Capítulo 4: Medos e Fraquezas

O céu era de uma profunda escuridão estrelada. Eu estava próxima de um arvoredo denso cujo negrume das copas, banhadas pelo caráter do infinito acima…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O céu era de uma profunda escuridão estrelada. Eu estava próxima de um arvoredo denso cujo negrume das copas, banhadas pelo caráter do infinito acima, se condensavam em sombras oscilantes. Eu parecia só, embora uma presença se manifestasse próxima, como se contemplasse cada um de meus movimentos. Eu colhia flores de um azul límpido e fosco que envolvia, em arbustos pequenos, os arredores daquela floresta. Ao meu lado, e carregado por mim conforme eu caminhava para um pouco mais adentro da balça ou para os lados onde mais flores assomavam, um cântaro. Eu estilava as flores dentro do cântaro com água límpida, uma infusão lenta e à frio. Aos poucos, a água que era mesmo hialina, azulescia e ganhava um sabor cítrico adocicado e uma textura encorpada. Embora eu estivesse feliz com as flores colhidas, eu sabia e tinha uma certeza inenarrável de que, mais à fundo naquele balcedo, eu encontraria as melhores flores para a infusão. Era perigoso, no entanto, seria de fato um deleite encontrá-las, pois, através daquela memória, parecia-me se tratar de uma data especial e, por esta razão, eu preparava a bebida. 

Escrever a lembrança não transfere a dor mórbida que atravessara meu cerne mais uma vez. Segurei meu coração pelo toque no tórax, arrastei-me à porta do cômodo para abri-la; meu corpo frêmito suava e a morte parecia envolver a minha alma. Um pânico tétrico conduzia minha visão que se escureciam aos poucos em razão da algia horrenda. Cai sobre o assoalho em um corredor e apenas gritei por socorro, pois, àquele instante, a dor perdurava diferente de outrora, aguda estalando em cada órgão de meu corpo e mais, aturdindo minha mente e mortificando-a. A cada nova lembrança a dor parecia ascender e eu não suportava mais. Fui segurada rapidamente por aquelas pessoas que me receberam com afável conduta, ouvi suas vozes longínquas, como se estivessem no horizonte eterno. “Virëhs nohlom, nohlom virëhs! Nill’aeme! Nill’aeme!” — Ouvi, diversas vezes. Fui levada para fora da casa e uma fogueira pálida fora acendida, a flama crepitante luzia e aquecia meu corpo enquanto a dor perdurava. Envolveram-no em um manto e deram-me um liquor amargo para sorver; tinha notas de cacau e fundo férreo com aroma silvestre. Como um entardecer sereno, a agonia torturante esmoreceu gradativamente conforme sorvia do liquor. Muitos dos residentes quais me recepcionaram desde o início naquela vila, ficaram em volta da fogueira e olhavam-me atentos. 

Te sentes melhor? — Dissera a mesma voz feminina, era ela a que me acomodara naquele aposento. Movimentei-me a cabeça para concordar com sua indagação, falar era-me árduo demais. — Algo insalubre deleita-se sinistro em tua alma, jovem... — Senti seu toque em meu rosto. — Estás febril... — Ela olhou para um dos outros. — Somme Glizullahs aelim. — Proferiu a ele, aquilo o fizera levantar-se rapidamente e adentrar uma das casas próximas; parecia ter sido ordenado a fazer alguma coisa. Assim, portanto, o silêncio abrandou a todos e a mim; ouvia grilos pela floresta ao redor da vila e outras criaturas cujos sibilos eu não saberia identificar. Alguns dos cidadãos, mais aliviados, assaram alguns frutos à chama tórrida enquanto conversavam entre si naquele idioma pulcro. Quando o horror cessara de fato, aquele que fora embora a mando da mulher retornou com uma cumbuca contendo algum tipo de alimento. — Coma. — Ela dissera. Olhei para aquilo e vi que se tratava das mesmas bagas dadas por Seth, as quais recusei; estavam submersas em um líquido vermelho vivo e acompanhadas por folhas semelhantes ao louro. Degustei sem receios. Era uma iguaria de sangue frutado, agridoce, com uma leveza picante. 

O que é este lugar? — Murmurei, todos me ouviram e silenciaram. 

Estás em Séttimor, querida minha; uma vila construída com afabilidade e honra. 

Somos os séttimôros! — Afirmou alegre uma das crianças próximas, parecia não conviver tanto com o meu idioma, mas o compreendia em certo nível. 

Sou Liliana. — Ela tinha parte do rosto ausente, como se nunca tivesse existido. Seu olho direito, no entanto, reluzia vítreo e seus longos cabelos brancos eram finos, esvoaçantes e ondulados. Impressionei-me com suas vestes, tecidos costurados entre si, em tons prateados. Pormenores quais só pude observar naquele momento. Todas as meninas e mulheres se vestiam de maneira semelhante; os homens e meninos possuíam tecidos menos prateados e com nuances em carmim escuro. Também usavam cortes diferentes, mais leves que os femininos. As roupas indicavam parte crucial da cultura da Vila, eu acreditava assim; eles se complementavam, davam-me essa certeza tão somente ela forma como se comportavam. 

Obrigada por tão gentil acolhimento, Liliana. Receio não poder apresentar-me com meu nome, pois, perdi minhas memórias e não me reconheço mais naquela que fui... porventura nem mesmo nesta que sou... — Liliana sorriu, ternamente, tocou-me as mãos aquecidas. 

Deve ser, então, o exato momento de resignificar-se a si mesma, minha querida. — Ela disse e suas palavras, desde então, colidem em minha consciência.  

Posso ficar aqui? — Pedi com a voz embargada. Liliana expressava uma mansidão magistral. 

Adoraríamos que pudesses ficar, no entanto, tu sucumbirias ao Paradoxo da Atemporalidade em, pelo menos, algumas noites. — Explicara. — Sei que pode parecer confuso, no entanto, desde que o primeiro séttimôro encontrou os arredores do Castelo Drácula e de lá, do Castelo, foi expulso; temos lidado e aprendido com o Paradoxo que existe pela ausência de tempo e de espaço. 

Percebo haver algo estranho, de fato, com o tempo deste lugar e em como tudo acontece rápido em demasia ou tão vagarosamente quanto a eternidade... 

Sim. Dentro do Castelo, querida, a Magia de Olga Nivïttz protege seus residentes do Paradoxo, no entanto, aqui fora... — Liliana respirou fundo, parecia pensativa. — Aqui não há proteção. — Doeu-me ouvi-la amargurada. 

Olga pareceu-me tão cortês. Por que ela os expulsa do Castelo? Deixando-vos ao léu dos perigos insalubres? 

Ela decerto tem suas razões, querida virëhs. Sabemos que somos diferentes dela e de todos os residentes do Castelo, algo sobre nós deve estar guardado nos arcanos da Magista e de seu fiel Conde. — Pensei, silente, sobre as informações compartilhadas. — Não se martirize. Agradecemos por viver em Séttimor. Criamos nossa verdade, nossos rituais, nossa existência; nada disso aconteceria se estivéssemos no Castelo. 

Olhei ao redor; aquelas pessoas com rostos vazios e, por vezes, fumegantes como se exalassem a névoa que envolve toda a Séttimor. Elas pareciam bem. Guiadas por uma fé resoluta e uma paixão pela existência; eram criaturas únicas, com ensinamentos insondáveis. Por instantes considerei morrer pelo Paradoxo em nome da sensação agradável e sombria de pertencer à Séttimor. 

Tu precisas partir. — Ouvi. A voz era masculina, vinha de um séttimôro que se aproximara de nós. Ele tinha apenas os lábios em seu rosto, e escuridão mórbida. Esvaía de seus poros a névoa cinérea; o fumegar era fúnebre. — O Nevoeiro Ramoso está se densificando e pode prender-te em Séttimor por longas noites. — Ouvi e voltei-me ao olho vítreo de Liliana. 

O Castelo é um claustro sem fim, abismal e vazio; suas entranhas ludibriam, iludem os sentidos, atormentam a alma... — Confessei em lamúria. 

Tens muito a viver e desvelar no afligir das paredes de pedra do Castelo. Não temas, tens a força para enfrentar o que quer que cruze o teu caminho. — Expressara Liliana, com intensa cordialidade. 

Temos recebido muito visitantes nos últimos dias, parece-me que uma transição percorre aquele lugar. — Expôs o homem. 

É verdade... Lëvri fora o último, antes de ti. — Senti minha garganta fechar ao ouvir aquele nome — Buscava por alguém, por isso nos encontrou.  

Lëvri? — Indaguei com a voz falha. 

Sim, tu o conheces? Buscava por Ennehris, vociferara pelo nevoeiro o nome dela, ouvimos daqui; até que o encontramos, estava exausto pelo que o Paradoxo causa, a desorientação, a vertigem. Tentara dizer detalhes sobre a moça, sua aparência e roupas que usava, no entanto, sufocara-se em demasia no nevoeiro e foi levado por Szënin até o Castelo. 

Sim, eu o levei. E creio que devo levar-te também. — Disse o homem. Szënin. Eu estava, intimamente, perturbada. Saber de Lëvri... saber que ele me procurava fez minhas emoções irromperem em um declínio amargo e solitário; apenas dentro de mim, uma sensação que corrompia, uma saudade que me atristava. “Gostas... minha Ennehris... que eu faça... devagar?” — Lembrei. Descansei minhas pálpebras, ocultando meus olhos por segundos infinitesimais. Revivi o seu toque, seu afundar-se em meu oceano íntimo; seus lábios, sua voz... e a extensão da sua natureza, o ímpeto, a voracidade da sua sede... o cuidado comigo, terno e caloroso. Lëvri... com a Rosaemori tatuada em suas costas. Meu corpo respondeu à lembrança, senti-me tórrida e lânguida; e olhei de novo para a flama da fogueira. 

Seus olhos... avermelharam-se como mágicos quartzos! Nunca vi algo assim! — Ouvi de Liliana que expressava em sua fronte um assombro e um encantamento. Todos ali sussurraram ininteligíveis palavras, espantados como Liliana. Levantei-me, retirando a manta de meu dorso. 

Devo ir... e vou só. Agradeço o cuidado, Liliana. E agradeço o alerta, Szënin. Reconheço toda a recepção que tive em Séttimor; não me olvidarei de vós. 

Não olvidaremos de ti, querida. — Liliana levantou-se, abraçando-me cautelosa. Ela tinha um aroma de Lycoris radiate. Algumas das crianças expressavam tristeza; todos pareciam apreciar visitantes como eu. Almejei morrer em Séttimor, no entanto... Lëvri... eu precisava vê-lo outra vez e se a morte era inevitável, então que ela me coroasse com a sua presença excelsa quando, pelas mãos de Lëvri, eu me embebedasse do fluído bruto da Rosaemori. 

Encarei, então, a nívea e silente névoa; vi Liliana cada vez mais longe, erguendo-me sua mão em um gesto de adeus. E vi todas aquelas pessoas com seus rostos vazios, tomados por um tipo de abandono, sensação que permeava meu coração igualmente. Caminhei cada vez mais à fundo na palidez e, em seu interior, eu vi estranhos ramos brancos e secos que se espalhavam ao derredor e se movimentavam como se vivos, respirando. “O nevoeiro não é apenas um fenômeno natural, senhorita. Esteja atenta. Ele conduz a sua mente e corpo, ele evoca o horror da sua própria alma. Não pare, siga sempre adiante, mesmo se ouvir uma voz familiar. Siga sempre adiante.” — Essas foram as palavras de Szënin e embora sua expressão fosse menos afável que a de Liliana, ele igualmente se preocupava comigo. Mantive suas recomendações em minha consciência e jurei que veria Seth personificado, no entanto, ele estava ausente; sua voz abissal não penetrava meus pensamentos desde nosso desentendimento. Esperei-o, portanto, para me defender daquela sinistra palidez; nada acontecera. Os males narrados por Szënin pareciam, naquele ínterim, uma lenda e nada mais. Contudo, em meu peito, uma solidão mórbida enraizava-se. 

Os ramos brancos aparentavam, cada vez mais, como árvores e, em seus galhos eu via cordas negras. Andei sem parar, todavia, a névoa tocava minha tez e, por meio dela, parecia alcançar a minha alma; fui imersa, sem que eu pudesse me resguardar, na solidão obscura, enquanto todas as cordas negras cingiam-me o pescoço, chamavam-me sem um único som. Se há ninguém neste antro, se estarei na eternidade isolada; por que viver? — eu pensava, uma conclusão que não parecia vir de mim mesma. Um bálsamo de infelicidade e melancolia, esmorecimento insistente; a certeza do perpétuo exílio no intermúndio de minha essência desfigurada por tantos acontecimentos e mistérios. Desejei envolver aquelas cordas em meu pescoço e cair no abismo que tanto harmonizava-se com o meu imo. Avancei sobre todos os ramosos esquálidos e inclinei-me sobre seus vértices almejando rasgar minha tez e sangrar até a morte; por átimos ponderei sobre a vida detrás do fim, se eu encontraria Lorrt e se, lembrando-me de tudo, por fim, o amaria de novo. Arrancaria do peito o que dói, destruiria minha maldição que, mesmo maldita, não se manifestava ali — abandonara-me igualmente, eu sentia, tal como a vida e tudo o que eu mesma sou. 

“Estou aqui” — ouvi, não era uma voz humana; não se tratava do abismo de Seth. Senti o tênue dilatar de minhas pupilas e foi naquele único momento que cessei meus passos. As palavras constituíam-se de um tipo de sibilar, um sonido etéreo e melódico. “Quem és?” — questionei sob um encantamento que quebrantara todos os meus mais tetros horrores. Quando fitei as cercanias em busca da origem daquele som, notei as paredes de pedra, o Castelo Drácula estava logo à frente e a névoa já dissipava. Senti que estava, de novo, como dona dos meus pensamentos e aquela mórbida angústia passara como o dia passa e a noite se achega trazendo quietude. Respirei fundo e adentrei, mais uma vez, aos umbrais daquele lugar. Um remanso em meu ser, uma certeza estranha de que aquilo que proferira as palavras de presença, é a chave para o sossego da minha conturbada existência, no entanto, naquele átimo frágil, eu estava apenas cingida pelo silêncio absoluto; e a poeira rarefeita, as luzes trêmulas e a solidão perpétua. 

Vaguei pelos claustros e cômodos, guiando-me pelo que já conhecida daquele lugar. Indaguei-me se aquele rapaz, sorvido pelos meus lábios... aquele cujo sangue vertera inocente... estaria vivo. Compreendi a necessidade de encontrar Lëvri outra vez e confessei ao próprio âmago dorido que a esperança de revê-lo era intensa e pulsante, porém, não com Seth. Embora Seth estivesse ausente. Era-me estranho não tê-lo sussurrando em meu crânio; despida da tua incorpórea maldição. Assim que encontrei o meu aposento, percebi que a solidão se estendia por todo o cômodo, densificando o ar. Era noite e as estrelas lá fora reluziam longínquas. Retirei as vestes pálidas e, nua, caminhei à banheira de marfim. Imersa na mais límpida água cujos sais adicionados aromantavam como flores em um campo veranil, relembrei tudo o que se tornara memória àquele ínterim. Eu odiava estar só, percebi; um ódio que conduzia minha angústia e transfigurava-a em profundo poço insalubre. Ao menos o banho revigorara minhas energias e vesti-me para poupar a pele da frígida noite, mas, eu não pude permanecer naquela alcova lânguida. Retomei a caminhada pelos passadiços e aposentos até encontrar o mais belo lugar naquela mórbida residência: a biblioteca. 

Embora o meu intuito estivesse enraizado em meu corpo, evitei pensar diretamente a respeito, pois, decerto Seth não teria esvaído como se nunca tivesse se envolvido, de alguma forma, com Lahgura e, portanto, comigo. As portas abriram-se rangendo e vi, logo à frente, um quadro de um homem. Parecia-me familiar. Aproximei-me com a sutileza de um felino e vislumbrei a tinta à óleo e os traços marcantes daquela face masculina. Possuía cabelos grisalhos, como a barda; tinha belos olhos azuis e uma postura imponente. Desejei querer me recordar, no entanto, estando tão só, tive medo da dor. Então caminhei pelos corredores mais escuros, onde livros mais empoeirados e pesados jaziam sôfregos e silentes. Li dezenas de títulos, acreditei no abismo da minha esperança de que, decerto, eu encontraria um livro, apenas um, dotado do conhecimento preciso para destruir a minha maldição — seja o que fosse preciso sacrificar em nome da magia mais oculta e perigosa. Foi então que eu o senti; sua mão gélida em meu pescoço, virando-me contra ele na penumbra sombria. Minha tez fez-se uma voragem de arrepios súbitos e quando vi seus olhos azuis brilhando na escuridão, eu temi; o medo mais pulcro da minha alma. 

Hum... — Ele gemeu. Segurei seus braços na tentativa de fazê-lo parar de me sufocar, embora um pouco de ar conseguisse fissuras para encontrar meus pulmões oprimidos. — Confesse, minha bela Aesatt, que sei as faces da tua judas-pretensão. Protejo-te nas trevas quais sou rei e morro co’a tua afável gratidão… — Sussurrou, irônico. 

Seth... — Tentei falar, no entanto, a voz espargia fraca. Ele trouxe meu corpo para perto dele, ainda segurando meu pescoço; seu semblante de ódio estava próximo e sua feição segredava rancor, eu pude sentir. Então, devagar, sua mão tornou-se menos agressiva e seu olhar fitara meus lábios. 

Exorcizar-me... que plano fascinante... — Ouvi-o com sua voz símil aos oceanos mais profundos. Sua mão deslizara para minha nuca e fez oscilar minha estrutura. — Ah... se eu pudesse... — Murmurou, ainda encarando meus lábios e estando, pois, com todo o seu corpo justo ao meu.  

O que? — Ousei questioná-lo em sussurro e vi seu sorriso nascer como o cume de uma adaga no dorso, atravessada. 

Curiosa... — Sua mão reteve meus cabelos, puxando-os para baixo; com o impacto, meu queixo se ergueu e eu ouvi a risada de Seth; sombria como ele. Logo depois, a mesma feição de rancor, ainda mais intensa. E ele me olhou por algum tempo, em silêncio. Suas mãos deslizaram mais uma vez, uma ao torso, outra à cintura; e senti seu hálito até, por fim, a névoa negra da sua ausência abrupta. O exílio em seu eterno retorno — talvez a minha verdadeira calamidade. Meu corpo, trêmulo; meu desejo, atiçado — e nada além, nada mais. Apenas a mudez do ambiente crepuscular. Suspirei... e sentei-me à poltrona mais próxima. Odiei-me por desejá-lo e por, vítima da minha compulsão por um significado fora da minha genuína aflição, não conseguir suportar mais uma dose de soledade. Uma dose era suficiente para me embriagar. 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Tempus Fugit III

Alguém verá esta noite, que estrelada, | A sós vislumbro em toda a imensidão? | E mesmo que a perceba agraciada | Compreende seu sabor de solidão? …

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Alguém verá esta noite, que estrelada, 
A sós vislumbro em toda a imensidão? 
E mesmo que a perceba agraciada 
Compreende seu sabor de solidão? 

Alguém, sentindo a aragem tão sutil, 
Enquanto a escuridão é mui soturna, 
Talvez encontre lá, sentidos mil, 
Os quais estão, p’ra mim, na fé sonurna... 

Ó, quanta vastidão, do firmamento, 
Assombra, pois, infinitesimal, 
Mui faz do meu haver — triste relento; 

Soterro-me em vazio adagial... 
— O sopro d’uma vida passadiça — 
Andar errante à sombra fronteiriça 
Das horas no relógio arterial. 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Fragmentada

Estás n’est’alma lôbrega tão minha, | Resides ou, quiçá, no corpo meu? | Silente agora, vens cruzar a linha | Que tênue marca em mim o sangue teu? 

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Estás n’est’alma lôbrega tão minha, 
Resides ou, quiçá, no corpo meu? 
Silente agora, vens cruzar a linha 
Que tênue marca em mim o sangue teu? 

Sondando n’estes livros, no ancestral, 
Quaisquer dos mais vis ritos, pois confesso 
Que estar em fragmentos e imortal 
É mórbido p’ra mim… horror excesso! 

Escreva, minha bela Aesatt, que sei 
As faces da tua judas-pretensão; 
Protejo-te nas trevas quais sou rei 

E morro co’a tua afável gratidão…” 
Irônica a tua voz grave a verter, 
Escuto e então silente faz-se ser 
Por noites… Seth… volta, maldição! 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 3: A Natureza do Ser

Lancei-me contra as sombras do corredor, apressei cada um de meus passos enquanto minha mente atordoada se alimentava de sua própria angústia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Lancei-me contra as sombras do corredor, apressei cada um de meus passos enquanto minha mente atordoada se alimentava de sua própria angústia. Covarde. Vi o lume lunar se extinguindo e o silêncio se aguçando como o adentrar no fundo de um oceano mortal. É assim que farás justiça em nome de teu único amor? De algum modo inexato, tracei o caminho ao meu aposento, embora o Castelo parecesse um labirinto. A aragem soprava uma mórbida invernagem e conduzia, com sua extensão bizarra, todo o meu terror. Quanta tolice. Atravessei os umbrais semiabertos, e vi, como outrora, o meu leito. As sete vozes do abismo permaneciam, enquanto meu coração era um frenético pêndulo. Volte e acabe com isso! Em alguma instância, as lágrimas passaram a liderar minhas emoções. “Silêncio! Silêncio!” — Bradei, em busca de serenidade. Ele é mais forte, ele vai te encontrar. Eram límpidas e douradas, pois vertiam e desciam pelo meu rosto, a nascente de meus olhos, contornando meu queixo e morrendo na curva de meus seios. Então vi a cor. E vi que também ruíam coralinas. A morte dele seria um alívio. Vesti-me em busca de aquecimento e considerei cavar o túmulo de minha solidão perpétua. Todavia, eu não partiria antes de reter a minha missiva, decerto que possuiria valiosas verdades acerca de meu passado. “Lëvri… por quê?” — Pensei, ele não saía de minha mente. Traidor facínora, esqueça-o! Não havia escolha, era preciso encontrar Drácula. 

Amável Áurea, teu semblante plácito incita minha esperança, aquém da morte encarnada, corroendo minha existência. Não conto com a tua lembrança, porque sei que Pherhesí, se mal manipulada tal como fora, poderá resultar em angústias de inominável poder. Perdoe-me, minha dócil, perdoa este que amou a tua humanidade e tirou-a de ti sem considerar as consequências. Não sei no que te transformaste... e anseio, com tudo o que há de mais humano em meu cerne, que sejas uma nova Illitan e que possas recomeçar a nossa raça em nome de quem sou, aquele que te amou e há de amar-te além-vida. Não anelo, sob o estado em que me encontro, considerar o pior. Áurea, amante minha, dulcífera criatura; encontre a quem amar e, se fores Illitan, dê à luz. Se não o fores, te recordes do último Illitan, honre meu nome à posteridade, de alguma forma. 

Sinto a morte em minhas entranhas, ela é lenta e profunda; como um invadir de raízes dentre as minhas veias, alimentando-se do poder que me faz ser quem eu sou. Quão amargo não mais dar-te um primogênito; tampouco a pequena cabana aos pés da neve, com o oceano mórbido ao horizonte. Eu sinto muito. Ao despertares, não te aproximes desta belíssima flor que vês em meu peito, reluzente em carmim, com pétalas abertas como um lírio e outras semifechadas como as rosas mais sublimes, não toque nas raízes âmbar, tenha cuidado com os espinhos. Um toque bastará para que o veneno lhe adoeça à morte sôfrega. Fuja, Áurea minha, e agora que não mais lhe posso privar do hediondo saber, tenha cautela... e não pise, em hipótese alguma, seja o que for ou quem for que te guie, no império de Krvier, tampouco pelas terras de Vonssihren; vá para as Ruínas e em algum lugar de lá, crie seu próprio reinado. 

A carta terminava com palavras ininteligíveis enquanto minha astenia súbita se alastrara por todo o meu corpo. Lorrt morrera, decerto, enquanto redigia; sua dor parecia atravessar meus ossos e o papel em minhas mãos tinha aroma de sangue. Quando a li, fui soterrada por uma tortura pontiaguda no coração, agulhas abruptas no âmago meu, entre lágrimas e temor — era insuportável. Prostrei-me, de joelhos, na alfombra de algodão sob meus pés e desejei a morte para ser digna do descanso eterno, sem as vozes abíssicas, sem a dor da lembrança, sem tudo o que parecia compor minha desgraça. Naquele recôndito, nenhuma luz lunar reluzia nas janelas; a noite, na verdade, parecia-me outra e essa confusa sensação temporal, atordoava-me. Só pude retomar minha sanidade, quando o mal que me doía destilou-se e o vi em névoa cinérea pelo lado de fora do Castelo, através dos vitrais semiabertos. 

Illitan era a raça vampírica de Lorrt e seu falecimento acontecera durante, ou talvez depois, do ritual de transmutação vampírica — o qual me fez o que sou. Os Ohrmons, decerto, foram os que o mataram, como na visão que tive, vampiros da raça inimiga, com seus olhos negros sem esclera; eu jazia inconsciente em meu leito naquela noite ao lado de Lorrt, no entanto, não em completude, pois a dor mórbida que tomara meu corpo advinha da lembrança do momento em que os Ohrmons invadiram o local e vi Lorrt matar um por um até ser infectado pela Rosaemori no movimento último de um dos inimigos. O amor acima de sua própria vida. Ainda não compreendo a totalidade do que é a Rosaemori e o porquê ela existe, mas sei que um dos Ohrmons possuía uma adaga dourada imersa em seu veneno, ele a fincou, por fim, em meu único amor. Parte da revelação da carta fora dada a mim por meio de Lahgura, tudo fazia sentido. Quiçá, portanto, ali naquele Castelo misterioso, residisse a última vampira da raça Illitan — assim o compreendi. Notei, pela missiva de Lorrt, o quanto isso tinha valor para ele; lutou até o fim para não extinguir a sua raça e pensou nisso até o último instante de sua trágica morte, encorajando-me a procriar para dar à luz a novos vampiros de sua estirpe. O amor abaixo do curioso egoísmo de promover o próprio legado?  

Embora eu lembrasse, por fim, de nosso vínculo, de seu heroico cuidado sobre meu corpo inerte naquele leito e de toda a sua nobreza; nada confortava meu espírito. Quando tive em mãos o papel, observei-o com longa demora, hesitei em lê-lo, pois, este desconforto enraizara-se desde que deixei Lëvri e fui guiada pelo cântico sombrio. “É parte de quem tu és, Ennehris; não temas a tua história” dissera Olga Nivïttiz. Fora ela quem me encontrara à esmo pelo Castelo, em busca de Drácula; sua feição era bela, como uma impactante mulher; tinha olhos de um azul pálido e era plácida como as nuvens de verão, carregava a carta em suas mãos enquanto andejava à minha procura — embora eu tenha pressentido o saber dela acerca do local em que eu estava naquele momento; a mulher que emanava algo obscuro e oculto — o que desejei não saber a respeito — tinha um tipo visível de elo com cada parede de pedra a nos cingir; cada vela e candelabro; cada escuro canto; ela parecia dominar as sombras e as luzes, e o fremir do silêncio. Seu sorriso singelo, ao fitar-me sob intranquilidade, aqueceu-me um pouco, na frialdade do meu amargor. Apresentou-se, formal e afável. Não a interroguei sobre o local, meu desgosto e confusão mental em razão daquelas mórbidas vozes deturpavam minha racionalidade e impediam-me de tomar as decisões mais corretas. Porém, tive a calmaria de ser convidada por Olga a recorrer ao seu aposento caso eu precisasse de quaisquer favores e esclarecimentos, assim, em razão do convite, não me senti na obrigação de prolongar, naquele átimo, a nossa conversa. 

Todavia, quando a dor cessou e a solitude beijou novamente os meus lábios; uma das mórbidas vozes, única e mais grave, em meu sepulcro mental, antevira um instinto obsceno que eu jamais vivenciei; ecoou em meu crânio enquanto minha visão se encarnava. Sangue... Sangue... Sangue... Tudo, as tapeçarias, as pedras, o mobiliário do aposento; tudo era puro e negrume rubi, a cor mais vermelha e sanguinolenta que um dia imaginei existir. Senti-me sufocada, com todos os sentidos atormentados e, com uma sobrenatural rapidez, uma célere e monstruosa cinesia, tracei os claustros e passagens do Castelo Drácula, abandonando a carta que, até o momento que decidi abri-la, não a havia soltado. Aos meus ouvidos conduzia-se, tão somente, minha respiração afoita, meu coração pulsante frenético e o silêncio sombrio da minha sede. Temi a morte, no ápice da agonia. Então, n’uma caça qual nem eu mesma compreendia, avistei um homem adentrar um cômodo há pouco mais de dois metros de mim. Segui-o lentamente e vi-me transfigurada em sombras que tomavam cada canto daquele aposento, conduzindo o olhar do rapaz a um semblante de insegurança. 

Não é uma dádiva a memória daquele momento, confesso que desejava esquecê-lo de modo integral, pois, a agressividade do que me conduzia e a visão encarnada trouxera-me uma estranheza medonha, um horror íntimo que só pude notar no fim, quando se dissipou. Até lá, no entanto, eu era apenas um títere escoltado pelas mãos do instinto daquilo que me tornei, refém do meu próprio poder. Uma vampira... obcecada pela seiva acerejada... doce liquor da vida humana. Consegui obscurecer todo o ambiente e ainda não era vista pelo jovem que estava cada vez mais amedrontado, embora sua feição não transmitisse horror em si, mas sim um encanto imerso em medo e angústia. Eu vislumbrava-o, cada artéria de seu corpo, cada veia; sua pele parecia translúcida e seu coração estava tão convulso quanto o meu, eu o sentia. Da névoa negra dissipando, fiz meus olhos serem vistos e, depois, meu corpo. Não sei como eu estava, contudo, através daqueles olhos por detrás dos óculos de grau, aquele rapaz avistava uma mulher sedenta e desta maneira, ébria e ávida, aproximei-me de seu corpo humano, ele não se afastava de mim, estava sendo conduzido por algo meu que eu mesma desconhecia. De perto pude ver um brilho pulcro em suas retinas, e as pupilas dilatadas e trêmulas, em estado de transe. 

Então toquei-lhe o rosto empalidecido, descendo minha mão pelo seu pescoço viril enquanto fitava seu sangue ardente, quase fulgurante ao meu olhar, esplendoroso e acelerado. Aquele homem exalava vida, um tipo de vida que eu não tinha mais. Sei que o sorri naquele momento, porque mesmo dominada pelo inferno da minha condição, eu ainda era eu. Segurei sua cintura, lentamente; e próxima, por fim, de seu pescoço, finquei-lhe meus dentes que afundaram em sua carne sem dificuldade; o tórrido líquido entornou-se pelos meus lábios, inundando minha garganta gélida. Sorvi de seu éter com uma morosidade diabólica... embriagava-me em exultação perniciosa... e senti a estrutura física de meu mártir vibrar, ele gemia, lamúrias baixas, murmúrios de pavor e deleite. O licor vital escorria, traçando curvas pelo meu queixo e pelo corpo de minha vítima, manchando sua camisa branca, eternamente assinalada por minha atrocidade. Pouco a pouco a visão carmim se extinguia e eu voltava à sanidade, o suficiente para parar o meu ato e olhar para o corpo pálido daquele rapaz inocente. Seus olhos se fecharam devagar, eu não o havia matado, no entanto, retirei de seu corpo parte de sua vida, o qual carregarei para sempre em mim, mesmo que de modo tão simbólico. Deitei-o desacordado na cama, beijei-lhe o rosto frígido. “Eu sinto muito...” — sussurrei e olhei-o mais uma vez para, por fim, fugir. E fugi para o mais longe que pude, sem saber o que me esperava fora daquele lúgubre templo de morte. Corri na mesma urgência de outrora, quando dominada por minha bestialidade, e vi as torres altas do Castelo transmutarem-se, pouco a pouco, a um horizonte de névoa erma. 

A cinérea bruma era densa, turvava-me o senso de direção. Caminhando com cautela, perscrutei o silêncio e a palidez anuviada, uma cerração quase tangível que, de forma sutil, pressionava minha alma, oprimia meu espírito, imergia-me na insólita sensação de dissipação existencial. Com delicadeza e, sobretudo, lentidão; a névoa parecia desgastar minha pele, mesmo não havendo nenhuma mudança visível; da mesma forma, conforme meu caminhar se prolongava sob a tortura daquele fenômeno, ouvindo corvos no horizonte, fui submetida a uma queimação, como o fumegar de meus órgãos e um fervilhar de minha seiva, embora o crocitar doasse-me tenra esperança por existir, naquela vastidão nuviosa, algum tipo de vida além da minha. Ainda assim, era um cruel suplício onde meu único alívio advinha do absoluto silêncio das sete vozes do abismo. Não sei, contudo, por quanto me inundaria de paz aquele vazio, pois um sonido fantasmagórico preencheu a falta de minha maldição e parecia-me sussurrar o inaudível, símil à chuva e à respiração ecoante, no longínquo e, ao mesmo tempo, ao meu lado. Um medo aterrador ascendeu meu pânico à uma fobia de toda aquela ausência de visão, contornada pela névoa, minha respiração tornou-se ofegante e comecei a correr outra vez até ver tudo lentificado, como dezenas de espectros no meu olhar, embaçado e tardio, completamente turvo e confuso. Assim caí de joelhos no que me parecia restos de uma densa floresta, com flores e folhas secas. Busquei pelo ar, mais e mais, toquei meu torso, como que para segurar meu coração que, estranhamente, parecia parar, embora continuasse pulsando. 

Quando ouvi passos, temi em maior aterramento e olhei na direção do som. Mais passos. Por todas as direções. Mais e mais passos. Ofegante, estremeci em um horror conturbado, mas não havia força alguma em meu corpo, não havia como esgueirar-me dessa vez. Pensei em toda a culpa que carregava e supus ser o meu carma por sorver, sem permissão, daquele sangue. Então fui pega por criaturas com faces sombrias, pareciam humanos, pareciam pessoas com feições distorcidas. Demorou para que eu pudesse vê-los de fato, pois, toda a minha visão tornara-se palidez pura, enquanto eu me conduzia apenas pelos sussurros da névoa. Como fluíam as coisas... há pouco devorando uma frágil criatura humana, sendo apinhada de energia e poder sobrenatural, tendo em meus olhos encarnados o luzir da glória, o sabor quente do sangue nos lábios e, logo depois, ser a presa da densa névoa, uma vítima da natureza insondável daquele lugar. Não havia quaisquer possibilidades diante do que eu sentia, em meu peito havia, decerto, um relógio e, naquele instante, não só estava em perpétua paralisia, como duplicava-se e distorcia-se adulterado e violento — e triste, lúgubre, toldado de sua própria existência. 

Quando restaurei meu precípuo sentido, enxerguei incontáveis casas em uma longa estrada de pedra. E vi mais daquelas pessoas com rostos estranhos, elas atentamente curiosas ao meu respeito, traziam consigo itens, dentre eles mantas, cálices de frutas. E notei casas com luzes trêmulas, das velas em castiçais de prata. Fui carregada a um dos lares, sendo posta em uma cama com frondosas cobertas cujo tecido assemelhava-se a um veludo estufado como um pedaço de algodão puro, conduzia um calor próprio; muitas as vestes daquele povo assemelhavam-se a este tecido, intrigava-me, porém, seus semblantes deformados e toda a sensação que transmitiam: pacificidade, solidão; um laço que os envolvia, a cada um deles. Os que me carregaram, prostraram-se diante meu corpo deitado, colocando artefatos e frutos trazidos pelos demais — alguns eram jovens, lembro-me de ver uma pequena criança carregando um frasco em suas delgadas mãozinhas. 

Trhe eroen virëhs! Eroen, eroen riamn! — Dissera o mais próximo de mim, pude confirmar a grafia de suas palavras a posteriori. Todos se retiraram do quarto e, daquele que permanecera, senti suas mãos tocarem minha fronte. — Ficarás bem, descansa-te. — Sussurrara, era uma voz feminina e o toque feminil fora tórrido e esmerado. Vi-a deixar o aposento, acendendo algumas velas apagadas pelo movimento fora do comum e fechando a porta em seguida. Som algum ressoou-se no perpassar dos instantes, inclusive deduzi que dormiam, quando os ouvi, ao que parecia, beijar seus rostos, eram como uma família, e repetiam a frase: “Nouen ehelun”, silenciando, todos eles, no suceder, quando lá fora, no nevoeiro, a noite se achegava — via pela fenestra diagonal do meu atual recanto. Assim que pude retomar a sanidade, sentei-me no leito e bebi da frígida água deixada na moringa sobre a mesa de canto próxima. Era água e não duvidei que seria; algo naquelas pessoas transmitiram-me profunda confiança, ainda que o terrífico de suas faces me assombrasse. 

Dessarte, na penumbra, o calmo cuidado deixado pelos residentes, metamorfoseou-se na mórbida sensação de abismo, onde o medo e escuridão são as veredas por onde posso me orientar. Olhei à direita e vi mãos masculinas segurando bagas de um pequeno fruto de envoltório negro, como uvas ou mirtilos, porém maiores. Fitei, por fim, a face do indivíduo, possuía uma aparência adônia com olhos azuis, conspícua expressão, sem embargo ao seu tenro sorriso pontiagudo. Vestia-se de um negrume noturno, roupas de inverno intenso, embora não pesadas e em cortes oblíquos; assemelhava-se a couro, no entanto, não reluzia como tal. Diferentes os que me receberam, os que pronunciavam palavras de um idioma ancestral, este, em evidência, era como eu e não pertencia àquela cultura dos que não possuíam faces completas. Indaguei-me no súbito momento se, por acaso, tratava-se de um vampiro. Hesitei em pegar o fruto que me oferecia, pois, sua aura era funérea e instável. 

Não temas teu Arcanjo, bel donzela.Voz de voragem, tom cruel; dúbia existência indigna da minha compreensão. Hesitei em respondê-lo. Levou uma das bagas à sua boca, mastigou-a com elegância, deixando as restantes sobre a ânfora destinada a frutas. O homem — se era mesmo um — sentou-se à cadeira de balanço, próxima à porta, e fitou-me pacífico, ainda, todavia, obscuro. 

Quem és tu? — Fui obrigada a questioná-lo. 

Tua maldição. — Respondera intenso. Confundi-me por instantes. — Ou apenas Seth, se preferires. — Decerto demonstrei ainda mais do conflito mental, o distúrbio da incompreensão, pois que ele, Seth, ajustou-se em seu acento, olhando-me fixamente — Sou teu Arcanjo, Áurea. Destinado a impedir que quaisquer males afetem a tua preciosa existência, pelo preço de conduzir tuas ações com as sete vozes do abismo, as quais são minhas, como podes notar. — De fato, sua voz era familiar, embora mais grave. Respirei fundo, olhando para a janela, indagando-me o porquê de todas as coisas. Senti-o se aproximar. Sentou-se ao meu lado, em meu leito aquecido. Olhei-o. 

Então te personificas humano... e, pelo visto, sabes tudo sobre mim. Andas, como a hialina aragem e estás ao meu lado como um gárrulo das sombras. — Ele sorriu, parecia mesmo um Arcanjo, dada a beleza viril que o preenchia da pele à barba rala, das veias aos olhos, dos poros à totalidade.

Não. Geralmente estou... dentro de ti. — Silenciamo-nos por um tempo. 

Há como revogar minha aspiração? Olvidar todos os horrores, tal como outrora? 

Não, Áurea... Lahgura é uma perversa magista, manipula suas vítimas com maestria. 

Serves a ela, pelo visto, Senhor Arcanjo; tendo o trabalho norteado como uma tábula resignada, obrigado a fenecer ao meu lado a favor da minha existência. 

Errado, que previsível... — Olhei-o com mais atenção, seus olhos reluziam gentis, mesmo e apesar de seu poder ocultista e de sua ironia. — Existo dentro da tua alma... e corpo. Sinto o que tu sentes, ouço o que tu pensas... Tua morte, portanto, significará a minha. Não conheço todo o poder de Lahgura, tampouco sei como é possível que ela faça o que fez. Mas sei que estou vivo agora, através de ti. 

Se te personificas, por que não te ausentas do meu corpo? Se não tens vínculo com Lahgura, por que apenas não cala as tuas vozes abissais? — Outro sorriso, dele para mim, e um apoiar-se na cama, como se a ela pertencesse. 

Tua inocência pode acabar com a nossa vida. — Seth aproximou-se súbito, segurando meu queixo e respirando próximo de meus lábios; meu assombro despertou o que outrora estivera conduzido pela estranha vertigem e nada mais. — Não tenho elos com Lahgura, mas tenho contigo. Personifico-me, todavia, como a noite se afasta sob o alvor do sol no horizonte, não sou capaz de permanecer fora de ti por mais do que algumas horas. — Explicou, retirando sua mão de mim e voltando à cama, apoiando-se. — É isso que sei, pois sinto; é o que determina minha existência. 

A consciência assimilada cingia-me sem pressa e o delíquio ascendia como o frio. À minha visão, um homem denominado Seth cuja personificação de minha maldição o significava, sendo, mais do que isso, uma criatura codependente de mim; convencida de suas palavras, lidava com a sensação de inabalável descrença, uma dualidade que me machucava — confabulado sobre Arcanjos, temia que ele fosse, em verdade, um demônio e, sendo um, dominador assíduo da mentira à vista disso. Silenciada, busquei refúgios em mim, esquecendo-me que a ele pertenço e provando do acre sabor dessa maldição ominosa. 

Áurea... — Fitei-o, odiava ouvir-lhe chamar-me pelo mesmo nome que Lortt em sua missiva inestimável. Prensei meus dentes como fuga do meu ódio. — Eu sei o que sentes... e o que pensas... — Reforçou, em razão de todas as verdades desveladas. Ele se levantou e tão logo senti sua mão em minha nuca, forçando-me a levantar. Assim pude notar sua estatura alta, ele não estava comprimindo o meu pescoço. — Irrita-me teu ódio contra mim, eu que sou o teu defensor; enfurece-me ouvir estas tuas afrontas silentes que atravessam meu crânio! — Seus olhos estavam ainda mais azuis e sua voz mais grave do que antes, seu rosto era como a noite mais mórbida dos mais medonhos pesadelos. — Tu achas que não estou sob a lôbrega coerção das tuas vozes abissais enquanto te vitimizas da maldição que tu escolheste? — Seth segurou meus cabelos com mais intensidade, aproximando-se de novo da minha face assustada. — Eu... diferente de ti... — Sua voz abaixava tanto que trazia o timbre do inferno, eu sentia fremer minha alma ao ouvi-lo. — Não tive escolha. 

Então, seus olhos que eram azuis começaram a empalidecer e sua pele translucidar. Todo o seu corpo tangível transfigurava-se em um fantasmagórico organismo etéreo e aquilo, como um tipo denso de névoa, penetrava meus olhos, boca, narinas e ouvidos. Doía em minhas veias, sim, cada artéria por onde deveria correr a minha seiva humana. Eu o sentia por todos os meus músculos, pele e carne; um tipo de energia corrosiva, súbita e poderosa. Quando findara, tudo o que ele era já não estava ali — ao menos não personificado; contudo, no meu âmago, eu sentia o peso da sua existência, ascendido de forma desmedida se comparado com antes de conhecê-lo, quando era apenas sete vozes e não Seth, o Arcanjo. A intensidade fora tão insondável, que caí sobre o chão de madeira, batendo minha cabeça sobre a mesa de canto e, com isso, derruindo a ânfora no chão. Vi seu quebrantar, estraçalhado; e a água vertendo nas curvas naturais da madeira. Algo naquela cena, em seus detalhes exíguos, despontava reminiscências próximas à minha consciência. 

 

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Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Seth

Orquídeas negras tecem a ninguém, | Silêncio aveludado no jardim, | Apresso-me temendo vir alguém | Desperto pelo horror do olor carmim;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Orquídeas negras tecem a ninguém,
Silêncio aveludado no jardim,
Apresso-me temendo vir alguém
Desperto pelo horror do olor carmim;

Perfiz todo o balcedo estéril e vi
A névoa cinerária se achegando,
Tão tácita espargia — eu m’envolvi…
Sua lôbrega humidade circundando;

Desvelo, cinza e triste vilarejo,
Porém, ao meu espanto, flama à vela
E o som d’um tragimorbo realejo…

Vertigem brusca, bagas de Glïzehla
Nas mãos de humana tez, viril demônio,
Semblante tão terrífico em adônio — 
Não temas teu Arcanjo, bel donzela”.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Promessa de Solstício

Amado, esta invernia quando vem, | Na tua serenidade apaziguante, | Almejo o aconchego que nos tem | Somente em nosso leito lacrimante;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Amado, esta invernia quando vem,
Na tua serenidade apaziguante,
Almejo o aconchego que nos tem
Somente em nosso leito lacrimante;

No peito teu deitar-me aquecida
E penso: a eternidade fulgurante
Protege nosso amor e faz da vida
Promessa de um só vínculo constante;

Tu me és tenro perfume de memórias
Em tanto formidáveis, por cuidado,
És lume, amor, p’ra toda a nossa história…

Segredas-me que estás propositado
A ouvir-me parolando as minhas juras,
Zelando, assim, sereno a mi’a candura…
Promete sempre estar, pois, ao meu lado?

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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O Sobrado Do Meu Avô

A casa do meu avô não possuía nada em sua aparência que tendenciasse quaisquer amedrontamentos da minha parte ou da parte de qualquer indivíduo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A casa do meu avô não possuía nada em sua aparência que tendenciasse quaisquer amedrontamentos da minha parte ou da parte de qualquer indivíduo. Era um sobrado bem bonito, no que diz respeito ao seu esqueleto, porque, por dentro, tinha quase nada; a casa não estava terminada tal como o planejado, faltava as mobílias sob medida, faltava o gesso nas paredes pintadas de branco. A casa era bem clara, tudo meio minimalista. A porta do meu quarto, por exemplo, só foi colocada após umas duas semanas em que eu estava morando lá. Uma porta comum de madeira leve. Com este cenário, eu não imaginava que vivenciaria situações de terror durante minha estadia, a qual durou bastante, visto que morei na residência durante quase toda a minha graduação.

Tais momentos terríficos, no entanto, não foram extremos — talvez, se o tivessem sido, teriam criado menos traumas. Parece-me que situações de horror que confundem nossa mente e perturbam nossos sentidos de maneira tênue têm um impacto gigantesco em nossa vida, mais do que ver o próprio demônio em pessoa. E assim foi com a casa de meu avô. Era um sobrado grande e, por vezes, eu ficava sozinha em seu interior, dado que meu avô trabalhava de madrugada junto com meu tio — eles mudavam de horário a cada temporada, no entanto, a maioria das vezes estavam trabalhando nas madrugadas. Na época em que me mudei eu estava prestes a completar dezoito anos e por lá vivi até os vinte e um. Como mencionei, as situações bizarras não foram descomunais; contarei as mais importantes apenas para que você compreenda a tensão que vivi em certas situações, algo que não se repetiu quando me mudei para minha atual residência. 

Ao chegar no sobrado, eu ainda possuía uma dificuldade que desenvolvi na infância, tratava-se da dificuldade de dormir de costas para a porta do quarto. Isso acontecia porque, entre meus seis a dez anos de idade, eu sentia continuamente uma “presença” atrás de mim quando eu passava pelo corredor da casa da minha avó — a qual morei quase toda a minha infância e adolescência. Isso se transformou nesse temor de adormecer com as costas desprotegidas e, ao contrário do que eu imaginei, a sensação piorou quando me mudei para a casa do meu avô. Para contextualizar melhor, esse sobrado ficava no interior de São Paulo e era do meu avô por parte de pai, enquanto minha casa na infância era de minha avó por parte de mãe.

Não considerei esse receio uma problemática do local, mas não pude deixar de perceber que havia se acentuado. Mesmo com a porta trancada, era extremamente angustiante adormecer de costas para ela, aquela “presença” era insuportável. Como eu já era mais adulta do que criança, acabei me condicionando a não sentir aquilo, desviava a atenção, dormia com travesseiros ao redor e acreditava profundamente que se tratava de uma fantasia da minha cabeça. No entanto, houvera outras situações perturbadoras, uma delas foi sentir a presença na sala de estar enquanto eu usava o computador principal da casa. Eu estava sozinha e conversava com um amigo pelo aplicativo de mensagens online quando percebi que alguma coisa estava estranha naquela noite. Eu lembro que o escrevi: “Estou sentindo um tipo de presença estranha atrás de mim”. O computador ficava em um móvel encostado na parede da sala e, atrás de quem o utilizava, ficava a porta de entrada da casa e a cozinha que não possuía porta. Bem como o lavabo do pequeno corredor e a porta do quarto de hóspedes — que na época, meu avô que usava.

Eu olhava para trás e nada via. Não havia ninguém além de mim. Estava tudo aceso, todas as luzes; e as portas estavam trancadas — todas as portas. Além disso, eu mantinha a televisão ligada, para fazer algum som e me dar a sensação de companhia, uma vez que a casa era profundamente silenciosa. Mesmo assim, aquela bizarra presença, naquela noite, foi aterradora. Tentei, mais uma vez, acreditar que era coisa da minha cabeça, mesmo sabendo que a tal “presença” só era perceptível quando eu me deitava na cama de costas para a porta do quarto ou quando eu passava no corredor da casa da minha avó, eu nunca a havia sentido assim, enquanto estava em um cômodo comum. Lembro que meu amigo me respondera: “Pega o sal” e eu dei risada, embora ele parecesse falar sério. Depois entendi o poder do sal para afastar maus espíritos, segundo algumas religiões esotéricas. Mas, como já mencionei, eu tentava não acreditar no que eu sentia, eu tentava com bastante afinco. Mesmo assim, naquela noite, deixei o sal por perto.

Outra vivência estranha fora de um sonho perturbador que nunca esqueci. Sempre fui muito sonhadora, isto é, até hoje tenho dificuldades de dormir por hiperestimulação da minha mente; tenho contínuos sonhos lúcidos com dezenas de histórias longas e personagens quais parecem completamente independentes de mim, como se fossem mesmo filmes passando pela minha cabeça. Não era diferente na época. No entanto, por alguma razão, de todos os milhares de sonhos e pesadelos, aquele sonho em específico, ficou marcado para mim. Nele, eu saía do meu quarto e tudo estava bem escuro; descia, então, as escadas devagar e, quando chegava ao último degrau, com a visão perfeita da entrada do sobrado, do arco da cozinha e de parte da sala de estar; eu via uma criatura grotesca com cabeça de boi e olhos vermelhos; olhando fixamente para mim. Estava em duas patas, quando, para um animal, deveria estar em quarto. Era gigantesca e, sinceramente, só de me lembrar já me dá um profundo desconforto. Alguns dizem que este símbolo, o boi, poderia ser um alerta de situações difíceis a serem enfrentadas no futuro, como um aviso do inconsciente. Eu não sou supersticiosa, também não sou religiosa; mesmo assim, levando em consideração tudo o que vivi naquela época, até que faz sentido esse significado.

O sobrado possuía um sótão, subíamos até ele por uma escada comum de alumínio, aquelas clássicas escadas de construção ou de trabalhos elétricos. Não possuía nenhuma barreira, era um buraco quadrado no teto do quarto do meu tio e você podia subir por essa escada que ficava ali. Meu tio usava o sótão com frequência para jogar RPG. O problema é que aquele cômodo ficou sem porta por longos meses e aquele maldito buraco escuro no teto do quarto dele me amedrontava. Por isso eu mantinha a luz acesa, de todos os aposentos; e todas as portas que existiam se mantinham fechadas — quando eu estava sozinha na casa. Esse buraco no teto era perturbador; diversas vezes sonhei que algo mórbido saía daquela escuridão do sótão — algo que eu não via, mas sentia; e eu evitava subir lá. Talvez você questione ser, tudo isso, fantasia de uma mente criativa e, bem, se hoje sou escritora de terror, decerto que tenho uma mente criativa; mas essas situações que vivenciei, tenho certeza, foram culpadas de minha inclinação para esse tipo de escrita sombria.

Com o passar dos meses e dos anos, meu quarto era o único cômodo em que eu não me sentia mal. A sensação foi aumentando de forma absurda, então eu passava quase todo o tempo fechada no meu quarto e evitava ao máximo todos os outros cômodos da casa, em especial à noite. Era um incômodo espiritual, diferente de um medo qualquer, mesmo com as luzes acesas, mesmo com outras pessoas presentes. Depois de um tempo outras pessoas vieram morar na casa, aí deixou de ser mal-assombrada e passou a ser mal-frequentada rsrsr. Brincadeiras à parte, eu nunca esqueci nada disso e me pergunto até hoje o que significava tudo aquilo e porque só eu parecia atormentada por tais sensações bizarras. Sei que pode não parecer tão terrível, porém, para mim, era sufocante e até hoje, sempre que sonho com a casa, é um pesadelo. Hoje mesmo, só estou escrevendo isso porque tive um. Eu estava gravando um curta-metragem, eu parecia morar na residência. Tudo estava muito escuro e eu gravava, falava com a câmera. A casa estava diferente, mas era ela, era o mesmo sobrado.

Todavia, ao descer as escadas, eu retornava para o mesmo lugar da casa em que eu estava. Era sem fim. Como um espaço liminar. Eu descia e estava sempre naquele pequeno hall entre o quarto que era meu, o que era do meu tio e o que se tornou o quarto do meu avô. Então, no sonho, no quarto do meu tio havia, digamos, uma pessoa esquisita, com olhos fundos, uma feição macabra como de um psicopata. E ele chegava cada vez mais perto de mim. Essa pessoa tem nome e face reais, ela existe, mas não a mencionarei aqui por ser, afinal, um relato real da minha experiência e, portanto, essa pessoa pode facilmente ler o que escrevo e se identificar com as situações narradas. Por hora apenas posso dizer que o indivíduo era tão bizarro quanto no sonho que tive e ele estava sempre por perto, parecia um abutre — como sempre pareceu, só que pior; então, além das paranormais sensações da casa, eu ainda tinha que lidar com um tipo de stalker impertinente que tinha acesso à casa e, sinceramente, era fácil ter acesso àquele sobrado, porque na época nem a porta da frente era trancada — passou a ser trancada comigo. Estou feliz por hoje não viver mais lá e me apego às boas lembranças para que essas coisas ruins não sobressaiam. Pelo menos, tenho histórias para contar.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Prólogo: Desperta

Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas em meu peito, a poesia da escuridão ao lado do horizonte noturno. O espírito da finitude não beija meus lábios, de alguma forma eu sei disso. Despertei pela fresta de luz de um luar brando e vívido. Lembrei-me dos caminhos que fiz pelos sonhos mais frígidos e sei que atravessei cordilheiras distantes e precipícios símeis aos pélagos úmidos e aos arvoredos orvalhados.

A poeira ao redor sobre os lençóis de cetim escarlate, o espelho embaçado, as teias tecidas com esmero pelas aracnídeas cuja natureza é fascinante e silente. Estou acordada. O mundo humano ainda é o mesmo? A lua ainda reside no firmamento, embora as estrelas aparentem estar muito mais distantes do que outrora. Apoio-me no balaústre da varanda, quão alta esta torre se faz… posso ver o abismo e todos os pinheiros negros ao redor, junto à parte do castelo que está tomado por neve e galhos secos, sinto — enquanto estremeço — a brisa internamente densa em sua gélida composição. É inverno. Pela palidez que cai a neve em lentidão, não tenho dúvidas que estou no ápice da estação mais frígida. Quantos anos se passaram? Por que não envelheci?

Não ouço nada além do sibilar mórbido da aragem estonteante, e dos corvos a crocitarem tristes vez ou outra. Tenho pouquíssimas memórias, sinto-me como n’um nascimento prematuro, ainda entranhada em reminiscências do ventre em suas sombras, calidez e sons imprecisos, nada mais. Ainda não me fiz destrancar este umbral que me separa dos recônditos obscuros d’este lugar, pois temo — eis a razão desoladora. Do fogo que acendi na lareira umedecida, emergiu-me uma imagem efêmera de olhos escarlate e uma intensa dor em minh’alma, então senti minhas pálpebras estafantes, adormeci serena e lôbrega nos braços de alguém que não me lembro o semblante. Agora escrevo, porque posso não sentir a vida ebulir em minhas veias, mas sinto as mais fúnebres emoções que a ela pertencem.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Sahra Melihssa, -Artigos Sahra Melihssa Escrito por Sahra Melihssa, -Artigos Sahra Melihssa

O Eterno Mestre do Terror: Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário profundamente influente que ecoa através dos séculos e há de ecoar, perpétuo, como um grito num abismo sem fim. Nascido em 1809, Poe viveu uma vida marcada por tragédias e dificuldades, isso moldou sua visão sombria do mundo e tornou sua escrita incomparável.

Poe começou sua carreira literária como crítico, destacando-se por suas análises afiadas e incisivas. No entanto, foi como escritor de contos e poemas que ele alcançou fama duradoura. Suas histórias, permeadas por elementos góticos e sobrenaturais, exploram os recantos mais sombrios da psique humana, mergulhando em temas como morte, insanidade e o desconhecido. O escritor e poeta influenciou todos os autores posteriores a ele, contos como “Os crimes da Rua Morgue” e “O Gato Preto” tornar-se-iam, quem diria, em obras relevantes não apenas na literatura, mas em todos as outras artes e, também, nos movimentos artísticos, tais como o romantismo, além de abraçar a escrita policial que veio a ser valiosíssima para autores como Conan Doyle e Agatha Christie (BELLIN, 2011).

Entre suas obras mais conhecidas, também consta "O Corvo", um poema que narra a visita de uma ave misteriosa a um homem atormentado pelo luto e pela perda. A musicalidade e a melancolia deste poema o tornaram um clássico da literatura mundial, ecoando através das eras e sendo adaptado para o cinema de forma recorrente e de maneiras singulares, sendo também símbolo na cultura gótica com sua marcante frase “Nevermore”.

Além de "O Corvo", Poe é célebre por contos como "O Coração Delator" — que, aliás, é um dos meus preferidos; nesta obra-prima, um narrador perturbado confessa um assassinato motivado pela obsessão com o olho de um idoso e, no final, sem spoiler, a profunda angústia e aflição são transmitidas ao leitor — algo que, para mim, nenhum outro escritor foi capaz de fazer com tanta maestria. "A Queda da Casa de Usher" é outro clássico de Poe, uma história de decadência e loucura que captura a imaginação com sua atmosfera sinistra e surreal; atualmente este conto foi adaptado, e modernizado, para uma série da Netflix, junto com outros elementos e obras importantes do autor, como a extravagância de “A Máscara da Morte Rubra”.

A habilidade de Poe em criar um clima de suspense e horror, aliada à sua prosa cuidadosamente elaborada, estabeleceu os padrões para o gênero do conto de terror e influenciou inúmeras gerações de escritores. Sua habilidade de penetrar nas profundezas da psique humana e explorar os abismos da alma humana continua a fascinar leitores até os dias de hoje. No entanto, o autor também foi influenciado pelos autores de sua época e antecessores, nomes como Lord Byron, William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge teriam sido suas instigantes leituras, com mistérios boêmios, descrições poéticas e sobrenaturais acontecimentos (BELLIN, 2011).

Segundo García (2019), Edgar parece residir em cada espectro da literatura sombria, até mesmo no que viera antes de sua existência, e não há como negar essa verdade, aliás, devo reiterá-la em outro aspecto: Poe habita os corações de toda a literatura gótica em razão do seu explorar profundo, em cada uma de suas tramas, das nuances perturbadoras da humanidade; sua técnica narrativa foi e é um marco tão imensurável, que é impossível ler quem quer que seja sem compará-lo à grandiosidade do autor de “Silêncio: Uma Fábula” — citado por ser o conto número um na minha lista de preferidos do poeta.

“Edgar Allan Poe parece estar em todos os lugares, e sua presença é tão impregnante que nos faz inverter o eixo cronológico, e ler até mesmo aqueles autores que o antecederam a partir dele. Em outras palavras, não apenas encontramos Poe em H. P. Lovecraft, Richard Matheson, Shirley Jackson e Stephen King: lemos Ann Radcliffe, Charles Maturim, Matthew Lewis e Mary Shelley, também a partir de Allan Poe” - García (2019)

Infelizmente, a vida pessoal de Poe foi marcada por tragédias e lutas constantes. Ele enfrentou dificuldades financeiras ao longo de sua vida e sofreu com o alcoolismo e a depressão. Parece que sua genialidade foi interrompida pela pobreza de suas condições básicas e suas amarguras emocionais. Sua morte prematura em 1849, aos 40 anos, permanece envolta em mistério, com as circunstâncias exatas ainda debatidas por estudiosos e admiradores. As causas de sua morte foram atribuídas a uma miríade de possibilidades, incluindo delirium tremens, doenças cardíacas, envenenamento por metais pesados e até mesmo rabia, mas nenhuma delas foi conclusivamente provada (ALLEN, 2001).

Apesar das adversidades, o legado de Edgar Allan Poe perdura como um monumento à imaginação humana e à capacidade de transformar o terror em arte. Sua obra continua a inspirar e fascinar leitores e escritores, garantindo-lhe um lugar permanente no panteão dos grandes mestres da literatura. Abaixo está uma lista dos contos publicados por Poe durante sua vida, nos títulos originais.

  • 1831 - "Metzengerstein" - A primeira história que Poe publicou, marcando sua incursão no conto com um sabor gótico.

  • 1832 - "The Duc de L'Omelette" - Um conto irônico e satírico sobre um duelo póstumo.

  • 1832 - "A Tale of Jerusalem" - Um conto humorístico ambientado durante um cerco na Jerusalém antiga.

  • 1833 - "MS. Found in a Bottle" - Um conto de terror marítimo e fantástico que ganhou um concurso literário.

  • 1835 - "Berenice" - Uma história de terror psicológico focada em uma obsessão mórbida.

  • 1835 - "Morella" - Uma reflexão sobre a reencarnação e a identidade.

  • 1835 - "Lionizing" - Uma sátira sobre a fama e a sociedade.

  • 1838 - "Ligeia" - Uma das obras mais elogiadas de Poe, explorando a morte e a ressurreição.

  • 1839 - "The Fall of the House of Usher" - Um dos contos mais famosos de Poe, exemplificando o terror gótico.

  • 1839 - "William Wilson" - Um conto que explora o doppelgänger e a consciência culpada.

  • 1840 - "The Man of the Crowd" - Um estudo sobre a alienação e a observação urbana.

  • 1841 - "The Murders in the Rue Morgue" - Frequentemente citado como o primeiro conto de detetive moderno.

  • 1842 - "The Masque of the Red Death" - Uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte. Excêntrico e trágico.

  • 1842 - "The Pit and the Pendulum" - Uma história de suspense e terror ambientada durante a Inquisição Espanhola.

  • 1843 - "The Tell-Tale Heart" - Um conto psicológico de culpa e loucura.

  • 1843 - "The Gold-Bug" - Uma aventura envolvendo criptografia e um tesouro enterrado.

  • 1843 - "The Black Cat" - Um conto de perversidade e culpa.

  • 1844 - "The Premature Burial" - Uma história que explora o medo de ser enterrado vivo.

  • 1845 - "The Purloined Letter" - Um conto de detetive que enfoca a psicologia do crime.

  • 1845 - "The Facts in the Case of M. Valdemar" - Um conto que mistura elementos de horror e ficção científica.

  • 1846 - "The Cask of Amontillado" - Uma história de vingança meticulosamente planejada.

Referências

KIEFER, Charles. A poética de Edgar Allan Poe. Letras de Hoje, v. 44, n. 2, 2009.

BELLIN, Greicy. Edgar Allan Poe e o surgimento do conto enquanto gênero de ficção. Anuário de literatura: Publicaçao do Curso de Pós-Graduaçao em Letras, Literatura Brasileira e Teoria Literária, v. 16, n. 2, p. 41-53, 2011.

ALLEN, Hervey. Vida e obra de Edgar Allan Poe. POE, Edgar Allan. Ficção Completa, Poesia & Ensaios. Trad. Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.

GARCÍA, Flavio; COLUCCI, Luciana; GAMA-KHALIL, Marisa Martins; PHILIPPOV, Renata (Orgs.). Edgar Allan Poe: efemérides em trama. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2019.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa

A Lenda de Ohropo e Sepulcro

Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada, retorna ao seu corpo sob um manto negro e pesado — vertendo abismo. Deste modo, quando Ohropo olha em direção ao som violento, a noite está ofuscada e, murmurando, ela ascende em seu coração um temor inominável que, de súbito, outorga-lhe nítidas memórias hediondas. Instável, caminha pelas sombras, e lamuria. Compreende que seu destino inconcusso, na tarefa imorredoura de irrigar o mundo humano com seu aspecto soturno, é o sentido primevo da sua criação — e desta fatalidade ele não pode esgueirar-se, mesmo que resida, no seu mais íntimo ser, um pequeno esplendor de desejo cuja emersão advém em uma indagação longínqua, uma dúvida ínfima, um tão-somente “por quê?”.

— Qual horizonte teus pronos olhos à maldição perscrutam? — A voz que indaga possui um sibilo indistinto, de entonação lôbrega como o canto gregoriano. É Sepulcro. Ohropo volta-se devagar a Sepulcro que se orvalha na cinesia do frígido vento crepuscular; é bela como anjos lapidados pelas covas que a compõe. Ohropo nunca vira Sepulcro.

— Quem és tu? — Sonda Ohropo cuja voz é franzina em angústia.

— “Quem sois?” é o que consultas, pois que não me restrinjo a uma. — Responde Sepulcro, altiva.

Há custosa aflição à fronte de Ohropo cuja verve falecera no primeiro despertar ao entardecer, quando em seu cerne ainda habitava a si mesmo e quando suas mãos eram retratos pulcros de desgraça e sangue. Naqueles tempos, Ohropo vociferava, plangia, e nada mais.

— Vejo... És as mortes todas... — conclui, pelo que vê, através de seus olhos ainda semicerrados em ranzinza tragédia.

— Ora, que proseio contigo do além? Nada disso. Estou à vida como tu estás ao teu caminho, sempre fiel — ufana Sepulcro, elegantemente.

— Sempre fiel... — Ohropo repete, pois está confuso, algo no âmago da sua tétrica constituição oscila.

— Leva-me contigo, — implora Sepulcro — posso deixar menear teu fardo no interior de meu cálice que há de envolvê-lo em sua seiva sepulcral.

— Não posso... — Ohropo responde e suspira — Este fardo é horrendo, há de desolar todo o vosso encanto.

— Há nada que me ascenda o temor — teima Sepulcro.

— Impossível... — insiste Ohropo — Pavores são o soprar da aragem fria, e são o agora, o amanhã, o tudo o que é e há de ser.

Sepulcro sorri em revide.

Sua beleza revela uma reminiscência a Ohropo, símil ao que o oscila no cerne, o esplendor lúgubre de seu outrora tão cruel. A lágrima que vertera pela última vez há tanto tempo, renasce tímida, intolerável. Contudo um som execrável impede o alívio etéreo do broto da emoção, é a estrondosa sonância da foice de Exício. O corpo esquálido de Ohropo se consome ao desespero lutuoso, sua sentença ressurge do abismo entre ele e a inalcançável Sepulcro que, naquele átimo de tempo, fechou seus olhos santos e ideou um enlevo ao lado de Ohropo.

— Sepulcro! — Ouvem ambos, e tremulam, a voz é grave e trevosa, Exício a chama, feroz e austero; por isso Sepulcro vai ao seu encontro, pois a ele pertence, então desvanece. Ohropo senta-se sob a sua perdurável dor em solitude, frente d’onde outrora vira Sepulcro; e, sob um semblante medonho, ele espera até poder vê-la outra vez.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Sob a Luz da Chama Purpúrea

Nenhuma voz, nenhum som garganta afora…

MidjouneyAI

Diário de Nauärah, não datado

Nenhuma voz, nenhum som garganta afora. Percebo apenas um lumiar em tom violáceo no salão onde eu me encontro e essa tonalidade transmite-me algo importante que eu tinha aprendido em minha aldeia: a cromoterapia, o poder das cores. Ver a cor violeta é sempre uma dádiva. Além do mais, lembro da violeta, a flor que tantas mulheres da nossa aldeia admiram.

Começo a pensar se foi boa a ideia de me aproximar deste castelo. Em meio a pensamentos distraídos e neste grande salão frio, noto, ao longe, uma silhueta. Cabelos negros e presos, com mechas soltas. Vestes levemente vitorianas com traços góticos. Bem… é uma dama, certamente, mas a sua energia etérea — que posso sentir daqui da outra extremidade, me faz engolir medrosamente menos de um mililitro de saliva, principalmente, quando percebo que ela não se move e parece tomar notas em uma espécie de papiro.

Antes mesmo que ela pusesse seus supostos serviçais para me colocarem para correr, penso em me apresentar, humildemente, porque está clarividente que ela reside por aqui ou é a esposa do Drácula. Ou, até mesmo, é o próprio Drácula em uma figura feminina.

Entre a iluminação violácea, não percebo que a criatura de pele translúcida já está perto de mim. Tão entretida com a beleza deste local, não a notei em seus movimentos. Mas a olho, fixa e medrosamente. A sua pele translúcida, quase, me amedronta. Se ela se atrever a me tratar de maneira rude, os meus arcos já estão na posição correta e as minhas flechas se armariam em segundos. Mas são apenas pensamentos de medo pelo que passei com alguns homens de pele caucasiana. Com essa criatura não consigo ser tão ruim. É como se eu buscasse nela força e cumplicidade para apaziguar os meus traumas.

Eu estou acostumada com animais da mata, a lutar, como uma boa arqueira. Para mim, é natural. Mas aqui eu teria que abaixar a minha guarda de indígena rude, pelo menos, enquanto necessito. Aqui há humanos, mais do que isso — seres híbridos, quase, até vampiros, eu tenho certeza. Mas se eu não pareço tão rude quanto demonstro, possivelmente ninguém também será, dos que residem por aqui. Certamente, se eu impuser limites aos hóspedes seria apenas uma maneira de preservar a minha segurança.

Com certeza, as minhas armas a assustaram. Paro de pensar demais e tento abaixar os arcos e flechas, abaixando, também, a minha cabeça e fazendo um gesto que aprendi com o meu pai, que aprendeu com o meu avô pajé: fechar o punho e o colocar sobre a testa, em sinal de rendição. O faço.

— Sou da família “Tupiniquim” — profiro, quase me sentindo uma tola. Mas a minha força interior me ergue e continuo. — Uma aldeia antiga da região do pantanal do Amazonas, no Brasil. Sou filha de Uyara e Nanquim. E o meu nome é Nauärah.

Eu não faço ideia se ela compreende um terço sobre o que eu digo. Confesso que nossos nomes são específicos e quase incompreensíveis.

— Tenho muito conhecimento em caça, pesca, armas de arco, flecha e construções de madeira maciça. Conheço sobre as matas, ervas medicinais… Meus avós são curandeiros. Derroto qualquer animal, se necessário. Posso ser útil e a minha intenção aqui é a mais serena, senhora. Eu vim apenas colaborar, estudar. Por onde passo, eu sou assim. Foi o que minha aldeia me ensinou. — Solto o ar de cansaço. Aquele ar gélido estava adentrando a minha boca e nariz. Acostumada com o clima quente, já posso saber que eu teria que me acostumar por aqui ou mudar totalmente as minhas vestes. Uma capa longa na cor de terra não iria me proteger. — Se eu puder ficar, posso mostrar o dom da força que carrego dentro de mim, caso o Castelo precise e vocês serão ainda mais fortes.

Ouso e a olho, aguardando, temerosa, a sua aprovação, enquanto as luzes violetas parecem se direcionarem ao meu rosto, como se fossem as luzes, servas desta mulher.

Quase tremo, mas profiro em tom profícuo, para que ela me ouça, ainda que ela não entenda a minha linguagem — qual idioma ela fala? Qual? Pergunto-me, inutilmente. O meu nervosismo é visível e os meus apetrechos parecem tremer com algum movimento que faço. Mas sorrio leve para ela, pois fui sincera e genuína.

Trecho do Memórum de Olga Nivïtzz, página 299, ano desconhecido

Frígidas são as alcovas e cômodos d’este sombrio lugar, caríssima senhorita. — Proferi em plácida voz, pois, o medo que emanava de sua energia evidenciava seu desconhecimento sobre o Oculto, ao menos, no que se refere à Magia de Sangue e, portanto, não pretendia alimentar seu temor. Reconheci-a como uma conviva, ela decerto ouvira o chamado do Portal e viera, portanto, é inestimável o seu bem-estar durante a estadia.

O eterno inverno úmido que reside no Castelo poderia matá-la, suas vestimentas eram propícias apenas para localizações tropicais. “De qual século tal peculiar dama deve advir?” pensei. Não reconheci sua nacionalidade proferida, ainda não sou capaz de dominar o universo em sua multiforme veracidade.

Permita-me vestir-te com esta peça — indaguei-a, seu semblante expressava suspeita, retirei com delicadeza meu sobretudo e a sorri para pacificá-la o quanto me fosse possível.  — Basta que retires as tuas armas de teu dorso. Estás segura comigo. — Afirmei.

Nauärah… interessante. Seu nome possui uma sonoridade bastante sui generis, no entanto, há resquícios reais da influência, ao que me soa, da língua da Magia; alehanuhra eriihs, eu diria. O idioma Mágico emergiu no vínculo entre todas as mais valiosas línguas da existência humana.

Ao oferecer-lhe minhas vestes, senti o frio ultrapassar o tecido de meu vestido; há éons que não me arrepio de tal forma com essa aragem de íntima gelidez. De fato, minha intuição consegue se estimular facilmente, a mera tez absorve inúmeros sinais. Desde que abri o Portal para trazer novos residentes a esse valioso receptáculo, meus pressentimentos estão assim, à flor da pele.

Diário de Nauärah, não datado

Zelo, presteza, excelência. Essas três palavras definem tal criatura feminil. Ainda me sinto confusa sobre seu nome e quem é, de fato. Por outro lado, sinto-me segura, realmente, como ela assegurou-me.

Ela veste-me com uma roupa ainda mais felpuda e calorosa do que o meu sobretudo. O roupão protetor é violáceo, quase negro. Eu não mudarei a minha essência e a qualquer momento que eu retirar esta capa, a minha identidade se revelará. Por outro lado, bom utilizar outras vestes que não deixem absolutamente nenhuma extensão da minha pele se revelar.

Apenas a olho, como quem acredita que ela não me importunaria. Não consigo proferir uma palavra. Ninguém me toca, ninguém nunca me tocou, exceto quando no terrível acontecimento. Não permito que ninguém se aproxime, mas, por um acaso, ela é uma dama. E não a proíbo que o faça.

— A vossa pessoa faz-me lembrar dos meus líderes. Minhas felicitações por isso. Não confio em ninguém, senhorita, entretanto, quiçá, haja uma primeira vez para que isso aconteça. — Sorrio, apenas com os meus lábios, mas consigo sorrir.

Olho os meus apetrechos pelo chão púrpuro, ainda assim, suave. Ninguém ousaria mexê-los. Talvez a minha sutil aspereza seja apenas uma capa, assim como esta. Esta capa tem uma energia intensa, mas propícia. Aprendi a silenciar e identificar as energias advindas de lugares inimagináveis. E isto aqui é poderoso, constato.

Trecho do Memórum de Olga Nivïtzz, página 299, ano desconhecido

Sinto-me honrada em evocar tais valiosas memórias em ti — respondi afastando-me ligeiramente. — Fique à vontade n’este Castelo, há outros residentes que poderás conhecer. Eu sou Olga, meus cumprimentos. — Curvei-me de modo suave. Faz tanto tempo que estou imersa n’esta atemporalidade… já não sei se possuo a educação de minha infância, aquela que eu tinha quando eu era ainda uma humana a viver como qualquer outra; já não sei se estou em demasia ultrapassada, dado que hoje — seja o que for que o “hoje” signifique — há mais futuro do que passado.

Não necessitarás de armas por aqui, não há inimigos que sofrerão com elas ou que sangrarão com o fincar das afiadas lanças. O mal que faz lar n’esta lacuna em que estamos, entre o tempo e o espaço, apenas jaz por meio de nossa única e verdadeira arma… a mente… — Aproximei-me da lareira, o lume que permeava a sala estava em um tom violeta muito mais profundo, sentia energizar meu ser. Nauärah em silêncio, é uma inteligente mulher — sei disso, pois noto pelas suas falas e referências. Sua mudez expressa muito da sua introspecção preciosa, a qual sempre darei grande valor. Sinto que há uma ligação dela com outros residentes, não compreendo se esta intuição advém do plano corpóreo, pois, ela emana uma espiritualidade incomum. 

Se me permites, preciso descansar um pouco, mas sempre que precisares de mim, vá ao último cômodo do corredor maior ao norte do Castelo, este é meu aposento; seus umbrais possuem um tom avermelhado e ornamentos específicos, como sigilos de uma antiga doutrina. Tu o reconhecerás, sem dúvida. — Despedi-me, ela gesticulou uma saudação. Seu olhar era de compreensão enquanto minha exaustão parecia ainda maior do que antes. Afastei-me devagar à saída que levava ao caminho de meu quarto, tudo estava frígido como se eu estivesse lá fora, na neve. Pouco antes de chegar aqui, assim, tão perto de abrir a porta e começar a escrever, senti uma mórbida e silente solidão que apertou meu peito em amargura — e que está ainda, insistente, perdurante enquanto observo a noite pelos vitrais e continuo recordando de todos aqueles que já deveriam ter se tornado reminiscências exíguas.

Diário de Nauärah, não datado

Vejo Olga sumir em um dos corredores. Decerto, ela pensaria que sou observadora demais por segui-la com o olhar até ver sumir a sua silhueta. 

Por eu estar sozinha agora e não ter visto nenhum outro hóspede, eu sigo para um dos quartos e enquanto adentro-o, percebo tons violetas nas paredes do imponente castelo. Me vejo envolta por uma atmosfera de mistério e encanto. Retiro a capa colocada em mim por Olga e a guardo cuidadosamente. O meu corpo adornado por peças ancestrais se casa com os reflexos púrpuros das paredes com tapeçarias tecidas em tons violáceos. Isso cria um ambiente acolhedor e ao mesmo tempo enigmático. 

Caminho silenciosamente em direção à janela alta, observando flores roxas no jardim. A lua, quase no mesmo tom, as lumia e as cortinas suaves parecem dançar a dança da noite sombria. 

Uma luz violeta suave é lançada sobre os móveis de madeira escura que há neste quarto onde estou. Há também uma lareira, uma cadeira estofada e um umbrífero, mas caloroso dossel, que me convidava a descansar, enquanto ao redor, estão os meus artefatos indígenas cuidadosamente dispostos ao chão, sobre o tapete roxo. É coisa de Olga, penso... ela parece caprichosa no que diz respeito a ambientes. 

Olho-me no espelho e penso em uma maneira de comunicar à minha aldeia a minha chegada. As minhas vestes trazem à tona lembranças da minha terra natal. 

Viro-me e a cama majestosa, adornada com lençóis de seda violeta, parece convidar-me a mergulhar em sonhos profundos e reconfortantes. Por um momento, eu fecho os meus olhos, sentindo-me em casa mesmo em meio à grandiosidade e o desconhecido, ainda, deste castelo. Sei que aqui estou segura, não importa o hóspede que venha a chegar. 

Confiro a tranca da porta — ainda temerosa, e suspiro aliviada. Ninguém me faria mal aqui. E se fizesse, certamente eu saberia a quem recorrer. 

Exploro o banheiro e o som da minha respiração ecoa aqui. Respiro fundo e sorrio pela segunda vez neste lugar. A banheira em mármore lilás me encanta. E todo o ambiente está bem organizado e disposto.

Já refrescada e pronta para o sono, deito-me e me aqueço demasiadamente. E sei que o meu sono me levaria a lugares inimagináveis antes mesmo do amanhecer. 

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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O Memórum de Olga Nivïttiz: ano desconhecido, página 298

Intensidade, Sabedoria e... desolação...

MidjourneyAI

Intensidade, Sabedoria e... desolação... 

Compreendo que a dúvida cega o instinto primevo que me faz ser uma escolhida de Vehrvorus. Posso ouvir essa verdade em meu âmago como um sussurro que já não me cabe distinguir se é, de fato, a minha voz no obscuro psíquico ou se é o Ente Vehrvorus em sua magnânima revelação etérea. Respiro fundo sob o exalar noturno da noite mais escura do que a própria escuridão e, enquanto escrevo, recordo-me dos estranhos sentimentos erguidos desde meu despertar nesta manhã. O dia oferecera às minhas entranhas uma absoluta sensação de incômodo, porventura eu previsse, em certo grau inconsciente, o insólito agouro; pressentimento possível somente pelo que jurei encobrir a todo o custo: o medo. Guiada pelo temor, tenho despertado em todas as auroras debaixo de um manto de enraizada aflição, especialmente nesta, mesmo sob a égide do Ente que me revelara há certo tempo — o qual não posso mensurar com exatidão — que minha incumbência era guiar os Iguais e os Magistas pela ordem deste receptáculo — destino que me mantêm sempre lúcida em meu próprio equilíbrio. Mas, bem, tive sinais que reforçaram a intuitiva e perdurante amargura, um deles foi pouco antes de iniciar o registro duzentos e noventa e oito. 

Devo afirmar que sei que a hora é esta e que reconheço a força de meu encargo. Eu sinto o quão vestal é o espargir sublime do poderoso Ente, bem como seu fascinante existir. Eu não poderia redigir palavras de hórrida negação sobre as grades atemporais de tal sombrio alcácer, pois, ao menos para mim, não estou em um martírio. Eu compreendo as oscilações emocionais, contudo, estou cravejada ao meu desígnio; minhas retinas estão fixas em meu fado. Sim, eu também tenho com clareza os seus ardores, símeis ao O Fortuna, nunc obdurat et tunc curat ludo mentis aciem (ora oprime, ora cura, brinca com a mente). E, se posso me prolongar, confesso a minha atração mórbida ao medo e à tristura, mesmo quando me assombram — decerto que esta é uma das razões pelas quais estou aqui. Apesar de tais impulsivas e voláteis vicissitudes, quando não estou preparada, obrigo-me à preparação, obumbrata et velata (sombria e velada) e, se preciso, dorsum nudum fero tui sceleris (o dorso nu entrego à tua perversidade) — a perversidade do efêmero sentir. Eu ainda sou humana, o ínfimo tormento pode ser o bastante para me absorver.

Ó… querido Memórum, explico-me como uma criança em busca de consolo… eu sei que algo maior virá, é isso que me embarga a serenidade. Um sopro abrupto de aragem regélida abrira os vitrais deste aposento e arrepiara minha rosácea tez agora pouco. Olhei para o abismo lá fora, os pinheiros e as tão negras montanhas. Desta torre alta, o vislumbre de uma natureza singular e sombria traz uma sensação insólita — Eu não temo este lugar... — murmurei a mim mesma e fechei, apressada, os vitrais. Porém, no exato momento em que me lembrei que os convivas chegariam em breve ao receptáculo, fui penetrada por um escuso presságio que trouxe aquele rosto em minhas lembranças. Vívido rosto... ó... que augúrio. Uma singela e, se não fosse sob tal contexto, ingênua reminiscência. Feroz como um fulgor, desvelou-se e velou-se ágil, deixando seu rastro de desolação. Esse foi o primeiro sinal. 

Daemor... — Sei que sussurrei o nome dele n’um impulso irracional. 

Disparei, em seguida, ao salão principal no esvoaçar do damanoute negror que cobria meu corpo e, às mãos, como sempre, meu grimório. Sequer apreciei as refeições fascinantes feitas por Drácula. Aliás, Drácula têm sido minha única companhia há tempos insondáveis; embora seja tão somente um simulacro, possui uma veracidade que me assombra. Nota importante: Lembrá-lo de colher as Viinmdras para o ritual que não pode ser obliterado, elas devem florear na próxima lua nova; com elas será possível realizar o encantamento que desvelará a existência de Magistas entre os convivas.

Oödo ess ellahr, nonm loduus së qeom eciehllum — Proferi ao centro do símbolo de Vehrvorus. Uma névoa rubra espargiu de meus olhos, os espelhos certificavam. A minha íris anil tornou-se apenas esclera, no entanto, eu enxergava. Com a mão esquerda distendida e a direita apoiando o aberto grimório, intensifiquei a névoa cetrina a partir d’um símbolo mudhrà feito com os dedos. — Escielisih ohrnonm ohrnomus esselis. — Sigilos abissais para vislumbrar cada um dos que receberam o chamado, até o momento, por meio do portal cuja aldrava é o encanto do espectro sombrio. Estão alguns em seus devidos caminhos, percebo, estão próximos do Castelo. Percorri os claustros apressada, porque aquele sinal incitou a possibilidade de... do espectro ser assimilado por... de alguma forma... por causa da atemporalidade da invocação…

Quero dizer, o conjuro dos convivas ao Castelo Drácula é a única forma que tenho para propagar a palavra do Ente e os ensinamentos da Magia de Sangue Arcana. Os que respondem ao chamado, chegarão. No entanto, para que seja efetivo, é preciso uma abertura desvelada, límpida. E ele... ele facilmente assimilaria uma convocação de tão grandiosa significância, sobretudo por, decerto, estar, também, em busca de sanguíneos receptáculos para sua sangrenta busca por poder. Indago-me em que tempo ele está... Daemor... Temo redigir o seu nome, amarga-me tê-lo recebido em minha memória n’um súbito deslize, dói-me como a morte doeria menos do que ter sussurrado seu nome por impulso. No entanto, não o encontrei na aura do espectro, isso aponta para certas premissas, a primeira delas é que ele pode estar morto... ou ele pode residir na atemporalidade, tal como eu. Essas irresoluções perduraram à míngua, resisti a cada uma, estava certa de que eram tolices, entretanto, o segundo sinal aflorou, após longas e exaustivas horas, e dissuadiu todas as minhas certezas. 

Eu sonhei com Daemor... Os sonhos podem ser índices leais que percorrem a consciência dos Magistas para orientá-los de fissuras do espaço-tempo. Eu os levo sempre em consideração. As fissuras, como se fossem um lume vívido atravessando estreitas rachaduras n’uma parede, revelam, pela intuição, conhecimentos de inestimável valor. Tomar desta sabedoria impede que, na realidade do presente em que se encontra, o Magista sofra algum malefício em razão de mudanças temporais. O maior dos malefícios seria deixar de existir, quero dizer, nunca ter existido. Ter a linha do tempo rasurada a este ponto não é algo vulgar de ocorrer e eu não prestei honras a esta rara chance, pois, o sonho com... Daemor... foi de outro tipo... e é imprescindível redigi-lo aqui enquanto ainda me lembro. Os sonhos… como são efêmeros... 

Em sua fisionomia prepotente repousava uma seriedade pontiaguda — e eu não sei o que isso significa, contudo, esta é a melhor forma de descrevê-lo. Estávamos em uma estalagem símil ao do lugarejo em Múrmura onde o vi pela primeira vez. Vestia-se de cores sombrias, com singelos adornos em dourado envelhecido. Estávamos a sós e não demorou para Daemor aproximar-se de mim. Austero. Olhos de felino. Todavia, tomou-me em seus braços com violência e, segurando-me no rosto, forçou-me a olhar para o espelho detrás da recepção destinada ao registro dos hóspedes. Eu vestia roupas de seda pura, um longo vestido igualmente adornado em dourado, era símil a um alvo damanoute. Daemor, enquanto ainda me continha os movimentos segurando firme em meu maxilar, com sua mão esquerda expôs-me sua adaga cuja lâmina brilhava aos meus olhos. Álgida... e rígida... em meu pescoço foi colocada. Comprimi minhas pálpebras enquanto o pavor germinava cruel em minhas vísceras. 

À guisa de ímpeto deflorar, meus olhos abriram-se bruscos, senti verter dos poros de minha pele um licor espesso. Não estávamos mais no mesmo lugar, vi-me n’uma alcova sangrenta cujo dossel aspergia lentamente o sangue sobre mim e assemelhava-se estar constituído de vísceras. Às mãos de Daemor, cujas veias proeminentes afiguravam-se como canais de algum tipo de fluído caliginoso, carregavam um látego. O mesmo se dava aos seus olhos, estavam em completo breu e deles vertia o mesmo fluído das veias enquanto refletiam minha posição inerte sobre o leito. A correia brusca acertara minha pele e gritei à força de meus pulmões. Nenhuma voz difundiu-se. O flagelo sobre meu corpo denunciava a violência de Daemor... úmida violência. De minha arculva um enlevo pecador a cada flagelar. Ouvia os respingos galgarem ainda tórridos. Deseje, no mais profundo de mim, que Daemor se introduzisse ao bel prazer de meu corpo no exato instante em que tudo se apagou. 

Minha lascívia não é comum. Nunca fora. Por esta razão amei Daemor e desejei ter sua violência sangrenta em minha pele, apetece-me a dor prostrada ao meu deleite. A tortura, carregada de lágrimas quentes e salinas, é meu frenesi. A sujeição progenitora do feto da tristura é, em sua profundez mais sórdida, o apogeu de meu êxtase. Há certas dores, distingo-as com perfeição; umas são a fonte d’esta avidez promíscua, outras não. No entanto, com a fronte oprimida n’uma deformidade palpável, um peso árduo em meu torso e o silêncio mórbido de um vazio em meu peito, ainda no plano onírico, vi-me n’um pântano desértico, feito de lodo, solo quase infértil e eivado, vegetações secas e escuras debaixo de um horizonte em eterno crepúsculo. Sim, Memórum, a calamidade de Ohropro. “Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz” — sussurei no sonho. Ao entoar o primeiro verso da lenda de Ohropro, senti a presença de Exício, no entanto, diferente de tudo o que emerge na imaginação a partir das lendas mais ancestrais, eu fui tomada por um esmorecimento ingente, maior do que toda a melancolia que um dia senti; maior que a flor do desalento infeliz que cultivo dentro do meu âmago. 

Prostrei-me sufocada pela lhana mortificação e, ó… sim… que prazer! Um estado de espírito, alma, ser, existência e não-existência; uma condição que parecia compor um novo coração em meu imo. Então, lágrimas assomaram-se a ruir nas curvas de meu rosto, tipificadas em eterno afogo. Eu estava morta. Assim é a morte, então? É assim. Não sou capaz de preterir tal ilustre espetáculo. Todavia, que infortúnio, que santa e horrenda lástima... um fulgor símil ao sol trouxe-me à vida, extirpando minha edulcorada desolação. Vi, outra vez, o rosto amável e viril de Daemor e despontou-se a minha consciência de vez, aprisionando o simbolismo do sonho e me acordando. Minha respiração estava frenética A Necroumbrae é inconcessa, sim, ilícita e deveras hostil... arriscada...insegura... mas... experienciar a morte daquela forma tão inebriante... que minha condenada alma me perdoe... eu quero sentir outra vez, ainda que apenas no mórbido sonhar. 

Não sei ao certo, mas, este segundo sinal... soa-me como... não sei... não pode ser... preciso de um tempo. Que hora inconveniente para tudo isso... devo meditar, cuidadosa, e talvez trazer minhas impressões no próximo anoitecer. 

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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O Que é um Memórum?

Ao Memórum pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas…

MidjourneyAI

Ao Memórum pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Memórum é um livro e posso compará-lo ao Diário, visto que ambos são guardiões dos aspectos quotidianos da vida humana singular. Todavia, o Memórum, para além d’esta tarefa, possui muitas outras e, para que estas muitas outras sejam cumpridas, é requerido que seu autor tenha um vínculo com seu Memórum, é imprescindível que seu autor tenha uma intenção verdadeira de encontrar, através da escrita, o autoconhecimento.

Cada um deve ser autor de seu próprio Memórum. O autor deve se vincular profundamente e emocionalmente ao seu Memórum para que sinta ser substancial escrevê-lo. A intenção, a qual supracitei, nada mais é do que a verdadeira vontade de fazer algo. Por vezes temos anseios quais, por mais que sejam anseios, não são febris o suficiente para que utilizemos nosso tempo e energia em nome deles. O anseio de escrever em seu Memórum deve ser, para o autor, um anseio resoluto. Isso, pois, das outras muitas tarefas destinadas ao Memórum, está o hábito de descrever o seu dia com minuciosos detalhes, em especial a respeito de seus pensamentos, sentimentos e emoções.

Em um Diário, naturalmente escrevemos o que sentimos ou pensamos, porém, no Memórum, é preciso uma dedicação para que esses detalhes sejam mais aprofundados, uma vez que são eles que trarão compreensão para nós e consciência para o nosso quotidiano. Isso acontece porque, ao nos dedicarmos à lembrança de cada pensamento e emoção, além dos acontecimentos do dia, trabalharemos a memória e a atenção a cada dia com mais avidez; imersos no verdadeiro desejo pelo autoconhecimento e vinculados, sem hesitar, ao Memórum; quereremos investir nossa atenção nos dias corriqueiros tão somente porque queremos ter o que redigir ao anoitecer. Esse ciclo de escrever para se lembrar e investir na atenção para se lembrar mais ao escrever, é o ciclo virtuoso do Memórum.

A memória é a razão pela qual somos capazes de compreender novos conhecimentos; exercê-la e praticá-la não apenas leva ao autoconhecimento, mas também nos permite transformar a nossa existência com a expansão da nossa capacidade de assimilação do mundo. O Memórum é a ferramenta do ciclo virtuoso da memória, pois a expande naturalmente. Além disso, com o exercício da Escrita, ampliamos nossa capacidade cognitiva e desenvolvemos, assim, maior habilidade de processamento de informação, além de autocontrole nas respostas reativas do nosso comportamento. Não é atoa que sempre, desde os primórdios da humanidade, buscamos formas de escrita que, mesmo rudimentar, vinham da nossa intuição primitiva de evolução mental.

Compreende-se que, portanto, enquanto ferramenta da consciência, o Memórum como hábito produz: 1) Exercício e expansão da Memória; 2) Reforço da atenção diária; 3) Ampliação da capacidade cognitiva no processamento e assimilação das informações do eu-mundo; 4) Melhoria na habilidade de lógica; 5) Construção de autoconhecimento na análise facilitada por todo o movimento dinâmico da mente descrito nos quatro itens anteriores — essa construção acontece porque, necessariamente, somos colocamos como observadores dos nossos pensamentos, sentimentos, emoções e, principalmente, das situações cotidianas, isto é, do mundo que estamos inseridos; ao escrever o Memórum, somos colocados como narradores da nossa história e, enquanto tais, podemos definir o futuro do protagonista que somos, pois, nós mesmos; isso acontece gradativamente, a cada nova folha redigida no Memórum, a cada novo esforço intencional para manter o hábito e dedicação para se lembrar de tudo o que passara por sua mente e coração ao longo do dia. Autoconhecimento é algo a se buscar do início ao fim da vida.

O Memórum, enquanto ferramenta, pode não trazer benefícios se utilizado de forma errônea; portanto eu reforço, é preciso um profundo e incorruptível querer-escrever-um-Memórum, para que a ferramenta seja aproveitada em todo o seu potencial. 1) Queira, de verdade, escrever um Memórum; 2) Dedique-se ao seu Memórum; 3) Divirta-se lembrando do seu dia, sentimentos, pensamentos e emoções, para que a “tarefa” de escrever lhe seja agradável; 4) Trate seu Memórum como um amigo, ou como seu Psicólogo, queira revelar para ele tudo o que se passa em seu ser; 5) Entenda seu Memórum como uma criatura que só vive se for alimentada por suas palavras, logo, não a deixe falecer no esquecimento. Se não houver disposição para estas cinco coisas, desconsidere a escrita de um Memórum e prefira o Diário que é, em si mesmo, um hábito de escrita mais suave e fácil. Ambos tem suas qualidades, no entanto, não esqueça que escrever um Memórum é dedicar-se ao método mais poderoso para o autoconhecimento e independência racional e emocional através da Escrita.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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A Fenomenologia da Imortalidade

Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a…

Death of an Orphan, 1884 — Stanisław Grocholski (Polish, 1858–1932)

Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a essência daquilo que se manifesta nos sujeitos a partir deles próprios, isto é, da expressão mais pura de suas singularidades reais, das vivências, compreensões e sentidos. Por meio da Fenomenologia, aplicada na Psicologia e revelada pelas linhas Existenciais da Filosofia, o ser que somos é foco de estudo a partir de seu existir significativo, tendo o objetivo de desvelar sua estrutura essencial, ou seja, para cada indivíduo a morte é experienciada como um fenômeno a partir de suas próprias manifestações enquanto ser individual, embora esta experiência esteja em dinâmico vínculo com o que o mundo em si, a sociedade, expressa em suas compreensões coletivas — a intersubjetividade também traz a subjetividade à luz de sua existência.

Discorrer sobre a Fenomenologia é sempre um ofício árduo, isso porque o seu método é enxergar com transparência genuína o ser que se revela em construção ser-mundo diariamente. Não há como mensurar e categorizar a experiência humana, nossa consciência é fundamentada em vivências reais imediatas, construídas, significadas, expandidas, inexploradas — somos a límpida revelação de nós mesmos; a Fenomenologia quer extrair a essência imutável dessa revelação. Deste modo, podemos afirmar que a Fenomenologia da morte é o estudo da essência imutável que reside em todas as expressões humanas em suas singularidades relatadas e vividas a respeito do morrer.

Sob as perspectivas atuais, notamos uma brusca mudança social onde a busca pela imortalidade é fulgurante e a morte é, cada vez mais, negligenciada — o fechar de olhos para o fim tendo o amanhecer sempre ao alcance das perspectivas. Naturalmente, com o avanço tecnológico, viver mais é uma realidade um pouco menos distante do que vinte e quatro anos atrás; podemos compreender, no entanto, que a temporalidade, ainda que prolongada, não pode ser extinta, pois, em si mesma, ela é o viver da forma que este se manifesta. Alcancemos a morte do morrer, continuaremos a existir no tempo. O tempo é uma vertente da morte e não há como parar o tempo.

Evidente que, como mencionado, a vivência da morte é única para cada humano e não investigo neste artigo relatos específicos sobre o assunto, mas discorro em reflexão sobre o que vem de encontro à minha consciência nos tempos atuais, busco, assim, a partir do que enxergo, extrair uma essência imutável de compreensão. Eis algumas pertinentes questões: Uma sociedade sedenta pela vida, poderia ser capaz de morrer? O tempo poderia ser a nova morte? Ou a finitude, ressignificada à imortalidade, caracterizar-se-ia pelo medo, o tédio e a angústia? Em resposta, a morte em si, como essência do fenômeno humano, constitui-se por todos os aspectos da finitude do ser, isto é, há morte no tédio, na angústia, no medo e no tempo — ser imortal, se podemos imaginar, não é o que fará desaparecer a morte.

Portanto, a escolha individual de negar ou aceitar o que a morte é em toda a sua significação, não poderá deixar de existir enquanto parte essencial do ser; somos para a morte mais do que somos para vida, sua substância integra todos os momentos e, portanto, nos faz — ontologicamente — para-a-morte. Envoltos à uma possível imortalidade, estaremos prostrados a um tempo eterno para a realização manifesta do que somos através de escolhas, mas não haveria a finitude enquanto impulsionadora desta disposição à escolha — o nos leva a deduzir que o tédio e a angústia tomariam esse papel. Teríamos todo o tempo disponível, e o quão angustiante isso poderia ser? Cabe, neste ponto, reforçar o aspecto indissociável do ser humano em relação à totalidade de sua realidade, desde suas manifestações subjetivas, à sua consciência direcionada e construída no mundo e com os outros — o que novamente revela a impossibilidade da morte deixar de ser a essência do ser, dado que sua ausência ainda seria um gatilho para a autenticidade do ser, isto é, para trazer ao ser uma “luz” de compreensão sobre si mesmo, levando-o à ação que corresponde, especificamente, na ação de existir.

Diante disso, a afirmação que traz o resumo de toda a compreensão discorrida é: mesmo na imortalidade, morreremos. A morte não pode ser encurtada ao morrer em si, pois sua significação está atrelada ao sentido de tudo o que o ser experiencia. A escolha singular de cada indivíduo os levara ou não aos sentidos da morte, mas os sentidos da morte, mesmo na imortalidade humana, sempre estarão presentes como estímulos essenciais para a realização do fenômeno do ser em seu mais puro desvelar-se a si.

Artigo publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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Resenha: A Melancolia de Trees Of Eternity

Trees of Eternity foi uma colaboração musical entre o guitarrista finlandês Juha Raivio e…

Foto da Web

Trees of Eternity foi uma colaboração musical entre o guitarrista finlandês Juha Raivio (da banda Swallow the Sun) e a cantora Aleah Stanbridge, nascida na África do Sul e residente na Suécia. A música deles é frequentemente descrita como melancólica ea inspirada no estilo musical doom/death, com vocais femininos angelicais.

A banda foi formada quando o guitarrista Juha Raivio e a cantora Aleah se juntaram no estúdio para trabalhar na música "Lights on the Lake" para o próximo álbum da Swallow the Sun. A partir dai, o projeto se tornou uma ideia com vida própria e, desta experiência nasceu o álbum Hour of The Nightingale.

Em 11 de agosto de 2016, o álbum de estreia da banda, Hour of the Nightingale, foi anunciado para ser lançado em 11 de novembro. Infelizmente, em 18 de abril de 2016, a cantora Aleah Stanbridge faleceu de câncer aos 39 anos. Dois dias depois, Juha escreveu no Facebook que o álbum estava pronto para ser lançado há algum tempo e que os planos ainda estavam em andamento. Ele também planejava lançar as músicas solo de Aleah

"Alcance através de sua mente, céu interno
Deslize infinito até mim
Alma encarcerada, presa atrás de seus olhos
Até que seja salva, compartilhando sua luz
E escuridão"
— Trecho traduzido da música Condemned To Silence

O álbum foi lançado, às condolências por Aleah e em nome de sua voz perfeita e do trabalho que tivera, junto a Juha e os demais convidados, na produção de Hour of The Nightingale.

É preciso ouvir Aleah cantar em Hour of The Nightingale para compreender como as sensações mais soturnas emergem no âmago e florescem em uma lentidão abominável dentro da alma. Tamanha é a melancolia dos instrumentos que conduzem a voz de Aleah que, através dos nossos olhos, vertem lágrimas imateriais enquanto um estranho conforto nos guia a um abismo sem fim. Por tais sensações inenarráveis, é impossível deixar de ouvir o álbum completo, várias vezes consecutivas; é viciante o universo que tais composições evocam.

Há males quais não podemos dizer terem vindos para o bem, pois que amargura é não ter um novo single de Trees of Eternity nos dias atuais; resta-nos o lamento e a mensagem deixada: “Não chores por mártires | Levante a cabeça | Águas salinas não vão ressuscitar os mortos” — Trecho traduzido da música que leva o nome do álbum: Hour Of The Nightingale.

"Veja todas as cores desaparecendo
Com o Sol
Temporada de uma escuridão sombria
De novo, isto começou
Amaldiçoado por ciclos recorrentes
Erguido para ser desfeito"
— Trecho traduzido da música Eye Of Night
Artigo publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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