Capítulo 5 — Tangíveis Ilusões

Na densa floresta verdinegra, ouvi pequenos grilos ao longínquo; o horizonte era um mistério verdejante enquanto a única luz ambiente...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Na densa floresta verdinegra, ouvi pequenos grilos ao longínquo; o horizonte era um mistério verdejante enquanto a única luz ambiente advinha da vela em minhas mãos. Seu lume era dourado-pálido, no entanto, revelava uma névoa carmim ao derredor, como se na aragem pairasse uma úmida cerração hialina que se desvelava escarlate, tão somente, pela flama. Talvez sua transparência queimasse, pois, era viva e, desfazendo-se pelo fogo, avermelhava. A frigidez orvalhada pelo que me parecia ser um profundo entardecer, no entanto, arrefecia-me a tez de modo terrífico e... eu buscava por alguém ou algo que pudesse me trazer respostas. Por vezes as árvores ramosas, com suas espessas folhagens, na cinesia do vento, ecoavam como sussurros estranhos que diziam infindáveis verdades distorcidas. Eu era uma andante sem rumo, consumida por uma inquietude intensa, uma busca inconsciente e, porventura, uma saudade. Mesmo com a beleza lôbrega do lugar, onde a flora esmeraldina em sombras horríficas a cada segundo se emaranhava impedindo-me de sair de sua imensidão, eu pressentia ser preciso permanecer ali e, de fato, o era.  

Quando parei minha peregrinação exaustiva e notei minha pele molhada sendo vítima dos ares irrigados, ciente de que minha vela apagaria a qualquer momento, ouvi um cântico agudo e lôbrego. Era como o canto de um Merulaxis stresemanni, porém, duradouro, pouco rompido, mais harmônico como uma música triste e serpenteante ao fundo, como se sua siringe expressasse o sibilar de uma cobra; a imponência do som era tanta que ecoava pelo frondoso arvoredo. A criatura era, decerto, grande; pude sentir apenas ouvindo-a; entretanto, quando o seu canto se extinguiu, senti uma presença aquecida atrás de mim e, quando me voltei para fitar a presença, era tarde demais. O calor de seu corpo cingira-me violento e senti suas mãos em minha cintura, sutis. Olhei-o de soslaio, seu rosto era como o daquela noite de lua azulescida e, dos seus olhos negros sem esclera, escorria uma lágrima negrume.  

Tu foges de mim, Áurea, mas, por quê? — Murmurara em seu tom naturalmente grave. Assombrei-me e senti toda a minha tez responder à sua voz.  

Como sabes... meu nome? — Indaguei trêmula. Ele lamuriou um singelo som intenso e lúbrico; seus braços envolveram-se em mim, mais apertados, colidindo, em profundez, os nossos corpos. Ouvi-lo me chamar de Áurea não me trouxera a repugnância símil a que senti quando Seth o pronunciara. 

Eu sei de tua essência, minha Ennehris... — Senti seus lábios em meu pescoço. — Sei também de nosso vínculo... — Lëvri acariciara meus cabelos. — Eu não matei Lorrt, Áurea... — Suas palavras esvaíram lôbregas, baixas e quentes; quis beijá-lo e amá-lo, todavia, o verdejante arvoredo sucumbia e tão logo a umidade da pele arrepiada fez-se apenas o reflexo de algures. Despertei, ainda na biblioteca, confusa e silente; sussurrando o nome de Lëvri... com uma saudade estonteante oprimindo meu coração e uma solidão sufocante afogando-me em seu oceano hediondo. Não entendi como pude adormecer, tampouco quando. Não me recordava de sentir a areia do sono infindo sob meus olhos. Quando fitei o ambiente, notei em meu colo um pequeno papel cuja escrita revelava-me: “Lembra-te de mim”, mas, era a minha letra, curvilínea como eu a conhecia. Não quis compreender, evitava a dor da lembrança.  

Desejei que Lëvri não fosse o culpado pela morte de Lorrt, por isso sonhei. E vi-me ali, só. Comecei a caminhar para além daquele aposento de livros eternos e segredos sombrios. Permanecia-me como se flutuasse na imensidão escura e silente e, às vezes, o silêncio me refugiava de minha própria existência em suas obscuras complexidades; em contrapartida, indicava-me que não havia ninguém ao redor e, portanto, o espargir da solidão, de modo suave, aflorava minhas mais terríveis angústias. Eu sabia que não estava só naquele Castelo, todavia, observei-o atentamente, enquanto vagava a esmo por entre os seus cômodos e passadiços estreitos. Mesmo notando criaturas que me eram semelhantes, humanos ou, porventura, algo mais; tudo me parecia uma ilusão mórbida, dado que a sensação de ausência me consumia, ainda assim. 

Em algum dos lugares por onde vaguei com furtividade, encontrei um diário perdido, o qual me trouxe sensações melancólicas — parecia ter sido escrito há anos, no entanto, não havia tempo em tal lôbrego lugar, e do tempo eu nada poderia esperar — apesar de senti-lo dentro de mim, vívido em seu tiquetaquear longínquo. Desejei lê-lo, não o tempo, mas o diário; decerto eu leria o tempo, se assim pudesse, compreendendo-o em sua totalidade soturna. Não podia, contudo, fazê-lo ali; era preciso um lugar que apaziguasse minha alma sôfrega, alhures que controlasse meus instintos, minha sede e, confesso, uma alcova para aprisionar os meus ímpetos lúbricos, os quais eu sabia serem parte de minha nova natureza.  

Seth permanecia em silêncio. Na verdade, eu não o sentia residir em minhas entranhas. Isso avultava a solidão; ele decerto se irritara profundamente com a minha vontade de exorcizá-lo de mim. Quis, naquele átimo, que ele compreendesse que, embora a solidão me arrastasse como uma correnteza brusca e violenta — e dela eu fugisse como um veleiro em descontrolado alto-mar — eu não suportava uma presença perene como a de Seth, que me impedia de existir tal qual o meu desejo… de reencontrar Lëvri... E, principalmente, me impedia de reencontrar minhas memórias. Eram confusas as emoções e árduos os sentires que permeavam meu ser, porque, apesar de tudo, Seth estivera presente como o guardião que fora destinado a ser. E o que alçou em minha tez quando seu olhar amargurado fitou meus lábios e seu bruto toque cingiu meu pescoço foi inexplicável; aquilo embargou os meus sentidos e soterrou meus racionais argumentos em relação a Seth — e não sei se me excitei pelo que sou em minha natureza insondável ou pelo que ele é em sua natureza insondável. O mesmo, em outros aspectos e por motivos diferentes, ocorreu quando sorvi o sangue daquele rapaz que nunca mais encontrei. O prazer sexual lumiava como uma faísca imortal e imoral, e o sangue que aquecia minha garganta fazia surgir, em minha úmida intimidade, um contínuo frenesi. Se ao menos eu me lembrasse de tudo naquele momento… quiçá me viria a compreensão de ser essa intensidade realmente minha, embora parecesse pertencer só àquela que me tornei. A dúbia vontade: renegar a dor da memória ou lembrar-me de tudo; isso era o que levava à exaustão a minha mente.  

A solidão, como o amor e o ódio, era buscada por mim quando eu não a tinha e repudiada quando suas trevas me conduziam em uma valsa horrífica. A culpa, quem carregava, era ela: a solitude, o isolamento em mim mesma que sempre me levava ao afogo dos pensamentos aflitivos. “Ennehris ou Áurea? E por que “Aesatt”? O torso da solidão é o apoio às minhas fúnebres queixas. Pode ser que seja melhor sem memória alguma” — eu pensava—  “como uma folha em branco para se pintar de acordo com o novo eu. Um recomeço. Não seria, contudo, desprezível da minha parte exterminar toda uma vida que outrora vivi? Não sei… um recomeço… sem as cruzes do passado… isso não poderia ser uma blasfêmia? — soa-me como um alívio; todavia, sei que conviver com o absentismo nunca promoverá a serenidade que idealizo ao consumar o caminho do esquecimento. Dói-me lembrar que esqueci de tudo, e há tantas perguntas que habitam meu coração… Desde meu despertar, estive envolvida por um veludo verdinegro cujo peso sobre meu corpo impediu-me de sentir alívio e paz, sufocando-me, por vezes, em seu interior esmeraldino. Como esperança, apenas as suas margens, na possibilidade de deixá-lo; enquanto, em seu cerne, a sensação de morte pela degradação da minha essência olvidada e desta nova essência sem sentido. Uma cinesia entre o desvelar do presente e o sondar do passado — confuso porque, aqui, nada disso existe; e o que existe é uma infinitesimal parte irrelevante. Falta-me conhecimento… eu assumo a minha ignorância.” 

A cada pensar, almejei compreender aquele lugar e entender a sua existência com uma avidez maior do que a que eu nutria por mim mesma; isto porque, se era preciso conhecimento, eu só poderia encontrá-lo em tal castelo-entidade, que era, decerto, um baú encorpado por segredos e verdades que valiam mais do que minha existência transiente. E despertei ali, afinal, por alguma razão. Segundo Olga, fui encontrada pelo “Espectumbral” — uma criatura fantasmagórica destinada a vagar pelos planos em busca dos “escolhidos”. Eu deveria tê-la questionado mais, Olga decerto sabia muitas coisas e me explicaria a respeito deste lugar, no entanto, eu estava imersa em minhas meras fragilidades quando a encontrei, ébria demais em minha íntima desolação. Eu estava certa de que o Castelo permitiu meu renascer; caso contrário, por que não despertei do coma antes de ser encontrada pelo espectro? Eu sentia, consequentemente, um elo abissal com aquele recôndito; parecia-me um lar para meu eu morto e para meu eu renascido. “Talvez seja o momento de encontrar um sepulcro para enterrar o que não hei de me lembrar; aquela que fui, que nunca mais serei” — pensei. “Algo simbólico, algo que possa representar, em força emblemática, uma Áurea danificada por fissuras de oblívio… e nem sei se sou Áurea... não sei quem é Áurea…” 

Os sôfregos pensares se quebraram quando, descendo uma escada em espiral, avistei uma monumental porta de madeira maciça e pesada; tive dificuldades em abri-la, mas o fiz e a ouvi rangendo como se há anos estivesse selada. Havia um grandioso espaço naquele calabouço, com incontáveis barris e garrafas de vidro acomodadas na horizontal, em altas estantes. Adentrei o recinto penumbral e sentei-me em uma das poltronas dispostas em seu centro, enquanto o aroma de frutos fermentados me envolvia. Havia apenas aquelas duas poltronas e, entre elas, uma pequena mesa com duas taças de cristal e um castiçal com três velas acesas. Mais ao fundo daquela adega antediluviana, escuridão e profundezas sombrias. Indaguei-me sobre o quão extenso poderia ser aquele lugar e, sem fechar o soberbo umbral que abri com tamanha dificuldade — com medo de aprisionar-me para sempre —, segurei o castiçal e caminhei para as entranhas da adega. Foi como mergulhar em um oceano de vinho, embriagada por suas propriedades afrodisíacas. Somente quando não pude mais enxergar aquela porta, sentei-me ao chão, abri o diário; ousei retirar uma das garrafas e abri-la. O vinho era rubi, e mesmo sob tão tênue luminosidade, pude notá-lo em cores e aromas: rubro vívido, aroma intenso de cereja, notas ferrosas e o sabor… intenso e estonteante. 

15 de junho de 1871 — Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito colocar, nestes diários, minhas angústias e pensamentos, e eventuais alegrias nessas páginas. Já não sei quantos escrevi; em meu escritório devo ter uns quantos armazenados na velha estante ao lado esquerdo da mesa de trabalho, junto com meus livros queridos.” — iniciei a leitura. “Já faz algum tempo que me correspondo com uma personalidade do leste da Europa. Devo ter, em minha maleta neste momento, umas três cartas e pelo menos dez telegramas. Segundo as correspondências, temos afinidades intelectuais. Algo poderoso em cada uma delas me compelia a responder, uma sensação indescritível, mas aqui tentarei traduzi-las. Devo dizer que o que senti era provocante, uma emoção que ainda agora me deixa agitado, ansioso, como se houvesse um feitiço em cada palavra…” — li, notando tratar-se de um homem, um homem humano, pois nada é tão emocional como os humanos; eu sentia e percebia isso. Em mim, tudo o que havia era, sim, intenso, porém com um vazio sepulcral inigualável. Sentia falta de ser humana, ainda que não me lembrasse disso; a certeza da minha humanidade de outrora era real. E não parecia residir tal vil condição de vazio no coração deste que escrevera, ao menos, não pude perceber nas entrelinhas.  

Não! A cada onda das letras, elas estavam me atraindo, conduzindo minha existência, e por fim, guiando minhas mãos para responder tão rápido quanto me fosse possível. Senti-me como um apaixonado respondendo a uma amante, numa carta secreta, revelando segredos obscuros. Por vezes, como uma inocente criança confessando à mãe seus feitos do dia com total ingenuidade e despretensão.” — definitivamente, era um humano. Sorvi mais do líquido rubi, e meus olhos lacrimejaram.  

Criaturas como eu, olvidadas, jamais compreenderiam o que é o confessar de uma vestal infância e, ouso dizer, muito menos o verdadeiro amor em seus obscuros segredos — proferi em um murmúrio amargurado.  

Com estranheza, o liquor em meus lábios conduzia meus olhos por aquelas linhas, era possível que estivessem vívidas a ponto de invadirem minha imaginação, reverberando uma voz fictícia que narrava as verdades daquele diário. Em certo momento, colidiam-se as letras, dúbias, entrelaçadas com a luz tenra que se difundia pelo ambiente silente. Era deleitável… o sabor que inebriava e as palavras que dançavam. “A vista era montanhosa, com pequenas cidades sombrias e tristes, nos tons de cinza, marrom e branco…” — lembro que ouvi, ouvi sim, e não li, pois era nítida aquela voz suavemente rouca, em um tom de baixo tenor, distinguindo-se em meus pensamentos como se vinda do mundo externo, era tão real que olhei ao redor por instantes, perscrutando a penumbra.  

Decidi sentar-me à poltrona que encontrei outrora. E pus o vinho sob a pequena e rústica mesa de centro. À minha frente, o assento, semelhante ao que eu estava, era como um convite insólito; aquela intensa voz e aquela afrodisíaca bebida poderiam advir de uma alucinação causada pelo diário? — eu pensava. Ou seria, como único culpado, o licor rubinegro? Antes que uma resposta pudesse encontrar minha racionalidade que já se perdia na imensidão de mim, vi uma linha… a linha de uma nívea silhueta vaporizada, instigando minhas retinas, seduzindo-as em um tenro receio fantasmagórico, trazendo-me a dúvida de ser um escárnio de luz e sombras. Todavia, quanto mais o tempo passava — embora, em sensação, ele estivesse profundamente estagnado —, as linhas formavam uma silhueta perfeita… com um semblante fidedigno e, o que deveria ascender-me o terror mais hediondo, seduziu minha ébria curiosidade.  

O que se desvelava, à minha feição enlevada, era uma sombra cujos detalhes erigiam-se à medida em que o derredor se contorcia de maneira turva e gradual; uma face viril, em perfeição visível, embora ainda translúcida, tinha em sua fronte um assombro que talvez derivasse da mesma razão que o meu encanto arrebatado, pois, seus olhos castanhos estavam direcionados ao meu rosto, fixos e incrédulos. Movimentei-me devagar, como se quaisquer sopros de cinesia pudessem levar à evasão daquilo que pensei ser um fenômeno espectral, quiçá uma memória d’um alguém ou, ainda, uma realidade multiforme, paralela à minha, uma voragem no tempo-espaço. Ainda segurando a taça, ergui minha mão direita na direção do homem cujo contorno do rosto já era tangível e os cabelos, castanhos como os seus olhos, já manifestavam uma textura mais próxima da realidade e mais distante do que era, tão somente, linhas esvanecidas.  

Em minha túrbida consciência, incontáveis pensamentos se originavam; por ínfimos instantes acreditei que, porventura, fosse algo de meu passado materializando-se, ou de meu futuro. Porque não poderia ser, eu acreditava, um fenômeno ocasional. O silêncio densificava-se tanto quanto a escuridão que entornava sobre o ar uma esverdeada sombra crepuscular; a adega frígida transfigurava-se em uma metamorfose tardia e lôbrega, ao mesmo tempo em que chamas de uma lareira olvidada, douravam as nuances trêmulas do ambiente. O gosto ferroso e amadeirado ainda exortava meu paladar. As notas de cereja fermentada eram evocadas pelas papilas e tive a impressão de sentir minhas retinas dilatarem-se. Eu tocaria aquela face e, se fosse real, então, as pontas de meus dedos sentiriam o calor, ou a frialdade, de sua bronzeada tez.  

Apoiada sobre a mesa de centro, destinada àquilo que pensei ser a melhor forma de compreender aquela estranha conjuntura, avancei um pouco mais e, quando, prestes a tocá-lo, pude ouvir sua respiração inquieta; surpreendi-me com seu brusco movimento. Levantou-se, fugaz, e a brisa de sua cinesia movimentou meus cabelos, no entanto, até aquele átimo, eu nutria uma infinitesimal certeza de que tudo era delírio e, portanto, tentar tocá-lo levar-me-ia à poltrona à frente, esvaindo-se como névoa a sua gravura. Era perceptível, pelo quanto a sua viril presença impulsionara o ar, que não se tratava de um espectro viandante. Então, cessei meus movimentos, embora tenha ficado naquela posição por um tempo até minha mente assimilar o ocorrido. Logo, eu o ouvi. Sua voz era aquela que pouco antes se espargia pelo ambiente, ou pela minha mente, eu não saberia dizer.  

Quem é você? — Dissera, irredutível e no mesmo tom rouco. Eu não pude respondê-lo, à princípio, eu estava um tanto paralisada pela surpresa de seu movimento e por toda a inebriante situação; ainda mais por ser a mesma voz que outrora imaginei… ou ouvi. Mesmo assim, meus olhos o seguiram e vi com perfeição absoluta todo o seu corpo. Quando movimentei meus lábios para respondê-lo, ouvi um estalo vindo do carvalho que eu me apoiava e não demorou para a mesa se quebrar logo após o ruído. N’um impulso, segurei, firme, o que estava à minha frente e vi meu corpo cair ao chão, embora não só, pois puxei o homem austero por seu casaco marrom e caímos, reais e tangíveis, sobre o assoalho. Não como previ, mas o senti no toque abrupto e, no instante seguinte, próxima de seu rosto, um pouco temerosa, o respondi.  

Sou Áurea… — Murmurei. Por tanto questionei o meu não pertencimento a nome nenhum e, naquele minuto, sentia-me conduzida a dizer “Áurea” para um completo estranho que me olhava, rigoroso e, decerto, hesitante. Um estranho cuja face, agora tão próxima, e o corpo, agora tão próximo, era antes um vapor dúbio e penumbral. Sobre ele, o calor em um câmbio equivalente e uma singular sensação, elevaram-me o embaraço, todavia, o turvamento pelo vinho ainda me adornava, delgado, persuadindo o insondável.  

Parece que a mesa decidiu se juntar ao caos e quebrou as pernas. — Murmurou com um sorriso tênue, tendo à fronte a feição desconcertada. — É um prazer te conhecer. — Ajustou-se e segurou-me a cintura e as mãos, para que eu me levantasse com segurança; sua força e estabilidade eram impressionantes. — Sou sargento Miahi, Anton Stefan Miahi. É um prazer. — Proferiu, denunciando a hierarquia que decerto o fazia acentuar o que me parecia ser sua austeridade natural. O silêncio nos envolvera por segundos, eu o observava atenta, tentando fazer com que os efeitos do liquor sombrio não me impedissem de firmar sua feição em minha memória.  

Você está bem? — Indagara-me enquanto recuperava-se da queda e fitava-me tal como eu fazia com ele; sei que sorvera do mesmo vinho que eu e, quiçá, por isso, estivesse mirando seus olhos em mim; no entanto, talvez buscasse incorporar os acontecimentos recentes e nada mais. Não me esqueci do mistério de sua materialização, apenas fui distraída com seu hálito que carregava o êxtase olfativo do brumal liquor e, portanto, avançava sobre mim com o mesmo poder sensual.  

Estou bem… — Murmurei um pouco mais baixo, talvez não tenha sido ouvida. — Achei que tu eras uma ilusão fantasmagórica. — Revelei, tentando deixar minha voz mais nítida e menos lânguida. Sorri em seguida, fitando sua expressão cordial.  

Contudo, algo pairava no ar. O silêncio pós-desastre que soara envolvente tanto quanto denso estivera antes de tudo acontecer, ornara o ambiente em um medonho insulamento mudo. Em certo aspecto, tudo passou a soar aterrador; quis acreditar que nos olhos de Anton residia a mesma macabra percepção, pois, o clima de apreensão erguia-se a modificar tudo entre nós, sua força era invisível. Apesar do tragicômico momento ocorrido segundos antes, apesar de trocarmos palavras de conforto em uma apresentação benigna, todo o ambiente se modificara, tremeluzindo anômalo e, ainda, distorcido; uma disformidade infinitesimal e absurdamente apavorante, com as luzes mórbidas ecoadas e translúcidas. Avultavam-se em uma lentidão intimidadora. Eu sentia. Eu via. Símeis a sonidos trépidos e agudos. Respirei fundo, em busca de um alívio daquela complexa hiperestimulação dos sentidos. Anton me olhava e sua existência transpassava uma segurança que, na instabilidade em que eu me encontrava, seria minha égide caso tudo saísse do controle. O sabor adocicado em meus lábios delatava-me que aquele líquido rubinegro poderia ser a razão da estranha sensação persecutória que despontava opaca e tétrica em meu ser.  

Anton… — Proferi com temor e sei que meus olhos se umedeceram e, pela primeira vez desde meu despertar, eu senti um medo entranhado, com uma raiz insondável. Quis indagar Anton sobre a umbra que se instalava em meu âmago, sobre aquelas sombras bizarras que penetravam os cantos da visão; ia questioná-lo, porém não pude, algo estava me sufocando. “Seth… onde estás?” — pensei. Sob o medo mais legítimo, vi-me como aquele pássaro negro detrás da clausura enferrujada e consumida pelo musgo; com o peito arfante, prestes a ser consumido por algo bem pior que a morte. 

Personagens nessa crônica:

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi IV

26 de junho —Ainda tenho essa lembrança.Pareceu-me que haviam se passado horas desde que fui barrado em Séttimor. Ioam era uma figura imponente...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Anton S. Miahi IV
(Escrito no Castelo)

26 de junho —Ainda tenho essa lembrança. Pareceu-me que haviam se passado horas desde que fui barrado em Séttimor. Ioam era uma figura imponente, sua altura e braços longos contrastavam com suas mãos ossudas e frias, que pareciam esculpidas na pedra. Apesar da sua aparência pálida e gelada, havia uma força oculta em seu corpo. Seu rosto disforme, com olhos profundos e insondáveis como os de um cadáver, brilhava com íris vermelha, a cor incandescente das brasas de uma fogueira antiga. Cada vez que ele falava, uma fumaça escura e espessa escapava de seus lábios, como se suas palavras fossem substâncias tóxicas. Sua pele, escurecida e marcada por uma deterioração que eu ainda não compreendia, parecia se desintegrar sob a luz tênue. Ele vestia roupas tão desgastadas e rotas quanto os trapos de um espectro, reminiscências de um passado longínquo.

Após a visão de Ioam, um som grave e profundo começou a ressoar ao meu redor, ecoando com a intensidade dos disparos de canhões franceses, mas muito mais ensurdecedor. O estrondo parecia vibrar nas minhas entranhas, e eu não pude evitar levar as mãos aos ouvidos na tentativa desesperada de abafar o barulho.

Ergui os olhos para o céu, e percebi que o firmamento estava em transformação. As estrelas, antes brilhando em uma disposição familiar, agora pareciam se afastar umas das outras, ou talvez fossem movidas por alguma força invisível. O silêncio que se seguiu era pesado e opressivo, interrompido apenas pelo açoite do vento que sussurrava através das árvores com um som cortante e sinistro. Os uivos que antes preenchiam o espaço haviam cessado abruptamente, deixando uma sensação de vazio angustiante que se alojou no fundo do meu peito.

Quando finalmente consegui focar meus olhos, o céu revelou um panorama disforme. As estrelas, uma vez conhecidas e tranquilizadoras, agora se assemelhavam a olhos, incontáveis e vigilantes, observando cada movimento meu com uma intensidade perturbadora. Traços de luz prateada serpenteavam pelo firmamento, como fios de prata entrelaçados em uma tapeçaria cósmica que pulsava com um brilho etéreo e desconcertante. Cada ponto de luz parecia vibrar, lançando reflexos que distorciam o espaço, criando uma sensação de ser observado por uma presença cósmica e implacável.

Naquele instante, a percepção do meu corpo mudou de forma radical. Eu já não tocava o chão; sentia-me flutuando, suspenso no vácuo etéreo do desconhecido. O espaço ao meu redor parecia se estender indefinidamente, envolto em uma neblina tênue que impossibilitava discernir onde o vazio terminava. Ao fundo, a voz de Ioam reverberava como um eco distorcido, suas palavras se dissolvendo em um buraco negro de incompreensibilidade. A realidade parecia desvanecer-se ao meu redor, e eu era engolido por um mistério insondável, onde o céu se convertia em um enigma aterrador.

Sentia-me como uma marionete nas mãos de um artista cósmico, meu corpo leve e sem resistência, completamente desprovido de qualquer sensação de segurança. Meu olhar então foi atraído para uma vasta criatura que parecia se fundir com a imensidão do espaço negro. Seus olhos brilhavam intensamente, como dois faróis cortando a escuridão infinita. Era uma presença de beleza aterradora, com cada olhar parecendo um abismo profundo de mistério e poder.

Por um instante, algo que se assemelhava a uma boca surgiu, ou pelo menos uma paródia dela — longa e serpenteante, como um tentáculo emergindo do vazio, sem um rosto que pudesse caracterizá-la. Dois olhos adicionais se formaram na figura, fixando-se em mim com uma curiosidade quase infantil, como um médico examinando um paciente com um interesse quase científico.

A criatura então falou, sua voz ecoando no espaço entre as estrelas, preenchendo o vazio com um sussurro místico e terrível que parecia vibrar nas paredes do cosmos.

— Se sente sozinho? — Sua voz era profunda e reverberante, como se estivesse sendo projetada de uma caverna antiga. O tom não parecia ameaçador, mas carregava um peso de sabedoria infinita. — Você viu?

Eu não consegui responder imediatamente; parecia que minhas palavras estavam congeladas no vácuo. Então, como se fosse uma revelação, a resposta surgiu em minha mente.

— Sem solidão, então. Apenas dor. Você também sente isso, não é? — A criatura parecia ouvir meus pensamentos como se fosse um eco no vácuo. — Você a viu.

Meus olhos se arregalaram de assombro. Como ele podia ler minha mente?

— Sou aquele que "apenas existe", uma testemunha de mortais e imortais. — Sua voz retumbava em meus ouvidos com uma ressonância quase física. — O que você viu não era uma assombração ou uma miragem. Estava aqui, mas não exatamente aqui. Um reflexo da existência, do tempo… Uma distorção.

Ele vasculhou minha memória, e eu comecei a compreender que a jovem que eu vira era real, mas ela estava em um lugar além da compreensão.

— O tempo… O Castelo… Drácula… A feiticeira… — Ele fez uma pausa, como se estivesse ponderando as palavras certas para usar. Sua consciência parecia mergulhada em uma profunda contemplação. — Você se prende… Sim… Você continua lá. Vejo seu pesar, sua angústia…

As memórias começaram a emergir, como fantasmas que se arrastam das sombras profundas, insistindo em revisitar cada canto de minha mente onde eu desesperadamente tentava afastar o passado. Eram imagens vívidas e carregadas de uma dor esmagadora, uma angústia que se enraizava em meu peito, cortante e implacável, como uma lâmina fria. Eu via novamente os rostos dos amigos caídos, irmãos de combate cujas expressões distorcidas e pálidas ainda eram um reflexo do horror da batalha. Mas nada era tão insuportável quanto a visão de meu próprio irmão, René.

Ele era apenas um garoto, meu irmão mais novo, com seus dezesseis anos de vida ainda intocados pelo tempo. A lembrança do momento em que a baioneta prussiana encontrou seu alvo é vívida: o golpe cruel e certeiro atravessou o ar, um movimento frio e calculado. Em meus braços, seu sangue quente e espesso tingiu a terra ao nosso redor, formando uma mancha vermelha que parecia impregnar minha alma. Sua vida esvaiu-se lentamente, como um fluxo ininterrupto de dor e desespero, e eu só pude segurá-lo, impotente, sentindo seu último suspiro enquanto a batalha rugia em um estrondo ensurdecedor ao nosso redor. Aquele instante, um fragmento de tempo dilacerante, está gravado em meu ser como uma ferida profunda que nunca cicatrizará.

Senti uma lágrima quente e salgada escorregar pela minha face, seu caminho um rastro úmido que refletia a dor que eu sentia. Meu coração palpitava a cada lembrança, como se fosse cravado por uma faca afiada, rasgando e dilacerando minha alma com cada pensamento. O tormento parecia interminável, como um rio de tristeza que fluía incessantemente da minha alma para meus olhos. Nunca pude voltar a Sevilha para dizer à minha mãe sobre sua perda. A culpa de não ter conseguido protegê-lo é um fardo pesado que carrego, um peso que faz com que meus dias sejam um tormento constante e insuportável.

— Anton, teu passo é um eco de dor... Mas há esperança, o futuro ainda pode ser moldado pelo agora... — Pela primeira vez, o eco cessou, e a criatura parecia sentir uma centelha de compaixão pela tormenta que se desenrolava em minha mente. — Observa os muros do Castelo com atenção... Examina com cuidado os habitantes que o povoam... Penetra o véu sombrio da realidade e rompe as correntes do tempo.

A sensação de dor começou a se desfazer como uma neblina ao amanhecer. Meu corpo, antes tenso e pesando como uma âncora, começou a relaxar. O peso emocional que me oprimia parecia se dissolver, dando lugar a uma estranha sensação de alívio. Olhei ao redor e percebi que o horizonte, o Castelo, e até mesmo Séttimor haviam desaparecido. Estava envolto em um espaço escuro e desolado, onde a única presença era a da criatura, que agora parecia me envolver em um abraço etéreo.

— O vazio deste mundo guarda segredos profundos, esconde o que não pertence ao natural... — A voz da criatura tornou-se mais grave, quase professoral, com um tom que parecia refletir séculos de sabedoria. — Olga vê o ordinário como monótono... Não, ela aprecia o que reside no Vazio. Ela encontrou o que buscava entre suas sombras.

A menção de Olga gerou um frio inquietante. Quem era ela, e por que sua presença parecia tão relevante? Onde ela estava no Castelo?

— A dançarina... Mora no Castelo... Em algum lugar além do espelho do mundo... O tempo aqui é maleável, as linhas do destino se entrelaçam e se cruzam. Muitos caminhos se encontram e se perderão... — A criatura fez uma pausa, como se mergulhasse em um oceano de pensamentos. — Um nome... Nauärah... Pequena... Voa... Corre... Dança!

O nome parecia familiar, um eco do que eu havia visto na festa de Séttimor. Mas o que significava estar no "espelho" do mundo? Por onde andei no Castelo, só encontrei quartos vazios, salas empoeiradas e portas trancadas, um labirinto de desolação.

A angústia se entrelaçava com a esperança enquanto a criatura falava. Eu sentia uma conexão com o mistério que me envolvia, uma promessa de que as respostas estavam à espreita nas sombras do Castelo. O vazio, embora aterrador, parecia ser a chave para desvendar os segredos que buscava.

— Nauärah, como encontrarei este fantasma no Castelo? — Minha pergunta se perdeu no vazio, uma busca desesperada por respostas em meio à crescente inquietação.

Senti um peso inesperado sobre mim, como se lençóis pesados me envolvessem em uma prisão de tecido. A escuridão era densa, quase palpável, e meus olhos demoraram a se adaptar. O corpo estava uma mistura de dor e cansaço, uma sensação de desgaste físico que lembrava os treinos extenuantes com o sargento Jean. Levantei-me com cuidado, o esforço era visível em cada movimento lento e cuidadoso, como se estivesse tentando sair de um pesadelo denso e opressivo.

A dor e a fadiga eram intensas, desconcertantes, um lembrete constante da estranheza do lugar. Sentei-me na beirada da cama, tentando orientar minha visão em um ambiente que parecia ser meu quarto no Castelo. Um frêmito de desconforto percorreu minha espinha enquanto me dirigia até a janela, cujas cortinas estavam fechadas como um véu que escondia o que estava além.

Ao abrir as cortinas, a luz da lua se projetou pela janela, revelando o cenário noturno que parecia tanto familiar quanto alienígena. As roupas do baile ainda estavam em mim, um lembrete vívido da noite passada. Uma avalanche de memórias intensas e perturbadoras invadiu minha mente, como se fossem sombras que se arrastavam de volta para a superfície.

Caminhei com dificuldade até a mesa de frente para a cama e me deixei cair na cadeira com um suspiro cansado. A mente girava, tentando unir as peças de uma noite que parecia se estender interminavelmente. As visões de Séttimor e da criatura que se apresentava como aquele que “apenas existe” eram fragmentos confusos, enquanto dois nomes ecoavam incessantemente em meus pensamentos: Olga e Nauärah.

Cada pensamento era uma lâmina afiada, cortando através do nevoeiro da confusão. A sensação de estar em um labirinto mental, cercado por sombras e ecos do passado, criava uma atmosfera de suspense e inquietação. O Castelo parecia guardar segredos nas entrelinhas da realidade, e eu estava prestes a desvendar um enigma que prometia levar a uma revelação sombria.

Diário de Anton S. Miahi VI
(Escrito no Castelo — Part. III)

02 de agosto 1871 — Ao despertar nesta manhã, senti um peso inusitado em meu corpo, um cansaço que transcendia o mero físico. Ao sentar-me no lado direito da cama, percebi que o ar não estava frio, mas carregado de uma estranheza intangível. Minha mente, lenta e nebulosa, parecia vagar por entre sombras, como se encharcada pelo licor do sargento Miguel, aquele líquido esverdeado que ele alegava ser uma herança familiar, mas que sempre me pareceu mais um veneno disfarçado.

Com esforço, reuni a coragem necessária para me erguer daquele leito, arrastando meu corpo pesado até a janela, ainda fechada. No instante em que toquei a madeira fria, algo inexplicável aconteceu. A realidade ao meu redor começou a se desvanecer, como se fosse um reflexo em águas turvas. Meu quarto se tornou um eco de si, sobreposto por imagens distorcidas, simultaneamente familiares e estranhas.

Cambaleei, tombando ao chão, enquanto o espaço ao meu redor se desdobrava em camadas desconexas. Formas se duplicavam e se desfaziam, detalhes surgiam e desapareciam como se eu estivesse preso entre dois mundos, ambos reais, ambos irreais. O conhecido e o desconhecido se entrelaçavam em uma dança perversa, desafiando minhas percepções e deixando-me à mercê de um enigma insondável.

Ouvi o ranger pesado e longo de quem estava espreitando atrás da porta, até que ela silenciou, pronto o som de passos pesados de solado de couro no piso de madeira ecoava em minha mente, então se seguiu duas vozes. Uma delas reconheci devido ao convívio, Narcís. Tentei olhar na direção deles, mas tudo girava de uma forma que me impedia concentrar-me, então fechei os olhos.

A outra era de um barítono baixo, meus ouvidos podiam haver me enganado, mas quando consegui ouvir podia ouvir que era mais. Ele falava firme, e não pude compreender o que era dito.

Tentei abrir os olhos novamente e ver quem seria o outro na sala, ele tinha a pele escura, os cabelos aparados, a barba era bem-feita. As vestes dele eram semelhantes à de um aristocrata.

O segundo retira um relógio do bolso enquanto se agacha ao meu lado. Consegui ver o mostrador do relógio, adornado com delicadas engrenagens visíveis mediante um cristal impecável, marca o tempo com uma precisão perturbadora. Cada tic-tac parece ressoar no ar, como um sussurro de algo antigo e esquecido. Ao redor, o tempo parece distorcido, curvando-se à vontade dele, que observa Anton, caído e vulnerável sob os poderes temporais que o relógio exala.

Perto da porta, em meio à escuridão que o envolve, está Nestor, o mordomo sombrio do Castelo Drácula. Sua figura alta e imponente é uma sombra que vigia, seus olhos atentos ao que se desenrola diante dele. Ele permanece imóvel, mas o ar ao seu redor parece pulsar com uma energia inquietante, como se ele estivesse em perfeita sintonia com o poder sinistro que emana do relógio na mão de daquele ao meu lado.

— Monm, creio que subestimas a delicadeza do tempo. — A voz de Nestor cortava o ar com uma precisão quase cirúrgica, cada palavra um golpe de aço frio que parecia reverberar pelas paredes do quarto. Seus olhos, escuros e intensos, fixavam-se em Monm com uma desaprovação palpável, como se visse em cada fração de segundo um erro iminente.

Por um instante, Monm baixou a cabeça, uma sombra de aborrecimento cruzando seu rosto antes de erguê-la novamente com um brilho desafiador.

— Ah, Nestor, sempre tão preocupado com as minúcias. O tempo, para mim, é uma tela em branco, pronta para ser pintada com novas realidades. — Sua voz era um sussurro leve, quase musical, enquanto girava o relógio de bolso entre os dedos, o brilho verde musgo lançando padrões de luz nas paredes, criando uma dança de sombras inquietantes. — Anton é apenas… — Ele olhou diretamente para Nestor, um sorriso sarcástico curvando seus lábios. — Uma pincelada ousada.

— Essas tuas pinceladas ousadas podem desmoronar todo o quadro. — Nestor estreitou os olhos, a voz agora carregada de um tom sombrio e ameaçador, como o crepitar de um incêndio distante. — Anton está à beira do abismo, e um passo em falso poderá custar-lhe muito mais do que o simples passar dos segundos.

— Ora, ora, que dramático! Não se preocupe tanto, meu caro. — Monm respondeu com uma leveza desconcertante, a voz quase um murmúrio divertido. — O abismo é fascinante, não acha? — Ele girava o relógio de bolso, o som metálico quase hipnótico. — Um lugar onde a lógica se perde e a realidade se distorce. Anton deveria sentir-se privilegiado por ser uma das raras almas a vislumbrá-lo.

— Brincar com o tempo é arriscar, Monm. — Nestor intensificou sua aura vermelha, o brilho ardente criando uma aura ameaçadora. Sua voz agora era um trovão profundo e grave, reverberando pelas paredes do quarto. — E já que tanto aprecias as chamas, cuidado para que não acabes queimado por elas.

— Fogo, gelo, tempo… — Monm riu suavemente, inclinando-se sobre Anton com uma expressão de curiosidade quase paternal. — Tudo isso são apenas ferramentas nas mãos certas, Nestor. Agora, veja, observe como a realidade se dobra e se molda. Anton está aprendendo uma valiosa lição sobre a natureza efêmera do tempo, algo que poucos têm o privilégio de entender…— Seu tom era cauteloso, mas carregado de uma ameaça sutil. — Ou sobreviver.

— Cuidado, Monm. As forças que invocas são antigas, mais do que tu podes controlar. — Nestor falou com uma voz baixa e imponente, carregada de uma autoridade que parecia emanada das profundezas de sua própria experiência. — Eu, que servi e ainda sirvo a poderes além da compreensão, sei o que ocorre com aqueles que ultrapassam seus limites. Não subestime o preço.

— Ah, Nestor, se a eternidade não nos oferece diversão, qual é o propósito de possuí-la? — Monm ainda sorria, mas com um brilho calculista em seus olhos. — Anton é apenas o começo. O tempo é vasto e cheio de surpresas… vejamos onde ele nos leva.

Monm, ainda agachado ao lado de Anton, girava o relógio de bolso entre os dedos, sua aura de fogo-fátuo verde musgo projetando sombras inquietas nas paredes do quarto. Anton, prostrado no chão, começava a recobrar a consciência, mas o peso esmagador do tempo manipulado por Monm ainda o oprimia. Nestor permanecia à porta, sua presença imponente ardendo em tons de vermelho, como uma brasa viva, seus olhos quase ocultos na escuridão de seu rosto severo.

— Monm, estás brincando com forças que nem tu compreendes plenamente. Anton não é uma peça descartável para teus experimentos. — Nestor afirmou, a voz cortante como um fio de lâmina. — Ele pertence a Drácula, e Olga tem planos para ele que não envolvem teus caprichos temporais.

— Oh, Nestor, sempre tão zeloso pelos interesses de teus mestres. — Monm respondeu com um sorriso irreverente, seu tom leve e brincalhão. — Mas não te preocupes, Anton é mais resistente do que aparenta. — Olhando para Anton com um brilho enigmático, ele continuou, — Ele sobreviveu ao toque do tempo até agora, não é verdade, meu jovem?

— Liberte-me... Monm, por favor... não aguento mais essa sensação… — Anton suplicava com a voz entrecortada, a angústia evidente em cada palavra. — Essa confusão... não sei mais o que é real…

— Vês, Monm? Estás levando-o ao limite. Liberta-o antes que destruas sua mente. — Nestor interrompeu, sua voz grave e cheia de autoridade, como um trovão distante que prenuncia uma tempestade iminente.

— Ah, Anton... a realidade é tão relativa, não achas? — Monm se aproximou mais de Anton, sua voz um sussurro sedutor carregado de mistério. — Mas compreendo teu desejo. O tempo pode ser um mestre implacável... ou um aliado inesperado. Estás começando a vislumbrar o que poucos têm a chance de ver. Por que apressar o fim dessa experiência única?

— O que é isso... o que estou vendo? O que fizeste comigo? — Anton perguntou com os olhos arregalados, sua voz carregada de uma curiosidade desesperada. — Por que parece que o tempo se distorce ao meu redor?

— Ah, meu caro, estás tocando a própria essência do tempo, uma dádiva rara. — Monm sorriu misteriosamente, um toque de empatia em seu olhar. — Mas não te preocupes, vou acalmar as águas para ti... por enquanto.

— Não brinques com ele, Monm. Já cometeste um erro irreparável em outra ocasião, um erro que ainda te assombra. Anton não é o veículo para tua redenção — Nestor falou com uma frieza penetrante, sua aura vermelha pulsando com uma ameaça velada.

— Erro? Que palavra pesada, Nestor. Prefiro chamar de... aprendizado! — Monm respondeu, visivelmente afetado, mas escondendo sua vulnerabilidade sob uma camada de sarcasmo. — E quanto a Anton, talvez haja mais nele do que imaginamos. Quem sabe ele seja a chave para corrigir... certas coisas.

— O que estás insinuando? Conheces este jovem de outro lugar, não é? De outra linha temporal, talvez? Monm, não ousarias... — Nestor estreitou os olhos, sua suspeita palpável.

— Insinuar? Eu? Nunca, Nestor. Apenas... vejo um potencial em Anton, algo que me é familiar — Monm olhou para Anton com uma expressão quase melancólica, mas logo retomou seu tom espirituoso. — Uma história que pode ter sido... ou ainda será.

Tentando me levantar, minha curiosidade superou o medo. Senti o peso invisível do tempo se moldando ao meu redor, como uma neblina densa que sussurrava promessas e perigos. O quarto, que antes era meu refúgio familiar, pulsava com uma energia estranha e inquietante, como se estivesse prestes a revelar segredos há muito enterrados. Os olhos de Monm, carregados de um enigma silencioso, me observavam com uma intensidade quase paternal, enquanto Nestor permanecia como uma sombra vigilante à porta, sua presença uma advertência de que minha curiosidade poderia me levar a lugares de onde não haveria retorno.

— Que história? O que estou destinado a ser? E por que… — minha voz tremia enquanto tentava me erguer. — Sinto que há algo em mim que ainda desconheço?

— Tudo a seu tempo, meu jovem — Monm ajudou-me a levantar, falando com suavidade. — Por agora, saiba que o tempo tem mais camadas do que o mundo à tua volta pode mostrar. E talvez, só talvez, tu sejas a peça que faltava para completar o quebra-cabeça que comecei há muito tempo.

— Monm, cuidado com teus jogos. Drácula e Olga não tolerarão falhas. Anton deve ser preservado para seus propósitos, e qualquer desvio será... corrigido — Nestor advertiu, sua aura vermelha pulsando como uma ameaça iminente. — Não esqueças tua posição.

— Oh, Nestor, sempre tão rígido — Monm suspirou, com um brilho astuto nos olhos. — Não te preocupes, Anton será bem cuidado... desde que ele esteja disposto a aprender com o tempo.

A conversa entre Monm e Nestor se desfez em uma tensão que parecia quase palpável, um manto de expectativas e incertezas que me envolveu. As palavras de Monm ecoavam na minha mente, como se uma porta estivesse prestes a se abrir para um mundo que mal comecei a entender. O quarto ao meu redor agora pulsava com uma vida própria, as paredes sussurrando segredos antigos em uma língua que mal conseguia captar. O brilho verde-musgo do relógio de Monm lançava sombras dançantes, enquanto a aura vermelha de Nestor formava uma barreira opaca entre mim e os mistérios ainda não desvendados do castelo.

Levantei-me com esforço, minhas pernas vacilantes encontrando um novo equilíbrio. O tempo, sinto agora, não é mais o mesmo. Algo profundo e irrevogável mudou, transformando o que eu conhecia em algo maleável e desconcertante. Decidi ir até a janela, movido por uma necessidade urgente de reconectar-me com algo familiar. Aproximei-me com uma mistura de curiosidade e temor, puxando a cortina e abrindo a janela com um esforço que me pareceu quase mágico.

O que vi me deixou atônito. O inverno, com seu manto de gelo e silêncio, havia desaparecido, dando lugar a uma primavera vibrante e exuberante. O ar que entrava pela janela era fresco e perfumado com o aroma das flores que desabrochavam em cores intensas e inesperadas. A luz do sol, cálida e brilhante, filtrava-se através das folhas verdes e brotos floridos, criando uma tapeçaria de luz e sombra que dançava ao ritmo do vento. A confusão e a esperança se entrelaçavam em meu peito, como se a primavera representasse um novo começo, uma chance de reescrever minha história em um mundo onde as regras da realidade se esticavam e se dobravam conforme o capricho do tempo.

Sentia como se estivesse em um lugar que desafiava a compreensão, onde cada decisão poderia moldar não apenas o presente, mas também o futuro de maneira inexplicável. O castelo ao meu redor sussurrava meu nome, prometendo revelações e perigos que poderiam me levar além dos limites do que eu conhecia... ou me destruir no processo. A sensação de estar entrelaçado com o desconhecido me envolvia, e eu estava prestes a descobrir se este novo tempo seria meu aliado ou meu destino.

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Horrífico

Diante de mim está o altíssimo e longínquo corredor em forma de arco. Seu comprimento é imensurável, tal qual o colossal monstro bíblico Leviatã...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diante de mim está o altíssimo e longínquo corredor em forma de arco. Seu comprimento é imensurável, tal qual o colossal monstro bíblico Leviatã. Assustada, contemplo-o com admiração. Infelizmente, as pedras encontram-se severamente puídas; tenho certeza de que viveram eras em que sua beleza era notada por todos que cruzassem este corredor. Elas eram de diferentes tamanhos e espessuras, mas, unidas, resultavam em um visual sublime e uniforme, apresentando uma coloração que varia entre marrom, verde musgo e, em algumas, um tom acinzentado. 

Adornando toda a extensão do corredor, delicadas, porém resistentes teias, executadas com precisão pelas habilidosas aranhas, trabalhavam com ardor sob a chama trêmula oriunda das inúmeras velas. Por estranho que pareça, senti paz observando aquela cena, mas um leve menear trouxe-me de volta. Preciso continuar — digo para mim mesma, enquanto observo as chamas desenharem vultos sobre as pedras. Minha mente voltou a assobiar terrores que vivenciei em meu quarto. Tenho numerosas dúvidas, as quais temo proferir em voz alta. É com esses questionamentos que inicio minha caminhada cautelosa; meus passos ecoam no silêncio, desviando das constantes teias que insistem em enroscar-se em meus cachos. Estou caminhando há alguns minutos. Olho para trás e já não é possível ver o começo do corredor. Conforme ando, vejo que as velas se tornam cada vez mais escassas. Antes que fique em total escuridão, apodero-me de um dos candeeiros e prossigo. 

— Parece não ter fim. — Minhas palavras são engolidas pela penumbra, que lentamente me abraça. Lembro-me com clareza deste corredor; percorri-o no dia do grande baile de máscaras, e ele não me parecia tão extenso. Mas prossigo. Estou cogitando a ideia de estar alucinando, de que estou presa em um sonho. Será tudo fruto da minha imaginação? “Não, Rose, concentre-se”, digo a mim mesma, e acabo não percebendo que as paredes se tornaram mais próximas. Sei que é algo ilógico, dada a construção sólida do castelo, mas compreendi que, neste lugar, o inimaginável se torna tão real quanto o breu lá fora. 

Meus passos se tornaram mais acelerados, e o corredor mais estreito. Algo me faz parar: uma brisa que não pertencia ao castelo surgiu como uma assombração e parece trazer consigo vida e frescor. Inspiro e vejo folhas verdejantes sendo atingidas por intensos ventos, desprendendo-se e flutuando com graça sob o céu azul até tocar o chão de terra. Reconheço aquele lugar. Volto a ser criança novamente, fecho os olhos e sinto o perfume adocicado da mangueira, o som das suculentas mangas caindo naquele jardim, exalando o cheiro inconfundível. 

Abandono a terna lembrança e, mais à frente, me deparo com algo grandioso. Elevo a vela à altura dos olhos e fico extasiada: diante de mim está um lindíssimo portão, esculpido de forma magistral em ouro velho. Em torno dele, pairam centenas de borboletas em tons de marfim, com o bater de asas muito bem orquestrado, um espetáculo, como se velassem segredos além do tempo. Hipnotizada, respiro e vou ao encontro da gélida maçaneta. Ao girá-la, liberto um odor ferruginoso; as borboletas permanecem quietas. Sou recebida por um sopro diferente, um frescor toca meu rosto, como uma leve garoa. À minha frente, encontro uma enorme estufa. O lugar é surreal, meu cérebro tenta assimilar o que vê. Estou em êxtase, parece que cruzei a toca do coelho e vim parar em outra realidade. Aqui, exala vida; a vegetação brilha misteriosamente em tons de verde, roxo e vermelho. Seu brilho se estende por toda a estufa, tal qual uma nebulosa na imensidão do firmamento. Devido à sua bioluminescência, alguns insetos sobrevoam a vegetação colorida. Gotículas de água escorrem sob a redoma de vidro. Plantas das mais variadas espécies crescem vigorosas, exibindo suas folhas e frutos suculentos. Plantas das quais eu não tinha conhecimento que existiam. Quem ficaria encantado por este lugar era meu pai, pois ele era um entusiasta da botânica. Foi ele quem me mostrou algumas obras filosóficas e ocultistas; por não ter conhecimento adequado, compreendia quase nada, mas aquele mundo misterioso me encantou. Lia tudo escondida em meu quarto, na penumbra do abajur rosa; era nosso segredo. 

Imersa na nostalgia, vejo algo que me faz suspirar. À minha frente, este lugar também é uma extensa biblioteca, repleta de inúmeros exemplares, desde livros de bolso até verdadeiros calhamaços. Realmente, este castelo não deixa de me surpreender. Abismada, me questiono se o funesto livro se encontra aqui. Atenta, observo tudo, enquanto meus delgados dedos sentem as texturas de cada livro. Noto obras sobre botânica, alquimia, matemática, esoterismo e até mesmo magia. Alguns títulos me eram conhecidos, como A Mônada Hieroglífica, O Livro da Lei, A História da Magia, O Alquimista, e alguns livros sobre botânica que estavam em latim. Sigo lendo os títulos, estou chegando quase ao final da estufa, quando percebo uma mesa vitoriana branca. Sobre seu tampo, uma singela renda do mesmo tom da mesa; havia também duas xícaras e uma chaleira de porcelana verde. Por fim, duas cadeiras, sendo uma delas ocupada por alguém. Receosa, prossigo; agora seus traços ficam mais nítidos. Suas roupas estão com resíduos de terra; era uma idosa, dona de um sorriso sereno, de olhar profundo e amoroso. Trajava uma camiseta branca, uma jardineira e, por fim, um suéter de tricô verde. Havia algumas poucas rugas sob seu rosto pálido. Aproximei-me, temerosa; ela estendeu a mão, convidando-me a sentar. Assim o fiz. Ela sorriu e disse: 

— Não tenhas medo, minha jovem. Como se chama? 

Sua doce e trêmula voz trazia uma familiaridade que não consigo explicar. 

— Me chamo Rose — minha voz soou quase inaudível. Seu olhar era acolhedor, então ela continuou: 

— Pois bem, é um prazer te conhecer, Rose-besin. Eu me chamo Ameritt. 

Minhas feições me entregaram. Percebendo que eu não havia compreendido a palavra "besin", ela explicou seu significado, contando também que a palavra deriva de povos antigos da vila de Séttimor, que fica nos arredores do castelo. Aquilo me deixou intrigada. Ela mencionou, ainda, as sete mortes e os misteriosos habitantes dessa vila. Apoiei meu pulso sob o queixo e fiquei pensando: o que seria essa tal vila? Como chegar até ela? No entanto, ela continuou falando. 

— Resido aqui há muito tempo, e posso afirmar, minha jovem, vi e vivenciei coisas inimagináveis. Mas, pelo que percebi, acredito que você também, não é mesmo, Rose-besin? 

Assenti que sim. 

— Minha querida, posso lhe oferecer um chá? Eu mesma colhi as ervas. Aliás, percebi como você ficou encantada; vi seus olhos brilhando perante a vasta flora, bem como sua bioluminescência. É prazeroso quando vejo alguém que se apaixona pelo meu jardim. 

Perguntei sobre os besouros e insetos daqui, e ela explicou que eles tinham um significado profundo. Além de polinizar, eram almas perdidas que reencarnaram. Fiquei ainda mais confusa e entrei numa espécie de delírio. Será que virarei um besouro também, dada a minha natureza? Seus lábios moviam-se com a ternura de uma avó, me tranquilizando. Então, ela abriu a tampa da chaleira, e logo um aroma peculiar pairou no ar; era único. Ela serviu o chá com tranquilidade, olhou-me e disse: 

— Beba, vai se sentir melhor. 

Um sorriso plácido surgiu em seus lábios. Elevei a xícara à altura do meu queixo, vislumbrei as especiarias em infusão. O aroma era indescritível e convidativo. Fechei os olhos, inalei e sorvi. Porém, um pensamento assustador pairou em minha mente: e se este chá estiver envenenado? 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano 

 01 de janeiro? — Acordei num sobressalto e com a respiração pesada. O silêncio incômodo era apenas interrompido pelas batidas frenéticas do meu coração, eu estava de volta ao meu quarto. Meus olhos percorreram o aposento à procura de qualquer coisa que indicasse perigo, parecia que a criatura que feriu meu braço não estava mais lá. Meu braço esquerdo latejava, olhei para ele e percebi que estava envolto com novos curativos. Quem teria feito isso? A última lembrança que eu tinha era uma raiva tremenda e minha ferida sangrando, depois disso apenas escuridão. Levantei me sentindo zonza e vi meus óculos sobre a mesa ao lado do meu diário. Não sei como ele ainda sobrevive a tantas quedas e desmaios. Coloquei os óculos e olhei pela janela e o dia estava bonito, e eu não sentia mais aquela vontade de me esconder dentro daquele quarto. Queria ir para fora sentir o calor do sol no meu rosto. Decidi que esse momento seria ótimo para explorar e fui para aquele jardim que estive no dia da grande lua, onde avistei Hadassa. 

Fui de encontro ao jardim e senti um aroma de terra molhada, ervas e algo mais que não pude identificar, isso me atraiu. Então me deparei com um canteiro de rosas muito vermelhas, cheguei perto delas para sentir seu cheiro e era tão pungente, toquei devagar suas pétalas aveludadas e parecia que uma lembrança ia se formar em meu cérebro. Até que, um pouco mais além desse canteiro, pude perceber lírios prateados e lírios vermelhos feito aranhas mexendo suas pétalas de forma suave, como aqueles que eu havia visto no vale dos settimôros. Esse pensamento me trouxe aquela solidão incomoda, interrompendo uma lembrança sobre as rosas que tardou a se formar. Caminhei um pouco mais apreciando a luz do sol que iluminava agora aquele jardim. As estátuas de anjos e damas esculpidas em mármores não passavam mais aquela melancolia de antes. Agora pareciam contemplar a profusão de vida naquele jardim. Um pouco mais a frente havia uma figura curvada sobre um canteiro, era uma senhora idosa de cabelos grisalhos presos em um coque frouxo e alguns fios rebeldes escapando aqui e ali, suas mãos mexiam nas flores de maneira delicada. Parei, e já ia refazer o meu caminho para não a incomodar. 

— Ah, Rute-besin, não tenha medo. — Ela falou sem nem se virar, como se me esperasse. — Venha e sente-se, está com cara de quem não dorme bem há tempos. Venha, tome um chá comigo. 

Havia uma mesa de madeira com duas cadeiras perto do canteiro onde ela se encontrava. Sentei-me, relutante, à mesa; havia um bule e duas xícaras de cerâmica marrom com formas desenhadas em diversos tons de verde. Dali emanava parte daquele cheiro de ervas que me atraiu ao jardim. Eu estava intrigada por ela saber meu nome. 

— Nós nos conhecemos? — Falei em dúvida enquanto apreciava aquele aroma que parecia me acalentar. Ela se levantou, caminhou devagar e se sentou à minha frente, sua aparência era amável. Sua pele branca marcada pelo tempo e levemente avermelhada por longas horas sob o sol. Vestia o que parecia ser uma túnica preta com pequenas flores vermelhas bordadas no busto. Um colar com um grande pingente dourado e uma pedra vermelha em seu centro e brincos com belas gotas negras. 

— Oh, não pessoalmente, mas eu a conheço, Rute-besin, sei que gosta de violetas, rosas, orquídeas, lírios, dálias... — Ela contava nos dedos enquanto falava. — E observar a fauna e a flora. Ah! Você possui uma orquídea roxa, que eu cultivei também. Espero que você esteja cuidando bem dela.  

Me lembrei da orquídea que apareceu em meu quarto depois do meu primeiro encontro com Drácula. Me perdi em pensamentos me lembrando daquele momento e do cheiro de rosas que Drácula possuía, o mesmo presente nas rosas do jardim. Ah! Era essa a lembrança que queria se formar. Senti um formigamento em meu braço ferido, que me trouxe de volta ao momento, e o levantei para olhar. Vi um belo besouro de um verde-esmeralda que eu nunca havia visto. Não é como se eu conhecesse todos os tipos de insetos existentes, mesmo tendo um apreço especial por insetos, mas esse besouro específico não parecia fazer parte de nenhuma fauna que eu conhecesse. Eu estava fascinada por aquele exoesqueleto brilhoso, ouso dizer que quase hipnotizada com seu andar lento sobre a minha ferida. Ele me lembrava os besouros da família Buprestidae, só que o brilho deles costuma ser metálico, esse possuía uma luminosidade que parecia emanar de dentro dele, de uma beleza única. 

— Oh, então é aí que você estava, Alyric-besin. Venha minha criança arteira. Já falei para você tomar cuidado por onde anda. — Ela retirou com delicadeza o besouro do meu braço, se levantou e o colocou com carinho no meio de algumas flores no jardim. — Ah, crianças, é uma pena que cresçam tão rápido e logo se vão. — Essas últimas palavras dela foram ditas com um certo pesar na voz. — Ela voltou à mesa e se sentou à minha frente. — Alyric-besin parece ter se afeiçoado a você, minhas crianças se sentem bem perto daqueles que os respeitam. — Enquanto falava serviu o chá quente com mãos cuidadosas. O cheiro se espalhou e era tão bom, respirei profundamente e assim encontrei de onde vinham aqueles cheiros que eu não sabia descrever muito bem, vinham do chá e da senhora a minha frente. 

— Tome, isso vai te ajudar, besin. Foi feito com uma planta que só cresce aqui, nas terras do castelo. Cura até as feridas da alma, é o que dizem. Talvez te ajude a ter uma boa noite de sono hoje. E a propósito meu nome é Ameritt. — Disse ela com o mesmo tom doce que usou para falar com o besouro.  

— Obrigada. E… prazer em conhecê-la. É... qual espé… — E lá estava eu de novo tropeçando em palavras, tentando formular uma pergunta. Inspirei e expirei, enquanto Ameritt, me olhava com paciência. — É…qual é a espécie daquele besouro? 

— É um Agrilus Eridahem. Essa espécie é endêmica do Castelo. Você só a encontrará aqui, são ótimos polinizadores, além de serem criaturinhas divertidas de se conversar. — Ela deu uma boa gargalhada ao dizer isso. — Excelentes companhias também. Vamos, beba seu chá, juro que ele irá te ajudar. 

Concordei com um aceno de cabeça, e inalei o vapor do chá antes de beber, o cheiro era muito bom e o seu calor parecia espantar o desânimo que me dominava. Bebi o chá e senti aquele sabor terroso e com um amargor suave, equilibrado com um toque de doçura e algo picante. Não importava o quanto eu tentasse, não conseguia identificar o sabor ou compará-lo a qualquer outro. O chá descia pela minha garganta, um calor aconchegante, como se me acariciasse por dentro, soltando todos os nós nas minhas entranhas. Ouvia Ameritt falar com um tom doce, quase que maternal, dos besouros que estavam sob seus cuidados. “Minhas crianças” ela dizia orgulhosa, detalhando tudo que elas faziam por ela e o que ela fazia por suas crianças. Que suas crianças conheciam todos os lugares do Castelo e cada hóspede nele. Falava sobre sua anatomia, sobre as plantas que eles mais gostavam de polinizar. Disse o quanto ficava triste por suas vidas serem tão curtas. E que depois de mortos fazia uma bela sopa de funghi com os besouros. Eu estava fascinada com a forma que ela falava sobre eles e ficaria a ouvindo por horas. Até que ela falou sobre comê-los, e percebeu meu semblante de dúvida.  

— Não, Rute-besin, eu não os mato, nunca. Apenas os como quando já se foram. Eles possuem propriedades mágicas, me alimentar deles é como ter um pouco deles dentro de mim. — Ela me olhou com um sorriso de pesar, e acenei com a cabeça para ela saber que eu compreendia. — Acabei me estendendo demais, quando começo a falar das minhas crianças acabo me empolgando um pouco. — Fez uma pausa e levantou com delicadeza sua xícara enquanto me olhava e tomou um gole do seu chá. — E você Rute-besin, tem algo a dizer? Você está muito tensa e abatida.  

De alguma forma aquele chá parecia ter não só soltado os nós das minhas entranhas, mas também a minha língua, pois quando dei por mim, eu já havia confessado mais do que pretendia. 

— Bem... Meu corpo anda cansado de sentir. Tenho tentado voltar à razão, mas estou cansada de pensar nela e ficar triste com isso. Tenho suspeitado que o castelo talvez tenha algo a ver com essa vontade de ir além do pensamento usual, da razão, da mesmice. Me sinto compelida a experimentar de tudo, provar hipóteses, fazer parte de experimentos. Como um…— Parei para respirar tentando encontrar as palavras. — Como um animal de teste, receptivo a qualquer experiência que me ofereçam. — Não conseguia segurar as lágrimas, comecei a chorar na presença de Ameritt, sem me preocupar se o que eu dizia faria sentido a ela ou não. Me envergonho de chorar na frente de outros, mas ultimamente tem sido difícil segurar qualquer sentimento dentro de mim. Ela assentiu em silêncio, os olhos fixos nos meus enquanto eu continuava. 

— E pensar que, desde que cheguei ao castelo, o explorei com terrível medo. Agora, me exponho a ele com curiosidade, sem cautela, procurando uma resposta que nem sei se eu realmente quero. — Comecei a gesticular de maneira incontrolável enquanto falava. — Todos esses sentimentos plantados, tão bem cuidados e nascidos por causa dela, todos cultivados, para no fim não valerem de nada, já que ela, a pessoa para quem cultivei tudo isso, não está mais aqui. 

Ameritt ficou em silêncio por um momento, depois colocou uma das mãos enrugadas sobre a minha, seu toque era leve e reconfortante. Reparei numa aliança grossa de ouro, de aparência bem antiga em sua mão esquerda.  

— Rute-besin, o luto é uma planta teimosa. Ele se agarra ao solo mais árido, mas o que você está sentindo não é apenas luto. Você sabe, o castelo tem uma vida própria, ele mexe com a mente e com o coração. Talvez ele esteja tentando te mostrar algo que você ainda não entendeu. Algo além do luto, além da razão. Espere aqui. — Ela se levantou e caminhou para além de onde minha visão alcançava, demorou alguns minutos. Minutos esses que aproveitei para me recompor e enxugar as lágrimas. E logo ela apareceu, com uma tigela de barro e uma colher de madeira em uma mão e um pequeno pote de vidro em outra. 

— Tenho algo para seu braço e para seu estômago. Para o caso de você continuar explorando hoje. — Colocou a tigela na mesa e olhou para mim como se pedisse minha permissão, pegou a pomada dentro do pequeno pote e a aplicou em meu braço com movimentos delicados, quase como se estivesse cuidando de uma planta ferida. O cheiro das ervas me acalmou e a pomada parecia diminuir aquele latejar insistente. 

— Esse castelo é uma entidade viva, Rute-besin. — Ela falava com uma voz baixa e suave. — Ele sente, ele responde. E ele tem segredos que nem mesmo eu, em todos os meus anos aqui, consegui desvendar. Mas uma coisa é certa, ele nos muda. E talvez, só talvez, ele esteja te preparando para algo maior do que seu luto. Algo que pode, de alguma forma, trazer um tipo de paz que você ainda não encontrou. Ou a resposta para uma certa questão que te perturba.  

Suas palavras pareciam me consolar. Algo além do luto, da razão, e talvez até da culpa. Ainda não sabia muito bem o que pensar, mesmo que eu sentisse o conforto com suas palavras naquele momento, eu ainda teria que refletir mais sobre aquilo.  

— Passe essa pomada duas vezes ao dia e ela vai sarar sua ferida. — Ela falou me dando o pequeno pote de vidro que coloquei no bolso da calça. — Arylic-besin disse que ela está infeccionando, então precisa de cuidados. Tome a sopa, ela também irá ajudar na cicatrização. 

Tomei a sopa devagar, sua textura cremosa. Seu sabor, assim como o chá, terroso, era como lamber o solo úmido de uma floresta. Não que eu tivesse lambido um, mas se tivesse esse talvez seria o sabor. O cheiro da sopa era como o de dias de chuvas em meio a natureza, só que ao invés de ter um cheiro fresco, ele era quente e reconfortante. Senti algo com a minha língua, os besouros, é claro. Mastiguei devagar, segurando a vontade de cuspir. Percebi Ameritt me olhando como se me analisasse. Senti a crocância do exoesqueleto, e para minha surpresa era bom, um sabor amadeirado com um leve amargor, me lembrava nozes. A sensação era de ter a natureza descendo para dentro de mim. Se assentado no meu corpo, se espalhando por meus nervos e músculos, me enchendo de vitalidade. Fluindo como um rio e repousando no jardim que parecia crescer em minhas entranhas. Terminei a sopa, Ameritt percebendo logo se levantou, pegou a tigela e a levou. Me levantei e fiquei em pé perto da mesa esperando sua volta. Ela voltou e logo me preparei para me despedir. 

— Sim, sim! É hora de você ir. E eu entendo. — Ela não me deu nem a chance de formular uma despedida, o que é o básico para se viver em sociedade, mas que às vezes é difícil para mim. — Rute-besin! Me prometa que vai voltar de novo e que vai tratar essas suas feridas. Nós vamos adorar a sua presença aqui mais vezes. — Ela segurou minhas mãos entre as suas, e de pé, perto de mim, pude perceber o quanto ela parecia frágil e pequena, mas seus olhos, de um azul acinzentado, diziam ao contrário. Sorri para ela. 

— Eu prometo que voltarei, e… obrigada pelo chá, a sopa…Ah! e a pomada também. — Disse sem saber mais o que acrescentar a esse péssimo agradecimento. Me sentia uma criança tímida perto dela. Soltei suas mãos e sai andando em direção ao castelo. Voltei para Ameritt para mais uma pergunta. 

— Para onde devo ir para talvez… — Novamente estava tentando encontrar as palavras. — Encontrar o que preciso? — Disse receosa.  

— Se você seguir para além desse jardim, bem ao fundo, talvez você encontre o que precisa no centro naquela floresta.  — Ela se virou e apontou para além de algumas árvores altas bem distante de onde estamos. — Tenha cuidado, minha criança, com o que pode encontrar lá. 

Agradeci e segui o caminho apontado por ela. Olhei para trás quando já havia alcançado alguma distância. E ela já havia voltado aos seus afazeres no jardim. Depois de me despedir de Ameritt me percebi inquieta, ansiosa para explorar o que mais tivesse para ser explorado. Enquanto caminhava pude observar como aquele jardim era bem cuidado. E a diversidade de flora que tinha nele. Se eu tivesse ficado lá e observado mais tempo, talvez também me surpreenderia com a fauna. Diversas estátuas de tamanhos diferentes espalhadas por diversas áreas do jardim e bem ao longe um grande chafariz, talvez de pedra, adornado pelo que parecia pequenos anjos, jorrava incessante uma água límpida. No ápice do chafariz havia uma escultura do que parecia também um grande anjo que transparecia certa introspecção. Talvez eu o veja mais de perto no futuro.  

Antes de entrar na floresta, vi que à minha esquerda havia um velho cemitério. A natureza parecia ter tomado conta daquele espaço, uma profusão de verde cobrindo o chão daquele terreno. Lápides antigas, algumas inclinadas, outras afundadas no solo, envoltas por trepadeiras e musgos que se agarravam às pedras desgastadas. Um belo mausoléu de pedra também envolto por musgo e rosa-trepadeiras, mas bem cuidado. Me senti tentada a seguir em direção a ele. Na minha direita, mais ao fundo do jardim, que agora eu estava saindo, tinha uma pequena casa de pedra. Rosas-trepadeiras, em tons de um vermelho profundo e outras em um rosa suave, entrelaçam-se pelas paredes de pedra, subindo ao longo das paredes, emoldurando a casa. Na entrada principal uma pequena escada de pedra que levava ao portal da casa. Os degraus desgastados pelo tempo, ladeados por mais rosas-trepadeiras. A porta com um arco de pedra que parecia me convidar. As janelas altas e abobadadas se estendiam do chão até o teto. O jardim ao redor da casa tinha caminhos sinuosos de pedras e canteiros cheios de flores. Se tivesse que adivinhar, coisa que não tenho o hábito, eu diria que aquela é a casa da Ameritt. 

Eu tinha que seguir em frente, para a floresta, esses lugares poderiam ser investigados outra hora. Andei um longo caminho no meio daquelas densas árvores e encontrei um arco de pedra em ruínas, envolto com trepadeiras e heras. No passado talvez tenha sido a entrada de uma pequena casa, mas agora era só ruínas. Havia um alçapão no chão de pedra, levantei a portinhola e olhei para a abertura. Uma luz bem fraca me fez enxergar uma escada. Inspirei e expirei, devagar comecei a descer. Me deparei com um portão de ouro velho, com um lampião que emitia uma luz fraca. Borboletas delicadas na cor de marfim, repousavam na superfície dourada. Como se tivessem guardando aquele portão velho por eras, talvez. Empurrei o portão devagar, para não assustar as borboletas. O portão cedeu com um gemido baixo. As borboletas permaneceram, fizeram apenas leves movimentos, desafiando qualquer explicação lógica que eu poderia encontrar para explicar aquele comportamento incomum.  

Passei por aquele portão, e para minha surpresa, encontrei uma biblioteca. Ah! Eu estava feliz, até que enfim uma biblioteca. O dia de hoje parecia estar bom demais para ser real e eu iria aproveitá-lo antes que eu, ou algo fora do meu controle, estragasse ele. A biblioteca estava envolta em relva e vegetação, era como se a natureza tivesse tomado aquele lugar para si mesma. O teto era de vidro, que permitia a entrada de uma luz difusa, que penetrava com dificuldade uma espessa camada de musgo e folhas que cobriam tudo. Eu estava dentro de uma estufa, sendo que desci por uma entrada subterrânea. A explicação lógica seria uma estufa subterrânea, escavada a vários metros abaixo da terra, com apenas o teto de vidro para a entrada da luz solar, que construção fascinante. Havia prateleiras com dezenas de livros empilhados, muitas delas estavam inclinadas pelo peso dos livros e talvez também por conta da umidade. Uma coleção de livros de biologia, alquimia, matemática, história e esoterismo. A pessoa dona dessa coleção talvez estivesse buscando respostas além da ciência e da magia conhecida. 

Conforme avançava, contemplando todos os títulos ali presentes, percebi alguns sinais no centro daquela estufa. Círculos desenhados no chão, agora cobertos de musgo e relva, velas derretidas. Em algumas prateleiras havia recipientes de vidro com substâncias que possuíam um brilho estranho. Quem quer que fosse a pessoa que utilizava esse lugar, tinha interesses bem peculiares. Segui mais adiante, e havia três portas, cada uma afastada uma da outra, quase que escondidas por camadas de musgo. Abri a primeira porta, e fui recebida por uma enxurrada de cheiros, ervas secas, enxofre, umidade e um leve cheiro de metal. Uma grande mesa de madeira maciça, havia um equipamento de destilação montado, com tubos e vidros sinuosos, conectados a alambiques, retortas e balões. Havia uma prateleira com diversas vidrarias, tubos e frascos. Havia sinais de, talvez, experimentos falhos, fragmentos de vidro quebrados, cobertos de ervas e manchas estranhas. Um almofariz com um pilão jogado a um canto da mesa, ao lado de uma balança e uma ampulheta. Ervas secas penduradas no teto. E, em um canto mais afastado da mesa, um forno. Eu me encontrava em um velho e abandonado laboratório.  

Sai dali e fui investigar as outras portas. A segunda porta resistiu às minhas tentativas de abri-la. Lancei meu corpo com força sobre ela, que finalmente cedeu. Entrei naquela sala escura e úmida, musgo e cogumelos cobriam tudo naquela sala, livros, móveis e quadros. Exceto um único livro fechado em um pedestal de pedra. Sua capa de um couro envelhecido muito escuro, quase preto, com finas ranhuras, bordas reforçadas com metal. As páginas amareladas que eu podia observar pelas bordas, o livro parecia estar em bom estado — levando em consideração tudo naquela sala. Me aproximei, hesitante, e o toquei e sua textura era áspera. Gravado na capa, finas linhas que se espalham, se emaranhado, formando um símbolo que não tem início nem fim.  Abri o livro e folheei algumas páginas e o que eu pude enxergar, com a pouca luz que entrava pela porta, fez irradiar do meu peito aquele formigar que me tira o sossego. Desenhos de criaturas que desafiavam a lógica, sua anatomia e anotações que eu não compreendia. Símbolos alquímicos, ciência e magia misturados entre rabiscos e ilustrações. Me forçar a compreendê-las fazia com que eu me sentisse à beira de um ataque de pânico.        

Fechei o livro com as mãos trêmulas e sorri comigo mesma, apesar do desconforto. Parecia que eu havia encontrado o que eu estava procurando. Fui até a terceira e última porta que abriu com facilidade, tinha muita umidade. As paredes e teto cobertos de musgo verde escuro, o chão tomado por um tapete de cogumelos de diversas cores, alguns até luminescentes. Todos espalhados em cada canto, outros também nas paredes, fazendo com que eu não conseguisse definir o que esse lugar poderia ter sido. Aquele cheiro forte de madeira em decomposição e umidade que alimentava os musgos e os cogumelos. Fechei a porta e voltei à segunda sala, hesitei, mas peguei o livro. Eu tinha que levar ele comigo. O som inesperado da chuva forte batendo no teto da estufa me alarmou. Batidas rápidas que logo aumentaram e ficaram intensas, gotas explodindo contra o vidro com violência, pareciam fazer o vidro vibrar. Coloquei o livro por baixo da camiseta e me preparei para enfrentar a chuva.  

Corri em disparada até o castelo, entrei e, mesmo já protegida da chuva, continuei correndo até chegar no quarto. Entrei, coloquei o livro na escrivaninha e tirei as roupas molhadas e as estirei em uma cadeira. Tomei um banho demorado, pois estava protelando para voltar para o quarto e encarar aquele livro. Saí e fiquei sentada na beirada da cama olhando para o livro. Pensei em Ameritt, com seu chá e seus besouros, quase como um sonho, se comparado com o que eu estava prestes a fazer. O castelo havia explorado os meus segredos, e agora eu estava começando a explorar ainda mais os seus. E talvez agora não houvesse mais volta. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Absentir-te

Virente arbóreo e úmido arrebol | Intenso verdinegro evanescente… | O fogo à vela é o único bel sol, | Enquanto uma elegia é confidente;...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Virente arbóreo e úmido arrebol 
Intenso verdinegro evanescente… 
O fogo à vela é o único bel sol, 
Enquanto uma elegia é confidente; 

Receio qu’encontrar-te é meu conflito, 
Aos poucos, ribanceira, entr’este ardor… 
Longínquo faz… no torso o manuscrito: 
Alálicas, as juras, amargor… 

Por que me foges, Áurea?” Porque sinto. 
O horror de não saber toda a verdade… 
Teu toque, a voz, o corpo, alma-absinto… 

E toda a traiçoeira ambiguidade… 
Ó, sonho! Deixe o pélago de mim 
Jazer n’este teu íntimo verdim
Pois sofro o ímpio mal da realdade. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Sacrifício

854 D.C. A tempestade torrencial açoitava a pele exposta de Mericus na escuridão da noite enquanto ele fazia o caminho para seu casebre...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

854 D.C. 

A tempestade torrencial açoitava a pele exposta de Mericus na escuridão da noite enquanto ele fazia o caminho para seu casebre. Resmungos pecaminosos escapavam de seus lábios enquanto a Morte dominava seus pensamentos.

Conseguia ver no horizonte a fraca luz do lampião pela janela do abrigo na floresta. Estaria ela ainda viva? Aguardando-o com o singelo e fragilizado sorriso que carregava há anos.

Abriu a porta feita de tábuas podres e empenadas e entrou em um cômodo único que não oferecia nada além de um teto de palha contra as intempéries do tempo.

Isabel estava deitada no chão de terra batida próxima à fogueira no centro da habitação. Coberta de suor, abriu os olhos com dificuldade ao ver o pai. Mexeu a boca para saudá-lo, mas a voz foi interrompida por uma crise de tosse que cobriu uma parte de seu rosto com sangue.

Mericus atravessou o ambiente correndo para se aproximar e cuidar dela. A jovem estava quente como se tivesse saído de um forno.

— Pai, está frio demais, dor demais… — Novamente a voz foi interrompida por outra crise. Mericus passou a mão na face dela para limpar o delicado e pálido rosto.

Há anos ele vivia para o trabalho na lavoura, trocando o que produzia por possíveis medicamentos ou tratamentos, mas a tosse com sangue não cedia e estava cada vez pior. Nunca a viu naquele estado antes. Pequena, magra como uma tábua e com não mais que quinze invernos de vida, agora estava branca como a lua que iluminava noites mais felizes.

Na última tentativa de tratamento, procurou a velha bruxa caquética que vivia na orla do vilarejo, o tipo de envolvimento que poderia acabar com ele sendo queimado na praça. Esse risco lhe rendeu um frasco sujo com um líquido preto e viscoso que só fez Isabel vomitar copiosamente por dias.

Agora começava a cogitar assaltar mercadores ou pessoas desprevenidas na estrada, talvez conseguisse juntar o suficiente para visitar o médico do duque na fortaleza próxima e…

Três pancadas altas vieram da porta, interrompendo-o abruptamente de seus devaneios. Não tinha nada de valor, mas Mericus apanhou o arado que estava próximo e abriu a porta, apontando o utensílio com falsa coragem para o visitante.

O sujeito era curioso, para dizer o mínimo. Pouco maior que a cintura de um homem adulto, com uma careca com tufos claros e parcos, usando vestimenta do mais fino trato que já vira, carregava um bastão com uma lanterna que iluminava metros na escuridão. Ele estava seco, como se não houvesse tempestade.

Ele abriu um sorriso sem dentes e lambeu a gengiva exposta entre o vão dos dentes frontais, como se saboreasse algo que estava guardando para um momento especial.

— Belíssima noite, Mericus. Ela ficará ainda mais bela em breve, lhe garanto. Me chamo Igor… O senhor do meu castelo convida-o ao nosso jardim. Soubemos que procura tratamento para sua filha.

— Como sabe da minha filha? — Ele balançou o arado contra o sujeito.

— Guarde isso antes que fure seu olho, rapaz. — Igor sorria com a boca desdentada e a gengiva inflamada. — Agora me siga antes que seja tarde demais para a pequena. É visível que ela está tendo uma péssima noite.

O homenzinho virou de costas sem esperar resposta e seguiu para o meio da floresta, alheio à tempestade que caía. Mericus, desesperado, aceitaria uma oferta até do diabo a essa altura. Largou o arado, cobriu a filha e a colocou no colo com cuidado, correndo para acompanhar a forte luz na escuridão.

Como se fosse mágica, rapidamente se encontrou fora da floresta em uma noite iluminada e sem chuva, à sombra de belas torres que nunca havia visto antes. Muralhas dignas de fortalezas se estendiam até onde conseguia ver. Havia um lago grande com águas estranhamente serenas que refletiam a lua como um espelho. Ocorreu um breve pensamento sobre como nada daquilo fazia sentido, mas apenas Isabel importava; qualquer reflexão diferente era rapidamente apagada de sua mente.

O homem andava em um ritmo acelerado demais para o próprio tamanho. Mericus, que sentia dores tremendas em todo o corpo por anos de trabalho pesado, tinha uma dificuldade séria em acompanhar o passo dele.

Igor parou de andar à porta de uma bela estufa, vasta e rica como os salões vikings das lendas que ouvia entre as raras bebedeiras que tinha com mercadores viajantes. Todo o trabalho metálico era feito de ouro. Ele olhou para Mericus, lambendo a gengiva novamente com júbilo enquanto observava o pai e a filha se aproximarem.

— Ameritt irá recebê-los. Aprecie sua estadia pelo tempo que for necessário. Alimento lhe será fornecido em breve. — Igor fez uma mesura tão profunda que quase encostou a testa no chão. Por alguma razão algo naquilo parecia ser chacota.

— Por que eu? O que esperam de mim em troca do tratamento da minha filha?

— Não será requisitado nada que não possa pagar. Nosso mestre é caridoso, quando lhe convém. Agora vá, encerre o sofrimento de sua filha. — Ele se virou e, com impressionante agilidade, se retirou para além da visão, deixando para trás apenas o rastro luminoso do lampião.

Mericus fitou a maçaneta de ouro com formato de rosas da grande porta dupla. Girou-a e foi prontamente engolido pelos variados cheiros de plantas que nunca vira. Na fraca luz das tochas, podia-se observar os mais variados tons de cores exóticas, raramente vistas aos olhos humanos. Em meio ao caos de tons, havia uma abundância de besouros verde-esmeralda que produziam um chiado constante, como se fosse uma música alienígena.

Camuflada entre a vegetação, uma senhora de idade avançada, mas ainda jovial, o observava. Ele podia jurar que, por um breve segundo, viu algo como pena em seus olhos, mas isso foi rapidamente substituído por um semblante de calma e simpatia. Ao lado dela, havia uma série de frascos estranhos com líquidos fumegantes e fogareiros.

— Seja bem-vindo, Mericus-besin e filha. Esta é a estufa Agrilus, meu pequeno pedaço de céu. Soube pela minha amiga da vila da triste situação de sua filha…

A porta se fechou sozinha atrás dele, talvez por causa do vento. Ele adentrou o recinto e se aproximou da senhora, sentindo-se observado por tudo que ali respirava.

— Obrigado por me receber, Ameritt. Tenho certeza de que minha filha também está muito grata pelo que está se oferecendo a fazer por nós. — Mostrando algum sinal de consciência em meio ao sofrimento, a pequena Isabel acenou com a cabeça.

— Não se preocupe. Agora a coloque na mesa; vamos deixá-la descansar. — Ameritt olhava fixamente as manchas de sangue que cobriam a face e a roupa da menina. A senhora emitiu um discreto estalo de insatisfação com a boca. — Será complicado e dolorido, mas vocês estarão saudáveis em breve.

— Como assim, "vocês"?

— Você está infectado também. — Respondeu Ameritt, mirando Mericus nos olhos, lembrando-se da precariedade que era a saúde e a higiene no período histórico do qual eles vieram.

Mericus acenou com a cabeça, tomado agora pela certeza da morte que o aguardava.

— Aos fundos desta estufa há uma árvore que está morrendo, mas que ainda carrega um único fruto. Pegue-o e traga aqui; vou começar a preparar o rem… poção que vocês irão tomar.

Ele deitou a filha sobre a mesa coberta de besouros que correram alucinados pela estufa. A respiração da menina emitia um chiado medonho e um cheiro podre subia da boca aberta dela. Fria como uma pedra, era evidente que ela não aguentaria muito mais. Era tudo ou nada. Ele respirou fundo; tinha muitas dúvidas, mas apenas havia esperança dentro de si. Encarou os olhos impassíveis de Ameritt por alguns instantes e seguiu para onde foi instruído.

A cada passo, a estufa ficava mais silenciosa e escura. Podia ouvir o barulho de seres desconhecidos se movendo rapidamente em meio à vegetação densa e alienígena.

Dentre todas as árvores que se encontravam dentro do ambiente, a que ela havia mandado procurar era a maior e, sem dúvida, próxima ao fim de sua existência. Não havia barulho algum ali, mas uma camada de besouros cobria o tronco como uma segunda casca inerte. Aquilo trazia a sensação avassaladora de estar sendo observado por milhares de pequenos olhos.

O fruto era vermelho, de um rubro sem igual, grande como a cabeça de uma pessoa adulta. Ele se esticou para alcançar o objeto de desejo sem sucesso. Saltou e sentiu a mão fechar sobre ele; houve resistência e, com um estalo alto, o galho cedeu. Revoltados com o incômodo, centenas de insetos voaram em protesto pela estufa.

Em meio à nuvem verde-esmeralda, Mericus levantou-se aterrorizado e correu às cegas para a entrada da estufa, carregando o grande fruto embaixo do braço.

Felizmente, ele chegou ao espaço onde a luz das tochas iluminava o ambiente; ali, por alguma razão, os besouros pareciam não se aventurar de forma tão agressiva. O olhar fulminante de Ameritt, no entanto, não o trouxe alívio.

A senhora demonstrava verdadeiro desconforto com algo que havia acontecido.

— Tudo bem, meu Mericus-besin? Está suado. — Ela abriu um sorriso falso, comum ao que se dá a visitas indesejadas que não saem de casa.

— Que merda são esses besouros? Eles me atacaram! Ou… não sei o que foi isso, pareciam me atacar.

— Lembre-se que aqui você é o convidado. Incomodar os moradores é rude. — Apanhou a fruta sem esperar a resposta, colocou-a próxima a cabeça de Isabel e com um único golpe ágil e forte de facão o dividiu em dois, regando os cabelos da menina.

Saía um belo líquido vermelho como vinho do fruto rico em nutrientes, cheio de vida e beleza. A velha espremeu a fruta sobre um caldeirão fumegante, tirando até a última gota. A espessa mistura chiava e borbulhava a cada gota que caia.

— Abelarda, a bruxa da sua vila, me contou sobre Isabel… Onde está a mãe dela? — A palavra "bruxa" foi enunciada com um certo desprezo, misturado ao evidente tom de raiva que emitia.

Com o coração ainda batendo na boca, ele respondeu com dificuldade:

— Morreu no parto. Isabel nasceu prematura e sempre foi muito doente. Há anos, tudo se resume a mim e a ela. Sou tudo o que ela tem, e ela é tudo o que eu tenho.

— Entendo. Parece ser um pai dedicado. Bom saber que há alguma vida que você respeita. — Ela discretamente observou o fluxo dos besouros ao fundo do recinto enquanto mexia a mistura, que ficava cada vez mais espessa. Um cheiro estranho e doce acompanhava a fumaça que subia. — Conte-me, o quanto estaria disposto a se sacrificar por ela?

— Morreria por ela, sem pensar. Qualquer coisa para vê-la feliz novamente.

Ameritt acenou conformada. Pegou uma caneca e, com hesitação, a encheu com o líquido quente, soprou sobre ele e entregou a Mericus.

— Prove, para saber o que será dado à sua filha.

Assustado com o líquido brilhante, olhou para a filha, que tossiu violentamente, como se a incentivasse. Sentiu uma tremenda dor no peito; havia perdido tudo na vida por ela e daria muito mais se fosse necessário. Segurava em sua mão uma possível cura, e era isso que importava.

O cheiro era doce e convidativo, e a aparência era mais atraente do que outras coisas que já dera a ela. Viu o ingrediente que fora usado: uma belíssima fruta.

Deu um gole farto.

O líquido parecia mel de tão doce; a textura também era similar. Sentiu o corpo se aquecer quando aquilo atingiu o estômago; as dores devido ao trabalho pesado que o acompanhavam há anos cederam e sumiram logo depois. Sentiu-se jovem, como se tivesse novamente vinte invernos. Sorriu de orelha a orelha, olhou para a senhora com alegria e reparou que ela também sorria, mas era um sorriso sincero desta vez.

— Bom, não? Agora vá para o fundo da estufa novamente, para descansar. Darei a poção para Isabel e ela o encontrará em seguida.

Atônito com o resultado, seguiu o comando sem emitir palavras. Sentia cada fibra do corpo como se fosse a primeira vez. A musculatura parecia ficar mais rígida a cada momento.

Chegou à árvore que definhava. Sentou-se ao lado dela, em meio aos besouros, e agradeceu pelo fruto salvador.

Mericus adormeceu e, enquanto sonhava com o sorriso da filha, raízes rasgaram sua pele com tremenda violência, enterrando-se no chão e conduzindo o sangue à terra, fertilizando o solo do Castelo sedento.

O corpo irreconhecível rapidamente foi tomado por uma nova forma, transformando-se em uma grande e forte árvore que aguardava a companhia gentil de Isabel pela eternidade.

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Escrito por Weslley Cunha, -Contos Weslley Cunha Escrito por Weslley Cunha, -Contos Weslley Cunha

Lymendra Em Desarmonia

A névoa espessa se agarrava às copas das árvores, envoltas em uma luz verde espectral. Em Lymendra, o verde não era apenas uma cor, mas uma força viva...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A névoa espessa se agarrava às copas das árvores, envoltas em uma luz verde espectral. Em Lymendra, o verde não era apenas uma cor, mas uma força viva, uma entidade antiga que sussurrava segredos através das folhas e raízes. A floresta respirava, e cada planta parecia observar atentamente o avanço de Naara, uma alquimista determinada a dominar o poder ancestral escondido naquele solo fértil e enigmático. 

Desde jovem, Naara fora instruída nas artes místicas da bruxaria, mas sempre sentira uma atração especial pela natureza. As lendas falavam de um verde capaz de transcender a vida e a morte, de segredos escondidos na profundidade das florestas, onde a vitalidade se entrelaçava com a decadência. Naara sabia que as respostas para a verdadeira transformação, tanto da matéria quanto de si mesma, residiam ali. 

À medida que ela avançava, o ambiente ao redor pulsava com uma energia quase consciente. As folhas, embora viçosas, revelavam veias escuras que indicavam o início de uma decomposição lenta, como se a própria natureza compreendesse o ciclo inevitável de morte. Naara sentia em seus ossos o peso da decisão que deveria tomar: avançar em sua busca pelos conhecimentos de Lymendra, e aceitar que o verde que tanto fascinava também trazia consigo a sombra da destruição. 

Naara não era a primeira a tentar dominar os segredos de Lymendra. A floresta estava repleta de ecos de outras mulheres que buscavam poder, sabedoria e transcendência. No entanto, o que a diferenciava das outras era sua compreensão da dualidade feminina – a vida e a morte, o nutrir e o destruir. O poder que ela buscava não era apenas sobre a criação de algo novo, mas sobre aceitar que para nascer algo, algo mais deve perecer. 

O vento trouxe consigo murmúrios, como vozes femininas entrelaçadas. As folhas dançavam em sincronia, como se reconhecessem a presença de Naara. Ela se aproximou de uma clareira, onde uma fonte de água verde-esmeralda jorrava lentamente. A luz ao redor parecia mais densa, e o ar se enchia de fragrâncias estranhas: aromas doces e pútridos, evocando tanto a primavera quanto o outono de uma única vez. 

No centro da fonte havia uma figura esculpida em pedra, uma mulher de formas arredondadas, símbolo da fertilidade e da destruição. Naara reconheceu a representação da Mãe Verde, a entidade guardiã de Lymendra. Os olhos da estátua pareciam segui-la, transmitindo uma sabedoria antiga e silenciosa. Ela sabia que aquele era o teste final. A água brilhante prometia o poder de regeneração, de renascimento, mas também sussurrava sobre a corrupção que viria com tal dádiva. 

Ao tocar a superfície da água, Naara sentiu o calor percorrer seus dedos, como se a fonte estivesse viva. Ali, o ciclo de criação e decadência se revelava em sua plenitude. As raízes ao redor se moveram levemente, como se estivessem prestes a enredá-la. A natureza parecia estender seus braços, oferecendo tanto acolhimento quanto a possibilidade de aprisionamento. 

Naara compreendeu que o verdadeiro poder feminino residia na aceitação dessa dualidade. Ela não precisava escolher entre florescer ou apodrecer – ela seria ambos. Com essa compreensão, ela mergulhou suas mãos na fonte, deixando o verde se infiltrar em seu ser. As folhas ao redor pareceram responder, vibrando em um uníssono sussurrante. Naquele momento, ela se tornou parte de Lymendra, tanto sua senhora quanto sua serva. 

O verde era vida e morte, cura e veneno. Naara não apenas dominou o segredo da alquimia, mas transcendeu a própria natureza humana tornando-se uma bruxa da natureza. Seu corpo pulsava com uma energia nova, porém, por baixo da superfície, a corrupção já começava a se enraizar. Ela sabia que pagaria o preço com o tempo, mas também sabia que agora possuía o poder de moldar o ciclo ao seu favor – de gerar e destruir conforme sua vontade. 

Lymendra florescia com a presença de sua nova guardiã. O verde profundo se intensificava, transbordando pelas raízes, folhas e flores. Naara se tornara a expressão máxima da força feminina: criadora e destruidora, vital e corrupta. Sob o olhar atento da Mãe Verde, ela caminhava com a certeza de que, para dominar o ciclo da vida, é preciso abraçar tanto a luz quanto a escuridão. 

Na escuridão das florestas de Lymendra, não era apenas a vida e a decadência que se enredavam em uma dança eterna, mas também forças antagônicas. Entre os segredos sombrios da floresta, um antigo alquimista chamado Varkas mantinha seus planos em segredo. Ao contrário de Naara, que buscava a simbiose com a natureza e o equilíbrio alquímico, Varkas via no poder verde de Lymendra uma ferramenta para o caos e a destruição e a transformação por meio do seu poder e de sua vontade. 

Varkas era um alquimista de habilidades excepcionais, mas sua ambição havia corrompido sua percepção da natureza. Em vez de harmonia, ele buscava usar os segredos da floresta para desmantelar a ordem natural. Seu objetivo era simples: dominar as forças de Lymendra para espalhar o domínio e posse. Ele acreditava que a natureza, em sua essência, não deveria ser controlada, mas sim desencadeada como uma força bruta, que consumiria tudo à sua volta. 

Varkas não agia sozinho. Em seus laboratórios escondidos nas profundezas da floresta, ele criava seres híbridos, misturas de plantas, carne e metal, que serviam como seus espiões e soldados. Essas criaturas, chamadas de espectros verdes, eram uma representação grotesca do potencial destrutivo da natureza corrompida pela ambição humana. Suas presenças eram notadas pela vegetação morta e pelo ar pesado e tóxico que se espalhava por onde passavam. 

Entre os espectros verdes, havia uma comandante: Soraya, uma bruxa alquimista traída pelo destino, cuja lealdade a Varkas vinha da promessa de vingança contra aqueles que haviam destruído sua família. Sua habilidade em controlar raízes e plantas era temida até pelos seguidores de Naara. Soraya trazia consigo uma dor profunda que alimentava seu desejo por vingança, tornando-a uma adversária perigosa e implacável. 

Enquanto Naara buscava a integração com Lymendra, Varkas pretendia corromper a natureza, destruindo tudo que fosse vivo. Para isso, ele estava determinado a tomar o poder que Naara havia conseguido ao se conectar com a Mãe Verde. Ele acreditava que, ao absorver a energia vital de Naara, seria capaz de libertar um ciclo interminável de destruição e recriação das suas vontades, onde a natureza e a humanidade se submeteriam à sua tirania. 

O confronto entre Naara e Varkas, então, seria inevitável. Naara precisaria buscar aliados entre as criaturas da floresta: espíritos antigos, guardiões vegetais e seres etéreos que vagavam entre os limites da vida e da morte. Entre eles, destacava-se Lira, um espírito da floresta, meio planta, meio mulher, que habitava os pântanos de Lymendra. Lira era conhecida por suas habilidades curativas e por seu profundo conhecimento das raízes da floresta. Embora desconfiada dos humanos, Lira estava ciente do perigo que Varkas representava e poderia ser convencida a ajudar Naara. 

Outro personagem importante seria Iro, um caçador de sombras que se movimentava entre os limites da floresta e as aldeias circunvizinhas. Ele tinha um passado sombrio com Varkas, que havia destruído sua tribo e o deixado marcado por cicatrizes tanto físicas quanto espirituais. Iro possuía conhecimentos táticos valiosos e uma conexão misteriosa com a fauna local, podendo se comunicar com animais e direcioná-los em combate. 

Naara mantinha a postura firme enquanto encarava Varkas, mas por dentro, sentia o desconforto crescer. Ele não havia se movido, mas algo no ar mudou; era como se a natureza ao redor se curvasse levemente, como que respondendo ao comando de um mestre sombrio. Varkas sorriu, percebendo a tensão. 

— Você realmente acredita que pode me impedir? — Ele disse com um tom suave, quase sedutor. — Eu poderia acabar com esta floresta agora, se quisesse. Veria o verde que tanto ama apodrecer em segundos. 

Com um gesto discreto, Varkas ergueu uma mão e sussurrou palavras em uma língua antiga. As raízes das árvores ao redor começaram a tremer, e uma onda de energia negra percorreu o solo. Um pequeno trecho da vegetação diante deles se retorceu e murchou, transformando-se em uma mistura de cinzas e veneno. O cheiro acre se espalhou pelo ar, sufocando. 

Naara recuou um passo, mas controlou a expressão para não revelar o medo que brotava em seu peito.  

— Você quer me intimidar? Isso só reforça o quão desesperado você está. — Varkas abaixou a mão, mas o estrago já estava feito. Ele se aproximou lentamente, seus olhos ardendo de malícia. 

— Isso foi apenas um vislumbre. Ainda há tempo para evitar uma catástrofe. Junte-se a mim, Naara. Ou será consumida pelo próprio amor que tem por essa terra. 

Ao dizer isso, ele se virou e desapareceu nas sombras da floresta com Soraya ao seu lado. Naara permaneceu imóvel, tentando processar o que acabara de presenciar. O que ele mostrou foi pouco, mas o suficiente para plantar o medo de que toda a beleza e harmonia de Lymendra poderiam ser destruídas. 

Nos dias seguintes, o peso das palavras de Varkas parecia se enraizar na mente de Naara. Caminhando sozinha pelos bosques, ela refletia sobre seu propósito. O verde ao seu redor representava mais que poder; era a vida em sua plenitude, o ciclo de crescimento, morte e renascimento. Ser uma bruxa e uma mulher significava não apenas proteger esse ciclo, mas também se afirmar como a guardiã da essência da criação e da destruição equilibradas. 

Certa noite, enquanto Naara se concentrava em um ritual, sentiu a presença de Lira. A guardiã das raízes se aproximou com seu andar gracioso e sereno, trazendo consigo a fragrância úmida da floresta e o som sutil das folhas sussurrantes. 

— Você está perturbada, Naara — disse Lira com sua voz que parecia emanar das profundezas da terra. — Mas o que Varkas mostrou não é o verdadeiro poder. O verde não se curva à vontade de um tirano. Ele pode tentar corromper a natureza, mas nunca terá o controle total. 

Naara respirou fundo, olhando para a companheira. 

— E se ele conseguir destruir o que eu amo? Se o caos que ele deseja realmente acontecer? Tudo pelo que lutei, o equilíbrio, a harmonia... tudo isso pode ser devorado. 

Lira se aproximou mais, pousando uma mão suave no ombro de Naara. 

— Lembre-se, o verde não é só o florescer, mas também a decadência. Ambos são faces da mesma moeda. Você, como mulher e bruxa, entende o ciclo como ninguém. Nós, os espíritos da floresta, estamos com você. Sentimos seu amor pela natureza e sabemos que você é mais do que capaz de enfrentar o que está por vir. 

Os olhos de Naara se encheram de determinação renovada. 

— Você tem razão, Lira. O que Varkas vê como fraqueza é, na verdade, o meu maior poder. Se ele quer guerra, a natureza irá se erguer com toda a sua força. 

Lira sorriu com leveza. 

— Estamos todos prontos. Quando a hora chegar, você não estará sozinha. O verde lutará ao seu lado. 

As palavras de Lira trouxeram um conforto inesperado para Naara. Sentiu a energia da floresta se alinhar com sua própria, como se cada folha, raiz e espírito estivesse se preparando para o confronto. Ela sabia que a guerra viria, mas estava decidida a lutar não com o medo que Varkas tentou plantar, mas com o amor profundo que nutria pelo ciclo natural de Lymendra e pela força que, como mulher, se afirmava em cada feitiço, em cada decisão. 

Varkas observava as estrelas através das copas das árvores, uma serenidade gélida em seu olhar. Sua mente vagava por lembranças de quando, séculos atrás, ele se apaixonara pela natureza. Naquela época, ele via na harmonia da vida e na delicadeza dos ciclos naturais um reflexo do que poderia ser a beleza suprema. Dedicou-se a compreender cada segredo, cada nuance da vida que pulsava ao seu redor. No entanto, com o tempo, a perfeição desse equilíbrio começou a lhe parecer entediante, previsível demais. A natureza seguia seus ciclos, mas onde estava a verdadeira força? A vontade que deveria guiar o caos? 

O problema, concluiu Varkas, era o próprio equilíbrio. Uma natureza em que tudo se ajustava, em que tudo se regenerava, não era uma expressão de poder, mas de passividade. Ele se cansou dessa visão limitada. Percebeu que a beleza verdadeira não residia na repetição cíclica, mas em algo mais ousado, algo que só poderia ser alcançado com uma força superior — uma força que ele mesmo moldaria. 

— Natureza necessita de vontade. — Sussurrou ele para si mesmo. — Um poder que a transcenda, que a conduza para uma forma mais elevada, única. Não basta que ela siga seus ritmos; ela deve ser forjada, dobrada àquilo que é grandioso e sublime. 

Nos séculos que se seguiram, Varkas dedicou-se a dominar a alquimia não para preservar a vida, mas para modificá-la. Ele desejava criar algo que fosse uma extensão de sua própria visão, onde cada ser, cada planta, cada fibra do mundo fosse uma manifestação de sua vontade. Em sua mente, a natureza era uma criação bruta que necessitava de refinamento. Se ela não pudesse ser moldada para atingir essa beleza única, então que perecesse no caos que já existia em suas profundezas. 

Para Varkas, o caos era uma força latente que sempre esteve presente na natureza. Destruição e criação se alternavam, mas sempre dentro de limites, dentro de um ciclo que ele desprezava. Por que aceitar esse ciclo quando a vontade de um ser superior poderia romper com essa limitação? Ele já havia decidido: ou a natureza se submeteria a ele e se transformaria em algo grandioso e eterno, ou ele a aniquilaria. 

Enquanto Naara se preparava, ele também se concentrava. Sabia que seu poder ainda não havia sido revelado por completo. O que ela viu foi apenas uma demonstração. Mas o verdadeiro teste estava por vir. Se ela ousasse desafiá-lo, ele destruiria não apenas as formas de vida que ela amava, mas corromperia o próprio conceito de beleza natural. Porque, para Varkas, ou o mundo existiria sob sua ordem ou ele cairia no caos eterno. 

Essa era a convicção que o movia, e não havia retorno. A decisão já fora tomada há muito tempo: a natureza se dobraria à sua vontade, ou tudo pereceria. 

Varkas não era um estrategista envolvido em intrigas ou segredos. Sua motivação era clara como a luz do dia: lutar por suas convicções e pelo poder que ele dominava há séculos. Como um dos seres mais antigos e poderosos de Lymendra, ele via a luta como uma questão de princípios. Não havia planos ocultos ou artimanhas; o que movia Varkas era a sua crença inabalável de que a natureza deveria se submeter à sua vontade, ou então perecer. 

Embora desprezasse a maneira como Naara entendia o ciclo natural — como algo sagrado, guiado pela sabedoria e pelo equilíbrio — ele não subestimava o poder de sua oponente. O respeito que sentia por Naara residia no fato de que, apesar de sua juventude em comparação a ele, ela era uma verdadeira força da natureza. Para Varkas, isso tornava o embate ainda mais digno, um confronto entre duas visões opostas do mundo, em que apenas uma poderia prevalecer. 

Ele escolheu o dia do confronto com propósito. A data marcava a passagem entre o verão e o inverno, um instante raro em que essas duas potências naturais coexistiam, refletindo o equilíbrio dinâmico que ele tanto desprezava, mas que Naara valorizava. O campo de batalha seria a árvore mais antiga e venerada de Lymendra, conhecida como a Árvore de Contenção. Essa árvore, que abrigava em suas raízes e galhos a sabedoria acumulada de eras, era o ponto de conexão entre a força vital e o conhecimento ancestral da natureza. 

Naara, por sua vez, sabia do encontro iminente. Os espíritos da floresta já haviam lhe revelado a data e o local. Ela também compreendia que, em termos de idade e experiência, estava em desvantagem. No entanto, a escolha dos espíritos por ela como guardiã da natureza não fora em vão. Naara possuía um poder oculto, profundo e selvagem, que ainda não havia se manifestado em sua totalidade. Era uma força bruta, mas sábia, que refletia o ciclo eterno da criação, destruição e renascimento. Para ela, essa luta não era sobre vencer um oponente, mas sobre proteger a harmonia intrínseca que permeava todas as coisas. 

Enquanto o dia se aproximava, tanto Varkas quanto Naara se preparavam à sua maneira. Ele, reforçando sua determinação de moldar a natureza ou destruí-la; ela, consolidando suas convicções de que os ciclos da natureza não poderiam ser forçados ou distorcidos. Ambos sabiam que o confronto na Árvore de Contenção não seria apenas um embate de poderes, mas um duelo entre duas filosofias, duas forças elementares em busca de supremacia. 

O encontro seria uma batalha não só de força, mas de vontade. Varkas, com sua visão implacável de domínio absoluto, e Naara, com sua crença na sabedoria do ciclo natural, estavam prontos para lutar até o fim pelo que acreditavam ser o verdadeiro destino da natureza. 

No centro da floresta, sob o dossel das folhas que sussurravam segredos milenares, o encontro tão aguardado aconteceu. A Árvore de Contenção se ergueu como um monumento de eras passadas, testemunha silenciosa da guerra que estava prestes a começar. Varkas e Naara se encararam, a tensão no ar vibrando como uma corda prestes a se partir. 

Antes que os poderes fossem liberados, Varkas fez um último apelo: 

— Naara, junte-se a mim. Não percebe que a natureza é mais do que um ciclo eterno? A verdadeira essência dela é a vontade de se expressar, de moldar o mundo com poder e intenção. A natureza não deve ser prisioneira de seus próprios ritmos; deve se libertar, transcender os limites impostos por esse equilíbrio que você tanto defende. Juntos, poderíamos recriar este mundo, elevar sua beleza a níveis jamais imaginados. 

Naara, com uma serenidade profunda, respondeu:  

- Varkas, você se perdeu em seu desejo de domínio. A potência da natureza já reside na sabedoria dos seus ciclos. Há espaço para vontade, para expressão e mudanças, mas isso deve ocorrer dentro da harmonia dos ciclos naturais. A natureza se recria através desses ciclos; eles não são correntes, mas uma dança complexa onde tudo encontra seu lugar. O que você propõe é destruição, pois ao romper essa harmonia, nada além do caos prevalecerá. Você cega-se ao achar que pode subjugá-la sem consequências. 

Varkas não respondeu com palavras; a raiva e a convicção se refletiram em seus olhos enquanto a energia ao seu redor começava a pulsar. Ele levantou os braços e conjurou um vento tempestuoso que arrancou árvores pelas raízes, transformando-as em lanças mortais que voavam em direção a Naara. Ela se defendeu erguendo uma barreira verdejante de vinhas e galhos, mas as lanças de Varkas perfuraram sua defesa com facilidade. Naquele instante, a guerra começou. 

Varkas lançou as forças da natureza em fúria: trovões, tempestades, e o próprio solo rugindo enquanto abismos se abriam sob os pés de Naara. Ela, em resposta, convocou os espíritos da floresta, que assumiram formas tangíveis — lobos de sombras, raízes que se moviam como serpentes, e árvores que se animavam como guardiões vivos. A batalha se espalhou por toda Lymendra; seres secundários e aliados de ambos os lados se enfrentavam em combates ferozes. De um lado, as criaturas distorcidas por Varkas, moldadas para servir seus propósitos; do outro, os protetores da natureza que lutavam para preservar o equilíbrio. 

No meio da intensa batalha entre Naara e Varkas, havia Soraya, a poderosa alquimista ao lado de Varkas, cuja presença sombria era tão devastadora quanto a de seu mestre. Soraya era uma mulher implacável, cuja obsessão pela destruição e pela transformação caótica da natureza se manifestava em suas artes sombrias. Juntos, Varkas e Soraya moldaram aberrações grotescas — criaturas que combinavam partes de plantas, animais e minerais em formas distorcidas e violentas. 

Lira, por sua vez, enfrentou essas monstruosidades com determinação e sabedoria. Usando a pureza dos espíritos da floresta e sua conexão com a harmonia natural, ela conseguiu desfazer muitas das criações de Soraya. Os monstros se fragmentavam em poeira e folhas secas quando atingidos pela força restauradora de Lira, retornando ao ciclo natural de vida e morte. Lira lutou com graça e precisão, mostrando que o poder da natureza, quando guiado pelo equilíbrio, era capaz de superar até mesmo as corrupções mais profundas. 

Porém, quando o confronto direto entre Lira e Soraya se iniciou, o equilíbrio foi rompido. Soraya era uma mestre da alquimia destrutiva, manipulando não apenas a matéria, mas também as emoções sombrias e as energias caóticas que regiam o universo. Ela conjurava tempestades de cinzas e redemoinhos de vento gélido, que cortavam o ar como lâminas. Lira tentou conter esses ataques com as forças da luz e da vida, mas Soraya se mostrou um desafio além do que Lira havia enfrentado até então. 

Soraya atacava não só com força bruta, mas com uma precisão calculada. Ela identificou os pontos fracos nas defesas de Lira e explorou cada um deles. Enquanto Lira tentava purificar as energias malignas que Soraya lançava, a alquimista das sombras usava o poder da decomposição, corrompendo os próprios espíritos que Lira convocava. A cada troca de feitiços e ataques, Lira percebia que sua energia estava sendo drenada, enquanto Soraya parecia se fortalecer com cada onda de destruição. 

No momento crucial do confronto, Soraya aprisionou Lira em uma teia de energia densa e tóxica, feita de vinhas espinhosas e pedras enegrecidas, que se apertavam ao redor de sua oponente. Lira, lutando com todas as suas forças, não conseguiu se libertar. Com um sorriso frio, Soraya lançou um golpe final, envolvendo Lira em uma espiral de escuridão que cortava sua conexão com os espíritos da floresta. Naquele instante, Lira foi subjugada e afastada da batalha, enfraquecida e incapaz de continuar lutando. 

Apesar de derrotar Lira, Soraya ainda não conseguira romper a força dos laços espirituais que Naara mantinha com a natureza, e sua vitória parecia incompleta. Enquanto Naara se reerguia, invocando o poder oculto que repousava em seu interior, Soraya percebeu que, mesmo com a vantagem momentânea, o verdadeiro confronto estava longe de terminar. O duelo entre Naara e Varkas, com Soraya ao lado de seu mestre, estava prestes a alcançar o clímax. 

Mas quando Naara finalmente desbloqueou todo o seu poder, a maré da batalha mudou. Soraya, que tanto confiava na destruição como caminho para a supremacia, viu sua força ser engolida pela pureza avassaladora das forças naturais comandadas por Naara.  

À medida que a batalha se intensificava, Naara e Varkas se enfrentavam em um duelo épico, cada um utilizando suas habilidades e poderes ao máximo. A Árvore de Contenção, o cenário escolhido para esse confronto, parecia pulsar com a tensão dos dois lados. As forças de Varkas, encorajadas por Soraya e suas monstruosidades, eram uma tempestade de caos e destruição. Os monstros criados por Varkas avançavam ferozmente, enquanto Soraya manipulava as energias de decomposição para desgastar e enfraquecer as defesas de Naara. 

Naara, com sua conexão profunda com a natureza, conjurava feitiços de proteção e ataque, sua magia envolvendo o ambiente com uma aura de vitalidade e força. Cada golpe que ela desferia era uma tentativa de restaurar o equilíbrio, enquanto Varkas buscava moldar a natureza de acordo com sua própria visão distorcida. 

O confronto entre Varkas e Naara começou com uma troca de magias devastadoras. Varkas utilizava seu conhecimento ancestral para manipular as energias da natureza de forma destrutiva, criando fissuras na terra e tempestades de energia corrosiva. Naara contra-atacava com feitiços de restauração e força vital, tentando conter os ataques e restaurar o equilíbrio ao ambiente. 

Durante a batalha, Naara começou a sentir o peso das forças que Varkas estava empregando. Varkas, com seu conhecimento profundo da natureza e sua capacidade de moldá-la de maneiras caóticas, foi mostrando a ela o que ele havia realmente planejado. Ele convocou uma série de forças destrutivas que quase romperam as defesas de Naara. A cada ataque, ela via o que amava sendo destruído: árvores antigas se despedaçando, criaturas da floresta sendo corrompidas e o solo sendo transformado em uma paisagem desolada. 

Com sua magia em risco de ser superada, Naara usou todo o seu poder oculto em um último esforço. O seu grito de batalha ressoou por toda a floresta, convocando uma onda de energia pura e vital que inundou o campo de batalha. O poder de Naara, agora totalmente liberado, envolveu Varkas em um turbilhão de energia que desfez suas magias e o enfraqueceu severamente. 

Varkas, percebendo que a derrota era inevitável, tentou um último ataque desesperado, mas foi interrompido pela força avassaladora de Naara. Com uma explosão de luz verde e ouro, Naara selou o destino de Varkas, anulando seu poder e causando sua derrota final. O vilão, que havia buscado a aniquilação e o caos, foi consumido por sua própria destruição. 

Com a batalha vencida e a ameaça de Varkas e Soraya eliminada, Naara se voltou para a floresta devastada. O desfecho trouxe uma mistura de vitória e reflexão profunda. Ela se aproximou da Árvore de Contenção, agora danificada, mas ainda imponente, e começou a refletir sobre tudo o que havia acontecido. 

Lira, embora enfraquecida pela luta, conseguiu se erguer e se aproximar de Naara. Ela falou com sabedoria e carinho, lembrando-a da importância do equilíbrio na natureza. - O equilíbrio foi restaurado, Naara, mas a natureza é uma força que nunca para. O que aprendemos hoje é que a transformação não exclui o respeito pelos ciclos naturais. A vontade de moldar e mudar deve sempre dialogar com a sabedoria da natureza. 

Naara ouviu atentamente, absorvendo cada palavra. Ela percebeu que, apesar da vitória, havia uma lição importante a ser aprendida. O desejo de Varkas por controle absoluto e a destruição total eram extremos que não respeitavam a essência da natureza. No entanto, também reconheceu que sua própria abordagem precisava de evolução. Era necessário que sua vontade de transformar e proteger a natureza fosse guiada por uma compreensão mais profunda dos ciclos naturais. 

Enquanto os espíritos da floresta, que haviam estado ao seu lado durante a batalha, surgiam ao seu redor, Naara sentiu um profundo sentido de conexão e responsabilidade. Ela sabia que a luta não havia sido apenas contra Varkas e Soraya, mas também uma prova de suas próprias capacidades e limites. 

Naara concluiu que, para proteger a floresta e seus ciclos sábios de força, poder, criação, destruição e recriação, ela precisaria continuar crescendo em sabedoria e força. A natureza ainda escondia segredos que ela precisava descobrir, e perigos maiores poderiam surgir. Sua jornada estava longe de terminar. Ela havia vencido uma batalha importante, mas a compreensão e o respeito pelos aspectos ocultos da natureza seriam essenciais para seu papel como guardiã. 

Com uma determinação renovada, Naara se preparou para o futuro, ciente de que a verdadeira força reside na capacidade de transformar e respeitar a natureza em seus múltiplos aspectos, sempre ouvindo e aprendendo com os seus ensinamentos profundos. 

A floresta ficou em silêncio. Os espíritos se reuniram ao redor de Naara, reconhecendo-a como a nova guardiã sem contestação. Mas enquanto o ar se acalmava e a paz voltava a reinar, Naara se permitiu uma reflexão. 

Varkas não estava de todo errado. A natureza realmente precisava de vontade e intenção para moldar certos traços, para responder às mudanças e desafios que surgem ao longo do tempo. Ser um guardião da natureza não era apenas preservar o que existia; era também abraçar a capacidade de transformar, de criar novas possibilidades. No entanto, essa transformação só poderia ocorrer dentro do diálogo com os vários aspectos da natureza, respeitando seu ritmo e ouvindo sua sabedoria. A chave estava no equilíbrio entre vontade e ciclo, onde a mudança e a preservação se entrelaçavam, resultando em uma evolução harmoniosa. 

Naara sabia que, apesar de sua vitória, ainda havia muito a aprender. A natureza guardava muitos segredos, algumas partes dela ainda inexploradas, poderes desconhecidos que poderiam representar novos perigos. Ela sentia que espíritos mais antigos e poderosos aguardavam nas sombras, observando, esperando o momento certo para se revelarem. Para enfrentar o que estava por vir, Naara teria que se tornar ainda mais sábia, fortalecendo não apenas sua conexão com a natureza, mas também a compreensão das forças e intenções que permeiam o mundo ao seu redor. 

E assim, como a nova protetora de Lymendra, Naara seguiu em frente, sabendo que sua jornada estava longe de acabar, pois o verdadeiro poder residia na união da natureza e da vontade consciente, uma dança eterna entre criação e transformação. 

FIM!

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O jardim estava envolto em uma tranquilidade quase palpável, o ar estava fresco e carregado do aroma que as flores exalavam. A mulher, que a cada dia trazia mais vida àquele jardim e que agora se sentia em casa ali mais do que se sentira em vida, contemplava suas rosas negras. Foi então que a ceifadora apareceu, como sempre fazia, sem aviso, apenas emergindo das sombras com um sorriso misterioso nos lábios. Ela trazia consigo uma pequena cesta de vime, com diversas mudas ainda frescas. 

— Trouxe algo para você. —  Disse a ceifadora entregando a cesta à mulher. 

Os olhos da mulher brilharam ao ver as mudas, não conseguiu segurar tamanha felicidade e sorriu. E isso se tornara mais comum agora. Ela olhou e não reconheceu algumas das flores, com folhas que eram de um verde profundo, e outras com pétalas de um vermelho sangue tão vibrantes. 

— Onde você conseguiu essas belezas? — Perguntou curiosa. 

— Com a jardineira do Castelo Drácula. — Respondeu a ceifadora com um leve aceno de cabeça. — Ela me deve alguns favores. 

— Alguém nesse castelo não te deve algum favor? — Perguntou a mulher rindo. 

— Escuta moça, o que posso fazer se sou uma pessoa muito requisitada. — Ela respondeu usando uma certa afetação na voz. — As pessoas me pedem favores, dessa forma me devem favores, simples. 

— Entendi. —  A mulher disse ainda rindo. 

Sem perder tempo, a mulher se ajoelhou na terra macia e escolheu com cuidado os lugares onde plantar cada muda. Movia as mãos com delicadeza, plantando cada nova vida que ela iria cultivar naquele solo incomum. Enquanto trabalhava no jardim, a ceifadora ficou em silêncio, a observando, até que a mulher quebrou o silêncio, falando com suavidade. 

— Sabe, eu encontrei paz no ócio. — Começou ela, seus olhos ainda fixos na terra enquanto plantava outra muda. — Mesmo que, de vez em quando, eu esteja aqui, no jardim cuidando das plantas, eu não vejo isso como um trabalho, não como via antes, em vida. 

A ceifadora continuou em silêncio, esperando que a mulher continuasse.  

— Antes de tudo isso. — Disse a mulher, se referindo a sua vida passada. — Eu tinha uma vida agitada. Não conseguia parar, eu precisava estar sempre fazendo algo, sempre produzindo. Parar para descansar era perigoso, porque se eu parasse, começava a ouvir minha própria voz na minha cabeça. — Ela fez uma pausa, sua expressão se tornou distante por um momento, como se estivesse revivendo memórias que havia tempo não visitava. 

— Essa voz… — Parou tentando encontrar as palavras certas. — Ela insistia em me lembrar do quão sem propósito minha vida era, do quanto eu estava errada por ter virado as costas a Deus e à minha família por amor. Eu nunca me sentia como se estivesse fazendo o suficiente. Nunca. 

A ceifadora escutava tudo com atenção, mas seu silêncio era de compreensão, permitindo à mulher um espaço seguro para ela desabafar. 

— Aqui no jardim. — Continuou a mulher, agora plantando a última muda. — Eu sinto que estou experimentando uma vida de paz, mesmo que na morte. — Ela riu. — Parece meio complexo, mas a clareza que eu não tinha em vida, agora eu a possuo. E aquela voz, eu consegui silenciá-la. — Ela terminou de plantar e se sentou na terra ao lado das novas mudas, contemplando seu trabalho com um sorriso suave. — Não há mais aquela pressão incessante, aquele vazio que parecia sempre me consumir. Agora, eu só existo, e isso basta. 

A ceifadora, ainda de pé ao lado dela, olhou para o jardim à sua frente, e contemplou toda a vida que a mulher havia trazido para aquele lugar.

— Você encontrou seu lugar. —  Disse a ceifadora em voz baixa.

— Sim, e por mais estranho que pareça, estou feliz por ter encontrado essa paz na morte. — A mulher acenou com a cabeça.

A ceifadora deu um passo à frente e estendeu a mão para ajudar a mulher a se levantar.

A mulher aceitou a mão da ceifadora, levantando-se com leveza.

— Obrigada. — Sussurrou. — Então, o que vamos jogar hoje?

— Ah, sim! Hoje vamos jogar senet. — A ceifadora foi caminhando até a mesa, pegou sua maleta e tirou o tabuleiro de dentro.

— Nunca joguei esse.

— É fácil, um pouco parecido com um gamão. Existe a lenda de que, para sua alma ir para o paraíso, a pessoa deveria vencer Rá numa partida de senet. — A ceifadora falou com um tom de mistério na voz.

— Isso é sério?

— Talvez sim. — Disse a ceifadora enquanto separava as peças. — Mas duvido que você trocaria esse paraíso por outro que desconhece. — Ela sorriu, olhando para a mulher que retribui o sorriso. — Vamos começar.

A ceifadora sabia que, independentemente do que viesse a seguir, aquele jardim seria o lugar onde a mulher havia encontrado a paz que sempre buscou em vida e nada, nem ninguém, conseguiria mudar isso. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Pela primeira vez, em muitos dias, resolvi caminhar pelo ambiente exterior do castelo. Estranhamente animado, de alguma forma seguro após me deter na leitura e refletir sobre os escritos que chegam à minha mão (oriundos de quem me informa, involuntariamente, acerca do ambiente lá fora), me fiz levantar e partir desabalado pelas escadas do recinto.  

Também penso que não tenho muito com o que me preocupar. De acordo com minhas próprias conclusões — e já tendo passado por experiências suprafantásticas aqui —, o simples fato de ser recebido de portas abertas, e sendo dispostas para mim toda sorte de atmosfera e meios para dar vazão ao meu estro criador, devo interpretar como convites para uma venturosa exploração… 

Sobre aquele ainda marcante episódio fantasmagórico, em que me vi envolto nos braços de uma figura quase espectral, devo assumir que não me percebo mais completamente refém de algum sintoma… Pelo contrário, passado um longo período desde aquele ocorrido, parece até que fui vítima de algum delírio, alguma febre suscitada por demais imaginar o que se passa por aqui. É como se tivesse sonhado: ainda com memórias do acontecido, mas com dificuldades para expressar o fato… Se aquela mulher foi ou não, de fato, uma criação da minha mente, só me resta esperar… 

Agora, o que me chamou bastante atenção durante essa minha fuga do lugar-comum, e que não posso negar que tenha seu pé na realidade, foi aquele capcioso silêncio… Melhor dizendo (para mais objetivamente me referir ao testemunho e não enganar meus próprios sentidos), notei uma quietude não observada antes, ao passar em frente a algumas salas cujos ocupantes eu já havia visto. Estranhei, pois considerava ali, atrás daquelas portas, a razão de tantos poemas, contos e outras criações que brotam e dão vida a esse castelo. Passando diante daqueles cômodos (que certamente serviam à intimidade dessas mentes criadoras), logo compreendi suas ausências, um vazio preenchido, agora, unicamente por suas obras, simbolicamente deixadas como lembranças de sua visita aqui… 

Ameritt… Esse o nome daquela simpática senhora. Descendo as escadas do castelo, contornando o jardim que, da minha janela, eu sempre perscrutava com certo receio, apreensivo de ver algo inaudito, topei com ela. De costas para a parede, diante do que parecia alguma porta de acesso para algum lugar, tinha em suas mãos um besouro…  

Estranho amigo. Vendo-me prender o olhar nela, pareceu proposital seu gesto de esticar os braços e fazer aquele inseto ir e vir, como se fosse domesticado. Achando-me talvez interessado em sua peça, ofereceu-me as mãos, algo que fiz naturalmente — por certo que depois de considerá-la alguém sem suspeitas. 

Pois Ameritt, até então uma quieta senhora, eu já havia visto em outras ocasiões. Nas minhas andanças pelos corredores; saindo do quarto e indo em direção à sala principal; nas visitas à biblioteca, onde muitos dos textos são deixados… Via sempre a presença dela, aqui e ali fazendo um serviço de caseira, como o de alguém responsável pela organização do castelo — que, devo confessar, está sempre impecável, limpo e benquisto para qualquer dos sentidos. 

Ainda que “deslizando” por ambientes pouco ou mais escuros, sua sombra nunca foi a de alguém devidamente ameaçadora, mas a de uma mulher reservada, que, desde minha chegada aqui, já tinha por potencial relação. 

Aquele momento em que deixei seu besourinho subir em meus braços, começando a comichar e dar a sensação de algo risível, pareceu-me então uma prova de minhas suspeitas. Seu sorriso aberto, a luz alegre emanando de seus belos olhos — um anúncio de exuberante jovialidade, ainda existente —, aquele cruzar de braços como de quem convida para uma conversação… e então meu nome, saído de sua boca: 

Wallacebesin… 

Minha surpresa com aquelas palavras (de onde ela sabia meu nome, com tanta segurança?) não foi maior do que a agradável sensação de parecer chamado de benzinho, vocativo tão macio e saudoso de minha terra…  

Trocadas impressões, palpites do clima, gostos pessoais de cada um, logo nos descobrimos partilhar do amor natural, essa espécie de apreço pela fugacidade sensível da vida, a adoração das coisas inapreensíveis pelo tempo. Nossa conversa, como a de gente há muito conhecida, sem se preocupar com passado ou futuro, receios ou intenções, tomou parte tamanha daquela minha fuga, que mal percebia ter escurecido o céu ao meu redor. Do recanto em que nos via, apenas a parede se destacava, já iluminada pela lua sempre imperiosa da paisagem… 

Ensaiando uma despedida, ao tocar gentilmente nas mãos de minha companheira de assunto, fui surpreendido por seu convite: queria saber se não aceitava uma refeição em suas dependências — escondida por aquela porta, atrás de sua forma esguia e acolhedora… 

Sem querer parecer desconfiado, preferindo manter as impressões de alguém realmente admirado por descobrir uma parceira de conversa e, por que não, amiga, disse-lhe que ficava para uma próxima, tendo agora de me recolher para, sob um pequeno impulso, tentar terminar de escrever uma composição… 

Assim, então, foi passado esse meu pequeno deslocamento: curto em extensão, enorme de surpresa. O “até mais” dito por mim para Ameritt, estou convicto, foi recebido como promessa. Tenho agora a esperança de, por meio dessa gentil senhora, descobrir as minúcias desse lugar, mesmo suas origens… Da próxima vez, caso a encontre, não recusarei igual convite. Se temo algo, apenas é a existência de não somente besouros entre seus amigos animais… 

O carácter nada intimidador, aprazível daquela senhora, mostra-me também o aspecto cada vez mais determinante desse castelo, a confirmação de que tudo tende a ser, quase sempre, bastante diferente do imaginado — devendo ser, para tal descobrimento, explorado… 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Apertum Loculum

O homem ao qual me assemelhava não pronunciava sequer uma palavra, e também senti que ele não era dali; não me parecia que dividíamos a...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O homem ao qual me assemelhava não pronunciava sequer uma palavra, e também senti que ele não era dali; não me parecia que dividíamos a mesma pátria, não parecia ser um lusitano, mas tampouco eu me assemelhava ao povo da região em que nasci. Meus cabelos eram da cor do cobre e minha pele não curtia o sol, assim como acontecia com a maioria da população local. Sempre me queixava, no verão, da vermelhidão que surgia nas maçãs do meu rosto. Essas queixas foram sumindo com o passar do tempo, já que eu não me expunha mais ao sol com a mesma frequência; minha pele se assemelhava à branquitude arroxeada da pele dos cadáveres. Naquela ocasião, o homem continuava a me ordenar em pensamento, e eu não tinha como recusar suas ordens; tinha que segui-lo. Ao anoitecer, nos retiramos da tumba do cemitério e caminhamos até o Porto da Figueira da Foz, numa velocidade que nenhum mero mortal seria capaz de acompanhar. 

Chegando à localidade, percebi que um grande navio estava atracado no cais. Era um navio diferenciado, nunca havia visto nada semelhante em toda a minha vida; o navio era de uma cor que alternava entre o cinza chumbo e o verde musgo, e nele havia um nome estampado em branco: “Ilona”. O homem de cabelos negros me ordenou que entrasse no navio, e, mesmo temendo ser barrado por estar maltrapilho, como um pedinte da região, nada aconteceu quando cruzei do cais para a entrada do navio. Reparei que os marujos que guardavam o navio eram tão esquisitos quanto eu e a figura do homem de cabelos escuros. No navio, sequer nos comunicávamos verbalmente; as ordens chegavam por pensamentos. No entanto, eu não conseguia decifrar o que era dito pelo homem misterioso e pelos marujos, só pude acompanhar o aceno de cabeça que faziam e a liberação dos espaços que o homem me guiava a acessar junto com ele. 

Cheguei a um compartimento luxuoso do navio, que ficava no segundo andar. O local era grande, forrado em madeira e veludo, e, dentro dessa espécie de quarto, havia três caixões. A maioria dos caixões era ornada com plantas, roseiras vermelhas com muitos espinhos. O homem misterioso pronunciou duas palavras em um idioma antigo, que pelo pouco conhecimento linguístico que eu tinha, me pareceu latim. Então, os três caixões se abriram prontamente após o homem pronunciar as palavras mágicas, e ele ordenou, em pensamento, que eu escolhesse um dos três caixões para passar o turno diurno. Segui minha intuição e me deitei no caixão que estava no meio do quarto. 

Após me deitar, quase que imediatamente, uma poça de terra começou a me cobrir. Tentei fugir, receoso de que aquilo me soterrasse, porém, o homem invadiu minha mente e me intuiu de que aquilo era para o meu próprio bem. Caí em sono profundo logo após a terra me cobrir, deixando apenas meu rosto exposto. Na noite seguinte, despertei renovado, como se tivesse nascido de novo. O homem me convidou mentalmente para um banquete que aconteceria em outro cômodo do navio. Ao chegar ao que imaginei ser uma espécie de sala de jantar, também ornada com veludo vermelho e madeira, percebi que havia panelas e utensílios de jantar nos aguardando. Por um momento, pensei que, se servissem comida comum, eu não teria fome. Quase como se adivinhasse meus pensamentos, um dos serviçais do navio começou a destampar as panelas, e observei que nelas havia uma espécie de caldos avermelhados que banhavam partes que pareciam ser membros de corpos humanos. Apenas em uma única panela, que parecia ser de barro, serviam um caldo verde que parecia banhar todo tipo de espécie de insetos. 

Conosco à mesa estavam o homem de cabelos escuros, um dos marujos, que parecia ser o capitão do navio, e outro marujo de aparência semelhante. Ninguém conversava enquanto éramos servidos por um dos serviçais. Eu e o homem misterioso nos alimentávamos do caldo avermelhado e dos membros humanos, enquanto os outros dois marujos se serviam do caldo verde da panela de barro, recheado de variados insetos. Após a refeição, tentei ir a outras partes do navio para apreciar a vista, mas não por muito tempo. Fui interrompido em meu livre-arbítrio pelas ordens que meu Senhor infiltrava em minha mente, inclusive ordenando-me que me alimentasse novamente na sala de jantar. Ele também me intuiu a conhecer uma espécie de biblioteca e a ler alguns tomos de pergaminhos que me ensinavam a língua que eu ouvira quando ele pronunciou as palavras para abrir meu caixão, possivelmente o latim. Ao dormir, o homem de cabelos negros me acompanhou até o quarto onde estava o caixão em que eu dormira na noite anterior e, desta vez, calmamente, ele pronunciou para que eu entendesse: "Apertum Loculum!". Imediatamente, o caixão do meio se abriu, e eu repeti o mesmo ritual de adormecer com a terra me cobrindo, como no dia anterior. 

Por sete dias (ou sete noites), minha rotina seguiu quase a mesma: duas boas refeições do caldo avermelhado (que agora eu já tinha mais certeza ser composto de sangue humano e de partes de membros de corpos humanos), ler tomos de pergaminhos em línguas diversas, como o latim e o grego, e abrir autonomamente o caixão que escolhi como cama, o qual me revitalizava a cada alvorecer. Na noite do sétimo dia, atracamos em uma espécie de cais, porém de porte reduzido em comparação ao de Porto da Figueira da Foz. Imaginei estar em um local bem distante de Portugal, mas não soube mensurar o quão longe, apenas pelos dias que se passaram. O homem misterioso me intuíra durante toda a viagem a desenvolver novas habilidades, uma delas sendo o conhecimento de novos idiomas. No entanto, ele nunca explicava por que eu precisaria dessas habilidades (exceto a função de abrir meu próprio caixão para garantir meu merecido descanso diário). Ao chegarmos, deparei-me com uma placa que indicava o nome “Constanta”. Apesar de todo o aprendizado em novas línguas, aquele nome não fazia sentido para mim. 

Após desembarcarmos, quatro dos serviçais do navio trouxeram o que identifiquei como o caixão que eu havia escolhido para dormir, além de outro, e os despacharam na carruagem que nos aguardava. Na carruagem, um homem de aparência muito semelhante à dos marujos e serviçais do navio já nos esperava. O homem de cabelos negros mais uma vez verbalizou: “Apertum Loculum!”, e a porta da carruagem se abriu sozinha. Adentramos a carruagem e seguimos pela estrada afora por volta de quatro horas, até que paramos próximo ao que eu havia lido como “Pitești”. Paramos em frente a um grande, sombrio e pomposo castelo. 

Rodeamos o castelo, e o homem de cabelos negros decidiu que entraríamos pelos fundos. Lá havia um portão de ouro envelhecido, ornado pela mesma roseira vermelha com espinhos que adornava o meu caixão e o do homem misterioso. O portão parecia ser feito do mesmo tipo de madeira, e sobre ele pousavam borboletas de marfim. Embora o portão parecesse belo, também emanava um ar sombrio, que combinava com a atmosfera do castelo. Era iluminado apenas por um lampião. Ao adentrar o portão, por ordem mental do meu Senhor, após ele pronunciar a expressão "Apertum Loculum!" e o portão se abrir sozinho, percebi que havia várias entradas que pareciam dar acesso a calabouços. Seguimos por um caminho reto e entramos na última entrada. 

O homem me deixou em um local que parecia ser uma grande cozinha. Após alguns minutos, ele desapareceu, mas não me ordenou nada, e eu me senti à vontade naquele ambiente solitário. 

Minha curiosidade se aguçou ao observar que, ao mesmo tempo que o local parecia uma cozinha, também lembrava um laboratório exótico. Havia ali panelas, artefatos de cozinha, tubos de ensaio, uma tabela na parede descrevendo várias espécies de insetos — muitos deles besouros e afins —, além de muitas ervas penduradas. Logo depois, surgiu pela entrada uma mulher que parecia ser uma anciã, com vestes pretas e vermelhas e um castiçal na mão, para iluminar melhor o ambiente, visto que havia apenas dois castiçais no espaço. Dada a grandeza do local, eles não eram suficientes para iluminá-lo devidamente, caso ela fosse a pessoa designada a trabalhar ali. 

De todo o trajeto, do cemitério em Coimbra até ali, Ameritt foi a única pessoa com quem dialoguei. Não entendia por que o homem e seus serviçais não faziam contato verbal, mas com Ameritt foi diferente. Ela logo entrou na cozinha, se apresentou e perguntou como eu me chamava. Ao me apresentar, ela me apelidou, chamando-me de "Filipe-besin". Além do diálogo que me faltava, o senso de humor, que também já não me restava, veio à tona naquele momento, e imediatamente um sorriso surgiu no meu rosto ao ouvir a forma como a anciã pronunciava "Filipe-besin". 

Em uma rápida conversa, ela me explicou que sua função ali era preparar o alimento de todos os hóspedes e serviçais do castelo. No entanto, assim como no navio, notei que os hóspedes, assim como eu e o homem misterioso, se alimentavam do caldo avermelhado e de membros de corpos humanos. De fato, em um dos calabouços havia uma espécie de câmara frigorífica onde muitos corpos mortais congelados eram armazenados, e Ameritt tinha acesso a esse local. 

Ao longo dos dias, o homem de cabelos negros me ordenou que eu deveria ajudar Ameritt naquele local a preparar o alimento e, além disso, deveria fornecer um pouco do meu próprio sangue à anciã todos os dias, para que ela pudesse misturá-lo ao caldo esverdeado preparado com os variados besouros. E assim seguimos por dias incontáveis. Ameritt também me levou a uma espécie de biblioteca onde guardava os livros que forneciam parte do seu conhecimento para o preparo de comida, de algumas medicações, chás variados, entre outras poções mágicas. Ela também me disse que não era exatamente como eu havia me tornado, mas que todos ali estavam unidos por “sangue”, e que já estava em idade avançada, sem saber até quando conseguiria servir ao nosso Senhor, o homem misterioso de cabelos negros. Por isso, ela precisava passar seus conhecimentos adiante, tendo em vista que garantir o preparo do alimento dos que viviam no castelo era, de fato, uma das coisas mais importantes para todos ali. 

E assim segui com uma nova função e aprendizado junto de minha estimada Ameritt, que tanto me ensinou. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Histórias Cruzadas: Ecos do Passado

A noite embeleza ainda mais a atmosfera deste lugar e a lua grandiosa em tom fúlvido parece brilhar na umidade da minha pele. Sorrio de maneira leve, mas...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A noite embeleza ainda mais a atmosfera deste lugar e a lua grandiosa em tom fúlvido parece brilhar na umidade da minha pele. Sorrio de maneira leve, mas quando me acalmo da dança, o meu sorriso começa a se desfazer, pois noto o perigo que eu corri dançando sem capa nos arredores do castelo. A Nauärah em alerta desperta e se torna novamente atenta em relação aos perigos. Preciso de um banho gelado, penso. Jogo a água em meu rosto e em meu corpo, sem nem me livrar das vestes que me cobrem. Começo a me sentir quase impura. Não deveria sentir felicidade ao dançar. 

Seco a minha pele, quase como se me limpasse de um pecado que cometi e visto-me com outras vestes ainda mais compridas, utilizando a capa e decidindo que vou observar mais este lugar, na certeza de encontrar os olhos que me observaram. Mas decidi levar todo o meu armamento.

"Não use de violência, minha filha." A voz do meu pai parece ecoar nos meus ouvidos, como se ele estivesse me vendo pegar o arco e as flechas à distância. Respiro, relaxando os meus braços, como se me desarmasse. 

"Perdão, meu pai, mas a minha flecha vai comigo." Digo quase em um tom audível, ainda que eu esteja sozinha neste vão.

A madeira do arco range sob meus dedos enquanto eu ando furtivamente pelos corredores escuros do castelo. Cada passo é um desafio, mas a coragem surge aos poucos e a cada dia estou mais confiante e menos escondida. O meu coração palpita no peito como uma batida ritmada que ecoa na imensidão do silêncio misterioso daqui. 

Carrego comigo não apenas o arco, mas também um desejo ardente de respostas. Quem me viu dançar? Quem ousou espiar a minha alma exposta nos movimentos da dança sagrada?

As tochas nas paredes lançam sombras vacilantes, e a cada curva, eu sinto a tensão se intensificar. Meus instintos de caça, forjados na floresta densa de minha aldeia, me mantém alerta. Minha respiração é controlada, mas não posso controlar o tumulto interno: medo e curiosidade se misturam em minhas veias como um veneno doce.

Chego ao grande salão principal. O recinto é vasto e decorado com tapeçarias ricas que narram histórias de conquistas antigas. Aqui, em meio ao brilho das tochas, vejo a silhueta de... um homem. Ele está de costas para mim, absorto em contemplação diante deste espaço grandioso. Por um momento, meu corpo congela. O perigo é palpável, mas algo mais profundo me chama, uma curiosidade quase dolorosa.

 Mais um homem? Outro? Quem é ele? O que busca aqui? Eu deveria saber que há outros estudiosos e escritores que podem vir explorar este castelo livremente, assim como eu. O certo seria eu voltar para a minha aldeia no Brasil e parar de querer lutar contra o meu trauma, enfrentando coisas cujas quais eu não estou pronta para lidar. Ou será que eu estou atraindo para mim o que mais temo? Quanto mais tenho medo deles, mais deles parecem se multiplicar neste lugar.

Começo a ficar apavorada e levo uma mão à fronte, fechando os olhos firmemente. Lembranças... sempre as lembranças. Uma lágrima que sempre insiste em chegar nesses momentos de tensão aparece, mas respiro e decido seguir com isso. 

Antes que o tal desconhecido perceba a minha presença, se é que não já percebeu, ajusto a flecha no arco, mantendo a mira perfeita, caso ele se vire para me fazer mal. Mas alguma força maior trava os meus braços e abaixo toda a minha armadura, respirando fundo e já demonstrando inevitavelmente para ele que eu estou aqui, indefesa, mas disposta a enfrentá-lo.

 …

Diário de Anton S. Miahi
(Escrito no Castelo — Part. II)

27 de julho de 1871 — Me levantei da cadeira, logo desci, girando meu corpo para ficar de costas para as pernas da mesa, até me sentar no chão frio de pedra do meu quarto no Castelo Drácula. Cruzei as pernas e as mãos repousando sobre os joelhos. A única fonte de luz era a lua cheia, que derramava sua luz prateada através da janela que estava com suas cortinas abertas, lançando sombras dançantes nas paredes de pedra. A atmosfera que eu sentia ao meu redor era densa, carregada de uma calma inquietante que parecia ecoar através dos séculos.

Fecho meus olhos e tento acalmar a mente, mas as memórias surgiam como tempestades inesperadas. Vislumbres de rostos, lugares e eventos que se misturavam, formando um mosaico confuso e perturbador. A figura do próprio Drácula, o senhor daquela morada, dominava seus pensamentos, trazendo consigo uma sensação de terror e fascínio.

— Que estou fazendo aqui? — Anton murmurou para si, sua voz reverberando suavemente na escuridão. Ele se lembrava de ter chegado ao castelo como um estudioso, atraído pelas lendas e mistérios que cercavam o lugar. Mas com o passar do tempo, a linha entre realidade e ilusão começara a ficar questionável.

De repente, uma batida suave na porta quebrou o silêncio sepulcral do quarto. Meu coração disparou, e um frio gélido percorreu minha espinha. Quem poderia ser àquela hora da noite? Aproximei-me lentamente da porta, hesitante. Minha mão tremia quando a estendi para a maçaneta. Antes que pudesse girá-la, uma voz baixa e sibilante veio do outro lado: 

— Eles estão vindo para você, não há para onde correr. — A voz era estranhamente profunda e perturbadora.

Antes de abrir a porta, olhei a cintura onde deveria estar o meu sabre, pela graça divina, ao notar que ele ainda estava em seu lugar, desembainhei sem sombra de dúvidas. Com um impulso abri a porta, esperando que ali se encontrasse o que quer que fosse, mas o corredor estava vazio. A voz ainda ressoava em meus ouvidos, uma ameaça velada que deixava um rastro de pavor. Fechei a porta rapidamente e me apoiei contra ela, tentando acalmar minha respiração ofegante. 

— Quem está vindo? E por quê? — Meus pensamentos estavam acelerados com toda aquela adrenalina explodindo por cada parte do meu corpo.

O quarto parecia encolher ao meu redor, as sombras se fechando como tentáculos. 

— Qual é o meu papel nesse lugar perdido? Qual a razão da imagem daquele semelhante monstro e esses nomes que ecoam em minha mente a cada instante, “Nauärah” e “Olga”? — Minha voz ao longo da frase foi diminuindo como se a resposta estivesse no silêncio do quarto, da minha mente.

O silêncio voltou a reinar, mas agora estava carregado de suspense e inquietação. Sabia que precisava encontrar respostas, descobrir a verdade sobre Séttimor, a criatura que “apenas existe” e os nomes de Olga e Nauärah. Mas como? E a que custo? Meu corpo estava fraco, mas minha mente, apesar de atormentada, se preparava para qualquer situação que pudesse se desenrolar não apenas no mundo exterior, mas também dentro de mim.

Dirigi-me ao velho guarda-roupa de madeira escura, com desenhos em baixo-relevo entalhados, que dominavam um canto do meu quarto. Suas portas rangeram quando as abri, revelando minhas vestes. Escolhi um conjunto adequado para a jornada: uma camisa de linho branco com botões de osso, cujas mangas abotoei com firmeza nos pulsos; uma calça de lã escura, grossa o suficiente para enfrentar o frio; e um colete de veludo negro, decorado com botões de prata que refletiam a pouca luz do quarto. 

Vesti-me com cuidado, cada peça ajustando-se ao corpo como uma armadura contra o frio. Sobre o colete, coloquei um sobretudo de lã pesada, de cor azul royal, com uma gola alta que oferecia alguma proteção contra o vento gelado. Abaixo dos joelhos, prendi botas de couro, desgastadas pelo tempo, mas ainda firmes, e por fim, enrolei um cachecol grosso em torno do pescoço.

Fechei o guarda-roupa e me voltei para a parede oposta, onde havia deixado apoiado meu sabre militar da cavalaria repousado em sua bainha. Peguei-o com reverência. O sabre da cavalaria francesa do século XIX que eu tinha em mãos era uma obra de arte tanto quanto uma arma de guerra. O punho, esculpido em marfim, exibia intrincadas espirais que se entrelaçavam de forma complexa, criando uma textura rica e detalhada que parecia pulsar sob meus dedos. Com o guarda-mão de aço negro, finamente talhado, envolvia o punho com elegância e força, oferecendo proteção e um toque de refinamento sombrio.

A lâmina, ligeiramente curvada, refletia a luz da lua em um brilho frio e implacável. Ao longo de quase toda a extensão da lâmina, entalhes em baixo-relevo narravam cenas de batalhas e vitórias, dando vida a figuras e símbolos que pareciam estar em movimento. Esses entalhes não eram meramente decorativos; eles contavam a história de guerreiros passados, suas glórias e sacrifícios, e conferiam à lâmina um caráter quase mítico.

A bainha, não menos impressionante, era adornada com desenhos de cavalos em plena corrida, suas crinas e caudas fluindo com um dinamismo que contrastava com a rigidez do metal. Detalhes em aço destacavam-se contra o fundo escuro, acrescentando profundidade e complexidade ao design. Os cavalos, símbolo de poder e liberdade, pareciam prontos para saltar da bainha a qualquer momento, infundindo a arma com uma energia latente.

Ao prender o sabre ao meu cinto, senti o peso da história e da arte que ele carregava. Não era apenas uma arma, mas uma peça de mestre, criada para simbolizar honra, coragem e destreza. Com ele ao meu lado, estava pronto para enfrentar a escuridão que se estendia diante de mim.

O castelo estava silencioso, seus corredores vazios e sombrios, ecoando apenas meus passos determinados. Ao sair para o pátio do castelo, o ar frio da noite me envolveu imediatamente, cortando minha pele como os projetis. O céu estava claro, a lua cheia iluminando a neve que cobria o solo, criando um contraste fantasmagórico com as sombras das torres do castelo.

Sem olhar para trás, comecei a descer a trilha que levava à vila que estava em minha memória. As botas afundando na neve a cada passo, cada cravada um lembrete da dureza do inverno transilvano. Minha busca por Nauärah havia se tornado uma necessidade visceral, um instinto primitivo de caçador. Precisava saber se a visão que tivera na festa de Séttimor fora apenas uma miragem ou algo muito mais profundo. Séttimor também pairava em minha mente como memórias incompletas, uma sombra que eu precisava dissipar.

A cada passo, procurava sinais de sua passagem e da vila. Pegadas leves na neve, galhos quebrados, qualquer indício que pudesse me levar até ela. E quanto à cidade, queria ver se surgia no alto das árvores fumaça, sinais de existir pessoas por perto. No entanto, mesmo com a noite clara, não surgia nenhum sinal de civilização. A floresta ao redor estava silenciosa, exceto pelo som abafado dos meus próprios passos e o ocasional farfalhar das árvores ao vento. O sabre ao meu lado parecia pulsar com a mesma urgência que eu sentia, um lembrete constante de que estava preparado para o que viesse.

Conforme me aproximava do local onde deveria estar a vila de Séttimor pelo que vinha a minha memória, um frio diferente começou a se instalar em meus ossos, não apenas o frio do inverno, mas algo mais profundo, mais antigo. A clareira surgiu diante de mim, vasto e desolado espaço onde eu esperava encontrar a vila. Nada restava além de uma imensa área vazia, a neve intocada, exceto por alguns sinais rúnicos gravados nas árvores ao redor, escritos na antiga língua eslava.

Aproximei-me das runas, tentando decifrar seus significados, mas sentindo uma presença crescente ao meu redor. Seria a Nauärah? Podia sentir uma vigilância, olhos sobre mim, uma intenção assassina parecia espreitar-me. Meu coração acelerou, cada batida um tambor de alerta. Não estava sozinho, isso era certo. Mas quem poderia ser e estava oculto na escuridão da floresta congelada?

Desembainhei o sabre com um movimento suave, ocultando-o parcialmente sob o manto pesado do sobretudo. Movi-me com cuidado, como um rastreador experiente, procurando um ponto onde pudesse ter uma visão clara dos arredores sem me expor. Encontrei uma elevação natural na borda da clareira, onde uma árvore caída oferecia cobertura. Subi lentamente, cada movimento calculado, o sabre pronto em minha mão.

A noite estava silenciosa, mas senti que a presença do meu perseguidor oculto estava mais próxima. Olhei ao redor, tentando captar qualquer movimento, qualquer sombra que traísse sua posição. O frio mordia minha carne, mas minha mente estava afiada, focada. Eu era um caçador em sua vigília, esperando, observando, preparado para enfrentar os segredos que a escuridão ainda escondia.

E ali, no silêncio e na penumbra, aguardei. Sabia que não poderia fugir das perguntas que me assombravam, e menos ainda da figura que agora espreitava meus passos. Será que ela estava ali? E eu estava pronto para desvendar o mistério que nos ligava, custasse o que custasse.

… 

Penso em parar com isso, com a minha gana de expulsar tudo e todos. Respiro fundo e aproveito o momento em que esse outro desconhecido está focado em outra direção para me esvair lentamente da sua presença. A minha habilidade com movimentos e técnicas corporais faria com que eu não fosse percebida, mas, ao mesmo tempo, preciso saber quem é. Talvez ele fosse um guardador do castelo. Por outro lado, a minha desconfiança em figuras masculinas não me permite ser tão otimista e confiante neles, muito menos boazinha e próxima, ainda mais estando sozinha agora.

Como uma ideia brilhante que surge na mente, resolvo pregar-lhe uma peça. Talvez, me divertir um pouco neste lugar tiraria a minha tensão e eu o assustaria, fazendo-o se afastar. Começo a sair sutilmente da sua presença e lembro-me que o meu quarto fica próximo da direção onde ele se encontra agora. Então, com passos rápidos, quase correndo pelo recinto, subo as escadas como uma criança peralta ou um adulto em fuga e passo pela sacada superior interna, me debruçando um pouco na balaustrada para me certificar de que não estou sendo vista. Até que chego em direção ao quarto onde estou hospedada e entro cautelosamente.

Respiro fundo, descansando da fuga por alguns segundos. Tranco a porta do quarto e reforço os meus armamentos, munindo-me com mais flechas e enchendo a minha aljava, não importa quão pesada esteja. Deixo-a pendurada nas costas e mantenho as luzes apagadas. Preparo o arco e saio por uma porta que dá espaço à uma bela sacada na parte externa do quarto.

Ao sair, o avisto ainda ali, como se ele se escondesse de algo, se preparasse para fazer alguma coisa ou para invadir o quarto mais próximo, o meu. Daqui a visão é perfeita e, para assustá-lo, resolvo lançar a flecha em um galho próximo à região da sua cabeça. Não seria violenta a ponto de machucá-lo, mas o medo me toma grandiosamente. Seria ele o olhar que me acompanhou na dança? O encaro através da minha sacada, olhando-o de cima, sem ser percebida e tentando dar uma chance à minha candura restante, mas não posso. Uma revolta em mim fala mais alto.

Preparo a flecha no arco e, com movimentos estudados, me agacho, posicionando as pernas e pés bem confortavelmente, então, sem muito me demorar, lanço-a exatamente num galho áspero da árvore em que ele tenta se esconder, próximo à sua cabeça e tendo a certeza de que os seus olhos se assustariam ao olhar para o lado e ver a flecha cravada mui próxima.

Ôpa! Me desculpe, senhor cavalheiro. Hoje a minha flecha está um pouco preguiçosa, pois já acertou traseiros demais, mas ela teve misericórdia do senhor escondido aí. — Divirto-me, de maneira rara e inevitável, deixando escapar um leve riso irônico. Aquele cavalheiro escondido entre uns arbustos me faz resgatar comportamentos que eu não tinha há anos. O de sorrir e pregar peças. Mas me recomponho, levanto-me e volto a ser redil, falando com aspereza. — Pode aparecer! Quero ver quem está à espreita próximo à sacada do meu quarto. E se tentar correr, o que não me falta são lanças e flechas para acertá-lo precisamente onde mais o senhor temer! Se mostrares a tua face e me disseres quem és, mostrarei a minha e me apresentarei cordialmente.

Com a capa cobrindo quase todo o meu rosto, preparo o arco e a próxima flecha. Apontada em sua direção, tenho a certeza de ele percebe que não estou para brincadeiras, apesar da peça que preguei.

— Renda-se! Não tem como escapar, não há para onde ir! — Minha voz corta o ar, carregada de uma autoridade fria.

Ele levanta o sabre em sinal de rendição e paz, tentando mostrar que não tem intenções hostis. Mas, ao fazer isso, seu pé encontra um ponto escorregadio. Ele perde o equilíbrio e cai desajeitadamente no chão. O sabre escapa da sua mão e desliza alguns metros para longe.

Solto uma risada melodiosa, mas antes que pudesse recuperar minha postura, eu também escorrego, caindo de minha posição elevada e deslizando pela inclinação até parar a alguns metros do tal cavalheiro.

Nós dois ficamos ali por um momento, desconcertados e um pouco envergonhados. Que encontro mais anticlimático.

— Bem, — Eu digo, com uma pitada de ironia na voz. — Parece que estamos ambos fora de prática, mas eu só desequilibrei porque sorri. — Meu rosto parece claramente frustrado, enquanto me levanto rapidamente, ainda temerosa e me afastando dele imediatamente.

Ele também se levanta lentamente, sacudindo a neve de suas roupas. 

— Sim, precisamos claramente de mais treino em... quedas graciosas. — Seus músculos devem ter doído, mas não tanto quanto seu orgulho militar.

Eu rio novamente, uma risada leve que dissipa um pouco da tensão que sinto por estar próxima a um desconhecido, até então. 

— Quedas graciosas. Gosto disso. Mas não pense que sairá sem se apresentar. Quem é você, afinal? Um cavalheiro desastrado procurando por uma donzela em perigo? — Digo com um tom irônico e uma expressão curiosa estampada na face, apesar de tentar esconder o meu rosto.

— Algo assim, quem sabe? Tenho mais perguntas que respostas, e você é uma das respostas. — Enquanto fala, ele arruma suas vestes, pegando seu sabre do chão e guardando-o com cuidado. — Meu nome é Miahi, Anton Stefan Miahi, oficial da cavalaria francesa. E você deve ser Nauärah, a figura das minhas visões. — Ele aponta para mim com a sua mão esquerda e me olha com muita atenção.

Eu arqueio uma sobrancelha, intrigada. 

— Visões? Interessante. Por que eu sou uma das respostas?  E o que exatamente você viu, cavaleiro Anton? — Claramente há um tom de deboche, mas meu rosto parece indicar que há algo mais que eu estou escondendo.

— Vi você dançando na festa da vila Séttimor, como uma miragem, um fantasma. E depois... apenas um enorme vazio e sombras. — O tom da sua voz fica sombrio.

— Então foi o senhor! Muito observador, senhor Anton. Apesar de que não lhe devo nenhuma explicação, ouvi uma melodia, algo vindo de algum lugar do castelo. — Não há dúvida ou engano na minha voz e nem em minha postura. — Acabei sendo levada por uns movimentos corporais. Foi apenas isso. Levada pela magia da minha terra. 

— Isso é um mistério, eu a vi naquela vila na noite de ontem. Em meio aos Séttimor! Mas… Não estava lá, mas você ouviu a música, certo? — Ele diz com um sorriso cansado. — Parece que me estão pregando peças também, nada parece ser real.

Eu olho para ele por um longo momento e os meus olhos avaliam cada detalhe. Preciso saber bem quem ele é. Por outro lado, o seu armamento se aproxima do meu e isso, talvez, tenha gerado em mim uma tranquilidade maior, uma espécie de identificação com o tal senhor Anton.

— Talvez nem tudo seja enganação. Você me encontrou, afinal. — Minha voz soa empática, apesar de minha rigidez física indicar o contrário. — E de um jeito inusitado, pois senti alguém me observando, mas alguém que não estava presente de corpo. Como pode isso? Talvez seja até um sinal, algo de outra ordem. Aqui tudo é um mistério. 

— Sim, Verdade! — Apesar de concordar, ele parece ter dúvidas pairando sobre sua cabeça, e uma certa ansiedade cresce. — Estou buscando informações. Você está morando no castelo? Conhece alguma Olga…? Não recordo seu sobrenome.

— Hum, informações... Que tipo de informações? — Eu começo a ficar temerosa e falo com um olhar de desconfiança, como se o avaliasse dos pés à cabeça. — Bem, a Olga me recebeu aqui neste recinto. Não sei se deveria lhe dizer, mas o seu sobrenome é Nivïtzz, Olga Nivïtzz. E eu vim explorar este castelo, estudá-lo, como uma forma de enfrentar o mundo cruel. Mas, sabe? Eu quase gosto de você. Preciso de tempo para analisar se não irá colher informações muito particulares sobre mim. Mas só porque me fez sorrir um pouco, me apresento. Me chamo Nauärah. Nauärah Tupiniquim, e venho do Brasil. Sinta como se eu estivesse lhe dando um bom aperto de mão cordial. 

Não permito que ele toque a minha mão, sequer, é óbvio, mas retiro o meu capuz do rosto, finalmente, mostrando a minha face de maneira lenta. O observo melhor, franzindo a testa, mas lhe dando um sorriso cordial, apesar de tímido. A face do senhor Anton transmite generosidade, masculinidade, e eu não posso negar a sua beleza e educação. Apesar do medo, eu dou de ombros, como se resolvesse dar um voto de confiança ao novo desconhecido. Afinal, se ele citou a Olga Nivïtzz, me sinto mais aliviada, pois ele pode conhecê-la, de alguma forma. Sendo assim, quem a conhece, me passa maior confiança, mas ainda preciso estudá-lo, aos poucos, e entender que ligação é essa que ele demonstra ter comigo e que me fez sentir segura com ele.

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Canção na Escuridão

Você pode me ouvir, | Chamando seu nome na escuridão? | Pode ouvir meus passos, | Ecoando nas paredes, | Enquanto corro em sua direção?...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Você pode me ouvir,
Chamando seu nome na escuridão?
Pode ouvir meus passos,
Ecoando nas paredes,
Enquanto corro em sua direção?  

Eu te ouço cantando, sua voz me atrai.
A melodia suave, como brisa me encontra
E me leva a um frio jardim,
Com flores de um vermelho carmesim. 

Lá no alto da torre do castelo,
Te vejo a lua contemplar,
Alheia a minha presença,
Sem me perceber, no silêncio implorar,
Por favor, não vá! 

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Dança Verde — Presenças, Recordações e Descobertas

Enquanto exploro um pouco os corredores do castelo, para esquecer os acontecimentos estranhos por aqui, sinto o frio do mármore sob meus pés...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Enquanto exploro um pouco os corredores do castelo, para esquecer os acontecimentos estranhos por aqui, sinto o frio do mármore sob meus pés descalços. É um lembrete constante de quão distante eu estou da minha aldeia natal, onde tudo é barro, e barro aquecido naturalmente. Os ecos de cada passo são como uma saudade em forma de som, me lembrando de tudo o que deixei para trás. Eu costumava percorrer caminhos e sentir o calor da fogueira; agora, tudo o que me cerca é o silêncio solene e as paredes pesadas e frias do castelo. Mas assim me faz bem, o silêncio, o mistério e presenças diferentes que começo a notar no recinto. 

No meio dessa vastidão sombria, uma melodia começa a flutuar pelo ar. É uma canção antiga, uma que me é familiar, pois me faz lembrar das batidas em atabaques e sons de flautas, e parece vir de algum lugar profundo e escondido do castelo ou, até mesmo, da minha ilusão mental. Imediatamente, uma onda de emoções toma conta de mim. É como se a música tivesse o poder de me transportar de volta à aldeia, de me fazer sentir novamente a alegria e a vivacidade dos dias passados com minha família e amigos tupis. Me lembro das matas, do verde e de toda a beleza da vegetação do antigo lugar. Por outro lado, um aroma estranho invade as minhas narinas, como se as matas ao redor estivessem quase apodrecendo e toda a vegetação estivesse morrendo. Séttimor e seus mistérios me fazem questionar a minha sanidade. 

Ignoro o aroma estranho e ainda consigo ouvir a melodia duvidosa... Faz anos que não danço..., mas deixando-me levar pela melodia, começo a construir os primeiros passos novamente. Cada movimento flui de maneira natural, como se a dança fosse uma extensão da música que preenche o ambiente. Como se fosse uma dança da terra, do sagrado feminino e da força que vem do solo. Meu corpo se move com a graça e a sensualidade que eu havia abandonado e só a familiaridade da canção poderia transmitir. Os meus cabelos longos e escuros também bailam ao redor da minha face e busto. Dançar era minha maneira de me reconectar com o que eu havia sido, e agora consigo trazer um pedaço da minha terra para dentro dessas paredes frias e distantes. 

Os movimentos são giratórios e sibilantes. E imersa no som que ouço, a minha intuição me avisa que eu posso estar sendo observada. “Em algum lugar, escondido nas sombras do castelo, um par de olhos te acompanha, cada passo, cada giro.” A voz de sempre me amedronta, porém me avisa. 

Por mais incrível que isso pareça, desta vez não fujo, pois percebo que pode ser coisa da minha frágil imaginação. Não é algo que eu noto, tão absorta como estou na dança, tão perdida em meus próprios sentimentos e memórias. Para mim, o mundo se resume à melodia e à liberdade que sinto enquanto danço e movimento de maneira ornamental o meu corpo, esse templo que é ele. 

Enquanto giro e movimento-me, completamente imersa em meu próprio pequeno ritual de saudade e celebração, não me importo se houver algum observador em silêncio. Até porque eu sou ótima com flechas e quem se atrever a me fazer mal, além do meu amuleto que me protege, a minha mira estará pronta, ardil. Penso, de maneira áspera, ainda que com a beleza do momento. Mas a música misteriosa em misto à sede de uma justiça que, para mim, ainda não está sendo feita, me entrego à fúria que me toma intensamente neste instante.  

Paro lentamente os movimentos, os encerrando, respirando fundo e com a pele suada. Os meus cabelos passeiam na minha face úmida. Já chega. Só mesmo uma dança para me deixar arfante em um castelo tão gélido. Lembro-me do baile de máscaras, e toda dança que bailei não foi tão enérgica a ponto de deixar-me com a pele a querer escorrer gotas de suor e a boca a deixar escapar leves sussurros de cansaço.  

Apoio-me na balaustrada, levando a cabeça para trás e visualizando o teto em filigranas ornamentais. Uma simples dança mexeu comigo. Não consigo mais ser a mesma Nauärah... Me odeio por ter dançado! Mas, por um momento, é como eu me sentisse em casa de novo, mesmo que apenas em espírito e em movimento, e é isso que realmente importa. Foi bom relembrar, mas o meu autojulgamento me cobra lucidez e rebeldia novamente. Mas rebeldia contra quem? Talvez contra mim mesma, com a paz que estou perdendo de tanto pensar e refletir no passado, mas algo a mais me faz sorrir: ouço, ao longe o som de um besouro, que parece sobrevoar ao redor da minha cabeça, mas ainda não consigo visualizá-lo bem. No entanto, na direção que eu olho, há uma espécie de porta, ela tem tons esverdeados e dourados. Uma linda combinação de tons de cores que parece dar passagem para algo mais secreto. 

Agora eu sinto a necessidade de seguir livre e desbravar sem medos. Não estou armada agora e nem é necessário. Do jeito que já comecei a me sentir mais desprendida neste lugar, o meu armamento vai ficar por um bom tempo guardado no quarto onde estou hospedada, espero eu.  

Ao me aproximar um pouco mais da entrada misteriosa, os meus olhos contemplam algo bonito e muito familiar: Borboletas ao redor da porta envelhecida, como se elas fossem as guardiãs de um lugar escondido atrás desta passagem. O grupo de borboletas verdes emergiu em um voo silencioso e suas asas batem suavemente ao redor do ar pesado. O meu espírito de aventureira se manifesta, e parece reviver em meio a angústia que me tomara, por ora, então, adentro a passagem, lentamente. Eu dou um passo hesitante, atravessando o arco sombrio, sentindo o cheiro úmido de mofo e terra antiga. 

O lugar é envolto em trevas, apenas iluminado por feixes tênues de luz que se filtram através de rachaduras no teto e algumas janelas altas, de vidro arredondando e madeira, revelando uma vasta biblioteca antiga. Prateleiras de madeira carcomida se erguem até o alto, abarrotadas de livros encadernados em couro, cujas lombadas desbotadas trazem títulos quase ilegíveis. Todos os livros estão empoeirados e as suas páginas, envelhecidas, amareladas e cheias de musgos verdoengos. Ainda assim, as suas letras são possíveis de serem interpretadas e estão escritos em um idioma que parece ser um idioma específico Settimôro

Plantas mortas pendem os cantos das estantes, seus galhos retorcidos e secos dão ao ambiente uma aparência de abandono. Apesar do cenário decadente, algo está fora de lugar. Há sinais de recente movimento. Alguns dos livros estão espalhados pelo chão, e um conjunto de velas apagadas repousa sobre uma mesa no centro da biblioteca esverdeada, como se alguém tivesse passado por aqui, vasculhando em busca de algo. O pó no chão está perturbado, deixando rastros leves, mas a presença que os deixou já havia partido. O silêncio pesado é quebrado apenas pelo suave roçar das asas das borboletas que ainda flutuavam ao redor, como se aguardassem que um segredo há muito perdido fosse desvelado. 

O meu coração bate rápido. Por um momento, me sinto próxima à magia da terra. É aqui mesmo que eu vou ficar! Sorrio, e a angústia de sempre parece dar lugar às descobertas e aventuras que me presenteiam a cada dia. Quem havia estado aqui? E o que procurava? Seria um morador ou moradora do castelo? Eu avanço lentamente, explorando mais o recinto misterioso e com cheiro de verde-morto. Então, era daqui que senti o odor e, certamente, foi daqui que veio sons de besouros... 

Os meus passos ecoam baixinho no vazio da grandiosa biblioteca, sentindo que cada objeto neste lugar conta uma história não contada, tem vida própria, energia e magia. E para confirmar a minha percepção sobre esta antiga biblioteca vegetal, ouço sons de gargalhadas infantis, como se crianças brincassem de se esconder comigo e estivessem me vendo escondidas atrás de alguma estante. Não... a minha imaginação é fértil demais. Com toda certeza eu estou flutuando em possibilidades inconcebíveis.  

Ignoro os sons e rodopio no ambiente, relembrando a dança feita há pouco pelo meu corpo, fazendo subir uma poeira que me faz tossir por alguns longos segundos. O eco da minha tosse parece ser perpétuo e quase imagino que alguém irá surgir do outro lado do ambiente. Ou mais, devo ter despertado alguma fera. Um certo medo me toma superficialmente, mas sinto que devo vir mais vezes aqui e explorar este vão misterioso, cujo qual senti grandiosa identificação.  

Talvez isso aqui precise de uma bela arrumação ou uma faxina. Talvez eu mesma possa fazer isso, arriscando a possibilidade de os Settimôros residentes neste lugar apreciarem ou não. Mas está tão vívido, embora morto, tão real e único... Talvez eu deva escrever notas sentadas nesta escrivaninha velha, em meio aos livros, musgos, insetos, gotas misteriosas que pingam de um alto qualquer e vozes do além, neste cenário tão propício...  

Paro de pensar demais e resolvo deixar o lugar, com dificuldade. As borboletas verdosas me acompanham até a saída e a porta se fecha sozinha, fazendo um som de madeira velha rangendo lentamente. Preciso respirar e voltar ao quarto. O ar daquele ambiente é quase maléfico. A dança, talvez, tenha me deixado delirante e cansada para poder explorar isto aqui agora e assimilar a aura de mistério. É hora de voltar ao quarto, me vestir de maneira apropriada para explorar uma antiga biblioteca e retornar à minha nova jornada neste recinto chamado Castelo Drácula. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Perfeitos Estranhos IV – Faces 

— Nauärah? A palavra, o nome, simplesmente escorre pela minha boca, soando o mais natural e simples possível. Tenho certeza de que jamais...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

— Nauärah? 

A palavra, o nome, simplesmente escorre pela minha boca, soando o mais natural e simples possível. Tenho certeza de que jamais a ouvi, embora ela tenha sido lançada para fora de mim. Bem ali, a uma fração de metro de mim, estava a mesmíssima dama que avistei antes de adentrar os umbrais do castelo. Tenho a certeza, que emerge de lugares inomináveis da minha alma, de que é ela. Cabelos fartos e escuros, o olhar decidido, forte e um tanto indecifrável. Seria tal donzela uma ilusão? Uma manifestação da crueldade e do desejo sádico do castelo? Ou seria outra vítima, atraída para cá, assim como eu? 

Minhas mãos tremem. Meu maxilar tensiona. 

A visão vacila e sinto a sombra me arrastando para os bastidores. O outro quer seu lugar, seu espaço sob a luz, embora seja, literalmente, o pior momento para tal besteira. Tento lutar contra as garras amarelas que me arrastam para a bruma. Minha mente titubeia por um segundo, que se faz suficiente para que eu tenha que apoiar em um móvel próximo. 

Por alguns poucos segundos, que me parecem uma verdadeira eternidade, esforço-me para recobrar os sentidos. Balanço a cabeça na tentativa de retomar o bom senso e a normalidade. 

— Peço desculpas pela exibição pífia de uma possível labirintite não tratada. Antes de me apresentar, preciso ter certeza de que você é real, mademoiselle. Não me interprete mal, mas este castelo já se mostrou cruel o bastante comigo.

♤♡◇♧ 

O medo que outrora eu sinto, começa a dar lugar à curiosidade. Como ele sabe o meu nome? Como? Que lugar é este que faz com que as pessoas se conectem como se uma magia as fizesse agir de maneira ágil e soubessem de tudo? Onde já se viu perguntar se sou real ou coisa da sua imaginação? Desculpa tola de homens aproveitadores. Crueldade é a dele de invadir o meu espaço dessa maneira, e não do Castelo. 

Por outro lado, a sua voz é serena, embora seja masculina. “Mademoiselle”, ele profere, e uma aura de paz parece chegar em meu quarto. Mas ainda me sinto ameaçada. Não posso ser tão doce e pacífica com o estranho das matas. Foi por causa da minha antiga natureza dócil e pacífica que aconteceu comigo o que nunca deveria ter acontecido com uma moça. 

Levanto-me bruscamente da cama e as minhas mãos logo encontram o arco e a flecha próximos. Armo todo o movimento com técnica e fluidez e direciono-me para ele, deixando no ar o som do preparo selvagem. As luzes estão apagadas e apenas um feixe de luz da lua ilumina o momento de tensão. Não consigo perguntar quem ele é. Só consigo vociferar de medo e irritação. 

— Você vai sair do meu quarto agora! Ou a minha flecha vai adorar se sujar de sangue! A minha mira é mais eficiente do que o melhor atirador. E se der as costas sem olhar para trás, nem me encarar, lhe darei o direito de se explicar na antessala. O estranho cavalheiro escolhe. E então, decide se a “Mademoiselle” aqui é real ou não. — Digo de maneira irônica.  

Olho tensa para ele, pelas frestas e sombras da escuridão, tentando não demonstrar o meu medo, e o que vejo é o mesmo: aquela figura das matas… é ele! Finjo, então, estar segura, embora a minha fragilidade seja evidente agora. Estou tremendo. Ele percebe. O cheiro dele é miseravelmente agradável e se funde com o meu, mas a sua presença tão calma me faz dar essa chance de ouvi-lo. 

♤♡◇♧ 

Jamais presenciei um movimento tão ágil e impecável quanto aquele. Numa fração de segundo ela apanhou o arco e flecha e, com exemplar maestria, havia armado o disparo. Eu já havia atirado antes, e lembro da força que se fez necessária para entesar a corda e mantê-la daquela maneira. Muito além do que fui capaz de compreender, e acompanhar, me deparei com uma flecha apontada para mim, acompanhada de uma doce ameaça. 

— Pelas barbas do Rei, mulher, abaixe isso! — Cubro os olhos com a mão esquerda, restando a direita para manter distância da dama armada. Sinto um medo, bem sólido, ao perceber a possibilidade de ser atingido. Àquela distância, a flecha poderia, facilmente, me ferir de forma letal. — Prometo não estar vendo mais nada. Darei meia volta… Mas não atire em mim! 

Dou dois passos em direção à porta, a encontrando com a mão direita. Mantenho os olhos cobertos, embora esteja ciente de que minha jornada nesta terra possa se encerrar a qualquer momento. Fecho a porta e a aguardo no corredor, apartado daquela loucura. 

Sou atingido pelo doce perfume que havia seguido a pouco. Sem dúvida alguma era o perfume dela. Penso, também, que deveria estar armado com algo. Se ela for hostil, não terei como me defender de um ataque. A existência de um arco e flecha indica a existência de outras armas, acredito. Procuro por objetos que possam ser usados para defesa, mas nada existe aqui além de quadros de gosto duvidoso e velas praticamente sem vida. 

Massageio as têmporas com os dedos, buscando algum tipo de conforto, enquanto espero aquele espectro violento resolver se manifestar novamente. 

♤♡◇♧ 

Quando o estranho sai do meu quarto, parto correndo para trancar a porta. Agora entendo, algo sombrio neste lugar me fez ficar sonolenta, que até esqueci-me da porta aberta e do meu perfume também. Que inútil, me condeno.  

Respiro fundo, me desarmando e abaixando o arco e a flecha, os posicionando de volta ao chão. De tudo que me aconteceu aqui no castelo, isso foi o mais bizarro e doloroso. Esbarrar com uma face masculina próximo à minha cama me deixou pensando que todo aquele passado aconteceria comigo novamente. 

Preciso sair para falar com ele? Não, não preciso, ainda assim, a força maior de um chamado esquisito me faz querer sair para apresentar-me e talvez fazer uma amizade. Se eu ficar tão reclusa desse jeito, ficarei o tempo todo sozinha, sem companhia. Esses homens que estou avistando, se amigos forem, podem até defender-me dos perigos também, apesar de eu saber bem fazer isso. Não. Não preciso deles. O último que eu confiei desgraçou a minha vida.  

Paro de pensar demais, olho para a porta e me dirijo até lá para sair e falar com ele. Quando toco na maçaneta noto que ainda estou em vestes de dormir. Me assusto e a porta faz um barulho de abrir e fechar. Estou tão turbulenta que não me vesti adequadamente. Volto para dentro e troco a roupa. Visto muito bem a minha capa e cubro-me adequadamente para não transparecer nenhuma feminilidade que chame atenção, embora já tenha deixado isso escapar demais.  

Me dirijo até a porta e abro, sem nenhum armamento. Sinto que não é necessário. Dou um passo à frente, com o coração batendo forte, e quando saio pela porta, o visualizo, como se estivesse me aguardando. Não posso ser tão hostil. Ele chamou o meu nome. Deve me conhecer. E se for um mensageiro? Penso inúmeras coisas enquanto me aproximo tão fielmente de uma figura masculina por aqui pela segunda vez. Ele sente minha presença, mas fica no mesmo lugar. Devo mesmo tê-lo assustado, mas é melhor assim. Olho para ele, ainda com a minha capa, e a minha voz tenta dizer algo lúcido.  

— Eu... é... — Respiro fundo — Quem é você, o que faz na Vila Séttimor, para que adentrou neste castelo, como sabe o meu nome e por que entrou em meu quarto? Se apresente, diga a verdade e juro que não lhe farei mal. Vês? Estou desarmada, confiando totalmente em sua integridade.  

O ambiente do castelo é assustadoramente escuro, ainda assim, consigo enxergá-lo bem entre a meia luz e alguma abóbada próxima à parede. Seu aroma permanece no ar, e agora o suspense da sinestesia que tem acontecido aqui e o mistério das nossas faces confusas estão mais próximos de serem revelados.

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Raízes de Vida e Morte

No silêncio de uma floresta esquecida,
Onde o musgo cresce entre segredos antigos,
Uma mulher vaga, solitária, perdida,
Com seu olhar buscando a verdade em vestígios.

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

No silêncio de uma floresta esquecida,
Onde o musgo cresce entre segredos antigos,
Uma mulher vaga, solitária, perdida,
Com seu olhar buscando a verdade em vestígios.

O verde da floresta a envolve, denso e profundo,
Como um véu de esperança e também de inquietação,
Cada folha é como uma palavra, cada tronco um mundo,
Murmúrios de uma vida, a decadência de sua existência.

O verde cresce em sua mente de uma forma sutil,
Como promessas de vida que brotam em terra árida,
Mas logo a cor se transmuta em um sentimento hostil,
Que queima sua alma de uma forma violenta, ávida.

Raízes enlaçam seus pés e suas mãos,
Como se fossem correntes de um destino cruel,
O verde, que antes era promessa e vida,
Agora a aprisiona, um manto de fel.

Seu corpo se funde à terra escura,
Carne e folha, sangue e seiva misturados,
O verde que outrora fora a cura,
É agora veneno, destinos trocados.

A decadência se instala, lenta,
Como um outono sem fim, sem retorno,
A mulher se torna parte da floresta,
Um espectro verde em eterno abandono.

Na escuridão da mata, ela jaz,
Um eco de vida que se perdeu,
O verde, quem um dia foi paz,
É agora a cor da mulher que morreu.

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Escrito por Michele Valle, -Poesias Michele Valle Escrito por Michele Valle, -Poesias Michele Valle

Até um breve encontro

durante minha jornada pela | doce tortuosa estrada da vida | conheci alguns amores que fizeram verão | outros que nem sei mais onde estão...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

durante minha jornada pela
doce tortuosa estrada da vida
conheci alguns amores que fizeram verão
outros que nem sei mais onde estão 

mas existe uma em especial
que docemente marcou meu coração
conheci em um momento de solidão
sem pensar que o amor se tornaria ilusão

foram passeios e juras de amor
cartas apaixonadas e poemas escritos
o destino nem sempre é um bom amigo
às vezes ele nos prega peças sorrindo

em uma sinuosa curva na estrada
meu amor seguiu e não voltou
um anjo belo tocou sua harpa
e para longe de mim a levou

ó meu Deus porque deixastes
éramos apenas dois amantes
a desbravar por um oceano tranquilo
como dois ingênuos navegantes

sonharei com minha amada
sei que em breve a encontrarei
por ela tenho o tempo que for
um dia em meus braços novamente a terei.

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Lôbrego Pássaro

Virente alfombra, um manto surreal | Curvando nas estantes, relva e flor, | Abaixo d’um solar transcendental, | Um flúmen próprio rega o esplendor; ...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Virente alfombra, um manto surreal 
Curvando nas estantes, relva e flor, 
Abaixo d’um solar transcendental, 
Um flúmen próprio rega o esplendor; 

Ouvindo um canto lôbrego e sublime 
Por entre livro e arbusto, eu o encontrei, 
Um preso negripúrpuro —  ó crime! 
Com asas, sem voar… eu lhe afaguei; 

Cantava como a morte e igual a um flúmen 
Corvino, longa crista, formidável! 
Porém, nos olhos úmidos, um lúmen; 

Narrou-me: “Será que há de ser curável 
As úlceras d’um’alma encarcerada? 
Se livre, verei a vida obliterada 
Ou sonho de fortuna venerável?”... 

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Artemísia

A pressão rompe o silêncio na madrugada | Vibra o éter como música e ressoa | Reverbera no acetato, ainda...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A pressão rompe o silêncio na madrugada 
Vibra o éter como música e ressoa 
Reverbera no acetato, ainda longe da alvorada  
Cadente, nos ouvidos desta pessoa  

Aos poucos me vem memoráveis momentos 
Que longe vai o meu pensar 
Reavive voraz a figura e me revira o intento 
Faltava a substância de alucinar  

Aquela do verde frasco deixado na prateleira 
Insiste, ainda que eu queira, 
No convite para expirar os vapores novamente 
Doces ilusões inspiradas na mente…  

Tão logo nas minhas mãos impregnaram seu cheiro, 
Contra a janela fumaça e nevoeiro, 
E o perfume se expande neste cômodo lugar 
Como se arrebentasse um vidro de perfume inteiro 
E subitamente se espalhasse pelo ar  

Descomedido, fui além do que posso aguentar 
Oito taças me arrisquei ingerir 
Insistindo por várias horas sobre a mesa do jantar 
Para no último gole então descobrir  

Materializava um corpo bem onde eu estava 
A forma feminina a dançar em minha fronte 
Mais derretido e sombrio eu ficava  
Como se um riacho desaguasse no aqueronte 
Sufocado eu pedia uma fonte de água 
Depois, eletrificado, perdi de vez o sentido 
Nesta hora era o tempo de ter me arrependido 
Restou apenas um misto de todos os sentimentos 
De todos os vapores, emplastros e unguentos 
A rolar na minha pele como um óleo qualquer.  
Algo então se rompeu em mim, algo que eu não saberia bem como explicar. Era uma lembrança talvez, ou talvez fosse um tipo de vontade (mais certo que era). Culpei o álcool e o exagero, mas a vida contigo foi um exagero em dobro, uma embriaguez de tantos anos que me assombravam naquele momento e se fixavam naquela forma perdida e naquele movimento.  

Era um ideal, enfim entendi 
Algo que estava em mim, mas não em você 
E deixei-me jogado naquela cadeira 
Sem me preocupar se havia um porquê 
Fiquei contemplando o corpo despido 
Por baixo da transparência daquele vestido 
Eu dançava com os olhos, da minha maneira   

Será que é sólida para que eu a abrace firmemente? 
Não lembro ocasião de ter visto um ser todo verde  
Mas sim com o rosto corado num tom de rosé 
Tem forma, tem corpo e tem face 
E todos eles pertencem a você. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Escrito por Thais Gomes, -Resenhas Thais Gomes Escrito por Thais Gomes, -Resenhas Thais Gomes

Pobres Criaturas – Bella Baxter, a Frankenstein Feminista

"Pobres Criaturas" (em inglês, Poor Things) é um romance de Alasdair Gray publicado em 1992, que pode ser citado como uma adaptação...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

"Pobres Criaturas" (em inglês, Poor Things) é um romance de Alasdair Gray publicado em 1992, que pode ser citado como uma adaptação moderna de Frankenstein, o clássico de Mary Shelley. O livro é uma mistura de fantasia, ficção científica e crítica social, ambientado na Escócia do final do século XIX. 

A história gira em torno de Bella Baxter, uma mulher que é ressuscitada por um excêntrico cientista, o Dr. Godwin Baxter, após sua morte. Assim como no Frankenstein de Shelley, a protagonista passa por um processo de reconstrução, o que levanta questões sobre identidade, humanidade e o papel da ciência. 

Enquanto o monstro de Frankenstein é retratado como uma criatura trágica, lutando para encontrar seu lugar no mundo, Bella é uma personagem mais complexa, que busca entender sua nova vida e desafiar as normas da sociedade vitoriana. O romance aborda temas como feminismo, desigualdade social e o impacto do progresso científico, assim como o original de Shelley, mas com um tom mais satírico e uma perspectiva moderna. O filme "Pobres Criaturas" (Poor Things), dirigido por Yorgos Lanthimos, explora questões feministas e de igualdade de gênero, refletindo os temas presentes no livro de Alasdair Gray.  

A narrativa destaca a busca de Bella por autonomia e liberdade, desafiando as restrições que a sociedade tenta impor sobre ela como mulher. O filme explora a construção da identidade feminina, o direito à autodeterminação e a luta contra a opressão patriarcal, temas centrais ao feminismo. 

Além disso, a personagem de Bella representa uma figura de empoderamento, rejeitando as convenções tradicionais e lutando por igualdade e justiça. Portanto, o filme "Pobres Criaturas" aborda de forma significativa as questões de feminismo e igualdade de gênero, em consonância com a obra original. 

O livro também faz uso de uma estrutura narrativa não convencional, com várias camadas de narração e documentos fictícios, o que adiciona profundidade à história e à reflexão sobre o papel da narrativa na construção da realidade. Em resumo, Pobres Criaturas é uma releitura criativa e crítica de Frankenstein, explorando temas semelhantes, mas adaptados ao contexto cultural e social do final do século XX. 

Outro ponto que faz um intertexto entre as duas obras é a construção do personagem Dr. Godwin Baxter que é inspirado em William Godwin, pai de Mary Shelley. William Godwin foi um filósofo, escritor e um dos primeiros defensores do anarquismo e do pensamento radical no século XVIII. Ele é conhecido por seu trabalho em prol dos direitos individuais e da liberdade, além de ser um crítico das instituições autoritárias da época. 

O nome do personagem, "Godwin Baxter", é uma referência direta a William Godwin, o que cria um elo simbólico entre o cientista do romance de Alasdair Gray e o pai de Mary Shelley. Assim como Godwin, Baxter é um pensador excêntrico que desafia as convenções sociais de sua época, principalmente em relação à ciência, moralidade e liberdade individual.  

No livro e no filme, Dr. Godwin Baxter revive Bella Baxter, imaginando o ato de "criar vida", um tema central em Frankenstein, obra de Mary Shelley. A conexão com o pai de Shelley serve como um comentário sobre a natureza da criação, tanto literária quanto científica, e reforça as ligações entre Pobres Criaturas e o clássico Frankenstein. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Parte II – DARQUINHA: Capítulo IV - Desespero

Aquela tão esperada criança nascera no final do mês de agosto. Numa noite fresca, de brisa leve e céu enluarado, mesmo após um dia quente, seco e muito...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aquela tão esperada criança nascera no final do mês de agosto. Numa noite fresca, de brisa leve e céu enluarado, mesmo após um dia quente, seco e muito abafado, comum para aquela época do ano, em se tratando de regiões como o Cerrado, que, em determinadas épocas, tem um clima que muito se assemelha ao de um deserto, devido ao calor intenso e à baixa umidade relativa do ar. Gardênia chegara ao mundo esbanjando saúde e disposição. Quando fora entregue ao pai, estava aos berros, demonstrando uma intensa vontade de avisar ao mundo de sua chegada. Sua mãe, que tivera um parto bastante agonizante, estava prostrada na cama, recebendo os cuidados da velha cigana, que a acalentava, retendo sua cabeça junto ao colo. 

Uma parteira local – Dona Judith, esposa do Senhor Juraci Fonseca, o afamado Seu Jura, que viria a se tornar um grande amigo da família – fora chamada para auxiliar naquela delicada situação, uma vez que Madame Staell já não conseguia mais ver nem mesmo a luz do sol sobre sua fronte. O trabalho de parto durara desde a madrugada daquele dia, quando Darquinha sentira os primeiros sinais de que uma nova vida estava para chegar. Sem maiores discussões, Thomás foi em busca de Dona Judith, que já havia se acertado anteriormente com a velha cigana e estava de sobreaviso para, a qualquer hora, estar a postos e logo ir em socorro daquela franzina parturiente. O fato de Darquinha ter sido acometida por uma gestação bastante conturbada muito aterrorizou a velha cigana, que tinha muito apreço por sua protegida. No entanto, tudo terminou bem. Gardênia nascera forte e saudável. 

A alegria pela chegada de uma nova vida só não foi maior porque a jovem mãe ficou prostrada por quase uma semana. Darquinha sentiu intensamente a gestação e os efeitos do parto. Todos que a observavam de perto chegavam quase à mesma conclusão: a bela criança que ela trouxera ao mundo sugara-lhe parte de sua energia vital. Suas forças se resumiam praticamente a alimentar a própria filha, que, proporcional à sua vitalidade, tinha um apetite bastante voraz. Fato esse que tornou necessário complementar sua alimentação com o leite de uma cabra que havia parido recentemente, doada à família por Seu Jura, a pedido de Dona Judith, que os visitava todos os dias, acompanhando de perto o restabelecimento de sua mais recente paciente e o desenvolvimento da graciosa Gardênia. 

Com o tempo – esse fator que tudo resolve e tudo amaina – Darquinha foi se restabelecendo aos poucos e logo já estava de pé novamente, quase sempre vista com Gardênia nos braços. A bem da verdade, aquela bela criaturinha de olhos claros ficava sempre passando de um colo para o outro. Thomás parecia não se conter de tanta alegria e satisfação pela adorável filha, que lhe dava um prazer imensurável. Madame Staell – cada dia mais senil – que fazia as vezes de avó, e até mesmo batizara a criança segundo os velhos costumes ciganos, era puro regozijo quando segurava Gardênia nos braços. Vez por outra, a fazia dormir cantando, junto ao seu ouvido, velhas canções ciganas em romani, língua essa que somente ela, naquela casa, sabia... 

Com o fim do ano se aproximando, a estação das chuvas logo chegou, trazendo frescor para os dias e um estonteante verde para a relva, tornando os dias mais coloridos e as noites mais agradáveis. Ao final de cada tarde, a varanda daquela alegre e abençoada casa era brindada, muitas vezes, com um banho dos últimos raios de sol que caíam obliquamente, trazendo um preguiçoso colorido na violenta descida de um sol poente. Ou, vez por outra, com o frescor da chuva que caía de forma tranquila e acolhedora. A velha cigana e Thomás – que naquele momento já era chamado por quase todos de Pai Thomás, devido à sua corujice com a filha – ficavam sentados na varanda até bem tarde, observando a vista ao longe e discutindo sobre diversos temas. Ambos tinham muito conhecimento e experiências a compartilhar um com o outro. 

Além dos diversos assuntos que sempre eram tratados, Pai Thomás retomara um de seus antigos ofícios e, vez por outra, aceitava a encomenda da confecção de um chapéu, que era feito naquela hora, pois a lida diária tomava-lhe quase todo o tempo durante o dia. Sempre acompanhando todos aqueles acontecimentos, após findar suas atribuições domésticas do dia, encontrava-se Darquinha, balançando preguiçosamente numa acolhedora rede e, como não podia deixar de ser, tendo a filha aninhada junto ao peito, logo adormecia em sono profundo. 

No marasmo da vida no campo, sempre havia tempo e disposição para longas discussões sobre diversos assuntos. A monotonia da vida dava-lhes oportunidades para profundas reflexões a respeito dos inquietantes temas da humanidade, tais como a fé, a ciência, o amor, o tempo, mas principalmente o conflito sobre a origem da vida e seu inevitável fim: a morte... Após perder a visão por completo, a cigana já não tinha tanta alegria como dantes e muito menos a disposição de outrora, acabando por assumir uma postura bastante nostálgica e melodramática, sempre retornando as discussões às questões fundamentais sobre as inquietações humanas ponderadas por todos aqueles que sofreram grandes injustiças. Esses debates eram de uma profunda reflexão, que sempre retornavam ao grande tema dos grandes pensadores de outrora: Quem somos nós diante da vida... 

Certa noite, Pai Thomás, ao perceber que a velha cigana estava bastante calada e muito reflexiva, ousou questionar Madame Staell se, de alguma forma, ela sentia saudades da vida na cidade, se estava feliz com a vida que levava agora ali, na quietude do campo, ao lado deles. Perguntou se algo lhe faltava ou se algum agravo ou dissabor a incomodava... 

A cigana, que permaneceu em silêncio por um instante, com os olhos esbranquiçados pela cegueira, mirados no horizonte como se pudesse enxergar algo ao longe, após um grande suspiro, respondeu: 

– Nada me falta nesta casa, e nenhuma coisa me incomoda aqui. Sou bem tratada e respeitada de uma forma que há bastante tempo já não era. Devo dizer que cada lugar tem seus encantos. Nas grandes cidades, há todo o conforto que o progresso proporciona. Por lá, é dito que o sertão é um lugar ermo e atrasado, povoado por pessoas brutas e ignorantes. Um lugar onde inexiste o progresso e não há recursos médicos, onde ainda reinam a ignorância e o misticismo. No entanto, o que vejo é um paraíso. Um lugar de paz e quietude, onde reinam a amizade e a camaradagem mútua. Se, por um lado, a cidade olha com menosprezo para o campo, o sertanejo vê a cidade com certo receio, como um lugar de individualismo, onde é cada um por si e Deus por todos. De forma alguma o sertanejo menospreza a cidade, pois sabe que é um lugar de ciência e novas descobertas a cada dia, muitas das quais logo chegam ao campo, trazendo espanto e alegria para a humilde lida diária de pessoas simples. No entanto, ele a teme por ser um lugar de comércio, onde tudo se vende e tudo se compra. Um lugar onde até mesmo a amizade é uma mercadoria de preço alto... 

Após mais um breve momento de reflexão e silêncio, a cigana continuou: 

– Entre a cidade e o campo há uma linha tênue que divide o progresso da inocência, separando esses dois mundos em partes bastante antagônicas. Ambos têm seus encantos. No entanto, segundo um antigo rei bastante sábio: “Há um tempo para tudo nesta vida...”, e meu tempo na cidade se findou. Para uma pessoa da minha idade e com minha experiência de vida, a cidade já não mais me seduz como antigamente. A meu ver, atualmente, nas grandes cidades, há uma onda de ceticismo e de generalizada descrença entre as pessoas. Uma verdadeira falta de confiança em tudo e em todos. Um misticismo grosseiro, disfarçado de progresso, afasta as pessoas das crenças e dos meios religiosos de seus antepassados. Remédios, benzimentos, bênçãos e preces já não recebem mais o crédito de outrora. A cidade vive um tempo de pouca fé, onde reina a incredulidade tanto nas questões espirituais quanto na própria humanidade. 

Hoje, o que me resta é poder usufruir dessa paz que só o campo pode me oferecer. Devo lhe confessar que, ao perceber que Darquinha está em boas mãos, sei que posso descansar em paz. Sei que, ao me ver sorumbática, talvez isso lhe cause algum desconforto, ao pensar que não estou feliz. Mas quero que saiba que estou vivendo uma velhice plena; nem mesmo minha cegueira me incomoda mais. Mesmo não podendo contemplar Gardênia com meus próprios olhos, ainda assim posso vê-la com o meu coração quando toco sua face e ainda posso ouvir seu riso fácil... 

Essa foi a última conversa que aquela varanda presenciou entre aqueles dois grandes pensadores. Na madrugada daquela mesma noite, Madame Staell deu seu último suspiro, prestando contas ao infinito ao entregar sua vida ao desconhecido. Morreu em paz, sem nada reclamar; apenas se deitou e, ao raiar os primeiros sinais de um novo dia, já não vivia mais. Depois de quase três anos vivendo ali, naquele ermo lugar, eles conseguiram cultivar a amizade de todos que viviam ao redor. Madame Staell era visitada quase sempre por aqueles que ansiavam pelos místicos e sábios conselhos que ela dava. Muitos tinham muita fé na sabedoria da velha cigana, que logo, sem muito esforço, conseguiu angariar o respeito e a amizade de uma grande quantidade de admiradores. Seu velório foi um grande acontecimento na região; a casa de Pai Thomás ficou tomada de pessoas durante todo o dia e pela noite afora, até o momento em que o cortejo levou o corpo da outrora belíssima cigana Sarah – que abalara muitos corações em sua juventude – agora finada Madame Staell, para seu último descanso. 

Como era sua tutora e conselheira, e desde que Darquinha ficara órfã fazia às vezes de mãe, em muitas ocasiões, em momentos de intimidade, Madame Staell sempre conversava com Darquinha por meio de gestos sobre diversos assuntos. Dentre eles, estava o tema de sua própria passagem, quando isso viesse a acontecer um dia. Embora Darquinha fosse bastante avessa a esse tipo de conversa, a cigana insistia, dizendo que aquela era uma certeza inquestionável; por mais que pudesse ser adiada, de forma alguma poderia ser evitada. Com gestos carinhosos de afago e conforto, ela dizia à sua amada e protegida que o fim sempre chegava para todos e que a única coisa ao nosso alcance era tentar estar preparados para esse momento tão doloroso. Tal como o sol que se põe todos os dias e renasce ao amanhecer, da mesma forma, todos os dias alguns morrem para que outros nasçam. Não se deve temer aquilo que é inevitável; o melhor a se fazer é resignar-se com as imutáveis leis da natureza. Quando a areia da ampulheta de um ser está se esgotando, nada mais pode ser feito. O Tempo é um deus impiedoso e reina sobre tudo e todos... 

A pedido da própria cigana, que mais de uma vez havia deixado bastante explícitas a Darquinha algumas instruções sobre o ritual fúnebre de seu povo, seu corpo foi lavado com ervas aromáticas e, logo após ter sido perfumado com óleos especiais, foi vestido com sua melhor roupa, previamente escolhida por ela mesma. Também, pouco antes de morrer, Madame Staell entregou a Darquinha seus pertences mais valiosos como herança, separando para si apenas algumas joias, com as quais foi bastante explícita ao demonstrar seu desejo de que esses adornos deveriam enfeitar seu corpo para sua última viagem. Por fim, juntamente a essas joias, entregou-lhe uma moeda de ouro de aparência bastante envelhecida, que deveria ser colocada em seu caixão para que ela pudesse pagar a travessia do grande rio que separa a vida da morte... 

Após o enterro de Madame Staell – que fora sepultada num verdejante prado à sombra de uma frondosa aroeira, próxima à casa onde vivera seus derradeiros anos – Thomás, tendo Gardênia já com dois anos ao colo e acompanhado de Darquinha, retornaram cabisbaixos para sua agora silenciosa morada. Apenas vez por outra, o silêncio era quebrado pela algazarra de Gardênia, que nos primeiros dias corria de um canto a outro chamando pela Baboo – nome carinhoso pelo qual ela chamava a velha cigana. Esse fato causava copiosas lágrimas em Darquinha, que sentia pesarosamente a perda de sua querida protetora. A morte da velha cigana trouxe grande tristeza para aquela casa. Gardênia perdera sua Baboo, Darquinha, sua protetora e fiel confidente de tantos anos, e, por fim, Pai Thomás sentia bastante a ausência de sua companheira de inúmeras noites de reflexões, ensinamentos e incontáveis histórias de um tempo e uma terra que ele não conhecia. 

A cigana, que na maior parte do tempo não tinha nenhuma outra pessoa com quem conversar, fazia de Pai Thomás seu melhor ouvinte. Não apenas despejando-lhe palavras sem sentido e proveito prático, mas também transmitindo-lhe grandes ensinamentos de sua secular cultura. Pai Thomás, que além de companheiro para longas noites de profunda reflexão filosófica, tornara-se também um fiel aprendiz, demonstrando grande interesse pelos místicos ensinamentos sobre os misteriosos conhecimentos da sabedoria cigana. Depois de muitas injustiças sofridas e após anos de decepções, imaginando que nada mais pudesse abalar seus sentimentos, a perda de Madame Staell trouxe a Pai Thomás um dolorido pesar. Porém, a tempestade que se anunciava para breve sobre aquelas paragens ainda não havia chegado; a perda da cigana era apenas uma brisa leve em comparação ao que estava por vir. 

Os místicos e misteriosos ensinamentos, aprendidos com bastante ênfase e maestria, fizeram com que a casa deles continuasse sendo frequentada pelas mesmas pessoas que vinham em busca dos conselhos e favores místicos da agora falecida cigana, e que agora buscavam obter de Pai Thomás o alento para seus dissabores e incertezas. Thomás, que outrora fora chamado carinhosamente de pai devido à sua progenitura, agora era chamado de Pai Thomás por outros motivos e assim ficaria conhecido até o fim de seus dias... 

A tristeza pela perda da sábia anciã, que de alguma forma contribuiu para a felicidade daquele improvável casal, foi se amainando aos poucos com o passar dos dias. As obrigações do cotidiano, as novidades que Gardênia – uma menina esperta e cheia de vida – aprendia a cada dia, mas principalmente o tempo, tornaram a perda da velha cigana mais suportável, a cada dia um pouco menos dolorosa. Logo tudo voltaria ao normal, e os dias se sucederiam de forma comum, como deveria ser na vida de qualquer família. No entanto, parece que existem pessoas que nascem com o sofrimento já inserido no mais profundo de seu ser. De certo modo, pessoas desassistidas pela roda da fortuna tendem a se afinizarem mais facilmente. O sofrimento torna-se um elo muito forte entre aqueles que penam certas adversidades. 

Quando Pai Thomás – ainda um negro errante – conheceu Darquinha, algo inexplicável aconteceu dentro dele, um sentimento que até então ele não conhecia. E quando a olhava – às vezes, mesmo que de soslaio – seu peito se apertava a ponto de lhe faltar o fôlego, e foi nessa época que ele soube que sua vida estaria para sempre vinculada a ela. Que sua própria felicidade dependeria do fato de vê-la sempre feliz. Esse sentimento lhe permitiu perceber que havia algo bastante errado com sua amada esposa. Não era só a perda da cigana; havia algo mais. O semblante de Darquinha estava diferente, como se ela padecesse de um sofrimento profundo, que a todo momento tentava esconder. Por diversas vezes, ele tentou, com gestos de carinho e afago, questioná-la sobre o que havia de errado. Ela, por sua vez, sempre gesticulava em negativo, tentando convencê-lo de que tudo estava perfeitamente bem, que era apenas saudade de Madame Staell. 

Já havia passado quase dois anos desde a morte de Madame Staell quando Dona Judith – que se tornara visita cativa na casa de Pai Thomás – certo dia o chamou de lado e disse-lhe que havia algo errado com Darquinha. Relatou-lhe que Darquinha sofria de terríveis dores de cabeça a ponto de seus ouvidos sangrarem, mas que ela lhe rogara desesperadamente que nada fosse relatado a ele. No entanto, ao perceber que a cada dia o sofrimento dela se tornava maior, Dona Judith, como mulher experiente, achou melhor esclarecer tudo a Pai Thomás, a fim de que algo pudesse ser feito. A tempestade havia chegado e fazia seus primeiros estragos. Pai Thomás percebeu que a cada dia Darquinha estava mais pálida e demonstrando profundo padecimento. Ele tentou tudo o que havia aprendido com a velha cigana, mas parecia que nada adiantava. De certo modo, até se arrependeu de não ter aprendido mais, lembrando-se das palavras da cigana: “... Conhecimento e saberes nunca são demasiados, e, em algum momento, aquilo que se aprende poderá ser útil de alguma forma. No entanto, mesmo com todo o conhecimento do universo, um verdadeiro sábio tem o discernimento necessário para saber que algumas coisas não são possíveis...”. 

Os dias foram se sucedendo, e o sofrimento de Darquinha aumentava cada dia um pouco mais. Seus ouvidos, que outrora apenas sangravam, começaram a expelir um pus denso e fétido, como se algo dentro dela estivesse apodrecendo. Como ela mesma não podia se ouvir, seus gemidos de dor eram tão terríveis e lamuriosos que causavam um desesperador sentimento de piedade em qualquer pessoa que presenciasse toda aquela angústia. Como aquele sofrimento se agravava a cada dia, deixando Darquinha acamada, Dona Judith já não mais se afastava de seu lado, tentando de todas as formas amenizar seu sofrimento, ajudando-a em suas necessidades íntimas, bem como nos afazeres domésticos. Gardênia também já estava sob cuidados alheios, pois Pai Thomás já não era mais senhor de si. Em angustiante desespero, percebeu que de forma alguma poderia sobreviver à morte de sua amada e estava disposto a fazer qualquer coisa para salvá-la. 

Numa determinada noite de calor intenso, o sofrimento tomou conta de vez daquela casa. Darquinha, que a cada dia tinha o semblante mais doentio, perdia um pouco mais de sua vitalidade de forma gradativa, e em menos de uma semana tornara-se uma criatura grotesca de ser contemplada, um ser com um pé na sepultura, já de tal forma tão decrépita que ninguém seria capaz de dizer se ela estava saindo ou entrando em sua última morada. Sua dor era tamanha que ela gemeu a noite toda, sem poder dormir um minuto sequer. Thomás velou por ela a noite inteira, vendo sua amada padecer de tão grande dor. Ao contemplá-la de perto, pôde perceber quão grave era a situação de sua esposa. Era como olhar para a morte face a face, tão de perto que seria facilmente possível beijá-la nos lábios. Depois de horas de terrível angústia e sofrimento, o dia enfim chegou, mas passou depressa, dando lugar a outra noite de agonia, que não foi tão diferente da anterior. 

As coisas acontecem em três níveis principais na experiência humana: boas, ruins e terríveis. À medida que se desce na crescente escuridão em direção ao terrível, fica cada vez mais difícil discernir essas subdivisões. A condição de saúde de Darquinha já estava no nível terrível... Depois de três noites seguidas, praticamente sem pregar os olhos, num sentimento de terrível impotência por nada mais poder fazer, Pai Thomás, em murmurante monólogo, se perguntava: 

– Quanto tempo sua amada ainda haveria de sofrer antes de chegar seu fim? Quanta lástima ainda ele teria que enfrentar? E o pior de tudo, como seria sua vida sem a razão de seu viver? 

Num átimo de desespero, suas mãos começaram a tremer, e de repente ele se sentiu tomado por uma profunda compaixão e uma raiva cega contra toda aquela pestilência, aquela dor constante e aquele infindável sofrimento; a fragilidade de um corpo humano contra a corrupção monstruosa e abominável da morte. Dentro dele revezavam-se terríveis arrebatamentos de exaustão e desespero. Uma explosão de incontrolável cólera e pensamentos histéricos tomava o controle de seus nervos. E, muito próximo a um ataque de fúria, ouviu a sábia voz de Dona Judith atrás de si. 

– Tenha fé, Thomás. O senhor é um homem sábio e possuidor de grande raciocínio. Sabe melhor do que ninguém que é justamente nos momentos mais sombrios que brilha a verdadeira luz da esperança. Não deixe o ódio tomar conta de seu coração. O desespero cega as pessoas e as torna surdas e cegas perante as mensagens que o infinito nos envia. Abra sua mente e abrande seu coração. Lembre-se de que para tudo nesta vida há uma razão. Creia que Deus, em sua infinita bondade e misericórdia, tem um propósito para tudo isso. Seja forte e acredite! Nesse momento, sua esposa precisa de sua força e de sua fé acima de qualquer outra coisa... 

Suspirando profundamente para controlar sua fúria e tentar não ser grosseiro com pessoa tão prestativa e bondosa, Pai Thomás, escolhendo as palavras, respondeu: 

– A crença em Deus ou numa força superior é algo bem maior do que simples palavras. É uma questão de um raciocínio privilegiado, pois se trata de entender o amor divino pela humanidade. Como posso aceitar essa verdade se não consigo ver esse amor dentro de minha própria casa? Nesse momento de desespero, parece que já não sei mais nada. Nem mesmo qual é o meu dever. Como posso cumprir minhas obrigações, se já nem sei quais são... 

A alma de Pai Thomás não estava apenas triste e com medo, mas aterrorizada, querendo se esconder no lugar mais profundo de suas entranhas, como uma criança abandonada numa floresta escura e desconhecida, numa noite de tempestade. Mesmo assim, ele ainda conseguiu forças e disse: 

– Qualquer homem é fraco perante aquilo que ele não pode compreender. Sei que, diante de uma situação sem solução, é preciso buscar forças pelo menos para se resignar. Mas, perante o mais profundo desespero, como saber qual atitude é a mais conveniente? Onde posso conseguir forças para enfrentar a mais inquietante das questões da humanidade? 

Tomada de grande compaixão por toda aquela situação, Dona Judith lhe respondeu. 

– Sei que está com medo. Não há vergonha no medo; o que verdadeiramente importa é o modo como enfrentamos nossos medos... O senhor deve estar preparado para o que está por vir. Sei que a morte é extremamente triste, sem dúvida, e talvez bastante incompreensível para os que ficam. No entanto, à sua maneira, a morte é o fato mais natural para todo aquele que vive. De certa forma, é até mesmo um alento para aqueles que padecem de algum mal irremediável, pois pode trazer o conforto que a vida não pode mais oferecer. A vida é uma inexorável luta entre o bem e o mal, onde o bem nos oferece aquilo que nos é necessário na hora devida, enquanto, por sua vez, o mal, de forma bastante sedutora e imediata, tenta nos presentear com aquilo que desejamos. 

Já não conseguindo mais processar nenhuma palavra coerente, pois o que dizia já não fazia mais sentido, ele, que não tinha mais forças para responder qualquer coisa que fosse, colocou suas enormes mãos sobre o rosto e chorou de forma bastante dolorida. Pai Thomás certamente não seria o primeiro homem a se deparar com o obscurantismo do abismo das incertezas após terríveis momentos de sofrimento. E ali, perdido entre suas lágrimas, chegou a desconfiar de sua própria sanidade, perguntando a si mesmo se todo aquele sofrimento chegaria ao fim em algum momento... Percebendo o tamanho de seu desespero, deixou sua casa e saiu caminhando sem destino certo, cambaleando trôpego como se fosse um bêbedo entre a relva. 

Depois de um longo dia de calor escaldante, a noite chegou clara e límpida. A lua crescente brilhava radiante num lindo céu de estrelas pintalgadas, tão radiante como se não tivesse de contemplar nenhuma desgraça. A relva, refrescada pela leve brisa da noite, estava em plena exuberância, exalando infinitos odores diferentes. Pai Thomás foi em busca de um pouco de paz. Não queria mais ouvir nada que Dona Judith pudesse lhe dizer, nem mesmo responder qualquer coisa que fosse. Ao longo dos anos, descobrira que o silêncio, por vezes, recompensa bem mais do que certas perguntas. Caminhou por quase uma hora pela relva fresca, ao som das criaturas da noite em sua permanente serenata, até o momento em que, já cansado de tanto andar, se prostrou de joelhos. 

Naquele instante, de joelhos na relva e de braços abertos aos céus sob o silêncio das estrelas, um grito enorme escapou de dentro dele. Um som lamurioso e angustiante, provindo do fundo de sua alma, suficientemente alto para ecoar pelas árvores e certamente forte o bastante para acordar qualquer criatura deste mundo, seja dentre aqueles que vivem ou até mesmo alguns outros. Com aquele som angustiante, a floresta momentaneamente se calou por completo. No entanto, um farfalhar de folhas se movendo foi ouvido por ele, e, do meio das sombras, ela surgiu como uma luz nas trevas. 

Quando Pai Thomás olhou ao seu redor, viu uma bela mulher como nenhuma outra que já tivesse visto. Uma tiara cravejada de joias brilhava entre os seus longos e cacheados cabelos dourados, que ali, na escuridão da noite, pareciam brilhar ao sabor do vento. Dentre as brilhantes pedrarias em seus cabelos, destacavam-se belíssimas esmeraldas que combinavam perfeitamente com o verde de seus olhos, que também pareciam emitir um brilho hipnotizante. Essa estonteante criatura trajava um alvíssimo vestido de cor azul-clara, de um tecido de tamanha transparência que quase todo o seu corpo desnudo era possível de ser contemplado. 

Antes mesmo de Pai Thomás poder dizer qualquer palavra, aquela bela criatura lhe estendeu uma delicada mão de dedos afilados que terminavam em unhas bem cuidadas, pintadas num vermelho cor de carmim, tal como era a própria cor de seus lábios, que também emitiam um brilho de intensa volúpia. Mesmo na penumbra da noite, ele pôde perceber que a palma daquela mão delicada era fria e totalmente lisa. Não havia ali nenhum traço das linhas do destino. Talvez porque ela fosse uma espécie de criatura sobre a qual o destino não tinha poder. Ou, quem sabe, fosse ela mesma o próprio destino. Pai Thomás, ainda de joelhos, a contemplava em completo fascínio, quando a ouviu dizer numa voz doce e sedutoramente agradável: 

– Suas preces foram ouvidas, angustiado ser. 

– Não fiz nenhuma prece – respondeu Pai Thomás, ainda de joelhos. 

– Qualquer ato pode ser uma prece, desde que seja desempenhado de forma pura e inocente, principalmente se for em benefício de alguém que tristemente padece... 

Levantando-se de forma bastante cautelosa e ainda fitando a criatura nos olhos, ele perguntou: 

– Apenas diga-me, quem é você? 

– Na verdade, não é quem sou, mas o que sou! Por ora, basta que saiba que sou tão antiga quanto as primeiras trevas, de uma época tão remota que nem a luz ainda brilhava... Sou aquela que liberta os que padecem nas garras do destino. Sou a paz para os que vivem em tribulação, descanso para os desesperados. Sou a solução para toda e qualquer questão. Sou a sorte do apostador que nada mais tem a perder. Tudo é possível para quem está disposto a pagar. No entanto, nada neste mundo nem no outro é dado de graça; tudo tem o seu preço. Se estiver disposto a pagar um preço justo, qualquer desejo seu posso realizar. 

Em completo desespero e vendo uma possível luz no fim do túnel, Pai Thomás respondeu: 

– Qualquer coisa para findar com todo o sofrimento que aquela que mais amo padece. 

A bela criatura, utilizando-se ainda de meigas palavras, mesmo que de forma bastante astuta como a velha serpente outrora fizera, tentou dissuadi-lo de seu desesperado desejo. 

– Cuidado, lamurioso ser, com aquilo que desejas. Existem preços muito altos para um homem pagar, dívidas duras demais para serem saldadas em uma única existência. 

– Nada neste mundo cruel pode ser mais valioso do que o fim do terrível sofrimento daquela que amo mais do que minha própria vida. A eternidade de minha alma é um preço mais do que justo pelo fim de toda a dor daquela que deu um verdadeiro significado à minha existência. 

Ao terminar de pronunciar essas palavras, Pai Thomás percebeu que algo terrível havia alterado o ambiente ao seu redor. Um medo terrível tomou conta de todo o seu ser ao perceber que havia trevas ao redor. Nem mesmo o céu, que outrora estivera límpido e estrelado, era mais possível de ser contemplado. Um cheiro fétido empesteava todo o ar, e seu corpo se arrepiou por completo ao ouvir as últimas palavras daquele estranho ser. 

– Está consumado! 

A voz que se ouviu, num quase sussurro, soava mais como o grasnido seco e raspante de alguma coisa há muito tempo morta, proveniente de uma criatura que jamais poderia ser contemplada pelos olhos dos vivos, pois certamente tal visão levaria qualquer um à mais completa insanidade ou até mesmo à morte para aqueles de espírito mais sensível. Pai Thomás não chegou a tanto, mas, como estava com os nervos bastante abalados, ao contemplar a criatura que estava diante dele, teve um grande sobressalto, perdeu os sentidos e foi tomado por um sono profundo, onde sonhou que caía num infinito abismo... Porém, mesmo nos sonhos, não é possível cair para sempre, mas Pai Thomás queria continuar caindo, se possível para todo o sempre, pois sabia o que o aguardava no final de sua longa e angustiante queda. 

Depois do que pareceu ser um longo tempo, despertou daquele inquietante sonho. A noite já estava com o frescor que anunciava as horas tardias. Uma brisa fresca soprava de tempos em tempos. A relva adormecida era iluminada pela luz de uma meia-lua que já se encaminhava para o poente. No céu, as estrelas ardiam nítidas e silenciosas, reinando sobre um firmamento de infinitas dimensões. Rapidamente, ele se levantou e, sem mais delongas, retornou a passos rápidos para casa, como se, no mais profundo de seu ser, soubesse que nada mais seria como antes. Mesmo estando ainda ao longe, ao ver a estranha movimentação na porta de sua casa, soube que o pior havia acontecido. Nem foi necessário perguntar o que ocorrera, pois sabia ele que qualquer um que se dispõe a fazer uma pergunta deve estar sempre preparado para qualquer resposta. 

Pai Thomás foi tomado por um terrível desespero, e, por mais que tentassem de todas as formas possíveis lhe explicar que Darquinha estava morta, ele se negava a acreditar. Insistentemente, diziam-lhe que ela agora estava em paz e que essa era a ordem natural das coisas. Para um ser vivo, a morte era inevitável. Ele, que praticamente já não era mais senhor de si, foi o único que viu quando uma graciosa criança de belos cabelos encaracolados e vestidinho rodado saiu dançando da alcova onde o corpo de Darquinha repousava. Passando perante ele em direção à porta de saída, ainda bailando alegremente, ela disse com uma doce e melodiosa voz que somente ele pôde ouvir: 

– Seu desejo foi realizado. Sua amada não padece de mais nenhum sofrimento...

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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