6. Castelo Vampírico: O firme fundamento das coisas que se esperam
Diário de Rute Fasano. 25 de dezembro — Acredito que você tenha perguntas — Ela fixou seu olhar no meu…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário de Rute Fasano
25 de dezembro -
— Acredito que você tenha perguntas — Ela fixou seu olhar no meu, sorrindo. — Venha, vamos procurar um lugar mais calmo para poder conversar.
Andou à minha frente me guiando pelos corredores do castelo, abriu uma grande porta que dava para uma imensa biblioteca com inúmeros livros, fechou a porta atrás de nós deixando lá fora o barulho da música. eu estava deslumbrada com aquele cômodo que eu ainda não tinha conhecimento. Imaginava se na minha versão do castelo também havia uma igual, estantes altas, livros de diversas cores, uns muito antigos e outros mais novos. Havia uma mesa no centro com um tecido preto e acima dela um livro muito antigo, ao qual não pude deter minha atenção, minha doppelgänger apontou para algumas poltronas num canto da biblioteca. Nos sentamos, ela retirou sua máscara e eu permaneci com a minha:
— Como isso é possível? — Eu disse ansiosa por uma resposta que fizesse sentido.
— Eu poderia explicar isso usando o conceito de multiversos, das múltiplas versões de nós mesmas vivendo vidas diferentes em cada mundo, mas acredito que você já pensou nessa hipótese. — Ela falava com tanta desenvoltura, que eu me perguntava se a natureza vampírica dela que a tornou assim.
— Você tem razão. Não é essa a pergunta que eu quero fazer. — Me endireitei na poltrona tentando formular a pergunta na minha cabeça enquanto balançava a perna esquerda. — Qual é o motivo de tudo isso? Esses bailes, assombrações, perturbações, revelações, tudo isso.
Ela sorriu, talvez percebendo o quão mal eu poderia formular uma pergunta. Cruzou as pernas, colocou as mãos sobre o colo, respirou fundo mantendo aquele sorriso intacto:
— Entenda, Drácula não está em busca de poder, e sim, como cada hóspede deste castelo, em busca de conhecimento e tudo que o mantenha vivo, que faça com que ele se sinta mais vivo. A eternidade às vezes nos leva a não sentir nada, ser indiferente a certos prazeres e a nossa presença enche o castelo de vitalidade. — Me olhou séria. — Os estratagemas terríveis que ele usa é para despertar em nós sentimentos e sensações que às vezes não nos permitimos sentir, mas que alimentam o castelo e a nós mesmo. Ninguém aqui é como antes de adentrar o castelo. Ele não pode sair daqui, mas pode trazer e convidar quem há de melhor lá fora para cá. E ele aceita os curiosos, os sedentos, os perdidos e os fugitivos. — Na última palavra ela levantou as sobrancelhas, com um sorriso que já começava a me irritar e fixou o olhar em mim por bastante tempo.
— Entendo, mas qual o motivo de ele se apegar a partes muito específicas do meu passado? O que ele quer conseguir com isso? Eu já superei essas coisas. — Eu disse já bastante incomodada e com uma certa irritação na voz.
— Você está tentando se enganar, ou melhor me enganar, não é? — Falou usando um tom de voz debochado.
— Então o que devo fazer? deixar as coisas acontecerem e ver o que vai dar? — Me endireitei mais uma vez na poltrona e cruzei os braços.
— Escute, eu não posso te dar todas as respostas, apenas partes delas, não posso dar a você o refrigério da alma que você necessita. — Falou isso olhando para cima e movimentando a cabeça de um lado para o outro. — O que aconteceu comigo, os caminhos que percorri aqui, as escolhas que fiz são diferentes das que você tem tomado, compreende isso? Em nenhum momento desde a minha entrada no castelo até esse momento eu não me encontrei com nenhuma doppelgänger, o que significa que talvez você não venha se tornar o que eu me tornei, então não posso dizer o que você deve fazer, você entende isso? A única coisa que posso dizer a você é… — Ela parou por um momento, fechou os olhos sorrindo e balançando levemente a cabeça. — Me surpreendo com o que vou dizer agora, mas deixe a lógica por um breve momento de lado e tenha fé.
— Sério? — Olhei para ela em dúvida, ainda de braços cruzados, tentando acreditar no que ela havia dito.
— Sei que parece piada, mas leve em consideração a nossa nova família.
Ficamos em silêncio até que tomei fôlego para mais uma pergunta. Ela me surpreendeu colocando os dedos gelados em um movimento suave em meus lábios, impedindo que eu formulasse uma frase.
— Eu sei que pode parecer estranho, mas sinto que devemos dançar. — Disse retirando os dedos devagar. — Daqui a pouco vão anunciar a última dança e após isso devemos voltar a nossos aposentos. Sei que Drácula se ocupará em fazer você voltar sã e salva, talvez nem tanto sã, para seu mundo. Então vamos aproveitar a nossa própria companhia por alguns instantes?
Não havia percebido que o tempo passou tão depressa. E como tinha pouco tempo aceitei a última dança. Ela recolocou sua máscara e voltamos ao salão. Todos os pares já se preparavam para dançar. E dançamos no meio do salão com ela conduzindo, repetindo exatamente os passos que dancei com minha amada na capela. E rodopiamos uma, duas, três e quatro vezes e meu corpo, como se eu não tivesse controle sobre ele, foi jogado em seus braços. Do meu peito apertado pude sentir irradiar aquele formigar característico que parece abrir caminho pelos meus músculos como se eu estivesse eletrificada. No meio daqueles rostos que me olhavam por trás das máscaras e gargalhavam mais alto do que eu havia percebido inicialmente, a música alta, o arrastar dos pés sobre o chão do salão que agora parecia mais cheio, o som rascante dos tecidos roçando em outros tecidos, tudo isso me consumia e eu precisava fugir dali. A música cessou:
— Calma. Inspire e expire lentamente. — Ela disse suavemente com um olhar preocupado. — Nosso tempo acabou, espero que sua experiência com a Selenoor seja diferente da minha. Nos veremos de novo e com mais tempo, espero. — Ela tirou minha máscara e me deu um beijo suave na minha face direita, olhando em meus olhos ainda preocupada. Em um piscar de olhos eu estava de frente a porta do meu quarto.
Já havia passado das 3h, coloquei a mão na maçaneta e fiquei à porta pensando se devia entrar no quarto ou tentar a sorte por entre o castelo, sei que deveria seguir as regras, mas e se eu não as seguir? Drácula foi bem específico no convite dizendo que as três deveríamos estar em nossos aposentos, mas o tempo que fiquei pensando se entrava ou não, deve ter feito com que eu passasse das três. Então eu já estava quebrando a regras, o que de pior ou anormal poderia acontecer comigo além do que já aconteceu? Assim que tirei minha mão da maçaneta pude sentir um frio percorrer meu corpo e irradiar por ele, gelando meu coração, trazendo a ele uma sutil tristeza e desesperança já conhecida minha. Fui então em rumo do que o castelo tinha a me proporcionar, a palavra “Selenoor” ecoava em minha cabeça, o que seria isso, algo com que eu deveria me preocupar? Então fui em busca de mais uma perigosa aventura e a cada passo que eu dava eu me perguntava o motivo de estar fazendo isso tudo, por que estou me colocando em perigo, me fazendo presenciar situações intensas, procurando gatilhos para acionar memórias traumáticas?
Caminhei sem rumo, perdida em pensamentos e encontrei novamente a capela de outrora. E a capela que antes se encontrava em ruínas, agora estava no ápice de sua beleza, não havia somente traços dessa vez, ela era bela e imponente. Eu entrei e o ar dentro dela estava denso e gélido, os castiçais com velas que antes estavam velhas e quebradas, agora tremulavam de modo suave suas chamas sobre o altar, percorri o corredor entre os bancos de madeira agora todos em perfeito estado para chegar ao ambão. A bíblia estava em perfeito estado e curiosa fui olhar se haveria de novo algo marcado, aberta no livro de Mateus no capítulo 17 e em um azul-pálido bem fraco apenas parte do versículo 20 estava marcado “Por causa da vossa pouca fé” li e ri disso, aparentemente minha falta de fé era algo perturbador. Uma luz azul pálida vinda da lua se infiltrava pelos vitrais, iluminava a capela de modo incomum, e isso me perturbava, eu sentia o brilho da lua penetrar a minha pele através das minhas vestes e sua luminosidade era fria. Me sentei trêmula em um dos bancos, e coloquei as mãos sobre o colo. Fechei meus olhos e deixei minha mente vagar permitindo qualquer pensamento vir, fui invadida por uma fragrância cítrica e nostálgica, que trouxe memórias de infância. Me lembrei de segurar a mão de minha mãe enquanto entrávamos por portas grandes de madeira maciça. A luz do sol sendo filtrada pelos vitrais coloridos, espalhando um arco-íris quase que hipnótico pelo chão de pedra. Me lembrei de correr pelos bancos da igreja, os sapatos ecoando por aquele espaço santo, minha mãe rindo e me chamando para que eu me sentasse ao seu lado. As missas sempre com aqueles cantos alegres que me envolviam com um calor reconfortante, como se eu pudesse sentir o abraço de algo divino. A sensação de pertencimento era incontestável, eu me sentia segura, parte de algo que era muito maior que eu mesma.
Deixei minhas lembranças continuaram a fluir e chegarem à minha adolescência, a igreja que antes era meu lugar seguro, se tornou um local de exclusão. Eu sentia o peso dos olhares de desaprovação, os sussurros abafados quando eu adentrava aquele local santo. As mesmas pessoas que antes me tinham como família agora me olhavam com desconfiança e desgosto. Eu não compreendia o que havia mudado até perceber que a questão estava em quem eu era. O lugar que sempre me acolheu agora me rejeitava, as palavras de carinho se tornaram sermões fervorosos sobre pecado e redenção. Cada palavra era como facas afiadas penetrando minha alma. As palavras de amor ditas no púlpito começaram a parecer cada vez mais contraditórias atreladas com os olhares de julgamentos que passei a receber. E a cada dia a sensação de não pertencimento crescia, aquele lugar sagrado se tornou para mim apenas mais um edifício de pedra, as orações não eram mais um consolo e eu me sentia traída.
Meus pensamentos foram interrompidos por um som etéreo, vozes em coro vindo de todas os lados ao mesmo tempo e ecoando e preenchendo aquela capela, de modo suave cantavam em uníssono de modo quase tangível:
— Iesum, salvator mundi. Tue famuli subveni. Quos pretioso sanguine. Quos pretioso sanguine. Redemisti.¹
Apertei os olhos e as mãos com força para tentar controlar meus sentimentos e as sensações que logo me dominariam. Ouvir aquela canção depois de tantos anos irrompeu em mim um sentimento de nostalgia e pesar. Uma voz feminina familiar, vinha do lado de fora, além das paredes de pedra do castelo, começou a cantarolar:
— Fairy lady who stands on the walls, life is short and wait is long… — Era a voz da minha amada morta, um soprano angelical que ressoava com um toque sobrenatural. — The stars, away, dim with the dawn, fairy lady who stands on the walls…
Abri os olhos e ao reconhecer a melodia, e logo me levantei. Olhei para os vitrais e a luz azul pálida da lua parecia ter se intensificado. Fui em direção a música que parecia flutuar pelo ar me atraindo para algum lugar fora do castelo. Corri por aqueles corredores de pedra fria, sentia aquele ar gelado queimar os meus pulmões, meu coração palpitava descompassado. Eu podia ouvir meus passos ecoarem naquelas paredes de pedra. A cada curva, um novo corredor, a voz que me guiava parecia estar mais próxima e ao mesmo tempo fora do meu alcance. Os castiçais nas paredes lançavam uma luz rubra que contrastavam com minha ansiedade. Meus pensamentos eram inundados por lembranças, pelas nossas lembranças, fui tomada por uma mistura de medo e desejo. Será mesmo que eu queria vê-la de novo depois do nosso último encontro?
— Your tale has only begun, it comes from far, the Nowhereland…
Finalmente cheguei aos jardins do castelo, parei por um momento tentando recuperar o fôlego, me virei em direção a voz, minha respiração ainda ofegante. Olhei para cima e inclinada sobre o parapeito da sacada alta do castelo estava ela. Meu coração pareceu parar por um instante. Era ela com um vestido vermelho vivo longo, de mangas longas com punhos largos, como uma dama de conto de fadas. Curvilínea, saudável e corada, o cabelo comprido escuro em cachos, exatamente como eu me lembrava. Minha amada.
— The wind is blowing a sound well known, fairy lady, your love is long gone…
Ela cantou mais um verso da canção, que era a sua preferida e o tempo pareceu congelar. Eu queria gritar seu nome, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. A luz da lua iluminava seu rosto e seu olhar era atraído para ela. E antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, ela se virou lentamente, como se tivesse alguém dentro do castelo a chamando, e entrou sem nem notar a minha presença. Dei alguns passos, tentando encontrar fôlego para gritar. “Espera, por favor!” e minha voz saiu como um sussurro que foi levado pelo vento. Ela já havia ido e a visão dela desvaneceu na escuridão do castelo. Fiquei ali, parada, olhando para onde ela estava, sentindo as lágrimas virem e usando toda a força possível para não deixar elas descerem. Eu ouvia apenas o leve som do vento nas folhas.
Inspirei profundamente, segurei o ar por alguns segundos e soltei, virei para a lua cheia que havia chamado a atenção dela. O céu de um azul profundo salpicado de estrelas, e com uma lua descomunal tão perto. Reparei no jardim em que eu estava, envolto em um clima gélido, eu sentia o ar frio cortando a minha pele. Uma nuvem de vapor saía com cada respiração minha. A escuridão naquele jardim só era amenizada pelo brilho daquela lua cheia enorme e opressiva no céu iluminando os chuviscos que começaram a cair. Cada passo meu naquele chão úmido rangia sobre os meus pés enquanto caminhava. Havia estátuas de anjos com expressões melancólicas, de asas abertas ao vazio, damas esculpidas em mármore, com véus sobre seus rostos escondendo talvez semblantes tristes. Naquele jardim havia uma profusão de rosas espalhadas em arbustos, com pétalas de um vermelho sanguíneo que contrastava violentamente com o azul profundo do céu e o branco sobrenatural daquela lua cheia.
Enquanto eu caminhava o chuvisco aumentava, suas gotas frias se misturavam às lágrimas quentes que eu não conseguia mais segurar. As rosas, agora mais úmidas, pareciam mais vibrantes, era como se sangrassem sob a luz da lua. Um perfume adocicado levemente metálico impregnava o ar junto com o cheiro da terra úmida e do musgo sobre o chão e as estátuas. O jardim estava vivo e pulsante e fui invadida por um sentimento de solidão. A chuva aumentou ainda mais, o frio se infiltrou em meus ossos e precisei voltar para dentro do castelo. Corri para ele e escorreguei pisando em poças de água e terra que haviam se formado. Logo me levantei e continuei meu caminho. Todos aqueles corredores longos se tornaram tão curtos na minha volta ao quarto. Meus pensamentos eram um redemoinho confuso de saudade e culpa que me consumiam. Entrei no quarto, um ambiente agora familiar que me proporcionava um mínimo de conforto, com as mãos trêmulas fechei a porta atrás de mim com força numa tentativa vã de me afastar de tudo lá fora. Eu sentia que algo além da tristeza havia entrado comigo.
Tirei as roupas molhadas que agora eram um incômodo, o tecido colado em meu corpo. O vestido molhado que pesava e precisava ser removido como um fardo. Tomei um banho rápido para tirar a lama, mas não consegui tirar a sensação de que tinha algo agarrado a mim. Vesti algo confortável e largo e me deitei cansada. O sono veio logo, mas sem tranquilidade. Estava inquieta, sonhos conturbados agitavam minha mente, uma criatura escondida na escuridão azulada me observando silenciosa. Sua forma era nebulosa, mas sua presença era palpável, senti um peso sobre meu peito, tentei gritar no sonho, mas minha voz não saía.
26 de dezembro - Abri meus olhos e um calafrio percorreu todo meu corpo. No quarto escuro iluminado apenas pela luz da lua, percebi uma presença naquela escuridão azulada. Uma forma indefinida, com olhos como brasa. Meu coração batia descompassado e minha mente tentava racionalizar aquilo como produto da minha imaginação. Mas o medo intenso que me consumia dizia o contrário. Me sentei na cama e a forma sumiu, talvez fosse apenas um resquício dos meus pesadelos. Não consegui mais dormir, então fui usar meus sentimentos para escrever algo que valesse a pena ser lido. Percebi que não amanhecia, a lua continuava lá, cada vez mais brilhante, eu sabia que era manhã, pois o café-da-manhã trazido para mim no mesmo horário acompanhado pelas três batidas na porta já havia chegado. Passei o dia abatida, a presença da criatura ainda fresca em minha mente. Na hora de dormir sentia arrepios constantes e a sensação de ser observada por olhos invisíveis. Mal conseguia fechar os olhos. Sonhei com corredores intermináveis, sempre correndo, mas nunca chegando a lugar nenhum.
27 de dezembro - Acordei assustada, com uma sensação de algo se infiltrando em meus pensamentos. A lua agora parecia assustadoramente mais próxima. A criatura parecia mais distinta dessa vez, os olhos ardendo em chamas. Tentei me apegar aos pensamentos de que ela era apenas fruto da minha imaginação e voltei a dormir um sono agitado. Minhas noites se tornaram um tormento, sonhos terríveis onde minha amada aparecia, os olhos cheios de uma dor incompreensível, a voz melodiosa agora carregada de desespero. E na escuridão azulada, a criatura espreitava, aguardando sua oportunidade.
28 de dezembro - A lua não desapareceu ao amanhecer e sua presença já tornava o tempo irrelevante. Acordei sentindo dores pelo corpo, sensação de fraqueza e náuseas. Mesmo assim sentei-me para escrever e por vezes podia enxergar a criatura pelo canto do olho a me rondar como se esperasse seu momento. A sensação de mal-estar parecia piorar então voltei para cama e adormeci.
29 de dezembro - Os dias se misturavam, eu já não tinha muita certeza de que dia era. Me guiava apenas pelas batidas habituais na porta do café-da-manhã, almoço e jantar. O mal-estar piorará e eu estava febril, uma dor de cabeça lancinante, enjoos incessantes, me levantava da cama com dificuldade. Dormia várias vezes ao dia em uma sequência de tormento e vigília. E sentia a criatura mais próxima a cada abrir e fechar de olhos. Em meus sonhos eu ouvia gritos acusatórios da minha amada me culpando por sua morte. Minha mente parecia à beira da ruptura. A criatura estava mais próxima, quase tocando a cama onde eu dormia.
30 de dezembro? - A lua permanecia no céu, uma sentinela que vigiava meu sofrimento. A febre queimava a minha mente, dores incessantes em meu corpo. Não conseguia mais sair da cama, e a criatura estava tão próxima que eu podia sentir seu hálito gelado, grandes olhos vermelhos brilhando com intensidade, o corpo esquelético, a pele pálida e esticada sobre os ossos protuberantes, parecia faminto com aquele sorriso aberto de orelha a orelha com dentes afiados e amarelos. Comecei a delirar, não distinguia mais o que era real e alucinação. Meus sonhos eram um entrelaçamento de imagens de morte, gritos de agonia, imagens distorcidas. A criatura ao meu lado de olhos fixos em mim, parada apenas a espera.
31 de dezembro? - Mais um dia sem conseguir levantar da cama. A lua parecia estar prestes a devorar tudo ao redor, era tão grande que eu já nem via mais o céu. A criatura estava deitada ao meu lado com o rosto frio bem junto ao meu, seus grandes olhos vermelhos e aquele sorriso incômodo. Com uma mão de dedos finos e longos acariciava minha cabeça como se eu fosse sua cria ou um pequeno filhote, parecia testar minha sanidade. Eu só conseguia me imaginar morrendo ali e meu corpo, talvez devorado, sendo encontrado tempos depois. Tentava me segurar ao pouco de sanidade que eu ainda tinha. Sentia a criatura como um abutre apenas esperando minha morte para se apossar do meu corpo ou saciar seus hábitos necrófagos, ou fazer sabe-se lá o que. A lua, essa entidade, o medo, a culpa, tudo se misturava na minha mente, eu não encontrava mais forças para lutar contra aquilo, eu havia deixado toda a esperança escapar por entre meus dedos febris. Tentava me agarrar ao pouco de sanidade que me restava, mas eu não tinha esperança de que sobreviveria mais uma noite.
Nota de rodapé:
1.Jesus, Salvador do mundo / Teus servos te pedem ajuda / Aqueles a quem com teu precioso sangue /Aqueles a quem com teu precioso sangue / Você resgatou
Senhora encantada que espera no muro /A vida é curta e a espera é longa / As estrelas ao longe, enfraquecem com o alvorecer / Senhora encantada que espera no muro / Seu conto apenas começou / Vem de longe, da Terra de Lugar Nenhum / O vento está soprando um som bem conhecido / Senhora encantada, seu amor há muito se foi.
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Remorso Póstumo
Estive por tanto tempo absorta em pensamentos, me deliciando com as palavras ganhando vida em páginas em branco. Vestígios de um sangue…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Estive por tanto tempo absorta em pensamentos, me deliciando com as palavras ganhando vida em páginas em branco. Vestígios de um sangue azul de outrora me levaram para um frenesi que Malus não pôde prever. Vidrada, fui escrava de meus sentimentos e escrita desenfreada.
Desci a meu antigo vilarejo. Esbanjando suavidade, beleza e terror. Não cogitaram que eu pudesse ser um mero fantasma, me chamaram de Diabo, e levantaram suas cruzes para mim. Escárnio. Eu que dormia ao pé de uma cruz de madeira com um Jesus crucificado testemunhando meus desejos e sonhos pecaminosos. Ah, se eu fosse o Diabo... Não lhes tomaria somente o sangue, com prazer, torturaria suas almas.
O pai que minha mãe me dera, não de sangue, era um paspalho pervertido que tentara contra sua própria filha, Carrie, minha única irmã, 10 anos mais nova do que eu. Minha amada progenitora nada fazia, nada dizia, éramos nós por nós mesmas.
Eu almejava as alturas, ser imponente como a lua que me permitia enxergar na escuridão. E diante dela, eu jurei nunca mais temer alguém insignificante, desprezível e tão patético quanto aqueles que me criaram.
No deleite, alimentando-me do líquido carmesim de seus corpos, fui vista por Carrie. A fúria que se abateu em mim, por meu próprio ato descuidado, fez com que jogasse seu corpo frágil contra a lareira mal esculpida. Na tentativa de trazê-la de volta à vida, sem sucesso, me peguei saboreando de seu sangue puro, inocente e doce, como jamais havia sentido. Não era azul, mas era tão sublime quanto, ou ainda mais.
Delírios, devaneios, remorso, culpa, deleite... em minha vingança falha atentei contra o que ainda me prendia a um mundo do qual já não mais pertencia.
...
Malus
Deveras como um cadáver. Muito mais fria do que o habitual, pele azulada, quase que seca quanto uma flor desidratada.
— Maneira sublime de morrer, Concordo. Mas nada bela. — Peguei o corpo cadavérico de Anelly que estava jogado sobre a cama e o acomodei de maneira mais confortável.
— Há quanto tempo não se alimenta? — Ainda sem resposta, fiz um corte considerável em meu pulso e a alimentei.
A princípio permanecia inerte. Como se a vida já a tivesse escapado. Mas ao toque de meu sangue em seus lábios, pude perceber que Ane ainda estava ali. Com um toque fraco de suas mãos em meu braço, se alimentava gentilmente. À medida que recuperava suas forças, sentia que o impulso aflorava em seu ser. Esta era a jovem por quem estava ludibriado, sozinha, mas não inocente, doce, mas não frágil, delicada, mas sombria como a noite sem luar.
...
Anelly
Não pude suportar o peso de ter tomado a vida de quem mais amei. Carrie me assombrava e me fazia perder a sanidade que já duvidava se realmente tinha.
Fugi de mim, entregue às valsas, fios invisíveis e enquanto rastejava nas sombras. Pouco a pouco abandonei meu ser, deixando meu corpo inerte, à mercê da própria sorte. Quanto mais neve avistava pela janela, mas eu definhava.
Estava oca, a fome já havia me abandonado. Sentia minha pele fria se enrijecer, e minha mente se apagou. Não posso dizer quanto tempo depois fui desperta. O sabor inconfundível da criatura mais interessante e deliciosa que eu já havia conhecido tocou meus lábios, e eu só conseguia desejar por mais.
— Definitivamente não é uma bela forma para uma donzela padecer. — Falou seriamente Malus.
— Donzela? — Ri, deixando que um pouco de seu sangue percorresse o canto esquerdo de minha boca. — Uma piada, certamente, mas que não combina com seu tom de voz.
— Você desapareceu por dias. Não a sentia mais. Estive fora do castelo e não tinha certeza se te encontraria no meu retorno. — Franziu o cenho e perguntou interessado. — O que levaria você a fazer uma greve de fome?
— Não fiz uma greve de fome! — Respondi brava, incomodada com a insinuação tola e juvenil.
— Dias sombrios abraçam até os seres mais obscuros, eu sei. Mas o que houve, minha cara?
Relatei meu infortúnio e remorso póstumo. Malus deu de ombros. Disse que transformar minha irmã teria sido uma péssima ideia, e continuou:
— Bebês... Crianças e bebês têm o sangue mais doce e puro que poderá encontrar. Não saboreá-los é um desperdício. Não deixe que laços do passado a castiguem por um mal necessário. Uma vez que foi vista, não teria outra escolha.
Estranhamente me senti mais confortável comigo mesma após ouvi-lo. Era divertido ter sentimentos por ele. Alguém como nós sentir algo tão bom um pelo outro. Uma paixão ardente, mórbida e que cada vez mais me via dependente.
Folheando rapidamente meu diário, me prometeu um novo, em breve. Admirava a rapidez com que eu havia preenchido tantas páginas. Questionou uma máscara partida em cima da escrivaninha, preta e de renda. Disse não saber sobre sua origem, mas mostrei-lhe o poema "A Valsa dos Desesperados". Ele sorriu. Disse que o conde não perdia oportunidades. Beijou minha mão direita e se retirou.
Já muito mais disposta, caminhei até a janela. A neve havia se instaurado com força. O céu banhando em um azul-carmim, evidenciava uma lua lúgubre. A melancolia percorria minhas veias. Uma tristeza sem cor avançou sobre mim. Quase não tinha mais páginas, mas o tinteiro estava cheio. Malus deveria se apressar com meu novo diário, caso contrário, teria que recorrer a outros meios para continuar a escrever.
Suas veias azuladas
As mesmas que via em mim
Sob um sol frio e pálido
As últimas lembranças que me restam de ti.
(...)
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Sete Noites
Após a noite do abraço, parecia que eu havia dormido por uma eternidade, mas o que constava no jornal local fora que se passaram seis dias…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Após a noite do abraço, parecia que eu havia dormido por uma eternidade, mas o que constava no jornal local fora que se passaram seis dias. O que falar das sensações pós abraço? Tive contato com a criatura tenebrosa que me hipnotizara e me fizera ingerir não somente seu sangue, mas também sua carne. Antes que eu pudesse desmaiar e ser enterrado em uma cova, senti que ao invés da criatura se tornar mais fraca, aquilo lhe dera forças. O monstro havia se humanizado; surgiu um homem de cabelos longos e negros por debaixo da carne podre do quase cadáver que me atormentara e me infligira a ter impulsos repugnantes. O homem possuía dois olhos vermelhos e expressivos, olhar que eu nunca tinha visto parecido ou igual. Já não sabia distinguir se era melhor ter visto apenas o quase morto ou se o que se transformou em homem era mais assustador.
Em oposição a criatura que se despertara, eu estava fraco, algo me consumia por dentro tal qual chamas de uma fogueira. Já não sabia distinguir se era o efeito do vinho ou o consumo da carne podre. Quando dei por mim, já estava sonolento e sendo arrastado pelos pés pelo cemitério. Senti uma espécie de choque, entendi que havia sido mordido, seguido a isso, o homem de cabelos negros me induziu a beber mais do seu sangue e logo após senti que meu crânio iria se despedaçar após levar um soco do homem em questão. Após entender que havia sido soterrado em alguma das covas, percebi que despertei em alguns momentos, mas não saberei precisar as noites, pois se bem me lembro, já não me recordava de sentir o sol das manhãs, apenas das fases lunares não precisos através das frestas de terra que me possibilitavam enxergar alguma coisa. Em um primeiro momento só tive forças para empurrar meus braços e minhas mãos para fora da cova. Em um segundo momento, empurrei meus pés, no terceiro momento já me sentia mais forte e consegui tirar meu corpo por inteiro de toda a terra que me empurrava à sete palmos abaixo. Já me sentia forte, mas também fraco ao mesmo tempo; algo me necessitava.
Juntei as forças que ainda me restavam e perambulei, pelo que me constava, pela sétima noite no cemitério. Vi que o coveiro ainda trabalhava para enterrar um dos moribundos que enfim ganhava seu lar eterno em uma das covas. Já via e sentia com detalhes que antes não precisava, mas algo me despertou atenção; ao passo que me aproximava mais do coveiro, conseguia sentir todo o sangue, veias e artérias que ali pulsavam, sentia todo o sistema vascular do pobre homem. Sentia sobretudo sede. Sem pestanejar, surpreendi o coveiro pela retaguarda e por instinto o mordi. Fora minha primeira vítima e foi cruel o que eu fiz; além de sugar todo o sangue que pude, utilizei dá pá de enterrar para abrir seu corpo: primeiro consumi seu cérebro, depois o seu coração e por fim suas vísceras. Quase nada sobrara ali. Sentei-me por um segundo na lápide de algum morto, farto como se tivesse banqueteado em um jantar na corte. Estava todo rasgado e ensanguentado, queria poder trocas as vestimentas, porém, quando já estava a ponto de deixar o cemitério, uma voz intrusa invadiu minha mente com ordens e comandos. Senti alguma semelhança com a voz que me hipnotizara na tumba misteriosa e entendi que algo poderia estar me ligando ao sujeito que me oferecera a própria carne e o sangue e que também havia me mordido. Por impulso e ordem voltei até a tumba. Quando adentrei o local e dei por mim, o mesmo homem misterioso de olhos rubros e cabelos negros como a noite esperava por mim. Mas eu já não sentia medo e sim semelhança.
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Solilóquio
Os acontecimentos anteriores me deixaram ainda mais convicto das incertezas deste lugar. Um salão de festas, cheio de gente, onde ninguém…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Os acontecimentos anteriores me deixaram ainda mais convicto das incertezas deste lugar. Um salão de festas, cheio de gente, onde ninguém olhava diretamente para mim, sem nem ao menos esboçar uma qualquer comunicação, visual ou verbal, seja comigo, seja com outros presentes naquele momento… para piorar, aquela fatídica dança, aquela misteriosa parceira de noite que, além de me fazer magicamente entortar as pernas e mãos ao redor de seu corpo, me deixou tonto da cabeça e cheio de pensamentos ao final do evento…
Não diria estar me sentindo cativo aqui, à mercê de algum projeto secreto, nas mãos obscuras de um(a) maquinista oculto e arranjador de situações para, aos poucos, me levar a algum destino… pelo contrário: continuo afastando-me dessa conclusão e sentindo-me estranhamente confortável, servido diariamente de estímulos e atmosfera para o desenvolvimento da escrita. Pois sim, este é o verdadeiro objetivo que parece se desenhar por trás de minha presença e dos outros convivas do Castelo.
Leio-os, todos, com afinco, e retiro de suas experiências narrativas a conclusão de que estamos unidos pelas sensações, pela profundeza de ideias que o ambiente cercado por estas paredes parece cavar e encerrar mais — o resultado final dessa escavação, ainda um mistério… a incerteza no ar…
…
Há pouco, sentado diante desta biblioteca enorme de livros, disposta de maneira a — imagino — atender aos meus anseios (ou faltas) de inspiração, percebi-me atingido por uma vaga ideia: um raio capcioso de argumentação, de dúvidas quanto à realidade em que estou inserido, varou meu íntimo literalmente “do nada”... algo iniciado, se posso tentar adivinhar uma mínima origem, ao me desviar rapidamente das estantes e cruzar o olhar com o brilho espectral da Lua, invadindo este quarto…
Pois registro aqui que a Lua, vista da torre em que faço morada, todas as noites parece iluminar a paisagem sem barreira aparente. Da janela pela qual deixo entrar o ar nas deliciosas noites que fazem, junto com essa luz, sinto chegar igualmente até mim toda a sorte de sensações e mistérios que imagino rodar pelo mundo, invariavelmente causando em almas sensíveis os gatilhos necessários para se começar a pensar…
Eis o de agora: quem dirá (além dos raros cosmonautas) ter plena certeza de que a Lua se encontra lá, naquele céu misterioso e enganador que não sabemos seu fim? Se longe que estamos, e até onde nossos olhos alcançam, não podemos ter convicção alguma de não confundirmos uma árvore com alguma parede de maior estatura e verdejante; uma casa com algum tipo de projeção artificial, devidamente iluminada; um ser humano com alguma criatura além de nossa compreensão…
Vejam só, neste mesmo procedimento sobre o qual falo: por que essa reflexão? De onde tirei a iniciativa, estando há alguns minutos preocupado unicamente em tentar enxergar os títulos dos livros que me fazem companhia? São procedimentos mentais totalmente voluntários?... A própria linha de raciocínio e ação parece completamente indiferente a qualquer tentativa de apreensão. Qual terá sido o primeiro gesto, o pontapé inicial da minha série de atitudes que determinaram (pois assim deve ter sido) minha chegada a esta etapa da vida, a esse momento de incisiva reflexão? Mantém-se a pergunta…
Havendo resposta ou não para esse brilho do céu, para essa dúvida quanto às sucessivas etapas que me trouxeram a esse quarto, e por que decidi me atentar ao processo de pensar, certo é que cheguei aqui impulsionado por uma onda — já estando à espera (e à deriva) da próxima. Se nem mesmo os passos que eu daria ao entrar no Castelo — que me revelaram, por mais absurdo que possa parecer, o aprendizado da dança(!), além de outras descobertas quanto a habilidades de escrita — puderam ser previstos, que dirá ter plena certeza dos movimentos reais do satélite natural, assim nomeado por quem também acha ser apropriada a definição…
Encontrando ou não alguma razão em minha estadia no Castelo, uma resposta final ou explicativa de minha chegada aqui, certo é que estou mais aberto aos estímulos de fora, atento aos acontecimentos que se mostram e surgirão a cada dia aqui — já com a plena certeza de ter sido aceito nesse lugar por obra de alguma construção minha (antecedida por outras), consciente ou não…
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Cognição Vampírica
Minha mente parece estar composta por todos os destroços das minhas vítimas, a sofreguidão me acalenta em sua dissidência estupidamente melancólica…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário Não Datado – Declínio Dourado
Minha mente parece estar composta por todos os destroços das minhas vítimas, a sofreguidão me acalenta em sua dissidência estupidamente melancólica.
Minhas lamúrias são como abraços de facas que me atravessavam sem pausas, eu me sinto tão morta quanto estive antes de me tornar essa criatura.
Éramos e ainda somos, apenas eu e ele...
— Miau — Jason telepaticamente mia.
Penso que se talvez eu não tivesse aceitado rodopiar naquele baile, o que me teria alcançado? Quais sentimentos iriam me consumir de acordo com as minhas escolhas?
Como seria bom voltar para as cores daquela festa, o dourado irradiava naquele salão, mesmo que dentro de mim fosse como uma borracha apagando ativamente cada vestígio da Maria existente de outrora. Sinto tantas coisas ao mesmo tempo que sinto um vazio me cobrir a cada segunda em que busco respirar nessa carcaça imortal. E a minha adorável amiga... meu outro consolo neste imenso castelo que me cerceia de dúvidas, se meu coração pudesse saltar, agora ele estaria no chão do quarto com um vestido vermelho dançando algum tango com as minhas emoções conflitantes.
— Miau — Jason me interrompe na hora da minha escrita.
Não consigo sentir raiva dele neste momento, pois ele me acordou por um bem maior. Tem estado preocupado comigo desde a nossa última refeição e que felicidade seria apenas ser uma viagem alucinante após um copo do líquor-carmesim que eu nem sequer tocara.
Levanto-me deste dossel e agora percebo que tudo no meu quarto combina com as cores do meu cabelo, antes eu estava tão no automático e procurando respostas, que nem dei vazão para as emoções com tanta destreza que nem agora que me encontro em tamanho descontentamento. Passei o dia estranhamente no escuro e na companhia do meu gato não vi a hora passar. Eu me senti em combustão depois de sorver todo o sangue daquela criatura que atrapalhara meu caminho. Os humanos são tão frágeis que chega a ser repugnante, ao mesmo tempo que os invejo.
Com as cortinas fechadas o dia inteiro, a escuridão se fez presente e ao vaguear agora no corredor do castelo com o Jason, percebo que já anoiteceu. Mas não vejo a lua amada que admiro todos os dias. Hoje está diferente. A lua está cheia, mas as cores estão diferentes, nos vitrais brilham três tons e esse carmim me traz vagas lembranças...
— Miau — Jason faz uma interação telepata tentando me confortar.
— Eu não sei se consigo controlar Jason, eu me sinto cheia de ontem, mas algo me chama e eu quero mais. Eu estive todo esse tempo suprimindo meus desejos e os suprindo com a escrita. Mas não sei se irei aguentar por tanto tempo, me sinto perturbada nesse momento. Você consegue me entender agora nesta nova fase?
— Miau — Jason mia baixo e me mostra em nossa conexão mental que estará comigo em todos os momentos. Que preciso me controlar, pois há muito ainda a ser feito e vamos aprender algo com nossa dor atual.
— O que é aquilo? — Vejo uma sombra no vitral e nunca fui cética, pelo contrário. Não consegui sentir nenhum cheiro, a etérea fantasmagórica nos convida.
Vamos correndo seguindo-a pelos vitrais no clarear da lua túrgida. Eu consegui me desvencilhar um pouco dos sentimentos enquanto estava nessa fuga da minha realidade. Não consigo observar os detalhes com clareza, a aparição tem apenas cabelos longos e o corpo parece coberto por uma manta.
Ao chegar aonde não se encontrava mais nossa descoberta, sou pega de surpresa, pois há uma catedral dentro do castelo. As paredes não têm a mesma pintura dos cômodos do castelo. São tantas cruzes e tantos símbolos de religiões diferentes, que julgo ser um lugar para aqueles que buscam algum refúgio para o espírito, vampiros fazendo prece me parece tão satirizado.
Seguro-me em um banco que está envolto de um lençol branco, algumas árvores cortadas estão na catedral e tudo parece um grande caos abandonado. São tantos vitrais de modelos diferentes. Mesmo que distintas em seus formatos, apenas a luz dessa lua que tange em reflexivo e penetrante cor todo o ambiente.
Como já venho me sentindo tão amargamente contrariada e lamuriosa, resolvo pedir para a única em que acreditei em toda a minha vida, a mãe natureza. Quem sabe me respondesse em meio a esse lugar nada sagrado, para a minha alma já perdida e uma mente volúvel que agora só crer no poço profundo que busca incessantemente.
Peço para Jason fechar os olhos e junto comigo um clamor para que ela se faça presente naquele momento, que me desse alguma brecha para que um novo rumo se abrisse à minha frente.
Não aguento mais ficar na constante dúvida de existir nesta nova vida em que levo. E mesmo que eu não tenha os elementos mágicos para fazer os pedidos aqui comigo, deixei todos no meu quarto. Deixei-os de lado depois que me tornei vampira, mas sempre estão comigo de algum modo que me prendesse na vida humana em que eu tivera.
Não demorou muito para que uma nova forma etérea aparecesse e com ela um clarão incandescente, seu formato fazia conjunto com os troncos cortados próximos aos bancos. Sua silhueta em formato de uma mulher, de uma mãe que estava gestando não apenas um filho, mas uma chusma. Seus cabelos estavam esvoaçantes em formas de arbustos num verde claro que ainda sim era ofuscado pela luz dos vitrais da lua. Em suas mãos tinham sálvias me trazendo o sentimento que eu almejava.
Meus olhos ficaram avermelhados e em seguidas lágrimas escorreram pelo meu rosto, lágrimas de sangue e, ao olhar para o Jason, ele sentia o mesmo.
Meus cabelos curtos em formato de algodão doce ruivo com manchas verdes agora estavam voando como o dela, da mãe que me trouxera a conexão divina que é um dos significados da sálvia e a sabedoria que eu almejava. Eu não consigo conter minhas lágrimas e me sinto sonolenta. Ao bocejar sinto meu corpo esvanecer.
Lembranças
Sinto o cheiro da grama molhada do meu antigo jardim, da casa que tive meus melhores momentos com o meu pai. Minha mãe havia falecido quando eu ainda era uma bebê e tudo que me restava dela eram algumas fotos que tirara comigo no dia do meu nascimento. No dia que mudamos para essa casa, meu pai me contara diversos sonhos que tinha para nós e lembrar que, ainda morando neste lar, também o perdi. Me submeti a uma nova mudança logo após o passar do meu luto, estava decidida a morar sozinha e viver uma carreira de autora, ainda que fossem difíceis os sentimentos de lembrança do meu melhor amigo, um pai presente, que para muitos hoje está em falta.
A herança que ficou para mim, usei para gastos supérfluos, aumentando meus atos compulsivos e impulsivos de colecionadora. Morar numa cidade quente como Fortaleza me fez repensar muito nas minhas compras.
Tento abrir os olhos e logo sou jogada para uma nova lembrança.
— Esse dia não, por favor. — A mãe me acalenta com uma das plantas em suas mãos e eu adormeço novamente.
Os dias absurdamente quentes que as nuvens não estavam à nossa vista, o sol queimava a retina e o corpo transpirava em lugares inenarráveis. Nessa época eu estava de cabelo azul, assim como a cor da caneta que eu escrevia no meu diário. Meu livro ainda não tinha vendido nenhum exemplar e eu me sentia desconsolada e as esperanças esquecidas no meio de qualquer lugar do mundo. Eu olhava para o céu em busca de queimar de vez a retina e a minha esclera quiçá ficasse da cor que era a emoção que me afligia. O céu naquele azul intenso que me ardiam os olhos, me dizia que eram dias que eu tinha que me recolher. E foi dentro de mim mesma que virei um casulo… Nesses dias eu me jogava no chuveiro, uma cidade tão quente e neste dia minha alma estava tão fria… “Por aqui, a única tempestade que tinha era de minhas lágrimas enquanto eu molhava meu corpo, escorria tudo de dentro de mim e, por fora, eu virava apenas uma só com a água”.
Enquanto vagueio nessas lembranças, me vêm esses trechos do meu diário e me recordo que nesse mesmo dia eu o conheci. Depois de um banho e logo suada estava novamente, fui caminhar até a praia e no antigo Porto dos Ingleses ou Ponte Metálica eu fiquei a refletir sobre a minha escrita e foi ali que eu ouvi um miado. Bem distante e um serzinho mufino escondido com os pelos siameses e sujo. Eu queria morrer naquele dia, minha mente estava explodindo com todos os meus problemas além do livro. Eu cogitei me jogar daquela ponte até aquele miado me entreter. E foi assim que Jason nunca mais saiu da minha vida.
Diário Não Datado - Um novo dia
Ao acordar depois daquele encontro, ainda no meu dossel, apalpei meu rosto e senti as lágrimas secas e grudadas, Jason ao meu lado estava do mesmo jeito. Acredito que a mãe natureza quis me mostrar que independente de tudo que estejamos enfrentando nesse castelo sombrio, se continuarmos juntos, seremos mais fortes. Quanto à lembrança do meu pai, sinto que era o consolo que eu buscava, após perdê-lo criei um desconforto em manter algum tipo de comunicação com homens, foram poucos que tiveram minha atenção. E agora que me encontro neste castelo vou precisar lidar com isso, principalmente quando Drácula vier ao meu encontro, ou algum morador do castelo.
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Capítulo 1: O Adágio Sibilino
Um flúmen carmesim cruzava o níveo balcedo e, deste liquor consistente, eu me inebriava, sorvendo sem temores, e imergindo-me nua em seu sereno caudal…
Um flúmen carmesim cruzava o níveo balcedo e, deste liquor consistente, eu me inebriava, sorvendo sem temores, e imergindo-me nua em seu sereno caudal cujo aroma ferroso seduzia-me. O álgido inverno mordaz congelava-me os cílios, alvejava meus negros cabelos e sobrancelhas enquanto a torrente escarlate era estranhamente tórrida como uma nascente termal. Eu não sabia a origem daquele sangue, no entanto, em minh’alma residia a intuição de que advinha de um mórbido pecado. Despertei deste sonho após tal intuição fissurar o plano onírico e, então, senti sede. Não foi uma sede qualquer, parecia-me como mãos a asfixiarem-me a garganta; senti dilatarem as minhas pupilas e um ímpeto terrífico embaçara em rubro a minha visão. Foi isso que aconteceu naquele dia após o sono sombrio no amanhecer. Despertei às dezessete horas, completamente alucinada.
Então, lá estava ela; uma taça de ouro lapidado e brilhante que por certo fora disposta sobre a mesa poeirenta enquanto eu devaneava, uma vez que eu não a vi n’outro momento desde meu despertar primevo, quando tudo era-me tão somente uma penumbra de indagações a pairar pelo ambiente frígido. N’um único movimento suave, segurei o lustroso cálice e levei-o aos meus lábios sequiosos após notar que dentro dele habitava um espesso líquido acarminado, em demasia semelhante ao flúmen de meus oníricos recônditos. Posso ter olvidado cada uma das memórias do meu passado, todavia, ainda detenho os conhecimentos mais precisos, e alguns além, que me permitem compreender o mundo; um destes saberes é que este sangue não deveria ser tão apetitoso para mim, tampouco matar deveria esta minha inominável sede.
Na voracidade mitigada pelo degustar, observei um envelope esculpido em um tipo de material valioso, talvez um quartzo. Toquei-o, estava próximo à cama e, em minhas mãos, ele lumiava como uma folha feita de um excêntrico e natural rubi fissurado por ouro. Era apenas um papel, todavia, não poderia advir dos eucaliptos setentrionais. Em seu interior, letras conduziam uma misteriosa mensagem.
“A escuridão do ressurgir possui ímpar esplendor, contudo, o exício d’alma, como Rosaemori, habita na dança da meia-noite pela lembrança ao refletir, onde o doce carmim se putrefaz às faces dos que jamais se delatam.”
Um peculiar enigma de essência familiar, embora tão ofuscado pelo mórbido vazio de minhas mais ínfimas memórias. Conservei uma proximidade à letra cursiva, mas desconfiei apenas encontrar-me delirante. Esforcei-me em profundo pensamento, no entanto, o “exício d’alma, como Rosaemori,” e as “faces dos que jamais se delatam” soavam-me como um longínquo corvejar em um horizonte crepuscular inebriante, isto é, passível de admiração intensa, mas não de compreensão. Dobrei a epístola insondável e escondi-a em meu vestido, próxima aos seios; e asseei meus lábios úmidos pelo fascinante e fresco vinho da profanação. Era hora de deixar aquele sôfrego aposento e conceber novos retratos à conservação dos momentos advir — e tentar colher do inconsciente as mais ocultas verdades, pois, possuíam seu incontestável valor.
Abri com ampla facilidade os altos umbrais e dirigi-me pelo corredor silencioso. Candelabros espargiam de si um lumiar trêmulo, porém, vigoroso, e clareavam as veredas obscuras. À vista dos vitrais de um grandioso salão, o qual adentrei sem anelo por meio de um esmo perscrutar, observei um esguio homem no jardim; à sua frente uma mesa de carvalho servia de repouso a incontáveis itens fúlgidos e tecidos de apurada aparência. Destinada a conhecê-lo, busquei escadas que me levassem ao andar de baixo e não demorei a encontrá-las, pelo caminho, contudo, examinei alguns quadros, estantes vazias, livros e gavetas. Tudo era símil a uma abandonada mansão, mas, de forma ambígua, habitada por um singelo número de pessoas, o suficiente para que a poeira se esquivasse aos cantos por onde pés não andejam.
— Ó! Fascinante donzela! Ande! Apressa-te! Esgotar-se-á o teu tempo, tens uma mísera hora para aprontar-se para o Baile, vamos, venha, venha! — Proferiu o homem ao ver-me aproximar; seu sorriso era largo, tétrico e pontiagudo, seu rosto era pálido e seus olhos lembravam-me das chamas sobre as velas dos candelabros. Os dentes afiados pareciam esculpidos em etéreo marfim e os dedos das mãos quais se abanavam n’um gesto chamativo em minha direção, eram franzinos e longos. Os trajes do indivíduo peculiar possuíam uma fina elegância, envoltos aos tons mais negrumes com adornos sublimes e áureos. Sob uma tenda rubra ele se mantinha em pé, um relógio de bolso dependurava-se em seu braço e, pela indumentária extravagante, o curso de uma corrente lhe enfeitava as mãos ao vincular-se aos seus anéis de pedras preciosas. Quando próxima, vi-o erguer alguns vestidos.
— Há excelsas peças, Dama soturna, veja, veja, veja!
— Perdoa-me... — Iniciei uma conversa hesitante — Não compreendo sobre o que falas ao mencionares um... baile? — Indaguei com a sutileza mais sincera, o homem cessou seus movimentos apressados e fitou-me atento.
— Não recebeste o convite? — Indagou, cismático. Ponderei por instantes fugazes sobre revelá-lo o bilhete enigmático, no entanto, receei. — Vamos, diga-me teu nome! — Ele voltou a movimentar-se entre seus apetrechos, em especial as gavetas de uma grande mobília detrás dele.
—Eu... — Eu não sabia meu nome.
— Diga-me! O Tempo se escassa a cada átimo! — Abrindo e fechando cada uma das gavetas, o homem procurava por algo.
— Eu não... sei... — Revelei. Novamente, mirou-me seus olhos lumiados. E, então, cruzou seus braços magérrimos e elevou, com sutileza polida, seu maxilar.
— Hum... — Ele parecia pensar, seus sonidos eram de, porventura, um abismal refletir. — Creio que tu sejas, então, a esperada...
— A esperada? — Questionei em uma curiosidade infante. O homem retirou de sua manga, em uma lentidão performática, um envelope fascinante em simetria e perfeição. Estendeu-o a mim. Nada havia escrito ao lado de fora do envelope, todavia, era selado com um tipo de mecanismo único feito com delgados ornamentos fulvos e, no centro, um único elemento cetrino, era um verídico Realgar esculpido em formato orbicular.
— Fui instruído a dar este invite à primeira donzela inominada que viesse ao meu encontro.
— Quem o instruiu? — Minha voz estva mais célere, enquanto eu me sentia embriagada pela beleza do artefato que agora eu segurava em minhas mãos.
— Ora, ora... um alguém... — Ele olhou para o tecido à sua frente, retirando-lhe uma longa agulha e, com um monóculo, observou a fenda por onde, sem delongas, atravessou uma rúbida linha.
— Quem, afinal? Possuía um nome? — O homem gargalhou com requinte diante meu questionamento.
— Perdoa-me o riso... é que tu, inominada como és, estás a indagar sobre o nome de outrem? Ora, parece-me tão pitoresco. — Respirei impaciente. Olhei para o belíssimo invite e toquei-o, admirada. Assim que o fiz, em especial na preciosa Realgar, o envelope abriu-se n’uma deslumbrante carta e todos os ornamentos dourados fragmentaram-se à fulvo pó com aroma de cestrum nocturnum.
“Caríssima dama! Que adorável noite! Venho por meio desta missiva convidar-te à Masqarilla, a qual terá seu início às dezenove horas. A solenidade saudará os novos residentes com o liquor-carmesim e dançaremos sob o luar. Como desperta, é de inefável valor que venhas ao nosso encontro e participe deste fascinante festejo, este é seu novo lar. Tenho sob minha guarda uma carta destinada, creio eu, à senhorita; decerto é de teu interesse tê-la em mãos. Com apreço, Conde Drácula.”
— Como o reconhecerei? — Sussurrei.
— Conde Drácula? — O homem à minha frente indagou, ainda obcecado por costurar o seu tecido. Respondi-lhe que sim. — Tu o reconhecerás, não te preocupes. A influência da presença do Conde é notável, mesmo no mais longínquo. — O Homem ergueu, após sua fala, o vestido que costurava. — Que tal este? Do teu exato tamanho, vermelho como os teus olhos.
— Belíssimo! — Encantei-me com a peça e, ao tocá-la, vislumbrei abaixo, no mais oculto da mesa de carvalho negro, uma máscara peculiar. — E esta?
— Ó... Esta? Sim, sim, uma máscara especial de uma criatura mítica há muito esquecida.
— Pensei tratar-se de um corvo.
— Um crânio fidedigno, caríssima inominada, de uma criatura mítica dos dédalos florestais... Segure, isso mesmo, experimente! Deve servir em tua fronte. — Era perfeita para mim, tive tal certeza ao vesti-la; somou-se a uma proximidade tênue que senti no exato instante. — Sabes que uma taça de ouro do Castelo pagaria facilmente o indumento e a máscara... — Disse o homem esguio, com seus olhos dispersos e lábios trêmulos, de alguma estranha forma ele sabia da taça que eu possuía em meu aposento. Curvei-me a ele em um cortejo formal e, em alguns minutos, lhe entreguei o fulvo cálice para tão logo aprontar-me para o festejo misterioso, mas... algo me estorvava a empolgação de desvelar os segredos da tal carta em posse do Conde; ou mesmo de conhecer mais sobre este imensurável castelo à beira do abismo. “O exício d’alma, como Rosaemori” — aquele insólito bilhete era a razão do meu remorar frente aos umbrais de minha alcova.
Não obstante, entretanto, corri pelos claustros e passadiços, passei pela galeria e o saguão, até ouvir ao longe o murmúrio dos convivas. Afoita e um pouco sem fôlego, antes de chegar à câmara do festim, busquei a serenidade de minha mente e corpo e, assim, pelos meus íntimos pensamentos, revisitei cada questionamento que me perturbava desde o despertar do dia anterior. Não importa quem, mas decerto — eu pensava — que alguém naquele lugar sanaria minhas vertiginosas dúvidas. Cingida por esta certeza, adentrei o grandioso salão e meus olhos reluziram pela riqueza dourada que se desvelou a eles com magnitude.
À leste, o vermelho, todavia, espargia das tapeçarias aos ornamentos que decoravam o pequeno púlpito destinado à banda, a qual, por sua vez, era composta por treze pessoas; tocavam valsas marcantes, onde o violino tinha destaque ao lado do acordeão. Meia dúzia de outras pessoas compunham um pequeno coral ao lado, com vozes marcantes que ecoavam à valsa que, julgo dizer, possuía ares circenses. Todo o som difundia pelo gigantesco local e parecia conduzir, pela abóbada de rubi, um encanto fantasmagórico estonteante. Lembrar-me da cena transporta-me a ela, parece vívida em sua volúpia teatral e, certamente, estivera; a mastodôntica câmara abrigaria mais de mil indivíduos, estou certa disso e, porventura, ali estivessem mil e um. Todos com elegantes trajes e máscaras sombrias, que fascinante! Compreendi a razão pela qual o Conde a nomeara “Masqarilla” e não apenas “Mascarada”, a primeira palavra em si tinha gosto de cereja, as mesmas dispostas em cachos na ampla mesa destinada ao banquete; além disso, ornada pelo “q”, perpassava a sensação de mórbido assombro por causa da extravagante ourada, os veludos de ouro, os vitrais de ouro, o néctar de cacau banhado à ouro para acompanhar as cerejas, tudo exótico e aclarado, sim, luminoso como um dia de sol, embora penumbral como a mais fúnebre noite.
Embora eu fitasse com minhas atentas retinas cada lôbrego e exuberante pormenor, dos cântaros com cestrum nocturnum a exalar um aroma notívago, aos candelabros cujas chamas febris estavam envoltas por decágonos feitos de um tipo de quartzo — eu alvitraria tratar-se de sirehnniha, pois se mesclavam entre o escarlate e o marfim, o que causava um efeito bizarro no ambiente à medida em que as chamas fremiam pela aragem; e, enfim, a despeito de tudo isso, quando eu conduzia minhas atenções aos olhos daqueles que cruzavam o meu caminho, os quais eram igualmente fascinantes em suas vestimentas, joias, peças e máscaras, eu parecia não ser vista. Talvez o crânio da criatura mítica a me ocultar o contorno facial fosse um empecilho para as aproximações virtuosas — ainda assim, eu não o retirei de meu semblante, pois, de modo incomum, detrás dele eu me sentia protegida.
Acabei por passar boa parte do tempo assentada n’uma das poltronas de um belvedere interno, acessado por escadas encíclicas, por onde o horizonte da Masqarilla era mais bem admirado. Isso me permitiu notar que, com o passar das horas, as velas envoltas aos decágonos de sirehnniha marfim iam se apagando, de modo que o ambiente, n’um aspecto tétrico profundo, se avermelhava cada vez mais. Além disso, a lua cheia subia no firmamento lucífugo e aos poucos o seu lumiar soturno se espargia pela abóbada de rubi acima do encalço destinado às danças. Essas minúcias provocavam-se uma inquietação ofuscante, no entanto, algo me prendia àquele lugar, não apenas algo brumal e símil a tudo o que se desvelou a mim desde meu despertar; houvera algo ainda mais misterioso, porém tangível, que me impeliu a permanecer na meia-luz escarlate.
Em um fantasmagórico cárcere que vinha sobre mim no silêncio de minha mente conturbada, um alguém de vestes obscuras sentou-se ao meu lado e o vi apenas quando sua voz grave sonorizou sua presença à minha audição que se alucinava com o mórbido som do órgão de tubos.
— A morte é a eterna dança da alma no abismo. — Dissera, intenso, entregando-me um ramo ornamentado de cestrum nocturnum. O bálsamo da flor penetrou, marcante, meu olfato e, tamanha era sua veemência que, por instantes, desorientei-me. — Dance comigo. — Sussurrou o homem com a mesma delicadeza viril, então segurei o belíssimo e inebriante ramo que era erguido em minha direção e ponderei sobre qual seria o sabor daquelas pequenas flores lívidas, pois que o perfume me era um êxtase sui generis. O misterioso Dom à minha frente aguardava, atento e sombrio.
— A quem devo a honra? — Indaguei, segurando-lhe a mão estendida. O homem a ergueu, beijando-a. Ele usava uma ornamental máscara negra que se assemelhava a um rosto humano com traços felinos; o vazio dos olhos tinha um exagerado tamanho, curvados como os de um tigre e cobertos por uma manta interna, no mesmo tom noturno. Somente seus lábios estavam à disposição, onde pude sentir sua pele fria; todo o restante de sua feição estava sob a paralisia do felino rosto ornamental feito de escuridão dourada. As mãos, por sua vez, estavam sob a proteção de luvas de couro e seu traje régio dispunha-se dos mesmos tons trevais por onde jaziam seus olhos ocultos. Uma umbrosa gema, talvez obsidiana, fora lapidada na fronte de sua máscara. Com este vulto de um alguém, iniciei o bailar ao som da umbrífera valsa.
— Lëvri Dorean — Revelara-me enquanto nos movíamos sob o som sepulcral. Muitos ao nosso redor seguiam na coreografia, o que nos impedia de um diálogo contínuo. Entretanto, enquanto a lua chegava ao cume da abóboda-rubi e quase todas as velas no decágono marfim se apagavam, o carmim transfigurava o ouro em sangue e tudo o que víamos era nós dois, a cada cinesia organizada, seguimos um diálogo em partes, entre as sombras de outrem. — E qual haveria de ser o nome da tua espécie? — Ele questionou com seriedade.
— Minha espécie? — Perguntei atenta enquanto a penumbra roubava-me a serenidade, conquanto a presença marcante daquele que não desviava seus olhos ocultos de mim fosse o apaziguar da solidão e do esquecimento, ainda que evolasse de sua aura algo inenarrável a me enlear ao medo lúgubre.
— É o que as flores possuem... espécie, classe e gênero. Da classe, sem dúvidas, és da mais excelsa; do gênero, decerto feminil. Falta-me a espécie. — Explicara, como um gomil a verter sobre minha pele um puríssimo néctar das belíssimas flores da arbórea Calliandra angustifolia. E meu corpo próximo ao dele, as palavras sedutoras, uma cura plena cujo mistério impedia-me de dosar o quanto eu poderia ficar imersa, ludibriada, e então sentir o veneno pela dosagem exacerbada.
— Dama-da-noite. — Ele sorriu com sutileza ao me ouvir, no entanto, um regélido arrepio tétrico percorreu meu corpo, originando uma desagradável angústia, de modo que seu sorriso se afigurou mais vil do que cativante.
— Quero o teu nome real, o qual eu possa sussurrar quando estiver só em meu aposento. — Neste íntimo, unimos outra vez os nossos corpos, com as mãos dadas, à valsa da morte. Era quase meia-noite. As sensações desoladoras ascendiam céleres, e os efeitos dos decágonos vermelhos à luz das chamas, me entonteciam.
— Eu te diria, se assim pudesse. Mas não me recordo... — À altura daquele diálogo, tudo de horrífico que eu pressentia, alastrou-se de repente. E, assim, uma pungente dor em meu crânio expandiu-se terrífica e meus olhos lacrimejaram detrás da máscara. Cessei meus movimentos, a lua era o astro de sangue no píncaro da abóboda de rubi, iluminando em um denso rubro tudo que debaixo estava, e a música não cessava. A aragem ao redor esfriara no exato átimo em que a aflição dardejara de mim, pelas têmporas. Fui obrigada a retirar, de súbito, minha máscara, revelando meu rosto entre os que bailavam à meia-noite vermelha, e minha dor hórrida espargia e se dilatava; lembro-me de olhar para o abismo dos olhos de Lëvri, ele me observava estático e, talvez, amedrontado — eu nunca poderia saber. Então, no aterramento da tortura, quando minha lancinante dor aguda colidiu-se com a minha sanidade, perdi-me dentre os corpos dançantes, perdi-me de Lëvri.
Na morbígera dança, colidindo com os corpos, as máscaras se distorciam à minha visão, elevavam às sombras cetrinas uma hórrida composição pavorosa. O som do violino agudo confrangia meu coração acelerado e o pulsar da dor abissal em minha mente era como tambores insondáveis. Um, dois, três, em cada ouvido, tímpanos invadidos por sonatas em tenebrosa essência, um adágio de repugnante e diabólico vibrar. Eu só podia estar delirando e eu não conseguia deixar o encalço dos dançantes, conforme a meia-noite se prolongava, e o que me parecia ser uma desgraça de infortúnio, tornou-se o maior dos meus pesadelos, pois, perante os tambores do antro do meu crânio, na dor cruel e violenta, todos aqueles que dançavam tornaram-se inertes. Um a um. Viraram seus rostos para mim enquanto a música intensificava, perversa.
Em movimentos lentos, no meu desesperar medonho por fitar as máscaras distorcidas, o escarlate tremeluzindo; cada uma das pessoas, uma a uma, retiraram os sinistros objetos desfigurados de seus rostos, e o que vi não foram semblantes. Cada rosto possuía entranhado, em suas faces sanguinolentas, um fragmento fincado de espelho. Pedaços que, de imediato, voltados a mim, refletiram o que deveria ser eu, mas não era. Fui terrificada por imagens perturbadoras do mais cruel possível ao meu olvidar, eu não soube se eram reais ou não. Mortificada, corri para sair daquele lugar, no entanto, não havia saída, mesmo que todos estivessem paralisados; olhavam-me no infinito salão. Eu não podia fechar meus olhos. Cada reflexo desvelava-se n’uma cena macabra e, no primeiro deles, vi um homem com uma flor de cor negra-gaultéria fincada em suas entranhas pelo torso aberto com lâmina dourada; a planta sorvia dele, mirrando seu corpo dolorosamente; e a cada rosto que eu olhava, o reflexo d’esta cena, aos gritos soturnos do homem, se evidenciavam.
Em outro instante, fora refletido um animal símil às serpentes, embora com um aspecto corvino, era decerto idêntico à minha máscara; mas vivo. A criatura mítica. Seus olhos eram amarelos e fúlgidos e seu corpo fascinante era esfaqueado por homens de olhos negros, sem esclera. O sibilar, vociferado pela criatura, era o clamor ensurdecedor do mais execrável sofrimento. E repetia-se a cada refletir dos espelhos, o quais cravados nas frontes dos inertes, sangravam cada vez mais; eram como manequins por todo o salão dourado daquele festejo cruel, manequins humanos. E na última cena — pois que após ela eu já não pude mais permanecer consciente — havia um ventre protegendo um feto que foi banhado por um líquido níveo, transfigurado em sangue logo depois, e partes deste embrião se via pelo sangue, rasgado e moído como carne fresca; e o fluído alvo-enrubescido manava de dentro de meu ventre, do meu corpo imerso em águas salinas que se escaldavam em vermelhidão; a água escarlate e ferrosa de um rio... a água que eu bebia... do flúmen carmesim de meu sonho daquela manhã.
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5. Castelo Vampírico: Agora conheço em parte, mas, um dia, conhecerei plenamente
Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário de Rute Fasano
23 de dezembro - Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações, a ansiedade, o medo, a raiva, tristeza, todas elas presas e misturadas na minha mente, borbulhando, e correndo pelas minhas sinapses e causando um estrago no meu psicológico. As únicas coisas que tenho feito esses dias já se tornaram tão rotineiras que nem me dei ao trabalho de escrevê-las diariamente, pois se resumem apenas a acordar, tomar banho, meditar, esperar pacientemente com o ouvido atrás da porta para a boa alma que ainda não conheço e sempre vem deixar o café da manhã, o almoço e o jantar na mesa ao lado da porta do quarto. Nunca vejo essa pessoa, mas ela sempre bate três vezes na porta e sai caminhando a passos lentos e arrastados. Eu só a ouço, porém sempre agradeço com um bilhete escrito à mão. Depois do café da manhã eu escrevo ouvindo música, tem um toca-discos aqui que foi deixado provavelmente por essa pessoa depois do meu primeiro encontro com Drácula.
O som muito específico da agulha passando pelo vinil me faz relaxar, então escrevo até o almoço e depois fico à porta ouvindo, me alimento e coloco o prato e o copo na mesa do lado de fora. Escovo os dentes, releio um pouco do único livro que trouxe. Preciso encontrar uma biblioteca nesse castelo. Volto a escrever até o jantar, volto à porta e escuto, me alimento, faço minhas outras necessidades fisiológicas específicas e tomo banho, escovo os dentes e me preparo para dormir. Me deito e leio até ficar com sono e durmo. Essa rotina é parecida com a que eu tinha fora do castelo, tirando a parte da escrita e adicionando um trabalho repetitivo, fascinante, porém estressante.
Tenho estado tanto tempo presa no quarto que memorizei todo o ambiente, tanto que consigo perceber quando algo diferente aparece no quarto. A grande cama com dossel, com lençóis de linho na cor verde escura, travesseiros com fronhas bordadas à mão, papéis de parede verdes com arabescos numa tonalidade que parece bronze, há uma escrivaninha de castanho-avermelhado bem escuro perto de uma janela, parece algo de muito boa qualidade, diferente dos móveis de madeira suspeita que tenho em casa. Há uma cadeira da mesma cor onde me sento para escrever, um armário com espelho grande ao lado, uma poltrona em frente a uma lareira que nunca precisei usar, pois aqui parece que o clima nunca muda. Um grande tapete persa com detalhes verdes escuros, diferentes tons de marrons e vinho, a textura macia que me faz andar descalça por ele por horas quando estou bloqueada criativamente ou cheias de questões não resolvidas na minha cabeça, gosto da textura dele em meus pés, me acalma.
Uma vez ou outra eu penso em fugir do castelo e voltar para minha vida, mas me vejo obcecada por algo novo, e só quero saber disso, ouvir e falar sobre isso. E Drácula, o castelo e seus hóspedes são minha nova obsessão, eu quero entendê-los, estudá-los, me aprofundar neles, analisá-los minuciosamente até que eu me sinta saciada por esse conhecimento tão fora do comum, tão fora do meu comum lógico e pragmático. Porém, tenho medo, pois sinto que de alguma maneira, aos poucos, Drácula tem tentado ter controle sobre mim, me controlar como uma marionete, será? Eu não consigo pensar sobre o motivo disso, já que estou aqui por vontade própria. Se ele quer que eu escreva para alimentar ele e o castelo, por mim tudo bem, desde que se mantenha longe das minhas veias e artérias.
Fui despertada das minhas viagens dentro da minha mente pelas batidas na porta fora dos horários habituais, fui até a porta e pude ouvir os passos se distanciaram, era a mesma pessoa de sempre, já conheço seus passos. Abri e tinha uma grande caixa baixa, porém larga com um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados, abri o envelope e aqui escrito com uma bela caligrafia, escrito dessa forma:
“Prezada Rute,
É com imensa honra e profundo fascínio que lhe envio esta carta, convidando-a para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. Este é um evento de requinte e mistério, onde o traje formal é obrigatório, e uma máscara é imprescindível.
À meia-noite, será servido um banquete memorável, seguido pelo brinde com nosso especial liquor-carmesim, servido em taças de diamante vestal, para celebrarmos o ápice da Lua Cheia. A música encantadora nos acompanhará até às três da manhã, momento em que solicito gentilmente que nossos estimados hóspedes retornem aos seus aposentos.
Sua presença, sem atrasos, é solicitada para as dezenove horas de amanhã. Esperamos ser agraciados com sua presença sublime neste deslumbrante evento.
Com respeito, Conde Drácula"
Dentro da caixa havia um belo vestido preto, com pequenos bordados dourados no busto parecendo estrelas num céu negro, godê longo, acinturado, gola alta, mangas longas bufantes, o tipo de vestido que eu usaria se eu tivesse o hábito de usar vestido. Junto a ele também havia uma máscara grega trágica negra com uma lágrima dourada do lado direito. Um baile mesmo que pareça um evento social assustador que já me causa certa comichão, é também uma oportunidade de saber mais e ainda, quem sabe, poder me encontrar com outros hóspedes. Tenho que preparar meu psicológico para isso e aproveitar essa oportunidade.
24 de dezembro - Chegou o dia do baile, e eu estaria mentindo se dissesse que estou preparada para ele. Uma vez li que quando você tem medo de uma situação e a faz mesmo assim, isso é coragem, então tenho que ir e acreditar que sou corajosa, pois de que outra forma eu conseguiria saciar essa minha curiosidade, se não fosse enfrentando meus medos?
Me vesti, prendi meus cabelos atrás, deixando algumas tranças soltas, estava ansiosa demais para planejar um penteado mais elaborado. Coloquei minhas botas confortáveis, mesmo que junto à caixa estivessem saltos adequados para a festa, eu não conseguiria usá-los. O vestido longo escondia um pouco dos meus sapatos, além deles serem mais úteis caso eu precisasse correr. Me olhei no espelho e o que vi me agradou. Coloquei a máscara que me obrigou a deixar os óculos de lado, pois não dava para usar os dois. Respirei fundo e saí do quarto, e como sempre eu não sabia o caminho, mas sabia como chegar lá.
No salão de baile, com lustres e candelabros majestosos, todos bem-vestidos, com uma diversidade de máscaras bem decoradas, músicos tocando uma música num volume agradável, pessoas conversando, outras rindo, a maioria dançando, olhei ao redor tentando ver se reconhecia alguém mesmo com máscaras, mas não fui bem-sucedida, fiquei um longo tempo no canto apenas observando. A única pessoa que reconheci pelo jeito de se movimentar foi Drácula. Vestido com requinte, todo de preto, com a camisa de seda de um vermelho vivo brilhante, uma sobrecasaca preta com bordados dourados e o forro escarlate. Ficou um tempo conversando com os convidados e dançou com alguns deles. Olhou em minha direção e era como se soubesse que eu os estava observando, veio andando e eu podia sentir cada passo seu. Respirei fundo e me preparei.
— Permita que eu conduza? — Ele disse estendendo a mão para mim, olhei para ele e concordei com a cabeça sem pensar demais. Dançamos em silêncio por algum tempo, até ele quebrar o silêncio:
— Ah, sim, os bailes de máscaras... uma festa para os vivos, onde escondem suas verdadeiras faces por trás de máscaras elaboradas. Interessante observar como revelam mais de si mesmos do que jamais admitiriam em suas formas mundanas.
Silencio entre nós novamente:
— Entendo suas hesitações, minha cara, seu desejo de às vezes escapar deste lugar que pode parecer uma prisão. Mas saiba que posso oferecer a você e a todos os que aqui estão algo muito mais profundo do que simples entretenimento. Posso saciar a sede insaciável de vocês por inspiração e conhecimento, através de meios que alguns considerariam sombrios. E eu sei que você compreende o preço que deve ser pago por tal conhecimento?
Nada do que ele estava dizendo era mentira, desde que entrei no castelo as ideias fervilham da minha mente, mesmo que às vezes eu não consiga colocá-las no papel, elas estão lá se debatendo para serem criadas e escritas. Essa situação não era nem um pouco agradável para mim, como no nosso último encontro, sua presença tentava impor tranquilidade, mas ele estava tão perto de mim, mais perto do que permito a maioria estar, era desagradável, pois meu corpo lutava contra essa imposição. Não conseguia responder nada a ele, a proximidade me deixava sem palavras, só olhava através dele e percebia seu sorriso pelo canto do olho.
— Ah, minha querida, não se preocupe. Estou aqui apenas para facilitar sua adaptação neste ambiente. Jamais a forçaria em algo que não desejasse. Afinal, você veio ao baile por sua própria vontade. Como um verdadeiro cavalheiro, sempre solicito permissão, mesmo para os atos mais... sombrios, por assim dizer. Embora possam não ser explicitamente revelados. — Ele sorriu ao dizer isso. — Veja, não há necessidade de se sentir obrigada a me acompanhar nesta conversa, se assim não desejar. Simplesmente desfrute da dança, entregue-se ao ritmo e deixe-se levar pela atmosfera deste lugar.
Mesmo que aquele sorriso fosse uma tentativa de me acalmar, seus caninos brancos e protuberantes me causaram arrepios. Quando estou muito ansiosa com um alto nível de adrenalina, não consigo pronunciar nem uma palavra sequer e, então, a única coisa que me foi possível foi concordar com a cabeça. Dançamos, ele me conduzia, e para mim era difícil me deixar conduzir quando eu sempre conduzia na dança, sempre seguia os mesmos passos básicos, não importava a dança. Ele me conduziu de maneira tão suave que era como se eu sempre tivesse dançado nos passos dele.
— Não vá tão precipitadamente, minha cara. Lembre-se de sua inata curiosidade científica. Se partir agora, perderá a oportunidade de compreender tudo isso. Permita-se um momento para acalmar os ânimos. Talvez uma breve caminhada para espairecer, uma conversa amistosa com os demais presentes, desfrutar da comida e da bebida, tentar se integrar socialmente... ou, se preferir, a opção da fuga sempre está disponível. Faça o que julgar melhor para si. — A música havia terminado. — Porém, antes que siga seu caminho, permita-me um gesto de cortesia. — Ele segurou minha mão e depositou um leve beijo sobre ela, fazendo uma reverência. — Devo agora dispensar-lhe minha atenção, pois há outros hóspedes e convidados a quem devo dedicar minha presença. Afinal, há mais danças não solicitadas a serem atendidas. — Com um sorriso sutil, ele se virou e se afastou, entre os demais convidados.
Vi-o andar resoluto por entre os convidados e soltei o ar, era como se eu tivesse prendido minha respiração sem perceber todo o tempo em que estava com ele. Fui aproveitar um pouco do baile antes de fugir para meu quarto, me sentei e comecei a olhar todos em volta, reparando em suas belas máscaras e vestimentas, tudo tão elegante. Os passos ecoados pelo chão de mármore, a música suave que agora tocava enquanto todos dançavam e se divertiam, a decoração e o grande banquete era de encher os olhos, eu estava deslumbrada. Peguei uma taça cristalina com um líquido escarlate que me foi oferecida, aparentemente já era meia-noite e brindaríamos o ápice da lua cheia. Torci para que não fosse sangue ou vinho, eu nunca bebo vinho. Levantei um pouco a máscara para tentar sentir o cheiro que exalava e não parecia nenhum dos dois, virei a taça nos lábios para experimentar e o sabor que sentia de um amargor adocicado, eu podia sentir uma textura aveludada que envolvia minha língua. Tomei coragem e tomei logo um gole, me deleitei com aquela sensação, e aquele gole foi o bastante para me conduzir a outro mundo, tão rápido como um piscar de olhos.
Esse mundo era uma cópia sombria do castelo com cheiro sutil ferroso de sangue fresco com um fundo de rosas. E, para meu pavor, todos os presentes emanavam uma aura pesada e, de alguma forma que não sei explicar, eu sabia que eu era a única humana ali. Eu estava aterrorizada naquele lugar suntuoso, mas tinha que passar a impressão que fazia parte daquilo, tudo era como no castelo original, só que mais sombrio, mais pesado e frio. Andei entre eles e encontrei todos os hóspedes do castelo que eu já conhecia de vista e, junto a eles, outros que eu ainda não havia visto.
De alguma forma, dentro de mim, eu sabia que todos eram vampiros ou qualquer outra criatura sobrenatural que eu não conseguia identificar, todos com máscaras que cobriam apenas os olhos, todos bem-vestidos, conversando e entre si. Então eu vi uma mulher de olhos amarelos como de um gato, cabelos negros longos e volumosos, pele lisa de um marrom translúcido brilhoso e sobrenatural que permitia que eu visse suas veias esverdeadas em todo seu rosto, busto e braços, com um vestido vermelho decotado, a saia com camadas pretas e vermelhas com rendas douradas em suas bordas e uma fenda que deixava exposto sua coxa esquerda, um corpete preto justo, joias douradas em profusão, envolta em um ar de mistério e sensualidade, tão bela e assustadora como eu jamais seria.
Conversava tranquilamente e se expressando com as mãos e o rosto, parou e olhou para mim, sorrindo com os incisivos e caninos brancos à mostra, lábios grossos com vermelho carmesim, fiquei chocada a ponto de rir daquela situação surreal ao qual eu estava presente, não havia bebido tanto assim para me transportar para o universo espelho tal qual como em jornada nas estrelas, onde eu encontraria minha “gêmea do mal”. Coloquei as mãos no rosto só para me certificar que eu ainda estava de máscara, imagine a minha surpresa quando ela veio em minha direção:
— Já estou tão acostumada com o funcionamento do castelo que encontrar minha doppelgänger não me surpreende. É difícil se esconder de você mesmo por trás de uma máscara, quando se conhece tão bem. Não preciso me preocupar em ser apunhalada ou ter que te apunhalar, espero?
Era como olhar um espelho onde eu via uma versão inverossímil, porém atraente de mim mesma, tão assustadoramente imponente, terrivelmente bela que me despertou uma vontade incontrolável de interrogá-la para saber mais sobre ela. Eu tinha tantas perguntas, e também com quem mais eu poderia encontrar as respostas que eu precisava senão comigo mesma?
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O Poeta das Mil Noites
Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela, minha mãe era filha de um cavaleiro nobre que morreu na cruzada de reconquista. Estas poucas noções é tudo que sei da minha origem. Meu pai não sei quem foi, mas tenho feições mouriscas, por isso já levantei muitas suspeitas sobre quem sou, algumas um pouco assombrosas, talvez.
Quase não tenho lembranças de minha mãe e de onde eu nasci, também não sei descrever o lugar, fui levado de lá muito cedo, ainda criança e por isso tenho dificuldades com a língua castelhana. Fui tirado dos braços de minha mãe pelos invasores em uma noite sangrenta, raptado e levado para Córdoba, vendido como escravo para uma família de mercadores aristocratas do califado. Aprendi outros costumes e outras línguas, maneiras as quais eu não era familiarizado, mas hoje é como se tivesse sempre vivido entre os maometanos.
Quando cresci e comecei aprender as línguas estrangeiras, tive facilidade com o modo de falar dos mercadores que chegavam de toda parte do mundo. Talvez por isso me deram uma ótima educação, apesar da minha condição de prisioneiro, era de grande valor o servo que pudesse facilitar as comunicações com os negociantes, até boas vestes me foram concedidas.
Tive aulas com os melhores mestres andaluzes, com o tempo notaram minha vocação para o letramento, me ensinaram gramática, religião, história e também as artes do canto. Nesta arte encontrei minha primeira e mais duradoura paixão, junto dela também aprendi a correr os dedos pelo alaúde, aprendi a tocar muito bem este instrumento, dominei as cordas e os dedilhados melhor do que qualquer um dos menestréis de Córdoba. Permitiam-me algum tempo para praticar estes dons que eu descobri ainda jovem e sempre pediam que eu alegrasse o salão durante o jantar ou as visitas durante as conversas de negócios do meu senhor.
Mas um outro amor que eu encontrei junto com meu dom teve uma passagem mais breve e mais trágica na minha vida. A bela filha de meu senhor, Ester gostava de me ouvir cantar. Fiz bonitas canções para ela e foi exatamente esse o início da ruína deste grande amor. Nos descobriram enquanto eu cantava à noite nos terraços para que ela ouvisse, nunca estive junto dela, mas isso já era algo suspeito demais para manter minhas poucas liberdades. Fui aprisionado, privado de água e comida, e depois de alguns meses vendido para um traficante que me levou para Argel numa tortuosa viagem no porão de um zambuco. Quando cheguei naquele lugar fiquei aliviado de pôr os pés na areia, depois vi tanta areia naquela noite e mal sabia quanta areia ainda veria em toda minha vida.
Tantos anos se passaram em Argel, os anos mais difíceis. Deixei de ser jovem naquele lugar. Não sei quantos anos eu tenho agora, mas talvez tivesse chegado lá com quinze ou por volta disso. Servi o palácio como criado particular de uma das concubinas do Sultão. Uma mulher esguia que tramava inúmeras conspirações e intrigas no palácio. Notei como ela influenciava com língua de cobra as políticas do sultão e daquela corte. Também descobri um de seus muitos segredos, ela escondia nos seus aposentos livros de magia proibidos, dos antigos Dins, também conversava com estes espíritos no deserto. Na madrugada fria da imensidão de areia, saía de noite por uma passagem secreta e voltava manchada de sangue. Certa vez ela me trouxe um alaúde, disse que os Dins mandaram que ela comprasse um bom instrumento no bazar e desse para um de seus escravos. Por coincidência ela me escolheu, mesmo não sabendo que eu dominava aquele instrumento. Talvez este meu segredo tenha sido contado pelos espíritos do deserto que tinham algum tipo de propósito no meu destino. Peguei a concha de madeira bem trabalhada em minhas mãos, era o mais belo alaúde que eu pudera colocar os olhos, uma peça de carpintaria finíssima, não sei de quem ela obteve, não era do tipo que vendem os mercadores.
Temi não me lembrar de nenhuma canção, mas assim que o tomei nos braços e empunhei a escala e as cordas, foi como rever um velho amigo que não mudou nada com o passar dos anos, toquei com destreza e exímia habilidade. A feiticeira ficou muito impressionada e me exigiu que eu tocasse para todo seu séquito. Assim fiz durante algumas noites sem saber que, na verdade, aquela mulher tinha me amaldiçoado. Enquanto eu dormia, entrou pela janela um espírito muito antigo e me revelou nos meus sonhos que, quando eu aceitei o presente da minha senhora, firmou-se um contrato com os Dins. Eu empunharia o instrumento como ninguém jamais fez, cantaria tão lindamente como ninguém jamais pôde e criaria as mais belas canções que já foram criadas, no entanto a fama não alcançaria o meu nome, eu teria que provar a cada trova que eu era o grande bardo das noites argelinas, esta porém não era a condição mais cruel, eu só poderia exercer minha arte por mil noites e quando se esgotasse esta conta, nunca mais poderia cantar, pois ficaria mudo e cego até o fim da vida, condenado a vagar sozinho pelo deserto.
Incrível como foram as noites depois deste sonho assombroso, embora tivesse acordado assustado na manhã seguinte, eu não acreditei que aquilo era verdade, mas meu talento ficou muito mais aguçado e foi se desenvolvendo cada vez mais, de um modo que quase atingia a perfeição. Tocava pelas noites de Argel, no palácio e nas casas mais nobres, sempre cercado de boa comida, bajulações e mulheres jovens e bonitas. Tornei-me o maior amante dos prazeres, vivi empenhado em esbaldar das benesses que este dom me proporcionou, me embriaguei nas maiores abundâncias da riquíssima cidade de Argel, quase me esqueci que eu era um escravo.
Então que um novo sonho aconteceu, depois de uma noite das mais festivas e agitadas, um novo espírito entrou pela janela dos meus aposentos e me mostrou uma ampulheta que era o contador das noites que eu usufruí e das que ainda me faltavam. Não sei dizer ao certo o número que ainda restava, mas a areia já tinha escorrido a maior parte para o bulbo do vidro de baixo. Acordei desesperado ainda na madrugada, entrava um vento frio pela janela por onde eu via as estrelas e as dunas do deserto. Tive uma nova epifania acordado, pensei em toda a minha vida, na minha mãe e em Ester. Onde poderiam estar? Chorei pela primeira vez desde que eu era criança, pedi que algum espírito ou qualquer força maior me escutasse, pedi que quando minha maldição se concretizasse, eu vagando cego e mudo pelo deserto ainda pudesse ver com clareza as figuras de minha mãe e de Ester.
Decidi fugir daquela cidade, decidi ir embora de Argel. Arrumei algumas poucas coisas, água e tâmaras, embrulhei meu alaúde e segui pela passagem secreta que levava fora dos muros da cidade entre o mar e o deserto. Cheguei na praia e continuei para o leste sem saber o que esperar ou o que eu poderia encontrar, andando entre as quatro maiores imensidões que existem, a imensidão arenosa do deserto à minha direita, a imensidão salgada do mar à minha esquerda, a imensidão brilhante das estrelas no céu e, por último, a imensidão da alma dentro de mim.
Andei por tanto tempo, não sei estimar, mas algo estranho acontecia, aquela noite parecia eterna, como se passasse muito mais de doze horas e o dia não dava sequer sinais de alvorecer. Andei pela areia até Argel sumir à distância atrás de mim. Eu estava só caminhando sem ter um rumo ao certo, consumi todas as tâmaras e toda a água, tive certeza de que caminhei por muitos dias embora a noite jamais deixasse o céu.
Quando já estava exausto, sentindo a falta de água e de comida, minha mente turva sem saber se minha atitude foi sensata, avistei uma luz ao longe. Caminhei até me aproximar, quando chegava perto reconheci a forma de uma ampulheta espectral, uma névoa brilhante pendente no ar, parecia ser feita de estrelas. Tive vontade de tocá-la, estendi a mão e quando o fiz, um raio de luz me ofuscou num instante e percebi que estava em um lugar diferente. Eu pisava sobre um gramado, rodeado de jardins verdejantes e diante de mim havia um suntuoso castelo europeu. No ambiente pairava um murmúrio alegre e notei que chegavam convidados para uma festa, todos trajados com muita elegância e usavam máscaras cravejadas de brilhante, entendi que haveria um baile e me animei em participar.
Um cavalheiro vinha em minha direção, não o percebi chegar, tinha cabelos na altura do pescoço, bigode fino e cavanhaque pontudo, conversou comigo durante alguns minutos, tinha gestos delicados e uma postura muito gentil. Acho que ele é o dono deste lugar, um conde talvez. Por certo é muito rico e me passa ares de ser muito culto. Ele notou meu estado decadente e mandou que trouxessem um copo de água para matar minha sede. Aquela água estava deliciosa, parecia um elixir revigorante. No instante seguinte já pensava eu: “Que mal tem um pequeno grãozinho de areia a menos na parte de cima da minha ampulheta?”.
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Baile das Sombras
Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui, me comprova ser totalmente compreensível uma abertura dessas para o mundo-outro, o outro-mundo… whatever…
Jamais sabemos o que pode estar nos esperando ao dobrarmos num corredor, ao abrir uma porta… De uma hora para outra, podemos cair num buraco do qual nem tivéramos notícias antes, ou então sermos puxados para algum recanto que também mal imaginávamos poder existir… Isso tudo tenho dado como possível de acontecer desde os últimos acontecimentos…
Finalizei minhas mais recentes anotações ao me deparar com batidas na minha porta… No quarto em que estava (concentrando-me em colocar no papel minhas impressões advindas dos fenômenos ocorridos nesse lugar), só podia pensar ser algum coabitante, outra presença, talvez, decidida a estabelecer contato e, quem sabe, me convidando para alguma conversa — coisa dificilmente vista no ambiente, devo ressaltar, longe de parecer desejada pelos presentes, ainda arredios pela recente chegada…
Aconteceu que não havia ninguém… vivalma alguma, no limiar de meu quarto, para me dizer o que quer fosse. O que eu entrevi ao olhar para os dois lados do corredor foi somente uma carta, quase sob os meus pés, mas chamativa o suficiente para me fazer pensar no porquê da pessoa que a deixara ali não ficar para me entregar em mãos… Situação no mínimo enigmática.
E qual não foi minha reação ao ver o remetente da carta: Drácula! Sim, o próprio, era quem aparentemente assinava... Ao menos, era o que eu não podia duvidar, tendo passado por todas aquelas situações vivenciadas até então, com fumaça nos corredores, presenças semifantasmagóricas no local…
Era um convite, me convocando para um baile no salão principal do Castelo; havia até a indicação de roupa formal para o “evento”, a qual eu encontraria, já à disposição, no armário do meu quarto. Ou seja: pensei estar passando por algo planejado antes mesmo de minha chegada! (em algum filme eu devo ter visto isso: convidados chegando inesperadamente, encontrando-se com outros desconhecidos, todos eles sendo, de uma hora para outra, chamados para igual confraternização… O jeito como isso acabava que não lembro de ser sempre boa coisa).
Enfim… me vesti, da maneira que achava mais confortável (pois, de fato, não sendo muito chegado a festejos, gosto no mínimo de me arrumar de modo que me sinta satisfeito dentro de alguma roupa de ocasião), e dei outra olhada naquele cartão deixado no sopé da porta. Li mais uma vez a parte em que dizia estar programado o fim do baile pontualmente às 3h da manhã… Ora! mais essa! Chegando às sete da noite, o desfecho seria nesse horário da madrugada, que, pelo que eu saiba, tem simbologias fortes e dizem ser o momento de maior ocorrência de fenômenos paranormais… Juro que estava empolgado, mas lá, no fundo, temendo algo do desconhecido…
Tudo no mesmo dia, tudo ocorrendo como se eu fizesse parte de algum jogo, fora do meu controle… Minha apreensão era do tamanho da minha curiosidade; ainda que não fossem muito claras as intenções para aquele convite, eu não tinha como não sentir certa “honra”, certa disposição positiva para fazer presença nesse baile que, a meu ver, tinha tudo para ser como eu imaginava: um salão suntuoso, repleto de mesas, lustres enormes, cristais… Mas entre todas essas divagações acerca do que haveria ou não no evento, o que mais me inquietava era saber sobre os outros convidados… Quem estaria lá? Será que outros membros do Castelo? Gente de fora?... Por conta disso, finalizei o trato do meu traje e parti, rumo ao salão principal.
Minha chegada ao salão foi do jeito mais peculiar que podia imaginar. Aproximando-me da majestosa entrada, ela parecia abrir de maneira voluntária, sem força aparente que a manipulasse… E qual não foi minha surpresa ao ver o que acontecia lá dentro: uma centena, quiçá milhares de pessoas (o que se via era uma nuvem de cabeças, de vestimentas e máscaras, impossibilitando meu olhar de enxergar a parede oposta de onde eu estava), a maioria trajada em vestes escuras, de rosto coberto, encarando umas às outras, de maneira que adivinhei casais confabulando entre si, amizades sendo feitas… Em razão do uso solicitado de máscaras, senti-me aliviado, pois, de outro modo, alguém teria certamente visto meu semblante impressionado e, também, assustado diante de toda a pompa…
Enquanto ensaiava uns tímidos passos em direção à mesa mais próxima, onde percebia um recoberto prato de refeições, fui interrompido… Uma mulher, um pouco maior que eu, completamente envolta em sua luxuosa indumentária (tão escura que fazia eu perder a perspectiva de seu corpo, perto de mim), estendia-me uma das mãos… Minha presença ali, que já parecia involuntária, agora estava totalmente ao dispor dos estímulos exteriores; sendo assim, sem demora, tudo o que lembro foi estender meu braço e me deixar guiar por aquela dama — sem saber seu nome, seu rosto, sem um pingo de consciência sobre quem me arrastava agora para o meio do salão…
Vou escrevendo na medida em que me recordo dos últimos acontecimentos no baile; pois, estranhamente, depois de me ver guiado por essa mulher, as imagens que me vêm à memória são de uma completa estranheza (pelo menos, da maneira com que me lembro).
Abrindo espaço entre as pessoas que nos rodeavam — todas de máscara, com taças na mão, misteriosamente encarando-nos dos pés à cabeça, sem esboçar outra reação —, fui percebendo que estava começando a soar uma música, sutilmente chegando de algum canto do salão e ambientando o lugar. Escondendo meu rosto por trás daquela máscara, mas ainda assim receoso de levantar o olhar e me deparar com algo além das minhas capacidades humanas, minha companheira desconhecida subitamente estacou o passo. Arranjando-me uma das minhas mãos ao redor de suas costas, com a outra eu maquinalmente suspendendo uma das mãos dela (recordo neste instante o contato com seus dedos, graciosos e gélidos dedos), nós iniciamos a dança…
Não tendo ideia alguma de onde eu poderia ter aprendido aquilo, simplesmente lembro de conseguir acompanhar minha parceira da noite. Seus leves movimentos de quadril e pernas, no ritmo da música que tocava, eram seguidos dos meus, nada estabanados, todos dando um prosseguimento digno e, diria, primoroso ao ritmo da dança.
A todo momento, quando nossos olhares pareciam se alinhar, eu tentava observar em meio àquela máscara dourada os olhos de minha enigmática companheira. Rapidamente, sempre que isso eu ansiava, ela baixava o olhar, e logo em seguida me envolvia em sua espiralada dança. Também a música, nesses momentos, parecia conspirar contra a minha vontade de adivinhar a identidade de quem me acompanhava, e sucessivos foram os períodos em que uma agitação tomava conta do salão, impossibilitando de vez qualquer iniciativa de estabelecer contato visual ou vocabular com ela…
A noite foi passada assim, literalmente assim… dançando, girando, contemplando os pares que surgiam ao redor de nós e se abraçavam, repetindo os movimentos de nossa dupla… ninguém, absolutamente ninguém eu pude perceber fazer outra coisa que não fosse dançar, rodopiar naquele salão e contribuir com o brilho de sua máscara dourada para o reflexo quase entorpecedor de luzes e mais luzes…
Tenho a absoluta certeza de que, desde o primeiro minuto em que coloquei os pés dentro daquele baile, nada mais fiz a não ser me ver dominado pela decisão daquela estranha e atraente mulher de me guiar para a dança. Levado como fui por suas mãos — aquele toque que ainda agora sinto roçar em meus braços, preenchendo meu corpo com frígida sensação —, somente lembro de ficarmos juntos, perdidos nas horas em que acontecia o evento e sem nos preocuparmos com mais nada. Nem mesmo a comida, que quase eu descobrira ao adentrar no salão, eu pude saber qual era… Cardápio nenhum passou por meus olhos e boca… Absolutamente nada foi o que eu fiz e descobri — além de me ver capaz de empreender alguns passos de dança, bailando junto de alguém cujo nome não tenho ciência, e me deparar sobre a minha cama, nesse meu quarto do Castelo Drácula (que leva o ilustre nome de quem assinava o convite, mas de quem não tenho lembranças de ter avistado durante a noite), após o que parecia soar como um aviso de que havíamos chegado, talvez, às 3 horas da manhã, horário final da festa…
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Convite
Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o silêncio daquele lugar, causando sutis arrepios, em determinada hora, os passos cessam, pela minha visão periférica enxergo debilmente uma figura, ela traz consigo um castiçal contendo uma vela a qual projeta, sob o piso de pedra, dançantes sombras; ao virar, me deparo com uma figura trajando um manto sombrio e, após um comprimento formal, a figura estende uma das mãos, revelando um envelope rubro, se esvaindo na escuridão, deixando-me sozinha novamente.
Abro o envelope com cautela, meus olhos quase saltam da órbita. Escrito em letras douradas, no papel de mesmo tom rubro, um convite para um exuberante baile de máscaras; tal ideia me encanta, pois, sonho com este momento desde criança, leio com atenção as instruções, assim como a localização dos meus aposentos, bem como meus trajes.
Eufórica, imaginei-me rodopiando com algum deslumbrante vestido, animada, guardei o convite na jaqueta, respiro profundamente, e ele ainda está lá, o livro clama por mim, creio que terei tempo de vê-lo, mesmo que rapidamente. Volto-me para o livro, deslizo suavemente meus dedos sob a repugnante superfície daquele puído e grandioso exemplar, deixando resíduos debaixo das minhas unhas. Havia um símbolo em sua capa, vejam bem, apesar de nova, sou bastante curiosa em relação ao oculto, consumi alguns livros sobre o assunto, mas esse símbolo me causa certa estranheza, nunca vi nada igual, e se encontra severamente devorado pelo infindável tempo.
Ao abri-ló me deparo com uma série de funestos símbolos e fragmentos de textos, escritos em uma língua desconhecida, tão antiga quanto a existência. O odor ferruginoso salta no ar, fazendo-me salivar, meu colo pulsa fortemente, deixo escapar de meus lábios uma leve excitação, “preciso me controlar” digo a mim mesma, fecho o livro, e vou em direção aos meus aposentos, pois tenho um baile a ir.
Conforme eu caminhava, ouvia conversas e sussurros, alguém caminhava com graça sob saltos altos, escuto um ansioso respirar, notei algumas fragrâncias como sândalo, outras mais cítricas, cheguei até meu quarto e abri a porta. Meu coração, então, disparou, acima dos lençóis perfeitamente arrumados, encontrava-se meus trajes. Sem dúvida o anfitrião me conhecia, era um estupendo vestido longo renascentista, todo trabalhado no cetim roxo, adornos em rendas pretas abrilhantaram ainda mais a peça, por fim, uma encantadora máscara, feita inteiramente com rendas douradas e roxas.
Devidamente vestida, me dirigi com rapidez para o salão principal, meu colo batia descompassado, segui com mãos gélidas. Após atravessar um extenso corredor, me deparo com o salão principal, repleto de rostos desconhecidos, homens e mulheres trajando a mais pura elegância, todos exuberantes, tudo era maravilhoso, as máscaras deixavam tudo ainda mais misterioso.
Um quarteto de cordas tocava alegremente as quatro estações de Vivaldi, os acordes tocados eram um convite para bailar, meus olhos ainda contemplavam aquele belíssimo baile. Pouco a pouco os outros hospedes ocupam o enorme salão, meus olhos encontram uma estranha figura, ela se aproxima com leveza, muito cordial me oferece uma bebida em tom carmim, retribuo a gentileza, aceitando a taça dourada. Após erguê-la, sorvo de forma voraz, em seguida ele me conduz para o meio do salão, estende a mão direita e gentilmente me convida a dançar, ele trajava vestes negras, sua máscara do mesmo tom das vestes; seus olhos azuis me remetiam à horrenda noite em que experimentei o gosto amargo do sangue.
Após longos rodopios, encontrava-me em outro lugar onde a decadência reinava imponente, assemelhando a um sonho, o castelo estava em ruínas, todos os convidados assemelhavam a horrendas sombras bailando em celebração à depravação, a alegre canção que outrora preenchia o castelo fora substituída por notas fúnebres da sinfonia de Giuseppe Tartini, intitulada Devil’s Trill; a dança se tornou lascívia, com movimentos rápidos, meu estranhamento foi notado pelas criaturas, era possível ouvir sussurros maldosos através das sombrias máscaras. Soltei a mão do meu acompanhante e questionei o que estava acontecendo, mas ele gargalhou, senti o escárnio vindo dele.
Aproximou-se de mim e disse: “Você não pode fugir disto, é o seu destino! Entregue-se à escuridão”. Amedrontada, empurrei-o e tentei respirar, em vão, por mais medonho que fosse, ele tinha razão, pertenço à escuridão.
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Diário de Anto Stefan Miahi
15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e…
Imagem criada pelo autor, com CanvaIA
Diário de Anto Stefan Miahi
(Notas em meu caderno)
15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e pensamentos, e eventuais alegrias nessas páginas. Já não sei quantos escrevi, em meu escritório devo ter uns quantos armazenados na velha estante no lado esquerdo da mesa de trabalho, junto com meus livros queridos.
Já faz algum tempo que me correspondo com uma personalidade do meio leste da Europa, devo ter em minha maleta neste momento umas três cartas e pelo menos dez telegramas. Segundo as correspondências temos afinidades intelectuais. Algo poderoso em cada uma delas me compelia a responder, uma sensação indescritível, mas aqui tentarei traduzi-las. Devo dizer que o que senti era provocante, uma emoção que me deixa ainda agora agitado, ansioso, como se ali houvesse um feitiço e a cada palavra… Não! A cada onda das letras, elas estavam me atraindo, conduzindo minha existência, e por fim, a guiar minhas mãos para responder tão rápido quanto me fosse possível. Senti como um apaixonado respondendo a amante, numa carta secreta, contando segredos obscuros. Por vezes como uma inocente criança confessando à mãe seus feitos do dia com total inocência e despretensão.
Inegável que ao terminar, o ar que saía dos meus pulmões era como se estivesse libertando minha alma de dentro de um cativeiro do qual naqueles momentos não tinha como sair, e que a chave para tal era colocar o ponto final naquela folha, branca e inocente.
Após alguns minutos. - Após uns quantos chacoalhões da carroça e algumas tantas maldições proferidas, assim como insultos ao cocheiro e seu amigo, pude retomar os pensamentos aqui nessas páginas.
Para uma pessoa como eu; que sou dado às letras, ao pensamento, aos livros; me ver às voltas com uma baioneta em mãos, preparando o mosquete, e ouvindo o estrondoso som das explosões e o zunido dos projéteis voando por sobre a cabeça, realmente foi inesperado para assombroso. Uma completa mudança de ares.
Isto já se converteu em rotina realmente, estar com o lápis em uma mão e um caderno na outra, ainda mais após meu regresso daquele infame conflito entre os poderosos, Bonaparte e Frederico.
O cheiro da pólvora, das cinzas e do sangue ainda atormentam meu nariz e, os gritos, a minha memória. Campos verdes agora desfigurados, marcados e banhados com sangue de homens valentes e covardes, astutos e ignorantes, de amigos quanto de inimigos.
Faz um pouco mais de 3 dias que me encontro dentro desta repugnante carroça, e ainda me faltam um dia e umas quantas horas para chegar ao meu destino.
Escutando o condutor, um homem velho e rechonchudo, com uma barba malfeita, com uma semicalvície que ele oculta com um chapéu velho e sujo. O que lhe falta de altura compensa com o falatório. Enquanto seu amigo, que vai sentado ao seu lado direito, é alto, esguio, tão quieto que parece morto. Seus olhos cansados, e a cara de quem não quer nada com nada, não fazem jus a sua força física jovial, lançou as malas que eu levava com apenas uma mão para o alto da carruagem, e para o cúmulo repetiu a façanha com as de uma jovem senhorita com seu irmão e cuidadora que me acompanharia nessa viagem.
Pelo que pude notar a conversa de ambos não passava de, - “Adrian” - esse parecia ser o nome do homem alto e silencioso e do cocheiro pelo que percebia era Loui. - “Clarice não me deixou quieto, só por causa que me encontrei com os rapazes da estalagem para beber…” após isso me dei conta do quão desinteressante eles eram.
16 de junho de 1871 - Ontem à noite comecei a escrever e, ao relatar os fatos, terminei por cair em devaneios sobre o cocheiro e seu amigo, mas devo dar alguns pontos importantes a estes meus relatos. Acho que o cansaço e a monotonia da paisagem me levaram aos braços de Morpheus.
Retomo então para as minhas ideias originais.
Há um pouco mais, ou menos, não tenho certeza, de um mês, recebi minha última carta dele, dando as indicações e detalhes para minha viagem até sua terra. Com tantos preparativos para essa jornada, ainda mais depois de regressar da guerra, e mal ter pisado em Paris, já me aventurar novamente, tira o fôlego de qualquer um. Acabei não fazendo um registro justo e detalhado deste fato crucial nos dias anteriores.
Seu remetente era de uma parte de um país esquecido pelas divindades. Romênia. Um lugar cheio de uma mística, de umas quantas lendas, verdadeiro centro de contos. A história da região contada pelos ciganos é realmente impressionante se fosse crer em tudo o que dizem.
Devo acrescentar que é um texto elegante aquele que encontrei naquelas duas páginas, além de uma caligrafia impecável, da parte de um tal Conde Drácula. Suponho ser uma pessoa realmente culta, douta, pois em sua carta não notei um erro de sintaxe ou de modismo populares, pois sendo romeno, escreveu com exímia clareza, em um francês belíssimo. Isso me encantou, mesmo que minha área de entendimento fosse a História, os fatos, os heróis, aquelas palavras me cativaram de uma forma que apenas meus escritores favoritos poderiam.
Um convite para uma visita para explorar a história local, e acessar livros, ter contato com documentos exclusivos, e segundo o que dizia na carta, ter contato com um outro estudioso da história e da sociedade.
Paris estava um caos, e eu, só queria uma boa desculpa para pegar minhas coisas e sair daquela cidade infernal. Essa é uma oportunidade que não posso me negar. Corri para organizar minha partida.
18 de junho de 1871 - Cheguei hoje no meio da tarde, por volta das 15h, à região de Bram e há coisas que devo realmente relatar do dia de hoje nestas páginas.
A vista era montanhosa, com pequenas cidades sombrias e tristes, nos tons de cinza, marrom e branco, óbvio que aqui faz um frio de doer os ossos. O clima frio e severo do lugar não é convidativo, mesmo nosso cocheiro falante rendeu-se ao silêncio no trecho final da corrida. Todos tentavam manter a cabeça calma, e o corpo quente, por sorte a companhia de dentro da carruagem não era de todo ruim. A jovem, com sua dama e o acompanhante tinham consigo um pouco de vinho de Lyon.
Um breve comentário sobre os que estavam dentro da carruagem, a jovem, com olhos azuis, tinha cabelos negros bem amarrados numa trança perfeitamente trançada, o rosto denunciava sua pouca idade, passava muito tempo observando o exterior; enquanto aos que a acompanhavam: era uma senhora magra com rosto severo, loira, com cabelo abaixo dos ombros, de olhos verdes, tinha um crucifixo grande de madeira em seu pescoço, onde ela por várias vezes o buscou, como quem deseja receber conforto; enquanto ao cavalheiro, um tanto jovial, mas já passava dos trinta anos, suas roupas bastante elegantes, bem cuidadas, pele branca, com um bigode bem tratado adornado por bochechas rosadas, obviamente pelo frio e pelo vinho, o que deixa ele com aspecto ainda mais bonachão.
Nos primeiros dias pude conversar melhor com o cavalheiro, apesar de suas roupas, era uma pessoa simples e sociável, já a sua companheira por outro lado beirava o fanatismo quase igual aos jacobinos, por vezes intragável. Quanto a jovem, bem, tratava das coisas de seu tempo.
Eu, o sargento Anto Stefan Miahi, um historiador e militar, agora estou no meio das montanhas da Romênia, na intenção de mudar meu próprio rumo de vida. Longe de casa e outra vez com a promessa de ser reconhecido. Devo ter inalado muita fumaça de canhão.
Assim que cheguei a Bram, tive a infeliz surpresa de que teria que trocar de carruagem. Acabei numa conversa assombrosa com os condutores.
— Mas senhores, segundo minhas fontes, estamos a menos de duas horas de alcançar nosso objetivo. — Supliquei aos dois cavalheiros sentados no coche quase se abraçando para manter os corpos quentes, seus rostos estavam quase vitrificados de tanto frio.
— Senhor, sinto dizer que nem Jesus nos fará subir o caminho proposto. — Falou Adrian com uma voz trêmula, parecia um baritono, abraçando a si mesmo, com as mãos dentro do casaco negro que vestia.
— Sinto dizer que nem por minha mãe vou por este caminho, o senhor não viu enquanto vínhamos para esta cidade perdida de Deus? — A pergunta de Loui com uma voz rouca de quem bebia e fumava sem qualquer controle, mas me fez lembrar de algumas coisas. Todos com que cruzamos na estrada fazia o comumente sinal da cruz. Em seus rostos havia apenas uma expressão de angústia e desdém.
A conversa não avançou além deste ponto, e assim terminei no meio de um povoado estranho, que me olhava à distância como se eu tivesse alguma praga, ou estivesse acompanhado do próprio demônio.
Não demorou para que um velho senhor viesse pela estrada, arrastando seu corpo cansado, com um rosto de poucos amigos.
— O senhor vai para o castelo? — Perguntou avançando lentamente, sem olhar para qualquer lado. Ele para a minha frente, ele apenas move os olhos na minha direção, sinto que aquele olhar vai além de me ver.
— Sim, sim, eu vou! — Tentei simular meu melhor sorriso, mas algo no meu interior dizia que seria um esforço inútil.
Ele voltou a olhar para frente, baixou a cabeça, cuspiu no chão em frente aos meus pés, o que me fez dar um passo e meio para trás, mas antes mesmo que eu pudesse dizer ou fazer em resposta aquilo, o senhor se virou para mim, e logo estendeu os braços e agarrou minha mão direita. Naquele ato ele me entregou um colar de tira de couro com uma cruz de madeira rústica. Ele recolhe os braços para junto do corpo, rapidamente com sua mão esquerda ele tira seu gorro azul, e faz o mesmo sinal que vi na estrada quilômetros atrás.
De Anto Stefan, 18 de junho de 1871
Boa noite, meu estimado amigo, Maurice!
Como tem passado?
Já faz alguns dias que parti e espero que tudo esteja na mais perfeita ordem na nossa amada Université de Paris.
Agora são 22h, deste mesmo dia, após me estabelecer melhor pude retornar a este meu diário, pois ainda me sinto incomodado com os eventos até o presente momento.
Após aquela cena rara com aquele senhor na vila, ouvi o som do relincho dos cavalos, além do estalar de um chicote, não muito longe, descendo a estrada que eu deveria tomar.
O senhor deu meia volta nos calcanhares sem que eu notasse e tomou um caminho contrário, quando me dei por mim, apenas vi suas costas ao longe desaparecendo no meio do povoado.
Não demorou muito para que uma carruagem surgisse ao longe. Ela tinha uma pintura preta, e quanto mais perto chegava melhor eu podia ver os detalhes de suas estruturas, como cortinas vermelhas iguais a brasa viva, janelas adornadas com bordas de prata, e quatro cavalos negros maiores dos que eu havia visto na guerra. Pararam ao lado de onde eu estava. O cocheiro tinha seu rosto coberto por um cachecol vermelho escuro que deixava sua respiração passar e condensar o ar, suas roupas eram de couro tingido de preto, e um chapéu de abas largas e um trio de penas adornando. Os olhos dele eram soturnos, frios, parecia que para onde ele fosse olhar poderia congelar.
— O senhor se chama Anto Stefan Miahi? — Uma voz grossa que era abafada pelo cachecol deu para ser ouvida.
Ele nem esperou minha resposta e saltou da carruagem. Um homem alto, o pouco de pele que se podia ver, era branca, tal qual mármore, magro, de braços longos, e um cabelo comprido, de um castanho claro. Agora que ele estava mais perto, deu para ver a cor dos olhos dele, num tom verde e amarelo.
— Sim, sou eu. — Respondi o mais prontamente que me foi possível — Você é o cocheiro que vai me levar até o Castelo, do Conde? — Mesmo para um homem como eu experimentado na guerra, que viu coisas horríveis, aquela presença era intimidante.
Ele apenas assentiu com a cabeça de maneira positiva, e logo foi pegando as duas malas que estavam no chão ao meu lado. Num piscar de olhos ele as colocou no teto e já abria a porta para que eu subisse, sua agilidade fugia claramente do normal.
A viagem foi no mais profundo e mórbido silêncio, a monotonia reinou plena nas horas que se seguiram.
Um tempo depois, ouvi duas pancadas ocas no teto do carro. Abri a janela da porta e coloquei a cabeça um pouco para fora, o suficiente para poder ouvir e ver.
— Mais à frente já podemos ver o castelo, senhor Miahi. — Pude escutar a voz gutural do cocheiro que com sua mão esquerda aponta para frente uma série de pontos brilhantes, ainda distantes, dentro de uma sombra imensa, que tão pronto começou a parecer com uma estrutura, e não demorou muito para delinear a construção em si.
Alguns minutos mais tarde eu estava cruzando um portão de ferro, um portal de pedra, com uma muralha que terminava no que parecia um despenhadeiro gelado. Uma curta passagem que levava à porta principal, num grande pátio, e no seu centro uma velha fonte que agora estava cheia de neve. Mais ao fundo uma outra passagem que levava para o estábulo.
Os cavalos reclamaram quando o cocheiro puxou as rédeas forçando sua parada, ele fez algum som que os animais reconheceram e fizeram silêncio. Aquele homem alto saltou, e quando me dei por mim, ele já havia aberto a porta. Sai tentando absorver todo aquele cenário que beirava o aterrador, sombrio, e belo, com algo de clássico. A arquitetura do lugar era impressionante, mesmo já quase estando todo o ambiente submerso na escuridão.
Quando olhei o horizonte e vi na linha das montanhas o sol lentamente desaparecer, foi que eu ouvi o som das malas tocando o chão e a porta de madeira maciça ranger loucamente, como se gritasse. Nisso uma sombra se projetou dela. No alto de uma escadaria espaçada que conduzia para uma porta de umbrais de madeira grossa, com entalhes que já não podia ver bem, em tom natural, e em cada folha o que pareciam desenhos em baixo relevo.
A porta ficou completamente aberta, a luz dentro era amarela e forte, deixando apenas ali a silhueta de uma pessoa alta, coberta por algo que parecia ser uma capa, e uma voz se projetou. Algo nela me fazia recordar as mesmas sensações que eu sentia ao ler as cartas e telegramas do Conde Drácula.
— Já é noite meu jovem. As noites nessas paragens podem te matar numa única mordida. — Houve uma risada baixa ao final da frase.
— Certo… Claro! — Me apressei em subir as escadas, me esquecendo das maletas perto… bem… não sei em que momento ele havia subido na carruagem, porque quando me dei conta apenas ouvi o relincho dos cavalos, o som do ranger da madeira e um estalo agudo. — Deixe-me pegar as maletas, senhor, e logo vou apertar sua mão.
Por mais atrapalhado que pareça, tentei manter a pose diante de quem quer que fosse que estivesse ali observando no alto da escada com aquela postura imponente e sombria.
Assim que recolhi minhas coisas, já não havia mais luz do sol, neste momento olhei para o céu instintivamente, quando me deparei com aquele mar de estrelas, por um breve momento senti que o chão em meus pés estava desaparecendo e eu caia, foi então que senti em minhas costas um toque suave, gentil, e um rosto estava para se revelar a mim, quando apenas senti que caía num sono prazeroso, um abraço bem-vindo.
Maurice, há algo raro e estranho neste lugar, dentro deste quarto tão suntuoso, mas ao mesmo tempo tão frio, o carmesim das cortinas da janela, o roxo dos cobertores e travesseiros, a pedra cinzenta das paredes e a madeira dos móveis, parecem não vir deste mundo. Mais estranho é que senti essa emoção inquietante desde o momento que passei os portais do muro desde a construção belíssima de tão sombria. Existe um ar que me absorve e me acorrenta aqui.
Bem, já não vou mais importuná-lo nesta carta com estes detalhes anormais, aguarde minhas próximas cartas ou telegramas.
Desde já desejo a você, meu amigo e mentor das artes da história, toda a boa sorte.
De seu velho amigo, Anton.
PS.Sempre, “Hic et ubique terrarum” (“Aqui e em qualquer lugar do mundo”) carregando o lema de nossa amada instituição no coração e na mente.
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Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de […] | Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui […]
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de sol, para que eu me dirija para as matas lidar com os animais perigosos? Não... eu não estou em meu país — preciso lembrar.
Lentamente, ainda no escuro, levanto-me da maciez dos lençóis de cetim e sinto os meus olhos ainda sonolentos, se ajustando à baixa luz da alcova onde me encontro.
Ao me aproximar da janela deste quarto no antigo castelo, os meus olhos se fixam nos majestosos montes que se erguem ao longe. Lá, entre os mistérios da madrugada, surge uma silhueta, e mais do que isso, uma figura solitária, destacando-se contra o horizonte sereno. Um homem, cujos contornos se misturam com a imponência das montanhas distantes.
Minha feição muda para um possível receio, enquanto observo aquele estranho visitante. Uma sensação indescritível me envolveu, um misto de curiosidade e medo, como se o universo tivesse conspirado para que eu visse alguém a uma hora dessas.
Me afasto do grande vidro, rogando a Tupã que aquilo não tenha me enxergado assim como eu o enxerguei e vou correndo até a porta do quarto conferir se está mesmo trancada. Eu poderia buscar à Olga Nivïttiz, mas preciso me controlar e dominar os meus medos. É só um andarilho, vizinho, talvez. Ou será mais um residente do Castelo? Não, não sou capaz de ver nenhuma figura masculina em minha frente. Bastam todas aquelas pessoas estranhas que vi na grande embarcação cuja qual me trouxe até aqui.
Preciso registrar tudo, tudo, para mostrar aos meus líderes, à minha família. Busco meus papiros e sento-me na escrivaninha que me é possível, próxima ao dossel onde estou descansando, e escrevo, relato, amedrontada, mas o faço.
Meus lábios se entreabriram, tentando questionar tudo isso comigo mesma, mas nenhuma palavra escapa deles. Eu permaneço aqui, imóvel, como se temesse que qualquer movimento pudesse dissipar a visão diante de seus olhos.
O vento que escapa de uma fresta discreta brinca suavemente com as cortinas de renda, criando uma dança etérea ao redor dela, enquanto meus pensamentos se perdem na figura misteriosa lá fora que eu acabo de vislumbrar.
Eu posso sentir a pulsação do meu próprio coração, cada batida ecoando no silêncio da madrugada. O desconhecido nos montes parecia tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante. Uma inexplicável sensação de conexão se estabeleceu, como se “aquilo” pudesse compreender-me ou, até mesmo, ter vivido uma história similar à minha. Muitas vezes, histórias se cruzam e eu preciso parar de temer as pessoas, preciso parar de pensar que todos os seres masculinos são diabólicos e monstros. Talvez até eu ganhe um amigo-irmão um dia. É o que vibra em meu coração, como se houvesse um fio invisível de verdade. Para isso eu preciso parar de acertar homens com a minha flecha. Não farei mais isso. Não aqui. Com ninguém. Prometo para mim mesma.
Com um suspiro involuntário, me aproximo novamente da janela e não mais o vejo. Será alucinação? Alucinose? Ele desaparece dos meus olhos, mas a imagem do homem nos montes permanece gravada em minha mente. E se ele se aproximou do castelo e conseguiu entrar? Fecho os olhos, como se assim eu sentisse mais veracidade e sensibilidade no ambiente e percebo que ele pode ter adentrado no castelo. Ele está presente neste lugar, sei que está. Olho novamente para a porta e me acalmo. Por mais presente que aquela criatura Indecifrável esteja, ela não será capaz de adentrar às portas das alcovas particulares deste grande recinto.
O mistério daquele quase encontro noturno paira no ar, deixando-me ansiando pelo desenrolar dos acontecimentos que o destino reserva para mim neste castelo.
...
Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui. Abracei o incerto, o irreal, abandonando minha vida anterior atrás de algo que, à princípio, me parecia um mero devaneio, mas agora é angustiantemente verdadeiro.
Juntei todas as economias que pude, me desfazendo de todos os bens que me cabiam, para poder partir com todos os recursos possíveis. Após dias e mais dias de uma jornada cruel e longa, cheguei a um pequeno povoado. Muitos idosos, poucos adultos e nenhuma criança. Este último fato me causou um desconforto visceral e inesperado.
Eu deveria esperar pela carruagem que me levaria pelo último trecho do meu caminho.
Os moradores mal se dirigiam a mim, e quando eu os forçava, por meio de minhas diversas e invasivas perguntas, eles condensavam suas respostas ao mínimo possível, apenas me indicando onde esperar pelo cocheiro.
O povoado era pequeno, bem pequeno para os meus padrões. Úmido, escuro, quase pútrido. Não esbarrei com uma dúzia de pessoas, o que me causou uma estranheza exponencial.
Conforme o esperado, a noite chegou, e o cocheiro também. Eu seria seu único cliente, se é que posso me identificar desta forma. O sujeito vestia um manto escuro, denso, velho e maltratado. Era pouco mais baixo do que as outras pessoas que observei, embora sua estatura reduzida não condissesse com sua força sobrenatural, a qual demonstrou ao erguer minha única mala, desprezando totalmente o peso exagerado.
A viagem seguiu sem maiores intercursos. Não trocamos palavras, nem olhares, nem coisa alguma. Seguimos floresta adentro, por uma trilha que mal era visível. Me questionei quantas vezes ele teria realizado aquele caminho… Inúmeras, talvez.
Após uma subida íngreme e desleal, ele parou. Senti uma estranha angústia descer pela garganta e tomar conta do meu estômago. Não o vi descer do banco frontal, tão pouco ouvi retirar minha mala de trás da diligência. Abriu a porta lateral e fez menção para que eu saísse. Senti que, se ousasse desafiar sua sugestão, seria estripado e largado à própria sorte. Estava acuado, como uma presa indefesa, mas segui a ordem.
Não pude localizar o povoado, nem me esforçando para tal. A floresta era densa e escura, iluminada por poucos pontos de luz, espaçados, que indicavam a presença de lamparinas. No segundo seguinte, tanto a diligência quanto o cocheiro haviam desaparecido, sem deixar rastro ou som algum. Nada ali fazia sentido, tão pouco o que eu presenciei em seguida.
O Castelo erguia-se imponente, tal como uma entidade sobrenatural, atemporal e titânica. A morte reinava em cada torre, cada quarto, cada porta e janela. Tudo me causara terror, mas não o terror que eu já conhecia, e que escrevia em minhas obras, mas sim um terror feroz, cruel, brutal, rígido e ávido por sangue.
A ânsia e o desespero congelaram cada músculo do meu corpo, de forma que levei alguns segundos, ou horas, para me recompor. Minha cognição estava prejudicada, talvez pela longa viagem, talvez pelo espanto, talvez pela falta de tabaco.
Balancei a cabeça, tentando me ater ao último fio de sanidade que me restara. Foi quando meus olhos me pregaram uma peça cruel.
Pude ver, dentro do Castelo, uma figura feminina. Sim, claramente uma mulher. Soube, dentro do meu ser, que ela também havia me visto, apesar da generosa distância entre nós.
Havia vida dentro daquelas paredes, restando-me descobrir que tipo de vida era aquela. Poderia, também, ser uma penosa e bem delineada armadilha. Eu poderia estar sendo guiado para um abatedouro, destinado ao fim mais mórbido que meu lado pessimista pudesse imaginar.
Antes que eu pudesse conceber qualquer pensamento concreto, a figura desapareceu, fechando as cortinas da janela. Ela era real. Real e viva, tão viva quanto eu. Fora este o momento oportuno para que eu pudesse recobrar o controle sobre minhas pernas e caminhar em direção à porta do Castelo.
Faço uma pequena e rápida prece aos deuses e bato à porta.
Ela se abre sozinha.
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Prólogo: Desperta
Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas em meu peito, a poesia da escuridão ao lado do horizonte noturno. O espírito da finitude não beija meus lábios, de alguma forma eu sei disso. Despertei pela fresta de luz de um luar brando e vívido. Lembrei-me dos caminhos que fiz pelos sonhos mais frígidos e sei que atravessei cordilheiras distantes e precipícios símeis aos pélagos úmidos e aos arvoredos orvalhados.
A poeira ao redor sobre os lençóis de cetim escarlate, o espelho embaçado, as teias tecidas com esmero pelas aracnídeas cuja natureza é fascinante e silente. Estou acordada. O mundo humano ainda é o mesmo? A lua ainda reside no firmamento, embora as estrelas aparentem estar muito mais distantes do que outrora. Apoio-me no balaústre da varanda, quão alta esta torre se faz… posso ver o abismo e todos os pinheiros negros ao redor, junto à parte do castelo que está tomado por neve e galhos secos, sinto — enquanto estremeço — a brisa internamente densa em sua gélida composição. É inverno. Pela palidez que cai a neve em lentidão, não tenho dúvidas que estou no ápice da estação mais frígida. Quantos anos se passaram? Por que não envelheci?
Não ouço nada além do sibilar mórbido da aragem estonteante, e dos corvos a crocitarem tristes vez ou outra. Tenho pouquíssimas memórias, sinto-me como n’um nascimento prematuro, ainda entranhada em reminiscências do ventre em suas sombras, calidez e sons imprecisos, nada mais. Ainda não me fiz destrancar este umbral que me separa dos recônditos obscuros d’este lugar, pois temo — eis a razão desoladora. Do fogo que acendi na lareira umedecida, emergiu-me uma imagem efêmera de olhos escarlate e uma intensa dor em minh’alma, então senti minhas pálpebras estafantes, adormeci serena e lôbrega nos braços de alguém que não me lembro o semblante. Agora escrevo, porque posso não sentir a vida ebulir em minhas veias, mas sinto as mais fúnebres emoções que a ela pertencem.
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4. Jardim da Morte
Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem…
Kay Steventon - The Wheel of Fortune
Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem; onde as flores eternamente exalam seu perfume como suspiros finais e os raios de uma lua cheia incomum derramam-se pálidos sobre a relva, uma mulher está sentada esperando. Os animais que lá estão já não podem ser diferenciados dos objetos que compõem aquele cenário, pouco se movem e mal fazem ruídos, parecem apenas aguardar, se ouve apenas o sussurro inquietante do vento, como se fosse um eco dos lamentos dos que se foram. Uma ceifadora, envolta com sua capa negra como uma mortalha, chega e se senta de frente à mulher em uma mesa de mármore gasta, com fissuras e imperfeições. A mulher, que aparenta estar habituada a toda aquela encenação, inicia a conversa:
— Vamos jogar xadrez desta vez?
A ceifadora responde com uma voz calma:
— Hoje não, deixarei você escolher.
A mulher, imersa em seus pensamentos, lembra-se que em vida era boa com cartas:
— Vamos jogar carteado dessa vez, nesse eu sou boa. — Murmura ela, com uma pontada de esperança de que dessa vez iria ganhar.
A ceifadora pega sua maleta, um artefato antigo coberto de runas estranhas, e tira um baralho tarô. As cartas, gastas pelo tempo, são embaralhadas com um ranger sinistro.
— Sério? Você vai ler meu futuro? — A mulher pergunta, com um riso nervoso. — Estou morta, não tenho um futuro.
— Apenas vamos jogar e ver o que pode acontecer. — Responde a ceifadora.
Com habilidade ela segura as cartas como se fosse um leque e olha para a mulher: — Tire uma carta, para que se dê início ao jogo.
A mulher olha a ceifadora com dúvida e pergunta:
— O que isso significa? Normalmente você é quem escolhe o jogo e é a mais falante e agora fica nesse silêncio e me pede para escolher uma carta? — A mulher dá mais um riso nervoso — Não era esse tipo de jogo que eu estava falando, há algo que eu preciso saber?
A ceifadora suspira e olha para a mulher:
— Há certas regras aqui no Sheol que não posso burlar, porém há outras que algumas pessoas que estão fora dele podem. E é isso que estou fazendo agora, fazendo um favor a um conhecido que pode burlar essas regras. Então apenas escolha a carta.
A mulher fita as cartas com uma mistura de temor e esperança. Sem saber muito bem o que esperar. A mulher tirou uma carta do leque e entregou à ceifadora que sorriu e mostrou a ela a carta.
— Ótimo, la roue de fortune. — Cantarola a ceifadora numa pronúncia perfeita e musical — A roda da fortuna.
— E isso significa que? — A mulher pergunta curiosa.
A ceifadora sorriu para ela, segurou as mãos da mulher e falou:
— Essa carta significa o ciclo da vida e com ela irei dar a você a oportunidade de ver a sua amada, pois eu sei que isso que passa pela sua cabeça o tempo inteiro, não é?
— Sim, isso passa pela minha cabeça sempre, falo sobre ela para você o tempo todo, mas se ela tiver que morrer para que isso ocorra eu prefiro não a ver.
A ceifadora falou: — Nesse momento ela está num local envolto em magia, num local de vivos, mortos e não tão mortos — a mulher arregalou os olhos — Calma, ela está viva e consciente, é claro — disse a ceifadora acalmando a mulher — Então será possível que vocês tenham um breve encontro, nesse exato momento, então aproveite.
— Eu tenho que ir? — A mulher fez uma careta.
— Oras, mas é claro, estou te dando a oportunidade de encontrar a sua amada em um lugar além dos véus da morte. Só aproveite, nem todos têm a chance de reencontrar os que perderam.
— Isso meio que parece uma pegadinha — diz a mulher ainda em dúvida.
— Oras, querida, apenas vamos, não há muito o que se fazer aqui no Sheol, um passeio fora irá ser bom para você, e não se preocupe, estarei por perto para te trazer de volta. — A ceifeira se levanta sorrindo e segura a mão da mulher — Então, vamos?
A mulher fecha os olhos e inspira profundamente e solta o ar por hábito:
— Sim, vamos, não é sempre que algo diferente ocorre nesse lugar.
E assim, uma porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas envolta em uma névoa púrpura se materializou, a mulher e a ceifadora desaparecem daquele jardim incomum, deixando para trás apenas o eco de suas palavras e as cartas sobre a mesa.
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Escarlate
Antes de adentrar ao castelo, contemplei por mais uma vez aquela monstruosidade arquitetônica. Dentre as janelas, gárgulas e torres, algo me chamava a atenção…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Antes de adentrar ao castelo, contemplei por mais uma vez aquela monstruosidade arquitetônica. Dentre as janelas, gárgulas e torres, algo me chamava a atenção, se tratava das belíssimas e grandiosas rosáceas, despertando em mim as mais profundas emoções. Elas traziam um tom escarlate bastante vívido e brilhante, o pálido luar deixava-as ainda mais lindas, como se a tinta usada para as pintar fosse sangue. Ainda absorta, me aproximei da aldrava e, ao tocá-la, senti meu peito palpitar em desassossego, meu colo inflava de ansiedade, era nítido que aquele lugar clamava por mim e eu por ele. Fechei os olhos e escutei sutis passos, e sussurros, até mesmo um leve passar de páginas, algum escritor ou escritora talvez, mas eu estava decidida a entrar.
Minhas trêmulas mãos abriram delicadamente a majestosa porta rúbea, o ranger dela ecoou castelo adentro. Fui recebida por uma cálida lufada que embaraçava meus cabelos. Eu estava completamente arrepiada, pois aquele ambiente me parecia familiar, contudo, eu tinha de ser cautelosa, pois não sabia quem eu iria encontrar.
Pois bem, resolvi andar lentamente admirando tudo e, de fato, sua fachada era imponente, mas nada se comparava ao interior, quão aprazível era admirar aquele teto altíssimo, imaginar cada pedra sendo erguida, paredes sendo construídas, a decoração era de muito bom gosto, algumas poltronas vitorianas em tons escuros, uma mesa enorme de jacarandá repleta de cadeiras de veludo roxas. Notei uma grande quantidade de pratos de porcelana branca e talheres de prata dispostos, havia também guardanapos e taças de cristal que brilhavam ao longo da mesa; preciso citar o notável candelabro de ferro fundido. Outros móveis compunham o castelo, senti-me uma mísera formiga diante daquele majestoso lugar.
Os anseios em descobrir quem era o anfitrião deste castelo e quem eram os demais inquilinos que perambulam neste colossal castelo, preenchiam minha mente, porém, estava temerosa, pois logo menos eu sentiria fome.
Distraída em meus devaneios, me deparei com uma determinada porta, igualmente linda, com adornos talhados a mão. Admirei com um certo fascínio e respirei fundo ao sentir a gélida maçaneta de prata. Com o coração disparado, abri a pesada porta de mogno. Diante de mim estava um enorme cômodo que me parecia ser uma descomunal biblioteca recheada de incontáveis livros, todos em capa de couro das mais variadas cores, perfeitamente organizados do tom mais claro ao tom mais escuro. A estante ocupava toda a extensão das paredes que mediam por volta de quatro metros de altura. Toda a marcenaria foi pintada no mesmo tom presente nas rosáceas. No centro, havia uma mesa redonda vitoriana coberta por um manto negro e de imediato recordei do notável fenômeno das mesas girantes, popularmente difundido na Europa durante o século XIX. Acima da mesa havia uma obra de numerosas páginas, ao me aproximar, percebi algo nefasto, pois sua capa parecia ser feita de pele humana, exalava um terrível odor pútrido, sua coloração também era desagradável, um misto de tons avermelhados com pinceladas de marrom. As páginas estavam puídas, as traças haviam devorado horrivelmente as laterais das páginas.
Quanto mais eu contemplava aquele livro, mais queria folheá-lo. Finalmente fui derrotada pela minha curiosidade, cheguei até a mesa e debrucei-me diante dele, um misto de excitação e pavor percorria minha pele. Ao tocá-lo constatei que realmente era pele humana, eu estava prestes a abri-lo quando ouvi um ranger vindo da porta, alguém acabara de adentrar na biblioteca, paralisada, sinto a brisa soturna acariciar minha nuca, pergunto para mim mesma quem será? Ou... o que será?
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3. Castelo Vampírico: Agora e na Hora de Nossa Morte
Diário de Rute Fasano. 12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Diário de Rute Fasano
12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula, pude me sentir inspirada o bastante para escrever. Aquilo foi um pouco parecido com a experiência que tive quando minha terapeuta me recomendou usar 2g do Psilocybe cubensis para tratar minha ansiedade, foi uma experiência ao qual eu não estava preparada e não sei definir se foi boa ou ruim, uma mistura de medo e prazer, inquietação e paz, que não quero repetir por ser algo muito imprevisível. Mesmo que depois dela eu tenha me tornado mais funcional por um breve momento. E assim como a viagem de cogumelo, eu não sei definir se quero outro encontro com Drácula. Esqueça as flores, esqueça o afeto por elas. Eu gostei daquele gesto, mas a experiência que veio antes eu não consigo definir bem o bastante para saber se quero repetir.
Estou um pouco irracional ultimamente, mesmo sendo bastante mente aberta e curiosa por demais, tem coisas que tem acontecido que estão além de uma explicação racional. Uma delas é essa minha vontade de andar nas madrugadas pelo castelo, feito aquelas damas de filmes góticos antigos com vestidos esvoaçantes e castiçal em mãos. Outra é a sensação latente de que eu irei ouvir a voz da minha amada a qualquer momento como um o sussurro do vento e seus dedos gélidos baterem à minha janela para que eu a deixe entrar. Isso faz com que eu queira perambular pelo castelo e apenas voltar para o quarto quando tiver que dormir. E realmente foi o que fiz, perambulei por todo ele sem encontrar uma alma viva ou morta. Investigando cada local que fosse possível e memorizando todos os caminhos que eu poderia passar sem que ninguém me percebesse.
13 de dezembro - Essas madrugadas de caminhada pelo castelo tem sido um bálsamo para mim, sem aquela ansiedade anterior que eu tinha de talvez encontrar Drácula ou um hóspede do castelo. Sei que uma hora ou outra terei que me dirigir a eles e compartilhar minhas dúvidas e reflexões sobre esse local que agora todos habitamos. Mas ainda não sinto que é chegada a hora. Estou escrevendo alguns contos, mas não os sinto bons o bastante, aquela sensação latente de sair do quarto tem me agitado, mais tarde sairei para caminhar.
Mais tarde - Escrevo isso com ódio, com um choro preso na garganta e usando tanta força para escrever que chega a marcar o papel. Fui, como de costume, perambular pelo castelo como há quatro dias já havia feito e caminhando pelos mesmos caminhos que eu havia memorizado. Me perdi por um momento em pensamentos sobre o que escrever dessa vez, o que fez com que eu caminhasse sem rumo. Encontrei uma capela abandonada em ruínas, odor de mofo entranhado nas paredes de pedra, bancos de madeiras todos danificados, castiçais com velas velhas e quebradas com suas chamas extintas, mesmo em destroços e esquecida, havia nela traços de que um dia fora bela e imponente, ainda era bela da sua maneira. Vitrais coloridos quebrados que em outros tempos mostravam imagens sacras, um crucifixo de ouro envelhecido acima do altar ao qual não pude olhar atentamente, pois a grande bíblia sobre o ambão tomou toda a minha atenção. Suas páginas estavam amareladas pelo tempo, porém intactas em comparação a todo o cenário envolta dela, aberta aguardando para ser lida. Toquei suas páginas e como esperado estava no salmo 91, porém marcado com o que parecia ser sangue seco estava o salmo 89, tentava em vão conseguir ler o versículo 48 que estava mais manchado, até que ouvi um sussurro muito perto do meu ouvido a pronunciar essas palavras:
— Que homem pode viver e não ver a morte, ou livrar-se do poder da sepultura?
Surpreendida, olhei a pessoa dona daquele sussurro, uma figura translúcida oscilante, vestida de branco, me aproximei devagar, sentindo o peso do meu próprio desconforto e angústia aumentarem. Seus olhos castanhos claros e a palidez sobrenatural que sempre a envolvera. Era ela, aquela que amei incondicionalmente sem nunca entender o porquê. Aquela que sempre soube que havia algo errado comigo, que via além das máscaras que eu usava para enfrentar o mundo, que compreendia minhas obsessões estranhas e meus medos mais profundos. Aquela que o nome eu nem sequer ouso mais pronunciar. Olhou-me com aquele seu olhar paciente e gentil e aquele sorriso doce que sempre me desarmava, e naquele momento minha mente se esqueceu do motivo de estar ali, pois nada mais importava. Tomei ela nos braços, senti-a com todo o meu corpo e meu coração, sentindo seu cheiro doce, fresco e leve. A beijei sem pressa como se nunca tivesse partido, ela me olhou ainda sorrindo e se desvencilhou delicadamente, segurou minha mão esquerda, e colocou minha mão em sua cintura e depois pôs a mão em meu ombro, e começamos a valsar, naquele silêncio incômodo, como nos velhos tempos. Dançamos, não sei por quanto tempo, até que abruptamente rodopiamos uma, duas, três, quatro vezes, ela olhou em meus olhos e curvou o corpo para trás com certa violência no meu braço direito e parou, e era como se eu tivesse despertado para aquele momento. Tudo aconteceu tão rápido que fui impedida de conseguir fugir da situação que me paralisou.
O pouco de cor que sua pele pálida tinha foi roubado, tornando seu rosto uma máscara de cera, seu belo rosto desvanecendo em um grito surdo. Aquela casca vazia, mole e sem movimentos. Pesada em meus braços, e sendo um peso sufocante em meu coração. Havia vozes, vindas não sei de onde, em uníssono sussurrando como em uma oração: — Pallor Mortis.
Seu corpo começava a pesar mais e mais, fazendo com que eu fosse obrigada a me sentar e acomodar melhor seu corpo sem vida, um frio gélido a envolveu, penetrando minha carne, me causando calafrios e um ardor nos olhos, como se eu tivesse em meus braços um mármore gelado. As vozes novamente: — Algor Mortis.
Eu tentava aquecê-la em vão, impedir que se fosse, friccionar sua pele, mas nada adiantava. Seus músculos se enrijeceram, uma imobilidade agonizante, deveria tê-la soltado para que não presenciasse mais nada daquilo, só que não havia coragem em mim para deixá-la sozinha mais uma vez. Vozes: — Rigor Mortis.
Sua pele começou a adquirir tons avermelhados profundos, com sangue estagnado nas extremidades, marcando seu corpo agora inchado, meus dedos afundaram na sua carne mole e apodrecida enquanto eu a banhava em lágrimas que não conseguia conter, pois, a cada estágio, sua falta de vida era um peso no meu coração, que me consumia e matava aos poucos. Vozes: — Livor Mortis.
Seu corpo começou lentamente a se desfazer nos meus braços, deixando seu rosto disforme, desconhecido. O odor repulsivo e forte, já conhecido meu, invadiu minhas narinas e adentrou a minha garganta, sentir ele tão fresco, tão perto, era lancinante, fazia revirar o meu estômago e tentava me controlar para não regurgitar, o que foi em vão, pois além de lágrimas, também a sujei de restos malcheirosos do meu estômago. Vozes: — Putrefação.
Ela foi resumida a um esqueleto com vestígios de algo que antes seria alguém. Despida de sua antiga beleza, para uma beleza macabra, sem carne, envolta num manto alvo, como uma santidade cadavérica. Vozes: — Decomposição.
As vozes em coro silenciaram. Seu esqueleto em meus braços. Vestígios de tudo que foi e nunca mais será. E eu presenciei cada etapa de seu inevitável fim. Aquele fim que imaginei detalhadamente quando a deixei sozinha apodrecendo naquele cemitério. Ela definhou em meus braços, pela segunda vez. Entre lágrimas e dor, vi-a morrer pela segunda vez. Meu olhar então se voltou para a cruz que antes eu não havia dado atenção, e lá, em lugar do Cristo morto, vi uma figura que me encheu de ódio. Era um Jesus vampírico, uma distorção grotesca daquilo que um dia acreditei por ela. Na primeira morte dela, reneguei Deus; agora, diante dessa imagem profana, reneguei Drácula, por me fazer passar por essa agonia novamente. Seu sorriso maldito parecia zombar de minha dor, alimentando ainda mais a minha revolta.
Ele desceu lentamente daquela cruz, como uma figura divina, era como se o tempo desacelerasse ao seu redor, coroado e envolto em um manto de sangue e carne, extremamente pálido como se não houvesse sangue em seu corpo. Eu tremia, não queria mais nenhum encontro com Drácula, mas aqui estamos novamente, e eu o temo e o odeio, porém sua figura parecia obrigar uma contemplação forçosa e uma paz ilusória que lutei para não me permitir sentir. Não agora, pois naquele momento eu precisava odiá-lo. Cada vez mais, a presença opressiva de Drácula se fazia sentir, seu olhar penetrante atravessando minha alma enquanto eu lutava para manter minha mente própria. Não queria permitir que ele exercesse nenhum poder sobre mim.
Eu estava perdida naquela capela abandonada, presa entre o céu e o inferno, entre o amor e o ódio, entre a vida e a morte. Talvez condenada àquele purgatório que era o castelo, uma prisioneira, talvez assim como Drácula. Sua presença me oprimindo, e com um comando de mãos, como da última vez, me fez despertar mais uma vez em meu quarto, onde estou nesse momento a escrever meu segundo encontro com ele.
P.S. Talvez Drácula, tentando pensar racionalmente agora, use desses subterfúgios para que os que estão no castelo se sintam mais inspirados, ou tenham sobre o que escrever, talvez olhar nossa dor, analisá-la e escrever sobre ela, não sei. Só sei que ele ultrapassou alguns limites nesses seus métodos. Usou de coisas que eu tentava esquecer ou achei que deveria esquecer. Outra coisa que percebi foi que em nossos encontros, nunca trocamos palavras, mas sim pensamentos, sensações, como se respeitássemos mutuamente a decisão de manter o silêncio. Ainda não o compreendo e isso me perturba, porém naquele momento terrível, pude compreender que minha jornada estava bem longe de terminar.
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Devaneios
É inevitável negar a mudança em mim. Não somente mais bonita e sagaz, mas mais inspirada também. Sinto meu corpo tão frio e ao mesmo tempo tão vivo…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
É inevitável negar a mudança em mim. Não somente mais bonita e sagaz, mas mais inspirada também. Sinto meu corpo tão frio e ao mesmo tempo tão vivo. Sei que beira a insanidade, mas me delicio com cada gesto que faço ou toque que sinto em minha pele. A sensibilidade é imensa e igualmente prazerosa, fato esse que me manteve ocupada com Malus, explorando as novas sensações e necessidades.
Tenho sonhado com mais frequência, mesmo acordada. Alucinada, talvez. Suponho que tenha alguma ligação com o sangue azul de outrora. Mas não há sobre o que me queixar. O Conde Drácula me deu as boas-vindas pessoalmente. Um tanto fantasmagórico, concordo, mas foi uma noite memorável. Sedutor, cordial e erudito como ninguém, me fez ansiar por colocar no papel as palavras que imploram por saírem de mim.
Não sei dizer quanto tempo faz que não escrevo em meu diário, meu pobre amigo que por diversas vezes foi testemunha das minhas alegrias e tristezas. Provavelmente deve ter sido descartado após minha partida. Ainda absorta em lembranças, apanho meu novo companheiro de escrita, deixado por Malus como presente em minha escrivaninha, e começo o registro de minha jornada até aqui.
Poderia lamentar a perda de meus antigos poemas, mas a memória é uma dádiva, eis que deixo aqui um dos primeiros que escrevi, enquanto me deslumbrava com a Lua de Sangue.
Seu brilho mortal
Enche minha alma de esperança.
Nas noites
Você reina,
Solitária e autoritária,
Radiante, pálida e fria.
Como desejei ser como você,
Com inigualável beleza,
Lua de Sangue.
Muito eu ouvi falar do paraíso. De como as pessoas almejam ir para lá. Cá onde estou é deveras temido e amaldiçoado pelos tolos que de longe avistam. Mas o que diria minha mãe ao me ver plena, dona do meu próprio ser, como nunca antes? O que diriam os imbecis que zombaram de mim e que tanto fizeram, mas é o inferno que está destinado a eles? Ah, as palavras... saltam de meu interior em busca de morada nas páginas em branco... eu cedo a elas.
Dançando em harmonia, sensações e desejos percorrem o papel. Sussurros e sombras oscilam em meus aposentos. Poesias fluem, ecoam nas paredes frias e famintas deste castelo e eu as sinto se deliciarem junto a mim.
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Era inverno. Era a melhor época do ano, estando em Londres ou em Coimbra. Londres certamente combinava mais comigo; era, na maioria das vezes…
Imagem criada pelo autor com IA
Era inverno. Era a melhor época do ano, estando em Londres ou em Coimbra. Londres certamente combinava mais comigo; era, na maioria das vezes, fria e sombria e o inverno nessa cidade era a época que mais me dava forças para seguir. Pensando em toda a minha trajetória até aqui, começarei a relatar todas as desvantagens de minhas origens, que já se encontram em um passado um pouco distante, datando aproximadamente de quase cem anos. Venho de uma linhagem de plebeus simples que viviam em Portugal. Minha vida era comum e sem grandes acontecimentos; eu fui casado primeiramente com uma mulher simples de nome Emília, porém, com pensamentos ambiciosos.
Eu era um homem pobre e vivia adoentado, não tinha forças até para recuperar minha própria honra diante de toda a Coimbra, que se aproveitava destes meus defeitos até para ferir ainda mais o meu nome, sabendo que eu pouco poderia fazer para mudar os fatos. O caso da desonra se deu porque Emília passou a se prostituir a partir do momento em que viu que eu não conseguiria garantir seus luxos; eu vivia em um bairro relativamente nobre da cidade, pois havia herdado uma casa que pertencera aos meus pais e que, por sua vez, também havia pertencido aos meus avós, porém, tão pouco o meu sustento de marceneiro dava para cobrir os gastos mensais da casa e, apesar da origem de Emília ter sido mais simples que a minha, ela passou a invejar as outras mulheres da vizinhança por terem artefatos e objetos mais caros e pomposos do que os que eu conseguia dar a ela. Pela soberba, minha falecida esposa havia desonrado meu nome e o dela e eu seguia a vida como se já não quisesse viver. Eu vivia pelos cantos da cidade alcoolizado, até que certa vez, em uma noite, entre um porre e outro de vinho, tropecei em uma tumba misteriosa nos arredores de Coimbra.
A tumba era antiga e enegrecida pelo tempo, escondida sob a sombra de árvores centenárias que se localizavam numa área isolada do cemitério São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades. O portão do cemitério havia sido esquecido entreaberto pelo coveiro ou por algum parente de qualquer moribundo. Intrigado, decidi adentrar no local e me deparei imediatamente com um mausoléu que se destacava dos outros; resolvi investigar seu interior. Ao abrir a tampa de pedra, deparei-me com uma visão terrível: os restos mortais de um ser que não parecia humano envolvidos em uma aura de mistério e escuridão. Um arrepio percorreu minha espinha quando uma voz sussurrou em minha mente, instigando-me a consumir a carne podre daquele monstro. Um instinto telepático me envolveu, me puxando em direção aos restos mortais da criatura sobrenatural. Apesar do medo e da repulsa, uma força irresistível me dominou, e cedi ao impulso sinistro. Com um misto de horror e curiosidade, eu me curvei sobre os restos da aberração e engoli um pedaço de sua carne podre.
Minha vida havia mudado para sempre. As consequências do meu ato misterioso me assombraram, mas também me fascinaram. O que aconteceu comigo depois daquela noite fatídica? Essa é uma pergunta que ainda me intriga, assim como intriga a todos que ouvem minha história. Alguns dizem que me tornei um ser das sombras, condenado a vagar pela eternidade em busca de sangue para saciar minha ávida sede.
Outros afirmam que desapareci misteriosamente, deixando para trás apenas um rastro de lendas e mistérios; ainda há também quem diga que de fato desencarnei, mas a verdade sobre meu destino final permanece oculta, talvez para sempre. Enquanto isso, eu, Filipe, continuo a contar minha história, um simples plebeu que teve um encontro fatídico com a escuridão em uma noite sombria em Coimbra.
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Não é que prestes a entrar naquela fumaça cor-de-violeta, onde eu estava a me considerar a um pé de algum mundo fantástico — ainda mais do que este, eu supunha…
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Não é que prestes a entrar naquela fumaça cor-de-violeta, onde eu estava a me considerar a um pé de algum mundo fantástico — ainda mais do que este, eu supunha — e quase mergulhando num maior desconhecido, dei de cara com a própria realidade? Pois é…
Não que eu esperasse me deparar com algum tipo de entrada numa dimensão alternativa, um portal para além da zona de exclusão que é este tempo-espaço, com o qual já estou vividamente acostumado, preso; como eu já havia me dado conta, o próprio ambiente do Castelo e seus membros, com os quais eu também travara contato (ainda que tímido), já eram mais do que prova de que eu adentrara num território supranatural — ou talvez fosse melhor dizer num “maravilhoso breu” …
(Começo a pensar que alguma força me impele a construir neologismos, a me dar indicativos de que somente assim poderei transmitir o que sinto e vejo neste lugar…)
Voltando ao que escrevia… Tal fumaça, de aparência mágica, um tanto quanto esotérica, logo após eu ter pisado naquele curioso recinto, dissolveu-se por completo, o que logo em seguida fez-me sentir calma e súbita certeza de que nada me faria mal — outra razão ao que eu já tinha assimilado: as ameaças aqui são inexistentes, existindo mais nos pensamentos que tendemos a elaborar do que nas capacidades reais de um pretenso mal… Sim, não me sinto intimidado por nada, não até agora.
Se posso deixar registrado o que senti após ver aquela fumaça desvanecer-se, fugir pelo corredor e tornar ao caminho misterioso no qual surgira, devo dizer que foi algo no mínimo reconfortante, uma sensação de que, por mais estranhas e imprevisíveis sejam as impressões tidas nesse lugar, tudo está repleto de sentido, devendo eu apenas me concentrar e interpretar os fatos presenciados para algum próprio desígnio…
O que intriga, de fato, é este inegável cheiro de sangue… ferroso odor, rascante, pairando sobre o ar do Castelo nos instantes em que me desloco pelos seus cômodos…
Não que eu já tenha visto em alguma de suas torres a figura espectral desse que dá nome ao lugar, sabidamente apreciador do plasma alheio… mas… as pessoas daqui: são elas que, talvez, devam me fornecer respostas ao melhor observá-las — não podendo ainda me certificar de suas verdadeiras naturezas e reais intenções… O acesso à escrita delas (algo que todos nós, estabelecidos aqui, partilhamos constantemente) é que me guiará, creio, a uma categórica afirmação sobre…
P.S. Alguém está batendo na porta… curiosamente, fazendo com que eu termine mais um aventuroso relato para ir de encontro a mais um… (as coisas aqui parecem realmente funcionar de maneira sistemática). Espero retornar e registrar do que se trata.
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Floresta
Dentro dos domínios pungentes da sanidade, me perco por inteiro. A eterna precipitação das cinzas assenta-se em camadas cada vez mais grossas sobre o solo,…
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Dentro dos domínios pungentes da sanidade, me perco por inteiro.
A eterna precipitação das cinzas assenta-se em camadas cada vez mais grossas sobre o solo, encobrindo qualquer vestígio de vida. Nesta floresta monocromática somente a eternidade e a amargura permanecem.
Negras, carbonizadas, jazem as árvores. Emissárias da degeneração infindável e moradia daqueles que desistem de buscar os limites da Floresta.
Em movimento, as cinzas não condensam, mas basta um único segundo inerte para sentir o ímpeto lúgubre da ruína que recai sobre tudo.
Aqui, firmo eu, meus pés, sitiado entre o intérmino vazio e o descorado solo que se compõe.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…