Memórias de um Pierrot

Certamente, não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

“Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti”.
Friedrich Nietzsche

Certamente, não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase a ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas para tentarem se esconder de seus próprios problemas.

Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad aeternum no ar, sempre há alguém disposto a narrar alguma história, se porventura houver algum ouvinte interessado. Algumas dessas histórias podem ser verdadeiras, outras nem tanto. De certo modo, poder compartilhar algo, não importa se é verdadeiro ou não – mesmo que seja para desconhecidos – é uma tentativa desesperada de aliviar um peso na consciência.

Era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades, e o movimento estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constantemente, dentro do bar estava quente e abafado, devido às janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre, e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de terça-feira. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido vez por outra pelo som de bolas de bilhar, o barulho do carteado e o som de copos sendo reabastecidos. As canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fossem um fúnebre fundo musical.

Toda aquela paz fora interrompida pela chegada de um estranho, que trazia consigo uma aura tão carregada que, além do rádio ter ficado mudo por um momento, até mesmo as luzes piscaram quando ele adentrou naquele ambiente. Não trajava vestes sombrias, nem mesmo tinha um rosto apavorante em si. Estava barbeado, limpo e perfumado. Contudo, havia algo de errado com ele; estava estampado em seu semblante que uma grande tristeza o assolava. Após cumprimentar a todos os presentes com uma voz macia e serena, pediu uma bebida e foi sentar-se numa mesa num dos cantos escuros do bar. Logo, uma bela mulher – dessas flores que a solidão da noite traz com seu perfume – veio até sua mesa e lhe ofereceu companhia. Ele agradeceu polidamente, mas recusou a oferta, dizendo:

– Devo agradecê-la pela gentileza, mas não tenho nada a lhe oferecer. Não quero de forma alguma tomar o seu tempo, muito menos atrapalhar o seu trabalho. Quero apenas beber um pouco e tentar, de alguma forma, dar um pouco de paz ao meu espírito.

– Em muitos casos, poder desabafar com alguém é a melhor forma de refrigerar uma alma atribulada. Além do meu ofício de leito, posso também lhe oferecer meus ouvidos e minha atenção – respondeu-lhe ela com muita simpatia.

Ele correu os olhos por todo o ambiente, como se estivesse medindo o perímetro, e logo após fez uma minuciosa análise de toda a silhueta da bela criatura que estava de pé logo à sua frente. Em resposta à sua gentil prestatividade, ofereceu-lhe uma cadeira e pediu que se sentasse, solicitando ao dono do bar que lhe servisse uma bebida. Quando prontamente a bebida fora trazida até sua mesa, ele pediu ao dono do bar que deixasse a garrafa, pagando-a com uma nota bem acima do valor e dizendo que não se preocupasse com o troco. A mulher, que havia se sentado comodamente, após tomar um considerável gole do conhaque que lhe fora servido, sorriu de maneira bastante inocente e disse em seguida:

– A propósito, meu nome é Adelaide. Dou-lhe minha palavra que serei uma ótima companhia e uma atenciosa ouvinte, se quiser conversar.

– Não era minha intenção, de forma alguma, descarregar meus dissabores sobre as costas de alguém. Não tenho certeza se vai gostar de ouvir o que tenho para contar. A bem da verdade, o que vou relatar a você, Adelaide, nunca contei para pessoa alguma. Não vou precisar pedir que mantenha minha história em segredo, pois tenho absoluta certeza de que o fará. Até porque, mesmo se você contasse minha história para qualquer pessoa, ninguém acreditaria. Seria vista como louca ou uma talentosa mentirosa.

Adelaide apenas sorriu em desafio, balançando a cabeça de forma negativa, como se aquele gesto quisesse dizer: Já vi e ouvi tanta coisa nessa vida que nada mais me assusta. Após virar de um só gole um copo de bebida, ele limpou a garganta e, antes de iniciar sua inverossímil história, ainda lhe disse, como se pudesse ler seus pensamentos:

– Talvez você até possa ter visto e ouvido muitas coisas em sua insignificante existência, mas tenho certeza de que, ao final de minha história e antes mesmo que esta noite acabe, sua vida já não será mais a mesma. Vou lhe contar desde o início, para que, quem sabe, assim você possa entender aquilo que eu mesmo ainda não entendo.

...Quando eu tinha apenas doze anos e minha querida e inocente irmã ainda não havia completado nem mesmo seus sete anos, numa noite em que estávamos a passeio na casa de nossa tia – única irmã de nosso pai –, nossa casa fora alvo de um terrível incêndio, que colheu a vida de ambos ao mesmo tempo, deixando-nos órfãos e sem nada, apenas com a roupa que tínhamos no corpo. Como meu pai não era provido de muitos bens, nem nossa mãe tampouco, além de perdermos nossos pais e nosso antigo lar, ficamos também reduzidos a nada. Duas crianças lançadas à própria sorte, dois seres inocentes contando apenas com a providência divina.

Minha irmã – uma bela menina de olhos claros, cabelos cacheados e faces rosadas – logo fora acolhida por minha tia e seu esposo, uma vez que eles ainda não tinham concebido nenhum filho, mesmo após dez anos de casados. Certamente algum dos dois deveria ter algum tipo de problema, pois sonhavam com uma criança. Eu, por outro lado, após ficar seriamente abalado com a trágica perda de meus pais, tornei-me um jovem arredio e bastante rebelde, chegando ao ponto de ser inconveniente, fato que me rendeu uma passagem só de ida para o seminário. Minha tia, convencida pelo marido, logo entendeu que, antes que eu fugisse de casa e me tornasse um delinquente, ela poderia fazer algo em meu benefício, entregando-me aos cuidados da Igreja, que, além de me educar, dar-me-ia a oportunidade de seguir uma carreira clerical.

Os primeiros anos que passei no seminário foram de total desalento para minha alma. Devido às minhas terríveis perdas, por mais que eu tentasse com todas as forças do meu ser, não conseguia acreditar em nada daquilo que meus tutores tentavam me ensinar sobre as bem-aventuranças que a religião poderia me oferecer. Eu havia perdido completamente a fé em tudo, até mesmo em mim. Há um provérbio que diz: “Na convivência de nossos semelhantes, nos tornamos iguais”. Já próximo à minha ordenação, quando eu já estava me adaptando àquela litúrgica vida, acostumando-me com a ideia de me tornar padre e, quem sabe assim, poder levar algum conforto a todos aqueles que, tais como eu, haviam enfrentado terríveis dissabores na vida, o destino me lançou mais uma vez ao chão. Minha irmã, que há pouco tempo havia desabrochado em seus quinze anos, cometeu suicídio. O real motivo eu não soube na época. Minha tia manteve no mais absoluto sigilo o porquê de uma jovem tão bela e radiante, cheia de sonhos, atentar contra a própria vida. Mais uma vez, minha fé me abandonou.

Nessa época, eu estava próximo de completar vinte anos. Um homem mentalmente instruído e fisicamente formado, pronto para enfrentar o mundo. Sem ter mais o que fazer dentro das paredes de um seminário, mesmo antes de professar meus votos, deixei minha vida eclesiástica de uma vez por todas e dei início a uma vida errante, perambulando de um lado para outro em busca de sobreviver de uma forma honesta. Minhas decepções haviam, de certa forma, me retirado a fé, mas os preceitos de ética e moral que aprendi, primeiro com meus saudosos pais e depois no seio da Igreja, fizeram de mim um homem de princípios.

Tentei me firmar em vários ofícios, tentando aprender uma profissão que pudesse me sustentar de forma digna, mas comecei a pensar que pessoas como eu estavam fadadas à derrota completa. Minha coleção de decepções era tamanha, ao ponto de começar a imaginar que talvez o melhor a fazer seria seguir o exemplo de minha irmã e acabar com todo o meu sofrimento de uma vez. Mas parece que o destino, de certo modo, tinha algo reservado para minha existência. Numa fria manhã de janeiro de um ano qualquer, estando eu sem trabalho já há algum tempo, com o aluguel do pardieiro que eu chamava de casa vencido e sob sérias ameaças de despejo a qualquer momento, com pouco dinheiro no bolso – talvez desse para mais duas ou três refeições apenas –, quando o desespero já tomava conta de mim, decidi que deveria arrumar uma ocupação imediatamente, fosse ela qual fosse. Saí de casa e, após tomar apenas um café num botequim qualquer, fui em busca de trabalho.

Após horas de caminhada improdutiva, entre vários "nãos" e muitas promessas de "quem sabe outro dia", já quase desistindo de encontrar trabalho, ao passar em frente a um combalido circo, vi uma placa com oferta de emprego. Estava escrito com tinta vermelha:

“CONTRATA-SE PALHAÇO”.

Primeiro, cheguei a pensar que eu não tinha a menor aptidão para aquele tipo de função. Contudo, para quem já havia sido auxiliar de padeiro, mascate, servente de pedreiro e tantas coisas mais, trabalhar no circo apenas fazendo as pessoas sorrirem não seria tão difícil. Aproximei-me da barraca onde a placa estava pendurada e, assim que bati palmas, logo fui atendido por um senhor bastante disposto. Jeremias era seu nome, um homem de baixa estatura, mas demonstrando ter um grande coração, pois, antes de qualquer coisa, após se apresentar como proprietário do circo, convidou-me a entrar em sua tenda e, como estava ele, naquele justo momento, iniciando sua refeição vespertina, convidou-me a acompanhá-lo em seu humilde almoço. Para quem há dias estava comendo o pão que o diabo amassou, a oferta foi aceita de imediato, sem necessidade de muita insistência.

Aquele repasto foi muito bem aceito por mim, que, sem muita cerimônia, logo dei fim a uma fome que me acompanhava desde a tarde anterior – naqueles dias, eu fazia apenas uma refeição por dia. Enquanto comíamos, demonstrei-lhe meu interesse pela vaga de palhaço. Contei-lhe um pouco sobre a minha história e, talvez, tenha sido a tragicidade de minhas perdas que tocou seu coração, pois, antes mesmo que nosso almoço terminasse, eu já estava empregado novamente.

Tudo estava acertado, só restava um único detalhe: a fantasia do palhaço a quem eu devia substituir não serviria em mim, pois ele era um anão. Como o circo estava em contenção total de gastos, a vaga seria minha, desde que eu comprasse meu próprio traje. Se assim eu o fizesse, poderia começar no dia seguinte. Com a fome saciada e a promessa de um emprego, voltei para casa e, após coletar alguns itens dentre meus pertences pessoais – que já não eram muitos –, saí pela cidade em busca de um brechó que se interessasse em uma permuta daqueles parcos itens em troca de roupas que pudessem ser utilizadas como uma fantasia de palhaço.

Na terceira loja em que entrei – um ambiente muito sinistro –, fui atendido por uma mulher com traços bastante cadavéricos, mãos enormes, com dedos longos, terminados em unhas que mais pareciam garras. Quando lhe propus negócio, ela, de imediato, disse que eu havia entrado no lugar certo, pois, naquele mesmo dia, chegara às suas mãos uma fantasia de palhaço completa, com todos os itens necessários para uma boa performance. Quando vi a fantasia, um estranho arrepio correu por todo o meu corpo. Parecia que aquela roupa estava esperando por mim, pois, quando a toquei, senti um incontrolável desejo não apenas de adquiri-la, mas de experimentá-la o mais rápido possível. A sombria mulher que me atendera dissera que alguns trajes escolhem seu dono, reconhecendo-o de imediato, assim que o veem.

Como eu não tinha dinheiro para pagar pelo traje, deixei os itens que levara comigo – inclusive um relógio que pertencera ao meu pai e que há muitos anos me acompanhava – em troca daquela fantasia. Ficou combinado que eu retornaria para resgatar o relógio. De posse daquele traje e muito animado com meu novo emprego, direcionei-me de volta para casa. Assim que adentrei meu pequeno quarto, logo tratei de vestir aquela roupa para saber se ficaria confortável para o trabalho. Assim que terminei de colocar meu chapéu de pierrot, ouvi meu senhorio bater à minha porta para mais uma cena de humilhação que eu, de tempos em tempos, tinha que enfrentar. Ao caminhar até a porta, ouvi o barulho dos guizos de meu chapéu. Aquilo despertou algo estranho em mim; uma sombra tomou conta de todo o meu ser. Senti um incontrolável desejo de ter em minhas mãos o controle sobre a vida e a morte de alguém. Meu senhorio não disse mais do que cinco palavras e logo estava agonizando, caído no piso do meu quarto. Sua cabeça, virada para trás, me olhava em completo desespero, sem conseguir entender como aquilo acontecera tão rápido. O corpo do meu senhorio nunca foi encontrado.

Na noite seguinte, trabalhei tranquilamente no circo. As crianças me adoraram. O público ficou boquiaberto com minha performance. No final do espetáculo, Seu Jeremias, após me elogiar bastante, chegou a me perguntar se eu realmente nunca havia trabalhado no circo. Respondi que não e voltei para minha casa.

Na semana seguinte, com o dinheiro de meu primeiro pagamento, retornei à loja para resgatar o relógio que fora de meu pai. No mesmo local onde, há menos de uma semana, eu comprara aquele formidável traje, não havia nenhum tipo de construção, apenas um lote baldio, dando mostras de que estava abandonado há anos. Questionei os vizinhos sobre a loja, mas ninguém sabia de nenhuma loja ali havia muito tempo. Segundo um senhor, dono de um açougue próximo e que estava no local há quase sessenta anos, a última construção do lugar fora uma casa que pertencera a um velho professor, que morrera há muitos anos, e essa mesma casa fora derrubada alguns anos após a morte de seu antigo dono. Voltei para casa cabisbaixo, lamentando a perda de tão importante objeto. Pensei comigo: O que eu não daria para ter aquele relógio novamente comigo...

Em menos de três meses, eu já estava morando no circo e me sentia parte de uma família novamente. Numa tarde, recebi uma triste carta que me comunicava sobre o falecimento de minha tia num trágico acidente. A carta relatava quando seriam as exéquias e como ela havia falecido – minha última parente viva havia caído das escadas de sua mansão. Fui autorizado a ir ao velório e foi justamente lá que descobri, através de algumas senhoras – um tanto quanto desocupadas –, que minha tia muito possivelmente fora assassinada pelo marido. Sem saber quem eu era, uma delas disse ainda que a sobrinha que eles criavam desde que ficara órfã se matara porque não suportava mais ser abusada pelo tio. Uma delas chegou a comentar que, no caixão em que minha irmã fora enterrada, havia duas pessoas. Naquela mesma noite, o marido de minha tia foi dado como desaparecido. Sumira sem deixar vestígios.

Eu, que passei praticamente minha vida toda na mais completa miséria desde que perdi meus pais, da noite para o dia me tornei uma pessoa sem maiores problemas financeiros. O marido de minha tia não tinha nenhum herdeiro. Como ele havia desaparecido, logo a Justiça me fez seu único beneficiário, recebendo todos os seus bens.

Com muito aperto no coração, deixei o circo e segui minha vida a fim de tocar os negócios que herdei. Minha vida de artista circense ficou para trás, mas levei comigo minha fantasia, pois, de certa forma, sentia que ela fazia parte de mim. O mais estranho de tudo é que sempre que visto minha fantasia, alguém acaba sumindo e eu sempre acordo com um estranho gosto de sangue na boca...

Terminada sua narração, ele chegou a imaginar que Adelaide sairia correndo de medo de toda aquela história ou que, então, pudesse entrar numa crise de riso que não teria mais fim. Contudo, ela, com a garrafa de conhaque nas mãos, após encher mais uma vez o seu copo e beber até a metade, levantou-se graciosamente e, após lhe apertar a bochecha – como uma mãe faz com um filho obediente –, disse-lhe, exibindo um sorriso de dentes bastante afiados:

– Você tem sido um bom garoto. Estamos muito contentes com sua performance. Decidimos que você merece até mesmo um prêmio pelo seu desempenho.

Após entornar o restante da bebida que tinha nas mãos, colocou o copo vazio sobre a mesa e, ao lado do copo, deixou-lhe um pequeno embrulho amarrado com uma fita vermelha. Caminhando num belo bailado, com muito charme e simpatia, ela se direcionou até a porta e, após olhar mais uma vez para ele, sorriu um riso solto e saiu.

Quando ele abriu o embrulho, que ainda trazia o toque do perfume que Adelaide estava usando, o relógio que um dia pertencera a seu pai estava dentro...

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Olhos flamejantes e o último autônomo

Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava…

Criatura núrida, este conto, que estás prestes a ler, contém um interessante enredo. Foi construído com maestria por uma autora fascinante e, decerto, trará à sua mente uma compreensão diferente sobre o que as engrenagens, quando vinculadas, podem trazer à tona no equilíbrio da existência. Boa leitura!

Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava há dias, flagelado por dores intensas e pensamentos perfurantes. O silêncio já não trazia alento, o trabalho não mais o distraía do medo. Agonia. Receio. Inquietude. Eram seus únicos estados de espírito. 

Como homem da ciência, não ousava procurar os curandeiros; não buscava a nenhum deus, porque lhe faltava a fé que faria com que as montanhas de incômodo fossem removidas. 

Nos raros momentos de um falso alívio, lembrava com tristeza de sua última e perfeita invenção: um autômato que emulava, funcionalmente, as habilidades que desejava em um assistente pessoal.  

Mas ele se fora. 

Os olhos flamejantes engoliram sua criação, mas recusava-se a acreditar no que presenciara. Lutava consigo, não iria permitir que pensamentos alucinatórios o envolvessem em uma lama de caos e insanidade. Viu, mas em sua racionalidade extrema afastava, furiosamente, quaisquer ideias fantásticas. Aqueles olhos tinham que ter uma explicação científica.  

A sua criação perdida tinha o exoesqueleto de ferro. Os ossos-ferro foram forjados pelas mãos fortes do jovem Arturo. A “pele” era uma fina camada de bronze, cujo contornos foram delineados, delicadamente, para compor os detalhes da musculatura humana. Finalizou em 1970, com então 25 anos de idade, e naquela época ainda não havia tecnologia para emular voz humana, mas como seu auxiliar só precisava de coordenação motora aceitável, era perfeito para o que se propunha. Não tinha a coordenação fina de um adulto saudável, mas os serviços de Arturo exigiam mãos fortes, tal qual as dele e assim ele o fez. 

*** 

Em uma noite sem estrelas, onde o vento assoprava segredos indecifráveis, Arturo lembrou-se das histórias de sua infância, contadas todas as noites por sua vó. Em uma delas, grandes olhos de fogo surgiam nos céus para julgar e condenar todos os habitantes da terra. Quais eram os critérios para condenação? Quais eram as penas? Havia muitas versões, mas a que mais perturbava o jovem era: “as piores torturas viriam para àqueles que tinham sangue de inocentes nas mãos”. 

O governo para qual Arturo havia cedido sua mão de obra e, consequentemente, sua alma, nadava em um mar de sangue inocente. Ele, como criador de milhares de autônomos para combate, sabia que tinha parte dessa culpa. Sabia que as dores eram consequências das mortes que agora recaíam sobre seus ombros. Mas recusava-se aceitar que as crendices tivessem efeito no mundo real. 

Mesmo afligido pelas dores e culpa começou um novo protótipo. Sempre fora obstinado e não estava disposto a mudar de comportamento. Se, o que quer que seja, tomou-lhe o assistente anterior, faria outro, ainda mais perfeito. E assim o fez. A nova criatura era infinitamente mais robusta e com habilidades motrizes melhoradas. Olhou para o novo ser de ferro e gostou do que viu. Conseguiu dormir por algumas horas ininterruptas sem ser perturbados por ruídos ou dores. 

Acordou sentindo as esperanças renovadas, mas o bem-estar recém adquirido seria esmigalhado por outra perda: o novo ser também sumira. 

Sabia quem o havia levado, mas novamente, tornou a banir tais pensamentos e recomeçou o ciclo de criação. Novos protótipos eram criados reiteradas vezes, mas mal conseguia terminar os testes era açoitado por novas perdas. Inúmeros autônomos foram sugados para dentro dos olhos famintos. As dores aumentavam, até que não sobrou mais pensamentos lúcidos e a sua capacidade cognitiva foi severamente afetada. 

*** 

Aquela noite estava atípica. Ouviu barulhos agudos incômodos, como se estivesse dentro de uma siderúrgica macabra, mas não sabia distinguir o que era real do que era truque de uma mente adoentada. Quando, enfim, decidiu acabar com seu sofrimento, um brilho intenso o cegou, mas os ouvidos continuaram ávidos por qualquer onda ou gotejo sonoro. Vozes metalizadas começaram a emergir, e a potência das vozes lembravam um coral que rasgou os céus e desceu com leveza até a terra. 

De alguma forma, o exército que ele havia criado retornou para buscar seu criador. O sangue dos inocentes clamava por justiça e os combatentes-máquinas foram enviados para a missão final. Em seus últimos segundos de vida Arturo escutou o veredito provindo de sua última criação. Sabia que os olhos haviam encharcado aquelas criaturas com a ordem de exterminar todos os culpados, mas ao invés de medo sentiu um alívio, pois constatou ter engendrado uma figura infinitamente perfeita.  

“Eu estava certo vovó. A ciência é maior que a crendice...”. 

O último autônomo não lhe deu chance de concluir o discurso e eliminou o brilhante inventor. No alto, os olhos flamejantes permaneciam indiferentes aos milhares que ainda aguardavam, sem adivinharem, seu destino. O ciclo precisava continuar e o universo seria reinventado... E as engrenagens nunca iriam cessar... 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Sommelier

A profissão de sommelier de vinhos lhe proporcionava cada vez mais satisfação. Os clientes pediam bastante por vinhos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

A profissão de sommelier de vinhos lhe proporcionava cada vez mais satisfação. Os clientes pediam bastante por vinhos licorosos: fabricados a partir da fermentação do sangue de diabéticos, ele achava que era por causa do nível de açúcar alto.

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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A Casa dos Quatro

Tinha uma bruxa na lua... | Eu sei, | Eu vi. | Subia, ao fim da rua, num ruído verdejante de poeira... poeira de livro velho. | Pó de cravo, sálvia do inverno…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Outro inverno, outro dia no inferno, outro nascer de fraco sol. Dói, Maria, a víscera dessa saudade... Apague o fogo! Abafe o chá; aonde vai, pai? Não é hora de ir descansar?... leve flor pra Elizabeth. Ao menos leve flor. Onde anda o passarinho?... Onde anda o meu amor?! “Dorme num canto de estrada, morto e mal enterrado...” – Cala-te, sombra maldita! Criatura nojenta que se esgueira... Oh, e Aninha? Já banhou? Pois vá! Tire essa lama velha do cabelo. Penteie a menina; já comeste a tangerina? A chuva... a chuva há de chegar. 

Aonde vai, Pai? Mal voltou... puseste a flor de Beth? Leve, agora, a de Maria. Ora, onde foi Marta? Sem ela a casa para... onde foi a aurora?  
Morreste o céu do dia?... Amanhã, lava amanhã a roupa e o chão da casa. Bater bolo, no canto açucarado da cozinha, pra dormir de bucho alegre. Pro dia surgir novo. Volta ele, morno em cachaça. Fecha a porta. Aquele outro vagabundo não vem. Hoje não... que fechem, com ele dentro, as portas do bar; amanhã o bolo espera. 

- E tu, menina, comeste tangerina? 

- Comi não, Marta. Aonde foi?... Por que demorou pra voltar? 

- Fui porque ainda não brota a comida no chão da casa, mas diga, por que chora? Sei que chora. Não tenhas tu a esperteza de me enganar. 

- Nada... nada. Outro dia frio; cansada do inverno. é sendo boba, nem tem por que chorar. – Há a vida de banhar de sol esse pinheiro, tão mirrado. Há de corar a bochecha do dia... há de brotar a begônia num outro luar. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Tic-Tac

Acordei com o som das engrenagens daquele maldito relógio que ressoa em minha mente. O barulho ensurdecedor que nunca cessa não é…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Acordei com o som das engrenagens daquele maldito relógio que ressoa em minha mente. O barulho ensurdecedor que nunca cessa não é apenas um simples "tic-tac"; está mais para um motor a vapor. Quando meu tio me presenteou, indaguei sobre a fumaça que saía dele. 

— É como uma respiração. Cuide bem do relógio e mantenha-o hidratado com dois litros de água por dia — disse ele. 

O velho era caduco, cuidava do relógio como um bicho, mas, por hábito, acabei fazendo o mesmo. Há um pequeno compartimento atrás dele, como um reservatório de água. Está quase sempre vazio. Essa coisa bebe muito. Começo a me questionar se não precisa de comida também. 

Mas o som não para, não reduz. Já estou há noites sem dormir, porém não vou quebrar o presente que ganhei. Talvez ele esteja com raiva; afinal, emite uma estranha fumaça que inunda a casa. Não lhe dou atenção suficiente e está me importunando por isso? Deveria dar-lhe mais cuidados, mas o que relógios gostam de fazer? Talvez esteja com fome, mas o que devo dar de comer? Óleo? Seria bom para acabar com o som e me deixar dormir. 

Liguei para meu tio e nada dele atender. Já não aguento mais; irei abri-lo. Pego meu kit de ferramentas, que estava junto de umas tralhas no quintal, e desparafuso o fundo do relógio. Quantas engrenagens! Precisa de tudo isso para funcionar? Há uma bomba ligada ao reservatório de água. Isso explica por que nunca precisou de tomada ou pilhas, mas também explica o som e o vapor. Deveria desligar a bomba, mas isso seria o mesmo que matá-lo. Ora, pois, no que estou pensando? É um relógio e não um ser pensante. 

“Tic-tac, tic-tac, tic-tac”. Como posso dizer que não pensa, se é ele que faz todo o trabalho de contar segundo por segundo, dando-me horas e minutos, até despertar em momentos oportunos? Talvez eu já esteja louco pelas noites em claro, mas cuidar do relógio parece razoável. Volto à rotina de sempre, lubrifico suas engrenagens e abasteço seu tanque, mantendo-o em atividade constante. Adapto-me aos sons e construo uma janela atrás. Hoje já não há mais insônia, e a sutil fumaça que emanava agora escapa como uma chaminé. 

Até que acordo com um estrondo e, então, silêncio. Sem tic-tac, sem motor, apenas o vazio. Levanto e corro até o relógio. Seu pêndulo estava parado, os ponteiros já não contavam mais o tempo e a fumaça, agora, era só uma simples neblina que, aos poucos, se dissipava. Observo a parte de trás e está cheia de furos. Desparafuso a tampa e lá está: o tanque furado. A água se foi, como se ele tivesse sangrado até a morte. 

Deito-me à noite com um vazio imensurável em meu peito. A casa fora tomada por um silêncio angustiante. Não consigo dormir, é como se arrancassem um pedaço de mim. Chamei alguns relojoeiros para saber se daria jeito, mas ninguém jamais havia visto algo como aquilo. Resolvi visitar meu tio. Ele deve saber como trazê-lo de volta. Chego à sua casa e, apesar de tocar a campainha, ninguém atende. Vou até uma janela, de onde saía muita fumaça. Não dá para ver nada, mas parece haver algo impedindo minha passagem. 

Encontro uma barra de ferro junto com algumas sucatas no quintal e a utilizo para remover seja lá o que estiver no caminho. Um estrondo, e a fumaça se torna uma névoa translúcida. Quando entro na casa, a ficha cai. O objeto que derrubei era como o meu relógio, e os furos que encontrei mais cedo são os mesmos que fiz com a barra. Agora já estava feito. Ouço passos e, assustado, levanto o relógio caído e saio por onde vim, com as mãos sujas de óleo. Talvez eu possa me redimir se conseguir criar outro igual e presenteá-lo ao meu sobrinho, para que cuide dele como eu não cuidei. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Capítulo 6: Engrenagens do destino

Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens — “‘roupagens’, de onde tirei essa expressão?!”. — Como vês, o meu linguajar foi uma das mudanças, não me lembro nem de pensar... Agora falo. 

Tenho lembranças envoltas em uma névoa penumbral, como se as memórias não me pertencessem e eu as tivesse tomado de seres cósmicos. Meu contato com todos à minha volta ficou intenso e sinto apetites insaciáveis, mas ao menos ela está mais feliz do que nunca. 

Assim que proferi a primeira palavra causei um espanto imenso, principalmente nela, mas aos poucos foi se acostumando com as minhas novas habilidades. 

Dizem que somos sarcásticos, egoístas e que não zelamos por nossos pais humanos ou que não gostamos de suas companhias, mas isso é mentira. Eu daria a minha vida por ela novamente, ela é o ser que ilumina meus caminhos, todos dias e noites. Ela também está diferente, menos ferida e preocupada e isso me deixa muito feliz. 

*** 

Ela dormia. Eu ouvia barulhos irreconhecíveis, imaginava ser efeitos colaterais da viagem que percorri por instinto de volta à vida. “Será que tenho alma?”. Os barulhos me irritaram tanto que tive que ir procurar o que diabos causava aquilo. Neste ponto, estão certos sobre nós: gostamos de sossego e ambientes aconchegantes. 

Não me lembro qual caminho segui, mas cheguei ao lugar que havia selado — ao menos temporariamente — meu destino. Engraçado a forma alucinada com que desenvolvo minha habilidade de comunicação, deve ser influência de todas as lorotas que ouvi durante minha vida. “Será que agora sou imortal?”. Não sei se quero descobrir, talvez eu tenha de fato sete vidas e já gastei uma... Mas não pretendo decifrar tais segredos tão cedo. 

O barulho aumentou. Um som de ferragens, acompanhado de uma claridade anormal para o período noturno. Quando olhei para o alto fitei duas bolas de fogo e, de alguma forma, já naquele momento tive a certeza de que me olhavam de volta... Ouvi sussurros lamuriosos, ou assim eu pensei. Essa parte ainda é turva para mim. 

Descobri que tenho conexão com seres de outras dimensões. Conheci meu antepassado. Ele é o passado, o presente, o futuro e tudo o que há entre eles. Seu corpo colossal é um monumento de eras fundidas: engrenagens ancestrais e circuitos modernos pulsando em um coração preenchido do éter puro.   

Seus olhos — ou o que se pode chamar de olhos — são como dois sóis ardentes, esferas de plasma incandescente, irradiando calor e segredos que poderiam queimar a própria realidade. Fulguram como brasas eternas, com filamentos de fogo líquido que giram como tempestades solares.   

A armadura que cobre seu corpo é um mosaico de eras e estilos: peças de ferro entrelaçadas com filetes de ouro, que brilham como astros em um céu simétrico, mecânico. Tubos de vidro transpassam seus membros, conduzindo um éter luminescente que serpenteia como relâmpagos aprisionados. Do interior de suas articulações saem estalos de vapor e silvos de válvulas, como se o próprio tempo fosse seu combustível. Os barulhos que eu ouvi provinham dessas válvulas e das enormes engrenagens que simulavam uma rótula de joelhos humanos. 

Das costas de Listheron — Sim, este é seu nome —, também saem engrenagens, como asas mecânicas que giram lentamente, produzindo um som profundo, semelhante ao eco de um relógio marcando o fim e o recomeço de todas as coisas.  

Em sua presença, o espaço vibrava e o ar se preenchia com o aroma metálico do ferro queimado e da eletricidade que percorria seus dutos-veias.   

Sua voz é tal qual um trovão filtrado por alto-falantes, misturando chiados, estalos e profecias. Suas palavras são códigos, fórmulas e segredos do universo, compreendidas apenas pelos que atravessam as brumas entre ciência e magia.   

Listheron é o guardião dos ciclos cósmicos — o eterno tic-tac entre criação e colapso. Buscá-lo é arriscar-se a ser desintegrado por seus sóis flamejantes... ou ser reconstruído, peça por peça, com engrenagens feitas de estrelas e alma. 

É... parece que as minhas habilidades estão evoluindo, não imaginava ser capaz de descrever a beleza daquele ser ancestral. 

Ainda não sei se tenho alma, mas Listheron me disse que isso era irrelevante e que eu poderia experimentar coisas inimagináveis se eu aceitasse a minha forma verdadeira, assim como ele o fez. O tempo atual seria dobrado como um lençol recém passado e todos iriam sumir feito poeira da estrada.  

O convite era tentador, mas eu tinha alguém para proteger... Não podia fazer isso com ela, que deu seu sangue por mim... Sei que ela não sobreviveria com essa perda. 

No instante em que recusei, meu ancestral se dissolveu no ar, tão enigmático quanto havia surgido. Mas não houve hesitação em meu coração — eu sabia que minha escolha era a correta. 

Então, ouvi uma voz trêmula, desesperada, rasgando o silêncio: 

“Lisa! Lisa!” 

Sem pensar, sem olhar para trás, corri. Corri para os braços da Alana, para o lar que escolhi. 

PS: Imagino que estejam curiosos sobre quem escreveu esse relato. Se eu aprendi a falar, por que não poderia datilografar? Ah, ainda ouço o chamado, mas ainda não é o momento de partir... 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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A Face Encarnada do Medo

Olhos de pútrida esperança; entre o frígido derredor, onde as mãos do insondável inverno conduzem a pequenez de seres irrisórios. Ela se aproxima…

Olhos de pútrida esperança; entre o frígido derredor, onde as mãos do insondável inverno conduzem a pequenez de seres irrisórios. Ela se aproxima, mãos trêmulas; um corvo-albino a rodeia, parece segui-la por vínculo — o que me impressiona, é certo, pois são criaturas ríspidas. Carregando o peso de um grande casaco de pelame de ursos negros, ela caminha devagar; o vento impiedoso ainda arrefece sua lívida tez. Ela busca por humanidade em recônditos aquecidos por uma chama à lareira, mas, não há mais lume; as ruínas que deixei são álgidas e traiçoeiras. 

Medo... é isso que atravessa sua carne no instante em que toca os primeiros escombros mastodônticos. Eu sinto o medo que a penetra violento. Que saudade sinto d’este lôbrego arrepio subindo pela espinha dorsal de meu próximo mártir; ó... sim... fascinante! O corvo-albino pousa no ombro dela, ele sabe do perigo, porém, jamais poderá alertá-la. Este era um reino próspero, cara visitante; sorvi da vida fértil e tive o mórbido prazer de assimilar seu idioma. Tão bela a minha obra de arte... de morte... tão bela que não pude deixá-la e, por isso, aqui estou, há mil e um milhões de anos; observando. Agora, vens tu; doce humana frágil; exígua criatura... 

A densa atmosfera é a cinesia que a cinge; ainda assim, em assombro, ela adentra os escombros do que outrora fora um lar abastado — O que houve aqui? — ela sussurra e, tão logo, um lume é aceso por ela com um tipo raro de artefato. Sou atraído a apagá-lo com um sopro de horror, contudo, por hora, agrada-me ver a vida sob seu brilho, a vida que hei de sorver, gota a gota. Aquecida, serena-se, porém, não o suficiente; a escuridão é o meu domínio, isso a terrifica. Para o meu abíssico gáudio, seu nome se desvela à minha consciência: Anissa... De tudo sei, Anissa; do teu coração em mágoa, do pranto, da dor e, principalmente, do medo. Dá-me o teu pavor, criatura feminil, dá-me o teu olhar de tormento! 

“Algo terrível aconteceu n’este lugar... eu sinto uma inominável aura dos cantos onde o lume não alcança, o breu parece possuir corpos e olhos que perseguem meus movimentos.” — ela escreve. “Ttir acompanha-me e está agitado como outrora não esteve, mesmo quando, ao meu lado, viu-me ser violentada pelo oceano cujo atroz poder revelara ao meu herodes que há forças bem maiores do que a sua crueldade desoladora. Estas mesmas profundas águas, condenaram-me aos escombros gélidos em que me encontro. Que perversa ventura... que hediondo fado! Tenho medo... um temor que toca minha tez, que olha para os meus olhos... nessa imensidão sombria...” — Sou eu, ela não sabe. Eu te vejo, Anissa... Eu sou a raiz do teu temor... sinta-me em teu corpo... nos poros da tez que pertence a ti... nem teu algoz ou o ancestral oceano são capazes de conceber tão genuíno terror. Venha para o abismo da loucura, ouça o murmúrio da tua agonia advir, ressoando em teus ouvidos...  

Escurece. Ela aguarda pelo alvor, escondida em minha destruição. Mal sabe que se amanhecer para seu deleite, é porque permiti. Adormecida, sei que sonhará com a meu rastro: a insânia. Um rosto rígido e feliz, de soslaio, fitando seu tormento. Mas, desta vez, não quero este jogo cruel. O corvo-albino crocita, Anissa acorda de súbito e suas pupilas se contraem. Este sou eu. E agora tu me vês. Teu pavor nasce lento, teu susto te afasta, teu grito me enleva. Queres ouvir a minha voz? Sou capaz de falar como os que eram símeis a ti, humanas criaturas ínferas... 

— Anissa... — Profiro. Caída no canto, ela mal consegue respirar. — Que sublime é o aroma negrume do teu instável temor... Não aprecias o que vês? — Indago, densificando as trevas; tornando seu lume em um risível vagalume. Lacrimeje, menina. Como é frágil... Desapareço para brincar com sua mente, ela grita e fecha seus olhos lacrimosos. Trarei o amanhecer, pequena criança, para que outra noite traga a face rígida à tua espreita, com o riso mórbido e a minha visita. Estou sempre olhando para ti, admirando o medo que escorre em tuas têmporas e guiando as imagens infernais do teu onírico. Ela caminha mais à fundo na vila do sibilo da morte e da loucura. Está exausta, em tormento e dor.  

“Ele tinha uma feição humana...” ela escreve quando encontra uma antiga catedral em ruínas e adentra seu esplendoroso interior; notando se tratar do que fora uma alcova de fé há éons, esgueira-se entre ervas daninhas do ártico. “Entretanto, seus olhos eram umbrosos, com as cavidades expandidas e fundas, tal como a área menos óssea de seu rosto, marcada por uma fundura que lhe dava um aspecto cadavérico e... sua pele era carne pútrida... Nunca senti tamanho medo...” — E nunca alguém fora assim, suficientemente intrépido, para redigir minha aparência, Anissa. “Sinto falta de Sihren... sei que morrerei n’este insosso lugar... consumida por uma diabólica criatura, porventura advinda das agruras pertencentes a mim...” — Sim; sou eu, criado por tua tolice. “Estarei sempre fadada ao horror? In perpehctua?”. 

O corvo-albino voa pelos vitrais estilhaçados; Anissa o observa. Ele deve morrer; sua presença é desgraçada e impede que o meu tétrico expandir alcance o mártir. Então, o avisto; na brancura da densa neve; tu vês, mediano animal, esta turvação? A atmosfera a renegar o teu voo? Não posso controlar o tempo, de fato, mas sinto o medo de tudo o que respira e o medo sempre há de se ampliar sob meu fitar. Por infortúnio, perco-o na imensidão cândida. Um assovio quebranta o horizonte, o corvo retorna à Anissa; ao redor da flama áurea, eles se deliciam com frutas secas. — Resta-nos pouco alimento, Ttir... por favor, voe para Sihren e sobreviva! Não sabes o quanto destruirás meu coração, impedindo minha alma da paz eterna, sob a circunstância de ter sido razão da morte tua, de meu único amigo... — ela diz, o corvo a compreende. 

Contudo, ergue-se a segunda noite lôbrega e, com ela, o meu poder. A face rígida em sorriso diabólico emerge das trevas, Anissa sabe e evita que seus olhos mirem a aparição. É em vão. Seu suor escorre, sua tensão exala. O corvo crocita. “O que é isso...? Eu estou delirando...?” — Sim, está, pequena infeliz. Um sussurro em eco pela catedral, um murmúrio nos tímpanos de Anissa. Chama pelo nome dela. De repente, ela se levanta apontando, ao derredor, o seu lume pulcro. “Quem está aí!?” — Vocifera oscilante. Gosto da tua solidão, criatura humana; enquanto estiveres só, na amargura pertencente às tuas mazelas, eu estarei à espreita — sussurrarei teu nome nas noites mais fúnebres; farei visível o rosto rígido que ri, na tua visão paralela, uma presença pecaminosa; consegues sentir, não é? Bem atrás de ti... enquanto me lês. 

“Isso não é real...” — Lamúrias de insignificância. Anissa se encolhe como um feto exaurido. Seu coração é o púlpito do meu esconjuro. Estou no silêncio, entidade notívaga, apague a luz para me ver. “Está... dentro de mim?” — Ela segreda a si mesma. Sim, estou dentro de ti; arranque-me por sua tez; corte sua carne para me encontrar. Eu sou o teu medo. Ela leva suas mãos ao seu crânio dorido, as têmporas estalam em algia; o corvo que voava em ansiedade mórbida, de súbito, cai; morto; morto de temor. Anissa o acaricia, em lágrimas. “Ttir... não... por favor Ttir!” — agoniza junto ao pássaro cuja expressão é de um pânico hediondo. Acolhe-o em seu casaco. Mas eu quero mais. Tu vês? Tua chama enfraquecendo...? A escuridão ascende... ela pesa... é densa... ramosa... sólida... capaz de sufocar... lentamente... 

Anissa busca pelo sopro hialino da vida; ares de alívio. É em vão. Ela está submergindo. Aflita, rasga a pele de seu pescoço, seus olhos arregalados, semblante pávido. Quem ousou dizer-te que o horror é frígido? Anissa tira seu casaco, pois, está quente; o inferno em suas pernas e braços... “So...corro...” — murmureja. Agora é a minha hora, em minha mais bela e vil aparição. Uma besta horrenda e deformada, humanoide esguia, sempre sorrindo; decomposta, exposta em carne escarlate. Ela não consegue tirar seus olhos dilatados de mim. A escuridão atrai o mártir ao seu horror. Trêmula e sem oxigênio. Agônico pavor. Uma excelsa sínfora para mim que, por infortúnio, se esgota quando ela, a vulnerável, desmaia; púrpura de tanta adrenalina; hirta como uma estátua de mármore. Ela não está morta; há de retomar a consciência e chorar de horror. Tão frágil... Tu és tão frágil... 

E esta é apenas a segunda noite, quantas outras virão? Quantas suportarás sob meu macabro domínio? Desejo que muitas... para o meu vil prazer. 

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Velório Sombrio

Nas pequenas cidadelas e nos ermos lugarejos onde o tempo parece ter parado e a modernidade ainda não se fez presente, onde as formas de…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Porquanto és pó, e ao pó retornarás...”. — Gênesis 3,19

Nas pequenas cidadelas e nos ermos lugarejos onde o tempo parece ter parado e a modernidade ainda não se fez presente, onde as formas de entretenimento da população local são bastante reduzidas, até mesmo um velório pode se tornar um grande acontecimento social. E se o falecido for alguém muito querido, logo se transforma num grande evento, atraindo a atenção e a participação de quase toda a população, tanto do próprio lugarejo quanto de suas cercanias.

Nesses determinados lugares, distantes de quase tudo aquilo que possa ser considerado civilizado, reina o atraso e o obscurantismo num grau assustador aos olhos de um ser citadino. Isto é, há um angustiante misticismo carregado de todo tipo de estórias e costumes, ainda um tanto quanto arcaicos, que se faz presente. O homem, nessas regiões, ainda está muito ligado à natureza que, por sua vez, rege sua vida desde o nascimento até bem depois de sua morte. A religião, com seus dogmas e costumes, também se faz presente durante toda a vida desses seres, ditando as regras básicas de como suas vidas devem ser geridas, a fim de que, no final de sua inquietante e sofrida trajetória, o descanso eterno lhes seja possível.

Dona Niltinha, sublime pessoa que a muitos tinha trazido à vida, “... havia se encontrado com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre...”, como diria aquele ilustre poeta da Paraíba.

Comparando à quantidade de gente que geralmente vive nessas regiões, havia até um número considerável de pessoas, mesmo se tratando de um dia de meio de semana. Os que estavam ali presentes, de forma alguma mediriam qualquer tipo de esforço para prestar suas últimas homenagens àquela nobre criatura, que era muito querida e bastante estimada por todos aqueles que a conheciam.

Quem ainda não havia chegado, mesmo que apenas para prestar suas condolências e logo voltar a seus afazeres, certamente ainda haveria de comparecer, ainda que fosse somente para o sepultamento, que ocorreria no dia seguinte, após o velório que atravessaria toda a noite, aguardando parentes e amigos distantes para o último adeus.

Para aquele evento em si, a noite estava bastante propícia, pois era clara como o dia. A lua quase cheia ocupava o meio do céu naquele momento, e a brisa que soprava do rio estava fresca e perfumada por causa das flores das diversas árvores que florescem no Cerrado nessa época do ano. No entanto, o odor mais marcante naquele momento era o de duas espécimes em particular: no quintal da falecida, as duas frondosas “Damas da Noite”, bastante floridas, exalavam um aroma inebriante, que tomava conta de toda aquela baixada.

As inúmeras criaturas da noite também se faziam presentes, ocupando-se do som ambiente com suas incansáveis serenatas. No gramado, grilos cricrilavam sem parar; na lagoa, as rãs coachavam sem descanso; e, vez por outra, uma coruja dava um voo rasante, emitindo seu agourento piado.

Nessas regiões interioranas, esse tipo de evento envolve todos os familiares, amigos e conhecidos, e é sempre rodeado de certos costumes que, para muitos, podem causar até certa estranheza. O velório acontece geralmente na sala, onde o corpo é deixado no centro, para que haja espaço para que parentes e amigos possam se agrupar em derredor. Por mais simples e humilde que a família possa parecer, ainda assim, na cozinha é preparada bastante comida para os convivas que passarão a noite.

O café – que jamais pode faltar – é servido a todo momento. Dependendo da família do falecido, no decorrer da noite, doces e guloseimas também são oferecidos. Há uma espécie de rodízio entre os que ficam na sala próximo ao caixão: alguns se lamentando e outros tentando consolar os que lamentam. Outros ficam do lado de fora da casa, conversando, contando anedotas e até mesmo fazendo pequenas negociatas.

Quando a conversa externa se torna mais animada e o barulho se mostra um tanto quanto desrespeitoso, sempre há alguém para chamar a atenção. Nesse momento, é feito o rodízio.

Levando-se em conta que a noite é bastante longa e, em muitas ocasiões, acompanhada de madrugadas muito frias, sempre há um ou outro que acaba levando consigo uma garrafa de algo um pouco mais forte para molhar a garganta e aquecer o estômago.

É certo que essa tal regalia fica discretamente escondida, para que não haja nenhum tipo de comentário discriminatório, mesmo que todos saibam que há e onde está escondida.

No decorrer da noite, geralmente ficam despertos os parentes mais próximos e mais amorosos, os amigos íntimos e alguns poucos conhecidos. São, em sua maioria, pessoas mais velhas e ainda com vigor para enfrentar uma noite inteira acordadas. Há também os denominados papa-defuntos, que sempre fazem questão de acompanhar todo e qualquer cortejo fúnebre, desde o início do velório até o cemitério, para o sepultamento.

A falecida em questão não era uma pessoa qualquer, mas sim Helenilta Marcondes Narciso, alcunhada Dona Niltinha, afamada parteira e poderosa benzedeira. Sua fama corria dezenas de léguas e atravessava serras e rios. Incontáveis pessoas tinham chegado a este mundo com seu auxílio, e outras tantas, ela tinha evitado que saíssem dele antes da hora.

Além de parteira de mãos ungidas, também benzia contra inúmeras moléstias, desde quebranto e mau-olhado até picada de cobra venenosa. Ela mesma tinha tido apenas três filhos, pois, sendo mulher instruída na prática da magia e nos conhecimentos das ervas medicinais, sabia muito bem sobre beberagens para evitar gravidez.

Desde que tivera Joaquim – seu filho caçula, chamado “Quinca” –, que nascera com as pernas deformadas, ficou temerosa de que ela ou seu falecido marido talvez não tivessem mais condições de procriar filhos saudáveis.

Além do aleijado Quinca, que nunca se casara e ainda vivia com a mãe, Dona Niltinha tivera duas outras filhas: Gertrudes – chamada “Geta” –, a mais velha, uma competente dona de casa que vivia numa casa próxima e cuidara da mãe nos últimos anos em que ela esteve acamada; e Genoveva – chamada “Gena” –, a filha do meio, uma professora de primário que vivia um pouco mais distante, numa cidade próxima. Ambas já eram casadas e tinham filhos e filhas.

Dona Niltinha tivera o privilégio de amparar ambas as filhas em seus partos e auxiliar seus netos a chegarem a este mundo. Geta e Quinca, que já tinham chorado bastante a perda da mãe, ainda aguardavam a chegada de Gena para chorarem um pouco mais.

Gena, que vivia cerca de sete léguas de distância, havia estado na casa da mãe no final de semana anterior. Contudo, tivera que retornar para sua casa e para seus afazeres profissionais na escolinha onde trabalhava, pois, até então, sua mãe não era nenhum poço de saúde, mas também não dera mostras de que morreria a qualquer momento.

É certo que jazia numa cama há mais de cinco anos, pois, tal qual o próprio Quinca, também perdera os movimentos das pernas. Gena até mesmo comentara que achava que sua mãe estava mais corada e com maior disposição. Mas, como a morte, em muitas ocasiões, vem sem avisar, na tarde de quinta-feira, logo após o almoço, Dona Niltinha reclamara de fortes dores no peito e pediu que Geta lhe fizesse um chá de erva-cidreira, que ela tomou com muito gosto, bendizendo a filha pelo carinho para com ela.

Geta, percebendo que a mãe dormia sossegadamente após o chá, decidiu ir rapidamente até sua casa para resolver alguma pendência doméstica que exigisse sua presença e logo retornar para ver como sua mãe estava. No entanto, seus afazeres tomaram mais do seu tempo do que imaginava, e ela só retornou no final da tarde, já com o jantar pronto, tanto para sua mãe quanto para seu irmão Quinca.

Este, por sua vez, estava sentado em sua cadeira de rodas debaixo da frondosa e florida paineira logo à frente da casa, contemplando o final de mais uma tarde. Geta se encaminhou para dentro da casa, mas, em poucos minutos, voltou para fora aos prantos, dizendo, em desvairado desespero, que sua mãe estava morta.

Depois disso, foi um rebuliço só. Em menos de uma hora, a pequena casa já estava apinhada de gente. Dona Niltinha fora dada como morta por volta das cinco da tarde e, antes das oito horas da noite, já estava banhada, amortalhada e convenientemente enfeitada para o velório.

No caixão, que fora rapidamente improvisado pelos vizinhos mais habilidosos, havia diversas flores diferentes, dando um aspecto bastante primaveril à querida falecida, que deixava atrás de si um rastro de gratidão e muitas boas histórias para todos aqueles que a conheciam.

Dona Niltinha, em vida, não era uma criatura dotada de grande beleza, mas também não era de assustar ninguém com sua aparência. No entanto, parece que a morte não tinha sido muito gentil com ela, e ali, deitada no caixão, não era uma imagem muito interessante de se ver.

Suas magras mãos, que, devido à artrite, tinham adquirido o formato de conchas, pareciam ter crescido e ficado com um aspecto assustador pelo tamanho dos dedos e pelas unhas amareladas. Seu rosto ossudo estava encovado e com uma aparência bastante maquiavélica, como se tramasse uma grande maldade. Para Quinca e Geta, era apenas sua falecida mãe que estava ali, e o desconsolo de ambos era algo inominável.

Quinca era o mais choroso dos dois, pois sabia que, a partir dali, sua vida não seria nada fácil sem o carinho e a proteção de sua mãe.

Já passava da meia-noite, quase uma hora da madrugada, com a lua já se encaminhando para o horizonte, quando Gena chegou acompanhada de seu marido e de seus três filhos. Ela, que já vinha com o rosto todo banhado em lágrimas – pois passara o caminho inteiro se acabando de chorar –, pulou do cavalo em que estava ainda na entrada do caminho que levava até o pátio da casa e logo se encaminhou para o local onde a mãe estava sendo velada, ignorando os cumprimentos que recebia pelo caminho. Seu marido era quem os agradecia.

Gena, ao entrar na sala, lançou-se sobre a mãe e quase a derrubou no chão. Seus gritos podiam ser ouvidos de muito longe. Sua dor era algo indescritível. Seus irmãos, que pareciam já ter se conformado um pouco mais, juntaram-se a ela naquele ensandecido desespero e também choraram bastante.

Por quase meia hora, houve muitas lamúrias e bastantes soluços.

No entanto, se não há felicidade que perdure para sempre, o sofrimento também não deve ser ad aeternum, e logo os ânimos foram se abrandando, e o silêncio se fez presente outra vez, sendo rompido, vez por outra, apenas por um soluço mais profundo ou um suspiro mais dolorido, vindos principalmente de Gena, que se aninhara ao lado da mãe e de lá não saíra mais.

Seu marido, Carmelito, um vaqueiro acostumado a dormir cedo e levantar-se sempre de madrugada para a lida com o gado, sentou-se em um pequeno tamborete um pouco mais afastado, encostado logo à parede, tentando ao máximo vencer o sono, mas, vez por outra, dava breves cochiladas, das quais despertava com os sons de ais que sua esposa emitia em involuntárias demonstrações de sofrimento pela perda.

Quincas estacionara sua velha cadeira de rodas no lado oposto de Gena, mas não tão próximo ao caixão, pois já tinha passado por essa fase e agora lamentava muito mais sua vida a partir dali do que a própria perda da mãe. Alguém o ouvira dizer, quase em sussurro entre um suspiro e outro, que não era justo ele ficar nesse mundo sem sua amada mãe.

Geta estava sentada ao lado do esposo, num banco rústico, em um canto mais afastado, e, vez por outra, dormitava alguns minutos, acordando sobressaltada com os suspiros da irmã.

A noite, que avançava lentamente, alcançara aquele horário em que o silêncio se faz presente em qualquer lugar, onde tudo se aquieta e todos parecem dormir. Na sala, meia dúzia de gatos pingados ainda se aguentava acordada, enquanto outros, lá fora, rodeavam uma fogueira improvisada, num silêncio quase absoluto, sendo rompido, vez por outra, por alguma estória que envolvesse a falecida e suas benfazejas práticas, tanto de competente parteira quanto de forte benzedeira.

A falecida, que estivera entrevada numa cama por mais de cinco anos, tinha ficado com as articulações das pernas atrofiadas e, por isso, fora necessário amarrá-la dentro do caixão para que permanecesse na posição adequada.

No entanto, devido às diversas evoluções que o corpo enfrenta logo após ter todas as suas funções vitais cessadas – rigidez cadavérica e inchaço pela produção de gases – e ao fato de os nós que prendiam as pernas de Dona Niltinha estarem bem apertados, impedindo que o corpo retornasse ao estado habitual dos últimos cinco anos, ela, num rápido movimento, levantou-se de supetão e ficou sentada no caixão, como alguém que acaba de despertar de um terrível pesadelo.

Gena, que a todo tempo clamava pela mãe em profundo desespero, foi a primeira a correr, deixando para trás tanto a mãe por quem tanto lamentava quanto o marido ou qualquer outro que fosse.

Carmelito, seu marido, que havia colocado um dos pés entre as travessas do tamborete, ao sair correndo apavorado, trouxe consigo uma das travas do pequeno banco, mas também deixara para trás uma considerável tira de pele da própria canela.

Geta e o marido saíram pela porta da sala aos trambolhões, um caindo sobre o outro e se levantando logo em seguida. Os demais fugiram como puderam.

Teve gente saindo até mesmo pela janela.

Os que estavam do lado de fora, vendo e ouvindo todo aquele alvoroço, também correram em disparada, sem ao menos saber do que se tratava. Um deles, ao tentar passar por cima da fogueira e cair sobre ela, acabou queimando ambos os pés e ferindo uma das mãos.

Depois de alguns minutos, quando os mais corajosos decidiram retornar para verificar o que realmente havia ocorrido, se depararam com a falecida sentada no caixão, com o corpo pendido para um dos lados, quase caindo ao chão.

A partir de uma observação mais detalhada, logo se soube o motivo de aquilo ter acontecido. O corpo de Dona Niltinha rapidamente foi devidamente acondicionado ao seu caixão, e todos puderam fazer um breve inventário dos possíveis danos que cada um havia sofrido na desvairada fuga.

No desespero que cada um enfrentara, todos esqueceram o pobre Quinca e, quando finalmente deram por falta dele, perceberam que sua cadeira de rodas estava vazia. Nesse momento, organizou-se uma verdadeira frente de buscas para tentar encontrá-lo.

Por mais de meia hora, chamaram por seu nome. Primeiro, dentro da casa; depois, ao redor, pelo lado de fora; e, em seguida, um pouco mais distante, mesmo que aquilo parecesse um completo absurdo, pois, em toda sua vida, ele jamais dera um único passo sequer.

Mesmo assim, fizeram uma varredura em um raio de quase duzentos metros ao redor da casa e, quando já estavam prestes a desistir e esperar pelo nascer do sol, encontraram-no morto, enrolado nos arames farpados de uma pequena cerca que circundava um velho chiqueiro.

 De alguma forma, – sabe lá Deus como – ele havia descido de sua cadeira e fugido como todos os outros fizeram, mas, em completo desespero e sem saber para onde estava indo, acabou se enrolado ao arame, morrendo enforcando. Sua mãe que sempre cuidara dele, ouviu suas preces e veio buscá-lo...

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Ladrinha de Retrato

Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia!…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia! Morria de medo do altar, e ria à virgem, medonha, sempre em vigília no canto do corredor. Morria de medo de alma, corria do escuro à cama e cobria-se de lençol. Lascivo horror...

“Menina travessa, menina ruim!”

Quebrara outra louça de herança... e como lhe odiaria sua avó! Se ao menos conhecesse...

Fervilha a noite, mexe com ela o demônio da indignação... Cansada de ser menina velha, cansada de ser trapo. Miserável e, ainda assim, vestida em tecido de qualidade, pendurada, todo dia, num urso pardo. De pano, é claro!

— Não quero, não, senhor. Tenho medo de ir pro inferno — E deságua a cachoeira, volta de sapato sujo, vestidinho ensopado. Crueldade com a empregada, “menina ruim, criatura da minha raiva.”

Vigia, vigia a janela, Emilinha, que é pra nenhum bicho entrar; vêm lhe buscar, vêm comer os vestidos e rasgar as novelas. Vêm-te punir, pois tu és melindrosa! Vêm buscar-te a alma.

E corria, outra vez, pra debaixo do lençol.

“É a última vez que roubo retrato! É a última, senhor!”

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Asas nos pés da fugitiva

Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus!…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Se opuseram, senhora.”

Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus! “Era tão jovem… era tão belo…” Retirou do armário quatro ou cinco frascos da valeriana, dois de olíbano e um da mais búlgara rosa. Lavandas, folhas em branco, água de laranjeira; velas que, segundo bisbilhoteiros transeuntes, eram feitas de gordura humana e ambarada. Mais livros que roupa, arames no fecho das bolsas, estatuetas de Héstia; colares de rubi; três ou quatro casacos.

“Basta!”

Tudo tinha. E nada deixava a ser encontrado. “Dê tudo às meninas do cais, distribua entre suas amigas. Fique com o que quiser, também.” ternamente, agradecia-a com olhos e pulseiras de brilhante que, àquela altura, já não lhe traziam serventia. Partia, rumo à terra dos exilados. “Bruxa maldosa”, “fera fugida do submundo”, a “eterna mal-amada”, repetiam. Esperavam-na na praça, os vendedores e as costureiras, políticos e patrícias, todos para assistir ao rolar daquela cabeça, toda feita da ventania. E tanto queriam ver, num sopapo de lâmina, o cabelo voar… quão deliciosamente odiavam… e seguiam, a praguejar.

“Sem direito a defesa, por escolha do conselho.” Queriam a cabeça, o pescoço e toda a honra que um dia tivera. “Maldita seja!” gritava um ou outro, e muitos eram os nomes que recebia. Pouco se importava que falassem os amigos da família, as mulheres que sempre tivera de cumprimentar, o marido de sabe-se lá quem... Bem sabia que o conselho era pago para pensar. “Não há oráculo, não tem sabedoria nesses velhos, que raio de substância compõe este conselho, afinal?!”

“É a ordem, querida. É como funciona a vida.”

Na escrivaninha, o fumo que não terminaria, cartas que não seriam entregues e a procuração, em horrendo estrelismo ao centro da mesa. “A quem tentam enganar?... Com que balança pesam a escolha da vida e da morte? Como conseguem enfiar o peso de oitocentos cavalos numa decisão?... Sem direito à defesa. Como bicho.” e certo é que bicho se sentia. Rangia os dentes e dizia-se — fitando no espelho o amargo dos olhos — que seria sua, a vida. Não mais de um homem! Não mais do amor. Seria sua!

— Dois soldados passaram na rua da frente… mais trinta ou quarenta minutos até que passem novamente.

E aprontava, a si e às malas. “Não precisaria fugir se não o tivesse matado… não o mataria se não tivesse tentado matar-me primeiro.” E seguia, desnaturada. Caminhante vulcão, deserdada por Hera, terrivelmente distanciada de tudo aquilo que era. De tudo que existia até o último mês.

Dizia a carta que claras são as leis. A envenenadora deveria vir a público e enfrentar o peso da justiça. Matara Mateo, afinal! Como justificaria a crueldade infeliz de assassinar o único filho do procurador? Como explicaria à pobre mãe o porquê de impor, a seu doce menino, tamanha dor? Vomitara parte das vísceras, eles sabem. Ah, amargo cianeto… alega a menina que ouviu, somente, o conselho de uma bruxa mesopotâmica que passava. “A tudo se dá, a todos escuta!”, dizia o procurador ao investigador principal.

Mais falaria se soubesse, mais falaria, se conhecesse, à peça. Cantava com lamúria profunda, “voz de enterro”, repetiam os vizinhos; chamava a chuva sempre que queria empatar o andar da cidade e nunca, nunca abaixava a cabeça aos generais que passavam. Agora, condenada… Condenada! Mas não havia de dar o gosto àqueles que criaram um monstro, alimentado com ambrosia e endossado sua desonestidade. Não havia de render espetáculo à deglutição funesta dessa gente ruim.

— Queime esta porcaria de procuração… diga a mamãe que eu parti.

— E se perguntar-me para onde?

— Conte o que sabe.

— Mas, Isolda, eu não sei para onde está indo!

— Exatamente, querida! Conte o que sabe.

Fugiria, viveria na Itália, escondendo-se num convento e fingindo rezar. Abençoaria, noite e dia, a vida que fica; soterrando com terra de jardim o amargo daquelas feridas. Vingaria a primavera daquela pele febril. “Dane-se Saturnália! Danem-se os parentes daquele mesquinho, dane-se a vida que tive na Grécia! Não existe mais Grécia para mim… perdoe-me, Athena, por não ser como as boas… Por não enfrentar a morte… perdoe-me…”

E num levantar de folhas, as árvores contavam — em pleno silêncio — que honra alguma há em sacrificar-se. Matara para viver, e viveria.

A tempestade rugia, feroz, em tortuosa melodia, lembrando-a, a todo instante, do sino e do lodo das rochas; fervia o leite e temperava de especiaria.  Eruptiva garganta, estômago inflamado… morta por dentro, morta para esta terra e morta para eles; tão longe de ser compreendida… “apressa-te, menina, ou vai perder o barco!”

Bebia, hora ou outra, do frasco de lavanda francesa, fugindo do ópio dos ingleses. A tormenta vinha mansa, maldosa, no seio do sono. Inquieta passagem de estrelas, estranho burburinho dos viajantes que seguiam, tão pouco interessantes. Paralisava-se no remoer constante das raladuras de sua alma, outrora luminosa. Outrora feliz. E, por segundos, congelava em divagação, tornando por interrupção, “uma água, madame?”

Como doía a vida… quão ingrato era o amante que achara de ter… Velha prosa em desmantelo… torrente aguda que insistia em desaguar — queria não ter memória, e queria limpar-se daquele homem maldito, e, por horas, queria não mais ser gente... E sorria, em busca de confundir o enfado, no rumo da doce Itália. “Talvez uma fuga ou outra, talvez uma tarde na cidade...”

Manhãs em prosa com os panos de chão, túnicas a remendar, baldes cheirosos… comida quente; sabor algum, exceto nas noites de vinho — pouco e às escondidas —. E o pão… “deixa passar, Amália, deixa passar.” — Mais ainda fermentava. Comíamos, e quão bom era o estrago; deitar à luz do luar, procurando constelação e zombando das idiotices do passado. Todo mundo tinha história, todo mundo tinha alguma vergonha a contar. Morríamos de rir das de quedas, mais ainda das brigas por meninos e das tias, com seus romances clérigos. E a conversa sempre findava num quarto escuro, sob a sombra de um pai desprotetor, ou de um irmão malvado. E de tanto remendar os panos, aprendia a remendar a si e às outras, tão quanto, feridas.

“Paciência com o amargo das mais velhas… nunca se sabe o porquê de estarem aqui.” “Tantas não chegam pela fé, mas em fuga, dos outros ou de si.”

E perdoava a grosseria, a bronca, a piadela. Perdoava o que se podia perdoar. E dentre elas, a irmã Zélia, bruxa oculta e curandeira, a quem sempre recorria quando precisava chorar. “Reze em mim, irmã… mas reze com folha e flor…” e ela rezava. Amornava a água que, por dentro, fervia e espantava os miasmas com palavras d’outro lugar. “E que tua mãe te abençoe”, dizia a voz, de fumo e camélia.

E no descarrilho da noite, atormentava-lhe o fel da alma. “Por quanto tempo fingirá ser freira neste convento? Como viverá sem liberdade?” Perguntava-lhe a sombra esgueirosa que em toda parte se fazia presença — a voz do desprezo, entoada das cavernas de dentro. “Ao contrário.” respondia-lhe. E sabia, viveria Athena e o lago, viveria Artemis, as ninfas e os sátiros no véu de cada madrugada. “Aquosas são as formas da liberdade.”, repetia, e muito acreditava. Ficaria o tempo que precisasse. Pouco seria.

O tempo engolia, à farta colherada, a dor daquela que encontrou no amor a inominável deslealdade. A face que não se mostra; o avesso monstruoso. Pouca gente sabia que trazia, Mateo, feridas de lepra em seu caráter, e tão bem fingia que era bom... Tão bem forjava o amor… risonho, juvenil… carne macia e preenchida da vaidade mais vazia. Seguia, ela, lavando os panos. Mãozinhas embebidas de toda a culpa que não era sua. “deixa lavar, deixe que a água leve embora esse sofrer…” — E não mais questionava o curso dos rios. Não chorava pecado algum, e grande esforço fazia para não perder um único acordar daquele céu, de alaranjada explosão — algodão a abafar a melodia chorosa das iniquidades e da miséria escondida, num pequeno bolso de sua mala.

Acostumou-se às pedras — à memória, ao fantasma —. Embriagava-se de valeriana e plantava lavandas no canteiro lateral. O doce rapaz apodrecia, numa cova de família. Reinavam as flores, no solo acima, com beleza magistral.

Na Grécia, procuravam por Isolda. Na Itália, Leonora escrevia versos e cantava, com o ar que persistia nos pulmões. Cantava, para espantar toda maldade que, um dia, cruzou a estrada. Louvava à sorte, à ventania e ao coração.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Amor do Pai

Ismael viveu toda a sua vida intimamente com o medo, que era seu melhor amigo, amante e confidente. Sentia-se perseguido a todo momento…

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Ismael viveu toda a sua vida intimamente com o medo, que era seu melhor amigo, amante e confidente. Sentia-se perseguido a todo momento, e uma voz discreta no fundo de sua mente sempre o lembrava de olhar por cima do ombro ou dormir com a luz acesa no quarto.

Aos vinte e dois anos, atacou um idoso enquanto gritava que o andador dele eram tentáculos. Isso ocorreu à luz do dia, em um mercado famoso da cidade. O resultado foi uma internação compulsória até que a situação se estabilizasse.

Aos trinta anos tornou-se padre, encontrando paz de mente na santa casa, sob o zeloso e amoroso olhar do Pai. Mas, no fundo de sua consciência, ainda ouvia a voz que o lembrava de olhar para trás quando estava sozinho.

Em uma noite de chuva torrencial, no calor escaldante do janeiro campinense, Ismael estava ajoelhado sozinho em frente ao grande crucifixo da nave da igreja. Rezava fervorosamente, pois sabia que o horror da paranoia havia retornado. Solicitava, com angústia, ser guiado a um estado de espírito elevado que o fizesse esquecer a alucinação que tivera há poucos momentos.

A igreja estava sem energia já fazia horas. Ele escutava sons alienígenas e aterrorizantes vindos de um corredor escuro à direita, próximo de onde encontrara o corpo do jovem coroinha. Era um eco agudo que passava por cima de suas orações, não importando o quão alto rezasse.

Cravou as unhas na coxa; a dor trazia paz, silêncio e a bênção da santa casa. Funcionou.

O barulho que invadia sua mente e destruía seus pensamentos cessou. Continuou rezando e se machucando por mais alguns instantes para garantir. Chorou de alegria ao concluir que havia sido bem-sucedido. Encontrou na escuridão a paz e o amor que só o Pai e sua casa poderiam proporcionar. Agora, teria que encarar seu medo para provar a si mesmo que não havia corpo algum.

Entrou na sala mal iluminada pela lua. O corpo não se encontrava entre as mesas e cadeiras. Respirou fundo, aliviado. Sentia-se feliz agora que tinha O guia para conduzir sua mente atormentada.

Virou-se para se retirar aos seus aposentos e cuidar do ferimento na perna, mas se deparou com dois seres que o observavam estáticos.

Ambos eram de um azul estrelado, como se galáxias habitassem seus corpos. Seus crânios eram desproporcionais ao resto do corpo, como bolhas que correspondiam a metade de suas alturas totais. Os corpos humanoides eram pequenos e de aparência gelatinosa.

A garganta de Ismael fechou, e ele não conseguia respirar. Tremia e gritava, em silêncio, que estava alucinando.

Ergueu os olhos em direção ao horizonte, ignorando os pequenos seres, da forma como havia treinado a vida toda. Deu dois passos à frente e sentiu algo gelado pegar suavemente sua mão, de forma quase carinhosa. Outro ser envolveu sua coxa na região da ferida que ele havia feito há pouco.

Agora, produziam um som que parecia uma canção da igreja. Sentia o corpo frio e a visão escurecendo rapidamente. O pequeno ser que havia envolvido sua perna com o braço ficava cada vez mais vermelho, transformando-se lentamente em uma galáxia carmesim.

Ele acordou algumas horas depois, cercado pelos irmãos e irmãs da igreja. Conseguia ouvir os pensamentos de todos em sua cabeça. Moviam-se e cantavam alegremente, procurando mais pessoas para trazer à comunidade.

Agora ele ouvia ao Pai, ouvia a todos e todo ouviam ele.

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Infindável

Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que…

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Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que iria imediatamente. Havia uns bons anos que não o via. Guardei o vinho na geladeira, troquei de roupa e, depois de dirigir alguns quilômetros, avistei sua casa.

Ele morava no alto de uma belíssima falésia. Sua casa era uma construção no estilo A-frame, toda de carvalho, com duas janelas altas. Estacionei o carro e, por alguns minutos, contemplei a vista, que eu quase havia esquecido o quanto era encantadora.

Permiti que meu olhar se perdesse naquela paisagem, que mais parecia uma pintura. Acima de mim, o céu, onde as poucas nuvens se moviam com certa rapidez. As estrelas ostentavam um brilho assustador. A lua estava minguante (fase que acho mais encantadora). À minha frente, a imensidão do mar e seu pacífico quebrar de ondas.

"Preciso entrar!"

Antes que eu pudesse concluir meu pensamento, minha atenção se voltou para a porta. Ouvi o trinco mover-se vagarosamente, assim como o ranger dos ferrolhos enferrujados. Então, ele surgiu no canto (um pouco abatido, é bem verdade). Trajava um conjunto de moletom preto e chinelos, mas continuava o mesmo. A barba grisalha escondia parte das rugas. Com um sorriso tímido, gesticulou para que eu entrasse. Eu estava feliz por vê-lo.

— Venha, entre, caro amigo.

Sua voz rouca, acompanhada de um pigarro, reverberou naquele lugar.

Ao entrar, olhei em volta e percebi que nada mudara. Era uma casa de tamanho considerável, dividida entre cozinha, sala e uma suíte. Ao lado da porta, ficava uma mesa redonda preta, com duas cadeiras. Na sala, o velho sofá de couro marrom. À sua frente, uma bela lareira e, acima dela, uma cornija esculpida em mármore, exibindo fotografias e algumas conquistas pessoais. Mais à frente, encontrava-se uma janela grande, por meio da qual era possível enquadrar a lua com toda sua graça sob o firmamento estrelado. Abaixo dela, uma confortável poltrona de couro marrom, que resistiu bravamente ao tempo. Notei também uma garrafa de whisky sobre uma mesa de canto, acompanhada de dois copos.

— Fique à vontade.

Apontou para o sofá e, em seguida, dirigiu-se à poltrona.

— Veja, Tomé, a noite está nos proporcionando um verdadeiro espetáculo. Tenho algo para você.

Ele abriu a garrafa, exalando notas de caramelo, maçã, laranja e baunilha. Após isso, encheu os copos até a metade. Em seguida, brindamos. Confesso que fazia tempo que não bebia whisky; logo senti o ardor em minha garganta, acompanhado de notas amadeiradas.

Sorriu e disse que era um whisky escocês muito raro. Em seguida, perguntou se eu queria ouvir uma música. Foi até o quarto e trouxe uma vitrola, que deixou próxima à lareira. Escolheu um vinil do qual tinha boas lembranças: tratava-se de uma coletânea de Robert Johnson. O som da agulha deslizando no vinil era quase fantasmagórico. Em seguida, vieram as notas agourentas de sua guitarra, acompanhadas de sua inconfundível voz.

— Ah, Tomé, como é bom revê-lo. Sabe, não tenho tido muitas visitas, e ver um rosto familiar sempre é animador.

A melancolia estava presente em cada palavra.

— Eu que peço desculpas por não ter mais aparecido, João. Minha vida está bastante confusa. Me separei, não estou conseguindo produzir como antigamente. Tudo que escrevo soa medíocre. Mas trabalho com revisão de textos e escrevo para uma coluna no jornal. E você, como está?

Ele sorveu a bebida por completo e, enquanto acrescentava mais, disse:

— Não tenho do que reclamar. Tive uma vida dura, mas incrível. O mar me fez conhecer lugares que jamais imaginei conhecer. Colecionei muitas histórias...

Passou as mãos na testa e nos poucos cabelos que lhe restam. Então, continuou:

— Porém, eu tenho vivido de lembranças. As aventuras que tive no mar são o que me mantém vivo. Velejei minha vida inteira, hoje em dia estou aposentado. Quanto ao dinheiro, tenho uma boa quantia no banco, devido aos longos anos de trabalho no mar.

— É verdade, João, você era um exímio capitão. Conhece o mar como ninguém, enfrentou a terrível imensidão inúmeras vezes. Sem dúvidas, vivenciou situações deveras difíceis. Brindamos a isso. Viva!

Em seguida, conversamos por mais algumas horas. A garrafa já passara da metade. Ele encheu mais uma vez os copos e, inebriado, disse:

— Tomé, de todas as histórias que você ouviu, existe uma que me assombra. Durante todos esses anos, guardei-a a sete chaves.

Sua fisionomia adquiriu tons graves; seus olhos inertes brilhavam sob aquele turgido luar. Ele continuou:

— Sabes que o mar, em sua grandiosidade, esconde segredos inimagináveis. Não tenho explicação para o que me ocorreu naquela horrenda noite.

Ele respirou fundo, bebeu mais um pouco e, ao som de "Hellhound on My Trail", iniciou sua narrativa.

O céu exibia um lindo entardecer, onde tons alaranjados se misturavam ao azul escuro. No horizonte, o sol, em sua beleza arrebatadora, brilhava. Notei também pinceladas de rosa e roxo. Uma obra-prima!

As condições eram perfeitas. Era verão, 15 de janeiro de 1998. Decidi comemorar minha aposentadoria com um passeio. Verifiquei todo o casco, chequei também a proa, assim como a popa. Convés e porão foram inspecionados, assim como as velas e cabos. Por último, o leme e a âncora. Era uma embarcação de porte médio. Meu anemômetro estava com defeito, porém, ao longo dos anos, aprendi a calcular o vento com base em observações e anotações.

Ergui as velas ao ar, pedi licença aos mares e iniciei meu passeio. Aparentemente, estava tudo tranquilo. A noite chegou rápida, usurpando a luz do dia e trazendo uma brisa fresca. Liguei o refletor e segui.

Te digo: não importa o quão experiente você seja, o vazio marítimo te causa calafrios. Mesmo com o luar e as estrelas, o breu se torna quase tangível.

Desliguei um pouco o motor e segui, até que, em determinado trecho, notei uma brusca mudança nos ventos. Se não me engano, eles estavam a trinta e quatro nós, fazendo as ondas se agitarem...

A uma certa distância, sob a luz do refletor, enxerguei algo semelhante a uma ponte. Definir seu começo e seu final era uma tarefa impossível. Parecia infindável.

Meus olhos arregalados não podiam acreditar naquela visão medonha. Você pode conhecer os mares como a palma de sua mão, mas nada te prepara para o desconhecido. Ela parecia flutuar sobre as águas. Era possível ver o topo das colunas que a sustentavam e, imaginar sua dimensão, causou-me verdadeiro terror. Tentei manter a embarcação trimada, mas as águas estavam revoltas.

É em situações como esta que percebemos o quão frágeis somos. Aquele monumento colossal era um lembrete de que não passamos de poeira cósmica habitando um planeta minúsculo.

Enquanto me perdia em meus devaneios, vi que estava mais próximo. Trovões intensos revelaram mais detalhes. Notei a presença de inúmeros postes, todos enferrujados. A estrutura estava coberta por uma viscosa camada de musgo ao longo de sua lateral.

Olhei para o céu, e o clarão dos relâmpagos rabiscava formas monstruosas sob as nuvens. Estava aterrorizado. Existia uma força cósmica naquele trecho, a qual nem ouso imaginar.

Por sorte, a distância em que me encontrava permitia voltar, mas seria um trabalho árduo. Mesmo com a curiosidade corroendo minhas entranhas para descobrir o que aquela construção nefasta escondia, permanecer ali seria assinar meu atestado de óbito.

Liguei o motor e girei o leme até o limite. Porém, senti a embarcação sofrer uma desestabilização, deixando-a à deriva. Algo me impedia de ir embora.

Após quase naufragar, consegui, aos poucos, retomar o controle da embarcação. Enquanto minhas trêmulas mãos seguravam o leme com afinco, de costas para a ponte, praguejei-a.

Tentei ignorar, mas não consegui. Mesmo temeroso, olhei por cima dos ombros pela última vez. Então, ouvi nitidamente os ventos soprarem meu nome, como se fossem um funesto coral formado por inúmeras vozes vindas do abismo. Elas ocuparam toda a vastidão do mar.

Implorei ao universo forças para sair dali.

Após longas horas, consegui fugir. Já não via mais a construção.

Gritei até não poder mais. Até que enxerguei a beira da praia. Parecia até uma miragem.

Joguei a âncora e desembarquei. Cheguei em terra firme. O dia começava a surgir timidamente. Foi maravilhoso ver luz.

Ele terminou aquele relato medonho com um olhar vazio e assustador. Eu estava apavorado. Sem dúvidas, foi uma experiência impressionante. Perguntei se estava bem. Ele disse que sim. Contar sua vivência foi libertador, pois ninguém sabia o que ele havia passado.

Permanecemos em silêncio enquanto "Crossroad Blues" preenchia o vazio.

— João... — Minha voz quase não saiu — Meu caro, eu sinto muito pelo que você passou. Mas saiba que estou aqui. Sabes que sempre podes contar comigo. E não se preocupe, levarei seu relato até o dia da minha morte.

Ele agradeceu minha companhia por ter ouvido seu relato.

Ao se despedir, disse:

— Lembre-se: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."

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O Sangue da Bruxa

Como de costume, ela caminhava sozinha pelos corredores do castelo, seus longos cabelos negros reluzindo com um brilho…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Como de costume, ela caminhava sozinha pelos corredores do castelo, seus longos cabelos negros reluzindo com um brilho azulado sob a pouca luz. O corredor que percorria era ladeado por uma extensa varanda de mármore, com vista para as imponentes montanhas envoltas pela neblina matinal. A penumbra de um céu nublado tornava o ambiente ainda mais sombrio, mergulhando tudo em uma atmosfera de mistério e quietude.

Uma voz masculina ecoava ao longe, chamando pelo seu nome. Ela não se virou para olhar, mantendo o passo sereno e despreocupado. Estava descalça, e o vestido preto, longo, era adornado com rendas e bordados delicadamente alinhavados que emolduravam a saia. Ao alcançar a varanda, ela parou, deixando o vento brincar com o tecido enquanto aguardava calmamente que a voz se aproximasse. Aquele era seu pai o rei Kheas, cabisbaixa ela apoiou o braço no mármore frio, sem olhar para a figura autoritária ao seu lado, como se já soubesse o que iria ouvir.

— Minerva! Já disse que não é adequado andar descalça pelo castelo, mesmo sendo o que somos...  — ele parou ao lado dela, penteando a barba longa e ruiva com os dedos. Kheas era um homem esbelto, tinha olhos fundos cor de mel e sempre se vestia com cores escuras.

— Não tenho o direito de sentir o chão do castelo? — respondeu ainda sem olhar para ele.

— Essa é uma atitude antiga demais, não precisamos mais fazer isso.

— E o que você sabe sobre as coisas antigas? — perguntou ela, com os olhos fixos no topo de uma montanha distante. O queixo repousava sobre a palma de sua mão direita, enquanto um suspiro desanimado escapava de seus lábios, carregando um ar de melancolia.

— Não fale coisas sem nexo, você é parte deste reino e eu sou a autoridade maior. Te espero na Sala das visões. — Ele se retirou com uma postura controlada, sem demonstrar irritação. No entanto, ela sabia que suas palavras o haviam incomodado.

Em outro momento, ao ser questionado por ela dessa maneira, agiu de forma oposta. O resultado foi a princesa passar quase um mês com o rosto escondido por um véu negro. Seus olhos azuis, agora vermelhos como sangue, estavam constantemente marcados por lágrimas silenciosas. Em seus pensamentos sombrios, ela jurou a morte de seu pai, Kheas.

Uma jovem princesa, filha da magia e das montanhas, vivia confinada, presa às mesmas correntes que um dia aprisionaram sua mãe, a rainha Nuara. Por anos, o rei as tratou como meras joias da coroa, belas, mas silenciadas. Ele explorava os poderes e a inteligência de ambas, mas nunca lhes concedia o verdadeiro crédito por seus feitos.

Nuara era conformada com sua condição, enquanto a filha não aceitava, de nenhuma maneira, aquela forma de vida. Suas fortes personalidades eram tidas, por todo o reino, como flores da meia-noite: muito delicadas. A beleza das duas chamava atenção. A corte e o povo não imaginavam que a genialidade das construções e da gestão era, na verdade, autoria das duas, que eram confinadas ao disfarce do silêncio.

Minerva carregava consigo um rancor profundo, fruto de anos de sofrimento silencioso. Ela não era uma rosa delicada, mas sim uma pedra preciosa e rara, dura como um diamante — um diamante que seu pai insistia em tentar quebrar. Tratando-a como um mero objeto de estudo, ele a subjugava com sua autoridade, reforçando que ela era parte do reino e devia obrigações. No entanto, o pior de seus atos deixou marcas irreversíveis: ele a transformou em cobaia de uma transmutação, um experimento cruel que deixou cicatrizes não apenas em seu corpo, mas também em sua alma.

O Reino da Áugures, um lugar onde os segredos da ciência antiga eram guardados nas sombras, era o domínio de Kheas, um alquimista obcecado pelo que todos buscavam: o conhecimento absoluto. A imortalidade, uma dádiva rara de sua raça, não era o suficiente para saciar sua sede insaciável por poder. Em sua busca, ele ousou realizar o impensável, transmutou sua própria filha, Minerva, fundindo-a com uma loba.

A forma resultante foi a maldição do reino, um reflexo de sua crueldade. As dores da transmutação não apenas afetaram seu corpo, mas também corroeram sua mente. Durante meses, Minerva permaneceu como loba, uma criatura atormentada pela dor física e pela confusão mental, enquanto o reino, agora marcado por essa transformação sombria, ecoava os ecos de seu sofrimento.

Sem conseguir reverter o processo, Kheas trancou Minerva em uma cela no calabouço do castelo, condenando-a a viver em sua forma monstruosa. Mas foi quando Nuara, a rainha, interveio, determinada a salvar sua filha, Nuara fez ajustes em elementos místicos e, com grande esforço, conseguiu libertar Minerva de sua forma de loba, mas ela ainda transmutaria na lua cheia.

Cada vez que a transformação acontecia, ela chamava esse processo de "rasgar a pele", pois sentia como se sua essência fosse dilacerada, dividida entre duas existências, forçada a conviver com a dualidade de sua natureza. Em condição de loba, ela se tornava um pouco inconsciente de si própria, era uma enorme fera de pelos negros. Avistá-la era assombroso. Seu corpo se contorcia e sua pele se rasgava. Uma bruxa em pele de loba, insana nas noites de lua cheia.

Ela caminhava em direção à Sala das Visões, o peso da tristeza obscurecendo seus passos. Era hora de revelar os planos de Kheas, um segredo que pesava mais do que o próprio silêncio que envolvia o castelo. A Sala das Visões era uma biblioteca peculiar, circular, com estantes escuras de jacarandá que se estendiam até o teto. Cada prateleira estava repleta de livros antigos, escritos em línguas que desafiavam o entendimento de muitos. O ambiente, sem janelas, parecia sempre imerso em uma sombra perpétua, e o frio que emanava das paredes parecia penetrar até os ossos.

 No centro da sala, um pentagrama intricadamente desenhado no chão servia como base para uma mesa redonda, onde repousava um candelabro de ouro negro. Criado pelas primeiras bruxas do reino, o candelabro emanava uma luz tênue e distante, como se carregasse consigo séculos de feitiçaria e sabedoria ancestral. Ela sabia que, naquele lugar, cada segredo do reino estava guardado, e agora era sua vez de desvendar o mais sombrio deles.

Minerva utilizava o candelabro negro para acender as suas velas ao realizar, ritualisticamente, as leituras de tarot, as bruxas do passado eram suas guias durante o processo.  Kheas já estava lá sentado à sua espera. Ao chegar diante do local, ela respirou fundo enquanto olhava o ouroboros de madeira esculpido na porta. Aquela serpente engolindo a própria cauda sempre a lembrava de sua primeira transmutação. Sempre se repetiria. Pedindo forças à magia, ela entrou e foi até o centro, sentou-se à mesa já prevendo o que ele iria perguntar, o que sugaria sua energia naquela tarde.

— Preciso saber se seremos bem-sucedidos na comemoração de amanhã, onde você conhecerá seu noivo. — Ele estava sério com os olhos fixos nos dela.

— Acontece que já o conheço, ele só não sabe o que você fez com a noiva dele. — a voz dela soava trêmula.

— Você entendeu o que eu quero dizer.  Preciso que saiba controlar a sua situação para que nada saia do comum amanhã na lua cheia.

— Para que a maldição que me impôs não atrapalhe a aliança entre Áugures e Zhale? Ele não sabe das histórias que contam por aí?

— Minha querida, o rei Hansert será um bom marido. Já que se amam, seja sensata!

— Ele não sabe por sua culpa! – exaltada ela parou de súbito, respirou fundo e continuou. — Vamos às cartas...

Ela respirou profundamente, posicionou a vela no candelabro e a acendeu, permitindo que a chama dançasse com suavidade. Sob a toalha especial, espalhou as cartas de tarot, seus dedos acariciando o tecido enquanto sua mente se concentrava no que estava prestes a acontecer. Com um movimento lento, sua mão direita se ergueu no ar, percorrendo as cartas, captando a energia que elas emanavam.

A primeira carta foi puxada com cuidado e colocada sobre a mesa. Seus olhos estavam fechados, os lábios murmurando palavras antigas, enquanto as mãos trêmulas sentiam a conexão entre o presente e os destinos que estavam prestes a ser revelados. A sala parecia suspensa, aguardando o desfecho das forças que se alinhavam diante dela.

Novamente ela percorreu a mão pelas cartas sentindo a energia que atraía sua mão e escolheu a segunda, o mesmo foi feito na escolha da terceira.

— A primeira carta é O Mundo, quer dizer que o momento é propício, a festa pode sim ser muito bem aproveitada.

— Enquanto a segunda carta? — perguntou ao apontar.

— A segunda carta é O Diabo, pelo contexto você está preso a alguma coisa. Suas conquistas que escondem o que você realmente é. Isto provavelmente está ligado ao que aconteceu que você tanto deseja esconder do mundo.

— Não é isso que eu quero saber, Minerva! — ele falou com rispidez.

— A festa vai ser bem-sucedida. O rei Hansert ficará feliz, só que esta carta do Diabo mostra um apego forte aos seus bens e diria até mesmo... O medo de se perder tudo! Ela está invertida. Indica que é o momento de olhar para o seu ego, pai! Não é o momento de esconder mais nada! — ela estava apreensiva.

— Chega, não preciso ouvir você! — ele gritou, sua voz ecoando pelas paredes da sala. No mesmo instante, a marca da transmutação de Minerva surgiu em sua mão esquerda, uma linha vermelha incandescente que iluminou a palma com um brilho intenso e ameaçador. Ela, no entanto, não se intimidou. Ignorando o fenômeno e a fúria dele, continuou a leitura.

— A terceira carta é o Enforcado. — Houve uma pausa em sua fala — O que você deseja exige sacrifício e, pelo visto, você está disposto a fazer.

— Você sabe que sim. Amanhã é lua cheia, e, se for necessário, eu a trancarei. Não ouse usar seu poder contra mim amanhã à noite. Sua língua será selada, e você não pronunciará uma única palavra, seja como bruxa ou como loba, se é que a fera é capaz de falar e não apenas rugir! — declarou ele com frieza, cada palavra carregada de ameaça e controle.

— Sim, meu pai, eu não pretendo te envergonhar em uma noite tão importante! – disse ela, ironicamente.

Ele se levantou da mesa e deixou a sala sem sequer agradecer pela leitura feita. Minerva, com os nervos à flor da pele, pressionava as têmporas com força, tentando conter a irritação que pulsava em sua mente. Ela soprou a chama da vela revoltada, guardou suas cartas e saiu de lá sem finalizar o ritual devidamente. A porta da sala ficou aberta, dividindo o círculo do ouroboros ao meio.

***

Minerva estava em seu quarto, acariciando um enorme gato preto. Ambos estavam deitados em um sofá espaçoso, escarlate como sangue, a lua invadia o lugar pela janela longa em formato de lanceta. Seu pensamento estava distante, um recado de Hansert foi entregue a ela, enviado por um corvo astral que entrou pela janela. A tinta do bico de pena ainda estava com o cheiro forte, estava escrito:

 “Logo nos encontraremos, filha da penumbra, dona do meu coração.”

Amavam-se, porém, ele não sabia que a sua condição de loba era feral. E ela tinha planos para que isto mudasse. Ele acreditava que ela era uma beldade atormentada pelas dores de sua “pele rasgada”, Kheas o convenceu de que, como loba, ela era consciente e o casamento era um sinal de aliança entre dois reinos sábios. O segredo de Minerva, supostamente, seria uma herança para os futuros herdeiros dos dois reinos.

Rosas vermelhas adornavam cada cômodo, seu perfume intenso contrastando com a escuridão. Os convidados, trajados elegantemente em preto, moviam-se com uma graça quase teatral. Zhela e Áugures, repletos de segredos e histórias compartilhadas, estavam finalmente reunidos sob o mesmo teto, sob a vigília silenciosa da noite.

A noite da festa estava especialmente escura e as nuvens no céu eram vermelhas, a lua se escondia nas trevas. O castelo estava decorado com muitos castiçais, haviam rosas vermelhas distribuídas pelos cômodos e as pessoas estavam elegantemente trajadas em preto. Zhela e Áugures estavam no mesmo lugar.

Minerva estava em seu quarto, mas a sensação que a envolvia era a mesma de quando estava na masmorra. Para ela, não fazia diferença; sentia-se apenas um experimento, uma criação sem vontade própria. Amarras pesadas a prendiam à parede em frente à janela, e em seu pescoço repousava uma coleira de couro de dragão, presa a uma corrente de aço forjada pelas mãos habilidosas dos anões.

O quarto era tomado por seus gritos, longos e agonizantes, enquanto seu corpo se contorcia, sofrendo a inevitável transmutação. A dor era lancinante, como se sua própria essência estivesse sendo rasgada e moldada novamente sob o peso de uma maldição.

Os gritos de Minerva ecoavam pelo castelo, atravessando as paredes e chegando ao salão onde a música da orquestra real tentava abafar a agonia. O som do piano e do violino se mesclava com os gritos distantes, criando uma melodia tenebrosa. No centro do salão, o rei Kheas mantinha sua fachada inabalável, transformando seu erro em uma nova mentira.

Ele declarou a todos que sua filha havia se voluntariado para o experimento, manipulando a narrativa para proteger sua reputação. A festa, repleta de convidados trajados de preto, celebrava não apenas uma aliança, mas o suposto controle sobre Minerva. O noivado entre Minerva e Hansert simbolizava a união dos reinos Áugures e Zhelas, prometendo consolidar suas forças sob um só poder, ainda que o preço fosse o sacrifício de sua própria filha.

A princesa seria finalmente apresentada em sua forma de loba e as histórias de suas aparições sombrias seriam confirmadas. Esta era a noite das feras, os lobos e as bruxas eram exaltados. As nuvens já se mexiam com o vento, os uivos de Minerva eram altos e poderosos. Todos estremeceram ao ouvir e sentir o poder que emanava vindo dela.

As memórias de sua primeira transmutação sempre pairavam em sua mente. Naquela noite, todos conheceriam a bruxa e loba que nela habitava. Aquela corrente a enlouquecia, ela desejava fugir enquanto sofria. Seus uivos evocavam os uivos ferais de outros lupinos e até mesmo os cães uivavam por ela.  Todos ouviam seu rugido que não mais seria silenciado!

No baile, os bruxos da corte entregavam-se à diversão, seus risos e murmúrios crescendo à medida que se embriagavam com o vinho vermelho como sangue. Entre taças erguidas e olhares conspiratórios, Hansert permanecia inquieto, imóvel durante o evento.

Cada uivo que ecoava pelos corredores do castelo parecia atravessar os ouvidos dele e cravavam alfinetes em seu coração. A dor não era apenas física; era o peso insuportável da culpa e do horror, enquanto a verdade da maldição de Minerva se desenrolava bem acima deles.

Atrás da porta do quarto, a rainha Nuara sofria em silêncio, suas lágrimas vermelhas escorrendo como gotas de sangue que carregavam toda a sua angústia. Cada soluço abafado era uma pergunta sem resposta: por que não conseguia reagir? Por que permanecia imóvel diante da loucura de Kheas? Encostada na parede de pedra fria, ela escondia o rosto entre as mãos trêmulas, enquanto o peso da culpa e da impotência a esmagava. Seu coração estava em pedaços, dividido entre o amor por sua filha e o medo paralisante do homem que chamava de rei.

Enquanto no andar de cima os sofrimentos de Minerva eram ocultados nas sombras do castelo, os dois reis discutiam no salão principal, seus olhares frios e calculistas observando a festa que acontecia ao redor deles. Entre copos de vinho e risos forçados, suas palavras afiadas se cruzavam, trocando acusações e estratégias.

—Rei Kheas, eu preciso vê-la! Ter certeza de que ela está bem.

— Claro que ela está bem! Só precisamos diminuir um pouco toda a histeria da corte.

— O que quer dizer? – Hansert o olhou confuso.

— Seria interessante evitar que ela assustasse nossos convidados.

— Ela está sofrendo com as dores e está acorrentada como um animal, como pode ser tão frio?

— Rei Hansert, lembre-se de que a Minerva que conhece é uma criatura da noite. O que queremos é mostrar força, somos melhores que os homens comuns e sem magia é isto que queremos impor esta noite!

— Não foi isso que você me falou antes, ela poderia ter morrido neste experimento hediondo que você inventou! Só pensa em si mesmo e na magia oculta na escuridão que deseja dominar, como eu fui tão cego?

— Você não compreende. Não tem a noção do poder que está guardado nela, diria que nem ela ainda tem. Não pense que ela sofreu sozinha. — ele desviou o olhar, um vulto sinistramente negro adentrava o salão, todas as velas se apagaram e a música parou.

PELE RASGADA

Minerva estava imersa na dor de suas primeiras memórias da transmutação. A maneira como tudo havia acontecido, foi tirada à força de seu quarto em uma noite tempestuosa, arrastada para um calabouço onde foi espancada e teve a alma violada pelo próprio pai. Por alguns segundos se calou, sabia que estava quase no fim. Seus olhos viam patas no lugar das mãos e a dimensão do ar que respirava era diferente. Ela era uma loba, o presente mais imponente que ganhara de seu algoz e a maior maldição.

IPSO FACTO

 

Todos estavam imersos em um tremor coletivo, paralisados pela visão estática da criatura diante deles. Enorme, ela se destacava na penumbra da noite, seus pelos negros e brilhantes refletindo, de forma fantasmagórica, a luz vaga da lua que adentrava pela janela do salão de festa. A cada movimento, os pelos pareciam brilhar como se fossem feitos de sombras e luar. Seus olhos, azuis e faiscantes, eram como chamas em meio à escuridão. Uma corrente quebrada pendia de seu pescoço, uma marca do passado e da dor que a acompanhava.

Um uivo longo e agonizante rompeu o silêncio, ensurdecendo os presentes, fazendo com que todos se tremessem de medo e fascínio. Kheas, no entanto, a olhava fixamente, diante de algo que ele mesmo havia criado e agora não podia mais controlar. Quando ele deu um passo à frente para se posicionar, Hansert interferiu avisando para que ele olhasse ao redor, uma legião de lobos estava se agrupando ao redor dela. A grande loba encarava os bruxos e bruxas com desdém e fazia menção de falar.

— Esta é minha forma, e esta é minha legião de feras. Esperei muito por isso — a voz de Minerva ecoou com um poder sombrio, reverberando pela sala. Seus olhos faiscavam com uma intensidade ameaçadora, enquanto as criaturas ao seu redor se agitavam, como se atentas à sua autoridade. — Temam a mim e não a ele — continuou.

— Por favor... — Kheas tentou falar, mas foi interrompido abruptamente. Um dos lobos avançou, derrubando-o com força e mordendo-o, ameaçando rasgar sua garganta.

— Somos fortes, e somos um, meu pai! Esses não são bruxos, mas lobisomens que vivem nas montanhas de Áugures. Ele não é rei, é um verme... — Minerva rosnou com a ferocidade de uma líder, suas palavras ecoando com o peso de sua nova identidade.

A multidão, paralisada, observava em choque enquanto os lobos se espalhavam, cada um se aproximando lentamente de uma pessoa. O medo se espalhava como uma epidemia, e o ar vibrava com a tensão crescente. Os lobos, em ferocidade, cercavam a todos, prontos para mostrar que o poder de Kheas havia se desvanecido naquele momento.

Minerva se aproximou de Kheas, que tremia sob o olhar feroz de sua filha, uma loba imponente. O silêncio no salão se estabeleceu por alguns segundos quebrado apenas pelos uivos distantes e pelo som da respiração pesada da criatura. Ela se abaixou até ele, suas garras afiadas tocando sua pele, realizando um movimento rápido e brutal, arrancou a cabeça de Kheas, a engoliu diante dos olhos atônitos de todos.

O sangue jorrou, escorrendo pelo chão, enquanto Minerva ergueu-se, agora mais poderosa do que nunca. O noivo, Hansert, estava paralisado, impotente diante da visão de sua futura esposa, transformada em uma fera imbatível. Ele ficou sozinho no salão, a multidão dispersando em pânico, incapaz de compreender o que havia acontecido. A rainha Nuara observava escondida toda aquela cena.

Minerva olhou para ele uma última vez, seus olhos azuis faiscando com um brilho gélido e distante. Sem uma palavra, ela virou-se e se uniu aos lobos que a acompanhavam. Eles avançaram, e como uma sombra, desapareceram na noite, deixando o castelo para trás. A liberdade estava finalmente ao seu alcance. Em um canto escuro da sala, ela viu a figura de sua mãe, Nuara, parcialmente oculta nas sombras, os olhos assombrados pela dor. Por um momento, seus olhares se encontraram. Ela se aproximou, suas palavras suaves, mas firmes, cortando o silêncio:

— Mãe, venha comigo. Não há mais razão para permanecer aqui!

Nuara hesitou por um instante, os olhos perdidos em uma mistura de medo e alívio. Com um suspiro resignado, Nuara se aproximou e, com a ajuda de Minerva, subiu nas costas dela, montando como uma amazona. Juntas, mãe e filha começaram sua fuga.

Os lobos, como sombras ágeis e implacáveis, se moveram ao redor delas, guiando o caminho para a liberdade. Enquanto o castelo ficava para trás, Minerva sentiu, pela primeira vez em sua vida, que o peso das sombras de seu passado estava finalmente sendo deixado para trás. O destino dos reinos de Áugures e Zhelas estava selado, mas agora, ela era a dona do seu próprio caminho sob o luar.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Os irmãos Winsttein

 — A arte, querida Bella, requer vida e morte, tu sabes… — Bellanna pretendia argumentar, todavia, Dhiego aumentou seu tom de voz ao notar que seria interrompido…

— Não renuncie a tua descendência, Bellanna Winsttein! — Proferiu Dhiego, seu irmão. Bellanna o olhou furiosa.

 — Sabes que não o faço, apenas questiono a tua pretensão… — Dhiego sorriu.

 — A arte, querida Bella, requer vida e morte, tu sabes… — Bellanna pretendia argumentar, todavia, Dhiego aumentou seu tom de voz ao notar que seria interrompido, Bellanna, portanto, recuou bufando. — Tu sabes que para termos o pigmento da morte, precisamos nos aproximar dela sem sucumbir às suas cores pútridas e tão fascinantes!

 — E o fazemos, Dhiego! Papai está morto naquele quadro! — Bellanna apontou para o quadro à esquerda, na parede da sala. A moldura marfim fora esculpida com os ossos do falecido, a tela foi costurada com a sua pele e, pelas mãos hábeis de Dhiego, o sangue e a carne tonalizaram as nuances do retrato. Dhiego deu de ombros ao ouvi-la. — Não é suficiente para ti?

 — Poderia ser… mas nunca ouvimos um Winsttein sequer pintar a si mesmo sem que tivesse de beijar os lábios mórbidos da morte…

 — O que estás dizendo, Dhiego!?

 — Pinte-me ainda vivo! Retire alguns ossos desnecessários, rasgue-me a pele, retira-me o sangue! Todavia, mantenha-me vivo.

Os olhos de Bellanna se arregalaram na surpresa da proposta de seu irmão, que loucura aquilo lhe parecia! Mas, Bellanna rapidamente se sentiu intrigada com tal horrenda possibilidade — afinal, era uma Winsttein. Deixou-se, portanto, idealizar a imagem de sua própria pintura, ao lado de seu irmão, sendo eternizados em morte, sem que morressem de fato.

— Uma… exposição… —Murmurara Bellanna, olhando ao derredor, sonhando. — Apenas aos críticos, aos familiares… tu e eu, Dhiego! Arrancando-nos partes de nossos corpos e pintando de imediato o nosso próprio retrato. E, então, finalizá-lo antes de nossa morte…

— Porque, se vivos no término, já teremos o legado… — Completou Dhiego, extasiado com a ideia. Ambos se olharam.

— Que assim seja! — Proferiram sorrindo.

A macabra exposição masoquista aconteceu como previsto e os irmãos Winsttein nunca foram esquecidos. Morreram minutos após o término do quadro e os seus gritos — dizem aqueles que lá estiveram — foram gritos hórridos, lamúrias atormentadoras e gemidos lascivos, tudo tétrico tal como as cenas mais atrozes de mutilação e tortura. Sorriam, contudo, a quase todo o instante; sentiam o prazer do maior de todos os feitos. Ninguém os interrompeu e seus filhos os assistiram bem à frente do palco — crianças tão pequenas. Todos os aplaudiram por minutos até o momento em que morreram no palco. Um silêncio, então, espargiu pelo anfiteatro até ser quebrado por uma terrível e grave voz que disse: “Bravo!” entre aplausos longos e mórbidos.

Até hoje, ninguém sabe de quem era aquela voz e, acreditam, era da Morte que os assistia desde o início.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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 Diário de Dantesca Nínmia — Trecho nº1

Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria, atravessara a contenção, encontrando-me de súbito, com sua aparência asquerosa e dentes afiados. O líquido negro de sua constituição vertia sobre o derredor, enegrecendo ao violeta profundo as nuvens características do reino… eu temi, por um momento… temi não ser capaz de contê-lo. 

Seu sibilo e grunhido eram terríficos! Sem olhos, a criatura parecia guiar-se apenas pelo som; raízes cinéreas escurecidas formavam a sua asquerosa fisionomia. Para ser tão poderosa assim, receio que não venha d’um pesadelo qualquer, mas sim d’um abíssico trauma. Não encontrei sua origem ainda, contudo, tenho esperanças. Por hora, exausta me sinto… conter a criatura terrífica esgotou meu poder a um nível mortífero…

Adormeci pouco após o incidente com aquilo, e receio que a mórbida coisa penetrara em violência o meu sonhar — ou o pretendia fazer, pois, tive pesadelos de uma estranheza absurda! Parecia-me que a criatura me observava, mesmo destituído de visão. Lorrt tem cuidado do meu sono, quando me esgoto em perturbações, todavia, sei que ele está passando por um momento difícil que o está atormentando… parece que Somníria trouxe Áurea para ele, isso… me intriga, pois… é perigoso, é um risco imensurável para o Somníria e para todos nós.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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“Hibisscuss”

Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos esquecidos sobre aqueles que já se foram. Mas, não. Ao invés disso, avistei densos arbustos que possuíam uma espécie de flor de hibisco, cor de sangue vivo.

Adentrando nestas plantas, encontrei um recôndito que, como uma clareira, deixava o sol pálido atravessar sutilmente o seu interior e a luz evidenciava uma estrutura fascinante. Era como uma biblioteca em um jardim, possuía estantes de pedra, esculpidas como por um artista antigo. Os livros — sim, as estantes tinham livros inteiros — estavam protegidos dentro de invólucros feitos de algum tipo de rocha, talvez da mesma cujas estantes haviam sido erguidas. Cada livro, em um idioma desconhecido, ocupava um desses invólucros que o preservavam da umidade.

Embora lindo, era… estranho…

O silêncio pairava como uma mórbida presença que, de soslaio, observava. A brisa frígida fazia assemelhar-se a oscilação da folhagem e dos hibiscos, como passos entre a vegetação e isso me assustava. Sempre que me aventurava a abrir um dos invólucros e folear algumas páginas, arrepiava-me a tez como se algo amedrontador estivesse escrito em seu interior. Em um dos livros, notei que a tinta estava ainda fresca…

Cada detalhe me levava a uma inquietação profunda, então fugi o mais rápido que pude após o segundo arrepio, pois, com ele veio o que eu juro ter sido um murmúrio, um sussurro longínquo e tão próximo… acho que esse bizarro som dissera-me “hibisscuss” — arrastando no “s” como o silvar de uma cobra cuja língua freme na ponta dos lábios.

Quando alcancei o nevoeiro outra vez, respirei profundamente aliviada, mas isso não durou muito; notei uma flor daquelas em meu braço, devia ter caído por causa do meu movimento fugaz. Ao puxá-la, senti uma pungente dor. Sua raíz adentrara minha pele, deixando viva a carne por debaixo, como uma ferida profunda. Temi que tivesse algum veneno, todavia, dentre a névoa naquele lugar tão macabro, eu não podia encontrar algo que pudesse ser utilizado para desinfeccionar a ferida.

Em razão daquele murmúrio bizarro, veio à mente a opção de sugar o local para, quem sabe, extrair qualquer veneno existente. Eu, então, o fiz. Sangue. Gosto ferroso. Até ser engasgada com outra flor de hibisco que emergiu do local mais uma vez… puxá-la abriu ainda mais o ferimento inicial. Foi uma dor terrível…

Olhei para a lesão, preocupada e agonizando, e o que vi fora perturbador…vi dezenas… infindas raízes na carne, minúsculas e, sutilmente, em movimento… dentro de mim… mudando a minha humana natureza e transformando-me em uma delas… das flores… por uma maldição sussurrada em meu ouvido…

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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Horror Cósmico, Escrito por Michelle S. Nascimento, -Contos Michelle S. Nascimento Horror Cósmico, Escrito por Michelle S. Nascimento, -Contos Michelle S. Nascimento

Vale verdejante

Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos, pelas dificuldades de uma rotina enclausurante. As vegetações quase jaziam, sem viço, e exibiam uma fina camada esbranquiçada, causada pelas constantes nevascas, nada comuns para aquela região.

Os animais também eram prejudicados e sofriam as consequências da escassez de alimentos. Doenças. Mortes. As carcaças dos pobres animais eram amontoadas em uma pira, não por ritual, mas por necessidade, e o cheiro dos pelos e carnes, enquanto eram incinerados, – com o intuito de conter as mazelas que emanavam de seus cadáveres, – causavam ânsias e amarguras. Ledo engano. As doenças logo reclamariam para si o direito – autoimposto – aos corpos dos moradores daquele local, primeiro das crianças e idosos, depois das mulheres e homens adultos.

A comunidade, outrora festiva e alegre, agora não tinha motivos para comemoração. O ânimo foi-se esvaindo, assim como a vida dos campos verdejantes, que emolduravam aquele belo lugar em tempos passados.

O vilarejo, batizado gentilmente de “Vale verdejante”, em referência clara às belezas naturais que possuía, agora era tomado por uma pesada aura inodora e insípida, reflexo do que agora aqueles pobres coitados traziam dentro de si. O verde pulsante das folhas de outrora tornou-se incolor, sem vida.

E, como eram supersticiosos, ponderaram sobre os motivos de tais agressões, que segredos os deuses e entidades haviam descoberto que justificassem castigos tais? Como crentes em maldições e contra maldições, agarraram-se ainda mais à fé, e direcionavam suas rezas e sacrifícios para todos os deuses que estivessem dispostos a ouvi-los.

E ouviram. 

Numa noite fria, que reafirmava que nada mudaria, e confabulavam se iriam falecer de inanição ou hipotermia, uma esfera luminosa atravessou os céus e cravou-se violentamente nas colinas ao redor, iluminando a noite tenebrosa como um farol esmeralda de esperança, há tempos perdida. Sim, a cor que caíra do céu era indescritível, mas na obrigação de classificar os eventos, a cor era semelhante ao verde. O verde, que tanto almejavam, vinha trazer-lhes o terror? Os reflexos de luzes verdes e suas variadas nuances, criavam um caleidoscópico hipnotizante, tragando-os para dentro do mosaico enigmático, penetrante. O impacto da esfera causou um leve tremor de terra e uma cratera recheada com os destroços do que quer que fosse aquele elemento. No centro da esfera, uma mancha verde brilhante pulsava, como se estivesse viva.

Apavorados. Inertes. Não desviam o olhar da cratera, esfera. Ela tinha um poder invisível sobre eles, tornando-os marionetes sem controle dos próprios corpos e ações. Contudo, do mesmo modo misterioso com que foram dominados, sentiram-se libertados de repente e conseguiram, enfim, discutir sobre o ocorrido.

– O que será isso?

– Será que é perigoso?!

– Mas de onde veio isso???

– Céus, o que é isso?

Questionam-se, obviamente, não obtendo uma resposta plausível. Após algum tempo de indagações retóricas, por fim, ouviram uma voz ecoando em suas mentes:

Venho do nada. Do vazio. Antes da existência das galáxias, dos mundos e da vida. O nada, esse lugar incompreensível para você, é minha morada, meu abrigo. Eras e eras, bilhões e bilhões de anos separam meu existir e o surgimento de sua frágil raça. Mas você me invocou. Clamou por ajuda e eu vim para ser a sua única saída. Não temas.

Sentiram uma paz preencher cada parte de seus corpos. Ninguém ousava dizer mais nada, mas sabiam, o socorro viera e eles seriam salvos. E foram. Nos dias seguintes o mau tempo deu trégua, o sol voltava a iluminar os olhos e corações, derretendo a geleira surgida dos escombros das dores e mortes. Os animais, que haviam conseguido subsistir, ficaram mais fortes, suas doenças foram extirpadas, como se arrancadas com a mão. O mesmo ocorreu com os enfermos que resistiram ao doce chamado da morte, – e ela, havia sido expulsa daquele lugar por tempo indeterminado. Mas a melhora mais nítida era com a vegetação: tornara-se verde brilhante e viva, mas de um tom tão intenso, quase fosforescente. E em certas noites afirmavam que as folhas irradiavam uma luz verde intensa, mas não ousavam questionar os milagres recebidos.

E permaneceram firmes naquele acordo mudo. Sem questionamentos.

As verduras, que cresceram após aquele evento, eram deliciosas, cada mordida emitia um som suave, como um sussurro apaixonado aos ouvidos. Logo as árvores também deram frutos, suculentos e inebriantes, nunca haviam provado nada igual. E no meio de tantas dádivas insistiam em não enxergar os efeitos colaterais daquele milagre: suas peles estavam ganhando tons de verde água, bem sutil, mas perceptível. Mas não ousavam reclamar.

Os pelos dos animais também estavam tornando-se verdes. E quando abatidos para consumo, suas carnes e sangue tinham uma coloração esverdeada. Mas não se podia negar que isso tornava a carne ainda mais saborosa. E consumiam as carnes, verduras, frutos – tudo o que provinha da terra – com tanto afinco, obsessão. Sem questionamentos.

A terra já não era mais marrom, mas verde oliva. E banhavam-se nas terras, conectando-se a ela. E estavam. Primeiro foram os membros, os dedos já são tinham a forma humana, mas era semelhante a cipós. Sem questionamentos.

Os braços e pernas foram metamorfoseados em troncos esverdeados. O sangue transmutara-se em uma seiva verde limão, os órgãos internos adaptaram-se perfeitamente ao novo homem-vegetal. A locomoção era cada vez mais restrita, arrastavam-se por cima da manta verde – outrora terra – e ficavam horas parados ao ar livre, em um ritual de fotossíntese macabra.

E novamente a voz submergira nas mentes, solicitando a presença de todos na cratera. E foram. Quando suas mãos-cipó tocaram a esfera, sentiram algo se mover dentro dela. Um vulto surgiu na superfície e sorriu. Era o próprio ser-verde, aprendendo, copiando, invadindo. O verde havia consumido tudo e todos. E continuaria crescendo, para sempre.

A comunidade desapareceu em um silêncio vegetal. Onde antes havia casas e pessoas, agora havia apenas um vasto vale verdejante, coberto de flores e árvores que brilhavam levemente à noite. Quem olhasse de longe veria algo belíssimo, mas quem se aproximasse demais ouviria os sussurros nos galhos, risadas engasgadas e palavras esquecidas ao vento, e jamais seria visto em forma humana novamente.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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O suntuoso baile das máscaras negras

O convite chegou sorrateiro. Cartão negro, emoldurado por pétalas banhadas a ouro, letras cursivas que pareciam dançar no papel, anunciando que…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O convite chegou sorrateiro. Cartão negro, emoldurado por pétalas banhadas a ouro, letras cursivas que pareciam dançar no papel, anunciando que o baile seria o acontecimento mais importante de suas vidas. Não ousariam declinar. Quem enviou tal convite? Não importava. Como todos da alta sociedade foram convidados, o anfitrião certamente era um homem de estilo refinado. Presumiram ser um homem, somente um homem poderia ter e despender tanta fortuna em uma única noite.

Os preparativos foram imediatamente iniciados: os senhores com seus alfaiates; as senhoras com as estilistas, todos artistas renomados de seus tempos. Precisavam estar impecáveis, para eles não bastava ser rico, tinham que parecer ser milionários.

O grande dia chegou. Estavam cansados e ansiosos, pois o sono não havia encontrado morada em seus corpos. Noite em claro conferindo os pormenores, cada detalhe em seus trajes era crucial. Confirmação e reconfirmação de agendamento com os profissionais que ajustariam os cabelos, peles, unhas, os necromaquiadores — daquelas pessoas que andavam, respiravam, mas não viviam — deveriam ser perfeitos em suas tarefas. Aqueles nobres não aceitariam nenhum erro, nenhum deslize.

Chegaram pontualmente à mansão. Estavam a postos todos os membros da elite daquela cidade sem nome, enfileirados como pilastras adornando as portas do céu. Os portais abriram-se, revelando as belezas do local. Adentraram tal qual os pioneiros de uma terra virgem e fértil, cientes de que, se fosse preciso, a violariam para apaziguar seus prazeres mais profundos.

À recepção receberam máscaras suntuosas, negras e com os mesmos entalhes banhado a ouro, conferindo-lhes ares de seres etéreos. 

O salão era grandioso, com um teto abobadado decorado por lustres de cristal gigantes que refletiam a luz suave em tons dourados por todo o ambiente. As paredes eram revestidas de painéis negros com detalhes em dourado esculpido, criando um contraste opulento e sofisticado.

O chão de mármore black piano com veios dourados, impecavelmente polido, refletia a iluminação suave das velas em castiçais imponentes de ouro. No centro do salão, mesas redondas estavam cobertas com toalhas de veludo vermelho e decoradas com arranjos de flores exóticas, e taças feitas de ouro puro e cristal lapidado, cintilavam com elegância sob a luz. Os talheres eram de prata com detalhes em ouro, e os pratos possuíam bordas decoradas com padrões barrocos dourados.

No ar, uma música clássica orquestrada ecoava suavemente, completando a aura suntuosa do local.

Garçons impecavelmente trajados circulavam oferecendo champanhes das melhores safras, enquanto sobremesas decoradas com folha de ouro descansam em bandejas reluzentes.

Uma pista de dança espelhada convidava-os a dançar sob uma chuva de luzes, tornando o ambiente ainda mais mágico e luxuoso, iluminando os sorrisos plásticos, cuja expressão inerte fora fixada mediante adoração do deus da estética. 

O banquete foi servido, porém o anfitrião ainda permanecia insondável, enigmático, sob o véu taciturno que sua máscara lhe conferia. Banhavam-se nas taças dos vinhos e champanhes, envolvidos por todo aquele luxo exacerbado. Finalmente eram os senhores de si, finalmente haviam recebido o tratamento de que eram merecedores.

Em meio ao gozo, provindo do prazer etílico e carnal, dançavam, riam e agradeciam ao anfitrião, que somente assentia com leve aceno de cabeça. Não souberam precisar, mas em determinado momento as luzes douradas foram transmutando-se em marrom, negras.

O local, antes repleto de luxo, agora preenchia-se com uma pressão atmosférica lúgubre, mas não paravam de dançar. Os pés calejados não se atreveriam a parar. Os sorrisos plásticos não seriam desmontados. Continuaram, até que o anfitrião cansado daquela mesmice, resolveu interferir e anunciou que o tour pela mansão seria iniciado.

A mansão parecia crescer a cada passo. Um corredor infinito e implacável à frente. O anfitrião anunciou que cada um deles tinha um quarto ali, decorado conforme seus desejos mais profundos.

A primeira porta se abriu. Parecia um quarto medieval. No centro, havia uma banheira coberta de sangue das vítimas, jovens inocentes esmagadas e pisoteadas por uma mulher impassível, a dona daquele aposento. A condessa foi convidada a entrar. Não ousaria recusar. Entrou. A porta cerrou-se violentamente. Ouviram os gritos e souberam que os flagelos causados por ela seriam revividos para a eternidade.

Os seus pecados bateram à porta, cada um soube o que lhes aguardava. Ao avistarem seus destinos, alguns tentaram correr, mas os olhos da máscara que traziam em suas faces acederam-se em chamas. Tentaram arrancá-la, mas ela parecia fundir-se à pele, como se tivesse criado raízes em seus crânios. Gritavam, mas o som era abafado — a máscara sufocava, fechando-se ao redor da boca e nariz como uma viseira maldita. As chamas se espalharam, queimando a carne, mas sem consumi-la completamente, deixando marcas escuras e pulsantes que pareciam veias malignas. A pele fervia tal qual um vulcão em plena atividade. As bordas das máscaras começaram a se mover, como se fossem mandíbulas esmagando lentamente os ossos do crânio. O som era horrível. Rangidos ecoavam pelo salão, misturados com os gritos abafados. O sangue escorria pelas aberturas da máscara, enquanto os olhos dos algozes eram expelidos para fora, explodindo em um jorro grotesco.

Os outros convidados observavam, horrorizados e quietos. Os corpos dos que tentaram fugir, por fim, desabaram, mas as máscaras permaneceram flutuando no ar. Todos ficaram silentes, agora sabiam que não poderiam fugir daquele local.

As portas foram abrindo-se, uma a uma, e revelando os mais criativos instrumentos e formas de torturas, todas advindas daquelas mentes privilegiadas e merecedoras de todos os luxos que aquele inferno premium poderia propiciar-lhes.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Sorte Diabólica

…O pior de tudo era ter que voltar para casa de mãos abanando e sem nenhum argumento que pudesse lhe valer, e ser obrigado a contemplar o olhar de…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

…O pior de tudo era ter que voltar para casa de mãos abanando e sem nenhum argumento que pudesse lhe valer, e ser obrigado a contemplar o olhar de decepção de sua mãe. Como se não bastasse todo o sofrimento que a ela fora infringido, ainda por cima ele, seu único filho. A única pessoa que pudesse lhe valer era na verdade motivo de uma decepcionante ignomínia. Por isso, estava ele ali, parado encostado junto à mureta da ponte, observando as águas turvas e preguiçosas que desciam correnteza abaixo. Sua solidão era completa, não havia ninguém por perto àquelas horas tardias. Ao seu redor reinava um inquietante silêncio, apenas vez por outra, rompido pelo sinistro som das criaturas da noite. O céu estrelado, placidamente o contemplava como se aguardasse suas últimas resoluções para ser testemunha única de um último ato.  

Henrique – Rico entre os íntimos, mas de riqueza mesmo, nada tinha – olhava para o reflexo das estrelas sobre as águas, buscando nas profundezas do infinito a coragem necessária para um fim definitivo a toda uma vida de frustrantes decepções. Estava decidido que, se a sorte não lhe sorria, o que restava era ir de encontro ao azar, na inquietante busca pelas verdades da existência. Naquele momento de indecisão, fez uma breve análise de sua medíocre existência. De forma bastante decepcionante, chegou à triste conclusão de que toda sua vida fora uma grande farsa, cheia de tragédias e terríveis privações. E, por fim, havia se tornado um vergonhoso fardo para sua mãe. 

A querida Tia Eulália, sua mãe – uma humilde professora de primário, que sobrevivia contando as migalhas de seu pequeno ordenado, e tentando ajuntar o restante daquilo que sobrara de sua vida – por mais que tentasse disfarçar seus sentimentos, ainda assim era possível perceber que ela trazia consigo o semblante melancólico e um olhar triste e distante, típico de pessoas sem maiores perspectivas, entregues ao sabor do vento, vivendo um dia após o outro. Ela, que noutros tempos, ainda no frescor de sua juventude, fora uma bela mulher, alegre e descontraída, sempre com um animado sorriso no rosto, esbanjando simpatia e muita disposição, agora, depois de todas as tragédias que se abateram sobre ela, nada mais era que a verdadeira face da derrota.  

Rico tinha vagas lembranças da época em que ainda existia o brilho do contentamento nos olhos de sua mãe. Um tempo já distante, quando ele ainda tinha uma família completa com ele, sua adorável irmã Cecília, sua atenciosa mãe e seu pai, o conhecido caminhoneiro Amarildo – que era, para os demais, sinônimo de muita presteza e completa lealdade. Mas para sua mãe se demonstrou um terrível desengano. A tristeza estampada na face de sua mãe era apenas o resultado da infeliz condição humana. Ela que já tivera todos os motivos para sorrir para os quatro cantos do mundo, viu toda sua felicidade se desfazer como espumas ao vento. 

Quando Rico ainda era bem pequeno, seu pai saíra de casa para uma viagem a trabalho – como era de seu costume – e nunca mais voltara. Seu pai que partira apenas com alguns pertences, mas levara consigo todas as economias da casa, deixara para sua mãe apenas um bilhete de adeus – como ato de justificativa – diversas dívidas a pagar e dois filhos pequenos para criar. O homem ao qual ela entregara sua honra e sua inocência, dedicando-lhe todo o seu amor e sua lealdade, sumira de vista sem deixar nem um vestígio de seu paradeiro. Rico tinha nove anos na época e sua irmã Cecília – já demonstrando os primeiros sinais de um semblante doentio – apenas sete. Num ciclo contínuo de desventuras, pouco tempo depois, após seu pai ter saído de casa, sua irmã Cecília fora diagnosticada com Leucemia.  Numa desesperada tentativa de um tratamento eficaz para a filha, Tia Eulália teve que vender a casa – único bem que eles possuíam – e logo depois contrair um oneroso empréstimo bancário – dívida essa que consumiria grande parte de seu já parco ordenado por um longo prazo. No entanto, todos os esforços de Tia Eulália se demonstraram em vão. Cecília viria a óbito menos de um ano após seu pai tê-los abandonado. Cecília fora baixada à sepultura sem o último adeus do pai que ela tanto adorava.  Ficaram apenas Rico e sua mãe – sem casa para morar, com dívidas a pagar, sem nenhum dinheiro no banco, e nem mesmo um parente importante que lhes pudesse valer. Estavam sós no mundo. 

Uma vez que sua mãe tinha que trabalhar para trazer o sustento para dentro de casa, enquanto ela estava ausente, Rico – um jovem imberbe e desacreditado na vida, pois perdera seu pai e sua única irmã num intervalo de tempo bem pequeno – vivia mais nas ruas do que em casa, andando em companhia de pessoas de índole bastante duvidosa, tornando-se um interessado aluno na arte da vadiagem. Para ajudar sua mãe nas despesas do lar, fazia um biscate aqui e outro acolá. Mesmo enfrentado diversas adversidades da vida, conseguiu sobreviver a uma infância infeliz e assim que chegou à adolescência, para ter o dia livre para o trabalho, acabou por convencer sua mãe – mesmo com certa relutância por parte dela – a terminar seus estudos no período noturno. Foi justamente nesse período que travou conhecimento com os malandros da noite. Indivíduos de vida noctívaga – assíduos companheiros de copo e fiéis amantes do jogo. Rico – um rapaz belo e sedutor de fala macia e sorriso doce – logo ficara conhecido e muito bem-quisto entre jogadores, prostitutas e todo o tipo de vagabundo que vagueia pelos becos e vielas sob a proteção das sombras da noite.  

Sua mãe, ao saber desse deprimente caminho ao qual ele estava se enveredando, com a face banhada em lágrimas e em soluços, o cobrira de conselhos e reprimendas, num moroso sermão sobre a moral e os bons costumes. Vendo a tristeza e a decepção que ele mesmo causara à própria mãe, prometera-lhe que, pelo amor e todo o respeito que ele sentia por ela, abandonaria de vez aquela vida desonrosa. Sua mãe, bastante comovida com a sinceridade estampada nos olhos do filho, o abraçou ternamente e após beijá-lo na face carinhosamente dissera-lhe: 

– Filho amado, você é jovem, bonito e cheio de saúde e vigor, tem todo um futuro pela frente, não desperdice seu tempo e seu dinheiro nesse tipo de vida. Tais locais são, na verdade, um antro de lascívia e perdição. Em lugares como este não há o senso de amizade e camaradagem, lá você jamais terá amigos, apenas conhecidos. Nesses antros de perdição, você só tem valor enquanto sua bolsa ainda estiver cheia. Reina nesses lugares um abjeto interesse material, por mais que você possa se achar interessante e sedutor, seus valores são pesados de acordo com aquilo que você possui. Se algum dia – por acaso – estiveres totalmente desprovido de bens e de dinheiro, conhecerás a índole daqueles a quem chama de amigos e saberá o verdadeiro valor das mulheres que o rodeiam, se dizendo sempre fiéis a você.  

Em honra à promessa feita à sua mãe, Henrique deixara brevemente de lado a vida noctívaga pela qual se enveredara. Conseguira, através dos contatos de sua mãe, um emprego fixo como atendente numa farmácia de propriedade de um atencioso amigo da família. Seguindo conselhos de sua mãe e de seu próprio patrão, planejava assim que possível dar continuidade aos seus estudos.  Em certas ocasiões, até mesmo acompanhara sua mãe a igreja, onde conhecera uma simpática jovem – Eleonora era filha do pastor da igreja – pela qual se apaixonara perdidamente.  

Sua mãe estava eufórica com o comportamento do filho e a todo o momento recebia elogios pela forma educada e gentil com que ele a tratava – algumas das beatas da igreja diziam, entre sorrisos maliciosos: “um bom filho será um excelente marido”. Rico era verdadeiramente um educado cavalheiro e em se tratando de sua mãezinha querida, era ele mais atencioso ainda. Seu ordenado na farmácia – que não era lá essas coisas – era quase todo entregue à mãe para ajudar nas despesas do lar. Mesmo com o parco salário que recebia, ainda assim, ele trabalhava todos os dias sem se distrair, pois tinha grandes planos para o futuro. Ele que já havia se declarado, em surdina, à Eleonora, recebera por parte dela certa conivência que lhe dava grandes esperanças. No entanto, nas Escrituras Sagradas está escrito que: “... quando um espírito imundo sai de um homem, passa por diversos outros lugares... Então vai e traz outros sete espíritos piores do que ele...”.  

Nessa mesma época, devido a um estrondoso furo no caixa da farmácia – mesmo sendo inocente – Rico acabara por perder o emprego sob a acusação de ter sido ele a surrupiar o valor faltante. O dono da farmácia – amigo íntimo de sua mãe – dissera a ele estar tremendamente decepcionado com sua conduta, pois havia lhe dado um sincero voto de confiança, em amizade à sua mãe. Dissera-lhe ainda que ele não havia herdado o caráter da mãe – mesmo que veladamente, fazendo uma breve alusão ao pai. Aquilo lhe ferira profundamente a alma, até mais do que ser acusado injustamente de furto. Se no jogo não fora feliz, iria tentar a sorte no amor e no mesmo dia que perdera o emprego, decidira se apresentar na casa de Eleonora como sincero pretendente a receber a mão dela em sagrado matrimônio. Ao demonstrar suas intenções para com ela perante sua família, fora humilhado e vilipendiado em toda sua honra. Sem nenhum tipo de cerimônia, o pai dela – seu ex-futuro sogro – dissera-lhe de forma bastante grosseira e sincera. 

– Jamais permitirei tal união, por dois motivos principais. Primeiro não dou guarita para vagabundo debaixo do meu teto – pois sei quem você é, de sua fama de ladino, você pode até mesmo ludibriar minha filha inocente com seu palavreado macio, mas a mim você não engana – e, segundo, em respeito à sua honrada mãe, sabendo que você não tem onde cair morto, não posso permitir que ela, já com tantas dificuldades, tenha que alimentar mais uma boca em sua casa, como se não bastasse o delinquente sanguessuga que ela inocentemente chama de filho e vive às suas expensas. A igreja a qual eu presido – sendo a casa de Deus – sempre estará aberta a todos sem distinção, mas a minha casa – onde honrosamente reside minha família – jamais estará aberta a pessoas de sua espécie. Exijo peremptoriamente que se afaste de vez da minha filha e jamais ouse colocar os pés aqui nessa casa novamente. 

Naquela mesma noite – decepcionado com o mundo e com a vida – Rico decidira dar uma breve passada no cassino onde ele já presenciara fortunas inteiras virarem pó.  No entanto, também fora testemunha de fatos inusitados, onde um indivíduo qualquer entrava com alguns trocados no bolso e saía de lá para uma vida de opulência. Estando ele sem dinheiro algum, apenas observara atentamente seus conhecidos tentando a sorte nas diversas modalidades de jogatina ali existentes. Como sua mãe o havia prevenido, aqueles que se diziam seus amigos, percebendo que ele não tinha nenhum tostão furado, não lhes dera atenção alguma, não lhe ofereceram nem mesmo um único gole de bebida sequer, tão pouco algum trocado emprestado para que ele tentasse a sorte. 

No dia seguinte, sua mãe inocente e alheia a tudo aquilo que estava acontecendo ao filho, fora para o trabalho sossegadamente como fazia todos os dias. Levando-se em consideração que a vida de muitas pessoas se baseia em se deleitar com a desgraça alheia, na escola já havia burburinhos – entre os desocupados – sobre o fato de Rico ter sido escorraçado da casa da bela Eleonora – alguns vizinhos ouviram o pastor vociferando ofensivas palavras ao filho de Tia Eulália. Também se comentava sobre o roubo na farmácia – como isso veio a público ninguém nunca soube ao certo – e por fim o fato dele ter sido visto entrando no cassino novamente. – Certamente para torrar a grana oriunda do furto – diziam alguns de língua mais ferina. Rico, alheio ao fato de que seu nome e suas desventuras era o assunto preferido do dia, ficara em casa, tentando encontrar uma forma de relatar à sua mãe sobre sua triste realidade.  

Do fundo de sua alma, ele sabia que sua bondosa mãe acreditaria em sua inocência e certamente lhe seria partidária naquilo que tangia a sua pseudovida amorosa. No entanto, precisava ele encontrar uma forma correta de narrar todos os fatos de uma forma que lhe parecesse convincente. Estando ele só e largado ao mais completo ócio, fazendo jus ao ditado: “que uma cabeça desocupada é uma excelente oficina para o mal”. Devido a todas as vicissitudes do dia, ele que tivera uma noite inquieta, intercalada com momentos de insônia e breves cochilos carregados de sonhos estranhos onde via números por todos os lados, pessoas felizes e riqueza por toda parte, chegara à conclusão que se conseguisse algum dinheiro, poderia voltar ao cassino naquela noite e quem sabe assim, se a sorte lhe sorrisse, resolver de uma vez por todas todos os seus problemas. Dinheiro mesmo, ele não tinha nenhum, mas sempre soube onde sua mãe guardava suas economias para uma possível eventualidade – na vida deles dois, as eventualidades eram uma constante. 

Antes mesmo de sua mãe voltar do trabalho, Rico recolhera todo o dinheiro que encontrara guardado entre os pertences dela e após vestir seu melhor traje e estar bastante perfumado, saíra naa ruas aguardando que a noite chegasse e que as bancas de jogos fossem abertas. Estando ele com todas as economias de sua mãe no bolso, pois não deixara nenhum tostão para trás – tal qual, como seu próprio pai outrora fizera, quando os abandonara – sentara-se para jantar e assim o fez como se fosse uma pessoa desprovida de qualquer tipo de dificuldade financeira. Comeu e bebeu do bom e do melhor, antes de ir tentar a sorte, pois estava decidido a retornar para casa cheio de dinheiro ou não voltar nunca mais. Estava decidido a resolver sua vida de uma vez por todas. Assim que o cassino abriu suas portas e iniciou os trabalhos da noite, ele fora um dos primeiros a adentrar as portas que levam à glória ou à mais completa ruína. 

Nas primeiras horas da noite, Rico estava iluminado pela áurea da fortuna. Havia sido sortudo em quase tudo que apostara, o dinheiro que havia trazido consigo já havia se quadriplicado e ele estava pressentindo que era seu dia de sorte. Por volta das dez horas da noite, ele já acumulava dez vezes o valor referente às economias que ele surrupiara de sua mãe. Num golpe de sorte, ela nem mesmo notaria a falta do dinheiro e ele ainda lhe daria mais que o dobro para que ela também pudesse guardar. Parafraseando mais um ditado que diz: “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”. O jovem Henrique, acreditando que a roda da fortuna estava girando a seu favor, decidiu fazer uma última jogada. E foi esse último ato que o levara ao desespero, pois nessa jogada apostara todo o seu dinheiro, tanto o que havia trazido consigo, bem como todo o montante acumulado numa série de apostas bem-sucedidas. Numa insana tentativa de recuperar pelo menos o dinheiro que trouxera, ele ainda apostara o relógio que fora um presente de sua mãe e até mesmo seu próprio paletó, só não apostara suas roupas e os sapatos, porque o dono do estabelecimento não o permitiu.  

Sentindo-se a mais desafortunada de todas as criaturas, Rico saíra às ruas sem destino certo, caminhando trôpego sem saber para onde ir e o que deveria fazer. E quando, na mais completa solidão, estava atravessando uma ponte que cruzava o seu caminho, chegara à inquietante decisão que já não tinha mais vontade de chegar ao outro lado. Após uma longa reflexão sobre a existência, onde ele amaldiçoava a tudo e a todos relegando até mesmo aos céus pelas vicissitudes da vida, decidiu naquele instante, tomar as rédeas de seu destino. Mais uma vez olhando as águas turvas bem abaixo de si, quando havia já passado uma de suas pernas sobre a amurada da ponte, sentiu uma estranha presença perto de si e logo, uma mão de toque macio com um brilhante anel em um dos dedos tocara em seu ombro. Ao se virar se deparara com um distinto cavalheiro que após levantar a cartola e lhe sorrir amigavelmente, lhe dissera: 

– Boa noite meu jovem amigo!  

Num primeiro momento, Rico se assustara bastante por imaginar estar só ali naquele ermo caminho. Tinha a certeza absoluta de que no minuto anterior, quando ele olhara para trás como se estivesse dando adeus ao mundo, não havia ninguém ali naquela ponte. Mesmo assim, direcionado pelo senso da boa educação e dos bons costumes respondeu polidamente. 

– Boa noite senhor! Como poderei ajudá-lo? 

– Olhe bem para mim! E depois olhe para si mesmo e então me responda, quem realmente está precisando de ajuda?! Respondeu o cavalheiro. Um distinto senhor, trajando um belo terno negro de corte fino, sapatos brilhantes e cartola na mesma cor. Tinha a face lisa e um bem cuidado bigode sobre um sorriso de dentes brancos e alinhados. Na penumbra em que se encontravam, a cor dos seus olhos era indistinta devido à ausência de luz, mas dava a impressão de serem claros. O belo anel que trazia num dos dedos tinha uma cintilante pedra da cor de carmim – talvez fosse um valioso rubi. 

– O que o faz pensar que eu esteja precisando de ajuda? — Respondeu Henrique. 

– Sua vida medíocre! Suas decepções! Suas humilhações! E por fim o que estava prestes a fazer! Não percamos tempo com questionamentos e explicações desnecessárias. Eu sei do que você precisa e você tem algo que me interessa. Farei a proposta uma única vez, não tenho tempo para indecisões. É pegar ou largar! Vou emprestar a você um pouco de dinheiro para que volte agora mesmo ao cassino e pegue aquilo que é seu por direito. Jogue apenas na roleta, aposte nos números primos em sequência. Ainda hoje, antes mesmo do cantar do galo, você terá tudo aquilo que sempre mereceu. Apenas me responda sim o não.  

Disse o cavalheiro com um estranho brilho no olhar mostrando a Henrique um grosso pacote de dinheiro. Pelo volume do pacote, era o montante necessário para que, devidamente investido nas apostas certas, fosse mais do que o suficiente para se transformar numa grande fortuna. Rico, como aquele mesmo gentil senhor o havia admoestado a não fazer perguntas desnecessárias, apenas pegou o dinheiro, sentindo em suas mãos um estranho arrepio que lhe correu por todo o corpo. Passou os dedos pelas notas sentido a firmeza do papel que estalava de tão novo, percebendo que aquele dinheiro jamais havia sido usado. Sem acreditar naquilo que estava acontecendo, mal teve tempo de perguntar ao cavalheiro – que já se afastava, se perdendo na escuridão das sombras indo embora da mesma forma que aparecera – como e quando ele iria pagar aquele empréstimo. 

– Na hora certa voltarei para receber essa dívida, não se preocupe quanto a isso. Aproveite pela sorte enquanto ela lhe sorri... — Disse o cavalheiro já chegando do outro lado da ponte e se perdendo pela escuridão a fora. Suas últimas palavras se misturaram em meio ao som dos sinos da igreja que naquele momento badalavam violentamente ao longe avisando a chegada da meia-noite. 

Rico, mais do que depressa, retornara ao cassino e como lhe fora coordenado, apostara grandes quantias somente na roleta e nos números primos em sequência. Em menos de duas horas de apostas, O jovem Henrique conseguira quebrar a banca. Ele que a momentos atrás estava prestes a dar um fim à própria vida, havia se tornado um homem rico. Voltaria para casa não como um homem desempregado, sem onde ter que cair morto como ouvira da boca do pastor, mas como alguém que agora tinha o dinheiro suficiente para comprar até mesmo a própria farmácia onde dois dias antes era um simples empregado que fora demitido injustamente. O dono do estabelecimento não tinha em caixa todo o dinheiro que ele havia ganhado, mas raspou o cofre e dera-lhe tudo o que tinha e na presença de testemunhas confiáveis assinara-lhe uma nota promissória com o restante que lhe seria devidamente pago no dia seguinte assim que o banco abrisse. 

Acompanhado de um policial que estava de folga e, também, tentava a sorte naquela noite, rico tomou um taxi e se direcionou até sua casa para contar as novidades para sua mãe. No caminho estava eufórico em poder dar à sua querida mãe tudo aquilo que ela sonhara um dia. No entanto, mesmo ainda ao longe, soube que havia algo de errado em sua casa, pois mesmo sendo alta madrugada com o dia já quase amanhecendo, havia muita gente na porta, além de uma viatura da polícia e uma ambulância. Rico saltara do taxi antes mesmo do veículo ter parado por completo e ao entrar correndo em casa se deparara com o corpo da mãe sobre uma maca. Aos prantos fora contido por um dos policiais que estava atendendo a ocorrência – um dos vizinhos ouvira um tiro na casa e acionara a polícia que ao chegar se deparara com Tia Eulália já sem vida, numa das mãos ela tinha uma arma na outra um bilhete de adeus... 

Quando o bilhete fora entregue para Henrique para que ele pudesse ler as últimas palavras de sua mãe, ele ouviu ao longe o triste cantar de um galo que anunciava a chegada de um novo dia...

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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O Céu das Alfazemas

Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia que chega! E felicito-me por recebê-lo assim, com uma despreocupação tão geniosa e sagaz. Que tenho a perder agora, homem? Diga!... nem mesmo o inferno tem algo para mim. Nada mais temo ou anseio. Mas a recusa, sim! A recusa me servirá como redenção. Vou-me ao pé dos quadros de Diana, nunca na cela fria deles. 

Por que nos fizeram tão frágeis, minha amada criatura?... Onde puseram as lamparinas que conosco deviam seguir, impregnando de luminosa bondade esses campos fadados à escuridão? Podes ouvir quando sopro, nas pedras, teu nome? 

Ao pecado do amor – demasiado, maldito e incorrigível–, a sentença: nunca mais amar, nunca mais o cheiro dos campos e a vida das montanhas, nunca mais... A morte! A morte aos que cometem heresia. Eu e tu, no breu prateado dessa infinidade. Eternos, como é eterna a dor e a tragédia nessa terra de gente vil. Escute!...Um coral de passarinhos sobrevoa! Zombam dessa bruxa velha, que há de morrer sem aprender a voar. Cai dum vasilhame ambarado o primeiro sinal dos olhos do sol. Pairam estrelas nesse horrendo céu de alfazemas, guerreando por espaço com a turvidão das nuvens, carregadas de toda, toda, toda a tristeza da vida. 

Perseguida pela praga daquele dezembro, revejo-te incansavelmente, a cada hora, indo de encontro ao chão. Por três segundos olhou-me, por três segundos aspirou um sorriso, por três segundos amou-me com a feição... era a vida deixando a ti, como a alma de uma festa, abandonando a todos os convidados – famintos, mortos de sede–... 

Por que, meu bem, por que tivera de condenar a mim e a ti? Ouso dizer que convenceria a Morte. Se ao menos houvesse tentado... Agora vou eu, fadada a seguir-te submundo adentro. Como poderia não ir? Acorrentaram-me em teu punho, e eu mesma vivo a lustrar as correntes. 

Como cheiram os jasmins... quão intoxicante é a vida aqui, crisálida e perto do fim. E na moldura de carvalho que me permite observar a vida lá fora, ainda repousa a lua, lançando-me um fraco sorriso. Como se até mesmo ela sentisse alguma piedade de mim. Bela é a porcelana que carrega a camélia, adoçada em leite e gotejada por alma de beladona. Colhidas do abandonado jardim de um enforcado. É o fim, meu bem... é o fim! É o fim da desonestidade, e se pretendem nos prender, que encontrem corpos. Corpos a enterrar. 

E não diga, nunca – e em parte alguma desse vale – que és um homem só. És metade formosa e sempre bem acompanhada. Lembra-te do pacto de perseguir, juntos, a chama da vida, e rasteje impiedosamente. Não pare, nem por um segundo. Não pare até me encontrar. 

O vento sussurra promessas de primavera, com perfume de orvalho do passado. O céu de alfazema reina, onipotente contra a falta de sangue e coração daquele povo, tão firmado na descomunhão com tudo que é de visceral e estranha natureza. Em marcha lenta, cruzarei a ponte dos mundos, conformada de que nunca havia de entregar-me ao julgamento daqueles que se opõem ao fluxo que tem o corpo e o pensamento. Aos que andam assassinando as bruxas e poetas, julgando com fogo a cada delito, o mais sincero escárnio. Já é hora de partir, deixando para trás a indecência da repressão, indo à vida que emerge da morte, para nunca mais sofrer. Para nunca mais voltar. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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