Espelho, espelho meu

Tal qual a Rainha Má do conto infantil da Branca de Neve, eu tinha como conselheiro o meu espelho, espelho este que, desde que minha avó materna…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Tal qual a Rainha Má do conto infantil da Branca de Neve, eu tinha como conselheiro o meu espelho, espelho este que, desde que minha avó materna falecera, quando eu tinha por volta de cinco anos de idade, passou a pertencer à minha mãe. O espelho fazia parte de uma penteadeira antiga, que foi disputada como parte da herança de minha avó entre minha mãe e minha tia. Para que não houvesse desavenças maiores na ocasião, meu tio mais velho decidiu dividir o móvel: o espelho, que era a parte de cima, pertenceria à minha mãe, e as gavetas com a base do móvel ficariam com minha tia. Depois de um tempo, já no período da minha adolescência, minha mãe havia deixado o espelho de lado. Eu, então, o resgatei na garagem de casa e tive a ideia de reformá-lo ao meu gosto: pintei sua base de madeira de preto e colei algumas meias pérolas em volta, a fim de torná-lo um adorno sombrio, tendo em vista que ele já possuía uma moldura no estilo provençal. 

Passei a ter o espelho reformado em meu quarto, sempre no canto oposto à janela, de modo que a luz que entrava pela manhã refletia de maneira suave, quase sutil. No entanto, ao cair da noite, quando as sombras se alongavam, o espelho parecia ganhar vida própria. No início, não dei importância à sensação de que algo se movia ali, um brilho diferente, um jogo de luz que eu atribuía à iluminação fraca do abajur. Mas, com o passar dos dias, comecei a notar que o reflexo que ele me devolvia era… estranho. 

Certa noite, ao escovar os cabelos diante do espelho, percebi algo que fez minha mão tremer: meu reflexo, por um instante, sorriu, mas eu não havia sorrido naquele momento. Meus lábios estavam imóveis, fechados, mas a figura no espelho ostentava um sorriso ligeiramente torto, quase zombeteiro. Afastei-me num sobressalto, culpando o cansaço e o sono por aquilo. Mas, no fundo, uma inquietação se instalou em mim. 

A partir daquela noite, o espelho passou a me mostrar versões distorcidas de mim mesma. Eram sutilezas: um olhar um pouco mais sombrio, um contorno mais afiado do rosto, uma sombra nos cantos dos olhos que não estava lá quando eu me olhava em outros espelhos. Mas eu sabia que não era apenas uma ilusão de ótica. Algo mais profundo acontecia. O espelho, que antes eu considerava apenas um objeto de valor sentimental herdado de minha avó, parecia estar revelando algo de mim que eu não conhecia… ou talvez, algo que eu sempre soube, mas nunca quis admitir. 

Quanto mais eu me olhava nele, mais sentia que ele me via de verdade, além do que era superficial. E então, numa noite, ouvi algo. Não era uma voz, ao menos não no sentido comum. Era como um sussurro, um pensamento, vindo do espelho, ecoando dentro de mim: 

— Você vê o que realmente é? 

Meu coração acelerou. A sensação de que o espelho me espreitava, me estudava, tornou-se insuportável. O medo crescia, mas havia algo irresistível também. Eu não conseguia parar de olhar. A cada dia, a imagem refletida parecia mais distorcida, mais feroz, como se minha própria essência estivesse se desfazendo e algo sombrio, profundamente maligno, estivesse tomando seu lugar. 

Até que, numa madrugada de insônia, enquanto encarava o espelho na escuridão do quarto, percebi a distorção, as sombras, os traços desumanos que começavam a se formar. Não era apenas uma brincadeira da luz ou da mente; era a revelação de algo mais profundo. O espelho estava me mostrando minha alma, nua e crua. E ela era sombria, maliciosa, perversa. Parecia que, a cada olhar que eu dava no espelho, eu estava permitindo que essa parte oculta de mim emergisse. 

Foi então que me lembrei das histórias que minha avó contava, de como aquele espelho pertencia a uma linhagem de mulheres poderosas, mas que todas, sem exceção, haviam sucumbido ao que ele revelava. Não era apenas um reflexo. Era uma janela para a alma, um julgamento silencioso e implacável. E agora eu entendia que minha avó, minha mãe e talvez todas as mulheres antes delas haviam visto o mesmo. Mas o espelho não deformava a realidade. Ele mostrava a verdade, a parte de nós que tentávamos esconder. 

E quanto mais eu olhava, mais me tornava aquilo que o espelho refletia. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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A Última Xícara

Todo dia começava com a mesma rotina. Fábio acordava às 6h, bocejava, descia para a cozinha e preparava uma xícara de café forte. Isso era imutável…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Todo dia começava com a mesma rotina. Fábio acordava às 6h, bocejava, descia para a cozinha e preparava uma xícara de café forte. Isso era imutável, praticamente um ritual. O aroma do café se espalhava pela casa, trazendo uma sensação de normalidade e conforto. Mas naquela manhã, algo parecia estranho. 

A casa estava absurdamente silenciosa. Fábio não era o tipo de pessoa que se deixava levar por sensações vagas, mas, naquele dia, ele sentiu uma certa tensão no ar. 

Ele entrou na cozinha, mas, em vez de sentir o habitual conforto, foi envolvido por uma sensação de desconforto. O relógio da parede, que sempre marcava 6h15min naquela hora, estava parado. O ponteiro dos segundos, congelado. Fábio ficou confuso e balançou a cabeça, tentando ignorar a sensação de que algo não estava certo. 

Ele pegou a cafeteira, encheu-a com água e a colocou no fogão. Tudo parecia normal por alguns segundos, até que o som da água fervendo soou mais alto, como se ecoasse em um vazio profundo. O cheiro do café começou a se espalhar, mas havia algo estranho nesse aroma. Um toque metálico que ele nunca havia sentido. 

Fábio tentou ignorar e se serviu de uma xícara. Quando a levou aos lábios, uma sensação fria percorreu sua espinha. Ao inclinar a xícara, percebeu que o líquido dentro não era como o café que tomava todos os dias. Era espesso, quase como sangue. 

Ele deixou a xícara cair, e o líquido derramou no chão, revelando uma mancha escura que não parecia café nem sangue, mas algo entre os dois. O pavor tomou conta de seu corpo, e ele deu um passo para trás, escorregando no líquido que agora estava vivo, movendo-se lentamente em sua direção. 

O barulho do relógio ressoou na cozinha novamente. Agora, os ponteiros haviam começado a girar ao contrário. O tempo estava distorcido, e o ambiente ao seu redor se transformava. As paredes da cozinha começaram a pulsar, como se fossem feitas de carne viva, e o teto parecia afundar, aproximando-se dele lentamente. 

Fábio tropeçou ao tentar correr, e, quando olhou para trás, viu a cafeteira. Ela não estava mais no fogão, mas no meio da cozinha, e do bico dela escorria um líquido negro, denso como piche. Era como se o café estivesse vivo, tentando alcançá-lo. 

Desesperado, ele correu até a porta, mas ela não estava mais lá. Em vez disso, havia uma parede lisa, como se a porta nunca tivesse existido. Ele se virou lentamente, e, na penumbra, viu uma figura de pé ao lado da mesa. 

Era ele mesmo. 

O outro Fábio, idêntico em todos os sentidos, exceto pelos olhos vazios e negros. O outro Fábio segurava uma xícara de café, com um sorriso vazio no rosto, e sussurrou com uma voz grave e distorcida: 

— Agora, você nunca mais sairá. 

Antes que Fábio pudesse reagir, o chão abaixo dele se abriu, e ele foi engolido, sentindo o cheiro metálico do café ao seu redor, como se estivesse se afogando em um oceano de escuridão. 

Na manhã seguinte, a cafeteira estava no mesmo lugar de sempre. A rotina havia sido restaurada. Mas quando os primeiros raios de sol tocaram a cozinha, Fábio não estava mais lá.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Mímico do Cemitério

O cemitério daquela pequena cidade era um lugar de solidão. Todas as noites, ele era envolto em névoa, como se houvesse um manto translúcido cobrindo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O cemitério daquela pequena cidade era um lugar de solidão. Todas as noites, ele era envolto em névoa, como se houvesse um manto translúcido cobrindo sua vegetação rasteira. Poucos ousavam visitar o cemitério à noite. Durante o dia, aqueles que atravessavam seus portões só o faziam por um motivo: enterrar seus mortos. Mas havia algo que afastava ainda mais as pessoas do cemitério: o mímico. Ele estava sempre lá, e ninguém lembrava desde quando. Sempre parado nos portões do cemitério, com suas roupas de luto desbotadas, o rosto coberto de maquiagem branca, olhos vazios rodeados de preto, assim como os lábios, pintados de negro, paralisados em um sorriso largo. Ali, parado no seu posto de serviço, sem nenhum movimento, como um cadáver muito bem preservado, ele seguia com os olhos vazios cada passo dos que se aproximavam. Assim que alguém entrava no cemitério, ele os seguia, imitando cada gesto, cada lágrima, espelhando cada lamento em silêncio, tão perfeito quanto uma sombra. 

Ninguém sabia seu nome; os habitantes da cidade apenas o conheciam como “O mímico do cemitério”. As autoridades locais já haviam tentado expulsá-lo diversas vezes. Em uma dessas tentativas, um policial corajoso o algemou e o levou à delegacia. Ao tocar as mãos do mímico, o policial sentiu sua pele gelada e rígida. Um frio desconfortável percorreu todo o seu corpo. Levou o mímico até a delegacia e, naquele mesmo dia, abandonou o trabalho policial, sem olhar para trás. Ele ficara em custódia na delegacia diversas vezes, mas sempre escapava, e ninguém sabia como. Sempre voltava ao seu lugar nos portões do cemitério, onde seguia os enlutados, imitando todos os gestos até o túmulo, até o último choro junto ao caixão, caminhando ao lado deles com passos silenciosos. Quem tentava confrontá-lo logo percebia que era inútil; ele só parava de imitar quando saíam do cemitério. 

Uma tarde, durante o funeral de um antigo morador da cidade, o mímico decidiu seguir a viúva do falecido, Dona Griselda, imitando todos os seus gestos. Ela o ignorou enquanto ele copiava cada passo seu, cada assentimento silencioso e cada lágrima enxugada, perfeitamente sincronizado. No final da cerimônia, o mímico a seguiu até em casa, como uma sombra. Griselda o considerava uma presença inofensiva, pois, pelo que sabia, ele nunca havia feito mal a ninguém, além de apenas imitar. Ele a seguiu, mas ela não permitiu que ele entrasse. O mímico pareceu entender e ficou do lado de fora. Mesmo sem ver os movimentos dela, ele continuava a imitá-la do lado de fora da casa. Griselda, de coração partido pela perda, sentia a ausência do marido com dor. Passou a visitar o cemitério uma vez por semana, sempre acompanhada do mímico, que a imitava, e ela o ignorava. 

Certo dia, Griselda foi novamente visitar o túmulo de seu marido, acompanhada silenciosamente pelo mímico. Já irritada com seu comportamento, que até então ignorara, decidiu confrontá-lo. Assim que chegou à entrada do cemitério, olhou para ele e, irritada, pediu: 

— Fica aí no portão e me deixe ficar a sós com meu marido. — Falou com uma irritação contida. 

O mímico apenas imitou seus gestos, sua expressão e sua fala em silêncio, e continuou a segui-la até o túmulo. Griselda chegou ao túmulo e notou uma cova recém-cavada ao lado. Olhou, incerta do que fazer. De repente, o mímico parou de imitá-la e começou a chamar sua atenção com gestos rápidos, como se quisesse que ela entendesse sua mensagem. 

— Escute, eu não entendo o que você quer. Apenas me deixe a sós com ele, só hoje, por favor. — Ela suplicou. 

Observava seus movimentos frenéticos: ele colocava a mão direita no peito e fazia uma expressão de pavor, depois colocava as duas mãos juntas ao lado do rosto e inclinava a cabeça. Em seguida, apontava para a cova. Apontava para si mesmo e para ela, como se quisesse que ela o imitasse. Repetiu isso diversas vezes, até que Griselda se irritou. 

— Me deixe em paz, palhaço! Não tenho tempo para isso hoje. Tenho que ver com o coveiro quem ousa ser enterrado ao lado do meu marido. — Ela se virou para ir em direção à saída do cemitério, quando sentiu um desconforto intenso no peito. Colocou a mão direita sobre ele, fez uma expressão de pavor e, em seguida, tudo se apagou. Escuridão. 

Todos os seus movimentos foram repetidos fielmente pelo mímico, que, após o ocorrido, voltou ao seu posto nos portões do cemitério, parado, com seu sorriso congelado, apenas esperando por alguém para imitar. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Mímico da Insanidade

O escritor Ivan Insanlini vivia uma insalubridade mental desde o instante em que sua esposa partira de casa. Foram casados por quase duas décadas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O escritor Ivan Insanlini vivia uma insalubridade mental desde o instante em que sua esposa partira de casa. Foram casados por quase duas décadas, e no último Natal ele descobrira que sua amada estava se relacionando com o chefe dela. Aquela interminável noite venenosa o moldou de uma forma jamais recuperável. Ivan se observava no espelho de seu quarto: um semblante cansado, olheiras profundas, o cabelo castanho oleoso, roupas desgastadas e uma memória crua e suja escorrendo pelo reflexo de sua instabilidade emocional, enquanto tudo aquilo se desenhava no vidro manchado pelo sangue das lembranças. Recordava o momento em que caminhou até a casa do suposto amante de sua esposa e a avistou da calçada. As luzes do quarto se acenderam, e sua esposa apareceu nua na janela. Aquilo o destroçou. 

Ele o viu prensando os seios de sua esposa no suor quente do vidro moldando a definição perfeita do seu busto que ele amava. Sentiu uma tontura absurda e, então, tudo se tornou embaçado; sua visão se afunilou, e ele se recordou de arrebentar a porta da casa, adentrando como uma chama infernal pela escada acima. Arrombando a porta do quarto, entre os gritos histéricos dela, viu o imprestável chefe dela, um senhor de idade, magrelo, vestindo uma samba-canção de corações rosa. O olhar insano do escritor gritava horrorizado, sem parar, até suas pupilas dilatarem. Sentindo-se freneticamente tomado por algo entre um infarto e uma convulsão, virou as costas e foi embora, quebrando tudo em seu caminho. 

Semanas depois, presenciou-a forçando as roupas em uma mala apertada e batendo a porta do quarto com violência. Agora, sozinho naquele apartamento obscuro, ele não consegue mais dormir, escrever ou se alimentar direito. 

Na quietude daquela sala profunda e desesperadora, clamava por socorro... 

Em meio à bruma noturna, ele está parado. Seu rosto, similar ao de um cadáver, exibe um sorriso congelado como o do escritor: uma existência febril e doente. 

Uma protuberância no ócio da ferida do ódio. Mórbido sentir. 

Silenciosamente artístico, o fúnebre olhar de uma vida vazia e profunda. 

Todas as noites, antes de dormir, e, quando conseguia, despertava nas madrugadas com aquela entidade disfarçada de mímico o encarando incansavelmente. 

O escritor se levantava e, no reflexo do espelho do banheiro, ele estava lá. 

No escuro do quarto, quando ele acendia a luz, ele estava lá. 

Quando ia para a cozinha, atrás da porta, ao acender o fogão, lá ele estava: no reflexo do celular, na entrada de casa, no brilho das panelas, embaixo da cama. Seu olhar ocre surgia pela parede, surdo, mudo, feliz, sorrindo, chorando, alegre, histérico, sempre fitando o escritor. Certa vez, o escritor percebeu que enxergava o mímico até nas palavras que escrevia. No reflexo da tela do computador e da antiga máquina de escrever que possuía em sua sala, via sangue escorrendo. A banheira também escorria sangue. Suas roupas estavam sujas de sangue. Seu rosto estava pintado de branco, com a tinta escorrendo, manchando os olhos, mesclando a tinta preta com a pele esbranquiçada, enquanto o vermelho pingava sobre a folha, escorrendo de seus olhos e de seu peito. 

Ele sucumbiu ao chão, chorando, esbofeteando-se, puxando o próprio cabelo, horrorizado ao olhar novamente no espelho. E seu maior medo se materializou: ele enxergava a si mesmo como o mímico. Correu até seu quarto e viu-se dormindo, enquanto o mímico emergia de dentro de seu próprio corpo. O que estava de pé saiu do observador, enquanto o observado permanecia deitado, com os olhos frenéticos se remexendo. Então, o mímico rasgou o peito do escritor que estava na porta, colocando as duas pernas para fora, apoiando-se para encontrar a saída das entranhas mortas daquela pobre casca. Sorria maliciosamente, com dentes pontiagudos se formando em sua enorme mandíbula. Aproximando-se da cama, que começava a tremer com fumaça saindo debaixo dela, o corpo deitado se debatia. O mímico se aproximou e mordeu o peito, arrancando-lhe o coração e, em seguida, devorando-lhe o rosto... 

O escritor acorda transpirando horrores, mas não consegue gritar. Ele tenta abrir a boca e percebe que está colada. Rapidamente se levanta e corre até o banheiro. No caminho, escorrega em algo no chão e cai de joelhos. Ao passar a mão, percebe que havia escorregado em sangue. Acende a luz e se depara com um enorme rastro de sangue que se estendia até sua banheira. Horrorizado, olha primeiro no espelho e se vê com o rosto pintado de branco, um preto forte ao redor dos olhos e a boca costurada com uma linha vermelha inquebrável. Seus olhos lacrimejam. "Urgh, urgh", ele tenta gritar, sem sucesso. 

Seu roupão preto estava pendurado no lugar da toalha, e ao lado dele, um suspensório preto e uma camisa branca lisa, ensopada de sangue... 

Ele se aproxima de seu box fechado do banheiro, ele enxerga sua máquina de escrever ali dentro com muitas moscas ao redor, voando. Ao abrir bem devagar o vidro temperado escuro da cabine da ducha, um odor absurdo lhe embrulha o estômago. No exato momento quando, próximo do ralo, embaixo do chuveiro, ele vê algo terrível, ele regurgita no mesmo instante em que observa, em cima de sua máquina de escrever, a cabeça de sua esposa apodrecendo com vermes saindo dos olhos e muitas moscas de seus ouvidos. Sua "amada" também tinha parte do comprido cabelo preto raspado, o rosto coberto por uma maquiagem branca e enormes esferas escuras no lugar onde costumavam estar os olhos. Seus lábios estavam costurados. 

O escritor nunca mais foi visto, mas as autoridades dizem que todos os que tentaram destruir sua máquina de escrever foram mortos após a tentativa, enquanto outros enlouqueceram, alegando ver um mímico parado atrás da máquina, sorrindo com sangue e acenando com o dedo indicador para que não tocassem nela. Havia uma folha em branco na máquina, escrita com tinta e com algumas partes manchadas de sangue, em letras de forma. Não se sabe com o que foi escrito, se com caneta ou algum outro meio... 

“Eu fui o ‘pantomimeiro’ da minha sombra, minha persona emulava, gesticulando como um bailarino sangrando, um escultor do exílio, um estripador de palavras, um silenciador oculto da poética dos psicomotores, a eletricidade do tônus, a motricidade ampla em uma fugaz tentativa temporal de um terror atemporal. A lateralidade, a sematologia existencial, uma simbiose niilista e esquizofrênica do caos, enquanto me tornava uma estátua da minha vida e da nossa relação fria e silenciosa. Tu te afastavas e te distanciavas de mim, e eu percebi que minha vida estava se apagando. Viver sem teu amor, ou sabendo o que fizeste, matando minha sanidade, fez-me perceber que mergulhei na insanidade do meu viver. A definição do amor é a insanidade desta pintura visceral…” 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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A Janela

Mais uma madrugada em que a insônia é minha companhia. Inquieto, me aproximei da janela, abri-a e senti a brisa fresca tocar meu rosto, dispersando as…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Mais uma madrugada em que a insônia é minha companhia. Inquieto, me aproximei da janela, abri-a e senti a brisa fresca tocar meu rosto, dispersando as gotas de suor em minha testa e trazendo um certo alívio, já que durante o dia tem sido demasiadamente quente. 

Meu quarto fica no andar superior, proporcionando uma excelente vista de toda a rua. Debruço-me sobre a janela e vislumbro aquela rua vazia, mal iluminada pelos puídos e amarelados postes. Há algum prazer oculto, o qual desconheço, em imaginar o que meus vizinhos estão fazendo dentro das quatro paredes. Consigo ver algumas casas com luzes acesas, enquanto outras estão em absoluta escuridão. No entanto, algo chama minha atenção em uma casa à minha frente. Há um homem alto que anda de um lado para o outro, parecendo nervoso. Abaixo-me para observar com cuidado. Através da cortina, vejo que ele ensaia movimentos que lembram os de um mímico. 

Não consigo desviar o olhar. Vejo-o abrir o guarda-roupa e retirar algo que se assemelha a uma fantasia listrada preta e branca. Em seguida, ele a joga sobre a cama e vai até a janela para verificar se ninguém o está observando. Noto que ainda está com a maquiagem característica dos mímicos. Ao retornar, ele carrega uma grande mala. Sinto um frio na espinha, a sensação de que ele sabe que estou a observar seus segredos. Com certa facilidade, ele ergue algumas sacolas pretas, coloca-as na mala e a fecha. 

Tomado pelo horror, emito um grito, fazendo com que ele volte à janela. Infelizmente, ele me viu. “É tarde demais, provavelmente aquelas sacolas eram... Não quero nem pensar nisso...”. Algum tempo se passou e tudo voltou a ficar calmo (pelo menos era o que eu achava). Ainda me encontrava sentado no chão, em posição fetal, quando uma suave melodia soou como a sinistra sinfonia de Bach intitulada Toccata and Fugue. Foi então que ele finalmente entrou. Seus passos firmes ecoavam por toda a casa. Subiu as escadas, cruzou o corredor e encontrou meu quarto. Então, eu o vi: tinha por volta de um metro e noventa, o rosto afinado e pálido, coberto de tinta branca, sobrancelhas marcantes, olhos vazios e perversos. Seus cabelos estavam penteados para trás, tão negros quanto aquela noite. Por fim, um sorriso malicioso, que ansiava devorar-me, surgiu. Ele trajava calça de moletom preta e camiseta branca, salpicada de escarlate. A passos lentos, se aproximou de mim e disse calmamente: 

— Não era para você ter visto. Agora você fará parte da minha coleção. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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As Figuras Macabras do Wonder Teatro

O Wonder Teatro era um mausoléu vivo. Suas paredes desmoronadas e sujas de poeira eram como pele envelhecida, rachada e morta…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O Wonder Teatro era um mausoléu vivo. Suas paredes desmoronadas e sujas de poeira eram como pele envelhecida, rachada e morta, cobertas por sombras que dançavam à luz bruxuleante dos poucos holofotes acesos. O ar era denso, impregnado de um cheiro ácido de mofo e tempo apodrecido. Mesmo antes de atravessar as portas, sentia a opressão deste lugar, como se o próprio edifício sussurrasse segredos sombrios, desejando me engolir. 

Quando entrei, o silêncio se estendeu sobre mim como um manto pesado. Havia outros, sim, esperando suas audições, mas nenhum deles parecia realmente presente. Eles estavam ali, sentados nas poltronas desgastadas, mas seus olhares estavam fixos no vazio, nas sombras nascidas entre os feixes de luz do palco. 

Enquanto esperávamos, algo estava errado. Uma sensação de desconforto percorreu minha espinha, e eu senti, lá no fundo, que não deveria estar ali. Mas o desejo de ser escolhida, de provar meu valor, me segurou firme. Foi quando o vi pela primeira vez: um homem estranho e sombrio, figura pesada, vestido com um terno desbotado e remendado. Seu rosto estava pintado de branco, o sorriso congelado e terrível, esticado de uma orelha à outra como se fosse cortado a faca. Seus olhos, negros como breu, estavam vazios. Ele estava ao fundo, imóvel como uma estátua de mármore, mas parecia um mímico. 

Eu tentei desviar o olhar, mas era como se ele tivesse me enfeitiçado. Seus olhos, mortos e profundos, cravavam-se nos meus, e por um momento, tive a impressão de que ele estava dentro da minha cabeça ou torci para isso. 

— Você está bem? — A voz de uma mulher participante quebrou o transe. 

Eu olhei para o lado, forçando um sorriso tenso para a atriz ao meu lado, que parecia preocupada. Seus olhos, no entanto, estavam estranhamente distantes, quase como se ela falasse de forma automática. 

— Sim... acho que sim. Você viu o... — Olhei de volta, mas o tal mímico havia desaparecido. Aquele palco, que antes parecia vazio, agora estava apenas mais sombrio. 

— O quê? — Ela me olhou, franzindo a testa. 

Eu balancei a cabeça, tentando afastar a sensação de estar sendo vigiada. 

— Nada. 

Mas não era "nada". A partir daquele momento, o teatro se fechou ao meu redor, o ar parecia mais grosso, sufocante, cada respiração me prendia mais àquele lugar. E os outros... eles pareciam diferentes. Enquanto os chamavam um a um para o palco, a cada retorno, seus semblantes mudavam, como se algo neles estivesse sendo lentamente arrancado, inclusive aconteceu com aquela atriz que se aproximou. Suas vozes ficavam apagadas, seus olhares mortos, como se tivessem sido tocados pelo mesmo mal que eu sentia rastejar por dentro de mim. 

Finalmente, chegou a minha vez. 

Subi ao palco com os músculos tensos, as luzes ofuscantes piscando fracamente, como se estivessem prestes a se apagar para sempre. Quando comecei a recitar meu texto, algo na sala mudou. A atmosfera tornou-se sufocante, e senti que não estava mais sozinha no palco. 

Eu estava sendo observada. Não somente observada — imitada. 

Olhei para o lado e o vi. O mímico. Estava a poucos metros de mim, cada gesto meu era replicado com uma precisão perturbadora. Seus movimentos eram os meus, mas de alguma forma distorcidos, como se ele estivesse me zombando, exagerando cada curva dos meus braços, cada inclinação da minha cabeça. Seu sorriso era maior, grotesco, quase um grito mudo preso entre seus lábios pintados. 

— Pare com isso! — Gritei, mas minha voz saiu fraca, como se o teatro estivesse absorvendo o som. 

Ele não parou. Ao contrário, continuou imitando até o meu grito. Ele abriu a boca, como se estivesse gritando também, mas sem som. O eco silencioso da zombaria perfurou meus ouvidos como inúmeras facas invisíveis. Aterrorizada, corri meus olhos pelo teatro, buscando uma saída, mas as portas estavam fechadas, e os outros atores… desapareceram, mas eles não estavam desaparecidos, exatamente. Eu sabia que não. 

Quando meus olhos percorreram as fileiras de poltronas, percebi com horror que havia mais deles. Não apenas um, mas vários mímicos, todos agora levantados, saindo das sombras. Eles estavam lá o tempo todo, disfarçados. Cada um imitava um gesto meu, uma expressão. Seus corpos rígidos se moviam como bonecos quebrados. 

— Isso não pode estar acontecendo... — Murmurei, sentindo meu corpo tremer. 

Olhei ao redor e vi um espelho no fundo do palco. Me aproximei, desesperada por qualquer conexão com a realidade, mas o reflexo que vi não era o meu. No vidro sujo e empoeirado, meu rosto estava pálido, com olhos vazios e um sorriso horrendo — eu estava me tornando um deles. 

— Não… não… — Comecei a andar de costas, querendo fugir do espelho, mas o mímico estava logo atrás de mim. Quando virei, ele estava tão perto que senti o frio de sua presença. Ele estendeu a mão em um movimento lento, zombando do meu medo. 

— Quer ser uma de nós? — Ele sussurrou, mas era minha voz que eu ouvia. Ele estava falando com a minha própria voz, imitando minha entonação, cada sílaba. — Nós todos somos artistas aqui. — Ele riu em tom baixo, um riso infantil, mas que reverberava com crueldade. 

Os outros mímicos se aproximaram, cercando-me lentamente, causando-me um desespero terrífico. Seus sorrisos inexpressivos me cercavam como uma teia. Meus gestos se tornaram automáticos, meus pés imitaram seus passos, e eu já não sabia mais o que era eu e o que era eles. O teatro parecia pulsar, respirar comigo, como se eu fosse parte dele, fundida à sua escuridão. 

— Não há saída. — Disse a minha própria voz, ecoando por entre os corpos pálidos dos mímicos que se contorciam ao meu redor. — Você é uma de nós agora. 

Corri, desesperada, para as portas trancadas. Meus dedos arranharam a madeira, tentando encontrar uma saída, mas era inútil. As risadas aumentaram, ecoando por todo o salão, zombando da minha luta. E, então, eu vi: a chave, brilhando no meio da escuridão, bem no centro do palco. 

Eu sabia que nunca conseguiria alcançá-la. 

Quando me virei, o mímico original estava lá, os mesmos olhos negros e sem alma, o mesmo sorriso devorando seu próprio rosto. Ele estendeu a mão e, antes que eu pudesse reagir, tudo ficou escuro no ambiente. 

Agora, não sou mais eu; sou um reflexo no espelho e, terrivelmente, sou um dos mímicos. Espero a próxima audição de atores neste sombrio lugar. Talvez eu me veja entrar pela mesma porta por onde adentrei. Queria que isso fosse um sonho e que eu pudesse acordar, mesmo que, ao abrir os meus olhos, visse a figura mímica a me observar em meu despertar, sozinha ou acompanhada de outros como ela.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Amor de maldição

Ela tinha a voz rouca, rasgada; quando falava, eu percebia em sua garganta o esforço que aquele gogó tinha para dar vazão ao som que parecia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ela tinha a voz rouca, rasgada; quando falava, eu percebia em sua garganta o esforço que aquele gogó tinha para dar vazão ao som que parecia friccionar as cordas vocais. O resultado era aquele tom, aquele sonzinho meio que aveludado saindo de sua boca. Aquilo me lembrava das brincadeiras de infância, de quando eu transformava as pás do ventilador da empregada em microfone, o que me deixava com aquela voz metálica, de robô...

Entrei naquele cursinho sem saber o que me esperava. De início, era tudo uma surpresa, afinal, fazia tempo que eu não estudava, não abria um caderno. Naquele momento, tudo o que eu precisava era de conhecimento, elevar minhas capacidades para os vestibulares que se aproximavam. Eu estava disposta a estudar, a entrar numa faculdade, a ter um futuro em mente. Só não imaginava que começaria a amar...
Ela surgiu numa das matérias onde eu tinha as maiores dificuldades. Nunca gostei de ler, somente o necessário: revistas, jornais; eu lia o que tinha de mais banal, o mais corriqueiro; uma lida básica sobre a programação de tv e a previsão do tempo, alguma notícia policial, fofoca das celebridades... Literatura, nada... Machado de Assis, Clarice Lispector, Graciliano Ramos... eram nomes que eu só ouvira falar.

Quando ela começou a explicitar a importância daqueles autores, a dizer sobre o que eles tinham inovado, deixado para trás e começado a fazer, foi quando eu senti um choque, uma nova leva de sensações que eu nunca imaginei sentir. Se eu já havia amado alguém antes daquela maneira? creio que sim, mas há muito tempo. Aquilo tinha ocorrido com as mesmas proporções quando eu ainda estava no ensino fundamental, quando tinha recém deixado de ser uma criança, me preocupando já com roupas de marca e me decidindo pelos artistas favoritos. Gostava de um menino lá; não só eu, mas diversas colegas compartilhavam do mesmo gosto — até os meninos, que pareciam orbitar sempre ao redor do rapaz, meio que o amavam. Acabou que ele ficou com uma das apaixonadas por ele, uma alemã, que hoje em dia fiquei sabendo estar um horror de esquisita.

Enquanto passava aquele filme na minha cabeça, retornei ao estado de atenção que antes me proporcionara a reflexão. A professora me conquistava pela voz, cativava com seu doce modo de falar, de explicar a matéria. No ensino médio, nem perto chegavam de tal capacidade as professorinhas sonsas, que sabiam apenas copiar dos livros o conteúdo transmitido aos alunos — estes, então, achavam mais interessante bagunçar a sala ou ficar na deles escutando música nos fones de ouvido.

Ali, na frente da sala de aula do cursinho, se destacava um tipo diferente de professora, mais sabedora do assunto, mais culta, mais elegante. Detrás daqueles enormes aros dos óculos, eu observava uma profissional segura do que falava, preocupada em fisgar seus alunos pela transparência do discurso, sem rodeios, sem gaguejar. Era de outro mundo a professora de literatura daquele cursinho...

Alguns meses se passaram e as aulas foram se tornando mais e mais interessantes. Mergulhada no mundo dos livros, eu me via já prestes a poder me decidir sobre um futuro, sobre um rumo seguinte àquelas deliciosas horas passadas na pequena sala de aula. Enquanto copiava as coisas escritas no quadro branco, porém, eu compreendia receber estímulos não apenas dos esquemas organizados pelas canetas coloridas, das datas que me colocavam diante dos momentos-chave da literatura brasileira; enquanto eu transcrevia para as folhas do meu caderno o conteúdo exibido no quadro, eu escutava o som lírico e mágico fluindo lá da frente até meus ouvidos, que recebiam as angélicas vibrações acústicas da professora letrada e simpaticíssima, que falava e falava e falava, conquistando-me de maneira irreversível...

Minha intimidade com ela era do mesmo nível que o dos colegas: uma aproximação simplesmente comum, que bastava à solução de dúvidas e dicas de leitura. Numa dessas oportunidades, quando eu realmente precisei conversar a sós com ela para lhe avisar sobre uma futura falta minha nas aulas, foi quando tive um abalo bastante desagradável, um erro grosseiro da minha parte, um passo em falso da minha confiança que crescia e já não cabia em mim.

Sentada na classe dela, a professora percebeu minha aproximação, depois que todos os outros estudantes tinham ido embora. Cheguei ao seu lado, cumprimentei-a nervosamente e comecei a falar. Disse-lhe os motivos da minha ausência na aula seguinte, assuntos pessoais, um caso de saúde psíquica... Ela, calma e aberta ao diálogo, compreendeu no mesmo instante meu problema, passando a alongar o assunto até um ponto em que eu me esquecia do que falávamos. Respondendo-lhe de maneira automática, eu apenas concordava com suas proposições, acenando maquinalmente com minha cabeça a cada ideia ou exemplo de vida que ela me revelava. Em certo momento da conversa, já envolta pela aura animadora da professora, aliciada por uma força esmagadora imanente dela, eu me via, cegamente, de encontro ao ombro da mulher, jogando-me adormecidamente sobre o corpo imóvel e repousado da educadora... Num átimo, saída de uma viagem inebriante, numa fuga temporal incompreensível, eu retornava àquela realidade estudantil, sendo cutucada no pulso, no antebraço pelos dedos finos e delicados da professora.

Baixo minhas vistas e me deparo com o sorriso indeciso dela, um sorriso que me deixava contra a parede, obrigada a me explicar imediatamente...

Minha vontade era de sumir, consumir-me em pó e sair voando pela janela aberta da sala — janela que eu abria, às vezes, devido aos calores desconfortáveis que sentia de uma hora para outra —, que lá de fora recebia um vento refrescante e rumoroso da noite. Como explicar-me, encontrar palavras para traduzir os efeitos efusivos da voz conquistadora e enfeitiçada que dela vinha até meus tímpanos? Como eu iria me aprumar, retomar uma postura que já não se sustentava com forças naturais, e me manter séria ao confessar à professora o sortilégio que era escutar os ruídos quase imperceptíveis de sua voz rouca?

Fiz-me de desentendida e contornei a situação. Revelei a ela uma suposta queda de pressão, que vez ou outra me acometia nos momentos mais inoportunos, fazendo-me buscar apoio nos esteios mais próximos do corpo. Pedi a ela que não tomasse "conclusões precipitadas", fazendo de tudo para fazê-la acreditar naquele sintoma mentiroso. Fiquei segura da minha conduta ao ver a professora depositar seus materiais, suas canetas e celular dentro da bolsa, pedindo a seguir que eu lhe avisasse caso sentisse a necessidade de ir ao hospital.

De início, achei "gracioso" da parte dela oferecer assim, sem empecilhos, uma carona para me socorrer. Contudo, eu sabia que seria um logro, uma enganação da minha parte continuar com aquele jogo. Por mais que eu quisesse escalar aquele montante de chances que eu tinha de me aproximar ainda mais da professora, "coloquei meus pés no chão" e resolvi não fazer uso da boa vontade dela. Abrandei sua autêntica preocupação e me apresentei revigorada, passado o "susto" que antes me afligira.
Despedimo-nos uma da outra e saí da sala. Enquanto caminhava pelo longo corredor da escola, rumo à saída, eu sentia no peito um misto de ardor e esmorecimento, duas temperaturas que se misturavam e formavam um sentimento esquisito, caótico e — o que sobressaltava dentre minhas suposições — "verdadeiro", resultado de uma experiência vivenciada num ambiente de estudos, de discussões literárias...

Naquele dia em que faltei à aula do cursinho, me senti extremamente mal. Como se um buraco surgisse no meu âmago, meu organismo se agitava dum modo que eu não conseguia acompanhar. Não era dor, nem um desconforto passageiro; o mais próximo que eu chegava de concluir era que sofria de uma "falta", de um furto às minhas necessidades mais vitais.

A terapia que eu frequentava já não supria a realidade em que eu me via feliz, saudável, "normal". As palavras da doutora, "profissional", "especialista", entravam por um ouvido e saíam no outro. Eu já tinha me apercebido do poder da palavra: era tarde. As tentativas dela de me ludibriar, de me fazer ver meus "problemas" de uma outra forma, eram falhas. A professora de literatura do cursinho tinha me apresentado, de um modo muitíssimo superior, a virtude das palavras, a estética das boas letras, a medida intocável da poesia formal, a anarquia revolucionária do estilo livre... A psicologia, perto da literatura, era apenas uma sombra, incapaz de tomar o protagonismo da prosa humana, patrimônio "material" da humanidade.

Saí do consultório decidida a não mais voltar — que me cobrassem os custos necessários! O que eu precisava era ler, adicionar mais material à minha cultura, armazenar mais informação no meu histórico de leituras feitas. Eu chegaria em casa, onde vivia sozinha, herdeira de um casamento suicida, e faria uma maratona, um sarau literário comigo mesma. Tinha nas minhas prateleiras quase todos os romances indicados pela professora, dos mais basilares do academicismo brasileiro até os clássicos do Velho Continente.

Chegando em casa, estagnei diante daqueles novíssimos volumes que enfeitavam as paredes da sala, dos quartos, dos criados-mudos. Sobre o tapete oriental, volumoso e colorido, ornamento secular da residência, havia caixas de papelão, encomendas pagas, títulos esgotados no mercado editorial brasileiro, encontrados apenas em revendedores particulares — um labirinto de opções, horas e horas possíveis de se passar num universo criado por autores nacionais e internacionais, por cânones, por vanguardistas...

Subi ao meu quarto e optei por uma leitura em voga nas últimas aulas do cursinho. Uma coletânea de contos, tramas fantásticas e absurdas, escritas por um autor maldito e obscuro... coisas que a professora dizia nas aulas. Aquela seria a obra que me acompanharia em mais uma noite, passada sob a luz da lua que penetrava curiosa pelas janelas retangulares do solar...

Na semana seguinte, eu estava de volta ao cursinho. Sete dias longe da sala de aula, e eu havia me dado conta do efeito avassalador causado pelo acúmulo de histórias na minha cabeça; um zunido capcioso, sugestivo, sobrepunha agora as picuinhas cotidianas que eu estava acostumada a vivenciar. A simples observação dos raios do sol, a lamúria dos pombos, o barulho sussurrante das folhas que no jardim exterior caíam das árvores, que até pouco tempo me comunicavam alguma "poesia", agora eram transformados em meros significados, em raquíticos acontecimentos, muito aquéns de uma realização potencial; havia agora um verdadeiro motivo na vida, que eu cogitava ser plausível, real...

Não seria nenhuma grande loucura, uma atitude impensada... Poe, ao escrever seu conto, devia estar sob o efeito de alucinógenos, do ópio talvez. Eu estava alucinada, sabia disso. O sortilégio que me dominava era real, vinha da professora, do ar expelido pelos pulmões dela. Sua voz me conquistara desde o primeiro dia de aula, quando ela chegou na sala e se apresentou para a turma. A partir dali, nenhum domínio eu tinha sobre o futuro de nossa relação; fosse uma amizade, um namoro, uma simples relação alternativa entre duas mulheres, fato é que não seria um relacionamento normal. Havia desde aquele primeiro encontro um combustível a mais para a minha presença ali, entre gente desconhecida e em busca de uma vaga na universidade. Eu chegava apenas ao cume de um romantismo tardio, não vivenciado de maneira semelhante até àquela altura da minha vida.

Aproximando-me da escola, eu me descobria trêmula, bastante ansiosa para aquela chegada na sala de aula após uma semana longe das exposições, da classe, da voz aveludada da professora. O meu desejo era que as coisas ocorressem como eu fantasiava: uma recepção acalorada da educadora, um "como estás?" sincero, preocupado, naquele tom de voz ruidoso pelo qual eu amava ser "seduzida"...

Soubesse eu que a dura realidade ainda vigorava, que os acontecimentos lidos nos livros estavam longe dos destinos traçados pela efêmera e limitante existência efetiva, eu faltaria mais uma semana, abandonava de vez o cursinho, não mais iria ao encontro da professora...

Meus pêsames professora, foi uma infelicidade, uma grandessíssima pena eu ter visto a senhora naquela situação, quando eu cruzava a rua, prestes a adentrar no portão da escola. Você e seu namorado, seu marido, eu não sabia... Para mim você era única, singular, uma pessoa imaculada, sem traços de parentesco com ninguém, uma divindade na Terra. Eu, órfã e sozinha, sem amparos que me fizessem acreditar na solidariedade humana, depositava em você toda esperança de ainda me ver com alguém, preenchida de um amor que eu nunca tive... Uma lástima aquela visão...

Ainda mais cruel foi você ter me chamado, com seu irrecusável sorriso no rosto, a fim de me apresentar para aquele invasor, seu companheiro. O que você queria? que eu me abrisse toda para ele? que eu demonstrasse simpatia diante do ladrão de sonhos? Impossível. Eu estava arrasada, não conseguindo acreditar em tamanha desilusão.
Cumprimentei você e seu homenzinho e desviei para o corredor da morte, em direção à sala de aula, que jazia abandonada pela professora e sua pureza intocável.
Aquela foi a pior aula, a menos interessante, sem graça alguma. Você, absolutamente calma, parecendo não suspeitar da dor que eu sentia, continuava falando, sem interromper sua ladainha, nem por um minuto. Quando você finalmente parou, não foi para descansar, para beber um pouco d'água na sua garrafinha e revigorar o encanto da sua distinta voz: vi que você pegou o celular e pediu licença a todos, saindo porta afora a seguir... Aquilo irritou-me profundamente, foi o estopim!

Quando você retornou, com aquele seu costumeiro sorriso, eu já era outra, assumira uma insólita identidade. Mantive a pose, fazendo de conta que escutava e me interessava pela sua aula, ficando assim até o final, até onde minha paciência suportava. Podia-se dizer que minha feição exterior era completamente oposta à interior; corroída, deteriorada... insuportável era o peso que me atormentava naqueles minutos finais de aula.
Quando acabou aquele tormento, esperei que todos tivessem juntado seus pertences, me certificando de que não sobrasse nenhuma vivalma para testemunhar meus passos seguintes. Esperei você guardar suas coisas, apagar o quadro, fechar seu livro... Eu reorganizei a sala, coloquei as cadeiras no lugar, alinhei-as todas; deixei o ambiente limpo, para assim ele ser encontrado pela turma da manhã seguinte, como você sempre nos lembrava... Então me aproximei de ti.

Você nem suspeitava, estava segura, tranquila como nunca! Parecia feliz; sem sorrir, sem exclamação alguma, eu detectava essa felicidade, esse porto seguro existindo em algum lugar... um lugar distante dali, daquela sala. Nem meu olhar, que fuzilava seu rosto, sua boca, em busca de respostas para desmascarar a bruxaria oriunda de sua voz você era capaz de decifrar... Você realmente estava em outra...

Primeiramente, eu pensei em mentir, em te deixar preocupada como naquela vez em que quase desmaiei no seu colo, e pedir uma carona até a minha casa. Mas aí pensei de novo. Num instante, achei melhor nutrir sua curiosidade e dizer que havia lhe comprado um presente, uma "coleção de obras" que você não acreditaria quando visse; você me olhou interessada, dando créditos àquelas palavras... Eu torcia para que você não acreditasse.

Fomos juntas no seu carro, pela primeira vez. Você dirigia e me perguntava pelo nome das ruas, confirmando no seu GPS o endereço da minha casa. Mal habituada àquele bairro distante da periferia, sua cabeça não parava de se mexer, olhando a todo momento para os lados — creio que fascinada pela arquitetura das residências. Enfim, tínhamos chegado...

Desembarcamos do carro e caminhamos lado a lado até as proximidades da minha casa. Você continuava surpresa com a região onde que eu morava, elogiando a limpeza das ruas, estimando o silêncio "respeitoso" da vizinhança... Quando eu contornei o imenso cercado, acionando a abertura do portão, você perguntou: "chegamos?"... Sim, essa era a minha casa...

Com as luzes ligadas aqui dentro, você achou que tinha gente, perguntou se eu estava "acompanhada". Claro que não. Mas não te julgo, eu nunca lhe disse nada, nenhum detalhe sobre a minha vida... Você passou pela porta, esperei que se aproximasse da vasta prateleira com livros, e te golpeei...

Atingi sua nuca com o atiçador da lareira, esforçando-me com o mínimo da força necessária para fazê-la desmaiar. Você caiu dura, causando um estrondo no tapete da sala. Corri para o seu lado e logo me certifiquei do seu desmaio; você ainda respirava, fazia barulhos com a garganta, saía ar do seu nariz..., mas não abria os olhos...

Peguei as chaves da empregada, há muito esquecidas sobre a papelada dos advogados, e abri o pequeno compartimento embaixo da escadaria. Após, voltei para perto do seu corpo desacordado, assustadoramente imóvel, e agarrei seus calcanhares; tive de me esforçar para puxá-la até o pequeno quarto, depositando com extrema agonia e dó sua figura inerte sobre aquele colchão surrado...

O arrependimento, mesmo que tardio, não trará mais nada de volta, nem sua confiança, nem seu espectro simpático, que tanto me fez tentar contornar a desconfiança sobre este mundo, essa realidade ora estimulante — como a sua voz acalentadora —, ora insatisfatória...

Subi agora há pouco, ainda posso te ouvir, caso você desperte... Enquanto você dorme — espero que durma —, continuarei lendo A carne, de Júlio Ribeiro, livro que você me indicara. Estou amando... verbo perigoso esse... Espero ouvir novamente sua voz.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Quitandas da Vovódelícia

O ano era 1994, o mês era agosto, um período terrível no Cerrado. Nessa época do ano, o tempo é quente e seco. Uma camada de poeira e fumaça paira no ar…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos e serviram-lhes de alimento”
Livro das Lamentações 4;10

O ano era 1994, o mês era agosto, um período terrível no Cerrado. Nessa época do ano, o tempo é quente e seco. Uma camada de poeira e fumaça paira no ar. A baixa umidade relativa do ar torna os dias abafados e sufocantes. Respirar é quase um suplício; a pele, ao mesmo tempo ressecada pela manhã, fica também bastante pegajosa à tarde, devido ao calor que causa uma sudorese constante. Verdadeiramente, é uma época praticamente insuportável.

No esporte, após a tristeza pela morte de Ayrton Senna — o maior piloto de Fórmula 1 da época — numa triste manhã de domingo, no mês de maio, logo a alegria voltaria aos lares brasileiros com a conquista do tetracampeonato mundial pela seleção brasileira de futebol, numa animada tarde de domingo, no mês de julho. Mesmo mês em que entrou em vigor o Plano Real. O país ganhava uma nova moeda e a perspectiva de uma tão sonhada estabilidade econômica. Tudo parecia estar às mil maravilhas, até mesmo para o jovem Cláudio Martins, que acabara de conseguir seu primeiro emprego, iniciado já no primeiro dia do mês de julho.

Oriundo de uma família simples e muito humilde, o jovem Cláudio, após uma infância bastante sofrida numa pequena cidade do interior do estado — lugar onde não havia muito trabalho, tampouco perspectivas para um jovem sem muitas posses —, se mudara com a família para a capital. O pai — um humilde homem do campo — logo conseguira emprego como vigilante noturno numa garagem de ônibus urbano. Sua mãe — uma cozinheira bastante talentosa — arranjara uma ocupação como auxiliar de cozinha numa pequena escola do bairro onde moravam. Ele, após quase seis meses fazendo pequenos biscates, também conseguira um trabalho fixo num supermercado, no cargo de entregador.

O supermercado não era muito grande, por isso não havia muitas entregas a serem feitas. Sendo assim, Cláudio auxiliava na seção de hortifruti, repunha mercadorias nas prateleiras e também era responsável pela precificação dos produtos. As entregas — quando havia — eram feitas apenas para clientes do próprio bairro e adjacências, num raio de no máximo 5 quilômetros, pois as mercadorias eram transportadas numa velha bicicleta cargueira. O trabalho em si não era de todo ruim. Cláudio era um adolescente pobre, mas cheio de sonhos e precisava de dinheiro para ajudar nas despesas do lar e também custear suas vaidades juvenis.

Morando na capital, cursando a primeira série do Ensino Médio e com 16 anos completos, Cláudio necessitava desse emprego. Fã de rock and roll desde a mais tenra infância, agora, vivendo numa cidade grande, teria a oportunidade de assistir a shows de bandas nacionais que volta e meia se apresentavam na capital. Naquele ano em particular, a banda mineira Skank havia lançado um álbum chamado Calango e estava em turnê pelo país. Cláudio estava ansioso e apreensivo, pois essa banda faria uma apresentação na cidade em outubro. Seria o primeiro show de rock de sua vida. Ele, que ficara maravilhado com o casamento do rei do pop com a filha do Elvis, mesmo após alguns dias de profunda melancolia pela morte do líder do Nirvana, ainda assim, imaginava em sua inocência que 1994 seria o grande ano de sua vida. Cláudio era jovem e sonhador. Estudava, trabalhava, curtia rock and roll e já trocava olhares mais calientes com uma ou outra coleguinha de escola. A vida se abria para Cláudio num sedutor leque de oportunidades.

Devido a lapsos de rebeldia, já enfrentava alguns problemas relacionados a divergências de opinião com sua família, que era muito católica e bastante conservadora. Seus pais eram religiosos ao extremo e fiéis defensores da moral e dos bons costumes. Assistir à missa pelo menos uma vez na semana era algo sagrado. Cláudio andava muito ocupado com todas as suas responsabilidades. Domingo era seu único dia de ócio. A missa pela manhã iniciava-se bem cedo, e ele queria ficar mais tempo na cama. À noite, a celebração era bem no horário de seu programa de rádio preferido. Depois de quase um mês sem ir à igreja, após um belo sermão do pai e muita insistência da mãe, decidiu ir à celebração. Como se não bastasse a missa ter sido bastante maçante e a homilia muito longa, a ponto de ele cochilar enquanto o padre falava, quando chegou em casa, seu irmão caçula ainda lhe dissera que naquela noite, no rádio, havia sido apresentada a biografia de Paul McCartney — seu Beatle preferido.

Naquela noite, Cláudio fora se deitar muito ensimesmado com a vida. Era jovem e não entendia ainda — talvez jamais viesse a compreendê-lo — como era o verdadeiro funcionamento do mundo, com seus estranhos mecanismos de controle emocional e segregação social e econômica. Ficou até bem tarde ouvindo o insistente cantar de um grilo na parede e os demais sons que o silêncio da noite lhe oferecia. Depois de muita especulação filosófica, adormeceu por volta da meia-noite, sem saber que, naquela mesma semana, sua vida iria mudar para sempre.

Na segunda-feira, como era de costume, logo pela manhã, dona Cleuza, uma simpática quitandeira — uma quarentona ainda na flor da idade e bastante vaidosa — fazia suas compras para o início da semana. Além dos itens domésticos de consumo próprio, ela também adquiria os ingredientes necessários para a produção de doces e salgados da quitanda que ela e sua mãe — dona Valdelice — tocavam juntas. As Quitandas da Vovódelícia eram bastante afamadas por quase toda a cidade. Os doces não eram tão diferentes de qualquer outro que se vendesse em uma padaria qualquer. Contudo, os salgados eram extraordinários, e ninguém num raio de quilômetros-luz conseguiria fazer algo nem mesmo parecido. O tempero era esplêndido, causando uma explosão de sabor na boca, e o recheio era de uma carne com sabor bastante exótico, mas muito agradável ao paladar, devido à textura e às nuances dos condimentos.

Todas as vezes que Cláudio levava suas compras — pelo menos duas vezes na semana — dona Cleuza lhe presenteava com um apetitoso salgado e um copo de refresco. Enquanto ele saboreava seu lanche, ela lhe cobria de voluptuosos olhares, que às vezes o deixavam até constrangido. Dona Cleuza era uma mulher singular, dotada de uma beleza hipnotizante. Na altura de seus quarenta anos, muito facilmente poderia ser confundida com uma jovem de, no máximo, uns vinte e cinco, talvez até um pouco menos. Era uma dessas raríssimas criaturas sobre as quais o tempo não parece ter efeito. Cláudio era um jovem com os hormônios em ebulição, e saber que aquela bela mulher o devorava com os olhos lhe causava imensa satisfação.

Naquela manhã em particular, dona Cleuza estava bastante sorridente e parecia mais amável do que de costume. Assim que terminou de fazer suas compras, solicitou ao dono do mercado que enviasse suas encomendas o mais rápido possível, pois teria um importante compromisso e, sendo assim, talvez depois não houvesse ninguém em casa para receber o entregador. Seu Nelson — o proprietário do mercado — deu sua palavra de que a entrega seria executada sem demora, pois, além de ser um prestativo comerciante, tinha certa queda pela quitandeira, que, por sua vez — por questões pessoais — não dava ousadia a homens casados, mas nunca havia sido grosseira com ele. Dona Cleuza era o tipo de mulher de sorriso fácil e meiguice espontânea, dotada de uma gentileza ímpar, que chegava a causar certa inveja.

Naquele momento, Cláudio estava fazendo uma entrega numa clínica de repouso para idosos ali próximo. Essa clínica também fazia suas compras naquele mercado. Contudo, aquela entrega em si era uma doação que o próprio dono do mercado fazia toda semana para a instituição — era quase sempre a mesma coisa: frutas, verduras e carne, ou seja, produtos frescos, que eram entregues na clínica na segunda-feira pela manhã. A maioria dos outros itens básicos para a alimentação dos internos também era proveniente de doações. A clínica — uma instituição de caridade sem fins lucrativos — sobrevivia da bondade alheia e do voluntariado de algumas pessoas de alma nobre, que, além de doações materiais, também dedicavam parte de seu tempo ao cuidado dos idosos. Havia poucos funcionários remunerados.

Pela primeira vez, Cláudio — que demonstrava bastante retidão de caráter e muita seriedade em suas funções — demorou mais do que o normal com a entrega, fato que causou estranheza ao seu patrão, que estava até mesmo preocupado com a integridade física do rapaz, pensando que ele poderia ter sofrido algum tipo de acidente. Entretanto, quando Cláudio retornou ao mercado com as caixas de entrega já vazias, logo explicou o motivo de sua demora. Já acomodando as compras de dona Cleuza sobre a bicicleta para a entrega, relatou o ocorrido na clínica.

... Na noite anterior, um dos internos havia desaparecido. Havia um verdadeiro rebuliço, com a presença da polícia e tudo mais. A diretora da clínica estava exigindo, por parte dos policiais, que um inquérito fosse aberto para investigar o desaparecimento de mais um de seus internos. Um dos policiais, após anotar num pequeno bloco os dados pessoais do idoso que sumira, disse que, assim que completassem 24 horas do ocorrido, abriria um boletim de ocorrência. Também aconselhou a diretora da clínica a aumentar a segurança do local, ao que ela respondeu prontamente, até com certa rispidez, ao perceber a má vontade do policial:

— Aqui não é um presídio, rapaz! É uma casa de repouso. Zelamos pelo bem-estar daqueles que já não têm ninguém por eles. Não prendemos ninguém aqui!

— Sendo assim, a senhora não deveria reclamar quando um deles, não apreciando a comida ou as acomodações, decide ir embora — respondeu o outro policial em tom de pilhéria.

— Como de costume, devo prestar meus sinceros agradecimentos por mais uma eficaz demonstração de profissionalismo de nossa honrada força policial. Ou seja, muito obrigada por nada! Exijo que pelo menos fique registrado nos autos que, somente este ano, aqui na clínica já foram seis internos que desapareceram de forma misteriosa no meio da noite. Sumiram com a roupa do corpo, sem deixar nenhum vestígio...

Os policiais, sentindo-se bastante ultrajados pela fala da diretora — que demonstrava estar bastante irritada com a piadinha que um deles fizera —, como nada mais tinham a fazer no local, logo entraram no carro e saíram em disparada, com a sirene da viatura ligada. Assim que Cláudio terminara o seu relato, o dono do mercado não emitira nenhuma opinião sobre o acontecido, além de lamentar profundamente o fato em questão.

Cláudio, que tinha muito apreço pelo trabalho que a clínica fazia no cuidado com aquelas pobres almas inocentes, ficou bastante acabrunhado pela negligência com que os policiais atenderam a ocorrência, mas principalmente ao pensar na triste situação de quem chega ao fim da vida sem ter com quem contar. Ficou bastante melancólico e reflexivo sobre a forma como um idoso é tratado pela sociedade. Primeiro, repudiado pela família que o abandona; segundo, pela própria sociedade, que enxerga uma pessoa mais velha como alguém que tem uma doença contagiosa — por isso, precisa ficar isolada —; e, por último, pela negligência do próprio poder público, que, após pagar uma mísera aposentadoria, lava as mãos e deixa aqueles que um dia tanto significaram para a nação entregues à própria sorte.

Perdido nessas tristes reflexões, mas, mesmo assim, cumprindo suas obrigações profissionais, Cláudio logo chegou à casa de dona Cleuza e, após encostar sua bicicleta com as compras no muro — há anos aquela bicicleta não tinha mais o descanso —, bateu palmas no portão da quitandeira e aguardou que alguém viesse atendê-lo. Esperou por uns dois minutos e, como não ouviu nenhum movimento, bateu palmas novamente, dessa vez com maior intensidade. Após aguardar por quase cinco minutos e não ser atendido por ninguém, decidiu testar a maçaneta do portão e, caso não estivesse trancada, entraria e deixaria as compras na cozinha, mesmo se não houvesse ninguém em casa. Para sua sorte, o portão estava destrancado.

Pegou as pesadas caixas com as compras e adentrou a casa, indo direto para a cozinha. A mesa onde ele colocava as compras sempre que as trazia estava repleta de caixas de plástico brancas — do tipo que são usadas em açougues. Como não havia outro lugar para colocar as compras, decidiu deixá-las na bancada da pia. Enquanto executava esse processo de descarregar as compras, ouviu o som de música e de um chuveiro ligado em um dos quartos da casa. Pensou que, talvez devido a esse barulho, quem estivesse na casa não teria ouvido quando ele batera palmas no portão. A música que ele ouvira era do grupo Roupa Nova e, se não estivesse enganado, a canção se chamava "Tímida".

Imaginando que estivesse sozinho na casa, e com sua curiosidade ardendo para saber quem estaria no banho, caminhou sorrateiramente na direção do barulho e logo se viu diante de um belíssimo aposento. Muito grande e bastante aconchegante. A enorme cama em estilo colonial ficava numa parede de frente para uma grande janela panorâmica, que dava para um jardim lateral da casa. Todo o mobiliário do aposento era de fino estilo colonial. No chão, um grande tapete felpudo fazia conjunto com as cortinas em tom de vermelho púrpura. Sobre a cabeceira da cama, na parede logo acima, havia um grande quadro com uma pintura a óleo de uma serena paisagem campestre. O ambiente era bastante perfumado, tanto pelo cheiro das flores nos jarros espalhados pelo quarto quanto pelo aroma de sabonete que vinha do banheiro, onde alguém — certamente dona Cleuza — tomava um demorado banho.

Sem muita cerimônia adentrou pelo quarto e se aproximou do banheiro que ficava aos fundos. Tentou ser o mais silencioso possível para não ser notado. Parou a uma distância segura e ficou observando dona Cleuza que estava em todo seu esplendor, da mesma maneira que chegou a esse mundo. Ela que trazia em seu ventre um calor tão quente como o fogo do próprio Tártaro, naquele momento, debaixo das tépidas águas daquele convidativo chuveiro, se tocava voluptuosamente na tentativa de abrandar aquele fogo que lhe queimava as entranhas.

Cláudio que devido a idade já havia acordado com os lençóis de sua cama sujos e pegajosos após despertar de um sonho molhado que tivera com a própria dona Cleuza, se encontrara naquele momento numa situação bastante embaraçosa. Havia um emaranhado de sentimentos tomando conta de todo o seu ser. Desejo de entrar no chuveiro com aquela bela criatura, medo de que alguém o visse ali no quarto de uma dama naquela situação e curiosidade em saber como tudo aquilo terminaria. Estava ele tão entretido com aquela lasciva visão que nem mesmo se dera conta de que dona Valdelice entrara no quarto e estava de pé logo atrás dele.

Quando percebeu que havia sido flagrado, — em pleno horário de trabalho — dentro do quarto de uma dama em seu momento de mais pura inocência e intimidade, saiu correndo do recinto trombando em tudo que via pela frente, inclusive na própria dona da casa. Ao passar pela cozinha para se evadir do local, acabou derrubando uma das caixas que estava sobre a mesa. Ficou pasmo quando viu que dentro da caixa havia partes de uma perna humana. Levantou o pano que cobria as demais caixas e viu que havia mais partes humanas, um pouco de carne já moída, massas para salgados e temperos e condimentos de todos os tipos.

Naquela mesma tarde daquele quente e sufocante final de agosto, além dos restos mortais do idoso que havia desaparecido da clínica na noite anterior, também fora encontrado várias ossadas humanas enterradas no quintal da casa de Dona Cleuza. Logo se soube que um dos enfermeiros da clínica era amante da quitandeira. Era ele quem lhe fornecia a carne para os, até então, saborosíssimo e inigualáveis salgados da Vovódelícia. Dona Cleuza foi presa em flagrante e logo depois condenada e sentenciada à pena máxima por vários crimes: canibalismo, homicídio, ocultação de cadáver etc. Dona Valdelice, devido a idade e seu estado de debilidade, fora internada numa clínica para idosos com problemas mentais. Terminou seus dias de forma lamentável, no mais completo abandono. O suposto amante nunca fora encontrado para responder por seus crimes. Ao saber que dona Cleuza havia sido presa, foragiu sem deixar vestígios, ninguém mais soube de seu paradeiro. O inquérito policial concluiu que ele usava uma documentação falsa que havia sido abandonada em seu alojamento na clínica.

Cláudio, em pouco tempo, saiu do emprego de entregador e buscou outra ocupação até se formar em medicina, especializando-se em geriatria. Mesmo depois de muitos anos e, sendo ele um clínico renomado, atendendo em um grande e respeitado hospital particular da capital, ainda assim presta serviços voluntários em diversas clínicas e casas de apoio aos idosos espalhadas pela cidade. Ele jamais se esqueceu daquele ano de 1994. Nunca mais comeu nenhum outro tipo de salgado. Na verdade, tornou-se totalmente vegano, ao ponto de sentir repugnância a qualquer tipo de proteína, seja ela qual for...

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Weslley Cunha, -Contos Weslley Cunha Escrito por Weslley Cunha, -Contos Weslley Cunha

Lymendra Em Desarmonia

A névoa espessa se agarrava às copas das árvores, envoltas em uma luz verde espectral. Em Lymendra, o verde não era apenas uma cor, mas uma força viva...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A névoa espessa se agarrava às copas das árvores, envoltas em uma luz verde espectral. Em Lymendra, o verde não era apenas uma cor, mas uma força viva, uma entidade antiga que sussurrava segredos através das folhas e raízes. A floresta respirava, e cada planta parecia observar atentamente o avanço de Naara, uma alquimista determinada a dominar o poder ancestral escondido naquele solo fértil e enigmático. 

Desde jovem, Naara fora instruída nas artes místicas da bruxaria, mas sempre sentira uma atração especial pela natureza. As lendas falavam de um verde capaz de transcender a vida e a morte, de segredos escondidos na profundidade das florestas, onde a vitalidade se entrelaçava com a decadência. Naara sabia que as respostas para a verdadeira transformação, tanto da matéria quanto de si mesma, residiam ali. 

À medida que ela avançava, o ambiente ao redor pulsava com uma energia quase consciente. As folhas, embora viçosas, revelavam veias escuras que indicavam o início de uma decomposição lenta, como se a própria natureza compreendesse o ciclo inevitável de morte. Naara sentia em seus ossos o peso da decisão que deveria tomar: avançar em sua busca pelos conhecimentos de Lymendra, e aceitar que o verde que tanto fascinava também trazia consigo a sombra da destruição. 

Naara não era a primeira a tentar dominar os segredos de Lymendra. A floresta estava repleta de ecos de outras mulheres que buscavam poder, sabedoria e transcendência. No entanto, o que a diferenciava das outras era sua compreensão da dualidade feminina – a vida e a morte, o nutrir e o destruir. O poder que ela buscava não era apenas sobre a criação de algo novo, mas sobre aceitar que para nascer algo, algo mais deve perecer. 

O vento trouxe consigo murmúrios, como vozes femininas entrelaçadas. As folhas dançavam em sincronia, como se reconhecessem a presença de Naara. Ela se aproximou de uma clareira, onde uma fonte de água verde-esmeralda jorrava lentamente. A luz ao redor parecia mais densa, e o ar se enchia de fragrâncias estranhas: aromas doces e pútridos, evocando tanto a primavera quanto o outono de uma única vez. 

No centro da fonte havia uma figura esculpida em pedra, uma mulher de formas arredondadas, símbolo da fertilidade e da destruição. Naara reconheceu a representação da Mãe Verde, a entidade guardiã de Lymendra. Os olhos da estátua pareciam segui-la, transmitindo uma sabedoria antiga e silenciosa. Ela sabia que aquele era o teste final. A água brilhante prometia o poder de regeneração, de renascimento, mas também sussurrava sobre a corrupção que viria com tal dádiva. 

Ao tocar a superfície da água, Naara sentiu o calor percorrer seus dedos, como se a fonte estivesse viva. Ali, o ciclo de criação e decadência se revelava em sua plenitude. As raízes ao redor se moveram levemente, como se estivessem prestes a enredá-la. A natureza parecia estender seus braços, oferecendo tanto acolhimento quanto a possibilidade de aprisionamento. 

Naara compreendeu que o verdadeiro poder feminino residia na aceitação dessa dualidade. Ela não precisava escolher entre florescer ou apodrecer – ela seria ambos. Com essa compreensão, ela mergulhou suas mãos na fonte, deixando o verde se infiltrar em seu ser. As folhas ao redor pareceram responder, vibrando em um uníssono sussurrante. Naquele momento, ela se tornou parte de Lymendra, tanto sua senhora quanto sua serva. 

O verde era vida e morte, cura e veneno. Naara não apenas dominou o segredo da alquimia, mas transcendeu a própria natureza humana tornando-se uma bruxa da natureza. Seu corpo pulsava com uma energia nova, porém, por baixo da superfície, a corrupção já começava a se enraizar. Ela sabia que pagaria o preço com o tempo, mas também sabia que agora possuía o poder de moldar o ciclo ao seu favor – de gerar e destruir conforme sua vontade. 

Lymendra florescia com a presença de sua nova guardiã. O verde profundo se intensificava, transbordando pelas raízes, folhas e flores. Naara se tornara a expressão máxima da força feminina: criadora e destruidora, vital e corrupta. Sob o olhar atento da Mãe Verde, ela caminhava com a certeza de que, para dominar o ciclo da vida, é preciso abraçar tanto a luz quanto a escuridão. 

Na escuridão das florestas de Lymendra, não era apenas a vida e a decadência que se enredavam em uma dança eterna, mas também forças antagônicas. Entre os segredos sombrios da floresta, um antigo alquimista chamado Varkas mantinha seus planos em segredo. Ao contrário de Naara, que buscava a simbiose com a natureza e o equilíbrio alquímico, Varkas via no poder verde de Lymendra uma ferramenta para o caos e a destruição e a transformação por meio do seu poder e de sua vontade. 

Varkas era um alquimista de habilidades excepcionais, mas sua ambição havia corrompido sua percepção da natureza. Em vez de harmonia, ele buscava usar os segredos da floresta para desmantelar a ordem natural. Seu objetivo era simples: dominar as forças de Lymendra para espalhar o domínio e posse. Ele acreditava que a natureza, em sua essência, não deveria ser controlada, mas sim desencadeada como uma força bruta, que consumiria tudo à sua volta. 

Varkas não agia sozinho. Em seus laboratórios escondidos nas profundezas da floresta, ele criava seres híbridos, misturas de plantas, carne e metal, que serviam como seus espiões e soldados. Essas criaturas, chamadas de espectros verdes, eram uma representação grotesca do potencial destrutivo da natureza corrompida pela ambição humana. Suas presenças eram notadas pela vegetação morta e pelo ar pesado e tóxico que se espalhava por onde passavam. 

Entre os espectros verdes, havia uma comandante: Soraya, uma bruxa alquimista traída pelo destino, cuja lealdade a Varkas vinha da promessa de vingança contra aqueles que haviam destruído sua família. Sua habilidade em controlar raízes e plantas era temida até pelos seguidores de Naara. Soraya trazia consigo uma dor profunda que alimentava seu desejo por vingança, tornando-a uma adversária perigosa e implacável. 

Enquanto Naara buscava a integração com Lymendra, Varkas pretendia corromper a natureza, destruindo tudo que fosse vivo. Para isso, ele estava determinado a tomar o poder que Naara havia conseguido ao se conectar com a Mãe Verde. Ele acreditava que, ao absorver a energia vital de Naara, seria capaz de libertar um ciclo interminável de destruição e recriação das suas vontades, onde a natureza e a humanidade se submeteriam à sua tirania. 

O confronto entre Naara e Varkas, então, seria inevitável. Naara precisaria buscar aliados entre as criaturas da floresta: espíritos antigos, guardiões vegetais e seres etéreos que vagavam entre os limites da vida e da morte. Entre eles, destacava-se Lira, um espírito da floresta, meio planta, meio mulher, que habitava os pântanos de Lymendra. Lira era conhecida por suas habilidades curativas e por seu profundo conhecimento das raízes da floresta. Embora desconfiada dos humanos, Lira estava ciente do perigo que Varkas representava e poderia ser convencida a ajudar Naara. 

Outro personagem importante seria Iro, um caçador de sombras que se movimentava entre os limites da floresta e as aldeias circunvizinhas. Ele tinha um passado sombrio com Varkas, que havia destruído sua tribo e o deixado marcado por cicatrizes tanto físicas quanto espirituais. Iro possuía conhecimentos táticos valiosos e uma conexão misteriosa com a fauna local, podendo se comunicar com animais e direcioná-los em combate. 

Naara mantinha a postura firme enquanto encarava Varkas, mas por dentro, sentia o desconforto crescer. Ele não havia se movido, mas algo no ar mudou; era como se a natureza ao redor se curvasse levemente, como que respondendo ao comando de um mestre sombrio. Varkas sorriu, percebendo a tensão. 

— Você realmente acredita que pode me impedir? — Ele disse com um tom suave, quase sedutor. — Eu poderia acabar com esta floresta agora, se quisesse. Veria o verde que tanto ama apodrecer em segundos. 

Com um gesto discreto, Varkas ergueu uma mão e sussurrou palavras em uma língua antiga. As raízes das árvores ao redor começaram a tremer, e uma onda de energia negra percorreu o solo. Um pequeno trecho da vegetação diante deles se retorceu e murchou, transformando-se em uma mistura de cinzas e veneno. O cheiro acre se espalhou pelo ar, sufocando. 

Naara recuou um passo, mas controlou a expressão para não revelar o medo que brotava em seu peito.  

— Você quer me intimidar? Isso só reforça o quão desesperado você está. — Varkas abaixou a mão, mas o estrago já estava feito. Ele se aproximou lentamente, seus olhos ardendo de malícia. 

— Isso foi apenas um vislumbre. Ainda há tempo para evitar uma catástrofe. Junte-se a mim, Naara. Ou será consumida pelo próprio amor que tem por essa terra. 

Ao dizer isso, ele se virou e desapareceu nas sombras da floresta com Soraya ao seu lado. Naara permaneceu imóvel, tentando processar o que acabara de presenciar. O que ele mostrou foi pouco, mas o suficiente para plantar o medo de que toda a beleza e harmonia de Lymendra poderiam ser destruídas. 

Nos dias seguintes, o peso das palavras de Varkas parecia se enraizar na mente de Naara. Caminhando sozinha pelos bosques, ela refletia sobre seu propósito. O verde ao seu redor representava mais que poder; era a vida em sua plenitude, o ciclo de crescimento, morte e renascimento. Ser uma bruxa e uma mulher significava não apenas proteger esse ciclo, mas também se afirmar como a guardiã da essência da criação e da destruição equilibradas. 

Certa noite, enquanto Naara se concentrava em um ritual, sentiu a presença de Lira. A guardiã das raízes se aproximou com seu andar gracioso e sereno, trazendo consigo a fragrância úmida da floresta e o som sutil das folhas sussurrantes. 

— Você está perturbada, Naara — disse Lira com sua voz que parecia emanar das profundezas da terra. — Mas o que Varkas mostrou não é o verdadeiro poder. O verde não se curva à vontade de um tirano. Ele pode tentar corromper a natureza, mas nunca terá o controle total. 

Naara respirou fundo, olhando para a companheira. 

— E se ele conseguir destruir o que eu amo? Se o caos que ele deseja realmente acontecer? Tudo pelo que lutei, o equilíbrio, a harmonia... tudo isso pode ser devorado. 

Lira se aproximou mais, pousando uma mão suave no ombro de Naara. 

— Lembre-se, o verde não é só o florescer, mas também a decadência. Ambos são faces da mesma moeda. Você, como mulher e bruxa, entende o ciclo como ninguém. Nós, os espíritos da floresta, estamos com você. Sentimos seu amor pela natureza e sabemos que você é mais do que capaz de enfrentar o que está por vir. 

Os olhos de Naara se encheram de determinação renovada. 

— Você tem razão, Lira. O que Varkas vê como fraqueza é, na verdade, o meu maior poder. Se ele quer guerra, a natureza irá se erguer com toda a sua força. 

Lira sorriu com leveza. 

— Estamos todos prontos. Quando a hora chegar, você não estará sozinha. O verde lutará ao seu lado. 

As palavras de Lira trouxeram um conforto inesperado para Naara. Sentiu a energia da floresta se alinhar com sua própria, como se cada folha, raiz e espírito estivesse se preparando para o confronto. Ela sabia que a guerra viria, mas estava decidida a lutar não com o medo que Varkas tentou plantar, mas com o amor profundo que nutria pelo ciclo natural de Lymendra e pela força que, como mulher, se afirmava em cada feitiço, em cada decisão. 

Varkas observava as estrelas através das copas das árvores, uma serenidade gélida em seu olhar. Sua mente vagava por lembranças de quando, séculos atrás, ele se apaixonara pela natureza. Naquela época, ele via na harmonia da vida e na delicadeza dos ciclos naturais um reflexo do que poderia ser a beleza suprema. Dedicou-se a compreender cada segredo, cada nuance da vida que pulsava ao seu redor. No entanto, com o tempo, a perfeição desse equilíbrio começou a lhe parecer entediante, previsível demais. A natureza seguia seus ciclos, mas onde estava a verdadeira força? A vontade que deveria guiar o caos? 

O problema, concluiu Varkas, era o próprio equilíbrio. Uma natureza em que tudo se ajustava, em que tudo se regenerava, não era uma expressão de poder, mas de passividade. Ele se cansou dessa visão limitada. Percebeu que a beleza verdadeira não residia na repetição cíclica, mas em algo mais ousado, algo que só poderia ser alcançado com uma força superior — uma força que ele mesmo moldaria. 

— Natureza necessita de vontade. — Sussurrou ele para si mesmo. — Um poder que a transcenda, que a conduza para uma forma mais elevada, única. Não basta que ela siga seus ritmos; ela deve ser forjada, dobrada àquilo que é grandioso e sublime. 

Nos séculos que se seguiram, Varkas dedicou-se a dominar a alquimia não para preservar a vida, mas para modificá-la. Ele desejava criar algo que fosse uma extensão de sua própria visão, onde cada ser, cada planta, cada fibra do mundo fosse uma manifestação de sua vontade. Em sua mente, a natureza era uma criação bruta que necessitava de refinamento. Se ela não pudesse ser moldada para atingir essa beleza única, então que perecesse no caos que já existia em suas profundezas. 

Para Varkas, o caos era uma força latente que sempre esteve presente na natureza. Destruição e criação se alternavam, mas sempre dentro de limites, dentro de um ciclo que ele desprezava. Por que aceitar esse ciclo quando a vontade de um ser superior poderia romper com essa limitação? Ele já havia decidido: ou a natureza se submeteria a ele e se transformaria em algo grandioso e eterno, ou ele a aniquilaria. 

Enquanto Naara se preparava, ele também se concentrava. Sabia que seu poder ainda não havia sido revelado por completo. O que ela viu foi apenas uma demonstração. Mas o verdadeiro teste estava por vir. Se ela ousasse desafiá-lo, ele destruiria não apenas as formas de vida que ela amava, mas corromperia o próprio conceito de beleza natural. Porque, para Varkas, ou o mundo existiria sob sua ordem ou ele cairia no caos eterno. 

Essa era a convicção que o movia, e não havia retorno. A decisão já fora tomada há muito tempo: a natureza se dobraria à sua vontade, ou tudo pereceria. 

Varkas não era um estrategista envolvido em intrigas ou segredos. Sua motivação era clara como a luz do dia: lutar por suas convicções e pelo poder que ele dominava há séculos. Como um dos seres mais antigos e poderosos de Lymendra, ele via a luta como uma questão de princípios. Não havia planos ocultos ou artimanhas; o que movia Varkas era a sua crença inabalável de que a natureza deveria se submeter à sua vontade, ou então perecer. 

Embora desprezasse a maneira como Naara entendia o ciclo natural — como algo sagrado, guiado pela sabedoria e pelo equilíbrio — ele não subestimava o poder de sua oponente. O respeito que sentia por Naara residia no fato de que, apesar de sua juventude em comparação a ele, ela era uma verdadeira força da natureza. Para Varkas, isso tornava o embate ainda mais digno, um confronto entre duas visões opostas do mundo, em que apenas uma poderia prevalecer. 

Ele escolheu o dia do confronto com propósito. A data marcava a passagem entre o verão e o inverno, um instante raro em que essas duas potências naturais coexistiam, refletindo o equilíbrio dinâmico que ele tanto desprezava, mas que Naara valorizava. O campo de batalha seria a árvore mais antiga e venerada de Lymendra, conhecida como a Árvore de Contenção. Essa árvore, que abrigava em suas raízes e galhos a sabedoria acumulada de eras, era o ponto de conexão entre a força vital e o conhecimento ancestral da natureza. 

Naara, por sua vez, sabia do encontro iminente. Os espíritos da floresta já haviam lhe revelado a data e o local. Ela também compreendia que, em termos de idade e experiência, estava em desvantagem. No entanto, a escolha dos espíritos por ela como guardiã da natureza não fora em vão. Naara possuía um poder oculto, profundo e selvagem, que ainda não havia se manifestado em sua totalidade. Era uma força bruta, mas sábia, que refletia o ciclo eterno da criação, destruição e renascimento. Para ela, essa luta não era sobre vencer um oponente, mas sobre proteger a harmonia intrínseca que permeava todas as coisas. 

Enquanto o dia se aproximava, tanto Varkas quanto Naara se preparavam à sua maneira. Ele, reforçando sua determinação de moldar a natureza ou destruí-la; ela, consolidando suas convicções de que os ciclos da natureza não poderiam ser forçados ou distorcidos. Ambos sabiam que o confronto na Árvore de Contenção não seria apenas um embate de poderes, mas um duelo entre duas filosofias, duas forças elementares em busca de supremacia. 

O encontro seria uma batalha não só de força, mas de vontade. Varkas, com sua visão implacável de domínio absoluto, e Naara, com sua crença na sabedoria do ciclo natural, estavam prontos para lutar até o fim pelo que acreditavam ser o verdadeiro destino da natureza. 

No centro da floresta, sob o dossel das folhas que sussurravam segredos milenares, o encontro tão aguardado aconteceu. A Árvore de Contenção se ergueu como um monumento de eras passadas, testemunha silenciosa da guerra que estava prestes a começar. Varkas e Naara se encararam, a tensão no ar vibrando como uma corda prestes a se partir. 

Antes que os poderes fossem liberados, Varkas fez um último apelo: 

— Naara, junte-se a mim. Não percebe que a natureza é mais do que um ciclo eterno? A verdadeira essência dela é a vontade de se expressar, de moldar o mundo com poder e intenção. A natureza não deve ser prisioneira de seus próprios ritmos; deve se libertar, transcender os limites impostos por esse equilíbrio que você tanto defende. Juntos, poderíamos recriar este mundo, elevar sua beleza a níveis jamais imaginados. 

Naara, com uma serenidade profunda, respondeu:  

- Varkas, você se perdeu em seu desejo de domínio. A potência da natureza já reside na sabedoria dos seus ciclos. Há espaço para vontade, para expressão e mudanças, mas isso deve ocorrer dentro da harmonia dos ciclos naturais. A natureza se recria através desses ciclos; eles não são correntes, mas uma dança complexa onde tudo encontra seu lugar. O que você propõe é destruição, pois ao romper essa harmonia, nada além do caos prevalecerá. Você cega-se ao achar que pode subjugá-la sem consequências. 

Varkas não respondeu com palavras; a raiva e a convicção se refletiram em seus olhos enquanto a energia ao seu redor começava a pulsar. Ele levantou os braços e conjurou um vento tempestuoso que arrancou árvores pelas raízes, transformando-as em lanças mortais que voavam em direção a Naara. Ela se defendeu erguendo uma barreira verdejante de vinhas e galhos, mas as lanças de Varkas perfuraram sua defesa com facilidade. Naquele instante, a guerra começou. 

Varkas lançou as forças da natureza em fúria: trovões, tempestades, e o próprio solo rugindo enquanto abismos se abriam sob os pés de Naara. Ela, em resposta, convocou os espíritos da floresta, que assumiram formas tangíveis — lobos de sombras, raízes que se moviam como serpentes, e árvores que se animavam como guardiões vivos. A batalha se espalhou por toda Lymendra; seres secundários e aliados de ambos os lados se enfrentavam em combates ferozes. De um lado, as criaturas distorcidas por Varkas, moldadas para servir seus propósitos; do outro, os protetores da natureza que lutavam para preservar o equilíbrio. 

No meio da intensa batalha entre Naara e Varkas, havia Soraya, a poderosa alquimista ao lado de Varkas, cuja presença sombria era tão devastadora quanto a de seu mestre. Soraya era uma mulher implacável, cuja obsessão pela destruição e pela transformação caótica da natureza se manifestava em suas artes sombrias. Juntos, Varkas e Soraya moldaram aberrações grotescas — criaturas que combinavam partes de plantas, animais e minerais em formas distorcidas e violentas. 

Lira, por sua vez, enfrentou essas monstruosidades com determinação e sabedoria. Usando a pureza dos espíritos da floresta e sua conexão com a harmonia natural, ela conseguiu desfazer muitas das criações de Soraya. Os monstros se fragmentavam em poeira e folhas secas quando atingidos pela força restauradora de Lira, retornando ao ciclo natural de vida e morte. Lira lutou com graça e precisão, mostrando que o poder da natureza, quando guiado pelo equilíbrio, era capaz de superar até mesmo as corrupções mais profundas. 

Porém, quando o confronto direto entre Lira e Soraya se iniciou, o equilíbrio foi rompido. Soraya era uma mestre da alquimia destrutiva, manipulando não apenas a matéria, mas também as emoções sombrias e as energias caóticas que regiam o universo. Ela conjurava tempestades de cinzas e redemoinhos de vento gélido, que cortavam o ar como lâminas. Lira tentou conter esses ataques com as forças da luz e da vida, mas Soraya se mostrou um desafio além do que Lira havia enfrentado até então. 

Soraya atacava não só com força bruta, mas com uma precisão calculada. Ela identificou os pontos fracos nas defesas de Lira e explorou cada um deles. Enquanto Lira tentava purificar as energias malignas que Soraya lançava, a alquimista das sombras usava o poder da decomposição, corrompendo os próprios espíritos que Lira convocava. A cada troca de feitiços e ataques, Lira percebia que sua energia estava sendo drenada, enquanto Soraya parecia se fortalecer com cada onda de destruição. 

No momento crucial do confronto, Soraya aprisionou Lira em uma teia de energia densa e tóxica, feita de vinhas espinhosas e pedras enegrecidas, que se apertavam ao redor de sua oponente. Lira, lutando com todas as suas forças, não conseguiu se libertar. Com um sorriso frio, Soraya lançou um golpe final, envolvendo Lira em uma espiral de escuridão que cortava sua conexão com os espíritos da floresta. Naquele instante, Lira foi subjugada e afastada da batalha, enfraquecida e incapaz de continuar lutando. 

Apesar de derrotar Lira, Soraya ainda não conseguira romper a força dos laços espirituais que Naara mantinha com a natureza, e sua vitória parecia incompleta. Enquanto Naara se reerguia, invocando o poder oculto que repousava em seu interior, Soraya percebeu que, mesmo com a vantagem momentânea, o verdadeiro confronto estava longe de terminar. O duelo entre Naara e Varkas, com Soraya ao lado de seu mestre, estava prestes a alcançar o clímax. 

Mas quando Naara finalmente desbloqueou todo o seu poder, a maré da batalha mudou. Soraya, que tanto confiava na destruição como caminho para a supremacia, viu sua força ser engolida pela pureza avassaladora das forças naturais comandadas por Naara.  

À medida que a batalha se intensificava, Naara e Varkas se enfrentavam em um duelo épico, cada um utilizando suas habilidades e poderes ao máximo. A Árvore de Contenção, o cenário escolhido para esse confronto, parecia pulsar com a tensão dos dois lados. As forças de Varkas, encorajadas por Soraya e suas monstruosidades, eram uma tempestade de caos e destruição. Os monstros criados por Varkas avançavam ferozmente, enquanto Soraya manipulava as energias de decomposição para desgastar e enfraquecer as defesas de Naara. 

Naara, com sua conexão profunda com a natureza, conjurava feitiços de proteção e ataque, sua magia envolvendo o ambiente com uma aura de vitalidade e força. Cada golpe que ela desferia era uma tentativa de restaurar o equilíbrio, enquanto Varkas buscava moldar a natureza de acordo com sua própria visão distorcida. 

O confronto entre Varkas e Naara começou com uma troca de magias devastadoras. Varkas utilizava seu conhecimento ancestral para manipular as energias da natureza de forma destrutiva, criando fissuras na terra e tempestades de energia corrosiva. Naara contra-atacava com feitiços de restauração e força vital, tentando conter os ataques e restaurar o equilíbrio ao ambiente. 

Durante a batalha, Naara começou a sentir o peso das forças que Varkas estava empregando. Varkas, com seu conhecimento profundo da natureza e sua capacidade de moldá-la de maneiras caóticas, foi mostrando a ela o que ele havia realmente planejado. Ele convocou uma série de forças destrutivas que quase romperam as defesas de Naara. A cada ataque, ela via o que amava sendo destruído: árvores antigas se despedaçando, criaturas da floresta sendo corrompidas e o solo sendo transformado em uma paisagem desolada. 

Com sua magia em risco de ser superada, Naara usou todo o seu poder oculto em um último esforço. O seu grito de batalha ressoou por toda a floresta, convocando uma onda de energia pura e vital que inundou o campo de batalha. O poder de Naara, agora totalmente liberado, envolveu Varkas em um turbilhão de energia que desfez suas magias e o enfraqueceu severamente. 

Varkas, percebendo que a derrota era inevitável, tentou um último ataque desesperado, mas foi interrompido pela força avassaladora de Naara. Com uma explosão de luz verde e ouro, Naara selou o destino de Varkas, anulando seu poder e causando sua derrota final. O vilão, que havia buscado a aniquilação e o caos, foi consumido por sua própria destruição. 

Com a batalha vencida e a ameaça de Varkas e Soraya eliminada, Naara se voltou para a floresta devastada. O desfecho trouxe uma mistura de vitória e reflexão profunda. Ela se aproximou da Árvore de Contenção, agora danificada, mas ainda imponente, e começou a refletir sobre tudo o que havia acontecido. 

Lira, embora enfraquecida pela luta, conseguiu se erguer e se aproximar de Naara. Ela falou com sabedoria e carinho, lembrando-a da importância do equilíbrio na natureza. - O equilíbrio foi restaurado, Naara, mas a natureza é uma força que nunca para. O que aprendemos hoje é que a transformação não exclui o respeito pelos ciclos naturais. A vontade de moldar e mudar deve sempre dialogar com a sabedoria da natureza. 

Naara ouviu atentamente, absorvendo cada palavra. Ela percebeu que, apesar da vitória, havia uma lição importante a ser aprendida. O desejo de Varkas por controle absoluto e a destruição total eram extremos que não respeitavam a essência da natureza. No entanto, também reconheceu que sua própria abordagem precisava de evolução. Era necessário que sua vontade de transformar e proteger a natureza fosse guiada por uma compreensão mais profunda dos ciclos naturais. 

Enquanto os espíritos da floresta, que haviam estado ao seu lado durante a batalha, surgiam ao seu redor, Naara sentiu um profundo sentido de conexão e responsabilidade. Ela sabia que a luta não havia sido apenas contra Varkas e Soraya, mas também uma prova de suas próprias capacidades e limites. 

Naara concluiu que, para proteger a floresta e seus ciclos sábios de força, poder, criação, destruição e recriação, ela precisaria continuar crescendo em sabedoria e força. A natureza ainda escondia segredos que ela precisava descobrir, e perigos maiores poderiam surgir. Sua jornada estava longe de terminar. Ela havia vencido uma batalha importante, mas a compreensão e o respeito pelos aspectos ocultos da natureza seriam essenciais para seu papel como guardiã. 

Com uma determinação renovada, Naara se preparou para o futuro, ciente de que a verdadeira força reside na capacidade de transformar e respeitar a natureza em seus múltiplos aspectos, sempre ouvindo e aprendendo com os seus ensinamentos profundos. 

A floresta ficou em silêncio. Os espíritos se reuniram ao redor de Naara, reconhecendo-a como a nova guardiã sem contestação. Mas enquanto o ar se acalmava e a paz voltava a reinar, Naara se permitiu uma reflexão. 

Varkas não estava de todo errado. A natureza realmente precisava de vontade e intenção para moldar certos traços, para responder às mudanças e desafios que surgem ao longo do tempo. Ser um guardião da natureza não era apenas preservar o que existia; era também abraçar a capacidade de transformar, de criar novas possibilidades. No entanto, essa transformação só poderia ocorrer dentro do diálogo com os vários aspectos da natureza, respeitando seu ritmo e ouvindo sua sabedoria. A chave estava no equilíbrio entre vontade e ciclo, onde a mudança e a preservação se entrelaçavam, resultando em uma evolução harmoniosa. 

Naara sabia que, apesar de sua vitória, ainda havia muito a aprender. A natureza guardava muitos segredos, algumas partes dela ainda inexploradas, poderes desconhecidos que poderiam representar novos perigos. Ela sentia que espíritos mais antigos e poderosos aguardavam nas sombras, observando, esperando o momento certo para se revelarem. Para enfrentar o que estava por vir, Naara teria que se tornar ainda mais sábia, fortalecendo não apenas sua conexão com a natureza, mas também a compreensão das forças e intenções que permeiam o mundo ao seu redor. 

E assim, como a nova protetora de Lymendra, Naara seguiu em frente, sabendo que sua jornada estava longe de acabar, pois o verdadeiro poder residia na união da natureza e da vontade consciente, uma dança eterna entre criação e transformação. 

FIM!

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Parte II – DARQUINHA: Capítulo IV - Desespero

Aquela tão esperada criança nascera no final do mês de agosto. Numa noite fresca, de brisa leve e céu enluarado, mesmo após um dia quente, seco e muito...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aquela tão esperada criança nascera no final do mês de agosto. Numa noite fresca, de brisa leve e céu enluarado, mesmo após um dia quente, seco e muito abafado, comum para aquela época do ano, em se tratando de regiões como o Cerrado, que, em determinadas épocas, tem um clima que muito se assemelha ao de um deserto, devido ao calor intenso e à baixa umidade relativa do ar. Gardênia chegara ao mundo esbanjando saúde e disposição. Quando fora entregue ao pai, estava aos berros, demonstrando uma intensa vontade de avisar ao mundo de sua chegada. Sua mãe, que tivera um parto bastante agonizante, estava prostrada na cama, recebendo os cuidados da velha cigana, que a acalentava, retendo sua cabeça junto ao colo. 

Uma parteira local – Dona Judith, esposa do Senhor Juraci Fonseca, o afamado Seu Jura, que viria a se tornar um grande amigo da família – fora chamada para auxiliar naquela delicada situação, uma vez que Madame Staell já não conseguia mais ver nem mesmo a luz do sol sobre sua fronte. O trabalho de parto durara desde a madrugada daquele dia, quando Darquinha sentira os primeiros sinais de que uma nova vida estava para chegar. Sem maiores discussões, Thomás foi em busca de Dona Judith, que já havia se acertado anteriormente com a velha cigana e estava de sobreaviso para, a qualquer hora, estar a postos e logo ir em socorro daquela franzina parturiente. O fato de Darquinha ter sido acometida por uma gestação bastante conturbada muito aterrorizou a velha cigana, que tinha muito apreço por sua protegida. No entanto, tudo terminou bem. Gardênia nascera forte e saudável. 

A alegria pela chegada de uma nova vida só não foi maior porque a jovem mãe ficou prostrada por quase uma semana. Darquinha sentiu intensamente a gestação e os efeitos do parto. Todos que a observavam de perto chegavam quase à mesma conclusão: a bela criança que ela trouxera ao mundo sugara-lhe parte de sua energia vital. Suas forças se resumiam praticamente a alimentar a própria filha, que, proporcional à sua vitalidade, tinha um apetite bastante voraz. Fato esse que tornou necessário complementar sua alimentação com o leite de uma cabra que havia parido recentemente, doada à família por Seu Jura, a pedido de Dona Judith, que os visitava todos os dias, acompanhando de perto o restabelecimento de sua mais recente paciente e o desenvolvimento da graciosa Gardênia. 

Com o tempo – esse fator que tudo resolve e tudo amaina – Darquinha foi se restabelecendo aos poucos e logo já estava de pé novamente, quase sempre vista com Gardênia nos braços. A bem da verdade, aquela bela criaturinha de olhos claros ficava sempre passando de um colo para o outro. Thomás parecia não se conter de tanta alegria e satisfação pela adorável filha, que lhe dava um prazer imensurável. Madame Staell – cada dia mais senil – que fazia as vezes de avó, e até mesmo batizara a criança segundo os velhos costumes ciganos, era puro regozijo quando segurava Gardênia nos braços. Vez por outra, a fazia dormir cantando, junto ao seu ouvido, velhas canções ciganas em romani, língua essa que somente ela, naquela casa, sabia... 

Com o fim do ano se aproximando, a estação das chuvas logo chegou, trazendo frescor para os dias e um estonteante verde para a relva, tornando os dias mais coloridos e as noites mais agradáveis. Ao final de cada tarde, a varanda daquela alegre e abençoada casa era brindada, muitas vezes, com um banho dos últimos raios de sol que caíam obliquamente, trazendo um preguiçoso colorido na violenta descida de um sol poente. Ou, vez por outra, com o frescor da chuva que caía de forma tranquila e acolhedora. A velha cigana e Thomás – que naquele momento já era chamado por quase todos de Pai Thomás, devido à sua corujice com a filha – ficavam sentados na varanda até bem tarde, observando a vista ao longe e discutindo sobre diversos temas. Ambos tinham muito conhecimento e experiências a compartilhar um com o outro. 

Além dos diversos assuntos que sempre eram tratados, Pai Thomás retomara um de seus antigos ofícios e, vez por outra, aceitava a encomenda da confecção de um chapéu, que era feito naquela hora, pois a lida diária tomava-lhe quase todo o tempo durante o dia. Sempre acompanhando todos aqueles acontecimentos, após findar suas atribuições domésticas do dia, encontrava-se Darquinha, balançando preguiçosamente numa acolhedora rede e, como não podia deixar de ser, tendo a filha aninhada junto ao peito, logo adormecia em sono profundo. 

No marasmo da vida no campo, sempre havia tempo e disposição para longas discussões sobre diversos assuntos. A monotonia da vida dava-lhes oportunidades para profundas reflexões a respeito dos inquietantes temas da humanidade, tais como a fé, a ciência, o amor, o tempo, mas principalmente o conflito sobre a origem da vida e seu inevitável fim: a morte... Após perder a visão por completo, a cigana já não tinha tanta alegria como dantes e muito menos a disposição de outrora, acabando por assumir uma postura bastante nostálgica e melodramática, sempre retornando as discussões às questões fundamentais sobre as inquietações humanas ponderadas por todos aqueles que sofreram grandes injustiças. Esses debates eram de uma profunda reflexão, que sempre retornavam ao grande tema dos grandes pensadores de outrora: Quem somos nós diante da vida... 

Certa noite, Pai Thomás, ao perceber que a velha cigana estava bastante calada e muito reflexiva, ousou questionar Madame Staell se, de alguma forma, ela sentia saudades da vida na cidade, se estava feliz com a vida que levava agora ali, na quietude do campo, ao lado deles. Perguntou se algo lhe faltava ou se algum agravo ou dissabor a incomodava... 

A cigana, que permaneceu em silêncio por um instante, com os olhos esbranquiçados pela cegueira, mirados no horizonte como se pudesse enxergar algo ao longe, após um grande suspiro, respondeu: 

– Nada me falta nesta casa, e nenhuma coisa me incomoda aqui. Sou bem tratada e respeitada de uma forma que há bastante tempo já não era. Devo dizer que cada lugar tem seus encantos. Nas grandes cidades, há todo o conforto que o progresso proporciona. Por lá, é dito que o sertão é um lugar ermo e atrasado, povoado por pessoas brutas e ignorantes. Um lugar onde inexiste o progresso e não há recursos médicos, onde ainda reinam a ignorância e o misticismo. No entanto, o que vejo é um paraíso. Um lugar de paz e quietude, onde reinam a amizade e a camaradagem mútua. Se, por um lado, a cidade olha com menosprezo para o campo, o sertanejo vê a cidade com certo receio, como um lugar de individualismo, onde é cada um por si e Deus por todos. De forma alguma o sertanejo menospreza a cidade, pois sabe que é um lugar de ciência e novas descobertas a cada dia, muitas das quais logo chegam ao campo, trazendo espanto e alegria para a humilde lida diária de pessoas simples. No entanto, ele a teme por ser um lugar de comércio, onde tudo se vende e tudo se compra. Um lugar onde até mesmo a amizade é uma mercadoria de preço alto... 

Após mais um breve momento de reflexão e silêncio, a cigana continuou: 

– Entre a cidade e o campo há uma linha tênue que divide o progresso da inocência, separando esses dois mundos em partes bastante antagônicas. Ambos têm seus encantos. No entanto, segundo um antigo rei bastante sábio: “Há um tempo para tudo nesta vida...”, e meu tempo na cidade se findou. Para uma pessoa da minha idade e com minha experiência de vida, a cidade já não mais me seduz como antigamente. A meu ver, atualmente, nas grandes cidades, há uma onda de ceticismo e de generalizada descrença entre as pessoas. Uma verdadeira falta de confiança em tudo e em todos. Um misticismo grosseiro, disfarçado de progresso, afasta as pessoas das crenças e dos meios religiosos de seus antepassados. Remédios, benzimentos, bênçãos e preces já não recebem mais o crédito de outrora. A cidade vive um tempo de pouca fé, onde reina a incredulidade tanto nas questões espirituais quanto na própria humanidade. 

Hoje, o que me resta é poder usufruir dessa paz que só o campo pode me oferecer. Devo lhe confessar que, ao perceber que Darquinha está em boas mãos, sei que posso descansar em paz. Sei que, ao me ver sorumbática, talvez isso lhe cause algum desconforto, ao pensar que não estou feliz. Mas quero que saiba que estou vivendo uma velhice plena; nem mesmo minha cegueira me incomoda mais. Mesmo não podendo contemplar Gardênia com meus próprios olhos, ainda assim posso vê-la com o meu coração quando toco sua face e ainda posso ouvir seu riso fácil... 

Essa foi a última conversa que aquela varanda presenciou entre aqueles dois grandes pensadores. Na madrugada daquela mesma noite, Madame Staell deu seu último suspiro, prestando contas ao infinito ao entregar sua vida ao desconhecido. Morreu em paz, sem nada reclamar; apenas se deitou e, ao raiar os primeiros sinais de um novo dia, já não vivia mais. Depois de quase três anos vivendo ali, naquele ermo lugar, eles conseguiram cultivar a amizade de todos que viviam ao redor. Madame Staell era visitada quase sempre por aqueles que ansiavam pelos místicos e sábios conselhos que ela dava. Muitos tinham muita fé na sabedoria da velha cigana, que logo, sem muito esforço, conseguiu angariar o respeito e a amizade de uma grande quantidade de admiradores. Seu velório foi um grande acontecimento na região; a casa de Pai Thomás ficou tomada de pessoas durante todo o dia e pela noite afora, até o momento em que o cortejo levou o corpo da outrora belíssima cigana Sarah – que abalara muitos corações em sua juventude – agora finada Madame Staell, para seu último descanso. 

Como era sua tutora e conselheira, e desde que Darquinha ficara órfã fazia às vezes de mãe, em muitas ocasiões, em momentos de intimidade, Madame Staell sempre conversava com Darquinha por meio de gestos sobre diversos assuntos. Dentre eles, estava o tema de sua própria passagem, quando isso viesse a acontecer um dia. Embora Darquinha fosse bastante avessa a esse tipo de conversa, a cigana insistia, dizendo que aquela era uma certeza inquestionável; por mais que pudesse ser adiada, de forma alguma poderia ser evitada. Com gestos carinhosos de afago e conforto, ela dizia à sua amada e protegida que o fim sempre chegava para todos e que a única coisa ao nosso alcance era tentar estar preparados para esse momento tão doloroso. Tal como o sol que se põe todos os dias e renasce ao amanhecer, da mesma forma, todos os dias alguns morrem para que outros nasçam. Não se deve temer aquilo que é inevitável; o melhor a se fazer é resignar-se com as imutáveis leis da natureza. Quando a areia da ampulheta de um ser está se esgotando, nada mais pode ser feito. O Tempo é um deus impiedoso e reina sobre tudo e todos... 

A pedido da própria cigana, que mais de uma vez havia deixado bastante explícitas a Darquinha algumas instruções sobre o ritual fúnebre de seu povo, seu corpo foi lavado com ervas aromáticas e, logo após ter sido perfumado com óleos especiais, foi vestido com sua melhor roupa, previamente escolhida por ela mesma. Também, pouco antes de morrer, Madame Staell entregou a Darquinha seus pertences mais valiosos como herança, separando para si apenas algumas joias, com as quais foi bastante explícita ao demonstrar seu desejo de que esses adornos deveriam enfeitar seu corpo para sua última viagem. Por fim, juntamente a essas joias, entregou-lhe uma moeda de ouro de aparência bastante envelhecida, que deveria ser colocada em seu caixão para que ela pudesse pagar a travessia do grande rio que separa a vida da morte... 

Após o enterro de Madame Staell – que fora sepultada num verdejante prado à sombra de uma frondosa aroeira, próxima à casa onde vivera seus derradeiros anos – Thomás, tendo Gardênia já com dois anos ao colo e acompanhado de Darquinha, retornaram cabisbaixos para sua agora silenciosa morada. Apenas vez por outra, o silêncio era quebrado pela algazarra de Gardênia, que nos primeiros dias corria de um canto a outro chamando pela Baboo – nome carinhoso pelo qual ela chamava a velha cigana. Esse fato causava copiosas lágrimas em Darquinha, que sentia pesarosamente a perda de sua querida protetora. A morte da velha cigana trouxe grande tristeza para aquela casa. Gardênia perdera sua Baboo, Darquinha, sua protetora e fiel confidente de tantos anos, e, por fim, Pai Thomás sentia bastante a ausência de sua companheira de inúmeras noites de reflexões, ensinamentos e incontáveis histórias de um tempo e uma terra que ele não conhecia. 

A cigana, que na maior parte do tempo não tinha nenhuma outra pessoa com quem conversar, fazia de Pai Thomás seu melhor ouvinte. Não apenas despejando-lhe palavras sem sentido e proveito prático, mas também transmitindo-lhe grandes ensinamentos de sua secular cultura. Pai Thomás, que além de companheiro para longas noites de profunda reflexão filosófica, tornara-se também um fiel aprendiz, demonstrando grande interesse pelos místicos ensinamentos sobre os misteriosos conhecimentos da sabedoria cigana. Depois de muitas injustiças sofridas e após anos de decepções, imaginando que nada mais pudesse abalar seus sentimentos, a perda de Madame Staell trouxe a Pai Thomás um dolorido pesar. Porém, a tempestade que se anunciava para breve sobre aquelas paragens ainda não havia chegado; a perda da cigana era apenas uma brisa leve em comparação ao que estava por vir. 

Os místicos e misteriosos ensinamentos, aprendidos com bastante ênfase e maestria, fizeram com que a casa deles continuasse sendo frequentada pelas mesmas pessoas que vinham em busca dos conselhos e favores místicos da agora falecida cigana, e que agora buscavam obter de Pai Thomás o alento para seus dissabores e incertezas. Thomás, que outrora fora chamado carinhosamente de pai devido à sua progenitura, agora era chamado de Pai Thomás por outros motivos e assim ficaria conhecido até o fim de seus dias... 

A tristeza pela perda da sábia anciã, que de alguma forma contribuiu para a felicidade daquele improvável casal, foi se amainando aos poucos com o passar dos dias. As obrigações do cotidiano, as novidades que Gardênia – uma menina esperta e cheia de vida – aprendia a cada dia, mas principalmente o tempo, tornaram a perda da velha cigana mais suportável, a cada dia um pouco menos dolorosa. Logo tudo voltaria ao normal, e os dias se sucederiam de forma comum, como deveria ser na vida de qualquer família. No entanto, parece que existem pessoas que nascem com o sofrimento já inserido no mais profundo de seu ser. De certo modo, pessoas desassistidas pela roda da fortuna tendem a se afinizarem mais facilmente. O sofrimento torna-se um elo muito forte entre aqueles que penam certas adversidades. 

Quando Pai Thomás – ainda um negro errante – conheceu Darquinha, algo inexplicável aconteceu dentro dele, um sentimento que até então ele não conhecia. E quando a olhava – às vezes, mesmo que de soslaio – seu peito se apertava a ponto de lhe faltar o fôlego, e foi nessa época que ele soube que sua vida estaria para sempre vinculada a ela. Que sua própria felicidade dependeria do fato de vê-la sempre feliz. Esse sentimento lhe permitiu perceber que havia algo bastante errado com sua amada esposa. Não era só a perda da cigana; havia algo mais. O semblante de Darquinha estava diferente, como se ela padecesse de um sofrimento profundo, que a todo momento tentava esconder. Por diversas vezes, ele tentou, com gestos de carinho e afago, questioná-la sobre o que havia de errado. Ela, por sua vez, sempre gesticulava em negativo, tentando convencê-lo de que tudo estava perfeitamente bem, que era apenas saudade de Madame Staell. 

Já havia passado quase dois anos desde a morte de Madame Staell quando Dona Judith – que se tornara visita cativa na casa de Pai Thomás – certo dia o chamou de lado e disse-lhe que havia algo errado com Darquinha. Relatou-lhe que Darquinha sofria de terríveis dores de cabeça a ponto de seus ouvidos sangrarem, mas que ela lhe rogara desesperadamente que nada fosse relatado a ele. No entanto, ao perceber que a cada dia o sofrimento dela se tornava maior, Dona Judith, como mulher experiente, achou melhor esclarecer tudo a Pai Thomás, a fim de que algo pudesse ser feito. A tempestade havia chegado e fazia seus primeiros estragos. Pai Thomás percebeu que a cada dia Darquinha estava mais pálida e demonstrando profundo padecimento. Ele tentou tudo o que havia aprendido com a velha cigana, mas parecia que nada adiantava. De certo modo, até se arrependeu de não ter aprendido mais, lembrando-se das palavras da cigana: “... Conhecimento e saberes nunca são demasiados, e, em algum momento, aquilo que se aprende poderá ser útil de alguma forma. No entanto, mesmo com todo o conhecimento do universo, um verdadeiro sábio tem o discernimento necessário para saber que algumas coisas não são possíveis...”. 

Os dias foram se sucedendo, e o sofrimento de Darquinha aumentava cada dia um pouco mais. Seus ouvidos, que outrora apenas sangravam, começaram a expelir um pus denso e fétido, como se algo dentro dela estivesse apodrecendo. Como ela mesma não podia se ouvir, seus gemidos de dor eram tão terríveis e lamuriosos que causavam um desesperador sentimento de piedade em qualquer pessoa que presenciasse toda aquela angústia. Como aquele sofrimento se agravava a cada dia, deixando Darquinha acamada, Dona Judith já não mais se afastava de seu lado, tentando de todas as formas amenizar seu sofrimento, ajudando-a em suas necessidades íntimas, bem como nos afazeres domésticos. Gardênia também já estava sob cuidados alheios, pois Pai Thomás já não era mais senhor de si. Em angustiante desespero, percebeu que de forma alguma poderia sobreviver à morte de sua amada e estava disposto a fazer qualquer coisa para salvá-la. 

Numa determinada noite de calor intenso, o sofrimento tomou conta de vez daquela casa. Darquinha, que a cada dia tinha o semblante mais doentio, perdia um pouco mais de sua vitalidade de forma gradativa, e em menos de uma semana tornara-se uma criatura grotesca de ser contemplada, um ser com um pé na sepultura, já de tal forma tão decrépita que ninguém seria capaz de dizer se ela estava saindo ou entrando em sua última morada. Sua dor era tamanha que ela gemeu a noite toda, sem poder dormir um minuto sequer. Thomás velou por ela a noite inteira, vendo sua amada padecer de tão grande dor. Ao contemplá-la de perto, pôde perceber quão grave era a situação de sua esposa. Era como olhar para a morte face a face, tão de perto que seria facilmente possível beijá-la nos lábios. Depois de horas de terrível angústia e sofrimento, o dia enfim chegou, mas passou depressa, dando lugar a outra noite de agonia, que não foi tão diferente da anterior. 

As coisas acontecem em três níveis principais na experiência humana: boas, ruins e terríveis. À medida que se desce na crescente escuridão em direção ao terrível, fica cada vez mais difícil discernir essas subdivisões. A condição de saúde de Darquinha já estava no nível terrível... Depois de três noites seguidas, praticamente sem pregar os olhos, num sentimento de terrível impotência por nada mais poder fazer, Pai Thomás, em murmurante monólogo, se perguntava: 

– Quanto tempo sua amada ainda haveria de sofrer antes de chegar seu fim? Quanta lástima ainda ele teria que enfrentar? E o pior de tudo, como seria sua vida sem a razão de seu viver? 

Num átimo de desespero, suas mãos começaram a tremer, e de repente ele se sentiu tomado por uma profunda compaixão e uma raiva cega contra toda aquela pestilência, aquela dor constante e aquele infindável sofrimento; a fragilidade de um corpo humano contra a corrupção monstruosa e abominável da morte. Dentro dele revezavam-se terríveis arrebatamentos de exaustão e desespero. Uma explosão de incontrolável cólera e pensamentos histéricos tomava o controle de seus nervos. E, muito próximo a um ataque de fúria, ouviu a sábia voz de Dona Judith atrás de si. 

– Tenha fé, Thomás. O senhor é um homem sábio e possuidor de grande raciocínio. Sabe melhor do que ninguém que é justamente nos momentos mais sombrios que brilha a verdadeira luz da esperança. Não deixe o ódio tomar conta de seu coração. O desespero cega as pessoas e as torna surdas e cegas perante as mensagens que o infinito nos envia. Abra sua mente e abrande seu coração. Lembre-se de que para tudo nesta vida há uma razão. Creia que Deus, em sua infinita bondade e misericórdia, tem um propósito para tudo isso. Seja forte e acredite! Nesse momento, sua esposa precisa de sua força e de sua fé acima de qualquer outra coisa... 

Suspirando profundamente para controlar sua fúria e tentar não ser grosseiro com pessoa tão prestativa e bondosa, Pai Thomás, escolhendo as palavras, respondeu: 

– A crença em Deus ou numa força superior é algo bem maior do que simples palavras. É uma questão de um raciocínio privilegiado, pois se trata de entender o amor divino pela humanidade. Como posso aceitar essa verdade se não consigo ver esse amor dentro de minha própria casa? Nesse momento de desespero, parece que já não sei mais nada. Nem mesmo qual é o meu dever. Como posso cumprir minhas obrigações, se já nem sei quais são... 

A alma de Pai Thomás não estava apenas triste e com medo, mas aterrorizada, querendo se esconder no lugar mais profundo de suas entranhas, como uma criança abandonada numa floresta escura e desconhecida, numa noite de tempestade. Mesmo assim, ele ainda conseguiu forças e disse: 

– Qualquer homem é fraco perante aquilo que ele não pode compreender. Sei que, diante de uma situação sem solução, é preciso buscar forças pelo menos para se resignar. Mas, perante o mais profundo desespero, como saber qual atitude é a mais conveniente? Onde posso conseguir forças para enfrentar a mais inquietante das questões da humanidade? 

Tomada de grande compaixão por toda aquela situação, Dona Judith lhe respondeu. 

– Sei que está com medo. Não há vergonha no medo; o que verdadeiramente importa é o modo como enfrentamos nossos medos... O senhor deve estar preparado para o que está por vir. Sei que a morte é extremamente triste, sem dúvida, e talvez bastante incompreensível para os que ficam. No entanto, à sua maneira, a morte é o fato mais natural para todo aquele que vive. De certa forma, é até mesmo um alento para aqueles que padecem de algum mal irremediável, pois pode trazer o conforto que a vida não pode mais oferecer. A vida é uma inexorável luta entre o bem e o mal, onde o bem nos oferece aquilo que nos é necessário na hora devida, enquanto, por sua vez, o mal, de forma bastante sedutora e imediata, tenta nos presentear com aquilo que desejamos. 

Já não conseguindo mais processar nenhuma palavra coerente, pois o que dizia já não fazia mais sentido, ele, que não tinha mais forças para responder qualquer coisa que fosse, colocou suas enormes mãos sobre o rosto e chorou de forma bastante dolorida. Pai Thomás certamente não seria o primeiro homem a se deparar com o obscurantismo do abismo das incertezas após terríveis momentos de sofrimento. E ali, perdido entre suas lágrimas, chegou a desconfiar de sua própria sanidade, perguntando a si mesmo se todo aquele sofrimento chegaria ao fim em algum momento... Percebendo o tamanho de seu desespero, deixou sua casa e saiu caminhando sem destino certo, cambaleando trôpego como se fosse um bêbedo entre a relva. 

Depois de um longo dia de calor escaldante, a noite chegou clara e límpida. A lua crescente brilhava radiante num lindo céu de estrelas pintalgadas, tão radiante como se não tivesse de contemplar nenhuma desgraça. A relva, refrescada pela leve brisa da noite, estava em plena exuberância, exalando infinitos odores diferentes. Pai Thomás foi em busca de um pouco de paz. Não queria mais ouvir nada que Dona Judith pudesse lhe dizer, nem mesmo responder qualquer coisa que fosse. Ao longo dos anos, descobrira que o silêncio, por vezes, recompensa bem mais do que certas perguntas. Caminhou por quase uma hora pela relva fresca, ao som das criaturas da noite em sua permanente serenata, até o momento em que, já cansado de tanto andar, se prostrou de joelhos. 

Naquele instante, de joelhos na relva e de braços abertos aos céus sob o silêncio das estrelas, um grito enorme escapou de dentro dele. Um som lamurioso e angustiante, provindo do fundo de sua alma, suficientemente alto para ecoar pelas árvores e certamente forte o bastante para acordar qualquer criatura deste mundo, seja dentre aqueles que vivem ou até mesmo alguns outros. Com aquele som angustiante, a floresta momentaneamente se calou por completo. No entanto, um farfalhar de folhas se movendo foi ouvido por ele, e, do meio das sombras, ela surgiu como uma luz nas trevas. 

Quando Pai Thomás olhou ao seu redor, viu uma bela mulher como nenhuma outra que já tivesse visto. Uma tiara cravejada de joias brilhava entre os seus longos e cacheados cabelos dourados, que ali, na escuridão da noite, pareciam brilhar ao sabor do vento. Dentre as brilhantes pedrarias em seus cabelos, destacavam-se belíssimas esmeraldas que combinavam perfeitamente com o verde de seus olhos, que também pareciam emitir um brilho hipnotizante. Essa estonteante criatura trajava um alvíssimo vestido de cor azul-clara, de um tecido de tamanha transparência que quase todo o seu corpo desnudo era possível de ser contemplado. 

Antes mesmo de Pai Thomás poder dizer qualquer palavra, aquela bela criatura lhe estendeu uma delicada mão de dedos afilados que terminavam em unhas bem cuidadas, pintadas num vermelho cor de carmim, tal como era a própria cor de seus lábios, que também emitiam um brilho de intensa volúpia. Mesmo na penumbra da noite, ele pôde perceber que a palma daquela mão delicada era fria e totalmente lisa. Não havia ali nenhum traço das linhas do destino. Talvez porque ela fosse uma espécie de criatura sobre a qual o destino não tinha poder. Ou, quem sabe, fosse ela mesma o próprio destino. Pai Thomás, ainda de joelhos, a contemplava em completo fascínio, quando a ouviu dizer numa voz doce e sedutoramente agradável: 

– Suas preces foram ouvidas, angustiado ser. 

– Não fiz nenhuma prece – respondeu Pai Thomás, ainda de joelhos. 

– Qualquer ato pode ser uma prece, desde que seja desempenhado de forma pura e inocente, principalmente se for em benefício de alguém que tristemente padece... 

Levantando-se de forma bastante cautelosa e ainda fitando a criatura nos olhos, ele perguntou: 

– Apenas diga-me, quem é você? 

– Na verdade, não é quem sou, mas o que sou! Por ora, basta que saiba que sou tão antiga quanto as primeiras trevas, de uma época tão remota que nem a luz ainda brilhava... Sou aquela que liberta os que padecem nas garras do destino. Sou a paz para os que vivem em tribulação, descanso para os desesperados. Sou a solução para toda e qualquer questão. Sou a sorte do apostador que nada mais tem a perder. Tudo é possível para quem está disposto a pagar. No entanto, nada neste mundo nem no outro é dado de graça; tudo tem o seu preço. Se estiver disposto a pagar um preço justo, qualquer desejo seu posso realizar. 

Em completo desespero e vendo uma possível luz no fim do túnel, Pai Thomás respondeu: 

– Qualquer coisa para findar com todo o sofrimento que aquela que mais amo padece. 

A bela criatura, utilizando-se ainda de meigas palavras, mesmo que de forma bastante astuta como a velha serpente outrora fizera, tentou dissuadi-lo de seu desesperado desejo. 

– Cuidado, lamurioso ser, com aquilo que desejas. Existem preços muito altos para um homem pagar, dívidas duras demais para serem saldadas em uma única existência. 

– Nada neste mundo cruel pode ser mais valioso do que o fim do terrível sofrimento daquela que amo mais do que minha própria vida. A eternidade de minha alma é um preço mais do que justo pelo fim de toda a dor daquela que deu um verdadeiro significado à minha existência. 

Ao terminar de pronunciar essas palavras, Pai Thomás percebeu que algo terrível havia alterado o ambiente ao seu redor. Um medo terrível tomou conta de todo o seu ser ao perceber que havia trevas ao redor. Nem mesmo o céu, que outrora estivera límpido e estrelado, era mais possível de ser contemplado. Um cheiro fétido empesteava todo o ar, e seu corpo se arrepiou por completo ao ouvir as últimas palavras daquele estranho ser. 

– Está consumado! 

A voz que se ouviu, num quase sussurro, soava mais como o grasnido seco e raspante de alguma coisa há muito tempo morta, proveniente de uma criatura que jamais poderia ser contemplada pelos olhos dos vivos, pois certamente tal visão levaria qualquer um à mais completa insanidade ou até mesmo à morte para aqueles de espírito mais sensível. Pai Thomás não chegou a tanto, mas, como estava com os nervos bastante abalados, ao contemplar a criatura que estava diante dele, teve um grande sobressalto, perdeu os sentidos e foi tomado por um sono profundo, onde sonhou que caía num infinito abismo... Porém, mesmo nos sonhos, não é possível cair para sempre, mas Pai Thomás queria continuar caindo, se possível para todo o sempre, pois sabia o que o aguardava no final de sua longa e angustiante queda. 

Depois do que pareceu ser um longo tempo, despertou daquele inquietante sonho. A noite já estava com o frescor que anunciava as horas tardias. Uma brisa fresca soprava de tempos em tempos. A relva adormecida era iluminada pela luz de uma meia-lua que já se encaminhava para o poente. No céu, as estrelas ardiam nítidas e silenciosas, reinando sobre um firmamento de infinitas dimensões. Rapidamente, ele se levantou e, sem mais delongas, retornou a passos rápidos para casa, como se, no mais profundo de seu ser, soubesse que nada mais seria como antes. Mesmo estando ainda ao longe, ao ver a estranha movimentação na porta de sua casa, soube que o pior havia acontecido. Nem foi necessário perguntar o que ocorrera, pois sabia ele que qualquer um que se dispõe a fazer uma pergunta deve estar sempre preparado para qualquer resposta. 

Pai Thomás foi tomado por um terrível desespero, e, por mais que tentassem de todas as formas possíveis lhe explicar que Darquinha estava morta, ele se negava a acreditar. Insistentemente, diziam-lhe que ela agora estava em paz e que essa era a ordem natural das coisas. Para um ser vivo, a morte era inevitável. Ele, que praticamente já não era mais senhor de si, foi o único que viu quando uma graciosa criança de belos cabelos encaracolados e vestidinho rodado saiu dançando da alcova onde o corpo de Darquinha repousava. Passando perante ele em direção à porta de saída, ainda bailando alegremente, ela disse com uma doce e melodiosa voz que somente ele pôde ouvir: 

– Seu desejo foi realizado. Sua amada não padece de mais nenhum sofrimento...

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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A Casa Torta

Certo lugar, ao sul do país, numa destas regiões chamadas serras (abrigo de pequenas cidades e população reduzida), foi palco, não há muito tempo...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Certo lugar, ao sul do país, numa destas regiões chamadas serras (abrigo de pequenas cidades e população reduzida), foi palco, não há muito tempo, de uma inquietante descoberta que, se não causara certo rebuliço nos jornais, ganhou considerável destaque entre os nichos interessados — continuando, muito provavelmente, sendo discutida nos fóruns mais recônditos da internet. 

O acesso a essas informações — que certamente devem arregalar os olhos de quem as obtém — eu alcancei de forma quase involuntária, certa vez em que varava a madrugada em claro, em busca de entretenimento. Minha primeira sensação (lembrando agora daquela experiência inaudita) foi a de estar diante de uma mera ficção urbana, de um relato possivelmente retirado, com requintes de criação regional, de algum filme estrangeiro… Para minha surpresa, a leitura de tais informações, naquela vigília, me transformou em um investigador tão inquieto dos acontecimentos que não sosseguei enquanto não desvendasse mais a fundo a veracidade ou não daquela história. 

Encontrei mais detalhes sobre o caso ao conseguir comunicação direta, via bate-papo, com uma das supostas testemunhas que estiveram no local, perto da descoberta… Por conta disso, para não expor nenhuma das partes envolvidas e evitar problemas legais, esse interlocutor me pediu total privacidade no testemunho descrito, me proporcionando, em contrapartida, a oportunidade de conhecer por completo (ou até onde ele sabia) a mais "aterradora" verdade da ocasião — considerando-me, inclusive, uma garantia de que a história vivenciada por ele teria a quem chegar... 

*** 

M... tinha chegado à cidade como um turista, assim como muitos brasileiros que visitam aquela região em determinadas épocas do ano. Como naquele mês estava para acontecer um famoso festival que marca o nome da cidade, ele me disse ter unido o útil ao agradável e feito um esforço para conseguir meios de se sustentar até o final das celebrações. Tirando de onde podia os recursos para tal empreitada, pedindo aqui e ali para alguns parentes, em poucas horas se viu apto a não se preocupar mais em como iria dividir a despesa entre o turismo e os futuros gastos para presenciar o festival, tendo apenas de planejar, então, seus próximos passos no passeio. 

Numa das andanças pela cidade, completamente rendido aos atrativos e ruas que lembravam uma paisagem europeia, M... dizia ter se enveredado para longe do centro, pois, à medida que caminhava (e convencido de que a segurança vista ali era das mais propícias à atividade), diminuía a presença de outros pedestres, limitando-se a ver apenas moradores em suas janelas ou pequenos comércios abertos, com pouca ou nenhuma clientela. 

Dando uma olhada para o final das ruas onde se encontrava, na esperança de ver uma novidade que valesse ou não uma aproximação maior, M... descartava ou adicionava mais um passo em direção aos recantos da cidade, sentindo-se alguém disposto e convidado a desvendar o que quer que fosse sob o clima agradável do dia igualmente aprazível. 

Gastando assim os créditos de um abençoado turista, sem se preocupar com o dia seguinte (estava de férias), foi então que houve uma virada nos rumos aparentemente imperturbáveis da viagem. Contornando uma imensa casa, do autêntico estilo “enxaimel”, bastante visto na região, M... prendeu o olhar numa estrutura que destoava de tudo o que ele havia presenciado desde a chegada. 

Visivelmente inclinada, com o teto formando um ângulo quase colaborativo com a árvore vizinha ao empreendimento, avistava-se uma residência ou galpão, também construído no estilo tradicional. De onde estava, parado e surpreso com a observação incomum, M... diz ter esquecido até mesmo de fotografar a imagem, tamanha a estranheza do que se exibia naquela direção. Não tendo como ignorar o absurdo que seus olhos viam — até então maravilhados com toda a organização e asseio da cidade —, tudo o que ele fez foi avançar até lá para saber se alguém ou algo explicava o porquê da assimetria... 

Para sua surpresa, segundo ele me disse, uma viatura policial cruzou seu caminho quando estava prestes a se dirigir diretamente para aquela estranha arquitetura. Vendo sair de dentro do carro um policial completamente equipado, M... afirmou ter sentido até medo, erguendo os braços como forma de comprovar sua inocência e dando a entender, em seguida, que era apenas um turista de passagem pelas ruas daquela região. 

Disposto a ouvi-lo e exibindo nada mais que a preocupação natural da profissão, o policial tratou apenas de perguntar seu nome e saber as intenções de M... por aquelas ruas. Respondendo o óbvio, suas palavras, de acordo com o que me confessou, foram acompanhadas por um singelo aceno em direção àquela estranha casa, que o oficial logo tratou de observar. Perdendo alguns segundos para tentar compreender a peculiaríssima visão, os dois agora estavam absorvidos pela tortuosidade da casa, buscando alguma explicação plausível para o que se exibia diante deles naquela rua. 

M... cogitou até sugerir ao policial que fossem os dois até lá para saber mais sobre a razão do fato; contudo, segundo suas palavras, o oficial parecia não acreditar que houvesse "nada demais", optando por indicar outro caminho ao visitante. Com um sorriso no rosto, o policial perguntou a M... se ele "não curtia cinema", pois naquela noite aconteceria a principal cerimônia a que concorriam muitos famosos, sugerindo que ele corresse para não perder um lugar para observar — "nem que fosse de longe". 

E assim fez M..., dando as costas e partindo, sem deixar de dar outra olhada para aquela pequena, mas marcante paisagem que se alojara interrogativamente em sua cabeça. 

Sabendo, pela boca do policial, da festa que estava para acontecer, M... disse ter simplesmente esquecido do ocorrido e partido numa carreira bastante apressada em direção ao centro da cidade. Em nosso bate-papo, lembrou ainda ter sentido a mesma calma e silêncio que havia ao chegar ali: poucas pessoas, pouco barulho naquelas ruas, menos até do que o presenciado horas antes. Quanto à casa, jurou não ter imaginado nada além de uma proposital construção, feita para atrair moradores locais ou turistas. O teto bastante inclinado, sugerindo um quase desmoronamento do material acima, possivelmente indicava, segundo ele, uma disposição particular de algum cômodo superior — agora fora do alcance de M... para ser visitado. 

*** 

Na chegada ao centro, o esperado: fotógrafos, fãs, curiosos, seguranças e muita vitrine para aqueles que fariam da noite uma lembrança inesquecível. M..., se colocando entre os interessados pela novidade da aproximação com a gente famosa, mais do que realmente desejando pertencer a determinado público, deslumbrava-se com as luzes e o vozerio da noite. Por pouco, me disse ele, não enxergou um grupo de homens fardados, todos formando um círculo ao lado de viaturas enfileiradas. 

M... se viu impelido a avançar até lá. Assim como, horas antes, havia sido impactado pela estranha imagem de uma construção “desabando”, agora, diante de um grupo de militares organizados, também era confrontado com um ímpeto de mistério a ser solucionado. Chegando perto de um dos oficiais que parecia disponível para um diálogo, M... tratou de confessar sua dúvida quanto à presença de tanta força policial ali, "certamente não necessária para um festival não tão numeroso"... 

Descrença e susto. Pavor e fraqueza. Sorte e comoção… Com essas palavras, M... esboçou para mim uma tradução do que, para ele, era impossível de acreditar. Da fala econômica e incisiva do policial, como a de quem explica um acontecimento natural para uma pessoa menos experiente, ele diz ter ouvido a trágica ironia: 

— Achamos uma casa repleta de corpos, todos colados na parede. Um maldito artista fez seu próprio troféu... 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Inconsequente Desejo

O dia parecia bastante promissor naquela bela manhã de sol, onde pássaros cantavam alegremente nas árvores pelo caminho, criando um...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Aquilo que você confunde com a loucura é apenas um excesso de agudeza dos sentidos.”  — Edgar Allan Poe 

O dia parecia bastante promissor naquela bela manhã de sol, onde pássaros cantavam alegremente nas árvores pelo caminho, criando um fundo musical primaveril, enquanto o Doutor Ulisses se encaminhava para mais um dia de enfadonho atendimento no posto de saúde, onde era médico plantonista, atuando como Clínico Geral. Ele atendia desde os casos mais simples de pessoas hipocondríacas até as situações mais complexas e terminais, mas sempre com diagnósticos muito parecidos – nove em cada dez casos, o diagnóstico era sempre virose – e o tratamento consistia em dipirona, repouso, e, nos casos de pacientes mais afoitos – ou os espertinhos em busca de atestado médico – soro na veia. A quantidade de soro dependia do comportamento do paciente durante o atendimento. Dependendo do caso, o atestado médico só era liberado após horas de medicação intravenosa – na maioria das vezes, apenas soro e nada mais. Doutor Ulisses era formado em medicina e especializado na prática da malandragem; era o tipo de pessoa que não se deixava enganar facilmente. Malandro de carteirinha, sabia quando alguém estava apenas fingindo algum tipo de mal. 

Aquele dia, em questão, era uma sexta-feira, e a recepção do posto de saúde estava apinhada de gente. Na visão de Doutor Ulisses, a maioria estava em busca de um atestado médico que lhes permitisse ficar na boemia durante o final de semana, sem ter que cumprir suas funções em seus respectivos empregos. É certo dizer que muitos ali presentes realmente estavam padecendo de algum mal, mas para o bom doutor, todos eram uns pilantras tentando enganar seus patrões. Ele sempre fazia questão de entrar pela porta da frente, cumprimentando polidamente todos que cruzavam seu caminho. Era, por sua vez, um homem fino e bastante educado com todos, sem exceção. Como todo bom malandro. 

Seu atendimento, dependendo do paciente, jamais demorava mais do que quinze minutos, a menos que fosse uma mulher bonita, especialmente se ela estivesse sozinha. Nesses casos, o atendimento era mais detalhado e bastante demorado. Contudo, na maioria das vezes, ele atendia de cabeça baixa, fazendo as perguntas de praxe, auscultava o paciente, media a pressão e a temperatura e, após alguns minutos escrevendo – sabe-se lá o quê – logo apresentava o diagnóstico. Exames eram algo raro de acontecer – em muitos casos, era o próprio paciente quem os exigia – e, quando aconteciam, o diagnóstico permanecia sempre o mesmo: virose! Por Deus ou mera sorte, nenhum paciente atendido por ele havia morrido ainda. Era, sem sombra de dúvidas, um profissional bastante negligente em suas funções. Talvez por isso mesmo pensasse que todo mundo agia como ele. Assim que chegava ao trabalho, assinava seu ponto para uma jornada entre as oito da manhã e as dezesseis horas, com duas horas de almoço. No entanto, era raro o dia em que ele retornava às suas funções após o almoço, uma vez que contava com a conivência de outros funcionários do posto de saúde, que, assim que possível, faziam o mesmo. 

Naquele dia, após vinte ou trinta atendimentos, talvez até um pouco mais, já se aproximando do meio-dia, decidiu que seu expediente se daria por encerrado assim que atendesse uma senhora que tossia quase sem parar. E, uma vez que avisara uma das atendentes que sairia para almoçar em seguida, solicitou que a humilde senhora adentrasse seu consultório. Essa, por sua vez, teve o atendimento mais rápido de sua vida. Quando questionada sobre o que a incomodava, ela relatou falta de ar, cansaço excessivo e uma tosse que não cessava com nada. Ele nem ao menos fez os exames básicos de praxe, apenas lhe deu uma receita contendo dipirona em caso de dor e febre, xarope contra a tosse e a recomendação de que parasse de fumar. A paciente, que saiu do consultório cabisbaixa e ainda tossindo muito, jogou a receita na primeira lata de lixo que encontrou e, ainda no pátio do posto de saúde, acendeu um cigarro, que, já na primeira tragada, aumentou ainda mais a tosse que lhe tirava o fôlego. Doutor Ulisses, que assistiu a tudo pela janela de seu consultório, balançou a cabeça negativamente e pensou consigo mesmo: – Como ajudar alguém que não quer ser ajudado? 

Despediu-se da atendente que o auxiliava naquele dia, sem dizer se voltaria ou não. Ela entendeu que só o veria novamente na segunda-feira, pois ele, muito gentilmente, havia lhe desejado um bom final de semana e, após retirar seu jaleco de atendimento, o colocou no cesto de roupas sujas. Decidiu que, naquele dia, iria almoçar em algum lugar no centro da cidade; depois, talvez assistisse a um filme no cinema ou, quem sabe, até mesmo fizesse um passeio no parque. Teria toda a tarde livre para si, sabendo que a enfermeira que cuidava de sua mãe só iria embora após as sete da noite, deixando sua mãe limpa, alimentada e dormindo profundamente. Ele mesmo havia prescrito a medicação que sua mãe tomava, após ter sido diagnosticada com Alzheimer. Tais remédios faziam com que sua mãe passasse toda a noite dormindo em sono pesado, quase como em coma profundo. 

Doutor Ulisses aproveitou sua tarde como se não tivesse nenhuma responsabilidade. Imaginou-se um rajá árabe, onde suas únicas preocupações fossem o cardápio do jantar e o vinho que poderia harmonizar com a comida escolhida. Almoçou em um requintado restaurante, servindo-se de lagosta com salada e um encorpado Chardonnay, que muito agradou seu paladar. Após esse grandioso repasto vespertino, saiu caminhando em busca de algo que lhe ocupasse o tempo. Foi ao cinema, mas assistiu apenas aos primeiros vinte minutos, dormindo pesadamente durante o restante do filme, sendo necessário ser acordado pelo lanterninha, que precisava da sala para a sessão seguinte. 

Ao sair do cinema, fez o que costumava fazer quase todas as noites: sentar-se em algum botequim e afogar as mágoas – que ele mesmo não tinha – num copo de bebida qualquer. Não tinha preferências por nenhuma bebida em especial; bebia qualquer coisa que lhe era oferecida, apenas tentava harmonizar com o clima: dias quentes, bebidas frias; dias frios, bebidas quentes, e assim por diante. Nos bares que frequentava habitualmente, já estava ficando manjado, pois, vez ou outra, algum paciente que não havia conseguido atendimento por falta de médico no posto de saúde o flagrava bebendo em horário de trabalho – um fato que o incomodava, mesmo que o paciente agisse com máxima discrição. Sabendo disso, decidiu que naquele final de tarde de sexta-feira buscaria refúgio em algum bar distante e desconhecido, onde certamente não seria reconhecido por ninguém. 

Após pegar um táxi no centro da cidade, pediu ao motorista que o levasse a algum bar bem distante. Deu as coordenadas de forma que seu destino ficasse do outro lado da cidade, bem longe de seu posto de trabalho. O taxista, ávido por uma corrida mais vantajosa naquela fraca tarde de sexta-feira, seguiu à risca as orientações de seu nobre passageiro e o levou a uma parte bem distante de onde se encontravam: um bairro antigo, cheio de velhas construções que davam a impressão de serem do século passado. Enormes casarões e inúmeros galpões onde, certamente, todo tipo de atividade era praticada, desde simples fábricas até empresas de importação e exportação. As ruas estavam um tanto desertas para uma sexta-feira, em comparação ao movimento da parte da cidade em que ele residia. Quando quis questionar o fato com o taxista, este lhe respondeu que ali era um lugar bastante movimentado, mas, como era um bairro operário, naquele momento as pessoas ainda estavam no trabalho. 

Por fim, chegaram a uma avenida um pouco mais movimentada e, depois de algumas quadras, pararam em frente a um animado bar, onde se lia numa placa em neon já brilhando, mesmo no clarão do final da tarde: Bar Sossego dos Amantes. O motorista, bastante orgulhoso em mostrar-se um exímio conhecedor da cidade onde trabalhava, disse por fim: 

– Aqui, doutor, o senhor poderá ficar à vontade. Não existe em toda a nossa cidade um lugar mais discreto que este. Se quiser me ligar mais tarde, quando quiser voltar para casa, fique à vontade. Nas noites de sexta-feira, eu rodo a noite toda. Poderei vir buscá-lo a qualquer hora. 

Dizendo isso, lhe entregou um cartão e, após receber a faustosa corrida, foi-se embora feliz da vida por saber que havia deixado mais um cliente satisfeito. Doutor Ulisses, ao entrar no bar, ficou realmente satisfeito, pois era um ambiente bastante agradável. Havia mesas por todos os lados, colocadas de forma estratégica para garantir privacidade a quem assim o desejasse. Contudo, ele se dirigiu ao imenso balcão de madeira maciça, que parecia caprichosamente polido. Sabe Deus se por uma caprichosa lixa ou por incontáveis braços que ali estacionaram por décadas a fio. Assim que se sentou, uma bela jovem de uns vinte e cinco anos no máximo – talvez até um pouco menos – veio logo atendê-lo. Ele ficou boquiaberto com a beleza da jovem, a ponto de momentaneamente perder a fala. Ela, já acostumada com tais reações, se apresentou, estendendo-lhe uma mão de unhas bem-feitas, pintadas num tom de vermelho, e dizendo com um belo sorriso de dentes perfeitos e num branco impecável: 

– Boa noite, nobre cavalheiro! Seja bem-vindo ao nosso humilde estabelecimento. Meu nome é Eleonor, e quero que saiba que é um prazer poder conhecê-lo. Estou aqui hoje para servi-lo da melhor maneira possível! O que vai beber? 

– Boa noite! Meu nome é Ulisses, e o prazer é todo meu! Pensei em tomar uma cerveja, mas posso beber qualquer outra coisa que você me sugerir – respondeu ele. 

– Cuidado, Senhor Ulisses! Já vi muitos homens se perderem completamente, seguindo sugestões de mulheres como eu. 

Ele de imediato respondeu: 

– Como assim? Por que mulheres como você? O que tem de errado com você? São seus belos olhos? Ou o seu sorriso encantador? 

– Atendentes de bar! Foi o que eu quis dizer. Sabemos bem como deixar um homem babando de bêbado em alguns minutos, se isso nos aprouver. Ou podemos também depená-lo por completo, servindo-lhe as bebidas mais caras da casa. Quanto aos meus olhos, obrigado pelo elogio. Mas são um presente do meu falecido pai, que perdeu a vida no mesmo acidente que deixou minha mãe inutilizada da cintura para baixo. Além dos olhos, meu saudoso pai também me deixou a sábia lição de sorrir todos os dias, em toda e qualquer situação. Ele sempre dizia: “A vida é um leque de oportunidades, devemos a todo momento aproveitá-las ao máximo!”. 

Uma enorme caneca de chope lhe foi servida, acompanhada de mais um sorriso bastante inocente. Doutor Ulisses teve a certeza plena de que se daria muito bem naquela noite, e que muito possivelmente não retornaria para casa. O ambiente foi aos poucos ficando movimentado. Havia mais duas outras garçonetes que se ocupavam dos demais clientes. Contudo, somente ela o servia. Entre uma bebida e outra, os dois trocavam algumas palavras – ele muito gentil, e ela sempre sedutora. Por volta da meia-noite, ela lhe disse que sua hora estava chegando, pois precisava ir cuidar de sua debilitada mãe. Devido à sua triste realidade, sua mãe só se alimentava depois que ela chegava do trabalho. Ele, já bastante alto devido ao excesso de bebida, disse-lhe: 

– Pensei que poderíamos beber alguma coisa depois do seu expediente. Gostaria muito de te conhecer melhor! 

– Tenho certeza de que você não iria gostar de saber quem eu realmente sou! Sou uma pessoa difícil de lidar, e além do mais, tenho minha mãe que depende de mim até mesmo para lhe levar o seu próprio alimento. Não quero lhe magoar, doutor. O senhor me parece ser uma boa pessoa. No final, eu acabaria por devorar seu pobre coração. 

Ele, que tinha uma mãe em condições semelhantes, sentiu-se ainda mais atraído por alguém que se preocupava em levar o alimento para casa antes de qualquer coisa, preocupando-se em manter a mãe bem cuidada, em detrimento de seu próprio lazer. Naquele momento, decidiu que aquela bela jovem de olhos claros e belos cabelos ruivos como um entardecer tinha todas as qualidades necessárias para ser a futura mãe de seus filhos. Apenas não se recordava de ter mencionado a ela que era médico, mas percebeu que esse mero detalhe era uma simples bobagem. Com muito garbo, ofereceu-lhe companhia até sua casa, dando-lhe sua palavra de que se comportaria como um distinto cavalheiro. Ela lhe respondeu com um sorriso bastante encantador: 

– Se é de sua própria vontade acompanhar uma pobre donzela ao seu humilde lar, desde que me prometa que não irá se assustar com nada que porventura venha presenciar em minha casa, será muito bem-vindo. Como disse ao senhor, tenho uma mãe acamada que necessita de cuidados especiais, principalmente à noite. Se for de seu agrado, poderá me ajudar a preparar o jantar para ela. Tenho certeza de que mamãe estará faminta. 

– Tem minha palavra de que serei bastante discreto. Como você bem sabe – ainda não sei como soube – eu sou médico, e nessa profissão todos os dias vemos todo tipo de coisa. Não sei se mais alguma coisa nesta vida poderia me assustar – disse ele de forma bastante positiva. 

– Se o senhor é quem diz. Apenas não me diga que eu não o avisei. 

Caminharam por umas dez ou doze quadras até chegar a um outeiro, onde havia uma casa assobradada. A construção era afastada das demais, de forma que, se alguém precisasse de ajuda, não poderia ser ouvida, mesmo se a pessoa gritasse a plenos pulmões em busca de socorro. Assim que se aproximaram da varanda, uma luz alaranjada se acendeu de forma automática. Doutor Ulisses percebeu que era uma casa bem cuidada. Simples, mas com um asseio impecável. Eleonor, ainda na porta, parou por um instante e, antes de abri-la, ainda o questionou com um meigo olhar de alguém que sabe que algo poderia ser evitado: 

– Tem certeza de que deseja entrar, doutor? O senhor ainda é jovem... 

Ele, que caminhara parte do caminho, às vezes seguindo-a, outras vezes analisando suas belas curvas, decidiu que nada neste mundo o impediria de entrar na casa dela, e, uma vez lá dentro, tentaria de todas as formas lhe fazer a corte. Ele já havia acompanhado outras garçonetes até em casa antes, e, mesmo depois de certa relutância, tinha terminado a noite na cama de algumas delas – é certo que nem todas. Contudo, com Eleonor, ele sentia que algo bastante extraordinário poderia vir a acontecer. Pediu licença e foi logo entrando. Não ouviu latido nem qualquer outro som de um cão, mas sentiu um forte odor de cachorro molhado. Eleonor, assim que entrou, trancou a porta atrás de si e o conduziu à alcova onde sua mãe estava. O aposento estava bastante escuro, mas, mesmo assim, ele se aproximou do leito em que ela estava deitada. Primeiro, ouviu um breve rosnado, depois outro barulho estranho, como se houvesse um cão no recinto que o farejava. Por fim, quando a luz foi acesa, sentiu uma forte pressão nas costas e, logo depois, uma dor lancinante que nunca havia sentido antes. Quando olhou para o local de onde a dor se originava, viu que uma garra enorme saía de seu peito, com algo pulsando entre as enormes unhas. Pela primeira e última vez, viu seu coração pulsando bem diante de seus olhos. Deitado numa cama logo à frente, havia um enorme lobo com uma bocarra arreganhada, cheia de dentes brilhantes e afiados. Ele ainda conseguiu perceber que a parte inferior daquela monstruosa criatura estava coberta com uma colcha. Em seu último suspiro, antes que tudo ficasse escuro de uma vez por todas, ainda pôde sentir uma pegajosa língua passando pelo lóbulo de sua orelha e ouvir algo sendo sussurrado ao pé do ouvido: 

Falta de aviso não foi! Eu disse que mamãe precisava ser alimentada...

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Hereditário: Parte II, Darquinha — Capítulo III: Desmerecimento

Bem antes de o sol nascer, Madame Staell já estava de pé, preparando um forte café preto para iniciar…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Bem antes de o sol nascer, Madame Staell já estava de pé, preparando um forte café preto para iniciar aquele dia que, ela sabia, seria longo e muito tumultuado. Darquinha ainda dormia tranquilamente naquele momento, depois de dolorosas lágrimas e muitas lamentações. Os suspiros e gemidos que emitia vez por outra demonstravam um imenso cansaço – o sofrimento consegue levar qualquer ser vivo à mais profunda exaustão. Seu vestido sujo de sangue havia sido lavado com suco de limão e já secava num pequeno varal dentro da barraca. Todo e qualquer vestígio que pudesse de alguma forma ligá-la ao crime em si havia desaparecido por completo. Com a morte de seu tio Nicolas – acusado injustamente do assassinato de Vladimir – o assassinato do faquir tinha sido solucionado. Madame Staell, que esteve bastante preocupada com o semblante de Darquinha e a possível desconfiança de seus companheiros pela tristeza dela, agora estava bem mais aliviada. Afinal, a jovem acabara de perder, de uma forma bastante violenta e covarde, seu único parente vivo. Mesmo com todos os defeitos que seu tio Nicolas pudesse ter, ainda assim, era o irmão de seu amado e saudoso pai. Sendo assim, ela poderia chorar à vontade e lamentar como quisesse seu luto.

Tanto Vladimir quanto Nicolas Benetti foram enterrados naquele mesmo dia. O velório de ambos fora simples, sem muita cerimônia, apenas as exéquias necessárias – exigência feita por parte da autoridade eclesiástica. A mulher que também perdera a vida naquela fatídica confusão fora velada e enterrada com toda a grandeza de uma pessoa de altíssima posição. Toda a cidade – até mesmo quem não simpatizava com ela – chorou pela sua morte. No fim da tarde, – na hora do ângelus – os sinos da igreja repicaram de forma tão triste que a qualquer um causaria um aperto no peito. Naquela noite, não houve espetáculo – pois até mesmo a quermesse fora cancelada – e, por mais uma vez, o circo estava de luto pela perda de dois integrantes ao mesmo tempo, como outrora o fora com os pais de Darquinha, parecendo que uma sombra de tragédia os acompanhasse.

De certa forma, todos estavam abalados com o acontecido – não porque alguém morresse de amores pelos dois companheiros que se foram, mas pela forma como tudo acontecera. O faquir morto pelo próprio instrumento de sua arte – que, juntamente com ele, fora enterrado numa sepultura simples. E o anão, pela violência de seu assassinato – que certamente ficaria impune – também fora jogado numa cova sem muito glamour. Pois aqueles que morrem mortes heroicas ou pelas mãos do destino trágico são eternamente lembrados. No entanto, ladrões, bêbados e todos os covardes são rapidamente lançados nas valas do esquecimento.

No provérbio: “... há males que vêm para o bem...” há mais verdade do que se imagina. No caso da perda de dois outros integrantes do circo, esse trágico fato tornara-se muito conveniente para as pretensões do dono do circo, que naquela mesma noite de tristeza e lamentação decidiu de uma vez por todas colocar um fim naquele artístico empreendimento. Estando recluso em seus aposentos, por mais de uma vez contou suas economias, e com determinada resolução decidiu que, no dia seguinte, assim que se acalmasse, faria uma reunião com todos seus companheiros e anunciaria sua decisão. De certo modo, ele conseguiu retirar um peso de suas costas e, naquela mesma noite, após fazer e refazer seus planos de poder finalmente retornar para sua terra natal, conseguiu dormir como há muito tempo não fazia.

Se por um lado o sepultamento da querida conterrânea fora prestigiado por toda a cidade, o enterro dos artistas do circo foi vazio e insosso. Darquinha – assim como muitos outros artistas – não quis acompanhar as exéquias de seus companheiros. Madame Staell, além de se fazer presente todo o tempo, com poucas palavras – que ninguém ousou questionar – justificou a ausência de sua protegida no último adeus ao seu tio, dizendo que ela estava muito abalada. A convite da própria cigana, pediu ao negro Thomás que zelasse pela pobre órfã, ficando em sua companhia até que tudo se desse por encerrado. De certo modo, a cigana unia o útil ao agradável. Mantinha sua protegida sob severa vigilância, enquanto tentava aproximar aquele promissor casal. Pois, sabia ela, que dias tenebrosos estavam por vir e que certamente precisaria de um porto seguro, caso a tempestade que se aproximava se mostrasse violenta demais para suas já calejadas forças.

Naquela mesma noite, após o sepultamento de seus companheiros de longa data, como Thomás estivera quase o dia todo na companhia de Darquinha, ele também fora convidado a ficar para o jantar, na tentativa de quebrar o clima de tristeza que se abatera sobre todo o acampamento. Comeram um repasto simples e tomaram um refresco que Thomás buscara na venda, juntamente com figos cristalizados para a sobremesa, que ele trouxera como mimo para Darquinha. Sobre o acontecido, poucas palavras foram ditas. Contudo, Madame Staell percebeu que entre eles um extenso diálogo era travado na constante troca de olhares. De alguma forma, eles já haviam encontrado uma maneira de se entenderem sem precisarem do uso das palavras.

O dia seguinte foi sem graça e sem muitos afazeres. Primeiro porque choveu quase o dia todo, segundo porque ninguém ousou ir até a cidade, que, de certa forma, estava ofendida pelo acontecido e também agora com a presença daquele circo em suas cercanias. Por último, ainda havia um sentimento de perda que pairava no semblante de todos. Com a lama que tomava conta do acampamento e se impregnava até os ossos, e o frio enregelante que a chuva trouxera, todos passaram o dia cada qual em sua barraca, como animais escondidos do inverno em suas tocas. No fim da tarde, a chuva deu uma trégua e, já se despedindo daquele dia, tímidos raios de sol tentavam iluminar aquele melancólico acampamento. Como o tempo dava mostras de se firmar, logo uma grande fogueira foi acesa no meio do acampamento para que, com o calor do fogo e o brilho das chamas, um pouco de animação pudesse pairar sobre eles.

Antes das oito da noite, quando o Sr. Zacky percebeu que todos já haviam se alimentado e todos os afazeres diurnos estavam encerrados, convocou a todos ao centro do acampamento, ao redor da fogueira que ardia incessantemente, e iniciou um longo discurso. Com a voz entrecortada pela emoção, relatou sobre a magnitude daquele circo em tempos áureos nas distantes terras do velho mundo. Com certa nostalgia, relembrou sua infância e a imagem saudosa de seus pais e velhos artistas que já haviam partido. Nesse momento, teve que interromper sua fala, pois a emoção lhe tomara as palavras e as lágrimas lhe turvaram a visão. Enquanto tentava controlar as emoções, foi ovacionado com uma forte salva de palmas e palavras de apoio. Assim que secou seus olhos e novamente já era senhor de si, citou a qualidade de cada um dos presentes e também dos que já haviam partido e, mais uma vez, reafirmou o laço de amizade que sempre houvera entre eles. Com um esforço descomunal, conseguiu reunir a coragem necessária e, ainda com muitas palavras de afeto e eterna gratidão, disse a frase que há tempos já estava ensaiando.

– É com muita tristeza no coração e com uma dor inconsolável no peito que, de minha parte, declaro que minhas atividades nesse circo se dão por encerradas de uma vez por todas.

O silêncio que pairou por um breve momento naquele acampamento foi algo fora do comum; parecia que até mesmo a natureza ao redor, com suas inúmeras criaturas da noite, se calara perante aquelas palavras. Somente o crepitar da fogueira se fazia presente. Um dos gêmeos que, juntamente com seu irmão, fazia parte do grupo de palhaços – cinco ao todo – questionou de forma muito inocente para onde eles iriam. A resposta do Sr. Zacky foi vazia e bastante insossa, como se a responsabilidade pelo circo não lhe dissesse mais nenhum respeito.

– Sinceramente, meu nobre amiguinho, não sei! O que sei é que todos vocês agora são livres para fazerem o que bem quiserem, até mesmo tocarem o circo sozinhos se assim for do agrado de todos. O que estou dizendo é que meus dias de picadeiro acabaram. Amanhã mesmo retornarei para a capital, e de lá, assim que possível, voltarei para a Europa...

Ninguém disse mais nenhuma palavra na presença do dono do circo, que, pela inconveniência do comunicado, se viu constrangido pelos olhares acusadores e de surpresa que de todos os lados lhe eram desferidos. O Sr. Zacky logo se retirou para seus aposentos. Assim que se viram a sós, começaram as discussões e burburinhos. Houve todos os tipos de comentários; desde os mais elogiosos até os de mais baixa infâmia. Depois de muitos reclames e infinitas lamúrias, decidiram que o melhor a se fazer era dar continuidade aos espetáculos, pelo menos por enquanto. A liderança do grupo ficou a cargo do Homem Montanha – dois metros e dez de altura de pura massa muscular muito bem distribuídos em mais de 130 quilos – que, dentre eles, parecia ser o mais versado e confiável para aquela função.

Madame Staell, que por nenhum momento em nada fora consultada, observou tudo em absoluto silêncio, prestando bastante atenção em tudo que estava ocorrendo, mas principalmente em como cada um se comportava perante tudo aquilo. Após perceber que estava sendo ignorada como alguém que já não mais fazia parte daquele grupo, recolheu-se à intimidade de sua barraca e logo, através de gestos, comunicou a Darquinha tudo que estava ocorrendo e lhe disse que, sem a proteção do Sr. Zacky, o melhor que elas poderiam fazer era aproveitar a oportunidade e também deixar o circo, seguindo o infinito ciclo universal de todas as coisas que, da mesma forma que se iniciam, também têm um fim. Disse a sua protegida de uma forma bastante maternal que o Infinito, de alguma forma, nos deixa mensagens de como devemos proceder perante os acasos a que todos os dias somos submetidos. Devemos ter a mente aberta para entender essas mensagens.

Certamente, o trágico ocorrido nos últimos dias era um aviso do universo para que elas – tal qual o próprio dono do circo – seguissem em frente, abandonando o circo. Quando Darquinha lhe questionou sobre como elas poderiam sobreviver longe do circo, Madame Staell a tranquilizou, deixando bem claro que o futuro de ambas estaria garantido, pelo menos por um tempo. O que precisavam era decidir sem muita demora o que fariam e para onde poderiam ir. Sendo elas uma mulher já madura, quase cega, e uma donzela surda-muda ainda bastante jovem, o mundo poderia ser bastante hostil fora do circo e da proteção que elas sempre puderam contar. Mesmo com todas as dificuldades e as inúmeras diferenças que pudessem existir entre eles, ainda assim, aquele grupo sempre fora muito unido perante as adversidades, como se fizessem parte de uma grande família, e ela sempre se sentira muito segura sob a proteção do circo.

Devido a tudo que ela pôde perceber – e através de sua intuição – ela logo entendeu que o melhor a se fazer era buscar refúgio em outros caminhos. Em mais uma noite insone, ela buscou respostas em todas as vias que conhecia. Em todos os meios que consultou, a resposta para sua mais terrível pergunta – "Que fazer?" – era sempre a mesma: um obscuro silêncio. Já na alta madrugada, quando ela, vencida pelo cansaço, conseguiu adormecer, sua resposta veio num sonho ou talvez uma visão – ela não conseguiu discernir ao certo – onde via claramente o negro Thomás e a jovem Darquinha saindo de mãos dadas de uma pequena igreja, ambos vestidos em trajes nupciais, e com o semblante demonstrando uma incontida felicidade. Madame Staell, que tinha sua sensibilidade bastante aflorada, acordou sobressaltada com aquela visão, mas de alguma forma sentiu-se aliviada e com o coração tranquilo em saber como deveria proceder.

Na manhã seguinte, o tempo amanheceu cinzento e bastante frio devido a uma leve garoa que caía sem cessar. O Sr. Zacky fazia os últimos preparativos para sua partida, como se aquela resolução já tivesse sido decidida há bastante tempo. Levava consigo apenas seus pertences mais íntimos em dois grandes baús. E todo o restante de seus bens, deixava para ser dividido em partes iguais entre todos, sem exceção. Madame Staell e Darquinha foram deixadas de lado na divisão daqueles bens. Sem demonstrar muito interesse naqueles inúteis cacarecos e muito menos na forma como seus companheiros procediam perante ela, deu dois tostões para que um dos gêmeos fosse até a cidade em busca de Thomás, pois tinha um negócio importante a tratar com ele. Darquinha, devido a tudo que ocorrera nos últimos dias – tanto sua trágica desventura com o atrevido faquir, bem como a perda não tão sofrida de seu tio Nicolas – mantivera-se fechada em seu particular universo de silêncio e quietude. Seu semblante preocupado e tristonho apenas se alterava na presença de Thomás, que havia se tornado para ela em pouco tempo algo indispensável.

Naquela manhã, Thomás havia conseguido uma diária de trabalho como ajudante de um carpinteiro que estava dando manutenção no telhado da padaria. Assim que recebeu o recado, disse que no final daquele mesmo dia estaria com elas. O dia ainda esteve frio e cinzento por quase todo o tempo. O Sr. Zacky partiu logo cedo em direção à capital e ninguém mais teve notícias dele – certamente conseguiu retornar para o velho mundo. Assim que o dia estava findando, Thomás apareceu na tenda da velha cigana. Havia se lavado e colocado seu melhor traje. O cheiro dele era bastante agradável, lembrava canela, livros antigos e, também, tabaco perfumado, talvez com almíscar. Foi recebido com muito préstimo e bastante alegria por ambas. Por mais que tentasse recusar, foi convencido a jantar com elas. Madame Staell lhe disse que o que tinha a tratar com ele era algo bastante delicado, pois dizia respeito ao destino dos três...

Terminado o jantar, a cigana, com toda a experiência de uma pessoa que já vivera muitos janeiros e enfrentara muitos altos e baixos, expôs-lhe a situação. Primeiro, relatando parte da sofrível história de Darquinha e os trágicos acontecimentos de sua vida até aquele presente momento. Relatou-lhe o quanto ela era cara para ela, tanto pela sua simpatia quanto pela sua inocente fragilidade. Disse ainda o quanto havia se afinizado com sua pessoa, percebendo o quanto ele era um homem de princípios e bastante honrado. Por fim, explanou suas intenções de ambas deixarem o circo e irem viver em alguma cidade mais próspera, quem sabe até mesmo em alguma capital. Após ter gastado bastante o verbo com um rodeio que não parecia ter mais fim, ela decidiu, afinal, lhe fazer a proposta de acompanhá-las. Antes que ele pudesse responder, ou mesmo confundir a proposta, ela lhe relatou sobre sua visão, dizendo ainda que fazia muito gosto em saber que Darquinha seria entregue em boas mãos.

Sendo ele um homem de índole incorruptível, de imediato quis recusar a proposta. Alegou, através de um breve discurso, que havia inúmeras diferenças que os afastavam, mas logo foi convencido por um único olhar que Darquinha lhe desferiu. Ela, mesmo sem poder ouvir nada, entendeu praticamente tudo que fora dito e lhe direcionou um olhar questionador, como se perguntasse: “... não sou digna do seu amor?”. Ele rapidamente tomou suas mãos, beijando-as ternamente e, olhando em seus olhos, disse-lhe:

– Desde o momento em que a vi, é tudo que eu mais quero nesta vida. Eu que não me sinto digno de tanta beleza e simpatia. Se me tornares seu marido, serei para ti o mais gentil dos homens, prometo com toda a força de minha alma amá-la e protegê-la até o fim dos meus dias.

Naquele momento, o mais dorido dos suspiros se ouviu naquela tenda, e lágrimas banharam a face da bela Darquinha como uma torrente que não parecia ter mais fim. Madame Staell concluiu que em toda sua vida jamais presenciara a mais sincera demonstração de amor de um ser para com outro. Naquele momento, o destino daquelas três pessoas foi traçado para todo o sempre.

Menos de um mês depois, já estavam os três vivendo na capital. O circo que ambas deixaram para trás seguiu seu caminho, e nada mais se soube nem sobre ele, muito menos sobre seus integrantes – que, de certo modo, sentiram-se aliviados com a partida da velha cigana e de sua protegida. Thomás e Joana D’arc se casaram numa singela igrejinha no alto do morro na periferia onde se instalaram. Todo o enxoval foi presente da velha cigana, incluindo o alinhado terno do noivo e o belíssimo vestido da noiva. A cerimônia pode até ter sido simples aos olhos de outrem, mas para aquele casal, foi um acontecimento apoteótico. A alegria de ambos era um inquestionável exemplo de que o Amor é realmente um sublime sentimento capaz de tornar o impossível em algo extraordinário, possibilitando a união das mais diferentes criaturas em um único ser.

Os primeiros dias após suas núpcias foram de um total deleite. Contudo, assim que contraiu matrimônio com Darquinha, sentia-se de certo modo hostilizado por olhares perscrutadores e maledicentes. Ele, um negro cinquentão – talvez até um pouco mais velho – ela, uma jovem branca de olhos claros, que teria talvez idade para ser sua filha – quem sabe até mesmo neta. Não era uma relação bem-vista pelas pessoas autoproclamadas "pessoas de bem". Thomás sempre fora um ser de espírito livre e jamais se incomodara com aquilo que diziam dele, afinal, era um negro e ex-cativo vivendo numa sociedade onde, há bem poucos anos, pessoas como ele eram vendidas como uma mercadoria qualquer, e já havia sentido na pele e na própria alma a maldade humana. Mas agora, tudo havia mudado e era o nome de sua amada que estava na boca da raia miúda e desocupada.

Thomás não suportava esses olhares e os cochichos que pareciam inconvenientemente estar em todos os lugares, mesmo na rua, no rosto de desconhecidos. Durante o dia, ele trabalhava duro para arcar com as despesas da casa, que agora tinham aumentado bastante, mesmo com Madame Staell ajudando em parte com algumas contas do lar. À noite, mesmo coberto de carícias de sua adorada companheira – que estava descobrindo aos poucos as delícias do leito – não conseguia dormir direito. E se perguntava por quê. Será que dava tamanha importância a essas pessoas que sempre o olharam com descrédito e certa repugnância? Com certeza não! Pois sempre tivera total resiliência de quem ele era e de onde tinha vindo. A opinião dessas pessoas – consideradas por ele como pessoas de mente vazia – não tinha nenhum peso sobre ele, o deixando até irritado de, às vezes, se deixar perturbar pelos seus hostis olhares. Por ser uma pessoa de índole diferenciada, achava tudo aquilo por demais desprezível. Como algo tão insignificante poderia estar incomodando-o agora? No fundo de sua alma, sabia que não deveria ficar dependendo da aprovação de pessoas que ele mesmo considerava limitadas e de caráter duvidoso.

Pode ser que a profunda desconfiança que sentia das pessoas ao seu redor, e talvez saber que esse sentimento fosse recíproco por parte delas, tivesse exercido uma forte influência em sua decisão de deixar a cidade grande e se estabelecer no campo, distante de olhares curiosos e acusadores. Thomás se viu, pela primeira vez, numa situação em que o simples ato de ir ao mercado tornava-se um verdadeiro suplício, pois vários olhares caíam sobre aquele casal que, na maioria das vezes, estava acompanhado pela velha cigana, já praticamente cega por completo. Em algumas ocasiões, esses olhares indiscretos eram acompanhados por algum comentário ofensivo. De certo modo, a situação começou a ficar insustentável. O trabalho para Thomás começou a rarear e, logo, o senhorio da pequena casa em que viviam solicitou o imóvel de volta, alegando que o havia vendido e que o novo proprietário o desejava desocupado o mais brevemente possível.

A pedido de Darquinha – que irradiava uma tranquila paz de espírito, jamais se deixando abater por qualquer coisa que fosse – Thomás até tentou alugar outra casa. No entanto, além de estar praticamente sem dinheiro, havia a questão da cor de sua pele que o denunciava. Depois de várias recusas, já havia compreendido que sua história era por demais conhecida e que as pessoas, em sua grande maioria, eram más e se regozijavam com a humilhação moral de negros e imigrantes. Por mais que ele, utilizando sua boa oratória, tentasse convencê-los de ser uma pessoa de boa índole, ninguém queria dar ouvidos à conversa de um ex-cativo; desconhecido, sem trabalho e, principalmente, sem dinheiro no bolso.

Através da intervenção de Madame Staell e do dinheiro que ele ainda possuía, conseguiram alugar uma casa praticamente do outro lado da cidade. Essa locação só foi possível pagando seis meses de aluguel adiantado. Thomás, que trabalhava em qualquer tipo de trabalho que se apresentasse, logo conseguiu serviço. Darquinha fazia pequenas costuras para fora e Madame Staell, mesmo com a visão praticamente a abandonando, ainda assim, vez por outra, tirava a sorte de um aqui, outro acolá. Essa calmaria não duraria por muito tempo.

Certa noite, já em horas avançadas, após o amor e estando ele sentado no leito olhando ao longe pela janela aberta, estando claro como o dia, pois era noite de lua cheia, Darquinha se aproximou dele em silêncio e, após o abraçar, estando ele com o torso nu, começou suavemente a acariciar suas costas e delinear com a ponta dos dedos suas inúmeras cicatrizes. Sem poder conter sua curiosidade – que nas mulheres é considerado um dom, pois essa mesma curiosidade feminina foi o solene motivo de várias descobertas e invenções que em muito ajudaram na evolução da humanidade – perguntou-lhe de um modo muito delicado, olhando nos olhos dele e gesticulando com os ombros em gestos de curiosidade. Thomás, que de alguma forma a compreendia, mesmo sem ela pronunciar nenhuma palavra, após suspirar profundamente, disse, mais para si mesmo do que em resposta:

– Algumas pessoas machucam seus semelhantes simplesmente pelo fato de poderem fazê-lo. Essas marcas em minhas costas são uma pequena amostra daquilo que meu corpo padeceu quando eu ainda era cativo. No entanto, muito pior que essas horrendas cicatrizes é aquilo que ainda padeço por causa de minha cor e minha origem. Nossa gente foi liberta de nossos grilhões, mas ainda somos prisioneiros do preconceito e da discriminação...

Na manhã seguinte, um domingo bastante agradável de céu limpo e ensolarado, após retornarem da missa, tiveram um terrível dissabor, pois foram avisados por um vizinho que os donos do imóvel haviam estado bem cedo batendo em sua porta, deixando o recado que retornariam naquele mesmo dia. O que de fato realmente aconteceu e a notícia que trouxeram consigo não foi nada agradável. O marido da mulher que lhes locara o imóvel solicitava a desocupação imediata da casa, alegando acionar até mesmo a justiça se fosse necessário. Era ele uma pessoa de aparência bastante repugnante e ameaçadora, tinha uns 55 anos, talvez 70, quem sabe até mais – algumas pessoas parecem ter sempre a mesma aparência, como uma montanha que, aos perenes olhos humanos, não demonstra nenhum leve traço de mudança. Já lhe faltavam mais da metade dos dentes e os que sobraram estavam podres e enegrecidos pelo uso constante de tabaco, que tornava o seu hálito nauseabundo, fato que fez com que Darquinha tivesse ânsia de vômito e saísse discretamente de sua presença, tapando a boca com as mãos.

Quando Madame Staell questionou-lhe sobre os seis meses de aluguel que foram pagos de forma adiantada, o senhorio respondeu que nenhum negócio havia feito com eles e que nenhum valor lhe fora pago, que buscassem por seus direitos perante a justiça. Como o imóvel lhe pertencia e ele não lhes alugara coisa alguma, dava-lhes o prazo de três dias para que se mudassem. Após dizer que não queria problemas com ninguém, apenas seu imóvel de volta, saiu sem se despedir, prometendo retornar ao fim daquele prazo estabelecido e reaver sua casa de volta, independente de quais meios fossem necessários para esse fim.

Aquela tarde foi bastante inquietante para aquela peculiar família. Thomás sentia-se bastante injustiçado, ao ponto de dizer que só sairia da casa se a justiça o obrigasse. Darquinha, tomada de um sentimento de completa resiliência, disse que sempre haveria outros lugares e que o melhor a se fazer era evitar todo e qualquer tipo de problema. A cigana, por sua vez – que já havia sentido na própria pele a injustiça da Justiça brasileira – com sua longeva sabedoria, disse por fim:

– Já ouvi dizer que simples palavras podem ser como uma leve brisa, que mal nenhum pode nos causar. No entanto, até mesmo a mais suave das brisas pode se transformar em um vento forte e trazer uma terrível tempestade. Não sou mais jovem e, a cada dia que passa, minhas forças me abandonam um pouco mais. Seja como for, no fim, a noite cai para todos nós, e às vezes cedo demais para alguns. Preciso de um lugar tranquilo para passar meus últimos dias nesta terra. Ainda tenho comigo algum dinheiro e alguns pertences dos quais posso me dispor e comprar uma pequena propriedade no campo onde possamos viver em paz. Se ambos cuidarem de mim na minha senilidade – que se aproxima em passos velozes – deixo a vocês dois essa propriedade para que possam criar seus filhos e seguir com suas vidas sem ninguém os perturbar novamente.

E assim foi feito. Em dois dias, já estavam hospedados numa pensão, onde logo conseguiram contato com um corretor de imóveis – irmão do dono da pensão – que, de forma muito benevolente, lhes conseguiu um excelente negócio, desde que a propriedade fosse paga de forma imediata e em dinheiro vivo. Em menos de dois meses, já estavam vivendo no campo, numa aconchegante, mas bastante humilde casa no alto de uma colina, onde as manhãs eram alegres e o entardecer bastante iluminado pelos raios do sol poente. Era o início de um novo ano e de uma nova vida.

Thomás – que tinha os conhecimentos necessários para a lida no campo – iniciara os trabalhos de lavrar a terra e cuidar de alguns animais que a cigana adquirira, enquanto Darquinha zelava da casa e dos afazeres domésticos, vez por outra sendo auxiliada pela cigana, quando sua saúde permitia, pois a cada dia sentia-se mais fraca, sendo vencida pelos sinais do tempo. No final daquele mesmo ano, a família ficaria um pouco maior com a chegada de uma nova flor para aquele belo jardim. A felicidade parecia enfim ter feito morada naquele humilde lar. No entanto, no horizonte distante, nuvens negras anunciavam uma terrível tempestade. Darquinha tivera uma gestação conturbada e constantemente reclamava de fortes dores de cabeça, principalmente nos ouvidos...

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Lírios do Campo

... – Era para ser apenas uma tranquila viagem entre amigos. Um pitoresco passeio em busca de uma paz que somente o campo poderia nos oferecer…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Observem como crescem os lírios do campo...”. — Mateus 6,28

... – Era para ser apenas uma tranquila viagem entre amigos. Um pitoresco passeio em busca de uma paz que somente o campo poderia nos oferecer, onde nos divertiríamos como pessoas normais – ou ao menos tentaríamos fazê-lo. Fugindo do estressante caos da cidade grande, nos dirigimos para o pequeno vilarejo onde Amélia nascera. Uma localidade que sequer constava no mapa. Na opinião da maioria, um lugar ideal para a paz e o sossego. Na verdade, o que todos nós buscávamos era justamente tentar nos afastar ao máximo da loucura do dia a dia da cidade grande. Estávamos em busca de momentos de paz. Levando em consideração os problemas emocionais e as crises existenciais de cada um, nada mais nos interessava naquele momento.

Como todos sabem, quando partimos – sem saber que o pior aconteceria – estavam naquele carro apenas cinco pessoas – todos nós, amigos de longa data. Além de mim, havia: a própria Amélia – nossa anfitriã – Marcos, Esther e, por último, o filosófico Luís. O veículo em que estávamos pertencia ao pai de Luís. Era uma Kombi velha, mas em ótimo estado de conservação, com uma mecânica invejável. Os pneus eram novos e, antes de partirmos, Luís havia feito – a pedido do pai – uma revisão completa no veículo, para que nenhum incidente viesse a nos incomodar pelo caminho. A maioria de nós era habilitada. No entanto, durante todo o trajeto, Luís fez questão de estar sempre ao volante. A viagem duraria em torno de cinco a seis horas – isso se não chovesse pelo caminho. Quando saímos, ainda pela manhã bem cedo, o céu estava limpo e o clima bastante agradável. Nada poderia dar errado...

Daniel se calou de forma bastante repentina, seu olhar ficou distante e vazio – talvez tentando ver algo ao longe ou se lembrar de algum detalhe esquecido. Houve um momento de reflexão e um silêncio que durou quase cinco minutos. Contudo, logo ele retornou à realidade e, sem mais demora, continuou seu relato.

... – Durante quatro ou cinco horas, rodamos por quase quatrocentos quilômetros sem fazer nenhuma parada. A estrada estava em ótimas condições e, como Luís era um exímio motorista, a viagem rendeu bastante nesse primeiro trecho. Da forma como as coisas estavam se desenrolando, tínhamos a intenção de chegar à casa da avó de Amélia antes do anoitecer. Se isso tivesse realmente acontecido, teria sido excelente, pois nenhum de nós estava nem um pouco interessado em rodar durante a noite por caminhos desconhecidos, muito menos dormir em pensões na beira da estrada. A verdade é que nem mesmo Amélia se lembrava ao certo de como estavam as estradas pelo caminho. Afinal, ela havia saído de sua terra natal quando ainda era uma criança de colo. E isso fora há muitos anos.

Amélia era uma jovem alegre, descontraída e com um sentimento de liberdade estampado no rosto, mas trazia nos olhos algo de muito obscuro. Até as vésperas de nossa viagem, jamais havia falado sobre sua infância, qual era sua origem ou muito menos sobre sua família. No entanto, quando propusemos fazer uma viagem para bem distante da cidade e de nossa vida no campus, ela logo sugeriu que visitássemos sua avó em um distante lugarejo no interior. Mesmo havendo certa desconfiança com aquela repentina euforia por parte dela, Amélia acabou por nos convencer de que seria uma viagem inesquecível para todos nós...

Passava um pouco do meio-dia quando paramos em um posto para abastecer o veículo e fazer uma breve refeição, e percebemos ao longe que uma forte tempestade se anunciava no horizonte. Assim que terminamos de nos alimentar e o veículo estava devidamente abastecido, decidimos que deveríamos continuar seguindo viagem. Não conseguimos rodar nem mesmo cem quilômetros e logo nos deparamos com uma obra de recuperação de uma ponte que havia caído e tivemos que nos desviar da estrada. As placas diziam que o desvio era de apenas três quilômetros, através de uma nada pitoresca estrada de terra. Mal tínhamos começado a rodar por aquele poeirento e esburacado caminho quando o céu, que já estava se fechando, escureceu por completo e uma pesada chuva começou a cair.

Logo, a estrada tornou-se um verdadeiro mar de lama. Luís não tinha nenhuma perícia para dirigir em estradas de terra, ainda mais com aquela terrível tempestade desabando sobre nós. Aquela não era uma chuva comum; mais parecia um segundo dilúvio. O céu era constantemente riscado por faiscantes relâmpagos que culminavam em retumbantes trovões que balançavam todo o firmamento. A chuva era tão intensa que dava a impressão de não apenas cair, mas ser despejada por um céu bastante furioso. Após apenas algumas curvas um tanto quanto perigosas demais para um condutor inexperiente com aquele tipo de terreno, Luís logo decidiu que o melhor a se fazer era encontrar um lugar seguro, parar e esperar que a chuva desse uma trégua para podermos seguir viagem em segurança.

Após contornarmos uma curva bastante fechada, depois de um pequeno bosque de enormes árvores que cobriam a estrada com seus frondosos galhos, nos deparamos com um pequeno descampado com uma vegetação rasteira carregada de flores, principalmente lírios, que naquele momento eram jogados de um lado para o outro pelas rajadas de vento que os açoitavam de forma impiedosa. No centro desse descampado havia uma pequena casa às margens da estrada que, à primeira vista, parecia estar abandonada. Era uma humilde construção em estilo simples, mas com traços de uma arquitetura bastante aconchegante. Suas feições – mesmo em ruínas, aparentando estar há bastante tempo abandonada – demonstravam que, em seus tempos áureos, havia sido uma bela morada. Na frente da construção havia uma grande varanda, e mesmo que não conseguíssemos adentrar na casa, poderíamos nos abrigar da chuva ali mesmo.

Assim que o veículo foi estacionado em frente à casa, rapidamente nos dirigimos rumo à varanda e, para nossa surpresa, assim que pisamos no velho assoalho já em frente ao umbral da porta de entrada, esta se abriu por completo e uma bela jovem veio nos receber, como se já fôssemos esperados naquele lugar. Essa jovem de pele clara e belíssimos olhos azuis aparentava ter uns quinze anos – talvez até um pouco menos, pois tinha um semblante bastante juvenil – estava com um castiçal em uma das mãos, cuja luz de uma vela iluminava o obscuro interior da casa na qual ela nos convidava a entrar, para nos abrigar da chuva e do vento. Desde criança aprendi que jamais deveríamos falar com estranhos e muito menos entrar em lugares desconhecidos. Contudo, aquela jovem parecia ser a criatura mais doce e inofensiva de toda a Terra. Como do lado de fora o frio e a umidade estavam bastante intimidadores e o interior da casa parecia ser quente e muito aconchegante, sem pestanejar decidimos que o melhor a se fazer era aceitar o convite e aguardar até que a chuva passasse.

Assim que entramos, logo, com um forte estrondo, a porta foi fechada às nossas costas, e quando Esther quis questionar, nossa anfitriã respondeu de forma meiga e bastante convincente:

– Se não fecharmos a porta barrando o vento frio, de nada adianta nos abrigar aqui dentro!

Logo fomos direcionados a nos aproximar de uma crepitante lareira. Havia um enorme estofado em formato de semicírculo em frente ao aconchegante calor do fogo, de onde vinha um convidativo odor de folhas de erva-cidreira sendo fervidas. Sentada de frente a essa lareira, numa poltrona à parte, havia uma peculiar senhora, de aparência bondosa e confiante índole, que logo nos foi apresentada como sendo a avó da jovem que nos recebera. Essa senhora se servia de um fumegante chá que logo nos foi oferecido. A maioria de nós achou por bem recusar, mas Esther, a mais mística dentre nosso grupo, sempre receptiva a velas, incensos e todo tipo de beberagem natural, logo quis experimentar o sabor daquela bebida, até porque o cheiro estava bastante convidativo. Como Esther o tomara e não tivera nenhuma reação imediata, nem mesmo demonstrara nenhum tipo de comportamento estranho, logo todos nós fomos servidos. O chá estava quente, doce e com um sabor que trazia certa paz de espírito, proporcionando um lento relaxamento do corpo e da mente. Após tomar aquele chá, tudo se tornou escuro e vazio.

Quando acordei, a impressão que tive é que haviam passado várias horas. Tentei me levantar, mas logo percebi que não estava deitado, mas sim sentado em uma cadeira e amarrado a esta. Ao meu redor tudo era silêncio e quietude. Pelas frestas no alto das paredes e no teto, pude perceber que estava em uma espécie de porão e que lá fora o sol brilhava forte. Pelo barulho dos pássaros e pelo frescor ao meu redor, tive a impressão de que era uma bela manhã. Durante quase uma hora, após chamar por meus amigos sem obter resposta e clamar desesperadamente por socorro sem sucesso, me esforcei de todas as formas até que consegui me desvencilhar das amarras que me prendiam. Com muita dificuldade, consegui encontrar a saída daquela espécie de porão, que mais parecia ser um covil de uma terrível criatura que, se realmente existisse, naquele momento estaria dormindo ou escondida em algum lugar se refugiando da luz do dia.

Logo, sem muito esforço, já estava do lado de fora daquela estranha casa. A Kombi estava parada no mesmo lugar em que fora deixada. No entanto, não havia nem vestígio do paradeiro dos meus amigos. Por quase uma hora rodeei em volta da casa, gritando por cada um deles sem sucesso. Por fim, decidi pegar a Kombi e ir em busca de ajuda. As chaves principais haviam ficado com Luís, mas no quebra-sol do veículo havia uma chave reserva. Saí com a Kombi e retornei pelo caminho que havíamos chegado ali, voltando até o posto de combustíveis onde havíamos almoçado e, de lá, pedi que a atendente chamasse a polícia. Foi quando vi que havia vários panfletos – alguns, até mesmo bem antigos – com pessoas desaparecidas...

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Névoa viva

Próximo ao castelo, a lua desponta no alto da colina iluminando a floresta com sua luz avermelhada e cintilante. O vento frio, percorre os espaços sombrios…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Próximo ao castelo, a lua desponta no alto da colina iluminando a floresta com sua luz avermelhada e cintilante. O vento frio, percorre os espaços sombrios entre as copas das árvores centenárias, estremecendo levemente sua solidez. Tomado por uma fúria imensurável, cavalgo ferozmente pela trilha tortuosa à procura de algo ou alguém que sacie meu desejo de vingança. O percurso é longo e meu cavalo demonstra nitidamente sinais de fadiga. Invisto mais um pouco e noto sua fraqueza em minhas mãos, minha imortalidade não acompanha a vida breve dos animais. Com rapidez, puxo as rédeas e esfrego o pescoço longo de Augustin que relincha alto indicando o alívio por minha decisão. Retorno vagarosamente para o castelo, mas minha inquietude continua alimentando meu ódio. Ao longo daquela noite letárgica, sombria e dolorosa, minha mente borbulha deixando-me nostálgico e amargurado. Caminho pelo corredor levemente iluminado por velas e observo as fotos que parecem sorrir para mim em meio ao caos de sentimentos. Tento repousar a mente próximo à imensa janela enquanto observo a formação de uma névoa tênue que espreita os arredores do castelo. Minhas mãos apertam com força a madeira envelhecida que reverte às paredes daquele velho castelo e minha fúria torna-se palpável ao enxergar o motivo da minha ira. Espalmo minhas mãos no vidro deixando marcas no vitral escurecido, desço às escadas apressadamente e no caminho vou até o quarto, retirando do antigo guarda-roupa minha capa preta. Selo novamente meu cavalo e adentro nas profundezas daquela floresta inóspita. A névoa contínua e fria espalha-se por todos os lados, perseguindo-me. Desvio de troncos caídos ao chão, a floresta sangra e meu coração compartilha de tal sofrimento arrancando gota a gota o resto de minha insanidade brutal. Ao longe, o velho chalé continua intacto e sem sinais do tempo, convidando-me para um abraço mortal. Deixo Augustin próximo a uma árvore centenária e sigo em direção ao chalé, paro junto aos primeiros degraus e pela janela consigo enxergar um sinuoso movimento. Seguro a maçaneta fria e com cautela empurro a porta devagar, meus passos me direcionam a uma sala gélida e úmida, os móveis antigos cobertos por um fino lençol branco continuam trazendo as lembranças escondidas por baixo de seus tecidos empoeirados. Um barulho no quarto retira-me do transe das memórias indesejadas e sigo apressadamente para o cômodo. Parado à porta, meu coração dispara rapidamente com a silhueta formada próximo à cama.

— O que faz aqui?! — Pergunto, incrédulo. — Não está satisfeita com o que faz comigo? — Questiono, aproximando-me lentamente.

Sem respostas, toco levemente sua cintura e sinto minhas mãos congelarem, algo em nós não é mais como antes. Minhas lembranças me atormentam e por impulso viro rapidamente seu corpo de encontro ao meu. Ela me olha com ternura e paixão, enquanto tento desvendar os meus sentimentos. Aproximo minhas mãos em seu rosto e acaricio sua face pálida enquanto a proximidade nos conecta. Nossos corpos necessitados se entrelaçam com fúria e desejo. Noto que seu coração bate descompassado e sua respiração torna-se cada vez mais acelerada. Minha fúria dá lugar à saudade e, calmamente, beijo seus lábios rosados que devolvem vida aos meus dias. Lá fora, a névoa começa a dissipar-se e já é possível ver os pinheiros e toda a extensão do lugar. Olho novamente em seus olhos e a beijo com força deixando nossos corpos sucumbirem ao amor. Ela me empurra devagar e com um sorriso tímido se afasta. Sigo-a por todo o chalé e me espanto ao ver os móveis descobertos, o lugar agora parece mais limpo e arejado, a luminosidade sombria deu espaço a um ambiente acolhedor. 

— Estou aqui! 

Ouço sua voz próxima à entrada e sigo em sua direção. Procuro ao redor, mas minha visão cansada não enxerga mais sua presença, a névoa aos poucos dissipa-se e a floresta já não é mais tão sombria. Caminho até Augustin que me aguarda com impaciência, esfrego sua crina delicadamente acalmando-o com meu toque. Subo em seu corpo longilíneo e olho uma última vez para o chalé, ele ainda mantém sua luminosidade e ela ainda está lá. Aceno levemente com a cabeça e retorno para a minha tumba, meu lugar sagrado, minha sentença. Enquanto aguardo ansiosamente a vinda da névoa para que novamente possa encontrar com ela.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa
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Escrito por Morgana Mortem, -Contos Castelo Drácula Escrito por Morgana Mortem, -Contos Castelo Drácula

O Ocaso da Existência de um Pecador em Preces à São Miguel

À Morte, sacrifico tais últimas palavras, derramando-as na lamúria dos lábios que já não mais murmuram velhos dizeres…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

À Morte, sacrifico tais últimas palavras, derramando-as na lamúria dos lábios que já não mais murmuram velhos dizeres. O que resta-me, à exceção da despedida em sílabas mudas, das sentenças silenciosas e dos discursos incapazes de alcançar mesmo aqueles que habitam a necrópole de espíritos? Último, só e derradeiro suspiro, mesmo tal penúria a Morte usurpa-me, entregando-me às sombras daqueles que já não mais vivem. Trêmula, irrequieta caligrafia que mancha-se pelas rubras lágrimas de minha finada vida, redija minha condenação à morada do mal, ao passo em que estes dedos trêmulos que bruxuleiam a linguagem dos vivos em escarlate tinta entregam-se ao ofício fatal. Eis-me já sepultado, o mero esqueleto do que já foi um homem. Eis-me neste recinto, um cadáver herético, ausente.

E, ainda que encontre-me morto, envenenado em meu gélido sangue, padeço ainda entre os vivos, entregando-me às trevas em um corpo corrupto; triste, soturna é a febre desta carcaça que sou eu. Qual é a natureza de minha angústia, se não a enfermidade latente do cessar de minha existência? Doce, intoxicada morte, por que constringe-me à miséria? Por que não entrega-me, finalmente, àquele que navega por entre o rio das almas, onde sua balsa viaja com destino ao último adeus? Por que, por meu próprio e terrível infortúnio, reduz-me ao vago, temoroso martírio? Ah, oculta Morte, conte-me, bendiga-me com a razão para tal tormenta, tal tempestuoso sofrer? Se nem mesmo as sacras escrituras podem conceder-me mais a benção da vida, anseio, enfim, pelo calar de meu âmago, por meu infausto fim! Não obstante, para este crápula pagão, resta somente a morte enquanto tortura, enquanto um vagaroso pesar que passar-se-á por tantas noites até que a última gota deste sangue maldito chova perante o abismo, o horrível averno.

Fúnebre, melancólico e pálido é o crepúsculo. É o cinzento anoitecer dos mortos a acolher este tirano em sua residência. O entardecer lúgubre respira fracamente, em murmúrios tétricos de um cancioneiro cinza, apartando-se em afresco tão esquálido; a este herege, o poente perante seu falecimento é letárgico. Branco é o véu que vela meu leito de morte e, no entanto, tão cadavérico é também o santo céu na ocasião de minha partida. Por entre o ermo castelo a colapsar junto àquele que porta sua hereditariedade, a névoa peregrina em tons lívidos; as cinzas nuvens de neblina cegam mesmo aos anjos quando em seu encontro com as cores negras do anoitecer que arrebata. Velhas, arcaicas pedras de uma fortaleza que antes abrigara a austeridade, neste presente acolhem ao desafortunado maldito que as possui. O breu da última noite alcança-me, ocultando todo e qualquer resquício de vida que quiçá, apenas por um milagre do santíssimo, ainda resiste através do balcão da torre de minha fortificação. Por todo o forte, há apenas a ruína; a maldição do fim perece em meu castelo. O vento respira em lentos sopros contra minha face rasgada pela terrível expressão da desgraça. Solitário, amparando-me no arco gótico da sacada por onde o horizonte sinistro atravessa, contemplo, em penosos ares, o desfecho adverso que os céus atribuíram-me como penúria.

De que um errante é digno? Cousa alguma, senão este epílogo teatral agourento que sufoca-me. O que, além de uma tragédia que banha tudo com miséria? É na obscuridade, em meio ao absoluto blecaute, que minha figura remanesce, com vivências não mais. Vilão, tirânico soberbo, sou eu, que não mais hei de viver em plena ambição e poder, pois tais doces sentidos, com toda sua malícia, suscitam todas as angústias de meu drama. Por minha ganância mundana, corrompi-me e, por minhas barbáries, a divina providência há intervindo, para que este diabo desprezível pudesse purgar-se por suas atrocidades. Minha tragédia é apenas uma devida penitência ao homem cristão. 

Os adversos fatos que conduziram-me até este terrível presente constroem-se como uma narrativa. Por séculos, aqueles de meu sangue dedicaram-se às conquistas. Por uma década, os sucessos foram-me incontáveis; ainda que proveniente de terras distantes, além de onde nossas águas marítimas alcançam, por todo o Reino das Astúrias, meu nome fez-se ouvido e reconhecido. Entretanto, toda a vitória apresenta-se a um custo; a infelicidade daquele que é arruinado em batalha. Mesmo o mais devoto cavaleiro da Santíssima Maria, iluminado e protegido por suas bênçãos, não está hábil a conduzir uma vida composta de triunfos. E, ante à minha iminente derrota, apenas reduzi-me à aceitação, acomodando-me com a certeza do fim. De fato, as más notícias cruzam as montanhas e costas com impressionante velocidade; o assalto ao castelo foi-me inevitável e, débil e com um exército reduzido a um mínimo número, assisti à minha queda perante um inimigo imortal; o orgulho que assassina impiedosamente os homens presos à vaidade. Terríveis, deploráveis noites de sangue e batalha, uma guerra perdida em meu próprio domínio. Todavia, mortal algum poderia ferir-me tão impetuosamente quanto a própria noção de minha desgraça que prevaleceu na mente e, disposto a não ceder à soberba, concedi-me, com maestral arrogância, a vanglória de ser vitimado por ser algum, se não minhas próprias mãos. Ignorante diante da morte, a misericórdia dilacerou-me as vísceras, entregando-me a um destino fatal; o punhal que atravessou incontáveis oponentes, por fim, destruiu seu possessor. 

Àqueles que cometem incessantemente o mal, a Providência reserva-lhes o castigo da recíproca, e quiçá eu, conforme a profunda tenebra asfixia todo vestígio de vago brilho embranquecido, encontre-me com minha última penitência…

Mas, com o desfalecer deste coração emudecido, o congelar deste sangue maldito, e o enrijecer destes ossos feridos, o negro vazio do purgatório não faz-se sentido e, perante o estranhamento de minhas emoções, uma cândida estrela manifesta-se diante de minhas pálpebras cerradas. Cálida, plácida, é a brisa em que o tempo desfaz-se, conforme este reduzido sol em forma de luz arma-se em um fulgor cada vez mais claro. O vento desvela-se sinistramente afetuoso, ainda que em tão tardio horário e, mesmo em minha pele fria, um pouco de vida ainda poderia ser sentida diante de tal calor. Não obstante, mesmo as brasas do mármore infernal não impediriam o suscitar destes longos arrepios que cruzam toda a extensão de meu corpo imóvel. Por que mesmo a respiração já findada ainda ofega em ânsia? Por que tal tremor perante o desconhecido, quando já não há mais vida alguma? E, em semelhança às grotescas faíscas que cortam o céu de veraneio durante as tormentas chuvosas, o relampaguear cintilante da excêntrica claridade arrebata-me. A umbrosa escuridão converte-se em alvo esplendor, e as trevas já não mais abito.

Harmoniosa, serena e ainda assim misteriosa, é a sombra que dança com seu caminhar entre os corredores da fortaleza em ruínas. Em calmaria, silenciosos passos, como cisnes que banham-se nas águas dos lagos, mal fazem-se ouvidos. Com um pincelar sutil de um afresco desbotado, a nébula do amanhecer desvela-me a verdade, revelando-me em fascínio. Diante de meu cadáver, a excêntrica aparição emudece-me. Onde encontram-se todas as palavras deste bom idioma? Mesmo que as possuísse com o dom de um poeta, ainda estaria inapto a responder a tal dilema, pois o cancioneiro de nenhum trovador confidenciaria com precisão sequer uma parte da estranha magnificência do espectro. Suave é a composição de seus traços, puros são os brancos tecidos de sua túnica, abençoada é a sua presença; na figura de rapaz, é um jovem Narciso grego enviado como mensageiro do Olimpo. Imaculado fantasma, angelical assombração de meus sonhos… é a visita divina da qual esta alma condenável não é merecedora.  

ANJO. E, por fim, a morte a ti abraça, nobre cavaleiro. Neste reino de mortais, viveste como um monarca — embalsamado em infinitas alegrias terrenas efêmeras, acorrentado na prisão da luxúria material, desconhecedor perante inclinações que não fossem benéficas para ti e suas posses — expandindo seu poderio como o solene propósito de sua existência. Por quantos dias e noites abdicaste de sua humanidade para que a glória fosse-lhe companheira? Por teu contentamento mundano, tantos morreram, muitos destes em tuas próprias mãos degradadas pelo sangue daqueles que já partiram. Mas, da tua vida já não mais pode desfrutar; estás morto, como aqueles que antecederam-te. Qual foi o valor da tua ambição, senão a tua existência? E, com que intuito lutaste tanto? Se de teus lábios, jamais viram orações desabrocharem, se tuas mãos nunca uniram-se em preces para o bem, se tua riqueza nunca fez-se uma oferenda? Agora, que tudo já não mais importa-te, o que levas tu para o além vida, meu caro lorde? É ofício de teu coração reconhecer a miséria a qual está reduzido. É papel da tua alma, com o sentimento da verdade, redimir-se. Quando o amanhã nascer, tua boa-fé poderá libertar-te.

E, a branca aurora acalma-se, devolvendo-nos o vazio da escuridão. O coração em partida já não mais palpita; restam-nos apenas as memórias de um corpo extinto. A pálida emoção etérea regressa ao seu lar por entre o Olimpo. Solitária, remanesce a alma de tons negros que, tão quieta a refletir, enterra-se em sua sepultura por todo o sempre. 

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa
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Sangue Materno

Talvez Jesus estive certo quando disse que a verdade liberta. Mas depende muito de que verdade seja esta, pois Nietzsche dizia que a verdade era subjetiva…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” — João 8,32

Talvez Jesus esteve certo quando disse que a verdade liberta. Mas depende muito de que verdade seja esta, pois Nietzsche dizia que a verdade era subjetiva. Napoleão foi um pouco mais além ao dizer que a verdade é apenas uma mentira contada várias vezes. Aquilo que diz respeito sobre a verdade da minha vida, se outra pessoa me contasse, eu duvidaria na hora. Para ser bem sincero, em muitas ocasiões me pergunto se realmente tudo que presenciei com meus próprios olhos realmente aconteceu. No entanto, sempre que me olho no espelho, aquilo que vejo, ou melhor, o que não vejo, acaba por me convencer que a verdade sobre minha vida não conseguiu me libertar, – muito pelo contrário – pois hoje sou mais prisioneiro do que qualquer criminoso um dia possa ter sido. Passo os dias fugindo e as noites me escondendo...

Até onde me lembro de minha infância, eu sempre fui um garoto muito introspectivo e insociável ao extremo. Talvez pela minha estranha aparência. Não que eu fosse um monstro, –não naquela época – mas, eu era bastante diferente. Olhos azuis acinzentados, cabelos alaranjados da cor das mais ardentes labaredas, orelhas pontudas e uma pele branca como neve, com algumas sardas no rosto. No entanto, o que mais assustava as outras crianças da minha idade – e em certas ocasiões até mesmo os adultos – era minha inteligência aguçada. Além, é claro, do fato de que de forma alguma eu poderia receber qualquer pessoa que fosse em nossa casa.

Minha mãe havia proibido expressamente qualquer tipo de visitas. Até onde eu sabia sobre sua vida, dizia ela que era garçonete, numa boate que ficava há alguns quilômetros de nossa cidade. Trabalhava quase a noite toda e dormia durante o dia, – ou pelo menos ficava trancada em seu quarto. Não tenho nenhuma lembrança de ter visto minha mãe em nenhuma ocasião durante o dia. Ela sempre saía depois do pôr do sol e retornava para casa antes do amanhecer.

Sempre que tinha algum tipo de evento na escola durante o dia, ela jamais comparecia, mas se fosse a noite estava presente quase sempre. Seu quarto era um território proibido, se mantendo trancado todo o tempo. Se fosse durante o dia, ela estaria repousando e incomodá-la estava fora de conjecturas; à noite, quando ela saía, ela o deixava trancado. Como uma criança, eu sempre tivera uma enorme curiosidade em saber o que havia naquela alcova, mas jamais ousara desafiar uma norma estabelecida por minha mãe.

De certa forma, minha mãe era bastante ausente em minha vida, mas se preocupava muito com meu bem-estar. Nossa geladeira se mantinha sempre cheia e nunca tive que reclamar sobre um tênis rasgado ou uma roupa que tivesse velha demais. Em questão de bens materiais, nunca me faltara nada. E quando, certa vez, fui motivo de piada para meus colegas que caçoaram de mim dizendo que além do fato de meu pai ter me abandonado, minha mãe também não se importava comigo, ela se fez presente da melhor maneira possível. Esse fato se deu numa festa de noite de Halloween. Era um baile de máscaras promovido pela escola. A maioria dos pais e das mães de meus colegas estavam presentes. Para surpresa de todos, por volta das dez horas da noite, minha apareceu na festa causando certo alvoroço. Pois, estava ela realmente esplendorosa.

Eu mesmo, que era seu próprio filho, quase não a reconheci vestida daquele jeito. Todas as lembranças que eu tinha de minha mãe até então, era de uma mulher chegando do trabalho, cansada ao extremo, e ávida por se recolher aos seus aposentos para um longo repouso, ou então, ela saindo apressada com seu uniforme de garçonete, sempre de cabelos presos e nenhuma maquiagem, exceto um simples e pálido batom nos lábios. Naquela noite pude vislumbrar a verdadeira face de minha mãe e como sua beleza era inebriante.

Era ela uma mulher alta, de corpo bem-feito, com belos seios rijos e um quadril largo. Seus belos olhos eram brilhantes e de um castanho claro como a cor do mais puro mel. Sua boca de lábios carnudos estava delineada por um batom, de um vermelho vivo e brilhante. Quando falava, além de expelir um refrescante hálito de menta, deixava à mostra dentes perfeitos e brancos como o mais alvo marfim. Seu sorriso discreto, mesmo sendo um tanto quanto enigmático, era atraente e sedutor. Para completar o conjunto daquela magnífica obra da natureza, tinha ela uma vasta cabeleira de uma cor negra e brilhante, como uma noite sem luar. Os cachos de seus cabelos estavam revoltos como as ondas de um mar bravio. Ao contemplar todos os ínfimos detalhes daquela magnífica beldade, parada ali no meio do salão, quase todos os presentes ficaram basbaques e sem palavras, como se um terrível feitiço tivesse paralisado a todos aqueles que a contemplavam.

Por onde ela passava ficara a marca de um inebriante perfume, era um doce e marcante odor de rosas que lembrava uma fresca manhã de primavera. Enquanto ela suavemente caminhava até onde eu estava, quase todos que a viam ficavam meio que hipnotizados, acompanhando seus movimentos que mais pareciam precisos passos de uma dança ritualística, como se pairasse sobre o chão sem ao menos tocá-lo. De acordo que, ao se virar de um lado para o outro, o tecido de seu vestido bailava no ar como se fosse uma pluma, solta ao vento. Era um comprido vestido negro de belo talhe e de corte fino, feito sobre medida, que lhe associava perfeitamente ao seu corpo, como se fosse, na verdade, uma segunda pele que cobria seu belo corpo de curvas perfeitas.

Meus colegas ficaram estupefatos quando ela me tirou para dançar e começou a bailar comigo pelo salão. Até aquele dia, – ou melhor aquela noite – eu sempre fora motivo de chacota entre meus colegas e acho que até de alguns professores, mas depois daquela apresentação apoteótica de minha mãe naquele meio social, minha vida mudaria de forma bastante substancial. Meus colegas quiseram se tornar meus amigos e meus professores começaram a me tratar de forma bastante diferente. Alguns até mesmo me recomendando lembranças a minha mãe. Aquela noite foi a primeira e última vez que eu e minha mãe fomos vistos em público juntos...

Alguns anos se passaram e logo me tornei um homem adulto. Após ter terminado meus anos de escola, pouco antes de matricular na faculdade onde eu pretendia cursar belas artes, decidi fazer uma visita surpresa no trabalho de minha mãe, naquela noite que eu imaginava ser seu aniversário. Como eu já era maior de idade, não haveria problemas em frequentar um ambiente para adultos. Imaginei, em minha reles inocência, que minha mãe poderia gostar da surpresa. No entanto, no final, o surpreendido foi eu mesmo.

Certamente aquele não era o melhor lugar do mundo. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase ao ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas, para tentarem se esconder de seus próprios problemas.

Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá, jamais, esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad eternum no ar, sempre há alguém disposto a narrar alguma história, se porventura houver algum ouvinte interessado. Algumas dessas histórias podem ser verdadeiras, outras nem tanto. De certo modo, poder compartilhar algo, não importa se seja verdadeiro ou não – mesmo que seja para desconhecidos – é uma tentativa desesperada de aliviar um peso na consciência.

Era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades, o movimento estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido a chuva fina que caía constante, dentro do bar estava quente e abafado, devido as janelas estarem todas fechadas. Parece que os clientes eram os mesmos de sempre e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite como outra qualquer. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido, vez por outra, pelo som de bolas de bilhar, o barulho do carteado e pelo som de copos sendo reabastecidos. As canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis como se fosse um fúnebre fundo musical.

Toda aquela paz fora interrompida pela minha chegada, pois assim que atravessei os umbrais daquele ambiente logo me encaminhei para o balcão e logo me dirigi à bela garçonete que naquele momento estava de costas para a porta e não me viu quando entrei.

– Boa noite, minha amada Rainha! – Disse entregando-lhe um buque de rosas vermelhas e uma caixa de bombons finos que eu comprara com meu próprio dinheiro.

Minha mãe ficou bastante lisonjeada com o presente, mas ao mesmo tempo um tanto incomodada com minha presença ali naquele ambiente. Ela jamais imaginara que algum dia eu pudesse estar ali. Sem me perguntar o que eu queria beber, abriu uma garrafa de refresco e o colocou na minha frente me servindo um copo em seguida. Naquele momento me senti um tanto quanto ofendido, pois aquele ambiente era uma boate, com belas garotas e gente adulta, fumando e bebendo. Eu era o único tomando um simples refrigerante. No entanto, eu jamais ousara questionar minha mãe em qualquer coisa que fosse, e não seria naquela noite – supostamente sendo o seu aniversário – que eu o faria. Tomei aquele refresco e já estava me encaminhando para a saída quando o pior aconteceu.

A noite tinha tudo para transcorrer tranquilamente até a chegada de um estranho valentão ávido por uma confusão. Antes de qualquer coisa, já entrou no bar falando palavras de baixo calão num tom bastante alto e muito desagradável. Ao passar próximo à mesa de bilhar, esbarrou num dos jogadores atrapalhando a jogada, o que fez com que uma discussão se iniciasse, mas logo fora amainada quando o valentão mostrou o cabo de uma brilhante pistola. Ao sentar-se, deu um forte soco no balcão que quase derrubou a garrafa do refresco que minha mãe me servira, pensei comigo que aquilo não terminaria bem. Quando minha mãe, muito prestativamente, veio lhe servir, ele logo lhe mostrou o seu lado mais abjeto após colocar a arma sobre o balcão e se dirigir a ela em seguida de forma bastante desrespeitosa:

– Belezoca quero uma bebida e uma beijoca.

– Boa noite senhor. Qual bebida poderei lhe servir? – Disse ela muito educadamente.

– Daquelas que se bebe! Sua piranha. E para sua informação, Senhor está no céu.

– Peço perdão senhor, mas são normas da casa o tratamento respeitoso que damos a todos os nossos distintos clientes. Contudo se me disser o seu nome terei imenso prazer em chamá-lo da forma que preferir. Insisto em perguntar-lhe qual é o tipo de bebida que deseja? – Disse ela mais uma vez, num tom bastante sereno sem deixar se abalar pela indelicadeza do cliente.

– Quando eu lhe disser o meu nome terá mais cuidado na forma como fala comigo. Pensei em tomar uma cerveja, mas posso beber qualquer coisa que você me sugerir. – Respondeu ele.

Quando ela foi lhe servir, delicada e com muito bom jeito, ele a segurou pelo braço e a arrastou para próximo de si tentando beijá-la à força. Quando ela tentou recusar já se viu na mira da arma que ele apontava entre seus seios, com a séria intenção de atirar se fosse necessário. Como que por um passe de mágica, vi minha mãe saltar pelo balcão e dar a volta por trás daquele indecoroso cliente e em questão de segundos tomar-lhe a arama de sua mão. Um silêncio se fez por completo naquele instante como se o próprio tempo tivesse parado. Todos ficaram bastante atônitos com o que poderia vir a acontecer naquele tranquilo bar. 

Num ímpeto de selvageria, o estúpido cavalheiro que havia adentrado aquele ambiente para perturbar a paz ali existente, tentou se desvencilhar de minha mãe, mas a força com que ela o manietava parecia ser de dez homens. O próprio valentão não acreditava no que estava lhe acontecendo, pois por mais que insistisse em se desvencilhar do abraço de minha mãe, soltar-se dos braços dela parecia algo impossível. Naquele momento, tive a estranha impressão de ter visto várias pessoas se aproximando de todos os lados. No entanto, o semblante daquelas pessoas havia mudado bastante. Seus olhos estavam vermelhos como duas chamas incandescentes e suas bocas estavam com uma aparência terrivelmente famintas com enormes dentes despontados por todos os lados, como se fossem feras selvagens.

Como em toda minha vida jamais havia presenciado uma cena como aquela, fiquei atônito e sem reação, mas de alguma forma consegui forças para sair correndo quando vi minha mãe se transformando numa besta horrível e se lançado sobre o pescoço daquele infeliz. Rapidamente muitas coisas sobre minha mãe se tornaram claras para mim...

Descobri da pior maneira possível quem – ou que – minha mãe realmente era...

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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O Caçador

A criatura fugia pelas montanhas e Miguel estava exausto. Nunca, em suas décadas de caçada, tinha tido tão pouco tempo para si, para descansar…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

A criatura fugia pelas montanhas e Miguel estava exausto. Nunca, em suas décadas de caçada, tinha tido tão pouco tempo para si, para descansar, e para comer. Nunca tinha sentido tanto frio. A gigante lua prateada pairava sob o céu há dias, imutável. Não se movia, crescia ou diminuía. Apenas ficava lá, o tempo todo naquele mesmo ponto fixo, impossivelmente grande, ofuscando as estrelas. O sol não nascera desde que a maldita lua surgira. Ao menos não era vermelha. Suas montanhas estavam tomadas pela nevasca cujo gélido vento açoitava sua pele sem dar trégua. A noite sem fim ainda durava, já havia perdido a conta de quanto tempo. Não mais que um mês, ele dizia a si mesmo, não mais que um mês.

Não sabia o porquê dessa noite eterna, o porquê dessa lua imutável, quando isso acabaria, ou nem mesmo se acabaria. Mas sabia que precisava continuar caçando. Caçava não porque queria, muito menos porque gostava. Miguel o fazia porque era seu dever patrulhar e proteger as montanhas onde nasceu – tinha feito essa barganha de livre vontade, era verdade – mas o fardo de sua vida havia ficado pesado. Como que para calar suas dúvidas, instintivamente, tocou o medalhão do sol em seu peito, reconfortando-se com sua presença. Inspirou profundamente, expandindo seus sentidos, e buscou certificar-se de que ainda se mantinha no rastro. Estava, e, portanto, continuou.

A verdade é que as montanhas lhe eram conhecidas. Sabia muito bem onde estava, mas a gélida noite branca havia instigado toda a sorte de monstruosidades a saírem de seus covis. Há seis refeições – era assim que podia contar o tempo – passara por um acampamento alvejado. Lá, encontrou uma família inteira assassinada, seus corpos parcialmente mastigados ainda frescos e o sangue quente, espalhado por todo lado, derretera um pouco de neve onde tinha empoçado, formando uma viscosa lama carmesim. Sangue, neve, e terra. Ao menos com isso já estava acostumado. Desde o acampamento, caçava a assassina criatura pelas montanhas. Ainda sem sucesso, mas seguia em seu rastro.

Horas de caminhada montanha acima se passaram e seu corpo já não aguentava mais. O frio, a fome, a neve, a falta do sol, a interminável caçada, tudo isso minava sua força e sua vontade. Não aguentava mais, caiu de joelhos no chão. Olhou para o céu, a lua impossivelmente grande, impossivelmente clara, a nevasca que não dava trégua, e, pior de tudo, a falta do sol. Pela primeira vez na vida considerou desistir e se envergonhou por sua fraqueza. Se enfureceu com sua vergonha. Fora acolhido pelos caçadores do sol ainda órfão, treinado, alimentado, educado. Sim, tudo isso era verdade. Deram a ele uma casa, um nome, um propósito, mas também tomaram sua vida em troca. Jurou abster-se de uma família, de amigos, de filhos, de viver. Jurou caçar. Desde que aceitou se tornar um dos sóis essa fora sua vida: sangue, morte, e vingança. Já sem ver o venerado sol há dias, frustrado, questionando sua vida e sua vocação, Miguel, rompendo a corrente prateada com suas próprias mãos, arrancou o medalhão de seu peito, atirou-o à neve e chorou. Sem saber quanto tempo ficou ali prostrado, desmaiou.

Acordou ainda no mesmo local, seu medalhão já levemente encoberto por uma nova camada de neve que continuava a cair. O céu ainda era o mesmo, mas o vento parecia ter piorado. A visibilidade havia diminuído. Se levantou com alguma dificuldade, esfregando seus olhos e sentindo a pele arder com o sal de suas lágrimas congeladas. Precisava comer. Precisava se aquecer. Juntou o pouco de gravetos que conseguiu encontrar e tentou fazer fogo. Conseguiu uma parca chama, um lampejo de luz e calor, de esperança. Lampejo que logo foi ceifado pela nevasca que não cessava. Tentou de novo, e de novo, e de novo, todas as vezes com o mesmo resultado. Um breve calor reconfortante, logo extinguido. Por fim, se rendeu a comer o pouco de carne salgada que ainda tinha e levantou-se, olhando para o medalhão ainda largado ao seu lado.

Titubeou, sua mente tomada por dúvidas. O sol o havia abandonado, o branco gélido tomava conta do que antes era luz, calor, e verde. Por outro lado – mas pelos mesmos motivos – as montanhas nunca precisaram tanto de um caçador. Lembrou-se dos corpos mutilados, da carne devorada, e do sangue empoçado. Terminaria essa caçada e então decidiria seu futuro. Questionar-se era um luxo para o qual não tinha tempo agora. Recolheu seu medalhão, colocou-o no bolso do casaco e seguiu montanha acima o rastro da criatura de cheiro inconfundível que precisava ser parada.

Já próximo ao topo, Miguel notou seu corpo entrar em alerta. Havia chegado ao seu destino, a criatura estava próxima. A batalha era iminente. Como já fizera muitas outras vezes antes, Miguel desembainhou a espada e deu os últimos passos em direção ao cume, em direção a muito mais do que apenas uma criatura.

Ao chegar, deparou-se com uma estrutura de rocha negra e formas geométricas impossíveis. O contraste entre a nevasca branca, o luar prateado, e a rocha era como olhar para um abismo que desafiava a razão e a própria sanidade. O cheiro da criatura vinha lá de dentro e, sem escolha, Miguel prosseguiu. Cruzar o arco e entrar na estrutura foi como entrar em outro mundo. Se lá fora o vento uivava e o branco cegava, ali dentro o silêncio ensurdecia e a escuridão era indecifrável. Deu mais alguns passos adiante e aos poucos seus olhos começaram a distinguir paredes de espaços vazios, e a cada passo mais profundamente entrava naquele santuário no cume da montanha, com o cheiro do monstro que caçava como seu único guia.

Virou à direita e chegou em uma grande sala aberta. O teto impossivelmente alto, as colunas grotescamente retorcidas, como vinhas negras que cresceram se contorcendo em si mesmas e então viraram pedra. Nada mais escutava do vento lá fora. Um par de olhos prateados surgiu em meio a escuridão. Era a criatura. Avançou em sua direção, mas ela, surpresa, fugiu. Miguel a perseguiu. Seus instintos tomando conta de seu corpo, a espada empunhada pronta para matar quando, de repente, os olhos de Miguel foram açoitados pela luz. A perseguição o levara até uma sala na qual as paredes de rocha eram translúcidas, deixavam passar a luz da lua diretamente em um altar da mesma rocha negra da qual era feita todo o restante da construção. O prateado da lua, o branco da neve, e o abismo da rocha se juntavam para permear o ambiente com um surreal brilho anil. Era como um lembrete do mundo hostil que o aguardava lá fora. Em meio à confusão pela impossibilidade do que via, Miguel sentiu dor. A criatura aproveitara o momento de desatenção para arrancar, com os dentes, um pedaço de seu ombro esquerdo.

Tomado pelos seus instintos, lutou. Por um breve momento tudo ao seu redor não mais importava, esqueceu da neve, do frio, da falta de sol. Esqueceu da insanidade do local onde estava, das suas dúvidas, de seu medo, e lutou. Defendeu-se de garras e dentes com sua espada e, encontrando uma oportunidade, feriu a criatura – decepando um de seus membros de onde jorrou o tóxico sangue rubro já conhecido de Miguel. O monstro, ferido, cessou seus golpes furiosos e fugiu. O primeiro instinto do caçador foi perseguir e terminar o que tinha começado, afinal não tinha ainda infligido um ferimento mortal. As monstruosidades podem se recuperar de coisas muito piores. Ao mesmo tempo, o altar lhe chamava, ele queria responder. Titubeou.

Perseguir a criatura significaria não mais encontrar essa sala, esse local sagrado de um deus desconhecido. Significaria voltar à sua vida de caçador. Ao frio, à fome, à nevasca. As paredes do santuário – sentindo sua dúvida – deixaram adentrar o vento gélido que rugia lá fora, açoitando a pele de Miguel e invadindo seus ouvidos. Estremeceu e institivamente levou a mão ao peito, almejando tocar seu medalhão do sol que não estava mais lá. Havia-o colocado no bolso. Nesse momento de angústia e dúvida, deixou a criatura fugir. Como que por uma demonstração de boa vontade, o altar restaurou a calmaria, novamente cobrindo o ambiente naquele curioso anil e silenciando o vento. Ainda exausto, drenado pelo recém combate, sentou-se no chão rochoso, de frente ao altar, disposto a ouvir o que a pedra tinha a dizer.

Miguel Alaric Sigel, caçador do sol, protetor das montanhas, aniquilador de monstros. Essa era sua identidade até aqui, essa fora a sua vida. Seu nome resumia bem quem era. Havia sido treinado para isso desde criança. Mas o altar lhe mostrou que poderia ter sido diferente. Infinitas outras possibilidades invadiram sua mente e ele viu que poderia ser o que quisesse, poderia ser feliz. Poderia abandonar o frio, a neve, os monstros. Poderia abraçar essa escuridão, fazer desse santuário seu lar. Bastava que renegasse o sol. Já não tinha o sol o renegado? Já não tinha o sol sumido dos céus, abandonando-o à neve? A dúvida dilacerava o caçador. Ele temia saber mais, mesmo assim o queria. Precisava saber mais. Rogou ao altar que lhe revelasse seus segredos. Queria compreender o que significaria abdicar de sua fé e aceitar outro deus. Mas também queria a paz, o silêncio, e o acolhimento daquele ambiente. Não ansiava voltar à nevasca, ao frio, e à fome. Desejava, mais que tudo, momentos de conforto e percebeu que já não os tinha há muito.

E o altar não mentiu. Não escondeu. Aquele era o santuário dos monstros e da noite. Era o santuário daqueles que Miguel passara sua vida combatendo. Mas a noite precisava dele, de alguém para brandir seu estandarte, e o receberia de braços abertos. Conceder-lhe-ia essa honra. Ele poderia ser o senhor de um novo mundo se assim desejasse. Isso o chocou. Era ao mesmo tempo inimaginável, inconcebível, e inaceitável, mas também completamente tentador. Poderia abdicar de tudo que acreditava, de sua vida, dos seus juramentos, em troca do conforto desse lar? Deixar os habitantes das montanhas à mercê das criaturas que os dilaceravam?

O altar, em sua infinita sabedoria, contra-argumentou. Disse-lhe que precisava de um campeão para coordenar as criaturas da noite. Poderia ser Miguel. Não era melhor que fosse ele? Melhor ele do que qualquer outro? O antigo caçador poderia conter as criaturas, diminuir o número de ataques, mantê-las sob seu controle, se portar como um carcereiro dos condenados. Estava a seu alcance. Era só tomar a oportunidade e o poder para si, bastava aceitar. Titubeou.

A oferta era doce, sensata, razoável. Sentia-se abandonado pelo sol, estava exausto, perdido, em uma terra que já não mais reconhecia como sua. E quem poderia culpá-lo? Se o fizessem, estaria ao seu alcance se vingar. Com o comando das criaturas, poderia direcioná-las como bem entender. Poderia subjugar seus inimigos. A noite já o tomara, já pensava como um deles. Ainda nem tinha a coroa e já havia sido corrompido. A alternativa era voltar à neve, ao vento, à fome. Não aguentava mais aquele branco sem fim, aquele frio interminável. Chorou, e aceitou. Resignou-se a aceitar a oferta. E assim levantou Miguel Ragnar Nott, o traidor. 

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda

Parte II – Darquinha - Capítulo II - Insanidade

Dizem que o simples acaso não existe e que, para que algo aconteça…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Dizem que o simples acaso não existe e que, para que algo aconteça de fato, há inúmeros outros acasos acontecendo, seguindo uma sintonia perfeita de diversos acontecimentos. E foi justamente essa perfeita junção de vários acasos em sintonia que proporcionou o encontro de um ex-cativo chamado Thomás e uma determinada equilibrista de nome Joana D’Arc, mais conhecida por todos como Darquinha. O destino pode até ser considerado por alguns como um deus um tanto quanto traiçoeiro. No entanto, ninguém jamais poderá negar que esse mesmo deus é o autor de todas as histórias já escritas, contadas e vividas, sejam elas cômicas ou trágicas.

Darquinha talvez tenha sido a única mulher que Thomás amou verdadeiramente. É evidente que, para um homem de sua idade, ele tenha tido conhecimento de outras mulheres no leito. Entretanto, sempre fora de uma forma bastante efêmera e descompromissada, algumas até mesmo em troca de algumas moedas ou algum tipo de favor. Contudo, nunca algo muito sério. Eram sempre relacionamentos de uma única noite, na maioria das vezes fugazes demais para serem repetidos, uma vez que, antes de conhecer Darquinha, ele era um homem errante, sempre perambulando de um lado para o outro em busca de trabalho. Quando a conheceu, Darquinha era uma bela jovem ainda na flor da idade, com apenas quinze anos recém-completados. Ela tinha a pele extremamente clara e macia, cabelos cacheados na cor de ouro e belos olhos azuis que lhe davam a aparência de uma princesa de contos de fadas.

Thomás a conheceu no circo ao qual ela fazia parte desde que nascera – sendo seus pais artistas circenses desde sempre – e de acordo com que fora crescendo, seguindo os passos dos pais e atendendo a um chamado do talento artístico que corria em suas veias, tornara-se uma exímia equilibrista, que a todos impressionava tanto por sua beleza e simpatia, bem como a ousadia dos números que ela desempenhava a cada espetáculo. Negro e ex-cativo, Thomás, desde que a abolição fora decretada, – mesmo sendo ele um negro foro, bem antes disso – vivia errando de um lado para o outro de cidade em cidade em busca de algum trabalho honesto que lhe proporcionasse os meios para a sua sobrevivência de uma forma digna. 

Se a vida dos negros escravizados já era difícil nas senzalas, com toda a humilhação e privação de qualquer tipo de dignidade. Quando ainda cativos morriam aos montes, no trabalho árduo e contínuo, onde seus senhores nenhum pouco se importavam, pois eram considerados apenas como instrumentos de trabalho que se moviam sozinhos, executando aquilo que lhes eram ordenados. Pois se um deles perecia, logo havia outro para poder substituí-lo. Como havia grande oferta, poderiam ser adquiridos por uma reles quantia nas feiras onde eram vendidos como animais considerados como seres desprovidos de alma ou qualquer tipo de sentimento. 

Assim que foram libertos se encontraram numa situação um pouco mais degradante e desesperadora, pois não tinham dinheiro, nem bens e muito menos um lugar onde pudessem ficar. A maioria dos ex-cativos das cidades foram ocupar os morros em barracos improvisados, que mais pareciam sinistras armadilhas, prontas a colher a vida de seus ocupantes a qualquer momento. Para completar ainda mais o caos em que suas vidas se tornaram, a grande maioria não conseguia trabalho honesto em quase lugar algum. Desprovidos de bens, ou qualquer tipo ofício, os negros que conquistaram através da Lei Áurea sua tão sonhada liberdade, se encontravam soltos pelo mundo sem eira nem beira, completamente entregues à própria sorte. Para sobreviverem, eram obrigados a enfrentar e aceitar qualquer tipo de ocupação que lhes apresentasse, mesmo que fossem as mais degradantes possíveis. Literalmente, para não morrerem de fome, os negros logo após a abolição tinham que se virar sozinhos naquilo que desse e viesse. Talvez seja dessa época o provérbio que diz: “... não há maldade ou situação tão ruim que não possa piorar um pouco mais...”.

É correto salientar que, independente de qualquer coisa que se possa dizer o cativeiro, – seja ele qual for – é ignominioso e bastante deplorável. Contudo, a libertação dos escravos no Brasil em particular, se demonstrou em algo um tanto quanto ineficaz aos negros cativos, que se por um lado se viram livres do julgo de seus senhores, por outro continuaram escravos da necessidade e da humilhação, que torna qualquer individuo um prisioneiro do desespero e da indignação.

Thomás, que há tempos se encontrava no mais completo ócio, já praticamente sem dinheiro algum e quase à beira do desespero, muito se animou quando, numa bela manhã de céu claro e tempo firme, o circo desembarcou na cidade onde ele se encontrava naquele momento. Como era do tipo de homem que enfrentava todo e qualquer tipo de trabalho, logo foi contratado para a montagem das barracas e do improvisado e combalido parque de diversões – um colorido chamariz para as crianças – que agora fazia parte das atrações do circo. O Grande Circo Chittway – agora já não tão grande – já à beira da falência definitiva, sobrevivendo de minguadas arrecadações – cada vez mais escassas – sempre buscava, na medida do possível, gastar o mínimo, tentando empregar quem cobrasse um soldo mais barato, se possível alguém que trabalhasse por dois e recebesse pela metade de um – talvez seja por essas e outras que tenha surgido o preconceito que alega que o circo seja um antro de pessoas de índole duvidosa.

Thomás, com as finanças quase no fim, com o aluguel de seu biombo por vencer nos próximos dias, e se vendo em sérias necessidades financeiras, aceitou de imediato o parco valor oferecido por uma diária de trabalho. Esse ordenado, mesmo que mísero, foi prontamente aceito, pois vinha acompanhado de uma refeição, que logicamente não era nenhum manjar olimpiano – diga-se de passagem – mas, para quem já havia experimentado os mais abjetos repastos de uma senzala, qualquer comida poderia ser considerada um banquete.

Foi no mesmo dia em que se empregou no circo, numa tarde quente e abafada, com o sol brilhando forte e majestoso num céu límpido e claro, que Darquinha ofereceu ao suado negro Thomás uma refrescante limonada. Este, por sua vez, muito timidamente perante a beleza da jovem, aceitou o refresco e logo sorveu toda a limonada em grandes goles, pois naquele momento, debaixo daquele sol escaldante, a sede o açoitava sem piedade alguma – principalmente após o almoço, que fora composto de arroz com carne de sol e legumes, bem caprichado no sal. Contudo, quando, com toda galhardia, quis agradecer à bela jovem que lhe prestara aquela boa ação, logo lhe foi informado por um dos integrantes do circo que ela era surda desde criança. Thomás também soube pela mesma pessoa que ela havia ficado órfã há pouco tempo. Seus pais – a maior sensação do circo – haviam perecido num trágico incêndio que quase destruíra o circo por completo.

Alguns acreditavam que o fogo se iniciara na barraca de atendimento de Madame Staell, talvez foco de um de seus inúmeros incensos, que queimavam quase todo o tempo em sua barraca de cigana. Como ninguém sabia ao certo se fora realmente ela a responsável pelo incêndio, não ousavam acusá-la diretamente por perda tão irrecuperável – também havia o medo de, ao responsabilizá-la por tamanha tragédia, quem assim o fizesse poderia se tornar uma pessoa não grata aos olhos ferinos da sinistra cigana. Como esse incêndio trouxera enormes prejuízos materiais ao já combalido circo, e também colhera a vida do mágico Norman e sua esposa, a bela assistente Elizabeth, logo a vida de Madame Staell se tornou um tanto quanto insustentável ali perante seus companheiros que, de uma forma, mesmo que velada, estavam praticando certo desprezo pela cigana.

O dono do circo já não tinha tanta simpatia por ela. Primeiro, porque ela nunca lhe dera nenhum tipo de ousadia, mesmo as ofertas tendo sido por demais tentadoras e bastante generosas por parte dele. Segundo, porque os Benetti sempre a defenderam, pois ela era uma espécie de fada madrinha da jovem Darquinha. E por último – talvez, esse o fator mais relevante – o fato de ela ter perdido completamente a visão de um de seus olhos, enquanto o outro olho que lhe restara se mantinha sempre vermelho e remelento, dando-lhe uma feição asquerosa e horripilante. Sendo assim, seu faturamento como vidente havia diminuído substancialmente – afinal, ninguém tinha muita fé em alguém que prometia enxergar o futuro, se nem mesmo conseguia ver o presente. Madame Staell ainda não havia abandonado o circo porque, após o acidente que matara Norman e Elizabeth, a pequena Darquinha – com apenas doze anos – havia ficado sob seus cuidados.

Desde que se associara àquele circo há mais de vinte anos, ainda nas longínquas terras do velho mundo, Madame Staell tinha se afinizado bastante com os Benetti – na época, um jovem casal de artistas de matrimônio recente – e foi justamente ela – ninguém sabe ao certo como – que havia ensinado a pequena Darquinha uma forma de comunicação através de sinais, assim que a filhinha adorada dos Benetti demonstrou os primeiros sinais de surdez. Essa desconhecida forma de comunicação havia facilitado bastante a interação com a pequena equilibrista que, assim como seus próprios pais, também era muito aplaudida pelo público em suas apresentações, tanto por sua rara beleza quanto por sua destreza e coragem em números muito ousados para sua idade.

Soube-se depois que aquela forma de comunicação através de gestos e sinais era uma antiga tradição oriunda dos antepassados de sua avó – A Mudra é uma espécie de dança teatral que envolve movimentos rítmicos misturados com gestos e sinais que conseguem transmitir algum tipo de mensagem sem emitir nenhum tipo de som. Madame Staell conseguiu de alguma forma adaptar a Mudra para uma forma de comunicação que pudesse dispensar os movimentos rítmicos, deixando apenas gestos e sinais. Com zelosa paciência e dedicação, logo a cigana se comunicava abertamente com Darquinha, tornando-se assim, mesmo de uma forma involuntária, sua intérprete oficial para todos os outros integrantes do circo.

Depois da morte dos Benetti, o único parente vivo de Darquinha que ainda havia sobrado em terras brasileiras era seu tio Nicolas – Nico Besta-fera – um indivíduo de índole muito duvidosa, que enfrentava sérios problemas com a bebida – talvez devido à sua condição física – e que piorara bastante nos últimos tempos após a perda de seu irmão Norman, que sempre lhe fora uma espécie de protetor. Como não havia possibilidade alguma de deixar uma donzela – mesmo sendo sua sobrinha – aos cuidados de uma pessoa que não conseguia tomar conta nem de si mesmo – a situação emocional e a aparência física de Nico Besta-fera era cada dia mais deplorável – optou-se pela sensata decisão de que a jovem órfã deveria ficar aos cuidados e proteção da velha cigana, que além de ser uma mulher de comportamento ilibado, também sabia se comunicar muito bem com ela.

Não foi apenas o exagero da bebida que fez com que Darquinha fosse afastada da companhia de seu tio, sendo direcionada à proteção da velha cigana. Na verdade, Madame Staell não era nenhuma pessoa senil ainda. Contudo, após a perda parcial da visão, a decepção com as terras brasileiras, a dor e a tristeza adicionaram um suave toque de velhice à sua aparência – segundo a sabedoria popular: "... nada nessa vida é capaz de envelhecer um ser vivo mais do que o sofrimento...". A olhos vistos, a impressão era que a velha cigana tinha se esquecido do significado do que era esperança – talvez a constante companhia de duas almas sofredoras pudesse ser confortadora para ambas. De certa forma, a assustadora aparência de seu tio Nicolas já era motivo suficiente para manter a jovem e indefesa equilibrista afastada dele, o tanto quanto fosse possível.

Nicolas Benetti era irmão gêmeo de Norman. A diferença entre ambos gerava piadas um tanto quanto maldosas. Vladimir – que não era nenhum pouco simpático ao anão – certo dia, estando zangado com Nico por uma besteira qualquer, chegou mesmo a dizer: – "Quando o mágico Norman nasceu, sua bondosa mãe ficara tão admirada de sua beleza que decidira criar também sua placenta...". Muito diferente de seu irmão, o anão era um sujeito disforme, com uma cabeça enorme sobre uma protuberante corcunda; suas pernas eram grotescas e curtas, numa total desproporção ao seu torso. Sua cabeça, além de grande, era afinada na frente, quase como a figura de um tubarão; suas sobrancelhas unidas sobre o nariz vermelho eram salientes e davam-lhe um aspecto animalesco. Mas a pior parte eram os dentes afinados como os de um cão, além dos olhos que, pela lógica, deveriam ser claros, mas permaneciam quase constantemente olhando sempre em direções diferentes.

Nicolas Benetti fazia parte da família do mágico Norman e, por isso, acompanhava o pacote – o fantástico mágico, a bela assistente e o pequeno monstro. Enquanto Norman e Elizabeth deixavam o público boquiaberto com o universo místico dos passes de mágica, Nicolas Benetti, o anão húngaro do circo, amedrontava mulheres e crianças e divertia os adultos. Era apresentado ao público – na maioria das vezes completamente bêbado e sempre mal-humorado – como Nico Besta-fera, o último mordomo do Conde Drácula. Alguns diziam que o desavisado Conde Drácula havia morrido após experimentar o sangue do anão, nocivo até para o mais abjeto dos demônios.

Fora o próprio Sr. Zacky quem tivera a ideia de que a jovem Darquinha fosse viver na companhia de Madame Staell, ficando assim esta pela responsabilidade de zelar pela integridade da filha dos Benetti. Contudo, havia algo a mais além de toda essa benevolência por parte desse nobre cavalheiro, pois sua verdadeira intenção era, assim que a primeira oportunidade se demonstrasse propícia, abandonar a velha cigana – que há tempos era apenas um peso para o circo, pois era vista pelo público como uma horripilante bruxa. Quase ninguém mais procurava por seus serviços. Se suas premonições eram ruins, eram recebidas como agouro. Se, por outro lado, se demonstrassem boas e promissoras, eram consideradas uma benesse das trevas, que poderiam ser cobradas posteriormente – ficava semanas inteiras sem arrecadar nenhum tostão.

A jovem equilibrista, por sua vez, também não rendia os mesmos aplausos de outrora. Logo após a trágica morte de seus pais, ela ficara meses sem se apresentar – fato que foi respeitado por todos num primeiro momento – e, quando aos poucos foi voltando ao picadeiro, suas apresentações eram insalubres e sem nenhum brilho. Chegando mesmo, por algumas vezes, a abandonar o palco chorando numa sofrível agonia – quem conhecera os Benetti a aplaudia nesses momentos de tristeza, solidarizando-se com seu sofrimento. Mas como não há alegria que seja eterna e nem tristeza que perdure para sempre, logo até mesmo a morte dos Benetti virou história, e quem pagava para ver o espetáculo não se interessava por um show de lágrimas.

Sr. Zacky muitas vezes se perguntava se seu circo, que outrora fora grande e majestoso, havia se tornado uma casa de apoio a deficientes e idosos – na Europa, havia sempre a renovação do quadro de artistas. Era comum sempre aparecer indivíduos com algum talento artístico em busca de emprego. Desde que chegara ao Brasil, nenhum artista fora incorporado ao grupo, quando muito, um ou outro ser com alguma aparência estranha. Desde que chegaram ao Brasil, muitos haviam abandonado o circo para tentar a vida como colonos em grandes fazendas de café. Os que restaram eram algo deprimente de se ver: um anão bêbado em constante crise existencial, uma vidente praticamente cega que não via mais o futuro e nem o presente e já demonstrava esquecer até mesmo seu próprio passado, uma equilibrista que levava tombos da vida a torto e a direito e que havia ficado completamente surda, e por fim alguns outros artistas, sem muita importância, que já estavam ficando velhos e obsoletos. Por mais leviana que pudesse parecer, sua intenção de se livrar da cigana e de sua protegida – uma despesa supérflua – era tentar cortar todo tipo de gasto desnecessário de um circo que praticamente já não arrecadava quase nada.

Sr. Zacky, por muitas vezes – quando em madrugadas insones, quando todos dormiam e tudo se aquietava – deitado em seu leito na solidão de seus pensamentos, se arrependia amargamente de um dia ter abandonado sua terra para se lançar numa louca aventura, baseado em promessas vazias feitas por um desconhecido endinheirado e nos conselhos de uma sombria cigana – que advogava em causa própria. Mesmo que a situação do circo naquele momento na Europa fosse desesperadora, deveria ter sido mais prudente e não se deixar levar pelas circunstâncias. Infelizmente, em momentos de solidão e carência, toda e qualquer companhia é bem-vinda e, para quem está faminto, qualquer repasto é banquete. Naquele momento desesperador, tanto a sua realidade quanto a de seus companheiros fora substituída pela promessa de dias melhores em terras de além-mar.

Madame Staell – a pedido do próprio Sr. Zacky – tinha visto em suas cartas que a vida de todos no circo seria bem diferente no Brasil. Como as cartas não mentem jamais, a cigana tinha dito a verdade. Realmente a vida de todos que acompanharam o circo para terras brasileiras havia mudado bastante. Sr. Zacky suspirava de desgosto e arrependimento. Em outros tempos, quando ainda era jovem, a aventura de vir para o Brasil ou qualquer outra parte da América poderia ter sido diferente, pois sabia ele que o maior inimigo de um homem era o frio cortante dos anos acumulados em suas costas. Assim que o calor da juventude se esvai pelo corpo, pelas constantes decepções acumuladas, jamais essa chama poderia se aquecer novamente. Com o corpo frio e sem perspectivas para dias melhores, por diversas vezes havia cogitado a ideia de abandonar tudo e retornar sozinho para a Europa em busca de algum parente que ainda lhe restasse ou mesmo algum amigo que pudesse lhe dar guarida para terminar seus dias com dignidade em sua terra natal. Em sua concepção, a vinda para o Brasil se demonstrara um erro terrível. Mas, até que sua resolução de retornar à Europa fosse viável, deveria ele tentar cortar todo tipo de gasto desnecessário, pois, às escondidas e com muita dificuldade, na medida do possível, estava ele ajuntando míseros tostões para que pudesse custear seu retorno ao velho mundo.

O circo, cada vez mais decadente, havia se instalado naquela cidade – onde Thomás estava de passagem – devido a uma animada festa de quermesse, que se iniciaria duas semanas depois. As festas de quermesse, em muitas cidades do sertão, são sempre ansiosamente aguardadas pela população local e adjacente dessas ermas localidades, que em sua grande maioria não têm muitos atrativos. Essas festas religiosas são grandes acontecimentos, onde há muita bebida, comida farta com várias novidades, tanto de mercadorias comercializadas nas coloridas barracas de mascates, quanto nas barracas de jogos e diversão e, vez por outra, algo um tanto quanto mais diversificado como um circo, por exemplo. Após três dias de trabalho duro – com o auxílio do negro Thomás – logo o circo já estava todo montado e pronto para um colorido espetáculo.

Durante esses três dias de trabalho, por incentivo do dono do circo – que, independente de qualquer coisa, sempre fora muito gentil e benevolente com todos que trabalhavam com ele ou para ele – por duas ou três vezes, Darquinha havia servido algo para Thomás; um refresco aqui, um gole de café acolá e até mesmo uma satisfatória fatia de broa de milho que ela mesma havia preparado sob a supervisão da velha cigana – que havia visto em suas premonições algo muito promissor para ambas na presença daquele simpático e educado negro. De certo modo, de uma forma bastante substancial, Thomás fazia parte do futuro tanto de uma quanto da outra, mas bem longe do circo e de todos aqueles que as conheciam.

O destino, esse deus – entidade, espírito, ou seja, lá o que o valha – um tanto quanto confuso às vezes, para a simples e limitada compreensão humana, tornou a presença de Thomás – um homem já maduro – muito confortável para a jovem, que após muito tempo de tristeza voltou a sorrir e ter o olhar brilhante outra vez. A cigana, mesmo com a visão bastante comprometida, logo percebeu certa afinidade entre eles. Mesmo sem ela pronunciar nenhuma palavra e nem ao menos poder ouvir qualquer coisa que ele dizia, parecia que a troca de sorrisos e olhares entre ambos dava mostras de estarem travando longos diálogos. Madame Staell, muito interessada em tudo aquilo, decidiu questionar sua protegida. Através de gestos cuidadosos e com bastante parcimônia, perguntou a ela:

– Por que tanta gentileza para com aquele negro desconhecido?

Darquinha, por sua vez, também através de gestos, mesmo com certa timidez, mas bastante confiante, respondeu:

– Há algo de curioso no modo como ele me olha, e o jeito como ele me trata me deixa bastante segura e muito confortável, como se em seus gestos gentis e seu sorriso sincero houvesse algo que me fizesse lembrar meu saudoso pai.

Assim que conseguiu se fazer entender, caiu num doloroso pranto, abraçando fortemente a cigana, que logo a amparou em seus braços, deixando que ela pudesse desabafar toda a tristeza que havia retraída em seu ser por tão irreparável perda.

Darquinha, vez por outra, em raros momentos de descanso, flagrava Thomás com um livro nas mãos. Um livro em si era sinal de grandeza de caráter – seu pai, que era um assíduo leitor, sempre dizia que os grandes espíritos se formavam através de sabedoria e muito conhecimento – concedendo ao seu portador ares de boa índole, tal como seu próprio pai fora um dia. Um homem amante das letras, portando sempre consigo um bom livro, seria incapaz de cometer qualquer tipo de grosseria ou indelicadeza com quem quer que fosse.

Quando ela ainda era uma criança e ainda podia ouvir algum tipo de som claramente, certa vez questionou seu pai porque deveria aprender a ler e a escrever, sendo que aquele tipo de atividade não era tão relevante para eles ali no circo, onde não havia muitos livros para serem lidos. Seu pai, um homem de traços serenos, sempre muito paciente e carismático, lhe respondera citando um antigo provérbio árabe:

– “A ignorância é vizinha da maldade.” Pessoas sábias são benevolentes por natureza.

Mesmo já com os primeiros sinais de surdez, quando seu pai lia algum livro para ela ou lhe ensinava algo, Darquinha escutava com silenciosa atenção, coisa que só se via na face de um aluno quando o professor era objeto de sincera admiração. Em seus inocentes pensamentos, um homem que admirasse os livros e que amasse as letras saberia o verdadeiro significado do amor.

Madame Staell tentou lhe gesticular sobre a diferença que havia entre eles, não só de cor – que era proporcional ao dia e à noite – a origem e tudo o mais, mas principalmente a idade, que era demasiadamente incompatível para um relacionamento entre ambos. Darquinha então se recordou de um livro que seu pai lera para ela há muito tempo. Nessa obra escrita pelo filósofo Platão ainda nos tempos áureos da humanidade, o enredo tratava de um grande banquete onde um elogio era feito para o Amor, esse deus infinito de sentimento sublime. Dentre os diversos elogios que foram cantados, um se destacou acima dos demais; dizia que no princípio éramos seres ligados como se fôssemos apenas um, formando duas partes que se completavam para formar um todo. Até que um dia os deuses – por ira ou talvez até mesmo inveja da felicidade humana – nos dividiram por toda a eternidade em duas partes distintas e, a partir de então, erramos pelo mundo de coração vazio e alma atribulada, sempre em busca de nossa outra metade. Quando encontramos a outra parte que nos completa, nada mais importa. Nenhum tipo de riqueza, status ou posição social faz sentido até nos ligarmos de forma incondicional a essa metade e sermos completos novamente.

Desde que o homem pisou nessa terra, talvez fosse essa a melhor explicação para o Amor, esse estranho sentimento que une as pessoas sem fazer distinção de gênero, cor, idade etc. Não que o amor seja cego, na verdade apenas consegue ver muito mais além do que os olhos podem enxergar. Madame Staell, uma mulher muito versada nas questões que envolvem os sentimentos e até mesmo a própria alma, se deu por convencida e nada mais acrescentou.

Na noite de estreia do circo, tudo estava belo e colorido como num sonho. Naquele pequeno vilarejo, era a primeira vez que um circo se instalava ali. Para a grande maioria – de uma população relativamente pequena – o circo era uma fantástica novidade, e todos estavam bastante ansiosos pelas apresentações. Até mesmo Darquinha, que há tempos não se apresentava como outrora sempre fizera, naquela noite em particular, estava bastante eufórica.

A festa da quermesse se iniciara assim que o sol se pôs e deu lugar a uma bela noite enluarada de tempo fresco e agradável. Havia comidas e bebidas dos mais variados tipos. Barracas coloridas anunciavam muitas novidades da cidade grande e o circo, sem muita demora, logo iniciara suas apresentações. O espetáculo foi um tremendo sucesso, mesmo que a plateia não fosse tão numerosa quanto o esperado. No entanto, a meia centena de pessoas – talvez até um pouco mais – que assistira ao espetáculo ficou admirada com tanta maestria dos artistas. O mais deslumbrado dos espectadores era o negro Thomás, que contemplava a apresentação de Darquinha boquiaberto. A jovem equilibrista estava inspirada naquela noite e fez uma de suas mais belas apresentações, mal sabendo que aquela seria a última vez que atuaria como uma artista circense.

Assim que as apresentações se encerraram e todos estavam contentes com o resultado – alguns porque ficaram admirados com toda a magia do circo, outros porque logo terminara. Somente Sr. Zacky estava cada vez mais acabrunhado com os parcos resultados da bilheteria, que, mesmo para uma noite de estreia, mal cobriam os custos da montagem do circo. Os artistas, que pareciam já estar acostumados com aquelas poucas migalhas, se deram por satisfeitos e, assim que terminaram suas apresentações, quiseram também – na medida do possível – aproveitar a festa. Nico Besta-fera, que antes mesmo de terminar as apresentações já estava caindo de bêbado, assim que o circo deu por encerradas as atividades da noite, logo se recolheu e foi tentar curar sua bebedeira com uma tranquila noite de sono. Alguns seguiram o exemplo de Nico e também foram se recolher.

Muitos outros quiseram estender a noite. Enquanto Vladmir se exibia com suas habilidades com as facas para algumas moças e rapazes, viu que Darquinha dava certa ousadia ao negro que ajudara na montagem do circo. Percebeu que os dois estavam ficando íntimos demais, pois o negro já havia lhe comprado um mimo na barraca de bichos de pelúcia e também haviam tomado refrescos juntos. Estando ela sempre muito sorridente para aquele estranho. Vladmir que outrora cultivara um amor platônico pela bela mãe de Darquinha, com a morte desta, entendeu que esse amor poderia ser estendido para filha que a cada dia que passava, ficava tão bela quanto a própria mãe. Ele que estava mordido de ciúmes pelo comportamento que Darquinha despedia a um estranho, – intimidades que a ele nunca fora permitida – decidiu que se quisesse alguma chance com a jovem deveria agir muito rapidamente. Como na feira havia bebidas à vontade para quem pudesse pagar, ele acabou exagerando no consumo e em pouco tempo já não era senhor de seu juízo perfeito e arquitetara para aquela mesma noite tomar Darquinha por companheira, mesmo que tivesse que obrigá-la a tal feito. O único problema era a velha cigana que trazia sua protegida sempre debaixo de seus olhos, mas como ele já havia tomada aquela resolução ficaria a espera da melhor oportunidade para colocar em prática seu vil intento. 

Antes da meia noite, quando as luzes começaram a se apagar e todos já estavam se recolhendo, o casal de apaixonados também decidira dar aquela noite por encerrada e após se despedirem com algumas trocas de carícias foram se recolher. Thomás se dirigira para o quarto onde estava hospedado radiante de alegria, tal como uma criança que ganha um brinquedo novo. Darquinha por sua vez, vivia os momentos mais intensos de sua tão lastimosa existência e se encaminhara a passos lentos para a barraca da velha cigana, que naquela hora já estava recolhida, mas ainda acordada a espera da jovem protegida. O circo estava montado ao lado da igreja e o acampamento dos artistas um pouco mais atrás. Entre o circo e o acampamento havia um pequeno trecho que àquela hora da noite, com céu já começando a se fechar para uma chuva que se anunciava para breve, estava um pouco escuro, mas era o caminho que ela deveria seguir até a barraca em que estava alojada.

 Foi justamente nesse trecho que Vladmir decidiu esperar por ela e dar seu golpe de misericórdia. Assim que Darquinha se aproximou do local onde ele estava de tocaia, ele se fez visível e para que ela não se assustasse gesticulou para que ela o reconhecesse. Como conhecia o faquir há muitos anos, ela pareceu não dar muito importância a ele e continuou caminhando até o momento que ele a segurou firmemente pelo braço tentando arrasta-la até uma construção em ruínas ao lado do caminho. Qualquer pessoa teria tentando gritar por socorro, mas para a jovem Darquinha isso não era possível, e ela mesmo que muito relutante, teve que se deixar levar, pois Vladimir tinha quase o dobro de sua força e parecia estar completamente descontrolado. Ela pode sentir o hálito de bebida e mesmo na penumbra da noite parece que podia ver algo estranho em seu olhar. Brilho que só aparece nos olhos de alguém que está friamente determinado a fazer algo terrível.  

Darquinha estava, naquela noite, trajada com um belo vestido de cetim de cor amarelo com belos motivos florais. Tinha os cabelos soltos apenas com um enfeite de prata para prender a franja que lhe caia nos olhos, e usava um agradável perfume que trazia notas de refrescantes flores silvestres. Até o momento que fora abordada por Vladmir estava numa noite esplendorosa, mas se vendo presa nas garras daquele ignominioso crápula experimentou um momento de terrível desespero. O até então, gentil e prestativo faquir, finalmente revelara sua verdadeira natureza e estando os dois a sós resguardados pela penumbra e a quietude da noite tentava de todas as formas arrancar as vestes de Darquinha com o ímpeto de possuí-la a qualquer custo e depois tomá-la por esposa. Naquele momento o terror enfrentado por Darquinha era algo inominável, sabendo que ali naquele local e àquela hora da noite sem poder gritar por ajuda, ninguém viria em seu socorro.

 Contudo, o ser humano desde sua origem mais remota, nos momentos mais terríveis de sua existência sempre conseguira encontrar uma forma de vencer as adversidades que a vida lhe apresentava e foi agarrada a essa desconhecida força que Darquinha encontrou a ajuda que necessitava naquele instante. Sabendo que suas forças e capacidades físicas eram inversamente desproporcionais a daquele asqueroso ser que a atacava como um animal selvagem, ela utilizando-se da capacidade de dissimulação que só os seres humanos têm, deixou de resistir e deu mostras que consentiria tudo o que ele quisesse.

Estando ele muito entretido em seu intento, parecendo que ela havia cedido as suas investidas e também por estar sobre forte efeito do álcool, abriu sua retaguarda e nem mesmo percebeu quando ela num ímpeto incrível de sobrevivência e defesa da honra arrancara-lhe uma de suas facas – que ele sempre trazia consigo na cintura – e num único golpe certeiro, cravou-lhe em seu peito com toda a força que possuía – a energia que um ser vivo consegue canalizar quando se encontra na iminência de algo perigo letal, é algo inacreditável. – Vladimir que jamais poderia esperar uma atitude daquela, vindo de alguém que até então tinha sido de uma meiguice extraordinária, deu alguns passos para trás e caiu de joelhos tentando arrancar a faca de seu peito. Todavia, o golpe havia encontrado o destino certo e o coração que outrora já batera doridamente pela mãe de Darquinha, naquele fatídico instante encerrava seus movimentos de uma vez por todas e colocava um fim definitivo na errante e frustrada vida daquele distinto faquir, que em último ato de desespero havia puxado a faca da ferida recém-aberta sacramentando seu próprio fim.

Assustada com todo aquele sangue que esvaia em jorros da ferida de seu algoz, sem saber se ele estava vivo ou morto, Darquinha saiu correndo na direção do acampamento que não estava muito longe. Logo na entrada do local onde as barracas estavam instaladas parou por um instante, para que pudesse recuperar o fôlego e tentar se recompor. Parada encostada a uma pequena árvore olhou ao redor e pôde então perceber que àquela hora já bastante avançada da noite, todos haviam se recolhido. Tudo estava quieto e silencioso, somente na barraca de Madame Staell ainda havia luz e movimento. Mesmo estando o céu quase todo encoberto por pesadas e escuras nuvens que ameaçavam derramar um aguaceiro a qualquer momento, naquele instante uma réstia de luar brilhou em seu rosto pouco antes dela entrar na barraca da cigana, que de alguma forma sobrenatural pressentia que algo não estava certo e já a aguardava ainda de pé bastante ansiosa. 

Quando sua protegida entrou ainda esbaforida e com escuras manchas de sangue respingadas em quase todo o vestido, a sábia cigana logo concluiu que por mais uma vez sua intuição não estava errada e muito rapidamente acolhendo a assustada jovem em seus braços tentou acalma-la com carícias e afagos. Assim que percebeu que sua respiração se desacelerava e ela estava um pouco mais calma, questionou o que havia acontecido a ela e o porquê dela estar naquele estado tão lastimável. Através de gesticulações ainda desconexas, Darquinha lhe relatara todo o acontecido e tentava a todo custo convencê-la a segui-la para mostrar-lhe o local onde Vladmir tentara lhe violentar e ela o havia ferido. Mesmo sendo vítima daquela vil criatura, ainda assim, demonstrava uma profunda preocupação pela vida daquele ser, e ansiava por tentar ajuda-lo de qualquer forma. 

Madame Staell sendo uma mulher já experimentada em anos de vivência e com a maldade humana, decidiu que não seria correto irem sozinhas até o local de um possível homicídio. Sem demora, foram chamar o dono do circo, mas antes fizera com que Darquinha trocasse o vestido sujo de sangue e lavasse bem o seu rosto, tentando apagar qualquer traço de culpa que pudesse lhe incriminar. A velha cigana fora categórica ao dizer que ela deveria manter tudo àquilo no mais absoluto segredo, e de forma alguma deixar que qualquer pessoa ao menos desconfiasse que ela tivesse algo haver com o assassinato em si. Diriam apenas que, estando ela voltando de um passeio pela cidade se deparou com alguém caído no caminho e quando ela por curiosidade foi ver de quem se tratava, percebeu que era o faquir e este, estava ferido de morte.

Como a hora já era um tanto quanto avançada, Sr. Zacky com muita má vontade e um mau humor bastante amargo, se levantara praguejando a tudo e a todos, quis logo saber quem o estava incomodando àquelas horas tão tardias. Com palavras rápidas e diretas, logo a cigana o colocara a par de toda a situação e mais que depressa lhe rogou que as acompanhasse até o local para quem sabe ainda poder ajudar o infeliz faquir. Rapidamente se encaminharam para o local do acontecido.

Quando chegaram onde tudo ocorrera, Sr. Zacky logo percebeu que o faquir estava sobre uma poça de sangue como se todo o sangue de seu corpo tivesse se esvaído e logo pôde verificar que Vladmir já estava sem vida, e que nada mais poderia ser feito por ele. Pediu a velha cigana que lhe repetisse toda a historia uma vez mais. Enquanto Madame Staell lhe relatava a história que ela mesmo criara em todos os seus pormenores, sem mudar uma única silaba se quer, ele com o dedo sobre o lábio superior tentava entender como aquele fato se dera. Mesmo achando toda aquela historia muito estranha. Pois, sabia ele que Vladimir era um homem forte e muito ágil e não deixaria se ferir tão facilmente daquela forma com uma facada no peito, havia algo muito errado naquilo tudo, mas de forma alguma ele ousou duvidar das palavras que a cigana lhe relatara.

Deixando o dono do circo digerir a historia bem como entendesse, deu-lhe alguns minutos de reflexão e logo em seguida questionou-lhe de forma categórica e muito convincente:

– O que faremos Sr. Zacky? Este homem foi assassinado! Devemos acionar as autoridades imediatamente! Ou pelo menos dar o alarde pela cidade, quem sabe assim poderemos esclarecer o que aconteceu com nosso companheiro.

Darquinha se mantinha de cabeça baixa sem conseguir levantar os olhos – pois sabia que qualquer um poderia ver culpa em seus olhos – se mantinha quieta ao extremo tentando manter até mesmo a sua respiração num movimento cadenciado e muito silencioso, vez por outra dava um suspiro profundo e balançava a cabeça em movimento negativo. Quando a cigana propôs acionar as autoridades, de alguma forma ela pode entender o que estava sendo dito, mesmo sem poder ouvir nenhuma palavra se quer. Um frio arrepio correu por toda a sua espinha e todos os pelos de seu corpo se eriçaram, sorte sua que as trevas da noite ocultaram aquela infeliz e involuntária reação perante aquelas palavras de sua tutora. O dono do circo decidira que o melhor a se fazer era primeiro alertar seus companheiros, e somente depois, acompanhado de outras pessoas de sua confiança irem em busca das autoridades locais, pois sabia melhor do que ninguém que a polícia no Brasil não era muito sociável com estrangeiros e nada benevolente com estórias mal contadas. 

Em poucos minutos todo o circo estava de pé. O alvoroço foi completo como se o Juízo Final tivesse se iniciado. Houve diversas acusações, profundos lamentos e várias conjecturas infundadas. Todos pareciam ter uma resolução predeterminada para o que havia acontecido. Sr. Zacky a todo o tempo tentando se manter calmo e como líder daquela trupe, buscara com palavras de bom senso manter os ânimos amainados. Dizendo em tom sereno, mas de uma forma firme, que todos deveriam tentar falar um pouco menos e agirem um pouco mais. Reuniu alguns homens consigo e acompanhado da velha cigana foram em busca de alguma autoridade na cidade. Madame Staell dera ordem a Darquinha para que se recolhesse e em hipótese alguma deveria manter nenhum tipo de diálogo com quem quer que fosse. 

Logo toda a cidade estava sabendo do acontecido e como era um lugar onde a paz era absoluta, aquele trágico acontecimento era uma novidade que por muitos dias serviria de entretenimento nas rodas de conversas. Antes de tudo, havia a necessidade de tentar solucionar o crime. Naquela mesma noite, um pouco mais cedo, algumas pessoas da cidade presenciaram uma violenta discussão entre Nico Besta Fera e o Faquir Vladimir. Para os integrantes do circo aquilo era algo mais do que normal, mas para uma população pacífica e bastante fraterna, aquela contenda era algo desnecessário e bem possível de ser evitado. Para quem presenciou a discussão, não restava dúvidas de quem era o assassino do belo e simpático rapaz que a todos agradara naquele pequeno lugarejo. Vladimir, quando lhe era conveniente sabia muito bem como ser agradável e muito dissimulado. Assim que a notícia do assassinato chegou aos ouvidos do padre – principal autoridade local – e os relatos da discussão se fez presente, rapidamente fora dada a ordem para que o anão do circo fosse detido para um breve interrogatório.

É dito em mesas de bares e rodas de conversas que uma desgraça nunca vem sozinha. Nico Besta Fera que dormia sossegadamente, curtindo mais uma noite de bebedeira, nem mesmo poderia imaginar o que estava acontecendo quando um grupo de homens lançou-se sobre ele para o manietarem e o levarem perante o padre que já havia chamado o coronel, para que em sua presença o acusado pudesse confessar seu hediondo crime. O anão que despertara de um sono ebriamente pesado, se assustara bastante com tudo o que estava acontecendo. Primeiro pensou estar tendo um terrível pesadelo, mas logo pode perceber que realmente estava sendo amarrado e amordaçado por um monte de pessoas desconhecidas naquela escuridão da noite. 

Como ele dormia numa espécie de oficina do circo, junto a várias ferramentas e apetrechos, num ímpeto de tentar escapar daquela situação, deu alguns pinotes e empurrando um daqui e derrubando outro acolá tentou fugir pela única porta que havia naquele improvisado dormitório e quando se lançou em sentido a porta, acabou por derrubar a única mulher que estava naquele grupo que viera com intuito de prendê-lo. Na queda a mulher foi de encontro com um ancinho que havia caído com toda aquela balburdia. Os dentes da ferramenta lhe cravaram em seu crânio de forma letal, causando a segunda morte da noite naquela então pitoresca e pacata cidadela. 

O anão sem saber do que se tratava, ainda tentou de todas as formas escapar de seus algozes, mas sua tentativa desesperada de fuga era prova mais que suficiente de sua culpa pelo assassinato do faquir. Aquele incidente com a mulher na porta de sua barraca selara de vez o seu destino que se resolvera em poucos minutos, quando a turba enfurecida com a cena da mulher que perdera sua vida avista de todos após o anão tê-la empurrado na tentativa de se evadir do local. Nicolas Benetti fora linchado por um grupo de pessoas, que até então se demonstraram ser bastante calmos e muito benevolentes com forasteiros, mas naquele momento perdera por completo o sentimento de piedade. Sob uma torrente de socos e pontapés vindos de todos os lados, em poucos instantes a vida do anão do circo também fora tolhida.

Aquela noite que se iniciara com fogos de artifício, muita música e uma alegria incontida por parte de todos que prestigiavam a festa, terminaria com um saldo bastante negativo. Três mortes bastante incomuns. O primeiro deles, – um assassinato sem sombra de dúvidas – não havia certeza plena de quem era o criminoso – apenas conjecturas –. O segundo havia sido um infeliz acidente causado pelas sinistras tramas do destino. E o terceiro, – também um crime certamente –, mas os assassinos eram muitos e não havia como indicar um único culpado. Pois, fora um grupo, que sob a proteção da escuridão da noite conseguiu se livrar de qualquer tipo de acusação. Tudo foi tão rápido que ninguém viu nada e se alguém o viu, preferiu por se manter em sigilo numa espécie de autoproteção mútua. De certo modo tudo estava esclarecido. O que restava era cada qual chorar e lamentar pelos seus mortos e dar prosseguimento para as devidas exéquias de cada um.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Henrique Siviero, -Contos Henrique Siviero Escrito por Henrique Siviero, -Contos Henrique Siviero

A Casa das Sete Irmãs

Num lugar etéreo existe um sobrado, que eu, ao andar pelos sonhos, encontrei ao acaso, nas horas tardias de uma noite qualquer…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Num lugar etéreo existe um sobrado, que eu, ao andar pelos sonhos, encontrei ao acaso, nas horas tardias de uma noite qualquer. 

Eram paredes cinzas e descascadas, com um lodo escorrido em estrias escuras sobre a tinta branca envelhecida, recoberta de trepadeiras, tinha o contorno de uma burlesca figura. 

Um jeito bucólico nas janelas altas, jardim de roseiras, árvores de galhos retorcidos, a grama por cortar de onde trevos brotavam, escondia os sapatos ao pisar no caminho. 

Havia pedras encaixadas no chão antes de chegar na varandinha inclinada. A entrada breve tinha algo quase lúdico, recaía o telhado sobre a fachada. No fim da tarde havia um brilho nas janelas de vidro fúlgido.

Não se encaixava em qualquer época que fosse, perdida num mundo isolada e tão só. Uns ares nostálgicos de infância, mas era um pouco estranha demais para ser casa de vó.

Bati à porta e depois de alguns toques percebi que se abriu de repente. Ninguém me recebeu, na verdade, mas fui entrando pela porta da frente. 

Era o fim do dia e meus olhos já sentiam a fosca escuridão do entardecer. Eu buscava ali uma estalagem onde eu poderia me hospedar, um lugar seguro para, então, adormecer. 

Conforme entrei fui notando de quem era a residência, primeiro pelas fotos nas paredes, depois pelas próprias moradoras, que eu logo encontrei na sequência.

Eram mulheres muito bonitas, todas irmãs de soberba elegância, todas elas com capricho na aparência e um modo muito cortês, de pronto tive a impressão. Eram sete moças, nenhum irmão.

Tão logo estive com elas, percebi por que fiquei tão atraído, a natureza lasciva daquelas mulheres encantadoras. Eram elegantes, como uma dama deve ser, e eu estava acanhado, com desenvoltura amadora.

Passei com elas aquele fim de tarde e à noite subsequente. Foi uma noite tão fria e escura que o vento soprava fazendo parecer permanente. Mas tive uma ótima experiência no interior do sobrado, que agora eu conto neste breve relato.

Não eram tímidas nem tampouco audazes. Mas não estavam acostumadas a receber muitos rapazes.

Acho que é por isso que tive a honra de ser cortejado. Depois de um jantar no conforto do sobrado, na calmaria de um ambiente tão hospitaleiro. Ali eu era o único hóspede, não sei se fui o primeiro.

Não é que tivesse um jeito de cabaré decadente, por Deus, não, nem sequer as aparências de um lupanar. Tudo aquilo era até mesmo um pouco inocente, bastante respeitável pelo que consigo lembrar.

Assim, terminada a refeição, nas segundas horas daquela noite, começa o jogo de sedução. Se empenharam no cortejo, uma a uma. E eu tão sensível a elas, reagia emotivo como o arrepiar de uma pluma.

Satisfeito e acomodado ainda na mesa, vi uma imagem deslumbrante, me salta aos olhos a primeira beleza. Aquela que se revela de vez num instante, mas que devolve os olhares para então compreendê-la.

Eu passaria tantas horas contemplativo, sem nem mesmo o ângulo alterar. Poria meus olhos a desvendar essa mistura, imerso nas cores que a visão captura, perdido nas linhas daquele profundo olhar.

Ela foi uma paixão duradoura, um primeiro amor de juventude que ali reencontrei. Ela foi o primeiro sentimento da paixão quando estoura, o primeiro retrato depois que coroam o rei.

Aquele mundo dos seus olhares me envolveu como se fosse um novo sonho e me acolheu na paisagem etérea que fez dos contornos. Era algo nostálgico que estava em mim, eu suponho, naquela imagem construída de riscos, texturas e adornos 

A próxima irmã era a boneca da pele clara mais lisa. De onde vinha um toque com a aspereza do olhar, nas formas de uma geometria muito precisa. 

Ali havia o desenrolar inerte de um movimento na estática. Não sei onde ela nasceu, talvez fosse de todo mundo, mas tenho certeza de que ela cresceu na Ática. E ainda conserva um modo grego de mostrar o corpo em detalhes. Uma maneira caprichosa na destreza dos seus entalhes.

Embora ficasse imóvel, com suas misteriosas expressões na inação, desvendada no corpo em cada pormenor, debaixo da pele o músculo ainda sentia a pressão, carne viva num sentido maior.

Só seu toque era frio, me causava uma sensação inesperada por não ter tato na palidez, algo como um arrepio. Quase poderia esperar um calor, quase sentia o veludo da pele. Mas no teste me deparava com uma rigidez.

Intrêmula sem mudar o semblante. No entanto, havia um movimento insistente. É como se o tempo parasse num instante, mas que o vento ainda soprasse sutilmente.

A terceira irmã era proeminente. De rosto simétrico e a que vestia maior grau de elegância. Ela é a que esteve sempre presente, em toda a cidade que visitei, em qualquer circunstância. Por isso a considero inevitável. Era a mais prática de todas elas, de ações certeiras e personalidade razoável. 

Ela sabe ser modesta quando quer, e assim mesmo transbordar sua beleza. Era a mais magnânima mulher, nos braços dela fui tratado como um membro da realeza. No descanso do seu toque eu senti um grande alívio. Companhia da solidão ou cenário do convívio. 

Me convidou para a sala que era um lugar tão agradável. Foi aquela que me fez acomodar, me pôs no maior dos confortos daquela casa que era seu próprio lar. 

Daí então me estendi na poltrona e ali estava um calor convidativo. Depois me mostrou a sua grandiloquência, a sua vocação eminente e soberana. Ela era o modo mais eficiente de representar a grandeza humana.

Então todo meu entorno era a coisa mais nobre, foi ela quem o criou assim. Fosse com o recurso mais rico ou então o mais pobre, a casa e seus cantos, que encontrei pelo caminho, eram a pura expressão dos encantos desta nobre irmã e seus carinhos.

A moça seguinte era então deslumbrante, a que encontrei, talvez, tardiamente. Tão alheia a mim, mas tão excitante, eu mal notei, mas tanto esteve em mim presente. 

Estava nos gestos que me recordam a memória, estava na ação do que quer que eu fizesse. Ela, a maneira mais sofisticada de se contar uma história, logo apareceu mostrando a sua finesse.

O rosto mudava num vórtice de emoções ostensivas, causando-me um êxtase tão expressiva figura. Surgiu num instante, como a visão de uma diva, usando a meia luz daquela sala escura.

Ela era todo um mundo que surgia na minha frente, toda possibilidade das coisas como poderiam ser se elas emergissem como são na nossa mente, a ficção mais real que alguém poderia conceber, a verdade filtrada do mundo aparente. 

Todo o drama que ela tinha vivido ainda estava ali completando a tragédia. A mais sofrida das irmãs, também ria e encenava suas dores e lágrimas como se fosse uma comédia.

Fiquei absorto ao assistir sua performance, me ganhava a atenção cada hora mais e mais. Devia ser a mais sensível, era o que eu pensava enquanto ela estava ali na minha frente. Era a mais destacada, era, até então, o olhar mais potente.

Logo em seguida, com um andar ritmado, vem a jovial e mais enérgica das mulheres daquela casa. Veio suave quase levitando, como se movesse com auxílio de asas.

Era mesmo como um anjo ao fazer seus balanços suaves. Ela tinha um incrível controle, tal como a delicadeza que têm as aves. Pois voava como se morasse num céu esplêndido de outono, nas nuvens evanescentes, no vai e vem. Essas nuvens se moldam no vento com a mesma fluidez que ela tem.

Esta era o corpo por excelência e colocava seu corpo no limite da possibilidade. Me deixava atônito em ver suas proezas, que fantástica desenvoltura ao saltar com destreza, que sentimento apaixonante em mim ela invade.

Tinha um jeito de menina travessa e um andar ostentoso de mulher fatal. Era como o leito de um rio em correnteza ou como a luz coruscante no brilho de um cristal.

Suas pernas e braços deslocavam o ar, deve ser por isso que ele me faltava naquele momento. Esvoaçava os panos das vestes de um jeito que poderia ser as vezes rápido ou mesmo lento. Foi desta forma que ela me fez entender o significado mais precioso do que é movimento

Grande amor foi a seguinte. O maior de todos, da paixão mais aguda. De linhas finas e modo suave. Era tão passional a penúltima irmã e seu amor também era o mais grave

Era a mais velha daquela família, personalidade forte de um jeito volúvel, eu poderia dizer até mesmo lunática. Governava as outras como uma grande soberana e seu corpo tinha uma perfeição matemática.

Ela tinha um toque tão cativante, uma carícia e um apelo tão fortes às minhas emoções, se divertia em acelerar o ritmo do ar que eu aspirava nos meus pulmões.

Surgiu de canto sem que eu notasse, sua presença não vi, mas eu pude sentir. Pelos panos pousados no chão ao meu lado, percebi que ela deixou seu vestido cair.

Busquei ansioso ver onde ela estava, quis afoito olhar sua nudez, virava a cabeça seguindo o ruído. Eu procurava de um lado e depois do outro, mas só sentia os sussurros bem perto do ouvido.

Ela era também a mais íntima da Inspiração, a causa de um êxtase quase hipnotizante. Naqueles braços eu sentia as batidas do meu coração, que se repetia pulsando de instante em instante.

E a última… Eu me lembro bem.

Por fim esta última me causava um mistério. Permanecia alheia a mim, de canto, num semblante mais sério. Acho que esperava que eu a entendesse, lançava seus olhares, mas não se empenhava. 

Eu sabia dela pelas histórias contadas, irmã inquieta, do tipo aventureira, com um viver inteiramente conturbado. Saiu pelo mundo registrando o que via e trouxe pra cada uma das outras um presente guardado. Um breve relato de alguém ou uma descrição que revivesse a essência de um belo lugar. Algo que servisse de inspiração, que fosse proveitoso pra alguma outra usar.

Foi assim que me despertou a curiosidade, com um vislumbre pequeno do que ela trazia. Quanto andou? Por onde tinha passado?  Eram perguntas que eu me fazia sem saber ao certo se eu queria a resposta. A verdade é que eu queria tudo e queria saber o quanto ela estava disposta.

Eu esperava que algo acontecesse, que alguma coisa mudasse aquele silêncio. Será que era isso que ela pretendia sem que eu percebesse? Eu estava intrigado com aquela situação, fiquei tenso e inseguro até que notei o mais evidente, ela inverteu esta lógica da sedução.

Seu olhar analítico era estonteante, isso sem sequer tentar algum raio fatal. Me olhava serena, de um jeito distante, com ares altivos de quem pouco se importa. Ao mesmo tempo flui a minha imaginação em composições de lembranças que a consciência recorta transformando cada uma em irmã. 

Esses fragmentos que a última me trouxe, me remeteram às outras mulheres daquela morada. Então entraram, naquele olhar, todas elas. O cortejo daí teve fim, no último toque de cada uma, pois se foram então de repente. Era apenas o éter de uma visão, formas sem solidez, presença evanescente.

Sobrou por fim só a última irmã sentada na sala, no mesmo lugar, inerte e ainda com a mesma expressão, fazendo parecer que mesmo calada ainda tinha muito a dizer.

Ela era a amada irmã, que trazia um pouco das outras em si. Mesmo não sendo a mais velha carregou-as todas quando criança, tinha um pouco delas sem que precisasse usar de alguma forma, cor ou estímulo sonoro. Ela era mesmo um grande mistério, esfinge de inúmeros enigmas. “Decifra-me e desta forma eu te devoro”.

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