4 Poesias DO ÂMAGO de Tiago Serigy
Tiago Serigy é nascido em Aracaju, Sergipe, e carrega uma alma que pulsa em versos desde a infância. Professor de História e estudante de Jornalismo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Tiago Serigy é nascido em Aracaju, Sergipe, e carrega uma alma que pulsa em versos desde a infância. Professor de História e estudante de Jornalismo, constrói narrativas sensíveis, inspiradas pelos clássicos da literatura brasileira do século XIX, música, cinema e pintura — sempre entrelaçando o banal do cotidiano com o eterno, num tom gótico que transforma o banal em transcendente.
Dono de mais de cem sonetos, prosa poética, contos eróticos e crônicas, ele se nutre de influências românticas (Álvares de Azevedo, Cruz e Sousa), simbolistas (Augusto dos Anjos), e contemporâneos ousados como Hilda Hilst e Ana Cristina César. Sua arte vibra entre a brevidade da existência e o desejo de eternizar cada chama da vida.
Selecionei aqui, quatro poesias que chamei de DO ÂMAGO, por serem essencialmente existênciais, nascidas do cerne mais profundo e, portanto, capaz de atravessar a tez e encontrar a alma do leitor.
Em “Naufrágio”, o poema abre como um mar revolto: turbulência de alma e espuma que se faz medo. Transporta o leitor ao interior do caos, onde o abismo se revela cenário íntimo de enfrentamento. É uma composição que ecoa a luta entre a superfície segura e o fundo desconhecido.
Em “À Crusoé”, evocando Robinson Crusoé, Tiago reflecte sobre identidade e isolamento. O eu-lírico confronta-se como um náufrago de si mesmo, erguendo uma ilha interna — metáfora do autoencontro e da invenção de si.
Em “Noites”, um mergulho noturno no âmago da solidão e do desejo. A escuridão se abre em janelas da alma, onde pensamentos flutuam entre a memórias e o silêncio. Um caminhar pelo breu da existência, buscando luz em seus próprios recantos.
Em “Transcende”, fechando o ciclo, este poema sugere uma elevação do espírito. Transcender é romper as amarras da carne e do tempo. O verso ascende, convidando o leitor a buscar a eternidade na simplicidade: um sopro de vida e palavras que erguem o eu para além do corpo.
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Arvoredo
O arvoredo de carvalhos era rodeado por árvores altas e robustas que se aglomeravam em formato circular, um pequeno riacho se estendia…
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O arvoredo de carvalhos era rodeado por árvores altas e robustas que se aglomeravam em formato circular, um pequeno riacho se estendia, brilhante; quando a brisa vespertina tocava as águas cristalinas se assemelhava à prata. Pedras e galhos se espalhavam pela grama verde e caliginosa. Sob o lado esquerdo do riacho, um grande carvalho antigo exibia seus galhos robustos e vibrantes ao vento, sua casca era envelhecida, mostrando sua imponência em comparação aos outros.
Ali, era o santuário das jovens dríades amantes da natureza. Beladona, em especial, costumava visitar o carvalho antigo e sentar-se por longos períodos para observar o pôr do sol e o fim da tarde. Um dia, ao fim de uma tarde gélida, ela se recostou com languidez sobre o carvalho, com delicadeza, tocou a grama entre as raízes, enquanto observava a esfera solar descendo no horizonte. Seus olhos cor de mel estavam fixos no céu enquanto as folhas presas em seus cabelos dançavam junto aos fios de cobre cacheados.
Ela suspirou pesadamente, pensando se encontraria novamente aquela que seu coração tanto almejava encontrar. Quando estava perdida em seus pensamentos, uma doce e ébria voz alcançou seus ouvidos. Era ela — a dríade de cabelos brancos e olhos dourados como a esfera solar. As duas se entreolharam e um sorriso íntimo surgiu no rosto de Beladona. A outra estava de pé, aproximando-se dela, demonstrando uma expressão ávida e contente, mesmo com o olhar melancólico e usual que ela tinha, era como uma deusa da floresta em seu caminhar tranquilo, banhada pela luz amarela do entardecer.
Beladona convidou-a para se sentar ao seu lado, o que ela aceitou alegremente, mexendo nos cabelos brancos, bem perto do ouvido dela a jovem disse, sussurrando, que sentira saudade. Beladona respondeu sorrindo, dizendo que também tinha sentido falta dela e pronunciou seu nome baixinho: Astrid. O sol finalmente se pôs, deixando o ambiente acinzentado para trás, com um último lampejo avermelhado entre as nuvens. Diante da leve escuridão que se instaurou no arvoredo, aos poucos as duas se entrelaçaram. Beladona acariciou os cabelos brancos da outra com os dedos, elas se aproximaram ainda mais, selando um beijo apaixonado. A dríade de pele escura e cabelos brancos avançou aos poucos, os beijos cada vez mais intensos e apaixonados.
A respiração de Beladona estava acelerada sentindo o toque dela quando suas mãos desceram aos poucos pelo seu corpo, tocando carinhosamente seus seios e descendo cada vez mais as carícias, vagarosamente mudou de posição aproximando a boca do pescoço dela permitindo que a língua roçasse em sua pele causando-lhe um arrepio vibrante.
Com os lábios trêmulos e as pernas entrelaçadas entre as raízes sagradas, Beladona sentiu a boca da amante descer por seu colo com devoção. Havia entrega, mas também reverência. A língua dela desenhava trilhas lentas e úmidas sobre a pele, descendo lentamente até o ventre — naquele ponto já desnudo — de Beladona, e a brisa noturna entrava no corpo das duas, causando uma breve sensação de frio ao toque que se desmanchava a cada movimento ardente entre elas.
Recostada ao tronco, Beladona envolveu o pescoço de Astrid com os braços, entrelaçando as pernas ao redor de sua cintura com leveza. Seus corpos se uniram como se florescessem juntas acima de uma flor de lótus. Astrid, com a lentidão de um rito antigo, ergueu o fino vestido de Beladona — cor de folhas secas ao fim do outono, deslizando o tecido por sua coxa exposta. Ao toque, Beladona arfou, um suspiro úmido escapando por entre os lábios entreabertos. As duas se beijaram com doçura faminta, línguas se tocando como se reconhecessem o caminho de cada íntimo desejo.
Os dedos quentes e reverentes de Astrid adentraram os véus de tecido, ultrapassando o limite entre o desejo contido e a entrega. Por dentro dos vestidos, os toques se tornaram mais intensos, mais profundos, e os gemidos, entrecortados e sôfregos, ecoaram entre os galhos. Era amor, era fome, era devoção. Na fusão de suas respirações, os dedos de ambas encontraram o âmago uma da outra. Ali, sob a sombra das árvores e o brilho distante da lua cheia que nascia no céu, o desejo tomou forma e o tempo se dissolveu.
Tomada pelo êxtase, Beladona segurou o corpo de Astrid com ternura firme, erguendo os braços dela com um sorriso cínico. Removeu-lhe o vestido com reverência e, em seguida, despiu-se por completo, libertando a pele de suas amarras de tecido.
Despida, deitou Astrid suavemente sobre a grama fria, sentindo o contraste entre o frescor do chão e o ardor que irradiava de seus corpos. Ajoelhada entre as pernas de Astrid, Beladona inclinou-se com desejo, sua boca descendo com lentidão até encontrar o centro úmido de prazer da amante. Com os joelhos de Astrid apoiados em seus ombros, ela iniciou um movimento delicado e rítmico com a língua, traçando círculos, sentindo em sua boca um sabor semelhante ao que o vinho seco deixa na boca após descer pela garganta.
Os gemidos de Astrid ecoaram entre as copas altas, entrecortados, sôfregos e encantados. Beladona se deliciava com o som e o sabor — era como provar o orvalho que nasce nas folhas ao sereno. Cada reação da outra fazia seu próprio corpo tremer, e o prazer que brotava entre elas parecia impactar também o solo, as árvores e a noite.
Quando os corpos enfim cessaram seus movimentos febris, restaram apenas os sussurros, abafados pela brisa e o som do riacho correndo ao lado. As duas permaneceram despidas, unidas ainda pelo calor, pele com pele, desfrutando da companhia carinhosa e amorosa uma da outra.
Beladona repousou a cabeça sobre o peito de Astrid, ouvindo o coração da amada pulsar em ritmo lento. Os dedos de Astrid se enredavam nos cachos ruivos de Beladona ainda úmidos de suor, enquanto suas bocas não diziam mais nada, não havia mais palavras, apenas silêncio e pertencimento.
Acima delas, o céu se abria em tons profundos, salpicado de estrelas. A lua cheia, já alta, lançava um reflexo pálido e prateado sobre as águas do riacho. As duas dríades contemplaram a cena em quietude, como se o mundo houvesse parado por um instante apenas para que existisse aquele amor. E ali, sob a proteção dos carvalhos e da noite, seus corpos entrelaçados repousaram até o amanhecer.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Sanctitas
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça…
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O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça. Atônita, contemplo o baile sombrio mover-se com extrema volúpia. Meus olhos não eram capazes de acompanhar os movimentos. Fecho os olhos, pois fui acometida por fortes náuseas. Deixo a taça no chão e, vagarosamente, caminho. Mesmo estando longe, era possível ouvir o doce dedilhar sob as cordas dos delicados violinos, assim como as risadas libertinas. Tiro a máscara, e minha tez está febril. Conforme ando, o som das festividades foi se distanciando, se igualando a estranhos sussurros vindos de alguma civilização esquecida há éons.
Em meu íntimo, desejo voltar para o baile. Minhas entranhas suplicam mais um gole do detestável licor. Tento silenciar os pensamentos, contemplando o Castelo. Ao fazer isto, constato que o mesmo se modificou — sua estrutura ganhara dimensões abissais; sofrera, também, graves mudanças. O Castelo estava imerso numa aura lúgubre; cada pedra foi consumida por uma cor inenarrável, profunda e viscosa.
As pedras também sofreram com a presença de terríveis musgos, ocupando as frestas presentes em cada pedra. Noto uma sutil, mas aterrorizante, mudança no ar, tornando árduo o ato de respirar. Vi o véu que guarda segredos além do tempo sendo rasgado perante mim, e então o imaginário se materializou.
— Eram semelhantes a inúmeras partículas de uma pálida poeira, pairando misteriosamente, alcançando todo o interior do Castelo. Fui até uma das janelas e constatei que vinham de fora. As palavras de Evelyn Dubois recaem sobre mim; sorrindo, ela dizia: “Com o passar do tempo, você irá se acostumar.”
A visão que tive foi demasiadamente extraordinária — a poeira ocupava cada centímetro daquela região. O céu ganhara horripilantes pinceladas num desagradável tom de azul-petróleo. Já no horizonte, a magnífica e dourada lua, em sua fase quarto crescente, resplandecia imponente, contornando o cume das montanhas, bem como toda a vegetação, desde as grandes árvores até os pequenos arbustos. Alumiava também os grãos pálidos da arcana poeira, que obedeciam fielmente ao soprar dos ventos. Inclusive, pude sentir um característico cheiro pútrido marítimo, deixando-me atordoada.
Pois bem, estarrecida, afasto-me da janela. Olho em volta; a quantidade de partículas aumentou consideravelmente. Assustada, cubro meu rosto com a mão direita e caminho sem direção, até que encontro um esguio e mal iluminado corredor. Por alguma razão, decido atravessá-lo. À medida que ando, as velas se tornam mais escassas. Noto também que a poeira está se dissipando conforme ando.
Estou entregue à minha própria sorte. Com pesar, observo seu moroso derretimento. Lembrei do meu pai — ele disse que cada vela derretia de uma forma; disse também que o mesmo acontecia com o pavio. Tal lembrança deixou meus olhos marejados. “Ah, pai, queria tanto te ver...” — a frase saiu sem querer, ecoando no imenso corredor. Se eu fechasse os olhos, conseguiria ver sua vasta biblioteca; o cheiro dos livros me acalmava. No centro, havia uma mesa de jacarandá, sempre ornamentada com anotações importantes, livros para pesquisa. Ocupando as laterais, estantes repletas de livros.
Assim como eu, ele era um curioso em relação ao desconhecido. O pouco que sei foi graças a ele. Naquela noite, meus pais não queriam que eu saísse (parecia que estavam prevendo meu terrível destino), mas eles cederam à minha insistência.
Se não fosse por aquele convite — tornei-me taciturna —, onde minh’alma fora devorada por aqueles sedutores e sombrios olhos azuis, eu estaria... Não importa. Estou condenada a carregar a mesma escuridão que meu algoz — ele estava enraizado em meu âmago, e às vezes soprava em meu ouvido verdades incontestáveis. São momentos assim que desejei o aprazível abraço da morte. Porém, algo me resgata do abismo.
Ando mais alguns metros. Vejo uma espécie de aura longínqua e, a princípio, parece disforme. Ando mais depressa, pois era uma visão intrigante. Cheguei perto o suficiente para ver do que se tratava: era uma luz branda, etérea, quase angelical. Fui acometida por uma estranha paz — senti algo semelhante quando estive em Somníria. A quantidade de poeira diminuiu consideravelmente. Paralisada, contemplo o gracioso mover da intrigante luz. Me questiono qual será sua natureza.
Sigo-a até uma porta alta e simples de madeira. Espantada, assisto ela atravessar a porta e desaparecer. Um terrível arrepio percorre meu corpo. Relutante, abro a porta — e não posso crer: achei a biblioteca que incansavelmente busquei. Foi aqui onde encontrei aquele Códex sinistro, que, desde então, havia se tornado uma obsessão. Por breves segundos, esqueci daquela figura espectral. Ela estava no final da biblioteca, levitando próxima da mesa redonda vitoriana, alcançando o abobadado teto — tal qual o famoso espiritualista escocês Daniel Dunglas Home.
Sem dúvidas, era uma visão espantosa. Fechei a porta; sua presença doce preencheu aquele lugar. Era como uma santa. Olhando mais atentamente, havia traços humanos: os cabelos negros ondulados balançavam sob o ar. Vi também um rosto delicado. Os olhos fechados traziam mansidão; já as palmas unidas em oração continham esperança. Para quem seriam aquelas preces?
Fascinada, caminho devagar ao seu encontro. Porém, algo me impede. Escuto, então, passos firmes vindo de fora, acompanhados de um sutil, mas pontual, tique-taque. (Sabia que se tratava de um relógio de bolso, pois era uma das paixões do meu pai.) A porta se abriu lentamente, emitindo um penoso ranger. Mas, antes disso, contemplei a figura sacra desaparecer da mesma forma que surgiu. Um sussurro escapa de meus lábios — mais um evento o qual não teria respostas.
Após isso, uma brisa gélida invadiu aquele âmbito. Meus olhos dançam frenéticos sob as pálpebras. Quem será que adentrou neste recinto? Que presença é esta?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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9 - Uma nova esperança em meio aos destroços
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…
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Relato de Lisa
Alana já sabe sobre as mudanças que se fizeram em mim. De certo modo, me senti aliviada. Você não imagina como é difícil manter-se calada quando o coração está repleto de preocupações e reverberações das ações — incautas — alheias. Esperem. Vou contar-lhes tudo sobre esses últimos dias.
Gatos não têm religião, mas somos espiritualizados de uma forma que o conhecimento limitado humano é incapaz de compreender. Não se sintam ofendidos, mas imaginem uma situação em que vocês precisam explicar sobre a relatividade para um bebê de dois anos. Ninguém diria que o bebê é incapaz ou desprovido de inteligência, mas diriam que ele ainda não é capaz, pois precisa entender primeiro outros conceitos mais básicos. É exatamente assim que os vejo. Meus ancestrais, como já contei anteriormente, são seres além do tempo, míticos e que regem as leis do cosmos. Eu consegui me adaptar a essa existência limitante, mas não suprimi totalmente minhas capacidades cognitivas, e por isso, sei o quanto deve ser difícil para vocês entenderem certas coisas.
Sem mais delongas, porque isso está soando muito estranho, vou contar-lhes o que aconteceu com a minha Alana.
Há cinco dias ela acordou em meio a mais confusões noturnas — não consigo afirmar que aquilo era sonho. Eu não queria ter que usar os artifícios, pois quando adentrei nessa existência havia prometido para mim mesma que não iria interferir nas escolhas dos humanos, entretanto, tudo isso que aflige Alana não foi sua escolha, mas são consequências dos maus atos dos outros. Posso dizer que esse é um grande dilema, contudo, será assunto para outro relato.
Em meio ao conturbado despertar, entre lágrimas e terrores, esbocei a primeira frase audível para ela, que a princípio imaginou estar confusa pelo sono, pelo despertar recente ou pelo desassossego. Demorou para aceitar a realidade. Contei-lhe sobre os olhos flamejantes, minha ancestralidade e falei-lhe sobre Siehiffar Monm: ela te ajudará.
Aquela noite o vento assobiava entre as árvores retorcidas como se carregasse memórias que não deveriam ser lembradas. Alana hesitou de início, mas depois compreendeu que mal também não podia fazer. Partiu, guiada por uma promessa sussurrada por mim ela te ajudará.
Nos recônditos do Castelo havia o pequeno santuário iluminado por uma única vela bruxuleante, a luz parecia resistir por teimosia. Quando a porta rangeu sob o toque da minha tutora, o cheiro de cera derretida e madeira antiga a envolveu. E lá estava ela: Siehiffar.
Sentada em um banco gasto, o véu de linho repousando nos cabelos negros, as mãos postas sobre o colo — havia nela uma quietude que desafiava o mundo. Ela ergueu os olhos ao ouvir a porta, e o olhar que pousou sobre a recém-chegada não foi de julgamento, mas de acolhimento.
— Você veio. — disse Siehiffar com uma voz que parecia ser feita de manhãs brandas e orvalho. — Há dias sinto sua tristeza ecoando pelas paredes do Castelo.
Alana hesitou. (ela sempre hesita, mas faz).
— A minha gat... Lisa me contou sobre você. Eu... não sei por que vim. Só sei que não consigo mais carregar isso. A fé... desapareceu. Ou talvez nunca tenha existido.
Siehiffar se ergueu, seus passos silenciosos como preces. Aproximou-se sem pressa, até chegar de frente à alma atormentada. Tocou-lhe as mãos — mãos frias, que haviam cavado covas para os próprios sentimentos.
— Às vezes — disse ela — a fé se esconde. Não porque tenha deixado de existir, mas porque espera que a procuremos em lugares novos. No silêncio. No desespero. Naqueles instantes em que tudo parece perdido. Na banheira você teve fé, só não te ensinaram o nome daquilo.
— Você fala como se ainda houvesse esperança — e sorriu com amargura.
Siehiffar levou a mão ao coração.
— Porque há. Não a esperança tola de que tudo será fácil ou que as dores desaparecerão. Mas a esperança de que, mesmo com tudo isso, você ainda pode encontrar sentido. Que há beleza até mesmo na dor que transforma e machuca.
Um raio de luar atravessou a vidraça quebrada, banhando o rosto da minha Alana em prata. Pela primeira vez em anos, ela não sentiu apenas frio. Sentiu algo mais. Um calor tênue, sutil, quase imperceptível — a lembrança de um abraço.
— Fique, — disse Siehiffar, apontando o banco. — Não precisa falar. Apenas fique. Às vezes, a fé começa quando simplesmente decidimos não ir embora. Lisa, pode entrar também... É claro que ela sabia que eu estava à espreita. Entrei.
E Alana parecia mais leve do que esteve em anos. Eu sabia que Siehiffar podia ajudá-la, mas sinto que subestimei sua capacidade de amenizar as dores com uma precisão quase cirúrgica.
Se Alana precisará de mais sessões com ela, eu não sei... Só sei que estou disposta a fazer novas concessões se for preciso.
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Capítulo 11 — A fé é a prova de balas
Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso? Pelo que estou lutando realmente? Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante…
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Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso?
Pelo que estou lutando realmente?
Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante que me devora mas não consigo mais seguir esta luz, por quê? Ela me sufoca, me deixa confusa, sinto uma vontade enorme de chorar pois estou sozinha, estou completamente isolada e perdida...
Não sei mais para onde estou indo, não sei mais o que buscar. Quando eu finalmente consegui sair daquele limiar eu percebi: seria aquilo minha última luta? Minha última escapatória?
Ou o início de um umbral que devo mergulhar? Cansada de ser a sina de um povo esquecido, perecido pelo tempo nas cinzas tristes de uma memória distante e falsa que se derrete como lágrima que se desfaz no oceano, sinto-me com tanta dor e saudade do que não sei...
Não sei mais no que acreditar...
Talvez eu esteja tendo uma crise de fé, talvez eu esteja apenas cansada.
Arale não sabia dizer, com precisão, se aquele som de engrenagens gemendo vinha do corcel ou de sua própria alma. Era como se o tempo se estilhaçasse em cada passo metálico da criatura. O Limiar... ah, o Limiar. Um espaço sem lógica, onde até mesmo Deus parecia hesitar antes de entrar. Ali, tudo era sonho febril condensado, e a dúvida era a única verdade estável.
Ela apertava o cabo do machado de plasma como quem se apega a um último pensamento lúcido antes da loucura. O brilho da lâmina vibrava, emitindo um ruído agudo, quase um suspiro — um som que lembrava os delírios de um condenado prestes a ser esquecido pela História. Estava exausta, sim, mas também faminta de sentido, como um espírito que busca uma revelação em meio à miséria do caos.
No caminho, os gobelinus rugiam, grotescos, com suas bocas costuradas por fios de pecado e olhos onde habitavam pequenas constelações mortas. Arale os ignorava. Ela já conhecia aquele tipo de criatura: seres que viviam entre a dúvida e o desejo, entre o riso demoníaco e a oração abortada. Eram sombras que haviam esquecido como era ser inteiro. E ela... ela se recusava a se tornar uma sombra. Ainda não.
Ao longe, no cruzamento de duas montanhas que pareciam suspensas por vontade suicida, uma figura se projetava, como uma cicatriz no espaço: Allant Elirrahz, o cartógrafo. Seu semblante era um mapa da própria decadência do universo — olhos que já haviam testemunhado mais do que qualquer mortal deveria e dedos que tremiam com o peso dos caminhos esquecidos.
— O que buscas, viajante do abismo? — ele perguntou, sem mover os lábios, como se a própria paisagem tivesse falado.
Arale desmontou, sua armadura chiava em protesto. Ela não respondeu com palavras. Estendeu lentamente a mandíbula arrancada de um gobelinus, envolta em prata líquida — um símbolo. Um gesto. Um pacto.
Allant assentiu com um olhar que compreendia o desespero mudo das coisas que não se dizem. E então, do chão, ele arrancou um mapa. Mas este não era feito de papel, nem tecido, nem pedra. Era feito de lembranças — memórias fossilizadas dos que se perderam tentando entender o Limiar.
— Siga a trilha dos olhos enterrados. Lá encontrará o prisma-espelho. Mas cuidado... Citlalmiquiztli a observa. Ela julga os desequilibrados.
À essa altura, o vento começou a zumbir como um velho bêbado recitando maldições. E lá, no horizonte, a figura dela surgiu.
Citlalmiquiztli.
Não como inimiga. Não como aliada. Mas como juíza.
Seu semblante jovial se mantinha, mas seus olhos... seus olhos não perdoavam. Em cada passo, ela pisava em realidades desfeitas. Em cada gesto, o universo parecia suspenso por um fio de cabelo. Ela olhou para Arale como se olhasse para o próprio destino — não com piedade, mas com pesar.
— Procuras justiça... ou vingança? — murmurou, quase com ternura.
Arale não respondeu. Talvez porque não soubesse mais a diferença.
E assim, ambas se encararam:
Uma guerreira do plasma, ferida pela lucidez.
Uma guardiã do cosmos, ferida pelo equilíbrio.
O Limiar assistia.
O tempo chorava.
E o destino, como sempre, permanecia de olhos vendados.
O silêncio que se instaurou entre Arale e Citlalmiquiztli era tão profundo que parecia devorar o próprio som. Um silêncio denso, inquisidor, feito não de ausência, mas de peso — o peso do que não se pode ignorar. Arale sentiu o machado em sua mão vibrar. Não por ameaça. Mas por dúvida.
E foi então que Citlalmiquiztli se aproximou. Seus passos não tocavam o chão, mas feriam a realidade. Cada pegada que deixava exalava símbolos — runas astrais, fósseis de uma linguagem esquecida, que tremeluziam e se apagavam como lembranças de um sonho que morria ao nascer.
— Dizes que buscas sentido, filha do plasma. Mas que sentido existe num universo onde até as estrelas enlouquecem? — perguntou ela, com um sorriso que não era deboche, nem compaixão. Era o sorriso dos que já entenderam que até a luz cansa.
Arale ergueu os olhos. Seu semblante, endurecido pela desconfiança, carregava a lucidez de quem já perdera tudo, menos o desejo de compreender.
— Se há sentido, ele se esconde nos cacos. Nos espelhos quebrados. No espasmo final do que amamos antes de ser devorado pelo absurdo — respondeu. Sua voz soava como se tivesse vindo de outra era. Uma era em que ainda se rezava.
Citlalmiquiztli parou. Estendeu a mão. Um gesto simples. Humano.
— Então prova. Olha.
Arale hesitou. Mas afinal, o que é a hesitação senão a sombra da coragem? Aproximou-se. E viu.
Na palma da mão da guardiã, surgiu o Prisma-Espelho de Sangue de Wendigo.
Mas não refletia luz. Refletia passados negados.
Arale viu a si mesma — não como guerreira, mas como menina, numa estação de mundos abandonados. Sozinha. Viu o momento em que escolheu o plasma, não por heroísmo, mas para não sentir mais o frio do afeto extinto. Viu os rostos que deixou morrer para sobreviver. Viu o riso do primeiro amor, silenciado pela lógica da guerra.
E chorou.
Mas não com lágrimas. Chorou com tremores, com silêncio, com a forma como a respiração se recusava a seguir o ritmo do universo.
— Não se forja uma arma devastadora sem devastar o que te habita — disse Citlalmiquiztli, guardando o prisma como quem sela um destino.
Então, e só então, ela entregou o primeiro item.
— Vais seguir. Ainda há a engrenagem da criatura orgânica e a lamparina da maçã fantasma. Mas te aviso: o que encontras do lado de fora só revela o que se nega dentro.
Arale assentiu. O corcel chiou atrás dela, como se sentisse o peso da revelação.
Ela montou. Seguiu.
Mas agora… cada passo do corcel reverberava memórias que ela nunca quis lembrar.
E Citlalmiquiztli ficou, fitando o céu, como quem consulta um mapa feito de constelações doentias.
Porque Ela sabia: a verdadeira caçada nunca é por objetos.
É por redenção.
O Limiar — esse teatro do impossível — começava a pulsar como um útero cósmico, doente e grávido de delírios. Após deixar para trás o prisma, Arale adentrava uma nova região. O ar ali não se respirava — engolia-se. Pesado, viscoso, úmido como uma confissão não dita.
O corcel de fuligem estancou. Farejava. Sentia. Algo ancestral despertava no ventre da terra, como se o próprio inconsciente universal estivesse prestes a vomitar uma lembrança reprimida demais para ser ignorada.
À frente, uma clareira. No centro, um ser.
Não era bicho. Não era máquina. Era o casamento malsucedido de ambos. Tinha braços como raízes nervosas, olhos em constante mutação, e um torso onde uma engrenagem de osso e carne girava, cuspindo uma gosma que cantava em notas dissonantes. A criatura vivia em sofrimento — mas um sofrimento orgulhoso, como o de um tirano que se recusa a morrer.
E falava.
Não com palavras. Mas com visões.
Arale caiu de joelhos. Um colapso. Não físico, mas existencial.
Ela se viu como mero código — dados emocionais transmutados em circuito de decisão. O que chamava de “alma”, ali, era interpretado como algoritmo de defesa psíquica. Nada mais.
A criatura a olhava e mostrava:
Que não há essência.
Que o instinto reina.
Que tudo que nasce… é para devorar.
E então avançou.
O chão fendeu. As árvores-gritos se enroscaram nos céus.
Mas Arale... ruiu para dentro.
Foi em seu colapso interior que encontrou a fagulha.
Não uma verdade.
Mas uma negação da verdade da besta.
Porque se tudo é instinto, por que ainda hesitamos?
Se a alma é um erro de cálculo, por que ainda morremos por ideias?
Ela ergueu o machado de plasma. Mas não o lançou.
Ela o fincou no próprio peito.
O golpe não a matou. Despertou.
O plasma fez contato com sua memória mais pura — a lembrança de quando amou sem saber o que era o amor.
E isso... não estava na lógica da criatura.
A besta recuou. Urrou. Engasgou-se com o próprio código vital.
E ali, no meio da dor...
a engrenagem orgânica caiu.
Arale a recolheu com mãos trêmulas.
Tinha dentes. Tinha coração. Tinha peso.
Mas também tinha um ritmo.
E pela primeira vez, o universo parecia sussurrar esperança.
Ela montou no corcel, agora exausto.
Mas sabia: só faltava a lamparina da maçã fantasma.
E que no caminho, os mortos — os dela — a esperavam.
A noite caía no Limiar como uma sentença, não como um ciclo. Não havia lua, apenas um céu costurado com fios de saudade. Arale cavalgava com a engrenagem orgânica presa ao peito — pulsando ainda, como um coração transplantado que não esqueceu a vida anterior.
Agora, ela adentrava um bosque.
Não um bosque comum.
Um bosque de árvores que murmuram nomes esquecidos.
Cada folha era uma lembrança.
Cada galho, uma escolha abortada.
E o chão... feito de promessas não cumpridas.
Ela desmontava.
O corcel recuava. Não por medo. Mas por respeito.
Ali, tudo era memória que não quer ser lembrada.
Então a vê.
A Maçã Fantasma.
Ela paira no ar, envolta em névoa translúcida. Uma fruta feita de luz e cheiro — com o aroma exato do lar perdido, do colo da mãe morta, da infância em que ainda era possível rir sem carregar culpa.
Mas a maçã... não brilha sozinha.
Está acesa apenas por um fio de chama interior.
A lamparina que a sustenta é o que Arale busca.
Mas tocá-la requer um preço:
lembrar do que mais se tentou esquecer.
E o Limiar cobra sem piedade.
A presença surge.
Ela.
A própria Arale — mas criança.
Menina, suja, faminta, segurando um brinquedo que não existe mais.
— Você me deixou — diz a criança.
— Eu precisei sobreviver — responde Arale, a guerreira.
— Sobreviveu? Ou apenas esqueceu como era viver?
A lamparina oscila.
A maçã escurece.
Arale faz o impensável.
Ela se ajoelha.
Abraça a criança.
Não com culpa. Mas com ternura.
E diz:
— Eu senti tua falta.
Por um instante, o Limiar treme.
A luz retorna.
A lamparina se acende em definitivo.
Ela a segura. A chama é fria, mas intensa — uma iluminação que não cega, mas revela.
Mostra o que se é, o que se foi, e o que se poderia ter sido.
Agora, com os três itens em mãos —
Arale retorna.
Mas algo mudou.
Ela não é mais só guerreira.
Ela é testemunha.
De si.
Do universo.
Do abismo.
Var’Ghul a espera.
E com o códex umbra, uma arma será forjada.
Mas a pergunta permanece, cintilando como estrela morta:
Que tipo de arma pode carregar o peso de uma alma redimida?
Arale entrega seu machado e aguarda, meditando do lado de fora da torre. Meditou por sete luas e sete sóis. Durante a meditação, ela enxergou um pássaro espiritual chamado Xa´vir lhe solicitando que siga ao horizonte, além do limiar: lá do outro lado da floresta reside uma pequena aldeia que ela precisa seguir...
Arale então abre os olhos e pondera:
— Por que minha máquina de ossos não me forneceu um pergaminho sobre esta missão?
Valgur a clama.
Ao adentrar no salão, ela fica deslumbrada com o que vê.
Seu machado está pulsando com uma lâmina nova, com uma luz de plasma e um cabo de carvalho escuro totalmente restaurado. No centro da lâmina, onde reside um formato de coração, ali fora inserida uma esfera de energia e o prisma. Ao apertar a esfera, o machado se transforma em uma arma que rasga os véus entre os mundos...
Seu machado, o T'Zakrah — A Gume do espírito ancestral — agora também pode transmutar em uma ceifadora com balas.
Nesse instante, a máquina lhe fornece um pergaminho:
“O T’Zakrah, seu tomahawk xamânico, é seu legado ancestral e é forjado da madeira fossilizada do Ipê Fantasma, banhado em prata lunar e embutido com cristais oníricos recolhidos dos sonhos dos antigos. Seu fio é etéreo — corta não só carne, mas também memórias e maldições. No cabo, inscrições em língua indígena extinta dançam ao toque da luz, pulsando com o ritmo do tambor do mundo espiritual. Quando em repouso, murmura cantos de guerra de um tempo perdido...
Ao pressionar a prisma-esfera ou ser girado três vezes no ar e batido contra o solo, o T'Zakrah libera um urro ancestral, evocando o espírito de um Jaguaretê de silício.
O machado se desfaz em partículas de luz âmbar, que orbitam em espiral ao redor do braço do portador — como se ele vestisse o próprio espírito da floresta em guerra.
As partículas se condensam num corpo de uma espingarda alongada, com uma coronha feita de osso de Ent digitalizado e cano duplo pulsante, atravessado por veios de código xamânico que brilham em vermelho-azul, como uma profecia radioativa.
Nome das Munições:
"Bala de Sangue Solar"
Condensada do plasma vital de entidades espectrais derrotadas. Ao atingir o alvo, explode em uma chuva de luz rubra que queima a escuridão como sal em ferida profana.
"Projétil de Próton Verdejante"
Conjurado de partículas bioespirituais — um ataque quântico que atravessa dimensões, desmaterializando qualquer sombra interdimensional que tente escapar da justiça cósmica.
"Munhão T’ata"
Disparo ritualístico que emite um grito ancestral ao ser disparado, causando pânico em entidades das trevas e chamando os espíritos guardiões da floresta digital para cercar o campo de batalha.
Em sua função espiritual, o T’Zakrah não é apenas uma arma — é um ritual ambulante. Ele reconhece apenas aqueles que ouviram o chamado do silêncio entre os trovões. Serve para caçar criaturas do abismo, desfazer pactos de trevas e selar portais abissais com um único golpe ou disparo...”
O pergaminho se cristaliza, então Arale o guarda na bolsa.
— Minha sincera gratidão... — ela acena com a cabeça e então gira a espingarda no ar, encaixando-a em suas costas e partindo para a nova missão que lhe fora revelada em sonhos.
Quando enfim Arale atravessa aquele inóspito vazio surreal de névoa e ilusão, ela chega ao continente de Aurax, uma região gélida e fantasmagórica. Ela avista de longe uma clareira que serpenteia alaranjada, destacando-se naquela mórbida pintura de prata, e então avança em direção à chama de um lar...
Enfim sua máquina de escrever de ossos lhe sangrara um pergaminho.
— Até que enfim, meu bebê... — ela brinca.
O pergaminho dizia:
"Tribo de Kjaarnheim à frente. (Cuidado com os falsos profetas...)"
Então o pergaminho se desfez no ar como pólvora no oceano.
A neve caía como lâminas de vidro sobre o mundo, cortando o silêncio com um sussurro cruel. O céu era um véu de chumbo rasgado por vendavais ululantes, e a névoa engolira tudo exceto os próprios pensamentos de Arale. Ela avançava com o corpo envergado, os ombros pesados de gelo e propósito, em direção à esquecida e sagrada Kjaarnheim, a vila indígena onde os anciões da Névoa Cinzenta ainda recitavam os nomes perdidos das estrelas.
A trilha era quase inexistente, devorada por dunas gélidas em mutação. Cada passo afundava no branco traiçoeiro que escondia rachaduras e galhos congelados como armadilhas. O vento gritava em línguas antigas, tão antigas que talvez nem o tempo as compreendesse. Arale apenas cerrava os olhos e cuspia sangue, o gosto metálico aquecendo a garganta.
Um clarão pulsante estourava na altura da lua de sangue.
Distante. Os olhos queimando da brancura. Um halo translúcido pulsando entre os pinheiros mortos — como se o próprio mundo respirasse dor. Foi ali que eles surgiram. Três lupinos brancos, criaturas geneticamente corrompidas, forjadas em laboratórios obscuros e esquecidos por seus próprios criadores. Gigantescos, com músculos pulsando sob pelagem albina, os olhos vazios, negros, sem alma. Seres que não rosnavam, mas rangiam, como engrenagens orgânicas sedentas por carne. Arale rugia alto.
Arale se deteve. A mão fria buscou a coronha da T’Zakrah, sua espingarda espectral.
A madeira era negra e viva, cravejada com runas escarlates que pulsavam em resposta à presença dos monstros. Arale rapidamente transmutava as armas com maestria, rasgava a palma com a lâmina do machado e deixava o sangue escorrer e em seguida a alquimia.
As balas da T’Zakrah beberam da oferenda. A arma estremeceu em suas mãos.
O primeiro disparo soou como o uivo de um deus morrendo.
A bala de sangue atravessou o peito do primeiro lupino, explodindo sua espinha e lançando entranhas em espiral no ar. Um clarão púrpura iluminou a névoa com espectros famintos. O segundo veio por baixo, rápido demais. Arale girou o corpo, mas as garras rasgaram suas costas, abrindo um sorriso sangrento que fumegava no frio. Ela caiu de joelhos, cuspindo gelo, mas seus olhos brilhavam como brasas.
O machado veio em arco. Um golpe seco, preciso, arrancando a mandíbula do inimigo que ainda vivia tempo suficiente para uivar como um cão de guerra antes de cair.
O terceiro, o maior, investiu.
Ela ergueu o braço esquerdo — o braço cibernético — uma peça de guerra herdada do colapso dos sete xamãs. Dentes se cravaram no metal. Chamas de dor pulsaram em seus nervos. Mas o braço de aço girou com força brutal. Um estalo seco. O crânio do monstro foi esmagado como fruta podre.
Sangue branco e viscoso jorrou em seu rosto.
Ela tombou de lado, arfando. A neve ao redor tingia-se lentamente de vermelho. O céu parecia mais próximo agora, como um teto de ferro prestes a esmagar tudo. Mas ao longe, as primeiras tochas da vila Kjaarnheim tremeluziam entre os pinheiros.
Ela estava ferida. Mas viva.
Os espíritos antigos, enterrados sob a tundra, sussurravam seu nome. Arale, a sangue-da-névoa.
Caçadora da Aurora.
Portadora do Machado-espingarda. T’Zakrah.
A aldeia surgiu como uma miragem sólida no fim da tempestade.
Kjaarnheim — a Última Vigília dos Ventos, como sussurravam os cantores das planícies geladas. Erguida entre falésias cravejadas de gelo e pinheiros retorcidos, a tribo pulsava com um estranho fulgor âmbar, uma fusão ancestral entre tecnologia esquecida e rituais milenares. Tochas plasmáticas queimavam em torres totêmicas feitas de chifres de urso-do-gelo e antenas de relíquias antigas. As ocas não eram meras cabanas, mas cúpulas vivas, entrelaçadas por cipós bioluminescentes que reagiam ao humor dos habitantes — luzes mudando de cor conforme passavam, como se a vila em si tivesse olhos.
Arale cambaleou ao entrar, o manto rasgado, o sangue ainda quente colando suas costas à armadura térmica. Os habitantes interromperam seus afazeres. Nenhum som foi feito. Eles apenas a observaram, os olhos escondidos por máscaras tribais feitas de aço enferrujado, couro de wyren tundral e lentes óticas de precisão adaptadas como visores. Vestiam-se com camadas sobrepostas de peles e placas cerimoniais, cada traje diferente — indicando caçadores, artífices, cuidadores de bestas ou mestres dos circuitos.
Dos confins da praça principal, avançou Thrym Urr-Naal, o Xamã das Três Códices. Alto, encurvado como as árvores tortas da encosta, o velho trajava um manto feito de asas de corvos mecânicos e fios dourados extraídos de núcleos de IA ancestral. Em seu cajado, um motor de dronossauro pulsava como um coração aprisionado. O rosto era parcialmente coberto por um visor rachado que projetava símbolos vivos em sua testa — runas fluídas de uma linguagem que ninguém mais sabia decifrar.
— Tu sangras, viajante dos ecos. — sua voz era rouca como couro velho sendo costurado. — E o sangue é bom. Ele chama. Ele lembra. Ele desperta.
Arale tentou falar, mas sua garganta era uma fornalha gelada. Apenas assentiu, caindo de joelhos diante da chama da praça — um reator nuclear primitivo disfarçado de fogueira cerimonial. Crianças de olhos vivos e cachos revoltos aproximaram-se com cautela, oferecendo a ela peles secas, água infundida com folhas de synarhk e pequenos ossos talhados em forma de lebres e engrenagens — votos de cura.
De uma estrutura mais afastada, cujas paredes eram feitas de painéis solares resgatados e adornadas com presas de cervomáquinas, saiu Darrun Eksveil, o Profeta de Silício e Vapor. Um homem de cabelos acobreados, longos e embebidos em óleos purificados, olhos cobertos por uma viseira neural que reagia ao ambiente com microexpressões matemáticas. Seus dedos eram implantes refinados, capazes de desmontar e reconstruir um behemoth com os olhos vendados. O povo dizia que ele lia o futuro nas quedas de tensão elétrica do vento e ouvia a voz da Terra através dos tremores do código enterrado sob os glaciares.
— Ela é a do presságio. A que carrega o aço que sangra. A conjunção está próxima, Thrym. — disse Darrun, sua voz embalada por microvibrações vocálicas, como se falasse em múltiplas frequências ao mesmo tempo.
— O T’Zakrah respondeu. A Primeira Batalha foi travada. Três sangraram, um rugiu. — completou o xamã, traçando no ar um símbolo com a ponta incandescente do cajado.
A aldeia então cantou.
Uma melodia grave, ressoante, acompanhada por tambores que eram feitos de chassis de velhas torretas de guerra e cordas extraídas de nervos sintéticos de ursos mecânicos. Mulheres com tatuagens luminescentes dançavam com movimentos precisos e circulares, evocando algoritmos de caça. Velhos narradores recitavam em transe a história do Tempo Antes do Código, enquanto um garoto conduzia um rebanho de fenrirs biomecânicos — grandes cães-lobos cujos ossos eram reforçados com titânio e que latiam em pulsos binários.
Ali, homens e máquinas não coexistiam. Eram um só corpo. Uma só mitologia.
Arale, ferida, mas não vencida, olhou para os céus que agora começavam a se abrir, revelando auroras retorcidas dançando como serpentes elétricas. Um silêncio ancestral pousou sobre ela, como uma coroa invisível.
Sabia, em seu sangue ferido, que aquela vila era mais do que refúgio.
O prelúdio da próxima guerra.
Os tambores estavam apenas começando a bater.
Acordou envolta em peles fumegantes de calor antigo, o corpo nu entre camadas macias que ainda cheiravam a musgo, cinza e especiarias minerais. A respiração era lenta, pesada, marcada pelo perfume estranho que preenchia o abrigo — uma mistura de óleo de engrenagens queimadas e raízes aquecidas. A pele de Arale estava limpa, o sangue lavado, os ferimentos cobertos por unguentos negros e cintilantes. Sentia-se leve. Vulnerável. Quase… humana.
O abrigo era um domo de energia filtrada, com paredes respirantes que pulsavam ao ritmo da luz lá fora. Sentado próximo, com os olhos mergulhados em uma planilha etérea de código flutuante, estava Darrun Eksveil, o profeta, o maquinista, o decifrador do invisível.
Seus olhos artificiais projetavam runas sobre as pálpebras — mas naquele momento, eles a fitavam diretamente, como se tentassem decifrar algo mais profundo que algoritmos. Havia nela uma ferocidade suave, felina. E algo nele, sob a camada de lógica e silício, ansiava pelo toque daquela desconhecida que despertava com olhos dourados e peito marcado por cicatrizes antigas.
Darrun desviou o olhar. Rápido demais.
Mas Arale viu.
Sentiu.
O cheiro.
Não como uma humana.
Mas como uma predadora.
Havia feromônio no ar. Aquela excitação primal disfarçada de reverência. O embaraço rastejando sob o silêncio técnico do cientista. Ela sentiu o calor subir à nuca, não de vergonha, mas de alerta.
Vestiu-se com as vestes que lhe haviam deixado: um manto cerimonial de fibras sintéticas trançadas com escamas de dracomarcas, uma calça ajustada feita de couro técnico tribal e um colar de dentes antigos, ainda vibrando com energia residual. Saiu sem dizer uma palavra, guiada pelo instinto que pulsava como bússola ancestral.
Thrym Urr-Naal aguardava.
Diante de uma estrutura ciclópica, meio santuário, meio torre de observação, onde relíquias de tempos esquecidos giravam em órbitas suaves, suspensas por magnetismo primitivo, o xamã erguia o olhar para as constelações ocultas sob o dia. Quando Arale se aproximou, ele sorriu. Um sorriso antigo, orgulhoso e... maravilhado.
— Tu és o eco perdido. O fragmento que não esquecemos. — disse ele. Aproximou-se, tocando o colar em seu pescoço. — Teus ossos vibram com as canções de Gaya.
Ela franziu o cenho.
— Não compreendo.
— Todos aqui nascemos com cauda. Alguns com orelhas. Pelos. Mas isso se perdeu com o tempo, cruzamentos, colapsos. Apenas os mais antigos lembram. Tu és pura. És nossa origem. És… nossa irmã.
A mente de Arale oscilou como um pêndulo. Imagens cruzavam sua consciência: caçadas em florestas que não lembrava ter pisado, vozes em línguas que nunca aprendera, e o brilho de olhos dourados — iguais aos dela — ecoando no passado.
— Viestes de outro tempo, talvez outro plano. Mas o sangue é o mesmo. — disse o xamã. — Este mundo, este que chamamos Gaya, não era sempre assim. Os anciãos dizem que ele colidiu com um outro céu, um plano superior chamado Fractis. E da fúria dessa colisão nasceram os Deuses.
— Jafari. — murmurou Arale, como se o nome lhe fosse sussurrado de dentro.
Thrym assentiu. Seus olhos lacrimejaram.
— O Leão da Luz. Nosso ancestral. E seu primogênito: No’ahki, o Guerreiro da Raiz. Eles enfrentaram o Caos de Fractis. Venceram. Trouxeram ordem. E teu machado, T’Zakrah, foi a lâmina que No’ahki empunhou. És sua herdeira. És a que retorna.
Ela cambaleou. O mundo girou.
— Teu verdadeiro nome, criança do eco, é... — ele sussurrou com solenidade.
— Baskhiat Sual’Ra — filha do trovão e das estrelas errantes.
Naquela noite, em um círculo de fogo azulado, realizaram a Cerimônia da Prisma Tríade. Arale — não, Baskhiat Sual’Ra — bebeu do vinho das almas, uma infusão de seiva de árvores vivas, sangue de lobo-máquina e lágrimas de obsidiana líquida. O calor subiu por sua garganta, queimando seus sentidos.
Ela testemunhou com lágrima nos olhos.
Isis, a Senhora do Véu: Uma feição tão amorosa e amigável**,** olhos que escondiam galáxias, e mãos de cura e destruição.
Nix, a Deusa do Abismo Noturno: com cabelos de serpentes de luz e nua como a noite, pele de estrelas em colapso, a voz um lamento de todas as mães que perderam filhos para o vazio.
Anubis, o Guardião dos Fios da Morte: cabeça de chacal sideral, corpo coberto de engrenagens rúnicas, segurando uma balança onde as almas eram medidas em bytes de destino.
— Há algo que cresce sob tua terra, Ysmir. — disse Isis.
— Um mal antigo, sem nome, sem rosto. — sussurrou Nix.
— Mas tua alma será guiada. Pela guardiã perdida... — completou Anubis.
Na névoa daquele diálogo ela apareceu.
Citlalmiquiztli.
A Deusa-estrela.
Com olhos de quartzo negro e um corpo feito de constelações mortas. Ela caminhava entre as dimensões como bruma. Sua voz, suave e imortal:
— O caminho te aguarda além dos Picos do Gelo da Morte.
No subterrâneo de tua linhagem repousa a pirâmide cybercosmo.
Lá encontrarás aquele que despertou:
Quetzalcóatl. O Senhor das estrelas.
Ela viu — ou sonhou — o vale oculto no coração do México, uma cidade abandonada entre raízes metálicas, e um templo com portas abertas para as almas perdidas. Sentiu o frio da encosta, o cheiro da floresta desconhecida, e o sussurro do dever.
Observar os astros. Proteger o equilíbrio.
Decifrar o destino. Despertou com um sobressalto.
As chamas ainda ardiam. Na parede da caverna, desenhado com o sangue do vinho sagrado, o símbolo dos três deuses pulsava.
— Tenho tantas perguntas... — Arale arfou.
— És da casa Fay´ax. Sua mãe Lyra está conosco, mas, para este povo, você é a representação da linhagem de Sual’Ra, a escolhida de Citlalmiquiztli para ceifar Quetzalcóatl.
— Se eles têm fé em minha origem, devo honrar meus ancestrais e meus descendentes, pois a única coisa que conheço à prova de balas é a nossa fé...
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Cântico da Fé Profanada
“Pois bem antes do verbo, houve o grito. | E bem antes do céu, houve a carne. | E bem antes do amor, houve o medo. | E o medo moldou os deuses.”…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
I – Do Altar que Apodrece
“Pois bem antes do verbo, houve o grito.
E bem antes do céu, houve a carne.
E bem antes do amor, houve o medo.
E o medo moldou os deuses.”
Nos templos soturnos feitos de pedra rachada,
Onde o musgo se cria e o tempo se desfaz,
Há ossadas de deuses, de eras passadas,
Que dormem famintos em uma mentirosa paz.
Erguemos seus nomes com nossas mãos calejadas,
E os fizemos juízes de tudo que ignoramos.
Mas no final de tudo, nas cinzas sagradas,
vemos que deuses... nós sempre fomos.
Tatuamos em nosso âmago a utopia celeste,
Mas oramos de joelhos a um vácuo mordaz.
A alma, em silêncio, de pranto se veste,
E suplica um perdão que não vem jamais.
II – Da Boca dos Deuses Mortos
“Falai, ó esquecidos!
Que vossos nomes se quebrem como vidro
E vossas vozes nos devorem por dentro.”
BAAL (Deus da fertilidade, clima e tempestades)
Eu sou a fome, não a salvação.
Dei ao homem seu primeiro altar,
Feito de carne, suor e traição,
E bebi de sua fé sem cessar.
TIAMAT (Deusa primordial dos mares e mãe dos deuses)
Fui mãe e mar, serpente e véu.
Mas meu ventre foi violado por reis.
Agora durmo no limo do céu,
Gerando imagens que tu nunca vês.
LILITH (Primeira das mulheres, aquela que não se submeteu)
Fizeram-me bruxa, meretriz e serpente,
Mas fui só mulher que negou o jugo.
Na carne de cada fêmea descrente,
Eu sussurro meu nome antigo e vulgo.
ODD-KING Eu não tenho forma, nem dogma, nem fé.
Sou o que resta quando tudo finda.
A fé que me segue... se perde em pé.
O homem que ora... já não se vinda.
III – Da Revelação do Espelho Quebrado
“O altar mais antigo é o corpo.
O templo mais profano é a consciência.
O deus mais cruel é a imagem no espelho.”
O que vês quando fechas os olhos?
Um deus de luz? Um céu distante?
Ou tua própria face em pedaços, gritando num mundo delirante?
Pois tua fé não está no alto,
Mas nas vísceras, no medo de ser.
E o que chamas de belo e divino
É somente teu reflexo a apodrecer.
Tu crias Javés quando sangras no escuro.
Tu clamas por Odin quando a espada falha.
Tu invocas Satã quando queres o impuro,
Mas o nome que gritas... é a tua mortalha.
IV – Do Credo dos Queimados
“Não cremos em salvação.
Não buscamos perdão.
Nossa fé é ferida.
Nosso deus... somos nós, podres, porém em pé.”
Cremos no vazio e na sua beleza.
Cremos no grito que rompe o silêncio.
Cremos que a fé é doença e clareza.
E o homem, um deus em sua existência.
Bebemos do cálice feito de ossos,
Comemos o pão da desesperança,
E cantamos hinos com versos atrozes,
Que rezam à morte, nossa única dança.
Não há céu.
Não há trono.
Só ruína.
Só barro.
E no barro... um sussurro:
Tu és teu próprio inferno.
Cláudio Borba
Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Velian: Sob o Chamado de Nix
Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele odor residual que permanece na pele mesmo depois de muitos banhos. O que fora dito, o que fora silenciado, tudo seguia reverberando dentro dele, como as ondas mansas do mar que vira na partida, batendo sem pressa na memória.
Agora, Fortaleza o recebia novamente, com suas ruas quentes mesmo à noite, onde o suor se misturava ao sal do ar, e os prédios se erguiam como colossos cansados, com as fachadas descascadas pela maresia e pelo tempo. A cidade vibrava em outra frequência, mais bruta, mais nua, mais próxima da pele.
Velian caminhava pelas calçadas irregulares da Aldeota, depois cruzou lentamente o Centro, onde vitrines fechadas refletiam sua figura alongada, espectral, entre restos de lixo e placas enferrujadas. Não tinha pressa.
Procurava sangue, sim — como sempre — mas não apenas para se alimentar ou tentar saciar-se, e sim como quem deseja, ainda que secretamente, sentir-se parte de alguma coisa: um olhar, uma troca de palavras, um encontro improvável no meio da noite suada de uma cidade que parecia tão alheia quanto qualquer outra.
A cada passo, sentia a carne mais densa e o espírito mais leve, como quem se desloca gradualmente entre dois mundos. O Rio ainda latejava nele, com o cheiro doce das manhãs à beira-mar e as conversas enigmáticas com Cassandra, aquela que sempre o fazia sentir-se ao mesmo tempo mais forte e mais vulnerável. Ela ficara — e ele voltava a vagar, como sempre.
Havia ironia nisso, claro: uma criatura tão antiga, tão cheia de histórias, e, ainda assim, eternamente condenada a buscar um sentido nas ruas de cidades modernas, iluminadas por néons decadentes e com o asfalto rachado expondo raízes velhas que insistiam em romper a ordem dos homens.
Mas, naquela noite, algo o atravessou.
Não foi uma voz, nem um clarão súbito. Foi uma espécie de tração invisível, como um músculo antigo que, mesmo atrofiado, ainda sabe se mover.
O Castelo Drácula o chamava.
Velian reconheceu o chamado não com surpresa, mas com aquela espécie de resignação cúmplice, como quem sabe que não poderia ser de outro modo. Sempre que retornava a Fortaleza, era assim: primeiro vagava, depois era puxado — nunca sabia ao certo quando ia acontecer, mas sempre acontecia. A cidade nunca o retinha por completo.
...vazios e, ao sair dali, sentiu que o ar se rarefezia, como se os elementos conhecidos do espaço urbano começassem a se dissolver.
Em poucos passos, já não estava mais na cidade.
O limiar era tênue, quase imperceptível: o concreto quebrado do calçamento cedia lugar ao solo úmido, coberto de folhas mortas, e o som abafado do trânsito se extinguia, substituído pelo sussurro grave das árvores e o canto noturno de pássaros invisíveis.
A floresta sagrada que envolvia o Castelo Drácula o recebia como sempre — sem alarde, sem cerimônia, mas com a gravidade de quem reconhece um de seus.
As ruínas esquecidas surgiam entre as folhagens como espectros de um passado ainda mais antigo que o seu: colunas tombadas, altares carcomidos, fragmentos de deuses anônimos soterrados pelo musgo e pelas raízes. Velian passava a mão sobre uma dessas pedras frias, como quem saúda um irmão adormecido.
E ali, sem necessidade de invocação, a presença se fazia sentir: Nix.
Desta vez, a senhora da noite não apareceu personificada, como figura, nem como entidade delimitada, mas como princípio. A Senhora da Noite. A vastidão que acolhe e engole tudo, a mãe e o túmulo, o véu e o abismo, Mas, Velian sabia que ela estava lá.
Velian ergueu os olhos. O céu, opaco, parecia mais uma pele translúcida do que uma cúpula infinita. Entre os galhos entrelaçados, as estrelas apenas sugeriam sua existência, veladas pelo manto de Nix.
“Salve, Senhora”, disse, quase como quem saúda uma velha amiga — com respeito, mas também com uma ponta de ironia que não conseguia extirpar nem mesmo diante do mistério absoluto.
Continuou caminhando entre as ruínas, sentindo a umidade das folhas sob os pés, o aroma profundo da madeira apodrecida e da terra revirada. Aquelas eram as relíquias que verdadeiramente o comoviam — não os objetos das cidades, não os monumentos de concreto, mas esses sinais silenciosos de uma eternidade que se consome lentamente, mas nunca desaparece por completo.
O Castelo Drácula ergueu-se, enfim, diante dele, imponente e mutilado, com suas torres fendidas e os vitrais quebrados deixando entrar feixes aleatórios de luar que se desfaziam como fumaça.
Velian parou um instante antes de cruzar o limiar. Respirou fundo, não por necessidade — a respiração, há muito, perdera o sentido biológico — mas, como quem deseja ainda sentir o ar, como quem quer lembrar que ainda é corpo, mesmo sendo, sobretudo, espírito.
Sentia-se vazio e cheio ao mesmo tempo.
Carregava a melancolia inevitável de quem já vira demais, perdera demais, desejara demais. Mas também uma esperança tênue — um traço de luz sob as cinzas do tempo, um resíduo de fé na possibilidade de que, ainda assim, pudesse encontrar um outro, ou um outro sentido, ou apenas o próximo capítulo de sua própria errância.
Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo de continuar.
Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.
E ali, naquele breve intervalo entre o fora e o dentro, o antes e o depois, percebeu mais uma vez a estranha maleabilidade do tempo.
Para os homens, o tempo é linha, é flecha, é cronologia. Para ele, o tempo era mais: um tecido espesso e ondulante, ora nó, ora fenda, ora espiral.
As noites de Fortaleza e do Rio de Janeiro sobrepunham-se agora como véus transparentes: o mar ao longe, o cheiro das frutas na calçada, o calor da pele de Cassandra, a textura úmida das ruínas, o hálito frio de Nix. Tudo coexistia, simultâneo e indistinto.
Não havia passado que se encerrasse, nem futuro que prometesse redenção. Apenas camadas, justapostas, ressoando umas nas outras, como ecos infinitos numa caverna sem fundo.
E, contudo, havia ali, naquele excesso, uma espécie de melancolia mansa: a constatação de que nenhum instante se perde, mas, também, de que nenhum pode ser plenamente revivido.
Velian sabia que continuaria a atravessar cidades, florestas, corpos e séculos, sempre tocando o tempo com a ponta dos dedos, mas, sem jamais poder retê-lo entre as mãos.
Essa percepção, contudo, não o paralisava. Ao contrário: alimentava aquela esperança sutil que, como uma lâmina fina, cortava a densidade da noite.
Ainda que tudo fosse transitório, ainda que tudo fosse simultâneo e indomável, ele continuava.
E esse continuar não era desespero, mas, uma escolha — ou talvez, mais honestamente, uma necessidade inscrita em sua própria natureza.
Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo — sempre o desejo — de seguir adiante.
Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.
E ali, sob o olhar invisível de Nix, senhora do mistério e do silêncio, Velian seguiu.
Como sempre.
Como nunca deixaria de ser.
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
8 - Quando a ciência se cala, Deus fala
Estás aí, ó grande Rei dos reis, | entre as paredes deste castelo sepulcral? | Tua infinita sabedoria, ó Cientista do Universo, | penetra as muralhas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
10 de outubro de 1870.
Estás aí, ó grande Rei dos reis,
entre as paredes deste castelo sepulcral?
Tua infinita sabedoria, ó Cientista do Universo,
penetra as muralhas mágicas onde hoje habito?
És santo e sagrado o bastante para isso?
Pois se és, ó Senhor da infinita misericórdia,
eu rogo, eu imploro, pelo teu poderoso perdão.
Tuas pobres ovelhas, fui eu quem atraiu.
Com voz doce, chamei-as ao altar do carrasco.
Prometi salário, dei-lhes sepulcro.
Vendi minha alma por promessas de um homem
que se dizia mestre — e era coveiro.
Desejava ser médica, divina entre os mortais...
e tornei-me discípula do profano.
O hematoma em meu pescoço,
limo do pacto pecaminoso sob minh’alma.
Uma vida ilibada eu manchei,
concordando com suas equações pecaminosas
em monstro eu me transfigurei.
Tu me julgas digna de tua vingança — ou perdão?
Ou serei pó amaldiçoado à margem de tua criação?
Privada de meu pai, em nosso casebre o demônio me encontrou,
um mestre-deus da ciência que, em troca da minha decência,
sob o facho do arco voltaico da medicina — me exibiu.
Todos admiravam nossa inteligência: o mestre e sua pupila devota.
Tu me alçaste aos livros, me pagaste e me acolheste.
Entre as paredes da universidade: tua pupila aplicada.
Entre os lençóis de teu quarto: o velho amante aceito em silêncio.
A morte de Eleanor foi tua segunda máscara que caiu,
e em silêncio te entreguei a minha amiga mais cara.
Além de barregã, agora eu também era assassina.
Depois dela, outras seguiram para o vale da sombra da morte...
Quem dera eu ter essa sorte, pois minha vida tu já tomara...
Zombavas da morte, ser o mestre-deus da ciência não te bastava!
Teu saber te enlouqueceu — e tu quiseste o trono d’Ele.
Liberta-me, ó Deus, da cela onde eu mesma me enclausurei.
Perdoa-me se ouso proferir Teu nome,
pois arrasto o pesado cajado da morte em minha confissão.
Prostro-me, temerosa, diante de Tua justa punição,
mas anseio, por meio dela, o meu sagrado perdão...
Por favor, por favor... se Teus divinos olhos este castelo alcançam,
venha salvar a Tua mais humilde serva da escuridão
Rogo do negro e profundo umbral, ergo o olhar além do véu.
Tudo aquilo que a ciência sequer alcançou...
isso tudo repousa sob o eterno toque de Deus.
Tu és alfa, e tu és ômega.
Em mim a mácula reside, no Teu abraço a remissão.
Eu ignoro o meio de como me perdoar,
mas em Teus olhos brilha a luz da salvação.
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Desintegração
Os ossos doem, | Gélidos. | O último abraço | Arrancou-me a pele. | A carne, | Outrora viva, | Longe do corpo | Apodrece…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Os ossos doem,
Gélidos.
O último abraço
Arrancou-me a pele.
A carne,
Outrora viva,
Longe do corpo
Apodrece.
Não foram as lágrimas
Que me martirizaram,
Tampouco a solidão,
Amiga inseparável.
O vazio que há em mim
Me devora,
Consome minha alma,
E a tristeza transborda.
A dor do corpo,
Do espírito,
O nada...
A melancolia tormenta,
Mas também me embala.
Ana Kelly
Ana Kelly, natural de São Paulo (SP), é poeta, escritora, contista e artesã, sócia-proprietária da loja de acessórios e artigos alternativos, Ivory Fairy. Tem poemas e contos publicados como co-autora em diferentes antologias. No ano de 2009 recebeu o prêmio de 1º lugar, em um concurso de poesias do tema “Natureza”, do Projeto Chance... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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A Queda de Asmodeus
Algum tempo antes de se tornar demônio, Asmodeus foi homem. Rei de Sodoma e de Gomorra, senhor absoluto das cidades gêmeas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Algum tempo antes de se tornar demônio, Asmodeus foi homem. Rei de Sodoma e de Gomorra, senhor absoluto das cidades gêmeas, cuja opulência rivalizava com os próprios palácios celestiais.
Nascido de ventre nobre, Asmodeus era belo, inteligente e dotado de uma voz que dobrava vontades como o ferro ao fogo. Sob sua liderança, as cidades floresceram, mas não pela justiça e, sim, pela transgressão. Ele compreendeu cedo que o coração humano ansiava mais pelo prazer do que pela virtude, mais pelo caos do que pela ordem.
Ergueu templos onde a carne era louvada, onde o vinho corria mais que a água e onde os juramentos se quebravam como ramos secos sob o peso da luxúria. Criou leis que celebravam o excesso e puniam a piedade. Fez-se adorado como um deus, e por sua ordem, todos os cultos a Yahweh foram banidos.
Asmodeus acreditava ter vencido os céus. Mas Yahweh o observava.
Foi então que três viajantes chegaram aos portões de Sodoma. Vestiam-se como andarilhos comuns, cobertos de poeira e luz. Mas seus olhos brilhavam com uma intensidade que denunciava o eterno por trás da carne. Eram eles: Miguel, o Guerreiro; Gabriel, o Mensageiro; e Rafael, o Curador.
Foram conduzidos ao palácio sob ordem do próprio rei — curioso com aqueles que ousavam atravessar as terras de Sodoma sem temor ou reverência.
No salão de colunas de mármore e tapeçarias carmesim, Asmodeus os recebeu questionador em seu trono elevado. Seu sorriso era cético. Seus olhos, provocadores:
— Dizei, estrangeiros — disse o rei —, que deus vos envia a este lugar que os céus esqueceram?
Miguel falou primeiro, com voz grave como o trovão:
— Não é o céu que esqueceu Sodoma. Foi Sodoma que cuspiu no céu.
Gabriel avançou, dizendo:
— Yahweh nos envia e trazemos uma advertência, ó rei de prazeres. O tempo do juízo se aproxima. Ainda tens escolha. Ainda podes deter o caos.
Rafael, com compaixão nos olhos, completou:
— Abandona teus ídolos. Rejeita tua vaidade. Liberta teu povo do culto à carne. Yahweh é justo e também misericordioso.
Asmodeus levantou-se. Por um instante, o salão silenciou. Mesmo os nobres decadentes que o cercavam sentiram a tensão. Ele então proferiu:
— Misericórdia? E que misericórdia há em um deus que castiga por amor livre, por desejos naturais, por homens que recusam a culpa?
Miguel estreitou os olhos:
— Não é o desejo que condena. É a perversão do sagrado. Tu criaste uma nação sem alma.
Asmodeus, já inflamado, disse:
— Alma? A alma é uma corrente forjada pelos fracos! Eu dei liberdade a este povo. Transformei o sofrimento em prazer. Queimem os céus, se quiserem, Sodoma não se curvará!
Então Gabriel pronunciou a sentença:
— Assim será. Que teu nome se consuma com tuas cidades, a menos que te arrependas — agora. Esta é a última palavra.
Mas Asmodeus os expulsou do palácio. Ordenou que fossem perseguidos pelas ruas, humilhados, feridos — mas os anjos desapareceram diante dos olhos dos soldados, como se nunca tivessem pisado ali.
Naquela noite, o céu abriu-se com rugidos antigos. Fogo e enxofre começaram a cair como estrelas em fúria. Os templos desabaram. Os gritos de prazer viraram gritos de pavor.
Asmodeus, em sua torre, viu tudo ruir. Correu até o topo, gritou aos céus, não por arrependimento, mas por orgulho ferido:
— Maldito sejas, Yahweh! Se me negas tua criação, então que o abismo me aceite!
E o abismo respondeu. Asmodeus olhou para a escuridão, e dela surgiu Lúcifer.
O Portador da Luz estendeu a mão, e com ela fizera um pacto; poder eterno em troca da alma. Um novo trono — não entre os homens, mas entre os condenados.
Asmodeus, à beira do fim, sorriu. Aceitou.
Seu corpo mortal foi consumido pelo fogo de Yahweh, mas sua essência foi arrancada antes da destruição total. Levado por Lúcifer às profundezas do inferno, renasceu como demônio. Seus olhos, antes humanos, tornaram-se brasas eternas. Sua voz, agora, seduzia até os anjos caídos. E seu nome ecoou entre os salões do Inferno como um novo Príncipe.
Asmodeus, o Rei das Cidades Perdidas. O Patrono da Luxúria. O que desafiou Deus. E sobreviveu.
Desde então, cada vez que a vaidade de um homem desafia o céu, quando um líder usa seu povo como espelho de sua própria decadência, Asmodeus sorri do fundo do abismo, recordando-se do trono que perdeu. E do inferno que ganhou.
Thais Gomes
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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23. Diário da Irmã da Ordem II
Fui convocada para uma missão, irmã Teodora me entregou um pergaminho com um nome, não me deu nenhuma explicação, nenhuma justificativa…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 8 de julho de 1374
Fui convocada para uma missão, irmã Teodora me entregou um pergaminho com um nome, não me deu nenhuma explicação, nenhuma justificativa, apenas o nome, o destino e uma ordem: “Elimine-o sem deixar rastros”. Dessa vez não era um ambiente controlado, eu iria sozinha para o mundo real, não fiz nenhuma pergunta, apenas fui completar minha missão. Cheguei à cidade e faz meses que não caminho entre os vivos, e depois de tanto tempo longe, eles parecem tão frágeis e distraídos. Meu alvo era um mercador rico e influente, mas aparentemente insignificante, então não posso perder tempo analisando os vivos, quando a ordem quer a sua morte, mas acho que ele deve ser algo mais do que parece, mas não cabe a mim perguntar. Passei o dia observando, ele almoça sempre na mesma taberna, sempre escolhe as mesmas bebidas, tem um guarda-costas que parece depender demais da força bruta, mas acredito que seja descuidado, já percebi ele se distraindo com as belas moças que servem as bebidas. Se eu quisesse poderia acabar com ele ali mesmo, mas não posso deixar rastros, preciso ser cuidadosa e fazer parecer um acidente.
Data: 13 de julho de 1374
Troquei as garrafas na taverna, o mercador vai beber o vinho envenenado essa noite, não irá fazer efeito na hora, apenas dará a ele uma leve indisposição, o suficiente para fazer com que volte para casa mais cedo. O veneno real vai estar no chá que seu criado prepara para ele antes de dormir, pela manhã quando o encontrarem ele já estará morto, o médico vai declarar falha no coração, nada de suspeito, nada que leve até mim ou a ordem.
Data: 14 de julho de 1374
Ele está morto e ninguém suspeita, volto para ordem hoje à noite.
Data: 3 de setembro de 1374
Os jardins da abadia são muito bonitos à noite, há diversas flores que possui, mas há algo nos crisântemos, na forma como desabrocham, no aroma, no formato deles que me é muito agradável. Algumas das flores daqui duram apenas uma estação, depois se tornam irrelevantes. As pessoas também são assim, algumas são tão fascinantes por um tempo e depois se tornam tão sem importância. Logo precisarei de uma nova missão, algo novo para tornar o mundo mais vivido.
Data: 6 de setembro de 1374
A lua hoje estava cheia e muito brilhante, iluminando o jardim da abadia com seu brilho, eu senti algo a admirá-la, um vestígio de emoção que se manteve em mim por longo tempo, isso é raro. Talvez aqui na ordem sempre haja algo que possa me surpreender, “rezo” para que sim.
Data: 3 de outubro de 1374
Irmã Teodora me deu mais uma missão, dessa vez num vilarejo, uma cria vampírica estava causando terror nesse pequeno vilarejo depois que fugiu de seu covil, após seu mestre ser morto por mercenário descuidado. O vilarejo fedia a sangue, caminhei por entre as casas de madeira, procurando minha presa, eu podia ouvir o choro abafado por detrás das portas trancadas, os habitantes sabiam que havia um monstro entre eles, eles só não sabiam onde estava ou onde espreitava. Não precisei procurar muito, pois ele fez o que todos que confiam demais na imortalidade fazem, foi descuidado. então segui seus rastros, uma mulher com a garganta dilacerada caída na entrada de um celeiro e um homem morto ainda segurando um amuleto sagrado de ferro, como se isso pudesse protegê-lo de algo, e mais à frente encontrei o monstro.
Uma cria vampírica novata, nem mesmo era um bom predador ainda, somente uma coisa faminta e sem controle. Podia me ver nele e quase sentir uma pontada de empatia, era isso mesmo, empatia. Ele estava ajoelhado sobre um corpo, bebendo desesperado. Eu me aproximei em silêncio e era tarde demais quando ele me ouviu. Quando ergueu a cabeça eu vi o terror em seus olhos, as irmãs da ordem causavam isso, alívio para os humanos, terror para os monstros. Ele tentou fugir, mas não lhe dei tempo, com meu punhal rasguei sua garganta, cortando um grito antes que ele saísse, o sangue escorreu, ele se debateu, tentou segurar o corte e se afastar, em vão. O joguei no chão e me ajoelhei sobre ele, meu peso sobre o corpo dele enquanto se contorcia, o punhal dessa vez no seu coração, encontrando caminho em meio a algumas costelas, como eu aprendi com irmã Teodora, senti o osso ceder sob a lâmina e pude ouvir o estalo da sua costela partindo, seus olhos arregalaram, e por um instante pude apreciar o puro pavor nos olhos dele. E então acabou, apenas cinzas.
Fiquei no vilarejo para ajudar seus habitantes a enterrarem seus mortos e oferecer os ritos fúnebres para dar paz às suas almas. Eu os ajudei, mas via nos olhos de cada um o medo do monstro que eu era, talvez eu tenha me excedido demais ou mostrado prazer demais ao matá-lo, não sei dizer. A voz em minha mente sussurrou algo naquela noite, não era fome, vontade ou desejo, mas um “obrigada”, ela estava satisfeita. Então por hoje minha vontade está silenciada.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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H. P. Lovecraft – O Arquiteto do Indizível
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo mais antigo e mais forte de medo é o medo do desconhecido.”
— H. P. Lovecraft, “O Horror Sobrenatural na Literatura”
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico.
Criado por sua mãe e avô após a internação e morte de seu pai, Lovecraft encontrou nos livros, nas ruínas vitorianas da Nova Inglaterra e nas vozes do passado (Poe, Dunsany, Chambers) os pilares de sua torre gótica. Desde muito jovem, encantou-se pela ciência, pela astronomia e pelo arcabouço invisível da realidade — ainda que sempre pairasse sobre ele a sombra da instabilidade mental.
Os Tentáculos do Horror Cósmico
Lovecraft não escrevia apenas histórias — ele invocava atmosferas. Não há em sua literatura o vilão clássico, nem o terror fácil do sangue: o que aterroriza é o limite da sanidade, a vastidão impiedosa do cosmos, a presença de seres tão antigos que a própria linguagem é inútil para descrevê-los. Ele chamava isso de “horror cósmico”.
Seus contos mais célebres — como O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, A Cor que Caiu do Espaço, O Caso de Charles Dexter Ward e O Sussurro nas Trevas — compõem o que hoje conhecemos como Mitologia de Cthulhu, um panteão de entidades insondáveis: Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath... nomes que não pedem compreensão, mas silêncio reverente.
Estes deuses não são malignos — são indiferentes. E essa indiferença é o terror maior: o homem não é o centro do universo, mas um ponto irrisório num caos sem propósito.
O Estilo: Arcaísmo e Atmosfera
Lovecraft escrevia como um antiquário da linguagem, com frases longas, palavras rebuscadas, e uma preferência por termos como eldritch, gibbous, cyclopean e tenebrous. Muitos o acusaram de excessivo, mas há beleza no excesso — especialmente quando o objetivo é evocar o indizível.
Ele evitava diálogos extensos, preferia narrações em primeira pessoa, e muitas vezes o horror se dava fora de cena — algo pressentido, mas jamais completamente visto. É um terror mais filosófico que visceral. Sua escrita evoca a vertigem daquilo que jamais seremos capazes de compreender.
Racismo e Sombras Biográficas
Não se pode falar de Lovecraft sem encarar o espelho sombrio de sua alma: ele era profundamente racista. Seus textos e cartas trazem visões xenófobas, elitistas e excludentes, fruto de seu tempo, sim, mas também de suas convicções pessoais. Ele temia o “outro” tanto quanto temia o universo. É doloroso, mas necessário, reconhecer isso — para que possamos ler sua obra com lucidez e senso crítico, sem encobrirmos suas falhas humanas. Aqueles que não lêem Lovecraft por esta razão, não sabem o quão importante é entrarmos em contato com as verdades obscuras do passado, para não as repetirmos os mesmos erros no futuro. Além disso, o quanto devemos separar a obra de seu autor? Esta é uma pergunta viva que devemos colocar sempre em questão; para mim, no caso específico do Lovecraft, quando suas características racistas aparecem nos textos, é profundamente desconfortável; talvez aí esteja o principal horror de suas obras.
Legado Imortal
Lovecraft morreu pobre, com poucos leitores. Mas o tempo, esse devorador de almas, fez justiça póstuma: hoje, ele é reconhecido como o pai do horror moderno. Influenciou Stephen King, Neil Gaiman, Clive Barker, Alan Moore, e ressoa em filmes (O Enigma de Outro Mundo, Alien), jogos, HQs, RPGs e até canções.
A cidade imaginária de Arkham, o livro proibido Necronomicon, os cultos sussurrantes, as criaturas informes — tudo isso se tornou parte do imaginário ocidental, como um evangelho profano.
Epílogo: Diante da Escuridão Insondável
A obra de Lovecraft nos devolve o olhar de uma criatura insignificante diante da eternidade, lembrando-nos de que o universo não foi feito para nós, e talvez jamais nos note.
Penso que, mesmo sabendo que somos poeira, ainda escrevemos, ainda sonhamos, ainda trememos sob as estrelas. Isso é inestimável e, talvez, nos conecte com toda a poderosa forma cósmica que não somos capazes de compreender.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Le Combat des Âmes Fidèles - O Combate das Almas Fiéis
Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Anton S. Miahi – Capítulo XXVII
(Escrito em meu Diário)
"Dei um passo à frente. A batalha me chamava.
E meu sangue... já começava a fervilhar."
Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira, começou a vibrar de modo antinatural, contorcendo-se com uma raiva que não pertencia à carne humana. Era uma aberração em nascimento. Algo inumano, um filho de trevas e necrose.
A cruz que Monm me entregara, ainda no quarto de vigília, jazia em meu pescoço, sob a camisa rasgada pelo tempo e pela guerra. Ela ardia em meu peito como se pressentisse o mal.
Monm, sem hesitar, cravou uma de suas longas adagas no coração da criatura e, em um movimento certeiro, separou-lhe a cabeça do corpo com a outra lâmina curva. O som foi o de um graveto partido sob os pés da justiça.
Observei em silêncio. A cena me arrebatava não por repulsa, mas por uma fascinação sombria.
— Já vi essas coisas antes, Anton. São ghouls. Não estamos só com humanos aqui dentro. — Sua voz era calma e firme, como a de quem aprendeu a reconhecer a noite pelo cheiro. — O vampiro que o matou busca cervos que não pensam.
— Certo. Temos vampiros... ghouls... e o que, em nome do inferno, são essas coisas, Monm? — indaguei em voz baixa, uma raiva latejante crescendo com a curiosidade.
— Aberrações, criaturas de um mundo que Deus está tentando esquecer. Mas nós ainda estamos aqui para lembrá-Lo.
A resposta me atravessou como um salmo distorcido. Cruzamos a porta com a cautela de pecadores num santuário profanado.
O salão se abriu diante de nós como a barriga aberta de uma besta adormecida. Era amplo, tomado por caixas empilhadas, mesas de madeira carcomida, cadeiras tombadas. Um portão no lado esquerdo permitia a entrada de água barrenta e de um sol amarelado, espectral, como se brilhasse de um mundo distante.
Do lado oposto, em meio a um semicírculo de corpos, erguia-se uma criatura dos pesadelos da infância. Caminhava sobre duas pernas, mas nada nela era humano. Devia medir mais de 2,40 metros. Os braços longos terminavam em garras que brilhavam como facas rituais.
A cabeça era ornada por brânquias pulsantes. Os olhos, negros, tinham íris cor de jade. Em suas costas, três apêndices semelhantes a guelras aladas, mas retorcidas, exalavam uma névoa verde-musgo que sussurrava orações num dialeto perdido, talvez náuatle, talvez infernal.
— Anton, a criatura está em vantagem. — sussurrou Monm. — Vamos avançar por trás daquelas caixas.
Assenti em silêncio. Rastejamos como sombras famintas.
Do esconderijo, observamos. Quatro ghouls, espectros de carne mordida e alma ausente, enfrentavam a fera. Tinham olhos turvos, unhas roxas e dentes gastos de tanto roer os mortos. Avançavam com fúria cega, mas sem coordenação divina. A criatura se movia com uma elegância brutal, uma dança de terror e sobrevivência.
Um ghoul foi partido ao meio com um golpe vertical. O outro teve o crânio esmagado pela garra esquerda. Os dois restantes tentaram contornar o monstro, mas a névoa os alcançou. Era um veneno de alma, drenava vontade e luz. Caíram de joelhos, como penitentes corrompidos.
— Aqueles são vampiros poloneses. — sussurrou Monm. — Provavelmente membros do clã Zmora. Eles dominam o miasma e a mente. Têm agilidade acima do comum, e suas lâminas cortam através da fé. Um deles, o de cabelo branco, é Kazimierz. O outro é Dawid, usa duas rapieiras.
Antes que eu pudesse responder, um dos ghouls foi arremessado em nossa direção, revelando nossa presença. O inferno nos acolheu de vez.
Erguemo-nos. As armas, encontradas por acaso num armário durante a noite em que Monm e Siehiffar me resgataram, já estavam em nossas mãos ao entrarmos no armazém. Monm empunhava suas duas adagas longas de prata, e eu segurava firmemente uma rapieira negra de origem desconhecida, também achada naquele momento. Quando o corpo do ghoul foi arremessado para junto de nós, perdemos as armas por alguns segundos no impacto. Mas logo as recuperamos, firmando posição como sentinelas diante da tormenta. Os vampiros nos encararam como caçadores observando uma presa que ousa se armar.
Kazimierz veio primeiro. Deslizou pelo chão com graça férrea. Saltou, girando no ar, e tentou um golpe diagonal com sua adaga de osso. Bloqueei por um triz. A força era assombrosa. Respondi com uma estocada ao flanco, mas ele evaporou em sombra e reapareceu atrás de mim.
— Anton! Cuidado com as ilusões dele! — gritou Monm, lutando com Dawid, que duelava como um dançarino sacrílego.
Monm esquivava-se com maestria. Uma rapieira o raspou no ombro, e ele respondeu com uma adaga cravada na coxa do inimigo. Dawid uivou, o som foi o de vidro estilhaçado por dentro.
Kazimierz tentou morder-me. A cruz sob minha camisa brilhou, e ele hesitou. Aproveitei. A rapieira cortou-lhe o rosto da sobrancelha ao maxilar. Ele recuou, cuspindo sangue negro e blasfêmias em latim corrompido.
— Você ainda reza, humano? — cuspiu.
— Não. Mas minha espada sim. E ela foi batizada.
Golpeei com toda minha força. Kazimierz desviou, mas não viu Monm vindo por trás. Uma das adagas cravou-se em sua nuca. Kazimierz caiu de joelhos. Com um grito, cruzei minha lâmina com a de Monm e decapitamos o maldito.
Dawid, ao ver o fim do irmão, recuou. Mas Monm, agarrando uma perna de cadeira quebrada que jazia próxima a ele, lançou ao chão um punhado de sal marítimo — remanescente de uma das caixas estilhaçadas nas lutas anteriores. O vampiro gritou. Suas pernas queimaram. Corri, saltei, e cravei minha rapieira — não herdada, mas encontrada por acaso como as armas de Monm — em seu peito. Monm finalizou com a estaca improvisada, direto no coração.
Ambos tombaram. O salão silenciou por um instante, até que uma voz gutural rasgou o ar com força ancestral:
— Váš svět se lembrará de mim! Eu sou Václav Vlk! — rugiu o vampiro, a voz mais parecendo um brado bestial do que uma frase compreensível. Não falava com ninguém em particular, mas gritava para a criatura.
Aquela cena proporcionada pelo vampiro nos deu a impressão de ser um clamor de coragem desesperada, uma tentativa de reacender em si a fúria da batalha, como se evocasse sua própria alma pelo nome. Era seu modo de desafiar o abismo com o que lhe restava de bravura.
A fera recuou, como se reconhecesse o nome. Václav, o vampiro que já estava presente desde nossa entrada no armazém, avançava com uma alabarda manchada de um líquido verde claro e tão vivo numa mão e uma pistola de pederneira prussiana na outra. Seus olhos cintilavam com um brilho febril, como de um passado que sangrava na memória da criatura.
O ser imenso começou a recuar, murmurando com insistência, como se as palavras brotassem de um passado ancestral esquecido:
— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl... Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl...
Monm franziu a testa, sua mente mergulhando em lembranças distantes.
— Anton... esse dialeto... me soa familiar. Mas não é latino. Nem é náuatle puro. O que é isso?
— "Tetl"... pedra. "Tlachinolli"... fogo. Eu li isso num códice maia esquecido, salvo pelo convento de Oaxaca. É náuatle ritual... algo sobre guerra sagrada... sobre o coração do mundo. "In cemanahuac yolotl"... "o coração do mundo inteiro"...
— E por que ele está dizendo isso?
— Porque, Monm... ele está se lembrando de quem foi. Ou do que destruiu...
O silêncio voltou a cair como um véu, denso e prenhe de presságios. E eu sabia... o verdadeiro combate ainda estava por começar.
Anton S. Miahi – Capítulo XXVIII
(Escrito em meu Diário)
Václav Vlk avançou contra o monstro com uma fúria que desafiava qualquer concepção de medo. Não havia espaço para hesitação, tampouco para pensamentos racionais. O combate apenas prosseguia, como um cântico infernal que se recusava a cessar. Por um instante, a criatura permaneceu estática, repetindo aquele mantra estranho — uma ladainha de tempos esquecidos. Monm e eu trocamos um olhar rápido, buscando decifrar o significado oculto.
Foi então que percebemos a presença de dois indivíduos ocultos, agachados próximo às caixas na esquina esquerda do portão inundado. Um deles, trajando roupas negras, tentou se mover com discrição, mas foi percebido. A criatura virou o rosto lentamente, e o vampiro também.
Num átimo, Václav dissolveu-se em névoa, reaparecendo diante do fugitivo. Antes que qualquer um de nós pudesse intervir, o vampiro exibia um sorriso sádico. Num gesto fluido, agarrou o pescoço do homem e cravou-lhe os dentes. Um grito agudo ecoou pelo salão, reverberando entre as paredes úmidas. O infeliz debatia-se, mas sua luta cessou gradualmente. O sangue cessou de fluir.
Sim. Ele estava morto.
Monm e eu partimos em direção ao vampiro. Por um instante, minha mente esqueceu a fera ao lado direito. Esse lapso foi imediatamente punido: uma mão colossal me atingiu com brutalidade, lançando-me contra uma pilha de sacos de arroz e caixas despedaçadas. Senti as costelas rangerem.
Václav riu, limpando os lábios com o dorso da mão.
— Que pena, Monm... pensei que viesse com palavras santas. Mas tudo o que vejo são punhais e arrogância.
Monm não respondeu com palavras, mas com um salto fulminante. Suas adagas cintilaram sob a luz turva do galpão. Václav bloqueou o primeiro golpe com a lâmina da alabarda, girando o corpo com leveza, como se dançasse. A arma passou rente ao rosto de Monm, que se abaixou, deslizando por baixo da guarda do inimigo e desferindo um chute na perna do vampiro. O estalo foi seco, mas Václav mal se moveu.
— Já fui caçado por inquisidores, Monm. Você não é o primeiro... e, convenhamos, também não será o último.
— E ainda assim continua vivo. Deve ser frustrante para o inferno te ver de volta toda noite — retrucou Monm, arremetendo com a adaga da esquerda, mirando o ombro. Václav aparou com o cabo da alabarda, recuou e, com a pistola de pederneira na mão livre, disparou.
Monm rolou para o lado, o disparo arrancando faíscas das pedras do chão. Ele se lançou por cima de uma mesa caída, chutando uma cadeira em direção ao vampiro, que a partiu em dois com a lâmina. Antes que pudesse recuperar o fôlego, Monm já estava sobre ele, desferindo uma série de estocadas com precisão cirúrgica.
— Tua dança está velha, Vlk. Seus passos já não assustam ninguém.
— Ainda assim, fazem sangrar! — gritou Václav, golpeando com a haste da alabarda, acertando Monm no flanco. O som de carne e osso sendo atingidos me fez estremecer.
Mas Monm apenas sorriu, com os dentes cerrados.
— Isso doeu. Mas agora... é minha vez.
Num movimento inesperado, Monm agarrou o pulso do vampiro, torceu-o e cravou a adaga na articulação. Václav urrou, deixando cair a pistola. Um golpe certeiro no queixo, e o vampiro cambaleou. Monm chutou seu peito, lançando-o contra uma coluna. A alabarda caiu. Václav se ergueu com dificuldade, o rosto emoldurado por sangue e ira.
— Isso... é por cada alma que você devorou — sussurrou Monm, avançando como um anjo vingador.
Enquanto o combate continuava, tentei me erguer entre a poeira e o arroz espalhado. A dor irradiava das costas e ombros como brasas sob a pele, mas havia uma centelha de gratidão em mim: benditos sejam os sacos de arroz.
Ao virar o rosto, vi um jovem de traços juvenis — talvez quinze anos, ou um pouco menos. Tremia, choramingava, e fazia preces em alemão — palavras que reconheci vagamente de minha infância em Sevilha, quando um velho tutor luterano me ensinava os ecos esquecidos de salmos germânicos, como relíquias de um passado que se recusava a perecer.
Aproximei-me devagar, sem ameaçar.
— Junge... Junge, bist du verletzt? (Garoto... você está ferido?)
Ele olhou para mim com olhos arregalados. Estava pálido como um cadáver recente, mas vivo.
— Ich... ich weiß nicht... sie haben uns geholt... sie... — Ele começou a soluçar, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas.
— Calma... estás seguro por ora. Qual é o seu nome?
— Friedrich. Friedrich Kröger... Ich bin aus Lübeck... (Sou de Lübeck...)
— Friedrich, ouça-me. Você precisa sair daqui. Há uma porta nos fundos. Quando ouvir um estouro — corra. Monm e eu vamos manter essa coisa ocupada.
Ele assentiu lentamente, os lábios movendo-se em oração muda. Seu corpo era só medo, mas os olhos — havia fé neles. Uma fé ainda não devorada.
E naquela hora, percebi que não lutávamos apenas contra carne e ossos distorcidos. Lutávamos para salvar os que ainda lembravam como orar.
Foi nesse momento que a fera urrou, um grito gutural que reverberou nos ossos: não era uma palavra comum, mas um nome — o dele mesmo, urrado com fúria primal.
— Nēhuatl Aloxōtl... Tlāltikpak tzitzimitl! — bradou a criatura, em um dialeto ancestral que escapava das dobras do tempo.
A criatura tornou a rugir, reafirmando seu nome como quem sela a própria maldição:
— Nēhuatl Aloxōtl... in nemiliztli cualli, in miquiztli tlachinolli!
Logo após, num bramido carregado de uma dor que parecia milenar, sua voz rompeu mais uma vez o ar saturado:
— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl!
— Isso foi... nahuatl? — perguntei, franzindo o cenho, tentando vasculhar a memória por aquela cadência extinta.
A criatura tornou a rugir, como se se recordasse de sua própria maldição: — Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl! — bramiu com raiva quase febril.
— "Pedra e fogo... o coração do mundo... não foi ofertado..." — murmurei, traduzindo de forma tosca e instintiva, com um nó na garganta.
Monm girou o rosto, os olhos arregalados.
— Aloxōtl... ouvi esse nome numa ruína perto de Tenochtitlán. Era um espírito de destruição. Um condenado. Um ser que não devia estar aqui.
— Pelo que li em manuscritos antigos — sussurrou Monm, quase em reverência —, não se trata de um deus, mas de algo que ousou aspirar à divindade. Uma entidade do submundo asteca, forjada nos confins insondáveis de Mictlán. Durante um ritual arcaico, o sacerdote incumbido do sacrifício final hesitou, e nesse instante de fraqueza, o processo foi interrompido. Em vez de ascender ao plano dos deuses, a entidade se amalgamou à carne de seu invocador — um sumo sacerdote já corrompido pela ambição e pelo sangue. Desde então, vagou pelas fronteiras da existência, presa entre mundos, entre o éter e a matéria. Forças ocultas, possivelmente ligadas a ritos de translocação do Velho Mundo, o arrancaram de seu tempo e o lançaram para cá, como uma relíquia maldita do México ancestral, retida entre o ontem e o eterno, entre a morte e a memória sagrada.
A criatura urrava para o vazio: uma besta tentando lembrar a si mesma de que ainda existia — ou, talvez, anunciando sua danação ao mundo. Václav hesitou por um breve instante, distraído pela súbita irrupção daquela brutalidade animalesca.
Monm, atento como um lobo à espreita, percebeu a brecha. Estava de frente comigo, tendo o vampiro entre nós. A criatura se encontrava à esquerda de Václav, a mais de dez metros, ainda imersa em sua fúria desgovernada. Aquela era a chance. Nossos olhos se cruzaram, e sem necessidade de palavras, compartilhamos um plano silencioso: era preciso agir com rapidez. Com um leve movimento de cabeça, Monm sinalizou que, a qualquer momento, eu deveria correr.
Václav então se voltou para a criatura, em tom zombeteiro:
— Quem és tu, besta? Um espírito faminto preso em carne e osso? Um cão molhado rosnando contra os vivos? Esperava mais de um espectro milenar!
A criatura respondeu com um grunhido gutural, o som de séculos de ódio condensado em um só instante. Monm, sem perder o ritmo, rebateu com sarcasmo:
— Cuidado, Vlk... alguns cães mordem mais forte que o inferno.
Enquanto a tensão crescia entre as feras, deslizei pelas sombras, cada passo sussurrando segredos ao chão. Mas o monstro percebeu. Seus olhos faiscaram com fúria repentina. Num rompante animalesco, lançou-se contra mim.
O impacto foi devastador. Rolei para o lado, escapando por pouco das garras que despedaçaram o solo. A criatura girou com velocidade absurda, mas eu já me esgueirava entre colunas e destroços. Era a dança do desespero.
Monm aproveitou o momento. Saltou sobre um caixote, alavancando o próprio corpo com as duas lâminas empunhadas. Ignorando a fera, lançou-se diretamente contra Václav Vlk, mirando-lhe a garganta com precisão mortal. Um golpe que teria sido fatal — se Vlk fosse um homem comum. Ao aterrissar, Monm ficou perto demais do monstro, que girou com brutalidade e o lançou contra uma pilastra com um baque seco. Mas ele se levantou, os olhos ainda fixos em Vlk. Era ali que residia o verdadeiro perigo.
Enquanto isso, avancei com ele, olhos cravados na figura do vampiro.
Friedrich, o jovem alemão, permanecia em silêncio, oculto nas sombras, até que recebeu um sinal sutil de minha parte: quando chegasse o momento certo, deveria correr.
Vlk, com seu sorriso cruel e presunçoso, continuava a provocar a fera, divertindo-se com o caos.
— Essa tua arrogância vai te enterrar mais fundo do que essa criatura, Václav — retrucou Monm, sem vacilar.
A fera, enlouquecida, desviou seu olhar em minha direção, captando o rastro dos meus movimentos furtivos. O instinto selvagem tomou o leme; o pouco de controle que ainda restava se desfez.
Num novo surto de fúria, a criatura investiu contra mim. Esquivei-me com precisão treinada — cada gesto ensaiado como um ritual de sobrevivência. E o combate explodiu como um trovão em plena catedral: brutal, frenético, cruel.
Lutávamos: carne contra garras, aço contra ossos. Minha lâmina rapieira feria, desviava, provocava — açoite de precisão em meio à selvageria. Os dentes da besta rasgavam o ar, tentando encontrar minha carne, mas seus ataques falhavam por um fio de segundo, desviados pelo instinto que a dor e o medo haviam aguçado em mim. Ao fundo, Monm, já de pé, avançava novamente contra Václav Vlk, forçando o vampiro a recuar entre imprecações sibilantes e risos ácidos como fel.
A batalha era uma tempestade viva: o cheiro metálico do sangue e da carne queimada flutuava no ar, entrelaçado ao som de passos frenéticos e urros que pareciam brotar das entranhas do próprio inferno.
Friedrich, os olhos arregalados como espelhos de pavor, aguardava — só aguardava — o instante certo para fugir, enquanto ao seu redor o destino se desenrolava em aço e sombras. Sinalizei com um gesto firme, apontando a porta estilhaçada pela colisão com o cadáver do ghoul. Sem hesitar, ele correu. Não olhou para os lados, não gritou, apenas correu, com a alma cravada no instinto de sobrevivência. Ele realmente queria viver.
Não que Monm e eu não desejássemos o mesmo — mas sabíamos demais. Estávamos presos àquele lugar por laços que transcendiam o medo: honra, missão... ou maldição.
Movi-me entre pilhas de caixas, escombros e colunas rachadas, buscando uma posição vantajosa. Quando encontrei um ponto seguro de onde pudesse agir, sinalizei ao meu aliado. Monm captou o gesto, e então — como um maestro no ápice de sua sinfonia — investiu contra o vampiro com uma série de ataques fulminantes. Seus golpes eram rápidos e certeiros, movendo-se com a precisão de um guerreiro treinado além do tempo. Vlk, por sua vez, desviava-se com a graça de um predador antigo, empunhando uma alabarda com uma fluidez quase coreográfica.
Foi nesse instante que percebi algo além. O vampiro começara a recitar palavras em um idioma antigo, estranho e profundamente blasfemo. As vibrações desse discurso pareciam rachar o próprio ar. E então, surgiu uma nova presença.
Sentado sobre um monte de caixas quebradas, havia um ser cadavérico. Usava o que parecia uma coroa retorcida, um cajado disforme nas mãos esqueléticas, e vestes que lembravam restos de veludo cerimonial misturado a mortalhas profanadas. Sua pele era fina como pergaminho seco, e seus olhos... vazios, gélidos, observavam a cena com a paciência de um juiz das eras.
Não havia tempo para contemplações. Voltei-me para o vampiro justo no momento em que Monm me fez novo sinal. Sem palavras, compreendi: o ataque final viria agora.
Monm investiu com fúria controlada. Suas duas adagas riscaram o ar em movimentos oblíquos e alternados, forçando Vlk a recuar até a grande mesa redonda que jazia no centro do salão em ruínas. A madeira rangeu sob seus pés. O vampiro tentou usar a alabarda, mas Monm a prendeu com um giro acrobático de uma das lâminas, enquanto a outra ameaçava sua garganta — travando-o por um instante precioso.
Aproveitei. Lancei-me com toda a força contra o flanco do inimigo. O impacto o desequilibrou — e foi o bastante. Monm saltou, girando no ar como uma sombra viva, e desferiu o golpe final: um corte horizontal que atravessou o pescoço de Vlk. O som foi abafado, como se o tempo se comprimisse ao redor do aço. A cabeça tombou com um baque surdo, rolando pela mesa antes de cair ao chão, estalando contra as pedras como um cálice profano.
O corpo do vampiro ainda estremeceu, como se tentasse agarrar os últimos instantes de uma eternidade roubada. Depois, tombou — e a escuridão ao seu redor pareceu estremecer com seu fim.
Ofegantes, Monm e eu trocamos um olhar — sabíamos que aquilo era apenas o prelúdio. Pois o ser que nos observava, imóvel, ainda não havia feito seu movimento. Mas a criatura — o monstro ancestral — também o percebeu.
Ergueu-se com violência, liberando ao redor uma nuvem de névoa pútrida e tóxica que nos obrigou a recuar alguns passos. O ar se tornava mais denso, os olhos ardiam, e o coração parecia pulsar em outro ritmo diante daquela emanação sobrenatural. Então, como se tomada por uma cólera divina, a criatura bradou seu próprio nome com voz que reverberava nas entranhas do templo:
— Aloxōtl!
E, com a mesma fúria, bradou o nome do reino que a pariu nas trevas:
— Mitclan!
Num ímpeto de fúria atávica, Aloxōtl lançou-se sobre o visitante cadavérico, suas garras envoltas pela neblina venenosa que exalava como um manto de morte. O ar vibrou com a colisão iminente. Mas o estranho se ergueu com uma calma profana, como se cada movimento seu estivesse sintonizado com os relógios do juízo. Quando a criatura alcançou seu alcance, ele ergueu o cajado, que brilhou com uma luz âmbar soturna, desviando o golpe com um arco de energia espectral. Antes que a criatura pudesse contra-atacar com as presas escancaradas, ele girou o cajado como um bastão de sentença, bloqueando a mandíbula infernal com precisão inumana. O som do impacto ecoou como um trovão abafado num túmulo selado — e a batalha transcendia agora os limites da carne, entrando no domínio das forças esquecidas.
A cena que víamos, tanto eu quanto Monm, beirava o patético — mais para nós do que para o recém-chegado. Pelo simples fato de que ele parecia não empregar esforço algum em conter o Aloxōtl.
— Ele... está brincando com ele? — sussurrei, mantendo os olhos fixos na criatura cadavérica.
Monm, limpando o suor da testa com as costas da mão, assentiu com um leve movimento de queixo.
— Parece mais uma dança que um duelo — murmurou. — Mas quem, em nome do Altíssimo, é esse sujeito?
Como se ouvisse a pergunta lançada ao éter, o ser virou-se lentamente para nós. Seus olhos, vazios como a eternidade, cravaram-se nos nossos.
— Chamo-me Tezcal — disse, a voz de barítono soando como um canto sepulcral. — Fui criado das cinzas e do lodo pantanoso do Mitclan, uma fusão sombria de elementos terrenos e divinos, infundida com o sangue de Xolotl. Sou o reflexo entre os mundos. Moldado como um intermediário entre os vivos e os mortos, minha existência tem como objetivo manter o equilíbrio no ciclo da vida e da morte.
— És um necromante? — perguntou Monm, dando um passo adiante.
— Não — respondeu Tezcal, com calma imperturbável. — Sou o eco dos que caminham sem corpo, a vigília dos que repousam em ossos. Não comando os mortos. Eu os ouço.
O silêncio que se seguiu era denso, quase sólido. Aloxōtl, apesar da fúria anterior, recuava em círculos lentos, como um animal que pressente uma força que transcende sua fúria.
— E por que agora? — perguntei. — Por que intervir presentemente?
Tezcal apoiou o cajado no chão. O som ressoou como se ecoasse nas catacumbas do mundo.
— Porque o véu entre os mundos foi rasgado. Vocês o rasgaram. E ele... — olhou para Aloxōtl, cuja névoa começava a perder intensidade — não deveria ter atravessado.
Monm cerrou os punhos.
— Vai destruí-la?
— Não — respondeu Tezcal. — Vou devolvê-lo ao sono que jamais deveria ter sido interrompido.
Tezcal começou a murmurar. Um canto em dialeto azteca, antigo como os ossos da terra, deslizou de seus lábios como uma oração invertida. Gradualmente, o sussurro tornou-se canto pleno, ressoando nas paredes com ecos que pareciam vir de debaixo da pele do mundo. O ar gelou — não com frio comum, mas com o gélido das tumbas abertas. As sombras, até então imóveis, começaram a deslizar pelo chão como serpentes, convergindo para o recitador.
Aloxōtl, num último ato de cólera, tentou investir contra Tezcal — suas garras enegrecidas pelo veneno, sua boca aberta num rugido ancestral. Mas o ambiente pesava como chumbo, e a própria matéria parecia se curvar ao rito.
— Anton... — sussurrou Monm. — Isso... isso é um ritual de banimento?
— Parece mais um julgamento — respondi, com a mão instintivamente sobre a cruz que repousava sob meu manto. E ela queimava. Queimava com um brilho índigo, como se o céu clamasse por ordem.
Tezcal então silenciou. No mesmo instante, a criatura foi tragada do chão por uma areia negra e espessa, que brotou sob seus pés como uma fauce aberta. O som era de carne sendo puxada por ganchos, de ossos esmagando vidro. O odor de carne podre, sangue envelhecido e enxofre empestou o ar. E antes que pudéssemos reagir...
— Não... isso não é apenas magia — tentei dizer, mas a frase morreu em minha boca.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Relíquia
Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O mundo parece cheio de bons homens, mesmo que existam monstros nele”. — Bram Stoker
Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a segurança da água corrente. Essa secular construção é um pequeno palacete assobradado, construído por monges ainda nos tempos medievais. Uma lenda sobre o local remonta a um período onde ainda havia uma fé fervorosa entre os homens. Segundo essa lenda, o Arcanjo Miguel – o Guerreiro de Deus – havia aparecido para dois pescadores na margem do rio e, apontando para uma ilha que ficava no meio das águas daquele caudaloso rio, lhes ordenara que construíssem uma fortaleza, que posteriormente serviria de abrigo a todos aqueles que buscassem a proteção da luz. São Miguel dissera ainda que aquele santuário, estando entre águas correntes, jamais poderia ser transposto por criaturas das trevas.
Esses dois pescadores buscaram auxílio entre os monges pedintes e, em menos de cinco anos, uma resistente fortaleza estava pronta. Contudo, a conselho dos Franciscanos, nenhuma ponte deveria ser construída, ligando as margens do rio àquela protegida ilha, onde agora havia o Santuário de São Miguel Arcanjo. Qualquer acesso a essa fortaleza só poderia ser feito através de barco ou a nado – para algum aventureiro que ousasse enfrentar as fortes correntezas do rio. Somente no final do século XIX, quando aquela fortaleza – abandonada há décadas – foi adquirida por um abastado comerciante inglês, é que uma robusta ponte foi construída, ligando a ilha às margens do rio. Esse rico burguês fez do antigo santuário uma aconchegante pousada e residência própria, para si e sua recém-formada família.
Esse comerciante falecera há alguns anos, deixando a pousada nas mãos de sua esposa e sua única filha. Há rumores que, além da suntuosa estalagem, deixara como herança uma faustosa fortuna para a esposa e a filha. A esposa, mesmo depois de mais de vinte anos de viuvez – e a cada dia com uma aparência mais juvenil – jamais tivera outro relacionamento, mesmo sendo cortejada por diversos homens de toda e qualquer tipo de classe socioeconômica. Com muita seriedade, mantinha sua castidade e o pleno respeito ao luto de uma forma literal, pois, além de sua moral inquestionavelmente ilibada, vestia negro dos pés à cabeça. Cecília era realmente um modelo exemplar de viúva. Talvez devido à sua idoneidade, ou quem sabe em respeito à memória do falecido marido, ninguém jamais a vira fora da estalagem desde que ficara viúva – alguns desocupados mais antigos asseguravam que nem mesmo antes –.
A pousada Eclipse era um lugar quente e confortável, desprovida de luz elétrica devido à sua posição geográfica; mantinha sua iluminação à moda antiga, à luz de velas e lampiões, o que dava ao ambiente um aspecto bastante lúgubre. Além dos odores comuns a todo e qualquer estabelecimento comercial do tipo, cheirava a fumaça de madeira de lei que queimava constantemente numa lareira, acesa a noite toda. Havia também no ar um agradável cheiro de flores silvestres. Era o tipo de estabelecimento que funcionava todas as noites sem exceção, servindo cama e comida, atendendo a qualquer um que pudesse pagar. Havia apenas uma peculiaridade estranha naquela estalagem: nenhum hóspede, independentemente de sua classe social, jamais era convidado a entrar. Quem quisesse adentrar em suas portas deveria fazê-lo livremente.
Aquela era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades. No céu, uma lua nova se despedia no horizonte, deixando atrás de si um céu sem nuvens, bastante estrelado. Com a ausência de seu mais nobre luminar, a noite se tornara escura e bastante traiçoeira para quem andasse às escuras sem conhecer o caminho a ser seguido, ou sem o auxílio de alguma luz artificial. A sorte de qualquer um que ousasse ir até a Pousada Eclipse era a luz dos vários lampiões ao longo da ponte, que iluminavam todo o caminho. Devido ao bom atendimento e à qualidade dos serviços oferecidos, a estalagem era sempre muito movimentada.
O homem no umbral da porta era alto, forte, mas com traços um tanto quanto melancólicos. Tinha olhos claros e distantes. Parecia um sujeito que havia tido uma vida inteira de infelicidade. Trajava vestes surradas, que em outros tempos teriam sido o ápice da moda; entretanto, pareciam estar carecendo urgentemente de uma lavagem há tempos. Essas vestes davam-lhe a aparência de ser um viajante de terras bem longínquas. Sem pedir licença, foi logo entrando e, quando se pronunciou pela primeira vez, percebeu-se que tinha uma voz cavernosa e sussurrante, com um acentuado sotaque das terras do Leste. Para quem conhecia, logo foi fácil perceber que seu principal idioma era o romani – antiga língua dos ciganos –. Contudo, sem muitas dificuldades, conseguia se fazer entender muito bem e foi logo dizendo:
– Boa noite, senhoras! – disse ele, dirigindo-se diretamente a Cecile e sua filha, como se já soubesse que ambas eram as proprietárias do local –. Gostaria de algo forte para beber. E se não for muito tarde e nem muito incômodo, um jantar seria muito bem-vindo.
Rapidamente, um conhaque fora-lhe servido. Após tomar de um único gole a dose oferecida, pediu que a garrafa – mesmo que já pela metade – fosse deixada sobre a mesa. Antes que a garçonete lhe pudesse dizer qualquer coisa, lançou sobre a mesa uma moeda de ouro, pagando adiantado um valor bem acima daquele que imaginava ser por uma garrafa lacrada. A jovem que lhe servira a bebida recolheu a moeda e disse-lhe:
– Seja bem-vindo à nossa humilde casa, cavalheiro! Meu nome é Lilian Leblanc. Aquela que atende no balcão é minha mãe. Seu nome é Cecile Leblanc. Estamos ao seu dispor para atendê-lo da melhor forma possível. Seu jantar será logo servido, nossa cozinha funciona durante toda a noite. O que mais duas humildes estalajadeiras podem lhe ser úteis? Senhor...?
– Rubens! Muito prazer. Eu estou bastante atrasado, terminando de jantar eu já vou embora. Como as coisas estão indo por aqui, madame?
– Alguns reclamam da crise aqui; outros, da seca acolá, e muitos comentam sobre uma tal de Depressão econômica. Mamãe e eu não nos importamos muito com o que acontece lá fora. Temos nossos fregueses cativos e nosso movimento é sempre o mesmo em todas as épocas do ano. Aqui, em nossa humilde casa, tudo ocorre na mais absoluta paz e quietude. Nossos fornecedores nos abastecem continuamente com tudo o que precisamos. Na verdade, há tempos que nem mesmo saímos daqui dessa ilha. Temos sempre muito trabalho por aqui.
– Depressão econômica! Mesmo que seja longa e castigante, não se deve, de forma alguma, ser comparada ao que foi a Peste Negra, a Átila, o Huno, ou a qualquer uma das Cruzadas. Independentemente dos flagelos, o ser humano tem um dom a resistir a qualquer coisa – disse ele, sorvendo mais uma dose do conhaque.
Madame Cecile, que servia outros fregueses no balcão, mas a todo o tempo prestava zelosa atenção naquele sinistro forasteiro, dirigiu-lhe a palavra pela primeira vez, o questionando:
– Que tipo de homem é o senhor? O que o traz à nossa humilde casa, senhor Rubens?
– Peço perdão se disse algo errado, senhora. Sou um humilde viajante em uma importante missão, a serviço de pessoas poderosas do lugar de onde venho. Não sou do tipo de homem perigoso. Sou apenas um viajante. Se o que eu disse ofendeu a senhora ou a essa casa de alguma forma, eu revogo imediatamente. Às vezes me excedo um pouco nas palavras, talvez porque ainda trago na lembrança os velhos costumes de quando eu ainda era professor de História em meu país. Por falar em História, gostaria de lhes contar uma bastante interessante, se permitirem. Quem sabe se, depois de ouvirem o que tenho para dizer, possam me ajudar de alguma forma.
Cecile, que era estalajadeira desde que conseguira alcançar a parte de cima do balcão, sempre acostumada às esquisitices de seus fregueses, deu de ombros, como se, para ela, alguém falando ou ficando em silêncio fosse totalmente irrelevante. Contudo, sabia que o que mais agradava a um viajante, além de uma cama macia, boa comida e bebida farta, era poder compartilhar suas estórias a quem quisesse ouvir. Naquela noite, havia uma dúzia de pessoas presentes, talvez até um pouco mais. Entretanto, a estória seria de maior interesse de mãe e filha.
O forasteiro enchera seu copo até a borda e o emborcou de um único trago. Após limpar a garganta, pediu licença aos presentes e principiou a seguinte narrativa.
– Antes de qualquer coisa ser dita, devo preveni-los que o que tenho a dizer possa parecer uma estória de viajante, ou até mesmo algum desvario de alguém desprovido de suas capacidades mentais. Mas quero que saibam que, da mesma forma que há a luz, também existem as trevas. E, se porventura acreditam em Deus e todas as hostes celestiais, também devem acreditar que haja o príncipe das trevas e seus seguidores – sendo também eles, anjos – que, junto com seu mestre, foram lançados no abismo e reinam naquele lugar onde a esperança não jaz...
... Alguns dizem que o primeiro deles foi Caim, por ter derramado o sangue de seu irmão na terra ainda virgem do pecado. A punição de Deus para esse primeiro homicida havia sido algo severo e exemplar. “... é maldito na terra e que esta não mais lhe dará frutos, sendo, portanto, fugitivo e errante...” Caim fora marcado e condenado a vagar pela terra, sendo eternamente perseguido pelos demais filhos de Adão. Pelo assassínio covarde de seu irmão, a Luz Divina abandonara sua fronte. Caim, uma vez órfão, havia sido adotado pelas trevas, sendo obrigado a viver nas sombras, tendo o sangue como seu único alimento. Uma vez que dera o sangue de seu irmão para que a terra bebesse, Caim e sua prole também assim o faria.
Outros, no entanto, defendem que o primeiro nosferatu foi Judas Iscariotes – o traidor. Aqueles que defendem essa teoria se baseiam nas próprias Escrituras Sagradas, que, ao mesmo tempo que está escrito que Judas, estando amargamente arrependido por ter vendido seu próprio Mestre, atentara contra sua própria vida, há rumores de que a morte – privilégio para todos aqueles que buscam conforto no sono eterno – lhe fora negada. De forma bastante obscura, as Escrituras relatam que o traidor passou a viver num lugar chamado “Aceldama”, ou seja, campo de sangue. Ninguém sabe ao certo o que fora feito do traidor, apenas que desapareceu nas sombras do esquecimento, sem deixar nenhum tipo de vestígio.
Durante séculos, as estórias sobre mortos-vivos caíram no esquecimento, até virarem lendas, e as lendas virarem mitos. Quase uma era se passara sem ninguém mais ouvir falar sobre os filhos das trevas que caminhavam na noite e se alimentavam de sangue, até surgir o príncipe da Valáquia, Vlad Tepes – o Empalador. Contudo, seus súditos o chamavam de Vlad Dracul – o “filho do dragão” – ou, simplesmente, Drácula. Esse príncipe, após perceber que sua imagem se envolvera em diversas estórias de horror e sangue e que certamente chamaria a atenção da Igreja, para evitar que uma Cruzada fosse convocada contra ele, forjara sua própria morte, e seus restos mortais teriam sido levados para a igreja de Santa Maria la Nova, em Nápoles, na Itália.
O que de fato ocorrera é que, com auxílio de alguns súditos mais fiéis que o ajudaram a forjar sua própria morte, se recolhera nas ruínas de um de seus castelos e, usufruindo de sua imortalidade, escondido nas sombras da escuridão, esperou que um longo tempo passasse, até que, por mais uma vez, sua existência caísse por completo no esquecimento.
Em fins do século XIX, essa sinistra criatura emerge mais uma vez na figura de um abastado e temido Conde, que, devido à importância de sua linhagem, não quisera abandonar nem o nome, muito menos o símbolo de seus antepassados. Esse Conde, após séculos e séculos sobrevivendo do sangue e do medo de camponeses inocentes, encontrou seu fim nas mãos de um sábio e destemido cientista holandês, que, além de médico, também era um grande estudioso das ciências ocultas e sabia como poderia colocar um fim ao reinado de terror do Conde...
O forasteiro interrompera sua narrativa, para molhar a garganta com mais uma dose de conhaque. Secou a garrafa e pediu outra, que muito rapidamente lhe fora servida. Empolgado pela atenção que recaíra sobre si e sua inverossímil narrativa, nem mesmo se dera conta de que o sabor da bebida havia mudado. Em seu momentâneo silêncio, percebeu que havia vários sussurros entre os demais presentes. Madame Cecile, sem ser indelicada e aproveitando que o viajante se calara por um momento, aproveitou a ocasião e disse:
– Certamente que o senhor fosse um ótimo professor. Mas, se não estiver enganada, pensei ter ouvido dizer que era um historiador e não um professor de Literatura...
– Ainda não terminei minha história, madame. O melhor ainda está por vir.
... O Conde Drácula, cansado de sua vida monótona em seu castelo – se alimentando de camponeses rudes e donzelas simplórias – decidira partir para a Inglaterra para expandir seu reino de terror em terras civilizadas. Seu corpo e alguns de seus bens pessoais foram transportados em um navio mercante chamado Deméter. Porém, quando esse navio chegou à costa da Inglaterra, todos os tripulantes haviam morrido durante a viagem. Os dois únicos corpos encontrados a bordo – o capitão amarrado ao leme e seu imediato crucificado de cabeça para baixo no mastro principal – estavam com suas veias vazias, sem uma única gota de sangue.
Junto ao capitão, escondido entre suas vestes íntimas, fora encontrado o Diário de bordo do navio, que, além de informações de praxe sobre a viagem e a carga transportada, também relatava a presença de um grande mal a bordo. Nesse diário estava registrada a presença de nove tripulantes a bordo em sua origem, quando o navio partiu do porto de Varna, na Romênia. Contudo, no decorrer da viagem, surgiu a presença de uma passageira clandestina, uma bela mulher que estava escondida entre a carga no porão do navio. Constava nesse mesmo diário que, desses nove primeiros tripulantes, seis deles haviam perecido de forma misteriosa durante a viagem. Um dos tripulantes e a passageira clandestina haviam desaparecido.
Pelos registros, era o médico de bordo, o doutor Clement, um médico desempregado – estudioso de astronomia, filosofia e também especialista em doenças obscuras, segundo ele mesmo – que havia ficado obcecado em caçar e matar o monstro a bordo, que, segundo ele, estava se alimentando do sangue dos tripulantes. Numa das páginas do diário, o capitão relatara que houvera uma terrível luta entre o doutor e um enorme morcego. O doutor tivera vários ferimentos graves, mas também conseguira, com uma cruz de madeira, tendo uma de suas pontas afiadas, ferir seriamente o monstro, que derramara bastante de seu sangue pelo convés do navio. Parte desse sangue fora recolhido pelo doutor, que, segundo ele, seria para análise posterior. Esse foi o último registro da presença do médico a bordo. Após o desaparecimento do médico, a passageira clandestina também não foi mais citada no diário.
O então médico, que ousara enfrentar o suposto monstro de frente, fora dado como desaparecido pela justiça inglesa. A história do Deméter fora logo esquecida – afinal, era apenas mais um navio, dentre tantos, que todos os anos a força da tempestade destruía e lançava seus destroços junto à praia. Doutor Clement, uma vez que juridicamente fora dado como desaparecido ou morto, lançado ao léu do esquecimento, de posse de parte do ouro que era transportado no Deméter e também de algo de um valor inestimável, decidira deixar de vez sua antiga vida de médico – quase todo o tempo desempregado – para trás.
Doutor Clement, sabendo que nenhuma autoridade em Londres, nem mesmo na Inglaterra – ou em qualquer outro lugar que fosse –, o levaria a sério sobre estórias de homens que se alimentam de sangue e poderiam se transformar em enormes morcegos, decidiu que o melhor a se fazer era seguir o exemplo de seu algoz e também ele mesmo, esconder-se nas sombras do esquecimento. Conseguiu novos documentos, trocou de nome e de origem, e após se mudar para o continente, iniciou uma nova vida comprando uma antiga e abandonada fortaleza, que, por séculos, funcionara como uma espécie de leprosário franciscano. Doutor Clement, durante o dia, era um simples estalajadeiro, recebendo em sua pousada viajantes de todos os cantos do mundo, sempre muito atento a todo tipo de estória contada sobre monstros e criaturas estranhas. Entretanto, durante a noite, era um incansável estudioso das ciências ocultas, enquanto sua bela e jovial esposa fazia as vezes de anfitriã do local...
Lilian, que estava próxima ao clandestino, muito interessada na estória que ele contava, após essa última parte da narrativa, se afastara sorrateiramente dele e se aproximara de sua mãe, que estava atrás do balcão com toda sua atenção voltada para o forasteiro, que, após se servir de mais uma satisfatória dose de seu conhaque, continuou:
– Segundo informações muito seguras, Maurice Leblanc – antigo doutor Clement – após ter dado um fim em sua antiga identidade, se mudara para o continente, casando-se em seguida com a estranha passageira que viajara clandestinamente na última viagem do Deméter. Essa mesma fonte me assegurara que o antigo doutor tivera uma filha, que, nos dias atuais, deveria estar com 40 anos ou talvez até um pouco mais. Pelo que ouvi, sua aparência é de alguém com vinte anos apenas. Contudo, o mais estranho de tudo isso seria o fato de sua mãe, a mesma clandestina do Deméter, nunca ter envelhecido um único dia desde o dia em que fora vista pela última vez, quando zarpara do porto de Varna.
Não tenho nenhum interesse com o que acontecera ao doutor Clement, muito menos em sua família, mas tão logo, naquilo que ele retirou do navio, quando, de uma forma bastante inteligente, tanto ele como sua futura esposa saltaram do barco na primeira oportunidade que tiveram após a hercúlea luta travada contra o monstro a bordo. Estou aqui para recuperar aquilo que as pessoas que me contrataram chamam de “Relíquia”. Ou seja, um frasco contendo parte do sangue do Conde Drácula. Essas pessoas a quem me refiro são bastante poderosas e, há tempos, investigam o paradeiro do doutor Clement. Após décadas de sigilosas investigações, suas informações, obtidas por fontes bastante seguras, me trouxeram até aqui.
Há rumores de que, com a morte do Conde, os outros de sua espécie perderam parte de seus poderes. Não conseguem mais transformar outros seres humanos, já não possuem o poder do rejuvenescimento e muito menos o de autorregeneração. São decrépitas criaturas se escondendo nas sombras, sobrevivendo como ratos nos esgotos. Contudo, acreditam que, com o sangue do Conde, qualquer um que o possua poderá tornar-se um mestre vampiro com todos os poderes de outrora. Ou quem sabe, até mesmo, trazer o próprio Conde de volta das profundezas do inferno.
Não tenho certeza se isso seja possível. Mas, por todas as coisas que já vi e ouvi nesse mundo, já não sei se a palavra "impossível" tem mais algum significado. Apenas tenho a plena certeza de que, se Drácula conseguir retornar ao nosso mundo, virá mais forte do que nunca e arrastará todo o ódio dos anjos caídos consigo. Alguns imaginam que, quando Drácula foi morto, assim que chegou àquele lugar onde a esperança não existe, fora recepcionado com honras de Estado, e o lugar à direita do Príncipe das Trevas lhe fora oferecido...
O forasteiro se calara e ficara observando qual seria a reação dos que estavam ali presentes. Seu maior interesse era como mãe e filha agiriam ao ouvir sua história. O que viu e ouviu o deixou bastante irritado, pois toda a estalagem caíra numa grande algazarra. Gargalhadas e gracejos por todos os lados. Uma das mulheres dentre a clientela se molhou de tanto rir. Madame Cecile, após conseguir com muita dificuldade conter o riso, disse ao forasteiro:
– Prezado senhor Rubens, ou seja lá qual for seu verdadeiro nome. Sua história foi realmente fantástica. Nesses dias em que qualquer escrito vira uma obra literária, o senhor bem que poderia virar escritor e, quem sabe, até ganhar aquele prêmio... Como é mesmo o nome?
Alguém dentre os presentes gritara do fundo do salão:
– Nobel!
– Isso mesmo! Prêmio Nobel. Realmente sua imaginação é muito fértil, senhor. Mas, como sou uma boa anfitriã e busco sempre agradar a todos os meus fregueses da melhor maneira possível, não o deixarei vagando sozinho ao léu, como se fosse uma pessoa desequilibrada. Tentarei, dentro de minhas faculdades mentais limitadas, participar de seus devaneios.
Houve mais um turbilhão de gargalhadas por todo o salão.
– Quanto à então "Relíquia", não se preocupe, ela está bem segura aqui dentro dessas paredes. Neste antigo Santuário, nenhuma criatura das trevas pode entrar livremente, exceto se for transportada por um ser inocente. Nenhuma alma viva ou qualquer coisa que caminhe na luz ou nas sombras jamais colocará suas mãos nessa tal Relíquia. Dou-lhe minha palavra...
Ainda bastante irritado, após tentar se levantar e suas pernas não responderem ao seu comando, questionou ele a madame Cecile:
– Como pode ter tanta certeza disso?
Após dar uma gargalhada tão alta que chegou a abalar todas as estruturas da estalagem, causando um silêncio geral em toda a casa, ela lhe respondeu:
– Qualquer coisa, para ser tocada, antes precisa existir. Garanto-lhe que tal coisa, se um dia existiu, não existe mais. Se essa tal Relíquia tivesse existido de fato, com todo esse poder que o senhor imagina, certamente eu já o teria usado em meu benefício há muito tempo...
Alguns dias depois, um destacamento da polícia fez uma batida na Pousada Eclipse à procura de um viajante que fora dado como desaparecido e fora visto pela última vez entrando naquele estabelecimento. Madame Cecília alegara que nada sabia sobre esse fato. Autorizara que toda sua casa fosse revistada e, com um sorriso muito inocente na face, oferecera aos policiais uma rodada de bebidas por conta da casa. O chefe daquela operação, encantado com a beleza e simpatia de Madame Cecília, não apenas aceitara a bebida oferecida, bem como solicitara humildemente mil perdões por tão inconveniente incômodo, ordenando que aquela missão fosse imediatamente dada por encerrada...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Percy Bysshe Shelley: Vida, Obra e Pensamento Crítico
Percy Bysshe Shelley: Vida, Obra e Pensamento Crítico
Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
“Aproxima-se rapidamente o tempo — espero que o senhor, milorde, possa viver para contemplar sua chegada — em que o maometano, o judeu, o cristão, o deísta e o ateu viverão juntos numa única comunidade, compartilhando igualmente os benefícios que provêm de sua associação e reunidos pelos vínculos da caridade e do amor fraterno.”
— Percy Bysshe Shelley
Nascido em 1792, na Inglaterra, Shelley foi um dos mais intensos e visionários poetas do Romantismo inglês. De alma livre e convicções inflamadas, rebelou-se desde cedo contra as amarras da sociedade vitoriana, da religião instituída e das convenções morais. Era o primogênito de uma família aristocrática, mas rejeitou o destino de nobre — preferia o exílio, o pensamento radical e a linguagem da poesia como forma de revolução.
Expulso de Oxford aos 18 anos por escrever um panfleto em defesa do ateísmo, Shelley já demonstrava o espírito incendiário que marcaria toda a sua vida e obra. Casou-se jovem, viveu intensamente e, após a morte trágica de sua primeira esposa, uniu-se à escritora Mary Shelley, autora de Frankenstein. Juntos, formaram uma constelação literária, orbitando também Lord Byron, outro titã das letras e da inquietação.
Coincidentemente, nosso autor Wallace Azambuja trouxe à edição Dívanno uma tradução do poema Ozymandias — o que me levou a um mergulho mais profundo na vida e na obra de Shelley, sobretudo em suas críticas à religiosidade. Sempre que um dos autores da revista traz à tona pensadores e poetas — seja por meio de uma tradução, como neste caso, seja por artigos ou ensaios — , busco ampliar o conteúdo com notas sobre a trajetória e o pensamento do autor mencionado, quando necessário. Essa escolha editorial enriquece a experiência leitora e desenha caminhos mais profundos rumo ao conhecimento.
Ozymandias traz à luz, ainda que de modo poético — e, por isso mesmo, ainda mais penetrante — a transitoriedade do poder; tema que se vincula irrevogavelmente às indagações sobre religião e divindade já abordadas por Shelley em The Necessity of Atheism e na Carta ao Lorde Ellenborough. Mais que isso: o poema nos reconduz à natureza como a única força maior — e decerto inegável — capaz de se sobrepor a tudo aquilo que é construído pelo humano, inclusive suas crenças efêmeras e dogmas desprovidos de razão. Tal como nos versos:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Vejam meus feitos, poderosos, temam!”
Nada resta ao redor: circunda o escombro.
— Tradução de Wallace Azambuja
É fascinante como Shelley tensiona religiosidade, justiça e política em seus ensaios, e como transcende esses mesmos temas, na poesia, para uma dimensão mais elevada e sensível. Sua aparição na edição Dívanno é de suma importância, pois nela nos colocamos sob as asas das divindades etéreas a partir de prismas exploratórios da constituição humana. Eu mesma, sempre inclinada à razão, aproximo-me da fé pelos sentidos, através da poética — e sou capaz de experimentar a ideia de Deus sem a embriaguez religiosa, mantendo-me firme em minha racionalidade. Isso talvez comprove — e, de certo modo, realiza — os conceitos shelleyanos sobre as três fontes da convicção.
Obra — Entre o Ideal e o Abismo
Shelley escrevia como se quisesse incendiar o mundo com seus versos. Sua poesia é marcada por um lirismo elevado, por ideais políticos libertários, e por uma estética que combina o sublime com o etéreo. Era um alquimista da linguagem, fundindo mito, filosofia, natureza e revolução.
Obras essenciais:
“Ozymandias” — Um soneto famoso que reflete sobre o orgulho humano e a inevitável ruína do tempo, como já mencionei. A estátua do rei caído, perdida no deserto, é um símbolo arrebatador da efemeridade do poder.
“Prometheus Unbound” (Prometeu Desacorrentado) — Uma obra dramática e lírica que reimagina o mito grego de Prometeu, o rebelde que desafiou os deuses. Aqui, Shelley faz dele um símbolo da humanidade insurgente. E mais uma vez, a ruína divina.
“Adonais” — Uma elegia devastadora à morte de Keats, outro grande romântico. Nesse poema, a perda torna-se um portal para reflexões sobre a imortalidade da arte e da alma.
“To a Skylark” (A uma Cotovia) — Uma das mais belas canções à natureza, onde o pássaro torna-se arquétipo da inspiração pura e inatingível.
“Mont Blanc” — Um poema filosófico sobre a vastidão da natureza e a mente humana, que dialoga com as paisagens sublimes dos Alpes.
Uma Vida Breve e Trágica
Shelley viveu como se soubesse que não duraria. Exilado na Itália, longe da pátria que o rejeitou, escreveu alguns de seus mais belos poemas em meio à dor, à beleza e à contemplação. Morreu tragicamente aos 29 anos, em 1822, quando seu barco naufragou no mar Tirreno. Quando seu corpo foi encontrado, diz-se que trazia consigo um exemplar de Keats no bolso. Seu coração, retirado das chamas da cremação por Mary, foi envolto em seda e guardado por ela até a morte. Um símbolo perfeito: o coração de Shelley — eterno, irredutível, inflamado.
Legado
Shelley é hoje reconhecido como um dos poetas mais líricos e visionários da história da literatura. Sua obra inspira tanto pela beleza da linguagem quanto pelo poder de seu pensamento libertador. Foi precursor de ideias anarquistas, defensor da igualdade, do amor livre e da imaginação como força de transfiguração do mundo.
Ele acreditava que a poesia era uma arma espiritual, uma forma de revelar o invisível e libertar a humanidade da ignorância e da opressão. Seu espírito vive nos que ainda se recusam a aceitar as verdades impostas e, ao invés disso, sonham, incendeiam e escrevem.
Referências
DA COSTA, M. (2016). Percy Bysshe Shelley — Introdução. Cadernos De Tradução, (36).
SHELLEY, Percy Bysshe. The Necessity of Atheism. Worthing: C. & W. Phillips, 1811.
SCANDOLARA, Adriano. Shelley — duas cenas do ato 3 de Prometheus Unbound. Escamandro, 5 ago. 2013. Disponível em: https://escamandro.wordpress.com/2013/08/05/shelley-duas-cenas-do-ato-3-de-prometheus-unbound/. Acesso em: 31 maio 2025.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Calíope
Engendra a substância de tua bela voz, | Lendo teu poema épico da batalha, | Donde os Titãs, jogados na fornalha | Do poder divino. Oh! Força algoz!…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Engendra a substância de tua bela voz,
Lendo teu poema épico da batalha,
Donde os Titãs, jogados na fornalha
Do poder divino. Oh! Força algoz!
Ornada de grinalda, contempla a sós;
Do monte Parnaso, inspira-se e talha
Na tabuleta, com seu buril, não falha
Em remanescer à poesia uma foz.
Jorrando a paixão do deus Apolo,
Entre suas vestes, dois filhos amaram,
Mas Eagro; talvez mais obtuso,
Deu-te ao ventre as notas de seu falo.
Um Orfeu aventurado cantaram:
A jovem Calíope, seu ar majestoso.
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Nyarlathotep
Nyarlathotep… o caos rastejante… Eu sou o último. Eu direi ao vazio que me atende. Não me lembro ao certo quando tudo começou, mas foi há meses…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Tradução e adaptação por Júlia Trevas
Nyarlathotep… o caos rastejante… Eu sou o último. Eu direi ao vazio que me atende.
Não me lembro ao certo quando tudo começou, mas foi há meses. A tensão, antes política e social, adensou-se com um pressentimento inquietante de um perigo físico hediondo e iminente — um flagelo tão vasto que só podia existir em nossos pesadelos mais sombrios. As pessoas transitavam com seus rostos pálidos e os olhares cautelosos, mexidas por advertências sussurradas, lidas como profecias que ninguém ousava repetir ou reconhecer abertamente. Um sentimento de culpa monstruosa pairava sobre a terra e, dos abismos entre as estrelas, varreram correntes gélidas que faziam os homens estremecerem em seus refúgios escuros e solitários. Ali, existia uma alteração demoníaca na sequência das estações — o calor do outono persistia assustadoramente, e todas as pessoas sentiram que o mundo e talvez o universo, foram entregues do controle de deuses conhecidos e forças, para os deuses que eram desconhecidos e para forças ocultas.
Foi então que Nyarlathotep surgiu, vindo do Egito. Quem ele era, ninguém podia dizer, mas ele parecia com um faraó. Os fellahin se ajoelhavam ao vê-lo, sem entender o porquê. Ele dizia ter emergido da escuridão de vinte sete séculos e tinha recebido mensagens de lugares que não pertenciam a este mundo. Assim, para as terras da civilização veio Nyarlathotep, moreno, esguio e sinistro, sempre comprando estranhos instrumentos de vidro e metal, combinando-os em instrumentos ainda mais estranhos. Ele falou muito sobre as ciências — da eletricidade e da psicologia — dando exibições de poder que deixavam seus espectadores mais que sem palavras, o que elevou sua fama a uma magnitude extraordinária. Homens aconselhavam outros homens a verem Nyarlathotep, eles estremeciam. E onde Nyarlathotep passava, tudo mais se dissipava, pois o alvorecer era dilacerado por gritos de pesadelo que nunca foram tão públicos. Os sábios chegavam a desejar que o sono noturno fosse proibido, para que os lamentos urbanos perturbassem menos brutalmente a pálida e compassiva lua. O satélite cintilava sobre águas verdejantes que escorriam sob pontes antigas, ao passo que velhos campanários desmoronavam contra um céu adoentado.
Eu me lembro quando Nyarlathotep veio para minha cidade — uma terrível e antiga cidade de inúmeros crimes. Meu amigo me contou sobre ele, contou sobre as suas revelações impulsivas e sedutoras. Eu tinha uma ânsia que queimava quando eu desejava seus mais extremos mistérios. Meu amigo me disse que eles eram horríveis e impressionantes, além da minha imaginação febril. O que foi projetado na tela da sala escura prenunciava mistérios que só Nyarlathotep ousava revelar, e que, no estalar de suas faíscas, arrancava dos homens algo que jamais antes fora subtraído — um algo que só se manifestava pelos olhares. Eu ouvi dizer que os que conheceram Nyarlathotep viam coisas que os outros não viam.
Foi no calor do outono que fui com as incontáveis multidões através da noite ver Nyarlathotep. Adentrando a sufocante escuridão noturna e subindo as intermináveis escadas até o quarto da asfixia, envolto em trevas numa tela, eu vi formas encapuzadas no meio de ruínas, douradas faces malignas espiavam por trás de um monumento caído. Eu vi o mundo batalhar contra as trevas, contra ondas de destruição provenientes de além do espaço, lutando, se agitando e girando contra o escurecimento do sol já frio. Então, as faíscas dançaram de modo assombroso ao redor das cabeças dos espectadores, erguendo seus cabelos em arrepio e sombras, mais grotescas do que qualquer descrição poderia abarcar, elas emergiram e pousaram sobre as cabeças, e quando eu, que era o mais frio e científico que os demais, murmurei, tremendo, palavras como “impostura” e “eletricidade estática”, Nyarlathotep expulsou a todos nós, descendo-nos pelas escadarias vertiginosas até as ruas úmidas, tórridas e desertas da meia-noite. Gritei em alto e bom som que não tinha medo e que jamais poderia ter medo, e outros gritavam comigo em busca de consolo. Juramo-nos mutuamente que a cidade permanecera exatamente a mesma ainda viva, e, quando as luzes elétricas começaram a esmaecer, amaldiçoamos a companhia por vezes sem conta e rimos das feições bizarras que fazíamos.
Acredito que senti algo vindo da lua esverdeada, pois, à medida que passávamos a depender de sua luz, deslizamos em estranhas formações involuntárias e parecia que conhecíamos nossos destinos, embora não ousássemos sequer pensar neles. Uma vez, fitamos o pavimento e constatamos que os paralelepípedos estavam frouxos e invadidos pela grama, restando apenas um fio de metal corroído a indicar onde antes corriam os trilhos. Logo em seguida, avistamos um bonde solitário, sem janelas, deteriorado e quase tombado para o lado. Quando fixamos o olhar no horizonte, não conseguimos avistar a terceira torre junto ao rio e a silhueta da segunda ostentava um perfil desfiado no topo, como se o tempo a tivesse consumido por completo. Em seguida, dividimo-nos em fileiras estreitas, cada qual atraída por um rumo distinto. Uma delas desapareceu num beco tortuoso à esquerda, restando apenas o eco de um gemido lancinante. Outra coluna deslizou por uma entrada de metrô engolida pelas ervas daninhas, ecoando uma risada insana. A coluna onde eu estava foi sugada para o campo aberto e logo sentimos um frio estranho, alheio ao calor do outono, pois, ao avançarmos pelo pântano escuro, contemplamos ao nosso redor o brilho lunar infernal da neve maligna. A neve errante e enigmática foi varrida em uma única direção, onde se abria um abismo no qual o brilho apenas acentuava sua escuridão. A coluna seguia exígua, avançando sonâmbula para o precipício. Retive-me por um instante, pois a fenda negra na neve iluminada pelo verde era aterradora, e parecia ecoar o lamento inquietante de meus companheiros ao desaparecerem. Mas minha hesitação foi breve. Como se fosse chamado por aqueles que já haviam partido, flutuei quase sem peso entre os titânicos montes de neve, trêmulo e amedrontado, até ser tragado pelo vórtice cego do inimaginável.
Dotado de uma consciência lancinante e entregue a um delírio mudo, só os deuses antepassados poderiam compreender tal horror. Uma sombra doente e sensível se contorcia em mãos que não eram mãos, circuitando de modo cego pelas mais pavorosas meias-noites da criação em decomposição, cadáveres de mundos mortos, cujas chagas eram cidades, e ventos cadavéricos que roçavam as estrelas pálidas, fazendo-as cintilar com um brilho débil. Para além de tais mundos, vagavam espectros de monstros indescritíveis; colunas difíceis de ver oriundas de templos profanos, estruturados sobre rochas sem nomes sob o firmamento, erguiam-se até os vazios vertiginosos além das esferas de luz e de trevas. E, em meio a este cemitério repulsivo do universo, ecoava o bater ensurdecedor de tambores abafados e o lamento maçante das blasfemas flautas, surgidas de câmaras inconcebíveis e não iluminadas além do Tempo, o pulsar detestável e o sussurrar profano que faziam dançar, lentamente, desajeitadamente e absurdamente os gigantescos deuses supremos e tenebrosos. As gárgulas cegas, mudas e desprovidas de mente, onde a alma é Nyarlathotep
H. P. Lovecraft
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico... » leia mais
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Ordam Noctam
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
E N W
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino. Ao seu redor, um halo perfeito, um arco circular de luz diáfana que parecia emanar do satélite, como um diadema mágico flutuando na noite. O pano de fundo da visão era um azul-marinho profundo que tingia o céu noturno, quase aveludado, salpicado em milhares de estrelas, cada uma cintilando em matizes de branca luminosidade, dispostas em constelações desconhecidas. A névoa tênue que serpenteava pelos beirais góticos das ameias realçava o contraste entre as sombras do castelo e o esplendor etéreo da Lua.
Uma densa névoa cobria os corredores de pedra do Castelo Drácula, escorrendo pelas paredes como um véu e também encobria os pensamentos de Minerva, mergulhados em águas profundas e insondáveis. Naquela noite, a Lua que pairava no céu marcava o momento sagrado em que a própria Lua, a Mulher e a Noite se tornavam uma só entidade arcaica.
Minerva sentia, em seu íntimo, o chamado da escuridão reverberar no peito, como o bater de um tambor antigo anunciando o inevitável. A hora se aproximava, talvez a mesma que a visitara no sonho da clareira dos láparos. Sua magia pulsava sob a pele como eletricidade contida, e seus olhos, já tingidos pela essência da loba, brilhavam em azul ardente, como safiras em chamas anis.
Minerva caminhou lentamente pelos corredores de pedra, onde a luz das tochas tremeluzia. Seus passos ecoaram ao atravessar o umbral da galeria dos espelhos, um santuário onde o silêncio parecia respirar. Ela usava um vestido preto e longo, feito de linho. Os cabelos cacheados estavam presos em um penteado elegante: duas tranças delicadas unidas atrás da cabeça, firmadas por um broche de mariposa prateada. A cada passo, alguns cachos soltos escapavam e saltavam como se tivessem vida própria, dançando na penumbra.
Seus dedos trêmulos apertaram a cruz de Lwccirtt, pendurada em seu pescoço por uma corrente de prata. O artefato parecia pulsar sob sua pele, emitindo um calor que desafiava o frio do castelo. Minerva parou diante do maior dos espelhos, onde seu reflexo começava a distorcer, como se o vidro refletisse além da carne.
Minerva sentia a sua aura lupina estremecendo e uivando dentro de si, enquanto seus olhos marejados perdiam o brilho, tornando-se escuros. A sombra de Lwccirtt não a deixara. Ela sentia a entidade chamando por seu nome, era estranho como uma coceira no interior de seu cérebro. Ela inclinou o corpo sob o próprio reflexo frio, arquejando. Não desejava ceder à vontade daquela criatura, já não sabia se era ela quem clamava por ele ou se ele era quem chamava por seu nome. Irritada por aquela sensação desconfortável, ela iniciou um pequeno ritual de banimento na tentativa de se proteger contra as influências da entidade em sua mente.
Com a voz firme, porém baixa como uma prece murmurada à meia-noite, ela pronunciou o Tetragrammaton: "Ateh... Malkuth... Ve-Geburah... Ve-Gedulah... Le-Olam... Amen." A cada palavra, sua aura lupina se expandia. Ela estendeu o braço diante de si e com os dedos desenhou no ar o primeiro pentagrama flamejante, visualizando linhas incandescentes surgindo do vazio, traços de luz azul anil que cortavam a escuridão como lâminas. Virando-se lentamente para cada ponto cardeal, ela repetiu o gesto e invocou os nomes sagrados com precisão ritualística, cada entonação carregada de intenção:
"YHVH" — ao leste, onde o vento ouviu a prece.
"ADNI" — ao sul, onde a chama tremeluzente da vela cresceu.
"EHEIEH" — ao oeste, onde um espelho estalou, como se algo ali respondesse.
"AGLA" — ao norte, onde o farfalhar de asas foi ouvido.
A cada nome entoado, uma presença se manifestava. Minerva não as via com os olhos comuns, mas sentia-as com a alma: os Arcanjos Raphael, Gabriel, Michael e Uriel alinhando-se ao seu redor, como pilares de luz velada que sustentavam o mundo oculto. Ela ergueu os braços ao alto, a cruz ainda pendendo em seu peito, e declarou:
— Diante de mim, Raphael; atrás de mim, Gabriel; à minha direita, Michael; à minha esquerda, Uriel; e ao meu redor brilha a estrela flamejante, e no centro... Eu a filha da Noite, demando que minha mente seja protegida do chamado de Lwccirtt!
Ao finalizar, ela traçou um círculo ao seu redor, selando o espaço entre os mundos. A energia no ar parecia viva, como se o próprio véu entre as realidades tivesse sido rasgado. O banimento estava completo e Minerva pedia em seu interior que a proteção funcionasse. Ela deitou dentro do círculo mágico que havia projetado no chão, aflita, pedindo que sua prece fosse ouvida. Seu peito dolorido parecia ainda sangrar e a cruz parecia tão pesada que ela evitou segurar.
A bruxa percebeu que o tempo tinha passado quando olhou de relance no espelho e viu que sua aura lupina estava mais tranquila, aninhada ao seu lado. Ela se ergueu, desfazendo o círculo sagrado. Sua mente parecia mais aliviada, mas algo ainda chamava por ela, algo bem mais familiar. Mais uma vez, ela se aproximou de um dos espelhos, sentindo-o vibrar como se algo estivesse prestes a saltar de dentro dele. Uma imagem encapuzada se formou à sua frente.
Sua mãe, a rainha Nuara, se apresentava diante dela no reflexo do espelho, envolta por um manto negro que cobria sua cabeça. No braço esquerdo, ela segurava uma tocha acesa. Minerva tentou ver o que estava por trás, mas além de sua mãe, só conseguia ver a escuridão. A rainha removeu o capuz, revelando seu rosto pálido e olhos sulcados repletos de sabedoria. Elas eram como irmãs gêmeas. Uma luz reverberou no fundo do espelho. Minerva estendeu a mão para Nuara, que atravessou o vidro como um portal.
As duas se entreolharam e Minerva deu um sorriso saudoso, se aproximando para abraçá-la. No centro do grande salão circular dos espelhos, Nuara removeu o seu manto negro sagrado completamente, o símbolo triplo da lua em sua testa era vívido. Ela viera para buscá-la.
As duas se entreolharam por um instante que pareceu suspenso no tempo. Um sorriso suave, carregado de saudade, curvou os lábios de Minerva antes que ela se aproximasse para abraçá-la. O símbolo da lua tríplice, marcado como prata na testa de Nuara, parecia reluzir na luz das pequenas chamas das velas.
— Filha da sombra, núrida, filha minha... — disse Nuara. — As deusas exigem teu parecer. Não podes mais te esconder neste castelo.
— O castelo não me aprisiona. Eu escolhi ficar. — Minerva respondeu. Os olhos dela estavam faiscantes. — Respeito nosso poder, respeito as deusas, mas este lugar... este lugar é onde pertenço.
— Somos filhas da escuridão, Minerva. — retrucou Nuara, dando um passo adiante. — Não me espanta que te sintas em casa num lugar infestado por forças caóticas e criaturas soturnas... tão soturnas quanto nós. Mas os “incidentes” com as entidades cósmicas que encontraste... não são meros desvios. Primeiro foi Ttyphrssett, e agora... o outro. Espero que não cometas o mesmo erro.
— Sei que não fui cautelosa, mas aqui, neste castelo, meu poder pulsa com mais vida. — murmurou Minerva, apertando a cruz de Lwccirtt contra o peito. — Sinto a força crescer em mim.
— A última entidade... aquela que agora sussurra em tua mente... — Nuara olhou fundo nos olhos da filha. — Ela é quase tão antiga quanto as próprias deusas. Sentimos que ela busca uma brecha entre os mundos... por meio de ti.
— Mesmo assim, não desejo partir. — insistiu Minerva. — Aqui é onde me sinto em paz.
— Minerva... — a voz de Nuara suavizou, mas seu tom era grave como um presságio. — Venho como mãe para aconselhar, mas como sacerdotisa, trago o aviso: as deusas te reivindicam. Elas te nomeiam filha da Noite e te chamam para cumprir os votos. Vais continuar recusando a fonte de onde teu poder emana?
— Eu não recuso as deusas... — disse Minerva, com uma sombra de dor. — Mas não desejo me curvar a nenhum dogma. Não quero ser moldada. Quero escolher.
Nuara suspirou. Por um instante, pareceu mais velha do que o tempo.
— Minerva... Minerva... — sussurrou, com pesar e respeito. — Como mãe, te compreendo. Como sacerdotisa, anuncio: se ignorares o chamado, virá uma punição breve... mas inevitável. — As feições de Nuara estavam mudando quando Minerva se aproximou e, com curiosidade, perguntou: — Mãe?
As feições de Nuara estavam a se contorcer como cera derretendo sob uma chama invisível. Seus olhos tornaram-se completamente negros, vastos como o espaço entre as estrelas. A pele da sacerdotisa parecia agora feita de mármore translúcido, pulsando uma luz que não vinha deste mundo. O salão dos espelhos mergulhou em penumbra.
As velas arderam azuladas, despertaram as chamas como vulcões e os reflexos nos espelhos evaporaram, apenas o vazio ficou. Um vento atravessou o salão, trazendo um incenso antigo, fazendo Minerva arquejar, sentindo um nó na garganta e um peso nos ombros ao cravar os olhos no rosto inóspito de Nuara.
Nuara já não estava mais ali, algo mais antigo e sombrio se instalava em seu corpo. Algo que desejava se comunicar com Minerva e o fez.
— Filha do crepúsculo... do sangue e do limiar. — disse uma voz múltipla, entrecortada e vibrante, como se ecoasse de três bocas ao mesmo tempo. — Tu, que carregas o símbolo dos mundos, ouve agora o chamado do Trino Lunar.
As palavras reverberaram pelas paredes como um cântico sendo entoado. A primeira a se manifestar foi Hekate. A voz tornou-se mais grave.
— Eu sou Hekate, guardiã das encruzilhadas, dos véus e dos segredos esquecidos. Tu despertaste Lwccirtt com tua sede de poder e tua recusa ao chamado. Mas o castelo o sente. Ele se ergue e se corrompe por tua presença e teu toque. — Minerva, com a boca entreaberta, estava com a respiração agitada. Uma pausa foi feita.
— Se não reconheceres o Trino, se não curvares tua alma diante da Noite que te fez, serás devorada. Se Lwccirtt não te encontrar, outros te encontrarão. Caninos longos repletos de sede de sangue.
Hekate estendeu o braço e a cruz de tungstênio no pescoço de Minerva flutuou e brilhou com uma luz ofuscante e cobalta. O calor atravessou sua pele por dentro do vestido. As sombras se movimentaram atrás de Nuara, dançando, sussurrando, contorcendo-se em espirais. Quando Hekate silenciou, foi a vez de Nix assumir. O corpo de Nuara relaxou e a voz tornou-se suave, fria como o orvalho em uma cripta de pedra.
— Eu sou Nix — sussurrou ela — a noite que antecede todas as noites. Berço das sombras, véu da origem. Lwccirtt encontrou uma fenda em ti, Minerva. Ele não te tocou, ele te viu. E no espaço entre um pensamento e outro, plantou raízes. — O chão sob os pés de Minerva pareceu oscilar, como se ela fosse cair.
— Tu não és apenas filha de Nuara. És filha da noite. Da escuridão que acolhe, que vê, que cala. Não negue mais o trino. Tuas recusas rasgam os limites do real. Reconhece-nos ou teu corpo será abrigo para o que nem os espelhos ousam refletir!
Minerva estava incrédula e relutante, exibia seus dentes afiados e sua aura de sombras lupina erguia-se por trás dela. Ela arquejava, buscando a calma que havia perdido. Em um momento, fechou seus olhos, buscando silenciar a mente e, quando os abriu, encontrou a face da última deusa.
Com o corpo ereto, mas a alma afundada, Minerva ainda sentia o coração pulsando não só no peito, mas nas pontas dos dedos, nas têmporas, na cruz de tungstênio em seu pescoço. Aquela presença era mesmo real? Eram as deusas... ou algo fingindo ser?
Então, a última voz ecoou — mais baixa, como uma canção esquecida, cantada para embalar o mundo.
— Eu sou Selene, a que dança com a lua e vela o sono dos vivos e dos mortos. A luz que brilha apenas para os que sabem ver no escuro, aquela que guia a carruagem da luz prateada da noite! Não viemos como donas de teu destino, mas como espelhos daquilo que tua alma esconde. Não somos uma prisão de dogmas. Somos a tua força, criança!
As velas tremeluziam em tons leitosos. A sala girava devagar à percepção da jovem bruxa. Minerva manteve-se em silêncio, olhos arregalados. Dentro de si, o turbilhão de perguntas: eram mesmo elas? Ou seria Lwccirtt, sorrindo por trás das máscaras? Selene parecia ouvir seus pensamentos.
— Dúvida é também parte do caminho. A fé cega é tão perigosa quanto o poder não reconhecido. Mas o que há dentro de ti, Minerva, não pode mais ser adormecido. Nós somos o que sempre foste. A trindade que gerou tua alma nas sombras da floresta. A Noite, a Morte, a Vida. A mulher. A loba. A sacerdotisa!
O rosto de Nuara travou-se em uma única expressão até que seus olhos retornaram ao que eram antes e sua cabeça pendeu para frente, ocultando a transformação. Um espelho às costas de Minerva trincou. A fenda serpenteou o vidro como uma raiz e a cruz de tungstênio em seu pescoço esquentou de novo.
Num rompante final, as sombras se recolheram e a pele de Nuara retomou seu tom natural. Seus olhos negros recuperaram o brilho materno, e o contorno de seu rosto, antes esculpido pela presença tripla, amoleceu-se em traços de calor humano. Ela piscou, como que despertando de um sonho, e estendeu a mão para Minerva, num gesto doce e pesaroso. Uma lágrima cintilante verteu do olho esquerdo de Minerva. Ela baixou os olhos e, sem segurar a mão de Nuara, se distanciou com um passo para trás.
Sem uma palavra, Nuara voltou-se para o maior dos espelhos ao fundo do salão. Com dedos firmes, traçou no vidro um símbolo antigo, um círculo entrelaçado por outros círculos. O espelho vibrou, a superfície ondulou como água, e um portal prateado abriu-se diante delas.
Nuara lançou um último olhar à filha, um misto de amor, urgência e saudade, antes de atravessar. O portal se fechou num estalo surdo, deixando apenas o sussurro das velas e o eco distante de um chamado lunar que prometia voltar. Minerva, sozinha novamente, apoiou a mão no espelho frio, sentindo, ainda, a presença das deusas desaparecer e permaneceu ali firme, em sua mente, buscando uma saída para não se entregar a nenhum dos caminhos dispostos. Ela desejava desbravar o próprio caminho, ela era o próprio conhecimento. Sua natureza de loba urgiu em seu interior.
Tomada por um impulso, ela cravou as unhas sobre os próprios braços e rasgou a pele junto da roupa. A carne dela se desdobrou em fiapos elásticos, se soltando do corpo enquanto seus ossos se remodelavam com um estalo, os dedos alongaram-se em patas firmes, a coluna arqueou, tornando-se a lombar lupina, e os músculos se rearticularam abaixo do pelo negro como breu. Em seu lugar, ergueu-se a loba de pelagem espessa e lustrosa e olhos de um azul frio. No chão, ficaram espalhados os pedaços de suas vestes e, ao lado, o broche de mariposa e a cruz de Lwccirtt, abandonados.
Sem hesitar, a criatura correu e saltou por uma das janelas do castelo, rompendo o vidro em estilhaços. Cada pata pousou com leveza sobre o chão após a alta descida. Ela galopou feroz, em disparada, rumo à floresta obscura. O vento noturno assobiava por entre os pinheiros, arrastando consigo o som ritmado de seu tropegar; em poucos instantes, Minerva-loba sumiu na penumbra das árvores, deixando apenas o farfalhar da mata para trás.
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Draco Mater
Na antiga Mesopotâmia, o caos foi teu primor, | Geraste o céu, a terra e os dragões, | Em águas profundas pulsava teu fulgor, | Semente eterna de revoluções…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Na antiga Mesopotâmia, o caos foi teu primor,
Geraste o céu, a terra e os dragões,
Em águas profundas pulsava teu fulgor,
Semente eterna de revoluções.
Com fúria mãe, ergueu-te em tempestade,
Por filhos traídos, juraste o trovão;
Teu corpo vasto, cosmos na verdade,
Vibrou com o grito da criação.
Marduk, com vento e rede, te venceu,
Partiu-te em céu e mar, em noite e dia.
Mas tua essência em tudo permaneceu,
No sopro antigo, a voz da rebeldia.
Tiamat vive em cada insurreição:
Dragão sem jaula, eterna maldição.
Thais Gomes
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Todos os lamentos serão ouvidos
Hoje faz cinco meses desde a grande mudança. Da imagem veio a idealização, a concepção e a efetivação. Ouvi o chamado retumbante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Hoje faz cinco meses desde a grande mudança.
Da imagem veio a idealização, a concepção e a efetivação. Ouvi o chamado retumbante permeado por vozes angelicais que exigiam uma sacra ação. Não ousei olvidar, quem ousaria? A petição era simples, mas requeria dedicação e comprometimento ímpares.
Foram anos de estudos para lapidar um dom concedido por Deus. As aulas de anatomia eram as mais instigantes, estudar cada milímetro de corpos inertes e impuros — impuros pois estavam destituídos do privilégio de adorar e dar graças a Ele. Eu ainda não sabia, mas tudo transcorria a fim de se fazer cumprir a vontade daquEle a quem devo a minha vida.
Todo conhecimento tinha uma finalidade, agora eu o sei. Visualizar o que cada um traz dentro de si é algo divino e assim eu compreendi que fora destinada para aquela missão. Nenhum outro poderia compreender.
Eu era enfermeira. Ainda sou, pois mesmo impedida de exercer minha função, isto me é inato. Há coisas que os olhos mundanos não enxergam — só os escolhidos veem. Só aqueles que foram tocados.
E eu fui.
No início, pensei que fosse exaustão. Vinte e quatro horas de plantão, pacientes morrendo sem dignidade, máquinas apitando, familiares desesperados, médicos indiferentes. Mas naquela noite… naquela noite fatídica, enquanto segurava a mão fria da Dona Lurdes — pele frágil, os olhos quase em paz — ouvi a suave brisa.
Não com os ouvidos. Não como qualquer outro ouviria. Ouvi com a alma. Uma voz que se insinuava: Ela está pronta. Ajude-a a atravessar.
E eu ajudei.
Foi com delicadeza. Uma prece cochichada. Um leve ajuste no equipamento de morfina. Uma transição suave. Celestial. Ela sorriu, juro, no segundo que antecede a partida, sorriu como quem vê a luz no fim do túnel e reconhece o rosto de um anjo. Ali compreendi: eu não era apenas uma enfermeira. Era uma escolhida.
Nos dias seguintes, vieram outros sinais dos pacientes: as auras em suas cabeças e as palavras murmuradas. Estavam inconscientes, logo, só podia ser obra do criador. Ah, também tinha o brilho nos olhos dos que já estavam com um pé na eternidade. Deus me escolheu para conduzir essas almas.
E eu o fiz.
Mas não é fácil. Precisa sensibilidade. Discernimento. Disciplina. Nem todos estão prontos, e nem todos merecem. Eu o ouço. Ainda o sinto. O julgamento não era meu — era apenas um instrumento.
Os outros não entenderam. Disseram que sou diferente. Que ficava muito tempo sozinha na UTI. Que enlouqueci. Que os pacientes precisavam de cuidados paliativos e que eu os matei. Não foi isso! Eles não sabem o que eu sei! Não veem o que eu vejo!
Não é morte. É libertação. Eutanásia celestial, como aprendi a chamar ou foi Ele quem me disse.
Um gesto de amor.
O último foi o Sr. Armando. Setenta e nove anos, falência múltipla dos órgãos, ninguém o visitava mais. Ele segurou minha mão com tanta força e então murmurei: Está na hora.
Lágrimas escorreram do canto dos seus olhos fechados. Paz. Ele partiu em paz.
Ainda hoje sinto a presença dele aqui, me agradecendo.
Escrevo tudo neste diário, pois sei que um dia alguém irá encontrá-lo e poderá entender a minha missão. Talvez outra enfermeira. Talvez outro escolhido. Talvez continue com a sacra ação. Será que outros seres iluminados iguais a mim virão parar nesta caixa de concreto cercada de grades e guardas mal-humorados?
E você, que está lendo isso agora, saiba: não é loucura. É missão. Um chamado. E quando ouvir a voz — aquela voz suave, inconfundível — apenas escute.
E aja com fé.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Aslam E. Ramallo é um artífice da palavra cuja poética nos conduzirá ao âmago mais profundo do existir, onde a vida pulsa em sua crueza e a…