1 - Diário de Sibila von Lichenstein

Hoje, mais uma vez, acordei como sempre. Os olhos pesados, a mente turva, mas com uma sensação de alívio que não sentia há muito tempo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Hoje, mais uma vez, acordei como sempre. Os olhos pesados, a mente turva, mas com uma sensação de alívio que não sentia há muito tempo. Por fim, minha mente poderá descansar. Se eu não estivesse desperta — ou ao menos acho que estou — diria que esse descanso é o que a morte traz. 

Há alguns dias, fiz o que fiz com ele. Não sei como atravessei o limbo que permeia os sonhos, mas o fato é que agora habito estas misteriosas paredes. Quando despertei naquele dia estranho, o momento em que fui trazida para cá, não pude perceber logo. Habitar o interior deste castelo, onde me encontro, parece ser a extensão de um sonho, tornando-o perpétuo. 

Lembro-me de quando abri os olhos e, com um movimento leve, dirigi-os para a deslumbrante paisagem que se descortinava através da janela. Campos infindáveis de lavandas encantadoras se estendiam diante de mim. Não consegui discernir onde começavam e onde terminavam. O odor, de início suave e agradável, logo se tornou acachapante, quase impossível de suportar. 

Ao observar aquele campo florido e o céu em tons de lilás, uma sensação de dissonância me tomou. A palidez violácea dos céus se confundia com os tons púrpura das flores, criando uma sensação de confusão entre o céu e a terra. O jardim ao redor do castelo, naquele dia ousei explorá-lo: você o adentra e se perde, envolto em um absurdo encanto. As lavandas, movidas suavemente pelo vento, traziam uma sutileza apaziguante, como se a natureza estivesse em um estado de constante calma. 

Mas então, como um vislumbre da verdade, o que parecia ser serenidade se revelou efêmero. Em meio à quietude daquele cenário, uma sensação sutil, porém palpável, de inquietação começou a se espalhar. As lavandas não eram apenas flores; elas sussurravam. Sussurros terríveis que, embora suaves, me alcançaram com um peso insuportável, obstruindo minha garganta e distorcendo meu olhar. Era como se algo maligno se escondesse entre aquelas pétalas, esperando para revelar seu horror. Parecia que ao olhar com atenção para as flores eu conseguia avistar os rostos delas, as vítimas que eu ajudei a matar. 

E eu, que me permiti mergulhar nesse jardim de aparente paz, fui levada aos confins da loucura. O que as lavandas estavam sussurrando? Eram os meus segredos hediondos, ou era apenas minha mente, que já se despedaçava pela culpa e pelo medo, criando esses horrores? Eu não sabia mais se estava sonhando ou se a realidade que agora habitava era mais insana do que qualquer pesadelo. Ainda sim, eu duvido que possa ser pior do que o pesadelo que vivi ao lado dele. 

Não posso esquecer como tudo começou. Viktor Frankenstein... Ah, Viktor. Conheci-o na faculdade, com seu brilho nos olhos, sempre tão envolvido em suas pesquisas. Eu era apenas uma jovem ambiciosa, desesperada para continuar meus estudos após a morte de meu pai, um simples trabalhador do campo na Prússia. A morte dele, no inverno rigoroso daquele ano, deixou um vazio imenso, e me vi diante de uma cruel realidade: minha educação, minha ascensão social, tudo estava em risco. Quando Viktor me ofereceu um caminho para garantir minha continuidade acadêmica, aceitei. Não sabia o que me aguardava. 

Ao me mudar para sua casa, situada na periferia de uma cidade que ainda carregava as cicatrizes das Guerras Napoleônicas, tão diferente das paredes desse castelo que atualmente habito, tudo parecia promissor, pelo menos no início. As ruas cobertas de neve e o vento gélido da Prússia pareciam distantes da casa de Viktor, mas logo descobri o que ele realmente fazia em seu laboratório. Nunca vou me perdoar pela morte de minha amiga Eleanor, a quem contratei para limpar a casa. Ele a matou. Sim, caro diário que acolhe minhas mórbidas palavras. Ele matava mulheres, inocentes, para seus experimentos. E eu... eu fui forçada a ajudá-lo a esconder os corpos. Eu não tinha escolha, não naquele momento. Era o preço que eu pagava para garantir minha educação, meu futuro. 

Cada vez que olhava para ele, um homem brilhante, mas obcecado por sua própria criação, eu me sentia mais suja. Minha consciência se corroía. Ele me forçava a ser cúmplice de algo que sabia ser monstruoso. E assim, as semanas se passaram. Eu o ajudava a enterrar seus pecados, mas a cada corpo, a cada erro, a culpa aumentava. Até que, finalmente, decidi: ele precisava morrer. Eu não poderia mais permitir que suas mãos, imundas de sangue, continuassem a destruir vidas. Depois de Eleanor, uma morte que não o ajudei a planejar, ele me pediu que providenciasse mais vítimas, caso contrário eu seria a próxima e ele providenciaria outra assistente. Com a crescente expansão das indústrias, e sem uma profissão definida, eu me vi sem alternativas. Ou era a minha vida, ou a delas. 

Foi numa manhã fria e silenciosa, em uma Prússia já tão marcada pelo avanço industrial e os ecos do passado sangrento, que tomei minha decisão. Acordei, vesti o sobretudo, calcei as botas de abatedouro e fui até o laboratório. Dessa vez, não era para mais uma de suas vítimas. Não, eu faria o que deveria ser feito. Eu o matei. E ao fazer isso, pela primeira vez, consegui dormir sem ter pesadelo algum, após o ato. 

Era como se, ao tomar sua vida, eu tivesse me libertado. Quando finalmente adormeci, pensei que talvez fosse o fim de tudo. Mas ao fechar os olhos, um sonho estranho me envolveu. Fui transportada para um lugar sombrio, este castelo, onde agora me encontro. Na ocasião, um homem de semblante imponente me observava das sombras. Eu não sabia como, mas sentia que meu destino agora estava entrelaçado com o dele... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 3: Tratamento onírico

Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem de algum filme passado no século XIX. Ainda tenho sentimentos conflitantes com relação a isso, pois sempre fui uma criatura que apreciava o novo e moderno (ah, como sinto falta da internet), mas sabia contemplar a beleza das construções e mobílias clássicas. 

Há quatro janelas esguias, adornadas com cortinas de veludo vermelho, com os famosos penduricalhos dourados nas extremidades. A poltrona fora confeccionada com o mesmo tecido e estilo, e por vezes, ria-me imaginando ver algum aristocrata impotente sentado ali. 

A cama é de madeira robusta, com entalhes perfeitos e possui quatro pilares, que sustentam o voil branco. Acho desnecessário todo esse luxo exacerbado, mas reconheço que é extremamente belo. Ao deitar-me na cama, o colchão parece dar um terno abraço materno, e sinto esvair toda a sensação de desconforto, se é que ainda restava alguma. 

*** 

Acordei com a Lisa miando com uma urgência que me preocupou. Levantei-me para pegá-la, e ela correu em direção à porta e parou, como se esperasse que eu a abrisse. Abri. Continuou miando, andando e parando, exigindo de mim uma agilidade impossível. 

Transparecia uma feição diferente, densa, como se não tivesse tempo para mais nada e somente precisasse me conduzir a algum lugar. 

A escuridão impregnava as superfícies e conferia ao Castelo um aspecto ainda mais sombrio e enigmático, e em dado momento, quando ela virou-se para mim, avistei duas luzes violetas no lugar onde seriam seus olhos. "Ah Lisa, vamos voltar para cama, estou tão exausta que já estou vendo coisas", mas ela continuava irredutível em sua missão autoimposta. 

Ainda não conhecia (e não conheço) os pormenores do Castelo. Existem várias portas, corredores e ambientes, e eu, que nunca tive boa percepção espacial, via-me cada vez mais perdida. Mas ela sabia exatamente onde estávamos e para onde íamos. Parou em frente a uma porta, e entendi que era o nosso destino. Bati, perguntando se havia alguém ali dentro e recebi o silêncio como resposta. 

Girei lentamente a maçaneta, ainda preocupada de estar invadindo a privacidade de alguém. Era um banheiro. Amplo e claro demais, não combinava com os demais locais que havíamos percorrido até chegarmos ali. Contudo, entrei. 

— Você quer fazer suas necessidades, não é?! — Falei em tom de brincadeira e para minha surpresa ela respondeu. 

Estremeci. Estava delirando ou minha gata falou comigo? 

Olhei espantada para ela, que sorriu estranhamente em retribuição. Soltei um grito, mas devido às proporções exageradas daquele lugar, creio que ninguém me ouviu. Seus olhos brilhavam em intenso neon arroxeado. Sim, os olhos dela estavam roxos! 

Tentei afastar-me, mas ela cresceu até que ficou do tamanho de uma pantera negra, com seus olhos lilás ofuscando minha visão e impedindo-me de sair daquela situação. 

— Lisa, o que está acontecendo? 

— Não sou Lisa, meu nome é Meia-noite. Venho oferecer-lhe uma chance para recobrar fatos passados, os quais reprimiu para sua segurança. Permita-me conduzi-la para os braços de Uor, será fisicamente indolor, mas precisas confiar em meus métodos, só assim ficarás plenamente curada. 

— Isso só pode ser brincadeira, esse lugar é estranho, deve estar mexendo com os meus sentidos... Obrigada, mas não! 

E Meia-noite não proferiu mais nenhuma palavra. A intensidade com que as luzes-olhos brilharam foi o suficiente para hipnotizar-me. Calei. A comunicação entre nós, a partir daquele momento, tornou-se telepática. Recebi a sugestão para que eu adentrasse nas águas cor de lavanda da banheira. Ao mergulhar, pude recuperar as memórias perdidas nos recônditos do meu interior. Chorei. Recuperei memórias dos traumas, perdas e dores responsáveis pela dilaceração da minha alma, a sublimação estava em curso. Mesmo inconsciente, resistia, e Meia-noite fazia um esforço hercúleo para manter-me dentro da banheira. 

Da cura vem a cicatriz. Com tanta força envolvida, outra criatura surgiu, farejando o meu medo e a minha autodepreciação. Meia-noite não conseguiu impedi-lo de me sufocar, estava sendo pressionada para dentro das águas por uma entidade feroz, envolta em névoa negra e perturbadora. Sua mandíbula, constituída de dentes protuberantes e afiados, era assustadora. Suas garras apertavam meu pescoço e eu quase sucumbi. As águas ficaram cada vez mais escuras, o que era inicialmente cor de lavanda tornava-se púrpura. Gritar não era possível, visto que estava dentro daquelas águas, sufocando. Sentia-me perdendo as forças... Finalmente algo me puxou para fora. Pensei que fosse o Meia-noite. 

Quando recobrei a consciência, percebi que ele, Lisa e uma outra gata, estilo persa, com olhos e pelos lilases, olhavam-me assustados: 

— Bem-vinda de volta, Alana. Meu nome é Sinen. Trazes muita tristeza dentro de ti. Ainda há recordações que te ferem, mas seria perigoso continuar. — A gata lilás falou e sua voz parecia uma canção antiga, um alívio após o caos que acabara de experienciar. 

Meia-noite meneava a cabeça, em sinal de concordância. Com o corpo dolorido e a mente a mil, por algum motivo, estava feliz, mesmo após àquela experiência de quase morte. Lisa aproximou-se gentilmente e disse: 

— Acorda! 

Acordei com os miados urgentes de Lisa ecoando pelo quarto. Meu corpo doía e latejava, a mente confusa no limiar do sonho e da realidade. No entanto, ainda carrego as marcas no meu pescoço — vestígios daquele tratamento onírico —, e sempre me pergunto quando Meia-noite irá retornar... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 2: Do outro lado da tela

Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações. Talvez, esse seja um dos propósitos para escrever, obter alívio em meio a tanta pressão

Todavia, desde que cheguei ao Castelo Drácula sinto necessidade de escrever os pormenores dos acontecimentos ao meu redor; as pessoas e suas interações despertaram-me um interesse que outrora nunca conheci. Os acontecimentos cotidianos tornaram-se mais atrativos e minha curiosidade por entendimento, sobre o que seria esse lugar misterioso, aumentava ainda mais o hábito da escrita. 

Em meu último relato, contei como Espectumbral apresentou-se a mim e, provavelmente, estejam curiosos por saber o que aconteceu depois desse encontro pictórico e envolvente. Quais mistérios me aguardavam além-mundo? 

Do outro lado da tela não havia um caminho de ladrilhos dourados, nem fora culpa de um tornado eu estar ali. De certo modo, eu escolhi adentrar ao portal, e essa foi uma das melhores decisões da minha vida. Entretanto, naquele momento inicial, eu nada sabia e o medo do desconhecido sufocava-me. 

A confusão sinestésica, causada por odores e ruídos nunca experimentados (uma viagem tridimensional?), atrapalhava meus pensamentos. Em meus ouvidos zumbidos extrassensoriais incomodavam, parecia que milhares de abelhas faziam meu frágil corpo de morada. “Tais confusões seriam ainda os efeitos do líquido etílico que havia ingerido no pub?”. Por fim, afastei tais elucubrações e aos poucos fui conseguindo ver com mais clareza o local. 

Era uma floresta. A névoa bruxuleante transformava as árvores esguias em figuras espectrais, e as bétulas brancas pareciam dançar com movimento sutil, como se estivessem saudando a nova habitante. A atmosfera era densa, invadia os recônditos do meu ser, e eu, incauta, prosseguia a trilha adornada de pedras âmbar. Lisa, a minha gatinha preta, quase me derrubou novamente, abaixei-me e a peguei em meus braços, sua pelagem negra e macia reconfortava-me. 

Olhei para o alto e avistei o suntuoso Castelo Drácula, envolto em tão atraente magia. Os sussurros, que provinham das árvores, diziam-me que aquele era o meu lugar. Não mais hesitaria, continuaria a percorrer a trilha até me visse protegida pelos seus muros altos e fortificados. 

Caminhei até chegar ao portal imponente, o ferro envelhecido conferia-lhe um charme que somente artefatos históricos poderiam ter. Tentei empurrá-lo, mas a folha de metal pesada não se moveu nem um milímetro. “Como vou entrar?”. 

Procurei por algo que pudesse me ajudar. Notei que nos batentes tinham palavras insculpidas em letras cursivas, e enquanto as proferia, gradativamente, um ranger de dobradiças não lubrificadas foram surgindo. Os portais abriram-se totalmente quando terminei de ler a derradeira palavra. Meu mantra desde então: 

Chegastes aos portais selados,
Adentrai e deixai vosso júbilo luzir.
Há segredos aqui guardados,
E a cada passo irás descobrir
 

A atmosfera fez-se onírica, abraçava-me concedendo uma paz idílica. O ar não mais pesava sob meus ombros, e uma leve brisa parecia acariciar meu rosto. Percorri por uma trilha adornada de flores, das mais variadas espécies, as quais não ouso tentar mencionar os nomes, já que não era tão apegada às questões da natureza (certos hábitos precisam ser trabalhados e lapidados, apreciar as belezas requer tempo e disciplina)

Enquanto andava calma e silente, olhei para as portas principais do Castelo e avistei a criatura soturna, um feixe de luz iluminou a sua pele pálida e fria. 

O Conde Drácula é um homem de beleza singular e etérea, carregando um ar de melancolia que o torna ainda mais enigmático. Seus olhos, escuros e profundos, parecem revelar fragmentos de uma alma que já conheceu amor e alegria, mas que agora está perdida em uma eternidade solitária. A pele é quase translúcida, marcada pelo tempo e pela dor, como uma porcelana antiga, e ele se move com uma graça contida, como se o peso das eras tivesse suavizado sua força. 

Suas roupas são finas e elegantes, mas sutilmente gastas, como vestígios de uma grandeza passada. A voz é suave e baixa, carregada de um lamento sutil, e as palavras, embora persuasivas, revelam uma profunda saudade e uma dor antiga (será um amor platônico ou o peso da vida?). A presença de Drácula parece mais como uma sombra ou uma memória há tempos suprimida — uma figura que já foi poderosa e temida, mas que agora é, paradoxalmente, vulnerável e distante, como um eco de uma vida outrora intensa e cheia de luz. 

Ele não era nada do que eu imaginava. Quais mitos serão desfeitos a partir de então? Terás que ler os próximos relatos... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi VI

Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo…

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De Narcís Nestor
(Telegrama para “O Caçador”)
Atenção: Ivan Molchanov
Castelo de Lúgubre, Data: 11, de julho de 1871
 

Prezado Ivan, 

Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo. É vital estar aqui para discutirmos assuntos de extrema urgência. 

Aguardo sua confirmação imediata. 
Atenciosamente, 
Narcís Nestor 

~

De Ivan Molchanov
(Telegrama para Narscis Nestor)
Oldemburgo, 03 de agosto de 1871
Atenção: Narcís Nestor 

Recebi seu telegrama.  
Comparecerei ao castelo, não se preocupe. Estou no meio de uma caçada no norte da Alemanha em nome dos Romanov, mas assim que acabar, partirei direto para aí. 
Prepare-se. Estou chegando o mais breve que puder. 

 ~

Ivan Molchanov
De Dr. Christopher V. Walker II
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871

Meu querido e estimado amigo, 

Ao receber a convocatória da polícia parisiense, um calafrio percorreu minha espinha, não era nada comum convocarem um psiquiatra. Meu retorno da Inglaterra havia sido marcado por uma aura de mistério e inquietação, mas nada poderia me preparar para o que encontraria no salão onde aconteciam a aula magna de medicina da Universidade de Paris. Ao cruzar a porta, uma sensação pesada se abateu sobre mim, como se o próprio ar estivesse saturado de desespero, em minha mente pairava apenas a dúvida quanto a toda aquela celeuma. 

A atmosfera tornou-se ainda mais densa quando me deparei com o investigador Jules Moreau, que estava examinado o local com seu olhar curioso. Moreau era um homem, na casa dos 30 anos, de cabelos castanhos curtos repartidos no lado direito, um bigode farto que balançava com cada palavra, e um nariz redondo que parecia sempre à procura de algo. Ele era um pouco acima do peso, e suas vestes estavam desalinhadas, como se ele tivesse se apressado ao sair de casa. Sua voz de barítono, embora imponente, era interrompida por um leve tom fanho que tornava suas declarações quase cômicas, se não fossem tão graves. O investigador aparentava uma jovialidade fora do normal em sua expressão, esboçando um sorriso cordial baixo aquele bigode. 

— Dr. Walker! — exclamou, gesticulando descontroladamente e quase derrubando um caderno que segurava sob o braço. — Precisamos discutir as condições em que encontramos os corpos. Eles foram… bem, transladados pelos carros da polícia, você sabe, direto para cá. 

Enquanto ele falava, eu tentava focar na gravidade do momento, mas o jeito desajeitado de Moreau dificultava manter a compostura. Ele se ajeitou as roupas, como se tentasse, sem sucesso, desamassar as dobras que pareciam se reproduzir a cada movimento. 

— A situação em La Cité… — ele continuou, limpando a garganta de maneira atrapalhada. — Está gerando incômodos. Os moradores estão em alvoroço! Mencionam coisas como vampiros e… bem, até fantasmas! — Ele fez uma pausa, olhando ao redor com um ar conspiratório, como se esperasse que algo sobrenatural aparecesse entre nós. 

— O que importa — prosseguiu, tentando recuperar o foco — é que precisamos resolver isso com o máximo de sigilo possível. Ninguém pode saber que os corpos foram trazidos aqui. A reputação da universidade, você entende? — Ele gesticulou com a mão, quase acertando o próprio rosto. 

A tensão do ambiente se misturava ao seu jeito desengonçado, e não pude evitar um sorriso diante da cena. Moreau parecia genuinamente preocupado, mas sua atrapalhada sinceridade trazia uma leveza inesperada ao momento sombrio. 

— Precisamos evitar que o pânico se espalhe. Se a notícia vazar… bem, você sabe como Paris é — disse, abrindo os braços em um gesto exagerado que quase o fez perder o equilíbrio. 

Os corpos jazeram ali, dispostos de maneira que sugeria uma cena de pesadelo. As luzes tremeluzentes das lamparinas projetavam sombras dançantes, criando uma atmosfera que tornava cada canto do salão um esconderijo de segredos. Eu sabia que precisava realizar uma análise cuidadosa, documentar as feridas nas jugulares, mas a realidade do momento era opressiva, como se uma força invisível me impedisse de pensar com clareza. 

Enquanto observava os rostos das vítimas, uma análise superficial começou a tomar forma em minha mente. A expressão de terror estampada em suas faces era inegável, um reflexo de um horror tão profundo que poderia ser palpável. As marcas no pulso direito, evidentes sinais de resistência, contavam a história de um desespero que ecoava nas paredes do salão. Embora já tivesse participado de análises em outros casos e aprendido a entender a mente criminal, essa cena me deixou inquieto. Era uma brutalidade que transcendia o mero ato de assassinar; era uma tentativa de controlar, de dominar, uma pulsão obscura que instigava minha curiosidade e aversão. 

Essas feridas tão estranhas que foram provocadas por Deus sabem o quê, ou quem, não eram apenas marcas físicas; eram indicadores de uma luta desesperada contra um predador invisível. A resistência manifesta nos pulsos poderia sugerir que as vítimas lutaram contra o que não podiam entender, e isso, por sua vez, reflete o que muitos temem: a incapacidade de escapar do destino. Minha reflexão aponta para uma inquietante verdade: a mente humana consegue tolerar horrores inimagináveis, mas essa resistência pode ser quebrada, transformando-se em um grito mudo que ecoa em nossos subconscientes. 

Enquanto escrevia, a caneta tremia em minha mão, refletindo a agitação que sentia no fundo, de minha alma. Sabia que precisava alertá-lo sobre a escuridão que se aproximava, uma sombra que ameaçava engolir não apenas aqueles corpos, mas a própria cidade. 

Nesse momento, a porta do salão se abriu e um jovem médico legista entrou. Thomas Simon, com seus cabelos negros e olhos de águia, tinha uma expressão carrancuda e um humor ácido que logo se tornou evidente. Ele se aproximou, sua presença quase imponente no espaço carregado de tensão. 

— Dr. Walker, investigador Moreau — disse, com uma voz firme. — Precisamos discutir algo sério. O sangue das vítimas foi completamente extraído. —Enquanto ele se aproximava da mesa e descobri o homem que estava mais distante de nós, nos forçando a ter-mos que nos aproximar dele. 

Essas palavras pairaram no ar, e uma onda de incredulidade me percorreu. Moreau arqueou uma sobrancelha, o semblante preocupado, enquanto a seriedade da situação se intensificava. 

— Como isso poderia ter acontecido? — perguntei, minha mente correndo para cenários impossíveis. 

Thomas cruzou os braços, o olhar penetrante como se pudesse desnudar a alma humana, examinando o ambiente antes de responder. — Pode ser algum culto estranho, uma prática ritual. O fato de estarmos lidando com corpos assim sugere que alguém se sentiu à vontade para realizar tal ato em pleno coração de Paris. 

Moreau franziu a testa, coçando a cabeça. 

— Cultos, você diz? Não estou surpreso. Ouvi rumores sobre atividades estranhas na região, mas pensei serem apenas lendas. 

— Lendas que parecem ter ganhado vida, talvez — completou Thomas, seu tom ácido intensificando a gravidade das palavras. — É o tipo de história que faz os moradores falarem sobre vampiros ou criaturas da noite. O povo gosta de fantasias, mas a realidade pode ser ainda mais assustadora. 

Moreau, que até então havia tentado manter a compostura, soltou uma risada nervosa. 

— Paris, a cidade das luzes, agora se torna a da escuridão. Acredito que os mitos estão mais vivos do que nunca. 

A atmosfera parecia pulsar, e a ideia de que a cidade poderia abrigar tal horror me deixou inquieto. Era como se uma sombra antiga estivesse despertando, e eu sentia que precisaria mergulhar nas profundezas desse mistério. Eu me via cercado por um labirinto de medos e pressentimentos, e a única coisa que podia fazer era preparar-me para o que seguiria. 

Anton S. Miahi XIII
(Escrito em meu Caderno) 

25 de agosto de 1871 —Esta noite, tive um sonho – ou talvez fosse um pesadelo, mas ele lateja em minha mente como algo mais denso, quase tangível. 

Eu me lembro de ter deitado, os músculos ainda enrijecidos do dia, sem sequer trocar de roupa. O mundo cedeu aos poucos, e o véu da inconsciência foi me cobrindo. Então, uma queda... A sensação visceral de descer, de ser tragado por uma força invisível. E lá estava eu, imóvel, os olhos piscando contra uma luminosidade suave e envolvente que parecia emanar do próprio ar, como se a atmosfera estivesse impregnada de luz líquida. 

Tateei ao redor, a superfície áspera de um chão desconhecido, e me vi rodeado por lavandas que se erguiam delicadas, seu perfume doce invadindo cada canto de meus sentidos. À minha volta, bolhas flutuavam, translúcidas e peculiares. Dentro de cada uma, vislumbres de lembranças – minha mãe, meu irmão, dias dourados na universidade. A nostalgia e o calor dessas imagens pareciam tão vivos, tão próximos... mas logo uma certeza fria atravessou-me: eu não estava em meu mundo. 

Uma névoa lilás cobria o ambiente como um véu leve, enquanto uma luz branca preenchia cada canto, uma presença calma, quase etérea. Então, uma voz conhecida perfurou o silêncio. 

— Bem-vindo, Anton. 

Virei-me rapidamente, o coração disparado. Mas ao ver Monm, com aquele olhar sábio e expressão tranquila, uma calma familiar substituiu o susto. 

— Isso é real? – perguntei, sentindo a incerteza tremer em minha voz. 

Ele respondeu com um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que antecede uma revelação, ou um segredo. 

— E o que é real, senão o que acreditamos ser? — ele indagou, os olhos brilhando com uma intensidade contida, como se sua mente percorresse mundos além deste. — Aqui, Anton, estamos num campo onde as realidades se entrelaçam. Poderíamos dizer que é um sonho... ou um fragmento dele, um lugar de memórias, desejos e arrependimentos de muitos. 

Andamos lentamente pelo campo de lavanda, e um perfume suave se misturava à névoa, impregnando o ar. A cada passo, bolhas flutuavam ao nosso redor, translúcidas e frágeis, como se fossem tocadas por uma brisa inexistente. Dentro de cada bolha, imagens — momentos — de vidas diferentes, de pessoas desconhecidas. 

Monm seguiu ao meu lado, o olhar fixo numa bolha que passava. Em seu interior, vi o rosto de uma jovem, com cabelos tão escuros quanto a noite, um sorriso leve, mas com um olhar profundo e conhecedor. Era um olhar que parecia fitar além do espaço e do tempo. 

Ele suspirou, um som tão sutil que quase se dissolveu no ar. 

— Quem é ela? – perguntei. 

Por um instante, Monm hesitou, e sua expressão, sempre controlada, se partiu numa fração de segundo, revelando uma dor silenciosa. 

— Ela... — ele começou, mas parou, desviando o olhar. — Chamava-se Lysianne. Foi... — ele inspirou fundo, as palavras quase lhe escapando. — Foi meu único amor verdadeiro. Mas, sabe, Anton, para se aventurar no tempo, é preciso um preço, um sacrifício. E eu, com minha ânsia em desvendar os segredos deste universo, escolhi um caminho que me afastou dela.  

Houve uma pausa, e o campo de lavanda parecia mais silencioso, como se respeitasse sua lembrança. 

— Ela também era fascinada pelo tempo? — arrisquei. 

Monm sorriu, mas era um sorriso manchado de nostalgia e tristeza. 

— Não como eu. — Ele fitou uma bolha próxima, onde ela estava rindo ao lado de uma árvore sob um céu ensolarado. — Ela gostava de viver o presente, de encontrar beleza no instante. Para ela, um momento... era eterno. 

Ele passou a mão suavemente pela bolha, e a imagem tremeluziu antes de se dissipar na névoa lilás. 

— Então por que essa busca insaciável, Monm? — perguntei. — Por que sacrificar algo tão precioso? 

Ele se voltou para mim, o olhar ainda mais sério, um fogo intenso em seus olhos.  

— Porque, Anton, o tempo é uma ilusão, uma corrente que tenta nos prender. E a verdade é que... — ele hesitou, a voz baixa. — Eu queria libertá-la, encontrar uma realidade onde pudéssemos viver sem limites, sem essa cruel imposição do tempo que devora tudo. 

— Mas isso não é impossível? — insisti. 

Ele balançou a cabeça, um ar sombrio em seu semblante. 

— Ah, meu caro, o impossível é uma mera palavra. Mas há consequências, há fissuras. E quanto mais fundo cavamos, mais nos deparamos com realidades em que os sonhos e pesadelos se entrelaçam. É por isso que este lugar existe — apontou ao redor. — Aqui repousam fragmentos de vidas, de desejos que nunca se realizaram, de amores que nunca floresceram. 

Paramos diante de uma bolha mais próxima, onde vi a imagem de uma mulher abraçando uma criança. A cena pulsava de ternura, mas também de tristeza, como se ambos soubessem que aquele momento era breve. 

Monm fitou a cena, absorto, e por um momento, notei algo raro nele: arrependimento. 

— Esses são ecos de outros sonhos? — perguntei, tentando entender. 

— Sim, sonhos de outros, de vidas que jamais cruzaremos. Aqui, Anton, reside o que todos carregamos no inconsciente. Nossas sombras, nossas esperanças. Somos apenas viajantes. Quando olhamos para um sonho alheio, nos encontramos também, por um segundo, refletidos nas ambições e medos do outro. 

Ficamos em silêncio, observando a cena. Monm suspirou novamente. 

— Você já sonhou em encontrar algo, Anton, mas que sempre parece fugir? Como se existisse um vazio em cada linha do tempo, uma distância que nunca pode ser percorrida? 

— Às vezes — respondi. — Como uma lembrança fugidia, uma sensação de algo perdido, mas que nunca conheci. 

Monm assentiu, os olhos voltando à lavanda. 

— É a essência do tempo. E somos prisioneiros de algo que pensamos dominar. 

Antes que pudesse responder, ele tocou levemente meu ombro. 

— Vamos, há ainda muito a caminhar. 

Antes que eu pudesse responder, uma sombra se formou ao longe, desenhando-se lentamente em um contorno familiar. À medida que se aproximava, a figura de um homem magro e sereno emergiu da névoa lilás, vestindo-se de branco, com um cavanhaque bem aparado e olhos profundos como dois lagos plácidos. Em uma das mãos, ele segurava uma chave dourada e adornada, que brilhava mesmo na penumbra. 

— Sou Lieran — disse ele, sua voz grave e suave, como um sopro de vento antigo. — O guardião deste entre-mundos, o reino de Somníria. 

— O que você está fazendo aqui, Lieran? — Monm perguntou, o tom de sua voz mesclando uma ironia sutil com a seriedade do momento. — Veio discutir novamente a futilidade dos sonhos? 

Lieran sorriu, mas não havia alegria em seu sorriso. Era uma expressão de compreensão triste. 

— Os sonhos não são fúteis, Monm. Eles são portais. É por meio deles que as verdades ocultas se revelam, não apenas sobre nós, mas sobre a própria essência do tempo. Você insiste em vê-los como meras ilusões. 

— E você — Monm retrucou — vê a realidade como uma prisão, acreditando que os sonhos podem libertar aqueles que se perdem em suas correntes. Mas não é assim que funciona. Os sonhos podem se tornar labirintos, Lieran. Labirintos que aprisionam mais do que libertam. 

Anton, sentado entre eles, sentia-se como uma peça de um quebra-cabeça que não se encaixava. Seus pensamentos eram um turbilhão. 

— Esperem — eu interrompi, tentando entender. — O que exatamente significa sonhar para vocês? Estou confuso. Não é tudo apenas... um escapismo? Ou há algo mais? 

Lieran se voltou para mim, os olhos profundos como lagos refletindo uma sabedoria antiga. 

— Os sonhos, Anton, são a linguagem do inconsciente. Eles são ecos de nossas emoções, medos e esperanças. Quando sonhamos, temos a oportunidade de revisitar nossos anseios mais profundos e confrontar verdades que muitas vezes ignoramos. O tempo em sonhos é elástico, permitindo que revisitemos momentos que acreditamos perdidos. 

— Mas não são apenas ilusões? — retrucou Monm, gesticulando como se estivesse tentando desvendar uma teia invisível. — Lieran, você se esquece de que os sonhos podem distorcer nossa percepção. Eles nos enganam, nos iludem com promessas de um futuro que nunca pode ser, enquanto a realidade continua a ser intransigente e cruel. 

—  Que é a realidade, senão uma construção dos nossos sonhos? — Lieran desafiou, a chave dourada balançando suavemente em sua mão. — As escolhas que fazemos no mundo dos sonhos reverberam na realidade. Não subestime o poder que eles têm. O que sonhamos pode, de fato, moldar o que vivemos. 

Eu olhei de um para o outro, a tensão crescendo. A cada palavra, o ar se tornava mais carregado, como se o próprio espaço entre eles estivesse se comprimindo. 

— Mas então — perguntei, hesitante — se os sonhos moldam a realidade, como podemos confiar no que vivemos? E se o que acreditamos ser real for apenas mais um sonho? Como discernir entre o que é verdade e o que é ilusão? 

Monm olhou para mim, um brilho de reconhecimento nos olhos. Era como se ele tivesse sido lembrado de um passado distante que ainda o assombrava. 

— Essa é a questão que todos enfrentamos, Anton — disse ele, sua voz agora tingida de uma vulnerabilidade inesperada. — O que fazemos com as verdades que descobrimos? E o que acontece quando esses sonhos se tornam pesadelos? 

— Você deveria se perguntar, Monm, o que realmente está buscando em suas viagens no tempo — Lieran retorquiu, sua voz firme como o aço. — O que você está disposto a sacrificar para alcançar seus objetivos? Cada escolha tem um custo. E esse custo pode muito bem ser mais do que você está preparado para enfrentar. 

A tensão pairava, e o silêncio se estendeu por um momento, uma respiração compartilhada entre os três. Anton sentiu que, de algum modo, estava no centro de uma tempestade, onde cada palavra era um relâmpago iluminando verdades obscuras. 

— E se o que eu procuro — eu murmurei, mais para mim mesmo — for o que estou destinado a perder? 

Ambos se voltaram para mim, e, por um breve momento, o campo de lavanda pareceu ecoar a pergunta, as flores balançando suavemente como se estivessem escutando. 

O impacto de suas palavras reverberou em mim, mas antes que pudesse refletir, o chão se abriu sob meus pés, e fui lançado novamente na escuridão. Despenquei, a queda me envolveu, e senti uma nova transformação no ar ao meu redor – mais densa, mais fria, como se sombras me acolhessem. 

Despertei num ambiente muito diferente, a claridade suave substituída por uma escuridão quase sólida. Levantei-me cauteloso, e ao meu redor, o chão era coberto por rosas negras com delicados tons de roxo degradê, uma paisagem sombria que exalava um cheiro doce e nauseante. Um ruído distante, como o bater de asas, chamou minha atenção para cima. 

Uma criatura desceu do céu negro, o ar em volta dele se dispersando em uma lufada fria. Ele tinha um corpo humanoide, mas as asas – negras e largas como as de um corvo – traziam uma imponência animalesca. Quando pousou, observei de longe, quase sem respirar, os olhos límpidos e profundamente lilás, as orelhas pontudas, a pele tão branca que lembrava marfim. 

A figura reunia algumas daquelas bolhas, mas as imagens que continham eram diferentes – rostos distorcidos pelo terror, fragmentos de dor e desespero. Senti um calafrio. Ele murmurava algo que não pude distinguir e começou a se afastar, carregando as bolhas em direção a um umbral negro. 

Um vulto pendia sobre seu ombro. Um gato negro, seus olhos de um branco frio que pareciam atravessar minha alma. Algo me puxava para aquele ser, uma curiosidade perigosa, irresistível. 

O ser cruzou o umbral, e quando percebi, estava me erguendo, seguindo-o, como que guiado por uma força misteriosa. 

— Anton... – uma voz macia e sombria ecoou. 

Era o gato, agora sobre uma mesa em uma sala grandiosa e fria. Ele me fitou, um brilho irônico em seus olhos. 

— Chamam-me de Meia-Noite, e meu companheiro, Uor. Vejo que chegou até aqui por acaso ou talvez… por curiosidade. 

Fui tomado pelo instinto, endireitando-me, tentando parecer seguro. 

— Anton Stephan Miahi, Sargento da Cavalaria – minha voz ecoou no salão vazio. 

Uor sorriu com uma ironia afiada. 

— Sei muito bem quem é você. 

Aquelas palavras perfuraram-me como uma lâmina, e o salão pareceu fechar-se ao meu redor. No fundo, uma nova suspeita brotava – eu não estava mais no reino dos sonhos, nem tampouco no inferno. Estaria eu no próprio limiar do inconsciente, num lugar onde medos e mistérios coexistem? 

No mesmo dia mais tarde — O encontro com Meia-Noite e Uor me deixou inquieto, como se uma névoa densa tivesse se instalado em meu ser. Fui recebido não como um convidado, mas como um prisioneiro que, mesmo sem saber, tinha uma dívida a pagar. Eles se apresentaram como mestres de um jogo cujas regras eu ainda não compreendia. A presença deles sugeria um peso no ar, e suas palavras flutuavam como sombras, dançando ao redor de nós, pulsando com a energia de verdades ocultas. 

— A ambição de Olga — começou Meia-Noite, quebrando o silêncio pesado — transcende o que você pode imaginar, Anton. Ela não é apenas uma mulher sedenta por poder, mas uma criatura que busca controlar o sobrenatural em busca de algo maior. 

Uor balançou a cabeça, seus olhos cintilando com uma luz gelada. — Você a vê como uma mera mortal, mas há mais em Olga do que o que se revela. Ela toca as cordas do invisível e manipula a escuridão ao seu redor. É por isso que Drácula a atrai. 

Meu coração acelerou. Para mim, Drácula sempre fora apenas um conde do interior da Europa, uma figura envolta em mistério e lendas. No entanto, a ideia de que sua conexão com Olga era mais do que mera coincidência começou a se enraizar em minha mente. 

— O que você quer dizer? — eu perguntei, a tensão entre nós era quase palpável. — Como você pode ter certeza disso? 

— O Conde — continuou Meia-Noite, a voz profunda reverberando no ar — não é apenas um homem, Anton. Ele é um símbolo, um ícone do que se perdeu e do que se busca no abismo. Atraído pela ambição de Olga, ele representa a eternidade e o horror que ela deseja controlar. 

Uor fez uma pausa, como se estivesse pesando suas palavras antes de continuar. — Mas a verdadeira natureza de Drácula é mais sombria do que você imagina. Eu conheço um jovem que presenciou o ataque em Paris, uma cena que se desenrolou sob a luz da lua, onde a morte dançou no sangue fresco. 

As palavras de Uor me prenderam, como uma teia invisível envolvendo meu corpo. Eu me via forçado a imaginar a cena horrenda, uma jovem sendo devorada, sua vida esvaindo-se sob as garras do Conde. 

— Ela morreu — Uor continuou, seu tom sombrio, quase reverente — até a última gota de sangue, Anton. A cidade de Settimor foi erguida para acolher as almas perdidas, aquelas que foram atraídas pela sedução de um castelo obscuro, onde as promessas se tornam pesadelos. A ambição de Olga não é apenas por poder; é por controle sobre essa escuridão que a cerca. 

A ansiedade começou a consumir-me, como uma maré crescente. Era como se as revelações se tornassem gélidas, arrastando-me para um abismo de dúvidas e temores. Eu estava cercado por verdades que não conseguia ignorar, e a ideia de que tudo isso poderia ser real era sufocante. 

— E se ela estiver certa? — perguntei, a voz tremendo. — E se Olga conseguir realmente o que deseja? O que isso significaria para nós? 

Meia-Noite trocou olhares significativos com Uor.  

— O desejo dela de transcender é uma busca sem fim — respondeu Uor. — Se ela dominar o sobrenatural, você e todos ao seu redor não passarão de peças em seu tabuleiro. A verdadeira questão é: até onde você está disposto a ir para impedir que isso aconteça? 

Monm, que até então permanecera em silêncio, soltou uma risada baixa, quase amarga. — Uma escolha sempre tem um preço, Anton. E o que você está disposto a sacrificar? 

As palavras deles ecoaram em minha mente, pesadas como pedras. O clima tornava-se cada vez mais tenso, e a incerteza me envolvia. Como poderia enfrentar um ser como Drácula, com Olga ao seu lado, manipulando os fios invisíveis que regem nossas vidas? 

De repente, antes que pudesse processar tudo, uma luz intensa irrompeu à nossa frente. Um portal se abriu, revelando o contorno familiar da chave dourada de Lieran. 

Monm e Lieran emergiram do brilho, seus rostos sérios, como se trouxessem consigo o peso de um novo destino. 

— O que vocês fizeram? — Monm exclamou, seus olhos fixos em mim, preocupados. — O que foi revelado? 

Lieran, com um gesto fluido, apontou para o espaço nebuloso que nos cercava. — A verdade não deve ser ignorada, mas nem todos estão prontos para enfrentá-la. Venham, devemos ir. 

Eu olhei para Meia-Noite e Uor, suas figuras agora quase etéreas diante da luz pulsante. A sensação de que algo maior estava em jogo tornou-se uma realidade indiscutível. Eu havia sido lançado em um ciclo de eventos que apenas começava a se desenrolar, e a única certeza era que o caminho à frente estava repleto de sombras e revelações. 

Atravessando o portal, percebi que não havia como voltar. O que me aguardava era um futuro indefinido, onde a linha entre sonhos e realidade continuava a se desvanecer, e eu me via cada vez mais entrelaçado no destino que me aguardava. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 1: Uma criatura disforme

Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia….

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia. A memória, tal qual um inquisidor implacável, empurrava-me contra os pregos da dama de ferro que eram os meus traumas, num abraço frio e mortal, enclausurando-me dentro de mim. “Deveria eu continuar lidando com essa tortura?”

Parei. Nada de útil surgiria daquele amálgama disforme e colorido. Frustração. Também não conseguira escrever nada naquele último mês: “Ah, quão maldito é o trabalho que exige criatividade extrema, por que raios me enfio nessas empreitadas?”, flagelava-me quando não tentava, castigava-me quando pensava em desistir. Minha vida era essa constante luta interna do eu contra mim.

Enquanto saía do meu ateliê, Lisa, minha gatinha preta e carente, esfregava-se em meio às minhas pernas, ronronando e derretendo as geleiras que esmagavam meu coração. Lembro-me que perdi o equilíbrio e quase fui ao chão.

— Ah Lisa, para com isso. — disse-lhe, mas só para reforçar a minha necessidade por reclamar. Agradeço por ela ser teimosa e determinada, porquanto nunca irá parar. Sim, ela está aqui comigo. O Castelo Drácula abriga todo tipo de criatura, por que não uma gata?

Um banho. As águas calorosas tinham propriedades curativas, o vapor, poder de reorganizar e remontar minha psiquê, deixando-me próximo a um ser humano que não havia sido quebrado.

Com um mínimo de bom humor restabelecido, resolvi ir ao pub, uns goles do amargo gin afogariam os sentimentos claustrofóbicos. Ah, as propriedades lisérgicas das bebidas etílicas!

Eu adorava aquele local. Tinha uma fachada discreta e paredes de tijolos escuros, o típico lugar onde um desavisado não entraria, pois não parecia ser um bar. Essa sensação de entrar em algo secreto e exclusivo me apetecia. Viva a curiosidade. Lá dentro, as luzes baixas, emulavam a ideia de um sonho sombrio, atmosférico e intimista, onde cada canto parecia envolto em uma penumbra vermelha, verde e roxa, realçada por velas e luzes de néon.

Os bancos eram de couro preto, ligeiramente rasgados pelo tempo e uso, mas ao aconchegar-me ali sentia que o mundo parava ao meu redor. Nas paredes, pôsteres de bandas lendárias como Black Sabbath, Iron Maiden e Slayer se misturavam a quadros de arte sombria e psicodélica, muitos criados por artistas locais, inclusive por mim. Ah, como almejava resgatar os tempos áureos, onde minha inspiração quase não me cabia.

Uma jukebox tocava uma seleção pesada e interessante, variando entre black metal, doom metal, sludge metal e alguns clássicos do heavy metal, que faziam todos cantarem juntos. Às vezes, bandas ao vivo tocavam em um pequeno palco no fundo, iluminado por luzes vermelhas e verdes, com espaço suficiente para àqueles que queriam aproveitar o som e aquela atmosfera inebriante.

No balcão, as bebidas eram diversas: cervejas artesanais escuras, drinks com nomes inspirados em mitologia nórdica e shots que queimavam a garganta. As prateleiras atrás do bar exibiam garrafas de rum, whisky e absinto. Quantas vezes saí de lá arrastando-me, mas nunca carregada, encontrava forças que nem sabia existir para manter a minha suposta dignidade.

No banheiro, as paredes eram cobertas de grafites e adesivos de bandas, como se cada pessoa que tivesse passado por ali tivesse deixado sua marca. Era um espaço onde todos eram livres para ser quem eram, cercados pela energia sombria e autêntica do metal e do álcool. Sinto saudades desses momentos.

Bebi. Já que as águas anteriores não quiseram lavar minhas dores, eu as sufocaria com os líquidos, música e tola autocomiseração. Não me recordo do nome da banda que tocava naquela noite, mas ainda guardo a boa sensação despertada a cada acorde, os meus pesares sendo levados a cada gutural ostensivo do frontman.

Retornei para casa em estado de evidente embriaguez, mas sentia-me quase levitar sob o céu que eu mesma concebi. Meu lar recebeu-me com silente afago, e eu me rendi ao seu cálido abraço. Transcorrido um tempo que não mensurei, de repente, senti correr em minhas veias a vitalidade de uma artista em ascensão, poderosa – como se uma entidade houvesse adentrado e possuído meu corpo.

Corri para o ateliê, dentro das possibilidades de locomoção que aquele estado me permitia, mas corri, como se minha vida dependesse daquele ato sem propósito. O que avistei fez-me questionar minha frágil sanidade, entretanto, sua presença imagética imobilizou-me.

À meia-luz, um movimento sutil tomou forma na tela. O contorno difuso se agitou, e uma figura começou a emergir, como se o quadro estivesse se dissolvendo em sombras. Lentamente, revelou-se — uma entidade envolta em um manto de trevas, os contornos do rosto delineados apenas por um brilho espectral. Seus olhos eram como fendas de névoa prateada que parecem absorver um pouco da luz da sala, hipnotizando-me. Estendeu uma mão fina e esquelética, atravessando os limites entre o quadro e o mundo real. Era meu chamado.

Com uma voz baixa e aveludada, que parecia ecoar em minha mente, convidou-me para morar no Castelo Drácula. As palavras pareciam feitiço. Um calafrio percorreu minha pele, mas não era medo — mas uma curiosidade irresistível, uma necessidade profunda e incontrolável de segui-lo. Sem hesitar, deixei-me guiar para dentro da tela, desaparecendo na escuridão que a envolvia. Lisa não se atreveria a me deixar só e saltou comigo rumo a um destino incerto.

Quem era, afinal, a tal criatura disforme, oriunda das pinceladas na tela profana, criadas em meio ao meu desvario? Hoje, pronuncio seu lindo nome sem medo, encontrei beleza no estranho e serenidade no desconhecido: Espectumbral.

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Pergaminho de sangue cósmico

No limiar entre mundos, onde o nevoeiro se estende, | Ergue-se Arale Fa´yax, filha de uma felina raça distante, | Com a cauda prateada, fina como a lua em sua ascensão…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

No limiar entre mundos, onde o nevoeiro se estende, 
Ergue-se Arale Fa´yax, filha de uma felina raça distante, 
Com a cauda prateada, fina como a lua em sua ascensão, 
Olhos oblíquos de safira tão profundos quanto as cavernas do abismo ou um mar de ressaca.  

Sua pele, pálida como a neve, caindo em silêncio, sinfônica voz, 
Reflete o brilho das estrelas apagadas no vasto céu negro. 
Cabelos platinados, com fios de esmeralda entrelaçados, 
Dançam ao vento, como fios de uma tapeçaria celestial mística.  

Mas a beleza é forjada em dor, em sangue como a forja do destino, 
Onde sua carne, marcada por uma cicatriz que serpenteia, 
Revela a luta que o mundo não pode ver, sua assinatura e fardo, 
O duelo contra o último xamã de sua tribo lhe custou o exílio que a alma sofreu.  

Um sacrifício, uma missão, um braço se perdeu, apenas o vazio, um espaço que clama por cura, 
em seu lugar, a prótese cibernética de protoplasmas, biogenesis felina, futura, 
Uma obra de metal e circuito, luz fria, pulsante, seu punho de vida, sua recordação, 
um de seus legados, de sangue e promessa, 
Que brilha com a promessa de poder e de destruição.  

Na outra mão da guerreira com garras de leão, ela agarra uma máquina de escrever, feita de ossos, 
Fiel companheira de estrada galática, jornada de eras e herança amaldiçoada, 
Cada tecla, cada golpe, um feitiço de morte e destino, 
Sangue é tinta, e o papel, papiro como carne dilacerada de uma criatura do mal ali ceifada, 
Onde palavras de extermínio surgem, traçando caminhos de pulverização e purificação.  

E é neste mundo de sombras e crueldade que ela caminha e expurga, 
Onde o portal da sua dimensão se abriu, revelando um jardim, berço do Castelo Drácula. 
Entre as pedras do castelo, onde a noite nunca cede à luz, 
Ela caminha, a caça, a caçadora, armada com a verdade. 
Suas vestes, uma fusão de couro e névoa, uma vitoriana felina cyberpunk, 
Negra como a noite e dourada como o mel, a aurora de um novo mal, 
Protegem o corpo, mas não a alma, pois ela já está selada, 
Em um pacto com as forças que andam nas trevas, mas não a dominam. 
Em questão de segundos, desliza de suas costas para seu punho, uma espingarda também de ossos que em um instante se torna machado, 
Transforma-se como ela mesma, fluida, imprevisível, mortal. 
Com a lâmina cortante, como o vento no inverno sem fim, 
Ela vai à caça, onde os monstros se escondem e os demônios se amparam.  

Oh, Arale Fa´yax, filha do além, do cataclismo e da lua minguante, 
Teus passos ressoam nas cavernas do castelo, pegadas do silêncio dominante 
Onde cada palavra escrita é um feitiço antigo,  um rugido de tua ancestralidade, 
Cada página sangrenta, o próximo passo da jornada ao vazio da eternidade, 
Que o sangue que flui seja a chave, o sangue que é o guia, 
Tua missão, marcada pela dor e pela força, o amanhã ruge, 
Extirpe as ameaças que se ocultam, que se alimentam da vida, 
Que o destino de tua lâmina e tua escrita sejam o selo do exício de toda sombra.  

Oh, filha da noite e da penumbra, Clã Fa´yax, guardiã do véu, 
Teus passos ecoam pelos corredores de um castelo orgânico, 
Assim como onde vivia, uma árvore vitalícia que apodreceu, 
Onde a morte sussurra como um vento gelado,  
as almas perdidas vagam, em busca de redenção, 
Mas tu, minha guerreira, já não precisas de salvação.  
[Talvez sempre precisará, de si mesma...]  

A máquina de escrever de ossos manchados, 
de ossos amaldiçoados, seremos nós todos apenas ossos esquecidos pelo tempo vitalício e nossas ações prosperam além do osso esqueletal que nos sustenta?  
Brilhai, pungente, lacrimosa, ela grita e sangra, 
Cada tecla que tocas é um eco de um destino antigo, 
Escreves não com tinta, mas com a essência do sofrimento, 
Teus dedos dançam entre as linhas da eternidade, 
Onde o caminho se revela como um rio de sangue.  

O papel, um papiro cósmico, mágico de pó de estrelas e carne e dor, 
desvela-se diante de ti, em cada página escrita, um grito de agonia, 
Mas também um passo em direção à vitória da luz da poesia, 
Pois as páginas não mentem, Arale Fa´yax, da raça felina de tua tribo extirpada, 
Elas mostram o que a escuridão tenta esconder.  

Espingarda que se torna machado com uma lâmina tribal de ossos cravejados, 
Escorrido e manchado, 
Tu és a lâmina...  
Que ceifa e que rasga o véu do além, 
Que corta as garras das criaturas que surgem das sombras, 
Que quebra o grilhão do medo e da morte. 
Em tuas mãos, o destino é forjado em aço e vingança.  

Veste-te, guerreira de pele tão clara como a lua, 
Com o manto de veludo negro que beija o vento, 
O sangue de mil criaturas, já banhou teus pés, 
Feroz, imortal, desvaneces os sustentos de terror. 
Tuas roupas, como o silêncio do túmulo, não dizem, mas sabem.  

A cauda de prata, tão leve quanto a brisa de inverno, 
Move-se com graça, e mesmo nas trevas, ela brilha, 
Oh, criatura etérea, filha das estrelas caídas, 
Tu és o reflexo do que não pode ser tocado, 
O espírito que dança entre o real e o etéreo, 
Entre as dimensões e os reinos que o homem nunca verá. 
Nos corredores de pedra, onde as velas tremem, 
Onde os retratos dos antigos se tornam olhos, 
Tu és o caçador e a presa, o monstro e o salvador, 
Com os dedos manchados de sangue, mas o coração puro, 
Segues adiante, sem medo do que há à frente, 
Pois teu destino já está escrito nas páginas da morte.  

Arale Fa´yax, guerreira sem fim, fantasmagórica escriba da morte, 
A marcha da eternidade é a tua única música,  tua foice espiritual, 
Onde o som do teu machado cortando a escuridão, corteja o nulo, 
É mais doce que o canto dos anjos, cortejai o umbral de sangue, 
Mais profundo que os abismos que te chamam, te clamam, suspiram, 
Fatídico o horizonte que nunca se vê. 

Teu braço biônico, feito de circuitos e relâmpagos, 
Brilha na noite, como uma estrela fugaz, um punho destroçador, 
Uma cicatriz de herança, de legado, de lembrança,  
Que teu rosto carrega,  teu coração sabe o peso de tua insanidade, 
É o selo de uma alma que não pode ser quebrada. 
Para ti, Arale, não há morte que te detenha, 
Nem sombra que apague o brilho de tua jornada. 
Oh, guerreira da máquina e da carne, 
Teus olhos são espelhos da verdade que ninguém ousa olhar, 
E a escuridão se curva à tua vontade, 
Pois no abismo, tu és a luz que se ergue, 
Onde a treva reina, tu és a sentença. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 6 — O Piche do Oblívio

As sombras eram solecismos factuais; um ruído medrava-se horrífico. Algo físico entre nós inibia-nos, impedindo quaisquer aproximações; uma divisão vítrea, perceptível…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

As sombras eram solecismos factuais; um ruído medrava-se horrífico. Algo físico entre nós inibia-nos, impedindo quaisquer aproximações; uma divisão vítrea, perceptível aos nossos olhos, tinha um agudo e longínquo sonido, contínuo como as nódoas negras enervantes, símeis ao nanquim aguado nos recônditos do olhar, tecendo um manuscrito de horror. As chamas da lareira, que eram, pouco antes, fogo lúcido, criavam oscilações além de sua estrutura de pedra, acendendo um fogo estirado pelas trevas, como o lume do sol radiante em raios de sua grandeza e poder; porém, contornado pela escureza hostil, desafiava a lógica da constituição primordial da própria natureza da luz. Parecia-me que aquele lugar, uma adega de raros vinhos e licores, outrora fora uma sala aconchegante ou, quiçá, há de ser, pois o tempo ali era apenas um pêndulo tardio de um nada além. 

O que é isso...? — ouvi de Anton. Sua voz era firme e baixa, ecoava pela dimensão, pois esta se tornara uma dimensão entre dimensões; eu sentia e admirava o derredor. No soturno de minh’alma, como se houvesse um pássaro morto entre os meus pulmões, fleumática em fascínio, eu sentia... enquanto a realidade se desestruturava. Havia apenas eu e os olhos atentos de Anton, embaçados pela vítrea fragmentação. Meu corpo era a leveza de um rio, mas o medo não perdoava, e em sua verdade não habitava clemência. 

Tu sentes também, não sentes? — indaguei-lhe, fragilizada. — Anton... — chamei-o outra vez. — Nada aqui é o que nos parece ser. — Confuso, com a fronte crispada, ele tentara tocar a divisão que nos separava; foi em vão. 

Quem é você, Áurea? — Dissera, com tal amaro timbre, firme e tenso. — E por que estou aqui, ao seu lado, mas tão distante? — As dúvidas eram os vultos que emergiam no breu que expandia; vi, entre os barris de vinho e a antessala com a lareira, um frondente piche n’uma cinesia mórbida. Almejei responder à Anton o que eu era de fato, mas o piche... tinha forma humanoide e a sua inominável presença adulterava minhas ações, inibia-me em quaisquer desejos, sufocava minhas cordas vocais. Olhei para Anton, devagar. Tudo se paralisou, o recuar das águas antes do dilúvio. E o silêncio, outra vez. O piche era o símbolo do eterno retorno do que não ocorrera; eu intuía, pois, vi o diário de Anton em suas mãos e o vi, igualmente, na poltrona que outrora me sentei. Dois diários, dois tempos. Havia, nas paredes, fissuras imemoriais, condenando um fim perpétuo de algo, em alguma instância, e no vítreo, rachado símil, ainda nos separando, eu vi... a mim mesma... refletindo... 

Talvez, — Minha voz falhava, pois o temor ascendia pútrido e instável. — Não sejamos mais do que reflexos de algo imensurável, o qual está além da compreensão. Temo que… estejamos confinados em uma armadilha incorpórea… — Proferi, fraca. Quase não via mais Anton e o piche voltou a se mover em minha direção; quebrando a quietude, grunhindo algo similar a um poço de águas pútridas. Só eu o via...? Não sei dizer. Quiçá o seu horror e as suas correntes que se arrastavam pelo assoalho fossem tudo criações ilusórias do meu oblívio... e o cheiro hórrido... a consistência... apenas mais um falso murmúrio.  

Inerte, então, ouvi o solfejar do piche do oblívio... entre a voz doce de uma criança que, longínqua, conversava, remansada, sobre frutos. Um bombo grave carregava um peso sôfrego enquanto o piche cantarolava ao tilintar de suas correntes mortíferas. Cada vez mais próximo. Eu não podia me mover. “Às vezes.... as coisas mais... estranhas... podem ser as mais...” — Ouvi, entre ruídos. “As mais...” — Repetia-se. “As coisas... estranhas...” — Repetia-se. “Estranhas... Às vezes...” — E o bombo mais e mais violento. O piche alcançou-me a pele pálida. “Nunca vi uma fruta tão estranha!” — A criança indagara. Olhei, aterrorizada, para a criatura, e seu piche manchava-me o corpo, caindo sobre mim. O bombo transfigurou-se em um zumbido agudo e distorcido no instante cruel em que a dor... aquela dor... me acometeu impiedosa. 

Abaixei-me, levando minhas mãos à cabeça e ao peito; a dor alastrada como gritos de pavor de centenas de pessoas em um amontoado vil e repulsivo; gritos e ruídos... gemidos de agonia e tortura, tudo no âmago meu, na carne minha, nos órgãos e entranhas. Dor. A pior de todas as dores. Ausência de ar, falta, falta, falta de ar... e dor... dor... sobre a imagem de um mercado, crianças e Anton, segurando um fruto. Ao seu lado uma mulher de rosto rosáceo e tenro. “Minha Áurea, o amor pode nos levar por apavorantes veredas... e mesmo assim... ainda será amor...” — Mesmo longe, o sussurro da mulher viera aos meus ouvidos. Eu apenas pude gritar, toda a algia levava-me a tremer e meus olhos vibravam, eu nada mais via além da memória. 

Entardecer laranjim... uma respiração viril advinha do piche... entre o presente e o passado. A mulher era símil a mim, porém, envelhecida; seus cabelos eram grisalhos e estar ao lado dela me aprazia. “Uma torta de romã, Áurea” — Dissera. E vi-me uma petiz menina, caminhando descalça por uma casa de madeira até encontrar um homem de olhos negros, sem esclera. Sua mão em meu pescoço e eu já não era mais juvenil; ele tinha ódio de mim, ódio enraizado e pulsante como uma artéria. “Morra, traidor!” — Vociferara. Traidor? De súbito, uma criatura única, símil a um dragão, mas com corpo de cobra e crânio de corvo, a mesma criatura refletida nas águas pertencentes à Lahgura, olhava-me com ternura e eu a acariciava, dando-lhe, em seguida, pétalas de Cestrum Nocturnum. Ela parecia degustar da iguaria, em gáudio. “Ela sofrerá?” — Vi-me questionar, olhando para Lorrt cuja face era perfeita e os olhos intensos em carmim. “Eu prometo que não.” — Respondera, beijando-me os lábios em seguida; sua voz era paternal. “Eu... não queria vê-la morrer...” — Confessei, com lágrimas nascentes e já tão célere vertidas, eu as sentia aquecer meu rosto, como um orvalho de verão. “Tu não verás, estarás adormecida e protegida. Confie em mim, pequena luz.” — Ainda paternal, Lorrt segurara minha mão, caminhando comigo pelo jardim. A criatura mítica nos seguia, como se soubesse o seu destino. 

Por favor... me diga o que fazer! — A voz agora era de Anton, em inominável frustração, contudo, a dor vinha do piche que me cingia respirando, e eu não podia falar, pois meu coração palpitava em frenesim enquanto todo o meu corpo congelava em sofrimento e temor; a agonia da dor era como uma tortura da morte, brincando de rasgar minha tez com sua foice envenenada. Olhei para Anton, minha decadência eclipsava sua imagem. “Não... posso... compreender... Anton.... por quê...?” — Lamuriei, sobretudo, o piche penetrara-me os olhos e sussurrara-me meu nome... “Áurea... Lihran...”; meu grito de desespero tinha sabor de barbárie, pois o horror do martírio tornou-se atrocidade desumana. Asfixia outra vez, o torso oprimido; meus olhos ardendo pelas correntes que o invadiam e, quando as lembranças vívidas se tornaram sangue, tudo se desfez a uma adega frígida e escura. E a minha vestal solidão. 

Áurea! — Ouvi. Seth, com sua voz grave, indicava uma aflição sobre mim. Senti suas mãos em meu corpo; no dorso e no colo. Mantive-me olhando para o chão, lacrimuriando. 

Era... Aborom... — Sussurrei, pois, lembrava-me. — Nós... festejávamos... — Insisti. Na lembrança, o sol era a grande pupila do infinito, como um eclipse amornado na imensidão laranjosa. Reuníamos para cozinhar com grãos rústicos. Parte de uma cultura que pertencia a mim, parte de meu lar. — Ela estava lá... minha querida mãe... — Lágrimas na entreluz do cômodo gélido. Pranto entre soluços de uma tristura irremediável. Seth abraçara-me. 

Está tudo bem, estou aqui... — dissera, contudo, doía no peito; nas emoções dilaceradas pelo piche do oblívio quebrantado no horror de uma vivência pavorosa. Fui levada aos braços de Seth, por ele, envolvida e acalentada, enquanto a voz de minha mãe ressoava e a saudade era a pior de todas as angústias que, desde meu despertar, vivenciei. 

Eu não os verei novamente... — Murmurei. Lorrt sorria em minhas visões profundas; mamãe servia-me um pedaço de sua torta de romã. Almejei sucumbir à Rosaemori, para não lembrar. A chuva fina era uma cortina natural às janelas, aguando os jardins que em âmbar refletiam. Rostos opacos, semblantes apagados, no entanto, um júbilo aprazível envolvia-os todos, todos nós; e quanto afeto residia no aroma de abóbora-doce com canela, abóbora-cabotiã e cumaru, abóbora-moranga e leite de coco! Saladas frescas com manjericão igualmente... crianças correndo entre os móveis de cedro. “Doces ou travessuras?” — Eu ouvia... eles brincavam enquanto eu colhia algumas calêndulas na estufa. “Travessuras, é claro!” — Dizia-lhes e logo, sob distrações com as pétalas perfumadas, eu era assustada por suas máscaras grotescas, pintadas com óleo de linhaça e cúrcuma seca e moída. Eles gargalhavam... pequenas criaturas inocentes... tão só meninos e meninas... tão só pequenos rebentos da vida em... Numnura... 

Verás sempre, na lembrança... — Respondera Seth. Então o olhei. Seus olhos eram azuis. 

Onde está o pretume de teus olhos de arcanjo? — Indaguei. Teu sorriso emergiu como um cândido sol no horizonte. 

Creio que nunca olhaste, de verdade, para mim... — Redarguiu cordial. Então o olhei. Havia uma cesura próxima ao seu olho esquerdo; sua pele era bela. Duas curvas no centro de sua fronte assemelhavam-se às hastes de um cervo. Havia outra cicatriz em seus lábios e nela toquei com a ponta de meus dedos trêmulos. — A queda... é sempre dolorosa... — Proferiu enquanto em seus lábios repousava meu toque tenro. 

Arcanjo caído... — Sussurrei. Seth segurou minha mão, afastando-a de seus lábios e acariciando-as lentamente. — Por onde esteves? — Ponderei. 

Estive no inferno...— Dissera em seu ninho de pensamentos. Acarinhou-me a maçã do rosto. 

Como é lá? — Meus olhos exaustos piscavam na lentidão de meu coração não mais frenético, embalado pela tristura da saudade e o ardor do corpo de Seth. 

— Grandioso... uma eterna noite carmesim em névoa negra; há rubi nas frestas ornamentais das residências e, muito mais, no alcácer de Lúcifer. Há um flúmen de lava cujo curso se esparge por todo o reino e o mármore bruto se forma às margens deste tórrido caudal, matéria-prima que esculpe as estátuas de beleza núrida — as quais estão por todo o reino — e o alcácer, de perfeição inenarrável, do A Estela da Manhã. A flora é seca, exceto pelos arbustos de nutrúrnias, flor símil às dálias, porém, com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; são leves, abrem-se ao soprá-las. São brilhantes em cor negra-etérea com nuances rubras. Espinhosas como as rosas. 

Belo... e tão... sui generis... — Respirei fundo. — Traga-me uma nutrúrnia de lá? — Sussurrei com a voz embriagada de sono. 

Farei o possível... — Aproximou-se de mim e beijou-me os lábios que há pouco tocara com seus dedos. Sua boca era aquecida, quiçá como parte da aura do inferno. Seu beijo demorou-se à suavidade do toque de nossos lábios. Fechei meus olhos e senti. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss. Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss. Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss...”  — Ouvi, como centenas de vozes sibilantes. Em uníssono. Arrepiaram-me a tez de imediato dada a assombrosa essência que possuíam. Não eram as mesmas de Seth em minha mente. O beijo cessou logo depois do estranho idioma murmurado, acabou por me despertar do relento. Olhei para Seth e pensei em indagá-lo, mas, silenciei, pois, seus olhos cerúleos pediam contemplação. Seth veio aos meus lábios outra vez. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss.”  — As vozes. E o beijo se intensificara. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss” — mais uma vez. Lamuriei, indo contra o corpo de Seth, sentando-me sobre ele, cruzando minhas pernas ao seu redor. Um beijo de ardor profundo. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss ssaeiva enssnura” — Os sussurros pareciam queimar-me a tez. Seth gemia um prazer único e eu sentia sua rigidez. “Ssaeiva enssnura voluass”.  

Áurea... — Murmurou, afastando-me de si. Olhamo-nos, ofegantes. As vozes cessaram, elas sobrestavam quando não nos beijávamos. — Preciso ir... — Revelou. 

Para onde, Seth? — Temi a solidão e o quanto minhas novas memórias se alastrariam nela. 

Para o inferno... 

Por quê? Por que agora? — Supliquei. 

Buscarei tua nutrúrnia. — Dissera com a voz tenra e assim fez-me sorrir, todavia, a tristeza era como um piano ao fundo de todo o horizonte de meus sentimentos. Fui levada para meu aposento, nos braços de Seth; posta ao leito confortável em veludo negro após ser despida pelas mãos de meu arcanjo, devagar, senti-o afagar, em silêncio, a minha pálida pele, e fui vestida, em seguida, com um damanoute carmesim — escolhido por Seth, que olhava para as janelas de minh’alma a quase todo instante, exceto quando abaixara-se para retirar minhas vestes, onde pôde apreciar cada detalhe de minha estrutura física, ao menos por instantes. Beijou-me, por fim, no centro de minha fronte e esvaiu-se em sombras após um salaz “até breve”. Eu estava só. E adormeci só. E sonhei. 

Afundavam-se os meus pés nas rubras areias de uma paisagem desértica; dunas infindas d’esta areia concebiam um horizonte estonteante e sombrio. Sopravam-se os ventos frígidos em contraste com o que, sob meus pés, era cálido, pois, sobre mim e sobre as areias carmim, um sol no firmamento conduzia-nos seu mormaço tão característico. Entre espessas nuvens negras, clareiras de seu luzir invadiam as dunas que refletiam a vermelhidão transfigurando o céu numa celestial cinesia entre escuridão, sangue e luz. Neste vertiginoso cenário, eu caminhava em busca de sentido e, admirada com tamanha perfeição, quis compreender aquilo que somente a intuição é capaz de assimilar. 

Aos poucos, formava-se a calima, pois a inclemência da aragem era real, tanto que revoava meus cabelos de modo a dar-lhes nós em suas pontas; contudo, ainda que ébria de um medo puro — pois, percebia fenômeno grandioso ser composto por um perigo inominável — eu andejava, guiada pela mesma busca eviterna. Foi então que vi aquela mulher, tão semelhante a mim, em seu vestido negro que, feito de renda e cetim, esvoaçava como seus e meus cabelos; ela estava parada em uma alta duna, observando um homem que, ao seu lado, semi-ajoelhado, lhe oferecia um anel de ônix com um rubi lapidado em prisma. Corri como pude, tentando alcançá-los; pensei que poderia ser mamãe, no entanto, já bem próxima, vi que era, pois, eu mesma; e o homem era Lorrt. E o que se assemelhava rubi, era sirenniha diamantada, com o vermelho das dunas refletido; e o ônix era, na verdade, obsidiana em cortes geométricos. Não sei como soube disso, mas eu soube. “Lorrt!” — Vociferei ao notá-los, ambos, desaparecendo como miragem. Não chamei por mim. 

Caí sobre as dunas escarlates e chorei; um pranto de licor rubi-áureo que vertia em minhas mãos pálidas e areadas pelas partículas. “Eu te amei...” — Sussurrei, como se ele pudesse ouvir. Quando tive forças para fitar o horizonte da outrora miragem, o que vi foi mamãe; agora sim era ela e não havia outra de mim; era ela, olhando-me de longe, sorrindo com dulcífera candura. Levantei-me aos tropeços, a calima se intensificava e meus olhos semicerravam. Mamãe, cujo nome eu não lembrava, segurava em suas mãos uma romã partida e vestia-se com vestes marfim, suaves como o seu semblante; transmitia-me a paz que tão somente uma mãe o poderia fazer. “Mãe...” — Murmurei. — “Mãe!” — Bradei. Levantei-me com dificuldade, a areia acumulava-se no meu envolto; corri como pude, outra vez; chamando por ela. Clamando pelo seu amor vestal. No entanto, quão previsível... outra miragem; esvanecida enquanto tão próxima eu estava. “Áurea... minha menina Áurea...” — Ela dizia e eu a ouvia, doce voz, voz de estévia. Tocá-la intensificou a calima pouco antes do seu esvanecer. 

Então fui consumida pela areia escarlate que, ao vento, levantava-se em seus infinitesimais grãos que outrora à superfície volátil se acumularam. Chorei sobre a areia, soterrando-me aos poucos; foram lágrimas secas, como meu corpo e meus lábios. Pouco depois, enquanto sentia a saudade arrancar-me toda a fé; um silêncio contrapôs o sopro agressivo do vendaval e, assim, chamou-me a atenção. Esforcei-me para sair da areia carmim e caminhei entre seixos de vidro natural e rochas do mesmo material que se formaram onduladas e com imensos orifícios orbiculares. Guiada pelo caminho de vidro, alcancei uma floresta morta. Contínuas árvores e arbustos de galhos secos jaziam ali e, a areia, antes abundante, aos poucos se dissipava. Doía-me a solidão que emergia, todavia, pressentia que algo valioso viria ao meu encontro se eu apenas continuasse a caminhar. E continuei. O mirrado arvoredo se densificava e uma estrada de magma frio moldado como ardósia surgiu aos meus pés quando toda a areia se foi. Durante a caminhada eu ouvia, no âmago do silencim, aquele sonido conhecido... da criatura mítica... agora eu sabia que era dela, mas ainda não a via. 

Avistei, porém, uma casa; a minha casa; mas, sem o jardim. Escura em seu interior. Sem os vizinhos ou as abóboras ou o festim... sem as crianças e suas máscaras grotescas pintadas em açafrão... sem mamãe... sem romãs... ainda assim, senti que em seu interior eu estaria protegida em minha tristura; um lugar para fazer meu ninho de saudade, medo e melancolia. Fui à porta de cedro já envelhecida e abri-a desapressada. “O que... houve aqui?” — Expressei minha dor de ver as ruínas da casa que vivi por éons; fragmentos do tempo que passa e aniquila tudo o que temos de inestimável. Adentrei sua sala cuja luz era contida, vinda das janelas danificadas e das frestas da estrutura corroída. Meu coração se acalmou. Toquei a margem da lareira empoeirada... mamãe acendia seu interior nas noites frias e permitia-me observar o fogo tenro enquanto a ouvia cantarolar. Pouco depois, na semiescuridão, vi Seth. Sentado na cadeira de balanço, esperando com paciência, era o mesmo assento que amei por anos quando mais jovem, sentando-me para ler poemas ancestrais. Ver Seth trouxe-me serenidade, entretanto, por outro lado, temi algo que não sei. Seth levantou-se e se aproximou com cuidado e estendeu-me sua mão. 

É preciso aquiescer à finitude, minha Aesatt, para desfrutar da eternidade...— Segurei o braço de Seth e ele beijou minha fronte; caminhamos juntos para fora do lar em decadência, mas doeu deixá-lo, uma dor lânguida e demorada. No insípido cenário, flores negra, com nuances carmim, símeis às dálias floresciam por onde nossos pés caminhavam e, então, seguimos juntos dentre elas; era um brotar de beleza etérea que suscitara em minh’alma uma esperança luzidia de algures, e algum dia, ter um lar outra vez, mesmo debaixo do amargo sabor dos tantos fins que hei de colecionar tendo a imortalidade como pilar de meu existir. Mas, não era apenas tal veracidade que contornava a simbologia do sonho; Seth em meu lar arruinado, presente no vazio decadente de minha história olvidada; Lorrt a amar um outro eu... e mamãe... apaziguando-me ainda que como um espectro no deserto. É mesmo preciso aquiescer à finitude para desfrutar da eternidade. 

Meus olhos abriram-se lacrimejantes. Eu compreendi muito e tão pouco... tão pouco e o que foi preciso. Senti a energia em minhas entranhas, uma disposição de enfrentar as dores, horrores e verdades, em meu nome, por mim, por Áurea Lihran morta, por Áurea Lihran de um devir e, acima de tudo, por Áurea Lihran que, naquele átimo solitário, tinha em suas mãos o poder de criar, ao mesmo tempo, o seu passado e o seu futuro. Eu sabia que árduo seria o enfrentamento do tempo que poderia, de fato, não existir naquele Castelo, mas existia no imo daqueles que possuíam a dádiva da vida, seja qual fosse sua forma de vida. Então sentei-me à beira de meu leito e vi de imediato o derredor em um branco puro; profundamente níveo — das paredes de pedra aos móveis vitorianos e à tapeçaria. À princípio pareceu-me normal, como se tudo já assim o fosse desde sempre, porém, soube pouco depois que eu ainda sonhava e, mais do que isso, eu estava em um sonho que não era apenas meu. 

Personagens neste capítulo:

Livro:

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Gênesis I

Segui as noites na companhia de Ameritt, sempre auxiliando em tudo que ela precisasse que fosse feito para abastecer e alimentar os hóspedes do castelo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Segui as noites na companhia de Ameritt, sempre auxiliando em tudo que ela precisasse que fosse feito para abastecer e alimentar os hóspedes do castelo. A quantidade de alimento — na maior parte das vezes o caldo esverdeado — era sazonal. O caldo vermelho normalmente era preparado em uma panela média, duas vezes ao dia. Certamente, além de mim e do homem de cabelos negros, eu não sabia ao certo quantos mais se alimentavam daquilo, pois tão pouco eu tinha acesso aos outros andares do castelo e não conhecia os outros que habitavam por ali. Por um médio período, que já não sei precisar, minhas únicas funções eram preparar a comida, ler pergaminhos em outros idiomas, entender a fisiologia e os componentes que formavam os insetos servidos no caldo esverdeado. 

Certa vez, antes de ir até a câmara mais isolada do porão do castelo, onde haviam alocado meu caixão, senti uma forte curiosidade em adentrar uma das câmaras que ficavam entre a cozinha-laboratório de Ameritt e minha câmara isolada; algo me instigava a entrar ali. Por duas vezes, antes de ir dormir, pouco antes que chegasse o amanhecer, me vi tentado a abrir o tal aposento, até que, na terceira vez, não resisti e proferi as palavras: “Apertum Loculum”, a fim de tentar abrir a porta local. Para minha grande surpresa, a porta se abriu, e eu me vi sem reação; já não sabia se deveria entrar no local ou fugir dali, intuindo que poderia ser perigoso estar em uma câmara que vivia trancafiada. 

Naquele momento, minha curiosidade havia me vencido, e eu, por fim, adentrei a câmara. Era um cômodo completamente diferente dos que eu já havia tido acesso dentro do castelo; eu estava dentro de uma espécie de biblioteca que reunia diversos pergaminhos e livros, e a dimensão daquela habitação nem se comparava com a biblioteca que havia no navio, nem com a minibiblioteca onde eu estudava latim, grego e a anatomia dos insetos — que era anexa à cozinha-laboratório de Ameritt —, pois era muito maior. 

Dentre os muitos livros que a biblioteca possuía, um em específico, de capa dura na cor cinza escuro, quase preto, com um dragão vermelho como símbolo na capa e com mais de quinhentas páginas, me chamou muita atenção. No canto direito, havia escrito: Genesis. O livro não quis se abrir por vontade própria; tive que mencionar “Apertum Loculum” para conseguir acessá-lo. Assim que a primeira página se abriu, percebi que ali se identificava um mapa; ao lê-lo, consegui reconhecer as regiões com os nomes: Transilvânia, Valáquia e Moldávia. A região da Moldávia parecia ter uma cor diferente das outras duas (hoje sei que as outras duas regiões, junto com mais seis regiões conquistadas no período do Império Romano e Otomano, compreendem a totalidade do mapa da Romênia atual). Eu não era um indivíduo que lia muito no período em que vivi minha vida mortal; começar a ter o hábito da leitura era algo novo para mim. O fato de ser uma aberração, e com isso ter adquirido poderes para absorver rapidamente a leitura, me trouxe uma sensação maior de satisfação por esse novo hábito, confesso, pois antes me faltava paciência e foco. 

À medida que eu saboreava uma a uma as páginas do livro de capa de dragão, parecia que eu lia uma história que me conectava à minha; algo do que eu lia fazia sentido para as minhas origens vampirescas. A parte textual do livro era escrita em primeira pessoa, como se fosse uma espécie de diário, e começava assim: 

 Brasnov, de 1448 a 1476 
O primeiro de nós 

Após a morte de Vlad Tepes, o Príncipe Empalador, em 1476, devido à traição por cobiça ao trono da Valáquia por seu próprio irmão, Radu, eu, Igor Dracul, seu primo, recebi o título de Conde Dracul pelo próprio Vlad em seu leito de morte. Após receber seu anel do dragão como último presente, o que firmava meu pacto de confiança com o Empalador — pacto este que Vlad não tinha confiança em estabelecer com o próprio filho, Mihnea —, uma vez que o filho tinha caráter duvidoso e, além disso, não era iniciado na Ordem do Dragão, como eu e seu pai, Vlad III. 

Além de todos esses fatores, eu era comandante das tropas de Vlad, seu amigo confidente e o único que presenciara e guardara em segredo dois fatos que mais tarde comprovariam a lenda que nomeava Vlad como Conde Drácula, ‘O Demônio da Transilvânia’. 

Vlad e eu pertencíamos à Casa de Basarab (Câmara dos Drăculești) e, devido à escassez de homens vivos na família, fomos os únicos iniciados na Ordem do Dragão que permaneciam vivos. Os povos valaquianos e transilvanos da época disputavam territórios invadidos e tomados pelos otomanos, e muitos homens haviam morrido na guerra. 

Vlad realmente tomou a última decisão de sua vida de forma pensada em seus últimos minutos, após a batalha no mosteiro de Voronet, onde os turcos descobriram que o Empalador e seu exército se escondiam (invadiram em uma manhã de verão para capturar e decapitar o líder que mais havia empalado soldados otomanos e saxões). 

Antes da morte de Tepes, por algum motivo que a maioria da população valaquiana, amigos próximos e familiares não entendiam, Vlad deixou de circular pelas manhãs e inícios de tarde. O Empalador passou a ter hábitos noturnos desde que se mudara para o mosteiro, e somente eu cheguei perto de descobrir o verdadeiro motivo. 

Em uma noite invernal do ano de 1458, Vlad convocou-me, a seu filho Mihnea e a mais dois soldados de sua guarda pessoal para irem a uma grande floresta, abaixo do Monte Cárpatos. Ao chegarmos perto de uma gruta, Tepes pediu a todos os quatro que o acompanhavam que esperassem do lado de fora enquanto ele explorava a alcova sozinho. Passado um tempo, os quatro cavaleiros que o aguardavam ouviram um grito agonizante ecoando da gruta; entreolharam-se no mesmo instante. Assustado, resolvi adentrar o buraco assombrado e, ao invadir o local, logo senti uma presença macabra que vinha de um vulto grotesco, que parecia esvair-se para dentro do chão da gruta, dizendo em uma voz de barítono: 

— Sua alma é minha, e, em troca de poder, você agora é das trevas. 

No mesmo momento em que identifiquei o corpo de Vlad caído ao chão, percebi que Mihnea estava na caverna em estado de choque, sem entender o que havia acontecido ali. Corri até meu senhor imediatamente e verifiquei se ele ainda estava vivo. Os dois soldados entraram na gruta em seguida e ajudaram a socorrer Vlad Tepes. O Empalador ainda vivia, mas estava fraco e pálido; no lado esquerdo do pescoço surgiram duas marcas de onde esvaía sangue. Um dos dedos da mão direita estava queimado e, da parte que o ligava à mão, nascia uma crosta vermelha, ainda com sinais de fumaça no local, como se tivessem tostado um dos dedos de Tepes. 

À medida que os dois soldados se adiantavam para levar o corpo de Vlad para fora da caverna maldita, Mihnea continuava parado na gruta, sem fazer qualquer movimento. 

Enquanto os outros dois cavaleiros ajustavam Tepes em um dos cavalos, percebi a ausência de Mihnea e lembrei que o filho de Vlad permanecia na alcova. Ao avistar o rapaz, ainda perplexo na caverna, o chamei, mas não obtive resposta. Resolvi sacudi-lo aos gritos e, ainda assim, não obtive reação. Então, decidi estapeá-lo, berrando, e, ao despertar do transe com tal violência, o garoto questionou: 

— Lorde Igor, o que aconteceu? 

Em resposta, lhe disse: 

— Nada que devamos lembrar. Vamos embora deste lugar sombrio. Meu senhor, seu pai, precisa de maiores cuidados. 

Ao chegarem aos aposentos do mosteiro com Vlad, os quatro cavaleiros logo propagaram os rumores de que o corpo do Empalador chegara sem vida. Alguns criados suspeitaram que poderia ser algum tipo de peste; outros imaginavam que seu senhor houvesse caído em uma emboscada feita pelos turcos enquanto caçava cervos à noite, mas a verdade somente eu sabia. 

Durante muitos dias e muitas noites, Vlad permaneceu trancafiado em seu quarto. Nos primeiros dias, ficou acamado, pois ainda não havia recuperado parte de suas forças. Sua pele permanecia incolor, e a ferida que cicatrizava em seu dedo queimado agora parecia metal — como se da casca do ferimento surgisse uma capa de cobre. No entanto, a ferida no pescoço permanecia, como se houvessem sido feitos dois pequenos buracos negros, como se o sangue de Tepes estivesse apodrecido ao ser mordido por uma serpente do mal. Vlad já não possuía mais alma. 

Após ler e refletir sobre as palavras escritas por Igor Dracul, lembrei-me da fatídica viagem que fiz naquele navio assombrado até aqui. O que mais me chamou a atenção até agora foi que o tal anel, que parecia ter surgido como uma espécie de herança no dedo necrosado de Vlad Tepes, era o mesmo que o senhor que me guiava e criara portava: um anel de cor avermelhada, parecendo ser de cobre, com uma insígnia de dragão no centro. Seria, o meu senhor, aquele descrito nas palavras do livro de capa de dragão, ou será que Vlad Tepes despertara mais uma vez de algum tipo de torpor e agora nos espreitava e comandava no castelo? De uma coisa eu tinha certeza até então: o senhor que portava o anel e fora meu criador era o atual Drácula, dono do navio e de tudo o mais. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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12. Castelo Vampírico: Não sabeis o que acontecerá amanhã

Finalmente comecei a ter boas noites de sono; fazia tempo que eu não dormia bem. Os chás que tomei com Ameritt…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

04 de janeiro? - Finalmente comecei a ter boas noites de sono; fazia tempo que eu não dormia bem. Os chás que tomei com Ameritt estavam fazendo o bem prometido por ela. Cheguei até a sonhar, e, na maioria deles, eu me via sentada à escrivaninha à frente da janela, lendo o livro e fazendo anotações. Sentia-me distante de mim mesma e, ao mesmo tempo, ligada ao livro. Voltei à rotina habitual no castelo, à qual eu já havia me acostumado, agora que meus nervos pareciam ter se acalmado. Via sempre o livro sobre a mesa, apenas esperando para ser lido, e ia em sua direção. Lembrava do seu peso, de sua textura, tão próxima à minha pele quando o coloquei por baixo da blusa para protegê-lo da chuva. Às vezes, meus dedos quase o tocavam enquanto eu estava perdida em pensamentos, mas logo sentia um frio percorrer minha espinha e recuava. Respirava fundo e sussurrava “Hoje não” para mim mesma; algo dentro de mim dizia que eu não estava pronta. Então, coloquei alguns papéis sobre o livro para que eu não ficasse olhando para ele a todo momento.

A manhã trouxe uma mudança na atmosfera do exterior do castelo; a chuva havia cessado, deixando um clima mais ameno. Olhei pela janela, vi o jardim e me senti disposta a fazer mais uma visita a Ameritt — isso se tornara rotineiro. Antes de sair do quarto, passei a pomada em minha ferida, como eu havia prometido a ela. Meus dias e minhas noites no castelo pareciam estar voltando aos eixos: dormia bem, acordava disposta, visitava Ameritt. Ficávamos conversando sobre entomologia, botânica, qualquer assunto relacionado às ciências da natureza, e me permiti ouvi-la falar sobre misticismo, esoterismo, alquimia e todas as pseudociências possíveis. Eu não estava mais num mundo onde a razão fazia sentido; depois de tudo que passei no castelo, presenciar algo e tentar explicar tudo apenas com fatos faria minha mente colapsar. Eu tinha que entender que não estava mais no “Kansas” e, como Dorothy, deveria apenas aceitar esse caminho e continuar na estrada sombria dos tijolos amarelos.

Ameritt me fazia experimentar diversos chás e me mostrou ervas que cresciam somente no castelo, além de me explicar o efeito de cada uma no corpo humano, oferecendo-me somente aquelas que pudessem me acalmar, nunca me dopar. Explicou-me o significado de besin, e fiquei surpresa ao saber que era uma palavra do idioma dos Séttimôros, um povo pelo qual passei a ter certa afeição; a palavra significava "besouro". Depois da visita, voltava para o quarto e focava na escrita. Os dias iam ficando mais calmos, mais rotineiros. Vez ou outra, eu me lembrava do livro, mas logo voltava minha atenção ao que eu estava fazendo. O ambiente ao redor do castelo parecia se tingir de um tom laranja: as folhas nas árvores, o céu da manhã, abóboras em profusão cresciam no jardim, cogumelos em tons de laranja e outros terrosos. Tudo tinha uma tonalidade vibrante, e à noite, com uma lua laranja contrastando com o céu escuro.

Tudo fora do castelo e dentro de mim aparentava outono, simulava uma lenta mudança, mas eu sabia que não era totalmente assim. O castelo parecia despertar para uma nova fase, mais viva e inquietante, como se estivesse sendo alimentado de forma constante, com muito mais inspiração. Eu esperava que fosse assim dentro de mim também; sentia algo diferente no ar e dentro de mim, de forma que despertava meus sentidos. Como uma comichão que eu sentia por todo o meu corpo e me fazia sentar em frente à escrivaninha e apenas escrever todas as imagens, sons e palavras que vinham em abundância à minha mente. Era como se o castelo me desafiasse a apenas aproveitar essa atmosfera peculiar para pôr as ideias que borbulhavam em minha cabeça no papel. Então, me deixei levar, e, como se inspirada divinamente, eu escrevi até altas horas.

05 de janeiro? - Acordei um pouco mais tarde que o habitual, fui até o jardim, e me encontrei mais uma vez com Ameritt, curvada sobre uma fileira de cogumelos em tons terrosos, tão belos, parecendo pequenos guarda-chuvas, que ela colhia com cuidado. O aroma da terra úmida e da vegetação se espalhava ao redor; era tão agradável estar naquele jardim. Ameritt sorriu quando me viu, e senti aquele calor confortável no peito, o que sentimos ao ver alguém a quem temos grande afeto.

— Rute-besin, parece que o castelo te deixou dormir um pouco mais esta noite — disse ela com sua voz carinhosa de sempre, embora com um leve traço de inquietação.

— Não exatamente, fui bem tarde para a cama. Passei a noite escrevendo — respondi, admirando aquele horizonte alaranjado. — Este lugar parece estar mais cheio de vida, como uma entidade bem alimentada, não é?

Ameritt soltou um riso suave, que tirou minha atenção do horizonte. Olhei para ela, e seus olhos brilhavam, como já era habitual, pois aquele era o momento em que ela compartilharia mais conhecimento comigo.

— Rute-besin, esse castelo é vivo, como você já sabe. Isso é por causa da estação Aborom, a meia estação primavera-verão. Bem, é a época em que tudo se intensifica. Veja as abóboras e esses cogumelos; é essa magia que não se pode nomear que os mantém tão vibrantes nessa época. E há as criaturas da noite, que, em época de Aborom, podem ser hostis, especialmente quando a lua negrume surge no firmamento laranjim. Elas despertam em cólera, parecem famintas; creio que sejam morbidades criadas pelo caráter próprio deste lugar.

Ela se ajoelhou perto de um grupo de cogumelos, colhendo alguns com cuidado.

— Esses são Obomitas — disse, apontando para pequenos guarda-chuvas de uma tonalidade alaranjada. — Em noites como esta, eles podem ser perigosos se manipulados sem o devido cuidado. — Ela se pôs de pé e foi andando em direção a grandes abóboras de um laranja vibrante. — Essas abóboras são venenosas, mas com elas se pode produzir elixires perturbadores, dependendo do uso.

Caminhou até outras abóboras, apontando para elas.

— Essas são especiais; além de produzirem doces e tortas maravilhosos, servem para proteção também. Esse provérbio, você já ouviu? — Ela começou a recitar de maneira quase ritualística: — “Quando estiverdes em vossos aposentos, mantenham as fenestras aldravadas e ponham uma vela de abóbora-doce à porta, no chão. Pois eles se erguerão de seus túmulos e mancharão vossos umbrais com macabros infortúnios, caso não sejam expulsos pela trêmula luz aromantada.”

Balancei a cabeça, indicando que não conhecia o provérbio. As palavras pararam entre nós, cheias de advertência.

— As noites de Aborom trazem mais do que mudanças na atmosfera do castelo e na vegetação, Rute-besin. Há uma passagem belíssima de um pergaminho antigo, escrito por uma poetisa murmura: “Ouça o cântico das almas, nesta noite de lua negrume; ouça-o no manto do horror, almas que buscam vingança, paixão e dulcíferas frutas de meia-estação.” Terrivelmente belo, não é?

Um calafrio percorreu meu corpo enquanto ela recitava aquela bela passagem, e olhei para ela, confusa.

— Acho que não estou pronta para enfrentar o que o castelo tem para revelar nessa época. Dessa vez vou seguir as regras e ficarei dentro do meu quarto, escrevendo — confessei, com um ligeiro medo na voz.

Ela sorriu, com aquele sorriso quase maternal.

— Ninguém nunca está, Rute-besin, porém o castelo tem a sua maneira de preparar os que vivem sob seu teto. Então, descanse, besin, cuide de sua mente. Quando estiver pronta, você saberá. E, quando isso acontecer, bem… espero que você esteja disposta a enfrentar o que encontrar.

O fim da tarde se aproximava, e nuvens laranjas pairavam sobre nós como um manto. Olhei para Ameritt me observando. Por mais perturbador que esse lugar fosse, algo em mim estava irremediavelmente ligado a ele; talvez minha alma, a qual nunca acreditei existir, agora fosse parte do castelo. A questão era: o que ele esperava de mim, além da escrita?

— A senhora acha que devo ficar trancada no quarto? — perguntei.

— Só se for da sua vontade — respondeu ela, enquanto colhia alguns Obomitas. — Mas, para se proteger, recomendo que leve aquela abóbora que separei para você. Coloque-a na porta do seu quarto ou na janela; ela deve ser iluminada por dentro com esta vela — disse, mostrando-me uma vela de um laranja claro. — Isso afastará os que se levantam de seus túmulos, espíritos inquietos e todas as criaturas que não desejam nada além de manchar os umbrais dos vivos de infortúnios. Eles são atraídos por este lugar nessa época de Aborom, por vingança, paixão ou até mesmo por um pouco de consolo ou companhia. Se sentirem sua presença, poderão tentar se aproximar, especialmente se perceberem que está mexendo com algo que os afeta.

Essas palavras ecoaram em mim, e logo a imagem do livro que encontrei se formou em minha mente. Eu ainda não havia mencionado o livro a Ameritt, mas sentia que ela sabia sobre ele. O peso de seu conteúdo, ainda não revelado, parecia dobrar meus ombros. Após uma agradável conversa acompanhada de chá, voltei ao meu quarto. Seguindo a recomendação de Ameritt, coloquei uma vela dentro da abóbora e a pus sobre o parapeito da janela. Tranquei a porta e as janelas e me sentei para escrever. Enquanto escrevia, sentia-me inspirada a rascunhar algumas poesias. Fazia tempo que não tentava nada. Talvez o que me faltava fosse motivação, ou talvez uma boa noite de sono. As palavras fluíam com tanta facilidade, que era como se o próprio castelo estivesse ditando as palavras exatas que eu deveria escrever. Estava tão absorta na escrita que não percebi o som suave que veio da janela.

Foi um bater suave, dado três vezes, bem distinto. Levantei devagar meus olhos do papel e fui surpreendida. Do lado de fora, pressionado contra o vidro, havia algo ou alguém. Seu rosto era indefinido, sem traços, olhos escuros e vazios olhando através da janela e de mim. Sua pele, de um branco translúcido, era lisa, sem marcas ou qualquer coisa que definisse seu gênero. Dedos longos e finos, rosto anguloso, sem qualquer expressão; sem sobrancelhas, cílios ou cabelos, apenas o vazio liso. Os lábios finos, quase invisíveis, não se moviam. Seu corpo, alto e magro, apesar de translúcido, parecia denso, e o espaço ao redor dele parecia se curvar ligeiramente. Sua voz, quando falava, estava dentro da minha mente, como um sussurro dobrado.

— Você pegou o livro — sua voz soava como se duas pessoas falassem ao mesmo tempo.

Paralisada e sentindo calafrios percorrerem o meu corpo, apertei a caneta com força, sem saber se deveria responder ou correr.

— O livro… — repetiu a criatura, estendendo um dedo por trás da vidraça em direção ao livro. — Por favor, abra-o.

Falava sem emoção, mas sua voz parecia repuxar minhas entranhas. Levantei-me e dei um passo para trás, sem tirar os olhos da criatura. Olhei para onde o livro estava, coberto de papéis, mas eu ainda assim o sentia, como algo à espreita.

— Se você o abrir — a voz da criatura vibrava em minha mente —, eu poderei descansar, ou talvez, me lembrar. Por favor, abra o livro — sua voz estava mais alta em minha cabeça.

— O que é você? — perguntei, olhando aqueles olhos vazios.

— Um nome esquecido — murmurou, sua voz reverberando como uma onda dentro da minha cabeça. — Mas o livro guarda o que resta de mim. Ele deve ser lido para que eu me lembre.

— Mas e se isso for perigoso? — perguntei.

— Todo conhecimento o é, mas a ignorância também não? Por favor, eu só preciso lembrar — a voz voltou a ecoar em minha cabeça.

Suspirei e tentei me acalmar. Não podia ceder a uma criatura desconhecida. Talvez amanhã, pensei, talvez quando eu estivesse mais preparada. Hoje, eu só poderia prometer à criatura que aguardava do outro lado do vidro:

— Eu vou pensar sobre isso — falei.

A criatura pareceu entender. Sentou-se no peitoril da janela, enquanto a abóbora continuava a iluminar com sua luz trêmula. A criatura, ou o que quer que fosse, parecia estar à espera.

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Um convite especial

Voltei a me encontrar com Ameritt, a convite dela e por motivos que ela mesma garantiu me mostrar. Estava em meu quarto, ocupado com a leitura e busca…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Voltei a me encontrar com Ameritt, a convite dela e por motivos que ela mesma garantiu me mostrar. Estava em meu quarto, ocupado com a leitura e busca por inspirações (as exigências de escrita não param!), quando percebi o sinal que ela enviou. Na beirada de minha janela — onde o que se vê não passa de um horizonte quieto e quase vazio, bordejado de mata —, seu curioso besouro batia as asas, fazendo um barulho que prontamente me tirou a concentração… 

De modo apressado e curioso, larguei o livro que folheava e me pus na direção da janela; chegando lá, o prometido: Ameritt, com toda sua peculiar maneira, me exibia uma abóbora, uma imensa abóbora sobre sua cabeça. Chegando a segurar um riso, olhei para ela e acenei, garantindo com isso que iria acompanhá-la, como havia prometido em nosso último encontro. 

Qual não foi a estranheza de me ver seguindo um pequeno inseto, aparentemente ciente de sua missão, me guiando pelas descidas do castelo e quase me obrigando a pedir que esperasse… Sujeitei-me àquilo com a aceitação já típica das experiências tidas aqui. 

Chegando ao pórtico de entrada do casarão, diante do jardim amplo e tomado de plantas, outra surpresa. De tamanhos variados e até maiores do que a abóbora exibida sobre a cabeça de Ameritt, o espaço estava tomado por elas, com uma iluminação que só poderia ser feita por algum artefato no interior de suas rotundas massas. Aquela visão era um espetáculo, como minha imobilidade e estupefação puderam confirmar… 

Ultrapassei aquele labirinto de abóboras enquanto tentava não perder a visão do besouro de Ameritt. Por um minuto, lembro que sumira de vez da minha perspectiva aquele apressado inseto. Estando já anoitecendo, tudo o que pude fazer foi tentar localizar em meio ao brilho laranja dos legumes (ou frutas?) o ponto preto e vacilante do alado bichinho. Pensando mesmo em desistir da perseguição, estava a ponto de gritar para minha anfitriã, avisando de minha situação, quando me dei conta do ridículo: eu bem sabia onde ela morava, vivia… 

*

Ameritt me recebeu com a simpatia de sempre. Servindo-me pratos, doces, receitas que eu não fazia ideia se deveria ou não simplesmente aceitar, fui me dar conta de seus sabores quando já tinha repetido a porção de três ou quatro refeições... 

A percepção de estar daquela maneira, sentado junto a ela numa sala relativamente escura e cercado de objetos que meus olhos não conseguiam captar, me deixou levemente preocupado. Não que eu suspeitasse das intenções de Ameritt, até então uma queridíssima descoberta, gentilmente aberta para minhas perguntas e respostas; acontece que, da forma com que eu “automaticamente” cheguei ao seu recinto, sentindo-me no mínimo tomado por alguma estranheza, naquele momento minhas primeiras impressões de dúvida e até receio voltaram à tona. 

Eu ainda não sabia nada do que se escondia por trás daquela fortaleza de pedras, a verdadeira face do que governava os acontecimentos ali... Pronto para me levantar e pedir para ir embora (confesso que certo pavor ia me preenchendo, ao passo que a satisfação pela comida desaparecia aos poucos), Ameritt deu a volta na mesa e pareceu adivinhar minha apreensão. 

Pedindo-me “calma”, fui sorvido por sua voz lenta e acolhedora — de certa maneira, doce como os quitutes que eu provara. Sem enxergar seus olhos, que eu já havia notado serem de um brilho enigmático e atraente, tudo o que pude prever era minha total integridade sob os braços daquela que me recebera em sua sala, estando ali à mercê do que suas mãos pretendiam ou não me fazer... 

*

— Conte-me, Wallacebesin... O que faz aqui no Castelo?... 

Tudo o que lembro, tudo o que me vem à mente ao recordar essa pergunta de Ameritt, gira em volta de minha pertença ao Castelo, desde minha chegada até a súbita tensão ao me servir dos pratos misteriosos daquela anfitriã... 

Comecei falando de meus textos, meus poemas e sonetos, que volta e meia eram instigados a serem escritos por conta da atmosfera do lugar. Depois, falei dos outros habitantes do Castelo, pessoas que eu via, mas com quem raramente trocava alguma relação (exceto os comentários deixados como notas em seus originais escritos). Não pude contornar o assunto do Baile, aquela dança misteriosa com a também obscura dama que me acompanhara na noite... Até o episódio do ataque, aquela provável ocasião ainda em xeque na minha cabeça... 

— Tudo isso acontecendo em menos de um ano, Wallacebesin? 

Um ano?! Quase um ano que tudo aquilo havia ocupado de minha jornada! O choque com aquela pergunta foi como um puxão para a realidade. Jamais eu havia me dado conta de que, ao fazer parte daquele ambiente de experimentação artística e fenômenos extraordinários, também o calendário era sujeito a seus insondáveis efeitos... 

Talvez eu tenha desmaiado, ficado fora de mim por alguns segundos, enquanto tentava processar aquela insuspeitada informação trazida por Ameritt. Ela própria (se minha memória não me prega alguma peça neste momento em que escrevo) — estou certo de que tenha me envolvido com seus braços e me “trazido de volta”, usando de algum artifício, com toda a certeza, de sua lavra. 

Erguendo-me da cadeira, guardo uma imagem de vê-la me guiando em direção à janela de sua humilde e misteriosa sala. Ali, com o céu completamente aberto e limpo, ela me pediu que olhasse, aceitasse os fatos (que os acontecimentos anteriores, por mais absurdos que fossem, se explicariam) e que não duvidasse, a partir de agora, do que minha visão deparava... 

— Quase um ano de sua estadia aqui, Wallacebesin... e esta é a primeira vez que vê isso... 

Isso que ela indicava, com toda a calma do mundo: a abóbada celeste, naquela noite inquietante, sendo visitada por abóboras flutuantes, decorando o céu ao redor do Castelo de um laranja espectral... 

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Conselhos Doces e Sombrios

Enquanto eu me afasto da biblioteca, as sombras parecem se fechar atrás de mim, como se o lugar estivesse lamentando a minha partida. No entanto, não há…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Enquanto eu me afasto da biblioteca, as sombras parecem se fechar atrás de mim, como se o lugar estivesse lamentando a minha partida. No entanto, não há despedidas. Logo, encontro o meu aposento e me troco, vestindo-me bem confortável e carregando apenas uma lança pendurada, algo que se torna um acessório que dá lugar à minha vaidade. Ao sair da minha alcova, o eco de gargalhadas infantis ainda ressoa, agora mais próximo, e a minha curiosidade me empurra para frente, em direção ao desconhecido. 

Ao ser levada para a biblioteca novamente e contornar uma estante, me deparo com uma figura peculiar: uma anciã com cabelos brancos como nuvens, que se mistura ao ambiente com seu manto de cores terrosas e verdosas. Em suas mãos, há um frasco com uma poção brilhante e um pequeno caderno, onde são visíveis desenhos de besouros. 

— Nauärah-besin, vejo que a dança a trouxe até nós! — a senhora diz, com um sorriso que revela dentes que parecem ter visto muitos segredos. — O movimento é a linguagem da terra, e você, minha filha, fala fluentemente. 

— Eu… — hesito, intrigada, abaixando a cabeça e curvando-me quase. — Muito agradecida, mas como sabe o meu nome? Por que me chama por Besin? E quem é a senhora? 

Apesar das dúvidas, aquela figura me traz paz, como se me confortasse e me tranquilizasse de algo. Ela me transmite sabedoria. E como ela lembra a minha avó...! Essa parece ser a resposta de que preciso baixar a guarda. E as armas. Ela olha em direção à minha lança, como quem julga-me tola e desnecessária por carregar isso dentro do castelo. Por outro lado, o seu olhar é terno, compreensivo e parece entender o meu motivo com a sua intuição. 

— Ameritt. Me chamo assim. E sobre o seu nome, eu simplesmente sei. 

A senhora Ameritt não precisa se explicar. Compreendo bem que ela tem uma sabedoria peculiar e profunda, até pela sua idade. 

— Que paz me trouxe, senhora Ameritt! Mas o meu sobrenome é Tupiniquim. 

— Eu sei. Conheço os Tupiniquim de longe, pelo olor, trejeito e fala. 

Percebo que essa senhora sabe muito. Talvez conhecesse o meu povo ou seus costumes por sua sabedoria notável de anciã. 

— É uma satisfação imensa! Bem, fico aliviada em ver mais damas neste recinto. 

— Senti a senhorita leve e confiante quando me viu. Dançaste como a brisa, como a chuva! 

— Espera, a senhora me viu dançar além de outras presenças que senti? 

— Eu vejo muitas coisas, ou quase tudo. 

— É bom conhecer pessoas sábias como a senhora. Eu senti algo ao dançar. Uma conexão com a minha essência, talvez. Mas o lugar aqui ainda parece estranho, embora seja mágico e encantador. 

Ameritt inclina a cabeça para admirar a minha fala, e seus olhos brilham como se guardassem as chaves para os mistérios do castelo. 

— Este castelo tem suas próprias histórias, e você, por acaso, está fazendo parte disso — ela profere, e o meu olhar se fixa naquela espécie de grimório que ela carrega, com besouros desenhados e anotações incompreensíveis. — E os besouros que a senhorita vê em minhas folhas… ó, eles são mensageiros, sempre. Eles vão e vêm com as verdades ocultas. 

Nesse momento, um movimento fora da sala atrai a minha atenção e logo eu toco a minha lança, num instinto selvagem de defesa, embora a senhora Ameritt esteja por perto. Um homem com tom de pele similar à minha surge ao longe, por trás de alguma pilastra que é possível visualizarmos de dentro da biblioteca, o que me faz relaxar os músculos, talvez por sentir semelhança e identificação com as características físicas dele. 

— Se eu fosse a senhorita, não sairia do meu aposento com lanças — a senhora Ameritt tranquiliza-me, com sua voz serena. — Eu compreendo a sua bravura; por outro lado, não há necessidade alguma de vagar por aqui armada, a não ser que saia do castelo e vá explorar a Vila Séttimor. Aí eu lhe darei razão. — ela sorri sabiamente, com um brilho nos olhos. 

— Certamente ando munida por aí afora. Mas irei me tranquilizar aqui dentro. Vou ouvir o conselho da senhora. A minha avó sempre me dava conselhos utilizando a mesma frase. 

— Mas também não vacile... Este castelo guarda segredos que podem ser tanto um presente quanto uma maldição. Você deve escolher como vai usá-los. 

Antes que eu pudesse respondê-la, ela novamente dispara: 

— Nauärah-besin, eu preciso realizar algo muito importante agora, mas eu te espero em algum canto bonito e sombrio do castelo a qualquer outra hora para um longo e saboroso chá. 

— Espera, senhora Ameritt...! A senhora sabe quem é o homem que apareceu atrás das pilastras? 

— As respostas vêm quando você menos esperar, muitas vezes em forma de besouros! 

Ela diz e desaparece com uma espécie de magia, como quem paira por entre uma fumaça mágica e colorida, dando-me as costas. No mesmo momento, eu imagino que tive uma visão, um vislumbre por saudade da minha avó, mas não. A senhora Ameritt é tão real quanto eu, e, além da sua sabedoria e amorosidade, ela é esperta e safa. A sua última frase não sai da minha cabeça, e a conversa com tal anciã me faz refletir sobre minha própria jornada, sobre o autoconhecimento que preciso construir a cada dia, sobre a minha dança, e as portas da imaginação se abrem em minha mente. Com a companhia dessa alma intrigante, ainda que fugitiva da minha presença, sinto-me menos sozinha, pois é ela uma das residentes. 

Novamente, ouço da parte externa risos de crianças, que agora se misturam com choros. Respiro fundo, tiro a lança da minha longa roupa e a deixo em uma mesa próxima. Seguro firme o meu amuleto, rogando a Tupã por proteção e lucidez, porque, além de ouvir vozes e onomatopeias, pela primeira vez, eu quero ir atrás de uma figura masculina para saber quem é. Dias atrás, eu correria para o meu quarto, rogando para que ele não me descobrisse. Por vezes, imagino que estou louca, mas esta é uma loucura que eu preciso ter. Algo me diz que aquele não é qualquer homem; é confiável, se parece um pouco biologicamente comigo, parcialmente. Para quem se esbarrou com dois homens neste recinto e tudo correu bem, aparentemente, desse eu não preciso temer. Se ele fosse ameaçador, a senhora Ameritt me alertaria. 

Decidida a explorar não apenas a biblioteca, mas também as pessoas que me cercam, olho para o lado de fora, tendo a certeza para onde vou agora.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

 
 

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Velian: Incertezas nas Sombras

A noite pairava densa sobre Fortaleza, as luzes artificiais competindo com o brilho distante das estrelas. Velian, em sua forma mais recente, caminhava pelas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A noite pairava densa sobre Fortaleza, as luzes artificiais competindo com o brilho distante das estrelas. Velian, em sua forma mais recente, caminhava pelas ruas do centro da cidade, envolto em um manto de mistério. A brisa morna trazia o cheiro salgado do oceano, e as vozes vibrantes da cidade o cercavam como ecos distantes. Ele talvez ainda apreciasse o contraste que Fortaleza oferecia, uma cidade viva, que pulsava com o calor e o caos da vida humana, quando não estava em seus momentos mais tristes. 

A noite em Fortaleza parecia eterna, como se o tempo estivesse suspenso naquele instante. Velian, com seus olhos penetrantes, observava a vastidão do mar à sua frente. A vida moderna ao redor pulsava, mas ele, um ser de 700 anos, sentia-se desconectado da realidade que o cercava. Tudo era efêmero, passageiro. O mundo humano mudava constantemente, mas ele, imortal, permanecia preso ao mesmo ciclo de busca, prazer e tédio. Aquele sentimento de desconexão o acompanhava há séculos, e agora, mais do que nunca, pesava em seus ombros. 

Há séculos, ele conhecera o esplendor da Europa, o frio das catedrais góticas e o peso da história que as cidades do Velho Mundo carregavam. Agora, Velian encontrava refúgio nas metrópoles brasileiras, especialmente no Nordeste, onde as tradições locais e as lendas populares coabitavam com a modernidade. Fortaleza, em particular, lhe chamava a atenção; a cidade vibrava com uma energia que ele não encontrava mais na Europa, um fervor quase primordial. 

Em sua identidade fluida, Velian havia adotado o codinome Serpente, uma figura andrógina que desliza entre as sombras, observando e manipulando aqueles ao seu redor. Naquela noite, no entanto, algo diferente estava no ar. Havia uma tensão que ele não conseguia ignorar — um chamado silencioso que se infiltrava em seus pensamentos. 

Velian parou na orla da Praia de Iracema, sentindo a maresia misturada com um estranho frio que não condizia com o clima tropical. Era como se o tempo estivesse se dobrando sobre si mesmo, e o ar ao seu redor começava a mudar. Sua mente, sempre afiada, começou a perder o foco. Ele piscou, e a cidade ao seu redor parecia desvanecer, como se estivesse sendo puxado para outro lugar, outra dimensão. Antes que pudesse reagir, o mundo se fragmentou. 

Quando abriu os olhos novamente, Fortaleza havia desaparecido. Velian se encontrava agora em um lugar que não reconhecia — um vasto salão de pedra escura e fria. O silêncio era opressor, e as paredes ao seu redor exalavam uma energia ancestral. Ele não precisava de explicações. Estava no Castelo Drácula, um lugar que há muito tempo era apenas uma lenda entre os seres imortais e que Velian não tinha certeza que existia, mas naquele momento pode ver sua certeza se concretizar. 

Seus olhos, ajustando-se à escuridão densa, observavam o ambiente ao seu redor. O castelo era imenso, atemporal. As paredes não pareciam seguir as leis naturais do espaço ou do tempo; ele percebia a arquitetura mudar à medida que avançava, como se o lugar estivesse vivo, se moldando à presença dele. 

Velian não sabia como havia chegado ali. Não era comum que seres como ele fossem convocados para aquele tipo de lugar sem uma razão. O castelo era mais do que pedra e sombras — ele vibrava com um poder incomensurável. Sentiu em seu peito um peso desconhecido, como se uma força oculta o estivesse observando, medindo suas intenções e sua essência. 

Enquanto explorava o salão principal, começou a sentir as presenças ao seu redor. O castelo não estava vazio. Havia outros seres, entidades poderosas que ocupavam aquele lugar. Velian, sempre acostumado a ser o predador, agora se via em um território onde não sabia quem era o caçador e quem era a presa. 

Então, duas presenças se destacaram, emergindo do fundo do castelo, como correntes de energia antigas e primordiais. A primeira, uma força esmagadora, era forte, rígida, carregando a essência do que se convencionara chamar de masculino — uma energia que dominava, que destruía e conquistava. A segunda, uma presença fluida e envolvente, exalava o que os humanos nomearam de feminino — algo mais complexo, que atraía e moldava o que tocava, adaptando-se às circunstâncias, mas igualmente devastador em sua força. 

Velian, com sua identidade fluida, sentia ambas as energias em si, como reflexos de sua própria natureza. Ele oscilava entre essas forças, reconhecendo em cada uma delas um aspecto de si mesmo. Não era nem puramente um nem o outro, e o castelo parecia amplificar essa ambiguidade, deixando-o mais consciente de sua própria dualidade. 

Mas o mistério maior permanecia: Por que estava ali? Qual era o propósito dessa jornada? Ele não tinha respostas, apenas mais perguntas. O castelo o havia atraído para algum fim, mas qual? 

Enquanto se movia pelos corredores sombrios, sua mente tentava compreender o que o castelo representava. Era um teste? Uma advertência? Ou algo mais? Talvez as forças que residiam ali estivessem tentando lhe dizer algo sobre sua própria imortalidade, sobre o peso de existir por séculos, sem nunca encontrar uma verdadeira direção. 

Mas, assim como chegara, o momento passou. Num piscar de olhos, o castelo começou a desvanecer, e Velian, sem aviso, foi puxado de volta para o mundo real. Ele estava novamente em Fortaleza, de pé na mesma praia onde tudo começara, o som das ondas voltando aos seus ouvidos. 

Agora, porém, ele sabia que algo profundo havia mudado. O Castelo Drácula o havia tocado, e as forças que ele sentiu lá ainda reverberavam em sua mente. Ele se perguntava quais poderes o haviam levado até lá e o que isso significava para o futuro. Algo estava por vir, e o castelo, com seus mistérios e presenças antigas, continuava a assombrar seus pensamentos. 

De volta à Fortaleza, Velian abriu os olhos de repente, respirando o ar quente e úmido da noite tropical. O som das ondas quebrando contra a praia distante parecia distante, como se estivesse acontecendo em outra realidade. A cidade ainda se movia lentamente sob as luzes urbanas, mas algo dentro dele havia mudado. O contraste entre a vivacidade da vida humana ao seu redor e a atmosfera gótica e densa do Castelo Drácula era quase insuportável. 

Ele se sentou, ainda processando o que havia acabado de acontecer. O tempo no castelo fora nebuloso, quase como um sonho, mas cada detalhe permanecia vívido em sua mente. As paredes vivas, os corredores que se moviam, as presenças poderosas que ele sentiu, tudo se misturava, formando um quebra-cabeça que ele não conseguia montar. Por que ele tinha sido levado até lá? O que o castelo queria dele? 

Velian sabia que o Castelo Drácula não era um lugar comum. Muito mais do que uma construção, era uma entidade — ou talvez uma manifestação das energias que existiam entre o tempo e o espaço. Ele podia sentir como o local o testava, o observava, desafiando sua compreensão e sua própria identidade. Mas qual era o propósito de tudo aquilo? 

Ele recordava as duas forças predominantes que haviam permeado o castelo: a força brutal, impetuosa, que evocava tudo o que os humanos chamavam de masculino, e a força sedutora, envolvente, associada ao feminino. Em seu estado fluido, Velian sempre dançara entre essas energias, absorvendo ambas, rejeitando rótulos e limites. Mas ali, no castelo, parecia que essas forças o cercavam e pressionavam, como se tentassem a desestabilizá-lo das harmonias dessas duas forças que estavam harmônicas a muito em seu interior. 

O peso dessa experiência começou a se insinuar profundamente em sua mente. Seriam essas forças personificações de algo maior? O castelo era um espelho das dicotomias que ele sempre evitara? Velian, que passara séculos se moldando de acordo com suas próprias regras, sem se submeter a convenções de gênero, de identidade ou mesmo de poder, agora se via questionando tudo o que acreditava. O castelo havia despertado nele algo que ele não sabia que existia: uma dúvida persistente. 

E se o castelo fosse uma forma de confrontá-lo com escolhas que ele sempre evitara? 

A fluidez que ele sempre abraçara agora parecia ameaçada por essas forças antigas e poderosas. Talvez aquele lugar fosse um campo de batalha onde essas energias opostas se encontravam, e ele, por algum motivo, fora arrastado para o meio disso. 

De volta à sua realidade tropical, Velian olhava para a vastidão do mar de Fortaleza, mas sua mente permanecia presa no castelo. Como ele havia chegado até lá? E por que havia sido trazido de volta? Ele sentia que aquilo não era o fim, apenas o início de algo maior que estava por vir. 

Ele sabia que precisaria retornar ao castelo um dia, que as perguntas deixadas sem resposta o perseguiriam até que ele entendesse o verdadeiro significado daquele encontro. O castelo, com seus corredores mutáveis e suas presenças antigas, não era apenas um lugar — era um desafio, uma provocação. 

Velian suspirou, sentindo o peso da imortalidade mais uma vez. Seria o castelo uma metáfora para sua própria existência? Um espaço que desafiava definições, que se moldava ao tempo e ao poder, mas que, no fundo, sempre permaneceria vazio e sombrio, esperando por algo ou alguém para preencher seus salões e desvendar seus mistérios? 

Enquanto a brisa quente da noite envolvia seu corpo, ele sorriu levemente. Talvez o castelo não fosse uma ameaça, mas sim uma oportunidade. Uma chance de descobrir algo que ele ainda não conhecia sobre si mesmo — e sobre o mundo sombrio ao qual ele pertencia. 

Velian olhou para o horizonte de Fortaleza, a mente ainda presa no Castelo Drácula, questionando as forças que o haviam arrastado para aquele lugar. A vastidão do mar parecia oferecer algum consolo, mas não trazia respostas. Ele, que por séculos havia se embebido em conhecimentos diversos — desde tratados naturalistas e científicos de diversas áreas do conhecimento, passando pela astrofísica, filosofia cética até compêndios místicos e ocultistas —, ainda não possuía clareza sobre muitos mistérios da sua própria existência. 

Ao longo dos séculos, ele havia encontrado respostas vagas sobre sua condição de ser vampiresco, sobre as energias que moldavam o mundo físico e espiritual, mas, no fundo, o mistério da origem dos vampiros permanecia envolto em sombras. Velian não sabia de onde eles vinham, nem o porquê de existirem. E, por mais que tivesse presenciado almas desencarnadas, fantasmas vagando entre os vivos, ele nunca compreendeu plenamente o que acontecia com as almas dos humanos após a morte. Existiria uma finalidade para a vida e a morte? Ou tudo era apenas caos, sem ordem, sem destino? 

Essas perguntas rondavam sua mente, mas ele hesitava em buscar respostas externas. Ainda que tivesse recursos para investigar, sua natureza, marcada por um ego afiado e orgulhoso, impedia-o de se submeter a uma consulta. Principalmente a ela. Seria agora o momento de recorrer a Cassandra? — pensou Velian, irritado com a possibilidade. Cassandra, a vampira antiga e poderosa, conhecida por sua visão única do mundo, uma mestra em manipular informações e arrancar verdades escondidas das mentes dos seres mais antigos e das sombras mais densas. Ela era, no mínimo, imprevisível. A forma sarcástica e distante com que lidava com o desconhecido tornava suas interações tão exasperantes quanto reveladoras. 

Consultá-la, entretanto, significava admitir que ele, Velian, que havia acumulado conhecimento ao longo de séculos, não sabia tudo. E isso o incomodava profundamente. Ele sempre manteve uma postura de domínio, de autossuficiência, e se dobrar a Cassandra, mesmo que apenas por curiosidade, seria reconhecer que algo o havia desafiado — algo que ele não conseguia decifrar. 

Ele relembrou as poucas vezes em que cruzara o caminho dela. Cassandra sempre se destacava pela sua sagacidade afiada, capaz de desarmar qualquer discussão com uma combinação de sarcasmo e uma verdade incômoda. Sua ambiguidade fluida, tanto em gênero quanto em poder, sempre intrigava Velian. Embora ambos compartilhassem uma identidade fluida, Cassandra parecia levar isso a um patamar ainda mais intenso, envolvendo-se em jogos de poder que Velian, por vezes, preferia evitar. Ela possuía um magnetismo tão insuportável quanto fascinante. 

Ele sabia que ela possuía respostas — ou pelo menos pistas — sobre o que ele havia experimentado no castelo. Cassandra era uma das poucas vampiras que tinha o poder de acessar reinos ocultos e segredos velados dos tempos antigos. Ela talvez soubesse mais sobre as forças que moldavam o Castelo de Drácula do que qualquer outro. Mas buscar sua ajuda significaria entrar em uma arena de manipulação, jogos mentais e provocações que exigiriam de Velian paciência e, acima de tudo, disposição para aceitar que ele não era onisciente. 

Porém, será que ele estava pronto para se submeter a isso? Ele nunca fora alguém que gostasse de expor suas fraquezas — e pedir ajuda seria, em seu íntimo, uma confissão de que havia algo além de seu controle. 

Velian balançou a cabeça, afastando o pensamento por ora. Ele tinha tempo. Afinal, a eternidade era sua companheira, e as respostas viriam eventualmente, de um jeito ou de outro. Talvez ele não precisasse recorrer a Cassandra. Ou talvez sim. Mas, naquele momento, não estava pronto para enfrentá-la. Não ainda. 

Ele suspirou, sentindo o peso de sua própria existência. A imortalidade, com todo o seu fascínio, trazia consigo uma carga de dúvidas incessantes. A busca pelo sentido, pelo entendimento do que era ser vampiro — e, mais ainda, de onde surgiam as almas dos mortos — continuava sendo uma sombra constante em sua mente. Ele havia visto fantasmas, seres do outro lado, mas jamais dominara o poder de interagir plenamente com eles. Era algo que permanecia fora de seu alcance ou de sua vontade já que nunca tivera interesse para desenvolver tais habilidades, deixando suas indagações e inquietações sempre ocultas até de si mesmo. 

Por enquanto, Velian continuaria vagando entre suas dúvidas e as realidades sombrias que o cercavam. O Castelo Drácula e tudo o que ele representava ficaria guardado em sua memória — um enigma que talvez apenas Cassandra pudesse decifrar. 

Mas ele não estava pronto para se render ao sarcasmo afiado daquela vampira. Não ainda. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi V

Suas palavras parecem distantes, mas a memória de nossas jornadas no campo de batalha ecoa mais forte do que qualquer outra lembrança…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

De Anton S. Miahi IV 
(Carta para Dr. Chistopher)

De: Anton S. Miahi
Para: Maurice D. Laurent
09 de agosto de 1871 

Caro Maurice,

Vejo a lua alaranjada pairar sobre o castelo enquanto escrevo, seu brilho envolto em uma névoa inquietante.  

Suas palavras parecem distantes, mas a memória de nossas jornadas no campo de batalha ecoa mais forte do que qualquer outra lembrança. A luz da lareira dança nas paredes com tons quentes e inquietantes, como se houvesse um convite oculto para mergulhar nos mistérios que me cercam. Sinto aquele tom alaranjado me provocar, como fazia a fumaça das explosões que atravessavam os campos de batalha prussianos, onde lutamos lado a lado. O mesmo calor sufocante que nos envolvia nos momentos mais caóticos parece agora pulsar entre estas paredes, trazendo uma sensação de alerta, uma desconfiança que se arrasta nas sombras.   

Nos campos, éramos mais do que soldados; éramos irmãos, ligados pela dor e pelo medo. Nossas vidas dependiam da lealdade e da coragem um do outro, e essa união forjada em sangue e sacrifício moldou uma irmandade que nenhum tempo ou distância pode quebrar. Eu nunca esquecerei o instante em que você me puxou para longe da linha de fogo, a luz do crepúsculo queimando em nossos olhos enquanto o caos desabava ao nosso redor. Essas memórias nos conectam ainda, Maurice, e é por isso que sinto a necessidade de compartilhar essas descobertas com você — pois quem mais entenderia o terror que vejo aqui além de alguém que já enfrentou o horror da guerra? 

Preciso falar sobre o que encontrei na biblioteca do Conde, algo que me provoca o mesmo tipo de inquietação que sentíamos nas trincheiras. Durante minhas pesquisas, deparei-me com anotações nas margens dos livros — frases enigmáticas que pareciam mais sussurros do que palavras. Entre as muitas reflexões, uma de Leibniz chamou minha atenção: "A história é uma narrativa de mudanças, onde o presente é moldado pela memória e o futuro pela compreensão do passado". Senti um arrepio, como se o próprio castelo conspirasse para distorcer a linha entre o que é real e o que não é. Cada página que virei pareceu trazer o passado à vida, cercando-me com sua presença, do mesmo modo que os fantasmas do campo de batalha nos cercavam com seu silêncio sombrio. 

As coisas ficaram ainda mais perturbadoras quando me deparei com uma citação de Hume: "O passado é um mistério cujas chaves estão enterradas nos momentos presentes, esperando para serem reveladas". Há algo profundamente inquietante na forma como essas palavras ressoam aqui, onde o presente parece se dobrar e se esticar, como o próprio tempo tentando se libertar das paredes do castelo. As lendas romenas que leio ganham vida de maneira que não consigo explicar. Não posso ignorar as conexões entre essas reflexões filosóficas e o que sinto a cada passo que dou por esses corredores. É como se o castelo estivesse impregnado de uma energia viva, moldada por forças invisíveis que desafiam o que conhecemos como realidade. 

Maurice, as sombras aqui não são apenas sombras. Elas têm vida, ou ao menos parecem. Ontem à noite, enquanto caminhava pelos corredores, a percepção da realidade se desfez diante dos meus olhos. Por um breve instante, enxerguei outro castelo, outras figuras — como se o tempo se dobrasse sobre si e me transportasse para outro momento. Não era uma visão comum, mas algo que me deixou com a sensação de estar sendo observado por forças que não compreendo. Lembro-me de Locke e suas palavras: "A verdade é uma luz que ilumina a ignorância, mas, muitas vezes, o brilho é obscurecido pela falta de discernimento". Essas palavras ecoaram enquanto eu tentava entender o que vi, mas nada pareceu claro. 

Estou à beira da sanidade, e confesso que me pergunto se estas palavras chegam a fazer sentido. As lendas de vampirismo aqui não são meras histórias contadas para assustar; elas são uma parte viva deste lugar, e sinto que estou no centro de um pesadelo que não consigo escapar. O castelo guarda segredos que não deveriam ser descobertos, e temo que nossas pesquisas estejam nos levando para um caminho sem volta.

Preciso de sua clareza, sua perspectiva, pois neste momento, tudo o que vejo é o laranja opressor do crepúsculo, sufocando minha razão.
Com apreço e inquietação,
Anton S. Miahi
 

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 De Valéria S. Miahi
(Carta para Anton)

De: Valéria S. Miahi
Para: Anton S. Miahi
11 de agosto de 1871 

Querido Anton, 

Recebi com grande alegria a sua última carta e fiquei encantada ao saber sobre suas aventuras no misterioso Castelo Drácula. Imaginar você explorando esses corredores antigos e repletos de segredos me enche de curiosidade e admiração. A sua descrição me transportou diretamente para as sombras do castelo, e eu mal posso esperar para ouvir mais sobre suas descobertas e experiências. 

Aqui em Paris, a vida tem sido uma verdadeira montanha-russa desde que deixamos Sevilha. A mudança foi um desafio, mas a cidade revela um encanto que eu nunca poderia ter previsto. Paris é vibrante e cheia de vida, e eu tenho me aventurado por suas ruas estreitas e suas praças movimentadas com uma empolgação contagiante. A cultura e a arquitetura são absolutamente fascinantes, e cada esquina parece contar uma história diferente. 

O tempo em Paris não tem sido apenas uma série de novas descobertas, mas também de reflexões pessoais. Sinto falta de nossa casa em Sevilha e de nossa família reunida. No entanto, tenho encontrado conforto nas novas amizades que fiz aqui e nas pequenas maravilhas do cotidiano. Os cafés e as livrarias têm sido meus refúgios preferidos, e cada dia traz uma nova chance de explorar algo diferente. 

Mamãe, Nora, está bem, apesar da saudade que sente de você e da nossa vida anterior. Ela tem se adaptado às novas circunstâncias com uma dignidade e força que sempre admirei. A mudança para Paris foi um esforço para ela, mas tem se mostrado uma aventura pessoal de renovação e esperança. Ela se dedica à casa e tem encontrado prazer nas pequenas coisas, como as visitas aos mercados locais e as longas caminhadas pelo Sena. 

Saiba que, mesmo à distância, sinto-me próxima de você através das suas cartas e das histórias que você compartilha. A sua coragem e curiosidade são uma inspiração para mim, e estou ansiosa para saber mais sobre suas descobertas no castelo e suas novas experiências. 

Espero que continue a se aventurar e a desbravar o desconhecido com a mesma paixão que sempre demonstrou. Envio-lhe um grande abraço e todas as minhas melhores energias. 

Com muito carinho, 
Valéria
 

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 Diário de Anton S. Miahi X 
(Escrito em meu Caderno)

14 de agosto de 1871 — Escrevo estas palavras com mãos trêmulas, meu coração pesando como se cada batida carregasse o peso de uma lembrança que me atormenta. O ambiente na adega, inicialmente marcado pelo suave aroma do vinho tinto amadurecido, envolvia-me em uma sensação de nostalgia quase palpável. A fragrância rica e complexa do vinho, com suas notas de frutas maduras e especiarias, era como uma lembrança distante. Esse aroma, profundo e envolvente, contrastava de maneira inquietante com a atmosfera que se desenrolava ao nosso redor. 

As chamas da lareira, por um instante, brilhavam com um tom verde-esmeralda, projetando um brilho surreal sobre as paredes de pedra. A luz verde dançava como se fosse uma aura etérea, tingindo o ambiente com uma sensação de mistério e encantamento. Sentia como se aquela cor, tão incomum e sobrenatural, estivesse lentamente dissolvendo a realidade, transformando-a em algo que desafiava a lógica e a compreensão. 

Mas, à medida que o espelho estilhaçado emergia das sombras e começava a se partir em uma infinidade de fragmentos, a cena ao meu redor mudou drasticamente. As chamas na lareira se transformaram, seus tons de verde se desfazendo em um alaranjado ardente. A luz agora lançava sombras intensas e fragmentadas nas paredes, cada uma mais ameaçadora do que a anterior. O calor do fogo parecia se intensificar, como se estivesse refletindo e amplificando o tumulto interno que eu sentia. 

A cor alaranjada do fogo agora parecia refletir não apenas na lareira, mas também nos pedaços de espelho quebrado, criando um jogo de luz e sombra que fazia com que o ambiente se tornasse ainda mais ameaçador e surreal. O calor, agora mais intenso e penetrante, misturava-se ao aroma do vinho, que começava a se transformar em algo mais ácido e pungente, como se a própria essência da adega estivesse sendo corrompida. A cada fragmento de espelho que se despedaçava, o cheiro se tornava mais carregado, uma combinação inquietante de vinho envelhecido e o cheiro metálico da destruição iminente. 

As cores e os odores se fundiam em um espetáculo de desolação e caos. Senti-me como se estivesse mergulhado em um pesadelo vívido, onde o ambiente ao meu redor estava sendo transformado em um cenário de terror e confusão, refletindo o tumulto dentro de mim e a inquietante visão que estava prestes a se desenrolar. 

Um espelho estilhaçado surgiu do vazio diante de nós, como se brotasse das sombras, expandindo-se até se transformar em uma janela com rachaduras que dançavam, apareciam e então sumiam – rasgos no espaço. Oferecia-nos vislumbres de um futuro que eu jamais desejaria ver. As imagens que dançavam nas superfícies fragmentadas eram, ao mesmo tempo, fascinantes e aterradoras, como se uma força desconhecida estivesse revelando segredos que deveriam permanecer ocultos. A cada novo fragmento que minha mente captava, sentia um arrepio profundo, um frio que me invadia não apenas o corpo, mas a própria alma. 

As cenas que aquele espelho nos mostrava eram desconexas, como pedaços de uma vida que ainda não vivi, mas que parecia destinada a ser minha. Vi sombras se movendo em um ritmo que não era o nosso, ouvi sussurros que falavam de desespero e vi um reflexo de mim mesmo, pálido e cansado, confrontado por horrores que me desafiavam a compreender. E ali, no meio daquela visão decrépita, Áurea ao meu lado, senti a angústia de um futuro que se aproximava, inescapável e implacável. 

Enquanto escrevo estas linhas, minha mente é assaltada por perguntas que me recuso a responder, por medos que se agarram à minha razão, tentando rasgá-la em pedaços. O que vi naquela adega ao lado de Áurea? Era uma advertência? Uma premonição? Ou simplesmente uma manifestação da insanidade que parece envolver este lugar maldito? Sinto como se o ar ao meu redor estivesse se fechando, cada respiração mais difícil do que a anterior, enquanto tento processar o que aqueles fragmentos de futuro significam para mim — para nós. 

Eu nunca havia sentido tal terror, tal sensação de que o tempo, o espaço e minha própria existência estavam sendo dilacerados diante de meus olhos. Escrever no meu diário hoje é uma tentativa desesperada de me ancorar na realidade, de afastar os horrores que testemunhei. Mas, mesmo agora, enquanto a tinta seca no papel, a visão daquela adega me persegue, um espectro persistente que não posso afastar. Será que estou perdendo o controle de minha sanidade? Ou estou apenas começando a entender a verdadeira natureza do destino que se desdobra à minha frente? 

Gradualmente, os cacos do espelho começaram a brilhar com cores intensas e inquietantes. Nossos olhares se encontraram em meio aos estilhaços, e o espelho refletia uma aura de âmbar, vermelho, azul e prateado, cada uma das cores pulsando com uma intensidade própria e criando uma sensação de caos e desordem. Cada pedaço de vidro parecia ser uma janela para um fragmento diferente de uma realidade incerta e ameaçadora. 

Nos confins sombrios de La Cité, nas margens do rio Sena, uma visão aterradora tomou forma em um dos cacos de vidro. Em meio ao nevoeiro espesso e à decadência das ruelas estreitas, um cenário de horror absoluto se desdobrava diante de meus olhos. A figura sombria de um ser ancestral, envolto em uma fúria selvagem, surgia das sombras como uma fera à espreita. Seus olhos brilhavam com uma sede insaciável enquanto ele atacava uma mulher indefesa. O rosto da criatura estava contorcido em uma expressão de monstruosidade inumana, cada traço seu impregnado de uma maldade que parecia desafiar a própria natureza. 

A mulher, em contraste, exibia um terror absoluto. Seus olhos estavam arregalados, capturando a última luz de esperança antes de serem tragados pela escuridão. Mas havia algo mais ali, algo que fez meu sangue gelar. Em meio à dor e ao desespero, sua expressão se distorcia, como se fosse tomada por um êxtase sombrio, um prazer perverso que a conduzia lentamente ao abismo de sua própria extinção. A mistura de fragilidade e uma estranha aceitação da morte que se aproximava me deixou em um estado de profundo assombro, como se estivesse diante de algo que a razão não poderia explicar. 

A cena, por mais vívida que fosse, parecia fragmentada, como se o tempo em si se recusasse a revelar toda a verdade. Os movimentos eram cortados, as imagens desconexas, formando um mosaico incompleto de horror que desafiava minha compreensão. Meu coração batia pesado, o senso de masculinidade sendo confrontado pela vulnerabilidade diante do desconhecido. 

Ao fundo, preso em uma janela quebrada de um prédio abandonado nas margens do Sena, um jornal amassado balançava ao sabor do vento. As páginas rasgadas, ainda legíveis, revelavam a data: 20 de junho de 1871. Aquele pedaço de papel, marcado pelo tempo e pela desgraça, parecia uma testemunha silenciosa de um terror antigo, agora emergindo das profundezas da memória para assombrar uma vez mais. 

Então, um novo fragmento do espelho quebrou a realidade ao meu redor. Entre as fendas do vidro, uma visão confusa se formou. Uma figura de lobo de pelagem acastanhado-alaranjada, majestosa e feroz, se transformou lentamente em um homem. Ele parecia ser um caçador vindo da região da Rússia, seus traços pouco definidos, mas a imagem era nebulosa, envolta em uma névoa espessa que dificultava distinguir cada detalhe. Parecia que sua expressão se apresentava severa do homem, pouco se poderia destacar. O que pude notar claramente foram seus olhos castanhos brilhavam com um poder ameaçador. Então pude ver uma cicatriz que marcava seu rosto, um corte profundo que se estendia da testa até a bochecha esquerda, e sua presença emanava uma sensação de perigo iminente. 

Atrás dele, uma floresta escura e sombria se estendia, as árvores se entrelaçando como se fossem garras esperando para capturar o que se atrevesse a se aproximar.  

E, ao mesmo tempo, um novo caco se rompeu e nele foi revelado um quarto próximo, uma jovem estava sentada, cabelos pretos levemente ondulados, olhos azuis grandes e amendoados, pele como mármore. Sua expressão era de inocência e curiosidade, e eu a vi sussurrar algo em direção a mim, as palavras se perdendo na bruma. Apenas entendi o final: um convite sutil para buscá-la no castelo. Então, como um fôlego cortado, tudo se apagou. A escuridão envolveu-me, e o silêncio profundo se instalou, como se o mundo ao meu redor houvesse se dissipado completamente. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Aborom

Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser. Enquanto sorvia o chá, minhas papilas gustativas se entorpeciam com cada nota presente na infusão. Ela sorriu, levantou-se e me convidou para uma caminhada. Concordei meneando a cabeça, finalizei a xícara, elevei meu rosto e sorri. Ameritt respondeu ao meu gesto com um amável olhar. Inebriada pelos sabores, levantei-me e segui ao seu lado. 

Enquanto caminhava, secretamente me questionava sobre esta doce senhora. Quais segredos essa figura tão enigmática esconde? Ela é realmente um ser fascinante, de alguma forma que não compreendo. Sua presença me acalma. Talvez seja sua forma pacífica de falar, seus gestos e seu olhar sereno e penetrante. 

Iniciamos a caminhada, e a forma como ela pronunciou a palavra "besin" ressoava em minha mente como um doce sussurro. Era acolhedor e engraçado, arrancando de mim discretas risadas, fazendo-me recordar da minha mãe e do seu amável "boa noite, querida filha", seguido de um carinhoso beijo em minha testa. Espero sinceramente que tais lembranças não sejam esquecidas. Guardo-as em meu mais profundo íntimo e volto à realidade. Ameritt percebeu minha "ausência" e indagou se eu estava bem. Respondi que sim, e continuamos. 

Ela estava boquiaberta com a flora desta estufa. Disse-me que cuidava dela com muito esmero. Meus olhos pararam em algo que eu não havia notado antes: enormes abóboras, donas de um brilho hipnotizante. 

— Rose-besin — disse Ameritt calmamente, desacelerando seus passos. Receosa, eu a fitava, pois ela poderia saber algo sobre mim; seu olhar parecia sondar meu íntimo. 

— Saiba que tenho grande apreço por sua companhia. Não tenho recebido tantas visitas ao longo desses anos, apenas dos meus amáveis besouros. 

— Eu que fico lisonjeada com sua companhia. Confesso que... — respirei fundo e continuei —, a senhora me lembra muito minha mãe, tanto na fala quanto nos gestos. 

Abaixei a cabeça com grande pesar após dizer isso. Um silêncio pairou sobre nós. Ela não precisou dizer nada; suas feições falavam por si. Prosseguimos, enquanto eu ouvia suas explicações, tudo com uma paixão singular. Era encantador vê-la falando. 

— Rose-besin, você está ouvindo? Disse que sim. Que doce som as gotas de chuva fazem ao cair no chão, não é mesmo? Venha, gostaria de mostrar algo especial — ela acenou para o canto esquerdo da estufa. 

Após chegarmos, senti algo indescritível, e o que vi foi amedrontador, porém mágico. Eram enormes abóboras detentoras de um brilho único e hipnotizante, como um ardente pôr do sol colorindo o céu com notas alaranjadas. Ao lado delas, nascia um tipo de fungo chamado Obomitas (posteriormente ela explicou-me que era uma espécie de funghi) da mesma tonalidade. Ela disse que, por conta da meia estação, tanto as abóboras quanto os Obomitas se alastraram com rapidez sobrenatural sob as gramas. 

Eu ouvia tudo, mas meus olhos estavam usurpados por aquele brilho. Ela explicou o quão difícil era cuidar da estufa nessa época, pois a vegetação sentia a mudança no clima. 

— Não é só a vegetação que sente a mudança. — As palavras rastejaram para fora dos meus lábios. 

— Perdão, você disse algo, minha querida? Está tudo bem, Rose-besin? 

— Não disse nada — sorri, enquanto meus olhos inertes fitavam as abóboras. Estava claro que não poderia esconder quem eu sou, ainda mais para uma pessoa tão sábia como Ameritt. 

Ela olhou-me com sinceridade e disse: 

— Eu sei, minha querida, o que lhe ocorreu. Existem mais como você aqui no castelo. 

Essa informação me deixou surpresa e aliviada por saber que eu não era a única. Contei-lhe da minha transformação, bem como da minha jornada até ali. Ela ouvia atentamente, e seu semblante exibia um grande pesar. 

— Eu sinto muitíssimo, minha querida... — Interrompi sua fala, pois já sentia a presença dos pontiagudos caninos. 

— Preciso sair... — Mas caí de joelhos. Meus caninos se tornaram visíveis e brilhantes perante os tons alaranjados das abóboras. Gritos inumanos emergiam das minhas entranhas. Vi-a caminhar por entre a estante, enquanto meu corpo se contorcia com violência. Antes que a transformação fosse completa, ela retornou com algo nas mãos. Diante de mim, ergueu as mãos manchadas de terra em forma de concha. Com os olhos fechados, iniciou uma reza numa língua indecifrável. Em seguida, esmagou o que pareciam ser algumas ervas e folhas, produzindo um líquido viscoso esverdeado que caiu em minha boca. Senti um gosto terrível. O que seria isso que acabara de descer em minha garganta? 

Sem demora, senti os efeitos. As pálpebras dos meus olhos tornaram-se pesadas, até que finalmente meu corpo tocou o chão.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 5 — Tangíveis Ilusões

Na densa floresta verdinegra, ouvi pequenos grilos ao longínquo; o horizonte era um mistério verdejante enquanto a única luz ambiente...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Na densa floresta verdinegra, ouvi pequenos grilos ao longínquo; o horizonte era um mistério verdejante enquanto a única luz ambiente advinha da vela em minhas mãos. Seu lume era dourado-pálido, no entanto, revelava uma névoa carmim ao derredor, como se na aragem pairasse uma úmida cerração hialina que se desvelava escarlate, tão somente, pela flama. Talvez sua transparência queimasse, pois, era viva e, desfazendo-se pelo fogo, avermelhava. A frigidez orvalhada pelo que me parecia ser um profundo entardecer, no entanto, arrefecia-me a tez de modo terrífico e... eu buscava por alguém ou algo que pudesse me trazer respostas. Por vezes as árvores ramosas, com suas espessas folhagens, na cinesia do vento, ecoavam como sussurros estranhos que diziam infindáveis verdades distorcidas. Eu era uma andante sem rumo, consumida por uma inquietude intensa, uma busca inconsciente e, porventura, uma saudade. Mesmo com a beleza lôbrega do lugar, onde a flora esmeraldina em sombras horríficas a cada segundo se emaranhava impedindo-me de sair de sua imensidão, eu pressentia ser preciso permanecer ali e, de fato, o era.  

Quando parei minha peregrinação exaustiva e notei minha pele molhada sendo vítima dos ares irrigados, ciente de que minha vela apagaria a qualquer momento, ouvi um cântico agudo e lôbrego. Era como o canto de um Merulaxis stresemanni, porém, duradouro, pouco rompido, mais harmônico como uma música triste e serpenteante ao fundo, como se sua siringe expressasse o sibilar de uma cobra; a imponência do som era tanta que ecoava pelo frondoso arvoredo. A criatura era, decerto, grande; pude sentir apenas ouvindo-a; entretanto, quando o seu canto se extinguiu, senti uma presença aquecida atrás de mim e, quando me voltei para fitar a presença, era tarde demais. O calor de seu corpo cingira-me violento e senti suas mãos em minha cintura, sutis. Olhei-o de soslaio, seu rosto era como o daquela noite de lua azulescida e, dos seus olhos negros sem esclera, escorria uma lágrima negrume.  

Tu foges de mim, Áurea, mas, por quê? — Murmurara em seu tom naturalmente grave. Assombrei-me e senti toda a minha tez responder à sua voz.  

Como sabes... meu nome? — Indaguei trêmula. Ele lamuriou um singelo som intenso e lúbrico; seus braços envolveram-se em mim, mais apertados, colidindo, em profundez, os nossos corpos. Ouvi-lo me chamar de Áurea não me trouxera a repugnância símil a que senti quando Seth o pronunciara. 

Eu sei de tua essência, minha Ennehris... — Senti seus lábios em meu pescoço. — Sei também de nosso vínculo... — Lëvri acariciara meus cabelos. — Eu não matei Lorrt, Áurea... — Suas palavras esvaíram lôbregas, baixas e quentes; quis beijá-lo e amá-lo, todavia, o verdejante arvoredo sucumbia e tão logo a umidade da pele arrepiada fez-se apenas o reflexo de algures. Despertei, ainda na biblioteca, confusa e silente; sussurrando o nome de Lëvri... com uma saudade estonteante oprimindo meu coração e uma solidão sufocante afogando-me em seu oceano hediondo. Não entendi como pude adormecer, tampouco quando. Não me recordava de sentir a areia do sono infindo sob meus olhos. Quando fitei o ambiente, notei em meu colo um pequeno papel cuja escrita revelava-me: “Lembra-te de mim”, mas, era a minha letra, curvilínea como eu a conhecia. Não quis compreender, evitava a dor da lembrança.  

Desejei que Lëvri não fosse o culpado pela morte de Lorrt, por isso sonhei. E vi-me ali, só. Comecei a caminhar para além daquele aposento de livros eternos e segredos sombrios. Permanecia-me como se flutuasse na imensidão escura e silente e, às vezes, o silêncio me refugiava de minha própria existência em suas obscuras complexidades; em contrapartida, indicava-me que não havia ninguém ao redor e, portanto, o espargir da solidão, de modo suave, aflorava minhas mais terríveis angústias. Eu sabia que não estava só naquele Castelo, todavia, observei-o atentamente, enquanto vagava a esmo por entre os seus cômodos e passadiços estreitos. Mesmo notando criaturas que me eram semelhantes, humanos ou, porventura, algo mais; tudo me parecia uma ilusão mórbida, dado que a sensação de ausência me consumia, ainda assim. 

Em algum dos lugares por onde vaguei com furtividade, encontrei um diário perdido, o qual me trouxe sensações melancólicas — parecia ter sido escrito há anos, no entanto, não havia tempo em tal lôbrego lugar, e do tempo eu nada poderia esperar — apesar de senti-lo dentro de mim, vívido em seu tiquetaquear longínquo. Desejei lê-lo, não o tempo, mas o diário; decerto eu leria o tempo, se assim pudesse, compreendendo-o em sua totalidade soturna. Não podia, contudo, fazê-lo ali; era preciso um lugar que apaziguasse minha alma sôfrega, alhures que controlasse meus instintos, minha sede e, confesso, uma alcova para aprisionar os meus ímpetos lúbricos, os quais eu sabia serem parte de minha nova natureza.  

Seth permanecia em silêncio. Na verdade, eu não o sentia residir em minhas entranhas. Isso avultava a solidão; ele decerto se irritara profundamente com a minha vontade de exorcizá-lo de mim. Quis, naquele átimo, que ele compreendesse que, embora a solidão me arrastasse como uma correnteza brusca e violenta — e dela eu fugisse como um veleiro em descontrolado alto-mar — eu não suportava uma presença perene como a de Seth, que me impedia de existir tal qual o meu desejo… de reencontrar Lëvri... E, principalmente, me impedia de reencontrar minhas memórias. Eram confusas as emoções e árduos os sentires que permeavam meu ser, porque, apesar de tudo, Seth estivera presente como o guardião que fora destinado a ser. E o que alçou em minha tez quando seu olhar amargurado fitou meus lábios e seu bruto toque cingiu meu pescoço foi inexplicável; aquilo embargou os meus sentidos e soterrou meus racionais argumentos em relação a Seth — e não sei se me excitei pelo que sou em minha natureza insondável ou pelo que ele é em sua natureza insondável. O mesmo, em outros aspectos e por motivos diferentes, ocorreu quando sorvi o sangue daquele rapaz que nunca mais encontrei. O prazer sexual lumiava como uma faísca imortal e imoral, e o sangue que aquecia minha garganta fazia surgir, em minha úmida intimidade, um contínuo frenesi. Se ao menos eu me lembrasse de tudo naquele momento… quiçá me viria a compreensão de ser essa intensidade realmente minha, embora parecesse pertencer só àquela que me tornei. A dúbia vontade: renegar a dor da memória ou lembrar-me de tudo; isso era o que levava à exaustão a minha mente.  

A solidão, como o amor e o ódio, era buscada por mim quando eu não a tinha e repudiada quando suas trevas me conduziam em uma valsa horrífica. A culpa, quem carregava, era ela: a solitude, o isolamento em mim mesma que sempre me levava ao afogo dos pensamentos aflitivos. “Ennehris ou Áurea? E por que “Aesatt”? O torso da solidão é o apoio às minhas fúnebres queixas. Pode ser que seja melhor sem memória alguma” — eu pensava—  “como uma folha em branco para se pintar de acordo com o novo eu. Um recomeço. Não seria, contudo, desprezível da minha parte exterminar toda uma vida que outrora vivi? Não sei… um recomeço… sem as cruzes do passado… isso não poderia ser uma blasfêmia? — soa-me como um alívio; todavia, sei que conviver com o absentismo nunca promoverá a serenidade que idealizo ao consumar o caminho do esquecimento. Dói-me lembrar que esqueci de tudo, e há tantas perguntas que habitam meu coração… Desde meu despertar, estive envolvida por um veludo verdinegro cujo peso sobre meu corpo impediu-me de sentir alívio e paz, sufocando-me, por vezes, em seu interior esmeraldino. Como esperança, apenas as suas margens, na possibilidade de deixá-lo; enquanto, em seu cerne, a sensação de morte pela degradação da minha essência olvidada e desta nova essência sem sentido. Uma cinesia entre o desvelar do presente e o sondar do passado — confuso porque, aqui, nada disso existe; e o que existe é uma infinitesimal parte irrelevante. Falta-me conhecimento… eu assumo a minha ignorância.” 

A cada pensar, almejei compreender aquele lugar e entender a sua existência com uma avidez maior do que a que eu nutria por mim mesma; isto porque, se era preciso conhecimento, eu só poderia encontrá-lo em tal castelo-entidade, que era, decerto, um baú encorpado por segredos e verdades que valiam mais do que minha existência transiente. E despertei ali, afinal, por alguma razão. Segundo Olga, fui encontrada pelo “Espectumbral” — uma criatura fantasmagórica destinada a vagar pelos planos em busca dos “escolhidos”. Eu deveria tê-la questionado mais, Olga decerto sabia muitas coisas e me explicaria a respeito deste lugar, no entanto, eu estava imersa em minhas meras fragilidades quando a encontrei, ébria demais em minha íntima desolação. Eu estava certa de que o Castelo permitiu meu renascer; caso contrário, por que não despertei do coma antes de ser encontrada pelo espectro? Eu sentia, consequentemente, um elo abissal com aquele recôndito; parecia-me um lar para meu eu morto e para meu eu renascido. “Talvez seja o momento de encontrar um sepulcro para enterrar o que não hei de me lembrar; aquela que fui, que nunca mais serei” — pensei. “Algo simbólico, algo que possa representar, em força emblemática, uma Áurea danificada por fissuras de oblívio… e nem sei se sou Áurea... não sei quem é Áurea…” 

Os sôfregos pensares se quebraram quando, descendo uma escada em espiral, avistei uma monumental porta de madeira maciça e pesada; tive dificuldades em abri-la, mas o fiz e a ouvi rangendo como se há anos estivesse selada. Havia um grandioso espaço naquele calabouço, com incontáveis barris e garrafas de vidro acomodadas na horizontal, em altas estantes. Adentrei o recinto penumbral e sentei-me em uma das poltronas dispostas em seu centro, enquanto o aroma de frutos fermentados me envolvia. Havia apenas aquelas duas poltronas e, entre elas, uma pequena mesa com duas taças de cristal e um castiçal com três velas acesas. Mais ao fundo daquela adega antediluviana, escuridão e profundezas sombrias. Indaguei-me sobre o quão extenso poderia ser aquele lugar e, sem fechar o soberbo umbral que abri com tamanha dificuldade — com medo de aprisionar-me para sempre —, segurei o castiçal e caminhei para as entranhas da adega. Foi como mergulhar em um oceano de vinho, embriagada por suas propriedades afrodisíacas. Somente quando não pude mais enxergar aquela porta, sentei-me ao chão, abri o diário; ousei retirar uma das garrafas e abri-la. O vinho era rubi, e mesmo sob tão tênue luminosidade, pude notá-lo em cores e aromas: rubro vívido, aroma intenso de cereja, notas ferrosas e o sabor… intenso e estonteante. 

15 de junho de 1871 — Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito colocar, nestes diários, minhas angústias e pensamentos, e eventuais alegrias nessas páginas. Já não sei quantos escrevi; em meu escritório devo ter uns quantos armazenados na velha estante ao lado esquerdo da mesa de trabalho, junto com meus livros queridos.” — iniciei a leitura. “Já faz algum tempo que me correspondo com uma personalidade do leste da Europa. Devo ter, em minha maleta neste momento, umas três cartas e pelo menos dez telegramas. Segundo as correspondências, temos afinidades intelectuais. Algo poderoso em cada uma delas me compelia a responder, uma sensação indescritível, mas aqui tentarei traduzi-las. Devo dizer que o que senti era provocante, uma emoção que ainda agora me deixa agitado, ansioso, como se houvesse um feitiço em cada palavra…” — li, notando tratar-se de um homem, um homem humano, pois nada é tão emocional como os humanos; eu sentia e percebia isso. Em mim, tudo o que havia era, sim, intenso, porém com um vazio sepulcral inigualável. Sentia falta de ser humana, ainda que não me lembrasse disso; a certeza da minha humanidade de outrora era real. E não parecia residir tal vil condição de vazio no coração deste que escrevera, ao menos, não pude perceber nas entrelinhas.  

Não! A cada onda das letras, elas estavam me atraindo, conduzindo minha existência, e por fim, guiando minhas mãos para responder tão rápido quanto me fosse possível. Senti-me como um apaixonado respondendo a uma amante, numa carta secreta, revelando segredos obscuros. Por vezes, como uma inocente criança confessando à mãe seus feitos do dia com total ingenuidade e despretensão.” — definitivamente, era um humano. Sorvi mais do líquido rubi, e meus olhos lacrimejaram.  

Criaturas como eu, olvidadas, jamais compreenderiam o que é o confessar de uma vestal infância e, ouso dizer, muito menos o verdadeiro amor em seus obscuros segredos — proferi em um murmúrio amargurado.  

Com estranheza, o liquor em meus lábios conduzia meus olhos por aquelas linhas, era possível que estivessem vívidas a ponto de invadirem minha imaginação, reverberando uma voz fictícia que narrava as verdades daquele diário. Em certo momento, colidiam-se as letras, dúbias, entrelaçadas com a luz tenra que se difundia pelo ambiente silente. Era deleitável… o sabor que inebriava e as palavras que dançavam. “A vista era montanhosa, com pequenas cidades sombrias e tristes, nos tons de cinza, marrom e branco…” — lembro que ouvi, ouvi sim, e não li, pois era nítida aquela voz suavemente rouca, em um tom de baixo tenor, distinguindo-se em meus pensamentos como se vinda do mundo externo, era tão real que olhei ao redor por instantes, perscrutando a penumbra.  

Decidi sentar-me à poltrona que encontrei outrora. E pus o vinho sob a pequena e rústica mesa de centro. À minha frente, o assento, semelhante ao que eu estava, era como um convite insólito; aquela intensa voz e aquela afrodisíaca bebida poderiam advir de uma alucinação causada pelo diário? — eu pensava. Ou seria, como único culpado, o licor rubinegro? Antes que uma resposta pudesse encontrar minha racionalidade que já se perdia na imensidão de mim, vi uma linha… a linha de uma nívea silhueta vaporizada, instigando minhas retinas, seduzindo-as em um tenro receio fantasmagórico, trazendo-me a dúvida de ser um escárnio de luz e sombras. Todavia, quanto mais o tempo passava — embora, em sensação, ele estivesse profundamente estagnado —, as linhas formavam uma silhueta perfeita… com um semblante fidedigno e, o que deveria ascender-me o terror mais hediondo, seduziu minha ébria curiosidade.  

O que se desvelava, à minha feição enlevada, era uma sombra cujos detalhes erigiam-se à medida em que o derredor se contorcia de maneira turva e gradual; uma face viril, em perfeição visível, embora ainda translúcida, tinha em sua fronte um assombro que talvez derivasse da mesma razão que o meu encanto arrebatado, pois, seus olhos castanhos estavam direcionados ao meu rosto, fixos e incrédulos. Movimentei-me devagar, como se quaisquer sopros de cinesia pudessem levar à evasão daquilo que pensei ser um fenômeno espectral, quiçá uma memória d’um alguém ou, ainda, uma realidade multiforme, paralela à minha, uma voragem no tempo-espaço. Ainda segurando a taça, ergui minha mão direita na direção do homem cujo contorno do rosto já era tangível e os cabelos, castanhos como os seus olhos, já manifestavam uma textura mais próxima da realidade e mais distante do que era, tão somente, linhas esvanecidas.  

Em minha túrbida consciência, incontáveis pensamentos se originavam; por ínfimos instantes acreditei que, porventura, fosse algo de meu passado materializando-se, ou de meu futuro. Porque não poderia ser, eu acreditava, um fenômeno ocasional. O silêncio densificava-se tanto quanto a escuridão que entornava sobre o ar uma esverdeada sombra crepuscular; a adega frígida transfigurava-se em uma metamorfose tardia e lôbrega, ao mesmo tempo em que chamas de uma lareira olvidada, douravam as nuances trêmulas do ambiente. O gosto ferroso e amadeirado ainda exortava meu paladar. As notas de cereja fermentada eram evocadas pelas papilas e tive a impressão de sentir minhas retinas dilatarem-se. Eu tocaria aquela face e, se fosse real, então, as pontas de meus dedos sentiriam o calor, ou a frialdade, de sua bronzeada tez.  

Apoiada sobre a mesa de centro, destinada àquilo que pensei ser a melhor forma de compreender aquela estranha conjuntura, avancei um pouco mais e, quando, prestes a tocá-lo, pude ouvir sua respiração inquieta; surpreendi-me com seu brusco movimento. Levantou-se, fugaz, e a brisa de sua cinesia movimentou meus cabelos, no entanto, até aquele átimo, eu nutria uma infinitesimal certeza de que tudo era delírio e, portanto, tentar tocá-lo levar-me-ia à poltrona à frente, esvaindo-se como névoa a sua gravura. Era perceptível, pelo quanto a sua viril presença impulsionara o ar, que não se tratava de um espectro viandante. Então, cessei meus movimentos, embora tenha ficado naquela posição por um tempo até minha mente assimilar o ocorrido. Logo, eu o ouvi. Sua voz era aquela que pouco antes se espargia pelo ambiente, ou pela minha mente, eu não saberia dizer.  

Quem é você? — Dissera, irredutível e no mesmo tom rouco. Eu não pude respondê-lo, à princípio, eu estava um tanto paralisada pela surpresa de seu movimento e por toda a inebriante situação; ainda mais por ser a mesma voz que outrora imaginei… ou ouvi. Mesmo assim, meus olhos o seguiram e vi com perfeição absoluta todo o seu corpo. Quando movimentei meus lábios para respondê-lo, ouvi um estalo vindo do carvalho que eu me apoiava e não demorou para a mesa se quebrar logo após o ruído. N’um impulso, segurei, firme, o que estava à minha frente e vi meu corpo cair ao chão, embora não só, pois puxei o homem austero por seu casaco marrom e caímos, reais e tangíveis, sobre o assoalho. Não como previ, mas o senti no toque abrupto e, no instante seguinte, próxima de seu rosto, um pouco temerosa, o respondi.  

Sou Áurea… — Murmurei. Por tanto questionei o meu não pertencimento a nome nenhum e, naquele minuto, sentia-me conduzida a dizer “Áurea” para um completo estranho que me olhava, rigoroso e, decerto, hesitante. Um estranho cuja face, agora tão próxima, e o corpo, agora tão próximo, era antes um vapor dúbio e penumbral. Sobre ele, o calor em um câmbio equivalente e uma singular sensação, elevaram-me o embaraço, todavia, o turvamento pelo vinho ainda me adornava, delgado, persuadindo o insondável.  

Parece que a mesa decidiu se juntar ao caos e quebrou as pernas. — Murmurou com um sorriso tênue, tendo à fronte a feição desconcertada. — É um prazer te conhecer. — Ajustou-se e segurou-me a cintura e as mãos, para que eu me levantasse com segurança; sua força e estabilidade eram impressionantes. — Sou sargento Miahi, Anton Stefan Miahi. É um prazer. — Proferiu, denunciando a hierarquia que decerto o fazia acentuar o que me parecia ser sua austeridade natural. O silêncio nos envolvera por segundos, eu o observava atenta, tentando fazer com que os efeitos do liquor sombrio não me impedissem de firmar sua feição em minha memória.  

Você está bem? — Indagara-me enquanto recuperava-se da queda e fitava-me tal como eu fazia com ele; sei que sorvera do mesmo vinho que eu e, quiçá, por isso, estivesse mirando seus olhos em mim; no entanto, talvez buscasse incorporar os acontecimentos recentes e nada mais. Não me esqueci do mistério de sua materialização, apenas fui distraída com seu hálito que carregava o êxtase olfativo do brumal liquor e, portanto, avançava sobre mim com o mesmo poder sensual.  

Estou bem… — Murmurei um pouco mais baixo, talvez não tenha sido ouvida. — Achei que tu eras uma ilusão fantasmagórica. — Revelei, tentando deixar minha voz mais nítida e menos lânguida. Sorri em seguida, fitando sua expressão cordial.  

Contudo, algo pairava no ar. O silêncio pós-desastre que soara envolvente tanto quanto denso estivera antes de tudo acontecer, ornara o ambiente em um medonho insulamento mudo. Em certo aspecto, tudo passou a soar aterrador; quis acreditar que nos olhos de Anton residia a mesma macabra percepção, pois, o clima de apreensão erguia-se a modificar tudo entre nós, sua força era invisível. Apesar do tragicômico momento ocorrido segundos antes, apesar de trocarmos palavras de conforto em uma apresentação benigna, todo o ambiente se modificara, tremeluzindo anômalo e, ainda, distorcido; uma disformidade infinitesimal e absurdamente apavorante, com as luzes mórbidas ecoadas e translúcidas. Avultavam-se em uma lentidão intimidadora. Eu sentia. Eu via. Símeis a sonidos trépidos e agudos. Respirei fundo, em busca de um alívio daquela complexa hiperestimulação dos sentidos. Anton me olhava e sua existência transpassava uma segurança que, na instabilidade em que eu me encontrava, seria minha égide caso tudo saísse do controle. O sabor adocicado em meus lábios delatava-me que aquele líquido rubinegro poderia ser a razão da estranha sensação persecutória que despontava opaca e tétrica em meu ser.  

Anton… — Proferi com temor e sei que meus olhos se umedeceram e, pela primeira vez desde meu despertar, eu senti um medo entranhado, com uma raiz insondável. Quis indagar Anton sobre a umbra que se instalava em meu âmago, sobre aquelas sombras bizarras que penetravam os cantos da visão; ia questioná-lo, porém não pude, algo estava me sufocando. “Seth… onde estás?” — pensei. Sob o medo mais legítimo, vi-me como aquele pássaro negro detrás da clausura enferrujada e consumida pelo musgo; com o peito arfante, prestes a ser consumido por algo bem pior que a morte. 

Personagens nessa crônica:

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi IV

26 de junho —Ainda tenho essa lembrança.Pareceu-me que haviam se passado horas desde que fui barrado em Séttimor. Ioam era uma figura imponente...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Anton S. Miahi IV
(Escrito no Castelo)

26 de junho —Ainda tenho essa lembrança. Pareceu-me que haviam se passado horas desde que fui barrado em Séttimor. Ioam era uma figura imponente, sua altura e braços longos contrastavam com suas mãos ossudas e frias, que pareciam esculpidas na pedra. Apesar da sua aparência pálida e gelada, havia uma força oculta em seu corpo. Seu rosto disforme, com olhos profundos e insondáveis como os de um cadáver, brilhava com íris vermelha, a cor incandescente das brasas de uma fogueira antiga. Cada vez que ele falava, uma fumaça escura e espessa escapava de seus lábios, como se suas palavras fossem substâncias tóxicas. Sua pele, escurecida e marcada por uma deterioração que eu ainda não compreendia, parecia se desintegrar sob a luz tênue. Ele vestia roupas tão desgastadas e rotas quanto os trapos de um espectro, reminiscências de um passado longínquo.

Após a visão de Ioam, um som grave e profundo começou a ressoar ao meu redor, ecoando com a intensidade dos disparos de canhões franceses, mas muito mais ensurdecedor. O estrondo parecia vibrar nas minhas entranhas, e eu não pude evitar levar as mãos aos ouvidos na tentativa desesperada de abafar o barulho.

Ergui os olhos para o céu, e percebi que o firmamento estava em transformação. As estrelas, antes brilhando em uma disposição familiar, agora pareciam se afastar umas das outras, ou talvez fossem movidas por alguma força invisível. O silêncio que se seguiu era pesado e opressivo, interrompido apenas pelo açoite do vento que sussurrava através das árvores com um som cortante e sinistro. Os uivos que antes preenchiam o espaço haviam cessado abruptamente, deixando uma sensação de vazio angustiante que se alojou no fundo do meu peito.

Quando finalmente consegui focar meus olhos, o céu revelou um panorama disforme. As estrelas, uma vez conhecidas e tranquilizadoras, agora se assemelhavam a olhos, incontáveis e vigilantes, observando cada movimento meu com uma intensidade perturbadora. Traços de luz prateada serpenteavam pelo firmamento, como fios de prata entrelaçados em uma tapeçaria cósmica que pulsava com um brilho etéreo e desconcertante. Cada ponto de luz parecia vibrar, lançando reflexos que distorciam o espaço, criando uma sensação de ser observado por uma presença cósmica e implacável.

Naquele instante, a percepção do meu corpo mudou de forma radical. Eu já não tocava o chão; sentia-me flutuando, suspenso no vácuo etéreo do desconhecido. O espaço ao meu redor parecia se estender indefinidamente, envolto em uma neblina tênue que impossibilitava discernir onde o vazio terminava. Ao fundo, a voz de Ioam reverberava como um eco distorcido, suas palavras se dissolvendo em um buraco negro de incompreensibilidade. A realidade parecia desvanecer-se ao meu redor, e eu era engolido por um mistério insondável, onde o céu se convertia em um enigma aterrador.

Sentia-me como uma marionete nas mãos de um artista cósmico, meu corpo leve e sem resistência, completamente desprovido de qualquer sensação de segurança. Meu olhar então foi atraído para uma vasta criatura que parecia se fundir com a imensidão do espaço negro. Seus olhos brilhavam intensamente, como dois faróis cortando a escuridão infinita. Era uma presença de beleza aterradora, com cada olhar parecendo um abismo profundo de mistério e poder.

Por um instante, algo que se assemelhava a uma boca surgiu, ou pelo menos uma paródia dela — longa e serpenteante, como um tentáculo emergindo do vazio, sem um rosto que pudesse caracterizá-la. Dois olhos adicionais se formaram na figura, fixando-se em mim com uma curiosidade quase infantil, como um médico examinando um paciente com um interesse quase científico.

A criatura então falou, sua voz ecoando no espaço entre as estrelas, preenchendo o vazio com um sussurro místico e terrível que parecia vibrar nas paredes do cosmos.

— Se sente sozinho? — Sua voz era profunda e reverberante, como se estivesse sendo projetada de uma caverna antiga. O tom não parecia ameaçador, mas carregava um peso de sabedoria infinita. — Você viu?

Eu não consegui responder imediatamente; parecia que minhas palavras estavam congeladas no vácuo. Então, como se fosse uma revelação, a resposta surgiu em minha mente.

— Sem solidão, então. Apenas dor. Você também sente isso, não é? — A criatura parecia ouvir meus pensamentos como se fosse um eco no vácuo. — Você a viu.

Meus olhos se arregalaram de assombro. Como ele podia ler minha mente?

— Sou aquele que "apenas existe", uma testemunha de mortais e imortais. — Sua voz retumbava em meus ouvidos com uma ressonância quase física. — O que você viu não era uma assombração ou uma miragem. Estava aqui, mas não exatamente aqui. Um reflexo da existência, do tempo… Uma distorção.

Ele vasculhou minha memória, e eu comecei a compreender que a jovem que eu vira era real, mas ela estava em um lugar além da compreensão.

— O tempo… O Castelo… Drácula… A feiticeira… — Ele fez uma pausa, como se estivesse ponderando as palavras certas para usar. Sua consciência parecia mergulhada em uma profunda contemplação. — Você se prende… Sim… Você continua lá. Vejo seu pesar, sua angústia…

As memórias começaram a emergir, como fantasmas que se arrastam das sombras profundas, insistindo em revisitar cada canto de minha mente onde eu desesperadamente tentava afastar o passado. Eram imagens vívidas e carregadas de uma dor esmagadora, uma angústia que se enraizava em meu peito, cortante e implacável, como uma lâmina fria. Eu via novamente os rostos dos amigos caídos, irmãos de combate cujas expressões distorcidas e pálidas ainda eram um reflexo do horror da batalha. Mas nada era tão insuportável quanto a visão de meu próprio irmão, René.

Ele era apenas um garoto, meu irmão mais novo, com seus dezesseis anos de vida ainda intocados pelo tempo. A lembrança do momento em que a baioneta prussiana encontrou seu alvo é vívida: o golpe cruel e certeiro atravessou o ar, um movimento frio e calculado. Em meus braços, seu sangue quente e espesso tingiu a terra ao nosso redor, formando uma mancha vermelha que parecia impregnar minha alma. Sua vida esvaiu-se lentamente, como um fluxo ininterrupto de dor e desespero, e eu só pude segurá-lo, impotente, sentindo seu último suspiro enquanto a batalha rugia em um estrondo ensurdecedor ao nosso redor. Aquele instante, um fragmento de tempo dilacerante, está gravado em meu ser como uma ferida profunda que nunca cicatrizará.

Senti uma lágrima quente e salgada escorregar pela minha face, seu caminho um rastro úmido que refletia a dor que eu sentia. Meu coração palpitava a cada lembrança, como se fosse cravado por uma faca afiada, rasgando e dilacerando minha alma com cada pensamento. O tormento parecia interminável, como um rio de tristeza que fluía incessantemente da minha alma para meus olhos. Nunca pude voltar a Sevilha para dizer à minha mãe sobre sua perda. A culpa de não ter conseguido protegê-lo é um fardo pesado que carrego, um peso que faz com que meus dias sejam um tormento constante e insuportável.

— Anton, teu passo é um eco de dor... Mas há esperança, o futuro ainda pode ser moldado pelo agora... — Pela primeira vez, o eco cessou, e a criatura parecia sentir uma centelha de compaixão pela tormenta que se desenrolava em minha mente. — Observa os muros do Castelo com atenção... Examina com cuidado os habitantes que o povoam... Penetra o véu sombrio da realidade e rompe as correntes do tempo.

A sensação de dor começou a se desfazer como uma neblina ao amanhecer. Meu corpo, antes tenso e pesando como uma âncora, começou a relaxar. O peso emocional que me oprimia parecia se dissolver, dando lugar a uma estranha sensação de alívio. Olhei ao redor e percebi que o horizonte, o Castelo, e até mesmo Séttimor haviam desaparecido. Estava envolto em um espaço escuro e desolado, onde a única presença era a da criatura, que agora parecia me envolver em um abraço etéreo.

— O vazio deste mundo guarda segredos profundos, esconde o que não pertence ao natural... — A voz da criatura tornou-se mais grave, quase professoral, com um tom que parecia refletir séculos de sabedoria. — Olga vê o ordinário como monótono... Não, ela aprecia o que reside no Vazio. Ela encontrou o que buscava entre suas sombras.

A menção de Olga gerou um frio inquietante. Quem era ela, e por que sua presença parecia tão relevante? Onde ela estava no Castelo?

— A dançarina... Mora no Castelo... Em algum lugar além do espelho do mundo... O tempo aqui é maleável, as linhas do destino se entrelaçam e se cruzam. Muitos caminhos se encontram e se perderão... — A criatura fez uma pausa, como se mergulhasse em um oceano de pensamentos. — Um nome... Nauärah... Pequena... Voa... Corre... Dança!

O nome parecia familiar, um eco do que eu havia visto na festa de Séttimor. Mas o que significava estar no "espelho" do mundo? Por onde andei no Castelo, só encontrei quartos vazios, salas empoeiradas e portas trancadas, um labirinto de desolação.

A angústia se entrelaçava com a esperança enquanto a criatura falava. Eu sentia uma conexão com o mistério que me envolvia, uma promessa de que as respostas estavam à espreita nas sombras do Castelo. O vazio, embora aterrador, parecia ser a chave para desvendar os segredos que buscava.

— Nauärah, como encontrarei este fantasma no Castelo? — Minha pergunta se perdeu no vazio, uma busca desesperada por respostas em meio à crescente inquietação.

Senti um peso inesperado sobre mim, como se lençóis pesados me envolvessem em uma prisão de tecido. A escuridão era densa, quase palpável, e meus olhos demoraram a se adaptar. O corpo estava uma mistura de dor e cansaço, uma sensação de desgaste físico que lembrava os treinos extenuantes com o sargento Jean. Levantei-me com cuidado, o esforço era visível em cada movimento lento e cuidadoso, como se estivesse tentando sair de um pesadelo denso e opressivo.

A dor e a fadiga eram intensas, desconcertantes, um lembrete constante da estranheza do lugar. Sentei-me na beirada da cama, tentando orientar minha visão em um ambiente que parecia ser meu quarto no Castelo. Um frêmito de desconforto percorreu minha espinha enquanto me dirigia até a janela, cujas cortinas estavam fechadas como um véu que escondia o que estava além.

Ao abrir as cortinas, a luz da lua se projetou pela janela, revelando o cenário noturno que parecia tanto familiar quanto alienígena. As roupas do baile ainda estavam em mim, um lembrete vívido da noite passada. Uma avalanche de memórias intensas e perturbadoras invadiu minha mente, como se fossem sombras que se arrastavam de volta para a superfície.

Caminhei com dificuldade até a mesa de frente para a cama e me deixei cair na cadeira com um suspiro cansado. A mente girava, tentando unir as peças de uma noite que parecia se estender interminavelmente. As visões de Séttimor e da criatura que se apresentava como aquele que “apenas existe” eram fragmentos confusos, enquanto dois nomes ecoavam incessantemente em meus pensamentos: Olga e Nauärah.

Cada pensamento era uma lâmina afiada, cortando através do nevoeiro da confusão. A sensação de estar em um labirinto mental, cercado por sombras e ecos do passado, criava uma atmosfera de suspense e inquietação. O Castelo parecia guardar segredos nas entrelinhas da realidade, e eu estava prestes a desvendar um enigma que prometia levar a uma revelação sombria.

Diário de Anton S. Miahi VI
(Escrito no Castelo — Part. III)

02 de agosto 1871 — Ao despertar nesta manhã, senti um peso inusitado em meu corpo, um cansaço que transcendia o mero físico. Ao sentar-me no lado direito da cama, percebi que o ar não estava frio, mas carregado de uma estranheza intangível. Minha mente, lenta e nebulosa, parecia vagar por entre sombras, como se encharcada pelo licor do sargento Miguel, aquele líquido esverdeado que ele alegava ser uma herança familiar, mas que sempre me pareceu mais um veneno disfarçado.

Com esforço, reuni a coragem necessária para me erguer daquele leito, arrastando meu corpo pesado até a janela, ainda fechada. No instante em que toquei a madeira fria, algo inexplicável aconteceu. A realidade ao meu redor começou a se desvanecer, como se fosse um reflexo em águas turvas. Meu quarto se tornou um eco de si, sobreposto por imagens distorcidas, simultaneamente familiares e estranhas.

Cambaleei, tombando ao chão, enquanto o espaço ao meu redor se desdobrava em camadas desconexas. Formas se duplicavam e se desfaziam, detalhes surgiam e desapareciam como se eu estivesse preso entre dois mundos, ambos reais, ambos irreais. O conhecido e o desconhecido se entrelaçavam em uma dança perversa, desafiando minhas percepções e deixando-me à mercê de um enigma insondável.

Ouvi o ranger pesado e longo de quem estava espreitando atrás da porta, até que ela silenciou, pronto o som de passos pesados de solado de couro no piso de madeira ecoava em minha mente, então se seguiu duas vozes. Uma delas reconheci devido ao convívio, Narcís. Tentei olhar na direção deles, mas tudo girava de uma forma que me impedia concentrar-me, então fechei os olhos.

A outra era de um barítono baixo, meus ouvidos podiam haver me enganado, mas quando consegui ouvir podia ouvir que era mais. Ele falava firme, e não pude compreender o que era dito.

Tentei abrir os olhos novamente e ver quem seria o outro na sala, ele tinha a pele escura, os cabelos aparados, a barba era bem-feita. As vestes dele eram semelhantes à de um aristocrata.

O segundo retira um relógio do bolso enquanto se agacha ao meu lado. Consegui ver o mostrador do relógio, adornado com delicadas engrenagens visíveis mediante um cristal impecável, marca o tempo com uma precisão perturbadora. Cada tic-tac parece ressoar no ar, como um sussurro de algo antigo e esquecido. Ao redor, o tempo parece distorcido, curvando-se à vontade dele, que observa Anton, caído e vulnerável sob os poderes temporais que o relógio exala.

Perto da porta, em meio à escuridão que o envolve, está Nestor, o mordomo sombrio do Castelo Drácula. Sua figura alta e imponente é uma sombra que vigia, seus olhos atentos ao que se desenrola diante dele. Ele permanece imóvel, mas o ar ao seu redor parece pulsar com uma energia inquietante, como se ele estivesse em perfeita sintonia com o poder sinistro que emana do relógio na mão de daquele ao meu lado.

— Monm, creio que subestimas a delicadeza do tempo. — A voz de Nestor cortava o ar com uma precisão quase cirúrgica, cada palavra um golpe de aço frio que parecia reverberar pelas paredes do quarto. Seus olhos, escuros e intensos, fixavam-se em Monm com uma desaprovação palpável, como se visse em cada fração de segundo um erro iminente.

Por um instante, Monm baixou a cabeça, uma sombra de aborrecimento cruzando seu rosto antes de erguê-la novamente com um brilho desafiador.

— Ah, Nestor, sempre tão preocupado com as minúcias. O tempo, para mim, é uma tela em branco, pronta para ser pintada com novas realidades. — Sua voz era um sussurro leve, quase musical, enquanto girava o relógio de bolso entre os dedos, o brilho verde musgo lançando padrões de luz nas paredes, criando uma dança de sombras inquietantes. — Anton é apenas… — Ele olhou diretamente para Nestor, um sorriso sarcástico curvando seus lábios. — Uma pincelada ousada.

— Essas tuas pinceladas ousadas podem desmoronar todo o quadro. — Nestor estreitou os olhos, a voz agora carregada de um tom sombrio e ameaçador, como o crepitar de um incêndio distante. — Anton está à beira do abismo, e um passo em falso poderá custar-lhe muito mais do que o simples passar dos segundos.

— Ora, ora, que dramático! Não se preocupe tanto, meu caro. — Monm respondeu com uma leveza desconcertante, a voz quase um murmúrio divertido. — O abismo é fascinante, não acha? — Ele girava o relógio de bolso, o som metálico quase hipnótico. — Um lugar onde a lógica se perde e a realidade se distorce. Anton deveria sentir-se privilegiado por ser uma das raras almas a vislumbrá-lo.

— Brincar com o tempo é arriscar, Monm. — Nestor intensificou sua aura vermelha, o brilho ardente criando uma aura ameaçadora. Sua voz agora era um trovão profundo e grave, reverberando pelas paredes do quarto. — E já que tanto aprecias as chamas, cuidado para que não acabes queimado por elas.

— Fogo, gelo, tempo… — Monm riu suavemente, inclinando-se sobre Anton com uma expressão de curiosidade quase paternal. — Tudo isso são apenas ferramentas nas mãos certas, Nestor. Agora, veja, observe como a realidade se dobra e se molda. Anton está aprendendo uma valiosa lição sobre a natureza efêmera do tempo, algo que poucos têm o privilégio de entender…— Seu tom era cauteloso, mas carregado de uma ameaça sutil. — Ou sobreviver.

— Cuidado, Monm. As forças que invocas são antigas, mais do que tu podes controlar. — Nestor falou com uma voz baixa e imponente, carregada de uma autoridade que parecia emanada das profundezas de sua própria experiência. — Eu, que servi e ainda sirvo a poderes além da compreensão, sei o que ocorre com aqueles que ultrapassam seus limites. Não subestime o preço.

— Ah, Nestor, se a eternidade não nos oferece diversão, qual é o propósito de possuí-la? — Monm ainda sorria, mas com um brilho calculista em seus olhos. — Anton é apenas o começo. O tempo é vasto e cheio de surpresas… vejamos onde ele nos leva.

Monm, ainda agachado ao lado de Anton, girava o relógio de bolso entre os dedos, sua aura de fogo-fátuo verde musgo projetando sombras inquietas nas paredes do quarto. Anton, prostrado no chão, começava a recobrar a consciência, mas o peso esmagador do tempo manipulado por Monm ainda o oprimia. Nestor permanecia à porta, sua presença imponente ardendo em tons de vermelho, como uma brasa viva, seus olhos quase ocultos na escuridão de seu rosto severo.

— Monm, estás brincando com forças que nem tu compreendes plenamente. Anton não é uma peça descartável para teus experimentos. — Nestor afirmou, a voz cortante como um fio de lâmina. — Ele pertence a Drácula, e Olga tem planos para ele que não envolvem teus caprichos temporais.

— Oh, Nestor, sempre tão zeloso pelos interesses de teus mestres. — Monm respondeu com um sorriso irreverente, seu tom leve e brincalhão. — Mas não te preocupes, Anton é mais resistente do que aparenta. — Olhando para Anton com um brilho enigmático, ele continuou, — Ele sobreviveu ao toque do tempo até agora, não é verdade, meu jovem?

— Liberte-me... Monm, por favor... não aguento mais essa sensação… — Anton suplicava com a voz entrecortada, a angústia evidente em cada palavra. — Essa confusão... não sei mais o que é real…

— Vês, Monm? Estás levando-o ao limite. Liberta-o antes que destruas sua mente. — Nestor interrompeu, sua voz grave e cheia de autoridade, como um trovão distante que prenuncia uma tempestade iminente.

— Ah, Anton... a realidade é tão relativa, não achas? — Monm se aproximou mais de Anton, sua voz um sussurro sedutor carregado de mistério. — Mas compreendo teu desejo. O tempo pode ser um mestre implacável... ou um aliado inesperado. Estás começando a vislumbrar o que poucos têm a chance de ver. Por que apressar o fim dessa experiência única?

— O que é isso... o que estou vendo? O que fizeste comigo? — Anton perguntou com os olhos arregalados, sua voz carregada de uma curiosidade desesperada. — Por que parece que o tempo se distorce ao meu redor?

— Ah, meu caro, estás tocando a própria essência do tempo, uma dádiva rara. — Monm sorriu misteriosamente, um toque de empatia em seu olhar. — Mas não te preocupes, vou acalmar as águas para ti... por enquanto.

— Não brinques com ele, Monm. Já cometeste um erro irreparável em outra ocasião, um erro que ainda te assombra. Anton não é o veículo para tua redenção — Nestor falou com uma frieza penetrante, sua aura vermelha pulsando com uma ameaça velada.

— Erro? Que palavra pesada, Nestor. Prefiro chamar de... aprendizado! — Monm respondeu, visivelmente afetado, mas escondendo sua vulnerabilidade sob uma camada de sarcasmo. — E quanto a Anton, talvez haja mais nele do que imaginamos. Quem sabe ele seja a chave para corrigir... certas coisas.

— O que estás insinuando? Conheces este jovem de outro lugar, não é? De outra linha temporal, talvez? Monm, não ousarias... — Nestor estreitou os olhos, sua suspeita palpável.

— Insinuar? Eu? Nunca, Nestor. Apenas... vejo um potencial em Anton, algo que me é familiar — Monm olhou para Anton com uma expressão quase melancólica, mas logo retomou seu tom espirituoso. — Uma história que pode ter sido... ou ainda será.

Tentando me levantar, minha curiosidade superou o medo. Senti o peso invisível do tempo se moldando ao meu redor, como uma neblina densa que sussurrava promessas e perigos. O quarto, que antes era meu refúgio familiar, pulsava com uma energia estranha e inquietante, como se estivesse prestes a revelar segredos há muito enterrados. Os olhos de Monm, carregados de um enigma silencioso, me observavam com uma intensidade quase paternal, enquanto Nestor permanecia como uma sombra vigilante à porta, sua presença uma advertência de que minha curiosidade poderia me levar a lugares de onde não haveria retorno.

— Que história? O que estou destinado a ser? E por que… — minha voz tremia enquanto tentava me erguer. — Sinto que há algo em mim que ainda desconheço?

— Tudo a seu tempo, meu jovem — Monm ajudou-me a levantar, falando com suavidade. — Por agora, saiba que o tempo tem mais camadas do que o mundo à tua volta pode mostrar. E talvez, só talvez, tu sejas a peça que faltava para completar o quebra-cabeça que comecei há muito tempo.

— Monm, cuidado com teus jogos. Drácula e Olga não tolerarão falhas. Anton deve ser preservado para seus propósitos, e qualquer desvio será... corrigido — Nestor advertiu, sua aura vermelha pulsando como uma ameaça iminente. — Não esqueças tua posição.

— Oh, Nestor, sempre tão rígido — Monm suspirou, com um brilho astuto nos olhos. — Não te preocupes, Anton será bem cuidado... desde que ele esteja disposto a aprender com o tempo.

A conversa entre Monm e Nestor se desfez em uma tensão que parecia quase palpável, um manto de expectativas e incertezas que me envolveu. As palavras de Monm ecoavam na minha mente, como se uma porta estivesse prestes a se abrir para um mundo que mal comecei a entender. O quarto ao meu redor agora pulsava com uma vida própria, as paredes sussurrando segredos antigos em uma língua que mal conseguia captar. O brilho verde-musgo do relógio de Monm lançava sombras dançantes, enquanto a aura vermelha de Nestor formava uma barreira opaca entre mim e os mistérios ainda não desvendados do castelo.

Levantei-me com esforço, minhas pernas vacilantes encontrando um novo equilíbrio. O tempo, sinto agora, não é mais o mesmo. Algo profundo e irrevogável mudou, transformando o que eu conhecia em algo maleável e desconcertante. Decidi ir até a janela, movido por uma necessidade urgente de reconectar-me com algo familiar. Aproximei-me com uma mistura de curiosidade e temor, puxando a cortina e abrindo a janela com um esforço que me pareceu quase mágico.

O que vi me deixou atônito. O inverno, com seu manto de gelo e silêncio, havia desaparecido, dando lugar a uma primavera vibrante e exuberante. O ar que entrava pela janela era fresco e perfumado com o aroma das flores que desabrochavam em cores intensas e inesperadas. A luz do sol, cálida e brilhante, filtrava-se através das folhas verdes e brotos floridos, criando uma tapeçaria de luz e sombra que dançava ao ritmo do vento. A confusão e a esperança se entrelaçavam em meu peito, como se a primavera representasse um novo começo, uma chance de reescrever minha história em um mundo onde as regras da realidade se esticavam e se dobravam conforme o capricho do tempo.

Sentia como se estivesse em um lugar que desafiava a compreensão, onde cada decisão poderia moldar não apenas o presente, mas também o futuro de maneira inexplicável. O castelo ao meu redor sussurrava meu nome, prometendo revelações e perigos que poderiam me levar além dos limites do que eu conhecia... ou me destruir no processo. A sensação de estar entrelaçado com o desconhecido me envolvia, e eu estava prestes a descobrir se este novo tempo seria meu aliado ou meu destino.

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Horrífico

Diante de mim está o altíssimo e longínquo corredor em forma de arco. Seu comprimento é imensurável, tal qual o colossal monstro bíblico Leviatã...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diante de mim está o altíssimo e longínquo corredor em forma de arco. Seu comprimento é imensurável, tal qual o colossal monstro bíblico Leviatã. Assustada, contemplo-o com admiração. Infelizmente, as pedras encontram-se severamente puídas; tenho certeza de que viveram eras em que sua beleza era notada por todos que cruzassem este corredor. Elas eram de diferentes tamanhos e espessuras, mas, unidas, resultavam em um visual sublime e uniforme, apresentando uma coloração que varia entre marrom, verde musgo e, em algumas, um tom acinzentado. 

Adornando toda a extensão do corredor, delicadas, porém resistentes teias, executadas com precisão pelas habilidosas aranhas, trabalhavam com ardor sob a chama trêmula oriunda das inúmeras velas. Por estranho que pareça, senti paz observando aquela cena, mas um leve menear trouxe-me de volta. Preciso continuar — digo para mim mesma, enquanto observo as chamas desenharem vultos sobre as pedras. Minha mente voltou a assobiar terrores que vivenciei em meu quarto. Tenho numerosas dúvidas, as quais temo proferir em voz alta. É com esses questionamentos que inicio minha caminhada cautelosa; meus passos ecoam no silêncio, desviando das constantes teias que insistem em enroscar-se em meus cachos. Estou caminhando há alguns minutos. Olho para trás e já não é possível ver o começo do corredor. Conforme ando, vejo que as velas se tornam cada vez mais escassas. Antes que fique em total escuridão, apodero-me de um dos candeeiros e prossigo. 

— Parece não ter fim. — Minhas palavras são engolidas pela penumbra, que lentamente me abraça. Lembro-me com clareza deste corredor; percorri-o no dia do grande baile de máscaras, e ele não me parecia tão extenso. Mas prossigo. Estou cogitando a ideia de estar alucinando, de que estou presa em um sonho. Será tudo fruto da minha imaginação? “Não, Rose, concentre-se”, digo a mim mesma, e acabo não percebendo que as paredes se tornaram mais próximas. Sei que é algo ilógico, dada a construção sólida do castelo, mas compreendi que, neste lugar, o inimaginável se torna tão real quanto o breu lá fora. 

Meus passos se tornaram mais acelerados, e o corredor mais estreito. Algo me faz parar: uma brisa que não pertencia ao castelo surgiu como uma assombração e parece trazer consigo vida e frescor. Inspiro e vejo folhas verdejantes sendo atingidas por intensos ventos, desprendendo-se e flutuando com graça sob o céu azul até tocar o chão de terra. Reconheço aquele lugar. Volto a ser criança novamente, fecho os olhos e sinto o perfume adocicado da mangueira, o som das suculentas mangas caindo naquele jardim, exalando o cheiro inconfundível. 

Abandono a terna lembrança e, mais à frente, me deparo com algo grandioso. Elevo a vela à altura dos olhos e fico extasiada: diante de mim está um lindíssimo portão, esculpido de forma magistral em ouro velho. Em torno dele, pairam centenas de borboletas em tons de marfim, com o bater de asas muito bem orquestrado, um espetáculo, como se velassem segredos além do tempo. Hipnotizada, respiro e vou ao encontro da gélida maçaneta. Ao girá-la, liberto um odor ferruginoso; as borboletas permanecem quietas. Sou recebida por um sopro diferente, um frescor toca meu rosto, como uma leve garoa. À minha frente, encontro uma enorme estufa. O lugar é surreal, meu cérebro tenta assimilar o que vê. Estou em êxtase, parece que cruzei a toca do coelho e vim parar em outra realidade. Aqui, exala vida; a vegetação brilha misteriosamente em tons de verde, roxo e vermelho. Seu brilho se estende por toda a estufa, tal qual uma nebulosa na imensidão do firmamento. Devido à sua bioluminescência, alguns insetos sobrevoam a vegetação colorida. Gotículas de água escorrem sob a redoma de vidro. Plantas das mais variadas espécies crescem vigorosas, exibindo suas folhas e frutos suculentos. Plantas das quais eu não tinha conhecimento que existiam. Quem ficaria encantado por este lugar era meu pai, pois ele era um entusiasta da botânica. Foi ele quem me mostrou algumas obras filosóficas e ocultistas; por não ter conhecimento adequado, compreendia quase nada, mas aquele mundo misterioso me encantou. Lia tudo escondida em meu quarto, na penumbra do abajur rosa; era nosso segredo. 

Imersa na nostalgia, vejo algo que me faz suspirar. À minha frente, este lugar também é uma extensa biblioteca, repleta de inúmeros exemplares, desde livros de bolso até verdadeiros calhamaços. Realmente, este castelo não deixa de me surpreender. Abismada, me questiono se o funesto livro se encontra aqui. Atenta, observo tudo, enquanto meus delgados dedos sentem as texturas de cada livro. Noto obras sobre botânica, alquimia, matemática, esoterismo e até mesmo magia. Alguns títulos me eram conhecidos, como A Mônada Hieroglífica, O Livro da Lei, A História da Magia, O Alquimista, e alguns livros sobre botânica que estavam em latim. Sigo lendo os títulos, estou chegando quase ao final da estufa, quando percebo uma mesa vitoriana branca. Sobre seu tampo, uma singela renda do mesmo tom da mesa; havia também duas xícaras e uma chaleira de porcelana verde. Por fim, duas cadeiras, sendo uma delas ocupada por alguém. Receosa, prossigo; agora seus traços ficam mais nítidos. Suas roupas estão com resíduos de terra; era uma idosa, dona de um sorriso sereno, de olhar profundo e amoroso. Trajava uma camiseta branca, uma jardineira e, por fim, um suéter de tricô verde. Havia algumas poucas rugas sob seu rosto pálido. Aproximei-me, temerosa; ela estendeu a mão, convidando-me a sentar. Assim o fiz. Ela sorriu e disse: 

— Não tenhas medo, minha jovem. Como se chama? 

Sua doce e trêmula voz trazia uma familiaridade que não consigo explicar. 

— Me chamo Rose — minha voz soou quase inaudível. Seu olhar era acolhedor, então ela continuou: 

— Pois bem, é um prazer te conhecer, Rose-besin. Eu me chamo Ameritt. 

Minhas feições me entregaram. Percebendo que eu não havia compreendido a palavra "besin", ela explicou seu significado, contando também que a palavra deriva de povos antigos da vila de Séttimor, que fica nos arredores do castelo. Aquilo me deixou intrigada. Ela mencionou, ainda, as sete mortes e os misteriosos habitantes dessa vila. Apoiei meu pulso sob o queixo e fiquei pensando: o que seria essa tal vila? Como chegar até ela? No entanto, ela continuou falando. 

— Resido aqui há muito tempo, e posso afirmar, minha jovem, vi e vivenciei coisas inimagináveis. Mas, pelo que percebi, acredito que você também, não é mesmo, Rose-besin? 

Assenti que sim. 

— Minha querida, posso lhe oferecer um chá? Eu mesma colhi as ervas. Aliás, percebi como você ficou encantada; vi seus olhos brilhando perante a vasta flora, bem como sua bioluminescência. É prazeroso quando vejo alguém que se apaixona pelo meu jardim. 

Perguntei sobre os besouros e insetos daqui, e ela explicou que eles tinham um significado profundo. Além de polinizar, eram almas perdidas que reencarnaram. Fiquei ainda mais confusa e entrei numa espécie de delírio. Será que virarei um besouro também, dada a minha natureza? Seus lábios moviam-se com a ternura de uma avó, me tranquilizando. Então, ela abriu a tampa da chaleira, e logo um aroma peculiar pairou no ar; era único. Ela serviu o chá com tranquilidade, olhou-me e disse: 

— Beba, vai se sentir melhor. 

Um sorriso plácido surgiu em seus lábios. Elevei a xícara à altura do meu queixo, vislumbrei as especiarias em infusão. O aroma era indescritível e convidativo. Fechei os olhos, inalei e sorvi. Porém, um pensamento assustador pairou em minha mente: e se este chá estiver envenenado? 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano 

 01 de janeiro? — Acordei num sobressalto e com a respiração pesada. O silêncio incômodo era apenas interrompido pelas batidas frenéticas do meu coração, eu estava de volta ao meu quarto. Meus olhos percorreram o aposento à procura de qualquer coisa que indicasse perigo, parecia que a criatura que feriu meu braço não estava mais lá. Meu braço esquerdo latejava, olhei para ele e percebi que estava envolto com novos curativos. Quem teria feito isso? A última lembrança que eu tinha era uma raiva tremenda e minha ferida sangrando, depois disso apenas escuridão. Levantei me sentindo zonza e vi meus óculos sobre a mesa ao lado do meu diário. Não sei como ele ainda sobrevive a tantas quedas e desmaios. Coloquei os óculos e olhei pela janela e o dia estava bonito, e eu não sentia mais aquela vontade de me esconder dentro daquele quarto. Queria ir para fora sentir o calor do sol no meu rosto. Decidi que esse momento seria ótimo para explorar e fui para aquele jardim que estive no dia da grande lua, onde avistei Hadassa. 

Fui de encontro ao jardim e senti um aroma de terra molhada, ervas e algo mais que não pude identificar, isso me atraiu. Então me deparei com um canteiro de rosas muito vermelhas, cheguei perto delas para sentir seu cheiro e era tão pungente, toquei devagar suas pétalas aveludadas e parecia que uma lembrança ia se formar em meu cérebro. Até que, um pouco mais além desse canteiro, pude perceber lírios prateados e lírios vermelhos feito aranhas mexendo suas pétalas de forma suave, como aqueles que eu havia visto no vale dos settimôros. Esse pensamento me trouxe aquela solidão incomoda, interrompendo uma lembrança sobre as rosas que tardou a se formar. Caminhei um pouco mais apreciando a luz do sol que iluminava agora aquele jardim. As estátuas de anjos e damas esculpidas em mármores não passavam mais aquela melancolia de antes. Agora pareciam contemplar a profusão de vida naquele jardim. Um pouco mais a frente havia uma figura curvada sobre um canteiro, era uma senhora idosa de cabelos grisalhos presos em um coque frouxo e alguns fios rebeldes escapando aqui e ali, suas mãos mexiam nas flores de maneira delicada. Parei, e já ia refazer o meu caminho para não a incomodar. 

— Ah, Rute-besin, não tenha medo. — Ela falou sem nem se virar, como se me esperasse. — Venha e sente-se, está com cara de quem não dorme bem há tempos. Venha, tome um chá comigo. 

Havia uma mesa de madeira com duas cadeiras perto do canteiro onde ela se encontrava. Sentei-me, relutante, à mesa; havia um bule e duas xícaras de cerâmica marrom com formas desenhadas em diversos tons de verde. Dali emanava parte daquele cheiro de ervas que me atraiu ao jardim. Eu estava intrigada por ela saber meu nome. 

— Nós nos conhecemos? — Falei em dúvida enquanto apreciava aquele aroma que parecia me acalentar. Ela se levantou, caminhou devagar e se sentou à minha frente, sua aparência era amável. Sua pele branca marcada pelo tempo e levemente avermelhada por longas horas sob o sol. Vestia o que parecia ser uma túnica preta com pequenas flores vermelhas bordadas no busto. Um colar com um grande pingente dourado e uma pedra vermelha em seu centro e brincos com belas gotas negras. 

— Oh, não pessoalmente, mas eu a conheço, Rute-besin, sei que gosta de violetas, rosas, orquídeas, lírios, dálias... — Ela contava nos dedos enquanto falava. — E observar a fauna e a flora. Ah! Você possui uma orquídea roxa, que eu cultivei também. Espero que você esteja cuidando bem dela.  

Me lembrei da orquídea que apareceu em meu quarto depois do meu primeiro encontro com Drácula. Me perdi em pensamentos me lembrando daquele momento e do cheiro de rosas que Drácula possuía, o mesmo presente nas rosas do jardim. Ah! Era essa a lembrança que queria se formar. Senti um formigamento em meu braço ferido, que me trouxe de volta ao momento, e o levantei para olhar. Vi um belo besouro de um verde-esmeralda que eu nunca havia visto. Não é como se eu conhecesse todos os tipos de insetos existentes, mesmo tendo um apreço especial por insetos, mas esse besouro específico não parecia fazer parte de nenhuma fauna que eu conhecesse. Eu estava fascinada por aquele exoesqueleto brilhoso, ouso dizer que quase hipnotizada com seu andar lento sobre a minha ferida. Ele me lembrava os besouros da família Buprestidae, só que o brilho deles costuma ser metálico, esse possuía uma luminosidade que parecia emanar de dentro dele, de uma beleza única. 

— Oh, então é aí que você estava, Alyric-besin. Venha minha criança arteira. Já falei para você tomar cuidado por onde anda. — Ela retirou com delicadeza o besouro do meu braço, se levantou e o colocou com carinho no meio de algumas flores no jardim. — Ah, crianças, é uma pena que cresçam tão rápido e logo se vão. — Essas últimas palavras dela foram ditas com um certo pesar na voz. — Ela voltou à mesa e se sentou à minha frente. — Alyric-besin parece ter se afeiçoado a você, minhas crianças se sentem bem perto daqueles que os respeitam. — Enquanto falava serviu o chá quente com mãos cuidadosas. O cheiro se espalhou e era tão bom, respirei profundamente e assim encontrei de onde vinham aqueles cheiros que eu não sabia descrever muito bem, vinham do chá e da senhora a minha frente. 

— Tome, isso vai te ajudar, besin. Foi feito com uma planta que só cresce aqui, nas terras do castelo. Cura até as feridas da alma, é o que dizem. Talvez te ajude a ter uma boa noite de sono hoje. E a propósito meu nome é Ameritt. — Disse ela com o mesmo tom doce que usou para falar com o besouro.  

— Obrigada. E… prazer em conhecê-la. É... qual espé… — E lá estava eu de novo tropeçando em palavras, tentando formular uma pergunta. Inspirei e expirei, enquanto Ameritt, me olhava com paciência. — É…qual é a espécie daquele besouro? 

— É um Agrilus Eridahem. Essa espécie é endêmica do Castelo. Você só a encontrará aqui, são ótimos polinizadores, além de serem criaturinhas divertidas de se conversar. — Ela deu uma boa gargalhada ao dizer isso. — Excelentes companhias também. Vamos, beba seu chá, juro que ele irá te ajudar. 

Concordei com um aceno de cabeça, e inalei o vapor do chá antes de beber, o cheiro era muito bom e o seu calor parecia espantar o desânimo que me dominava. Bebi o chá e senti aquele sabor terroso e com um amargor suave, equilibrado com um toque de doçura e algo picante. Não importava o quanto eu tentasse, não conseguia identificar o sabor ou compará-lo a qualquer outro. O chá descia pela minha garganta, um calor aconchegante, como se me acariciasse por dentro, soltando todos os nós nas minhas entranhas. Ouvia Ameritt falar com um tom doce, quase que maternal, dos besouros que estavam sob seus cuidados. “Minhas crianças” ela dizia orgulhosa, detalhando tudo que elas faziam por ela e o que ela fazia por suas crianças. Que suas crianças conheciam todos os lugares do Castelo e cada hóspede nele. Falava sobre sua anatomia, sobre as plantas que eles mais gostavam de polinizar. Disse o quanto ficava triste por suas vidas serem tão curtas. E que depois de mortos fazia uma bela sopa de funghi com os besouros. Eu estava fascinada com a forma que ela falava sobre eles e ficaria a ouvindo por horas. Até que ela falou sobre comê-los, e percebeu meu semblante de dúvida.  

— Não, Rute-besin, eu não os mato, nunca. Apenas os como quando já se foram. Eles possuem propriedades mágicas, me alimentar deles é como ter um pouco deles dentro de mim. — Ela me olhou com um sorriso de pesar, e acenei com a cabeça para ela saber que eu compreendia. — Acabei me estendendo demais, quando começo a falar das minhas crianças acabo me empolgando um pouco. — Fez uma pausa e levantou com delicadeza sua xícara enquanto me olhava e tomou um gole do seu chá. — E você Rute-besin, tem algo a dizer? Você está muito tensa e abatida.  

De alguma forma aquele chá parecia ter não só soltado os nós das minhas entranhas, mas também a minha língua, pois quando dei por mim, eu já havia confessado mais do que pretendia. 

— Bem... Meu corpo anda cansado de sentir. Tenho tentado voltar à razão, mas estou cansada de pensar nela e ficar triste com isso. Tenho suspeitado que o castelo talvez tenha algo a ver com essa vontade de ir além do pensamento usual, da razão, da mesmice. Me sinto compelida a experimentar de tudo, provar hipóteses, fazer parte de experimentos. Como um…— Parei para respirar tentando encontrar as palavras. — Como um animal de teste, receptivo a qualquer experiência que me ofereçam. — Não conseguia segurar as lágrimas, comecei a chorar na presença de Ameritt, sem me preocupar se o que eu dizia faria sentido a ela ou não. Me envergonho de chorar na frente de outros, mas ultimamente tem sido difícil segurar qualquer sentimento dentro de mim. Ela assentiu em silêncio, os olhos fixos nos meus enquanto eu continuava. 

— E pensar que, desde que cheguei ao castelo, o explorei com terrível medo. Agora, me exponho a ele com curiosidade, sem cautela, procurando uma resposta que nem sei se eu realmente quero. — Comecei a gesticular de maneira incontrolável enquanto falava. — Todos esses sentimentos plantados, tão bem cuidados e nascidos por causa dela, todos cultivados, para no fim não valerem de nada, já que ela, a pessoa para quem cultivei tudo isso, não está mais aqui. 

Ameritt ficou em silêncio por um momento, depois colocou uma das mãos enrugadas sobre a minha, seu toque era leve e reconfortante. Reparei numa aliança grossa de ouro, de aparência bem antiga em sua mão esquerda.  

— Rute-besin, o luto é uma planta teimosa. Ele se agarra ao solo mais árido, mas o que você está sentindo não é apenas luto. Você sabe, o castelo tem uma vida própria, ele mexe com a mente e com o coração. Talvez ele esteja tentando te mostrar algo que você ainda não entendeu. Algo além do luto, além da razão. Espere aqui. — Ela se levantou e caminhou para além de onde minha visão alcançava, demorou alguns minutos. Minutos esses que aproveitei para me recompor e enxugar as lágrimas. E logo ela apareceu, com uma tigela de barro e uma colher de madeira em uma mão e um pequeno pote de vidro em outra. 

— Tenho algo para seu braço e para seu estômago. Para o caso de você continuar explorando hoje. — Colocou a tigela na mesa e olhou para mim como se pedisse minha permissão, pegou a pomada dentro do pequeno pote e a aplicou em meu braço com movimentos delicados, quase como se estivesse cuidando de uma planta ferida. O cheiro das ervas me acalmou e a pomada parecia diminuir aquele latejar insistente. 

— Esse castelo é uma entidade viva, Rute-besin. — Ela falava com uma voz baixa e suave. — Ele sente, ele responde. E ele tem segredos que nem mesmo eu, em todos os meus anos aqui, consegui desvendar. Mas uma coisa é certa, ele nos muda. E talvez, só talvez, ele esteja te preparando para algo maior do que seu luto. Algo que pode, de alguma forma, trazer um tipo de paz que você ainda não encontrou. Ou a resposta para uma certa questão que te perturba.  

Suas palavras pareciam me consolar. Algo além do luto, da razão, e talvez até da culpa. Ainda não sabia muito bem o que pensar, mesmo que eu sentisse o conforto com suas palavras naquele momento, eu ainda teria que refletir mais sobre aquilo.  

— Passe essa pomada duas vezes ao dia e ela vai sarar sua ferida. — Ela falou me dando o pequeno pote de vidro que coloquei no bolso da calça. — Arylic-besin disse que ela está infeccionando, então precisa de cuidados. Tome a sopa, ela também irá ajudar na cicatrização. 

Tomei a sopa devagar, sua textura cremosa. Seu sabor, assim como o chá, terroso, era como lamber o solo úmido de uma floresta. Não que eu tivesse lambido um, mas se tivesse esse talvez seria o sabor. O cheiro da sopa era como o de dias de chuvas em meio a natureza, só que ao invés de ter um cheiro fresco, ele era quente e reconfortante. Senti algo com a minha língua, os besouros, é claro. Mastiguei devagar, segurando a vontade de cuspir. Percebi Ameritt me olhando como se me analisasse. Senti a crocância do exoesqueleto, e para minha surpresa era bom, um sabor amadeirado com um leve amargor, me lembrava nozes. A sensação era de ter a natureza descendo para dentro de mim. Se assentado no meu corpo, se espalhando por meus nervos e músculos, me enchendo de vitalidade. Fluindo como um rio e repousando no jardim que parecia crescer em minhas entranhas. Terminei a sopa, Ameritt percebendo logo se levantou, pegou a tigela e a levou. Me levantei e fiquei em pé perto da mesa esperando sua volta. Ela voltou e logo me preparei para me despedir. 

— Sim, sim! É hora de você ir. E eu entendo. — Ela não me deu nem a chance de formular uma despedida, o que é o básico para se viver em sociedade, mas que às vezes é difícil para mim. — Rute-besin! Me prometa que vai voltar de novo e que vai tratar essas suas feridas. Nós vamos adorar a sua presença aqui mais vezes. — Ela segurou minhas mãos entre as suas, e de pé, perto de mim, pude perceber o quanto ela parecia frágil e pequena, mas seus olhos, de um azul acinzentado, diziam ao contrário. Sorri para ela. 

— Eu prometo que voltarei, e… obrigada pelo chá, a sopa…Ah! e a pomada também. — Disse sem saber mais o que acrescentar a esse péssimo agradecimento. Me sentia uma criança tímida perto dela. Soltei suas mãos e sai andando em direção ao castelo. Voltei para Ameritt para mais uma pergunta. 

— Para onde devo ir para talvez… — Novamente estava tentando encontrar as palavras. — Encontrar o que preciso? — Disse receosa.  

— Se você seguir para além desse jardim, bem ao fundo, talvez você encontre o que precisa no centro naquela floresta.  — Ela se virou e apontou para além de algumas árvores altas bem distante de onde estamos. — Tenha cuidado, minha criança, com o que pode encontrar lá. 

Agradeci e segui o caminho apontado por ela. Olhei para trás quando já havia alcançado alguma distância. E ela já havia voltado aos seus afazeres no jardim. Depois de me despedir de Ameritt me percebi inquieta, ansiosa para explorar o que mais tivesse para ser explorado. Enquanto caminhava pude observar como aquele jardim era bem cuidado. E a diversidade de flora que tinha nele. Se eu tivesse ficado lá e observado mais tempo, talvez também me surpreenderia com a fauna. Diversas estátuas de tamanhos diferentes espalhadas por diversas áreas do jardim e bem ao longe um grande chafariz, talvez de pedra, adornado pelo que parecia pequenos anjos, jorrava incessante uma água límpida. No ápice do chafariz havia uma escultura do que parecia também um grande anjo que transparecia certa introspecção. Talvez eu o veja mais de perto no futuro.  

Antes de entrar na floresta, vi que à minha esquerda havia um velho cemitério. A natureza parecia ter tomado conta daquele espaço, uma profusão de verde cobrindo o chão daquele terreno. Lápides antigas, algumas inclinadas, outras afundadas no solo, envoltas por trepadeiras e musgos que se agarravam às pedras desgastadas. Um belo mausoléu de pedra também envolto por musgo e rosa-trepadeiras, mas bem cuidado. Me senti tentada a seguir em direção a ele. Na minha direita, mais ao fundo do jardim, que agora eu estava saindo, tinha uma pequena casa de pedra. Rosas-trepadeiras, em tons de um vermelho profundo e outras em um rosa suave, entrelaçam-se pelas paredes de pedra, subindo ao longo das paredes, emoldurando a casa. Na entrada principal uma pequena escada de pedra que levava ao portal da casa. Os degraus desgastados pelo tempo, ladeados por mais rosas-trepadeiras. A porta com um arco de pedra que parecia me convidar. As janelas altas e abobadadas se estendiam do chão até o teto. O jardim ao redor da casa tinha caminhos sinuosos de pedras e canteiros cheios de flores. Se tivesse que adivinhar, coisa que não tenho o hábito, eu diria que aquela é a casa da Ameritt. 

Eu tinha que seguir em frente, para a floresta, esses lugares poderiam ser investigados outra hora. Andei um longo caminho no meio daquelas densas árvores e encontrei um arco de pedra em ruínas, envolto com trepadeiras e heras. No passado talvez tenha sido a entrada de uma pequena casa, mas agora era só ruínas. Havia um alçapão no chão de pedra, levantei a portinhola e olhei para a abertura. Uma luz bem fraca me fez enxergar uma escada. Inspirei e expirei, devagar comecei a descer. Me deparei com um portão de ouro velho, com um lampião que emitia uma luz fraca. Borboletas delicadas na cor de marfim, repousavam na superfície dourada. Como se tivessem guardando aquele portão velho por eras, talvez. Empurrei o portão devagar, para não assustar as borboletas. O portão cedeu com um gemido baixo. As borboletas permaneceram, fizeram apenas leves movimentos, desafiando qualquer explicação lógica que eu poderia encontrar para explicar aquele comportamento incomum.  

Passei por aquele portão, e para minha surpresa, encontrei uma biblioteca. Ah! Eu estava feliz, até que enfim uma biblioteca. O dia de hoje parecia estar bom demais para ser real e eu iria aproveitá-lo antes que eu, ou algo fora do meu controle, estragasse ele. A biblioteca estava envolta em relva e vegetação, era como se a natureza tivesse tomado aquele lugar para si mesma. O teto era de vidro, que permitia a entrada de uma luz difusa, que penetrava com dificuldade uma espessa camada de musgo e folhas que cobriam tudo. Eu estava dentro de uma estufa, sendo que desci por uma entrada subterrânea. A explicação lógica seria uma estufa subterrânea, escavada a vários metros abaixo da terra, com apenas o teto de vidro para a entrada da luz solar, que construção fascinante. Havia prateleiras com dezenas de livros empilhados, muitas delas estavam inclinadas pelo peso dos livros e talvez também por conta da umidade. Uma coleção de livros de biologia, alquimia, matemática, história e esoterismo. A pessoa dona dessa coleção talvez estivesse buscando respostas além da ciência e da magia conhecida. 

Conforme avançava, contemplando todos os títulos ali presentes, percebi alguns sinais no centro daquela estufa. Círculos desenhados no chão, agora cobertos de musgo e relva, velas derretidas. Em algumas prateleiras havia recipientes de vidro com substâncias que possuíam um brilho estranho. Quem quer que fosse a pessoa que utilizava esse lugar, tinha interesses bem peculiares. Segui mais adiante, e havia três portas, cada uma afastada uma da outra, quase que escondidas por camadas de musgo. Abri a primeira porta, e fui recebida por uma enxurrada de cheiros, ervas secas, enxofre, umidade e um leve cheiro de metal. Uma grande mesa de madeira maciça, havia um equipamento de destilação montado, com tubos e vidros sinuosos, conectados a alambiques, retortas e balões. Havia uma prateleira com diversas vidrarias, tubos e frascos. Havia sinais de, talvez, experimentos falhos, fragmentos de vidro quebrados, cobertos de ervas e manchas estranhas. Um almofariz com um pilão jogado a um canto da mesa, ao lado de uma balança e uma ampulheta. Ervas secas penduradas no teto. E, em um canto mais afastado da mesa, um forno. Eu me encontrava em um velho e abandonado laboratório.  

Sai dali e fui investigar as outras portas. A segunda porta resistiu às minhas tentativas de abri-la. Lancei meu corpo com força sobre ela, que finalmente cedeu. Entrei naquela sala escura e úmida, musgo e cogumelos cobriam tudo naquela sala, livros, móveis e quadros. Exceto um único livro fechado em um pedestal de pedra. Sua capa de um couro envelhecido muito escuro, quase preto, com finas ranhuras, bordas reforçadas com metal. As páginas amareladas que eu podia observar pelas bordas, o livro parecia estar em bom estado — levando em consideração tudo naquela sala. Me aproximei, hesitante, e o toquei e sua textura era áspera. Gravado na capa, finas linhas que se espalham, se emaranhado, formando um símbolo que não tem início nem fim.  Abri o livro e folheei algumas páginas e o que eu pude enxergar, com a pouca luz que entrava pela porta, fez irradiar do meu peito aquele formigar que me tira o sossego. Desenhos de criaturas que desafiavam a lógica, sua anatomia e anotações que eu não compreendia. Símbolos alquímicos, ciência e magia misturados entre rabiscos e ilustrações. Me forçar a compreendê-las fazia com que eu me sentisse à beira de um ataque de pânico.        

Fechei o livro com as mãos trêmulas e sorri comigo mesma, apesar do desconforto. Parecia que eu havia encontrado o que eu estava procurando. Fui até a terceira e última porta que abriu com facilidade, tinha muita umidade. As paredes e teto cobertos de musgo verde escuro, o chão tomado por um tapete de cogumelos de diversas cores, alguns até luminescentes. Todos espalhados em cada canto, outros também nas paredes, fazendo com que eu não conseguisse definir o que esse lugar poderia ter sido. Aquele cheiro forte de madeira em decomposição e umidade que alimentava os musgos e os cogumelos. Fechei a porta e voltei à segunda sala, hesitei, mas peguei o livro. Eu tinha que levar ele comigo. O som inesperado da chuva forte batendo no teto da estufa me alarmou. Batidas rápidas que logo aumentaram e ficaram intensas, gotas explodindo contra o vidro com violência, pareciam fazer o vidro vibrar. Coloquei o livro por baixo da camiseta e me preparei para enfrentar a chuva.  

Corri em disparada até o castelo, entrei e, mesmo já protegida da chuva, continuei correndo até chegar no quarto. Entrei, coloquei o livro na escrivaninha e tirei as roupas molhadas e as estirei em uma cadeira. Tomei um banho demorado, pois estava protelando para voltar para o quarto e encarar aquele livro. Saí e fiquei sentada na beirada da cama olhando para o livro. Pensei em Ameritt, com seu chá e seus besouros, quase como um sonho, se comparado com o que eu estava prestes a fazer. O castelo havia explorado os meus segredos, e agora eu estava começando a explorar ainda mais os seus. E talvez agora não houvesse mais volta. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Sacrifício

854 D.C. A tempestade torrencial açoitava a pele exposta de Mericus na escuridão da noite enquanto ele fazia o caminho para seu casebre...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

854 D.C. 

A tempestade torrencial açoitava a pele exposta de Mericus na escuridão da noite enquanto ele fazia o caminho para seu casebre. Resmungos pecaminosos escapavam de seus lábios enquanto a Morte dominava seus pensamentos.

Conseguia ver no horizonte a fraca luz do lampião pela janela do abrigo na floresta. Estaria ela ainda viva? Aguardando-o com o singelo e fragilizado sorriso que carregava há anos.

Abriu a porta feita de tábuas podres e empenadas e entrou em um cômodo único que não oferecia nada além de um teto de palha contra as intempéries do tempo.

Isabel estava deitada no chão de terra batida próxima à fogueira no centro da habitação. Coberta de suor, abriu os olhos com dificuldade ao ver o pai. Mexeu a boca para saudá-lo, mas a voz foi interrompida por uma crise de tosse que cobriu uma parte de seu rosto com sangue.

Mericus atravessou o ambiente correndo para se aproximar e cuidar dela. A jovem estava quente como se tivesse saído de um forno.

— Pai, está frio demais, dor demais… — Novamente a voz foi interrompida por outra crise. Mericus passou a mão na face dela para limpar o delicado e pálido rosto.

Há anos ele vivia para o trabalho na lavoura, trocando o que produzia por possíveis medicamentos ou tratamentos, mas a tosse com sangue não cedia e estava cada vez pior. Nunca a viu naquele estado antes. Pequena, magra como uma tábua e com não mais que quinze invernos de vida, agora estava branca como a lua que iluminava noites mais felizes.

Na última tentativa de tratamento, procurou a velha bruxa caquética que vivia na orla do vilarejo, o tipo de envolvimento que poderia acabar com ele sendo queimado na praça. Esse risco lhe rendeu um frasco sujo com um líquido preto e viscoso que só fez Isabel vomitar copiosamente por dias.

Agora começava a cogitar assaltar mercadores ou pessoas desprevenidas na estrada, talvez conseguisse juntar o suficiente para visitar o médico do duque na fortaleza próxima e…

Três pancadas altas vieram da porta, interrompendo-o abruptamente de seus devaneios. Não tinha nada de valor, mas Mericus apanhou o arado que estava próximo e abriu a porta, apontando o utensílio com falsa coragem para o visitante.

O sujeito era curioso, para dizer o mínimo. Pouco maior que a cintura de um homem adulto, com uma careca com tufos claros e parcos, usando vestimenta do mais fino trato que já vira, carregava um bastão com uma lanterna que iluminava metros na escuridão. Ele estava seco, como se não houvesse tempestade.

Ele abriu um sorriso sem dentes e lambeu a gengiva exposta entre o vão dos dentes frontais, como se saboreasse algo que estava guardando para um momento especial.

— Belíssima noite, Mericus. Ela ficará ainda mais bela em breve, lhe garanto. Me chamo Igor… O senhor do meu castelo convida-o ao nosso jardim. Soubemos que procura tratamento para sua filha.

— Como sabe da minha filha? — Ele balançou o arado contra o sujeito.

— Guarde isso antes que fure seu olho, rapaz. — Igor sorria com a boca desdentada e a gengiva inflamada. — Agora me siga antes que seja tarde demais para a pequena. É visível que ela está tendo uma péssima noite.

O homenzinho virou de costas sem esperar resposta e seguiu para o meio da floresta, alheio à tempestade que caía. Mericus, desesperado, aceitaria uma oferta até do diabo a essa altura. Largou o arado, cobriu a filha e a colocou no colo com cuidado, correndo para acompanhar a forte luz na escuridão.

Como se fosse mágica, rapidamente se encontrou fora da floresta em uma noite iluminada e sem chuva, à sombra de belas torres que nunca havia visto antes. Muralhas dignas de fortalezas se estendiam até onde conseguia ver. Havia um lago grande com águas estranhamente serenas que refletiam a lua como um espelho. Ocorreu um breve pensamento sobre como nada daquilo fazia sentido, mas apenas Isabel importava; qualquer reflexão diferente era rapidamente apagada de sua mente.

O homem andava em um ritmo acelerado demais para o próprio tamanho. Mericus, que sentia dores tremendas em todo o corpo por anos de trabalho pesado, tinha uma dificuldade séria em acompanhar o passo dele.

Igor parou de andar à porta de uma bela estufa, vasta e rica como os salões vikings das lendas que ouvia entre as raras bebedeiras que tinha com mercadores viajantes. Todo o trabalho metálico era feito de ouro. Ele olhou para Mericus, lambendo a gengiva novamente com júbilo enquanto observava o pai e a filha se aproximarem.

— Ameritt irá recebê-los. Aprecie sua estadia pelo tempo que for necessário. Alimento lhe será fornecido em breve. — Igor fez uma mesura tão profunda que quase encostou a testa no chão. Por alguma razão algo naquilo parecia ser chacota.

— Por que eu? O que esperam de mim em troca do tratamento da minha filha?

— Não será requisitado nada que não possa pagar. Nosso mestre é caridoso, quando lhe convém. Agora vá, encerre o sofrimento de sua filha. — Ele se virou e, com impressionante agilidade, se retirou para além da visão, deixando para trás apenas o rastro luminoso do lampião.

Mericus fitou a maçaneta de ouro com formato de rosas da grande porta dupla. Girou-a e foi prontamente engolido pelos variados cheiros de plantas que nunca vira. Na fraca luz das tochas, podia-se observar os mais variados tons de cores exóticas, raramente vistas aos olhos humanos. Em meio ao caos de tons, havia uma abundância de besouros verde-esmeralda que produziam um chiado constante, como se fosse uma música alienígena.

Camuflada entre a vegetação, uma senhora de idade avançada, mas ainda jovial, o observava. Ele podia jurar que, por um breve segundo, viu algo como pena em seus olhos, mas isso foi rapidamente substituído por um semblante de calma e simpatia. Ao lado dela, havia uma série de frascos estranhos com líquidos fumegantes e fogareiros.

— Seja bem-vindo, Mericus-besin e filha. Esta é a estufa Agrilus, meu pequeno pedaço de céu. Soube pela minha amiga da vila da triste situação de sua filha…

A porta se fechou sozinha atrás dele, talvez por causa do vento. Ele adentrou o recinto e se aproximou da senhora, sentindo-se observado por tudo que ali respirava.

— Obrigado por me receber, Ameritt. Tenho certeza de que minha filha também está muito grata pelo que está se oferecendo a fazer por nós. — Mostrando algum sinal de consciência em meio ao sofrimento, a pequena Isabel acenou com a cabeça.

— Não se preocupe. Agora a coloque na mesa; vamos deixá-la descansar. — Ameritt olhava fixamente as manchas de sangue que cobriam a face e a roupa da menina. A senhora emitiu um discreto estalo de insatisfação com a boca. — Será complicado e dolorido, mas vocês estarão saudáveis em breve.

— Como assim, "vocês"?

— Você está infectado também. — Respondeu Ameritt, mirando Mericus nos olhos, lembrando-se da precariedade que era a saúde e a higiene no período histórico do qual eles vieram.

Mericus acenou com a cabeça, tomado agora pela certeza da morte que o aguardava.

— Aos fundos desta estufa há uma árvore que está morrendo, mas que ainda carrega um único fruto. Pegue-o e traga aqui; vou começar a preparar o rem… poção que vocês irão tomar.

Ele deitou a filha sobre a mesa coberta de besouros que correram alucinados pela estufa. A respiração da menina emitia um chiado medonho e um cheiro podre subia da boca aberta dela. Fria como uma pedra, era evidente que ela não aguentaria muito mais. Era tudo ou nada. Ele respirou fundo; tinha muitas dúvidas, mas apenas havia esperança dentro de si. Encarou os olhos impassíveis de Ameritt por alguns instantes e seguiu para onde foi instruído.

A cada passo, a estufa ficava mais silenciosa e escura. Podia ouvir o barulho de seres desconhecidos se movendo rapidamente em meio à vegetação densa e alienígena.

Dentre todas as árvores que se encontravam dentro do ambiente, a que ela havia mandado procurar era a maior e, sem dúvida, próxima ao fim de sua existência. Não havia barulho algum ali, mas uma camada de besouros cobria o tronco como uma segunda casca inerte. Aquilo trazia a sensação avassaladora de estar sendo observado por milhares de pequenos olhos.

O fruto era vermelho, de um rubro sem igual, grande como a cabeça de uma pessoa adulta. Ele se esticou para alcançar o objeto de desejo sem sucesso. Saltou e sentiu a mão fechar sobre ele; houve resistência e, com um estalo alto, o galho cedeu. Revoltados com o incômodo, centenas de insetos voaram em protesto pela estufa.

Em meio à nuvem verde-esmeralda, Mericus levantou-se aterrorizado e correu às cegas para a entrada da estufa, carregando o grande fruto embaixo do braço.

Felizmente, ele chegou ao espaço onde a luz das tochas iluminava o ambiente; ali, por alguma razão, os besouros pareciam não se aventurar de forma tão agressiva. O olhar fulminante de Ameritt, no entanto, não o trouxe alívio.

A senhora demonstrava verdadeiro desconforto com algo que havia acontecido.

— Tudo bem, meu Mericus-besin? Está suado. — Ela abriu um sorriso falso, comum ao que se dá a visitas indesejadas que não saem de casa.

— Que merda são esses besouros? Eles me atacaram! Ou… não sei o que foi isso, pareciam me atacar.

— Lembre-se que aqui você é o convidado. Incomodar os moradores é rude. — Apanhou a fruta sem esperar a resposta, colocou-a próxima a cabeça de Isabel e com um único golpe ágil e forte de facão o dividiu em dois, regando os cabelos da menina.

Saía um belo líquido vermelho como vinho do fruto rico em nutrientes, cheio de vida e beleza. A velha espremeu a fruta sobre um caldeirão fumegante, tirando até a última gota. A espessa mistura chiava e borbulhava a cada gota que caia.

— Abelarda, a bruxa da sua vila, me contou sobre Isabel… Onde está a mãe dela? — A palavra "bruxa" foi enunciada com um certo desprezo, misturado ao evidente tom de raiva que emitia.

Com o coração ainda batendo na boca, ele respondeu com dificuldade:

— Morreu no parto. Isabel nasceu prematura e sempre foi muito doente. Há anos, tudo se resume a mim e a ela. Sou tudo o que ela tem, e ela é tudo o que eu tenho.

— Entendo. Parece ser um pai dedicado. Bom saber que há alguma vida que você respeita. — Ela discretamente observou o fluxo dos besouros ao fundo do recinto enquanto mexia a mistura, que ficava cada vez mais espessa. Um cheiro estranho e doce acompanhava a fumaça que subia. — Conte-me, o quanto estaria disposto a se sacrificar por ela?

— Morreria por ela, sem pensar. Qualquer coisa para vê-la feliz novamente.

Ameritt acenou conformada. Pegou uma caneca e, com hesitação, a encheu com o líquido quente, soprou sobre ele e entregou a Mericus.

— Prove, para saber o que será dado à sua filha.

Assustado com o líquido brilhante, olhou para a filha, que tossiu violentamente, como se a incentivasse. Sentiu uma tremenda dor no peito; havia perdido tudo na vida por ela e daria muito mais se fosse necessário. Segurava em sua mão uma possível cura, e era isso que importava.

O cheiro era doce e convidativo, e a aparência era mais atraente do que outras coisas que já dera a ela. Viu o ingrediente que fora usado: uma belíssima fruta.

Deu um gole farto.

O líquido parecia mel de tão doce; a textura também era similar. Sentiu o corpo se aquecer quando aquilo atingiu o estômago; as dores devido ao trabalho pesado que o acompanhavam há anos cederam e sumiram logo depois. Sentiu-se jovem, como se tivesse novamente vinte invernos. Sorriu de orelha a orelha, olhou para a senhora com alegria e reparou que ela também sorria, mas era um sorriso sincero desta vez.

— Bom, não? Agora vá para o fundo da estufa novamente, para descansar. Darei a poção para Isabel e ela o encontrará em seguida.

Atônito com o resultado, seguiu o comando sem emitir palavras. Sentia cada fibra do corpo como se fosse a primeira vez. A musculatura parecia ficar mais rígida a cada momento.

Chegou à árvore que definhava. Sentou-se ao lado dela, em meio aos besouros, e agradeceu pelo fruto salvador.

Mericus adormeceu e, enquanto sonhava com o sorriso da filha, raízes rasgaram sua pele com tremenda violência, enterrando-se no chão e conduzindo o sangue à terra, fertilizando o solo do Castelo sedento.

O corpo irreconhecível rapidamente foi tomado por uma nova forma, transformando-se em uma grande e forte árvore que aguardava a companhia gentil de Isabel pela eternidade.

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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10. Jardim da Morte: Na paz que a morte traz

O jardim estava envolto em uma tranquilidade quase palpável, o ar estava fresco e carregado do aroma que as flores exalavam. A mulher, que a cada dia trazia...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O jardim estava envolto em uma tranquilidade quase palpável, o ar estava fresco e carregado do aroma que as flores exalavam. A mulher, que a cada dia trazia mais vida àquele jardim e que agora se sentia em casa ali mais do que se sentira em vida, contemplava suas rosas negras. Foi então que a ceifadora apareceu, como sempre fazia, sem aviso, apenas emergindo das sombras com um sorriso misterioso nos lábios. Ela trazia consigo uma pequena cesta de vime, com diversas mudas ainda frescas. 

— Trouxe algo para você. —  Disse a ceifadora entregando a cesta à mulher. 

Os olhos da mulher brilharam ao ver as mudas, não conseguiu segurar tamanha felicidade e sorriu. E isso se tornara mais comum agora. Ela olhou e não reconheceu algumas das flores, com folhas que eram de um verde profundo, e outras com pétalas de um vermelho sangue tão vibrantes. 

— Onde você conseguiu essas belezas? — Perguntou curiosa. 

— Com a jardineira do Castelo Drácula. — Respondeu a ceifadora com um leve aceno de cabeça. — Ela me deve alguns favores. 

— Alguém nesse castelo não te deve algum favor? — Perguntou a mulher rindo. 

— Escuta moça, o que posso fazer se sou uma pessoa muito requisitada. — Ela respondeu usando uma certa afetação na voz. — As pessoas me pedem favores, dessa forma me devem favores, simples. 

— Entendi. —  A mulher disse ainda rindo. 

Sem perder tempo, a mulher se ajoelhou na terra macia e escolheu com cuidado os lugares onde plantar cada muda. Movia as mãos com delicadeza, plantando cada nova vida que ela iria cultivar naquele solo incomum. Enquanto trabalhava no jardim, a ceifadora ficou em silêncio, a observando, até que a mulher quebrou o silêncio, falando com suavidade. 

— Sabe, eu encontrei paz no ócio. — Começou ela, seus olhos ainda fixos na terra enquanto plantava outra muda. — Mesmo que, de vez em quando, eu esteja aqui, no jardim cuidando das plantas, eu não vejo isso como um trabalho, não como via antes, em vida. 

A ceifadora continuou em silêncio, esperando que a mulher continuasse.  

— Antes de tudo isso. — Disse a mulher, se referindo a sua vida passada. — Eu tinha uma vida agitada. Não conseguia parar, eu precisava estar sempre fazendo algo, sempre produzindo. Parar para descansar era perigoso, porque se eu parasse, começava a ouvir minha própria voz na minha cabeça. — Ela fez uma pausa, sua expressão se tornou distante por um momento, como se estivesse revivendo memórias que havia tempo não visitava. 

— Essa voz… — Parou tentando encontrar as palavras certas. — Ela insistia em me lembrar do quão sem propósito minha vida era, do quanto eu estava errada por ter virado as costas a Deus e à minha família por amor. Eu nunca me sentia como se estivesse fazendo o suficiente. Nunca. 

A ceifadora escutava tudo com atenção, mas seu silêncio era de compreensão, permitindo à mulher um espaço seguro para ela desabafar. 

— Aqui no jardim. — Continuou a mulher, agora plantando a última muda. — Eu sinto que estou experimentando uma vida de paz, mesmo que na morte. — Ela riu. — Parece meio complexo, mas a clareza que eu não tinha em vida, agora eu a possuo. E aquela voz, eu consegui silenciá-la. — Ela terminou de plantar e se sentou na terra ao lado das novas mudas, contemplando seu trabalho com um sorriso suave. — Não há mais aquela pressão incessante, aquele vazio que parecia sempre me consumir. Agora, eu só existo, e isso basta. 

A ceifadora, ainda de pé ao lado dela, olhou para o jardim à sua frente, e contemplou toda a vida que a mulher havia trazido para aquele lugar.

— Você encontrou seu lugar. —  Disse a ceifadora em voz baixa.

— Sim, e por mais estranho que pareça, estou feliz por ter encontrado essa paz na morte. — A mulher acenou com a cabeça.

A ceifadora deu um passo à frente e estendeu a mão para ajudar a mulher a se levantar.

A mulher aceitou a mão da ceifadora, levantando-se com leveza.

— Obrigada. — Sussurrou. — Então, o que vamos jogar hoje?

— Ah, sim! Hoje vamos jogar senet. — A ceifadora foi caminhando até a mesa, pegou sua maleta e tirou o tabuleiro de dentro.

— Nunca joguei esse.

— É fácil, um pouco parecido com um gamão. Existe a lenda de que, para sua alma ir para o paraíso, a pessoa deveria vencer Rá numa partida de senet. — A ceifadora falou com um tom de mistério na voz.

— Isso é sério?

— Talvez sim. — Disse a ceifadora enquanto separava as peças. — Mas duvido que você trocaria esse paraíso por outro que desconhece. — Ela sorriu, olhando para a mulher que retribui o sorriso. — Vamos começar.

A ceifadora sabia que, independentemente do que viesse a seguir, aquele jardim seria o lugar onde a mulher havia encontrado a paz que sempre buscou em vida e nada, nem ninguém, conseguiria mudar isso. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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