Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O jardim estava envolto em uma tranquilidade quase palpável, o ar estava fresco e carregado do aroma que as flores exalavam. A mulher, que a cada dia trazia mais vida àquele jardim e que agora se sentia em casa ali mais do que se sentira em vida, contemplava suas rosas negras. Foi então que a ceifadora apareceu, como sempre fazia, sem aviso, apenas emergindo das sombras com um sorriso misterioso nos lábios. Ela trazia consigo uma pequena cesta de vime, com diversas mudas ainda frescas.
— Trouxe algo para você. — Disse a ceifadora entregando a cesta à mulher.
Os olhos da mulher brilharam ao ver as mudas, não conseguiu segurar tamanha felicidade e sorriu. E isso se tornara mais comum agora. Ela olhou e não reconheceu algumas das flores, com folhas que eram de um verde profundo, e outras com pétalas de um vermelho sangue tão vibrantes.
— Onde você conseguiu essas belezas? — Perguntou curiosa.
— Com a jardineira do Castelo Drácula. — Respondeu a ceifadora com um leve aceno de cabeça. — Ela me deve alguns favores.
— Alguém nesse castelo não te deve algum favor? — Perguntou a mulher rindo.
— Escuta moça, o que posso fazer se sou uma pessoa muito requisitada. — Ela respondeu usando uma certa afetação na voz. — As pessoas me pedem favores, dessa forma me devem favores, simples.
— Entendi. — A mulher disse ainda rindo.
Sem perder tempo, a mulher se ajoelhou na terra macia e escolheu com cuidado os lugares onde plantar cada muda. Movia as mãos com delicadeza, plantando cada nova vida que ela iria cultivar naquele solo incomum. Enquanto trabalhava no jardim, a ceifadora ficou em silêncio, a observando, até que a mulher quebrou o silêncio, falando com suavidade.
— Sabe, eu encontrei paz no ócio. — Começou ela, seus olhos ainda fixos na terra enquanto plantava outra muda. — Mesmo que, de vez em quando, eu esteja aqui, no jardim cuidando das plantas, eu não vejo isso como um trabalho, não como via antes, em vida.
A ceifadora continuou em silêncio, esperando que a mulher continuasse.
— Antes de tudo isso. — Disse a mulher, se referindo a sua vida passada. — Eu tinha uma vida agitada. Não conseguia parar, eu precisava estar sempre fazendo algo, sempre produzindo. Parar para descansar era perigoso, porque se eu parasse, começava a ouvir minha própria voz na minha cabeça. — Ela fez uma pausa, sua expressão se tornou distante por um momento, como se estivesse revivendo memórias que havia tempo não visitava.
— Essa voz… — Parou tentando encontrar as palavras certas. — Ela insistia em me lembrar do quão sem propósito minha vida era, do quanto eu estava errada por ter virado as costas a Deus e à minha família por amor. Eu nunca me sentia como se estivesse fazendo o suficiente. Nunca.
A ceifadora escutava tudo com atenção, mas seu silêncio era de compreensão, permitindo à mulher um espaço seguro para ela desabafar.
— Aqui no jardim. — Continuou a mulher, agora plantando a última muda. — Eu sinto que estou experimentando uma vida de paz, mesmo que na morte. — Ela riu. — Parece meio complexo, mas a clareza que eu não tinha em vida, agora eu a possuo. E aquela voz, eu consegui silenciá-la. — Ela terminou de plantar e se sentou na terra ao lado das novas mudas, contemplando seu trabalho com um sorriso suave. — Não há mais aquela pressão incessante, aquele vazio que parecia sempre me consumir. Agora, eu só existo, e isso basta.
A ceifadora, ainda de pé ao lado dela, olhou para o jardim à sua frente, e contemplou toda a vida que a mulher havia trazido para aquele lugar.
— Você encontrou seu lugar. — Disse a ceifadora em voz baixa.
— Sim, e por mais estranho que pareça, estou feliz por ter encontrado essa paz na morte. — A mulher acenou com a cabeça.
A ceifadora deu um passo à frente e estendeu a mão para ajudar a mulher a se levantar.
A mulher aceitou a mão da ceifadora, levantando-se com leveza.
— Obrigada. — Sussurrou. — Então, o que vamos jogar hoje?
— Ah, sim! Hoje vamos jogar senet. — A ceifadora foi caminhando até a mesa, pegou sua maleta e tirou o tabuleiro de dentro.
— Nunca joguei esse.
— É fácil, um pouco parecido com um gamão. Existe a lenda de que, para sua alma ir para o paraíso, a pessoa deveria vencer Rá numa partida de senet. — A ceifadora falou com um tom de mistério na voz.
— Isso é sério?
— Talvez sim. — Disse a ceifadora enquanto separava as peças. — Mas duvido que você trocaria esse paraíso por outro que desconhece. — Ela sorriu, olhando para a mulher que retribui o sorriso. — Vamos começar.
A ceifadora sabia que, independentemente do que viesse a seguir, aquele jardim seria o lugar onde a mulher havia encontrado a paz que sempre buscou em vida e nada, nem ninguém, conseguiria mudar isso.
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao ingressar na faculdade. No entanto, durante a pandemia, retomou a escrita como meio de…
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