Escrito por Bruno Reallyme, -Contos, Horror Cósmico Castelo Drácula Escrito por Bruno Reallyme, -Contos, Horror Cósmico Castelo Drácula

O Baile do Silêncio

A antiga Mansão Hollengrave não se erguia: ela se impunha, uma massa compacta e sombria de pedras escuras cravada no topo de uma colina…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A antiga Mansão Hollengrave não se erguia: ela se impunha, uma massa compacta e sombria de pedras escuras cravada no topo de uma colina, como um mausoléu esquecido pelo tempo. A névoa, densa e fria, não subia; ela se arrastava pelo chão como dedos espectrais à procura de algo perdido, envolvendo a estrutura em um sudário úmido. Os vitrais partidos, restos de desenhos góticos de anjos caídos e figuras distorcidas, refletiam a lua em fragmentos de luz doentia. Lá dentro, as abóbadas internas perdiam-se na escuridão, iluminadas apenas por candelabros de prata antiga cujas chamas trêmulas se contorciam, finas e pálidas, como se resistissem à própria existência em um ar tão pesado. O cheiro era de mofo, cera queimada e, subjacente a tudo, um perfume metálico de decadência.

O convite para o Baile de Halloween dos Silenciados chegara com a precisão de um epitáfio. Vinha em um envelope negro de papel áspero, com bordas que pareciam luto, lacrado por uma espessa gota de cera vermelha escura, quase preta. Na parte interna, a caligrafia elegante e sinuosa trazia a única regra e a única senha:

“Somente aqueles que conhecem a noite em silêncio compreenderão o chamado.”

Aaron Melchior — alto, de compleição esguia e ombros tensos sob a casaca de veludo. Seus olhos profundos, de um castanho intenso, estavam sempre em alerta, absorvendo o mundo com uma vigilância que a maioria das pessoas, dependentes do som, jamais conheceria. A perda do sentido era a sua bússola. Ele sentia a vibração no chão, lia a tensão nos músculos e a mudança de ritmo nos corações.

Ao seu lado, Lídia Vessoni era um contraste vibrante. Seu vestido carmesim de seda, que se movia em camadas de véus, parecia ter sido feito de névoa sangrenta, contrastando com sua pele de porcelana. Lídia não apenas vestia a cor; ela a encarnava. Ela se comunicava não apenas com as mãos, mas com todo o corpo: a inclinação da cabeça, a forma como a mão repousava no antebraço de Aaron. Ambos partilhavam a ausência do som desde o nascimento. Não havia palavras articuladas, apenas o silêncio mútuo. Sua comunicação fluía em olhares longos e complexos, em gestos precisos da Linguagem de Sinais (LS) e em uma cumplicidade que tornava cada movimento, cada toque, imediatamente compreensível um para o outro. Eram duas metades de um mesmo silêncio.

Ao atravessarem as portas de carvalho maciço e entrarem no imenso Salão Hollengrave, Aaron sentiu o primeiro arrepio que não vinha do frio da noite. Era a vibração, o detalhe que o fez apertar a mão de Lídia com mais força: todos ali eram como eles. Surdos.

O salão estava repleto. Damas em vestidos sombrios de seda e tule, cujas máscaras cobriam metade do rosto, revelando apenas sorrisos contidos. Cavalheiros de casacas pretas rigidamente abotoadas e máscaras douradas simples, quase sem feições. Eles dançavam.

Dançavam uma valsa invisível. Não havia som, mas o ritmo era palpável. O olhar dos convidados seguia o Maestro, uma figura alta e esguia, envolta em um fraque antiquado, que agitava a batuta com precisão maníaca no palco de ébano. Diante dele, os músicos eram mudos. Seus violinos, violoncelos e harpas estavam posicionados, mas os arcos apenas roçavam o ar, as cordas eram tocadas com a leveza de fantasmas. Não havia música, mas o corpo de cada dançarino seguia o compasso imaginado, uma sinfonia coreografada pelo silêncio.

As paredes, de um verde musgo desbotado, estavam adornadas por espelhos antigos com molduras de bronze corroído. Eram espelhos imperfeitos, que distorciam a luz. Mas havia algo mais perturbador. Aaron percebeu que, em cada reflexo, a imagem parecia sempre atrasada. Um segundo, talvez menos, mas o suficiente para que os convidados reais e suas imagens fossem duplos, presos em outra dimensão de tempo.

Aaron apertou a mão de Lídia. O aperto era um código entre eles. Seus olhos, que se encontraram por um instante sob as luzes trêmulas, sinalizaram o terror: algo não está certo. A mansão não era um simples local de encontro; era uma armadilha de cumplicidade.

De repente, a harmonia perturbadora da valsa silenciosa foi interrompida. Uma convidada – Srta. Majory Darven, com uma máscara de penas pretas que cobria todo o rosto – caiu no meio do salão. O som não existia, mas o impacto visual foi violento. As luzes das velas vacilaram ao mesmo tempo, como se um sopro tivesse percorrido o salão. O corpo de Majory tremeu no chão, uma convulsão silenciosa, como se uma onda de energia percorresse seus ossos. E então… o silêncio continuou, mas seus olhos se arregalaram em desespero puro.

Quando ela se levantou, cambaleando, algo estava dramaticamente diferente: seus gestos, antes elegantes na dança muda, eram agora bruscos, descontrolados, como os de um fantoche cujos fios foram cortados. Ela levou as mãos à cabeça, apertando as têmporas. Ao abrir a boca, um grito sem som deformava-lhe o rosto, um contorcimento de horror mudo que ela não conseguia parar.

— Ela está ouvindo algo… — sinalizou Lídia, suas mãos voando em movimentos rápidos e horrorizados. Sua expressão era de náusea.

Aaron percebeu a progressão do terror. Um a um, os convidados começavam a reagir como Majory. O Sr. Cadwell Ormond, um homem de bigodes finos, pálido como marfim, levou as mãos às orelhas, numa tentativa frenética e instintiva de tapá-las. A Lady Miriam Eckhart, conhecida por sua calma gélida, cambaleou, e lágrimas de sangue começaram a correr-lhe dos olhos, escorrendo sobre o vestido de veludo negro.

Havia uma nova presença no salão. Era invisível, inaudível para Aaron e Lídia, mas era perceptível na forma como o ar parecia vibrar, na tensão dos rostos, e, mais aterrorizante, nos reflexos dos espelhos.

Aaron arrastou Lídia para trás, até um canto escuro, diante de uma tapeçaria puída que representava uma cena de caça macabra. Ele usou a comunicação tátil — uma forma de LS de toque rápido e pressão — escrevendo rapidamente em sua mão, com a ponta do dedo, sentenças curtas e urgentes: Eles. Estão. Ouvindo. O. Que. Nós. Não. Podemos.

E então veio a revelação, tão clara e brutal quanto um golpe físico. Nos espelhos, as versões atrasadas dos convidados não apenas se moviam: eles gritavam. Suas bocas estavam abertas em berros histéricos; eles cobriam os ouvidos com as mãos esqueléticas e imploravam por socorro. Não era mero reflexo. Eram eles, os seres reais, aprisionados em uma dimensão paralela onde o som existia — e onde algo sussurrava, gritava, ou gemia.

— Você vê? — sinalizou Lídia, os olhos fixos em um ponto atrás da confusão. Ela apontou para o Maestro.

O Maestro não estava mais de pé. Estava curvado sobre o pódio. Sua batuta não era mais madeira. Era um osso humano polido, ensanguentado, que ele agitava com uma pulsação sinistra. Sua boca estava aberta, escancarada em uma forma que não era humana, deixando escapar uma sombra líquida, negra e oleosa, que escorria pelo palco.

A sombra subia. Subia pelos corpos dos músicos mudos, deformando-lhes os rostos. Os violinos não tinham cordas. As cordas de seus instrumentos eram seus próprios nervos tensionados, brilhantes e úmidos, vibrando com a presença da Sombra. O Maestro estava conduzindo a dor, orquestrando o tormento auditivo.

Um arrepio gélido percorreu a espinha de Aaron, um medo visceral que ele nunca sentira. Aquilo não era um baile. Era um ritual. O evento não celebrava a ausência de som, mas preparava os surdos para o tormento final: fazê-los ouvir o que jamais deveriam. A Sombra era a encarnação do Som Primordial do Horror.

Um por um, os convidados eram consumidos. A cena era uma tela viva de horror silencioso. Não se ouvia nada, mas via-se tudo: gargantas dilaceradas sem ruído, olhos suplicantes cheios de lágrimas de sangue, bocas abertas em gritos mudos que só os espelhos registravam.

Aaron e Lídia tentaram fugir. Correram para as portas principais, mas elas estavam seladas por correntes grossas que se moviam sozinhas, enrolando-se nas maçanetas com a lentidão de serpentes. As janelas, quando Aaron conseguiu quebrá-las com a base de um candelabro, revelaram apenas mais paredes da própria sala, como se a mansão fosse um labirinto de Mobius, uma gaiola sem saída.

No centro do salão, o coração do ritual, os espelhos começaram a rachar. As fissuras surgiam como teias de aranha negras, e das fendas brotaram mãos negras, esqueléticas, que não eram reflexos, mas tentáculos de uma realidade faminta. Majory foi a primeira a desaparecer. Seu corpo, ainda convulsionando em audição forçada, foi sugado para dentro do vidro pela sua própria versão distorcida, deixando apenas um vestígio do vestido carmesim.

Aaron puxou Lídia com desespero febril para o último ponto de sombra. Mas, ao olhar para o espelho diante de si, ele congelou. Não pela mão, mas pela expressão. Sua versão refletida estava sorrindo. Sorrindo de um modo que ele nunca sorrira: um sorriso de cumplicidade macabra, os olhos vibrando com uma alegria doentia, já contaminado pela Sombra.

— Não olhe! Se concentre em mim! — sinalizou Lídia, seus movimentos eram de puro pânico, tentando chamar a atenção dele, mas já era tarde demais.

A mão espectral do reflexo atravessou o vidro com a facilidade de um fantasma e agarrou Aaron pelo rosto. Ele sentiu a pressão esmagadora e a textura fria da morte.

E então… som.

O mundo explodiu. Não foi um barulho. Foi uma invasão. Um sussurro insuportável, como mil vozes gritando ao mesmo tempo a sua ignorância, a sua insignificância. O som era físico: queimando sua mente, rasgando-lhe o crânio por dentro, o berro da entropia. Era a primeira vez que Aaron ouvia algo — e ele soube, com a certeza fria do destino, que seria a última.

Lídia caiu de joelhos, o chão vibrando com a agonia que ela não podia ouvir, mas podia sentir. Ela viu Aaron ser tragado pelo espelho, seu corpo desaparecendo no vidro líquido. Sua imagem refletida, a versão que havia sorrido, não estava em pânico: ela dançava, leve, ao som de uma melodia inaudível de puro horror.

Quando a última vela no candelabro de prata se apagou, o salão foi engolido pela escuridão total. Restou apenas o silêncio absoluto da Mansão Hollengrave.

O salão estava vazio, exceto pelos espelhos — onde todos ainda dançavam, aprisionados, ouvindo eternamente o que jamais deveriam.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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4 Poemas Entre a Vida e a Morte, escritos por Aslam E. Ramallo

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Aslam E. Ramallo é um artífice da palavra cuja poética nos conduzirá ao âmago mais profundo do existir, onde a vida pulsa em sua crueza e a morte se impõe como destino inevitável; mesmo assim, ele semeia esperança — um raro brilho nas brumas da decadência. Com cadência exacta, entretece emoção e razão, revelando que a dor pode ser luminosa, e a lucidez, comovedora. Esta seleção reúne quatro de seus poemas mais sublimes, cada verso convidando-te a um mergulho que é, simultaneamente, silêncio e clareira.

Apreciem!
Sahra Melihssa

Poesias
Escrito por Aslam E. Ramallo
LXXXI

Na penumbra, em meio às veredas da existência, | Adentro por rasto de clivias alaranjadas | A primaveril alegria, tão efêmera, | Ecoa o plangor daqueles que partiram. ...

Poesias
Escrito por Aslam E. Ramallo
LXXVI

Na noite de sombras imprescritíveis | Onde os pesares ali regem | O vazio do tempo, a dor sem cura | Na alma perdida entre estrelas, a busca pela expiação de sua agonia ...

Poesias
Escrito por Aslam E. Ramallo
VII

Nestas linhas, abjurações | Vagas promessas | Desapegos à vil existência | Conflituosas as emoções dentro do peito | A frialdade de seu coração ...

Poesias
Escrito por Aslam E. Ramallo
VIII

Espectro insensível | Expressão da corrupção | A visão alucinada do coração | Desvela as minhas emoções | A descoberta de minhas dores | Em meio a artimanhas | Da quimera do coração ...


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais

Seleção por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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24. A tua fé te salvou

Data incerta – Saímos da caverna em silêncio, como alguém que abandona um templo. Siehiffar nos acompanhou até a saída, onde a floresta retornava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data incerta – Saímos da caverna em silêncio, como alguém que abandona um templo. Siehiffar nos acompanhou até a saída, onde a floresta retornava. Ela me olhou com carinho e me abraçou. Senti uma pontada de pesar nos olhos dela, mas foi à Mara que ela entregou algo: um manto escuro e grosso. Um manto para protegê-la ou ocultá-la? Eu não sabia dizer. Ela apenas o vestiu, e imagino eu que só aceitou o presente por ser algo que o destino lhe dava.

— O lugar para onde vocês vão não é bom chamar a atenção de muitos olhos — ela disse, puxando o capuz sobre o rosto translúcido de Mara. — Mas quem caminha pela fé em algo, ainda que rachada, é visto mesmo no escuro.

Então partimos e caminhamos por muito tempo. Perdi a noção de quantas horas, pois o tempo se arrastava como um animal ferido. As árvores foram se tornando mais tortas, mais silenciosas, e a vegetação, rasteira. O céu, com nuvens paradas, opacas, cinzentas — nem uma cor vibrante podia ser vista.

E então chegamos a um lugar que não era Séttimor e também não era um vilarejo como os outros. Era uma extensão de alguma civilização que não deveria existir ali, mas existia. Havia casas em ruínas, outras eretas e bem conservadas, outras com janelas fechadas com tábuas e portas entreabertas. Havia névoa, muita névoa, espessa e úmida, e eu sentia um cheiro de cabra, sangue seco e metal oxidado.

Logo à frente vimos uma mulher de manto negro, com um capuz que cobria quase todo o seu rosto, exceto o queixo e os lábios. Carregava um cajado que parecia de carvalho. Atrás dela, tinha um pequeno rebanho de cabras negras, que nos observavam curiosas e em silêncio.

— Vocês não são daqui — disse ela sem emoção quando nos aproximamos, confirmando o óbvio.

— Estamos procurando o caminho para o castelo — falei. Mara manteve o rosto abaixado e coberto.

— O castelo está em todos os lugares e também não está em lugar nenhum. Vocês sabem disso, mas estão fingindo que não sabem, não é?

Eu sentia que ela não iria nos ajudar, mas precisava saber mais sobre o lugar em que estávamos.

— Que lugar é esse em que estamos? — perguntei.

— É o que resta de uma fé esquecida, daqueles que um dia buscavam a luz e encontraram a escuridão, a mesma escuridão que vocês encontraram.

— Só precisamos que nos mostre a direção e sairemos do seu caminho — disse Mara, impaciente.

A mulher não respondeu. As cabras começaram a berrar, como se estivessem chamando a atenção para algo, e então uma delas se aproximou de nós, e os olhos dela eram quase humanos.

— Continuem pela trilha — ela disse, e por um momento achei que era a cabra que falava. — Mas não toquem nas portas, nem respondam aos sussurros, a menos que gostem de distração.

— E você, quem é? — perguntei.

— E isso importa? Não é a mim que procuram — ela disse, e depois nos virou as costas e caminhou para longe, sendo acompanhada pelo seu rebanho.

Seguimos pela trilha, ouvindo o som dos nossos passos. Atrás de nós, o berrar das cabras, um céu escuro e opaco, e, muito ao longe, uma música, como se alguém tocasse para a nossa chegada. A trilha era estreita, coberta de folhas e galhos. Cada passo fazia o solo ranger, e me veio, não sei de onde, o pensamento de que estávamos pisando em ossos velhos, e aquele ar úmido tinha um forte gosto ferroso.

À medida que avançávamos, mais casas iam aparecendo. Mara caminhava em silêncio, o manto escondendo seu rosto, mas as pessoas que nos observavam em suas casas pareciam perceber a sua diferença.

Vimos uma mulher acompanhada de uma criança. Estavam paradas perto de uma cerca derrubada. A mulher vestia um vestido marfim encardido e os cabelos muito claros presos em um coque. Nos braços, uma menina de olhos bem abertos e perdidos no nada chupava o dedo sujo de terra.

— Boa tarde — eu disse sem ter certeza se realmente era tarde.

A mulher não respondeu de imediato, ajeitou a menina no colo e me olhou com aqueles olhos fundos, que não eram tristes, mas pareciam olhos que não descansavam fazia dias. Olhos que viram mais do que deveriam. Não sabia dizer se eram olhos alertas ou assustados.

— Onde estamos? — perguntei.

— Vocês estão onde sempre estiveram — ela respondeu com voz baixa e apática. — Nos domínios do castelo Drácula. Tudo isso é parte do castelo: a estrada, a névoa, as casas, cada pedra, árvore e cada animal. O castelo não é só feito de pedras e torres, sabia?

— Mas o castelo mesmo, onde está? — Mara falou, mostrando o quanto estava impaciente.

— Continuem, sigam a trilha que inevitavelmente vocês chegarão lá.

A menina no colo da mulher parou de chupar o dedo e olhou direto para nós, e seus olhos agora eram vermelhos.

— Ele está com saudades de vocês — ela disse com uma voz que não parecia de uma criança pequena.

Senti um frio no estômago. Mara deu um passo à frente, pegando no meu braço.

— Vamos — disse ela, firme.

A mulher e a criança apenas sorriram, nos seguindo com os olhos até sairmos na névoa.

— Vocês estão mais perto dele do que pensam — ela disse, ainda sorrindo.

A trilha começava a subir, se tornando mais íngreme, e a floresta ao nosso redor parecia se calar, como se estivesse segurando a respiração. Havia algumas árvores mortas, mas nenhuma delas estava caída. Seus galhos ainda pareciam avançar em direção àquele céu opaco. O solo tinha um cheiro de umidade antiga e, em alguns momentos, eu podia jurar que tinha visto silhuetas correndo entre as árvores. Formas humanas demais para serem confundidas com animais, distantes demais para se ter uma certeza do que eram.

O céu permaneceu o mesmo por quilômetros: cinzento, opaco e cheio de neblina. Depois de horas — ou talvez dias, não havia como eu saber com exatidão — a trilha se abriu e a névoa cedeu um pouco quando chegamos a uma pequena elevação. E de lá vimos outro vilarejo. Casas coladas umas às outras, com telhados cobertos de líquen. Cada rua como uma veia estreita que conduzia a mais casas. Havia roupas estendidas, crianças correndo de um lado a outro, vasos de flores — alguns secos — e incensos, muito incenso.

Mara puxou mais um pouco o capuz, pois sua aparência a traía.

— Não é possível que isso também seja parte do castelo — eu disse, mais para mim mesma do que para ela.

Mas ela assentiu, levantando a cabeça para olhar o topo de uma casa. Continuamos andando em silêncio. O vilarejo não estava abandonado, havia pessoas lá vivendo suas vidas, indo e vindo sem se dar conta de nossa presença. Outros poucos paravam e nos olhavam com estranheza, mas logo continuavam seu caminho.

E então o sino tocou. Um som oco e lento por três vezes, e, após o terceiro badalar, mais portas começaram a abrir e mais pessoas saíram de suas casas, enchendo as ruas. Mara segurou minha mão e, pela primeira vez desde que essa nossa aventura começou, eu senti que ela tremia. E, por algum motivo, eu achava que isso tinha algo a ver com o sonho que ela teve na caverna, ao qual ela não me revelou.

O centro do vilarejo tinha uma grande construção circular de pedra escura. Esculpido em cima do portal estavam as palavras em latim “Dominatio per Consanguinitatem” — domínio por consanguinidade ou coisa parecida. A porta estava aberta e de lá saía um cheiro doce de sangue. Todas as pessoas iam em direção àquela construção.

Uma mulher, um pouco mais jovem do que a maioria ali, se aproximou de nós. Usava um véu de um vermelho carmesim e um livro de couro preso à cintura. Seus olhos pareciam acolhedores, mas seus movimentos eram ensaiados demais.

— O senhor está acordado esta noite, e ele quer se divertir — ela disse.

— Qual senhor? — perguntei.

Ela não respondeu, apenas indicou a entrada com a cabeça.

— Se chegaram até aqui foi porque ele quis. Então entrem e participem da diversão, antes de continuarem seu caminho.

Quando me dei conta, já estávamos entrando junto com a multidão que esperava na entrada. Uma mulher de voz rouca, vestindo um vestido feito de panos e véus costurados um ao outro, nos recebeu com uma leve reverência.

— Entrem, entrem, a peça está prestes a começar — disse ela. — Tomem seus lugares.

Não perguntei do que se tratava a peça. A verdade é que havia algo em mim que já desconfiava que não seria algo que eu teria escolha em assistir ou não, então não adiantaria nada perguntar.

O interior era uma mistura de teatro e catedral, com bancos dispostos em semicírculo e grandes vitrais escuros de vidro vermelho e âmbar, e um palco ornamentado com bordas entalhadas em dourado, alto e fundo. Ao fundo, um órgão podia ser ouvido, bem sutil.

Um homem encapuzado se aproximou de nós. Em suas mãos tinha um objeto que logo reconheci como sendo um caleidoscópio — um tubo antigo de prata desgastada, com inscrições em volta que pareciam algo como o hebraico ou uma língua desconhecida. Ele estendeu o artefato e perguntou:

— Querem olhar? Observem, antes da peça, assim reconhecerão o ato — ele falou, oferecendo o objeto a mim, pois Mara se recusou a pegá-lo. Como ela não se opôs a que eu pegasse, aceitei o artefato.

Peguei o objeto, aproximei os olhos e a primeira imagem estava confusa — cores girando, vidros coloridos estilhaçados e formas abstratas — mas logo as imagens se organizaram e então eu vi. Ou melhor, eu me vi, ali no palco: eu chegando ao castelo, eu hesitando, dançando no baile de máscaras, chorando por Hadassa, conversando com Ameritt e Monm, falando com Mara, abrindo um diário, gritando para espelhos, segurando um cálice, me afogando e correndo e, então, eu observava a mim mesma com o caleidoscópio nos olhos.

Quase deixei o caleidoscópio cair, mas o homem o pegou, como se já esperasse a minha fraqueza depois de ver tudo aquilo.

— Tudo que foi visto, será encenado. É a lei do palco, é a única lei que aqui dentro obedecemos. — Ela falou isso e andou em direção ao palco.

Fomos conduzidas aos bancos de frente ao palco. A plateia cochichava, esperando o espetáculo começar. Todos pareciam ansiosos.

Uma voz feminina, grossa e alta, veio do palco, como se estivesse vindo do teto:

“Nesta peça, as visitantes reencontrarão a perda. Nesta peça, a alma se tornará carne. Nesta peça, nenhuma palavra será mentira.”

As cortinas pesadas, as luzes mortiças presas nas alturas, o som do órgão que produzia uma música densa, lenta e lacrimosa, a plateia com seus rostos apreensivos, ansiosos pelo que iria ser representado no palco.

Acho que toda a perda de memória começou com o caleidoscópio — aquele objeto simples que, quando toquei, arrancou sutilmente minhas lembranças sem que eu nem percebesse. Esqueci meu nome, minha história, minha dor. Me esqueci de tudo, e nada me fez falta.

A peça começou. No palco, uma mulher surgiu. Caminhava rápido demais, falava de menos, fazia escolhas bastante equivocadas, olhava com desconfiança para tudo e todos e carregava uma tristeza profunda e um ceticismo extremo nos olhos cansados.

Eu não sabia quem era ela, mas odiei cada escolha que ela fazia — ou deixava de fazer. Então, a cada ato, minhas memórias iam voltando, e percebi que ela era eu. Minha vida estava sendo encenada de trás para frente. E eu, sentada na poltrona, só conseguia criticar tudo.

Por que essa mulher — eu, no caso — se deixava ser engolida por aquilo tudo? Por que negava tudo? Por que se prendia tanto à lógica e à razão, se o mundo que agora a cercava era feito de delírios, criaturas inomináveis, fé e horror?

“Burra”, pensei — e logo calei esse pensamento, pois senti a dor do julgamento se voltando contra mim.

O teatro continuou a voltar mais e mais, até antes de Mara se tornar a criatura translúcida. Ali, naquele ponto da peça, algo mudou. A personagem — a outra eu — não encenava mais minhas lembranças. Ela impediu Mara de tocar o livro. A impediu de continuar o ritual, e, com isso, Mara não se desfez. Ela não se tornou aquela criatura translúcida. Na peça, ela permaneceu humana.

E a peça terminou.

A plateia aplaudiu, e uma figura em particular se levantou: Drácula, terrível e majestoso. Ele subiu ao palco, agradecendo os aplausos com uma sutil reverência. Ele me olhou — não a personagem, mas a eu sentada ali, presenciando aquele final de peça que não fazia sentido. Então voltou seus olhos a Mara e a chamou para o palco. E ela foi sem hesitar, ficando de frente a ele, que tirou o manto que ela usava, mostrando a pele translúcida que parecia feita com luz da lua.

E então eu senti como se tivesse sido arrancada de mim. Um ar espesso começou a sair da boca de Drácula e envolveu Mara, que estava diante dele, desaparecendo lentamente. Sua pele se tornou tão translúcida como vidro que eu podia ver Drácula através dela — ver as luzes e o próprio palco. Ela estava se desfazendo diante dos meus olhos e eu não podia fazer nada, pois estava presa à poltrona. Eu só podia vê-la sumir diante dos meus olhos.

Aquele ar espesso que saía da boca dele parecia aquecer aos poucos e começou a tomar forma. Os ossos de Mara — primeiro a espinha, depois as costelas, as pernas e braços — eram como algo se montando pedaço por pedaço.

Ele se aproximou mais dela. Seus lábios, antes distantes, agora tocavam o crânio recém-formado dela, e seus dedos afundavam na carne que começava a se formar. Mara gritava de dor, um grito abafado pelos lábios de Drácula — um som tão angustiante que parecia que sua alma estava sendo costurada à carne, e acredito que era isso que estava acontecendo. Veias, nervos, músculos, órgãos — eu via tudo: sangue fluindo, músculos formando e carne.

Os dedos de Drácula, ainda cravados no crânio dela, agora envoltos em carne e cabelo, formavam um contraste tão íntimo e brutal que não consegui conter o horror que se apossou de mim.

Ele então a deitou no chão, ajoelhou ao lado dela — que o olhava apavorada — e sussurrou algo no seu ouvido que eu não pude escutar, mas que a fez estremecer. Ele então olhou para mim, como se estivesse verificando se eu estava olhando, e depois voltou o olhar a Mara com um sorriso terrível e disse:

— Vá, minha filha, a tua fé te salvou. — Deu um beijo na testa de Mara e se levantou.

Depois desceu do palco e sumiu na multidão antes que eu pudesse ir atrás dele.

A plateia agora aplaudia de pé, pessoas emocionadas com o que tinha acontecido naquele palco. Mara permaneceu no chão por um tempo. Respirava. Estava viva, em carne e osso. Mas ainda assim, algo me dizia que não era só ela ali.

Depois que consegui me levantar, fui até ela. A abracei, sem saber ao certo o motivo de ter feito isso. A cobri com o manto novamente e saímos dali, acompanhadas pelos aplausos da plateia — que, ainda emocionada, continuava a aplaudir. Mas, por mais que nós não estivéssemos mais no palco, eu ainda me sentia dentro da peça.

Revisão por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Furta-cor

Nem um arco-íris faz | colorir dias gris | que tem por pretensão encantar, | mas, ao fim, | Só se faz desperdiçar…

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

Nem um arco-íris faz
colorir dias gris
que tem por pretensão
encantar,
mas, ao fim,
Só se faz desperdiçar.

Porque a alegria é
interpretável
e hoje sou antagonista
na minha própria peça,
esta,
sem enredo inteligível,
sem nexo.

Só para disfarçar
as marcas n’alma,
negras ou carmesins,
brandas ou espessas,
que compõem todas
as emoções que,
de alguma forma,
preciso, quero,
insisto
em olvidar.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Redenção

Desejo pecaminoso | Impulso avassalador | Posso sentir seu sangue em meus lábios | Estou perdendo o controle..

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

Desejo pecaminoso
Impulso avassalador
Posso sentir seu sangue em meus lábios
Estou perdendo o controle

Tento me afastar
Mas todos os caminhos me levam até você
Ergo minha cruz
Mas inconscientemente
Me entrego

Caminho no escuro
Rezando para que me encontre
Tentando me convencer
Que a culpa não é minha

Rasga minha pele
Esse desejo carnal
Beba da minha alma
Porque ela já é sua

Escrava de um sentimento perverso
Te atraio com meus pensamentos
Você supunha que eu fosse presa
Mas eu era o caçador.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Ana Kelly

Ana Kelly, natural de São Paulo (SP), é poeta, escritora, contista e artesã, sócia-proprietária da loja de acessórios e artigos alternativos, Ivory Fairy. Tem poemas e contos publicados como co-autora em diferentes antologias. No ano de 2009 recebeu o prêmio de 1º lugar, em um concurso de poesias do tema “Natureza”, do Projeto Chance... » leia mais
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10: Sobre as versões de nós

Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Por Alana Mortensen

Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou. A forma de comunicação transformou-se, mais ágil e nem sempre assertiva, mas os anseios são os mesmos. A nossa insistência em tentar definir e nomear aquilo, o desconhecido que fascina e aterroriza em iguais proporções.

Lembro-me da primeira vez que li “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a Alana de quatorze anos ainda tinha sonhos e alegrias por vir. O impacto foi repentino e indecifrável: recebi os golpes, sem saber precisar de qual direção e remetente provinham. A fascinação foi ainda maior após reconhecer que o protagonista somente conseguia ser sincero, porque o além-vida lhe proporcionava esse despreendimento. Entende o que eu quero dizer? O medo de ser rejeitado nos prende à vida cotidiana, aquela na qual todos vagam sem experienciar a Vida.

Para que continuar seguindo as convenções se tudo o que outrora era vida já não mais existe?

Para que continuar dançando a valsa da vida se não há mais parceiros e a música cessou?

Sinto que, ao adentrar o Castelo, sofri a mesma transição que Brás Cubas: já não preciso me preocupar com a minha utilidade na sociedade; já não preciso continuar lidando com as situações sufocantes; já não preciso simular.

Tornei-me transparente. Não vês os meus circuitos internos? Olha como meu coração ainda bate, em um ritmo só dele, ainda bombeando o sangue que faz irrigar cada parte seca do meu corpo.

Quando era criança adorava fingir ser quem não era: professora, médica, forte, executando a “função” com tanta seriedade que ninguém ousava dizer que eu não era uma professora ou médica, ou forte. Aos poucos fui perdendo essa autoconfiança, a adolescência sufoca qualquer voz interior que tenta afirmar que “você é capaz”, ou assim nos fazem acreditar… Falam tanto na nossa cabeça que acreditamos exatamente naquilo que elas querem.

A jovem adulta não ficou menos hesitante, só aprendeu a suprimir esses dissabores, ninguém gosta de pessoa que seja e pareça fraca. Nem eu gostava. Mas aprendi que se deixar sangrar, deixar que vejam meu escoamento também é uma forma de força.

Essa bateria de palavras é somente as divagações de hoje. Aqui eu aprendi que eu posso e serei quem eu quiser. E não me importo se tentarem cerrar as cortinas, pois eu irei transpassá-las e continuarei com a minha apresentação, custe o que custar!

Revisão por Sahra Melihssa
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Primeiro Ato

Permaneci parada como se os deuses estivessem parados os ponteiros do infindável tempo, porém aquele ritmo cadenciado do relógio permanecia ressoando…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Permaneci parada como se os deuses estivessem parados os ponteiros do infindável tempo, porém aquele ritmo cadenciado do relógio permanecia ressoando em minha mente, como um mantra.

Mesmo sem vislumbrar a figura atrás de mim, notei sua sombra imponente projetada à luz do úmido piso de pedras, à oscilante luz vinda da lamparina, preenchendo aquela biblioteca, sem dúvidas tratava-se de alguém muito importante.

Uma tosse vinda da figura interrompeu o breve momento onde o silêncio se fazia presente, senti uma tensão quase eletromagnética percorrendo meu corpo, sua forte respiração aguçava minha curiosidade. Finalmente sua voz ecoou forte e calma, (estava correta, era um homem).

Cautelosa, virei-me, os cachos escondiam minha tez franzida, e de fato era alguém mui importante, suas vestimentas perfeitamente alinhadas, trajava uma camisa social branca com detalhes renascentistas no punho e gola, colete e terno eram pretos, cabelos curtos igualmente pretos, olhos penetrantes porém cativantes, na mão direita trazia uma lamparina, voltei minha atenção para seus ágeis dedos manuseando um relógio de bolso feito ouro envelhecido, a caixa de no estilo savonnette com detalhes em arabesco, o mostrador era num tom azul petróleo, os ponteiros eram de prata, e a longa corrente também em ouro velho.

— Perdoe-me por assustá-la, não era minha intenção. Me chamo Professor Monm, (apesar de sua voz ser um tanto grave, como um barítono), havia também nuances melancólicas, seu olhar sereno certamente era de alguém que já enfrentou muitas provações ao longo de sua vida.

— Bem, confesso que havia conhecido poucas figuras masculinas aqui no Castelo, a não ser os rápidos encontros durante as festividades, mas... posso fazer uma pergunta, se me permite? O que o senhor leciona?

Primeiramente ele sorriu com os lábios, e disse que era um prazer me conhecer. Em seguida, fechou a porta. Pairava naquela biblioteca uma misteriosa calmaria. Chamei-o para caminhar, ele aceitou de bom grado, e continuarmos a conversa.

— Com toda franqueza, senhorita, esta é uma pergunta complexa, mas pode-se dizer que leciono transmutação temporal, além de ser exímio conhecedor em relógios.

Meus olhos saltam de curiosidade pois lembrei das obras de alquimia que folheei incontáveis vezes, sempre às escondidas. Foi difícil esconder minha euforia, a sede pelo conhecimento me movia (mesmo que esse conhecimento fosse “proibido”).

Minha reação foi notada pelo professor, que esboçou um tímido sorriso e, em seguida, perguntou se possuía algum conhecimento sobre o assunto. Assenti, (li bastante a respeito). Vi então seu semblante mudar sutilmente, acho que o surpreendi.

Ele falava dos relógios com uma notável paixão e, sinceramente, seria uma honra poder ouvi-lo discursar sobre cada engrenagem e suas particularidades por horas.

Erguendo a lamparina à altura dos olhos, iluminou as enormes estantes de carvalho que se estendiam até o final da biblioteca, repleta de inúmeras e empoeiradas obras.

Meus olhos fitaram as centenas de obras, algumas deterioradas severamente pelo inexorável tempo e pelas insaciáveis traças. Conforme andávamos, ergui levemente meus dedos e me permiti sentir cada puídas lombadas de couro e suas respectivas marcas.

Alguns resíduos permaneceram em meus dedos. Observei também o impecável trabalho das aranhas ocupando aquele estreito espaço. “Será que um dia eu o encontrarei?” Monm, que também observava as estantes, cessou os passos e pousou os olhos castanhos sobre mim.

— O que disse, senhorita?

— Não foi nada, apenas pensei alto, mas... ou talvez o senhor possa me ajudar, absorta, inicio minha narrativa.

— Certa noite, perambulando pelo Castelo, encontrei algo que se tornaria minha obsessão, e desde então tenho procurado com afinco. Trata-se de um horrífico e grandioso Códex, confeccionado em couro humano. Sua deteriorada capa era uma desagradável fusão entre marrom e tons de escarlate. Trazia ainda um símbolo arcano, o qual nunca tinha visto, mas parecia ser tão antigo quanto a própria existência. Ele também emanava um odor pútrido terrível. Foi ali que o encontrei, sobre aquela mesa redonda vitoriana.

Saí do estado letárgico, ofegante, meu corpo tremia, com meu braço direito estendido apontando para a mesa vazia. Olhei para o professor, que me ouvia com atenção. Vi suas feições adquirirem contornos espantosos. Ele passou a mão esquerda sobre a testa e disse:

— Sem dúvidas, é um relato muito impressionante. Gostaria muito de poder ajudá-la, mas conheço bem esse caminho...

Seus lábios emudeceram. Então, vi o horror estampado em sua fronte, seguida por uma profunda e terrível melancolia. Os batimentos reverberavam no recinto, atônito, o professor recorreu novamente ao relógio, abrindo e fechando sem cessar. Em vão tentei chamá-lo, estava absorto, talvez por alguma lembrança.

Até que ele “voltou” num estado de confusão mental, que me deixou preocupada. Será que, neste período ausente, ele teve acesso a outras realidades? Se foi, gostaria muito de aprender.

— Professor Monm, o senhor está bem?

— Sim, senhorita, não se preocupe, está tudo bem, permita-me dizer que foi um prazer conhecê-la, mas infelizmente tenho que partir. Bom, espero que possamos nos encontrar novamente.

Checou o relógio mais uma vez, como se estivesse atrasado. Antes de cruzar a porta, ele sussurrou: — Muito cuidado com a obsessão, Rose, é um caminho bastante tortuoso, confie em mim, você não quer isso...

Aquele conselho soou estranhamente, o timbre de sua voz trazia um pesar, um arrependimento, o qual nunca saberei. Nos despedimos com um cordial aceno.

A introspecção recai sobre mim, trazendo à margem alguns pensamentos: quanto tempo mais suportarei manter esta falsa máscara de normalidade? Será que alguém realmente sabe quem sou? Será que interpretei bem o meu papel de falsa humana? Se bem que Ameritt conheceu meu verdadeiro eu...

Caminho até a porta envolta de questionamentos, toco na maçaneta e fico parada por alguns instantes, tal qual um ator que está prestes a entrar em cena. Ouço resquícios de diálogos que desaparecem pelos extensos corredores, passos apressados ecoam pelo Castelo, risadas que se perdem. Qual será o próximo acto desta magistral peça teatral?

Revisão por Sahra Melihssa
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
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O Regresso ao Bastidor

No palco etéreo da sala escura, | ergue-se a vida vestida de fantasia, | com gestos vãos, em atitude impura, | finge um riso e esconde a melancolia…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No palco etéreo da sala escura,
ergue-se a vida vestida de fantasia,
com gestos vãos, em atitude impura,
finge um riso e esconde a melancolia.

Nos bastidores se guardam segredos
de atores tristes sob uma luz velada,
e a cada ato, seus sonhos e medos
compõem uma trama jamais ensaiada.

Vestido de sombras, o destino escreve
com uma pena feita de silêncio e dor.
Quem tenta brilhar, muito em breve
prova do escárnio deste diretor.

A juventude, um prólogo febril,
tão breve quanto uma pequena cena.
No segundo ato, em um tom mais sutil,
a alma dança em uma veste pequena.

Momentos de amor, de glória e perdição,
coadjuvantes de um roteiro inacabado.
E o público, a própria solidão,
aplaude em prantos o ator já cansado.

Mas eis que surge, em névoa sutil,
a morte, trajada em linho e com olhar sereno,
murmurando ao vento: “Teu papel é pueril,
vem repousar no meu abraço ameno.”

Ela não exige nada, nem mesmo o enredo,
apenas tira o figurino já gasto,
apaga as luzes, extingue os segredos
e sela os lábios com seu beijo casto.

E então, no fim, sem som e sem cortina,
a peça termina num silêncio denso.
O palco, outrora tão vivo, declina,
e só o pó herda aquele espaço imenso.

Mas foi bela, ainda assim, a peça,
mesma envolta em dores tão sutis.
Pois só quem vive a dor que a vida tece
sabe o sabor de ter estado aqui.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Canto para meus tormentos

Abracei o teu convite e vim prestigiar a ópera. A Vida, a Morte e o Tempo estarão presentes no teatro das sombras. Abram vossas mentes para as experiências que…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Abracei o teu convite e vim prestigiar a ópera. A Vida, a Morte e o Tempo estarão presentes no teatro das sombras. Abram vossas mentes para as experiências que farão um por um transmutar e viajar por entre os planos. Será uma noite inesquecível...

A dádiva da arte é para mim um novo sopro do ânima. É a força motriz que me sustenta longe da dor que é viver sob esta forma decadente. Agarro-me à esperança de que tal ópera seja uma ode ao meu escapismo. Perdoem-me, almas ancestrais, bestas viajantes, apreciadores de uma boa taça de sangue: em mim habita a angústia que dilacera tal qual os malditos raios do sol.

Lencastre está prestes a confrontar seus próprios demônios...

Na penumbra do teatro, sou fragmento suspenso entre dimensões. A matéria que compõe este receptáculo vampírico vibra em frequências ancestrais, pois em minhas veias corre o tempo líquido, essência primordial dos navegantes da eternidade. O palco diante de mim não é mero tablado — é portal onde as esferas se tangenciam, onde o Limiar permite vislumbrar os segredos que habitam o âmago do ser.

As cortinas se erguem, e eis que reconheço: sou aquele que desperta as criaturas, sou o convocador inconsciente de meus próprios tormentos. A orquestra entoa acordes que ressoam no ventre do caos, cada nota uma navalha a gerar carnificina em minha alma fragmentada.

No centro do palco, materializa-se a primeira visão: meu eu humano, tessituras de luz dourada emanando de sua forma. Vejo-me quando ainda pulsava em sintonia com o ritmo cósmico, quando o sol era bênção, não maldição. A criatura que fui estende-me as mãos, e em seus olhos habita a pergunta eterna:

— Por que escolheste navegar pelas sombras, quando podias dançar na luz?

Mas o Limiar rejeita respostas simples. O tempo sob seu comando é serpente que devora a própria cauda, e compreendo: não houve escolha, apenas o desenrolar do destino.

O palco transmuta-se em arena cósmica. Na fenda mais profunda de minha consciência, criaturas se gladiam — são deuses de suas histórias, manifestações dos medos que habitam o âmago do vampiro que me tornei. Cada demônio empunha lâminas forjadas nas essências da culpa, do remorso, da solidão infinita.

Vejo-os duelarem: a Nostalgia, de armadura dourada, combate contra a Sede Eterna, de garras escarlates. O Medo da Eternidade, gigante de olhos vazios, confronta a Culpa Ancestral, que chora lágrimas de sangue. Em cada golpe desferido, fragmentos de minha essência se desprendem como pétalas negras no vento cósmico.

Sou espectador e arena simultaneamente. Em meu peito, o coração que não bate ressoa como tambor de guerra. As criaturas lutam por domínio sobre o receptáculo que me tornei, mas todas ignoram uma verdade fundamental: sou o gladiador supremo, aquele que deve enfrentar a si mesmo na batalha derradeira.

Em minhas veias corre mais que sangue alheio — corre o poder dos navegantes primevos, daqueles que primeiro caminharam entre os mundos. Sou herdeiro de linhagem que remonta aos tempos quando a separação entre vida e morte era mera ilusão criada pelos mortais.

Ergo-me da poltrona, mas não sou mais Lencastre. Sou entidade que carrega em si a sabedoria das eras, receptáculo onde predador e protetor são um só no tecer dos destinos. Minha forma física começa a transmutar — não em destruição, mas em transcendência.

A carne se dilata, expandindo-se além dos limites mortais. Cada poro torna-se portal, cada célula uma estrela pulsante no cosmos interior. O sangue que jorra não é perda — é oferenda sagrada ao altar da transformação. Cada gota que toca o palco germina em flor de luz sombria, criando jardim onde o belo e o terrível dançam em harmonia.

Não há dor — apenas êxtase da dissolução consciente. Sou chuva de meteoros atravessando o véu entre os mundos, sou canção que ecoa nos corredores do tempo.

Minha voz, agora multidimensional, entoa o cântico final:

— Do sacrifício nasce a aliança sagrada... do receptáculo fragmentado emerge o navegante eterno... nas essências derramadas, a continuidade...

O teatro desaparece, e na sinfonia infinita que permeia o universo, minha nota ressoa eterna — não como lamento, mas como hino à transformação que aguarda todos os navegantes do tempo.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Divina Presa

No ventre palestino o prometido, um dia, | Nasceu de uma virgem, sob luz de profecia. | Filho de Josué, do Espírito gerado, | Foi pelo rei temido, em berço arado…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No ventre palestino o prometido, um dia,
Nasceu de uma virgem, sob luz de profecia.
Filho de Josué, do Espírito gerado,
Foi pelo rei temido, em berço arado.

Como cordeiro em sangue, seu destino selado,
Ressurge em terra árabe, em chão desolado.
Mas a fome o ceifa, antes do primeiro ano,
E o anjo pacificador parte em vão, humano.

Terceira vez renasce em solo devastado,
Mas explosivos rasgam seu frágil passado.
E quando enfim retorna, abre os olhos feridos:
Fuzis brancos e azuis: seus únicos vestidos.

Perece o Cordeiro em guerra, fome e espanto,
Mas sua carne é pó, é luta, é grito e canto.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Leonardo Garbossa

Leonardo Garbossa nasceu em São Paulo, em 1995. Desde jovem é um leitor apaixonado e grande fã das obras romancistas. Sentimentalista por natureza, iniciou sua vida acadêmica na área das ciências exatas, migrando em seguida para psicologia, que estuda atualmente. Teve a infância conturbada após perder o pai para o suicídio, tema que se tornou seu foco nos estudos acadêmicos. Foi criado pela avó, que fez o máximo possível para ensinar a ele a importância da excelência nos estudos e na cultura. ... » leia mais
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Máscaras de Sangue

Sangro em silêncio, e a vida me devora, | sou mais ausência do que corpo, um fardo. | A cada passo o abismo me implora, | mas visto a máscara do riso pardo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Sangro em silêncio, e a vida me devora,
sou mais ausência do que corpo, um fardo.
A cada passo o abismo me implora,
mas visto a máscara do riso pardo.

Meu ser é cárcere em noite sonora,
eco perdido em labirinto, aguardo.
A dor é carne, o espírito a devora,
e o nada sussurra seu hino bastardo.

Procuro em vão sentido que me una,
mas a existência é lâmina e me fere.
Tudo é penumbra, e o mundo, a minha ruína.

O ser-em-si se cala e me difere,
mas sigo — alma vazia, vaga, nua —,
na máscara de sangue que me confere.

Sangro.
Sangro por dentro como quem se desfaz de si mesmo.
Ser-para-a-morte, Heidegger murmura,
mas a morte não vem,
a morte não vem!
e eu permaneço,
eu permaneço preso à minha própria carne trincada.

A máscara… ah, a máscara é tudo que resta.
Sangue coagulado que pinto sobre o rosto do espírito.
Riso falso.
Lágrimas costuradas.
O mundo não pode ver que, por baixo,
sou um corpo oco,
um eco oco,
um dasein fraturado.

“A angústia desvela o nada”,

dizem os mestres.
Sim.
Mas o nada me abraça como um amante ciumento,
e suga meus ossos até que só reste
o som de um coração
que bate para ninguém.

Caminho pelas ruas como um espectro com nome.
Carrego as palavras que já não me pertencem.
O ser-em-si me devora.
O ser-com-os-outros me apodrece.
O ser-para-a-morte me observa do canto da sala,
com seus olhos vazios,
pacientes.

E eu — poeta ou coisa —
cavo túneis dentro de mim
à procura de algo que não existe.

(há silêncio, depois grito, depois silêncio de novo)

A máscara escorre.
O sangue seca.
E ainda assim coloco outra por cima.

Para quê?
Para quem?

Não sei.
Talvez para a plateia invisível
que um dia vai aplaudir
quando finalmente eu tombar,
rasgado,
sem máscara.

Sonho-vos nos corredores de cinza,
phantasma talhado de osso ao luar.
Vossa pele alva — porcellana, perfeita, intacta —
persegue-me como cathedral devorada por fogo.

Vossos olhos d’azul são tormentas
que me desnudam a alma,
rasgando a medulla de minhas noites,
inda que jamais vos tenha tocado.

Saboreio-vos no sangue em minha língua,
imaginando vossos beiços, frios como sepulcros d’inverno,
a pregarem-se nos meus em beijo
que me perderia, e tal perdição cobiço como lobo famélico.

A distância é lâmina torcendo-se em minhas costelas,
cruel mar tragando cada brado.
Romperia a terra em pedaços,
queimaria cidades até se fazerem esqueletos negros,
por estar uma só vez — só uma —
no eclipse de vossa sombra.

Beberia a luz de vossas veias,
se apenas assim vos guardara,
por dar carne a vosso espectro,
sentir-vos tremer ao quebrar
toda a cadeia que nos aparta.

Mas quedo-me aqui,
escrevendo vosso nome em sangue
nas paredes que ninguém jamais verá,
enquanto vossa formosura me devora vivo
desde mil léguas de distância.

As cortinas de veludo rubro abrem-se com um ranger que parece o suspiro dos ossos.
Korzavéll surge no palco.
Sua máscara está rachada.
O trono de ossos o espera, mas ele não se senta.
Ele fala ao vazio, aos espectros, aos vivos fingidos.

Ah, plateia de mortos disfarçados, de corações que fingem pulsar! Vede-me! Vede o miserável!
Sou o último tecido niilista de humanidade costurado ao peito de um daemon cansado.
Eis-me aqui, cuspindo palavras como se fossem sangue coagulado,
no palco onde os espelhos só devolvem rostos partidos. Ergue os braços, como quem invoca um deus ausente.
Riem de mim?
Riem de Korzavéll,
lágrimas negras?
— Pois saibam: cada gargalhada que lançais é um prego a mais em minha carne!
E que carne é esta?
Esta ruína que palpita ainda porque eu a amo...
Sim, amo-a!
A bruxa de olhos azuis que toca minha face em astral projeção,

Caminhai devagar sobre os espelhos, cortando os pés descalços. O sangue escorre.
Ele ri, com um som quase infantil.

Oh, como ferem e enfeitiçam esses olhos!
Safiras lapidadas pela própria Hékate!
Olhos que me arrancam a medula,
que me dilaceram sem nunca ter me visto!
Ah, minha feiticeira distante...
Tu és o veneno que bebo com devoção.
Tu és a lâmina que me arranca a última esperança e, ainda assim, eu imploro por mais cortes, rasgai a própria máscara e revela um rosto manchado de lágrimas e sangue.

Dizei-me, plateia de espectros:
O que resta de um homem quando a beleza que ele adora lhe é inalcançável?
Resta-lhe o delírio.
Resta-lhe o teatro.
Resta-lhe a dança na beira do abismo, enquanto a razão se desfaz como cera ao sol.

Korzavéll ajoelha-se diante do trono de ossos.

Escutai-me, ó deusa dos cães e dos encruzilhados!
Hékate, senhora da noite que me moldou neste grotesco invólucro!
Tomai minha alma, já nada há que possa salvá-la.
Que eu me torne espectro, fera, poeira — o que quiserdes!
Mas deixai-me tocar sua pele uma vez...
Uma vez apenas!
Nem que eu tenha de beber o mundo inteiro em sangue para comprá-la!
Um silêncio mortal se instala.
Ele ergue a cabeça, com os olhos vidrados e vazios.

Mas vós sabeis, vós todos sabeis:
Eu permanecerei aqui, minha consciência estilhaçou,
rasgando meu próprio peito, escrevendo seu nome nas paredes que nunca verão a luz.
Ele se levanta,
tropeçando nos espelhos, deixando rastros de sangue.

Olhem bem para mim, malditos!
Olhem bem, pois eu sou o retrato do vosso destino:
a fome sem fim.
A espera que não conhece aurora.
O aplauso que não salva, apenas adia o silêncio.
A luz da lua cai sobre ele, fria, cortante.
Ele abre os braços como um crucificado.

A cortina descerá um dia.
Então, como eu, chorareis.
Como eu, vos sabereis ridículos.
Como eu, suplicareis por um olhar,
um beijo,
um toque de um amor que jamais vos alcançará.
Ele ri, um riso rachado,
ecoando no teatro vazio.

A luz se apaga.

Ah, permiti que as cortinas se descortinem em véus de sombra e suspiros — pois eis que surge Korzavéll, o cômico das lágrimas negras, habitante do palco onde o riso e o pranto se abraçam numa dança macabra e sublime.

No coração do teatro antigo, em pedra fria e madeira rangente, repousa um cenário que é sonho e pesadelo entrelaçados.

O teto, outrora inteiro, agora ostenta uma fenda descomunal — ferida aberta nos ossos do edifício — por onde a luz gélida da lua escorre como prata morta, pincelando os cantos com silêncios estelares.

As estrelas, testemunhas mudas da ruína, espreitam o palco com olhos de condenação, e a brisa da noite varre o salão como um sussurro de promessas quebradas.

O ar, espesso como o hálito de um morto-vivo, traz o odor metálico da melancolia e o doce azedo da ironia.

Lá, candeeiros de bronze, talhados em formas retorcidas de gárgulas que parecem espreitar os próprios espectadores, lançam uma luz trêmula — um fogo bruxuleante que se torna sombra, sombra que se torna lamento.

O chão é um mosaico de espelhos partidos, cada fragmento refletindo um rosto que se perde e se procura, um sorriso que fenece antes de nascer.

As cortinas, vestidas em veludo escarlate enegrecido pela fumaça das velas, respiram com a mesma tristeza que um prisioneiro antes da sentença.

Sobre o palco, um trono de ossos entrelaçados, feito não de poder, mas de promessas quebradas, espera o Cômico em seu reino de desespero teatral.

Quando Korzavéll pisa nesse tablado, o ar se adensa — e o tempo se curva ante sua presença.

Sua máscara, de porcelana fina rachada, sorri com os lábios de uma ironia que dilacera.

Cada passo seu ecoa como o tambor de um coração que bate na desesperança, e sua voz, rouca, se derrama como um cálice transbordando de lágrimas petrificadas.

“Ó vós, plateia de espectros e vivos ensaiados, quão frágil é o véu que vos separa do abismo!

Riam, chorem, pois tudo é um ato e eu sou o último suspiro antes do silêncio.”

Dançai — não como um homem, mas como a própria alma do teatro que se desfaz em cinzas.

As paredes sussurram antigos segredos em línguas esquecidas, e o vento, agora tocado pelo luar, parece carregar o lamento de mil risos jamais ouvidos.

O relógio, parado, acusa a eternidade de um instante em que a esperança perece, e Korzavéll, com sua máscara quebrada, é o maestro dessa sinfonia de desventura sob a luz fria da lua. Com as estrelas refletidas nos olhos de porcelana, ele murmura, como quem cospe uma profecia:

“Aqueles que se escondem no riso, hão de chorar quando o aplauso cessar — pois a alegria encenada não salva, apenas atrasa o cortejo.”

O teatro respira sua dor.

E Korzavéll reina — não para destruir, mas para mostrar que, no palco da vida, somos todos meros atores, condenados a representar a dor vestida em risos, até que a cortina final caia, e o escuro reine, silencioso e absoluto.

Revisão de Sahra Melihssa
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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A chegada - Homenagem a Ozzy Osbourne

Quando Ozzy desceu ao abismo profundo, | recusou pactos com o barqueiro sombrio. | Seu óbolo entre as joias do príncipe eterno, | e as cordas vocais que evocam poder e frio…

Imagem da Web, editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Quando Ozzy desceu ao abismo profundo,
recusou pactos com o barqueiro sombrio.
Seu óbolo entre as joias do príncipe eterno,
e as cordas vocais que evocam poder e frio
dos portões das trevas em pira erguidos,
tocando o limbo em ecos perdidos.

— O príncipe enfim retornou ao lar!
Ele sorriu, Crowley abraçando.
— Contempla, filho, sem hesitar,
a dança das almas que vão girando
em volúpia, êxtase e risos loucos,
celebrando tua volta por estes pocos.

Vens de um mundo que em brevidade
será destruído pela ignorância humana.
Quando lá estive, em minha jornada,
deixei segredos na trama profana—
mistérios ocultos jamais revelados,
códigos sombrios ainda guardados.

Rauzito aqui te aguarda ansioso,
breve governarás estes domínios
com ritmo ácido e som poderoso.
Tens em Raul, entre os gênios,
teu companheiro mais soturno,
parceiro neste reino noturno.

O céu observa com soberba vã,
mais alegre é nosso solo sombrio,
pois aqui cada estrela se dana
em dança eterna, sem desvio.
Feita a passagem derradeira,
teu corpo renasce em nova forma.

"Em espírito o vejo". Louco,
sonhador, deus do heavy metal,
herdeiro das sombras, da dor
e também do amor profundo.
Suas extravagâncias prosseguem
onde as trevas governam o mundo.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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O Fascínio das Sombras: Por Que o Gótico Ainda Nos Seduz em Pleno Século XXI

Em um mundo onde a velocidade e a luz parecem ser a…

Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Em um mundo onde a velocidade e a luz parecem ser a moeda mais valiosa, existe um refúgio para as almas que buscam o contraste, a profundidade e a beleza que floresce no escuro. Falo do universo gótico, um gênero que, mesmo em pleno século XXI, continua a exercer um fascínio inegável sobre leitores e criadores. Para selos editoriais como o Nunca Mais da Editora Castelo Drácula, essa persistência não é apenas uma tendência, mas a prova de uma verdade atemporal: há algo intrinsecamente humano na atração pelo mistério, pela melancolia e pelo sublime horror.

Mas afinal, por que o gótico ainda nos seduz tanto? A resposta reside em sua capacidade de tocar em cordões sensíveis da nossa psique, oferecendo um espelho para medos e anseios que a modernidade tenta, em vão, silenciar.

A Beleza da Imperfeição e da Decadência

O gótico celebra o que está em ruínas, o que se desfaz. Mansões assombradas, igrejas ancestrais e paisagens lúgubres não são apenas cenários; são personagens que respiram histórias de glória perdida e dor acumulada. Em um mundo que busca a perfeição e o novo a todo custo, o gótico nos lembra que há uma beleza singular na imperfeição, na passagem do tempo e na inevitabilidade da decadência. Como afirma o teórico cultural Simon Reynolds, "o gótico nos convida a contemplar a fragilidade da existência e a beleza melancólica da destruição." Essa estética ressoa com a nossa própria finitude, tornando-a menos assustadora e, paradoxalmente, mais bela.

O Mergulho na Psicologia Humana

Muito além dos castelos e fantasmas, o gótico é um profundo estudo da mente humana. Seus personagens frequentemente lidam com a loucura, a obsessão, a culpa e o desejo proibido. A escuridão exterior muitas vezes espelha a turbulência interior, levando o leitor a explorar os recantos mais sombrios da alma. Um estudo publicado no Journal of Popular Culture sobre a popularidade duradoura do gótico sugere que o gênero oferece um espaço seguro para a exploração de emoções complexas e tabus sociais, funcionando como uma válvula de escape para tensões psicológicas. É nesse mergulho psicológico que reside a verdadeira força do gênero, permitindo-nos confrontar nossos próprios demônios de uma forma segura e catártica. O selo Nunca Mais, ao buscar "almas condenadas" e "lirismo lúgubre", entende que a profundidade emocional é a essência do gênero.

O Romance Sombrio e o Sobrenatural

O gótico nos oferece um tipo de romance diferente: intenso, muitas vezes trágico, permeado por segredos e paixões proibidas. Não é o amor idealizado, mas a atração pelas sombras, a conexão com o que é tabu. Unido a isso, a presença do sobrenatural – fantasmas, vampiros, criaturas da noite – não é apenas para causar susto, mas para questionar os limites da realidade e da existência. Como pontua a pesquisadora de literatura gótica Catherine Spooner em sua obra "Contemporary Gothic", o sobrenatural no gótico serve frequentemente como uma metáfora para forças sociais e psicológicas que estão além do controle humano, aumentando a sensação de desamparo e fascínio. Esses elementos fantásticos servem como metáforas para os medos e as tentações humanas, adicionando uma camada extra de mistério e fascínio.

Uma Contracultura que Resiste ao Tempo

O gótico, em suas diversas manifestações culturais (literatura, música, moda), sempre funcionou como uma contracultura, um espaço para o diferente, o marginalizado, o incompreendido. Em uma sociedade que valoriza a conformidade, o gótico é um convite à individualidade, à expressão da melancolia e à aceitação do lado sombrio da vida. Pesquisas sobre comunidades góticas, como as de Paul Hodkinson ("Goth: Identity, Style and Subculture"), demonstram que a subcultura gótica oferece um senso de pertencimento e uma identidade alternativa para aqueles que se sentem deslocados da norma social. Para a Editora Castelo Drácula e seu selo Nunca Mais, isso significa um público fiel e apaixonado, que encontra nas obras um eco de suas próprias sensibilidades e um lugar para pertencer.

O selo Nunca Mais não apenas publica obras góticas; ele celebra uma filosofia de vida. É um tributo aos "poetas mortos e seus legados", um reconhecimento de que as verdades mais profundas muitas vezes são encontradas nas sombras. Continuar investindo nesse universo é garantir que a chama do gótico permaneça acesa, iluminando os caminhos para aqueles que encontram beleza na melancolia e poesia na penumbra.

Referências

  • Hodkinson, Paul. (2002). Goth: Identity, Style and Subculture. Berg Publishers.

  • Reynolds, Simon. (Diversas obras). As reflexões de Simon Reynolds sobre contracultura e subculturas frequentemente abordam aspectos da estética gótica e seu impacto na cultura popular.

  • Spooner, Catherine. (2017). Contemporary Gothic. Reaktion Books.

  • Journal of Popular Culture. (2018). Diversos artigos sobre a cultura gótica e sua resiliência podem ser encontrados em volumes recentes do Journal of Popular Culture, que frequentemente explora a permanência de gêneros e subculturas ao longo do tempo.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem. » instagram do autor
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Escrito por Indy Sales, -Poesias Indy Sales Escrito por Indy Sales, -Poesias Indy Sales

Glória a Lúcifer!

Dê-me da escuridão que em ti reluz,⁣ | Glória e louvor a Lúcifer, o anjo de luz.⁣ | Apareça em santas trevas e deformidade,⁣ | E riremos juntos da celestial Divindade.⁣..

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Dê-me da escuridão que em ti reluz,⁣
Glória e louvor a Lúcifer, o anjo de luz.⁣
Apareça em santas trevas e deformidade,⁣
E riremos juntos da celestial Divindade.⁣

Faça do teu submundo a eterna guarida⁣
Para toda alma profana, obscura e caída.⁣
Ao anjo mais belo toda glória e louvor,⁣
Rejeitam-te no Céu; aqui serás coroado Senhor.

À minha alma exilada dê abrigo,⁣
O que poderia querer a superfície comigo,⁣
Tendo eu maculado e profanado o altar⁣
Onde um julgador tirano ocupa o teu lugar?

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Indy Sales

Indy Sales (1993) é uma poeta e contista do cenário underground e marginal. É autora independente de vários livros. Suas obras falam, de forma explícita, sobre transgressão, erotismo e profanação. Tem influências do simbolismo e do ocultismo. » Instagram da autora
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Aura Lúgubre

Sua obscura canção não pode encantar⁣ | Os surdos ouvidos de quem te condena.⁣ | Toda a sepulcral beleza põe-se a poetizar⁣, | E aos olhos deles, você apenas blasfema. ⁣

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Sua obscura canção não pode encantar⁣
Os surdos ouvidos de quem te condena.⁣
Toda a sepulcral beleza põe-se a poetizar⁣,
E aos olhos deles, você apenas blasfema. ⁣

Mas, poderia eu pela eternidade apreciar⁣
As trevas profundas que se abrigam em ti.⁣
E com rosas mortas e crânios enfeitar ⁣
O seu universo macabro que me faz sorrir. ⁣

E se a todos sua aura lúgubre assombra,⁣
Apenas seria para meus versos inspiração.⁣
Sempre tentarão suprimir suas sombras,⁣
Mas eu sempre amarei sua escuridão. ⁣

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Indy Sales

Indy Sales (1993) é uma poeta e contista do cenário underground e marginal. É autora independente de vários livros. Suas obras falam, de forma explícita, sobre transgressão, erotismo e profanação. Tem influências do simbolismo e do ocultismo. » Instagram da autora
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Escrito por Monica Maria, -Contos Monica Maria Escrito por Monica Maria, -Contos Monica Maria

Mansão Blackwood

A morte caminhava ao meu lado. Espreitava em cada corredor por onde eu passava. Morei nesta mansão desde o nascimento e, ainda assim, o lugar guardava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Parte I — Rachaduras

A morte caminhava ao meu lado. Espreitava em cada corredor por onde eu passava. Morei nesta mansão desde o nascimento e, ainda assim, o lugar guardava segredos que eu desconhecia.

As molduras douradas brilhavam sob a luz do meu castiçal — um contraste bonito demais para as rachaduras que se acumulavam nos cantos das paredes. Rachaduras tão discretas quanto as sombras da nossa família.

Cada passo era cauteloso. O ranger da madeira me entregava, mas o resto da casa permanecia afogado em silêncio. Suponho que ninguém tenha notado minha ausência. A madrugada era o único momento em que eu não sentia os olhos do meu pai me seguindo.

O quarto de Cassandra estava logo à frente. Precisei me lembrar de respirar sem sufocar. As chamas das velas oscilavam com a corrente de ar fria. Alguma coisa me chamava. Eu só não sabia o quê. Tinha essa sensação há um tempo. Às vezes, ouvia as paredes sussurrando.

Hesitei ao tocar a maçaneta. Fingi que a tremedeira vinha do frio, mas era outra coisa — medo, talvez. Medo de que ela me odiasse. Medo de que fosse minha culpa.

Olhei ao redor. Quando tive certeza de que ninguém me seguia, empurrei a porta.

Agarrei o tecido fino da camisola. Cada passo até a cama de Cassandra tornava o ar mais espesso, como se eu estivesse mergulhando em um lugar onde respirar era um esforço.

Ela se tornou um punhado de ossos frágeis, prestes a se quebrar com um sopro. Os cabelos ruivos, antes cheios e vibrantes, agora caíam em mechas opacas e grudadas. Afastei os fios úmidos de seus olhos fechados. Senti uma ardência súbita no rosto — só percebi quando as lágrimas escorreram.

Os olhos dela se abriram. Encara­ram-me com uma frieza que eu nunca conheci.

— Você ainda não desistiu? — Sua voz era tão áspera que parecia ter bebido um copo de areia. Não restava nenhum traço da ruiva vibrante e risonha que eu conhecia.

Durante semanas pensei no que dizer: pedir desculpas, perguntar se ela ainda me amava, dizer que a dor de não saber estava me matando. Mas nenhuma palavra saiu.

Eu não estava pronta para ouvir a verdade.

— Não, e nem pretendo. Com quem você acha que eu aprendi essa teimosia? — Tentei despertar alguma lembrança nela, algo que fizesse sua expressão suavizar. Mas ela continuou imóvel. — Cassie, por favor, me diga o que aconteceu. Estou cansada de inventar explicações.

Nada. O olhar dela estava longe — fixo, morto. Isso me matou ainda mais por dentro.

Cassandra era tudo o que eu tinha desde a morte da minha mãe. Ela foi meu primeiro beijo, meu primeiro toque. Nenhum outro corpo me envolveu como o dela. Nenhum outro coração me acolheu como o dela.

Ela agarrou meu pulso. O toque foi como uma descarga: gelado e fugaz. Sua força não fazia jus à aparência fragilizada.

— Você precisa ir embora — disse com firmeza. Quando abri a boca para perguntar por quê, ela já continuava: — Seu pai acordou. Volte para o seu quarto. Agora.

— Como você sabe que ele acordou? — Cassandra se levantou, empurrando-me em direção à saída. — Espera...

Já estava no corredor quando ela parou na porta, olhos fixos no escuro. Brilhavam como os de alguém que pressente um desastre.

— O que você procura vai te destruir, Teresa.

E então, ela fechou a porta.

Parte II — Cicatrizes

As palavras de Cassandra me assombravam. Cada dia era uma tentativa frustrada para encontrar uma resposta. Por que a verdade me destruiria se quem estava sofrendo era ela? Não fazia sentido, a não ser que Cassandra tenha recebido uma punição para me proteger.

Meu coração foi esmagado por essa possibilidade.

Eu sofreria por ela sem hesitar, mas não podia aceitar que ela fizesse isso por mim. Não quando ela tinha passado a vida se submetendo a trabalhos humilhantes por dinheiro. Chegava a ser ultrajante alguém lhe causar ainda mais dor.

— Senhorita Teresa! — A voz alarmada da governanta me trouxe de volta ao presente. Ela correu até mim com uma toalha. Não entendi sua comoção até ver o sangue pingando do meu punho fechado.

Abri a mão. O sangue tingia minha palma. Marcas de unhas se espalhavam na região. Como pude fazer isso sem perceber?

— Precisa ter mais cuidado, senhorita**. — Ela dizia, enquanto limpava minha mão. —** Não está sentindo dor?

Sua pergunta me causou inquietação. A resposta veio até a ponta da língua. “Sim, estou com dor”, mas as palavras foram engolidas antes que eu abrisse a boca. Essa dor não vinha dos ferimentos de unha. Mas a governanta não era a pessoa adequada para ouvir algo tão íntimo. Eu só revelava esses sentimentos para Cassandra.

Mas Cassandra não estava aqui.

O vazio se abriu como um abismo.

— Use luvas durante a festa, senhorita. Assim pode proteger sua mão e esconder os ferimentos.

Era o que minha família fazia. Escondia todas as cicatrizes com tecidos de luxo. Queria acreditar que alguém naquela casa zelava pela minha proteção além de Cassandra. Nem eu mesma fazia isso. Toda vez que aceitava usar a máscara social de uma Blackwood era uma violação contra mim.

Cada sentimento silenciado deixava uma nova rachadura nas paredes.

Não havia Cassandra para me salvar agora. Eu quem deveria salvá-la, e não fazia ideia de como. Não percebi o quanto era impotente até ver Cassandra sofrendo sem que eu pudesse fazer nada. Era algo muito cruel.

Coloquei as luvas. Olhei para o veludo azul cobrindo as feridas abertas. Sufoquei as lágrimas. Nem uma gota poderia ser vista durante a festa.

Por mais que a dor em meu peito estivesse me estilhaçando.

Parte III — Caos

Sentia cada vibração do violino. Observava os músicos enquanto ignorava as conversas ao meu redor. Não nutria o mínimo interesse nos assuntos enfadonhos dos convidados. Estatísticas, acordos, lucros. Pelo menos, isso os fazia esquecer de virem me questionar sobre casamento.

O salão estava preenchido por homens. Poucos trouxeram suas esposas, a maioria levou as filhas. Eles exibiam as meninas como gado para seus colegas, esperando que algum deles fizesse uma proposta irrecusável.

Nojentos.

Cassandra não apareceu para trabalhar. Ela costumava servir bebidas durante as festas. Sua presença encantava até aqueles que a consideravam indigna de respeito. Ela era radiante e cheia de vida. O oposto da criatura apática de ontem.

O som melancólico do piano traduzia a tristeza em meu peito. Um ato de conforto e desespero ao mesmo tempo.

O que deixou Cassandra daquela forma? Eu iria morrer se não tivesse uma resposta.

“Teresa”

Escutei ela me chamando. Pensei ter sido imaginação, talvez um reflexo da minha angústia. Eu tinha certeza de que ela não estava naquele salão.

Em seguida veio um sopro na nuca.

Cravei as unhas no tecido da luva. Não podia reagir bruscamente na frente dos convidados. A última coisa que eu queria era chamar a atenção.

Devagar, virei o corpo para trás.

Cassandra não estava ali. Em seu lugar, encontrei meu irmão me encarando. O desconforto foi inevitável. Por isso que eu me sentia assombrada. Realmente havia um par de olhos demoníacos sobre mim.

Ele era como um rato, espreitava pelos becos mais escuros e se alimentava da sujeira mais podre das ruas. Desde criança eu via o quanto Thomas Blackwood era dissimulado. Um parasita social em todos os sentidos. E, ainda sim, nosso pai o escolheu como sucessor. Não tinha esperança de carregar o título da família, mas também não esperava ser reduzida como  gado.

Eu repudiava cada homem naquele salão.

Algo estremeceu meu âmago. Talvez tenha sido o ritmo do violino se tornando mais frenético.

— Teresa. — Meus pés se encolheram dentro do sapato. Meu pai se colocou à minha frente com uma postura rígida. — Lord Rochester fez uma ótima proposta. Ele é viúvo e experiente, além de te conceder um sobrenome valioso. Você irá se apresentar formalmente para ele após a festa.

Olhei para Lord Rochester.

Ele era mais velho do que meu pai. Quase rasguei a luva quando ele me avaliou com aquele olhar repulsivo. Se Cassandra estivesse aqui, nós duas faríamos inúmeras piadas com aquela cabeça calva. Ela sempre conseguia fazer a pior situação se tornar engraçada.

Mas ela não estava aqui. Não havia mais ninguém para me defender.

— Entendi. — falei contra a vontade. Isso não passou despercebido por meu pai. Tive a sorte de um dos convidados o chamar para conversar naquele momento.

Aproveitei a oportunidade para ir até um ponto mais isolado. O olhar do meu irmão me seguiu. Diferente do nosso pai, ele me encarava com deboche, fazendo uma ameaça silenciosa de revelar meus segredos.

Ele sabia sobre Cassandra e eu? Nunca tive certeza, porém o arrepio em minha nuca dizia que sim.

Encostei na parede. Tive vontade de sentar encolhida no chão e deixar o peso do vazio me afundar. O som do violino me atingiu. As cordas assumiram um ritmo agressivo. Com o punho fechado, desejei com todas as forças que Cassandra surgisse no salão.

Mas nada aconteceu.

Me sentia traída pela fé. Traída por Cassandra. Ela precisava ter uma razão inquestionável para ter se afastado de mim. Se ela não tivesse, significava que nosso amor era tão frágil quanto o ego dos Blackwood.

Lágrimas queimaram meus olhos. Não iria suportar segurá-las por muito tempo.

Olhei ao redor. Cada risada no salão me açoitava como ferro em brasa. Isso não era melancolia. O que crescia em mim era uma força muito mais perigosa.

Ignorando as consequências, dei as costas para a festa e mergulhei no corredor. Nenhuma punição poderia ser pior do que cair no choro em frente àquelas pessoas. Elas não mereciam saber o que habitava no meu coração.

Busquei refúgio na biblioteca. Desde pequena, os livros têm sido meu consolo. Lembrava-me de todos os momentos em que minha mãe os lia para mim. Ela possuía o mesmo brilho de Cassandra, seus cabelos dourados reluziam como ouro. Mas uma sombra a levou embora. Meu pai se recusava a falar no assunto, agia como se nunca tivesse sido casado.

E agora se deitava com todas as putas da cidade.

Não queria pensar assim. A culpa não era daquelas mulheres, porém me enojava saber que elas se deitavam na cama onde minha mãe repousava. E era ainda mais insultante o fato de meu pai manchar a imagem dela daquela forma.

Ele e meu irmão eram iguais.

Dois parasitas. Deveria ter colocado arsênico no vinho do banquete e assistir eles engasgarem.

Cassandra fazia essa voz desaparecer. Ela trazia luz aos meus pensamentos obscuros.

Eu precisava dela.

Não poderia viver sozinha nessa mansão. A ausência do seu amor estava drenando a barreira que construímos. Aos poucos, as dores adormecidas começaram a se sobrepor aos meus preciosos momentos com Cassandra.

Não sabia quem eu era sem ela.

E não queria descobrir.

Corri até a janela. O vento noturno me acariciou. Seu toque suave me lembrou de Cassandra. Tudo me lembrava dela, não importava para onde eu corresse. Ela estava em todo lugar, enraizada nas paredes da casa.

Enraizada no meu corpo.

Deveria ter fugido com ela. Poderia ter pegado o tesouro do cofre e ido morar com ela em um lugar distante, talvez no interior da Itália. Por que não fiz isso?

Contive a vontade de gritar.

Poderia ter envenenado meu pai quando tive a chance.

— Cala a boca. — murmurei àquela voz. Não podia deixá-la falar.

Ela não deveria existir.

Mas eu existo.

Sem minha fonte de luz, estou totalmente vulnerável a essa sombra. Apertei a borda da janela. Não conseguia manter as lágrimas sufocadas. Deixei que elas caíssem. Escorreram como ácido nas bochechas.

O vazio se tornava caos.

— Cassie… — murmurei como uma oração.

Senti outro sopro na nuca. Com a esperança doendo no peito, olhei para trás. Alguém abria a porta da biblioteca.

Poderia ser ela?

Dei um passo para frente. Toda a esperança se esvaiu quando encontrei a figura do meu irmão. O sorriso debochado continuava em seus lábios mentirosos. Talvez eu devesse parar de rezar, não acho que tenha alguém me escutando.

— Nosso pai está furioso por você ter fugido. Precisei vir aqui para te levar de volta. — ele se aproximou — Vou falar só uma vez, Teresa. Siga-me de boa vontade.

Quebre os dentes dele com a enciclopédia.

Abri a boca, mas nada saía. O que estava acontecendo comigo? As palavras entalaram em algum canto da garganta.

Thomas me avaliou.

— Está bêbada? — agarrou meu queixo. — Ou estava imaginando a língua da Cassandra na sua vagina? — ele riu em escárnio.

Meu estômago vibrou. Havia uma vontade incontrolável de colocar algo para fora. Eu precisava respirar. Não me lembrava de como empurrar o ar para os pulmões.

— Vá embora. — foi tudo que consegui dizer. Thomas riu com ainda mais zombaria.

— Você é patética, Teresa. Vá embora. — imitou minha voz — Igual a nossa mãe. Não vou me surpreender se um dia você também cortar os pulsos.

Por que nossa família era assim? Havia alguma maldição sobre os Blackwood. Todos na linhagem do meu pai carregavam a crueldade no coração. Minha mãe não deve ter suportado viver nesse ninho de ratos. Eu não suportava. Também teria feito o mesmo que ela se não tivesse a Cassandra.

Você não tem mais a Cassandra.

Eu não tinha.

Não havia nada entre aquela sombra e eu — exceto a teimosia em me apegar ao restante da minha inocência.

— Vamos logo. — Thomas agarrou meu pulso. Por instinto, puxei de volta.

Ele me encarou contrariado.

— Eu te arrasto até o salão se for preciso, Teresa. — me puxou novamente. Meu corpo lutou. Não sabia o que estava controlando aquelas ações. — Sua puta mimada. — agarrou o meu cabelo. Pontadas dolorosas se espalharam pelo couro cabeludo.

Quebre o pescoço dele.

Entre chutes e socos, sem a mínima sincronia, o acertei algumas vezes até deixá-lo furioso. Suas mãos agarraram meus ombros e ele me empurrou com violência contra uma das estantes. O baque contra minha cabeça me deixou atordoada.

Quando caí no chão, alguns livros despencaram sobre minhas costas doloridas. Tentei me arrastar, mas a tontura tornava cada movimento insuportável.

Algo escorreu em meus cabelos. Coloquei a mão sobre eles e senti a textura pegajosa. O cheiro de sangue era familiar.

Morrer não parecia ruim.

Deitei a cabeça em rendição. Queria ser levada para o sono eterno. Meu pai ficaria aliviado em não ter que se preocupar comigo manchando sua reputação. E eu poderia reencontrar a minha amada mãe.

Estava exausta de tudo.

Senti um calor me acariciar. Reconhecia aquela sensação aconchegante. Quando abri os olhos, a imagem borrada de Cassandra surgiu diante de mim.

— Eu disse que isso a destruiria.

— Já estou destruída. — não tenho certeza se falei em voz alta ou se pensei. — Por favor, me conte o que aconteceu.

Ela hesitou. Havia uma dor profunda em seu rosto. Não sei se a dor estava em seu corpo ou na sua afeição por mim. Eu desejava que fosse a segunda opção. Se Cassandra sentia dor ao me ver sofrendo, significava que seus sentimentos por mim eram reais.

— Eu irei te mostrar.

Parte IV — Destruição

A biblioteca se desfez em uma nuvem de fumaça. Não sentia mais o meu corpo. Busquei por Cassandra em meio ao borrão ao meu redor. Tentei chamar seu nome, mas a minha voz deixou de existir.

Onde eu estava?

Talvez a pancada na cabeça tenha me matado e tudo a partir daquele momento fosse minha transição para a morte. Já estava me convencendo disso quando vi cabelos alaranjados passando do meu lado.

O perfume de Cassandra me invadiu. Aos poucos, o cenário foi tomando forma até eu reconhecer o corredor da mansão. A imagem de Cassandra se tornou clara. Eu não respirava, mas ainda tive a sensação de perder o fôlego ao vê-la caminhando. Nem o uniforme cinza de camareira diminuia seu brilho. Sua beleza não dependia de tecidos luxuosos ou jóias. Ela brilhava mais do que qualquer uma dessas coisas.

Corri em sua direção. Quando toquei o seu ombro, minha mão a atravessou como uma camada fina de neblina. Eu não existia ali, mas estava consciente.

Cassandra continuou andando, alheia à minha presença. Ela sempre ia ao meu quarto de noite com a desculpa de que iria me ajudar a trançar meu cabelo para dormir. Ninguém nunca desconfiou de duas meninas trancadas no quarto, achavam que a gente ficava a noite toda fofocando sobre rapazes.

Tolos.

Nós amávamos fazer todos da mansão de tolos. Esse era o único momento onde eu me sentia viva. Fora daquele quarto, longe de Cassandra, eu me tornava apenas uma submissa aos caprichos dos Blackwood.

Escutei um grito.

Cassandra e eu paramos.

Vi os olhos dela indo em direção à porta que levava ao quarto do meu pai. O grito era feminino, horrorizado e estridente. Tive o súbito desejo de sair correndo, mas não sabia exatamente do que. Cassandra ficou parada com o olhar fixo na porta de madeira maciça. Seu peito subia e descia em uma respiração dificultosa.

Ouvimos um estrondo em seguida. Parecia que alguém tinha caído em cima de um móvel. Tentei agarrar o pulso de Cassandra em vão. Nem a minha força de vontade era o bastante para tirá-la dali. Não sabia o porquê daquela angústia súbita. Eu pressentia que algo iria machucá-la.

Passos percorreram o quarto. Cassandra deu um passo para frente. Pela primeira vez enxerguei sua coragem como um ato de estupidez. Ela não devia se meter nessa situação. Por que ela não corria dali? Debati os braços em um impulso desesperado para alertá-la.

A porta do quarto se abriu em um rompante. O som deve ter despertado até os mortos. Me coloquei à frente de Cassandra, ainda me agarrando à ilusão de que eu poderia protegê-la.

Uma garota saiu do quarto.

Ela parou no corredor, ofegante e com os olhos saltados. Suas roupas de tecido fino denunciavam que deveria ser uma das garotas que trabalhavam no bordel da cidade. Elas usavam vestimentas parecidas, como uma mancha expondo o tipo de serviço que ofereciam.

Queria ignorá-la, mas os hematomas nos seus olhos me impediram de desviar a atenção.

— Me ajuda, por favor. — Tive a impressão de que ela estava falando comigo até escutar a voz de Cassandra.

— O que aconteceu? — Cassandra passou por mim e foi em sua direção. Ela sempre deixava sua empatia falar mais alto, acolhia qualquer um pedindo ajuda. Não sei porque isso me deixava tão nervosa agora.

— Ele matou todas elas… — havia sangue em seus lábios — Por favor, me ajude…

Quem estava matando quem? Aproximei-me do quarto e encontrei meu pai desacordado perto da antiga penteadeira da minha mãe.

Infelizmente, ainda estava vivo.

Esse não era o momento de deixar a voz falar. Precisava manter a racionalidade. Cassandra precisava de mim, embora eu soubesse que não poderia fazer nada para mudar o rumo dos eventos a seguir. Retomei a atenção para a garota trêmula com as roupas quase caindo do corpo. Ela agarrava a parte superior do vestido como uma armadura.

— Como posso te ajudar? — Por Deus, Cassie, onde estava seu senso de preservação? Ela nem mandou a garota revelar o que aconteceu antes de oferecer ajuda. E se a menina estivesse mentindo?

Mas ela não estava.

Por isso a minha revolta era tão grande. Se Cassandra estava me mostrando isso, então aquela garota deveria ter sido a causa de tudo.

— Por favor, me ajuda a fugir daqui. — suplicou.

Eu a odiava.

Não queria sentir isso. Essa garota nem tinha alcançado a maioridade. Isso era repugnante. Mas eu não conseguia engolir a raiva. Não era raiva da garota, mas por ela ter colocado Cassandra em perigo.

— Venha comigo, rápido. — Cassandra segurou a sua mão trêmula e a guiou pelo corredor. Em nenhum momento duvidou do que a menina dizia. Poderia ficar furiosa com isso, mas sabia que essa era a verdadeira Cassandra.

Ela nunca abandonaria uma mulher precisando do seu auxílio. Eu a ouvi dizer isso tantas vezes enquanto contava sobre as encrencas que se metia para defender as outras criadas.

Você sabe o fim dessa história.

Eu me recusava a pensar nisso. Sufoquei a voz do abismo e segui as duas pelo corredor. Elas atravessaram a mansão em silêncio até alcançarem a saída. Cassandra não tinha as chaves das portas, então ajudou a garota a escapar pela janela. No processo, ela segurou o pulso de Cassandra. Seus olhos se arregalaram de uma forma assustadora. Pensei que saltariam das órbitas.

— Ele esconde embaixo da mansão. — olhou ao redor como se estivesse sendo observada — Você precisa ir embora daqui. Todas devem ir embora. Você não tem ideia das coisas… Por favor, fuja desse lugar.

— Do que está falando? — enfim, Cassandra questionou. Por trás da sua coragem, eu percebia o medo crescendo lentamente.

— Não posso me comprometer, desculpe. — Passos no andar de cima nos interromperam. A garota soltou o pulso de Cassandra e pulou para fora da janela como se estivesse fugindo do próprio Diabo. — Vá embora desse lugar! — alertou antes de correr pela noite.

Dessa vez, não precisei me preocupar com a audácia de Cassandra, ela correu antes dos passos chegarem na escada. Senti um alívio até me lembrar de que aquilo eram memórias do passado. Cassandra podia ter fugido agora, mas o destino era inevitável. O alívio se transformou em agonia.

Não havia nada que eu pudesse fazer.

Nada.

Isso me fez querer morrer.

Olhei para a escadaria principal. Os passos vinham num ritmo predatório. O mundo se fechou ao meu redor, me engolindo em uma aura densa. O dono daqueles passos carregava algo pesado, opressivo e sufocante. Enxerguei sua silhueta no primeiro degrau.

É ele. Você sabe.

Não tinha certeza do que sabia. Nunca tive. Mas aquela dúvida sempre esteve ali. Encarcerada em minha mente pelas grades do medo. As palavras de Cassandra começaram a se repetir como uma profecia:

“O que você procura vai te destruir, Teresa”

Lembrei da imagem do cadáver de minha mãe. Seus pulsos possuíam um corte tão fino na horizontal. Não era o bastante para matar. Eu sabia disso porque fiz o mesmo corte em mim. Como não possuía conhecimento médico, não podia fazer afirmações sobre um assunto que não dominava.

Ensinavam-nos, desde pequenas, a confiar somente nos homens de terno, toga e jaleco branco. Afinal, eles possuíam o conhecimento. Nós, Cassandra, eu, minha mãe e as garotas do bordel, éramos apenas mentes incapazes de acompanhar a lógica prolixa dos homens. Questioná-los era considerado estupidez, mesmo quando qualquer tolo podia enxergar a verdade.

O feixe pálido do luar iluminou a escadaria.

Encontrei o rosto do meu pai.

Queria confrontá-lo. Começaria pela morte da mamãe, faria ele admitir o que fez com ela. O calor retornou ao meu estômago. Queimava com mais intensidade. Com fome. O vazio em mim ansiava por ser alimentado.

Estiquei as mãos para agarrá-lo. Queria empurrá-lo da escada. Mas ele me atravessou. O fogo interno se transformou em um sopro de gelo quando vi ele indo em direção ao corredor que levava aos aposentos das criadas.

Onde Cassandra dormia.

Não.

Por favor, não.

Você sabe o que vai acontecer.

Corri para impedi-lo, mesmo sabendo que não podia. As lágrimas entaladas formaram uma tempestade em meu peito. Trovões violentos anunciavam a tragédia prestes a acontecer. Não havia como atravessar sem naufragar. Cada passo do meu pai em direção ao quarto de Cassandra me inundava.

Os olhos dele estavam tomados por um brilho cruel. Não era como os olhares de desprezo que me dava. Esse era diferente, desumano e brutal. Até as pinturas congeladas nas paredes tinham mais humanidade do que ele.

Implorei por qualquer intervenção divina que pudesse me escutar. Mas nada aconteceu. Meu pai continuou andando e, por fim, parou em frente à porta do quarto. Girou a maçaneta sem pedir licença. Ele se orgulhava de ser o dono da propriedade e tudo dentro da mansão o pertencia.

Inclusive as pessoas.

Ele entrou no quarto.

Não queria ver o que iria acontecer. Fui empurrada até a porta aberta. Não poderia sair dali sem ver a verdade com meus próprios olhos. Esse era o passo decisivo, sabia que depois de olhar dentro do quarto eu nunca mais seria a mesma. Meu mundo desapareceria. Tudo que achava que conhecia seria desfeito.

Tempestade e fogo se cruzaram.

— Onde ela está? — ouvi meu pai dizer. Ele estava parado em frente à cama. Cassandra se encolhia sobre o colchão, as mãos agarradas na barra do uniforme cinza.

— Ela quem, senhor? — Cassandra mentia mal. Não fazia parte da sua natureza fingir. Mas eu queria que ela tivesse aprendido a fazer isso.

— Pensei que fosse mais esperta, Cassandra. — ele se inclinou até estar na mesma altura que ela — Me conte a verdade e prometo ser misericordioso. Não fui um bom senhor para você? Posso continuar sendo.

Parte de mim gritava para Cassandra dizer a verdade. A vida de uma prostituta não valia mais do que dela. Mas a outra parte se lembrava dos hematomas daquela garota e do seu corpo adolescente. Eu não seria capaz de condenar uma menina. Agora, diante dessa decisão, não conseguia ter raiva da integridade de Cassandra. Ela não era a culpada e nem aquela pobre garota.

Ele era o culpado.

O homem que condenou as duas.

Eu sabia qual seria a resposta de Cassandra.

— Não sei de quem está falando, senhor. — sentenciou com o olhar firme. Ela não abaixou a cabeça nem quando a morte estava diante de si.

Meu pai a agarrou pelo pescoço. Selvagem e possessivo. Podia compará-lo a um animal, mas os animais matam para se alimentar e para se defender. Ele não. Cassandra não lhe oferecia ameaça, mesmo se ela contasse para alguém sobre a garota, quem iria acreditar na palavra de uma criada? Havia inúmeras alternativas, mas ele escolheu a pior delas. Não para se defender. Ele escolheu porque queria.

E porque podia.

— Já que deixou minha coelhinha fugir, então será a substituta dela. — O sorriso sádico em seus lábios nojentos fizeram o fogo vencer a tempestade. Tremia, incapaz de conter e ebulição tomando conta de cada parte da minha alma.

Meu pai se levantou e veio até mim. Eu o encarei, desejando que sentisse o incêndio prestes a devorá-lo. Com aquele sorriso repugnante, ele fechou a porta. Os gritos de Cassandra ecoaram pela mansão. Todos a ignoraram.

O vazio virou caos.

E, agora, o caos virava destruição.

Parte V — Morte

O cenário foi borrado. Cassandra me impediu de assistir a sua morte. Mas ouvi cada um dos seus gritos. Eles iriam me assombrar até meu último suspiro.

Onde eu estava na hora em que ela foi assassinada?

Você estava triste porque ela não tinha ido até seu quarto.

Eu me lembrava agora. Meu coração estava tão apertado naquela noite. Tive pesadelos terríveis com alguém tentando me sufocar. Pensei ter sido apenas um delírio. Meu pai sempre dizia que eu era delirante.

Como pude ser tão estúpida em acreditar nele? Eu me odiava tanto. Não por não ter percebido o que acontecia embaixo do nosso teto, mas justamente por ter ignorado minha intuição. Podia ter feito alguma coisa para impedir o destino de Cassandra se não tivesse sido tão covarde.

— Não é sua culpa, Tess. — a voz dela veio até mim como um acalento — Você precisa se levantar agora. Não desista, por favor. Lute. Por mim, por sua mãe.

Mamãe.

O peso do ódio dobrou sobre mim. Ódio por não ter salvado quem eu amava, ódio por ter sido tão submissa e ódio pelo homem que eu chamava de pai.

O fogo se alastrou. Incontido, desesperado para engolir tudo pela frente em suas chamas.

Deixe-me sair, Teresa.

Eu ri, um som agudo e insano. Não precisava dar permissão para aquela voz sair. Ela nunca iria embora, estava incrustada nos meus ossos e se enraizava no meu coração. Minha inocência morreu com a mamãe. E agora a humanidade morria com Cassandra. A luz cedeu à escuridão. Estranhamente, isso veio acompanhado de uma sensação libertadora.

Quando abri os olhos, encontrei Thomas em cima de mim. Os olhos dele eram sádicos como os do nosso pai. Ele pretendia me matar, não precisava de provas para isso. Dessa vez iria acreditar no meu próprio instinto.

Escutei uma risada nas profundezas do abismo.

— Pensei que tivesse morrido. Ficou parada igual um cadáver durante minutos. — podia ver que parte da sua confiança se desfazia. Eu acho que ele não planejava me matar acordada. Queria me enterrar em silêncio.

Thomas seria o primeiro a ser consumido.

A fome borbulhou. Com força, agarrei os cabelos dele e puxei seu pescoço para baixo. Ele disse alguma coisa, mas não me importei em escutar. Senti o cheiro da sua carne podre com tanta sujeira impregnada. Ele fedia, assim como meu pai e assim como todos aqueles velhos na festa.

O ódio não iria se satisfazer com pouco.

Ele queria devorar tudo.

Cravei os dentes no pescoço de Thomas. Ele gritou em um som agonizante. O gosto da sua dor era um deleite. Queria fazê-lo se sentir tão indefeso quanto eu.

O empurrei para longe e me levantei. Cuspi seu sangue. Thomas engasgou algumas palavras até pousar o olhar atônito sobre mim. Ele não esperava por isso da sua doce irmãzinha. Não havia necessidade de verbalizar nada. Thomas transparecia tudo. O choque era explícito em sua feição contorcida.

Ninguém esperava uma atitude bruta da Teresa. Eles me olhavam sempre de cima, alguns com piedade e outros com aquele sorriso debochado. Todos eles achavam que eu nunca seria capaz de tomar o lugar do predador ao invés da presa. Eu mesma acreditava nisso.

Não mais.

Olhei para a enciclopédia na estante. A edição pesada com capa de couro se destacava. Quantas páginas ela tinha mesmo? Eu acho que cerca de dois mil. Nunca tive vontade de ler. Ela me despertava outro tipo de interesse.

Tive vontade de fazer isso tantas vezes, aquela voz do abismo era somente um eco dos meus desejos reprimidos. Eu entendi isso agora.

Teria ficado aterrorizada se não estivesse me sentindo tão poderosa. O sabor do poder era viciante. Não era à toa que os homens morriam em busca de uma gota dele. Eu controlava as minhas ações e o rumo da situação. O que eu decidisse se tornaria realidade.

Ninguém poderia me impedir.

Peguei a enciclopédia. O peso fez meu pulso tremer. Tive que segurá-la com as duas mãos.

Thomas se arrastou pelo chão quando me aproximei. Ele sabia qual era a minha intenção. Talvez porque ele mesmo tenha pensado em usar aquele livro dessa forma. Afinal, éramos irmãos e devíamos ter algumas coisas em comum, tipo o apetite por quebrar os ossos de quem odiamos.

— Teresa, por favor…

Eu poderia fazer um discurso agora. Dizer o quanto essa família era desprezível, fazer ameaças sobre expor todos os podres dele e do nosso pai e gritar histericamente. Mas do que isso adiantaria? Thomas nunca mudaria. Ele escolheu se tornar um homem repulsivo. Não merecia uma justificativa.

Homens como ele só mereciam sofrer. Nossas palavras eram muito valiosas para serem desperdiçadas com criaturas tão medíocres.

Ergui a enciclopédia.

Respirei.

O primeiro impacto quebrou o maxilar dele. O estalo seco do osso foi um deleite proibido. O segundo quebrou seu nariz. Depois do terceiro, parei de contar. Cada fratura acendia uma sensação revigorante.

Poder. Vingança. Ódio.

Só parei de golpeá-lo quando meu pulso latejou. O rosto de Thomas era agora uma máscara grotesca de carne inchada e sangue. Irreconhecível. Nunca imaginei ser capaz de tamanha brutalidade.

E se eu fosse igual ao meu pai?

O pensamento me fez recuar.

Não queria ser como ele. Mas também queria matar. Entre nós havia uma linha tênue demais.

— Você não é igual a ele, Tess. — Cassandra surgiu ao meu lado com a aparência frágil de ontem.

Larguei a enciclopédia. Ela caiu com um baque no chão. Só então me dei conta da dimensão do seu peso. Como pude segurar aquilo por tanto tempo sem vacilar?

— A mesma violência habita em mim Cassie. — minha voz falhou. — Não eram só pensamentos.

O ódio oscilou quando encontrei seus olhos. Mesmo ofuscados pela dor, eles ainda eram os mais bonitos que existiam.

— Sua violência nasceu da injustiça. Eu sinto o mesmo ódio. Por que deveríamos nos culpar? Eles nunca se culparam.

— Mas eu ainda estou viva. — engoli seco. — Não me sinto no direito de justificar… você quem… — não fui capaz de verbalizar. Cassandra entendeu, pude notar através do seu olhar carregado de amargura.

— Sofremos violências diferentes, Tess. Uma não é maior do que a outra. Você não escolheu ser assim. Diferente dele — pressionou os lábios — Seu pai escolheu ser um monstro. E, acredite, ele desfruta de cada momento.

— Eu… eu desfrutei também.

Cassandra sorriu, delicada. Meu monstro adormeceu. Estendi a mão, mas o toque atravessou seu rosto. Senti apenas um calor fugaz. Meu coração foi destruído ao saber que nunca mais a tocaria novamente. Não sentiria seus lábios, sua pele ou sua respiração quente.

Nunca mais.

— Não foi prazer em matar. Foi prazer em revidar. Prometemos nunca mentir uma para a outra. Então acredite: você não é igual a ele.

— Mas eu quero matá-los. Todos.

— Por quê?

A resposta já me queimava por dentro. Sempre esteve ali, escondida nas feridas que fingi ignorar. O olhar repulsivo de Lord Rochester. O desprezo do meu pai. As risadas sujas do meu irmão.

Eu os odiava com uma fúria que me consumia.

— Porque eles roubaram tudo de mim. De nós.

Olhei para minhas mãos.

As luvas estavam cobertas com o sangue de Thomas. O veludo precioso, manchado para sempre. As criadas sempre diziam: mancha de sangue nunca sai.

Elas estavam certas.

Cassandra me fitou em silêncio.

— Então roube tudo deles também.

A morte apagou seu brilho. Ela não era mais a moça radiante, assim como eu não era mais a moça retraída. Podia ouvir as paredes da mansão racharem. Os pilares que a sustentavam deixariam de existir.

Olhei para Thomas desfigurado. Não precisava me preocupar com seu cadáver.

Em breve, teriam muitos outros.

Parte VI — Sussurros

O barulho da festa desapareceu. Já não ouvia nem o assovio do vento lá fora. Olhei para a escadaria de pedra diante de mim. Ela levava ao subsolo da mansão, parecendo o caminho para as profundezas do inferno — embora Cassandra tivesse me afirmado que esse lugar não existia.

Iluminei os degraus, mas a luz não alcançava o fim. Nunca havia entrado aqui. Mamãe dizia que abaixo das escadas só havia ratos e esgoto antigo. Os criados, por sua vez, contavam lendas sobre fantasmas assombrando o subsolo. Acho que ambas as teorias estavam perigosamente próximas da realidade.

— Eu consigo ouvi-las. — Cassandra disse.

— O que elas dizem?

Tive a impressão de escutar um lamento profundo vindo das escadas. Lembrei das palavras daquela garota. Como ela descobriu o que tinha lá embaixo? Talvez nem estivesse mais viva para nos contar. Meu pai deve ter ido atrás dela depois da fuga. Ele não a deixaria escapar ilesa.

— Estão nos chamando — disse num sussurro solene.

Seria ironia ter medo de mergulhar em um local assombrado quando eu estava acompanhada de um fantasma. Não havia razão para temer os mortos. Pelo contrário — eles eram os únicos que sabiam de toda a verdade.

Respirei fundo. O ar gelado me fez tremer. Estiquei a mão para segurar a de Cassandra, mas me lembrei do nosso limite. Ela me deu um olhar triste.

Não precisava tocá-la de fato. Sua presença bastava para que eu a sentisse comigo

Descemos os primeiros degraus.

Mantive a lamparina na altura do rosto. Cassandra ia na frente, virando a cabeça de tempos em tempos para me dar olhares de incentivo. Queria saber como era estar no outro plano, mas talvez essa fosse uma pergunta indelicada no momento.

— Cassie. — quebrei o silêncio.

— Sim?

Nossas vozes ecoavam através das paredes de pedra.

— Me desculpe por não ter te salvado. Eu sabia que não tinha como... mas isso não diminui a sensação de fracasso.

Cassandra se virou para mim.

— Você não tem culpa de nada. Por favor, Tess, não carregue um fardo que não te pertence. — seu olhar era compassivo — Foi culpa dele. Só dele.

As lágrimas escaparam. Não precisava conter o choro diante de Cassandra. Deixei que os sentimentos entalados escorressem por um tempo: culpa, melancolia, arrependimento. Eu não podia me esquecer da nossa missão, mas sentia como se o choro fosse me engolir.

— Tess. — ela sorriu — Andar alivia o peito. Eu sempre me sentia melhor depois de uma caminhada. Você se lembra?

— Sim, eu me lembro.

As lágrimas escorriam até meus lábios, salgadas, enquanto eu mantinha a cabeça baixa, descendo mais um degrau.

— Você gostaria de esquecer nossas memórias? — a pergunta veio em tom velado, quase temeroso.

Continuei a andar. Ela sabia a resposta, mas precisava ouvi-la. Cassandra devia achar que eu pararia de sofrer caso não me lembrasse de nós.

— Nunca. Você me deu as minhas melhores lembranças. Nenhuma tragédia pode apagar isso.

O silêncio que se seguiu era denso, necessário. Minha respiração soava pesada. As pernas ardiam de dor; eu ainda não havia me recuperado da luta com Thomas. Os braços vacilaram, e precisei segurar a lamparina com as duas mãos.

Foi então que senti uma corrente de ar.

Um cheiro úmido, como o de um cemitério após a chuva, invadiu meus pulmões: lama, podridão, catacumbas fechadas há séculos. Cassandra me lançou um olhar de incentivo.

Avançamos até o último degrau. O corredor de pedra se abriu diante de nós, conduzindo a uma caverna profunda. A vibração do solo parecia ressoar nos meus ossos. Ali, segredos haviam sido enterrados.

O odor de decomposição me envolveu.

Abaixei a lamparina.

O corpo de uma garota jazia diante de mim. Sua carne sendo devorada por roedores. Os olhos congelados nas órbitas. Chutei um rato que tentou escalar minhas pernas. Ele guinchou e correu pela trilha escura — onde outro cadáver repousava.

E outro.

E mais outro.

As lágrimas queimaram meus olhos. Não era piedade. Era ódio. Indignação. Repulsa. Apertei a lamparina até sentir meus dedos afundarem na própria pele.

Lembrei das palavras da garota em fuga: “Ele esconde embaixo da mansão.”

Cassandra não foi a única vítima.

Ele não era apenas um assassino. Era um viciado em matar. Um compulsivo. Apontei a luz para as roupas ensanguentadas. As gargantas cortadas, os braços dilacerados, os rostos deformados como bonecas partidas. Não bastava a ele roubar a vida delas. Precisava torturá-las, degradar seus corpos. Transformar sofrimento em espetáculo.

O que levava um homem a tamanha crueldade?

Poder.

Eu também já senti o gosto do poder. Mas não assim. Não dessa forma. Olhando para aqueles corpos esquecidos, percebi que não era como ele. Podíamos carregar sombras, mas não éramos iguais. Cassandra tinha razão: ele escolheu esse caminho.

Eu fui empurrada para a violência. Se não tivesse matado Thomas, ele teria me matado. Minha sede de sangue não era apenas vingança: era proteção. E agora eu via que não se tratava apenas de mim. Era sobre impedir que ele arrastasse mais garotas para aquele abismo.

O fogo ardeu dentro de mim, pronto para consumir a mansão inteira.

Olhei para Cassandra.

— Se o inferno não existe, então eu irei criá-lo.

Parte VII — Renascimento

5 de novembro de 1890

O trágico incêndio na mansão Blackwood ceifou a vida de quinze pessoas, entre elas o senhor Arthur Blackwood, seu filho Thomas e seus estimados colegas de trabalho. Após uma investigação considerada meticulosa, as autoridades concluíram que o fogo teve origem em um descuido dos responsáveis pela cozinha naquela fatídica noite.

Embora tais circunstâncias tenham custado a vida de homens de tão ilustre reputação, a atual Lady Blackwood — uma das poucas sobreviventes — declarou não pretender castigá-los. Tal gesto de clemência tem sido recebido com severa censura pelos familiares das vítimas; ainda assim, é compreensível que a jovem Teresa, após perder seus últimos parentes consanguíneos, tenha adiado o julgamento para o período além do luto.

Por ora, Lady Blackwood recolheu-se à antiga residência da família, em Edimburgo, até que a mansão Blackwood seja restaurada. Estima-se que as obras demandem anos, mas a jovem já anunciou que continuará administrando os negócios de seu falecido pai e, mais ainda, que pretende expandi-los, a fim de honrar seu nome.

Inúmeros pretendentes, movidos tanto pela compaixão quanto pela ambição, já lhe ofereceram matrimônio — nenhum, até o presente momento, foi agraciado com resposta. O futuro da dama permanece envolto em incertezas e tem despertado a mais viva curiosidade entre os círculos londrinos. Quanto a mim, ouso acreditar que seria sábio conceder-lhe o silêncio e o tempo de que necessita. Tenho a convicção de que, quando sua sombra emergir do luto, Lady Blackwood nos brindará com notícias de arrebatadora magnitude.

Aqui deixo meus mais sinceros pêsames à distinta Lady e às famílias que se encontram enlutadas por tão horrenda tragédia. Que Deus guie as almas dos que partiram até a morada da paz eterna.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Monica Maria

Desde a infância, cultiva uma paixão por romances sombrios, investigação criminal, literatura gótica e ocultismo. Iniciou sua escrita com fanfics inspiradas em suas bandas e livros favoritos, descobrindo cedo o desejo de transformar palavras em profissão. Após sua estreia em um podcast de horror, fez uma pausa para cuidar da saúde mental. O diagnóstico de autismo trouxe novos olhares sobre si mesma. Hoje, aos 32 anos, transforma antigas dores em narrativas viscerais. Além de escritora, atua como cartomante, magista e criadora de conteúdo no Instagram e no TikTok. » instagram da autora
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Mãos esqueléticas e femininas, de dedos feridos e unhas roídas, penduraram pouco acima da janela apodrecida, num prego comprido e enferrujado, um…

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

Mãos esqueléticas e femininas, de dedos feridos e unhas roídas, penduraram pouco acima da janela apodrecida, num prego comprido e enferrujado, um singular bebedouro adaptado. Talvez outrora tivesse servido aos beija-flores, porém agora, com nova aparência, serve obscuros seres. No recipiente, nada de água açucarada, e sim grosso líquido de textura diferenciada, de cor escura e avermelhada.

O cheiro de dama-da-noite conduzia os mamíferos voadores rumo ao leal agrado pela triste moça entregue de bom grado. Na janela e à espera dos morcegos, a moça fitava alucinada o bebedouro, um riso melancólico e uma triste canção de amor, a fim de disfarçar a dor, moviam seus ressecados lábios rachados. Pensava no amado bestial, no belo monstro sobrenatural e fatal ao qual a alma entregou desejando um amor infernal.

Com a cabeça entre as mãos frágeis, jubilou tímida quando, da janela, avistou os voadores ágeis. Entretida e imersa na aérea dança macabra pelos morcegos executada, não percebia e nem sentia o sangue deslizar sereno, em funério e mortal encantamento, dos talhos profundos de seus pulsos até os secos cotovelos.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Gabriella Batista

Gabriella Batista nasceu em 1994, é graduada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e certificada em Teoria Literária e Literatura Universal. É escritora e autora de poemas, prosas poéticas e contos, tem textos publicados em diversas antologias, trabalha na área da educação e mantém o Instagram literário e artístico » Instagram da Autora
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Devota

Bebe do meu pescoço, | dos meus seios, das minhas coxas... | Bebe até o sangue de minh'alma. | Some, deixando-me anêmica e louca…

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

Bebe do meu pescoço,
dos meus seios, das minhas coxas...
Bebe até o sangue de minh'alma.

Some, deixando-me anêmica e louca
na cama suja e de acre odor
de suores febris de noites torpes.

Não tarde, por favor!
Não demore, meu demônio!
Os anjos abandonaram meu pranto,
mas você, meu monstro Nosferatu,
atendeu à minha desprezada prece.

Espero seu retorno, meu vampiro...
Volte e faça de mim o seu cálice novamente.
Valei-me, Santo Vampiro!
Valei-me...

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Gabriella Batista

Gabriella Batista nasceu em 1994, é graduada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e certificada em Teoria Literária e Literatura Universal. É escritora e autora de poemas, prosas poéticas e contos, tem textos publicados em diversas antologias, trabalha na área da educação e mantém o Instagram literário e artístico » Instagram da Autora
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Sonho Mortal

No topo de uma profanada capela | nos antros de um cemitério | está ela, a vampira infernal, | feito gárgula fêmea ensandecida | sobre um macho cadáver humano.

Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No topo de uma profanada capela
nos antros de um cemitério
está ela, a vampira infernal,
feito gárgula fêmea ensandecida
sobre um macho cadáver humano.
Dos seus lábios, e a gotejar das presas,
escorre o sangue quente a esfumaçar
ao toque da brisa fria sob o luar.
O corpo nu cor de mármore,
de bestial sensualidade feroz,
imobiliza a vítima desfalecida
no glacial entrelaçar
de fortes braços e pernas
e unhas de lâmina cortante.
Um grito sai de sua garganta saciada,
com olhar de besta taciturna
encara o morto com malícia primitiva
antes de lançá-lo ao solo dos finados.
A face falecida e contorcida
tem as marcas do feitiço da vampira.
Morreu possuído por um delírio
no qual voava e em um céu rubro
nas garras de um anjo infernal,
com formas e poder de mulher,
que o matou com doloroso prazer
ao cair cativo e em luxúrias
em um leito de lençóis de labaredas.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Gabriella Batista

Gabriella Batista nasceu em 1994, é graduada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e certificada em Teoria Literária e Literatura Universal. É escritora e autora de poemas, prosas poéticas e contos, tem textos publicados em diversas antologias, trabalha na área da educação e mantém o Instagram literário e artístico » Instagram da Autora
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Um ser vampírico fala

Detenho um coração morto. É fato incontestável, mato e mato por ser um monstro, mato por sede e pelo prazer de matar. A humanidade, que outrora foi o…

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

Detenho um coração morto. É fato incontestável, mato e mato por ser um monstro, mato por sede e pelo prazer de matar. A humanidade, que outrora foi o sopro de minh’alma, falece moribunda no velório da memória.

E nesta existência condenada, em cismas reflito em meus bestiais rancores e raivas:

O homem, miserável animal de racionalidade frágil e digna de pilhéria, também mata e assombra almas e corpos por “amor”. É monstro legítimo, monstro de sangue e, em essência, é tão monstro quanto eu.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Gabriella Batista

Gabriella Batista nasceu em 1994, é graduada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e certificada em Teoria Literária e Literatura Universal. É escritora e autora de poemas, prosas poéticas e contos, tem textos publicados em diversas antologias, trabalha na área da educação e mantém o Instagram literário e artístico » Instagram da Autora
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