz. Quando parava à tarde para beber um café, que se misturava ao cheiro dos vernizes presos na sua mão, também olhava contemplativo para o mar enquanto as cores mudavam. O horizonte se escurecia mais que o entorno, e o ocre do céu se dissolvia nas águas que tinham um cintilar reflexivo muito brilhante. Corria o olhar por toda a extensão reconhecendo os pontinhos mais distantes, desde o mar aberto até o desfiladeiro na ponta da praia. Assim ficava tanto tempo que às vezes a bebida se esfriava na sua caneca de esmalte. Quando o farol se acendia ao longe, ele finalizava o seu dia de trabalho, recolhendo as ferramentas e lavando os pincéis. Não forçava mais a vista com a luz fraca do cair do dia. Seus amigos marinheiros diziam que esta visão era uma dádiva invejável, habilidade muito boa para quem vive do mar, e que era um desperdício para quem fica na terra trabalhando com objetos que sempre estão ao alcance das mãos.
O sapateiro, muitas vezes recusou timidamente convites para se juntar às pequenas expedições de pesca. Ele não se interessava em ver o que o mar trazia até ali, mas se perguntava o que existia muito adiante, depois daquela imensidão de águas. Como eram os lugares das histórias que os viajantes contavam? Os tais desertos e geleiras? Tinha imagens imprecisas na imaginação, mas também pouca disposição para procurar torná-las mais nítidas.
Eis que um dia tudo mudou, um dia comum em que nada precisava mudar. Neste certo raiar de brisa manhosa, o sapateiro foi o primeiro a ver, quando abria sua oficina. Quando fitou o horizonte, ainda antes do sol despontar na aurora, muito ao longe algo estranho vinha pelo mar. Era a figura de um homem gigantesco, em que primeiro surgiu sua cabeça, com seus olhos fixos e um bigode aterrador, depois, conforme se aproximava da costa, seus ombros também emergiram das águas desafiando o senso de proporção de quem olhava desde a praia. Era tão grande, que, sendo grande, parecia estar perto, mas não poderia ser, pois ainda estava longe.
As pessoas da aldeia se juntaram para ver, primeiro forçando os olhos, com a mão reforçando as sobrancelhas, mas depois tudo ficava mais evidente. Com medo, os homens não queriam embarcar para a pesca, os que já tinham saído, rapidamente regressaram e amarraram os barcos novamente. Toda a gente, aos poucos foi se retirando. Apavorados, alguns se trancaram em suas casas, outros tentaram fugir para a serra. Logo se podia sentir um tremor em cada passada lenta que o gigante dava na direção daquela aldeia. O mar ficou revolto e virou os barcos do cais, as ondas eram imensas e invadiram as casas da beira da praia. Aquele homem foi emergindo da baía, pouco a pouco revelando a sua altura, até que cobriu o sol do quase meio dia. Então parou onde já era raso o suficiente e apenas os seus pés estavam submersos.
Tudo ficou quieto um instante enquanto o mar se acalmava. Logo mais o gigante, com sua voz grave, que parecia um trovão, chamou “Sapateiro!”. Não houve nenhuma reação, o rapaz estava tremendo de medo em sua própria casa. Depois de alguns minutos o gigante tornou a chamar “Sapateiro!”, e chamava insistentemente a partir de então “Sapateiro! Sapateiro! Sapateiro!”.
O sapateiro sentiu o peso da responsabilidade recair sobre si, só ele poderia salvar sua aldeia querida e as pessoas que nela moravam. Tomou fôlego e coragem para sair de casa. Calçou suas botas e foi para as areias molhadas, onde as águas caóticas ainda se alevantavam mais que o normal.
A figura era aterradora, um titã, como um filho de Gaia com o Tártaro. A feição do seu rosto estava ofuscada pelo brilho do sol que parecia coroar a cabeça. O sapateiro subiu até o farol do desfiladeiro, tomado da fúria de um herói. Quando chegou ao topo, inflou ares no seu pulmão para gritar de maneira épica. “O que quer?! Por que vem atormentar este lugar tão pacífico?!”. O gigante estranhou aqueles dizeres, o corrigiu dizendo que ali era o Atlântico. Depois voltou ao seu propósito. “Quero que faça um par de sapatos para mim”.
E então tirou um pé das águas enquanto apontava para ele mostrando. Era um pé terrível, de dedos espalhados, com unhas grandes, quebradas nas pontas e, além de tudo, era maior que o maior navio que o sapateiro já tinha visto em sua vida.
Então o gigante se apresentou de maneira cortês, ele falava muito vagarosamente e tinha modos nobres, apesar dos seus olhos estalados, seu bigode amedrontador e seu tamanho colossal. Então ele contou suas histórias, disse que já tinha lutado contra serpentes e monstros marinhos, mas ele não vivia na imensidão do mar e sim nas praias. Acontece que para ele, nadar de um continente ao outro não era uma tarefa tão difícil, no entanto, tinha vindo da costa da África e estava muito cansado. Pediu para sentar-se, e o enorme desfiladeiro era apenas como um banquinho para ele. Depois explicou que sempre acreditara que ele mesmo era a coisa maior e mais alta do mundo. Em todo lugar onde esteve nunca tinha visto rocha, nem mesmo serra que superasse sua estatura, e se gabava disso, bradava com soberba até o dia em que um navegante mencionou que existiam coisas muito maiores, chamadas de “Montanhas”. Naquele dia o gigante ficou tomado de ira e exigiu que o navegante dissesse o que eram essas tais montanhas e onde ficavam. “Elas ficam muito além das praias, grande caminho, continente adentro”. Mas toda vez que o gigante tentava deixar a areia suave do mar e das praias, as árvores machucavam os seus pés, por isso precisava de um par de sapatos que lhe protegessem as solas.
O sapateiro topou o desafio, mesmo sem ainda ter ideia de como poderia realizar tal tarefa. Ficou muito tempo aflito com seus pensamentos até encontrar uma maneira de começar, por muitos dias rodeava o gigante. As pessoas da aldeia foram se acostumando com aquela figura estática, sentada no desfiladeiro da ponta da praia e, com o tempo, voltaram a pescar. Muitos ainda tinham medo do gigante, mas ele ficava apenas ali quieto, dizia não querer atrapalhar.
O sapateiro levou meses, apenas para fazer o planejamento. Com persistência convenceu amigos a colaborar com os esforços. Encomendaram material de toda parte, a notícia correu e comerciantes vinham de muito longe para trazer couro, madeira e algodão, além de cola e outros insumos que chegavam nos navios.
O gigante era muito paciente, permanecia sentado, com o queixo apoiado num braço, enquanto o outro braço cruzava sobre a barriga. Demorava semanas para mudar de posição e permanecia calado e sereno observando os trabalhos. Foram seis meses somente para fazerem a medição, tudo demorava enormemente, de modo que o sapateiro aprendeu a fazer as coisas no tempo dos gigantes. Ao longo de dois anos construiu as solas, durante mais três ergueu a cobertura e deu acabamento caprichoso, teceu os cadarços trançando cordas navais, reforçou a costura e poliu o couro. O sapateiro ficou amigo do gigante, conversavam enquanto ele trabalhava ou depois que terminava o dia. O gigante contou dos inúmeros lugares onde esteve e das proezas que já tinha feito. Como tinha muita paciência, descrevia com calma e riqueza de detalhes tudo que já tinha visto no mundo, mas somente quando as estrelas saíam e só restava o sapateiro e o gigante no alto do desfiladeiro é que o homem titânico abria seu coração e sonhava com suas preciosas montanhas.
Eis que chegou o dia em que os sapatos ficaram prontos. Orgulhoso de seu trabalho, o sapateiro convidou o gigante a prová-los, mas teve uma súbita surpresa. Sem falar nada, o homem mergulhou no mar, sumiu por três dias e deixou todos sem compreender o que tinha se passado. Depois ele retornou trazendo em suas mãos pedaços do que eram as ruínas do naufrágio de um antigo galeão espanhol. Despejou tudo em um canto da praia e, quando foram revirar, encontraram um grande baú, repleto de joias e moedas de ouro. Era o agradecimento e devido pagamento pelos trabalhos. A aldeia ficou rica, dividiram aqueles espólios, sendo que a maior parte ficou para o sapateiro.
O gigante, no mesmo dia, calçou sua encomenda e rumou em direção às serras. A cada passo um tremor de terra era sentido, os primeiros eram muito fortes, mas depois foram se esmaecendo. Foi deixando pegadas enormes, como clareiras na mata densa tropical. Ele andava muito devagar e demorou mais de um mês até que os tremores fossem imperceptíveis e sua figura ficasse pequenina novamente no horizonte. O sapateiro, aproveitando seu descanso depois do longo trabalho, assistia toda tarde o seu amigo sumir devagar na paisagem. Com os olhos altivos, do alto do farol, conseguia ver uma infinidade de coisas, terra adentro ou mar afora, e ficava pensativo. Todos notaram que seu coração estava mudado.
O tempo foi passando e a vida como era, naquela aldeia, mudou muito com a fama e a riqueza. O sapateiro, percebia que nada mais era agora como antes. Ele foi se tornando uma pessoa ainda mais reclusa e melancólica.
Um certo dia, com a parte que lhe pertencia do tesouro, o sapateiro encomendou uma quantidade inimaginável de novo material. Voltou aos andaimes e estruturas, já abandonadas, que tinha usado para construir o maior par de sapatos do mundo. Começou a trabalhar sozinho em um novo pé de sapato, um pouco menor, mais módico. Não dizia a ninguém o motivo do que estava fazendo, tampouco aceitava ajuda. Todos diziam que o sapateiro tinha enlouquecido, ainda mais quando, com o passar dos anos, se formava um único pé de sapato, que ninguém sabia dizer se era um pé direito ou esquerdo.
Desta vez, sozinho, foram sete anos até que aquele sapato solitário tomasse forma e ficasse pronto. Como todos os outros que tinha construído, era primoroso, muito bonito. Assim que terminou, toda gente ficou curiosa para uma revelação. Para quê serviria aquilo?
Quando estava finalizado e com toda a cola bem seca, com a impermeabilidade testada e um brilho lustroso, o sapateiro empurrou aquele pé ao mar, desde o alto do precipício. As pessoas ficaram estarrecidas. O enorme sapato caiu nas águas e espirrou um jato fenomenal, mas foi quando aquilo voltou à superfície que o sapateiro comemorou e pulou de alegria.
Por muito tempo ainda trabalhou no seu projeto, instalou mastros e leme, encomendou uma bujarrona, adaptou um convés e tablado. Era uma beleza, ele tinha feito sua obra prima.
Em uma manhã, antes que todos acordassem, quando o vento manhoso esvoaçava os panos enquanto o oeste absorvia a madrugada, o sapateiro partiu em seu navio-sapato. Rumou para o grande mar, no sentido contrário do sol que se levanta, venceu, no mesmo dia, a maior distância que já estivera de casa. Logo já não podia mais ver a costa. Estava sozinho, em pleno esplendor do oceano sem fim. Precisou consultar os livros de navegação que guardava na cabine, com o passar dos anos aprimorou o que era verdade e descobriu o que era mentira daquelas instruções escritas nos papéis.
O sapateiro viveu uma vida no mar, navegou por toda parte, viu os desertos infindáveis, a neve que cai vagarosa, florestas úmidas e rochas estéreis, conheceu o doce e o salgado. Passou por tormentas e calmarias, aprendeu a enfrentar tempestades e aproveitar o mar calmo, aprendeu a navegar no vento generoso e esperar com paciência as correntes vindouras, racionar na escassez e fartar-se na abundância, vibrar nas aventuras e recolher-se no tédio, apreciar o quente e o frio, simplesmente pelo quente não ser frio e o frio não ser quente. Viu as ilhas da Grécia, a areia das Arábias, os mares de toda parte, do gelo do norte ao gelo do sul.
Viu tudo que existe no mundo, fez proezas em muitos lugares por onde passou. Seu nome se tornou uma lenda. Certa vez ouviu sua própria história da boca de um poeta, em uma bela canção que recitava os feitos do capitão do navio-sapato.
Com os anos que acumulava também colecionava feitos impressionantes. Mas o tempo passou e ruiu casacos e chapéus, desgastou também o corpo e a disposição do sapateiro, fraquejou as mãos e os braços, arqueou a coluna e cansou suas pernas.
Aquele navio-sapato, que já teve tripulações grandes e pequenas, que já havia transportado maravilhosos tesouros, cruzado mares e oceanos, passado por lugares nunca antes navegados, também estava decaído. Já não tinha o brilho do lustre desde a primeira viagem, sofrera inúmeras avarias e precisou de muitos reparos, até reformas inteiras. Agora também se encontrava sem sua tripulação. Somente o sapateiro andava calmo e sozinho pelo convés.
Foi no entardecer de um dia qualquer, quando as nuvens se acobreavam num espetáculo fascinante. O navio-sapato vagava à deriva pelo mar, e o sapateiro só tinha a fazer contemplar a vista e beber um café.
Em um instante, as águas revolviam a frente da proa e, de repente, surgiu do mar um velho rosto conhecido. Ele não tinha mudado nada, a não ser por uns poucos fios grisalhos no seu bigode. O sapateiro pulou de alegria, ficou imensamente feliz ao ver seu amigo de tantos anos.
O gigante quis saber o que tinha feito e como havia chegado naquelas águas. O sapateiro contou toda a sua história, desde que partiu no navio-sapato. Durante vários dias eles conversaram. Teve tempo suficiente para se contar todas as proezas e aventuras, e o gigante ouviu atento, rindo e se emocionando em cada passagem.
“E você, nobre amigo, viu as suas montanhas?”
Então respondeu o gigante: “Eu andei pela terra, até que os sapatos que fizeste pra mim furaram as solas. Depois de tanto caminhar encontrei a montanha, olhei para cima impressionado, até então só tinha erguido meus olhos assim para ver as estrelas. Contemplei e louvei a montanha. Então eu subi na montanha, escalei a rocha e alcancei o topo, e de lá enxerguei uma nova montanha, ainda maior e mais alta. E na nova montanha vi outras tantas muito maiores. Vaguei por muitos anos procurando a montanha mais alta do mundo até que a encontrei. Com muito esforço alcancei o topo frio da maior montanha do mundo. Era gelado e solitário lá em cima, mas dava para ver muito ao longe, então me senti pequeno pela primeira vez, não pela montanha, mas sim pelo mundo. Fiquei muito tempo olhando o mundo de lá de cima até perceber que acima de nós todos, também estavam as estrelas, e percebi também que elas sempre estiveram em toda parte. Levantei-me, pensando estar tão alto, tentei alcançar as estrelas, não conseguia. Então chorei, me esforcei novamente, esticando os braços e ficando na ponta dos pés, a luz ainda parecia tão distante. Esperava sentir a luz na ponta dos meus dedos, mas não sentia. Por um descuido escorreguei e rolei montanha abaixo, caí como as pedras ao meu redor. Em pouco tempo estava de volta ao mar, todo machucado, e a montanha parecia ainda maior que antes. Mas fiquei feliz de estar de volta, depois de tantos anos andando pela terra, finalmente pude pisar descalço nas areias da praia.”
O sapateiro lamentou “Me vejo tão distante de casa, meu caro amigo. Queria eu poder voltar, assim num instante. Grande sofrimento tem sido vagar sem rumo nestes últimos anos.”
“Pois faça um último esforço neste navio, ponha no teu corpo velho a força vivaz de um jovem marinheiro e estenda as velas novamente, com isso não posso te ajudar, mas vou soprar na direção de onde fica a tua aldeia.”
E o sapateiro assim o fez, hasteou as velas, traçou o curso e ajustou o leme. Quando estava tudo pronto, ele, em prantos, agradeceu ao gigante. O homem colossal se preparava para assoprar, mas antes de tomar fôlego, antes de absorver tornados de ventos marinhos em seus pulmões, ele disse as últimas palavras ao sapateiro.
“Já te aprume preparado a soltar a âncora. Descobri, meu amigo, que o caminho pra longe de casa é sempre muito mais longo que o caminho de volta pra casa.”
FSSSSSSSSSSSS!
Henrique Siviero
Residente de São José do Rio Pardo, Henrique Siviero formou-se em Física e escreve sobre o que lhe desperta na vida, de experiências particulares às fantasias e tradições. Trabalha atualmente na revisão de seu Romance, possui contos e poemas publicados pela Amazon, dentre eles, estão os títulos "Cruiz Credo" e "Meia Dúzia de Poemas". » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…