Somníria, por Dantesca Nínmia

Somníria lar-origem, perfeição! | D’essência pulcra, nébula d’horror; | Anseios, medos: pulsa o coração, | Conduz à fé e ao morbo-arquitector…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Somníria lar-origem, perfeição!
D’essência pulcra, nébula d’horror;
Anseios, medos: pulsa o coração,
Conduz à fé e ao morbo-arquitector…

Somníria, factível imergir;
Aos deuses um fulgor-manifestar,
Se mortos aos seus mitos, impedir
Que o tempo na interface os vá apagar;

Somníria, tanto lôbrega e feliz,
Um fértil solo a tudo o que plantar;
Estreita-te os teus olhos, eis matriz:

Somníria, vida-código, ornar
Em bel fascinação a inconsciência,
E as sete dimensões, e ambivalência:
Real desperto ou lídimo ao sonhar?

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Guardiã de Somníria

— Dantesca! — Clamou Therodriel. Dantesca observou-o se aproximar, silenciada.  — Instabilidades afetaram pesadelos infantes, Emmyliliam está…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

— Dantesca! — Clamou Therodriel. Dantesca observou-o se aproximar, silenciada.
 — Instabilidades afetaram pesadelos infantes, Emmyliliam está dedicando-se a cuidar como pode, todavia, receio que haja um olhar-aberto n’algures do reino. — Therodriel estava apreensivo e Dantesca olhou ao seu redor.
 — Onde está Lorrt? — Therodriel deu de ombros e Dantesca voou acima com tuas asas negras longas e sublimes.

~ ❦ ~

— Lorrt! — Dantesca desce, calma, pousa frente a Lorrt. O semblante de Lorrt induz à Dantesca uma compreensão intuitiva. — Quem é o olhar-aberto? Vejo em tua fronte que a resposta está disponível ao teu conhecimento. — Lorrt respirou com profundez silente.
 — Áurea Lihran… — Dantesca se enfureceu.
 — Como é possível? — Indagou incrédula.
 — O Castelo Drácula, Dantesca… este lugar ao limiar de tudo trará, não apenas Áurea, mas todos os olhares-abertos que desestabilizarão Somníria. — Dantesca ponderou ao ouvi-lo.
 — O que sentiste… ao encontrá-la? — A voz de Dantesca tremeu n’uma suavidade quase imperceptível, Lorrt examinou as expressões mais ínfimas e percebeu.
 — Amá-la-ei tal a jura feita em vida, amo-a mesmo que ela não mais possa retribuir este amor. — Lorrt tinha a voz tenra, mas, Dantesca respirou intensa, inconformada.
 — Tolo! Mantenha-a afastada de Somníria! — Interrompeu Dantesca, exausta das declarações amorosas de Lorrt. — Caso a instabilidade venha a perdurar em razão deste teu amor inconsequente por uma humana, sucumbirás à morte, regredirás ao chamado… — Ameaçou.
 — Não me ameace, Dantesca. — Ela voou, olhando-o com fúria.
 — Não é uma ameaça, Lorrt Dierchestein, é uma promessa. — Dantesca se foi, porém, Lorrt a seguiu.
 — Nunca prejudicarei Somníria, Dantesca! Por que persegues as minhas atitudes sem sabê-las de fato? — Discutiam à contravento.
 — Tu nunca compreendeste o chamado, senhor Dierchestein. E aquela qual chamas de amor-eterno, é, na verdade, o teu fardo-eterno. — Lorrt parou o seu voo, planando entre nuvens densas; olhando Dantesca que, estranhada, igualmente parou para olhá-lo.
 — Se devo morrer para continuar amando-a, o farei. Quer tu queiras ou não. Faça o requerimento, Dantesca; expulse-me de Somníria. Basta de ameaças. Basta! — Ficaram em silêncio.
 — Apenas quero te proteger… quero que… sintas o que significa ouvir ao chamado de Somníria… e abdicar de tudo… em nome dos pesadelos e sonhos…
 — E nunca o fiz? Jamais visitei os sonhos e pesadelos de Áurea. Tenho há incontáveis éons me dedicado à Somníria. Frígido como devo ser… — Lorrt hesitou, lembrou-se de Áurea. — Somníria a trouxe para mim, Dantesca… eu não a procurei. — Dantesca respirou fundo, aproximou-se de Lorrt.
 — Eu não… eu não desconfio de ti, querido. Apenas… proteja Somníria tal como o Nocturvo que foste destinado a ser? — Lorrt segurou as mãos de Dantesca.
 — Prometo protegê-la. Sucumbo à morte por Áurea, por Somníria e por ti, irmã. — Dantesca deixou escapar um singelo sorriso enfraquecido.
 — Não o faça por mim, eu não preciso. — Seu voo perfeito se fez nos ares lilás. Lorrt a observou esvanecer no horizonte.

~ ❦ ~

— E então, Lorrt soube as razões da instabilidade? — Indagou Therodriel. Dantesca pousou, novamente, com graça e beleza.
 — Um olhar-aberto, vindo do Castelo Drácula…
 — Esse lugar maldito! — Therodriel expressou-se em ódio profundo.
 — Acalma-te Therodriel. Lorrt lidou com o problema e lidaremos com os demais que vierem do Castelo. — Dantesca iniciou o evocar de um portal e Therodriel suspirou.
 — Farei o possível, porém pouco garanto ter sucesso em meu controle emocional. Esse lugar pode destruir Somníria.
 — Não irá! — Dantesca levantou seu tom de voz. — Nada destruirá Somníria. Nada, ninguém, coisa alguma! — Therodriel se assombrou, mas não questionou Dantesca que, em seguida, adentrou o recém-aberto umbral de obsidiana.

~ ❦ ~

— Diga-me, levaste Áurea até Lorrt? — Exprimiu Dantesca, na solidão do mais afastado lugar do reino de Somníria. — Revela-me se é tua vontade! Eu sei da tua consciência, Somníria. — Dantesca olhava para o alto. — Revela-me para que meu medo se dissipe, pois… tu és a razão do que sou… não posso suportar que alguém a ponha em risco… eu sou a tua guardiã, Somníria… — Dantesca fechou seus olhos, em lentidão profunda; um lume alvililás a envolveu, levando-a a um sono profundo.

A revelação em seu sonhar era refulgente: o amor de Lorrt atraiu Áurea, ainda que Lorrt resistisse, cumprindo o seu papel de Nocturvo. O amor não pode ser obstruído. Olhos alados, n’um pálido nada-além, dizem à Dantesca: “Guarda-me ao que guardas o saber das leis transcendentais; à tua intuição”. Dantesca entendeu que algumas leis dobram as sete dimensões e quebrantam os multiversos da vida e do verbo. 

— O amor… eu entendo… entretanto, não posso compreender…, pois nunca amei… — Sussurra Dantesca. O lume se dissipa tênue, Dantesca desperta e segue em direção aos portais que precisam de sua atenção.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 7 — Culpa e Proteção

Minha consciência era vívida e sólida. Todo o mobiliário ao redor era pálido e tal cor evidenciava, em maior perfeição, a riqueza dos detalhes…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Minha consciência era vívida e sólida. Todo o mobiliário ao redor era pálido e tal cor evidenciava, em maior perfeição, a riqueza dos detalhes vitorianos. A tapeçaria tinha nuances de um lilás rarefeito e pelas fenestras de seus vitrais outrora escarlates, residia um lume profundo e difuso cuja branca essência etérea se manifestava em sua própria condição de fulgor. “Eu... acordei?” — Indaguei em silêncio, aproximando-me devagar até a luz, observando pela janela o Castelo e seu abismo — era o que eu esperava ver. No entanto, confirmando o que eu já pressentia, tudo estava diferente. Vi uma inundação suave de nuvens como uma celestial verdade entre a vida e a morte; um alvililás se expandia na imensidão, e a serenidade silenciosa do derredor era estonteante em sua agradabilidade. Tinha o aspecto de um sonho profundo e belo, porém, sinto que era real, sinto que neste estranho lugar eu estava desperta tal como estou agora. 

Ao abrir os umbrais de meu aposento, não vi, pois não havia, o corredor derradeiro. Apenas nuvens. E por elas pude caminhar. A beleza plácida era tão vestal e mágica que, pela primeira vez, senti-me realmente protegida. Um aroma de lavanda cingia-me suave, mas as flores não eram visíveis. O horizonte era perpétuo, não havia sol ou lua, embora tudo estivesse clarificado tal como o dia mais vestal. Pouco depois, enquanto andejava sem rumo, avistei um portal de riqueza insondável. Esculpido no que julguei ser pedras de opalina com seu brilho irisado característico. Neste momento, senti-me instigada a atravessá-lo, como se um estranho chamado silente adviesse do seu interior, embora, aos meus olhos, nada houvesse além de nuvens do outro lado, tal como ali onde eu pisava e tal como em tudo o que havia em todas as direções. 

— Tu não pertences a este lugar. — Ouvi. Era um tom suave, embora intenso. Olhei na direção da voz ecoante e avistei uma mulher, de olhos fechados. Seus longos cabelos brancos pareciam movimentar-se suavemente pela brisa. O veemente contraste fascinara-me, pois, sua pele negra-acinzentada, beirando um intenso violeta-escuro, tinha uma perfeição destoante de tantas nuvens e tanta luz. Seus olhos, então, se abriram lentamente, e vi uma íris púrpura e brilhante. 

— Nem a este, nem a outro, acredito... — proferi. A mulher sorriu, tinha uma aura serena. Caminhou devagar até se aproximar um pouco mais. 

— Seja bem-vinda a Somníria. Se estás aqui, com teus olhos abertos, intriga-me saber de onde vens.  

— Não de muito longe — afirmei —, direto de meu leito em um antigo castelo. — Ela pareceu pensativa ao me ouvir. 

— O Castelo Drácula, eu suponho. — Eu a olhei com diligência. 

— Como sabes? — Minha curiosidade a respeito disto estava estampada em meu semblante. A mulher sorriu outra vez, tão estonteante aura emanava dela. 

— Não é fácil chegar a Somníria estando com os olhos abertos como tu estás. Olhos abertos, aqui, significa estar consciente e isso resulta em lembrar-se e lembrar-se resulta em saber que existe. — Ela se aproximou do portal de opalina irisada que, outrora, parecia me chamar e, dentre as plantas lilases ao seu envolto, retirou uma em especial, pálida e com pétalas leves e pequeninas. Entregou-me em seguida, apreciei o perfume doce e sutil da sua natureza. — Sempre-vivas guiarão teus passos em Somníria e, igualmente, por este sonho no portal que chama pela tua alma. — Com as mãos suavemente estiradas, como se indicassem um caminho a seguir, ela direcionava ao portal de opalina irisada. Desejei atravessá-lo outra vez, entretanto, havia mais a saber sobre aquele estranho paraíso. 

— Se meus olhos abertos fazem com que a lembrança não se perca de meu lembrar, diga-me teu nome para que o esquecimento seja ainda mais improvável. — Olhei-a e suas pupilas dilataram-se sutilmente. 

— Ihvia... — sussurrou. — Peço perdão por não me apresentar a ti, entenda que não há tantos despertos em Somníria e, em consequência, raramente vejo-me na necessidade de uma apresentação formal. 

— Não te preocupes, apenas não quero te esquecer... — Havia tanto já esquecido, por esta razão as memórias tornavam-se tudo para mim de modo que eu sentia estar, a cada nova vivência, me preparando para defender, com todas as forças, as minhas novas memórias. Ihvia ficou em silêncio, por um tempo. 

— O que tu buscas, Áurea, já está em ti. — Eu não esperava ouvir o que ouvi. — Olhe bem para dentro d’este portal, há algo que te espera no interior dele e, se ele te chama, é valioso que respondas. 

— Conheces-me, então? Diga-me como? — Tive esperanças, por instantes, de ter alguém próximo que soubesse quem eu era, ou melhor, quem fui. 

— Conheço teus sonhos. No entanto, levo algum tempo até lembrar-me deles e, consequentemente, lembrar de ti. É preciso mansidão para que as recordações aflorem sem dor e sem medo... — Silenciei. Ela parecia falar diretamente o que me tocava no mais íntimo do meu espírito. — Diga-me o que vês, aproxima-te do portal; revela-me o que ouves. — Os umbrais reluziam e o chamado era, não uma voz, mas uma intuição. Aproximei-me de sua esculpida forma e o que antes era apenas infindas nuvens, em sutileza se manifestava em formas e movimentos até transfigurar-se em uma cena esvanecida. 

— Uma... mulher... eu mesma... — Proferi em um murmúrio, estando atenta aos detalhes dissipados. Ihvia sorriu quando eu a olhei por um segundo. 

— Este é o teu sonho mais recorrente, Áurea. Contudo, ele emerge no teu sono profundo, no subconsciente. Talvez queiras encontrá-lo agora, com teus olhos abertos a ele. — Dissera enquanto eu me aproximava do portal. Sim, eu almejava olhar para o meu sonho recorrente e descobrir as verdades que o habitavam. Em especial pela paz que me trazia o simples aproximar. — Não temas. — Afirmou, no entanto, sua voz já estava longínqua e tão logo vi-me no interior do que outrora assemelhava-se a uma reminiscência. 

Tudo ao derredor era pálido, envolvido por uma névoa translúcida com nuances de marfim, era como estar num entardecer melancólico com o sol dourado no horizonte e a sua luz espargindo pelas nuvens no céu, criando esplêndidas matizes. Eu estava em uma casa de madeira, singela e confortável; o sofá com uma colcha de pequi sobre ele ornava com almofadas em tons de bege. Havia um vazo de flores na mesa de centro, neles estavam as sempre-vivas que Ihvia colhera para mim. Eu sabia que eram elas. À esquerda, uma cozinha singela e cuidada, nos mesmos tons, algo era cozido no fogo à lenha, uma panela cujo aroma agradável aquecia o coração. Tomates, talvez? Pimenta e limão? Segui em direção ao cozido, no entanto, um choro tenro me alcançara os ouvidos; um bebê em lamúrias — era um bebê, eu sentia. Segui as ondas do timbre tão delicado e cheguei a um quarto cujos enfeites transmitiam uma sensação macia. Tão logo, avistei um berço. 

Meu coração era um relógio cujo tempo contado era célere; meu coração pulsava de uma alegria contida, um amor insondável, uma estranheza precisa. Olhei para o leito e lá estava ele, o bebê; envolto em lã cor de areia, lamuriando como uma pequenina preciosidade. Guiei-me a segurá-lo, era tão petiz... seus olhos se abriam com tanta dificuldade; ainda assim, ao fazê-lo, viu-me admirá-lo e sorriu, sem nenhum dentinho, sem sequer uma expressão facial realmente formada e pronta para a vida. Frágil, tão sensível. Seu choro se foi e, de súbito, ouvi passos apressados e, antes que eu pudesse entendê-los, algo abraçou minha perna esquerda. Olhei para baixo. Uma menina. Decerto deveria ter por volta de quatro anos de idade. Ela sorria. “Mamãe, ele acordou?” — indagara olhando-me nos olhos. Eu era a mamãe, aquela cujo abraço sempre seria a segurança perene; aquela cuja dedicação se estendia pela eternidade. Abaixei-me, deixando o bebê às vistas da menina que, com lentidão e apreço, acariciou-o em sua miúda fronte. O bebê sorriu outra vez. 

Minhas lágrimas nasceram em meus olhos e uma dor sutil em meu peito conduziu-me ao choro mais intenso. Aquela cena era sublime... agradável. Um lar construído com amor. O meu lar. Os meus filhos. “O que foi, mamãe? Está emocionada?” — disse a doce criança. Sorri-lhe, tocando-lhe a bochecha n’um carinho verdadeiro. “Diga-me teu nome, pequena? Lembra-me, pois, esqueci-me de tudo...” — pedi, pois, sentia-me acolhida. A garotinha sorriu. “Millimor, mamãe! E esse é meu irmãozinho Ëllior. Promete não esquecer de novo, mamãe?”. Eu prometi. Abracei-a com todo o meu profundo e inalcançável amor. Senti-nos aquecer. Fechei meus olhos e aproveitei o que, talvez, jamais voltasse. Quando pude abrir fazer da visão um sentido ativo novamente, notei que alguém estava próximo, vi sapatos masculinos. Olhei para olhar em sua face, mas despertei antes que o pudesse fazer. Despertei em Somníria. 

Por um tempo, fiquei inerte. Lembrando-me. Depois, demasiado abalada, chorei com pesar, soluçando de tristura e angústia entre as límpidas nuvens. Permaneci pelo que me soou ser a eternidade, sozinha entre nuvens lilás, até iniciar uma caminhada que perdurou ainda mais tempo; imersa, porém, em meus pensamentos de saudade, medo e angústia, pouco importava-me a temporalidade das coisas. Desejei habitar o sonho familiar e deixar a vida humana; indaguei de Ihvia havia escolhido isso, pois, estava li em Somníria, porventura tivera uma experiência símil a minha. Por que deduzir que o sonho é de valor inferior à realidade? E por que a realidade seria, de fato, real e não o sonho? Eram dúvidas fidedignas de um ser exausto; imerso em saudades e pavores. 

Um murmúrio, todavia, quebrantou meu estado, vinha d’algures dentre aquele infinito. E, embora o local fosse esse contínuo pálido e celeste, não era plano. Assim, descobri aos poucos a origem do sussurro. “Áurea Lihran” — eu ouvia. Vinha de um mastodôntico e deslumbrante portal, constituído por diamantes negros, cingido por purpureanidas ao redor— uma flor que jamais vi pessoalmente, de pétalas n’um violeta-escuro, sépala negra, um degradê sombrio em seu interior, próximo ao óvulo; filetes espinhosos, anteras de uma penugem suave. É considerada uma espécie mágica, de raridade mística; associada à morte e ao medo, polinizada apenas por abelhas-basalto de Amorttam. No interior daquele obscuro umbral, as nuvens se dissipavam em uma escuridão perniciosa. Era... admirável e... amedrontador. 

Deslumbrada, aproximei-me e ao passo que o fazia, uma vertigem me acometia e o sussurro, outrora indistinguível, agora era agourento e grave, como a voz de um demônio, como as sete vozes do abismo. Temi e, trêmula, tentei recuar, porém, a energia mórbida do portal induzia-me a seguir até o seu interior; isso me causou uma estranheza e um horror inexplicáveis. No meu coração, parecia haver um violino macabro com acordes fugazes; um violino de mil volutas, em cor de sangue; pois emergia de mim um horror que não se podia medir. No antro daquela escuridão, senti que me aguardava a morte, ou algo pior do que ela; uma morte vertida à vida, impossibilitando que o verdadeiro descansar em paz fosse possível. Era utópico defender-me daquela gravidade infernal; então sucumbi ao seu âmago, mas, não só. 

Pouco antes, enquanto o sussurro vinha aos meus ouvidos, um de cada vez, soprando meu nome como uma carne dilacerada o faria se pudesse; como a terra de um cemitério de mortes hediondas, decerto diria se assim fosse capaz. Enquanto uma contagem regressiva longínqua estrangulava-me em pânico, ouvi o som de imensas asas a domar o ar e, em átimos, senti mãos viris segurarem meus braços em tentativas poderosas de impedir que o insalubre negrume engolisse meu corpo e ser. Fiz o possível para olhar para trás e reconhecer aquele que tentava me salvar; porém, fomos tragados e torturados na imensidão negra. Medo. Arrepio. Breu perpétuo e insalubre. Uma imersão em um pesadelo cruel. 

Vi-me caída em um lugar hostil e sôfrego, denso e escuro; um tipo de paisagem terrífica onde urros e bramidos de terror se alastravam por todos os lados; senti uma presença tétrica, macabra e perversa próxima a mim, em alguma direção. Até que vi o Piche do Oblívio, caminhando em sua lentidão, vindo até mim, com seu cantarolar moroso e horrendo. Quis correr em uma fuga célere e dediquei-me a isto, porém, quão bárbara era a densa atmosfera, o firmamento em nuvens cinzas e eletricidade em raios, trovões, tudo carmim; fendiam os céus enquanto debaixo deles as sombras e a destruição assombravam. Eu corria... mas, devagar; era contraditório, entretanto, o esforço para o fazer mostrava-me claramente o quão lenta eu estava. E ele, o Piche, vinha atrás de mim, caminhando e, desta vez, com seus olhos vermelhos, talvez sorrisse se tivesse expressão e semblante. 

Eu tive medo. Porém, quando ouvi as asas domando, novamente, o ar sufocante; olhei para cima e vi um homem em roupas negras e grandes asas de igual tom, ele descia da imensidão entre centelhas de cor escarlate e estrondos ensurdecedores; atrás de mim, frente ao demônio, ele pousou com elegância e poder; muito mais rápido do que eu, parecia imperar sobre todo o ambiente e ser capaz de agir para além do que a circunstância parecia impor. Vi com perfeição as suas asas, ainda não pude ver a sua face. O homem, portanto, ajoelhou-se no chão e proferiu o que não pude ouvir. Uma imensa marca pálida se materializou, um estigma, um enigma, um sigilo mágico; atravessando o chão de pedra fria e em seu âmago, tão somente, o Piche. O Piche ficou estático e eu senti um impacto em meu peito, como se o aprisionamento da criatura me afetasse, permitindo a minha liberdade. 

Enfurecido, o Piche demoníaco do Oblívio, estendeu seu lodo asqueroso, e o envolveu em meu pescoço; seu olhar rubro indicava com evidência a sua ira. O meu anjo protetor — é o que eu poderia pensar ser naquele átimo — desembainhou uma espada negra com lume lilás reluzente, a qual parecia ser etérea, imaterial. Extirpou o lodo sem piedade; e seu urro de dor espalhou-se pelos céus, e no horizonte ecoou. Trêmula e amedrontada, eu nada fazia — era-me impossível diante tamanho terror. O lodo do Piche que envolta de meu pescoço afligia, desfez-se no mesmo instante; e antes que qualquer coisa pudesse acontecer, fui pega pelo anjo e o vento quente colidiu com minha tez lívida, e voei com ele, mesmo mortificada; e vi o Piche do Oblívio na terra fria, dentro do círculo com infindáveis símbolos que pensei nunca ser capaz de compreender. 

Então atravessamos o portal e as nuvens brancas, e tons de lilás vestal, se apresentou aos meus sentidos novamente; bem como o aroma de lavanda. Fui colocada, gentilmente, em um amontoado de nuvens confortáveis. Com as mãos cujo toque ela tenro, fui acalmada. Palavras quais, desta vez, ouvi com mais compreensão, irradiou do anjo e fez com que o umbral de diamante negro desaparecesse; sucumbiu como se nunca tivessem existido. Alívio. Alívio em mim e, creio, no anjo; ele finalmente me olhou com seus olhos violeta e com uma ternura cândida que eu compreenderia, pois, no acalmar do meu coração espavorido, o semblante daquele anjo não me pareceu, em nenhuma instância, desconhecido. Levei alguns minutos, pois sentia que estava vasculhando todas as lembranças recuperadas até então; no entanto, seu falar direcionado a mim, trouxe o reconhecimento imediato. 

— Tu estás bem, Áurea? — Eu ouvi. Meu coração pulou no peito, causando uma ansiedade súbita. 

— Lorrt? — Era Lorrt, ou idêntico a ele? Ou muito parecido? Eu estava perplexa. Instante por instante, eu tinha certeza de que era ele; as lembranças que haviam em mim eram como um sonho vago, cujo sentido principal eu tinha total conhecimento, mas os detalhes vertiam, esvaíam; decerto por isso não notei, em primeira instância, que era Lorrt; contudo, não demorou para a certeza envolver minha alma. Ele fitava-me com um carinho infindo, inenarrável. Eu... entristeci-me, pois, eu não o amava mais como sei que o devo ter amado quando estávamos juntos, mas de tudo esqueci; como poderia revelar isso a ele? “É só um sonho” — eu pensava, tentando crer que tudo era uma criação de minha mente perturbada. 

— É... agradável... revê-la... — Ele disse. Um tom manso, viril, terno; uma expressão de paixão, respeito, carinho e saudade. Eu não conseguia retribuir. 

— Perdoa-me... eu... não consigo... eu perdi minhas memórias... eu não sinto mais a mesma coisa... — Expressei com uma culpa, uma angústia, sem perceber que talvez não fosse preciso dizer tudo aquilo. O semblante de Lorrt tornou-se infeliz, entretanto, era tão sutil; parecia-me que ele, com uma força profunda, mantinha, o máximo possível, suas emoções controladas. Ele se aproximou. 

— Acalme-se. Respire. Não há culpa, nenhuma culpa. — Ele segurou minhas mãos, ajudou-me a me sentir melhor. — Diga-me, tu reconheces o pesadelo que chamara teu nome naquele portal? Reconheces aquela criatura? 

— Eu o chamo de... o Piche do Oblívio; aparecera-me quando me doía a lembrança de minha amada mãe e minha família... eu estou amaldiçoada, Lorrt... — Lamuriei, tanto que o lacrimal emergiu com seu brilho cristalino em minhas retinas. 

— Maldição? — Lorrt estava visivelmente preocupado. 

— Em busca das minhas memórias, fiz um acordo com uma entidade; agora tenho um demônio ao meu lado, dentro de mim, e sinto a dor mais horrenda existente sempre que me vêm à memória novas lembranças. Esta dor materializou-se no Piche. 

— Respire devagar, Áurea... Tu sabes onde estás? — Indagou, plácido e sério. 

— Ihvia dissera-me que este é o reino de Somníria, e que tenho nele meus olhos abertos e, portanto, estou consciente e posso me lembrar do que acontecer aqui. Ihvia sabia que eu vinha do Castelo Drácula. Há tanto a contar... — Desabei em meu choro, agora translúcido. Lorrt tocou sutilmente meu queixo, levando-me a olhá-lo; no entanto, parecia hesitante em me tocar, assim que eu o olhei, ele se afastou. 

— Permita-me ensinar-te um ritual de exorcismo; use-o para manter este demônio afastado sempre que precisar. Não posso trazer ao teu conhecimento uma magia capaz de destruir o vínculo que possuem, pois, isso não é possível em Somníria. No entanto... — Lorrt passou a movimentar as nuvens ao redor. — A quebra temporária do elo, será suficiente para te levar à busca do conhecimento que precisas para realizar o ritual completo. — Olhei, atenta, para ele. E aprendi sobre cada símbolo que ele fazia ser visto com a manipulação das nuvens; cada verbo pronunciado, também fora guardado em minha mente com bastante esforço; compreendi os passos de um ritual mágico perfeito. Lorrt ensinava com brandura e apreço; todas as minhas dúvidas eram sanadas por ele. Em evidência, sucumbira todos os seus sentimentos de modo a priorizar minha proteção, eu percebia. 

— Se algo errado ocorrer, Lorrt? — Temi. 

— Este não é um ritual forte o suficiente para te causar danos; erros levarão apenas ao súbito desaparecimento dos sigilos em um fogo fátuo. — Compreendi e fiquei em silêncio. Observando-o. Ele fez o mesmo comigo. Olhá-lo acalmava-me, queria amá-lo como amei. Quis abraçá-lo como, decerto, um dia abracei. Porém, de repente, um abalo e um estrondo símil ao do pesadelo, destruiu a contemplação e, também, meus pensamentos, ecoando pela paisagem alvililás. 

— Está na hora de despertar, Áurea; quanto mais tu permaneces aqui, mais instável Somníria se torna. — Explicara Lorrt. Mas havia tanto para dizer e perguntar. 

— Eu te verei outra vez? Há tanto que eu gostaria de falar... de compreender... — Lorrt não pôde esconder sua tristeza naquele momento, seus olhos lacrimejaram. 

— Sim, se assim desejares... 

— Como? — Insisti. 

— Encontre-me em teus pesadelos, zelarei por eles... 

— Meus pesadelos? — Mais um estrondo, seguido de um tremular amedrontador, como se uma chuva se predissesse. Olhei ao redor, assustada. Lorrt se aproximou, segurando, com sutileza, os meus braços. Tocando a ponta de seus dedos em minha fronte. 

— Eu vou cuidar de ti, Áurea. — Senti uma dor, como se uma agulha perfurasse minha fronte. — Acorde! — Ouvi e vi, pela última vez, o semblante de Lorrt. E o dossel carmim ressurgiu embaçado; a visão ébria de um adormecer profundo. Toquei a seda negra. “Meu leito...” — sussurrei. Notei que anoitecia. “Eu não esqueci” — murmurei. Mantive-me deitada, apenas relembrando. Somente relembrando. Nada mais. 

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2 - É no abismo que os monstros aprendem a sentir

Os dias passam como sombras longas ao entardecer, arrastando-se, pesados e cheios de silêncio…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Sibila von Lichenstein 

15 de setembro de 1870 

Os dias passam como sombras longas ao entardecer, arrastando-se, pesados e cheios de silêncio. Esta manhã, olhei para o meu reflexo e vi um rosto que reconheço pouco; não sei se ainda sou a mesma Sibila que deixou a Prússia anos atrás. Porém, continuo tentando esquecer os anos de horror que vivi ao lado de Viktor Frankenstein, sem êxito. 

Nas poucas horas de sono que tenho conseguido ter, enxergo alívio para minha mente culpada. Mas parece que até mesmo atravessando os umbrais para dentro do mundo onírico, a culpa desvendou um caminho ilegal para dentro dele também.  

Então, faz-se necessário eu registrar aqui o sonho que tive, talvez isso me ajude a desvendar o propósito de minha vinda até aqui. Pois bem, estafada de tanto tentar mascarar o cheiro insuportável de lavanda, tentando escrever o dia todo para esquecê-lo. Deitei-me na cama, do que me pareceu ser o meu quarto, dentro desse grandioso e labiríntico lugar que esse castelo se assemelha.  

Tão logo relaxei meus sentidos e deixei minha alma buscar o descanso no mundo dos sonhos, vi-me envolta por brumas de tons rosáceos e violáceos que surgiam não se sabe de onde e nem como. Eu estava vestida com um manto branco, adornado por bordados dourados e vermelhos, cujos motivos eram dragões orientais. As mangas eram longas, mas o manto era do meu tamanho exato, de forma que minhas mãos estavam para fora. Ciente disso, caminhei e estendi os meus braços e com as minhas mãos tentei tocar aquelas brumas, mas só pude atravessá-las sem senti-las.  

Não me importei, pois notei que o meu sentido do olfato também falhava, estava feliz porque de nada sentia o cheiro. Então simplesmente continuei a caminhar. Até que em minha frente começou a surgir a figura de um rapaz jovem e negro, sua pele era negra, com tons iguais ao de ocre dourado. Eu achei-o lindíssimo, diria que tinha por volta de 17 anos. Seus olhos azuis-claros eram sérios e penetrantes, porém; eu não diria que ele tinha apenas 17 anos, pois seu olhar denotava uma frieza calculada, como se não quisesse dar nenhum passo incauto. Como se cada movimento e frase sua fosse calculado para guiar as suas ações dentro de um plano que as pedia.  

— Deve estar se perguntando quem eu sou, não é mesmo, Sibila?  

Quando ele terminou de perguntar, foi que eu percebi que a bruma que tomava todo o lugar eram os cabelos dele, eram encaracolados de tal modo, que vistos aos meus olhos se assemelhavam a brumas que volteavam a si mesmas. Talvez por isso eu não pudesse senti-las. Maravilhada com o que via, perguntei sem hesitar: 

— Sim, estou! Quem é você? 

— Eu sou Lieran, guardião do primeiro umbral de Somníria, eu porto a chave para um portal: o sonho da pessoa com quem mais você precisa conversar agora. 

— Mas eu não sei com quem eu preciso conversar, pra falar a verdade, eu acho que não tenho com quem falar. Minha mãe morreu ao dar à luz, e meu pai não resistiu ao inverno. E... bem, eu sou sozinha no mundo desde então. Não tive tempo de fazer amizades, eu não sei o que é o amor, eu cresci com os cuidados paliativos do meu pai para que a vida se mantivesse em meu corpo. Mas como pai, ele pouco esteve presente, pois ou trabalhava ou eu morreria.  

— Não temas, criança. Somníria deve saber os desejos do seu coração.  

Lieran carregava uma chave pendurada em um cordão dourado e grosso. A chave balançava levemente, seguindo o movimento da brisa que batia em nossos rostos. Apesar de parecer pesada, com seu tamanho grande e os rococós que adornavam cada centímetro de sua superfície, era surpreendentemente leve. 

Ele pediu que eu me postasse ao seu lado. Obedeci, observando enquanto ele pegava a chave com a mão esquerda e a encaixava em algum lugar no ar — um ponto invisível que eu não podia ver nem compreender. Quando girou a chave, um som grave reverberou ao nosso redor, como o badalar de um sino distante. Por um momento, pensei ter ouvido sussurros ao longe, como se a própria Somníria estivesse nos observando. E então, diante de nós, surgiu uma porta. 

Ela já estava aberta, e, através dela, vi um homem sentado de costas, à beira de um precipício. O portal dava passagem a um campo verdejante que terminava naquele abismo. O campo era vasto, interrompido apenas por ervas daninhas espinhentas que pareciam me desafiar a cada passo. Quando pisei nelas, senti seus espinhos perfurarem meus pés. Doeu, mas as perdoei — quem nunca revidou quando teve o coração ferido? 

Não sabia quem era o homem sentado à minha frente. Ele tinha costas largas e vestia uma camisa puída, que um dia já fora branca. Ao me aproximar, percebi que ele era muito bonito, com uma aura e aparência apolíneas. Seus traços eram perfeitos; não havia cicatrizes ou marcas que quebrassem sua simetria impecável. Seus dentes eram branquíssimos, e ele sorria para mim — mas aquele sorriso não chegava aos olhos. Era impossível ignorar o que se escondia ali, no âmbar de seu olhar: a marca de alguém que contemplou o abismo e nunca voltou inteiro. Uma tristeza e um desespero profundos habitavam aquela expressão serena. 

— Sente-se, Sibila — disse ele, sua voz tão bela quanto o resto de sua presença. — Venha contemplar as brumas do desconhecido junto a mim. 

Senti-me intrigada, mas também estranhamente confortável. Ele parecia saber meu nome, muito mais, parecia conhecera minha alma, mas eu não fazia ideia de quem era. Retirei meu casaco, coloquei-o no chão ao lado dele e me sentei, contemplando o vazio do precipício. Peguei uma pedra próxima e a joguei. Esperei por alguns segundos, mas não ouvi o som de seu impacto. Era como se a pedra tivesse sido engolida pelo próprio nada, tão profundo quanto as emoções que esse estranho parecia carregar. 

— Sinto que o conheço, porém nunca o vi em toda a minha vida — falei, tentando romper o silêncio. 

— Acho que é porque você já ouviu muito sobre mim. Pode me chamar por Marcos, o nome que escolhi para mim, já que meu criador não se dignou a me dar um — respondeu ele, com um tom que misturava mágoa e resignação. 

— Seu criador? — perguntei, sem desviar os olhos do vazio à minha frente. 

— Sim — disse ele, e seu semblante mudou, como se mergulhasse em lembranças que preferia evitar. — O homem que moldou minha carne e deu vida a este corpo, mas não a um propósito. Ele me deu força, mas não direção. Beleza, mas não aceitação. Você o conheceu, não foi? 

Meu coração apertou. O nome de Viktor veio a minha mente repentinamente, um peso que eu sempre tentava evitar. Ele fora tudo para mim antes de se revelar o que realmente era: um manipulador, um cancro que envenenava tudo o que tocava.  

— Não imagino quem possa ser. Tampouco sei como me conhece. Lieran apenas me disse que precisávamos conversar, mas até o momento me pergunto o porquê — respondi, tentando esconder a tensão que me invadia. 

— Então você realmente não faz ideia de quem seja o meu criador. Foi Viktor, aquele que você matou. Não me pergunte como sei disso, nem mesmo eu sei como sei de certas coisas por aqui. Confesso que pensei que encontraria a paz, alguma espécie de alívio, ao saber da partida dele; no entanto, sinto que essa notícia em nada aliviou o meu fardo. Estou há tempos encarando esse abismo à minha frente, perscrutando todas as reentrâncias. Ele representa minha mente: profundo, vazio e ao mesmo tempo cheio de grandes coisas que nada querem dizer. 

Suas palavras me atingiram como uma bofetada. O nome de Viktor, dito em voz alta, trouxe de volta memórias que eu preferia enterrar. Ele era tudo o que eu queria esquecer, mas também tudo o que eu nunca conseguiria. Como ele pôde criar algo como Marcos e ainda ser tão monstruoso? 

— Eu o conheci — admiti, hesitante. — Mas nunca soube sobre... sobre você. Ele nunca falou de você. Eu apenas li sobre você, acho que li. Marcos, é esse o nome que você escolheu para si mesmo? Viktor sempre que escrevia sobre você... — Interrompi-me, hesitante, as palavras morrendo na minha garganta. 

— Você fala como se também tivesse sido moldada por ele — disse Marcos, sua voz baixa, mas incisiva. — Não com bisturis e costuras, mas com palavras e manipulações. Estamos mais conectados do que você pensa, Sibila. 

Meus olhos voltaram ao abismo. O que me trouxe aqui? Será que era o peso da culpa que carregava? Ou o desejo de entender o que significa criar algo  para em seguida desistir de tudo e abandonar? Não sabia ao certo, mas os olhos de Marcos pareciam esperar mais de mim do que eu sabia oferecer. 

— Não precisa ter medo — disse ele, sua voz suave como o vento. — Eu sou apenas um sonho... Tudo o que está aqui é um constructo da sua mente e da minha, mas nada pode ser realmente tocado. 

— Não estou com medo, na verdade eu nunca o vi como um monstro. Eu sentia pena de você e pude me colocar no seu lugar. Com Viktor eu desenvolvi dependência. Deixei e depois passei a desejar que ele me possuísse, para me sentir bela. Deixei que ele regesse a minha vida acadêmica, depois minha vida financeira e por fim, quando me dei conta ele havia retirado tudo de mim. Um verdadeiro monstro. 

— Ele retirou tudo de você ou foi você que se deixou se enredar? E no fim? Sibila, minha cara, quem de nós é mais monstro? Será que é apenas Viktor, ou só estamos replicando o que nosso criador fez, sendo egoístas e nos dobrando às nossas próprias emoções, sem ter real controle sobre nossos atos. Ou será que alegamos não termos autocontrole, quando na verdade isso é uma mera desculpa para aliviarmos o nosso próprio fardo e continuar a viver? 

— Eu não sei, não me considero um monstro por mata-lo. Acho que ele procurou pela própria morte, se tornara um velho asqueroso, uma casca enrugada, cega por suas vontades e desejos vis. Viktor abusava delas.  No entanto, eu sei que sou culpada por atrair aquelas mulheres para lá. A morte delas recai sobre mim. Acho que estou aqui, porque preciso perguntar a você sobre isso. Como você se sente sobre todas as vítimas que fez? 

Marcos olhou para o vazio diante de nós, seus olhos agora perdidos em algo que apenas ele podia ver. Sua voz, quando finalmente falou, era baixa, quase sombria. 

— Eu entendo suas palavras, Sibila. A morte de Viktor, de certa forma, me parece inevitável. Ele buscava a destruição de tudo o que tocava, e você... você apenas respondeu ao que ele fez a você. A culpa que sente não pode ser sua, não por aquilo que ele provocou. Mas, como você, eu também sou culpado. Não de uma única morte, mas de tantas outras, tantas almas que encontrei pelo caminho. Eu os vi, cada um, antes do fim, e sabia que o que fazia não era certo. Eles eram pessoas com histórias, com sonhos, e eu... eu arranquei isso deles. A morte deles recai sobre mim, e o peso disso nunca sai da minha mente. 

Ele pausou por um momento, como se pesando suas próprias palavras, antes de continuar, mais suave, mas não menos carregado de dor. 

— Não sei se me sinto arrependido. Talvez em algum lugar, eu devesse. Mas me pergunto: seria o arrependimento apenas uma tentativa de eximir-nos da responsabilidade por nossas ações? Ou será que apenas tentamos escapar do abismo que criamos dentro de nós, fugindo de nossa própria natureza, de nossa própria essência? 

Marcos voltou a me olhar, seus olhos profundos, como se procurassem algo dentro de mim. 

— Eu sinto... tristeza. Tristeza por não ter tido a chance de fazer diferente, de não ter sido... mais humano. Não sei o que é ser humano, Sibila. O que sei é que, após tantas mortes, tantas escolhas erradas, a única coisa que me resta é esse vazio, esse eco de almas perdidas. E talvez isso seja o verdadeiro castigo, mais do que qualquer julgamento divino. 

Ele se virou lentamente, fixando os olhos no abismo diante de nós, como se, ali, pudesse encontrar uma resposta para sua própria existência. 

— E você, Sibila? O que espera encontrar aqui? O perdão, a absolvição? Ou talvez a resposta para sua própria dor? 

— Eu esperava que você pudesse me dar essas respostas. Mas agora, ao ouvir tudo o que disse sobre a culpa que carrega, percebo que as respostas para nossas perguntas não habitam nem o passado que nos assombra, nem o futuro incerto à nossa frente. Este lugar, Marcos... é um reflexo da sua mente, um eco do que ficou. Lieran me explicou que eu adentraria o sonho de alguém com quem eu precisava falar. — Suspirei profundamente, sentindo o peso do momento. Olhei para o seu rosto, tão perfeito, mas carregado de culpas, medos e questões não respondidas. Seus olhos dourados captaram minha atenção, e seus lábios escureciam como o céu antes de uma tempestade. Então, naquele instante, percebi que não estava diante de um monstro, mas de um ser profundamente humano. 

Fiz uma pausa, minha voz tornou-se mais serena enquanto as palavras fluíam com clareza: 

— Então, compreendi, Marcos. As respostas não estão lá fora, nem no que já foi, nem no que virá. Elas vivem em nós, aqui e agora. O presente, esse fio invisível que nos conecta ao que realmente somos, é tudo o que temos. Este é o nosso domínio. O passado nos molda, mas não podemos revertê-lo, apenas aceitá-lo. O futuro é uma miragem, distante demais para ser tocado. Já o presente... o controle sobre nossos corpos, mentes e corações, isso sim nos pertence, e só isso é verdadeiramente nosso. 

Marcos permaneceu em silêncio por alguns instantes, a expressão no rosto indecifrável, enquanto seus olhos pareciam absorver as palavras de Sibila. Uma lágrima solitária começou a rolar pela sua bela face, como se estivesse se libertando de uma teia invisível que o prendia àquela dor constante. Então, finalmente, ele respondeu, ainda carregado de uma tristeza profunda, sua voz estava embargada: 

— Eu passei tanto tempo buscando respostas no passado, nos erros de Viktor comigo e nos próprios que cometi. Me fixei demasiadamente no que eu poderia ter sido, que nunca percebi que a única coisa que realmente tenho é o presente... O único momento que realmente posso tocar e mudar. Mas como? Como posso abraçar isso, quando o peso de tantas vidas perdidas ainda pesa sobre mim? 

Ele olhou para ela, como se ela fosse a única pessoa capaz de entender. 

— O que você me diz, Sibila? Como podemos, de fato, aceitar o que fomos e ainda assim encontrar algum tipo de paz? Como, depois de tudo o que fizemos, podemos ainda acreditar que a redenção é possível? 

Sua voz falhou por um momento, e a tristeza nos seus olhos era palpável. Ele parecia frágil, vulnerável, mais humano do que qualquer monstro poderia ser. 

— Você tem razão, o futuro não está em nossas mãos, nem o passado. Mas o agora? O que podemos fazer com o agora, o único tempo que realmente temos? 

Marcos olhou para mim em silêncio por um momento, como se as palavras que eu disse estivessem se acomodando em sua mente, pesando em seu coração. Quando finalmente falou, sua voz parecia mais suave, mais próxima, como se a dor e a culpa ainda estivessem ali, mas agora fossem mais fáceis de suportar. 

— Talvez você esteja certa — ele disse, a voz tremulando, como se fosse uma confissão que ele nunca havia ousado fazer. — Eu passei tanto tempo tentando buscar respostas nos escombros do passado, tentando entender as escolhas de meu criador e os meus próprios erros, que me esqueci do que realmente importa... o agora. Eu vivi em função daquilo que não posso mudar, e o futuro, que nunca saberia se chegaria, ficou como uma sombra sobre mim, me cegando para o presente. 

Ele fez uma pausa, os olhos fixos em mim, como se me visse de uma maneira nova, como se tivesse acabado de perceber a verdade de minhas palavras. Ele sorriu levemente, mas dessa vez o sorriso não parecia tão amargo, como se houvesse uma leve compreensão, uma aceitação incipiente. 

— Talvez, no fim, o monstro... não seja tanto o que fizemos, mas o que deixamos de fazer. E agora, talvez, seja hora de parar de fugir de mim mesmo. 

Levantei-me. Sentia que algo estava se fechando ali, mas ao mesmo tempo, uma nova jornada se abria, desconhecida e cheia de enigmas. Voltei a sentir uma leve brisa em minha face, também voltei a sentir um cheiro adocicado, um que estava sentindo antes de cruzar a porta que me levara para o sonho do monstro. Ele permaneceu sentado, talvez refletindo sobre o que dissera ou sobre o que eu lhe dissera.  

— Você não está sozinho. Existe um lugar... um castelo onde talvez eu possa encontrar mais respostas. Talvez possamos descobrir mais sobre nós mesmos lá, juntos. 

Ele franziu as sobrancelhas, surpreso, mas algo em seu olhar dizia que ele entendia, que ele sentia a mesma necessidade de seguir em frente, de buscar algo novo, ou talvez, de finalmente encontrar algo que o libertasse. No entanto, quando eu quis abrir minha boca novamente, para convidá-lo a vir comigo, a imagem de Marcos começou a desvanecer-se. 

A paisagem bucólica que nos circundava rapidamente começou a sumir e a dar lugar ao local anterior, onde eu me encontrava com Lieran. 

— Ele está desaparecendo... — murmurei, ainda com os olhos fixos no espaço onde Marcos estivera segundos atrás, agora tomado por uma névoa que se dissolvia como fumaça ao vento. 

— É o destino dos sonhos, Sibila. — A voz de Lieran soou serena, mas havia algo de enigmático nela. Ele segurava a chave dourada, que agora parecia brilhar mais intensamente. — Eles nunca duram para sempre, mas sempre deixam algo em quem os vive. 

Eu virei para encará-lo, o peso de tudo o que fora dito ainda apertando meu peito. 

— Por que me trouxe aqui, Lieran? Por que esse sonho? Por que Marcos? 

Lieran sorriu levemente, mas não respondeu diretamente. — As respostas que você busca não estão apenas nos sonhos. 

— Eu poderei vê-lo novamente, Lieran? 

Lieran inclinou levemente a cabeça, como se considerasse algo. Antes que eu pudesse perguntar mais, a chave em sua mão girou no vazio novamente, e tudo ao meu redor desapareceu em um lampejo dourado, deixando apenas as palavras de Lieran ecoando na minha mente: 

— A esperança reside nos sonhos, Sibila! Ela é a fagulha inicial de todos os sentimentos e entendimentos... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Anotação

Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente, daqui a algumas horas. Por isso, acho inadiável anotar aqui mais uma das experiências inquietantes que venho tendo no castelo… 

Na noite anterior, antes de me deitar, nada de mais me sobressaltou. Desde aquela “festividade laranja” — quando observei, incrédulo, junto a Ameritt, o esvoaçar de abóboras pelo espaço do castelo — estou ainda mais “seguro”... acostumado às diferentes surpresas que o ambiente aqui venha me apresentar. Quanto muito, se bem me lembro, somente fui agitado pela recorrente tensão vinda dos corredores, dessa aparente, sensível suspeita de que algo sempre ronda e parece colocar-se por detrás da porta, como se para ouvir ou ter certeza de minha presença… 

Para não perder o fio da reflexão, escreverei agora sobre este sonho, essa coisa inédita e aterradora que me aconteceu… 

***

Estava eu numa paisagem bucólica, algo campestre — verdadeiro contraponto às paredes e ângulos retos de uma cidade ou mesmo da frieza obscura existente aqui no Castelo. 

Sozinho, sem sinal algum de outra presença que não a minha, via-me naquela sensação única de estar e não estar em posse dos meus voluntários movimentos. Olhando para os lados, desejava mesmo intentar saber até onde iam os limites da planície observável; quando dava por mim, lá estava, saltando como jamais poderia na realidade, quase como se me teletransportasse… 

O sonho parecia comum, daqueles que, quando menos esperasse, me despertaria e fugiria, para sempre, da lembrança. Porém, o que se seguiu foi o completo oposto. 

Diante de mim, logo após ter terminado aquele percurso mágico, instantâneo, deparei-me com uma natureza diferente: flores e ramos de uma vegetação densa, de cor arroxeada, tomavam conta do horizonte à frente e da minha vista. Aquilo não tinha fim; era de uma amplidão desconcertante e visualmente desproporcional ao vazio que eu havia percorrido até então. 

Sem poder ignorar a estranha atração da paisagem, pus-me logo a caminho. Lembro de ter chegado com a mesma rapidez aos limites daquele roxo jardim. 

As plantas, ali (quando pude confirmar que eram mesmo de natureza vegetal), tinham altura considerável, e, quanto mais mergulhava em direção ao centro da peculiar paisagem, mais eu desaparecia, percebendo claramente que a saída de tal labirinto se tornava cada vez mais difícil. 

Nesse momento do sonho, eu já imaginava ter o poder de me retirar dele, assim como sempre procedo em minhas horas de sono. No entanto, deu-se o contrário: completamente consciente, podendo até me dizer num estado súbito de vigília, vi-me como nunca antes em pleno poder de meus sentidos naquela vegetação — estando, também, plenamente ciente de que estava sonhando. 

Não posso dizer com absoluta certeza que meus gritos tenham ecoado pelas paredes do Castelo, no momento em que gritei desesperadamente naquele sonho… Caso alguém tenha passado pelo lado de fora do meu cômodo ou mesmo tenha parado por um tempo lá embaixo, pelo jardim, talvez sim… isso é algo que não tenho mesmo como saber. 

Motivo houve de tamanho susto.  

Convictamente consciente de mim, do meu corpo e do risco que sentia estar correndo, ver aquele chão tremendo, como se fosse abrir sob meus pés, e aquelas mãos enormes, titânicas, se erguerem no horizonte que meus olhos ainda podiam enxergar, fez com que eu me colocasse, como nunca antes, no lugar de um inexpressivo inseto... de um piolho, cujo medo e desespero mostram-se semelhantes ao humano quando em presença de um desconhecido ser maior do que nós. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Xadrez Alterado

Acordei um dia crendo não ser amado | Com um soluço guardado que não saiu de mim | Era um palpite dos amores mal empenhados | Que tão logo se foram…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Acordei um dia crendo não ser amado
Com um soluço guardado que não saiu de mim
Era um palpite dos amores mal empenhados
Que tão logo se foram sem ter outro jeito
E uma palpitação no peito que fica, enfim

Comecei a raspar com a lima meia-cana
No golpe do aço, torcendo a pua até que atravessa
O atrito que deforma e lasca a beirada
Esculpindo o xadrez peça a peça
Mas cada uma das peças foi alterada
Eu que inventei esse jogo deixei de criar
as regras, abdiquei de fazer as jogadas

Acordei aquele dia crendo não ser amado
Ah dia, tornaste em mim noite mais cedo
O sol, grande amor, não quer e não se mantém
No desamparo da noite, eu com a lua nos braços
Com a janela do quarto aberta e o medo
Que na manhã seguinte ela me deixe também.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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13. Castelo Vampírico: A ti foram reveladas muitas coisas, que ultrapassam o alcance do espírito

05 de janeiro? – Decidida a não atender à vontade da criatura…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

05 de janeiro? – Decidida a não atender à vontade da criatura, fechei a cortina e me preparei para dormir. Levantei-me umas três vezes para espiar a criatura pela cortina, e ela continuava lá, sentada no peitoril, encarando o horizonte laranja. A abóbora, como Ameritt havia recomendado, permanecia no lugar. Apenas a cortina nos separava. Mesmo que um incômodo insistisse em se mover por minhas entranhas, preferi confiar que a presença da abóbora dada por Ameritt pudesse me proteger. Então, deixei o cansaço me vencer depois de horas de vigilância inútil. 

06 de janeiro? – Despertei, e a primeira coisa que fiz foi verificar se a criatura permanecia na janela. E lá estava ela, admirando o horizonte, como se não tivesse mudado de posição em momento algum. A cena era sublime. Mesmo que um pouco assustadora, havia algo belo na forma como ela contemplava tudo à sua frente. Não perdi muito tempo e fui logo ao encontro de Ameritt. Estava ansiosa para compartilhar com ela o ocorrido. Lá estava ela, colhendo cogumelos, e me recebeu com um sorriso, ouvindo-me com paciência enquanto eu falava sobre a criatura e apontava para a janela do meu quarto, para que ela pudesse vê-la. 

Quando terminei de falar sobre a criatura, omitindo o livro, ela riu baixinho enquanto olhava para cima, protegendo os olhos da luz da manhã: 

— Há coisas nesse castelo, minha querida Rute-besin, que ultrapassam qualquer entendimento que possamos ter. Para certas respostas, talvez você deva procurar o professor Monm. Talvez ele tenha o conhecimento sobre isso que eu não tenho. Ele pode parecer meio estranho, perdido em pensamentos às vezes, mas sabe exatamente onde está. 

Então, com seu jeito peculiar, ao qual eu já havia me acostumado, ela voltou a colher os cogumelos, como se aquilo que eu havia contado fosse apenas mais um dia comum, algo trivial do castelo. Depois da conversa com Ameritt, decidi procurar o professor Monm. Nunca o tinha visto, não sabia sua aparência, mas me recordava um pouco de onde ficava sua sala de aula. Lembro-me do encontro impactante que tive com seus alunos depois de ser perseguida por uma criatura assustadora ao voltar de Séttimor. 

Fui àquela sala, mas estava vazia, assim como todas as outras ao redor. Aparentemente, o professor não é uma figura fácil de se encontrar pelos corredores do castelo. Ainda assim, estou aliviada por o castelo, às vezes, conspirar para que certos encontros aconteçam. Quando já sentia vontade de desistir da procura, encontrei-o no corredor. E, junto dele, encontrei a biblioteca que já havia visitado na outra versão do castelo, no dia do baile de máscaras. Um alívio duplo, se posso dizer. 

Ele estava parado à porta da biblioteca, como se estivesse à minha espera. Era um homem alto, de pele escura, cabelos e barba bem aparados, muito bem-vestido, com um blazer e uma calça de tweed em um verde bem escuro. Por dentro do blazer, usava uma camisa muito branca e segurava um relógio de bolso. 

— Conseguiu o que precisava? — perguntou ele assim que o vi, com um sorriso sutil. 

Fiquei confusa a ponto de olhar para trás, procurando algum de seus alunos que pudesse estar vindo atrás de mim. 

— Consegui o quê? — perguntei, sem entender. 

— Ah, sim, perdão — murmurou ele, como se falasse mais consigo mesmo do que comigo. — Isso ainda não aconteceu. 

O comentário me perturbou, mas decidi ignorá-lo. Ameritt havia me prevenido de que o professor poderia parecer meio estranho, então foquei na razão que me levou a procurá-lo. Apresentei-me e disse que Ameritt tinha recomendado procurá-lo para sanar uma dúvida minha. Ao ouvir o nome de Ameritt, ele abriu um grande sorriso e me convidou a entrar na biblioteca e nos sentarmos. 

Quebrando meu constrangimento e minha timidez iniciais, fui direto ao assunto. Expliquei a ele sobre o estranho visitante sentado no peitoril da minha janela e mencionei brevemente o livro que havia encontrado. Não revelei muito e omiti o motivo real que me levou a guardar o livro comigo. Ele escutou em silêncio, paciente, esperando que eu terminasse. Respirou fundo, juntou as mãos e, depois de alguns instantes, começou a falar: 

— As criaturas desse castelo... Sim, elas nem sempre são simples visões ou espíritos. Algumas, como talvez essa que você descreveu, são fragmentos do castelo: lembranças, reflexos da própria arquitetura deste lugar. Esse castelo tem sua própria memória. 

Ele parou, pensativo, e me olhou com intensidade. 

— Esse livro que você encontrou talvez também seja uma memória. Cada objeto, cada criatura nesse lugar é um fragmento da memória do castelo. E aquelas que ainda não são, um dia serão. Acredito que essa criatura não irá lhe fazer mal. Se fosse assim, já teria feito. Prometo que irei verificar isso mais a fundo amanhã. 

Senti um arrepio com as palavras do professor. Elas não me ofereciam respostas diretas. Ele parecia saber mais do que estava disposto a compartilhar, mas suas palavras me faziam sentir o castelo mais vivo. Depois disso, perguntei a ele se poderia usar a biblioteca para algumas pesquisas que precisava realizar e se ele estaria disponível para tirar eventuais dúvidas. Ele pareceu se animar com o assunto e começou a falar sobre as mentes curiosas que já havia conhecido no castelo, sobre como pessoas movidas pela necessidade de conhecimento o extasiavam. 

Não havia dúvidas de que Monm era um ótimo professor. A forma como falava, como se encantava pelo conhecimento e pela partilha de saberes, era maravilhosa. Eu poderia ficar ouvindo-o por horas — e foi o que fiz. Enquanto conversávamos, por um breve momento em que olhei em seus olhos, senti como se algo neles revelasse uma dor antiga. Era uma sensação estranha. Sempre fui péssima em entender sentimentos alheios, mas consegui captar um fragmento de dor, uma dor semelhante à minha, só que amplificada, como se a minha perda fosse apenas uma sombra da dor que Monm vivenciara. 

Nunca imaginei que um dia poderia reconhecer em outra pessoa algo tão próximo do que eu sinto. Eu, que antes de fazer parte do castelo duvidava de tudo o que fugisse do alcance da minha lógica, encontrei-me diante de alguém com quem talvez compartilhe uma espécie de luto silencioso. Olhando para ele, o peso que carrego pareceu tornar-se mais claro. Por um momento, pensei em perguntar o que realmente o consumia e se era mesmo luto, talvez até compartilhar um pouco da minha própria história. Mas, assim como eu, ele parecia ter aprendido a manter a dor guardada, protegida dos olhares dos outros. 

Quando seus olhos perderam aquela sombra estranha, ele continuou a falar como se nada tivesse acontecido. Afinal, no castelo, talvez seja fácil perder-se — não apenas nos corredores e salas, mas também dentro de si mesmo. Monm e eu, cada um à sua forma, somos habitantes desse labirinto. 

07 de janeiro? – Nunca imaginei que, sendo hóspede do castelo, poderia conhecer tantos lugares diferentes como o que conheci à noite. Ontem à tarde, ao retornar ao meu quarto e perceber que a criatura ainda estava no peitoril, senti uma estranha vontade de apenas deixar para lá. Então, fiquei escrevendo até que o sono se tornasse difícil de vencer. Fui para a cama e me entreguei a ele sem resistência, deixando as palavras que ainda poderiam ser escritas soltas na minha mente. 

Assim que fechei os olhos, logo os abri e me vi em um lugar que não poderia chamar de sonho. Não era o castelo, e infelizmente também não era a Vila de Séttimor. Era como se eu estivesse em um espaço que escapava a qualquer definição lógica. Não consigo explicar com palavras exatas a sensação que me preenchia. 

Ao meu redor, flutuavam algumas bolhas que refletiam lembranças — algumas minhas, outras familiares, porém nubladas. Caminhei em meio a uma névoa lilás, com um perfume sutil de lavanda. Ao tocar minha pele, essa névoa parecia refrescar-me e, aos poucos, suspender minhas sensações. 

Logo à frente, havia um homem alto, de pele escura e cabelos e barba muito brancos. Seus olhos, de um branco translúcido, não possuíam íris nem pupilas. Ele usava vestes semelhantes às de um monge, todas brancas, e segurava uma chave. Parecia estar à minha espera. 

— Venha. — Ele disse como um sussurro. — É-me ordenado guiar-te para o sonho daquele que teu coração anseia. 

E meu coração ansiava, mas eu não tinha certeza de por quem ou pelo quê. Eu o segui por entre um campo de lavandas na direção de uma bela porta de madeira escura adornada de heras. Era apenas uma porta, sem nada: sem uma construção, paredes, nada que eu pudesse entrar. Ele a abriu, e me vi de frente a uma bolha, do tamanho de uma bola de basquete, onde havia uma lembrança. As nuvens que a cobriam se dissiparam, e vi o professor Monm. Ele segurava um relicário com firmeza, mas havia tristeza em seu rosto. 

— Éramos… inseparáveis… — murmurou Monm. Sua voz parecia estar distante, cada palavra carregada de dor. — Mas, o tempo… em seu esplendor e perfeição… — Ele olhou para o relicário em suas mãos. — Tornou-se minha obsessão… pois… eu não podia… eu não podia perdê-la… 

A imagem dele ali, perdido em sua própria dor, era como olhar para um espelho daquilo que também me feriu por dentro. Amor, culpa, desespero, tudo isso me tomou de maneira violenta: a dor semelhante, o eco suave do que eu sinto por Hadassa. A lembrança dela encheu minha mente, e logo fui sugada para um cenário diferente. Comecei a sentir demais, senti uma vertigem e percebi que algo estava errado. Comecei a ouvir sussurros, vários deles, numa língua que eu não conseguia identificar. 

Me vi sozinha, de frente a um grande portão escuro, com criaturas aladas me observando com olhos profundos. O portão se abriu, e fui levada através dele sem ter escolha. Eu queria recuar, acordar, mas estava sendo levada, atraída, indo além de sabe-se-lá-o-quê. Uma grande bolha escura veio até mim, fui tragada por ela, e arrastada para uma das minhas piores memórias. Eu estava como uma observadora: me vi parada, sem reação, olhando para Hadassa. Ela segurava o celular com mãos trêmulas, suas mãos e roupas ensanguentadas. Ela estava chorando e me implorando para ajudá-la. 

— Rute, me ajude, eu não quero ir para o inferno. Me ajude, por favor, eu quero morrer, mas não quero ir para o inferno. — Ela gritava enquanto abraçava a minha versão da lembrança, que começou a chorar junto com ela, sem saber o que fazer. 

As palavras dela ainda me atormentam quando me distraio e deixo meus pensamentos irem. Comecei a sentir meu coração bater mais depressa, minha respiração estava ofegante. Senti como se uma carga elétrica fluísse por minhas veias e vasos. Queria que aquela lembrança parasse, eu não queria vivenciar aquela cena novamente. Me debati, gritei, mas parecia inútil. Eu não queria sentir tudo aquilo de novo, eu só queria sair dali. 

Acordei com um sobressalto, e lá estava a criatura da janela, me sacudindo. Mais próxima que antes, próxima demais. De algum modo, ela havia atravessado a proteção da abóbora de Ameritt e agora me olhava com aqueles olhos que pareciam enxergar através de mim. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Maldita Melodia

Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal. Coisas que antes eram familiares se tornam incomuns. Assim foi com a música. Tudo começou como um sonho, ou melhor, como um sussurro musical no meio da noite, que penetrava a minha mente. Quando acordei, a melodia continuava ali, flutuando no meu cérebro e, por algum motivo, ela não ia embora. Às vezes, acontecia de uma melodia se prender à minha mente, e eu ficar a cantarolar por horas e, às vezes, dias, aquela mesma melodia. Sentei-me na beira da cama, tentando capturar a melodia que ainda flutuava no meu cérebro. Era bela, embora impossível de cantarolar. Meus lábios não conseguiam formar os sons. Fui até meu violoncelo e tentei transcrever aquela melodia para as cordas. Posicionei o arco, alinhei os dedos e, então, nada. Eu não conseguia tirar aquela melodia da minha cabeça e, ao mesmo tempo, não conseguia trazê-la ao mundo real. 

Os dias pareciam passar lentos, e a repetição daquela melodia começou a se tornar torturante. A música, antes lenta e tranquila, parecia aumentar aos poucos. Ela não parava, não alterava, repetia-se em um loop dentro da minha cabeça. Eu tentei escrevê-la, traçava as pautas com rapidez, mas as notas não se encaixavam. Era como se a música fugisse de qualquer estrutura lógica; as notas pareciam se negar a tomar forma no papel, rejeitando existir fora da minha mente. Minhas tentativas de cantarolar eram inúteis: o som na minha cabeça parecia se dissolver assim que passava pela minha garganta. Ainda assim, eu insistia. Insistia dia após dia. Minhas mãos tremiam a cada tentativa, e minha mente parecia se desfazer lentamente, exausta de tantas noites sem dormir com aquela melodia que não queria existir. 

Eu me recordo do momento exato em que essa música começou a me torturar de verdade. Eu estava fora de casa, em uma tarde, tentando me concentrar nos sons das folhas, dos pássaros, dos carros, de tudo ao meu redor. Tentando me concentrar na paisagem. Mas parecia que tudo ia ficando mais cinzento, mais escuro, e, lá no fundo, a música aumentava. Seu tom se intensificava, suas pausas diminuíam, e as notas se elevavam, como se, a qualquer momento, fosse alcançar o clímax e, com isso, fazer meus miolos escorrerem pelos ouvidos. 

Voltei para casa e tentei mais uma vez tocar aquela melodia maldita. As cordas vibravam de maneira errada, as notas vinham distorcidas, o tom estava errado, e eu, frustrada. Até o violoncelo parecia se recusar a cooperar comigo. Algo estava diferente nele — ou talvez eu estivesse diferente. 

Comecei a evitar as pessoas. Suas vozes pareciam intensificar-se ainda mais; cada conversa me perturbava, tornando o som mais intrusivo, mais alto. Eu não suportava mais o mundo lá fora; cada ruído acrescentava mais urgência à melodia. O violoncelo tornou-se um fardo, mas eu não conseguia parar de tentar tocar a melodia. Achava que, se eu conseguisse, talvez ela cessasse. 

Então, tentei. Presa em minha casa, com janelas e portas trancadas e o som de fora abafado, coloquei o arco sobre as cordas, fechei os olhos e me concentrei na melodia dentro da minha cabeça. Ela já se misturava com o tique-taque do relógio, os ruídos dos canos, o som da geladeira, o barulho do ventilador e até o zumbido da eletricidade da casa. Puxei o arco com força, e o som que saiu não era da melodia. Talvez nem fosse humano. Era como um lamento, que fez todo o meu corpo se arrepiar, as paredes tremerem e a madeira do violoncelo vibrar. 

Soltei o violoncelo e olhei para ele com horror, mas não conseguia controlar o impulso de pegá-lo outra vez e tentar tocar a melodia, que agora parecia rir dentro da minha cabeça. Já nem sei o que é real. A melodia não me deixa, e eu não consigo deixar de tentar tocá-la. O violoncelo parece não aguentar mais: suas cordas estão tensas, prestes a arrebentar. Eu só quero tocar essa maldita melodia, só quero que ela tome forma — ou talvez seja melhor que ela permaneça aqui, dentro da minha mente, onde sempre esteve. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Conexões de sangue poético

Arale Fa´yax, | Com passos furtivos como a névoa da manhã, | Carrega consigo, nas dobras de sua capa de sombras e mistérios | Os pergaminhos de sangue, que são mais do que palavras,…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Arale Fa´yax,
Com passos furtivos como a névoa da manhã,
Carrega consigo, nas dobras de sua capa de sombras e mistérios
Os pergaminhos de sangue, que são mais do que palavras,
São o pulsar do destino, a assinatura do universo no fio da existência.
Cada rolo, cada pedaço de carne redigido, identidade cruzada,
É um véu que se rasga diante dos olhos dos deuses e dos monstros,
Cada página transpirando o vermelho das profundezas,
Escarlate, fervente como o coração de uma estrela moribunda.

A máquina de escrever, feita de ossos quebrados e reconstituídos,
Brilha com a luz de uma lua sangrenta,    
Em seus teclados, o sangue pulsa com vida própria,
Vibrando, dançando, como se as palavras que ela escreve,
Fossem mais que ecos de dor, fossem orações que rasgam os véus.
Um sangue que flui das páginas é mais do que mero fluído,
Destino que escorre, é o mapa que guia a caçadora da ceifadora.

Oh, pergaminhos de sangue, amarrados com fios de terror e desejo,
Onde a tinta é o próprio sangue do universo,
Revelando as verdades ocultas nos recessos das almas,
Nomes dos que se aventuram por este castelo sombrio.
Um nome, em particular, surge com a gravidade das estrelas caídas:

"Gaia?"..."Terra?"
A filha da brasa, de uma madeira que sangra uma tinta vermelha
Uma terra do dourado doente do verde, da raiz,
Uma índia de arco e flechas, de olhos como a terra escura,
Onde o verde se mistura com o preto da noite,
Sua pele, um espelho do solo que abraça a vida e a morte.
Suas mãos, marcadas pela terra, pelas raízes,
Carregam o peso do que é ancestral,
E sua presença é uma tempestade de sabedoria,
De um povo que não é de uma terra, mas do próprio coração de Gaia.

O avatar da nação da Brasa é o da serpente e da árvore,
Onde os galhos se entrelaçam com os dedos,
Os olhos, como esferas de obsidiana,
Vêm não do rosto, mas da alma da terra,
Guardiana do segredo, do ciclo eterno do renascimento.
Ela pisa nas pedras, mas sua alma voa com as aves ancestrais,
Vossa voz é o canto que ecoa nas florestas e rios,
Nos ventos que sussurram histórias de um tempo antes do tempo.

O pergaminho, com sangue que agora flui como um rio celestial,
Revela sua jornada – uma peregrinação em busca da verdade.
Ela vem, a guerreira de pele que nunca se apaga,
Com a força das raízes e a suavidade das folhas ao vento,
Sua missão é clara, como o brilho das estrelas sobre a selva noturna,
A extirpar as feridas que o homem e a besta causaram ao planeta,
A tecer o feitiço do equilíbrio, onde os homens falharam.

Mas a máquina de ossos não se detém,
Ela continua a escrever, e o sangue é a chave para o futuro,
Para cada ser que adentra o castelo – com a alma marcada,
Com seus passados e destinos entrelaçados como fios de uma tapeçaria
Cada nome que ela escreve, cada imagem que ela evoca
É uma jornada, uma história, um eco que se perde nas trevas,
Mas também se ergue na luz, como a chama da vela que ilumina os caminhos.

E tu, Arale Fa´yax, filha das estrelas e da sombra,
Carregas esses pergaminhos como os segredos dos mundos,
Com olhos que sabem, que veem, que interpretam o invisível.
A máquina de ossos brilha, pulsando como o coração do castelo,
E o sangue, fluido e quente, revela as verdades que só tu podes entender.
Pois tu és a guardiã das palavras e das criaturas,
os pergaminhos de sangue serão sempre teu guia,
Na eterna caçada ao que se esconde, ao que se alimenta da vida alheia.
Filha da terra, eco do passado,
Teu avatar se reflete no sangue, mas também na floresta,
Onde a natureza ainda canta a canção do equilíbrio perdido,
Guerreiras de raízes e ventos, és a esperança de um novo amanhecer.

Anelly, de traços como sonhos que não se dissipam,
Astrid, cuja mente afiada esculpe o invisível.
Maria, entre a ciência e os mistérios das ervas,
guarda segredos que tanto curam quanto destroem.
Há também Nauärah, guardiã de silêncios e flechas,
uma guerreira cujo espírito se ergue como torres ocultas.

Olga, enigma em carne, uma beleza avassaladora,
tece entre seus passos o fio da verdade e da dúvida.
E tu, Rute, sob o signo das orquídeas roxas,
tens o mundo a descobrir, mas também a temer.
Caminhas entre os espectros, vislumbre das estrelas,
e o que é visível nem sempre é o que deves tocar.

A Sinfonia do Castelo que minha máquina de ossos compõe para vossos honrados companheiros; lhes entrego a minha poesia de sangue,    

Ó Drácula, maestro de formas e sombras,
teu castelo não é mero edifício,
mas uma partitura onde cada hóspede é nota viva
Com mãos invisíveis moldas a estrutura,
mas é nas mentes que esculpes o eterno.

O tempo aqui não obedece ao sino,
mas pulsa ao ritmo da alma coletiva.
Cada corredor guarda histórias,
e em cada aposento, enigmas aguardam o destemor.   

Concluo estas linhas com o coração em vertigem,
pois vejo que não sou mais quem entrou,
mas parte de algo maior, algo inominável.
Que mistérios ainda esperam, ocultos nas névoas?
Ó, diário, sê tu minha âncora,
e guia-me nas trilhas de um castelo que é tanto destino quanto perdição.

Eis que tua jornada se faz trilha obscura,
um verso de trevas entoa aos teus pés.
A ladeira íngreme, mergulhada em negrume,
te acolhe, não com braços de mãe, mas garras.
Oh, espírito inquieto, que força te guia?
Que ânsia mordaz te faz seguir ao abismo
onde o luar se esconde e o vento murmura
segredos que os vivos não ousam ouvir?

O castelo ergue-se, soberbo, em silêncio,
mais alto que sonhos, mais frio que tumbas.
Sua face é esculpida em pedra que chora,
e os vitrais, como olhos, espelham tormentos.
As portas — que brilham em rubro carmim —
parecem pulsar como corações vivos.
Oh, que ironia! Na madeira calada,
ecoam promessas de fim ou começo.

Teus pés hesitam; tua alma vacila.
Deverias, mortal, adentrar o mistério?
Ouvirás os murmúrios dos que foram antes?
Sentirás o sopro do passado sombrio
que percorre os corredores como sombra?
Mas a aldrava convida com firme apelo.
Não são as mãos que decidem, mas o peito,
e no peito há um grito que exige resposta.

Eis então, que escolha farás, ó caminhante?
Tens a coragem de golpear a porta
ou o silêncio da noite será teu refúgio?
Lembra-te: o que repousa atrás do portal
não retorna ao mundo da luz sem cicatriz.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Noite na Taverna e o Gótico Brasileiro: Reflexões entre Alcoolismo, Desejo, Paixão e Originalidade na Literatura

Alvares de Azevedo, com sua obra Noite na Taverna, estabelece um diálogo profundo com os princípios do gótico literário…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Alvares de Azevedo, com sua obra Noite na Taverna, estabelece um diálogo profundo com os princípios do gótico literário, não apenas em sua atmosfera sombria e decadente, mas também na maneira como reflete as tensões sociais de seu tempo. Publicado em 1855, o livro vai além da simples imitação de modelos europeus ao incorporar questões como o alcoolismo, a alienação, o desejo, o medo, a paixão pela liberdade, características de uma juventude romântica brasileira tanto da classe burguesa quanto de classes econômicas mais baixas, confrontada com um contexto de transição e incertezas. 

A atmosfera gótica e os dilemas sociais  

A taverna, espaço central da narrativa, é um lugar de excessos onde o vinho conduz os narradores a relatar histórias permeadas por tragédia e destruição. A representação do alcoolismo e da embriaguez em Noite na Taverna não é meramente decorativa, mas uma metáfora para a alienação e o escapismo de uma geração romântica frustrada. Como afirma França em Poéticas do Mal: a literatura do medo no Brasil, os excessos retratados em narrativas góticas brasileiras refletem uma juventude que muitas vezes se viam às margens de um contexto político e social que não oferecia espaço para seus ideais. Esse escapismo por meio do álcool, aliado ao ambiente sombrio da taverna, é uma crítica velada a uma sociedade que sufocava a busca por uma liberdade cultural e econômica. 

Por outro lado, os temas da paixão e do desejo são tratados por Azevedo com um misto de fascínio e ironia. Em histórias que oscilam entre o erotismo e o grotesco, como a narrativa de Bertram, o autor apresenta relações marcadas pela destrutividade, evidenciando uma visão trágica do amor que se aproxima do gótico europeu, mas que também ressoa com uma moralidade em crise no Brasil oitocentista. O amor em Noite na Taverna é fugaz, violento e muitas vezes fatal, refletindo a fragilidade das instituições sociais e do próprio indivíduo. 

O desejo de liberdade e a crítica à tradição  

Além disso, o desejo de liberdade permeia toda a obra, seja nas aventuras desregradas de seus personagens ou na rebeldia estética de Azevedo contra as normas literárias de sua época. Essa liberdade, no entanto, é constantemente confrontada pelo peso das consequências trágicas, reforçando a dualidade entre o ideal e a realidade, característica fundamental do gótico. Assim, Azevedo contribui para a formação de um gótico brasileiro que, mesmo inspirado em autores como Byron e Hoffmann, dialoga com as inquietações de seu tempo e espaço. 

Contrariando as críticas literárias que veem Noite na Taverna apenas como uma cópia do gótico europeu, é fundamental reconhecer que, como França (2022) argumenta em Poéticas do Mal: a literatura do medo no Brasil, a literatura do medo no Brasil não é uma mera reprodução, mas um campo fértil onde elementos locais e universais se entrelaçam, por meio de várias autoras e autores brasileiros. Esse entrelaçamento permite a coexistência de escritores que abordam questões mais regionais com aqueles que exploram reflexões de caráter mais universalistas. Azevedo se insere na segunda vertente, utilizando o gótico como uma ferramenta para discutir dilemas existenciais e globais, mas sem jamais se desligar totalmente do contexto brasileiro. 

Originalidade na Literatura de Azevedo  

A acusação de cópia frequentemente desconsidera que todo autor é, em maior ou menor medida, influenciado por tradições literárias. No caso de Azevedo, suas inspirações europeias são reinterpretadas à luz de sua realidade. A atmosfera decadente de Noite na Taverna, por exemplo, é permeada por um senso de tropicalidade melancólica, que, embora não explicitamente regional, não pode ser dissociada da psique de um jovem autor brasileiro do século XIX. Essa abordagem, ao invés de diminuir a obra, a insere em uma tradição estética literária global que reflete sobre as angústias humanas em diferentes contextos. 

Assim, Noite na Taverna merece ser lida como um marco do gótico brasileiro, uma obra que, ao integrar questões universais como a paixão e o desejo de liberdade com tensões sociais como o alcoolismo e a alienação, apresenta uma profundidade que vai além de imitações superficiais. A crítica literária, portanto, precisa revisitar esse texto com a abertura necessária para reconhecer sua complexidade e relevância no panorama literário brasileiro e internacional. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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No Reino do Sonho – Desejo

Ó figura pálida, de encanto secreto, | Onde o lilás dança entre véus discretos, | És a chama etérea que me seduz, | Na linha tênue entre sombra e luz…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ó figura pálida, de encanto secreto,
Onde o lilás dança entre véus discretos,
És a chama etérea que me seduz,
Na linha tênue entre sombra e luz.

Teus lábios, rubros de desejo calado,
Guardam segredos que o mundo há negado.
E teu toque, murmúrio de ardor contido,
É brisa e incêndio no meu peito perdido.

Nos salões dos sonhos, és rainha distante,
Intocável na vigília, mas tão próxima errante.
Teus olhos, astros da noite encantada,
São abismos de astúcia, doçura velada.

Sob o véu onírico, somos livres enfim,
Corpos enlaçados, sem começo ou fim.
E em teu perfume, que embriaga e sufoca,
Eu encontro a vida que a realidade me troca.

Mas quando desperto, só resta o vazio,
Um eco gentil de um amor sombrio.
E ao silêncio retorno, teu servo fiel,
Guardando-te em sonho, como doce infiel.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Velian – Sombras de Somníria

Após sua primeira visita ao Castelo Drácula, Velian, um vampiro há muito acostumado com as sombras e as verdades escondidas da…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Após sua primeira visita ao Castelo Drácula, Velian, um vampiro há muito acostumado com as sombras e as verdades escondidas da humanidade, encontrou-se em Fortaleza, no calor abrasador do nordeste brasileiro. A cidade lhe parecia irônica: seus habitantes pulsavam com uma vitalidade quase insultuosa, como se a própria existência fosse uma celebração ininterrupta. Mas Velian, sarcástico e introspectivo, via naquela energia um desgaste constante, como se todos ao seu redor consumissem suas próprias almas sem perceber. 

Ele vagara pelos ambientes underground da cidade, observando os humanos em suas ilusórias liberdades noturnas, buscando esquecer sua própria natureza em prazeres fugazes. A superfície de Fortaleza o distraiu por um tempo, mas em cada olhar ou gesto de despreocupação ele percebia um teatro de máscaras. Por mais que se esforçassem, aquelas pessoas, em suas próprias misérias e êxtases, pareciam tão aprisionadas quanto ele. Ao retornar, sua mente ainda ocupada por aquelas imagens, Velian deitou-se em seu caixão luxuoso, cravejado com detalhes prateados, e, finalmente, entregou-se ao repouso. 

Enquanto seus pensamentos desvaneciam, Velian foi atraído por uma névoa densa e misteriosa que o levou de volta ao Castelo Drácula, ou assim ele pensou. Porém, este não era o castelo de pedra e penumbra que visitara anteriormente; era um lugar entre dimensões, onde o concreto dissolvia-se no efêmero. Ele flutuava em Somníria, uma extensão onírica do Castelo Drácula, e ali, o mundo parecia existir entre o real e o irreal, como se cada fragmento do ambiente fosse uma pintura inacabada, uma sombra do que poderia ser. Havia ali uma estranha familiaridade; um eco do castelo, mas em tons mais suaves e etéreos, como se Somníria fosse apenas uma das tantas faces ocultas do Castelo Drácula, uma dimensão onde realidades coexistiam de forma tênue. 

Foi ali que ele encontrou Nívian. A figura exalava uma presença distinta, uma autoridade calma e distante. Suas palavras eram medidas, mas carregadas de uma sabedoria inabalável. Seu rosto, belo e firme, contrastava com uma seriedade quase trágica. 

— Sou Nívian, Arqelua em Somníria — disse ela com uma voz doce, mas imersa em um toque de austeridade. — Isso significa… entre outras verdades… que jamais me desvencilharei do mundo dos sonhos. 

 

Velian a observou com interesse, um sorriso cético e irônico se formando em seu rosto: 

— E o que isso significa para alguém como eu? Estaria preso também a este… reino, como você? — Ele fez uma pausa, gesticulando com a graça de um predador calculista. — Um castelo dentro de outro castelo, dimensões sobrepostas… isso tudo parece a piada final para um ser como eu, que já viu a profundidade e a vaidade das máscaras humanas. 

Nívian sorriu de leve, seus olhos refletindo um misto de entendimento e desafio. 

— Talvez você esteja preso a muito mais do que imagina, Velian. Aqui, em Somníria, os conceitos rígidos que o mundo desperto exige se dissipam. A realidade e o sonho coexistem sem fronteiras. E, diferente de nós, os humanos, ao menos em seus sonhos, podem vivenciar uma liberdade que a vigília nunca lhes permite. 

Ele riu, uma risada leve e amarga. 

— Então, você sugere que até mesmo nós vampiros, que devoramos os mortais e ultrapassamos suas limitações, ainda assim estamos acorrentados a seus conceitos? Diga-me, Nívian, onde fica a nossa liberdade, então? Se até neste castelo que nos promete abismos e mistérios, ainda estamos sujeitos aos mesmos… parâmetros humanos? 

— Nos sonhos, e apenas neles, reside a verdadeira liberdade — respondeu Nívian. — Quando sonham, os mortais podem transcender suas próprias barreiras, as limitações impostas por sociedades e seus julgamentos. Podem ser qualquer coisa que desejam, mesmo que na vigília essas mesmas vontades precisem ser enterradas em segredo. 

Velian considerou as palavras, sentindo-se vagamente atingido por elas. Ele, um ser que se orgulhava de sua liberdade, de escapar das leis e costumes humanos, percebia-se agora confrontado. A liberdade que ele pensava possuir era, talvez, apenas mais uma forma de prisão. 

— Então você afirma que o que vivenciamos agora é tão real quanto a própria vigília? E que este mundo onírico, tal como o que deixamos ao adormecer, é só mais uma camada? — Ele fez a pergunta como um desafio, mas havia nela uma admissão relutante. 

Nívian respondeu, seu olhar assumindo uma intensidade que Velian não esperava. 

— A realidade é como as camadas de um sonho, Velian. E os sonhos são reflexos da nossa verdade mais íntima, daquilo que o mundo desperto reprime. Nas vigílias, homens e mulheres reprimem seus desejos, se aprisionam em normas, se anulam em papéis. Você, mesmo entre nós, ainda carrega máscaras, acredita no seu próprio personagem… mas aqui, nos sonhos, o que somos é puro e destituído dessas molduras. 

O vampiro sentiu um arrepio ao perceber a profundidade daquilo que Nívian lhe mostrava. Ali, no etéreo, ele se sentia menos restrito, menos… coagido a um papel. Ele reconhecia em si algo que sempre temera reconhecer plenamente: uma fluidez que jamais admitira aos outros nem a si mesmo. 

— Então, diz-me, Nívian — disse ele, os olhos brilhando com um misto de sarcasmo e genuíno interesse —, o que se é, afinal? Um monstro? Um ser humano? Ou nada? Essas camadas, esses papéis… têm algum sentido real? Ou são apenas ecos de uma sociedade que insiste em moldar todos, até mesmo os monstros, ao seu jeito? 

Ela observou Velian por um longo momento, como se medisse sua resposta. 

— Somos aquilo que nos permitimos ser, Velian. Mas o mundo desperto aprisiona, nos obriga a seguir as regras de uma humanidade que insiste em formatar e restringir. A fluidez da identidade, tão natural aqui, é temida na vigília. E essa fluidez, mesmo para você, não deve ser algo a esconder. Você é, afinal, tanto o que os outros esperam quanto o que você ainda não ousou reconhecer. 

Ele soltou um riso seco, mas algo em seu olhar havia mudado, uma sombra de compreensão em meio à sua usual descrença. Como um vampiro, já possuía uma vida fora das normas, um ser que deveria transitar entre o mundano e o imortal sem limitações. Contudo, ali em Somníria, entendia que ainda estava preso a noções que jamais haviam sido completamente dele. 

— E onde tudo isso termina, então? Em mais sonhos e em mais realidades sobrepostas, até que tudo o que sou se torne apenas… vazio? 

Nívian balançou a cabeça, seus olhos refletindo uma sabedoria que o deixava inquieto. 

— Termina onde você se permite que termine. Talvez no entendimento de que a realidade é uma ilusão; talvez na aceitação de que tanto o sonho quanto a vigília são partes do todo. Um ciclo constante entre o que você é e o que poderia ser. 

Velian se sentiu como se houvesse tocado a superfície de algo vasto e incompreensível. Quando percebeu, Somníria já começava a se dissolver ao seu redor. Despertou com a última visão de Nívian em sua mente, seu rosto austero e a voz firme dizendo: "Você tem a eternidade, Velian. Use-a para ser livre." 

Ao abrir os olhos, de volta ao mundo desperto, ele ponderou sobre tudo aquilo. A fluidez da identidade, a liberdade que sempre julgara ter. Talvez a própria existência fosse uma camada indefinida, onde os sonhos e a vigília se entrelaçavam. Sentiu um desejo repentino de caminhar pela Fortaleza de seu tempo, observar os humanos e refletir sobre o que realmente significava ser livre. A noite o aguardava, e o Castelo Drácula, ele sabia, o chamaria de volta. 

Mas, por ora, Velian desejava apenas misturar-se entre aqueles que, com toda a sua humanidade, ainda tinham tanto a lhe ensinar. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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1 - Diário de Sibila von Lichenstein

Hoje, mais uma vez, acordei como sempre. Os olhos pesados, a mente turva, mas com uma sensação de alívio que não sentia há muito tempo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Hoje, mais uma vez, acordei como sempre. Os olhos pesados, a mente turva, mas com uma sensação de alívio que não sentia há muito tempo. Por fim, minha mente poderá descansar. Se eu não estivesse desperta — ou ao menos acho que estou — diria que esse descanso é o que a morte traz. 

Há alguns dias, fiz o que fiz com ele. Não sei como atravessei o limbo que permeia os sonhos, mas o fato é que agora habito estas misteriosas paredes. Quando despertei naquele dia estranho, o momento em que fui trazida para cá, não pude perceber logo. Habitar o interior deste castelo, onde me encontro, parece ser a extensão de um sonho, tornando-o perpétuo. 

Lembro-me de quando abri os olhos e, com um movimento leve, dirigi-os para a deslumbrante paisagem que se descortinava através da janela. Campos infindáveis de lavandas encantadoras se estendiam diante de mim. Não consegui discernir onde começavam e onde terminavam. O odor, de início suave e agradável, logo se tornou acachapante, quase impossível de suportar. 

Ao observar aquele campo florido e o céu em tons de lilás, uma sensação de dissonância me tomou. A palidez violácea dos céus se confundia com os tons púrpura das flores, criando uma sensação de confusão entre o céu e a terra. O jardim ao redor do castelo, naquele dia ousei explorá-lo: você o adentra e se perde, envolto em um absurdo encanto. As lavandas, movidas suavemente pelo vento, traziam uma sutileza apaziguante, como se a natureza estivesse em um estado de constante calma. 

Mas então, como um vislumbre da verdade, o que parecia ser serenidade se revelou efêmero. Em meio à quietude daquele cenário, uma sensação sutil, porém palpável, de inquietação começou a se espalhar. As lavandas não eram apenas flores; elas sussurravam. Sussurros terríveis que, embora suaves, me alcançaram com um peso insuportável, obstruindo minha garganta e distorcendo meu olhar. Era como se algo maligno se escondesse entre aquelas pétalas, esperando para revelar seu horror. Parecia que ao olhar com atenção para as flores eu conseguia avistar os rostos delas, as vítimas que eu ajudei a matar. 

E eu, que me permiti mergulhar nesse jardim de aparente paz, fui levada aos confins da loucura. O que as lavandas estavam sussurrando? Eram os meus segredos hediondos, ou era apenas minha mente, que já se despedaçava pela culpa e pelo medo, criando esses horrores? Eu não sabia mais se estava sonhando ou se a realidade que agora habitava era mais insana do que qualquer pesadelo. Ainda sim, eu duvido que possa ser pior do que o pesadelo que vivi ao lado dele. 

Não posso esquecer como tudo começou. Viktor Frankenstein... Ah, Viktor. Conheci-o na faculdade, com seu brilho nos olhos, sempre tão envolvido em suas pesquisas. Eu era apenas uma jovem ambiciosa, desesperada para continuar meus estudos após a morte de meu pai, um simples trabalhador do campo na Prússia. A morte dele, no inverno rigoroso daquele ano, deixou um vazio imenso, e me vi diante de uma cruel realidade: minha educação, minha ascensão social, tudo estava em risco. Quando Viktor me ofereceu um caminho para garantir minha continuidade acadêmica, aceitei. Não sabia o que me aguardava. 

Ao me mudar para sua casa, situada na periferia de uma cidade que ainda carregava as cicatrizes das Guerras Napoleônicas, tão diferente das paredes desse castelo que atualmente habito, tudo parecia promissor, pelo menos no início. As ruas cobertas de neve e o vento gélido da Prússia pareciam distantes da casa de Viktor, mas logo descobri o que ele realmente fazia em seu laboratório. Nunca vou me perdoar pela morte de minha amiga Eleanor, a quem contratei para limpar a casa. Ele a matou. Sim, caro diário que acolhe minhas mórbidas palavras. Ele matava mulheres, inocentes, para seus experimentos. E eu... eu fui forçada a ajudá-lo a esconder os corpos. Eu não tinha escolha, não naquele momento. Era o preço que eu pagava para garantir minha educação, meu futuro. 

Cada vez que olhava para ele, um homem brilhante, mas obcecado por sua própria criação, eu me sentia mais suja. Minha consciência se corroía. Ele me forçava a ser cúmplice de algo que sabia ser monstruoso. E assim, as semanas se passaram. Eu o ajudava a enterrar seus pecados, mas a cada corpo, a cada erro, a culpa aumentava. Até que, finalmente, decidi: ele precisava morrer. Eu não poderia mais permitir que suas mãos, imundas de sangue, continuassem a destruir vidas. Depois de Eleanor, uma morte que não o ajudei a planejar, ele me pediu que providenciasse mais vítimas, caso contrário eu seria a próxima e ele providenciaria outra assistente. Com a crescente expansão das indústrias, e sem uma profissão definida, eu me vi sem alternativas. Ou era a minha vida, ou a delas. 

Foi numa manhã fria e silenciosa, em uma Prússia já tão marcada pelo avanço industrial e os ecos do passado sangrento, que tomei minha decisão. Acordei, vesti o sobretudo, calcei as botas de abatedouro e fui até o laboratório. Dessa vez, não era para mais uma de suas vítimas. Não, eu faria o que deveria ser feito. Eu o matei. E ao fazer isso, pela primeira vez, consegui dormir sem ter pesadelo algum, após o ato. 

Era como se, ao tomar sua vida, eu tivesse me libertado. Quando finalmente adormeci, pensei que talvez fosse o fim de tudo. Mas ao fechar os olhos, um sonho estranho me envolveu. Fui transportada para um lugar sombrio, este castelo, onde agora me encontro. Na ocasião, um homem de semblante imponente me observava das sombras. Eu não sabia como, mas sentia que meu destino agora estava entrelaçado com o dele... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 3: Tratamento onírico

Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem de algum filme passado no século XIX. Ainda tenho sentimentos conflitantes com relação a isso, pois sempre fui uma criatura que apreciava o novo e moderno (ah, como sinto falta da internet), mas sabia contemplar a beleza das construções e mobílias clássicas. 

Há quatro janelas esguias, adornadas com cortinas de veludo vermelho, com os famosos penduricalhos dourados nas extremidades. A poltrona fora confeccionada com o mesmo tecido e estilo, e por vezes, ria-me imaginando ver algum aristocrata impotente sentado ali. 

A cama é de madeira robusta, com entalhes perfeitos e possui quatro pilares, que sustentam o voil branco. Acho desnecessário todo esse luxo exacerbado, mas reconheço que é extremamente belo. Ao deitar-me na cama, o colchão parece dar um terno abraço materno, e sinto esvair toda a sensação de desconforto, se é que ainda restava alguma. 

*** 

Acordei com a Lisa miando com uma urgência que me preocupou. Levantei-me para pegá-la, e ela correu em direção à porta e parou, como se esperasse que eu a abrisse. Abri. Continuou miando, andando e parando, exigindo de mim uma agilidade impossível. 

Transparecia uma feição diferente, densa, como se não tivesse tempo para mais nada e somente precisasse me conduzir a algum lugar. 

A escuridão impregnava as superfícies e conferia ao Castelo um aspecto ainda mais sombrio e enigmático, e em dado momento, quando ela virou-se para mim, avistei duas luzes violetas no lugar onde seriam seus olhos. "Ah Lisa, vamos voltar para cama, estou tão exausta que já estou vendo coisas", mas ela continuava irredutível em sua missão autoimposta. 

Ainda não conhecia (e não conheço) os pormenores do Castelo. Existem várias portas, corredores e ambientes, e eu, que nunca tive boa percepção espacial, via-me cada vez mais perdida. Mas ela sabia exatamente onde estávamos e para onde íamos. Parou em frente a uma porta, e entendi que era o nosso destino. Bati, perguntando se havia alguém ali dentro e recebi o silêncio como resposta. 

Girei lentamente a maçaneta, ainda preocupada de estar invadindo a privacidade de alguém. Era um banheiro. Amplo e claro demais, não combinava com os demais locais que havíamos percorrido até chegarmos ali. Contudo, entrei. 

— Você quer fazer suas necessidades, não é?! — Falei em tom de brincadeira e para minha surpresa ela respondeu. 

Estremeci. Estava delirando ou minha gata falou comigo? 

Olhei espantada para ela, que sorriu estranhamente em retribuição. Soltei um grito, mas devido às proporções exageradas daquele lugar, creio que ninguém me ouviu. Seus olhos brilhavam em intenso neon arroxeado. Sim, os olhos dela estavam roxos! 

Tentei afastar-me, mas ela cresceu até que ficou do tamanho de uma pantera negra, com seus olhos lilás ofuscando minha visão e impedindo-me de sair daquela situação. 

— Lisa, o que está acontecendo? 

— Não sou Lisa, meu nome é Meia-noite. Venho oferecer-lhe uma chance para recobrar fatos passados, os quais reprimiu para sua segurança. Permita-me conduzi-la para os braços de Uor, será fisicamente indolor, mas precisas confiar em meus métodos, só assim ficarás plenamente curada. 

— Isso só pode ser brincadeira, esse lugar é estranho, deve estar mexendo com os meus sentidos... Obrigada, mas não! 

E Meia-noite não proferiu mais nenhuma palavra. A intensidade com que as luzes-olhos brilharam foi o suficiente para hipnotizar-me. Calei. A comunicação entre nós, a partir daquele momento, tornou-se telepática. Recebi a sugestão para que eu adentrasse nas águas cor de lavanda da banheira. Ao mergulhar, pude recuperar as memórias perdidas nos recônditos do meu interior. Chorei. Recuperei memórias dos traumas, perdas e dores responsáveis pela dilaceração da minha alma, a sublimação estava em curso. Mesmo inconsciente, resistia, e Meia-noite fazia um esforço hercúleo para manter-me dentro da banheira. 

Da cura vem a cicatriz. Com tanta força envolvida, outra criatura surgiu, farejando o meu medo e a minha autodepreciação. Meia-noite não conseguiu impedi-lo de me sufocar, estava sendo pressionada para dentro das águas por uma entidade feroz, envolta em névoa negra e perturbadora. Sua mandíbula, constituída de dentes protuberantes e afiados, era assustadora. Suas garras apertavam meu pescoço e eu quase sucumbi. As águas ficaram cada vez mais escuras, o que era inicialmente cor de lavanda tornava-se púrpura. Gritar não era possível, visto que estava dentro daquelas águas, sufocando. Sentia-me perdendo as forças... Finalmente algo me puxou para fora. Pensei que fosse o Meia-noite. 

Quando recobrei a consciência, percebi que ele, Lisa e uma outra gata, estilo persa, com olhos e pelos lilases, olhavam-me assustados: 

— Bem-vinda de volta, Alana. Meu nome é Sinen. Trazes muita tristeza dentro de ti. Ainda há recordações que te ferem, mas seria perigoso continuar. — A gata lilás falou e sua voz parecia uma canção antiga, um alívio após o caos que acabara de experienciar. 

Meia-noite meneava a cabeça, em sinal de concordância. Com o corpo dolorido e a mente a mil, por algum motivo, estava feliz, mesmo após àquela experiência de quase morte. Lisa aproximou-se gentilmente e disse: 

— Acorda! 

Acordei com os miados urgentes de Lisa ecoando pelo quarto. Meu corpo doía e latejava, a mente confusa no limiar do sonho e da realidade. No entanto, ainda carrego as marcas no meu pescoço — vestígios daquele tratamento onírico —, e sempre me pergunto quando Meia-noite irá retornar... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 2: Do outro lado da tela

Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações. Talvez, esse seja um dos propósitos para escrever, obter alívio em meio a tanta pressão

Todavia, desde que cheguei ao Castelo Drácula sinto necessidade de escrever os pormenores dos acontecimentos ao meu redor; as pessoas e suas interações despertaram-me um interesse que outrora nunca conheci. Os acontecimentos cotidianos tornaram-se mais atrativos e minha curiosidade por entendimento, sobre o que seria esse lugar misterioso, aumentava ainda mais o hábito da escrita. 

Em meu último relato, contei como Espectumbral apresentou-se a mim e, provavelmente, estejam curiosos por saber o que aconteceu depois desse encontro pictórico e envolvente. Quais mistérios me aguardavam além-mundo? 

Do outro lado da tela não havia um caminho de ladrilhos dourados, nem fora culpa de um tornado eu estar ali. De certo modo, eu escolhi adentrar ao portal, e essa foi uma das melhores decisões da minha vida. Entretanto, naquele momento inicial, eu nada sabia e o medo do desconhecido sufocava-me. 

A confusão sinestésica, causada por odores e ruídos nunca experimentados (uma viagem tridimensional?), atrapalhava meus pensamentos. Em meus ouvidos zumbidos extrassensoriais incomodavam, parecia que milhares de abelhas faziam meu frágil corpo de morada. “Tais confusões seriam ainda os efeitos do líquido etílico que havia ingerido no pub?”. Por fim, afastei tais elucubrações e aos poucos fui conseguindo ver com mais clareza o local. 

Era uma floresta. A névoa bruxuleante transformava as árvores esguias em figuras espectrais, e as bétulas brancas pareciam dançar com movimento sutil, como se estivessem saudando a nova habitante. A atmosfera era densa, invadia os recônditos do meu ser, e eu, incauta, prosseguia a trilha adornada de pedras âmbar. Lisa, a minha gatinha preta, quase me derrubou novamente, abaixei-me e a peguei em meus braços, sua pelagem negra e macia reconfortava-me. 

Olhei para o alto e avistei o suntuoso Castelo Drácula, envolto em tão atraente magia. Os sussurros, que provinham das árvores, diziam-me que aquele era o meu lugar. Não mais hesitaria, continuaria a percorrer a trilha até me visse protegida pelos seus muros altos e fortificados. 

Caminhei até chegar ao portal imponente, o ferro envelhecido conferia-lhe um charme que somente artefatos históricos poderiam ter. Tentei empurrá-lo, mas a folha de metal pesada não se moveu nem um milímetro. “Como vou entrar?”. 

Procurei por algo que pudesse me ajudar. Notei que nos batentes tinham palavras insculpidas em letras cursivas, e enquanto as proferia, gradativamente, um ranger de dobradiças não lubrificadas foram surgindo. Os portais abriram-se totalmente quando terminei de ler a derradeira palavra. Meu mantra desde então: 

Chegastes aos portais selados,
Adentrai e deixai vosso júbilo luzir.
Há segredos aqui guardados,
E a cada passo irás descobrir
 

A atmosfera fez-se onírica, abraçava-me concedendo uma paz idílica. O ar não mais pesava sob meus ombros, e uma leve brisa parecia acariciar meu rosto. Percorri por uma trilha adornada de flores, das mais variadas espécies, as quais não ouso tentar mencionar os nomes, já que não era tão apegada às questões da natureza (certos hábitos precisam ser trabalhados e lapidados, apreciar as belezas requer tempo e disciplina)

Enquanto andava calma e silente, olhei para as portas principais do Castelo e avistei a criatura soturna, um feixe de luz iluminou a sua pele pálida e fria. 

O Conde Drácula é um homem de beleza singular e etérea, carregando um ar de melancolia que o torna ainda mais enigmático. Seus olhos, escuros e profundos, parecem revelar fragmentos de uma alma que já conheceu amor e alegria, mas que agora está perdida em uma eternidade solitária. A pele é quase translúcida, marcada pelo tempo e pela dor, como uma porcelana antiga, e ele se move com uma graça contida, como se o peso das eras tivesse suavizado sua força. 

Suas roupas são finas e elegantes, mas sutilmente gastas, como vestígios de uma grandeza passada. A voz é suave e baixa, carregada de um lamento sutil, e as palavras, embora persuasivas, revelam uma profunda saudade e uma dor antiga (será um amor platônico ou o peso da vida?). A presença de Drácula parece mais como uma sombra ou uma memória há tempos suprimida — uma figura que já foi poderosa e temida, mas que agora é, paradoxalmente, vulnerável e distante, como um eco de uma vida outrora intensa e cheia de luz. 

Ele não era nada do que eu imaginava. Quais mitos serão desfeitos a partir de então? Terás que ler os próximos relatos... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Hereditário - Parte III: Hereditariedade

Os outros dois companheiros que acompanhavam o cortejo logo apertaram o passo e deixaram os outros três para trás…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Os outros dois companheiros que acompanhavam o cortejo logo apertaram o passo e deixaram os outros três para trás. Seguiram juntos: o solícito Dominguin, a lamentosa Gardênia e seu exausto filho, que se arrastava pela estrada afora. O silêncio que se estabelecera entre eles por quase todo o caminho era bastante inquietante. Dominguin tentou por diversas vezes quebrá-lo, tentando oferecer-lhes algum conforto. De todas as formas possíveis, buscou puxar assunto com Gardênia. No entanto, entre profundos suspiros, vez por outra, ela apenas respondia-lhe monossilabicamente, para não lhe ser grosseira. Caminhando sempre cabisbaixa, Gardênia manteve-se envolta num silêncio reflexivo, absorta em sombrios e amargos pensamentos quanto ao seu destino e futuro ainda incerto. 

Qualquer um que a visse caminhando daquela forma talvez nem reconhecesse nela mesma a bela Gardênia de outrora. Andando com a fronte baixa e o olhar no vazio, ela era uma imagem triste de se ver. Sua maquiagem, normalmente perfeita, tinha se estragado ao longo das últimas doze horas, e seu cabelo de belos cachos, também sempre muito bem alinhados, estavam revoltos, uma bagunça completa, dando-lhe um aspecto bastante grotesco. Suas vestes – devido à longa caminhada sob uma chuva fina – não estavam nas melhores condições. Mesmo assim, ela continuou caminhando de forma decidida, a fim de dar a seu pai um último adeus de forma decente. 

Aproximava-se do meio-dia quando avistaram ao longe o campanário da igreja e, logo depois de mais alguns passos, os poucos telhados das casinhas do vilarejo. Ao passarem pelas primeiras casas, Gardênia recebia as respeitosas condolências de um e de outro, tanto daqueles que tinham muito a agradecer a seu pai quanto daqueles que o temiam. No entanto, assim que lhes prestavam seus sinceros sentimentos, algo os inquietava. Se Gardênia – a inseparável filha de Pai Thomás – estava ali, onde estaria o cortejo com o corpo do falecido? A igreja, para onde obviamente o corpo de seu pai deveria ter sido levado para receber as exéquias finais, ficava no centro do pequeno vilarejo. 

Padre João Paulo já os aguardava – pois estava de sobreaviso – mas, assim que os viu caminhando, rumo à igreja, de mãos vazias, teve um sobressalto, sabendo que algo não estava certo. Assim que Gardênia se aproximou dos umbrais da porta da igreja, foi logo recebida de braços abertos pelo senil reverendo, que a acolheu como um saudoso pai acolheria uma filha há tempos ausente. 

Com dolorosos suspiros e entre soluços, Gardênia, após pedir sua bênção, perguntou onde estava o corpo de seu pai. 

– Como assim? Não eram justamente vocês que o estavam trazendo? – questionou o padre. 

– Sim. Mas, pelo caminho, fomos abordados por quatro distintos cavaleiros que nos ofereceram ajuda para transportá-lo. Como estávamos todos nós já bastante exaustos pela caminhada desde as primeiras horas da manhã, recebemos de muito bom grado o auxílio que nos foi oferecido. Estando eles sobre velozes cavalos, certamente deveriam ter chegado bem antes de nós – disse ela, com certa dúvida na voz. 

– Você conhecia os cavaleiros que lhes ofereceram ajuda, minha filha? Ou pelo menos já os tinha visto alguma outra vez? – questionou o padre, já em tom de alerta. 

– Na verdade, não! Mas parece que eles conheciam meu pai muito bem, e Seu Jura, que esteve conosco até bem pouco tempo atrás, também sabia de quem se tratavam. Pois, quando os cavaleiros se ofereceram para levar o corpo, ele não se opôs. Na verdade, não disse uma única palavra em contrário. Só achei estranho o fato de ele, que sempre acompanhava todo e qualquer velório do início ao fim, não ter vindo conosco dar o último adeus ao meu pai, que sempre o tivera em grande préstimo... 

Padre João, um homem já próximo ao horizonte de sua vida, pois já era quase octogenário, logo soube que havia algo de bastante obscuro naquilo tudo. Ao ouvir de Dominguin a descrição dos tais cavaleiros, um estranho arrepio lhe correu por todo o corpo e, de forma involuntária, se benzeu, beijando a cruz de seu rosário em seguida. Percebendo que aquele gesto causara certa estranheza à Gardênia, disse que certamente haveria uma plausível explicação para aquilo tudo. 

E, para tentar tranquilizar a soturna e assustada Gardênia, que já dava mostras de plena inquietude, disse-lhe que talvez fossem viajantes apressados e tivessem decidido levar o corpo direto para a capelinha do cemitério. 

– Sigamos também para lá, onde poderemos prosseguir com as exéquias necessárias para o sepultamento de seu querido pai e conceder-lhe o respeito merecido – completou o padre. 

Se a cidade era bem pequena – um aglomerado de uma dúzia de casas talvez, uma venda quase completa, com toda sorte de quinquilharias, onde poderia se encontrar quase de tudo um pouco e a própria igreja – o cemitério nem tanto, afinal todos aqueles que morriam num raio de quase cem quilômetros, para ali eram levados para seu descanso eterno. Não era um lugar luxuoso como a cidade dos mortos das grandes cidades – como rapidamente Dominguin o notara. No entanto, havia inúmeras sepulturas algumas recentes e outras com datas de sepultamento de quase um século. A maioria delas era simples e humilde tão como o próprio lugar o representa – local onde a luxuria, a arrogância e o orgulho cedem lugar à humildade. A calma, o isolamento e a paz daquele lugar pareciam profundos e íntimos em muitos sentidos, pois era ali naquele campo santo, que o ser se deparava com todas as verdades do Universo. No entanto, ao passarem pelo portão, logo perceberam que uma sombra terrível tinha pairado sobre eles. O cemitério estava completamente vazio. Nem mesmo o coveiro – Seu Zuza, que já havia deixado a cova aberta – estava presente. Assim que terminou de cavar a sepultura logo bem cedo, como a chuva apertara bastante, decidira voltar para casa, só retornando assim que o corpo chegasse, e mais uma vez seus serviços se fizessem necessários. Aproximaram-se da cova recém-aberta e a surpresa foi geral. A sepultura estava aberta, mas dentro não havia nada. Absolutamente nada... 

Ali e outrora tinham-se transformado num aqui e agora. O céu que esteve cinzento durante toda a manhã, mas naquele momento se escurecera ainda um pouco mais. Num átimo de desespero, Gardênia com as mãos cobrindo a face num abscesso de loucura, demonstrando o mais completo desespero abjeto, em soluços gritara aos céus: 

– Onde está meu pai? O que fizeram com seu corpo? Quem eram aqueles que o traziam? 

Em sua voz havia tanta dor e desespero, que toda a natureza ao redor se silenciara por completo em respeito ao seu sofrimento. Padre João a amparava em seus braços dizendo-lhe que haveria uma explicação lógica para aquilo tudo. A dor que ela estava sentindo naquele momento era algo inominável e tendia a ficar ainda pior, quando seu filho o exausto Júlio César andando pelas cercanias do cemitério se deparara com o banguê que trazia seu avô e a mortalha que envolvia seu corpo. Curioso como toda e qualquer criança, ao decidir tocar naqueles fúnebres tecidos fora atacado por uma cobra que jazia sob aquelas lúgubres vestes. A serpente – uma agressiva cascavel – conseguira fugir se escondendo numa toca entre as sepulturas. Gardênia entrou em pânico ao ver o estrago no braço do filho, causado pelo ataque da serpente. Por ser uma áspide de terrível veneno, em poucos minutos a ferida se tornara arroxeada e a pele ao redor adquiriu um enorme inchaço. Júlio sentiu o efeito do veneno quase de imediato desfalecendo nos braços da mãe pedindo-lhe água, pois se dizia bastante sedento. Sabendo o quanto o veneno de uma cascavel poderia ser danoso a quem quer que fosse, e em se tratando de uma criança pior ainda, talvez pudesse vir a ser, até mesmo letal, Padre João ordenou que a criança fosse imediatamente levada a casa paroquial, para receber o tratamento adequado. Assim que a criança fosse tratada e tivesse fora de perigo, tentariam também buscar uma possível solução para o mistério do desaparecimento do corpo de Pai Thomás.  

Devido à sua posição de respeito, ainda no caminho entre o cemitério e a casa paroquial, Padre João logo convocou quase toda a cidade a fazer uma varredura completa ao redor do vilarejo, em busca de algum vestígio que indicasse o paradeiro do corpo de Pai Thomás. Muitos foram questionados se haviam visto os cavaleiros mencionados por Gardênia na estrada, quem sabe passando pela cidade ou mesmo ao redor do cemitério. De forma unânime, a negativa foi geral. Ninguém vira sequer um cavaleiro, muito menos quatro, carregando um banguê com um falecido em cima. Tudo aquilo era um grande mistério; o único consenso era que o corpo de Pai Thomás havia desaparecido. 

Enquanto as buscas e possíveis explicações aconteciam de um lado, no interior da casa paroquial havia grande preocupação com o estado do filho de Gardênia, que demonstrava claramente os efeitos do veneno em seu corpo. Seus lábios – outrora viçosos e vermelhos – estavam brancos e sem vida. Todo o seu corpo, que suava intensamente, adquirira um estranho inchaço, e ao redor da ferida iniciara-se um processo de necrose. Prostrado sobre um pequeno catre, Júlio César gemia quase todo o tempo, delirando e falando coisas sem sentido. Tais sintomas indicavam que sua situação era bastante delicada, e Gardênia sabia disso muito bem. 

A própria Gardênia, com os conhecimentos de cura que aprendera com seu falecido pai, preparara uma determinada beberagem e um unguento de aspecto pastoso e cheiro peculiar, que era aplicado sobre a ferida de tempos em tempos. 

Dona Diolinda – uma das beatas que cuidavam da casa paroquial e que também fazia as vezes de benzedeira local – auxiliava no tratamento do menino. Em voz baixa, sussurrou ao padre que, em seus quase setenta anos, jamais tinha visto um veneno tão agressivo quanto aquele e que o estado do menino era gravíssimo. Se viesse a escapar, certamente seria por milagre. Padre João, no entanto, não ousou comunicar essa peculiaridade à Gardênia. Ela, por sua vez, parecia saber disso, mas confiava em seus conhecimentos de cura. 

A tarde, assim como a manhã, fora de um frio intenso devido à chuva fina que caía sem cessar. Contudo, ao cair da tarde, a natureza parecia transtornada, e a ordem das coisas, ainda mais posta às avessas. O frio, trazido por um vento constante, tornara-se quase insuportável, enregelando até os ossos de quem ousasse enfrentá-lo. 

Já no final de uma tarde de buscas infrutíferas e explicações adversas, Gardênia decidiu que, assim que seu filho se restabelecesse, deveria retornar para casa. Após o imbróglio do sumiço do corpo de seu pai e o incidente com Júlio César, sentia-se bastante frustrada e com a cabeça zonza diante de toda aquela sinistra e inexplicável situação. Sabia que, nessas circunstâncias, apenas o aconchego do lar poderia lhe proporcionar o conforto necessário. 

As buscas pelo corpo de Pai Thomás demonstraram-se infrutíferas devido a três principais motivos: o primeiro deles, pela negligência de quem o estava procurando, pois ninguém na cidade – um lugar minúsculo onde todos sabiam de tudo, e nada acontecia em segredo – havia visto nada, nem mesmo ninguém, transportando um cadáver. O segundo motivo foi o frio, que aumentara bastante com o findar da tarde, e a chuva, que voltara a cair de forma incessante com a chegada da noite. Por último, a história que envolvia os tais misteriosos cavaleiros: quem os procurava talvez não tivesse, no fundo, a verdadeira intenção de encontrá-los. 

Assim que as buscas ao redor da cidade foram dadas por encerradas, Padre João aproximou-se de Gardênia e, em surdina, disse-lhe: 

– Apesar de meus anos vividos e de minha longa experiência como clérigo, sempre tive uma tendência ao racional, ao conhecido e ao empírico, considerando que nunca presenciei nada de paranormal; nem milagres, nem assombrações, nem anjos ou demônios, tampouco um simples caso de possessão. Em toda a minha vida, nunca presenciei algo que a ciência não pudesse explicar. No entanto, devo admitir que há fatores bastante sinistros e ainda inexplicáveis no desaparecimento do corpo de seu pai, considerando como se deu o fato. Qualquer pessoa sã, ao ouvir essa história – quatro cavaleiros negros que surgem do nada, à luz do dia, recolhem um corpo de um cortejo fúnebre e, da mesma forma que surgiram, desaparecem, levando consigo o corpo e tudo mais – teria dúvidas concretas sobre a veracidade dos acontecimentos. 

– No entanto, jamais devemos duvidar de algo pelo simples fato de não termos visto ou ouvido. Os sonhos, a dor ou mesmo os sentimentos não podem ser vistos, ouvidos ou sentidos pelo tato, mas, mesmo assim, sabemos que eles existem. Eu mesmo já não duvido de mais nada; apenas aguardo, com paciência, que tudo se esclareça. Creiamos, contudo, que haja uma explicação lógica para tudo isso, e logo o tempo nos trará as devidas respostas. 

– A vida de seu pai foi bastante longeva e cheia de provações, o que, em seus últimos anos, o tornou um homem de comportamento um tanto peculiar. Sem dúvida alguma, mesmo sendo ele um ser extraordinário, ainda assim era um ser humano comum, como todos nós. Mais dia, menos dia, também teria que se deparar com o único mal irremediável. Independente do que se faça ou se deixe de fazer, mais cedo ou mais tarde, a mão de Deus alcança a todos nós. 

Gardênia, que ouvira tudo aquilo em absoluto silêncio, de alguma forma imaginava que as palavras do padre faziam sentido. Contudo, em seu íntimo, tinha quase a certeza de que talvez não tivesse sido a mão de Deus que tolhera a vida de seu pai. Com um profundo suspiro, ela, que estava de cabeça baixa, sentada junto à cabeceira da cama, velando pelo filho, que repousava entre gemidos e um inquieto sono, sem demonstrar nenhum indício de restabelecimento, perguntou ao padre, levantando os olhos por um breve momento: 

– Padre João! Quero que me responda com toda a sinceridade que sua posição exige. O senhor acredita em demônios? E, se acredita, acha que talvez os tais cavaleiros na estrada... 

O senil reverendo percebeu que deveria ter certo cuidado ao responder àquela infeliz criatura que estava diante dele. Ao fitá-la nos olhos, viu dor, descrença e ódio. Por sua vasta experiência de vida e sabedoria adquirida, já não tinha tanta certeza de qual desses sentimentos predominava, mas, se fosse obrigado a dar um palpite, certamente escolheria o ódio. O brilho que emanava dos olhos daquela mãe era tão letal quanto o veneno da mais terrível entre todas as áspides que rastejam pelo mundo. Então ele respondeu: 

– Se acredito na luz, obviamente devo acreditar nas trevas. Tenho uma inabalável fé em nosso Criador e, certamente, também creio em suas criações. Demônios fazem parte das primeiras criaturas de Deus, entidades inumanas provenientes dos primeiros anjos – aqueles que caíram em desgraça perante seu Criador. São terríveis criaturas, desprovidas da Graça divina, que nada têm além do tempo para arquitetar maldades e vingança contra as demais criaturas de Deus, alimentando-se da dor e do sofrimento alheio. Por serem tão antigas quanto a própria existência, são sábias e ardilosas, tentando o tempo todo seduzir aqueles que padecem de provações e, por isso, estão fracos em sua fé... Conhecendo nossas fraquezas, nosso Salvador nos aconselhou a orar e vigiar sempre. 

Vendo que a criança ainda vivia e sem querer responder à última pergunta dela, Padre João pediu licença e dirigiu-se até a igreja para as orações do Ângelus. 

Como o tempo estava fechado e a chuva não dava trégua, Dominguin, que estivera ao lado de Gardênia quase todo o tempo, conseguiu convencê-la a passar a noite na humilde casa paroquial. Ele prometeu que, na manhã seguinte, a acompanharia no trajeto de volta até sua casa. Com certa relutância – mas, principalmente, pensando na languidez do filho e na esperança de seu restabelecimento, que, mesmo com todos os seus esforços, demonstrava não apresentar nenhuma melhora – Gardênia decidiu pernoitar, resolvendo iniciar o retorno ao lar nas primeiras horas da manhã seguinte. Ela sabia que, certamente, entre as diversas beberagens de seu pai, haveria alguma que pudesse restituir a saúde do filho. 

Foi uma noite longa e cheia de pensamentos inquietos. Seu filho tivera uma noite bastante atribulada, gemendo e se mexendo o tempo todo, enquanto dormia um sono pesado e repleto de delírios. Já na alta madrugada, mesmo se sentindo exausta pela vigília ao lado do filho, ao perceber que ele dormia profundamente e que Dona Diolinda zelaria por ele em sua breve ausência, Gardênia decidiu ir até a igreja para um momento de reflexão solitária. 

Essa bondosa e sábia senhora, que se mostrou prestativa desde que eles chegaram, esteve sentada em uma cadeira, num canto distante, com o terço nas mãos, rezando o tempo todo. Contudo, as intenções de Gardênia foram frustradas ao se deparar com Padre João, que estava em vigília no genuflexório, em profunda oração. 

Após um longo período sentada no fundo, bem distante do altar, na silenciosa penumbra da igreja – que, naquele momento, estava iluminada apenas por uma única vela bruxuleante –, Gardênia decidiu se aproximar, a fim de usufruir da confortável companhia do reverendo. O sábio padre, percebendo sua presença, virou-se em sua direção e disse: 

– Seja sempre bem-vinda à casa do Senhor. Que a paz de Cristo possa reinar em seu coração.  

– Sei que você parece bastante confusa com tudo o que aconteceu a seu pai, mas preciso lhe contar algumas coisas que talvez possam ser úteis no esclarecimento deste mistério. Talvez o que eu vá relatar sirva como resposta à pergunta que me fizeste anteriormente. Depois de muita reflexão e de uma profunda conversa com Deus, sinto-me em paz e confiante no que vou lhe dizer sobre seu pai. Independentemente do que vou relatar, quero que ouça em silêncio e tente abrir seu coração para o que vou contar. E prometa-me que jamais ouse compartilhar isso com quem quer que seja, pois o que estou prestes a dizer foi-me confiado em segredo de confissão. No entanto, a situação me obriga a colocá-la a par de tudo que aconteceu desde o início. Em respeito à memória de seu pai, apenas ouça. 

– Quando conheci seu pai, há muitos anos, bem antes de você nascer, ele era um homem alegre e cheio de sonhos. Onde quer que estivesse, sua presença era sempre acompanhada de alegria e muito entusiasmo, e era adorado por todos. Sua mãe era uma mulher belíssima, na flor da idade, apaixonada tanto por seu pai quanto pela vida que ele proporcionava a ela. Quando chegaram a esta terra, vindos de longe, trouxeram consigo uma distinta senhora, que tinha a ambos como filhos. Sua família parecia ser a mais abençoada de todas, e essa bênção tornou-se ainda maior com a sua chegada. 

– Eu mesmo – a pedido de sua mãe – tive o prazer de batizá-la com o nome que seu pai escolhera em homenagem à flor que sua mãe mais amava. 

– Por um bom tempo, a paz e a bonança fizeram morada em seu lar. A felicidade de sua família parecia completa e inabalável. Mas logo uma sombra se abateu sobre sua casa. Primeiro, a gentil senhora, que em pouco tempo conquistou o respeito e a simpatia de todos na região, se foi, deixando sua mãe completamente arrasada, pois a tinha como uma mãe. Depois veio a terrível moléstia que acometeu sua mãe, tolhendo não apenas sua vitalidade, mas também sua juventude e beleza. E, por fim, com a morte de sua mãe – para ela, um merecido descanso, depois de tanta dor e sofrimento – veio a momentânea loucura de seu pai. 

– Essa loucura foi vista por muitos como uma simples fuga da realidade; um mecanismo de defesa contra os golpes excessivamente graves que o destino lhe infligira e que ele, por um breve momento, não teve forças para enfrentar com lucidez... 

– Por várias vezes fui até seu pai, tentar levar algum conforto a ele. Mesmo com a enorme distância entre sua casa e aqui, eu era jovem na época e ainda contava com força e disposição. Todavia, minhas visitas mostraram-se em vão. Quando eu já estava me dando por vencido, recebi a visita de seu pai nesta mesma igreja. Antes de entrar, ele permaneceu um longo tempo à porta, relutante em pisar neste solo sagrado, embora já o tivesse feito muitas vezes antes. 

– Quando o questionei sobre o motivo de tanta relutância, ele me respondeu que talvez não fosse mais digno de adentrar à casa de Deus na situação em que se encontrava. Só entrou quando eu lhe disse que nossa verdadeira dignidade está no espírito e nas intenções de nossas ações, e não em nossa aparência ou condição momentânea. Disse ainda que cada ação humana é movida por motivo e oportunidade, e que nada é por acaso. A casa de Deus é um refúgio para pecadores em busca de redenção. Todo aquele que se sente cansado e oprimido encontrará alívio ali, e todo aquele que estiver em profundo arrependimento encontrará o perdão para os seus pecados. 

– Seu pai, parado defronte ao altar, com o olhar perdido no vazio, me disse que, para certos pecados, mesmo o mais profundo e sincero arrependimento não traria perdão. Quando tentei dissuadi-lo de sua convicção, ele pediu que ouvisse sua confissão antes de dizer qualquer outra coisa. Em qualquer diálogo, é sensato falar e ouvir, mas é mais sábio aquele que sabe ouvir mais e falar no momento certo. Então, assim o fiz: ouvi toda a sua confissão no mais absoluto silêncio. 

Padre João ficou em silêncio por um longo tempo. Seu mutismo foi tão extenso que Gardênia imaginou que ele talvez tivesse adormecido ao som de suas próprias palavras. Mas, antes que ela dissesse qualquer coisa, ele continuou: 

– Seu pai, vendo o sofrimento infligido a sua mãe, não teve a fé necessária para enfrentar aqueles momentos de tribulação e fez uma escolha... O passado permanece no passado. Podemos aprender com ele, mas não podemos mudá-lo. Filha, tudo o que acontece em nossas vidas é regido pelo nosso sagrado livre-arbítrio. Um grande contexto de causas, escolhas e consequências. Jamais se deixe levar pelo desespero; Deus estará sempre contigo. Assim que seu filho se restabeleça por completo, volte para sua casa e siga sua vida em paz. 

Depois de mais um momento de silêncio, ele prosseguiu: 

– Percebi que o jovem Daniel, recém-chegado da capital, tem grande apreço por você. Pelo que vi, está disposto a acompanhá-la de volta e a tentar lhe dar algum conforto. Pelo que sei sobre ele, é um bom rapaz. Abra seu coração, aceite sua amizade e suas boas intenções. 

– O conheci ontem mesmo e vi bondade e boas intenções em seu coração. É realmente um rapaz adorável. No entanto, todos os homens são assim no início, até conseguirem o que realmente desejam – disse Gardênia, de forma decidida, saindo da igreja ainda sem as respostas que tanto ansiava. O sábio reverendo havia falado muito, mas, no final, parecia não ter dito nada. 

Sabendo que, em determinadas situações, o silêncio e a solidão eram as melhores companhias, decidiu caminhar um pouco para espairecer suas ideias e refletir sobre como sua vida seria dali em diante. A chuva dera tréguas naquela madrugada, e o céu, limpo por quase completo, deixava uma lua em quarto crescente brilhar soberana sobre ela. Perdida em seus pensamentos, caminhando sozinha a esmo, deu por si defronte ao pequeno portão do cemitério, onde o corpo de seu pai deveria ter sido enterrado naquela tarde. 

Mesmo ali, sozinha, em plena madrugada, nada temia. No fundo de sua alma, sabia que nenhum mal lhe poderia ser maior do que o que já enfrentava e que, talvez, restassem-lhe poucas razões para viver. Perdera a mãe antes mesmo de poder conhecê-la direito; sua vida amorosa fora um completo fracasso; seu pai, que sempre fora seu esteio, já não estava mais entre os vivos – talvez nem mesmo entre os mortos. E seu filho amado, o único parente que ainda lhe restava, caminhava cambaleante pelo vale da sombra da morte. Naquele instante, tudo o que via em seu futuro era escuridão e sofrimento. 

Fechou os olhos, perdida em seus pensamentos, e deixou-se levar pelo frescor de uma leve brisa que soprava em sua face, enquanto ouvia o intenso barulho das diversas criaturas da noite em sua constante serenata ao luar. Ainda de olhos fechados, parada diante da entrada daquele sagrado lugar de descanso, murmurou para si mesma: 

– Eu daria qualquer coisa para que todo esse sofrimento acabasse. 

Por um breve momento, sentiu que a paz tomava conta de todo o seu ser. No entanto, essa paz foi interrompida por um silêncio estranho que se fez ao seu redor. Todas as criaturas se calaram, e ela pôde ouvir passos em sua direção. 

Ao abrir os olhos, deparou-se com um ser de beleza inigualável. Era um homem de presença marcante, alto e forte, com belos cabelos cacheados na cor do mais puro ouro. Sua face lisa tinha traços delicados, e seus olhos tinham o tom do céu em uma primavera ensolarada. Quando gentilmente a cumprimentou com um sorriso indulgente, deixou à mostra dentes alvos e perfeitamente alinhados, delineados por sedutores lábios na cor de carmim. 

Sua voz era doce como o entoar de um pássaro ao amanhecer. 

– Boa noite, bela dama. O que fazes, sozinha, caminhando a esmo em horas tão tardias? 

– Boa noite. Precisava de um pouco de ar fresco para espairecer minhas ideias. Tenho enfrentado penosas atribulações. Sinto-me cansada e oprimida, buscando paz na silenciosa solidão da noite – respondeu ela, sem sequer questionar quem ele era ou por que também estaria ali. 

– Salvo engano, tenho a impressão de tê-la visto saindo da igreja há pouco. Não é justamente lá onde se encontra a paz e o conforto? – questionou ele, com um sorriso malicioso. 

– Certamente que sim, principalmente para aqueles que acreditam... Perdi minha mãe, quando ainda era uma criança. Tive minha inocência vilmente violentada. Perdi meu amado pai há dois dias. Até mesmo seu próprio corpo foi levado, sem receber os devidos respeitos de um enterro digno. Meu filho jaz à beira da morte, padecendo os efeitos do veneno de uma víbora. Neste momento, sinto, no mais profundo do meu ser, uma indescritível descrença em toda e qualquer promessa vazia que tange ao abstrato. Vi, com meus próprios olhos, aqueles que levaram meu pai. Contemplei também a serpente que atacou meu filho. Não há lugar em meu coração para promessas vazias. Aos poucos, meu mundo tem sido tirado de mim... – Suas palavras foram interrompidas pela força da emoção, enquanto as lágrimas banhavam seu rosto. 

– Dar-te-ei o alívio que procuras, se assim o desejares! – disse ele, fitando-a nos olhos. 

– Não peço nada por mim. Não há nada que poderíeis oferecer a mim mesma. Desde sempre, a dor e o sofrimento me fazem companhia. Se há algo que possa me oferecer, peço pelo meu filho. Seu sofrimento traz-me uma dor que nada neste mundo poderia ser pior. Mas, afinal, quem sois? Por que me atormentais desta forma, oferecendo aquilo que não podeis conceber? – disse ela, irritada por se deixar levar pela conversa de um estranho. 

– Quem sou, não importa. O que posso oferecer, sim. Apenas peça aquilo que vosso coração deseja, e contemplai com vossos próprios olhos o que meras palavras não podem mostrar – disse ele. 

Por um breve momento, ela lhe deu as costas e começou a se afastar. No entanto, o instinto de mãe falou mais alto, e ela voltou-se novamente para aquele belo ser: 

– O que quereis de mim? De que forma achais que poderíeis me ajudar? Parece que não ouvistes uma palavra sequer do que eu disse. Não vedes que nada, nem ninguém neste mundo, poderia me ajudar? Deixai-me em paz e apenas segui vosso caminho. 

– Sabemos tudo sobre vosso pai e o que aconteceu com ele. Seu corpo foi tomado como recebimento de uma dívida antiga. Saiba que ele foi um homem honrado e cumpriu, durante sua vida, todas as suas obrigações. No entanto, para vós, o fim é iminente. Mas o trabalho dele deve continuar. O que queremos é que sigais o mesmo caminho trilhado por ele. Nada mais desejamos. Em troca, poderemos vos dar tudo aquilo que desejardes! Desejai, e vereis – disse ele, num tom imperativo. 

– Como assim? Que história é essa sobre meu pai? Que tipo de trabalho é esse? Que dívida é essa? E por que falais no plural, se apenas vos vejo diante de mim? Quem sois? – questionou ela, já bastante irritada. 

– O Senhor é Deus. Eu não sou ninguém, mas nós somos muitos... Apenas desejai! – disse ele. 

Gardênia, bastante irritada e já sem paciência, decidiu pôr fim àquilo. Fitando os olhos do estranho, sem demonstrar qualquer traço de medo, disse, por fim, num tom de desafio: 

– Então, vamos lá. Sendo assim, eis-me aqui. Sim, eu quero! Acabai com todo o sofrimento de meu filho, e farei tudo o que me pedirdes! 

Sua voz era doce como o entoar de um pássaro ao amanhecer. 

– Boa noite, bela dama. O que fazes, sozinha, caminhando a esmo em horas tão tardias? 

– Boa noite. Precisava de um pouco de ar fresco para espairecer minhas ideias. Tenho enfrentado penosas atribulações. Sinto-me cansada e oprimida, buscando paz na silenciosa solidão da noite – respondeu ela, sem sequer questionar quem ele era ou por que também estaria ali. 

– Salvo engano, tenho a impressão de tê-la visto saindo da igreja há pouco. Não é justamente lá onde se encontra a paz e o conforto? – questionou ele, com um sorriso malicioso. 

– Certamente que sim, principalmente para aqueles que acreditam... Perdi minha mãe, quando ainda era uma criança. Tive minha inocência vilmente violentada. Perdi meu amado pai há dois dias. Até mesmo seu próprio corpo foi levado, sem receber os devidos respeitos de um enterro digno. Meu filho jaz à beira da morte, padecendo os efeitos do veneno de uma víbora. Neste momento, sinto, no mais profundo do meu ser, uma indescritível descrença em toda e qualquer promessa vazia que tange ao abstrato. Vi, com meus próprios olhos, aqueles que levaram meu pai. Contemplei também a serpente que atacou meu filho. Não há lugar em meu coração para promessas vazias. Aos poucos, meu mundo tem sido tirado de mim... – Suas palavras foram interrompidas pela força da emoção, enquanto as lágrimas banhavam seu rosto. 

– Dar-te-ei o alívio que procuras, se assim o desejares! – disse ele, fitando-a nos olhos. 

– Não peço nada por mim. Não há nada que poderíeis oferecer a mim mesma. Desde sempre, a dor e o sofrimento me fazem companhia. Se há algo que possa me oferecer, peço pelo meu filho. Seu sofrimento traz-me uma dor que nada neste mundo poderia ser pior. Mas, afinal, quem sois? Por que me atormentais desta forma, oferecendo aquilo que não podeis conceber? – disse ela, irritada por se deixar levar pela conversa de um estranho. 

– Quem sou, não importa. O que posso oferecer, sim. Apenas peça aquilo que vosso coração deseja, e contemplai com vossos próprios olhos o que meras palavras não podem mostrar – disse ele. 

Por um breve momento, ela lhe deu as costas e começou a se afastar. No entanto, o instinto de mãe falou mais alto, e ela voltou-se novamente para aquele belo ser: 

– O que quereis de mim? De que forma achais que poderíeis me ajudar? Parece que não ouvistes uma palavra sequer do que eu disse. Não vedes que nada, nem ninguém neste mundo, poderia me ajudar? Deixai-me em paz e apenas segui vosso caminho. 

– Sabemos tudo sobre vosso pai e o que aconteceu com ele. Seu corpo foi tomado como recebimento de uma dívida antiga. Saiba que ele foi um homem honrado e cumpriu, durante sua vida, todas as suas obrigações. No entanto, para vós, o fim é iminente. Mas o trabalho dele deve continuar. O que queremos é que sigais o mesmo caminho trilhado por ele. Nada mais desejamos. Em troca, poderemos vos dar tudo aquilo que desejardes! Desejai, e vereis – disse ele, num tom imperativo. 

– Como assim? Que história é essa sobre meu pai? Que tipo de trabalho é esse? Que dívida é essa? E por que falais no plural, se apenas vos vejo diante de mim? Quem sois? – questionou ela, já bastante irritada. 

– O Senhor é Deus. Eu não sou ninguém, mas nós somos muitos... Apenas desejai! – disse ele. 

Gardênia, bastante irritada e já sem paciência, decidiu pôr fim àquilo. Fitando os olhos do estranho, sem demonstrar qualquer traço de medo, disse, por fim, num tom de desafio: 

– Então, vamos lá. Sendo assim, eis-me aqui. Sim, eu quero! Acabai com todo o sofrimento de meu filho, e farei tudo o que me pedirdes! 

Antes mesmo de terminar de proferir essas palavras, uma coruja, que assistia a tudo em absoluto silêncio, arrulhou em agouro, levantando voo de onde estava assentada. Sobrevoou sobre sua cabeça e pousou no galho de uma velha paineira que se erguia dentro do cemitério. O feito daquele misterioso pássaro desviou momentaneamente sua atenção e, ao olhar novamente ao redor, viu-se mais uma vez sozinha perante a porta do reino dos mortos. 

Temendo ter sido acometida por algum tipo de alucinação, visão ou algo que o valha, e acreditando que talvez já não fosse senhora de suas faculdades mentais, sentiu-se tomada por um surto de loucura – tal qual seu próprio pai, certa vez acometido. Decidiu, então, retornar imediatamente para perto do filho, na esperança de ajudá-lo de alguma forma. 

Antes mesmo de chegar à igreja, avistou, ainda ao longe, Padre João na porta de entrada, vindo em sua direção com a cabeça baixa. Naquele instante, seu coração quase parou, o ar lhe faltou, e suas pernas fraquejaram. Quando o padre enfim falou, ela estava de joelhos diante da porta da igreja. 

– Minha filha, sinto muito em dizer-lhe... seu filho já não sofre mais... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi VI

Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

De Narcís Nestor
(Telegrama para “O Caçador”)
Atenção: Ivan Molchanov
Castelo de Lúgubre, Data: 11, de julho de 1871
 

Prezado Ivan, 

Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo. É vital estar aqui para discutirmos assuntos de extrema urgência. 

Aguardo sua confirmação imediata. 
Atenciosamente, 
Narcís Nestor 

~

De Ivan Molchanov
(Telegrama para Narscis Nestor)
Oldemburgo, 03 de agosto de 1871
Atenção: Narcís Nestor 

Recebi seu telegrama.  
Comparecerei ao castelo, não se preocupe. Estou no meio de uma caçada no norte da Alemanha em nome dos Romanov, mas assim que acabar, partirei direto para aí. 
Prepare-se. Estou chegando o mais breve que puder. 

 ~

Ivan Molchanov
De Dr. Christopher V. Walker II
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871

Meu querido e estimado amigo, 

Ao receber a convocatória da polícia parisiense, um calafrio percorreu minha espinha, não era nada comum convocarem um psiquiatra. Meu retorno da Inglaterra havia sido marcado por uma aura de mistério e inquietação, mas nada poderia me preparar para o que encontraria no salão onde aconteciam a aula magna de medicina da Universidade de Paris. Ao cruzar a porta, uma sensação pesada se abateu sobre mim, como se o próprio ar estivesse saturado de desespero, em minha mente pairava apenas a dúvida quanto a toda aquela celeuma. 

A atmosfera tornou-se ainda mais densa quando me deparei com o investigador Jules Moreau, que estava examinado o local com seu olhar curioso. Moreau era um homem, na casa dos 30 anos, de cabelos castanhos curtos repartidos no lado direito, um bigode farto que balançava com cada palavra, e um nariz redondo que parecia sempre à procura de algo. Ele era um pouco acima do peso, e suas vestes estavam desalinhadas, como se ele tivesse se apressado ao sair de casa. Sua voz de barítono, embora imponente, era interrompida por um leve tom fanho que tornava suas declarações quase cômicas, se não fossem tão graves. O investigador aparentava uma jovialidade fora do normal em sua expressão, esboçando um sorriso cordial baixo aquele bigode. 

— Dr. Walker! — exclamou, gesticulando descontroladamente e quase derrubando um caderno que segurava sob o braço. — Precisamos discutir as condições em que encontramos os corpos. Eles foram… bem, transladados pelos carros da polícia, você sabe, direto para cá. 

Enquanto ele falava, eu tentava focar na gravidade do momento, mas o jeito desajeitado de Moreau dificultava manter a compostura. Ele se ajeitou as roupas, como se tentasse, sem sucesso, desamassar as dobras que pareciam se reproduzir a cada movimento. 

— A situação em La Cité… — ele continuou, limpando a garganta de maneira atrapalhada. — Está gerando incômodos. Os moradores estão em alvoroço! Mencionam coisas como vampiros e… bem, até fantasmas! — Ele fez uma pausa, olhando ao redor com um ar conspiratório, como se esperasse que algo sobrenatural aparecesse entre nós. 

— O que importa — prosseguiu, tentando recuperar o foco — é que precisamos resolver isso com o máximo de sigilo possível. Ninguém pode saber que os corpos foram trazidos aqui. A reputação da universidade, você entende? — Ele gesticulou com a mão, quase acertando o próprio rosto. 

A tensão do ambiente se misturava ao seu jeito desengonçado, e não pude evitar um sorriso diante da cena. Moreau parecia genuinamente preocupado, mas sua atrapalhada sinceridade trazia uma leveza inesperada ao momento sombrio. 

— Precisamos evitar que o pânico se espalhe. Se a notícia vazar… bem, você sabe como Paris é — disse, abrindo os braços em um gesto exagerado que quase o fez perder o equilíbrio. 

Os corpos jazeram ali, dispostos de maneira que sugeria uma cena de pesadelo. As luzes tremeluzentes das lamparinas projetavam sombras dançantes, criando uma atmosfera que tornava cada canto do salão um esconderijo de segredos. Eu sabia que precisava realizar uma análise cuidadosa, documentar as feridas nas jugulares, mas a realidade do momento era opressiva, como se uma força invisível me impedisse de pensar com clareza. 

Enquanto observava os rostos das vítimas, uma análise superficial começou a tomar forma em minha mente. A expressão de terror estampada em suas faces era inegável, um reflexo de um horror tão profundo que poderia ser palpável. As marcas no pulso direito, evidentes sinais de resistência, contavam a história de um desespero que ecoava nas paredes do salão. Embora já tivesse participado de análises em outros casos e aprendido a entender a mente criminal, essa cena me deixou inquieto. Era uma brutalidade que transcendia o mero ato de assassinar; era uma tentativa de controlar, de dominar, uma pulsão obscura que instigava minha curiosidade e aversão. 

Essas feridas tão estranhas que foram provocadas por Deus sabem o quê, ou quem, não eram apenas marcas físicas; eram indicadores de uma luta desesperada contra um predador invisível. A resistência manifesta nos pulsos poderia sugerir que as vítimas lutaram contra o que não podiam entender, e isso, por sua vez, reflete o que muitos temem: a incapacidade de escapar do destino. Minha reflexão aponta para uma inquietante verdade: a mente humana consegue tolerar horrores inimagináveis, mas essa resistência pode ser quebrada, transformando-se em um grito mudo que ecoa em nossos subconscientes. 

Enquanto escrevia, a caneta tremia em minha mão, refletindo a agitação que sentia no fundo, de minha alma. Sabia que precisava alertá-lo sobre a escuridão que se aproximava, uma sombra que ameaçava engolir não apenas aqueles corpos, mas a própria cidade. 

Nesse momento, a porta do salão se abriu e um jovem médico legista entrou. Thomas Simon, com seus cabelos negros e olhos de águia, tinha uma expressão carrancuda e um humor ácido que logo se tornou evidente. Ele se aproximou, sua presença quase imponente no espaço carregado de tensão. 

— Dr. Walker, investigador Moreau — disse, com uma voz firme. — Precisamos discutir algo sério. O sangue das vítimas foi completamente extraído. —Enquanto ele se aproximava da mesa e descobri o homem que estava mais distante de nós, nos forçando a ter-mos que nos aproximar dele. 

Essas palavras pairaram no ar, e uma onda de incredulidade me percorreu. Moreau arqueou uma sobrancelha, o semblante preocupado, enquanto a seriedade da situação se intensificava. 

— Como isso poderia ter acontecido? — perguntei, minha mente correndo para cenários impossíveis. 

Thomas cruzou os braços, o olhar penetrante como se pudesse desnudar a alma humana, examinando o ambiente antes de responder. — Pode ser algum culto estranho, uma prática ritual. O fato de estarmos lidando com corpos assim sugere que alguém se sentiu à vontade para realizar tal ato em pleno coração de Paris. 

Moreau franziu a testa, coçando a cabeça. 

— Cultos, você diz? Não estou surpreso. Ouvi rumores sobre atividades estranhas na região, mas pensei serem apenas lendas. 

— Lendas que parecem ter ganhado vida, talvez — completou Thomas, seu tom ácido intensificando a gravidade das palavras. — É o tipo de história que faz os moradores falarem sobre vampiros ou criaturas da noite. O povo gosta de fantasias, mas a realidade pode ser ainda mais assustadora. 

Moreau, que até então havia tentado manter a compostura, soltou uma risada nervosa. 

— Paris, a cidade das luzes, agora se torna a da escuridão. Acredito que os mitos estão mais vivos do que nunca. 

A atmosfera parecia pulsar, e a ideia de que a cidade poderia abrigar tal horror me deixou inquieto. Era como se uma sombra antiga estivesse despertando, e eu sentia que precisaria mergulhar nas profundezas desse mistério. Eu me via cercado por um labirinto de medos e pressentimentos, e a única coisa que podia fazer era preparar-me para o que seguiria. 

Anton S. Miahi XIII
(Escrito em meu Caderno) 

25 de agosto de 1871 —Esta noite, tive um sonho – ou talvez fosse um pesadelo, mas ele lateja em minha mente como algo mais denso, quase tangível. 

Eu me lembro de ter deitado, os músculos ainda enrijecidos do dia, sem sequer trocar de roupa. O mundo cedeu aos poucos, e o véu da inconsciência foi me cobrindo. Então, uma queda... A sensação visceral de descer, de ser tragado por uma força invisível. E lá estava eu, imóvel, os olhos piscando contra uma luminosidade suave e envolvente que parecia emanar do próprio ar, como se a atmosfera estivesse impregnada de luz líquida. 

Tateei ao redor, a superfície áspera de um chão desconhecido, e me vi rodeado por lavandas que se erguiam delicadas, seu perfume doce invadindo cada canto de meus sentidos. À minha volta, bolhas flutuavam, translúcidas e peculiares. Dentro de cada uma, vislumbres de lembranças – minha mãe, meu irmão, dias dourados na universidade. A nostalgia e o calor dessas imagens pareciam tão vivos, tão próximos... mas logo uma certeza fria atravessou-me: eu não estava em meu mundo. 

Uma névoa lilás cobria o ambiente como um véu leve, enquanto uma luz branca preenchia cada canto, uma presença calma, quase etérea. Então, uma voz conhecida perfurou o silêncio. 

— Bem-vindo, Anton. 

Virei-me rapidamente, o coração disparado. Mas ao ver Monm, com aquele olhar sábio e expressão tranquila, uma calma familiar substituiu o susto. 

— Isso é real? – perguntei, sentindo a incerteza tremer em minha voz. 

Ele respondeu com um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que antecede uma revelação, ou um segredo. 

— E o que é real, senão o que acreditamos ser? — ele indagou, os olhos brilhando com uma intensidade contida, como se sua mente percorresse mundos além deste. — Aqui, Anton, estamos num campo onde as realidades se entrelaçam. Poderíamos dizer que é um sonho... ou um fragmento dele, um lugar de memórias, desejos e arrependimentos de muitos. 

Andamos lentamente pelo campo de lavanda, e um perfume suave se misturava à névoa, impregnando o ar. A cada passo, bolhas flutuavam ao nosso redor, translúcidas e frágeis, como se fossem tocadas por uma brisa inexistente. Dentro de cada bolha, imagens — momentos — de vidas diferentes, de pessoas desconhecidas. 

Monm seguiu ao meu lado, o olhar fixo numa bolha que passava. Em seu interior, vi o rosto de uma jovem, com cabelos tão escuros quanto a noite, um sorriso leve, mas com um olhar profundo e conhecedor. Era um olhar que parecia fitar além do espaço e do tempo. 

Ele suspirou, um som tão sutil que quase se dissolveu no ar. 

— Quem é ela? – perguntei. 

Por um instante, Monm hesitou, e sua expressão, sempre controlada, se partiu numa fração de segundo, revelando uma dor silenciosa. 

— Ela... — ele começou, mas parou, desviando o olhar. — Chamava-se Lysianne. Foi... — ele inspirou fundo, as palavras quase lhe escapando. — Foi meu único amor verdadeiro. Mas, sabe, Anton, para se aventurar no tempo, é preciso um preço, um sacrifício. E eu, com minha ânsia em desvendar os segredos deste universo, escolhi um caminho que me afastou dela.  

Houve uma pausa, e o campo de lavanda parecia mais silencioso, como se respeitasse sua lembrança. 

— Ela também era fascinada pelo tempo? — arrisquei. 

Monm sorriu, mas era um sorriso manchado de nostalgia e tristeza. 

— Não como eu. — Ele fitou uma bolha próxima, onde ela estava rindo ao lado de uma árvore sob um céu ensolarado. — Ela gostava de viver o presente, de encontrar beleza no instante. Para ela, um momento... era eterno. 

Ele passou a mão suavemente pela bolha, e a imagem tremeluziu antes de se dissipar na névoa lilás. 

— Então por que essa busca insaciável, Monm? — perguntei. — Por que sacrificar algo tão precioso? 

Ele se voltou para mim, o olhar ainda mais sério, um fogo intenso em seus olhos.  

— Porque, Anton, o tempo é uma ilusão, uma corrente que tenta nos prender. E a verdade é que... — ele hesitou, a voz baixa. — Eu queria libertá-la, encontrar uma realidade onde pudéssemos viver sem limites, sem essa cruel imposição do tempo que devora tudo. 

— Mas isso não é impossível? — insisti. 

Ele balançou a cabeça, um ar sombrio em seu semblante. 

— Ah, meu caro, o impossível é uma mera palavra. Mas há consequências, há fissuras. E quanto mais fundo cavamos, mais nos deparamos com realidades em que os sonhos e pesadelos se entrelaçam. É por isso que este lugar existe — apontou ao redor. — Aqui repousam fragmentos de vidas, de desejos que nunca se realizaram, de amores que nunca floresceram. 

Paramos diante de uma bolha mais próxima, onde vi a imagem de uma mulher abraçando uma criança. A cena pulsava de ternura, mas também de tristeza, como se ambos soubessem que aquele momento era breve. 

Monm fitou a cena, absorto, e por um momento, notei algo raro nele: arrependimento. 

— Esses são ecos de outros sonhos? — perguntei, tentando entender. 

— Sim, sonhos de outros, de vidas que jamais cruzaremos. Aqui, Anton, reside o que todos carregamos no inconsciente. Nossas sombras, nossas esperanças. Somos apenas viajantes. Quando olhamos para um sonho alheio, nos encontramos também, por um segundo, refletidos nas ambições e medos do outro. 

Ficamos em silêncio, observando a cena. Monm suspirou novamente. 

— Você já sonhou em encontrar algo, Anton, mas que sempre parece fugir? Como se existisse um vazio em cada linha do tempo, uma distância que nunca pode ser percorrida? 

— Às vezes — respondi. — Como uma lembrança fugidia, uma sensação de algo perdido, mas que nunca conheci. 

Monm assentiu, os olhos voltando à lavanda. 

— É a essência do tempo. E somos prisioneiros de algo que pensamos dominar. 

Antes que pudesse responder, ele tocou levemente meu ombro. 

— Vamos, há ainda muito a caminhar. 

Antes que eu pudesse responder, uma sombra se formou ao longe, desenhando-se lentamente em um contorno familiar. À medida que se aproximava, a figura de um homem magro e sereno emergiu da névoa lilás, vestindo-se de branco, com um cavanhaque bem aparado e olhos profundos como dois lagos plácidos. Em uma das mãos, ele segurava uma chave dourada e adornada, que brilhava mesmo na penumbra. 

— Sou Lieran — disse ele, sua voz grave e suave, como um sopro de vento antigo. — O guardião deste entre-mundos, o reino de Somníria. 

— O que você está fazendo aqui, Lieran? — Monm perguntou, o tom de sua voz mesclando uma ironia sutil com a seriedade do momento. — Veio discutir novamente a futilidade dos sonhos? 

Lieran sorriu, mas não havia alegria em seu sorriso. Era uma expressão de compreensão triste. 

— Os sonhos não são fúteis, Monm. Eles são portais. É por meio deles que as verdades ocultas se revelam, não apenas sobre nós, mas sobre a própria essência do tempo. Você insiste em vê-los como meras ilusões. 

— E você — Monm retrucou — vê a realidade como uma prisão, acreditando que os sonhos podem libertar aqueles que se perdem em suas correntes. Mas não é assim que funciona. Os sonhos podem se tornar labirintos, Lieran. Labirintos que aprisionam mais do que libertam. 

Anton, sentado entre eles, sentia-se como uma peça de um quebra-cabeça que não se encaixava. Seus pensamentos eram um turbilhão. 

— Esperem — eu interrompi, tentando entender. — O que exatamente significa sonhar para vocês? Estou confuso. Não é tudo apenas... um escapismo? Ou há algo mais? 

Lieran se voltou para mim, os olhos profundos como lagos refletindo uma sabedoria antiga. 

— Os sonhos, Anton, são a linguagem do inconsciente. Eles são ecos de nossas emoções, medos e esperanças. Quando sonhamos, temos a oportunidade de revisitar nossos anseios mais profundos e confrontar verdades que muitas vezes ignoramos. O tempo em sonhos é elástico, permitindo que revisitemos momentos que acreditamos perdidos. 

— Mas não são apenas ilusões? — retrucou Monm, gesticulando como se estivesse tentando desvendar uma teia invisível. — Lieran, você se esquece de que os sonhos podem distorcer nossa percepção. Eles nos enganam, nos iludem com promessas de um futuro que nunca pode ser, enquanto a realidade continua a ser intransigente e cruel. 

—  Que é a realidade, senão uma construção dos nossos sonhos? — Lieran desafiou, a chave dourada balançando suavemente em sua mão. — As escolhas que fazemos no mundo dos sonhos reverberam na realidade. Não subestime o poder que eles têm. O que sonhamos pode, de fato, moldar o que vivemos. 

Eu olhei de um para o outro, a tensão crescendo. A cada palavra, o ar se tornava mais carregado, como se o próprio espaço entre eles estivesse se comprimindo. 

— Mas então — perguntei, hesitante — se os sonhos moldam a realidade, como podemos confiar no que vivemos? E se o que acreditamos ser real for apenas mais um sonho? Como discernir entre o que é verdade e o que é ilusão? 

Monm olhou para mim, um brilho de reconhecimento nos olhos. Era como se ele tivesse sido lembrado de um passado distante que ainda o assombrava. 

— Essa é a questão que todos enfrentamos, Anton — disse ele, sua voz agora tingida de uma vulnerabilidade inesperada. — O que fazemos com as verdades que descobrimos? E o que acontece quando esses sonhos se tornam pesadelos? 

— Você deveria se perguntar, Monm, o que realmente está buscando em suas viagens no tempo — Lieran retorquiu, sua voz firme como o aço. — O que você está disposto a sacrificar para alcançar seus objetivos? Cada escolha tem um custo. E esse custo pode muito bem ser mais do que você está preparado para enfrentar. 

A tensão pairava, e o silêncio se estendeu por um momento, uma respiração compartilhada entre os três. Anton sentiu que, de algum modo, estava no centro de uma tempestade, onde cada palavra era um relâmpago iluminando verdades obscuras. 

— E se o que eu procuro — eu murmurei, mais para mim mesmo — for o que estou destinado a perder? 

Ambos se voltaram para mim, e, por um breve momento, o campo de lavanda pareceu ecoar a pergunta, as flores balançando suavemente como se estivessem escutando. 

O impacto de suas palavras reverberou em mim, mas antes que pudesse refletir, o chão se abriu sob meus pés, e fui lançado novamente na escuridão. Despenquei, a queda me envolveu, e senti uma nova transformação no ar ao meu redor – mais densa, mais fria, como se sombras me acolhessem. 

Despertei num ambiente muito diferente, a claridade suave substituída por uma escuridão quase sólida. Levantei-me cauteloso, e ao meu redor, o chão era coberto por rosas negras com delicados tons de roxo degradê, uma paisagem sombria que exalava um cheiro doce e nauseante. Um ruído distante, como o bater de asas, chamou minha atenção para cima. 

Uma criatura desceu do céu negro, o ar em volta dele se dispersando em uma lufada fria. Ele tinha um corpo humanoide, mas as asas – negras e largas como as de um corvo – traziam uma imponência animalesca. Quando pousou, observei de longe, quase sem respirar, os olhos límpidos e profundamente lilás, as orelhas pontudas, a pele tão branca que lembrava marfim. 

A figura reunia algumas daquelas bolhas, mas as imagens que continham eram diferentes – rostos distorcidos pelo terror, fragmentos de dor e desespero. Senti um calafrio. Ele murmurava algo que não pude distinguir e começou a se afastar, carregando as bolhas em direção a um umbral negro. 

Um vulto pendia sobre seu ombro. Um gato negro, seus olhos de um branco frio que pareciam atravessar minha alma. Algo me puxava para aquele ser, uma curiosidade perigosa, irresistível. 

O ser cruzou o umbral, e quando percebi, estava me erguendo, seguindo-o, como que guiado por uma força misteriosa. 

— Anton... – uma voz macia e sombria ecoou. 

Era o gato, agora sobre uma mesa em uma sala grandiosa e fria. Ele me fitou, um brilho irônico em seus olhos. 

— Chamam-me de Meia-Noite, e meu companheiro, Uor. Vejo que chegou até aqui por acaso ou talvez… por curiosidade. 

Fui tomado pelo instinto, endireitando-me, tentando parecer seguro. 

— Anton Stephan Miahi, Sargento da Cavalaria – minha voz ecoou no salão vazio. 

Uor sorriu com uma ironia afiada. 

— Sei muito bem quem é você. 

Aquelas palavras perfuraram-me como uma lâmina, e o salão pareceu fechar-se ao meu redor. No fundo, uma nova suspeita brotava – eu não estava mais no reino dos sonhos, nem tampouco no inferno. Estaria eu no próprio limiar do inconsciente, num lugar onde medos e mistérios coexistem? 

No mesmo dia mais tarde — O encontro com Meia-Noite e Uor me deixou inquieto, como se uma névoa densa tivesse se instalado em meu ser. Fui recebido não como um convidado, mas como um prisioneiro que, mesmo sem saber, tinha uma dívida a pagar. Eles se apresentaram como mestres de um jogo cujas regras eu ainda não compreendia. A presença deles sugeria um peso no ar, e suas palavras flutuavam como sombras, dançando ao redor de nós, pulsando com a energia de verdades ocultas. 

— A ambição de Olga — começou Meia-Noite, quebrando o silêncio pesado — transcende o que você pode imaginar, Anton. Ela não é apenas uma mulher sedenta por poder, mas uma criatura que busca controlar o sobrenatural em busca de algo maior. 

Uor balançou a cabeça, seus olhos cintilando com uma luz gelada. — Você a vê como uma mera mortal, mas há mais em Olga do que o que se revela. Ela toca as cordas do invisível e manipula a escuridão ao seu redor. É por isso que Drácula a atrai. 

Meu coração acelerou. Para mim, Drácula sempre fora apenas um conde do interior da Europa, uma figura envolta em mistério e lendas. No entanto, a ideia de que sua conexão com Olga era mais do que mera coincidência começou a se enraizar em minha mente. 

— O que você quer dizer? — eu perguntei, a tensão entre nós era quase palpável. — Como você pode ter certeza disso? 

— O Conde — continuou Meia-Noite, a voz profunda reverberando no ar — não é apenas um homem, Anton. Ele é um símbolo, um ícone do que se perdeu e do que se busca no abismo. Atraído pela ambição de Olga, ele representa a eternidade e o horror que ela deseja controlar. 

Uor fez uma pausa, como se estivesse pesando suas palavras antes de continuar. — Mas a verdadeira natureza de Drácula é mais sombria do que você imagina. Eu conheço um jovem que presenciou o ataque em Paris, uma cena que se desenrolou sob a luz da lua, onde a morte dançou no sangue fresco. 

As palavras de Uor me prenderam, como uma teia invisível envolvendo meu corpo. Eu me via forçado a imaginar a cena horrenda, uma jovem sendo devorada, sua vida esvaindo-se sob as garras do Conde. 

— Ela morreu — Uor continuou, seu tom sombrio, quase reverente — até a última gota de sangue, Anton. A cidade de Settimor foi erguida para acolher as almas perdidas, aquelas que foram atraídas pela sedução de um castelo obscuro, onde as promessas se tornam pesadelos. A ambição de Olga não é apenas por poder; é por controle sobre essa escuridão que a cerca. 

A ansiedade começou a consumir-me, como uma maré crescente. Era como se as revelações se tornassem gélidas, arrastando-me para um abismo de dúvidas e temores. Eu estava cercado por verdades que não conseguia ignorar, e a ideia de que tudo isso poderia ser real era sufocante. 

— E se ela estiver certa? — perguntei, a voz tremendo. — E se Olga conseguir realmente o que deseja? O que isso significaria para nós? 

Meia-Noite trocou olhares significativos com Uor.  

— O desejo dela de transcender é uma busca sem fim — respondeu Uor. — Se ela dominar o sobrenatural, você e todos ao seu redor não passarão de peças em seu tabuleiro. A verdadeira questão é: até onde você está disposto a ir para impedir que isso aconteça? 

Monm, que até então permanecera em silêncio, soltou uma risada baixa, quase amarga. — Uma escolha sempre tem um preço, Anton. E o que você está disposto a sacrificar? 

As palavras deles ecoaram em minha mente, pesadas como pedras. O clima tornava-se cada vez mais tenso, e a incerteza me envolvia. Como poderia enfrentar um ser como Drácula, com Olga ao seu lado, manipulando os fios invisíveis que regem nossas vidas? 

De repente, antes que pudesse processar tudo, uma luz intensa irrompeu à nossa frente. Um portal se abriu, revelando o contorno familiar da chave dourada de Lieran. 

Monm e Lieran emergiram do brilho, seus rostos sérios, como se trouxessem consigo o peso de um novo destino. 

— O que vocês fizeram? — Monm exclamou, seus olhos fixos em mim, preocupados. — O que foi revelado? 

Lieran, com um gesto fluido, apontou para o espaço nebuloso que nos cercava. — A verdade não deve ser ignorada, mas nem todos estão prontos para enfrentá-la. Venham, devemos ir. 

Eu olhei para Meia-Noite e Uor, suas figuras agora quase etéreas diante da luz pulsante. A sensação de que algo maior estava em jogo tornou-se uma realidade indiscutível. Eu havia sido lançado em um ciclo de eventos que apenas começava a se desenrolar, e a única certeza era que o caminho à frente estava repleto de sombras e revelações. 

Atravessando o portal, percebi que não havia como voltar. O que me aguardava era um futuro indefinido, onde a linha entre sonhos e realidade continuava a se desvanecer, e eu me via cada vez mais entrelaçado no destino que me aguardava. 

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Capítulo 1: Uma criatura disforme

Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia….

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia. A memória, tal qual um inquisidor implacável, empurrava-me contra os pregos da dama de ferro que eram os meus traumas, num abraço frio e mortal, enclausurando-me dentro de mim. “Deveria eu continuar lidando com essa tortura?”

Parei. Nada de útil surgiria daquele amálgama disforme e colorido. Frustração. Também não conseguira escrever nada naquele último mês: “Ah, quão maldito é o trabalho que exige criatividade extrema, por que raios me enfio nessas empreitadas?”, flagelava-me quando não tentava, castigava-me quando pensava em desistir. Minha vida era essa constante luta interna do eu contra mim.

Enquanto saía do meu ateliê, Lisa, minha gatinha preta e carente, esfregava-se em meio às minhas pernas, ronronando e derretendo as geleiras que esmagavam meu coração. Lembro-me que perdi o equilíbrio e quase fui ao chão.

— Ah Lisa, para com isso. — disse-lhe, mas só para reforçar a minha necessidade por reclamar. Agradeço por ela ser teimosa e determinada, porquanto nunca irá parar. Sim, ela está aqui comigo. O Castelo Drácula abriga todo tipo de criatura, por que não uma gata?

Um banho. As águas calorosas tinham propriedades curativas, o vapor, poder de reorganizar e remontar minha psiquê, deixando-me próximo a um ser humano que não havia sido quebrado.

Com um mínimo de bom humor restabelecido, resolvi ir ao pub, uns goles do amargo gin afogariam os sentimentos claustrofóbicos. Ah, as propriedades lisérgicas das bebidas etílicas!

Eu adorava aquele local. Tinha uma fachada discreta e paredes de tijolos escuros, o típico lugar onde um desavisado não entraria, pois não parecia ser um bar. Essa sensação de entrar em algo secreto e exclusivo me apetecia. Viva a curiosidade. Lá dentro, as luzes baixas, emulavam a ideia de um sonho sombrio, atmosférico e intimista, onde cada canto parecia envolto em uma penumbra vermelha, verde e roxa, realçada por velas e luzes de néon.

Os bancos eram de couro preto, ligeiramente rasgados pelo tempo e uso, mas ao aconchegar-me ali sentia que o mundo parava ao meu redor. Nas paredes, pôsteres de bandas lendárias como Black Sabbath, Iron Maiden e Slayer se misturavam a quadros de arte sombria e psicodélica, muitos criados por artistas locais, inclusive por mim. Ah, como almejava resgatar os tempos áureos, onde minha inspiração quase não me cabia.

Uma jukebox tocava uma seleção pesada e interessante, variando entre black metal, doom metal, sludge metal e alguns clássicos do heavy metal, que faziam todos cantarem juntos. Às vezes, bandas ao vivo tocavam em um pequeno palco no fundo, iluminado por luzes vermelhas e verdes, com espaço suficiente para àqueles que queriam aproveitar o som e aquela atmosfera inebriante.

No balcão, as bebidas eram diversas: cervejas artesanais escuras, drinks com nomes inspirados em mitologia nórdica e shots que queimavam a garganta. As prateleiras atrás do bar exibiam garrafas de rum, whisky e absinto. Quantas vezes saí de lá arrastando-me, mas nunca carregada, encontrava forças que nem sabia existir para manter a minha suposta dignidade.

No banheiro, as paredes eram cobertas de grafites e adesivos de bandas, como se cada pessoa que tivesse passado por ali tivesse deixado sua marca. Era um espaço onde todos eram livres para ser quem eram, cercados pela energia sombria e autêntica do metal e do álcool. Sinto saudades desses momentos.

Bebi. Já que as águas anteriores não quiseram lavar minhas dores, eu as sufocaria com os líquidos, música e tola autocomiseração. Não me recordo do nome da banda que tocava naquela noite, mas ainda guardo a boa sensação despertada a cada acorde, os meus pesares sendo levados a cada gutural ostensivo do frontman.

Retornei para casa em estado de evidente embriaguez, mas sentia-me quase levitar sob o céu que eu mesma concebi. Meu lar recebeu-me com silente afago, e eu me rendi ao seu cálido abraço. Transcorrido um tempo que não mensurei, de repente, senti correr em minhas veias a vitalidade de uma artista em ascensão, poderosa – como se uma entidade houvesse adentrado e possuído meu corpo.

Corri para o ateliê, dentro das possibilidades de locomoção que aquele estado me permitia, mas corri, como se minha vida dependesse daquele ato sem propósito. O que avistei fez-me questionar minha frágil sanidade, entretanto, sua presença imagética imobilizou-me.

À meia-luz, um movimento sutil tomou forma na tela. O contorno difuso se agitou, e uma figura começou a emergir, como se o quadro estivesse se dissolvendo em sombras. Lentamente, revelou-se — uma entidade envolta em um manto de trevas, os contornos do rosto delineados apenas por um brilho espectral. Seus olhos eram como fendas de névoa prateada que parecem absorver um pouco da luz da sala, hipnotizando-me. Estendeu uma mão fina e esquelética, atravessando os limites entre o quadro e o mundo real. Era meu chamado.

Com uma voz baixa e aveludada, que parecia ecoar em minha mente, convidou-me para morar no Castelo Drácula. As palavras pareciam feitiço. Um calafrio percorreu minha pele, mas não era medo — mas uma curiosidade irresistível, uma necessidade profunda e incontrolável de segui-lo. Sem hesitar, deixei-me guiar para dentro da tela, desaparecendo na escuridão que a envolvia. Lisa não se atreveria a me deixar só e saltou comigo rumo a um destino incerto.

Quem era, afinal, a tal criatura disforme, oriunda das pinceladas na tela profana, criadas em meio ao meu desvario? Hoje, pronuncio seu lindo nome sem medo, encontrei beleza no estranho e serenidade no desconhecido: Espectumbral.

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Escrito por Cláudio Borba, -Poesias Cláudio Borba Escrito por Cláudio Borba, -Poesias Cláudio Borba

Ecos de um Jardim Sepulcral

Adentro o campo como quem adentra um sonho, | lavandas por toda parte, um oceano roxo e calmo, | elas flutuam suaves ao toque de leves brisas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Adentro o campo como quem adentra um sonho,
lavandas por toda parte, um oceano roxo e calmo,
elas flutuam suaves ao toque de leves brisas,
parecendo guardar uma paz que jamais acaba.

Mas há algo aqui, algo invisível que rasteja,
um segredo escondido no doce perfume e na cor,
uma inquietude perdida no meio do silêncio
tal qual um coração que bate lentamente.

Caminho, e as flores parecem murmurar,
o som parece uma prece feita no começo da noite,
uma estranha melodia, palavras mal-ditas,
sussurrando meu nome em uma voz que nunca ouvi.

O que diz o campo que fere a minha mente?
Por que o horror se veste de algo tão belo, tão sereno?
É como se escondesse as garras sob suas pétalas.
Há algo ancestral, um toque gelado que toca minha pele.

Não é um jardim, é um túmulo em flor,
uma prisão aveludada que me convida a ficar,
e, no entanto, ao me virar, as lavandas me cercam,
o murmúrio cresce, toma conta do ar,
um canto fúnebre que desencanta a beleza.

Sinto o pavor apertar minha garganta,
e as vozes falam de dor e de sombras,
de destinos que ninguém ousa lembrar,
é como se o campo guardasse os segredos dos mortos
e a alma de que o adentra fosse um preço.

Eu corro, mas os murmúrios me seguem,
as flores balançam como dedos que apontam,
e toda a paz se dissolve em uma neblina,
me deixando só entre sussurros sombrios,
perguntando se algum dia eu estive desperto.

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Pergaminho de sangue cósmico

No limiar entre mundos, onde o nevoeiro se estende, | Ergue-se Arale Fa´yax, filha de uma felina raça distante, | Com a cauda prateada, fina como a lua em sua ascensão…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

No limiar entre mundos, onde o nevoeiro se estende, 
Ergue-se Arale Fa´yax, filha de uma felina raça distante, 
Com a cauda prateada, fina como a lua em sua ascensão, 
Olhos oblíquos de safira tão profundos quanto as cavernas do abismo ou um mar de ressaca.  

Sua pele, pálida como a neve, caindo em silêncio, sinfônica voz, 
Reflete o brilho das estrelas apagadas no vasto céu negro. 
Cabelos platinados, com fios de esmeralda entrelaçados, 
Dançam ao vento, como fios de uma tapeçaria celestial mística.  

Mas a beleza é forjada em dor, em sangue como a forja do destino, 
Onde sua carne, marcada por uma cicatriz que serpenteia, 
Revela a luta que o mundo não pode ver, sua assinatura e fardo, 
O duelo contra o último xamã de sua tribo lhe custou o exílio que a alma sofreu.  

Um sacrifício, uma missão, um braço se perdeu, apenas o vazio, um espaço que clama por cura, 
em seu lugar, a prótese cibernética de protoplasmas, biogenesis felina, futura, 
Uma obra de metal e circuito, luz fria, pulsante, seu punho de vida, sua recordação, 
um de seus legados, de sangue e promessa, 
Que brilha com a promessa de poder e de destruição.  

Na outra mão da guerreira com garras de leão, ela agarra uma máquina de escrever, feita de ossos, 
Fiel companheira de estrada galática, jornada de eras e herança amaldiçoada, 
Cada tecla, cada golpe, um feitiço de morte e destino, 
Sangue é tinta, e o papel, papiro como carne dilacerada de uma criatura do mal ali ceifada, 
Onde palavras de extermínio surgem, traçando caminhos de pulverização e purificação.  

E é neste mundo de sombras e crueldade que ela caminha e expurga, 
Onde o portal da sua dimensão se abriu, revelando um jardim, berço do Castelo Drácula. 
Entre as pedras do castelo, onde a noite nunca cede à luz, 
Ela caminha, a caça, a caçadora, armada com a verdade. 
Suas vestes, uma fusão de couro e névoa, uma vitoriana felina cyberpunk, 
Negra como a noite e dourada como o mel, a aurora de um novo mal, 
Protegem o corpo, mas não a alma, pois ela já está selada, 
Em um pacto com as forças que andam nas trevas, mas não a dominam. 
Em questão de segundos, desliza de suas costas para seu punho, uma espingarda também de ossos que em um instante se torna machado, 
Transforma-se como ela mesma, fluida, imprevisível, mortal. 
Com a lâmina cortante, como o vento no inverno sem fim, 
Ela vai à caça, onde os monstros se escondem e os demônios se amparam.  

Oh, Arale Fa´yax, filha do além, do cataclismo e da lua minguante, 
Teus passos ressoam nas cavernas do castelo, pegadas do silêncio dominante 
Onde cada palavra escrita é um feitiço antigo,  um rugido de tua ancestralidade, 
Cada página sangrenta, o próximo passo da jornada ao vazio da eternidade, 
Que o sangue que flui seja a chave, o sangue que é o guia, 
Tua missão, marcada pela dor e pela força, o amanhã ruge, 
Extirpe as ameaças que se ocultam, que se alimentam da vida, 
Que o destino de tua lâmina e tua escrita sejam o selo do exício de toda sombra.  

Oh, filha da noite e da penumbra, Clã Fa´yax, guardiã do véu, 
Teus passos ecoam pelos corredores de um castelo orgânico, 
Assim como onde vivia, uma árvore vitalícia que apodreceu, 
Onde a morte sussurra como um vento gelado,  
as almas perdidas vagam, em busca de redenção, 
Mas tu, minha guerreira, já não precisas de salvação.  
[Talvez sempre precisará, de si mesma...]  

A máquina de escrever de ossos manchados, 
de ossos amaldiçoados, seremos nós todos apenas ossos esquecidos pelo tempo vitalício e nossas ações prosperam além do osso esqueletal que nos sustenta?  
Brilhai, pungente, lacrimosa, ela grita e sangra, 
Cada tecla que tocas é um eco de um destino antigo, 
Escreves não com tinta, mas com a essência do sofrimento, 
Teus dedos dançam entre as linhas da eternidade, 
Onde o caminho se revela como um rio de sangue.  

O papel, um papiro cósmico, mágico de pó de estrelas e carne e dor, 
desvela-se diante de ti, em cada página escrita, um grito de agonia, 
Mas também um passo em direção à vitória da luz da poesia, 
Pois as páginas não mentem, Arale Fa´yax, da raça felina de tua tribo extirpada, 
Elas mostram o que a escuridão tenta esconder.  

Espingarda que se torna machado com uma lâmina tribal de ossos cravejados, 
Escorrido e manchado, 
Tu és a lâmina...  
Que ceifa e que rasga o véu do além, 
Que corta as garras das criaturas que surgem das sombras, 
Que quebra o grilhão do medo e da morte. 
Em tuas mãos, o destino é forjado em aço e vingança.  

Veste-te, guerreira de pele tão clara como a lua, 
Com o manto de veludo negro que beija o vento, 
O sangue de mil criaturas, já banhou teus pés, 
Feroz, imortal, desvaneces os sustentos de terror. 
Tuas roupas, como o silêncio do túmulo, não dizem, mas sabem.  

A cauda de prata, tão leve quanto a brisa de inverno, 
Move-se com graça, e mesmo nas trevas, ela brilha, 
Oh, criatura etérea, filha das estrelas caídas, 
Tu és o reflexo do que não pode ser tocado, 
O espírito que dança entre o real e o etéreo, 
Entre as dimensões e os reinos que o homem nunca verá. 
Nos corredores de pedra, onde as velas tremem, 
Onde os retratos dos antigos se tornam olhos, 
Tu és o caçador e a presa, o monstro e o salvador, 
Com os dedos manchados de sangue, mas o coração puro, 
Segues adiante, sem medo do que há à frente, 
Pois teu destino já está escrito nas páginas da morte.  

Arale Fa´yax, guerreira sem fim, fantasmagórica escriba da morte, 
A marcha da eternidade é a tua única música,  tua foice espiritual, 
Onde o som do teu machado cortando a escuridão, corteja o nulo, 
É mais doce que o canto dos anjos, cortejai o umbral de sangue, 
Mais profundo que os abismos que te chamam, te clamam, suspiram, 
Fatídico o horizonte que nunca se vê. 

Teu braço biônico, feito de circuitos e relâmpagos, 
Brilha na noite, como uma estrela fugaz, um punho destroçador, 
Uma cicatriz de herança, de legado, de lembrança,  
Que teu rosto carrega,  teu coração sabe o peso de tua insanidade, 
É o selo de uma alma que não pode ser quebrada. 
Para ti, Arale, não há morte que te detenha, 
Nem sombra que apague o brilho de tua jornada. 
Oh, guerreira da máquina e da carne, 
Teus olhos são espelhos da verdade que ninguém ousa olhar, 
E a escuridão se curva à tua vontade, 
Pois no abismo, tu és a luz que se ergue, 
Onde a treva reina, tu és a sentença. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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