Escreva o que viu, tanto as coisas que estão acontecendo agora como as que acontecerão depois
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava que para essas necessidades básicas alguém ou algo teria que nos permitir sentir. O azul em volta começava a morrer, aquele brilho bioluminescente antes azulado e espectral, começou lentamente a adquirir tons de um púrpura profundo e pesado como hematomas surgindo sob a pele. O vento estava diferente, mais denso e úmido; as flores também mudaram, já não tinham rostos chorando sangue, agora no centro de cada pétala translúcida, havia um único olho imóvel, cercado por dedos cadavéricos que brotavam da própria estrutura da flor, as unhas negras arranhavam as pétalas lentamente, produzindo um som baixo e seco, como o som de uma boca faminta triturando ossos. Uma delas me observou quando passamos, a pupila acompanhando o nosso movimento e então piscou e me senti enjoada, pois era como se o ar tivesse adquirido um sabor metálico e sufocante e cada respiração parecia mais pesada que a anterior e minha garganta apertava, como se tivesse uma corda invisível sendo ajustada bem devagar ao redor do meu pescoço. Mara percebeu.
— Você está pálida.
— Tem alguma coisa errada no ar. — eu disse
— Tem alguma coisa errada em tudo nesse lugar.
Continuamos andando pelas margens enquanto a noite se aprofundava, então ouvi o som agudo, contínuo e distante, levei as mãos ao ouvido.
— Você está ouvindo isso? — perguntei.
Mara franziu a testa.
— O quê?
O pingente queimou contra minha pele e a névoa escarlate voltou — o mundo desapareceu num único instante. O cheiro de sangue era mais forte agora; não era fresco, era antigo, oxidado, preso em ferrugem. No centro daquela vastidão vermelha havia apenas uma escrivaninha de madeira escura, coberta de sangue e nada mais — nenhuma parede, nem chão, nem céu —, apenas a escrivaninha naquele vazio vermelho, e sobre ela papéis, muitos deles, empilhados, encharcados, escritos numa caligrafia que eu conhecia, pois era a minha. Meu estômago afundou, o som agudo aumentou, senti a corda invisível se apertar mais em meu pescoço. Havia alguém sentado atrás da escrivaninha, mas a névoa vermelha não permitia que eu visse seu rosto — apenas as mãos, longas e pálidas, imóveis sobre os papéis ensanguentados. A figura começou a se erguer e a visão terminou.
Voltei ao mundo cambaleando e caí de joelhos na areia fria das dunas. Vomitei — o gosto era de ferro puro.
Mara segurou meus ombros.
— Você está bem?
Não consegui responder. Ao longe, no topo de uma duna, vi o homem do sorriso largo — de costas, com seu manto negro ondulando no vento — e ao lado dele, a criança.
— Ali — murmurei.
Mara virou, mas não havia mais ninguém. Eles tinham desaparecido. O zumbido ainda continuava no fundo da minha cabeça quando percebemos as borboletas — primeiro uma, e depois dezenas. Elas deslizavam pelo ar com leves bater de asas que pareciam veludo negro. Cada uma possuía um pequeno crânio no dorso, com órbitas vazias e mandíbula serrilhada — belas de um jeito fantástico. Elas começaram a pousar nas flores, e os olhos das flores acompanharam o movimento dos insetos como animais submissos diante de predadores muito maiores. Uma das borboletas pousou no meu ombro e se aproximou lentamente do meu pescoço — exatamente onde o pingente repousava.
E então recuou. Mara puxou-me para trás.
— Não toque nelas.
— Mas eu não toquei.
As cavidades vazias do pequeno crânio no seu dorso estavam voltadas para mim, como se me olhassem. Então Mara me contou uma das lendas que ouviu sussurradas pela Ordem:
— Dizem que as Umbravola Nigrescens caçam pessoas que já começaram a pertencer a outro lugar. Quando não as encontram, esperam que alguém as toque para que possam pertencer. E quando passam a seguir essas pessoas, significa que algo do outro lado já as reconheceu — e agora as espera.
Estremeci. Desde que aceitei a joia, comecei a ter pensamentos sem sentido: que ela me protegia de algo para que eu pudesse voltar ao castelo, que era ela que me orientaria pelo caminho certo — e um deles, um tanto louco, era que talvez a joia não estivesse tentando me mostrar o que estava por vir, mas quem estava escrevendo essa história. Que talvez alguém me reescrevesse. Teorias demais para uma mente já desequilibrada. A noite continuava mudando; o púrpura do céu parecia uma doença se espalhando pelo horizonte. As águas já não brilhavam com bioluminescência natural. Cinzas negras começaram a cair do céu — densas e oleosas —, e quando uma delas pousou sobre minha mão, senti o cheiro de ferrugem úmida e algo doce escondido no fundo.
Mara percebeu meu rosto mudar.
— Não respire muito fundo.
Tarde demais. O odor parecia entrar direto na cabeça; sussurros indistintos vinham do vento, como centenas de pessoas falando num lugar pequeno e fechado. O céu estava completamente coberto — nenhuma estrela, nem lua, só nuvens violetas e aquela chuva lenta de cinzas. O lugar inteiro parecia um pesadelo tentando ganhar vida. As borboletas continuavam espalhadas, mas agora os dedos cadavéricos ao redor de seus olhos se moviam mais rápido e arranhavam as pétalas com nervosismo; algumas flores viraram o olhar para o céu escuro como se esperassem algo descer. Então ouvimos o grito — um rasgo: o som atravessou a noite como tecido sendo aberto por garras. Meu peito apertou tão forte que perdi o equilíbrio. As borboletas que voavam por perto sumiram imediatamente na escuridão. Mara levou a mão à adaga.
— O que foi isso?
O silêncio depois do grito foi pior, porque o mundo pareceu parar. Então a vimos: ela surgiu pousada sobre uma rocha negra próxima — grande e branca, sua plumagem reluzia sob a luz púrpura do rio. Os olhos âmbar eram imóveis e inteligentes. Uma criatura humanoide como uma coruja rasga-mortalha, de corpo feminino; ela inclinou a cabeça devagar. Era alta e magra, vestida com tecidos escuros. Nos observou por um longo tempo antes de começar a falar.
— O cheiro da morte repousa sobre vocês.
Sua voz era grave e calma, mas carregava algo de não humano em cada sílaba — pausas longas entre as palavras, como se falar fosse uma adaptação ainda incompleta. Mara manteve a adaga apontada.
— Quem é você?
A mulher-coruja inclinou a cabeça bem devagar.
— Suinddáremis Mortállida.
Ela aproximou-se devagar, seu caminhar era silencioso quase sem peso.
— A noite lhes observa há algum tempo.
O vento soprou cinzas negras entre nós, quando Suinddáremis olhou diretamente para mim, senti imediatamente aquela sensação horrível dentro do crânio das memórias se movendo e ela percebeu, claro que percebeu.
— Você carrega os mortos.
Minhas mãos gelaram.
— E o que isso significa?
Um longo silêncio e ela ergueu bem devagar os olhos para o céu púrpura.
— Memórias são cadáveres incompletos.
As palavras dela eram simples, mas para mim incompreensíveis.
Mara respirou fundo.
— Você sabe algo sobre isso?
Ela continuou olhando para o céu.
— O Castelo está sonhando mais profundamente agora.
Ela se aproximou.
— Aquilo que a observa começa a desejar ser observado de volta.
O zumbido agudo reapareceu imediatamente na minha cabeça, mais forte e meu enjoo retornou, Suinddáremis virou-se para mim de maneira abrupta, os olhos âmbar dilataram e então ela gritou. O som foi insuportável, não parecia vir apenas da garganta dela, atravessava meu crânio com violência. Um berro estridente, dilacerante, tal como uma mortalha sendo rasgada dentro de, talvez, a minha futura tumba; as dunas responderam, as flores fecharam seus olhos, e atrás de mim uma porta apareceu, uma porta alta, antiga, feita de madeira púrpura apodrecida e adornada com detalhes dourados corroídos pelo tempo. O cheiro vindo dela era nauseante de morte antiga, Suinddáremis respirava pesadamente agora, como se o grito a tivesse cansado.
— A porta abriu.
— Para onde exatamente? — perguntou Mara.
A mulher-coruja nos encarou longamente e pela primeira vez sua voz vacilou.
— Para aquilo que deveria permanecer adormecido.
Então seus olhos pousaram no meu pingente e ela sussurrou algo numa língua que não reconheci, mas uma palavra atravessou perfeitamente aquela fala incompreensível: “escrivaninha”. Meu sangue gelou, pois tinha medo de que o que me esperava naquele lugar, sentada naquela escrivaninha fosse algo que talvez eu não pudesse suportar e talvez aquela coisa estivesse esperando que eu me sentasse diante dela.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
30. Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo é o caminho que leva à perdição
Data Incerta - Senti os braços me levando pela trilha principal, desviou por trás das casas tortas, passou por corredores estreitos entre muros de pedra úmida…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta - Senti os braços me levando pela trilha principal, desviou por trás das casas tortas, passou por corredores estreitos entre muros de pedra úmida, onde havia símbolos antigos riscados sobre o que parecia inscrições mais recentes, como se muitas crenças disputassem aquele espaço durante muito tempo. Eu ainda sentia o peso do sonho no meu corpo, aqueles sonhos ou memórias que não eram meus, mas insistiam em ranger dentro da cabeça.
— Aqui. — ela disse e pude reconhecer a voz da líder da Ordem.
Havia uma porta de metal, grossa, enferrujada, com sinais de solda recente; quando ela bateu, não foi com força, foram três toques exatos, musicais e bem calculados. Demorou, mas o som que ouvi vindo lá de dentro não foi de passos, mas de engrenagens. A porta se abriu só o suficiente para um olho nos observar, um olhar frio, contido e avaliador. Mara falou o nome.
— Arturio?!
A porta foi aberta por completo, ele estava diferente, mais seco, mais rígido. E o mesmo corpo que um dia fora humano agora parecia um esboço de máquina que ainda não decidira em qual lado terminar. Seus braços estavam reforçados por placas mecânicas discretas e o seu olhar, aquele olhar parecia ter presenciado mais funerais do que eu poderia contar.
— Você voltou a existir — ele disse para Mara, sem surpresa alguma. — Então minhas premonições ainda estão mal calibradas.
Entramos e o interior era um santuário de aço, ossos mecânicos pendurados pelas paredes, exoesqueletos incompletos suspensos. Havia algo de quase religioso na organização daquele lugar. Algo de necromântico na engenharia. "Necromântico" essa palavra parecia dançar na minha cabeça.
— Precisamos de ajuda. — a líder da Ordem disse. — E ela está marcada.
Arturio me observou com mais cuidado agora, mas não como quem olha para uma pessoa, mas como uma máquina com defeito.
— Parece que alguém tentou reescrever as memórias dela à força. — ele disse.
Engoli seco.
— Eu só sonhei.
Ele inclinou a cabeça.
— “Sonho” é o nome que você dá quando não sabe que está sofrendo uma invasão.
Mara ficou tensa.
— Dá para algo ser feito?
Ele caminhou até uma mesa cheia de mapas estranhos.
— Talvez, mas tudo o que eu crio cobra algo — disse. — Até mesmo quando salva.
Ele me olhou de novo.
— E geralmente o preço é a alma.
Nesse momento percebi nele um cansaço que não vinha do corpo, como se ele estivesse sempre chegando atrasado à própria vida.
— Você ainda anda tendo as visões? — perguntou a líder da Ordem.
Silêncio.
— Todas as noites, as mortes primeiro, os detalhes depois. Às vezes eu acerto, outras eu erro por minutos, outras por anos. Ainda não sei se vejo o futuro ou se estou preso revendo algo que já aconteceu em alguma dobra errada do mundo.
Ele abriu uma gaveta e retirou um objeto pequeno envolto em um metal escuro.
— Vou precisar introduzir esse mecanismo na base do seu crânio — disse para mim. — Vai ser rápido, você não irá sentir nada.
Meu estômago se contraiu ao ouvir aquilo.
Ele pegou uma pistola, que parecia de ar comprimido, que parecia mais uma pistola para abate; colocou o artefato dentro e pediu que eu me virasse, então ele disse, quase gentil:
— Se você sobreviver a esse limbo de memórias, Rute, não será por acaso.
Senti um frio a percorrer a espinha.
— Nada neste lugar é por acaso — completou.
E colocou a pistola em minha nuca; eu apenas ouvi um som oco e desmaiei. Cada passo meu de volta ao castelo e eu só estava trocando um tipo de perigo por outro
· · • • •✤• • • · ·
Data Incerta - Hoje acordei sabendo amarrar nós que nunca aprendi, minhas mãos se moveram sozinhas ao prender o laço do manto que Siehiffar deu a Mara. Os dedos sabiam exatamente onde puxar, onde tensionar, não pensei, apenas fiz. Quando percebi, estava com o coração acelerado, como se tivesse feito algo errado. Mara notou.
— Quem te ensinou isso?
Abri a boca para responder, mas nenhum nome veio, só o cheiro de ferrugem, madeira molhada, um canto antigo em língua que não reconheço, mas que minha garganta quase repetiu. Balancei a cabeça.
— Não sei.
Ela não insistiu na pergunta, mas ficou me observando. As memórias não chegavam completas, eram mais como sensações, às vezes boa, às vezes neutras e muitas vezes incômodas, como o peso de uma arma na cintura que nunca carreguei, o orgulho de um juramento que não fiz, a certeza de um afogamento que não foi o meu. E, às vezes, a sensação mais terrível de todas é a de ter amado alguém que nunca existiu para mim.
Hoje, enquanto Mara discutia com uma das mulheres da Ordem, eu me distraí contando as janelas da torre, sete, oito, nove. Interrompi ao perceber que já sabia qual delas escondia o alçapão secreto e apontei sem pensar. Algumas das mulheres se viraram para mim e o silêncio foi imediato.
— Como você sabia? — uma delas perguntou.
Eu não sabia, mas alguém em mim sabia e isso me incomodava. À noite, enquanto escrevo, minhas frases mudam de caligrafia sozinhas, algumas linhas ficam mais retas, mais técnicas, mais frias, como se outra pessoa estivesse usando minha mão com cuidado, não para me possuir, mas para se esconder através de mim.
O pior lapso aconteceu agora há pouco, olhei para Mara, que dormia sentada, exausta, e por um instante absoluto eu não vi Mara, vi um corpo translúcido, depois ossos e carne refeita; vi mãos pressionando um crânio ainda quente, vi Drácula sorrindo. Minha respiração travou. Quando o mundo voltou ao normal, eu estava chorando em silêncio, com a mão cobrindo a boca para não acordá-la, mas a única certeza que eu tinha era que essa memória me pertencia.
Tenho medo, não de enlouquecer, mas de me tornar uma colagem de vidas alheias, e se continuarem arrancando e costurando minhas lembranças? Se cada perda vier acompanhada de um enxerto? Será que talvez "eu" ainda caminhe, que talvez "eu" ainda escreva? Mas não saberei mais quem está fazendo isso dentro de mim, não sei mais dizer com certeza onde termina o que sou, o que fui e onde começam os que agora me habitam.
E então, novamente antes de dormir, mais uma memória terrível. O corpo não parecia dela, era essa a primeira coisa que não fazia sentido, não o rosto, pois ele ainda era o mesmo, ou uma versão silenciosa dele. A boca, que sempre tinha algo a dizer, agora estava fechada de um jeito definitivo, mas o resto, o resto estava errado.
As mãos, eu conhecia aquelas mãos melhor do que qualquer outra coisa no mundo, sabia o peso delas sobre a minha pele, a forma como seguravam uma caneca quente, o jeito distraído de afastar o cabelo do rosto. Agora estavam imóveis sobre o próprio corpo, rígidas, como se tivessem sido colocadas ali por alguém que só tinha visto as mãos dela uma vez. Não eram dela ou talvez fossem, e isso era ainda pior.
O velório estava silencioso demais, um silêncio cansado, pesado. Algumas pessoas choravam, outras apenas olhavam e muitos que nem deveriam estar ali, julgavam. Eu só observava, esperando por alguma coisa que eu não saberia reconhecer mesmo que acontecesse.
— Você quer ficar um pouco sozinha?
A voz veio de algum lugar atrás de mim, eu não me virei. Se eu me movesse, talvez tudo se tornasse real e eu ainda não tinha decidido se queria que aquilo fosse real.
— Não — respondi como se eu me importasse.
O caixão estava aberto, eu não sabia quem tinha tomado essa decisão, talvez a família dela ou alguém que acreditasse que despedidas precisavam de evidência; como se saber não fosse suficiente para aceitar, não era, e dei um passo à frente e depois outro e cada movimento meu parecia deslocado, errado, como se meu corpo estivesse se movimentando com um pequeno atraso, em relação ao resto das pessoas presentes ali.
Parei ao lado dela e de perto, era pior. Havia algo na pele, não era a cor, pois isso eu já esperava, mas a falta de algo. Tudo estava completo, correto e ainda assim estava faltando, perfeitamente mobiliada como uma casa, onde ninguém vive nela.
Estendi a mão antes de perceber o que estava fazendo, eu a toquei, estava fria, minha respiração falhou por um segundo. E, naquele intervalo, algo aconteceu, não fora, mas dentro de mim, uma ideia, não, não uma ideia, ideias são construídas. Aquilo veio pronto para mim, inteiro e errado. Isso não precisa ser o fim.
Retirei a mão como se tivesse sido queimada e olhei ao redor, ninguém parecia ter notado ou escutado nada, pois ninguém nunca nota. Voltei os olhos para ela, imóvel e ausente e ainda assim...
— Não — murmurei, mais para mim do que para qualquer outra coisa. — Não é assim.
O pensamento voltou, só que mais forte dessa vez.
Você sabe que não é.
Eu não sabia, a verdade é que eu não sabia de nada, mas queria saber, e naquele momento, isso foi suficiente; fiquei ali por mais alguns minutos ou horas. O tempo tinha se tornado irrelevante, algo que acontecia com outras pessoas e, antes de sair, olhei pela última vez, tentei memorizar. Não o rosto morto, pois isso seria fácil demais de lembrar, mas o erro, a ausência, a coisa invisível que transformava tudo aquilo em algo inaceitável, porque se havia algo errado, então talvez eu pudesse corrigir. Naquela noite, não chorei. Abri o caderno e comecei a escrever. E com isso as minhas memórias comprovam que nem sempre fui sincera em tudo que escrevi, pois há vozes em mim que me obrigam agora a ser sincera no que escrevo. Então a escuridão veio e meu corpo começou a tremer, e eu tive uma convulsão.
Não me chamaram de paciente, me chamaram de campo instável; fui levada para uma sala que ficava abaixo da torre inclinada, onde as pedras eram mais úmidas e mornas, e as velas tinham chamas azuladas, pareciam queimar alguma substância que não era deste mundo ou melhor do meu mundo. Mara foi obrigada a ficar do lado de fora, disseram que ela atrapalharia, não gostei da forma como disseram isso. Me deitaram sobre uma mesa de metal antigo, cheia de ranhuras e símbolos sobrepostos, alguns religiosos, outros matemáticos, outros que eu não reconhecia, mas o meu corpo respondia a eles com náusea. Arturio estava lá e não falou muito, só me observava como quem avalia um motor quebrado.
— Suas memórias não estão apenas sendo roubadas — ele disse. — Estão sendo sobrepostas em frequências erradas.
Uma das freiras explicou que eu estava em ressonância involuntária, que parte de mim estava sintonizada com o mesmo campo onde alguns seres operam. Que não era possessão, mas algo pior. Eu apenas ouvia tudo aquilo em silêncio, sem entender nada realmente. Então prenderam meus pulsos e tornozelos. As correntes estavam frias demais... colocaram na minha testa um artefato circular de metal escuro, cravejado de cristais vermelhos. Quando encostou na minha pele, ouvi vozes sussurrando algo que eu não conseguia entender. Depois vieram as agulhas, não entraram no corpo, mas nas minhas memórias, cada perfuração era uma lembrança organizada à força, não as minhas. E eu via flashes desconexos enquanto gritava sem som: Um menino correndo num deserto que não existe, uma mulher ensanguentada sorrindo, um mapa sendo desenhado sozinho, um rosto em espiral se desfazendo em poeira branca. Meu corpo tremia, mas minha mente parecia ser organizada em camadas, como páginas arrancadas de vários livros e reorganizadas com muita violência. Em algum ponto, comecei a rezar, não sei exatamente para quem, talvez para Siehiffar, talvez para o seu Deus sem forma ou para Drácula. O procedimento durou tempo demais para caber no tempo e quando terminou, senti algo fechar dentro de mim, não curar, mas fechar como se fecha uma ferida profunda com grampos, um pouco segura, mas ainda infeccionada. Arturio foi direto.
— Você foi estabilizada apenas no eixo consciente, porém os rastros continuam no inconsciente.
Claro que traduziram para mim em termos mais simples, não vou mais apagar no meio do dia, não vou perder o controle repentinamente, não vou atravessar realidades andando. Quando me soltaram, eu mal conseguia ficar de pé. Mara entrou correndo e segurou meu rosto com força demais, como se tivesse medo de que eu escorresse pelos dedos.
— Você está aqui? — perguntou.
Demorei um segundo a mais do que devia para responder:
— Estou.
O procedimento que eles fizeram não me devolveu inteira, mas apenas impediu que eu continuasse me despedaçando rápido demais, porém agora eu só me desfaço devagar. Mara me ajudou a caminhar até o quarto e logo desceu, fiquei lá analisando pensamentos que no momento eu sabia que eram meus. Alguns minutos se passaram então uma discussão começou antes que eu percebesse que ainda estava fraca demais para sair do quarto. Eu ouvia as vozes do andar superior atravessarem as pedras da torre. Arturio foi o primeiro a falar em tom alto.
— Vocês brincam com símbolos e magia como se fossem crianças, o que ela sofreu é perigoso, é um colapso das camadas de memória que são incompatíveis.
A resposta veio em coro contido, feminino, duro:
— Você não entende o que fala, Ferreiro, há coisas que não se consertam com suas ferramentas.
Ouvi passos, muitos passos, o som de metal leve escondido sob tecido e, quando enfim consegui me erguer e abrir a porta para olhar o que acontecia, encontrei os dois mundos frente a frente. Arturio estava com o sobretudo aberto, revelando partes de um exoesqueleto inativo sob as roupas. As freiras o cercavam em meia-lua, algumas com os vestidos rasgados, outras adornadas com amuletos e sigilos tatuados na pele e Mara estava entre eles, tensa com sua lâmina.
— Vocês me chamaram de traidora — disse ela. — Mas foram vocês que me forçaram a usar Rute como entrada para o castelo.
Uma das líderes deu um passo à frente.
— E você aceitou vir ao castelo. Você acha que não sabemos quem você é? Mara e Isolda, as líderes da revolução da Ordem; bem que dizem para não conhecermos nossos ídolos, só espero que o que Isolda construiu em seu nome não tenha sido em vão.
Silêncio, então Arturio falou de novo:
— Vocês querem lutar para manter o castelo vivo, mas Drácula não precisa de vocês para isso. E ela — apontou para mim — é a única que sobreviveu aos mecanismos internos do castelo sem se tornar totalmente parte dele.
A líder sorriu.
— E isso a torna quase uma mártir.
Outra freira avançou um pouco demais.
— Se ela romper de novo, nós a eliminamos, mas enquanto ela servir como entrada para o castelo ela fica viva.
Foi quando Mara sacou a lâmina e nunca esquecerei o som seco.
— Vocês não tocam nela — disse. — Nem para salvá-la, nem para sacrificá-la.
A ameaça era real e Arturio, então, fez o movimento com seu braço mecânico.
O ar da sala mudou.
— Se vocês a matarem — disse ele com a voz finalmente sem controle — eu abro cada torre de amuleto que esconde vocês da visão da Ordem, uma por uma.
Um suspiro coletivo percorreu a sala e a líder da Ordem estreitou os olhos:
— Você nos exterminaria.
— Eu apenas deixaria que elas enxergassem vocês — respondeu Arturio.
Mara olhou para mim.
— Se vocês tentarem tocar nela de novo — disse Mara — vocês vão descobrir que eu aprendi mais no castelo do que nos seus templos.
Silêncio absoluto e a líder, por fim, recuou meio passo.
— Ela permanece fora dos planos, por enquanto.
Arturio abaixou lentamente o braço mecânico. A tensão não cessou, ela foi apenas arquivada. Quando todos saíram, eu ainda tremia. Arturo passou por mim.
— Você é o campo de batalha agora, garota — disse, sem crueldade. — Não se esqueça disso.
Mara me acompanhou ao quarto logo depois, como se quisesse me esconder do mundo inteiro. A Ordem não confia mais em mim, Arturio não confia mais na Ordem e Drácula... bom, ele deve estar se divertindo com tudo isso em algum lugar.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
31. Quero trazer à memória o que me pode dar esperança
Data Incerta - Eu descobri por acidente, foi num gesto mais estúpido e cotidiano possível. Ao tentar lembrar do rosto da minha mãe, a imagem não vinha…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta - Eu descobri por acidente, foi num gesto mais estúpido e cotidiano possível. Ao tentar lembrar do rosto da minha mãe, a imagem não vinha, era só um vazio, como quando se passa a língua num dente que foi arrancado há anos e a ausência incomoda; então eu forcei a lembrança, com vontade, fechei os olhos no meio do corredor da torre, encostada na parede úmida. Me concentrei no rosto dela como quem cutuca uma ferida que não cicatrizou por inteiro. No início, nada; depois náusea e depois sangue, mas não da memória e sim do meu corpo. O gosto metálico subiu rápido pela garganta e quando cuspi no chão de pedra, veio escuro demais para ser só saliva. E então a imagem abriu: minha mãe estava de costas, diante da pia da cozinha antiga, o cabelo preso errado, o barulho da água, o cheiro de café passado, uma rachadura na parede que eu tinha esquecido da existência, tudo perfeito demais. E logo veio a dor, como uma agulha quente enfiada na base do meu crânio; minhas pernas falharam e eu caí sentada, ainda vendo a cena, ainda presa nela. Eu estava tendo uma leve convulsão e mesmo assim eu não queria soltar, porque entre um espasmo e outro, eu percebi que tentar lembrar me custava algo, mas funcionava. Quando finalmente perdi o acesso, o corredor voltou em golpes, pedras úmidas, sombras, luzes trêmulas e meu próprio sangue escorrendo pelo queixo. Eu ri, uma risada curta e quebrada, pois isso só podia ser castigo.
Depois disso, testei de novo dias depois, mas outra memória, outro preço e, às vezes, era um apagão de horas; às vezes febre, às vezes uma tristeza tão densa que eu passava o dia inteiro olhando para a parede, com vontade de pedir desculpa para pessoas que eu não sabia quem eram. As lembranças vinham inteiras, nítidas e absurdas de tão claras e, junto delas, a certeza insuportável de que eu não merecia tê-las de volta. E por vezes eu chorei sem saber exatamente por quem. Eu não contei a ninguém no início, nem a Arturio e muito menos a Mara, porque se eles soubessem que eu posso acessar, vão querer regular e talvez explorar e eu já tinha sido explorada o bastante. As recaídas começaram a vazar para o cotidiano, eu perdia palavras no meio das frases, confundia nomes, respondia a perguntas que ninguém tinha feito. Uma vez chamei Mara pelo nome da minha amada, ela não me corrigiu, mas também não esqueceu e o pior não era a dor era a tentação. Saber que tudo que eu perdi ainda está lá, trancado atrás de um mecanismo que cobra em carne, em sanidade, em culpa, em sangue, isso é uma forma lenta de tortura. Eu não estou apenas revisitando memórias, eu estou ficando viciada nelas.
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Data Incerta - Fui em minha primeira missão, e elas não chamaram de missão, chamaram de treinamento de campo. A palavra “treinamento” me deu mais medo do que qualquer outra coisa que já ouvi naquele lugar. Fui acordada sem toque, apenas abriram a porta e ficaram paradas no escuro; três silhuetas vestidas com o mesmo tecido pesado que parecia absorver a pouca luz do corredor.
— Levante-se, Rute.
E eu apenas obedeci por inércia. Enquanto eu me vestia, senti uma sensação sob a pele, senti que alguma coisa em mim já estava sendo preparada para algo que eu não tinha escolhido. No corredor, vi Mara encostada na parede, braços cruzados, o rosto fechado demais até para o padrão dela, foi a única que não desviou o olhar quando passei. Descemos, então entendi o objetivo quando chegamos ao limite do vilarejo, havia uma casa isolada, velha demais até para aquele lugar e, dentro dela, algo que elas chamaram apenas de eco.
— Não é uma entidade — disse uma das mulheres. — Não exatamente.
Ninguém explicou melhor, porque não era necessário, eu já sentia, a memória que não era minha começou a se agitar no fundo do meu crânio, como um animal preso. Aparentemente eu só estava ali para reagir ao que quer que aquilo fosse.
— Se aproximar demais, ela vai ativar — disse outra. — Se não chegar perto o suficiente, ela não morde.
Fiquei parada.
— “Ela” quem? — perguntei.
A mulher apontou para mim.
— Você.
A porta da casa se abriu sozinha ou alguém por dentro a abriu, não faz diferença; um cheiro de poeira, coisa antiga, veio. Dei dois passos e já senti as pernas pesarem, algo lá dentro reconhecia algo em mim e isso era exatamente o que elas queriam. O eco se manifestou como uma distorção no ar, não tinha forma definida, era como um erro na continuidade do espaço e quando me aproximei demais, uma dor explodiu; memória, não a minha.
Uma mulher correndo por um corredor que não existia, sangue na parede, uma escada em espiral que parecia crescer enquanto ela descia, vozes chamando por um nome que não era o dela. Meu corpo travou, a Ordem avançou enquanto eu não podia me mover. Elas passaram por mim como quem passa por uma porta aberta e o eco reagiu e reagiu em mim. Uma imagem se sobrepôs ao mundo e a casa virou o corredor, o chão virou os degraus, então eu gritei, não de medo, mas do excesso, era uma memória dolorosa demais para uma mente só. Senti algo sendo arrancado, ouvi o som do impacto ao longe — algo foi contido e depois, só depois entendi que a missão tinha sido bem-sucedida para elas; para mim sobrou o chão frio, o gosto de ferrugem na boca e a certeza horrível de que agora havia mais de uma vida circulando dentro da minha cabeça. Quando voltei a conseguir respirar direito, vi Mara de joelhos na minha frente.
— Elas já estão indo longe demais — sussurrou ela. Eu assenti uma única vez.
— Acho que desde o começo.
· · • • •✤• • • · ·
Data Incerta - Não foi um sonho, isso não. Eu estava sentada, tentando lavar o sangue seco das mãos, um sangue que eu não lembrava de ter derramado quando o mundo simplesmente perdeu a continuidade e o chão se tornou escada em espiral. As paredes não eram paredes, eram superfícies úmidas, orgânicas, algo que respirava lentamente demais para estar vivo, rápido demais para estar morto. Um cheiro doce e apodrecido tomava conta de tudo, como flores deixadas tempo demais num quarto fechado. Eu estava descendo; eu não queria, mas minhas pernas se moviam sozinhas. Minhas mãos agora estavam sujas de sangue fresco e eu sabia que aquilo não era meu corpo, mas era o meu agora; então ouvi vozes, algumas distantes e outras perto demais.
— Volte.
— Ainda dá tempo.
— Você irá ser vista.
Um nome era repetido entre as vozes, um nome que se acumulava nas paredes como mofo e eu não vou escrever esse nome, pois algo em mim diz que ele não merece existir de novo. Quanto mais eu descia, mais a escada se estreitava, as paredes começaram a tocar meus ombros, meus braços, meu rosto, me esmagando, me reconhecendo como parte da estrutura. Vi corpos presos entre as dobras da parede, absorvidos, rostos ainda conscientes, olhos abertos, bocas presas no meio de um pedido de ajuda, talvez; e alguns deles sussurravam comigo.
— Não lembra.
— Não abre.
— Não aceita.
— Não escreva.
Mas eu já tinha feito tudo isso, já tinha descido até o fundo, e no centro da espiral havia uma sala circular, o chão era coberto por símbolos. No centro, uma mulher ajoelhada, eu a conhecia, mas não pelo nome; ela levantou o rosto que começou a girar, carne se reorganizando em espiral, os olhos sendo puxados para dentro, a boca sendo torcida até virar um poço e ainda assim ela olhou para mim. E algo saiu dela e entrou em mim: uma memória comprimida demais para existir inteira em um só corpo. Eu acordei assustada, ou pensei que havia acordado, o quarto estava lá, o teto estava lá e minhas mãos estavam limpas, mas meu corpo estava quente demais e no fundo da minha cabeça agora havia uma nova presença, então voltei a dormir logo depois. Mara me acordou e sussurrou no meu ouvido que tínhamos que ir, pois Arturio nos esperava na entrada.
Saímos antes do amanhecer, Arturio disse que impediria que a Ordem nos seguisse e ficou para trás. Mara não explicou muito, uma passagem nos levou para fora do vilarejo e para uma região onde a luz parecia envelhecida. O primeiro sinal disso foi a cor, não era azul comum, era uma palidez azúlea que parecia roubar calor da pele; o céu, a areia, até o ar tinham tonalidades que iam do azul pálido ao anil profundo, como se a noite tivesse sido moída e espalhada sobre o mundo. Quando chegamos à margem, vi o rio. O rio brilhava com uma bioluminescência pulsante, parecia que organismos dentro dele acendiam e apagavam num ritmo próprio. O brilho subia da superfície em vapores luminosos que flutuavam pelo ar antes de desaparecer, foi então que percebi a flora, as flores cresciam nas margens do rio, translúcidas e finas, cada uma tinha um rosto moldado na pétala, formado pela própria anatomia da planta. Um rosto abriu os olhos e sangue escorreu, uma lamúria saiu de dentro da flor, e eu congelei.
— Não olhe muito tempo — disse Mara.
Mas era tarde, aquela coisa estava olhando de volta. O vento que soprava era suave e atravessava a areia produzindo um ruído baixo, contínuo; o deserto se estendia além do rio, as dunas pareciam se mover lentamente, cada rajada revelava formas efêmeras, mãos, rostos, corpos emergindo por um segundo antes de voltarem a ser apenas areia de novo. Caminhamos pela margem até vermos algo no centro das dunas: um oásis, água negra, calma demais, palmeiras esqueléticas inclinadas como velas de um barco deteriorado. O lugar parecia convidativo, mas de um jeito errado. E foi ali que o vimos um homem alto, ele estava parado perto da água, usando um manto negro bordado com fios de ouro-bronze que refletiam a luz azul do rio. O sorriso dele era largo demais, quase pontiagudo e ao lado dele, uma criança, o menino segurava sua mão com naturalidade, ele usava roupas simples, claras, e tinha olhos pálidos que refletiam a bioluminescência do rio como se fossem feitos da mesma substância, então o homem falou antes que perguntássemos qualquer coisa:
— Vocês chegaram cedo demais.
Sua voz era tranquila, cordial.
— Quem é você? — perguntou Mara.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Um viajante, talvez um observador, alguns já me chamaram de vidente. Outros acreditam que venho de um mosteiro antigo onde aprendemos a ler o tempo como se fosse um texto mal escrito.
Ele olhou diretamente para mim.
O sorriso não mudou.
— E você, já começou a ler páginas que não são suas?
Senti o peso de uma memória vibrar dentro do meu crânio.
— O Castelo Drácula está prestes a atravessar cinco atos temporais — continuou ele.
Mara cruzou os braços.
— E por que deveríamos acreditar em você?
Ele não respondeu imediatamente, o vento das dunas soprou mais forte.
— Porque, se não se prepararem, vocês experimentarão algo chamado sofrimento-carmim.
— O que é isso? — perguntei.
O homem fez um gesto breve de impaciência, como se o tempo realmente estivesse curto.
— Não tenho tempo de explicar tudo, minha tarefa é apenas advertir os residentes do castelo.
Ele tirou algo do bolso do manto: uma joia, era um pingente de metal escuro, com um símbolo gravado com algo entre espiral, estrela e rachadura — estendeu- em sua a mão.
— Use isto.
— Por quê? — perguntei.
— Porque quando o primeiro ato temporal começar, vocês vão precisar de âncoras.
O menino ao lado dele me observava fixamente, seus olhos pálidos eram inquietantes por parecerem antigos demais para uma criança. Aceitei o pingente, assim que ele tocou minha pele, senti uma leve pressão na cabeça, quando levantei os olhos novamente, o homem e o menino já estavam caminhando para longe pelas dunas e o vento apagava as pegadas deles quase instantaneamente. Mara olhou para mim. Segurei o pingente, ele estava quente, e tive a sensação clara de que alguém, ou alguma coisa, estava tentando nos preparar para algo muito pior do que o castelo. Eu aceitei a joia por instinto e Mara não gostou.
— Você aceitou rápido demais.
— Ele disse que precisamos de âncoras.
— Homens que aparecem no meio do nada raramente oferecem algo sem cobrar depois.
Não respondi e de repente tudo ficou vermelho, uma névoa espessa cobriu completamente minha visão e tinha gosto metálico, cheiro de sangue quente, recém derramado. O ar ficou denso, durou um segundo, mas dentro desse segundo havia coisas demais. Eu vi o castelo, não como ele é agora, torres quebradas em ângulos impossíveis, corredores que se dobravam sobre si mesmos, pessoas caminhando repetindo os mesmos movimentos eternamente. Vi Mara e ela estava ajoelhada diante de uma estátua que eu não conseguia olhar diretamente, o corpo de Hadassa petrificado como de uma mártir. Seu rosto estava coberto de lágrimas, mas ela sorria de um jeito que me deu medo. Vi muitos rostos observando, esperando e no centro de tudo o castelo sangrava, sangrava de verdade, o vermelho escorria pelas paredes como um organismo vivo, descendo pelas escadas, enchendo salas, invadindo a terra ao redor; então a visão terminou, o mundo voltou de uma vez só em azúleo e marfim fosco. Mara segurou meu braço.
— O que foi?
Levei um momento para responder.
Minha boca ainda tinha gosto de sangue.
— A joia funciona.
— Como você sabe?
Olhei para o pingente.
— Porque talvez ela tenha me mostrado um segundo do que vem depois.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
29. Ritos Fúnebres da Ordem
Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os procedimentos que regem a passagem e a negação da morte.
Registro da Ordem - reprodução integral.
Ritos Fúnebres da Ordem
A Ordem segue rituais rigorosos para garantir que os mortos atravessem corretamente o ciclo, sem serem corrompidos ou presos entre os véus. Esses ritos variam de acordo com a situação da alma e do corpo.
1. O Rito da Travessia (Para aqueles que morreram naturalmente e sem pendências espirituais)
Este é o ritual mais simples, realizado para garantir que a alma do falecido não fique presa ao mundo dos vivos. O corpo é limpo com ervas amargas para afastar influências indesejadas. O nome do morto é escrito com tinta negra em sua testa para que ele se lembre de quem é ao cruzar o véu. É recitada a “Oração da Travessia”, guiando a alma em sua jornada:
"Você veio da sombra e retornará a ela. Nenhuma dor o seguirá. Nenhum medo o prenderá. Apenas vá."
O corpo é queimado ou enterrado em solo sagrado, dependendo do costume local. Se a alma resistir ou houver sinais de inquietação, passa-se ao próximo rito.
2. O Rito da Libertação (Para aqueles que morreram em agonia ou deixaram assuntos inacabados)
Quando uma alma se recusa a partir ou algo a prende, esse rito força sua libertação. O corpo é posicionado com os braços cruzados sobre o peito e os olhos cobertos com um pedaço de véu negro, para impedir que veja os vivos. Uma moeda marcada com o símbolo da Ordem é colocada na boca do morto, não para pagar uma travessia, mas para silenciar os lamentos. A encarregada pelo rito deve tocar a testa do morto e sussurrar o nome dele três vezes. Em seguida, a “Oração da Ruptura” é recitada:
"Nenhum amor o chama. Nenhuma dor o prende. Você pertence ao esquecimento. Vá."
Se a alma ainda resiste, um corte é feito na palma da mão do falecido, liberando qualquer energia que ainda o segure no mundo dos vivos. Se isso falhar, significa que a alma se tornou algo pior.
3. O Rito do Silenciamento (Para aqueles que morreram e retornaram de maneira impura)
Este rito é reservado para aqueles que foram trazidos de volta de forma errada (mortos-vivos, espectros vingativos ou qualquer um que se recusou a aceitar sua morte). O nome do morto é riscado dos registros da Ordem, simbolizando que ele já não pertence ao ciclo natural. O corpo é perfurado com agulhas de ferro negro, um material sagrado para impedir sua ressurreição. O sangue de uma irmã de maior nível hierárquico é usado para traçar o “Selo da Dissolução” no peito do falecido. A “Oração do Esquecimento” é entoada:
"Você já não existe. O mundo não se lembrará. Sua história termina aqui."
Se a criatura ainda se mover, deve ser destruída sem hesitação. Este é o rito que mais pesa sobre as irmãs, pois significa negar a existência de alguém.
4. O Rito da Execução (Para aqueles que desonraram o ciclo em vida e não merecem descanso)
Nem todos os mortos merecem compaixão. Alguns devem ser apagados completamente, para que nunca se ergam novamente. O corpo é queimado antes da morte (se possível), para impedir que a alma permaneça presa a ele. O coração é arrancado e reduzido a cinzas, garantindo que nenhuma maldição o traga de volta. Nenhuma prece é dita, nenhum nome é pronunciado. O condenado é esquecido imediatamente. É o rito mais cruel da Ordem, mas necessário para aqueles que desafiaram a própria morte e tentaram se tornar imortais.
Esses ritos mostram como a Ordem vê a morte como algo inevitável, mas que deve ser tratado com respeito ou severidade, dependendo das circunstâncias.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
28. Diário da irmã da Ordem IV
Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 25 de novembro de 1374
Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho da catedral, caminhamos por ela um bom tempo até que ela parou e falou: “Este, Mara, é nosso verdadeiro túmulo”, ela disse, apontando para as árvores. “Aqui é a floresta das raízes silenciosas.” O nome era apropriado, só se ouvia ali o som do vento entre os troncos. “Quando morremos”, Irmã Teodora continuou, “nosso corpo não é guardado em pedra fria ou muito menos deixado para apodrecer em qualquer lugar, somos devolvidas à terra da qual nascemos outra vez.” Ela deu mais alguns passos e passou a mão em uma árvore de tronco escuro. “Cada irmã da ordem escolhe em vida a sua árvore e essa é a única escolha que lhes é garantida. Quando morremos, somos enterradas ao pé delas, e nossas raízes se entrelaçam com as delas e assim nos tornamos parte dela.” Toquei no tronco da árvore e por um momento ela pareceu pulsar sob meus dedos. “E aquelas irmãs que a ordem não consegue recuperar o corpo?”, perguntei. “Se uma de nós se perde, ainda assim lhe damos uma árvore, um túmulo sem corpo, mas não sem memória”, ela disse, olhando para a árvore. Fiquei imaginando quantas irmãs não tinham sido encontradas e quantas árvores cresciam no vazio. Fiquei a olhar todas aquelas árvores ao meu redor. “Qual árvore você escolheu?”, perguntei. Irmã Teodora sorriu, me surpreendendo, e disse: “Um carvalho, firme e duradouro.” Não perguntei mais nada, mas quando estávamos saindo da floresta olhei ao meu redor e me perguntei: “Se eu caísse, qual raiz carregaria meu nome? Será que suas raízes iriam crescer no vazio?”. Talvez eu ainda não deva me preocupar com isso agora.
Data: 13 de dezembro de 1374
Estava andando pelos corredores da abadia, quando ouvi vozes abafadas, duas irmãs sussurravam, parei atrás de uma coluna e ouvi. “...o poder dele está além da compreensão”, murmurou uma delas. “A ordem finge que ele não existe, mas sabemos que ele está lá, seu domínio nunca caiu de verdade”, disse a outra. “Se a ordem quisesse, poderia enfrentá-lo…”, a primeira delas falou. “Se quisessem mesmo, já teriam feito”, a segunda bufou. Fiquei imóvel, ouvindo o que talvez fosse uma conversa proibida. “Drácula nunca morre, nunca é esquecido e há um bom motivo para isso.” O nome ecoou na minha mente. “Talvez seja por isso que a ordem não interfere no domínio dele, talvez seja algo que não possamos mudar”, uma delas falou. Eu já ouvi esse nome antes, em relatos de viajantes que passavam pela catedral, e o li em textos antigos com poucas informações, mas a ordem nunca falava sobre ele diretamente, não sabia se ele era um aliado ou apenas uma sombra à espreita, mas na ordem ele era um silêncio deliberado. As irmãs continuaram sem notar minha presença, me afastei logo, antes que me percebessem, fui para meus aposentos e o nome foi comigo. Drácula, Drácula, Drácula, como a batida de um coração no fundo da minha cabeça.
Data: 14 de dezembro de 1374
O nome Drácula continuou ecoando na minha mente como um coração pulsante a manhã e a tarde toda, ele se recusava a ir embora. Quando estava limpando as lâminas com a irmã Isolda, a única irmã à qual eu tinha afinidade, não consegui conter minha dúvida e tentei, de maneira casual, perguntar a ela sobre Drácula, ela estava na ordem há mais tempo que eu e poderia me dar mais informações. “Irmã Isolda, ouvi algumas irmãs sussurrando nos corredores, elas falavam de Drácula.” Seus dedos pararam por um instante na lâmina que estava afiando. “Drácula”, repeti, testando sua reação ao nome. Seguiu-se um silêncio pesado e Irmã Isolda voltou a afiar a lâmina como se eu não tivesse dito nada. “A ordem não se preocupa com ele?”, perguntei. “Não é uma questão de preocupação, é uma questão de decisão”, ela falou sem erguer os olhos. “E o que isso quer dizer?”, perguntei. Ela suspirou por um momento e respondeu: “A senhora da Morte tem seus motivos para não interferir nos domínios de Drácula e isso é tudo que você precisa saber.” E foi isso, nenhuma explicação, nenhum detalhe, a conversa estava encerrada antes de começar. Mas algo em suas poucas palavras me fez entender que Drácula era um nome a ser evitado e me restava saber o motivo dessa escolha ter sido feita.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
27. Se eu esperar, a sepultura será a minha casa; nas trevas estenderei a minha cama
Data Incerta – Mara ainda dormia, inteira, ainda humana. E eu senti um golpe de alívio em meu peito, controlei minha respiração, pois não queria que ela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta – Mara ainda dormia, inteira, ainda humana. E eu senti um golpe de alívio em meu peito, controlei minha respiração, pois não queria que ela acordasse e percebesse o meu descontrole. Levantei-me em silêncio, mas não o bastante, pois Mara acordou, mas não se levantou de imediato. Lavei o rosto em uma bacia de metal e pude ver meu reflexo embaçado, meus olhos carregados de névoa, como se houvesse uma película esbranquiçada que parecia carregar em si as lembranças do sonho da noite passada. Sentei-me em uma cadeira perto da janela e fingi normalidade, enquanto Mara se levantava em silêncio.
— Você sonhou — disse ela, afirmando.
— Acho que todos sonham, não é? — eu disse, tentando soar irônica. — Espero não ter falado enquanto dormia.
Mara me olhou por tempo demais e depois desviou o olhar.
— Vamos sair da torre. Preciso falar com você longe de tantos olhos e ouvidos atentos.
Não a questionei, apenas a segui, e a ordem parecia nem se importar com nossa saída, ou fingia não se importar.
Fomos para a vila, poucas janelas abertas, poucas portas entreabertas e poucos olhos e ouvidos. Enquanto andávamos, tive a sensação de que cada casa tinha suas cores dessaturadas, com contornos levemente trêmulos, como se tudo à nossa volta estivesse envolto em vidro embaçado, e a névoa fixa no céu parecia um negativo mal revelado.
Cada vez que eu piscava para tentar desembaraçar minha visão, parecia que algo se movia fora do tempo normal; eu me sentia puxada para dentro de algo que não era eu. Mara notou meu ritmo alterado.
— Você está lenta — ela disse.
— Só estou tentando me manter acordada.
Ela franziu o cenho e continuou andando.
Vi então um pequeno cemitério entre as casas antigas, pedras partidas, alguns lápides sem nome, musgo crescendo suave. E ali, sobre um mármore branco, juro que vi algo por um segundo, como um livro. Pisquei e não havia mais nada lá, mas a sensação ficou, como se, a qualquer instante, uma lembrança pudesse me atravessar e apagar o agora. Paramos naquele cemitério, e Mara fez questão de verificar que estávamos sozinhas antes de começar a falar. Tínhamos apenas a companhia dos mortos, mas, depois de tudo que passei, eu não estava certa de que poderia confiar no silêncio deles.
— Aquelas mulheres, há algo de errado nelas — Mara começou a sussurrar bem perto de mim — a ordem nunca protegeu o castelo e também nunca interferiu no domínio de Drácula. Essa ramificação da ordem quer proteger o domínio dele por algum motivo, e não é por bondade no coração delas, isso eu tenho certeza. Há algo mais por trás disso. E por qual motivo agora a verdadeira ordem quer intervir?
Eu a ouvia, mas parecia que ela fazia essas perguntas a si mesma, e não a mim, que não possuía nenhum conhecimento prévio sobre a ordem. Eu apenas estava no lugar errado na hora errada.
— Aquelas mulheres no teatro não eram apenas espectadoras; elas estavam esperando algo — ela continuou.
Olhei para ela.
— Você?! — eu disse, surpresa com quão óbvio isso parecia.
Ela assentiu.
— A ordem nunca se preocupou com Drácula, nunca tive conhecimento de nenhuma de nós entrando no castelo, a não ser eu.
— Você acha que isso é por sua causa? — perguntei.
— Talvez, mas quando elas me viram ali, de frente para ele, inteira, isso deve ter dado a elas a ideia de que eu sou a porta de entrada para o castelo — seu rosto se contraiu.
— Então elas vieram atrás de você — confirmei.
— Não posso ter certeza, é tudo teoria, eu não sei o que pensar — o silêncio ficou entre nós.
— Tudo bem, você deve ter uma ideia do que elas podem querer de você, não é? — eu disse.
— Como eu disse, talvez eu seja a entrada delas ao castelo, mas a dúvida que fica é o que elas querem lá…
Enquanto Mara falava, o mundo parecia se deformar à minha volta bem devagar. As lápides, as árvores, as ruas pareciam ondular; as casas tremulavam de leve, e as sombras se moviam com atrasos. Tive a sensação bem nítida de que, se eu me deixasse levar, eu poderia cair em algo que não era eu. Não sei como explicar melhor, mas eu sentia que aquele algo, que não sei descrever, era algo fora de mim que estava dentro de mim. Senti que estava sendo observada e sacudi a cabeça.
— Elas sabem que não conseguimos voltar ao castelo? — eu disse, tentando ainda voltar ao normal.
— Talvez saibam, mas isso não irá impedi-las de tentar entrar — Mara falou e olhou para mim com mais cuidado. — Você também percebeu isso, não é? Que elas não são do tipo que desistem.
Assenti.
— Então precisamos de uma forma de voltar para o castelo sem levá-las conosco — falei, e ela soltou um riso breve e amargo.
— Quando se trata da ordem, não sei se isso será possível, mas podemos tentar. Agora, melhor voltarmos.
Voltamos a andar e começou como um erro de profundidade: o chão parecia estar logo ali, mas, ao pisar, ele cedia um centímetro além do que era esperado. Como um degrau que não existe, meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar, e meu coração deu um salto.
— Rute — a voz de Mara veio de longe, ou talvez muito perto; eu não conseguia distinguir.
A vila começou a perder a cor, as casas se tornaram tão pálidas que começaram a desaparecer e o céu ganhou uma aparência embaçada. Eu pisquei e um livro se abriu, mas não havia livro em minhas mãos; havia páginas sendo viradas em minha cabeça. Vi uma mulher que não era eu ajoelhada diante de uma lápide sem nome. Vi mãos pequenas segurando uma adaga grande demais. Vi sangue escorrendo sobre um tecido que já fora branco. Vi o rosto mais jovem de Mara, endurecido, mas sem o peso que hoje ela parece carregar, e aquele mesmo olhar de quem não sabe como voltar atrás. Tudo se movia com uma luz neon branca, fraca e pulsante. O torpor veio doce e terrível, eu sentia como se meu eu presente na realidade começasse a se soltar de suas costuras; senti meu corpo ficar pesado e distante, como se estivesse sendo abandonado de mim ou por mim mesma. O ar começou a ficar espesso demais para respirar. Duas fendas se abriram na névoa; eram olhos não hostis, mas atentos, e, ao vê-la, algo dentro de mim doeu com uma nostalgia que eu não reconhecia como minha.
— O que está te prendendo? — disse.
Senti outras imagens querendo emergir. O teatro, o caleidoscópio, Drácula aplaudindo, Mara sendo refeita diante dos meus olhos, meu próprio rosto sendo refletido dentro de um vidro infinito. Senti o presente perder a importância, meus joelhos falharam e minha mente também; então algo me puxou com violência para trás.
— RUTE!
Mara segurava meu braço com força suficiente para doer. Sua mão era quente, real, dolorosamente real. O mundo retornou de uma só vez, com brutalidade, e eu caí contra Mara. Respirei em golfadas curtas e descontroladas; eu senti como se estivesse me afogando de novo.
— Você estava caindo — disse ela, com a voz controlada, mas os olhos não.
— Eu vi coisas que eu não vi — eu disse, e percebi que não fazia sentido nenhum.
Ela fechou os dedos nos meus braços com mais força.
— O que você viu? — ela perguntou, séria demais.
Engoli em seco, ainda não entendia aquilo que observava por trás dos meus olhos.
— Lembranças que não são minhas, mas querem ser — eu disse, desesperada, e Mara ficou em silêncio, me observando por tempo demais.
— Vamos voltar, finja que está tudo bem e volte para o quarto — ela me encarava enquanto dizia o que eu precisava fazer.
Voltamos e entramos na velha construção onde a ordem estava e, sob os olhos daquelas que fingiam não se importar, voltei para o quarto, pois estava cansada demais para os vivos, para os mortos e para a ordem.
Mais tarde — Essa noite eu sonhei de novo, ou tive uma lembrança que não era minha, não sei dizer ao certo. No sonho ou lembrança, eu já estava triste sem saber por quê. O céu era de um cinza vazio, como se nada no mundo pudesse preenchê-lo. Não havia vento; as flores ao meu redor eram brancas demais, quase fantasmagóricas, e, a cada movimento meu, elas se duplicavam, uma após outra, depois três ou quatro versões atrasadas de si mesmas, como se cada movimento meu estivesse dando defeito no tempo. Eu caminhava sem destino, sem urgência. Tinha apenas um peso no peito, uma tristeza antiga. Então vi o mar, e ele recuava a cada passo meu, como se tivesse medo de mim. Meus pés sentiam ainda a areia úmida. Tudo permanecia imóvel se eu permanecesse imóvel. Tudo respirava se eu respirasse, mas nada parecia vivo de verdade. Foi quando tudo começou a se misturar. Vi minhas mãos segurando uma lâmina que nunca toquei. Vi o rosto de Mara jovem, endurecido por uma dor que não era minha, mas que doía em mim. Vi uma lápide sem nome que me despertava uma culpa sem motivo. Eu queria chorar, mas não sabia qual das versões de mim deveria. A névoa aumentou, e duas fendas se abriram nela. Olhos, os mesmos de antes, e, ao vê-la, senti de novo aquela nostalgia absurda que não era minha, de algo que nunca vivi.
— Você está se perdendo? — disse a voz que eu sentia conhecer.
— Isso é meu, essas lembranças? — perguntei, e os olhos me observavam sem piscar.
— Agora é.
Olhei para baixo, meus pés não tocavam o chão e eu caminhava sobre aquela água inexistente, feita de lembranças alheias e das minhas lembranças. Eu olhava para elas, e a sensação era de que tudo estava prestes a desaparecer. Vi cenas que não reconheci como minhas. Senti medo, mas não o medo desesperador; foi mais um cansaço, pois eu estava farta de existir há muito mais tempo do que minha vida permitia.
— Se eu ficar aqui, isso passa? — perguntei.
— Nada aqui passa — a coisa respondeu — tudo apenas se sobrepõe.
Meu peito apertou e uma tristeza que eu reconhecia como sendo mesmo minha cresceu. Junto com aquela sensação de que existir havia se tornado pesado demais para uma vida só. Foi quando ouvi, de muito longe, meu nome sendo chamado, como se estivesse atravessando diversas camadas. A paisagem começou a rachar, as flores se desfizeram e o céu cinza se desfez. Os olhos recuaram.
— Volte ao cemitério, você ainda tem onde cair — disse a coisa.
E eu caí. Acordei com o peito em convulsão e o ar entrando como golpes em meu pulmão, como se eu tivesse sido puxada com violência, outra vez, do oceano. Meus olhos avistaram os de Mara, desesperados, e, como sempre, não sei dizer se era preocupação com a minha vida ou com a dela, que estava presa à minha, mas era uma preocupação genuína. Eu estava em seus braços novamente.
— Precisamos voltar ao cemitério agora — puxei o ar e disse, em desespero.
Saímos e fomos em direção ao cemitério. Não vi ninguém lá a princípio, mas tinha a sensação de estar sendo observada; foi então que os vi perto de uma lápide sem nome.
— Ali, você está vendo isso? Está vendo eles ali? — apontei para a lápide para confirmar que Mara via o que eu via.
— Eu não vejo nada — ela disse, negando com a cabeça — me diga o que você vê.
— Corpos imóveis, roupas que não parecem pertencer a tempo nenhum e os rostos em espiral. Não são máscaras, eles são mesmo assim, retorcidos por dentro, como se seus rostos tivessem sido entortados até chegar ao abismo da alma — disse a ela.
Mesmo assim, eu me sentia observada por aquelas faces sem olhos que conseguiam me atravessar. Eles continuavam parados, apenas observando, e eu comecei a caminhar, e eles continuavam lá, parados e distantes. Cada passo meu os tornava sutilmente mais próximos. Eu senti que não deveria chegar a eles rápido demais, mesmo que eu quisesse. Mara perdeu o foco, e eu sabia que ela falava algo, mas não conseguia escutá-la. Então um deles se aproximou o suficiente e não tocou em mim, apenas inclinou a cabeça e sussurrou:
— Esta não é sua, e não tem relevância.
Senti algo sendo arrancado de mim, mas não senti dor, e sim alívio. Sabia que algo tinha sido levado, mas não sabia o que. Então outro rosto em espiral se aproximou de mim e também arrancou algo.
— Essa você não vai precisar — sussurrou para mim.
Depois, um terceiro rosto em espiral e, ao invés de tirar, empurrou algo para dentro de mim. Minhas mãos começaram a tremer. Um outro rosto chegou mais perto, tão perto que quase chegou a me tocar. Então senti um incômodo, uma queimação na ideia de ser quem eu sou. Eu sentia como se uma parte de mim tivesse sido raspada por dentro, bem devagar, mas não como lâmina; era com algo mais bruto e doloroso. Comecei a gritar e eles continuavam me olhando sem olhos. Vi um rosto em espiral que parecia o meu ou que viria a ser o meu. Me sentia desorganizada dentro de mim mesma, reescrita. Apenas me lembro de ser arrastada com violência, vozes em torno de mim, os olhos de Mara em desespero, mãos me apertando e a sensação de que algo foi roubado e que algo que nunca foi meu crescia dentro de mim.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
24. A tua fé te salvou
Data incerta – Saímos da caverna em silêncio, como alguém que abandona um templo. Siehiffar nos acompanhou até a saída, onde a floresta retornava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data incerta – Saímos da caverna em silêncio, como alguém que abandona um templo. Siehiffar nos acompanhou até a saída, onde a floresta retornava. Ela me olhou com carinho e me abraçou. Senti uma pontada de pesar nos olhos dela, mas foi à Mara que ela entregou algo: um manto escuro e grosso. Um manto para protegê-la ou ocultá-la? Eu não sabia dizer. Ela apenas o vestiu, e imagino eu que só aceitou o presente por ser algo que o destino lhe dava.
— O lugar para onde vocês vão não é bom chamar a atenção de muitos olhos — ela disse, puxando o capuz sobre o rosto translúcido de Mara. — Mas quem caminha pela fé em algo, ainda que rachada, é visto mesmo no escuro.
Então partimos e caminhamos por muito tempo. Perdi a noção de quantas horas, pois o tempo se arrastava como um animal ferido. As árvores foram se tornando mais tortas, mais silenciosas, e a vegetação, rasteira. O céu, com nuvens paradas, opacas, cinzentas — nem uma cor vibrante podia ser vista.
E então chegamos a um lugar que não era Séttimor e também não era um vilarejo como os outros. Era uma extensão de alguma civilização que não deveria existir ali, mas existia. Havia casas em ruínas, outras eretas e bem conservadas, outras com janelas fechadas com tábuas e portas entreabertas. Havia névoa, muita névoa, espessa e úmida, e eu sentia um cheiro de cabra, sangue seco e metal oxidado.
Logo à frente vimos uma mulher de manto negro, com um capuz que cobria quase todo o seu rosto, exceto o queixo e os lábios. Carregava um cajado que parecia de carvalho. Atrás dela, tinha um pequeno rebanho de cabras negras, que nos observavam curiosas e em silêncio.
— Vocês não são daqui — disse ela sem emoção quando nos aproximamos, confirmando o óbvio.
— Estamos procurando o caminho para o castelo — falei. Mara manteve o rosto abaixado e coberto.
— O castelo está em todos os lugares e também não está em lugar nenhum. Vocês sabem disso, mas estão fingindo que não sabem, não é?
Eu sentia que ela não iria nos ajudar, mas precisava saber mais sobre o lugar em que estávamos.
— Que lugar é esse em que estamos? — perguntei.
— É o que resta de uma fé esquecida, daqueles que um dia buscavam a luz e encontraram a escuridão, a mesma escuridão que vocês encontraram.
— Só precisamos que nos mostre a direção e sairemos do seu caminho — disse Mara, impaciente.
A mulher não respondeu. As cabras começaram a berrar, como se estivessem chamando a atenção para algo, e então uma delas se aproximou de nós, e os olhos dela eram quase humanos.
— Continuem pela trilha — ela disse, e por um momento achei que era a cabra que falava. — Mas não toquem nas portas, nem respondam aos sussurros, a menos que gostem de distração.
— E você, quem é? — perguntei.
— E isso importa? Não é a mim que procuram — ela disse, e depois nos virou as costas e caminhou para longe, sendo acompanhada pelo seu rebanho.
Seguimos pela trilha, ouvindo o som dos nossos passos. Atrás de nós, o berrar das cabras, um céu escuro e opaco, e, muito ao longe, uma música, como se alguém tocasse para a nossa chegada. A trilha era estreita, coberta de folhas e galhos. Cada passo fazia o solo ranger, e me veio, não sei de onde, o pensamento de que estávamos pisando em ossos velhos, e aquele ar úmido tinha um forte gosto ferroso.
À medida que avançávamos, mais casas iam aparecendo. Mara caminhava em silêncio, o manto escondendo seu rosto, mas as pessoas que nos observavam em suas casas pareciam perceber a sua diferença.
Vimos uma mulher acompanhada de uma criança. Estavam paradas perto de uma cerca derrubada. A mulher vestia um vestido marfim encardido e os cabelos muito claros presos em um coque. Nos braços, uma menina de olhos bem abertos e perdidos no nada chupava o dedo sujo de terra.
— Boa tarde — eu disse sem ter certeza se realmente era tarde.
A mulher não respondeu de imediato, ajeitou a menina no colo e me olhou com aqueles olhos fundos, que não eram tristes, mas pareciam olhos que não descansavam fazia dias. Olhos que viram mais do que deveriam. Não sabia dizer se eram olhos alertas ou assustados.
— Onde estamos? — perguntei.
— Vocês estão onde sempre estiveram — ela respondeu com voz baixa e apática. — Nos domínios do castelo Drácula. Tudo isso é parte do castelo: a estrada, a névoa, as casas, cada pedra, árvore e cada animal. O castelo não é só feito de pedras e torres, sabia?
— Mas o castelo mesmo, onde está? — Mara falou, mostrando o quanto estava impaciente.
— Continuem, sigam a trilha que inevitavelmente vocês chegarão lá.
A menina no colo da mulher parou de chupar o dedo e olhou direto para nós, e seus olhos agora eram vermelhos.
— Ele está com saudades de vocês — ela disse com uma voz que não parecia de uma criança pequena.
Senti um frio no estômago. Mara deu um passo à frente, pegando no meu braço.
— Vamos — disse ela, firme.
A mulher e a criança apenas sorriram, nos seguindo com os olhos até sairmos na névoa.
— Vocês estão mais perto dele do que pensam — ela disse, ainda sorrindo.
A trilha começava a subir, se tornando mais íngreme, e a floresta ao nosso redor parecia se calar, como se estivesse segurando a respiração. Havia algumas árvores mortas, mas nenhuma delas estava caída. Seus galhos ainda pareciam avançar em direção àquele céu opaco. O solo tinha um cheiro de umidade antiga e, em alguns momentos, eu podia jurar que tinha visto silhuetas correndo entre as árvores. Formas humanas demais para serem confundidas com animais, distantes demais para se ter uma certeza do que eram.
O céu permaneceu o mesmo por quilômetros: cinzento, opaco e cheio de neblina. Depois de horas — ou talvez dias, não havia como eu saber com exatidão — a trilha se abriu e a névoa cedeu um pouco quando chegamos a uma pequena elevação. E de lá vimos outro vilarejo. Casas coladas umas às outras, com telhados cobertos de líquen. Cada rua como uma veia estreita que conduzia a mais casas. Havia roupas estendidas, crianças correndo de um lado a outro, vasos de flores — alguns secos — e incensos, muito incenso.
Mara puxou mais um pouco o capuz, pois sua aparência a traía.
— Não é possível que isso também seja parte do castelo — eu disse, mais para mim mesma do que para ela.
Mas ela assentiu, levantando a cabeça para olhar o topo de uma casa. Continuamos andando em silêncio. O vilarejo não estava abandonado, havia pessoas lá vivendo suas vidas, indo e vindo sem se dar conta de nossa presença. Outros poucos paravam e nos olhavam com estranheza, mas logo continuavam seu caminho.
E então o sino tocou. Um som oco e lento por três vezes, e, após o terceiro badalar, mais portas começaram a abrir e mais pessoas saíram de suas casas, enchendo as ruas. Mara segurou minha mão e, pela primeira vez desde que essa nossa aventura começou, eu senti que ela tremia. E, por algum motivo, eu achava que isso tinha algo a ver com o sonho que ela teve na caverna, ao qual ela não me revelou.
O centro do vilarejo tinha uma grande construção circular de pedra escura. Esculpido em cima do portal estavam as palavras em latim “Dominatio per Consanguinitatem” — domínio por consanguinidade ou coisa parecida. A porta estava aberta e de lá saía um cheiro doce de sangue. Todas as pessoas iam em direção àquela construção.
Uma mulher, um pouco mais jovem do que a maioria ali, se aproximou de nós. Usava um véu de um vermelho carmesim e um livro de couro preso à cintura. Seus olhos pareciam acolhedores, mas seus movimentos eram ensaiados demais.
— O senhor está acordado esta noite, e ele quer se divertir — ela disse.
— Qual senhor? — perguntei.
Ela não respondeu, apenas indicou a entrada com a cabeça.
— Se chegaram até aqui foi porque ele quis. Então entrem e participem da diversão, antes de continuarem seu caminho.
Quando me dei conta, já estávamos entrando junto com a multidão que esperava na entrada. Uma mulher de voz rouca, vestindo um vestido feito de panos e véus costurados um ao outro, nos recebeu com uma leve reverência.
— Entrem, entrem, a peça está prestes a começar — disse ela. — Tomem seus lugares.
Não perguntei do que se tratava a peça. A verdade é que havia algo em mim que já desconfiava que não seria algo que eu teria escolha em assistir ou não, então não adiantaria nada perguntar.
O interior era uma mistura de teatro e catedral, com bancos dispostos em semicírculo e grandes vitrais escuros de vidro vermelho e âmbar, e um palco ornamentado com bordas entalhadas em dourado, alto e fundo. Ao fundo, um órgão podia ser ouvido, bem sutil.
Um homem encapuzado se aproximou de nós. Em suas mãos tinha um objeto que logo reconheci como sendo um caleidoscópio — um tubo antigo de prata desgastada, com inscrições em volta que pareciam algo como o hebraico ou uma língua desconhecida. Ele estendeu o artefato e perguntou:
— Querem olhar? Observem, antes da peça, assim reconhecerão o ato — ele falou, oferecendo o objeto a mim, pois Mara se recusou a pegá-lo. Como ela não se opôs a que eu pegasse, aceitei o artefato.
Peguei o objeto, aproximei os olhos e a primeira imagem estava confusa — cores girando, vidros coloridos estilhaçados e formas abstratas — mas logo as imagens se organizaram e então eu vi. Ou melhor, eu me vi, ali no palco: eu chegando ao castelo, eu hesitando, dançando no baile de máscaras, chorando por Hadassa, conversando com Ameritt e Monm, falando com Mara, abrindo um diário, gritando para espelhos, segurando um cálice, me afogando e correndo e, então, eu observava a mim mesma com o caleidoscópio nos olhos.
Quase deixei o caleidoscópio cair, mas o homem o pegou, como se já esperasse a minha fraqueza depois de ver tudo aquilo.
— Tudo que foi visto, será encenado. É a lei do palco, é a única lei que aqui dentro obedecemos. — Ela falou isso e andou em direção ao palco.
Fomos conduzidas aos bancos de frente ao palco. A plateia cochichava, esperando o espetáculo começar. Todos pareciam ansiosos.
Uma voz feminina, grossa e alta, veio do palco, como se estivesse vindo do teto:
“Nesta peça, as visitantes reencontrarão a perda. Nesta peça, a alma se tornará carne. Nesta peça, nenhuma palavra será mentira.”
As cortinas pesadas, as luzes mortiças presas nas alturas, o som do órgão que produzia uma música densa, lenta e lacrimosa, a plateia com seus rostos apreensivos, ansiosos pelo que iria ser representado no palco.
Acho que toda a perda de memória começou com o caleidoscópio — aquele objeto simples que, quando toquei, arrancou sutilmente minhas lembranças sem que eu nem percebesse. Esqueci meu nome, minha história, minha dor. Me esqueci de tudo, e nada me fez falta.
A peça começou. No palco, uma mulher surgiu. Caminhava rápido demais, falava de menos, fazia escolhas bastante equivocadas, olhava com desconfiança para tudo e todos e carregava uma tristeza profunda e um ceticismo extremo nos olhos cansados.
Eu não sabia quem era ela, mas odiei cada escolha que ela fazia — ou deixava de fazer. Então, a cada ato, minhas memórias iam voltando, e percebi que ela era eu. Minha vida estava sendo encenada de trás para frente. E eu, sentada na poltrona, só conseguia criticar tudo.
Por que essa mulher — eu, no caso — se deixava ser engolida por aquilo tudo? Por que negava tudo? Por que se prendia tanto à lógica e à razão, se o mundo que agora a cercava era feito de delírios, criaturas inomináveis, fé e horror?
“Burra”, pensei — e logo calei esse pensamento, pois senti a dor do julgamento se voltando contra mim.
O teatro continuou a voltar mais e mais, até antes de Mara se tornar a criatura translúcida. Ali, naquele ponto da peça, algo mudou. A personagem — a outra eu — não encenava mais minhas lembranças. Ela impediu Mara de tocar o livro. A impediu de continuar o ritual, e, com isso, Mara não se desfez. Ela não se tornou aquela criatura translúcida. Na peça, ela permaneceu humana.
E a peça terminou.
A plateia aplaudiu, e uma figura em particular se levantou: Drácula, terrível e majestoso. Ele subiu ao palco, agradecendo os aplausos com uma sutil reverência. Ele me olhou — não a personagem, mas a eu sentada ali, presenciando aquele final de peça que não fazia sentido. Então voltou seus olhos a Mara e a chamou para o palco. E ela foi sem hesitar, ficando de frente a ele, que tirou o manto que ela usava, mostrando a pele translúcida que parecia feita com luz da lua.
E então eu senti como se tivesse sido arrancada de mim. Um ar espesso começou a sair da boca de Drácula e envolveu Mara, que estava diante dele, desaparecendo lentamente. Sua pele se tornou tão translúcida como vidro que eu podia ver Drácula através dela — ver as luzes e o próprio palco. Ela estava se desfazendo diante dos meus olhos e eu não podia fazer nada, pois estava presa à poltrona. Eu só podia vê-la sumir diante dos meus olhos.
Aquele ar espesso que saía da boca dele parecia aquecer aos poucos e começou a tomar forma. Os ossos de Mara — primeiro a espinha, depois as costelas, as pernas e braços — eram como algo se montando pedaço por pedaço.
Ele se aproximou mais dela. Seus lábios, antes distantes, agora tocavam o crânio recém-formado dela, e seus dedos afundavam na carne que começava a se formar. Mara gritava de dor, um grito abafado pelos lábios de Drácula — um som tão angustiante que parecia que sua alma estava sendo costurada à carne, e acredito que era isso que estava acontecendo. Veias, nervos, músculos, órgãos — eu via tudo: sangue fluindo, músculos formando e carne.
Os dedos de Drácula, ainda cravados no crânio dela, agora envoltos em carne e cabelo, formavam um contraste tão íntimo e brutal que não consegui conter o horror que se apossou de mim.
Ele então a deitou no chão, ajoelhou ao lado dela — que o olhava apavorada — e sussurrou algo no seu ouvido que eu não pude escutar, mas que a fez estremecer. Ele então olhou para mim, como se estivesse verificando se eu estava olhando, e depois voltou o olhar a Mara com um sorriso terrível e disse:
— Vá, minha filha, a tua fé te salvou. — Deu um beijo na testa de Mara e se levantou.
Depois desceu do palco e sumiu na multidão antes que eu pudesse ir atrás dele.
A plateia agora aplaudia de pé, pessoas emocionadas com o que tinha acontecido naquele palco. Mara permaneceu no chão por um tempo. Respirava. Estava viva, em carne e osso. Mas ainda assim, algo me dizia que não era só ela ali.
Depois que consegui me levantar, fui até ela. A abracei, sem saber ao certo o motivo de ter feito isso. A cobri com o manto novamente e saímos dali, acompanhadas pelos aplausos da plateia — que, ainda emocionada, continuava a aplaudir. Mas, por mais que nós não estivéssemos mais no palco, eu ainda me sentia dentro da peça.
Revisão por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
23. Diário da Irmã da Ordem II
Fui convocada para uma missão, irmã Teodora me entregou um pergaminho com um nome, não me deu nenhuma explicação, nenhuma justificativa…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 8 de julho de 1374
Fui convocada para uma missão, irmã Teodora me entregou um pergaminho com um nome, não me deu nenhuma explicação, nenhuma justificativa, apenas o nome, o destino e uma ordem: “Elimine-o sem deixar rastros”. Dessa vez não era um ambiente controlado, eu iria sozinha para o mundo real, não fiz nenhuma pergunta, apenas fui completar minha missão. Cheguei à cidade e faz meses que não caminho entre os vivos, e depois de tanto tempo longe, eles parecem tão frágeis e distraídos. Meu alvo era um mercador rico e influente, mas aparentemente insignificante, então não posso perder tempo analisando os vivos, quando a ordem quer a sua morte, mas acho que ele deve ser algo mais do que parece, mas não cabe a mim perguntar. Passei o dia observando, ele almoça sempre na mesma taberna, sempre escolhe as mesmas bebidas, tem um guarda-costas que parece depender demais da força bruta, mas acredito que seja descuidado, já percebi ele se distraindo com as belas moças que servem as bebidas. Se eu quisesse poderia acabar com ele ali mesmo, mas não posso deixar rastros, preciso ser cuidadosa e fazer parecer um acidente.
Data: 13 de julho de 1374
Troquei as garrafas na taverna, o mercador vai beber o vinho envenenado essa noite, não irá fazer efeito na hora, apenas dará a ele uma leve indisposição, o suficiente para fazer com que volte para casa mais cedo. O veneno real vai estar no chá que seu criado prepara para ele antes de dormir, pela manhã quando o encontrarem ele já estará morto, o médico vai declarar falha no coração, nada de suspeito, nada que leve até mim ou a ordem.
Data: 14 de julho de 1374
Ele está morto e ninguém suspeita, volto para ordem hoje à noite.
Data: 3 de setembro de 1374
Os jardins da abadia são muito bonitos à noite, há diversas flores que possui, mas há algo nos crisântemos, na forma como desabrocham, no aroma, no formato deles que me é muito agradável. Algumas das flores daqui duram apenas uma estação, depois se tornam irrelevantes. As pessoas também são assim, algumas são tão fascinantes por um tempo e depois se tornam tão sem importância. Logo precisarei de uma nova missão, algo novo para tornar o mundo mais vivido.
Data: 6 de setembro de 1374
A lua hoje estava cheia e muito brilhante, iluminando o jardim da abadia com seu brilho, eu senti algo a admirá-la, um vestígio de emoção que se manteve em mim por longo tempo, isso é raro. Talvez aqui na ordem sempre haja algo que possa me surpreender, “rezo” para que sim.
Data: 3 de outubro de 1374
Irmã Teodora me deu mais uma missão, dessa vez num vilarejo, uma cria vampírica estava causando terror nesse pequeno vilarejo depois que fugiu de seu covil, após seu mestre ser morto por mercenário descuidado. O vilarejo fedia a sangue, caminhei por entre as casas de madeira, procurando minha presa, eu podia ouvir o choro abafado por detrás das portas trancadas, os habitantes sabiam que havia um monstro entre eles, eles só não sabiam onde estava ou onde espreitava. Não precisei procurar muito, pois ele fez o que todos que confiam demais na imortalidade fazem, foi descuidado. então segui seus rastros, uma mulher com a garganta dilacerada caída na entrada de um celeiro e um homem morto ainda segurando um amuleto sagrado de ferro, como se isso pudesse protegê-lo de algo, e mais à frente encontrei o monstro.
Uma cria vampírica novata, nem mesmo era um bom predador ainda, somente uma coisa faminta e sem controle. Podia me ver nele e quase sentir uma pontada de empatia, era isso mesmo, empatia. Ele estava ajoelhado sobre um corpo, bebendo desesperado. Eu me aproximei em silêncio e era tarde demais quando ele me ouviu. Quando ergueu a cabeça eu vi o terror em seus olhos, as irmãs da ordem causavam isso, alívio para os humanos, terror para os monstros. Ele tentou fugir, mas não lhe dei tempo, com meu punhal rasguei sua garganta, cortando um grito antes que ele saísse, o sangue escorreu, ele se debateu, tentou segurar o corte e se afastar, em vão. O joguei no chão e me ajoelhei sobre ele, meu peso sobre o corpo dele enquanto se contorcia, o punhal dessa vez no seu coração, encontrando caminho em meio a algumas costelas, como eu aprendi com irmã Teodora, senti o osso ceder sob a lâmina e pude ouvir o estalo da sua costela partindo, seus olhos arregalaram, e por um instante pude apreciar o puro pavor nos olhos dele. E então acabou, apenas cinzas.
Fiquei no vilarejo para ajudar seus habitantes a enterrarem seus mortos e oferecer os ritos fúnebres para dar paz às suas almas. Eu os ajudei, mas via nos olhos de cada um o medo do monstro que eu era, talvez eu tenha me excedido demais ou mostrado prazer demais ao matá-lo, não sei dizer. A voz em minha mente sussurrou algo naquela noite, não era fome, vontade ou desejo, mas um “obrigada”, ela estava satisfeita. Então por hoje minha vontade está silenciada.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
22. É a Fonte de vida e ajuda a escapar dos perigos da morte
Data Incerta - Meus olhos ainda ardiam com o sal do oceano e minha mão treme ao escrever tudo isso, seguimos por entre aquela ilha de aparência…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta - Meus olhos ainda ardiam com o sal do oceano e minha mão treme ao escrever tudo isso, seguimos por entre aquela ilha de aparência seca que mais parecia uma ossada gigantesca, que fazia ainda mais me dar conta da minha insignificância. Mara ia à frente, sua silhueta, magra e alongada, parecia por vezes se dissolver no nevoeiro que começava a se espalhar rente ao solo, parecia querer certa distância de mim, caminhava em silêncio. Eu a seguia, cansada, sentindo como se minha alma, se ainda existe uma, pulsasse dentro de mim. Como se eu estivesse caminhando entre realidades, talvez dissociando, porque estamos mesmo caminhando entre realidades, não havia outra explicação lógica. Havia silêncio demais entre nós, aquele silêncio incômodo, palpável, como se minha existência fosse inadequada para ela. Até que ela parou, sua cabeça ergueu de súbito, como se ouvisse algo que para mim não era permitido ouvir.
— Escuta — ela sussurrou.
E então um som estranho, como som de eletricidade abafada, sem direção ou local específico, sufocado pela distância. Viramos ao mesmo tempo e vimos bem ao longe, uma figura difusa, solitária que deslizava em nossa direção, vestida com um manto antigo e escuro, seu rosto oculto por um véu negro espesso. Ela não nos olhava ou ameaçava, apenas caminhava em nossa direção, vinda de sabe-se lá onde, o nevoeiro se condensou e num piscar de olhos ela sumiu. Não houve ruído, apenas a sua ausência súbita no meio daquele nevoeiro, o vento aumentou de intensidade e com ele veio um frio que era mais do que uma mudança brusca de temperatura, era um aviso de que deveríamos sair dali. Mara se virou para mim, com os olhos arregalados e não precisou dizer nada. Corremos, ou pelo menos corri rápido com o pouco de energia que meu corpo permitia, e entramos em uma caverna próxima. A escuridão da caverna nos engoliu, lá dentro era úmido, o ar denso e o cheiro de mineral quase metálico, e a única luz vinha do fundo da caverna, embaçada pelo nevoeiro que invadia. Me recostei na parede fria, ofegante, eu não conseguia parar de olhar para a abertura lá fora, como se a qualquer momento a figura pudesse deslizar até lá e nos encontrar dentro da caverna, eu não sabia o que ela era, para mim não era uma ameaça, mas senti o medo em Mara e isso foi o bastante para me fazer correr.
Fomos mais para o fundo da caverna, o chão sob nossos pés era irregular, coberto de limo, úmido, cada passo nosso era abafado, as paredes eram escuras, riscadas aqui e ali por nervuras metálicas, veios de minerais com um brilho pálido. O teto era arqueado em certas partes, outras erguiam-se como abóbadas de uma catedral esculpida na rocha, outras partes eram tão baixas que nos obrigavam a abaixar a cabeça. Quanto mais adentrávamos a caverna, mais seu ar ficava pesado, impregnado de um odor de sal, ferro e umidade, como se estivéssemos respirando o ar das entranhas da caverna. Gotas dispersas caíam do teto, estalando nas pedras com um som irregular, como uma música experimental e assombrosa, às vezes contínua, outras vezes descompassada. Mara caminhava à frente, sem olhar para trás, os dedos roçando lentamente as paredes, como quem busca uma evidência tátil de que estava no lugar certo e que aquilo era real. Eu não precisava tocar a caverna, eu a sentia sob minha pele, se situando com leves toques gélidos que arrepiavam os pelos do meu corpo, a umidade que começava a ultrapassar as minhas roupas, se infiltrar na minha carne, se fixar na minha consciência. Nós avançamos mais e notei pequenas formas no teto, formações calcárias, finas estalactites como agulhas que pingavam devagar, construindo gota por gota um padrão que jamais seria terminado, algumas pareciam dentes fazendo conjunto com as estalagmites do chão que se projetavam em direção ao teto, algumas delas se unindo uma às outras formando colunas, outras pareciam garras, vestígios de algo que começou a se formar muito antes de nós, e que continuaria mesmo depois de nossa presença ali.
Ao fundo, a caverna se abria numa espécie de sala ampla, do teto, uma escuridão absoluta, o chão ali era mais seco, coberto de pedras quebradas e poeira que formava uma fina nuvem com qualquer movimento nosso. Nos sentamos ali, sem nos olhar, sem trocar palavras, pois não havia necessidade. O som do lado de fora se tornou mais distante, fechei os olhos, e o som do que ouvimos lá fora continuava distante, abafado pelos sons do interior da caverna. Os sons da caverna, indistintos, pareciam carregar o ruído de todas as coisas vivas e mortas, não sabia como eu sabia disso, mas sabia, sentia-me uma hospedeira dentro daquela caverna, não tendo ideia para onde ir e só me restando ali permanecer, ouvir a caverna respirar e esperar o próximo passo de Mara. Antes que eu pudesse descansar direito, Mara se levantou, eu não saberia explicar o sentimento de sentir que eu era repulsiva para ela, mas eu sentia isso, talvez nossa ligação permitisse isso, eu não sei.
Então andamos mais para o fundo da caverna em direção à luz, uma luz prateada difusa, seguimos em direção a ela e foi então que vimos os ossos. Havia crânios empilhados como tijolos, formando paredes, tetos e lustres como uma capela, havia símbolos em excesso, cristãos, iorubás, hindus, judaicos, wiccanos, islâmicos e outros que não reconheci, alguns cobriam os ossos, outros estavam entalhados nos crânios, tudo ali tinha um cheiro seco e pungente. No fundo, sentada sozinha como se fosse parte do cenário, havia uma jovem curvada sobre uma mesa de pedra, escrevendo com uma pena que segurava com os dedos delicados, ao seu redor havia alguns livros e papéis, pequenas relíquias, tudo organizado com cuidado, era dela que vinha a luz prateada. Ela notou nossa presença e levantou os olhos para nós e ficou de pé, ela tinha uma pele de um marrom escuro, um tom tão escuro quanto o meu, olhos âmbar intensos que davam um contraste tão perfeito com o tom escuro de sua pele, cabelos escuros, longos e volumosos, com cachos caindo em cascatas, um fino véu sobre sua cabeça que dava a ela uma aura divina. Seu vestido longo e escuro, com detalhes dourados, parecia uma santa guardiã dos mortos naquele ambiente que possuía uma atmosfera onírica e assombrosa.
— Vocês chegaram — disse com uma voz melodiosa. — Meu pai disse que viriam e eu estava rezando por isso. Aliás, me chamo Siehiffar — disse esboçando um sorriso calmo e fazendo uma leve reverência. — E vocês devem ser Rute e Mara.
Não fiquei surpresa e acredito que nem Mara tenha ficado, com o fato de Siehiffar nos conhecer, todos pareciam saber algo sobre nós, enquanto eu tentava entender quem eu era naquele momento. Eu quis perguntar quem ela era de verdade, como soubera de nós, mas minha garganta permaneceu trancada, esmagada pela densidade daquele lugar. Olhei a parede de ossos à nossa esquerda, só então percebi que as marcas nos crânios não eram apenas símbolos isolados, juntos eles formavam linhas, mapas, trajetos entre as crenças, como se alguém tivesse desenhado uma cartografia sobre os restos de quem em vida acreditou em algo.
— Eles vieram antes de vocês — disse ela estendendo a mão à parede. — E acabaram se tornando parte da estrutura.
Mara estremeceu ao meu lado, eu pude sentir, mais do que ver, que ela apertava as mãos umas contra as outras.
Olhei dentro dos olhos âmbar de Siehiffar e dentro desses olhos vi uma paz que não era deste mundo. Mara estava em silêncio e eu observava Siehiffar, desejando tocar a sua pele, tocar aquela paz com minhas mãos sujas de… dúvidas? Não, de maldade talvez, ou desejo por salvação. Controlei meus impulsos que eu não sabia de onde vinham.
— Quem é seu pai e como ele sabia que viríamos? — perguntou Mara com a voz seca e hostil.
— Abdalla Monm, ele disse que vocês apareceriam aqui no momento certo — ela falou ainda gentil, ignorando a hostilidade na voz de Mara.
— O professor Monm? — eu disse surpresa. — Faz quanto tempo que você está esperando?
— O tempo não é importante aqui, o importante é que vocês estão aqui — falou, mostrando com as mãos um canto da caverna iluminado por velas sobre os crânios da parede. Mas eu e Mara continuamos de pé, ainda absorvendo aquela presença tão viva num local tão cheio de morte.
Ela nos ofereceu água e comida e depois perguntou se poderia ver meu ferimento — aquele que já deveria ter cicatrizado. Concordei, então ela colocou as mãos no meu ferimento, murmurou algo numa língua que não reconheci. Senti um alívio, e a dor que eu já não lembrava mais que sentia, sumiu.
— Isso não sou eu — disse Siehiffar — é a Fonte que flui através de mim, eu apenas a deixo passar. Curei o seu ferimento, mas os danos que ele causou são incuráveis — se virou e olhou para Mara. — Desculpe por não poder fazer algo por você, mas a cura que você precisa não virá de mim. Sentem-se e descansem.
Nos sentamos ali, sobre tapetes antigos estendidos no chão de pedra, nós a ouvimos falar sobre um Deus sem forma, sem nome e sem lógica, que ela chamava de a Fonte, um Deus que estava acima do que existe e não existe, um Deus que não exige, apenas nos convida à contemplação, um deus sem gênero ou rosto.
— Acredito que não se deve buscar a Deus com perguntas — ela disse — mas com atos, com contemplação, no caos e na calmaria da natureza.
Ela falou de mundos dentro de mundos, de lugares que apenas podemos ter acesso em sonhos, de estrelas mortas que ainda emitiam luz, disse que as religiões, todas elas, são um espelho rachado que tenta refletir um rosto que ninguém nunca viu. Ela olhou para nós com carinho e disse:
— Vocês já acreditaram em algo, não é? Antes da dor, da morte, do castelo.
Mara ficou em silêncio e eu não respondi de imediato. Pensei e disse:
— Acreditei, mas hoje não vejo sentido, não vejo propósito nas promessas de salvação que não nos levam a lugar nenhum.
Ela não respondeu, apenas pegou um osso do altar atrás de si, um fêmur humano, com símbolos esculpidos, e o soprou como uma flauta. O som saiu puro e cortante. E eu a observei fazer aquilo e apenas desejei entender o que aquilo significava, ou ela estava apenas tentando me fazer entender que nem tudo precisa fazer sentido ou ser explicado.
— Você pode morrer aqui se quiser, mas também pode renascer. O tempo já não se move aqui, este lugar não está onde o mundo pensa que está. Aqui, o que você sente é o que te guia — ela falou com um leve sorriso.
Estar ali com Siehiffar era ao mesmo tempo agradável e confuso. Minha mente tentava entender suas palavras, sua intenção, mas era tudo cheio de significado, mas sem significado nenhum, como se ela falasse um monte de palavras bonitas, mas nenhuma delas fizesse efeito ou sentido para mim. Mara continuava em silêncio, nem um movimento ou palavra. Estávamos ali cercadas de ossos e símbolos e na companhia de Siehiffar em silêncio, não um silêncio incômodo, mas contemplativo. E em minha cabeça eu pensava no motivo de tudo ali ser tão incompreensível. Então Siehiffar sorriu para mim e disse:
— Acho que algumas perguntas não precisam de respostas.
Ela olhou para nós, se levantou devagar e caminhou até o centro da caverna, seus pés quase não faziam som no chão de pedra da caverna.
— Venham — disse ela, se virando para nós — há algo que quero mostrar a vocês, algo que quero convidá-las a ver, se quiserem, é claro.
Troquei um olhar com Mara e ela assentiu com um leve balançar de cabeça, então fomos. Siehiffar afastou uma tapeçaria de ossos unidos com cabelo humano; atrás dela, uma porta foi aberta com um leve rangido. O corredor que se revelava era longo, escuro e curvado, no fim dele uma luz prateada podia ser vista e, quanto mais avançávamos, mais seu brilho aumentava.
— Este é o caminho da Fonte, na verdade, um deles — ela disse com uma voz calma — é aqui que os que deixaram de acreditar vêm para se lembrar como crer, que os que sangram aprendem a oferecer seu próprio sangue como semente, e é onde o desejo se torna palavra, as palavras se tornam ação.
No fim do corredor havia uma câmara circular. O chão era de pedra, coberto de pequenos símbolos; o ar era espesso como algo que não sei como nomear. No centro, uma mesa de pedra e, sobre ela, uma tigela com um líquido prateado que parecia mercúrio líquido, como as águas dos rios de Séttimor. Siehiffar ficou ao lado da tigela, fechou os olhos e pronunciou palavras incompreensíveis, mas com um tom de voz tão musical que parecia um mantra. Silêncio novamente, e depois ela abriu os olhos e nos encarou com suavidade.
— Rute, Mara, convido vocês a dormirem aqui por uma noite, tendo a Fonte como vigia. Se ouvirem algo, ou sonharem algo, poderão partir e seguir o caminho que foi designado a vocês. Mas, se nada virem, ficarão aqui como todos os outros antes de vocês.
Senti um aperto no peito, mas a ideia de que talvez algo pudesse me impedir de voltar ao castelo foi reconfortante. Mas eu suspeitava que teria sonhos — ou melhor, teria pesadelos.
— Se nossos sonhos forem pesadelos? — perguntei.
— Eles também têm o rosto de Deus, às vezes até mais do que os anjos — Siehiffar sorriu.
Tudo vibrava, tudo me sufocava e eu tinha a certeza que seriam pesadelos o que eu teria, eu queria entender Siehiffar, e ao mesmo tempo não sabia se queria mesmo entender, mas sabia que queria ficar ali. Dormimos ao lado da tigela, deitados sobre mantos antigos que Siehiffar estendeu para nós. Mara ficou um pouco próxima, mas ainda parecia querer manter uma certa distância de mim. Me deitei e o ar parecia denso, demorei para pegar no sono, mesmo cansada, meus pensamentos não me deixavam relaxar e permitir que o sono chegasse, e de repente eu estava sonhando. Não era um sonho comum, o castelo estava lá e eu estava nele e eu era ele, vivo de maneira orgânica: ossos, músculos, tendões, nervos, carne e pele, e eu podia ouvir que em algum lugar dentro dele havia um coração que batia lento no mesmo compasso do meu. Os vitrais pareciam sangrar uma luz vermelha mortiça, as paredes quentes como um corpo vivo e o teto escuro e fundo, mas que ao mesmo tempo parecia o teto de uma catedral.
Andei pelos corredores do castelo e vi ao longe Ameritt andando devagar com um enxerto de flores vermelhas e roxas e cogumelos que cresciam de seus braços, rosto e no topo de sua cabeça. Ela sorria, mas em seus olhos havia lágrimas. Vi o salão do baile vazio e todos os seus espelhos cobertos com panos negros que tremulavam sem vento, vozes sussurrantes e outras guturais pronunciando meu nome. Andei até a biblioteca e vi Monm curvado sobre uma mesa, escrevendo com fúria nomes que eu não conhecia, mas eu sabia, não sei como, serem nomes dos mortos — e o meu nome estava entre eles. Então eu senti Drácula, antes mesmo de o ver; ele estava no alto da escadaria central como um deus abandonado, vestia uma túnica branca cuja borda era vermelha, como se tivesse absorvido uma grande quantidade de sangue do chão do castelo. E cada vez mais sua túnica se tornava vermelha, até o sangue absorvido tomar toda ela. Sua pele alva e seus olhos vermelhos ardiam, me reconheciam como uma igual, e a sensação de ser reconhecida por ele fez meu coração disparar em uníssono ao coração do castelo.
— Você partiu — ele disse com uma voz firme e calma — mas o castelo foi com você.
Ao seu lado estava Hadassa, linda e viva, com um véu escuro que mal cobria metade de seu rosto. A outra metade era osso, o crânio com metade de uma cruz gravada na testa. Sua boca sorria um sorriso ao mesmo tempo conhecido e assustador. Ela segurava um livro — na verdade, o livro de Mara — com dedos que pareciam vivos e também mortos.
— Você fugiu da promessa, Rute? — ela sibilou com aquele rosto que tinha apenas metade dos lábios.
“Que promessa?”, eu pensei e tentei responder, mas minha garganta estava cheia de água salgada.
Então Mara apareceu no sonho, com um vestido longo branco simples, um véu e uma coroa com rosas cheias de espinhos que afundavam na sua cabeça, fazendo linhas de sangue deslizar sobre o véu. Seus pés descalços sangravam na escadaria do castelo, deixando suas pegadas, indo em direção a Drácula.
— Mara! — gritei seu nome e fui andando em sua direção.
Ela parou, virou-se para mim, levantou o véu, e quando ela me olhou, surpresa — não era a minha Mara, translúcida — era uma mulher de carne e osso, com pele de um tom quente, um âmbar escuro, sobrancelhas e olhos escuros muito expressivos e intensos, nariz levemente aquilino e lábios cheios e bem marcados. Senti como se meu coração fosse apertado com muita força. Senti mãos tocarem os meus ombros e me girar com pressa, e lá estava a minha Doppelgänger, aquela que deveria estar na outra versão do castelo, ainda vestida como no baile de máscaras.
— Você tem que voltar — ela gritou.
— Por quê?
— Porque o castelo está em você, e você precisa continuar a escrever — disse, enquanto segurava meus braços, me impedindo de ir em direção a Mara.
— Eu não quero mais escrever, estou cansada — gritei.
— Mas você precisa, mesmo que doa — ela falou, colocando a mão esquerda em meu rosto e o acariciando de leve, e depois me empurrou.
Então o chão se abriu e eu caí num mar de sangue e tinta. Vi as palavras do meu diário se dissolverem naquele líquido viscoso e rubro, minhas memórias escorrerem pelos meus dedos e irem em direção a um fundo com uma luz prateada que vibrava. Então acordei, ainda deitada no manto antigo, tentando me orientar. Mara estava ao meu lado, também desperta.
— Você também…? — não precisei terminar a pergunta, ela logo assentiu.
O líquido na tigela ainda brilhava. Saímos de dentro daquela câmara e, sentada na escrivaninha, estava Siehiffar, concentrada na leitura. Olhou para nós com um sorriso gentil e disse:
— Algumas questões importantes são resolvidas em sonhos. O que vocês farão com o que viram é escolha de vocês.
Não sabia o que fazer com aquele sonho que mais parecia saído da cabeça do próprio David Lynch, mas eu sabia que deveria voltar para o castelo. Mas, ao mesmo tempo, não sentia como se estivesse saído dele. Estou fora dele ou não estou?
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
21. A minha vida só me dá desgosto; por isso, darei vazão à minha queixa e me expressarei com a alma amargurada
A caneta falha, como se a tinta temesse escrever ou sou eu que temo?
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data incerta - A caneta falha, como se a tinta temesse escrever ou sou eu que temo? Mas preciso registrar tudo como venho fazendo desde o início, e se eu não escrever, talvez Mara tenha razão e tudo que passei tenha sido apenas um delírio causado pela bebida, mas eu sei o que vi e eu sei quem estava lá. Corremos de volta à clareira e nossos passos fazendo barulho nas folhas secas, Mara segurando meu pulso com força como se temesse que fossemos separadas de novo. Parte de mim queria voltar à clareira, a bebida ainda queimava na minha garganta com um sabor de nostalgia, um sabor de lembranças que nunca tive, mas de alguma forma desejei. Chegamos à clareira e não havia nada, nenhum vestígio das figuras encapuzadas, nenhum vestígio do banquete, nem mesmo o aroma, apenas o nada, como se ali não tivesse acontecido a poucos minutos uma celebração, apenas o vazio envolto em árvores. Mara ficou em silêncio, mesmo sem saber como, eu sentia sua decepção, sua frustração bem palpável, como um peso em meu peito. Tentei explicar a ela que realmente senti que Drácula estava lá.
— Mara, ele estava aqui por trás de uma daquelas máscaras, ou talvez atrás de todas. Eu senti ele me observar por trás dos olhos da criatura que me levou à mesa. Não posso provar, mas aqui tinha o cheiro dele, a presença, a risada, tudo estava aqui — eu disse tentando conter uma certa emoção na minha voz.
— Eu acredito em você. — ela murmurou. — devemos continuar.
— Continuar para onde? — eu falei muito irritada — não vê ele brincando conosco? Que ele brinca com aquilo que nós mais desejamos, isso, toda essa maldita celebração foi só uma encenação profana de Dracula da crença que Hadassa tinha, da crença que ela achou que poderia salvá-la, a mesma que a enlouqueceu, que a podou e depois tirou dela a vontade de viver. Pra no fim ela me amar como uma amiga, pois qualquer coisa além disso faria com que ela não fosse salva, e como uma boa amiga fui até o fim com ela. — eu tentava em vão segurar a fúria dentro de mim, então meu tom de voz aumentou — Ela não queria ter que amar a Deus mais do que a mim, mas ela amou, mas nem eu, nem Deus conseguimos salvá-la e Drácula, joga no meu rosto de maneira teatral que, talvez, só ele pode salvá-la. Eu não sei se quero continuar a seguir as orientações dele, é tudo confuso, é tudo sem clareza, é errado. — respirei fundo para conter minha fúria e disse com mais calma — Você acha mesmo que vale a pena continuar?
— Você quer Hadassa de volta, eu quero voltar a ser eu mesma e me livrar desse vínculo com você, então, sim, vale a pena. — ela disse com calma ignorando meu acesso de fúria.
Ficamos em silêncio e seguimos da floresta até uma abertura entre alguns pinheiros, a terra pareceu se curvar e diante de nós havia um mar escuro e, além dele, o castelo Drácula. Chamá-lo de castelo Drácula agora me parece um pouco infantil, acredito não existir um nome apropriado para o que vimos no horizonte, ele estava imenso, como se tivesse sido esculpido em uma montanha descomunal, havia pinheiros escuros em suas muralhas e muito musgo rastejando pelas pedras. Uma névoa fina deslizava por suas torres altas e finas como se fossem espetar aquele céu escuro. E o céu como um espelho que refletia aquele mar escuro que não se movia como deveria, suas ondas não seguiam a brisa, pareciam que respiravam. Eu ainda respirava com dificuldade, mas a realidade respirava muito bem ao nosso redor. E ali naquela praia que não fazia nenhum sentido, me dei conta que não conseguia ignorar o impulso de seguir para o castelo. Não sei o que me causa mais horror, saber disso ou ter o desejo de voltar à clareira. Desejo, sim, o desejo, palavra que agora mais me assusta. Não às criaturas, o castelo, mas sim o desejo de pertencer. Aquele vinho, a celebração, a heresia, tudo apenas promessas que ainda não foram feitas me atraem, seja como for, amanhã retornaremos ao castelo, se ele nos permitir entrar novamente.
Data incerta - Hoje, mas que nunca entendo como é andar em direção ao nada. Ao amanhecer, ou que se parecia com o amanhecer nesse lugar onde a noite parece apenas ficar mais clara, como um fim de tarde. Mara e eu deixamos nosso acampamento improvisado na areia fria, eu me sentia entorpecida, todo meu corpo protestava contra se levantar, como se soubesse de todos os perigos que estavam me esperando. O castelo ainda estava lá gigante e imponente, mas ainda distante, talvez até mais que antes, e quanto mais andávamos, mais ele se afastava, como se o solo se movesse sob nossos pés nos afastando do castelo. Foi então que vimos um veleiro escuro, preso a pedras cobertas de sal e líquen, e junto dele um homem que desenhava com carvão sobre um mapa estendido num grande caixote, as linhas tremiam quando a brisa do oceano passava, mas isso não parecia incomodar ele que continuava concentrado no mapa. Seus olhos, ou o único que parecia enxergar, seguia os riscos com precisão. Tinha uma barba grande e grisalha, cabelos à altura do ombro, branco como a espuma no mar; os olhos eram um de vidro em um azul claríssimo, e o outro de um azul quase humano. Seu nome era Allant, foi assim que ele se apresentou quando fomos até ele. E sua voz soou bem velha e profunda. Mara pediu a ele que nos levasse ao castelo, Allant nos encarou, e depois encarou Mara, por mais tempo. Seu rosto perdeu aquela calma despreocupa, e se enrijeceu.
— Você é um deles, não é? — perguntou com uma voz profunda e lenta.
Mara pareceu não entender e muito menos eu.
— Ah, não importa, nesse mar já vi tantas coisas indescritíveis que já nem me surpreendo mais. — Ele murmurou ignorando uma resposta e entrando no veleiro como quem escolhe não saber. Aceitou o pedido, dizendo que podia nos levar até onde o mar permitisse.
— O oceano é uma entidade. — Disse isso como se confidenciasse um segredo. — Há lugares que se erguem e afundam à vontade dessa entidade.
Subimos no veleiro, as velas esfarrapadas erguidas com um vento que eu não sabia de que direção vinha, o casco rangeu e assim a embarcação avançou. E o Castelo ainda não se aproximava.
— Vamos deixar que o mar nos oriente. — Mara disse olhando para mim e depois em direção ao castelo que insistia em se afastar.
E eu aceitando assim a sua lógica de que nunca é o caminho que escolhemos, mas o que nos é revelado. Sentada ao lado dela senti algo estalando dentro de mim, como vidro que começa aos poucos se partir. Não era medo ou ansiedade, talvez a minha falta de fé, como se meu ceticismo fosse uma redoma de vidro dentro de mim que me protegesse de qualquer ilusão, um ceticismo vitrificado, endurecido que agora contempla o abismo e se entrega aos poucos ao passo seguinte, sem tentar se questionar, porque talvez esse seja o único caminho que resta. O veleiro deslizou por aquelas águas desconhecidas, aquele céu como um manto escuro e um mar que respira, estávamos apenas sendo levados. Num certo momento, Mara se sentou à proa e tentou enxergar um caminho, como se tentasse decifrar tudo à nossa volta e o espaço entre nós e o castelo, mas o castelo havia sumido, parecia que o mar o havia engolido, agora só se viam estrelas que não deveriam estar ali. Eram estrelas demais, próximas demais e erradas demais, algumas se moviam lentamente e outras pareciam nos vigiar. Allant nos disse que às vezes o céu não é o céu, às vezes é uma coisa que nos olha de cima. Eu apenas respiro, olho para ele e concordo com a cabeça. Ele disse isso com um sorriso e um olhar fascinados, como quem perdeu o medo de tudo e agora vê tudo com sincera admiração.
Passamos por uma ilha, que como Allant afirmou, não existir antes, era branca como marfim, cobertas de árvores curvas também brancas que pareciam ossos, Allant não tocou o leme, o mar nos levou até lá e logo depois nos desviou. Allant apenas anotou com cuidado um novo risco no mapa e a ilha brilhou em seu pergaminho como uma cicatriz.
— Ilha do útero putrefato — ele murmurou — tem cheiro de coisas que só o abismo poderia parir.
Mara olhou para mim e, por um instante, juro que vi reconhecimento em seus olhos, mas não quis questioná-la, não agora. A noite chegou, ou mais noite do que já estava antes, pois a escuridão se confunde com tudo, Allant nos contou uma pequena história sobre uma criatura que vive sob as águas, Lwccirtt, ele soletrou para mim. Ele disse que às vezes, os mastros vibram não por causa do vento, mas porque a criatura passa por baixo. É uma criatura disforme que pode ser confundida com o oceano ou mesmo um céu escuro estrelado. Ele disse que uma vez viu uma luz fascinante, bela demais para ser real, sentiu uma sensação de perigo e seus ossos gelarem. Não vou mentir dizendo que não fiquei impressionada, mas estando no meio daquele oceano, indo sabe lá onde, eu fiquei com medo. E então, quando cada um foi para o seu canto se distrair enquanto o mar nos levava, eu vi a luz, e com ela o som que me fez lembrar do sangue correndo em meu corpo, um som fundo que por um momento me arrancou a lembrança do meu nome completo, por pouco não me arrancando da minha existência, e guardei isso para mim, pois percebi que Mara e Allant não viram ou ouviram nada. E agora me pego escrevendo aqui, nesta página apenas para me certificar que ainda sei quem eu sou. Rute Fasano, Rute Fasano, Rute Fasano. Como ele me soa pequeno, efêmero, um nada. Eu sei mesmo quem eu sou? Cada dia mais fica difícil responder essa pergunta.
Estávamos sendo levadas para onde o mar nos quer, não sabia se o castelo era o destino, nem sabia se queria ainda chegar até ele, só sei que o mar nos conduziu, eu tentava ignorar a luz e a voz que vinha com ela. E aos poucos um vento foi chegando, primeiro como um sussurro frio e úmido, para depois se tornar um rugido violento e gelado, batendo nas velas, fustigando os cabelos, vibrando os mastros. O mar se erguia furioso, mas não parecia o mar, era como um céu invertido, o barco tremia, nós nos segurávamos com força, tanta força que meus dedos doíam. Eu vi algo bem longe, radiante, andando sobre as águas, uma figura. Primeiro Drácula de braços abertos me esperando, o olhar e o sorriso cheio de promessas. Pisquei, era Hadassa viva intacta, com seus longos cabelos molhados colado ao rosto e o sorriso da sua época mais apaixonada pela vida. Pisquei outra vez e a forma se desfez se tornando outra coisa, feita de mar, de ossos, de céu e estrelas, horrenda demais para ser nomeada e bela demais para ser esquecida. E ela falava dentro de mim: “Venha.” A palavra não era som, era sensação, era gosto, era cheiro. Eu a sentia atrás dos meus olhos, na minha língua, em minhas narinas. “Se houver fé em ti, andarás sobre as águas e virás até mim.” ela falava. Não havia fé em mim, ou havia? Então eu pulei do veleiro, não me lembro do som do salto, nem da tempestade, só o silêncio e a sensação de acolhimento e sob meus pés a água endureceu e eu andava sobre as águas.
Tudo girava lentamente e as estrelas no céu, que era a coisa à minha frente, me chamavam por nomes que nunca ouvi e eu andava em direção dela sem ao menos saber o motivo, mas eu andava. O sal queimava meu rosto, minhas roupas colavam em meu corpo e cada passo meu era leve e eu apenas ia. Até que vozes reais me despertaram, “RUTE!” a voz de Mara, “MOÇA, PARE!” era Allant. Seus gritos como pregos nos meus ouvidos, me despertando do transe. Partindo a minha fé? Então afundei, sem luta, sem pânico. Senti a água entrar pelas minhas narinas, invadir minha garganta, encher meus pulmões, que queimavam como se eu estivesse inalando meu primeiro sopro do mundo e ainda assim era acolhedor. Meus braços boiavam sem direção, meus cabelos dançavam, tudo girava, meu corpo girava, eu não sabia identificar o que era o céu ou o fundo do mar, tudo estava em desordem, mas não havia medo dentro de mim, apenas alívio. Como se todo esforço, toda essa dor, toda essa busca sem sentido, fosse tudo um engano.
A vida veio da água, e na água tudo termina, eu sorria com esse pensamento, porque talvez, finalmente, eu tenha encontrado um lugar onde eu caiba. Tudo escureceu, tudo silenciou e o mar me acolheu. Porém o mundo foi voltando aos poucos em partes, primeiro a dor nas costelas, o sal na garganta e o ardor nos pulmões. E por fim alguém chamando meu nome, não um grito, mas uma voz firme cheia de fúria contida. Abri meus olhos, o céu escuro, nuvens preguiçosas, eu estava deitada sobre pedras úmidas que me gelava até os ossos, minha boca aberta, meus olhos pesados. Mara estava curvada sobre mim, e por um momento vi Hadassa em seu rosto e depois não a vi mais. Via a pele translúcida bela como uma estátua feita de luar, sua existência trêmula e seus olhos profundos como o mar que me engoliu. Ainda não sei se naquele momento ela me olhava como quem me protege ou como quem protege a própria vida, mas ali estávamos dividindo algo, que não sei se era um afeto ou luto antecipado. Ela me puxou para seu colo e eu chorei como alguém que sentiu bem perto um alívio imenso demais para se explicar. Chorei por ter sido arrancada de um descanso que me parecia divino.
— Você voltou — murmurou Allant que estava de pé ao lado de Mara parecendo aliviado. — Por pouco o mar não a tomou de vez — sua voz rouca e lenta — já vi muitos irem e não voltarem e poucos que voltaram já não eram os mesmos. Fico feliz que esteja bem. Agora que tudo está bem preciso deixá-las, o mar me chama de novo. Há muitas ilhas ainda para serem catalogadas.
Então sem se demorar ou sem se explicar demais, Allant subiu no veleiro, sem esperar despedidas e acenou uma última vez.
— Não se afogue de novo, moça, na próxima vez o mar pode não a deixar viva. — o veleiro partiu e aos poucos foi desaparecendo ao longe.
Mara não disse nada, pois entendo que ela só queria me salvar para se salvar. A água ainda escorria dos meus lábios e dos meus olhos mais nada. Quando me levantei, tremendo, vi que estávamos em terra firme, numa ilha rochosa, antiga e de aparência seca, árvores ressecadas com troncos retorcidos e o castelo Drácula, ainda desaparecido.
E agora estamos aqui, eu viva e ela calada esperando orientações. Talvez tenha sido um erro eu ter sido trazida à superfície, pois tudo que irei fazer a partir de agora é inaceitável, já que há algo que tenho tentado omitir, eu estou mudando e não é de uma forma positiva, já não consigo controlar meus pensamentos ou vontades que num momento comum eu facilmente controlaria. Eu pensaria muito antes de iniciar qualquer coisa fora da minha realidade, e o castelo é algo fora da minha realidade, ou era, já que agora não sinto parte de nenhuma realidade além da do castelo.
Enquanto escrevo isso fico me perguntando o que Hadassa dirá quando eu a trouxer de volta, será que ela ficará feliz em viver comigo nessa realidade ou vai me odiar por tirar dela a paz da morte? Ela irá me amar quando enxergar em meus olhos o mal, pois é isso que eu sinto, o mal em cada passo que dou em direção ao caminho de trazê-la, mas, mesmo assim não consigo desistir da ideia. Não culpo o castelo, pois já pude perceber que o castelo só deixa latente aquilo que já sentimos, só nos tenta com aquilo que realmente desejamos, então não o culpo, nem a Drácula, culpo a mim mesma por não resistir à tentação. Estou cansada de continuar, mas essa vontade me impulsiona, mesmo contra a minha vontade. E já que eu não posso me impedir, o que me resta é continuar e reclamar.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
20. Castelo Vampírico: Quem comer minha carne e beber do meu sangue tem a vida eterna
Saímos de onde Arturo estava. Aquele breve encontro com ele me deixou inquieta…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
09 de janeiro? — Saímos de onde Arturo estava. Aquele breve encontro com ele me deixou inquieta — acho que essa é a palavra. Ele estava no lugar que deveria estar, mas, ao mesmo tempo, não deveria estar ali. E todas aquelas peças, livros, aquele caos organizado das mentes que nunca param de pensar mexeram um pouco comigo, levando meus pensamentos para coisas além daqui. Algo que tirei de mim mesma antes de adentrar ao castelo.
Continuamos nosso caminho, na missão de encontrar Drácula. Mara chamou minha atenção dizendo que eu não deveria ficar de conversa com pessoas que não conhecia. Entendo que ela se preocupa com a própria vida, mas não sou tão distraída a ponto de precisar que alguém me lembre de tomar cuidado a todo momento — pelo menos eu acho que não.
Seguimos para fora do castelo, e não sei descrever de forma correta a sensação de estar ali, naquele lugar em que eu estava acostumada a ir toda vez que precisava da companhia da Ameritt. Não entendia o motivo de Mara querer procurar Drácula fora do castelo, mas apenas a seguia, pois ela parecia saber o que estava fazendo.
Andamos por entre aquele jardim diferente, seguimos pelo meio de um arvoredo, e então encontramos um monumento enferrujado. Era uma rocha oxidada que se erguia naquele meio, com uma abertura em seu centro. Parecia um convite para que entrássemos. Troquei um olhar com Mara, como uma permissão silenciosa do tipo “Posso entrar?”. Ela apenas disse:
— Espere aqui — e entrou na frente. Logo após, voltou e disse para que eu entrasse com cautela.
— Ué, entrando em locais desconhecidos? Não acha isso perigoso? — disse a ela, para implicar com seu excesso de cuidado comigo.
— Às vezes devemos seguir o caminho que o castelo nos orienta a seguir — disse ela, seca.
— E como você pode saber se o castelo não nos orientou a falar com Arturo? — perguntei.
— Eu não sei, mas vivi o bastante aqui para saber que as pessoas não são muito confiáveis quando estão sendo orientadas pelo castelo — ela disse, colocando um ponto final na conversa.
Entrei na fenda logo atrás dela, e o que vi estava fora da minha noção da realidade. Era como se eu atravessasse uma barreira invisível, estava deixando para trás algo que ainda me pertencia, mas que eu não reconhecia o que era. O ar estava cheio de uma fragrância diferente. Não era aquele odor característico dos jardins do castelo que eu estava acostumada. Havia um peso que parecia se manifestar em meu corpo como um cansaço físico, como se o espaço questionasse a minha permanência ali.
Olhei todo aquele jardim e fiquei impressionada com as flores mecânicas que brotavam do solo coberto de raízes metálicas. Havia um vapor suave sendo exalado por todas aquelas flores. O lugar estava saturado de um perfume que, para mim, é quase impossível de descrever em toda a sua totalidade. Era floral, era quente e metálico, como se, literalmente, uma flor de metal fosse aquecida até seu limite e exalasse de seus poros esse odor que parecia reagir à nossa presença.
Pelo canto dos olhos, captei algo à minha esquerda. Não sabia dizer o que era. Mara também havia visto, pois se afastou de mim alguns centímetros e foi em direção ao local. Eu a segui, e logo ela apertou o passo, ainda caminhando silenciosamente. Tentei manter minha respiração sob controle.
Segui Mara, sempre junta a ela, como eu havia prometido fazer. Mas o castelo não tem compromisso com juramentos.
Mara parou ao se deparar com um pequeno coelho com uma fita vermelha no pescoço — era o que estávamos seguindo.
— O que fazemos agora, pegamos o coelho? — sussurrei.
— Não. Vamos esperar ele continuar a andar e o seguimos — ela sussurrou de volta.
Ficamos paradas esperando, e nada do coelho sair. Ele ficou ali, nos encarando por um longo tempo. Fui dando pequenos passos em sua direção para ver se ele se afastava e continuava seu caminho, mas nada.
— Você acha que esse coelho pode nos levar até onde Drácula pode estar? — continuei falando baixo.
— Não tenho certeza. Apenas estou tentando seguir as orientações do castelo, já que meu plano não está conforme o planejado. Talvez essa fita vermelha no pescoço do coelho não seja por acaso — ela falou isso com muita seriedade.
— Isso pode ter sido feito por qualquer um no castelo. Pode ser só perda de tempo.
— Sei disso, mas não é como se tivéssemos muitas opções — ela disse.
Me abaixei até o coelho e coloquei devagar as mãos nele, que não se afastou em nenhum momento. Então, uma parede de galhos cheios de espinhos se ergueu num instante, me separando de Mara. Ouvi Mara gritar meu nome com uma voz firme e tensa.
— Rute, fique onde está, darei um jeito de te buscar.
Eu queria responder e dizer a ela que iria esperar, mas, antes que eu pudesse abrir a boca, os galhos ao redor de mim se contorceram, buscaram algo para se agarrar — e se agarraram em mim. O chão fugiu dos meus pés, e fui puxada, sem resistência, por um longo caminho.
Lutei em vão. Minhas unhas arranharam a madeira dura, meus joelhos e cotovelos foram esfolados. Fui arrastada pela floresta.
Fui deixada no meio do nada, num chão coberto de folhas secas, num local muito diferente do jardim em que eu estava antes. Estava muito além dele. As árvores altas formavam uma cúpula, com copas tão unidas que impediam o pouco de luz do dia que restava de entrar. A única iluminação vinha de lamparinas espalhadas ao redor, penduradas em algumas árvores.
Vi, então, figuras mascaradas caminhando silenciosamente, e me escondi atrás de uma grande árvore. Fiquei a observar enquanto passavam, se distanciando de onde eu estava.
Usavam mantos negros e carmesins. Suas máscaras de coelho escondiam seus rostos. As figuras caminhavam com passos ritmados, esmagando com os pés as folhas secas com um som abafado. Seguravam tigelas com coisas que eu não conseguia identificar, pequenos cestos de vime que pareciam conter pedaços de coisas que eu não conseguia ver — talvez flores, ossos ou algo pior?
Seguiam uma trilha entre as árvores, iluminada por pequenas lamparinas penduradas nos troncos ao longo do caminho. Eu senti que talvez estivesse vendo algo que não deveria ver. O castelo muda e se move — ele também nos muda e nos move. Esse fato já está mais que aceito por mim, e ele nos separar só confirma que tem alguma intenção própria. Quando ergueu entre nós uma parede com galhos cheios de espinhos, me deixando por conta própria, talvez fosse o jeito dele de me mostrar suas orientações. Forma terrível, essa. Então, decidi segui-los. Conforme eu ia andando atrás das figuras, a noite ia chegando, e o brilho das lamparinas parecia aumentar, deixando tudo com um aspecto tão reconfortante e um pouquinho assustador. Um vento fresco passava por entre os galhos. Havia umidade no ar, um cheiro que era uma mistura de terra mexida, velas queimando e um aroma doce e ferroso. Eu sabia que deveria voltar para o local onde Mara havia pedido para que eu esperasse, mas toda a minha razão se esvaiu diante do conforto daquela situação. Eu estava envolvida.
Eu ouvia murmúrios. Cânticos? O vento nas árvores, talvez? Ou só o roçar dos mantos pesados no tapete de folhas secas? Continuei seguindo os mascarados, a uma distância segura, tentando me manter escondida entre as árvores. Os segui até uma clareira. Lá havia uma grande mesa de madeira, com velas, taças, frutas, pratos. Havia aquele aroma doce e ferroso no ar, misturado ao cheiro quente dos corpos que começaram a se movimentar, como numa dança ritualística. Uma música começou.
Primeiro, o som veio dos pés arrastando levemente na terra. Depois, o som de um violino, tocado com uma lentidão fúnebre que foi, aos poucos, ficando mais rápida. Todos formaram um círculo, e as vozes se ergueram numa canção em uma língua que eu não entendia. Era um canto gutural que ondulava, palavras que pareciam mais uma tempestade do que um idioma em si. Uma dormência tomou conta de mim e, por um breve momento, quando a luz das velas tremulou, tive certeza de ver as sombras dos presentes dançarem sozinhas — fora do ritmo dos corpos que ali dançavam.
Meu coração batia forte — não por medo apenas, mas pelo fascínio que aquele grupo estranho despertava. Havia algo nos seus movimentos ritmados que me parecia tão belo... uma beleza distorcida que eu passara a apreciar aqui no castelo. Como se, aos poucos, ele revelasse para mim seu interior belo e delicado — e, ao mesmo tempo, vermelho e denso, como em carne viva. A dança cessou, e todos se afastaram, ficando de frente ao que parecia um palco improvisado.
Então, uma arlequim apareceu. Ela vestia um traje em tons de vinho e dourado. Seu rosto era branco pintado, e possuía um sorriso sem sorrir. Apareceu no centro do palco, chamando a atenção de todos. Ela estava conduzindo alguns coelhos — brancos, pretos e marrons — que saltavam ao seu comando, fazendo truques ao som de suas palmas.
Todos os presentes estavam vibrando com a apresentação, mas eu sentia, sem saber como, que havia algo estranho ali.
Cheia de floreios, fez uma pequena mesa aparecer à sua frente e depois uma coleção de pequenos coelhos, tão brancos quanto a maquiagem de seu rosto. Ela os fez saltar, dançar, desaparecer, reaparecer, e a plateia via tudo fascinada. Ela segurou com cuidado um daqueles pequenos coelhos e arrancou sua cabeça com os dentes, um filete de sangue escorreu de seu queixo branco, então ela repetiu o ato com outro; a plateia continuava animada. Logo, outro coelho foi erguido e outra cabeça foi arrancado e, logo depois, outro.
Os mascarados batiam palmas, vibravam, riam como se aquilo fosse um espetáculo inofensivo, como se tudo aquilo que a arlequim estivesse apresentando fosse apenas um truque muito bem ensaiado. Era um truque, não era? Eu quero muito acreditar que era, pois o estalo dos seus pescoços sendo arrancados ficou ecoando dentro da minha cabeça. A arlequim se inclinou sobre o coelho com a fita vermelha no pescoço, aquele que eu havia perseguido, segurou o coelho com as duas mãos, murmurou algo e num movimento rápido, arrancou a cabeça dele, o sangue jorrou, espesso e vermelho. Alguém na plateia riu. Ela riu como se estivesse embriagada, o som dos ossos do crânio do coelho se partindo enquanto ela mastigava era alto demais para ser real, meu estômago estava se revirando. Aquilo não era real, não podia ser real, não era, não é?
Minhas pernas tremiam. Eu queria recuar e voltar para o local onde Mara pediu para que eu esperasse. O aroma ferroso se intensificou e, dessa vez, estava levemente amadeirado. Um calafrio percorreu minha espinha. Havia alguém um pouco afastado do círculo, entre os galhos secos, apenas observando. A luz das velas parecia aumentar a sua sombra, que já era monstruosa: um corpo esguio. Naquela escuridão entre os galhos, suas formas eram incertas. Pelos grossos e escuros, um traje antigo, um manto longo e escuro que se arrastava no chão... Mas então ele deu alguns passos à frente e seu corpo foi iluminado — e eu vi, com horror, seu tórax e suas mãos que não eram cobertos de pele ou pelos, mas sim por ossos expostos. Um sorriso se abriu em sua face ao ver o horror no meu rosto.
Ele não era como os outros mascarados. Essa criatura — pois não consigo pensar nele como algo humano — tinha olhos vermelhos profundos, sem pupilas, e seu rosto era como o de um coelho, com pelos muito negros e um sorriso largo demais, afiado demais para um coelho real. Suas mãos, que estavam erguidas sobre o peito, eram de ossos, com garras afiadas e delicadas. Ele não olhava para a arlequim — ele olhava para mim. E a arlequim, percebendo que eu havia notado estar sendo observada, sorriu.
As vozes voltaram a cantar e a dançar com a aparição dele, alheias ao horror que me paralisava. Eu não conseguia seguir meu caminho para longe daquilo — e nem sei se eu queria sair dali, se pudesse. Eu pertencia àquele encontro ou era uma intrusa em um ritual que eu não entendia? Deveria participar daquilo? E, se eu não participasse, seria castigada por isso? Eram perguntas demais para um cérebro assustado e confuso. Eu quis muito correr, mas meus pés estavam presos naquele chão. Eu podia sentir que ele estava me esperando decidir. Mas, diante de tudo isso, algo em mim quis ficar ali e continuar assistindo àquela celebração. Eu sei que deveria estar com medo. Talvez, no fundo, eu estivesse. Mas o medo era deixado de lado diante da minha curiosidade, que prendia meus pés ao chão, me impedindo de ceder àquele medo e sair daquele lugar.
Ele caminhou até mim e, sem dizer uma única palavra, me estendeu aquela mão ossuda, com aqueles dedos sem carne para cobri-los — um sorriso muito aberto, direcionado a mim. Eu queria recuar. Mas, ao oferecer sua mão, meu corpo ficou tenso. E algo naquele olhar vermelho profundo me manteve no lugar. Havia algo de hipnótico naquilo. Eu sentia como se todas as gerações antes de mim — ou todas as vidas possíveis que eu pudesse estar vivendo, ou tivesse vivido — já tivessem pisado neste mesmo solo, assistido a este mesmo momento e também cedido a esta mesma hipnose.
Quando meus dedos tocaram os ossos daquela mão, um calor estranho percorreu todo o meu corpo, e fui levada sem resistência. O mundo girava ao meu redor. As figuras mascaradas voltaram a dançar como em transe. Pareciam desenhar com os pés padrões invisíveis naquele solo coberto de folhas secas. Ele me levou até a grande mesa. Sobre ela, velas, frutas, carnes de origem um tanto incerta, pães, taças com o que parecia ser vinho — tudo cheirando bem: umidade, especiarias, o cheiro de terra revolvida e, ainda, aquele cheiro doce e ferroso. Ele fez com que eu me sentasse na cabeceira da mesa e, depois, caminhou até a outra cabeceira. De frente para mim, levantou sua mão esquelética e fez um gesto rápido. Na hora, os dançarinos pararam suas danças febris, andaram até a mesa e, em ordem, cada um tomou seu lugar à mesa — máscaras de coelhos me encarando com suas cabeças inclinadas para o lado, esperando algo. Talvez o próximo comando dele. Olhei para cada rosto oculto pela máscara de coelho e parei meu olhar na arlequim, que fez questão de se sentar ao meu lado. Ela sorria e segurava um coelho que se debatia em seus braços e com um único movimento ela torceu seu pequeno pescoço e o som seco do estalo pareceu me despertar. Alguém — que não consegui identificar — riu baixinho; meu coração acelerou, mas consegui fazer minhas mãos permanecerem imóveis, sem tremer.
Todos aguardavam algo — e agora até eu estava aguardando, sem saber o que era e sem entender o motivo de eu estar fazendo parte daquilo. Então ele se levantou. Serviu cada um à mesa com um pedaço de carne, começando por mim. Depois de completar a volta, pegou um jarro e serviu cada um de nós com o que parecia vinho. Sentou-se e fez um gesto. Todos seguraram o pedaço de carne nas mãos e, depois que ele comeu, todos também comeram. A arlequim olhou para mim com um leve balançar de cabeça, como se estivesse me encorajando a comer.
Tive receio de ser a única a não comer e coloquei a carne na boca. O sabor das especiarias e um toque de chocolate amargo me ajudaram a mastigar aquela carne, que eu suspeitava vir do corpo descarnado da criatura sentada à minha frente. Assim que engoli, ele fez mais um gesto e levantou o cálice. À frente de cada um de nós havia um cálice. Peguei o meu e o levei até o nariz. O cheiro era quente. Era do cálice que vinha aquele odor doce e ferroso — mas também vinha dele. Algo dentro de mim me dizia para não beber. Talvez fosse a voz de Mara, entranhada em minha mente. A arlequim olhou para mim novamente, me encorajando a beber. Minha mente ficou perdida num nevoeiro de pensamentos e perdeu a resistência. Então, bebi.
Assim que aquele líquido quente desceu pela minha garganta, todos à mesa — menos ele — começaram a aplaudir. Todos pareciam estar em êxtase. Mas aquela alegria me deixava desconfortável. Eu me sentia leve demais, como se meu corpo estivesse perdendo as raízes que o prendiam à realidade. Então Mara surgiu. O alívio da sua presença foi imediato. Ela apareceu de repente ao meu lado e, sem hesitar, bateu no cálice que eu ainda segurava e agarrou meu pulso, me puxando da mesa. Tudo aconteceu rápido demais para que eu conseguisse processar.
A bebida se espalhou pelo chão, a cadeira caiu para trás, e então estávamos correndo. Ela estava me levando para longe dali. Eu olhei para trás uma única vez. A arlequim ainda estava sentada com os outros, acenando para mim com seu sorriso grande e imóvel. Ela também ainda estava sentada, assim como os outros — apenas me olhando. Corremos sem parar. A floresta parecia se fechar ao nosso redor. Quanto mais corríamos, mais escuro ficava, pois, para onde íamos, não havia mais a iluminação das lamparinas. Só paramos quando Mara me puxou para trás de um grande arbusto. Eu arfava, tentando recuperar o fôlego, mas meus pulmões ardiam. Mara se virou para mim — e pude sentir sua fúria.
— Que inferno, Rute! O que você estava pensando?
Minha mente rodava, o ar me faltava e eu tentava, inutilmente, lembrar com exatidão o que me levara àquilo, mas não consegui me explicar à Mara.
— Eu não sei — murmurei sentindo um arrepio subir às minhas costas — era como se eu tivesse perdido o controle por um momento.
Mara me encarou e seu olhar estava carregado de raiva, mas também havia medo nela. De onde estávamos, ainda conseguíamos ouvir a celebração, não havia terminado, e eu, dentro de mim, sabia que aquilo não era uma simples celebração. Eu não sabia explicar o que era, mas era algo mais, algo que eu havia feito parte e que não sabia se sairia ilesa. De repente, um click como se uma peça se encaixasse no meu cérebro e eu recordasse de uma sensação, um cheiro, algo familiar em um dos presentes à mesa.
— Mara! Drácula estava lá, ele estava naquela celebração. — Eu disse.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
19. Castelo Vampírico: Onde quer que morreres, morrerei, e ali serei sepultada
08 de janeiro? — A criatura foi em direção ao monstro, segurando o lampião que emanava uma luz azulada. Eu estava tonta e não conseguia me levantar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
08 de janeiro? — A criatura foi em direção ao monstro, segurando o lampião que emanava uma luz azulada. Eu estava tonta e não conseguia me levantar. Ela veio em minha direção e me estendeu a mão esquerda, enquanto, com a direita, segurava o lampião para manter o monstro afastado. Aceitei sua ajuda com receio, mas precisava sair dali. Não podia pensar demais se ela era confiável ou não.
Levantei-me e me apoiei nela. Ela me levou até o meu quarto, ajudou-me a sentar na cama e se sentou de frente para mim, na cadeira da escrivaninha.
— Você foi imprudente. Ameritt foi bem clara quando disse que você não deveria sair do círculo — disse ela, com uma voz firme. Surpreendi-me com o pouco de emoção em seu tom.
— Se eu não tivesse te encontrado, você agora seria o jantar do monstro — falou isso com um quase rir, um leve sorriso que não acreditei estar vendo. Ela achou mesmo graça na minha possível morte? — Uma morte dolorosa e sem propósito, porque não conseguiu esperar um momento antes de sair correndo pelos corredores do castelo — ela me olhou, semicerrando os olhos.
Ela estava falando, as palavras saíam de sua boca. Eu não mais a ouvia dentro da minha cabeça, e isso chamava minha atenção, como quem chama a atenção de uma criança desobediente.
— Pedirei a Ameritt algo para te ajudar. Vi quando você caiu, e não foi uma queda que se deva ignorar. Recomendo que não durma — ela se levantou e saiu do quarto.
Fiquei sozinha, sentindo dor na parte de trás da cabeça e um zumbido no ouvido. Forcei-me a ficar acordada. Vi que, sobre a escrivaninha, estava o lampião, perto do vaso de orquídea que, havia um tempo, eu não dava a atenção devida. O livro também estava lá. A criatura deve tê-lo trazido depois do ritual. Levantei-me, sentei-me à escrivaninha e abri o livro. As letras não se mexiam mais, porém eu não tinha conhecimento linguístico o bastante para traduzi-lo. Eu poderia até tentar, mas levaria tempo. Pelo menos o ritual havia funcionado: a criatura tinha suas lembranças e o livro podia ser lido. Uma leve comichão no meu antebraço esquerdo se iniciou. Pensamentos inquietos começaram a me tomar. E comecei a sussurrar para mim mesma: “Se controle, pense com a razão, não perca o controle agora, você não precisa se apressar”. E eu queria muito aceitar minhas palavras e simplesmente parar essa vontade. Eu não sou assim. Eu sou paciente. Então por que essa ansiedade, essa pressa em iniciar? Não entendo o motivo de ser tão difícil controlar essa vontade, quando sou tão cautelosa com tudo que faço. Por que não consigo resistir a essa vontade?
Continuei sentada, pensando no que fazer enquanto esperava a criatura voltar. Coloquei os cotovelos sobre a mesa e as mãos no rosto, fechei os olhos e tentei manter minha respiração regular. Eu estava inquieta, precisava me acalmar e impedir que a vontade aumentasse. Comecei a bater as unhas na mesa de maneira ritmada para controlar o impulso de fazer aquilo que eu considerava ruim: agir sem pensar. A comichão no meu antebraço esquerdo aumentou, e eu comecei a coçá-lo sem parar, abrindo, aos poucos, a ferida que já estava cicatrizando. A dor parecia acalmar o impulso, a vontade de fazer o errado. A comichão aumentava, e eu a coçava com mais força, ampliando a ferida, mas aliviando a vontade. Senti minha mão direita ser segurada, impedindo-me de continuar com aquilo. O toque era gelado, e olhei para seu rosto sem expressão.
— Você deve parar com isso — disse a criatura.
— Devemos ir, pois precisa ser feito. Não aguento mais esperar — falei, impaciente.
— Sim, nós vamos, mas primeiro se recupere — ela concordou em ir, e eu continuava a dar ouvidos ao mal inquietante que, em algum momento, nesse castelo, se apossara de mim.
Ela enrolou meu braço com um tecido e, depois, me ofereceu o copo que segurava com suas mãos translúcidas. Disse que aquilo me faria sentir um pouco melhor. Bebi, e o sabor era metálico e amargo. Não parecia com nada que Ameritt já tivesse me feito beber. O gosto era horrível, mas ela disse que eu iria precisar daquilo quando percebeu que eu não conseguia terminar a bebida. Bebi tudo de um gole só, cada gota daquela substância horrenda, e comecei a suspeitar que não fora feita por Ameritt. Então a encarei por um momento e perguntei:
— Você consegue ler o livro, não é? — virei-me para ela, que estava de pé ao meu lado. — Mesmo nessa linguagem?
Ela confirmou com a cabeça e falou.
— Qual é a ajuda que você precisa? — Ela cruzou os braços, ficando bem de frente para mim, sendo direta.
— Eu preciso que você me ajude a… — Parei no meio da frase. Já não sabia se queria sua ajuda.
— Vamos, continue. Temos outros afazeres, e preciso que você seja breve — disse, incitando-me a continuar, com um gesto de mão.
— Eu preciso que você me ajude a ressuscitar alguém — falei de uma vez. Talvez isso fosse algo difícil para ela cumprir; trazer alguém da morte não me parecia, pelo menos para mim, algo fácil.
— Eu posso te ajudar nisso. O livro tem um feitiço para isso. Preciso recuperar meu corpo, e talvez encontremos no cemitério do castelo um que seja adequado, quando formos pegar o corpo que você precisa.
— O corpo dela não foi enterrado no castelo — murmurei, desanimada.
— Humm… Isso dificulta um pouco as coisas, mas posso encontrar formas para que seja feito. Preciso ler o livro e planejar nossa busca, listar o que iremos precisar. Então, descanse para que amanhã possamos começar.
Fui para a cama, mas o sono demorou a vir.
09 de janeiro? — Eu já tinha visto o céu mudar no castelo em outras ocasiões, já sentira seu humor mudar como um ser vivo, mas aquilo que eu via era diferente. O primeiro sinal da mudança percebi pelo som: um estalo metálico e sutil, como se engrenagens se movessem dentro das paredes do castelo. Um ranger baixo, como aço contra aço. Acordei com esses sons e olhei para a criatura, que, sentada, me observava inquieta.
— Você ouviu isso? — perguntei a ela, sentando-me na cama e tentando ouvir melhor.
— Ouço desde antes de você acordar. Está crescendo, mas o que me preocupa não é o som, e sim o silêncio.
Então eu percebi: o castelo, sempre cheio de ruídos, sussurros, passos distantes e sons difíceis de explicar, estava suspenso. Era como se estivesse prendendo a respiração ou algo o impedisse de respirar. Não dava para definir. Um silêncio opressor pairava no ar e, por trás dele, o som mecânico ritmado vinha de algum lugar do castelo — ou talvez de todo ele. Levantei-me e abri as janelas. Meu peito se apertou quando vi o céu ostentando dois sóis difusos: um dourado vibrante e outro de um cobre profundo, como dois olhos sobre um horizonte azul-cobalto e índigo intenso. Uma poeira dourada flutuava no ar e se assentou em minha pele com um brilho opaco.
— Isso é novo… e, ao mesmo tempo, não é — murmurei, tentando controlar o desconforto que aquilo trazia. Era como se eu estivesse diante de uma imensidão pintada por Vincent van Gogh, como Noite Estrelada, mas com ares mecânicos estampados no céu. As mudanças que sempre ocorriam no castelo eram assustadoras, terríveis e, às vezes, até mesmo opressoras. Mas eu nunca diria que não eram belas — e aquilo, à minha frente, era belo de uma forma arrebatadora.
A criatura se aproximou da janela, ficando ao meu lado. Seu corpo etéreo parecia vibrar com toda essa mudança. Ela estendeu a mão e observou a poeira dourada se acumular em seus dedos translúcidos.
— Parece fuligem — disse, erguendo a mão perto do rosto. — Mas sinto que não é apenas isso.
Continuei a observar o pó dourado. Eu ia responder, quando algo mais abaixo, nos jardins do castelo, chamou minha atenção. Movia-se devagar. Não era humano. Tinha pernas finas e articuladas, vapor escapando de suas juntas enquanto caminhava. Metálico e esquio, seguia em direção a um caminho que não estava ali antes… ou estava?
A criatura virou-se para mim, olhos vazios.
— Algo mudou, não é? — disse ela, com uma voz calma, como se perguntasse a si mesma. — Sim, mudou. Sempre muda. Mas, dessa vez, é como se não tivesse. Me pergunto se o castelo está mostrando o que ele quer que vejamos.
Ainda não tinha processado bem tudo que acontecera ontem: o ritual, as lembranças, o monstro, minha quase morte, o fato de a criatura ter me salvado. Mas o que mais me perturbava no momento era a estranha sensação de que tudo parecia diferente e, ao mesmo tempo, igual. Era como se tudo isso sempre estivesse ali e eu apenas não tivesse olhado direito. Parei e respirei fundo. O castelo sempre mudava, mas, dessa vez, estava diferente. Cheiros diferentes. Sons diferentes. Criaturas diferentes.
— E o que isso significa? — insisti.
A criatura ficou em silêncio por um tempo e, então, virou-se de frente para mim. Com uma calma perturbadora, disse:
— Significa que você precisa ter mais cuidado. Estamos em território desconhecido.
— Isso é óbvio, não é? — resmunguei.
— Talvez não tanto quanto você pensa — ela me observou, semicerrando os olhos. Acho que senti algo nesse olhar… desprezo, talvez? — Se você morrer, eu também morro.
Minha garganta secou.
— O quê? — foi tudo que consegui dizer.
— Nossas vidas estão vinculadas. Se você cair, eu também caio — ela sorriu, como se aquilo não fosse um problema. — Por isso te salvei.
— Como isso é possível? — Minha mente tentava encontrar uma explicação lógica para aquilo, até que me lembrei do ritual. — Foi o ritual, não foi?
— O castelo tem suas próprias regras — ela falou. — E Drácula as escreve como bem entende.
Ela fez uma breve pausa e, então, continuou:
— Agora que essa situação nos tornou mais íntimas, me chame pelo meu nome: Mara. Li suas anotações, e você tem me chamado de “criatura”.
Então ela leu meu diário. Algo péssimo para se iniciar uma “amizade”. E agora sabia sobre mim, muito mais do que eu sabia sobre ela. Fiquei em silêncio, pensando. O nome dela me incomodava, e eu não sabia o motivo… até que a peça se encaixou.
— Rute e Mara — ri sem humor. — Esse é seu nome mesmo, ou é alguma brincadeira?
Mara me olhou sem entender.
— É um teste de sanidade? Drácula realmente gosta de brincar com os hóspedes, não é? — Eu começava a ficar irritada.
Ela continuou me olhando, intrigada. Realmente parecia não entender a que eu me referia.
— No Livro de Rute, na Bíblia, há um versículo que diz: "Porque aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e ali serei sepultada" — recitei o versículo com tanta facilidade que até fiquei surpresa.
Mara semicerrou os olhos novamente e, logo depois, riu.
— Interessante… Mas nunca ouvi falar desse livro.
Isso me fez duvidar. A lembrança mostrava uma catedral e o que pareciam ser freiras. Ela deveria saber o que é uma Bíblia.
— Imaginei que você conheceria — olhei em seus olhos vazios e escuros, para me certificar de que ela escondia algo.
— Realmente não sei o que seja e não consigo imaginar o motivo de você ter achado que eu saberia — ela me encarou por mais tempo, como se quisesse que eu a olhasse melhor.
— Quando fizemos o ritual, consegui ver algumas de suas lembranças e vi o que talvez fosse você em uma catedral — eu disse, desviando o olhar daqueles olhos vazios.
— Entendo. Sim, era uma catedral da ordem à qual faço parte, mas não temos Bíblia lá. Pelo que entendi, é um livro sagrado. Temos livros sagrados na ordem, mas não esse.
Ela fez uma pausa antes de continuar:
— Como o castelo vive entre realidades, você não deveria se surpreender se as nossas fossem diferentes. Também não me surpreende que tenha sido Drácula quem agiu para que esse nosso encontro acontecesse. Ele age de formas que não compreendemos… até que seja tarde — disse isso com um quase rir.
Engoli em seco. Tive que concordar com ela. As coisas que vi nas lembranças dela eram de um mundo diferente do meu. As engrenagens invisíveis aumentaram seus ruídos, girando em um ritmo um pouco mais rápido, despertando-me de um devaneio que se formava. Mara sorriu outra vez. Um sorriso ambíguo. Eu a encarei, e um arrepio subiu por minha espinha.
— Eu preciso pensar no que fazer e em como proteger nossas vidas nessa nova versão do castelo. Precisamos entender o que está acontecendo — afirmou.
Ela me explicou que deveríamos encontrar Drácula antes de qualquer coisa. Disse que eu deveria tomar cuidado: não beber nada, não tocar em nada, não passar por portas que ela não tivesse verificado antes. Ela não sabia se poderia me proteger direito, estando na forma em que se encontrava, e alertou que, se algo ocorresse, eu deveria deixá-la para trás, correr para dentro do quarto e me trancar.
Mara repetiu que era necessário encontrar Drácula, que ele nos ajudaria a ressuscitar Hadassa. Mesmo que eu não tivesse muita fé nessa informação, ela dizia que ele também traria o corpo dela. Não sei quanto tempo ficamos no quarto planejando o que faríamos. Chegou um momento em que não havia mais o que planejar, e o silêncio se formou entre nós. O castelo parecia sincronizar sua respiração com a nossa, esperando nosso próximo passo. Precisávamos sair dali e entender o que estava acontecendo.
— Se você estiver se sentindo disposta, podemos iniciar nossa busca agora. Vamos até o cemitério do castelo e, depois, procuramos Drácula. Ele tem o que precisamos.
— Não tenho certeza se ele pode nos ajudar em algo. Todas as vezes que o encontrei, ele pareceu apenas se divertir às minhas custas.
— Sim, é isso que ele faz: se diverte. Quando fui procurar Ameritt, encontrei-o no saguão do castelo. Ele usou estas exatas palavras: "Dê a ela meu sangue para que ela viva, pois o espetáculo deve continuar".
— O quê!? Você disse que iria pedir a Ameritt para me ajudar!
— Disse sim, mas encontrei Drácula antes. Não faz diferença, você está curada… ou pelo menos parcialmente curada — vi que ela olhou para minha ferida, que tornara a abrir. — Drácula te curou. Fique feliz por isso. Ele não costuma ter um bom coração… se é que tem um.
Ela fez uma pausa antes de concluir:
— Então, vamos ao que precisa ser feito.
Suspirei, irritada. Não havia como mudar o que já tinha sido feito.
— Tem mais alguma informação que você precise me dar antes que a busca por Drácula se inicie? — Minha voz saiu ríspida, e eu não via motivos para controlá-la.
— Drácula é quem vai ressuscitar Hadassa. Ele também decidirá o preço que você deve pagar… então esteja preparada para negociar — falou, virando de costas para mim e indo em direção à porta.
Saímos do quarto e viramos à esquerda. Mara parou de repente. Sons sutis de metais. Engrenagens se movendo cada vez mais rápido. Ela começou a dar passos mais lentos em direção aos sons. Foi então que senti o cheiro ácido e adocicado de óleo queimado, o aroma sutil de ferrugem úmida e carvão.
— O castelo mudou de novo… Olhamos para o lado por um breve momento, e ele mudou. Estive no saguão há pouco, e nada disso estava aqui — Mara olhava de um lado para outro, à minha frente, verificando todo o espaço.
Continuamos nossa caminhada e, aos poucos, percebemos as diferenças. Máquinas que antes não estavam no castelo agora se faziam presentes. A cada passo, os sons mecânicos ficavam um pouco mais altos, contrastando com o silêncio opressor que reinava. Vapor. A luz amarelada de lâmpadas a gás projetando sombras sutis nos corredores. Corredores que eu achava conhecer. Os sons aumentavam. O ar tornava-se denso, como se atravessássemos camadas e mais camadas sobrepostas. De ar? De tempo? Ou talvez da própria alma do castelo? Não sei dizer. O castelo, esse organismo pulsante, parecia ter decidido expor suas entranhas de forma sutil. Eram belas… mas pareciam fora de contexto, e eu não conseguia raciocinar.
Minhas lembranças diziam que as paredes eram de tijolos escuros, mas agora eu via engrenagens embutidas nelas, canos, ferro, cobre e vapor. Os belos vitrais, que antes jurava exibir cenas distintas, agora mostravam engenhos que eu ainda não compreendia e dirigíveis flutuando entre as nuvens. E o teto… Eu poderia jurar que sempre fora escuro e abobadado, mas agora exibia tubos de cobre como veias e artérias. Senti meu coração acelerar. Eu sabia que algo havia mudado, mas, ao mesmo tempo, parecia que nada mudara. Estava inquieta. A comichão em meu braço esquerdo retornava. Será que fui cega esse tempo todo, ou o castelo realmente mudou? Mara disse que se sentia da mesma forma, mas, se isso a afetava, ela escondia bem.
Encostei a mão em uma coluna de ferro ornamentada. Senti pequenas vibrações, um calor estranho. Isso deveria me parecer familiar, não deveria? Hesitei antes de continuar o caminho com Mara. Não esperava nada ao sair do quarto com ela, mas, em vez de entranhas, veias, carne e cheiro de sangue, havia tubos, canos, vapor, metais e fuligem. Andar pelos corredores do castelo era como caminhar em um labirinto que se modificava a cada passo que dávamos. O ar, por vezes seco, por vezes úmido. O espaço oscilava entre passado e futuro. Dentro de mim, crescia uma pressa em compreender o que estava acontecendo. Portas surgiam onde antes não existiam. Passagens conhecidas desapareciam. Descemos escadas que não lembrávamos ter visto antes. Passamos por portas que se abriam para espaços que, aparentemente, não deveriam estar lá.
Uma porta de ferro e cobre estava entreaberta, Mara olhou por ela por alguns segundos e entrou, dizendo que era ali que deveríamos entrar, eu ainda hesitei por alguns instantes antes de segui-la. No centro de uma grande sala, havia uma bancada desorganizada, com frascos que reluziam com cores vivas, engrenagens, peças de ferro ou cobre, papéis com esquemas, fórmulas e cálculos. Livros empilhados, máquinas estranhas, criaturas como aquele que eu havia visto ao olhar pela janela do meu quarto, umas outras faltando partes.
— Estamos sendo observadas — Mara sussurrou ao chegar bem perto de mim. — Fique perto de mim.
Um brilho azul, num canto escuro da sala, se acendeu revelando o rosto imóvel de nosso observador.
— Vocês estão perdidas? — sua voz era densa, ele caminhou devagar até onde estávamos. Eu parei e fiquei olhando para ele.
— Ninguém se perde num castelo que decide onde você deve ir, não é? — Mara retrucou dando alguns passos a mais e ficando à minha frente.
— É interessante a forma como você vê as coisas. — afirmou ele encarando Mara com olhos frios, por mais tempo do que eu achei necessário.
Me aproximei só um pouco para olhar as máquinas em volta de nós, que pulsavam com uma lógica que me escapava, engrenagens que se moviam, marcadores que giravam. Nada ali fazia sentido e ao mesmo tempo estava em ordem, minha mente se admirava com aquilo e mesmo assim não conseguia decifrar nada.
— Você é cientista — ele disse isso mais como uma afirmação do que como uma pergunta.
Senti que Mara se enrijeceu perto de mim, não precisei olhar para ela para saber que semicerrou seus olhos, carregado com aquele desprezo que, no nosso pouco tempo juntas, reservará a mim.
— Era, antes do castelo — eu respondi desviando o olhar, voltando a observar as máquinas à nossa volta.
— Não existe “era” cientista — sua voz era firme, lenta — uma vez pessoa da ciência, sempre pessoa da ciência. O conhecimento não sai de você, só muda de forma. Isso não se abandona, mesmo que se tente. — ele afirmou dando mais alguns passos em nossa direção.
— O problema não é parar de fazer ciência, é quando a ciência para de fazer sentido para você.
Ele parecia saber mais sobre mim do que deveria ou era coisa da minha cabeça? Mara bufou e cruzou os braços.
— Palavras vazias, as suas. A ciência possui tanta arrogância quanto as superstições que alguns tentam destruir. Tudo isso — ela apontou para as máquinas e os livros — é só outra máscara para a ignorância. Isso tudo pode ser ciência ou feitiçaria. — Ela olhou para a bancada que eu analisava e parou seu olhar nos papéis. — Ah, ciência, é claro… Mas ciência não é apenas feitiçaria com método? — perguntou, voltando a encará-lo.
Isso era algo que eu não poderia discordar. Houve um tempo em que eu teria negado tal ideia, tentando explicar o quanto aquela fala não fazia sentido, mas agora, não mais. Eu havia sido vencida pela aparente falta de lógica do castelo — que, na verdade, possuía uma lógica incomum, mas que, para mim, tornara-se muito atraente.
Meu olhar recaiu novamente sobre os livros antigos, anotações avulsas e equações incompletas. Ele não pareceu se ofender com o que Mara dissera, apenas ficou a nos observar, analisando-nos em um breve silêncio. Quando voltou a falar, olhei em sua direção.
— A ignorância é um conceito relativo… Mas acredito que você entenda, não é? — disse ele, olhando para mim.
Eu não soube responder, não naquele momento, porque algo dentro de mim, que eu pensava ter deixado para trás, se remexeu.
— A propósito, me chamo Arturo Vasquez — ele deu alguns passos e estendeu a mão para mim, ficando bem de frente a Mara.
— Me chamo Rute — dei alguns passos, posicionando-me ao lado de Mara e apertando a mão dele. Seu aperto era firme.
Ele estendeu a mão para Mara, que cruzou os braços, recusando-se a apertá-la.
— Eu sou Mara — ela murmurou, enquanto ele recolhia a mão e sorria de leve para ela. — Feitas as apresentações, agora precisamos ir.
— Esperarei pelo nosso próximo encontro — ele inclinou a cabeça como um gesto de despedida, e nós seguimos nosso caminho.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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18. Diário da Irmã da Ordem
Há os que dizem que aqueles pequenos momentos que antecedem a morte são os que mais trazem esclarecimento, mas para mim…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Data: 17 de novembro de 1373
Há os que dizem que aqueles pequenos momentos que antecedem a morte são os que mais trazem esclarecimento, mas para mim, a morte nunca foi um mistério, nunca temi como os outros, tampouco senti a inquietação que os outros sentiam diante dela, talvez apenas leves calafrios e só. Eu caminhava sem direção perdida em uma vida entediante e sem propósito, trazendo somente comigo um nome que me era um fardo pesado demais e um passado cheio de um desprazer que nunca terminava. Eu busquei o fim por conta própria, mas tropecei em algo que podia ser meu recomeço em um percurso sem significado. Aquele som vindo do meio da floresta foi o primeiro sinal, um canto gregoriano, que penetrava meus ouvidos, fazia tanto tempo que eu não ouvia algo tão belo e angustiante, que me dilacerava por dentro, me rasgando em camadas de emoções tão latentes que eu nem sabia que eu podia possuir, minhas pernas movidas por uma vontade que não era minha me conduziram ao som e assim encontrei a catedral, me percebi sorrindo diante dela.
Escura e imponente, uma silhueta contra um céu sem estrelas, não me recordo de ter aberto sua grandes portas, mas de algum modo eu já estava lá dentro sendo engolida por aquele grande salão onde figuras reunidas de frente ao altar entoavam um cântico, vozes femininas diversas e peculiares, algumas nem pareciam humanas ou talvez fossem, mas estavam além do que eu conhecia. Seus rostos alguns sérios e concentrados outros sem forma definida pelas sombras do véu que usavam. Cada nota que elas entoavam parecia arrancar com mais violência um pedaço do que eu era. No centro do altar havia uma grande imagem esculpida em pedra escura, com um manto negro que parecia um tecido desgatado até os seus peś, sua cabeça era coberta e havia uma coroa pontiaguda e ornamentada, o rosto oculto por um véu, em suas mãos um buquê de flores que dependendo da posição do observador, ele poderia conter flores vivas ou mortas, havia gravidade em sua postura, conforto e ameaça.
Ao longo das laterais da catedral, em nichos profundos, estavam outras imagens, cada uma retratando uma ceifadora distinta que eu soube mais tarde serem representações das várias faces da morte, cada uma com um propósito único. Todas seguravam uma foice em uma mão e na outra mão um lampião que emanava uma luz azulada que iluminava o interior da catedral. Havia uma atmosfera pesada, sufocante e ao mesmo tempo tão arrebatadora e calma, que me fazia sentir tudo. Foi então que chorei, não como uma jovem mulher que sente tudo, mas como uma criança perdida que se dá conta que está sozinha, eu que nunca senti nada antes, talvez só emoções rasas como pequenas comichões, então fui inundada por emoções que não conhecia. Meu soluços ecoavam dentro da catedral, era incrível o tanto de emoção que eu poderia sentir, quando meu choro foi se acalmando e minhas emoções se equilibraram, uma figura vestida com uma túnica e um véu escuro, desceu do altar e veio até mim.
— O canto da Senhora te atraiu até aqui, você deseja deixar tudo para trás? — ela disse com uma voz calma.
— Tudo? — murmurei.
— Sim, tudo que não for servir ao propósito da ordem, teu nome, teu passado, tuas dores, nada disso importa aqui. Apenas a Senhora da Morte, adore-a e ela te trará paz, sirva e ela te dará um propósito.
Aceitei sem hesitar, a vida que eu deixava para trás era um fardo que eu já estava cansada de carregar, eu era uma casca vazia, sem um propósito, assenti com a cabeça.
— Bem-vinda, irmã — ela disse me abraçando, eu senti conforto com esse abraço.
E assim deixei de ser, passei a me vestir como as outras irmãs. O vazio que sempre me acompanhou, começava a ser preenchido com um propósito, o de servir a Senhora da Morte, mas para isso eu deveria aprender com elas a levar conforto para os moribundos, caçar os que desonram o ciclo natural e resgatar as almas perdidas que clamam por liberdade, mas para isso, como disse irmã Teodora, eu precisava ser testada pela ordem e pela Senhora.
Data : 3 de dezembro de 1373
As madrugadas na abadia são silenciosas, mas se eu me concentrar bastante consigo ouvir o sussurrar do vento, o arranhar das aves necrofagas nas telhas, o som da madeira rangendo sozinha. Tudo isso um lembrete de que, indiferente a tudo, o mundo segue seu funcionamento. Rezei por horas esta manhã com as outras irmãs da ordem, repeti as palavras, copiei os gestos, estudei e treinei com elas. Elas observaram minha disciplina e vi nelas o que elas esperam de mim. Acho fascinante como parecer ter fé é tão convincente quanto a fé em si.
Data: 5 de dezembro de 1373
Irmã Teodora que me recebeu na Ordem, eu sei que deveria estar grata, mas só sinto que sai de uma jaula para cair em outra. Contei para ela algumas partes do meu passado e o quanto eu sentia raiva das pessoas da minha vila, Ela diz que serei útil, diz que essa minha raiva pode ser útil, se aprender controlá-la, ou com suas palavras: “Sua raiva pode ser uma boa lâmina, se você aprender a segurá-la pelo cabo.” O primeiro dia de treinamento físico se resumiu a dor, flexões até meus braços falharem, agachamentos até as pernas cederem, abdominais até meu tronco arder, golpes com as mãos nuas contra um boneco de palha até os nós dos dedos abrirem, não reclamei em voz alta, não pedi por descanso, mas irmã Teodora viu meu ódio e não tardou a me corrigir. “A raiva sem controle é como veneno mal dosado, mata tanto quem serve quanto quem bebe.” Ela disse com sua calma de sempre.
Data: 12 de dezembro de 1373
Minhas mãos estão cobertas de calos, por conta dos exercícios. Mas minha visão vem se acostumando à escuridão, treinamos nossa furtividade todas as noites, deslizando por pedras, prendendo a respiração quando outros passam, caminhando pela catedral, onde o menor ruído significa falha, que significa punição. As punições não são nada comparadas ao próprio treinamento. Hoje eu tropecei na borda do tapete, uma hora inteira ajoelhada meditando no sal grosso como castigo. “Você aprende melhor através da dor”. A irmã Teodora disse, estou começando a acreditar nela.
Data: 17 de dezembro de 1373
A lógica é que deve governar, é o que dizem aqui dentro, mas a lógica não acalma a fome quando se fica três dias sem comer para testar a resistência, e muito menos a lógica tira o gosto de sangue da boca depois de se levar um soco no rosto. Hoje cada uma de nós enfrentamos um prisioneiro, um ladrão que foi capturado pela ordem. Deram a ele uma faca e nos jogaram numa cela, eu venci e ele não saiu vivo. Fiz tudo sem hesitar, irmã Teodora aprovou.
Data: 2 de janeiro de 1374
O primeiro mês chegou ao fim e ainda estou viva, aprendi a matar com eficiência, a envenenar sem que me notem, e esconder minha presença, mas irmã Teodora diz que ainda sou previsível, que eu penso demais. “Se você pensa demais no que deve fazer durante uma missão mais rápido você tem chance de morrer, você não deve pensar demais no que
aprendeu senão morre.” Sei que ela está certa, mas ainda me pego pensando em tudo que aprendi, mas o treinamento constante talvez um dia silencie isso.
Data: 17 de janeiro de 1374
A dor é uma companhia constante, o treinamento diário não dá aos músculos tempo para descansarem, então eu apenas protesto em silêncio, mas a minha mente e meu corpo estão começando a se ajustar ao treinamento. Agora quando caminho meus pés sabem onde devem pisar para evitar ruídos, quando respiro meus pulmões não se expandem além do necessário, e quando ataco, não penso demais, e consigo prever os movimentos do inimigo. Hoje nós treinamos envenenamento, fui apresentada a novas substâncias usadas pela Ordem, extratos de plantas, venenos de animais, misturas ainda desconhecidas para mim. Provei algumas sob supervisão, é claro, apenas o suficiente para sentir o efeito antes de receber o antídoto, fomos orientadas a tomar pequenas doses de alguns deles para criar resistência, mas a lição foi clara, nunca experimentar nada que não seja preparado por mim. Irmã Teodora me elogiou para logo depois chamar minha atenção. “Você aprende rápido, mas ainda pensa demais, um veneno hesita antes de agir?” Ela perguntou calma, mas não achei necessário responder. “Então você também não deveria”. Não hesitaria contra a vida de ninguém, mas depois que entrei para Ordem hesitar quanto se trata da minha vida se tornou o lógico a ser feito.
Data: 1 de fevereiro de 1374
Elas nos testaram hoje, nos colocaram em um salão gigantesco, e soltaram três irmãs veteranas para nos caçar. Não podíamos lutar ou sermos vistas, apenas desaparecer. Eu passei horas lá dentro, me movendo silenciosamente entre as colunas, prendendo a minha respiração, sendo um nada apenas. Uma das veteranas passou a centímetros de mim e não me notou, outra parou ao meu lado e seguiu seu caminho sem sentir a minha presença. No fim consegui sair do salão sozinha sem que elas me encontrassem. Quando sai irmã Teodora sorriu pela primeira vez desde que cheguei aqui, é isso foi melhor do que qualquer palavra de “sabedoria” que ela pudesse me dizer.
Data: 16 de fevereiro de 1374
A lógica governa, sim ela governa, mas o corpo tem seus limites. Nos fizeram dormir em celas de pedra sem cobertas, nos fizeram nadar em lagos gelados nos deixando horas até que nossas peles ficassem roxas. Era para nos ensinar controle, saber que a dor vem, mas que
precisamos dominar. Foquei em lembrar da minha vida antes da ordem e como estar aqui era muito melhor. Pensei em números, sequências, padrões, eles distraem minha mente. Sai do lago tremendo, mas de pé, outras nao aguentaram, elas falharam, eu não podia falhar eu não tinha mais nada além disso.
Data: 3 de março de 1374
Irmã Teodora me deu a minha primeira missão esta noite, acompanhada de uma veterana. Um homem que fala demais, que pergunta demais, que não compreende que algumas portas precisam permanecer trancadas. Ela me explicou onde encontrá-lo, o que eu deveria fazer, as regras e dogmas que eu deveria seguir. Me explicou tudo com calma e lógica fria, eu gosto disso nela, não há rodeios, não há sentimentalismos, quando se trata de missões. Aceitei a missão, não por ser meu dever, mas porque estava ansiosa para saber como seria dessa vez, se o aperto no peito, a antecipação, se seriam diferentes depois de entrar para a ordem, se com essa missão eu conseguiria enxergar o mundo mais nítido por mais tempo. Foi limpo e eficiente. Ele olhou para mim com aqueles olhos confusos arregalados, tentando entender, encontrar um sentido naquilo, sentido onde não havia. Dei um tempo a ele, às vezes acontece de eles terem um vislumbre, uma revelação de algo que justifique tudo, que explique o motivo daquilo, mas não dessa vez, nenhum motivo havia para ele. Irmã Teodora perguntou se sentia culpa ou algo parecido, apenas olhei para ela e dei um breve sorriso. Acho que ela não espera culpa de mim, apenas eficiência. Eu não sentia culpa ou medo, eu sentia paz.
Data: 18 de abril de 1374
Já se foram quatro meses, aqui dentro o tempo parece se dissolver. Às vezes não sei se é dia ou noite, só sei que estou melhorando. Agora consigo ficar pendurada por horas sem sentir dor, meus golpes são mais limpos, rápidos e fatais. Aprendi a matar uma pessoa antes que ela perceba minha presença, mas irmã Teodora disse que ainda falta algo. “Você entende do silêncio e da morte, mas ainda pensa como uma pessoa viva.” Perguntei o que ela queria dizer com isso e ela apenas sorriu, sinto que a resposta não será agradável.
Data: 2 de maio de 1374
Acordei em uma cela vazia, sem roupas, sem armas, sem comida, apenas escuridão. Fiquei lá por não sei quanto tempo. Sem saber se iriam me soltar, sem saber se era um teste ou se eu havia cometido algum erro. Eu sentia a fome me queimar, a sede me torturava aos poucos, e
eu murmurava para mim mesma que deveria aguentar que não poderia deixar elas me vencerem. Quando finalmente abriram a porta, a irmã Teodora estava à minha espera. Olhou para mim, me avaliou e então disse: “Agora sim, você entende e está pronta.” Eu não me curvei a necessidade, nem a vontade de desistir. Eu sobrevivi a isso e estava pronta para mais.
Data: 21 de junho de 1374
Hoje recebi meu novo nome, “Esse é o nome que a Senhora da Morte escolheu para você, não serás mais Lucila, ela morreu, hoje nasce Mara.” Me olhei no reflexo da lâmina que me entregaram, meu rosto era o mesmo, mas meus olhos não pertenciam mais à menina que entrou aqui há seis meses. Aceitei meu novo nome, afinal Lucila não teria sobrevivido, mas Mara sim. Agora sou uma irmã da ordem, sem nome real, apenas uma missão, com um passado sepultado, andando entre os vivos e os mortos, uma serva da morte e pela primeira vez, sinto uma paz e compreendo o significado de existir.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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17. Castelo Vampírico: O bem que eu quero, esse eu não faço; o mal que não quero, esse faço
07 de janeiro? - Fiquei olhando por um tempo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
07 de janeiro? - Fiquei olhando por um tempo, ela deitada em meio a pedaços de vários tamanhos do lampião quebrado e ela já não era aquela criatura assustada de alguns momentos atrás, estava diferente. Ela percebeu que eu a estava observando, mas continuou a montar o lampião bem concentrada em sua tarefa. Me levantei e fui me sentar na cadeira de frente a escrivaninha, cansada do dia de hoje, cansada de tanta coisa que eu ainda teria que fazer e pensar em fazer, e esperei até que ela terminasse, ouvindo os sons sutis que ela fazia. Logo depois, saiu debaixo da cama devagar, trazendo o lampião consigo completamente montado e se sentou no chão de pernas cruzadas, parecia já se sentir à vontade no quarto e na minha presença. Me olhou com aqueles olhos profundos e falou:
— Eu sinto que isso é sagrado, mas não me recordo o que seja, apenas senti que precisava consertá-lo. — sua boca não se mexia, ela tinha voltado a falar dentro da minha cabeça de novo.
Ela levantou o lampião, intacto, sem ranhuras ou partes faltando, e o estendeu em minha direção para que eu pegasse. Seus olhos não se mexiam ou piscavam enquanto me observava, peguei o lampião e eu não sabia se deveria agradecê-la pelo conserto, mas ela esperava por alguma coisa. A situação já era estranha o suficiente para que eu enrolasse demais e não fosse direto ao assunto.
— Escute, você quer eu abra o livro não é, para que suas memórias voltem? — eu disse logo.
Ela confirmou com a cabeça.
— Mas pensando agora, você já esteve junto do livro antes, lá no laboratório, por que não o abriu?
Ela desviou o olhar e me respondeu:
— Há algo nesse livro que me impede de tocá-lo. Só sei que, por mais que eu tente, ele me rejeita, por isso preciso que alguém faça isso por mim.
Sua fala me deixou com um pouco de suspeita. Que tipo de coisa seria tão específica para mantê-la longe do livro?
— Você vai abrir o livro? — ela perguntou sem emoção nenhuma.
— Vou, mas com uma condição. Tem algo que eu preciso fazer, eu vou abrir o livro e te ajudar a lembrar, mas você tem que prometer que vai me ajudar também.
— Eu prometo te ajudar — ela disse e eu queria acreditar que ela falava a verdade, pois não conseguia interpretar suas intenções.
— Ótimo, então vamos começar — respondi.
Virei a cadeira de frente à escrivaninha e peguei o livro por baixo de uns papéis que utilizei para escondê-lo, a criatura se levantou e ficou em pé atrás de mim, esperando o livro ser aberto. A sensação de ansiedade, a vontade de escondê-lo novamente e deixá-lo pra lá, voltou, mas abri o livro. Algo estranho vibrava dentro de mim, e eu não sabia definir o que era. As páginas do livro amareladas, desbotadas, letras e imagens que pareciam vivas, comecei a sentir um desconforto se formar, uma dor que latejava e dava um gosto metálico à minha boca. As palavras não faziam sentido, tudo estava embaralhado, mesmo que eu tentasse focar nas palavras, elas pareciam dançar à minha vista e eram impossíveis de serem entendidas ou lidas. Pude sentir a frustração crescer dentro de mim, me preparei tanto para abrir esse maldito livro e agora não podia compreendê-lo, eu estava irritada.
— Você consegue lê-lo? — a criatura perguntou.
— Não, as palavras mudam, se misturam, parecem não querer ser lidas. — eu disse frustrada, e parecia que falar isso em voz alta para a criatura parecia me irritar ainda mais. — Preciso pensar no que fazer, prometi que iria te ajudar a recuperar suas lembranças e vou encontrar um jeito de fazer isso. Só que quero parar por hoje, o dia foi cansativo e um pouco frustrante, amanhã eu resolvo isso.
A criatura concordou com um leve inclinar de cabeça. Eu estava cansada, frustrada e algo dentro de minhas entranhas se movimentava. Fui dormir e a criatura se sentou na cadeira na frente da escrivaninha com o olhar fixo no livro que ela também não conseguia ler, ficou assim por horas enquanto eu me deixava ser vencida pelo sono.
08 de janeiro? — Fui acordada bem cedo por um som estrondoso, parecia que viria um temporal. Sem demora fui ao encontro do professor Monm, levando o livro. Eu precisava da ajuda dele, então fui incomodá-lo mais uma vez. Fiquei feliz por encontrá-lo, sentado em meio a livros. Quando me viu entrar, não vi surpresa em seu olhar, parecia que já me esperava. Dei bom dia a ele que me respondeu com sua cordialidade de costume, sentei-me em uma cadeira à sua frente e dei a ele o livro.
— Então, esse é o livro que tem tirado o seu sono? — ele murmurou, passando a mão na capa de couro velha.
— Sim, eu tentei ler, mas as palavras se embolam. — disse, gesticulando ansiosa demais para me controlar.
O professor Monm abriu o livro e seu rosto ficou sério, concentrado. Os olhos correndo sobre as páginas. Então ele fechou o livro, olhou para mim e disse:
— Também não consigo lê-lo, Rute.
Eu fiquei irritada, eu sabia que não era culpa dele não conseguir ler o livro, mas acabei sendo hostil com o professor.
— Mas como? Você é o mais qualificado para isso, não é? — a irritação na minha voz me surpreendeu.
O professor esfregou o rosto e pude notar desconforto na sua expressão.
— Não é questão de ser ou não qualificado, o livro está protegido por alguma magia. Há duas forças agindo sobre esse livro, uma que a bloqueia para que seu conteúdo não seja compreendido e a outra é a alma de quem criou o livro, esta alma influencia o portador a manter o livro neste castelo.
— E como só de olhar para ele você consegue saber tudo isso? — disse confusa.
— Bom, não é a primeira vez que dou essa informação a alguém. — ele disse com um quase rir.
— Então o que pode ser feito? — eu disse respirando fundo e tentando manter a calma e já envergonhada por falar com o professor daquela forma grosseira.
— Talvez a criatura saiba a forma de desbloquear o livro, ela parece estar conectada a ele, talvez precisemos de magia para trazer suas memórias de volta, um ritual talvez? — ele disse isso olhando para criatura, parecia esperar uma reação dela.
— Um ritual? — eu disse aquilo quase sem acreditar que saía da minha boca, mas o que eu esperava agora senão mais coisas sobrenaturais fora do meu campo de experiência.
— Sim, um ritual, pode ser arriscado, já que não tem como prever a intenção da criatura, mas como você está tão convicta disso, acredito que vá querer arriscar? — ele me perguntou, mas parecia já saber a resposta.
— Sim, eu vou arriscar, mas quem realizaria esse ritual, não entendo nada de magia.
— A criatura é a única que tem uma real ligação com esse livro, se ela fizer esse ritual com você, talvez você consiga acessar as memórias dela e consiga desbloquear esse livro. — Monm disse.
Olhei para o livro e para a criatura, que ficou sentada em um canto da biblioteca apenas observando e esperando.
— Tudo bem, se é o que precisa ser feito, então vamos fazer. — me levantei já pegando o livro. O professor Monm concordou com a cabeça, sua expressão demonstrava preocupação.
— Eu posso te ajudar com isso sim, Rute, e encontrar alguém que faça o ritual, Ameritt talvez, se ela concordar, mas recomendo fortemente que espere, deixe que eu fale com ela, para saber se este é o momento propício para rituais.
— Mas por que preciso esperar? — falei me sentando de novo.
— Um fenômeno complexo vai se iniciar no castelo, Rute, o nemonium. E não tem como prever o que pode ocorrer se um ritual for iniciado durante esse fenômeno, consigo visualizar diversos resultados, mas não consigo prever com exatidão qual deles irá ocorrer. Ele é um lapso temporal, tudo fica fora de lugar, o castelo e tudo que há nele é levado para fora do seu limiar, tudo é realocado, fendas se abrem nas realidades infinitas dos multiversos e de todos os tempos e isso pode trazer seres desconhecidos. Então me ouça Rute, me deixe conversar com Ameritt primeiro, ela saberá o melhor a ser feito.
Professor Monm foi de encontro à Ameritt me deixando na biblioteca na companhia da criatura, sei que não deveria questionar a ajuda do professor Monm ou mesmo de Ameritt, mas às vezes penso se eles não teriam coisas melhores a fazer do que me ajudar nessas tarefas fora do comum. Alguns minutos depois ele voltou na companhia de Ameritt, o professor me disse que já havia explicado à Ameritt sobre o bloqueio do livro e da alma que estava nele. Ameritt então disse:
— Você sabe o que está pedindo, Rute-besin, entende o perigo disso?
— Sim, eu sei do nemonium. — respondi depressa — O professor Monm me explicou.
— Você entende que talvez o livro não possa ser lido? Que as lembranças da criatura podem não voltar, que se voltarem ela pode não ser o que você espera? E que a alma presa ao livro pode ser perigosa? Vai valer o risco?
— Só tem uma maneira de descobrir. — eu disse convicta. Ameritt me olhou por um tempo, me examinando. Parecia esperar que eu hesitasse, que eu desistisse da ideia.
— Eu farei o ritual, Rute-besin, não quero que sozinha você mexa com coisas que não entende, mas tenho algumas condições, você vai ouvir e fazer cada coisa que eu disser para ser feita.— sua voz estava calma, mas seu rosto tinha uma expressão dura. — Você concorda com as condições?
— Sim — concordei logo.
— Esse ritual de ligação é simples em teoria, porém bastante complexo na prática, isso vai requerer que você e a criatura se conectem mais profundamente, unindo a intenção de ambas, é bastante arriscado, Rute-besin, vocês vão estar vulneráveis a qualquer coisa. Você tem certeza de que quer continuar com isso?
Olhei para criatura e seu olhar não transmitia nada. Concordei com a cabeça.
— Então me siga, tenho um lugar perfeito para isso. — disse Ameritt, fazendo sinal para que seguíssemos ela.
Eu, a criatura e o professor fomos com ela até a estufa onde eu tinha encontrado o livro. Ameritt começou a pegar diversos itens em diferentes prateleiras, velas, sal grosso e ervas secas.
— Vou traçar um círculo de proteção, vocês ficarão dentro dele, esse círculo vai impedir que qualquer coisa entre ou saia do círculo. — ela disse isso enquanto organizava os materiais no chão. Ela colocou o livro no centro do círculo e explicou:
— Você precisa tocar o livro, então você será uma ponte para que as lembranças se revelem. A criatura irá te tocar, eu recitarei um encantamento que vai forçar o livro a revelar as lembranças para vocês.
Ameritt acendeu as velas ao redor do círculo de sal e ervas, murmurando palavras em uma língua que eu não entendia. O professor Monm, no canto perto da porta, estava calmo; verificando, de tempos em tempos, seu relógio de bolso. O ar começou a ficar mais denso, Ameritt pediu para que entrássemos dentro do círculo, eu me sentei, a criatura se ajoelhou na minha frente e o livro entre nós.
— Coloque suas mãos no livro, Rute-besin — ela ordenou, olhou para criatura. — E você toque nela.
Coloquei as mãos sobre o livro, sua capa fria e áspera, a criatura ajoelhada de frente a mim, estendeu as mãos e a pôs devagar sobre a minha cabeça. Ameritt começou a recitar o encantamento, sua voz ia ganhando ritmo e vibrava dentro daquele local, o livro começou a aquecer. Olhei para a criatura e seus olhos começaram a brilhar com uma luz dourada e intensa. Fechei meus olhos e senti algo dentro de mim ser puxado para fora, como se algo externo estivesse tentando fazer o que estivesse dentro de mim sair para que tomasse seu lugar.
— Concentre-se, Rute-besin, mantenha o controle. — gritou Ameritt.
Mantive meus olhos fechados e me concentrei na voz de Ameritt, me concentrei em trazer as memórias da criatura de volta. E de repente o mundo a minha volta desapareceu, minha mente se tornou vazia, apenas trevas e silêncio; depois sussurros, vozes, gritos de horror e lamentos. Mantive minhas mãos sobre o livro, e senti uma energia me atravessar como um soco no estomago, tão forte que parecia me ultrapassar. Minha mente foi preenchida de lembranças que não eram minhas, sons que iam aumentando de intensidade até se tornarem imagens bem vividas, florestas escuras, sangue, medo, morte, assassinato, um desejo incontrolável de fazer o mal, uma grande figura esculpida em pedra escura vestindo um manto negro. Eu sentia a criatura vibrar, suas mãos apertando minha cabeça, seus dedos entre meus cabelos pressionando e vibrando, eu ouvia palavras incompressíveis. As imagens pareciam ficar mais claras, eu via uma mulher correr para dentro de uma catedral imponente e escura.
As imagens ficaram mais rápidas, como se jogadas no meu cérebro uma atrás da outra, algumas rápidas demais para que eu pudesse acompanhar e guardá-las em minha mente. Eu via a mulher vestida de preto, vi sua alegria enquanto tirava a vida dos que cruzavam seu caminho, eu vi o livro, depois ela entrando no castelo Drácula, ela tirando a vida de outras criaturas com um olhar impassível. A última imagem era a mulher falando palavras que eu não conseguia entender e depois somente vazio, o nada. As imagens se dissiparam e finalmente eu consegui abrir meus olhos, olhei para criatura e seus olhos bem abertos brilhavam com uma luz azul muito forte que também saía de sua boca escancarada. A única coisa que eu conseguia sentir ao olhar para ela era medo e repulsa, me desvencilhei dela, me levantei e sai correndo, Ameritt continuou proferindo o encantamento e Monm, em vão, gritou para que eu continuasse dentro do círculo.
Corri para fugir daquela vontade de fazer o mal, e me vi dentro do castelo, a temperatura despencava com violência, e o frio que eu estava sentindo naquele momento era incômodo e devastador. Caminhei pelos corredores do castelo, me arrastando, eu estava perdida em lembranças que não eram minhas, pensamentos e vozes que eu não conseguia controlar. Os fragmentos de lembranças da criatura queimaram a minha mente, desesperança, desprezo, raiva, um vazio que eu não conseguia preencher, eu me sentia um nada, um sussurro sem uma origem, um ser sem forma, apenas uma vontade vazia de sentir. Pelas janelas do castelo eu via uma tempestade de neve a cada minuto ficar mais agressiva, junto com sons de trovões que pareciam fazer meu interior vibrar, escorada nas paredes do castelo eu conseguia sentir ele também vibrar.
Um trovão ressoou e o som da ventania parecia um lamento, eu sentia estar perdendo a sanidade, eu não conseguia me controlar e voltar ao ponto de equilíbrio dentro da minha cabeça. Os corredores pareciam ficar mais escuros e dentro de mim eu desejava que fosse a falta de iluminação e não um princípio de desmaio, a escuridão começou a ser tingida de uma azul acinzentado, ganhando cada vez mais intensidade. A cada corredor que eu passava para chegar ao meu quarto, comecei a observar que todos os quadros e espelhos estavam cobertos por um manto negro. Tudo parecia tão sufocante, tão odioso e desprezível! Um estrondo cortou o ar, que fez meu coração disparar, meu olhar foi atraído para um dos espelhos cobertos que estava à minha esquerda, parecia pulsar como um coração assustado, e eu juro que eu ouvi minha própria voz sussurrar dentro daquele espelho, as palavras no início não pareciam claras, o som da nevasca lá fora parecia impedir que eu entendesse, até que a voz aumentou e eu a ouvi soltar essas palavras:
“Você não suportou o sofrimento dela, não é? A infelicidade dela te fazia infeliz e você deu um fim a isso.”, “Você queria matá-la, você desejava isso tão profundamente que não conseguiu resistir ao impulso, não foi? E agora não consegue lidar com a culpa.”, “O amor sujo e indigno que ela tinha por você foi o que a enlouqueceu, você não soube lidar e deu fim a isso, não foi?”, “Você a fez pecar, prometendo que sempre estariam juntas, e agora ela está morta e você ficou feliz por isso, confesse!”
Eu não conseguia me afastar, e um impulso tão visceral quanto o desconforto que eu estava sentindo me fez ir até o espelho. “É apenas um espelho, não há nada lá.” eu disse pra mim mesma, tentando me convencer da lógica, tentando colocar a razão no controle. Eu ergui o manto e a criatura que apareceu no espelho era um pesadelo esculpido em carne, sua pele pálida e bastante esticada sobre seu corpo grande, veias pulsantes, olhos sem íris e retina. E o seu sorriso horrendo com dentes, muitos finos feito agulhas, que me fez congelar. Por uma questão de segundos, achei que aquilo era o meu reflexo, que o ritual, as lembranças, toda aquela confusão e ódio, tinha me transformado naquela criatura horrenda, e não nego que seria um castigo muito bem-merecido por todo mal, que naquele momento, eu estava desejando fazer. Aquele ser cheirou o ar em minha direção, ainda dentro do espelho. Joguei o espelho no chão, que ficou em pedaços, respirei aliviada apenas para logo depois sentir algo apertar meu calcanhar, o que me fez cair no chão com um som abafado e batendo minha cabeça na queda. Eu estava sendo puxada para dentro dos fragmentos do espelho por um braço longo, eu não tinha forças para me desprender, estava tonta e fraca, não tinha forças para lutar contra. Um brilho, então, azulado e muito forte, preencheu o local onde eu estava, fazendo a criatura do espelho guinchar e soltar meu calcanhar. Alguém tinha vindo em meu socorro.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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15. Jardim da Morte: Hadassa
Em uma sala de cinema que parecia saída dos anos 40, com lustres antigos que projetavam pouca luz nas paredes, um cheiro de pipoca…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Em uma sala de cinema que parecia saída dos anos 40, com lustres antigos que projetavam pouca luz nas paredes, um cheiro de pipoca velha que se misturava a um aroma adocicado que possivelmente vinha das figuras que ali entravam. As poltronas velhas de veludo vermelho, que rangiram sob o peso das duas figuras que ali se sentaram no centro, uma do lado da outra. A ceifadora dos que tiram a vida vestia um sobretudo escuro e um chapéu inclinado sobre um dos olhos, enquanto a ceifadora dos apaixonados usava um vestido preto justo, nos lábios um batom vermelho vibrante que contrastava com sua pele na cor de grafite acinzentado, cabelos bem pretos com leves ondas, segurava entre os dedos um cigarro que jamais seria aceso, como uma femme fatale saída de um filme noir. A ceifadora dos que tiram a vida ajeitou a gola de seu sobretudo, seus olhos brancos sem pupilas sob o chapéu de abas largas que lançava uma sombra em seu rosto cinzento, ela parecia deslocada ali, tentando fazer o seu papel, como se aquele tipo de análise fosse de menor gravidade em seu trabalho.
— Esse caso poderia ser resolvido com uma partida de xadrez — ela falou em tom seco.
— Poderia, mas estou testando outras abordagens, uma mistura de LARP com jogo de detetive. — respondeu a ceifadora dos apaixonados, com um sorriso enigmático. — E, aliás, você está perfeita no seu papel de detetive autodestrutivo.
A outra arqueou a sobrancelha.
— Você também está incrível, bem fatal se posso dizer.
Elas riram brevemente.
— Espero que seja direto, detesto enredos sem propósito. — murmurou a ceifadora dos que tiram a vida, cruzando as pernas.
— Calma, apenas assista e depois critique. — respondeu a ceifadora dos apaixonados, sem sair do personagem.
A pouca luz dos candelabros foi se extinguindo e a tela acendeu com um estalo iluminando a escuridão, um nome em letras grandes e brancas surgiu sobre uma imagem em preto e branco de um vaso de flores mortas.
HADASSA
O filme em preto e branco com uma trilha sonora de suspense se inicia, Hadassa em uma cozinha pouco iluminada, ela estava sozinha, esperando a água ferver em uma chaleira. Sentada, perdida em pensamentos, acariciava cicatrizes em seus pulsos. O chiado irritante a desperta de seus devaneios e ela volta a atenção à chaleira, se levanta e prepara o chá. A cena seguinte, ainda na cozinha, a câmera mostra um close do líquido quente sendo derramado na xícara. Uma narração começa suave, enquanto ela em silêncio volta à mesa, a voz de Hadassa ecoando pelos alto-falantes do cinema como se ela estivesse lendo algo:
“Muitas vezes o amor parece um abraço aconchegante, outras vezes, um peso que não conseguimos soltar.”
A narração pausa, Rute aparece na porta da cozinha, um vulto na escuridão, seu rosto calmo, mas sua postura inquieta e seus dedos rígidos no batente da porta, denunciavam sua ansiedade.
— Ainda acordada? — A voz era gentil, mas com uma nota de ansiedade. — E essa água no fogo? Ouvi o chiado da chaleira — ela apontou para a chaleira.
— É que eu fiz chá, para dormir melhor. — Hadassa olhou pensativa para xícara.
Rute foi caminhando até a mesa, seus passos abafados pelo tapete velho e olhou o líquido da xícara e depois para Hadassa.
— Esse chá você encontrou onde?
Hadassa hesitou.
— Uma amiga me recomendou. É natural, sabe?
O silêncio que se formou parecia pesado demais, Rute pegou uma colher.
— Posso experimentar?
Hadassa confirmou que sim com a cabeça. Rute mexeu o chá provando uma gota em seus lábios. Seus olhos ficaram sombrios por um instante, olhou Hadassa, e ficou em silêncio. Em sua cabeça uma lembrança se formou. Uma música mais tensa começa.
— Hadassa, cheguei, trouxe a torta que você pediu. — Rute entra pela porta da frente, com uma sacola na mão.
A câmera segue cada movimento seu, revelando o cansaço em seu rosto de um dia de trabalho exaustivo. Quando chega à sala, ela para de repente, os olhos arregalados, no chão ajoelhada, estava Hadassa, com mãos e roupas manchadas de sangue. Hadassa soluçava, o celular escorregando em sua mão.
— Rute, por favor... me ajude... eu quero conseguir morrer, mas eu não quero ir para o inferno.
Rute ficou paralisada por alguns segundos, mas logo seu instinto tomou o controle, pegou seu celular no bolso da calça e ligou para emergência enquanto procurava algo para estancar o sangramento. A câmera se move lentamente, e foca no rosto de Rute enquanto ela volta para onde Hadassa está, as duas se sentam no sofá, e Rute pressiona o pano no ferimento de Hadassa. Rute abraça a mulher ensanguentada, sua expressão é uma mistura de confusão e um medo avassalador.
Hadassa soluça, as palavras saem de sua boca como se fossem arrancadas.
— Desculpa, eu não queria isso, mas as vozes, elas não param, achei que assim eu teria paz, mas eu senti o inferno dentro de mim e desisti, eu só queria a paz que a morte traz.
A câmera volta para o rosto de Rute, ela fecha os olhos, as lágrimas correndo livre pelo seu rosto, segura Hadassa em seus braços como se pudesse protegê-la dela mesma. O som de batidas na porta preenche a cena, a ajuda havia chegado, mas a sensação de algo irreversível pairava sobre as duas. A cena é trocada, uma trilha sonora mais melancólica, outra cena do passado, Hadassa pegando um envelope pardo que continha algumas ervas, se desfaz do envelope no lixo da cozinha. Logo após, Rute era mostrada examinando o mesmo envelope, com as sobrancelhas franzidas, antes de escondê-lo em uma gaveta. As cenas seguintes eram fragmentos de uma rotina que se tornava cada vez mais comum. Rute agora preparava o chá todas as noites, e oferecia a Hadassa.
— Para sua insônia. — ela dizia, mas seu olhar a traía, talvez culpa ou preocupação, ou outro sentimento que não dava para ser nomeado ainda.
Hadassa parecia cada vez mais frágil, olheiras escurecidas, movimentos lentos, mas seu rosto exibia uma estranha paz. A cena muda, Hadassa em uma pequena sala de estar iluminada por uma lâmpada oscilante, o relógio marcando meia-noite e ela escrevia algo. A câmera focava em sua expressão cansada e em suas mãos trêmulas segurando a caneta. Uma narração se inicia com sua voz:
“Eu sei que você não queria isso, mas você fez o que era preciso. Agora, só espero que consiga conviver com isso...”
A cena é cortada antes que ela terminasse a narração. A próxima cena tomava um tom mais sombrio e a música se torna também mais sombria, Hadassa deitada na cama com o rosto pálido, Rute ao seu lado segurando sua mão. Uma narração com a voz de Hadassa se inicia:
“Você me amou o suficiente para me libertar, mas será que eu a fiz carregar algo que você não merecia?”
A câmera corta para Rute com uma expressão sombria, e então para uma visão de sua mão apertando o punho da xícara que Hadassa usara. A última cena do filme, a música melancólica mais lenta, Rute sentada sozinha à mesa da cozinha, a chaleira estava no fogão, mas vazia. Em suas mãos ela segurava a carta de Hadassa. A câmera se aproxima lentamente enquanto ela lê. A voz de Hadassa narra:
“Eu precisava que fosse você, precisava que fosse por amor, porque só por amor você faria uma escolha que eu não tive coragem de fazer, não lhe pedi nada, mas mesmo assim você me ajudou a encontrar a paz.”
Rute solta a carta, e encara a câmera, seu olhar perdido, seu rosto é uma mistura de dor e cansaço. Ela se levanta e sai andando para outro cômodo deixando a carta sobre a mesa e a câmera foca em uma xícara vazia.
FIM
A ceifadora dos apaixonados se inclina perto da outra ceifadora e sussurra:
— O que achou? Estou aberta às críticas. — disse a ceifadora dos apaixonados.
— Gostei, direto ao ponto. — falou a ceifadora dos que tiram a vida, descruzando as pernas.
— Poético, não acha? O amor transformado em arma, mas sem deixar claro quem das duas puxou o gatilho, romances trágicos sempre me comovem.
A ceifadora dos que tiram a vida deu uma risada seca seguida de um suspiro.
— Poético, não. Eu diria prático, alguém precisava decidir, e parece que Hadassa passou o fardo para Rute, não foi um romance, foi um crime — a ceifadora dos que tiram a vida falou ajeitando o chapéu. — A única pergunta é: quem segurava a arma?
— Ou talvez Rute sempre soubesse que seria o fardo dela. — a ceifadora dos apaixonados deu de ombros. — Hadassa não conseguiria nunca ir até o fim, ela tinha medo. — Ela suspirou e cruzou as pernas.
— Então ela manipulou Rute para alcançar o que queria? — A ceifadora dos que tiram a vida estreitou os olhos.
— Manipular? Não sei, ou apenas confiou que Rute faria, mesmo que não tenha dito uma só palavra. — A ceifadora dos apaixonados tocou o queixo e ficou pensativa. — Talvez Hadassa confiasse que o amor de Rute era maior que o medo que ambas tinham, ainda acredito que foi uma morte por amor. Quando mostrei uma cópia da carta de Hadassa para a ceifadora dos assassinados, ela também disse que era manipulação de Hadassa, por esse motivo ela não quis participar da análise do filme.
— Acho que a hipótese dela talvez esteja certa, Rute quem deu o golpe final, amor ou não, mas ela agiu influenciada por Hadassa.
— Rute sabia o que o chá continha, uma infusão sutil de uma planta tóxica, discreta o suficiente para passar despercebida. Hadassa havia comprado as folhas, mas foi Rute quem decidiu terminar a tarefa, irônico, não é? Evitar que Hadassa se matasse, matando-a lentamente. Ainda acredito que ela fez isso por amor.
— Rute não me parece uma mulher de meias medidas, quando Hadassa disse aquelas palavras, fez aquele pedido de ajuda, algo dentro dela clicou, ela amava Hadassa, mas amor às vezes também é controle, e controle pode ser fatal, então ela abriu mão do controle para que Hadassa pudesse ter paz. — A ceifadora dos que tiram a vida cruzou os braços e ficou pensativa. — Tem a chance de Rute apenas ter matado ela por amor dando o que Hadassa queria, mas também tem a chance de ela ter levado aquele pedido de ajuda ao pé da letra e agido, manipulada por Hadassa que já queria se matar. — parou de falar e ficou refletindo por um tempo. — Vamos deixar ela no jardim à espera até que possamos decidir. — disse a ceifadora dos que tiram a vida, rompendo o silêncio.
— E se nada for concluído? — perguntou a ceifadora dos apaixonados, olhando para a tela vazia.
— Então você ficará responsável por ela até que possamos decidir o que fazer.
— Sempre tão prática, não é? — A ceifadora dos apaixonados deu um sorriso debochado.
— Confio que você vai manter ela entretida, além disso você terá companhia por tempo indeterminado para seus jogos e talvez consiga com ela mais informações.
As duas levantaram juntas ainda discutindo o caso, deixando a sala de cinema na escuridão. A ceifadora dos apaixonados coloca o cigarro na boca, intocado, um movimento encenado, e dá uma risadinha, a outra ceifadora coloca as mãos nos bolsos do sobretudo, caminham em direção à saída, suas sombras projetadas na tela vazia. No fundo da sala, o projetor piscou uma última vez, mostrando o jardim onde Hadassa aguardava, envolta em névoas.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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14. Castelo Vampírico: Todo aquele que pede recebe; o que busca encontra; e, àquele que bate, a porta será aberta.
07 de Janeiro? - Fiquei paralisada ao vê-la, olhar para dentro…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
07 de Janeiro? - Fiquei paralisada ao vê-la, olhar para dentro dos seus olhos era como se perder em uma reflexão profunda, olhar para o mar a noite e sentir a sensação de paz, solitude e uma pitada de desamparo. Encarar de seus olhos me fazia sentir leves vertigens e uma profunda sensação de olhar para dentro de si e não encontrar respostas. Ela não me faria mal, isso me tranquilizava, o professor Monm já havia me dito que ela não faria, mas o que fazer agora? Afastei-me dela, ela também se afastou ficando encolhida no canto do quarto, como se estivesse perturbada. Sua voz, que eram muitas, ficavam falando uma por cima da outra como se alguém estivesse mexendo em um rádio procurando a estação certa. Imitava as vozes de Hadassa, a minha, a do homem que estava em meus sonhos e a do professor Monm. Era como se seu sistema tivesse entrado em curto e ela, em pânico, repetisse e repetisse tudo o que ouviu nos meus sonhos. Suas vozes não estavam mais dentro da minha mente, elas estavam saindo de sua boca, como um lamento, um choramingo estridente, a criatura parecia estar em pânico.
Ela estava tremendo e junto com as vozes emitia uma mistura de gemidos e sussurros estranhos que eu não conseguia compreender. Minha mente estava tão confusa por conta do pesadelo e desse despertar abrupto, que eu não sabia como reagir direito àquela situação. Aquela criatura parecia, de algum modo, ter sintonizado meus pesadelos e talvez isso explicasse seu pânico. Ela estava encolhida num canto, um emaranhado desajeitado se apertando na parede como se quisesse desaparecer. Meu primeiro pensamento foi fugir, mas algo em mim me impediu, acho que era curiosidade, eu não sabia o que fazer, o quarto parecia cada vez mais frio, eu não sabia se era o medo ou a criatura que estava provocando isso. Sem pensar demais, peguei uma coberta e joguei sobre ela, na hora os tremores da criatura pararam e o som que ela fazia foi se tornando um pouco mais baixo, mas ainda não era suficiente, minha presença no quarto parecia piorar a situação. Decidi correr para o professor Monm, talvez ele pudesse me ajudar, ele prometeu que viria hoje, eu apenas o faria vir mais cedo. O encontrei na biblioteca e expliquei a situação e minha voz oscilava entre o desespero e a urgência.
— Ela não me fez mal como você disse que não faria — falei com pressa — mas parece estar com medo e eu não sei o que fazer.
Ele não demonstrou surpresa, como se um evento como aquele fizesse parte de sua rotina. Pegou uns instrumentos estranhos dentro de um armário na biblioteca, uma lanterna, uma pequena ampola com um líquido âmbar e um caderno com capa de couro, e caminhamos juntos até o quarto. A criatura ainda estava lá coberta e agora parecia menos tensa, não tinha saído do lugar, nem se mexido. O professor se aproximou com cautela, a examinando com um olhar analítico. Se abaixou, se ajoelhando perto dela.
— Interessante — ele murmurou, levantou devagar a coberta, passando a lanterna, que possuía uma luz azulada, pelo corpo encurvado da criatura. A luz azul revelou cicatrizes e marcas que pareciam runas que pulsavam de leve, utilizou um instrumento em formato de “y” que parecia com um diapasão na cor de bronze com uma pequena pedra lilás no seu centro, ele tocou o diapasão com um outro objeto que parecia uma haste com uma bola na ponta, fiquei a espera de um som que não veio, mas a criatura pareceu vibrar de leve, depois ele colocou a ampola próxima ao rosto da criatura e um cheiro forte e adocicado, que me lembrava frutas vermelhas, se espalhou pelo quarto, e a criatura ergueu a cabeça. Seus olhos encontraram os meus e eu senti uma onda de emoção que não era minha; medo, gratidão, confusão? Eu não sabia ao certo a emoção exata.
— Ela se ligou a você — disse o professor, com um tom de fascínio. — De algum modo captou algo dentro de você. — Ele pegou o caderno de couro, abriu tirando um lápis do meio dele e fez algumas anotações, após isso se levantou e disse. — Preciso investigar isso, ela ficara aqui por enquanto, não irei tocá-la até ter certeza, e te recomendo o mesmo.
Passei o resto da manhã mantendo distância, sem perturbar, mas sem tirá-la de vista. O professor prometeu voltar mais tarde trazendo mais respostas, mas eu só conseguia pensar que cada resposta traria consigo mais perguntas e agora só me restava esperar. A noite chegou mais depressa do que eu esperava. Durante o dia, enquanto eu olhava a criatura, me lembrei de algo que eu havia protelado demais: o livro que eu tinha que abrir. Aquela criatura talvez estivesse conectada ao livro, eu trouxe o livro e o livro a trouxe aqui. Eu senti que o livro era perigoso desde o momento que o vi, mas a ideia de trazer Hadassa de volta parecia mais forte ao pensar nele e eu não conseguia evitar esse pensamento, sentia medo de continuar com a ideia mesmo que eu necessitasse muito colocar ela em prática. Esperei o professor voltar, e meio hesitante, decidi contar tudo sobre o livro e o que eu planejava fazer, carregar isso comigo parecia me sufocar, pois no fundo eu sabia que, se algo desse errado, eu precisaria de ajuda. Ele ouviu tudo em silêncio, com um pesar visível em seu olhar. Assim que terminei, esperei que ele fosse me repreender ou me convencer a desistir desse plano maluco, mas ele apenas suspirou.
— Eu entendo, Rute. — ele disse com sua voz calma e firme. — Entendo, talvez até mais do que você imagina, o que é querer trazer alguém de volta. E eu não vou repreendê-la e muito menos te impedir, mas você precisa entender algo, você chegou até aqui porque o castelo permitiu, encontrou o livro porque ele quis que você encontrasse. Tudo o que aconteceu foi uma combinação das suas escolhas e a permissão e vontade desse lugar. — Ele fez uma pausa, como se escolhesse com cuidado as palavras. — A partir daqui, qualquer coisa que vier será responsabilidade sua, o castelo te ofereceu todas as ferramentas, e você as aceitou, agora cabe a você decidir o que fazer com elas, mas recomendo cautela e muita reflexão, nada que este lugar oferece vem sem um preço.
Sua honestidade me desarmou, depois de ter dito o bastante para me fazer refletir muito antes de dormir, ele foi direto ao assunto em relação a criatura e suas pesquisas.
— Não precisei ir fundo demais em minhas pesquisas, como eu já suspeitava, essa criatura já foi um hóspede do castelo em algum momento, aquele local ao qual você me disse que encontrou o livro talvez fosse seu laboratório. Não posso confirmar com exatidão sua identidade, já que muitos fizeram uso daquele laboratório, só podemos esperar que ela se lembre de quem é. Eu a deixarei aqui com você, tenho outras coisas para resolver no momento, mas não deixe de me procurar se precisar de ajuda, mas acredito que ela não lhe causará problemas.
O professor Monm se foi e deixou a criatura ali, fiquei a olhar por alguns instantes e só conseguia pensar em como neste castelo nada nunca é simples, nem as escolhas e muito menos suas consequências. Os pensamentos me tomaram, as palavras do professor pesavam na minha mente, eu tinha revelado para ele meu plano maluco e agora eu precisava revelar à Ameritt. Era uma necessidade, depois dela ser tão boa comigo, sempre me ouvir e ser uma boa companhia, eu precisava confessar a ela tudo o que eu vinha omitindo em nossas conversas. Fui para o jardim e ela não estava lá, então tomei coragem e fui à casa de Ameritt, pelo menos eu imagino que seja dela, afastada do castelo bem aos fundos do jardim. Andei até os degraus de pedra, observando os musgos e rosa-trepadeiras na fachada da casa também de pedra. Subi os degraus e fui até a porta e me preparei para bater, ainda hesitante. Então aquele incômodo, que não sei explicar, se iniciou dentro de mim, aquele de quando acho que estou incomodando alguém. Bati uma vez e, antes que eu batesse uma segunda vez, a porta se abriu e Ameritt com um sorriso gentil me recebeu.
— Rute-besin, sabia que um dia você apareceria na minha porta. Vamos, entre, não fique aí parada, ou os besouros vão começar a cochichar sobre você. — ela riu baixinho.
Não conseguia não parar de olhar para os pés, eu estava envergonhada e odiava esse sentimento, Ameritt era uma pessoa agradável e eu já tinha criado um certo vínculo com ela, me sentir tímida na sua presença me irritava, talvez o que eu tinha para contar a ela fosse o motivo da minha vergonha.
— Eu…eu espero que não esteja incomodando, eu só achei que deveria vir. — Falei com voz baixa.
— Incomodando? Oras, Rute-besin, você acha mesmo que me incomoda receber visitas? Esses degraus aqui — ela apontou para os degraus desgastados — Já carregaram bem mais peso do que esses seus passos hesitantes.
— Eu não sei por que demorei tanto para vir te visitar, mesmo suspeitando que essa casa era a sua, preferia sempre te esperar aparecer no jardim. Não é nada pessoal, entende? É só que eu às vezes acho que posso incomodar entrando no espaço pessoal de alguém.
— Ah, bobagem, a natureza nunca se incomoda com visitas, se o visitante vem em paz. Tudo encontra seu espaço no tempo certo e hoje é o seu tempo. — ela tocou meu braço de leve me conduzindo a entrar na sua casa.
Entrei olhando ao redor da casa, fascinada com aquele lugar que era tão Ameritt quanto possível. No interior da casa tudo parecia acolhedor como ela, a temperatura era morna, com um calor que vinha da lareira de pedra da sala de estar, decorada com vasos de flores e ervas. O cheiro era uma mistura de ervas, terra úmida e um odor amadeirado sutil. Talvez vindo da sopa que Ameritt sempre preparava. As paredes da sala eram cheias de estantes de madeira escura com alguns poucos frascos etiquetados com um caligrafia cuidadosa: “Óleo de lavanda”, “Besouro Agrilus triturado”, “Óleo de jasmim”, “Funghi seco” e outros que não conseguia enxergar a etiqueta. Havia livros antigos com lombadas desbotadas, herbologia, botânica, entomologia, fitoterapia, enciclopédia das ervas mágicas, muitos livros relacionados a plantas, insetos, fungos e magia. O teto da casa era baixo, sustentado por vigas de madeira grossa de onde estavam suspensos vasos de plantas, como samambaias, jiboia, peperomia e lambari roxo, em alguns cantos, no chão, havia mais plantas, espadas de São Jorge, comigo-ninguém-pode, cactos e outras tantas plantas que eu não conseguia identificar. O chão era de pedra, coberto por tapetes antigos, mas que ainda mantinham suas cores vibrantes. Amortecia os passos e parecia ter uma textura agradável para pisar descalço. Espalhados pela casa, havia móveis antigos de uma madeira bem escura: duas poltronas de veludo verde-musgo com almofadas estampadas de flores, uma mesa baixa de centro e, à frente, um sofá de três lugares, também verde-musgo, com almofadas florais combinando.
— É bonito aqui, tem cheiro de ervas e terra molhada. — respirei profundamente para conseguir guardar o cheiro daquele lar em minha memória.
— Claro que tem — ela disse rindo — Essa casa é teimosa como eu, está sempre cheirando à vida, mesmo que seja a uma vida peculiar. Agora sente naquela poltrona, eu vou preparar um chá e não adianta dizer que não quer, porque a água já está no fogo.
— Você é boa nisso, não é? Em fazer as pessoas se sentirem bem. — A pergunta saiu dos meus lábios sem motivo.
— Não sei te dizer se é talento ou prática que vem com a idade, passo tanto tempo conversando e cuidando de plantas e besouros que, quando aparece uma pessoa, parece fácil. — Ela sorriu para mim e logo saiu para pegar o chá.
Um besouro verde-esmeralda estava parado na mesa de centro me fazendo companhia enquanto Ameritt estava fazendo o chá. A casa parecia exalar segurança, conforto, mistério, algo nos seus objetos, seu cheiro, seus habitantes, pareciam querer contar uma boa história, algo que talvez Ameritt um dia estivesse disposta a compartilhar. Após alguns minutos, ela voltou com uma bandeja com chás e biscoitos, deixou na mesinha à nossa frente e se sentou.
— Pois bem, enquanto toma seu chá, me diga, o que a trouxe até aqui? Problemas para dormir? Tédio? Ou um besouro sussurrando em seu ouvido que era hora? Ou só queria me ver mesmo? — ela riu e tomou um gole de chá.
— Talvez um pouco de cada e uma confissão a fazer, algo que eu não sabia como dizer. — Segurei a xícara com as duas mãos sentindo o cheiro e o vapor do chá.
— Ah, não precisa dizer nada se não quiser, só aparecer aqui é o bastante. Agora tome o chá e não se preocupe com nada. Aliás, você não é um incômodo aqui, é uma visita esperada e sempre bem-vinda.
Respirei fundo, tomei um gole de chá, coloquei a xícara sobre a mesa e despejei nela a minha confissão, toda a verdade sobre o livro, sobre meu plano maluco de trazer Hadassa de volta, sobre a criatura que talvez tenha sido atraída pelo livro. Falei como me sentia culpada de não ter revelado tudo para ela antes, depois de ela ter sido boa comigo. Ela me ouviu em silêncio e, quando terminei, foi minha vez de ficar em silêncio e esperar sua reação, mas tudo o que ela fez foi sorrir de leve e segurar minhas mãos nas suas.
— Oh, Rute-besin, já vi tantas coisas terríveis sendo feitas nesse castelo e também coisas boas. — sua voz estava tranquila — O que está planejando fazer, seja bom ou mal, não me surpreende, mas ouça bem, pense muito antes de agir. E qualquer que seja sua decisão, não hesite em me procurar para pedir ajuda.
As palavras de Ameritt sempre me trazem conforto. Junto com seus chás de ervas e, agora, o aroma acolhedor de sua casa, pela primeira vez me fizeram sentir que eu não precisava justificar minhas escolhas ou o motivo de estar ali. Senti alívio, mas também fiquei mais ciente do peso que minhas decisões teriam a partir de agora. Aproveitei para pedir que Ameritt ajudasse a criatura, que ainda parecia assustada, e pedi um de seus chás calmantes ou algo que pudesse ajudar. Ela concordou e insistiu em levar o chá à criatura. Então, me pediu que fosse para o quarto, prometendo que, após preparar o chá, logo viria.
Voltei para o quarto, sentei-me e fiquei observando a criatura, que ainda tremia levemente, enquanto esperava Ameritt. Quando ela chegou, a reação da criatura foi imediata. Ao vê-la, a criatura se acalmou, como se a reconhecesse. Ameritt se sentou ao lado dela, oferecendo o chá com todo cuidado. Murmurava palavras que eu não conseguia entender, o que só aumentava minha curiosidade. A criatura, que antes me causava desconforto, agora parecia vulnerável. Quando Ameritt foi embora, ela permaneceu imóvel, com o olhar fixo em algo debaixo da cama, como se visse algo que eu não podia enxergar. Não sentia mais medo, apenas curiosidade. Ao observá-la, não pude evitar compará-la a um animal abandonado que sofreu nas ruas ou a uma espécie rara e ainda não catalogada. No entanto, logo me esforcei para afastar esses pensamentos. Ela era mais do que isso. E, com o pouco conhecimento que eu tinha, sabia que não poderia compreender o que ela realmente era.
Decidi sair para espairecer e dar à criatura um pouco mais de tempo sozinha.
Caminhei pelos jardins do castelo por horas, sentindo o cheiro das flores, o vento sobre a minha pele, o silêncio. Apesar de tudo, a presença do castelo era constante, eu o senti me observar, à espera do meu próximo passo. Pensar nele como algo consciente não era mais absurdo, talvez ele sentisse que assim que eu voltasse ao quarto, a decisão que eu vinha adiando por tempo demais estaria tomada: era hora de abrir o livro, eu já havia protelado demais, pensado demais, temido demais. Eu não tinha mais o que perder, pois o que mais me importava já tinha sido perdido e eu agora só estava tentando recuperar. Ao retornar ao quarto, encontrei o espaço onde a criatura estava, vazio, ela não estava mais lá, apenas a coberta jogada no canto. Meu coração começou a acelerar, o professor pediu que eu ficasse de olho nela, e agora ela não estava mais aqui. Ouvi um som sutil vindo debaixo da cama, abaixei bem devagar e a encontrei lá, deitada, segurando pedaços de um velho lampião. Reconheci o objeto de imediato, era o mesmo que usei para atacar o monstro que me feriu no antebraço. A criatura estava concentrada juntando pedaço por pedaço do lampião quebrado.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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13. Castelo Vampírico: A ti foram reveladas muitas coisas, que ultrapassam o alcance do espírito
05 de janeiro? – Decidida a não atender à vontade da criatura…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
05 de janeiro? – Decidida a não atender à vontade da criatura, fechei a cortina e me preparei para dormir. Levantei-me umas três vezes para espiar a criatura pela cortina, e ela continuava lá, sentada no peitoril, encarando o horizonte laranja. A abóbora, como Ameritt havia recomendado, permanecia no lugar. Apenas a cortina nos separava. Mesmo que um incômodo insistisse em se mover por minhas entranhas, preferi confiar que a presença da abóbora dada por Ameritt pudesse me proteger. Então, deixei o cansaço me vencer depois de horas de vigilância inútil.
06 de janeiro? – Despertei, e a primeira coisa que fiz foi verificar se a criatura permanecia na janela. E lá estava ela, admirando o horizonte, como se não tivesse mudado de posição em momento algum. A cena era sublime. Mesmo que um pouco assustadora, havia algo belo na forma como ela contemplava tudo à sua frente. Não perdi muito tempo e fui logo ao encontro de Ameritt. Estava ansiosa para compartilhar com ela o ocorrido. Lá estava ela, colhendo cogumelos, e me recebeu com um sorriso, ouvindo-me com paciência enquanto eu falava sobre a criatura e apontava para a janela do meu quarto, para que ela pudesse vê-la.
Quando terminei de falar sobre a criatura, omitindo o livro, ela riu baixinho enquanto olhava para cima, protegendo os olhos da luz da manhã:
— Há coisas nesse castelo, minha querida Rute-besin, que ultrapassam qualquer entendimento que possamos ter. Para certas respostas, talvez você deva procurar o professor Monm. Talvez ele tenha o conhecimento sobre isso que eu não tenho. Ele pode parecer meio estranho, perdido em pensamentos às vezes, mas sabe exatamente onde está.
Então, com seu jeito peculiar, ao qual eu já havia me acostumado, ela voltou a colher os cogumelos, como se aquilo que eu havia contado fosse apenas mais um dia comum, algo trivial do castelo. Depois da conversa com Ameritt, decidi procurar o professor Monm. Nunca o tinha visto, não sabia sua aparência, mas me recordava um pouco de onde ficava sua sala de aula. Lembro-me do encontro impactante que tive com seus alunos depois de ser perseguida por uma criatura assustadora ao voltar de Séttimor.
Fui àquela sala, mas estava vazia, assim como todas as outras ao redor. Aparentemente, o professor não é uma figura fácil de se encontrar pelos corredores do castelo. Ainda assim, estou aliviada por o castelo, às vezes, conspirar para que certos encontros aconteçam. Quando já sentia vontade de desistir da procura, encontrei-o no corredor. E, junto dele, encontrei a biblioteca que já havia visitado na outra versão do castelo, no dia do baile de máscaras. Um alívio duplo, se posso dizer.
Ele estava parado à porta da biblioteca, como se estivesse à minha espera. Era um homem alto, de pele escura, cabelos e barba bem aparados, muito bem-vestido, com um blazer e uma calça de tweed em um verde bem escuro. Por dentro do blazer, usava uma camisa muito branca e segurava um relógio de bolso.
— Conseguiu o que precisava? — perguntou ele assim que o vi, com um sorriso sutil.
Fiquei confusa a ponto de olhar para trás, procurando algum de seus alunos que pudesse estar vindo atrás de mim.
— Consegui o quê? — perguntei, sem entender.
— Ah, sim, perdão — murmurou ele, como se falasse mais consigo mesmo do que comigo. — Isso ainda não aconteceu.
O comentário me perturbou, mas decidi ignorá-lo. Ameritt havia me prevenido de que o professor poderia parecer meio estranho, então foquei na razão que me levou a procurá-lo. Apresentei-me e disse que Ameritt tinha recomendado procurá-lo para sanar uma dúvida minha. Ao ouvir o nome de Ameritt, ele abriu um grande sorriso e me convidou a entrar na biblioteca e nos sentarmos.
Quebrando meu constrangimento e minha timidez iniciais, fui direto ao assunto. Expliquei a ele sobre o estranho visitante sentado no peitoril da minha janela e mencionei brevemente o livro que havia encontrado. Não revelei muito e omiti o motivo real que me levou a guardar o livro comigo. Ele escutou em silêncio, paciente, esperando que eu terminasse. Respirou fundo, juntou as mãos e, depois de alguns instantes, começou a falar:
— As criaturas desse castelo... Sim, elas nem sempre são simples visões ou espíritos. Algumas, como talvez essa que você descreveu, são fragmentos do castelo: lembranças, reflexos da própria arquitetura deste lugar. Esse castelo tem sua própria memória.
Ele parou, pensativo, e me olhou com intensidade.
— Esse livro que você encontrou talvez também seja uma memória. Cada objeto, cada criatura nesse lugar é um fragmento da memória do castelo. E aquelas que ainda não são, um dia serão. Acredito que essa criatura não irá lhe fazer mal. Se fosse assim, já teria feito. Prometo que irei verificar isso mais a fundo amanhã.
Senti um arrepio com as palavras do professor. Elas não me ofereciam respostas diretas. Ele parecia saber mais do que estava disposto a compartilhar, mas suas palavras me faziam sentir o castelo mais vivo. Depois disso, perguntei a ele se poderia usar a biblioteca para algumas pesquisas que precisava realizar e se ele estaria disponível para tirar eventuais dúvidas. Ele pareceu se animar com o assunto e começou a falar sobre as mentes curiosas que já havia conhecido no castelo, sobre como pessoas movidas pela necessidade de conhecimento o extasiavam.
Não havia dúvidas de que Monm era um ótimo professor. A forma como falava, como se encantava pelo conhecimento e pela partilha de saberes, era maravilhosa. Eu poderia ficar ouvindo-o por horas — e foi o que fiz. Enquanto conversávamos, por um breve momento em que olhei em seus olhos, senti como se algo neles revelasse uma dor antiga. Era uma sensação estranha. Sempre fui péssima em entender sentimentos alheios, mas consegui captar um fragmento de dor, uma dor semelhante à minha, só que amplificada, como se a minha perda fosse apenas uma sombra da dor que Monm vivenciara.
Nunca imaginei que um dia poderia reconhecer em outra pessoa algo tão próximo do que eu sinto. Eu, que antes de fazer parte do castelo duvidava de tudo o que fugisse do alcance da minha lógica, encontrei-me diante de alguém com quem talvez compartilhe uma espécie de luto silencioso. Olhando para ele, o peso que carrego pareceu tornar-se mais claro. Por um momento, pensei em perguntar o que realmente o consumia e se era mesmo luto, talvez até compartilhar um pouco da minha própria história. Mas, assim como eu, ele parecia ter aprendido a manter a dor guardada, protegida dos olhares dos outros.
Quando seus olhos perderam aquela sombra estranha, ele continuou a falar como se nada tivesse acontecido. Afinal, no castelo, talvez seja fácil perder-se — não apenas nos corredores e salas, mas também dentro de si mesmo. Monm e eu, cada um à sua forma, somos habitantes desse labirinto.
07 de janeiro? – Nunca imaginei que, sendo hóspede do castelo, poderia conhecer tantos lugares diferentes como o que conheci à noite. Ontem à tarde, ao retornar ao meu quarto e perceber que a criatura ainda estava no peitoril, senti uma estranha vontade de apenas deixar para lá. Então, fiquei escrevendo até que o sono se tornasse difícil de vencer. Fui para a cama e me entreguei a ele sem resistência, deixando as palavras que ainda poderiam ser escritas soltas na minha mente.
Assim que fechei os olhos, logo os abri e me vi em um lugar que não poderia chamar de sonho. Não era o castelo, e infelizmente também não era a Vila de Séttimor. Era como se eu estivesse em um espaço que escapava a qualquer definição lógica. Não consigo explicar com palavras exatas a sensação que me preenchia.
Ao meu redor, flutuavam algumas bolhas que refletiam lembranças — algumas minhas, outras familiares, porém nubladas. Caminhei em meio a uma névoa lilás, com um perfume sutil de lavanda. Ao tocar minha pele, essa névoa parecia refrescar-me e, aos poucos, suspender minhas sensações.
Logo à frente, havia um homem alto, de pele escura e cabelos e barba muito brancos. Seus olhos, de um branco translúcido, não possuíam íris nem pupilas. Ele usava vestes semelhantes às de um monge, todas brancas, e segurava uma chave. Parecia estar à minha espera.
— Venha. — Ele disse como um sussurro. — É-me ordenado guiar-te para o sonho daquele que teu coração anseia.
E meu coração ansiava, mas eu não tinha certeza de por quem ou pelo quê. Eu o segui por entre um campo de lavandas na direção de uma bela porta de madeira escura adornada de heras. Era apenas uma porta, sem nada: sem uma construção, paredes, nada que eu pudesse entrar. Ele a abriu, e me vi de frente a uma bolha, do tamanho de uma bola de basquete, onde havia uma lembrança. As nuvens que a cobriam se dissiparam, e vi o professor Monm. Ele segurava um relicário com firmeza, mas havia tristeza em seu rosto.
— Éramos… inseparáveis… — murmurou Monm. Sua voz parecia estar distante, cada palavra carregada de dor. — Mas, o tempo… em seu esplendor e perfeição… — Ele olhou para o relicário em suas mãos. — Tornou-se minha obsessão… pois… eu não podia… eu não podia perdê-la…
A imagem dele ali, perdido em sua própria dor, era como olhar para um espelho daquilo que também me feriu por dentro. Amor, culpa, desespero, tudo isso me tomou de maneira violenta: a dor semelhante, o eco suave do que eu sinto por Hadassa. A lembrança dela encheu minha mente, e logo fui sugada para um cenário diferente. Comecei a sentir demais, senti uma vertigem e percebi que algo estava errado. Comecei a ouvir sussurros, vários deles, numa língua que eu não conseguia identificar.
Me vi sozinha, de frente a um grande portão escuro, com criaturas aladas me observando com olhos profundos. O portão se abriu, e fui levada através dele sem ter escolha. Eu queria recuar, acordar, mas estava sendo levada, atraída, indo além de sabe-se-lá-o-quê. Uma grande bolha escura veio até mim, fui tragada por ela, e arrastada para uma das minhas piores memórias. Eu estava como uma observadora: me vi parada, sem reação, olhando para Hadassa. Ela segurava o celular com mãos trêmulas, suas mãos e roupas ensanguentadas. Ela estava chorando e me implorando para ajudá-la.
— Rute, me ajude, eu não quero ir para o inferno. Me ajude, por favor, eu quero morrer, mas não quero ir para o inferno. — Ela gritava enquanto abraçava a minha versão da lembrança, que começou a chorar junto com ela, sem saber o que fazer.
As palavras dela ainda me atormentam quando me distraio e deixo meus pensamentos irem. Comecei a sentir meu coração bater mais depressa, minha respiração estava ofegante. Senti como se uma carga elétrica fluísse por minhas veias e vasos. Queria que aquela lembrança parasse, eu não queria vivenciar aquela cena novamente. Me debati, gritei, mas parecia inútil. Eu não queria sentir tudo aquilo de novo, eu só queria sair dali.
Acordei com um sobressalto, e lá estava a criatura da janela, me sacudindo. Mais próxima que antes, próxima demais. De algum modo, ela havia atravessado a proteção da abóbora de Ameritt e agora me olhava com aqueles olhos que pareciam enxergar através de mim.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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12. Castelo Vampírico: Não sabeis o que acontecerá amanhã
Finalmente comecei a ter boas noites de sono; fazia tempo que eu não dormia bem. Os chás que tomei com Ameritt…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
04 de janeiro? - Finalmente comecei a ter boas noites de sono; fazia tempo que eu não dormia bem. Os chás que tomei com Ameritt estavam fazendo o bem prometido por ela. Cheguei até a sonhar, e, na maioria deles, eu me via sentada à escrivaninha à frente da janela, lendo o livro e fazendo anotações. Sentia-me distante de mim mesma e, ao mesmo tempo, ligada ao livro. Voltei à rotina habitual no castelo, à qual eu já havia me acostumado, agora que meus nervos pareciam ter se acalmado. Via sempre o livro sobre a mesa, apenas esperando para ser lido, e ia em sua direção. Lembrava do seu peso, de sua textura, tão próxima à minha pele quando o coloquei por baixo da blusa para protegê-lo da chuva. Às vezes, meus dedos quase o tocavam enquanto eu estava perdida em pensamentos, mas logo sentia um frio percorrer minha espinha e recuava. Respirava fundo e sussurrava “Hoje não” para mim mesma; algo dentro de mim dizia que eu não estava pronta. Então, coloquei alguns papéis sobre o livro para que eu não ficasse olhando para ele a todo momento.
A manhã trouxe uma mudança na atmosfera do exterior do castelo; a chuva havia cessado, deixando um clima mais ameno. Olhei pela janela, vi o jardim e me senti disposta a fazer mais uma visita a Ameritt — isso se tornara rotineiro. Antes de sair do quarto, passei a pomada em minha ferida, como eu havia prometido a ela. Meus dias e minhas noites no castelo pareciam estar voltando aos eixos: dormia bem, acordava disposta, visitava Ameritt. Ficávamos conversando sobre entomologia, botânica, qualquer assunto relacionado às ciências da natureza, e me permiti ouvi-la falar sobre misticismo, esoterismo, alquimia e todas as pseudociências possíveis. Eu não estava mais num mundo onde a razão fazia sentido; depois de tudo que passei no castelo, presenciar algo e tentar explicar tudo apenas com fatos faria minha mente colapsar. Eu tinha que entender que não estava mais no “Kansas” e, como Dorothy, deveria apenas aceitar esse caminho e continuar na estrada sombria dos tijolos amarelos.
Ameritt me fazia experimentar diversos chás e me mostrou ervas que cresciam somente no castelo, além de me explicar o efeito de cada uma no corpo humano, oferecendo-me somente aquelas que pudessem me acalmar, nunca me dopar. Explicou-me o significado de besin, e fiquei surpresa ao saber que era uma palavra do idioma dos Séttimôros, um povo pelo qual passei a ter certa afeição; a palavra significava "besouro". Depois da visita, voltava para o quarto e focava na escrita. Os dias iam ficando mais calmos, mais rotineiros. Vez ou outra, eu me lembrava do livro, mas logo voltava minha atenção ao que eu estava fazendo. O ambiente ao redor do castelo parecia se tingir de um tom laranja: as folhas nas árvores, o céu da manhã, abóboras em profusão cresciam no jardim, cogumelos em tons de laranja e outros terrosos. Tudo tinha uma tonalidade vibrante, e à noite, com uma lua laranja contrastando com o céu escuro.
Tudo fora do castelo e dentro de mim aparentava outono, simulava uma lenta mudança, mas eu sabia que não era totalmente assim. O castelo parecia despertar para uma nova fase, mais viva e inquietante, como se estivesse sendo alimentado de forma constante, com muito mais inspiração. Eu esperava que fosse assim dentro de mim também; sentia algo diferente no ar e dentro de mim, de forma que despertava meus sentidos. Como uma comichão que eu sentia por todo o meu corpo e me fazia sentar em frente à escrivaninha e apenas escrever todas as imagens, sons e palavras que vinham em abundância à minha mente. Era como se o castelo me desafiasse a apenas aproveitar essa atmosfera peculiar para pôr as ideias que borbulhavam em minha cabeça no papel. Então, me deixei levar, e, como se inspirada divinamente, eu escrevi até altas horas.
05 de janeiro? - Acordei um pouco mais tarde que o habitual, fui até o jardim, e me encontrei mais uma vez com Ameritt, curvada sobre uma fileira de cogumelos em tons terrosos, tão belos, parecendo pequenos guarda-chuvas, que ela colhia com cuidado. O aroma da terra úmida e da vegetação se espalhava ao redor; era tão agradável estar naquele jardim. Ameritt sorriu quando me viu, e senti aquele calor confortável no peito, o que sentimos ao ver alguém a quem temos grande afeto.
— Rute-besin, parece que o castelo te deixou dormir um pouco mais esta noite — disse ela com sua voz carinhosa de sempre, embora com um leve traço de inquietação.
— Não exatamente, fui bem tarde para a cama. Passei a noite escrevendo — respondi, admirando aquele horizonte alaranjado. — Este lugar parece estar mais cheio de vida, como uma entidade bem alimentada, não é?
Ameritt soltou um riso suave, que tirou minha atenção do horizonte. Olhei para ela, e seus olhos brilhavam, como já era habitual, pois aquele era o momento em que ela compartilharia mais conhecimento comigo.
— Rute-besin, esse castelo é vivo, como você já sabe. Isso é por causa da estação Aborom, a meia estação primavera-verão. Bem, é a época em que tudo se intensifica. Veja as abóboras e esses cogumelos; é essa magia que não se pode nomear que os mantém tão vibrantes nessa época. E há as criaturas da noite, que, em época de Aborom, podem ser hostis, especialmente quando a lua negrume surge no firmamento laranjim. Elas despertam em cólera, parecem famintas; creio que sejam morbidades criadas pelo caráter próprio deste lugar.
Ela se ajoelhou perto de um grupo de cogumelos, colhendo alguns com cuidado.
— Esses são Obomitas — disse, apontando para pequenos guarda-chuvas de uma tonalidade alaranjada. — Em noites como esta, eles podem ser perigosos se manipulados sem o devido cuidado. — Ela se pôs de pé e foi andando em direção a grandes abóboras de um laranja vibrante. — Essas abóboras são venenosas, mas com elas se pode produzir elixires perturbadores, dependendo do uso.
Caminhou até outras abóboras, apontando para elas.
— Essas são especiais; além de produzirem doces e tortas maravilhosos, servem para proteção também. Esse provérbio, você já ouviu? — Ela começou a recitar de maneira quase ritualística: — “Quando estiverdes em vossos aposentos, mantenham as fenestras aldravadas e ponham uma vela de abóbora-doce à porta, no chão. Pois eles se erguerão de seus túmulos e mancharão vossos umbrais com macabros infortúnios, caso não sejam expulsos pela trêmula luz aromantada.”
Balancei a cabeça, indicando que não conhecia o provérbio. As palavras pararam entre nós, cheias de advertência.
— As noites de Aborom trazem mais do que mudanças na atmosfera do castelo e na vegetação, Rute-besin. Há uma passagem belíssima de um pergaminho antigo, escrito por uma poetisa murmura: “Ouça o cântico das almas, nesta noite de lua negrume; ouça-o no manto do horror, almas que buscam vingança, paixão e dulcíferas frutas de meia-estação.” Terrivelmente belo, não é?
Um calafrio percorreu meu corpo enquanto ela recitava aquela bela passagem, e olhei para ela, confusa.
— Acho que não estou pronta para enfrentar o que o castelo tem para revelar nessa época. Dessa vez vou seguir as regras e ficarei dentro do meu quarto, escrevendo — confessei, com um ligeiro medo na voz.
Ela sorriu, com aquele sorriso quase maternal.
— Ninguém nunca está, Rute-besin, porém o castelo tem a sua maneira de preparar os que vivem sob seu teto. Então, descanse, besin, cuide de sua mente. Quando estiver pronta, você saberá. E, quando isso acontecer, bem… espero que você esteja disposta a enfrentar o que encontrar.
O fim da tarde se aproximava, e nuvens laranjas pairavam sobre nós como um manto. Olhei para Ameritt me observando. Por mais perturbador que esse lugar fosse, algo em mim estava irremediavelmente ligado a ele; talvez minha alma, a qual nunca acreditei existir, agora fosse parte do castelo. A questão era: o que ele esperava de mim, além da escrita?
— A senhora acha que devo ficar trancada no quarto? — perguntei.
— Só se for da sua vontade — respondeu ela, enquanto colhia alguns Obomitas. — Mas, para se proteger, recomendo que leve aquela abóbora que separei para você. Coloque-a na porta do seu quarto ou na janela; ela deve ser iluminada por dentro com esta vela — disse, mostrando-me uma vela de um laranja claro. — Isso afastará os que se levantam de seus túmulos, espíritos inquietos e todas as criaturas que não desejam nada além de manchar os umbrais dos vivos de infortúnios. Eles são atraídos por este lugar nessa época de Aborom, por vingança, paixão ou até mesmo por um pouco de consolo ou companhia. Se sentirem sua presença, poderão tentar se aproximar, especialmente se perceberem que está mexendo com algo que os afeta.
Essas palavras ecoaram em mim, e logo a imagem do livro que encontrei se formou em minha mente. Eu ainda não havia mencionado o livro a Ameritt, mas sentia que ela sabia sobre ele. O peso de seu conteúdo, ainda não revelado, parecia dobrar meus ombros. Após uma agradável conversa acompanhada de chá, voltei ao meu quarto. Seguindo a recomendação de Ameritt, coloquei uma vela dentro da abóbora e a pus sobre o parapeito da janela. Tranquei a porta e as janelas e me sentei para escrever. Enquanto escrevia, sentia-me inspirada a rascunhar algumas poesias. Fazia tempo que não tentava nada. Talvez o que me faltava fosse motivação, ou talvez uma boa noite de sono. As palavras fluíam com tanta facilidade, que era como se o próprio castelo estivesse ditando as palavras exatas que eu deveria escrever. Estava tão absorta na escrita que não percebi o som suave que veio da janela.
Foi um bater suave, dado três vezes, bem distinto. Levantei devagar meus olhos do papel e fui surpreendida. Do lado de fora, pressionado contra o vidro, havia algo ou alguém. Seu rosto era indefinido, sem traços, olhos escuros e vazios olhando através da janela e de mim. Sua pele, de um branco translúcido, era lisa, sem marcas ou qualquer coisa que definisse seu gênero. Dedos longos e finos, rosto anguloso, sem qualquer expressão; sem sobrancelhas, cílios ou cabelos, apenas o vazio liso. Os lábios finos, quase invisíveis, não se moviam. Seu corpo, alto e magro, apesar de translúcido, parecia denso, e o espaço ao redor dele parecia se curvar ligeiramente. Sua voz, quando falava, estava dentro da minha mente, como um sussurro dobrado.
— Você pegou o livro — sua voz soava como se duas pessoas falassem ao mesmo tempo.
Paralisada e sentindo calafrios percorrerem o meu corpo, apertei a caneta com força, sem saber se deveria responder ou correr.
— O livro… — repetiu a criatura, estendendo um dedo por trás da vidraça em direção ao livro. — Por favor, abra-o.
Falava sem emoção, mas sua voz parecia repuxar minhas entranhas. Levantei-me e dei um passo para trás, sem tirar os olhos da criatura. Olhei para onde o livro estava, coberto de papéis, mas eu ainda assim o sentia, como algo à espreita.
— Se você o abrir — a voz da criatura vibrava em minha mente —, eu poderei descansar, ou talvez, me lembrar. Por favor, abra o livro — sua voz estava mais alta em minha cabeça.
— O que é você? — perguntei, olhando aqueles olhos vazios.
— Um nome esquecido — murmurou, sua voz reverberando como uma onda dentro da minha cabeça. — Mas o livro guarda o que resta de mim. Ele deve ser lido para que eu me lembre.
— Mas e se isso for perigoso? — perguntei.
— Todo conhecimento o é, mas a ignorância também não? Por favor, eu só preciso lembrar — a voz voltou a ecoar em minha cabeça.
Suspirei e tentei me acalmar. Não podia ceder a uma criatura desconhecida. Talvez amanhã, pensei, talvez quando eu estivesse mais preparada. Hoje, eu só poderia prometer à criatura que aguardava do outro lado do vidro:
— Eu vou pensar sobre isso — falei.
A criatura pareceu entender. Sentou-se no peitoril da janela, enquanto a abóbora continuava a iluminar com sua luz trêmula. A criatura, ou o que quer que fosse, parecia estar à espera.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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11. Castelo Vampírico: Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
01 de janeiro? — Acordei num sobressalto e com a respiração pesada. O silêncio incômodo era apenas interrompido pelas batidas frenéticas do meu coração, eu estava de volta ao meu quarto. Meus olhos percorreram o aposento à procura de qualquer coisa que indicasse perigo, parecia que a criatura que feriu meu braço não estava mais lá. Meu braço esquerdo latejava, olhei para ele e percebi que estava envolto com novos curativos. Quem teria feito isso? A última lembrança que eu tinha era uma raiva tremenda e minha ferida sangrando, depois disso apenas escuridão. Levantei me sentindo zonza e vi meus óculos sobre a mesa ao lado do meu diário. Não sei como ele ainda sobrevive a tantas quedas e desmaios. Coloquei os óculos e olhei pela janela e o dia estava bonito, e eu não sentia mais aquela vontade de me esconder dentro daquele quarto. Queria ir para fora sentir o calor do sol no meu rosto. Decidi que esse momento seria ótimo para explorar e fui para aquele jardim que estive no dia da grande lua, onde avistei Hadassa.
Fui de encontro ao jardim e senti um aroma de terra molhada, ervas e algo mais que não pude identificar, isso me atraiu. Então me deparei com um canteiro de rosas muito vermelhas, cheguei perto delas para sentir seu cheiro e era tão pungente, toquei devagar suas pétalas aveludadas e parecia que uma lembrança ia se formar em meu cérebro. Até que, um pouco mais além desse canteiro, pude perceber lírios prateados e lírios vermelhos feito aranhas mexendo suas pétalas de forma suave, como aqueles que eu havia visto no vale dos settimôros. Esse pensamento me trouxe aquela solidão incomoda, interrompendo uma lembrança sobre as rosas que tardou a se formar. Caminhei um pouco mais apreciando a luz do sol que iluminava agora aquele jardim. As estátuas de anjos e damas esculpidas em mármores não passavam mais aquela melancolia de antes. Agora pareciam contemplar a profusão de vida naquele jardim. Um pouco mais a frente havia uma figura curvada sobre um canteiro, era uma senhora idosa de cabelos grisalhos presos em um coque frouxo e alguns fios rebeldes escapando aqui e ali, suas mãos mexiam nas flores de maneira delicada. Parei, e já ia refazer o meu caminho para não a incomodar.
— Ah, Rute-besin, não tenha medo. — Ela falou sem nem se virar, como se me esperasse. — Venha e sente-se, está com cara de quem não dorme bem há tempos. Venha, tome um chá comigo.
Havia uma mesa de madeira com duas cadeiras perto do canteiro onde ela se encontrava. Sentei-me, relutante, à mesa; havia um bule e duas xícaras de cerâmica marrom com formas desenhadas em diversos tons de verde. Dali emanava parte daquele cheiro de ervas que me atraiu ao jardim. Eu estava intrigada por ela saber meu nome.
— Nós nos conhecemos? — Falei em dúvida enquanto apreciava aquele aroma que parecia me acalentar. Ela se levantou, caminhou devagar e se sentou à minha frente, sua aparência era amável. Sua pele branca marcada pelo tempo e levemente avermelhada por longas horas sob o sol. Vestia o que parecia ser uma túnica preta com pequenas flores vermelhas bordadas no busto. Um colar com um grande pingente dourado e uma pedra vermelha em seu centro e brincos com belas gotas negras.
— Oh, não pessoalmente, mas eu a conheço, Rute-besin, sei que gosta de violetas, rosas, orquídeas, lírios, dálias... — Ela contava nos dedos enquanto falava. — E observar a fauna e a flora. Ah! Você possui uma orquídea roxa, que eu cultivei também. Espero que você esteja cuidando bem dela.
Me lembrei da orquídea que apareceu em meu quarto depois do meu primeiro encontro com Drácula. Me perdi em pensamentos me lembrando daquele momento e do cheiro de rosas que Drácula possuía, o mesmo presente nas rosas do jardim. Ah! Era essa a lembrança que queria se formar. Senti um formigamento em meu braço ferido, que me trouxe de volta ao momento, e o levantei para olhar. Vi um belo besouro de um verde-esmeralda que eu nunca havia visto. Não é como se eu conhecesse todos os tipos de insetos existentes, mesmo tendo um apreço especial por insetos, mas esse besouro específico não parecia fazer parte de nenhuma fauna que eu conhecesse. Eu estava fascinada por aquele exoesqueleto brilhoso, ouso dizer que quase hipnotizada com seu andar lento sobre a minha ferida. Ele me lembrava os besouros da família Buprestidae, só que o brilho deles costuma ser metálico, esse possuía uma luminosidade que parecia emanar de dentro dele, de uma beleza única.
— Oh, então é aí que você estava, Alyric-besin. Venha minha criança arteira. Já falei para você tomar cuidado por onde anda. — Ela retirou com delicadeza o besouro do meu braço, se levantou e o colocou com carinho no meio de algumas flores no jardim. — Ah, crianças, é uma pena que cresçam tão rápido e logo se vão. — Essas últimas palavras dela foram ditas com um certo pesar na voz. — Ela voltou à mesa e se sentou à minha frente. — Alyric-besin parece ter se afeiçoado a você, minhas crianças se sentem bem perto daqueles que os respeitam. — Enquanto falava serviu o chá quente com mãos cuidadosas. O cheiro se espalhou e era tão bom, respirei profundamente e assim encontrei de onde vinham aqueles cheiros que eu não sabia descrever muito bem, vinham do chá e da senhora a minha frente.
— Tome, isso vai te ajudar, besin. Foi feito com uma planta que só cresce aqui, nas terras do castelo. Cura até as feridas da alma, é o que dizem. Talvez te ajude a ter uma boa noite de sono hoje. E a propósito meu nome é Ameritt. — Disse ela com o mesmo tom doce que usou para falar com o besouro.
— Obrigada. E… prazer em conhecê-la. É... qual espé… — E lá estava eu de novo tropeçando em palavras, tentando formular uma pergunta. Inspirei e expirei, enquanto Ameritt, me olhava com paciência. — É…qual é a espécie daquele besouro?
— É um Agrilus Eridahem. Essa espécie é endêmica do Castelo. Você só a encontrará aqui, são ótimos polinizadores, além de serem criaturinhas divertidas de se conversar. — Ela deu uma boa gargalhada ao dizer isso. — Excelentes companhias também. Vamos, beba seu chá, juro que ele irá te ajudar.
Concordei com um aceno de cabeça, e inalei o vapor do chá antes de beber, o cheiro era muito bom e o seu calor parecia espantar o desânimo que me dominava. Bebi o chá e senti aquele sabor terroso e com um amargor suave, equilibrado com um toque de doçura e algo picante. Não importava o quanto eu tentasse, não conseguia identificar o sabor ou compará-lo a qualquer outro. O chá descia pela minha garganta, um calor aconchegante, como se me acariciasse por dentro, soltando todos os nós nas minhas entranhas. Ouvia Ameritt falar com um tom doce, quase que maternal, dos besouros que estavam sob seus cuidados. “Minhas crianças” ela dizia orgulhosa, detalhando tudo que elas faziam por ela e o que ela fazia por suas crianças. Que suas crianças conheciam todos os lugares do Castelo e cada hóspede nele. Falava sobre sua anatomia, sobre as plantas que eles mais gostavam de polinizar. Disse o quanto ficava triste por suas vidas serem tão curtas. E que depois de mortos fazia uma bela sopa de funghi com os besouros. Eu estava fascinada com a forma que ela falava sobre eles e ficaria a ouvindo por horas. Até que ela falou sobre comê-los, e percebeu meu semblante de dúvida.
— Não, Rute-besin, eu não os mato, nunca. Apenas os como quando já se foram. Eles possuem propriedades mágicas, me alimentar deles é como ter um pouco deles dentro de mim. — Ela me olhou com um sorriso de pesar, e acenei com a cabeça para ela saber que eu compreendia. — Acabei me estendendo demais, quando começo a falar das minhas crianças acabo me empolgando um pouco. — Fez uma pausa e levantou com delicadeza sua xícara enquanto me olhava e tomou um gole do seu chá. — E você Rute-besin, tem algo a dizer? Você está muito tensa e abatida.
De alguma forma aquele chá parecia ter não só soltado os nós das minhas entranhas, mas também a minha língua, pois quando dei por mim, eu já havia confessado mais do que pretendia.
— Bem... Meu corpo anda cansado de sentir. Tenho tentado voltar à razão, mas estou cansada de pensar nela e ficar triste com isso. Tenho suspeitado que o castelo talvez tenha algo a ver com essa vontade de ir além do pensamento usual, da razão, da mesmice. Me sinto compelida a experimentar de tudo, provar hipóteses, fazer parte de experimentos. Como um…— Parei para respirar tentando encontrar as palavras. — Como um animal de teste, receptivo a qualquer experiência que me ofereçam. — Não conseguia segurar as lágrimas, comecei a chorar na presença de Ameritt, sem me preocupar se o que eu dizia faria sentido a ela ou não. Me envergonho de chorar na frente de outros, mas ultimamente tem sido difícil segurar qualquer sentimento dentro de mim. Ela assentiu em silêncio, os olhos fixos nos meus enquanto eu continuava.
— E pensar que, desde que cheguei ao castelo, o explorei com terrível medo. Agora, me exponho a ele com curiosidade, sem cautela, procurando uma resposta que nem sei se eu realmente quero. — Comecei a gesticular de maneira incontrolável enquanto falava. — Todos esses sentimentos plantados, tão bem cuidados e nascidos por causa dela, todos cultivados, para no fim não valerem de nada, já que ela, a pessoa para quem cultivei tudo isso, não está mais aqui.
Ameritt ficou em silêncio por um momento, depois colocou uma das mãos enrugadas sobre a minha, seu toque era leve e reconfortante. Reparei numa aliança grossa de ouro, de aparência bem antiga em sua mão esquerda.
— Rute-besin, o luto é uma planta teimosa. Ele se agarra ao solo mais árido, mas o que você está sentindo não é apenas luto. Você sabe, o castelo tem uma vida própria, ele mexe com a mente e com o coração. Talvez ele esteja tentando te mostrar algo que você ainda não entendeu. Algo além do luto, além da razão. Espere aqui. — Ela se levantou e caminhou para além de onde minha visão alcançava, demorou alguns minutos. Minutos esses que aproveitei para me recompor e enxugar as lágrimas. E logo ela apareceu, com uma tigela de barro e uma colher de madeira em uma mão e um pequeno pote de vidro em outra.
— Tenho algo para seu braço e para seu estômago. Para o caso de você continuar explorando hoje. — Colocou a tigela na mesa e olhou para mim como se pedisse minha permissão, pegou a pomada dentro do pequeno pote e a aplicou em meu braço com movimentos delicados, quase como se estivesse cuidando de uma planta ferida. O cheiro das ervas me acalmou e a pomada parecia diminuir aquele latejar insistente.
— Esse castelo é uma entidade viva, Rute-besin. — Ela falava com uma voz baixa e suave. — Ele sente, ele responde. E ele tem segredos que nem mesmo eu, em todos os meus anos aqui, consegui desvendar. Mas uma coisa é certa, ele nos muda. E talvez, só talvez, ele esteja te preparando para algo maior do que seu luto. Algo que pode, de alguma forma, trazer um tipo de paz que você ainda não encontrou. Ou a resposta para uma certa questão que te perturba.
Suas palavras pareciam me consolar. Algo além do luto, da razão, e talvez até da culpa. Ainda não sabia muito bem o que pensar, mesmo que eu sentisse o conforto com suas palavras naquele momento, eu ainda teria que refletir mais sobre aquilo.
— Passe essa pomada duas vezes ao dia e ela vai sarar sua ferida. — Ela falou me dando o pequeno pote de vidro que coloquei no bolso da calça. — Arylic-besin disse que ela está infeccionando, então precisa de cuidados. Tome a sopa, ela também irá ajudar na cicatrização.
Tomei a sopa devagar, sua textura cremosa. Seu sabor, assim como o chá, terroso, era como lamber o solo úmido de uma floresta. Não que eu tivesse lambido um, mas se tivesse esse talvez seria o sabor. O cheiro da sopa era como o de dias de chuvas em meio a natureza, só que ao invés de ter um cheiro fresco, ele era quente e reconfortante. Senti algo com a minha língua, os besouros, é claro. Mastiguei devagar, segurando a vontade de cuspir. Percebi Ameritt me olhando como se me analisasse. Senti a crocância do exoesqueleto, e para minha surpresa era bom, um sabor amadeirado com um leve amargor, me lembrava nozes. A sensação era de ter a natureza descendo para dentro de mim. Se assentado no meu corpo, se espalhando por meus nervos e músculos, me enchendo de vitalidade. Fluindo como um rio e repousando no jardim que parecia crescer em minhas entranhas. Terminei a sopa, Ameritt percebendo logo se levantou, pegou a tigela e a levou. Me levantei e fiquei em pé perto da mesa esperando sua volta. Ela voltou e logo me preparei para me despedir.
— Sim, sim! É hora de você ir. E eu entendo. — Ela não me deu nem a chance de formular uma despedida, o que é o básico para se viver em sociedade, mas que às vezes é difícil para mim. — Rute-besin! Me prometa que vai voltar de novo e que vai tratar essas suas feridas. Nós vamos adorar a sua presença aqui mais vezes. — Ela segurou minhas mãos entre as suas, e de pé, perto de mim, pude perceber o quanto ela parecia frágil e pequena, mas seus olhos, de um azul acinzentado, diziam ao contrário. Sorri para ela.
— Eu prometo que voltarei, e… obrigada pelo chá, a sopa…Ah! e a pomada também. — Disse sem saber mais o que acrescentar a esse péssimo agradecimento. Me sentia uma criança tímida perto dela. Soltei suas mãos e sai andando em direção ao castelo. Voltei para Ameritt para mais uma pergunta.
— Para onde devo ir para talvez… — Novamente estava tentando encontrar as palavras. — Encontrar o que preciso? — Disse receosa.
— Se você seguir para além desse jardim, bem ao fundo, talvez você encontre o que precisa no centro naquela floresta. — Ela se virou e apontou para além de algumas árvores altas bem distante de onde estamos. — Tenha cuidado, minha criança, com o que pode encontrar lá.
Agradeci e segui o caminho apontado por ela. Olhei para trás quando já havia alcançado alguma distância. E ela já havia voltado aos seus afazeres no jardim. Depois de me despedir de Ameritt me percebi inquieta, ansiosa para explorar o que mais tivesse para ser explorado. Enquanto caminhava pude observar como aquele jardim era bem cuidado. E a diversidade de flora que tinha nele. Se eu tivesse ficado lá e observado mais tempo, talvez também me surpreenderia com a fauna. Diversas estátuas de tamanhos diferentes espalhadas por diversas áreas do jardim e bem ao longe um grande chafariz, talvez de pedra, adornado pelo que parecia pequenos anjos, jorrava incessante uma água límpida. No ápice do chafariz havia uma escultura do que parecia também um grande anjo que transparecia certa introspecção. Talvez eu o veja mais de perto no futuro.
Antes de entrar na floresta, vi que à minha esquerda havia um velho cemitério. A natureza parecia ter tomado conta daquele espaço, uma profusão de verde cobrindo o chão daquele terreno. Lápides antigas, algumas inclinadas, outras afundadas no solo, envoltas por trepadeiras e musgos que se agarravam às pedras desgastadas. Um belo mausoléu de pedra também envolto por musgo e rosa-trepadeiras, mas bem cuidado. Me senti tentada a seguir em direção a ele. Na minha direita, mais ao fundo do jardim, que agora eu estava saindo, tinha uma pequena casa de pedra. Rosas-trepadeiras, em tons de um vermelho profundo e outras em um rosa suave, entrelaçam-se pelas paredes de pedra, subindo ao longo das paredes, emoldurando a casa. Na entrada principal uma pequena escada de pedra que levava ao portal da casa. Os degraus desgastados pelo tempo, ladeados por mais rosas-trepadeiras. A porta com um arco de pedra que parecia me convidar. As janelas altas e abobadadas se estendiam do chão até o teto. O jardim ao redor da casa tinha caminhos sinuosos de pedras e canteiros cheios de flores. Se tivesse que adivinhar, coisa que não tenho o hábito, eu diria que aquela é a casa da Ameritt.
Eu tinha que seguir em frente, para a floresta, esses lugares poderiam ser investigados outra hora. Andei um longo caminho no meio daquelas densas árvores e encontrei um arco de pedra em ruínas, envolto com trepadeiras e heras. No passado talvez tenha sido a entrada de uma pequena casa, mas agora era só ruínas. Havia um alçapão no chão de pedra, levantei a portinhola e olhei para a abertura. Uma luz bem fraca me fez enxergar uma escada. Inspirei e expirei, devagar comecei a descer. Me deparei com um portão de ouro velho, com um lampião que emitia uma luz fraca. Borboletas delicadas na cor de marfim, repousavam na superfície dourada. Como se tivessem guardando aquele portão velho por eras, talvez. Empurrei o portão devagar, para não assustar as borboletas. O portão cedeu com um gemido baixo. As borboletas permaneceram, fizeram apenas leves movimentos, desafiando qualquer explicação lógica que eu poderia encontrar para explicar aquele comportamento incomum.
Passei por aquele portão, e para minha surpresa, encontrei uma biblioteca. Ah! Eu estava feliz, até que enfim uma biblioteca. O dia de hoje parecia estar bom demais para ser real e eu iria aproveitá-lo antes que eu, ou algo fora do meu controle, estragasse ele. A biblioteca estava envolta em relva e vegetação, era como se a natureza tivesse tomado aquele lugar para si mesma. O teto era de vidro, que permitia a entrada de uma luz difusa, que penetrava com dificuldade uma espessa camada de musgo e folhas que cobriam tudo. Eu estava dentro de uma estufa, sendo que desci por uma entrada subterrânea. A explicação lógica seria uma estufa subterrânea, escavada a vários metros abaixo da terra, com apenas o teto de vidro para a entrada da luz solar, que construção fascinante. Havia prateleiras com dezenas de livros empilhados, muitas delas estavam inclinadas pelo peso dos livros e talvez também por conta da umidade. Uma coleção de livros de biologia, alquimia, matemática, história e esoterismo. A pessoa dona dessa coleção talvez estivesse buscando respostas além da ciência e da magia conhecida.
Conforme avançava, contemplando todos os títulos ali presentes, percebi alguns sinais no centro daquela estufa. Círculos desenhados no chão, agora cobertos de musgo e relva, velas derretidas. Em algumas prateleiras havia recipientes de vidro com substâncias que possuíam um brilho estranho. Quem quer que fosse a pessoa que utilizava esse lugar, tinha interesses bem peculiares. Segui mais adiante, e havia três portas, cada uma afastada uma da outra, quase que escondidas por camadas de musgo. Abri a primeira porta, e fui recebida por uma enxurrada de cheiros, ervas secas, enxofre, umidade e um leve cheiro de metal. Uma grande mesa de madeira maciça, havia um equipamento de destilação montado, com tubos e vidros sinuosos, conectados a alambiques, retortas e balões. Havia uma prateleira com diversas vidrarias, tubos e frascos. Havia sinais de, talvez, experimentos falhos, fragmentos de vidro quebrados, cobertos de ervas e manchas estranhas. Um almofariz com um pilão jogado a um canto da mesa, ao lado de uma balança e uma ampulheta. Ervas secas penduradas no teto. E, em um canto mais afastado da mesa, um forno. Eu me encontrava em um velho e abandonado laboratório.
Sai dali e fui investigar as outras portas. A segunda porta resistiu às minhas tentativas de abri-la. Lancei meu corpo com força sobre ela, que finalmente cedeu. Entrei naquela sala escura e úmida, musgo e cogumelos cobriam tudo naquela sala, livros, móveis e quadros. Exceto um único livro fechado em um pedestal de pedra. Sua capa de um couro envelhecido muito escuro, quase preto, com finas ranhuras, bordas reforçadas com metal. As páginas amareladas que eu podia observar pelas bordas, o livro parecia estar em bom estado — levando em consideração tudo naquela sala. Me aproximei, hesitante, e o toquei e sua textura era áspera. Gravado na capa, finas linhas que se espalham, se emaranhado, formando um símbolo que não tem início nem fim. Abri o livro e folheei algumas páginas e o que eu pude enxergar, com a pouca luz que entrava pela porta, fez irradiar do meu peito aquele formigar que me tira o sossego. Desenhos de criaturas que desafiavam a lógica, sua anatomia e anotações que eu não compreendia. Símbolos alquímicos, ciência e magia misturados entre rabiscos e ilustrações. Me forçar a compreendê-las fazia com que eu me sentisse à beira de um ataque de pânico.
Fechei o livro com as mãos trêmulas e sorri comigo mesma, apesar do desconforto. Parecia que eu havia encontrado o que eu estava procurando. Fui até a terceira e última porta que abriu com facilidade, tinha muita umidade. As paredes e teto cobertos de musgo verde escuro, o chão tomado por um tapete de cogumelos de diversas cores, alguns até luminescentes. Todos espalhados em cada canto, outros também nas paredes, fazendo com que eu não conseguisse definir o que esse lugar poderia ter sido. Aquele cheiro forte de madeira em decomposição e umidade que alimentava os musgos e os cogumelos. Fechei a porta e voltei à segunda sala, hesitei, mas peguei o livro. Eu tinha que levar ele comigo. O som inesperado da chuva forte batendo no teto da estufa me alarmou. Batidas rápidas que logo aumentaram e ficaram intensas, gotas explodindo contra o vidro com violência, pareciam fazer o vidro vibrar. Coloquei o livro por baixo da camiseta e me preparei para enfrentar a chuva.
Corri em disparada até o castelo, entrei e, mesmo já protegida da chuva, continuei correndo até chegar no quarto. Entrei, coloquei o livro na escrivaninha e tirei as roupas molhadas e as estirei em uma cadeira. Tomei um banho demorado, pois estava protelando para voltar para o quarto e encarar aquele livro. Saí e fiquei sentada na beirada da cama olhando para o livro. Pensei em Ameritt, com seu chá e seus besouros, quase como um sonho, se comparado com o que eu estava prestes a fazer. O castelo havia explorado os meus segredos, e agora eu estava começando a explorar ainda mais os seus. E talvez agora não houvesse mais volta.
Leia mais em: As Crônicas do Castelo Drácula:
10. Jardim da Morte: Na paz que a morte traz
O jardim estava envolto em uma tranquilidade quase palpável, o ar estava fresco e carregado do aroma que as flores exalavam. A mulher, que a cada dia trazia...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O jardim estava envolto em uma tranquilidade quase palpável, o ar estava fresco e carregado do aroma que as flores exalavam. A mulher, que a cada dia trazia mais vida àquele jardim e que agora se sentia em casa ali mais do que se sentira em vida, contemplava suas rosas negras. Foi então que a ceifadora apareceu, como sempre fazia, sem aviso, apenas emergindo das sombras com um sorriso misterioso nos lábios. Ela trazia consigo uma pequena cesta de vime, com diversas mudas ainda frescas.
— Trouxe algo para você. — Disse a ceifadora entregando a cesta à mulher.
Os olhos da mulher brilharam ao ver as mudas, não conseguiu segurar tamanha felicidade e sorriu. E isso se tornara mais comum agora. Ela olhou e não reconheceu algumas das flores, com folhas que eram de um verde profundo, e outras com pétalas de um vermelho sangue tão vibrantes.
— Onde você conseguiu essas belezas? — Perguntou curiosa.
— Com a jardineira do Castelo Drácula. — Respondeu a ceifadora com um leve aceno de cabeça. — Ela me deve alguns favores.
— Alguém nesse castelo não te deve algum favor? — Perguntou a mulher rindo.
— Escuta moça, o que posso fazer se sou uma pessoa muito requisitada. — Ela respondeu usando uma certa afetação na voz. — As pessoas me pedem favores, dessa forma me devem favores, simples.
— Entendi. — A mulher disse ainda rindo.
Sem perder tempo, a mulher se ajoelhou na terra macia e escolheu com cuidado os lugares onde plantar cada muda. Movia as mãos com delicadeza, plantando cada nova vida que ela iria cultivar naquele solo incomum. Enquanto trabalhava no jardim, a ceifadora ficou em silêncio, a observando, até que a mulher quebrou o silêncio, falando com suavidade.
— Sabe, eu encontrei paz no ócio. — Começou ela, seus olhos ainda fixos na terra enquanto plantava outra muda. — Mesmo que, de vez em quando, eu esteja aqui, no jardim cuidando das plantas, eu não vejo isso como um trabalho, não como via antes, em vida.
A ceifadora continuou em silêncio, esperando que a mulher continuasse.
— Antes de tudo isso. — Disse a mulher, se referindo a sua vida passada. — Eu tinha uma vida agitada. Não conseguia parar, eu precisava estar sempre fazendo algo, sempre produzindo. Parar para descansar era perigoso, porque se eu parasse, começava a ouvir minha própria voz na minha cabeça. — Ela fez uma pausa, sua expressão se tornou distante por um momento, como se estivesse revivendo memórias que havia tempo não visitava.
— Essa voz… — Parou tentando encontrar as palavras certas. — Ela insistia em me lembrar do quão sem propósito minha vida era, do quanto eu estava errada por ter virado as costas a Deus e à minha família por amor. Eu nunca me sentia como se estivesse fazendo o suficiente. Nunca.
A ceifadora escutava tudo com atenção, mas seu silêncio era de compreensão, permitindo à mulher um espaço seguro para ela desabafar.
— Aqui no jardim. — Continuou a mulher, agora plantando a última muda. — Eu sinto que estou experimentando uma vida de paz, mesmo que na morte. — Ela riu. — Parece meio complexo, mas a clareza que eu não tinha em vida, agora eu a possuo. E aquela voz, eu consegui silenciá-la. — Ela terminou de plantar e se sentou na terra ao lado das novas mudas, contemplando seu trabalho com um sorriso suave. — Não há mais aquela pressão incessante, aquele vazio que parecia sempre me consumir. Agora, eu só existo, e isso basta.
A ceifadora, ainda de pé ao lado dela, olhou para o jardim à sua frente, e contemplou toda a vida que a mulher havia trazido para aquele lugar.
— Você encontrou seu lugar. — Disse a ceifadora em voz baixa.
— Sim, e por mais estranho que pareça, estou feliz por ter encontrado essa paz na morte. — A mulher acenou com a cabeça.
A ceifadora deu um passo à frente e estendeu a mão para ajudar a mulher a se levantar.
A mulher aceitou a mão da ceifadora, levantando-se com leveza.
— Obrigada. — Sussurrou. — Então, o que vamos jogar hoje?
— Ah, sim! Hoje vamos jogar senet. — A ceifadora foi caminhando até a mesa, pegou sua maleta e tirou o tabuleiro de dentro.
— Nunca joguei esse.
— É fácil, um pouco parecido com um gamão. Existe a lenda de que, para sua alma ir para o paraíso, a pessoa deveria vencer Rá numa partida de senet. — A ceifadora falou com um tom de mistério na voz.
— Isso é sério?
— Talvez sim. — Disse a ceifadora enquanto separava as peças. — Mas duvido que você trocaria esse paraíso por outro que desconhece. — Ela sorriu, olhando para a mulher que retribui o sorriso. — Vamos começar.
A ceifadora sabia que, independentemente do que viesse a seguir, aquele jardim seria o lugar onde a mulher havia encontrado a paz que sempre buscou em vida e nada, nem ninguém, conseguiria mudar isso.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…