Almas Cinzentas
A noite estava fria, mas o frio do amanhecer é maior e me desperta de um sono longo. Ao abrir os olhos, percebo que tudo é cinzento, vazio, morto. Logo, meu globo ocular arde…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A noite estava fria, mas o frio do amanhecer é maior e me desperta de um sono longo. Ao abrir os olhos, percebo que tudo é cinzento, vazio, morto. Logo, meu globo ocular arde levemente, trazendo lágrimas quentes que começam a verter. Por que a monotonia me toma, por quê? Por que o dia amanhece tão estranho? Na verdade, onde estou? Estaria eu ainda sonhando? Talvez. Seco as lágrimas de saudade de algo que não sei decifrar.
Levanto-me da cama, lavo meu corpo e sinto a água gelada. Saio rapidamente do banho e me visto com roupas confortáveis e aquecidas. Decido explorar melhor o lugar, mas antes de sair, avisto uma placa gigantesca na saída do castelo onde estou hospedada, que diz: “Vila Séttimor” — percebo da minha janela. Então, o nome deste lugar é Vila Séttimor? Muitas interrogações me tomam.
Lembro-me de Olga Nivïttz, da sua inteligência, altivez e coragem para viver neste lugar, que agora me encanta grandiosamente. A cada orientação sua, me sinto mais segura, ainda assim, sinto-me nostálgica, como se algo dentro de mim faltasse. A busca por esse algo parece distante, dolorosa.
Ao longe, vejo pessoas caminhando vagarosamente, como se estivessem enfermas ou com preguiça. Mas todas? Decido sair do quarto para conhecer melhor o ambiente lá fora. Desço as escadas e a atmosfera é gélida, logo, penso que fiz bem em me cobrir bastante.
A porta do castelo se abre lentamente e range alto. Nunca sei o que me espera por aqui, e realmente, o que vejo é estranho. Ao me afastar do grande recinto, vejo as pessoas lentas, da mesma maneira que vi pela janela. Seus rostos são estranhos e elas não me olham fixamente.
— Olá... — digo, mas ninguém responde. Os seres andarilhos apenas me olham. Realmente, este lugar é um destino que jamais imaginaria estar. Essas pessoas não me fazem mal, mas me transmitem estranheza, como se eu estivesse em outro mundo, um mundo além do meu. Meus líderes conversaram bastante comigo sobre portais que podem ser abertos e nos levar a locais inexplicáveis, e penso se isso poderia estar acontecendo comigo.
As pessoas que vejo são frias, em todos os sentidos possíveis. Logo, elas me fazem lembrar de tantas pessoas que amo e que se foram, não sei por que penso nisso. A morte parece estar tão próxima de mim, uma atmosfera cinzenta, uma aura funesta e dolorida...
Continuo caminhando e não apenas sinto cheiro de sangue, mas o vejo por entre os cristais de gelo ao chão. Sim, nevou, e a neve ainda cai, improfícua. De quem seria esse sangue? A vila parece grande, misteriosa e assustadora.
Decido retornar, ou essas pessoas me deixariam ainda mais tonta de tanto rondarem próximas a mim, como se fossem cair e me derrubar ao chão.
Não acredito que zumbis possam existir neste espaço-tempo em que me encontro. São pessoas, pessoas estranhas, mas ainda são seres humanos. Isso parece ser um pouco mais profundo do que imaginei.
Ao retornar para o castelo, lembro-me do meu avô. Ele me doutrinou tanto, me ensinou tantas coisas, e agora não tenho seus conselhos sábios em tempo real. Tudo ficou na minha mente, apenas. Lembro-me e choro. Meu choro é a única coisa que aquece um pouco o meu rosto, pois a frieza que toma minha pele, ainda que aquecida, é inegociável.
De tanto pensar, esbarro em uma pessoa que parece não estar olhando por onde anda.
— Você consegue olhar por onde anda? — Quase brado, impacientemente, e a pessoa passa por mim e para, de costas. Quando se vira para mim, vejo que seu rosto não existe, está cinzento, pálido, vazio, com uma cor inexistente... me assusto desta vez. Antes que a figura abra a boca para dizer algo, corro para o castelo, e antes mesmo que eu possa me aproximar, a grande porta se abre, parecendo me reconhecer enquanto residente.
Adentro a porta e subo as escadas correndo, até chegar ao meu quarto. Preciso urgentemente relatar tudo para meus líderes xamânicos que deixei em meu país. Eles precisam saber o que anda acontecendo desde que aqui cheguei.
Fico imaginando: se uma daquelas criaturas adentrar o castelo, não sei o que poderá acontecer. Pela primeira vez não tive medo ao ver figuras masculinas rodando a Vila Séttimor. Talvez, por ter figuras femininas por perto. Ou talvez por serem lentos, indefesos. Mas por que não tive medo? Por que sei que não me fariam mal? Por que são tão diferentes dos outros seres vivos?
Pego meus pergaminhos, caneta e tinteiro, e surgem as primeiras palavras, ainda em minha mente. Acalmo-me e sento-me à escrivaninha disponível em meu quarto. Através dela, é possível ver a janela, que me dá a possibilidade de ver as pessoas estranhas lá fora. Eis o momento de respirar fundo e iniciar meu primeiro relato a ser enviado para minha aldeia.
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Capítulo 2: Abíssicas Escolhas
Embevecida pelo silêncio dos sonhos mais profundos, tudo se externava em suavinura. Andejei sob infinda serenidade por dentre um substancial…
Embevecida pelo silêncio dos sonhos mais profundos, tudo se externava em suavinura. Andejei sob infinda serenidade por dentre um substancial jardim de raras e inigualáveis espécimes florais — as quais eu parecia conhecer tão bem. E a crepuscular solitude felicitava minha alma dulcificada, enquanto no horizonte as cores tórridas se esvaneciam e o sol se amainava conforme a aragem soprava a noite fria. Cessei meus passos e olhei para trás, avistei um colossal castelo; à vista de meus olhos oníricos, a vida exalava de suas entranhas. Cada janela um tremeluzir se via, dos lumes das velas nos castiçais; cada torre ornamental, esculpida como se a mãos, por um único artista, quebrantava os céus, e protegia-me. O alcácer era incomensurável, havia um reino em seu âmago, preenchendo todas as suas terras. Era um lar, tinha alma de lar — como eu queria me lembrar. No entanto, sob a gana de alcançar a memória, desadormeci... e a luz azul-pálida tocara minhas pupilas, vinha da estranha lua túrgida visível das fenestras daquele aposento — em uma delas, uma silhueta viril eu avistei; ele admirava a beleza invulgar do índigo anoitecer perpétuo.
Ainda vestida em escarlate, reconheci o desvario daquele outrora quando os rostos eram terríficas cenas por espelhos fincados em seus semblantes. Lembrei-me de minha angústia, da dança macabra, do mórbido pavor. Contudo, indagava-me há quantos dias este baile acontecera e por quanto tempo residi em ilusões inconscientes. Quem trouxe-me aqui? Decerto aquele homem aguardava-me, talvez tenha salvo-me de meu delírio. Era imprescindível vê-lo, inestimável agradecê-lo e, sobretudo, reconhecê-lo. No entanto, aos meus lentos movimentos, passos serenos, não pude abandonar o lumiar lunar cujos tons níveo-cerúleos expandiam-se pelas trevas n’um azul-mar-abismo. As cores moldavam meu espírito e manipulavam minhas emoções e sei disso, pois ao que revelava meu despertar sonial, transmutava-se a realidade em outro sonho, capaz de extasiar tanto quanto. Assim, conforme me aproximava daquele homem, em desejo frígido — o suficiente para queimar —, eu me envolvia.
— Sentes-te melhor, mítica dama? — Dissera, com seus olhos voltando-se a mim, belos olhos enegrecidos, com escleras igualmente negras; eram como duas helleborus lihri-nocturnus, flor sempre adornada por uma essência invernal. Tal espécime é um cruzamento bastante peculiar entre o heléboro púrpura e o Lírio do Nilo, por isso tem a cor roxa profunda que, aos olhos, assemelha-se a um preto intenso. Um tênue sorriso ascendi ao homem misterioso e reconheci seus lábios, eram os mesmos daquele que me convidara para dançar na fatídica noite. Lëvri... eu me lembro. Lëvri levantou-se, portanto, segurando uma de minhas mãos e beijando-a, amoroso.
— Temo não ter despertado ainda. — Ele sorriu à minha resposta.
— A noite é o mistério índigo dos teus olhos rubros... ou, devo dizer, áureos? — Sua expressão encarava-me com uma virilidade instigante e, sob a estranha noite, eu sentia florescer em meu corpo a frenesia mais pujante.
— Não sei ao certo... não posso olhar para espelhos. — Revelo, ainda incerta; com a reminiscência dos fragmentos espelhados nas faces sangrentas dos convivas do baile. Turvei-me um pouco diante do lembrar e vi a rapidez de Lëvri para segurar meu corpo instável. Olhamo-nos como falésias à escuridão oceânica.
— Frágil... doçura pálida... por que enlevas a escuridão do meu universo com tua alma de Ennehris? — Ele ajuda-me a sentar na poltrona que outrora ele se sentara; sem que seu olhar esvaísse do meu. Pus-me sob a mais intensa luz lunar. Lëvri semi-ajoelhou-se em minha frente.
— Ennehris? — O fitar sedutor metamorfoseou-se em afabilidade.
— A história de Ennehris... Deixe-me contar-te... — assenti — De nome Ennehris, a estrela mais fulgurante do firmamento, tão mais que o sol, porém, longínqua. E de todas as longínquas, Ennehris, inestimável, é sempre a realçada na lúgubre antemanhã. Estrela-fascínio, mentora nas trevas daqueles que caminham ou navegam à noite. Alguns juram tê-la visto descer dos céus, para guiá-los com sua apaziguadora voz. — Segurou minhas mãos nas suas e, seguindo em silêncio, tocou-me a face gélida. — Disseste-me não saber teu nome, porventura esta seja a razão... estrelas da imensidão nunca sabem seus próprios nomes. — Sorri-lhe, pois, quão cativante as suas palavras se proferiam.
— Ah... que formidável seria ter este nome...
— E tens... — Lëvri levantou-se e, segurando-me, levantou-me envolvendo seu braço em minha cintura. — Ennehris... — Seus olhos negros fitavam meus lábios. — Hum... Posso ver... — Dissera-me ao voltar-se aos meus olhos. — Rubros outra vez... — A maneira como Lëvri estonteava-me era inenarrável. Todo o meu corpo respondia ao seu toque, à vivacidade de uma paixão lôbrega nos poros de minha tez. — Teu enigma confunde meus princípios...
—Lëvri... — Murmurei, ocultando-me nas minhas pálpebras fechadas, buscando as sensações do tato, as mãos dele em mim, seu hálito tão próximo de meu rosto e todo aquele palor lunar, induzindo-nos. Senti-o tocar minha nuca com a calmaria dos mais brandos mares. E beijei-o sem que as tristuras, tão humanas, me acovardassem. O beijo de saliva afrodisia, ardente mesmo que fôssemos tão álgidos; e seu sondar em meus cabelos, soltando-os, envolvendo-os para meu delírio íntimo, entre sussurros ininteligíveis. Lëvri pegou-me, à sua força vigorosa, levando-me para a cama onde veemente era a penumbra. Deitou-me, gentil; e toquei em seu torso, passando meus dedos dentre os botões de sua vestimenta, sentindo-o arfante. As veias de seu corpo, em especial em seu pescoço e fronte, avultaram-se de modo significante e seus olhos tornaram-se ainda mais escuros.
— Ennehris... — Soprou Lëvri, sensibilizando com seus lábios o que se enunciava da curva de meus seios por causa do corset e, enquanto seu semblante afogava-se ali, tateei as veias de sua fronte com a ponta de meus dedos. Quão ansiosa eu estava... dentre o índigo sombrio, o predizer soturno da lua plangente; minha alma condenada ao prazer inefável a desprezar quaisquer conjecturas da razão. Lëvri beijou-me voraz, pegando-me o corpo, levantando-me suavemente ao passo em que se mantinha no beijo vesano. E senti suas mãos desatarem os laços de meu corset que se fez tão logo afrouxado e, hábeis, suas mãos vieram a deslizar, com apreço, as mangas de meu vestido, resvalando pelos meus braços. Neste ínterim, pude vê-lo outra vez, sobre mim, livrando-me do vestido, devagar, beijando cada espaço pequeno da pele que se revelava.
— Esculpida... em perfeição... — Ouvi-o dizer, ao olhar-me os seios soltos e despidos. Logo, as veias de seu rosto pulsaram, em plenitude visíveis, e ele parecia sentir dor, pois abaixou sua face, franziu a fronte e fechou seus olhos negros.
— Lëvri? Estás bem? — Indaguei em completo receio, uma preocupação genuína.
— Sim... — Sua resposta não me agradara, mas ele voltou a me olhar, tocando meus lábios com seus dedos. — É apenas... a minha natureza... — Disse em seu tom mais grave. Degustei de seus dedos e o ouvi gemer sem distinguir se era a sua dor ou seu prazer, pois eu sabia que seu corpo sofria pelo desejo. — Tua enseada... há de acalmar... a minha nau... — Murmurou, e toda a minha enseado fez-se o mais bravio oceano. — Venha... — Fui conduzida por suas mãos e, como se dançássemos, Lëvri pôs-me em pé, perto de nosso leito, o vi deitar-se em seguida, ordenando-me que permanecesse de pé, e na cama ele se pôs de modo que pudesse avistar-me por completo. — Desvista-se para mim...
Naquele instante, parecia que o palor da lua túrgida me tocava de fato, senti o tato de seu lume misterioso pelo meu dorso nu. Olhei para os vitrais abertos, mas neles não me demorei. Com a lentidão de minha inocente lascívia, retirei aos poucos a minha vestimenta, exibindo meu corpo para Lëvri e vi minha sombra azul-escura tateando os lençóis daquela cama, os quais eram negros e possuíam uma maciez de lanugem, além de uma sutil transparência. Então, como uma escultura de gesso, eu estava nua e Lëvri semicerrava seus olhos, fechando seus punhos enquanto suas veias pulsavam por sua face e pescoço, cada vez mais animalesco. Assim, mais cuidadoso que outrora, ele se levantou para tocar minha nuca e beijar meus lábios. A brisa da noite anil arrepiava minha tez e conduzia a invernia por cada poro.
Álveo ninho... deitei-me sobre a lanugem negrume, colocada, novamente, pelas mãos firmes de Lëvri. E o vi-o tocar suas roupas... após fechar-nos no dossel que ilusionava aos nossos olhos uma suave névoa ao derredor. — Feche estes teus pulcros olhos rubros... minha Ennehris... — Eu estava atenta, ele percebera... eu estava atenta ao seu movimento e àquilo que eu veria por detrás daquela indumentária escura. Todavia, fui privada por aquele momento, hesitei em obedecê-lo. — Ah... sim... tua curiosidade... — Lëvri tocou-me os lábios outra vez... — Antes de vê-lo... tu sentirás... em ti... — Fremi e sei que gemi, ocultando minha visão e sentindo Lëvri se aproximar... sua respiração ofegante e o seu, agora, estranho calor. Ali, na penumbra em índigo poder, o corpo de Lëvri sobre o meu e o toque de sua rigidez... tão perto. — Sinta... assim... devagar...
Todo o seu teso viril, firme adentrara-me pouco a pouco e... eu o senti... em toda a sua extensão consistente... dilatava-me à margem de uma leve algia, no entanto, o prazer se ressaltava para mim e meu corpo tremia, tanto que meus olhos se abriram e meus lábios se entreabriram, e vi evaporar dos olhos vis de Lëvri um fumo umbroso, o qual eu respirava, pois estávamos próximos. Respirá-lo trazia-me vertigem, como um elixir fumegando e tendo suas essências difundidas. Tudo o que cruzava minha visão vinha zonzo, letárgico... e a penetração parecia tocar-me o ventre... eu lacrimejava. — Tão... fundo... — Sussurrei.
— Eu posso... regressar... — Disse-me, com uma voz bestial, embora fosse ainda a sua voz.
— Não... — Quantas intensas e antagônicas sensações, eu não poderia abdicar delas. — Quero... me sentir completa... — Ao revelá-lo meu anseio, embrenhou-se rígido ainda mais em mim, onde a gruta inundada sofrera estendida e contraída. Fui tomada por um tipo assombroso de energia que me convulsionava. Lëvri movimentou-se, então, n’um ir e revir de anômala rapidez e os sons que emitia, gemidos e sussurros de dor vinculados à extrema luxúria, ampliavam meu delíquio pelo vapor negro de seus olhos. As veias de seu avultoso poder, dentro de mim, estavam igualmente protraídas, tal como em seu pescoço e face... era um deleite senti-las em minha arculva. Todavia, Lëvri estava cada vez mais instável; sua cabeça se movia célere o tanto que sequer eu a compreendia, em determinada hora, quando aquela alcova parecia mais brilhante, como se a lua tão cheia excedesse no infinito a sua luminosidade, senti o aroma se sangue esvair pelo seu corpo, mas eu estava tão enervada...
— Por... favor... — Implorei e isso o fez amansar em segundos.
— Estou... hum... Ennehris... estou ferindo-te? — Senti-o acariciar meus cabelos, preocupado apesar de sua... natureza.
— Não... eu... — Era tão difícil proferir quaisquer palavras racionais. — Sinto-me... eu não estou... — Seus movimentos diminuíram, embora penetrasse compassado. Então suas mãos tocaram minha garganta e pressionaram-na para cessar minha respiração. Pude vê-lo outra vez sem desanuviar a imagem, pois não mais inalava a insanidade da sua aura sombria. Isso recuperou um tanto de meu vigor o que me levou a contrair meu interior; rapidamente Lëvri soltou-me, respirei apressada; seus olhos de escuridão fitaram meu espírito.
— Gostas... minha Ennehris... que eu faça... devagar? — Ouvi-o, embriagada. Meu sorriso o respondia que sim, envolto aos meus gemidos acentuados. — Agrada-me teu riso pulcro... doce... longânime... — Segurei-o firme, no intenso êxtase, arranhava-lhe as costas a cada aprofundar de seu plenitúrgido em mim e, assim, em certo instante, eu nada via além de meu abstrato prazer, um regozijo lascivo excelso atravessava-me violento vibrando minha alma, carne e pele. Então, pacifiquei-me, e ainda de olhos fechados, senti se entranhar em meu ventre um tórrido néctar, como um caule de Nelumbo Nucifera, e em meus ouvidos disseminaram-se os murmúrios sombrios de Lëvri, os quais me fizeram abrir os olhos. O seu corpo deslizara para meu lado, em nosso leito, e apreciei todas as veias negras desaparecerem lentamente, na imensidão do que vivíamos, pela natureza dele e a minha. Lëvri fitou-me em seguida e afagou meu rosto, deitei-me em seu peito sob seu chamado.
Adormecemos juntos sob o esotérico luar, abraçados como eternos amantes, todavia, amanheci outra vez, acredito que em poucos instantes depois, pois a imensa lua alumbrava da mesma forma. O que me levara a avivar meus sentidos fora um cântico mágico, o qual me guiara, em estranha curiosidade, para os jardins secos do inverno lá fora. Lëvri se mantinha na profundez de seus sonhos soturnos. Caminhei descalça, em níveo damanoute, pelo álgido índigo, sem me importar, pois, o cântico era como um encantamento que me protegia da friagem hedionda. “As sombras e o silêncio guiarão. A luz da tua memória ofusca o ouro. O escuro abraçará teu coração. Recorde estrela mítica, tesouro. Teus olhos brilharão, rubáurea rara.” — O cântico entonava em uma língua estranha, mas eu compreendia.
Um lago, de águas em tom azul-claro, avistei, e o vocalizar vinha de seu interior. Era uma queda-d'água, esplêndida por não estar congelada diante tais baixíssimas temperaturas. Em seu envolto, flores azuis bioluminescentes e altos pinheiros sombrios. Havia também pedras cinéreas a cingi-lo, como uma mágica fonte termal. No meu achegar, a neve deslizara das nuvens lívidas da imensidão anil-umbrosa, numa nevada de flocos tenros, no entanto, o Luar mantinha seu reinado poderoso. Assim me aproximei do lago envolvente e pouco a pouco fui reconhecendo aquela voz feminil... era a minha voz, fleumática como a neve que pendia na aragem. Ajoelhei-me sobre o pálido manto macio e fitei o interior do lago. O que vi não fora o meu reflexo, mas sim o de uma criatura símil à máscara que usei naquele baile carmim-dourado. Ali ela estava vívida, olhava-me atenta, piscava e respirava como eu. Parecíamos unidas na fantasia daquelas águas.
Era um animal magistral. De tez símil a um dragão, de um tom rubinegro que se alastrava acima para o vermelho vivo e abaixo para o preto profundo. Tinha um crânio corvino em osso marfim puro, e grandes olhos dourados. Seu corpo era como o de uma ampla serpente, conquanto rastejasse como uma, por vezes, comportava-se muito mais como um dragão, embora não voasse. Os pormenores de suas condutas não refletiam nas águas, sem embargo e decerto por uma lembrança fidagal, eu os compreendia. Gostaria, porém, de saber ao certo de onde vinha a criatura e qual seria a sua ligação comigo, eu percebia que havia muito dela a colidir com meus momentos desde que despertei, assim como o sangue — o qual me fascinava degustar. Então, como, porventura, Narciso fizera à sua própria venustidade, amantética vi-me no refletir onde a criatura mítica, tão estonteante, aparentava desejar algum diálogo comigo. Toquei as águas serenas, por fim, tão embevecida eu estava com o animal de áureos olhos.
Resvalei da neve de súbito, imergindo-me na imensidão do lago cerúleo cujas águas eram como um licor de luar e noite invernal, dentro delas, então, havia uma voragem, um infinito de escuridão, tal o oceano pacífico. Completamente imersa. Ouvi o cântico debaixo desse abismo. “As sombras e o silêncio guiarão. A luz da tua memória ofusca o ouro. O escuro abraçará teu coração. Recorde estrela mítica, tesouro. Teus olhos brilharão, rubáurea rara”. Destarte, tão brusco como a queda d’outrora, avistei, assustada, o lago; eu não havia imergido em seu interior e já não havia a criatura mítica no reflexo da fluência das águas encantadas, havia apenas eu; e vi meus olhos, por fim, um em tom rubro intenso e o outro em dourado nitente. Foi nesta surpresa misteriosa que uma voz feminina serena alcançou meus ouvidos, dispersando o ruído do vento; não era mais a minha voz. Olhei na direção da entonação e uma criatura se fez corpórea à minha frente, seduzindo meus sentidos.
— Bem-vinda, alma perdida. — Dissera-me. Levantei-me da regélida maciez alva e fitei os detalhes daquele espírito cuja forma assemelhava-se a uma mulher de longos cabelos brancos; seu corpo era um espectro azul-celeste. Um fantasma, eu diria, translúcido, porém, tangível, ao que me parecia. — Somente as mais pulcras essências são despertadas pelo meu lago. O que buscas, coração ferido? — Indagara com um tom de voz tênue que espargia longínquo.
— Quem... tu és? — Eu estava deslumbrada, cativada e envolvida pela aparição.
— Sou Lahgura, um espírito vilíneo. — Sua voz ecoava, um eco longo e exuberante. — Se posso ser vista pela tua heterocromia, então fui evocada por teu sortilégio... aquele que até mesmo tu desconheces. — Eu não a compreendia, era um ser insigne. Seu esvoaçar aproximou-se de mim, reluzindo em perfeição.
— Tens as respostas que busco? — Tremi pela possível resposta, ciente de que tudo naquele estranho lugar era guiado pelas mãos d’algum ilusionista.
— Posso tê-las... sim... eu sinto a tua esperança. Diga-me, flor pálida, diga-me o que desejas.
— Eu... desejo lembrar... eu... — Lágrimas nasceram em meus olhos ardorosos — Eu gostaria de... estar protegida... como no meu sonhar desta manhã... o belíssimo jardim de raras espécimes... o castelo familiar...
— Pulcra lacrimal, densa emoção. Ouça que tão logo desvanecerei... Eu, Lahgura, concedo-lhe o que vocifera em silêncio a tua tristura. Mas, não lhe posso abençoar sem um preço.
— Preço? Eu... eu... nada tenho a oferecer... — Sua corpórea espiritual tocava minha face, deixando-me aquecida.
— Não peço, gentil languidez, porém, tudo o que te darei trará consigo uma sombra. À memória recordada, virá tua dor a cada lembrar-se futuro. À tua proteção perpétua, virão as sete vozes do abismo. — Ponderei por longos instantes, entendendo a maldição que o enigma daquele ser conduzia.
— Recordarei tudo? Todo o meu passado?
— Singelo ser, a grandeza da penumbra equivale à amplidão do teu desejo... Lembrar-te de tudo o que és, resultará na maldição mais perversa que o esquecimento.
— Então... o que lembrarei?
— Cândida femínea, trar-te-ei uma memória de valor, tua, que precisa com urgência vir à consciência. — A compreensão começava a florir d’um peculiar botão enterrado em minha angústia e regado pelo meu medo.
— Após esta revelação, toda e qualquer outra, trar-me-á dor ao retornar à consciência. Tenho compreendido?
— Sim, vestal.
— E a proteção trar-me-á sete vozes do abismo... elas estarão sempre comigo?
— Virão quando estiveres em conflitos mentais. Entenda que o que sou é uma dádiva e uma calamidade; limiar do infortúnio à benção. Contudo, vejo em tua fronte um poder surreal, lidarás, decerto, com maestria a ambos os horrores. — Silenciei a ouvi-la, ponderando. — Uma única lembrança inestimável será o guia para tua existência e a proteção trará o sangue dos hostis aos teus lábios vampíricos.
Eu não poderia negar uma lembrança que lumiaria minha escuridão, embora aquele cântico... tão meu... entoando que “As sombras e o silêncio guiarão”. Por que eu diria tal desatino a mim mesma? Nada se vê no escuro, nada que não o temor. Que custosa fora tal decisão, e a tomei antes de articulá-la por fim. E Lahgura constatou. Ergueu suas mãos finas para que as flores bioluminescentes em anil envolvessem-me dos pés aos olhos em suas pétalas que se erguiam sutis, frígidas e vívidas. Rezou Lahgura, uma reza que não distingui. E então eu me lembrei; reconheci aquele que amei, morto pela Rosaemori, da espécie de classe única, veneno ao nosso clã. Presenciei outra vez o sangue flavescente, suas últimas palavras para mim e a crueldade dos olhos negros. Lembrei-me e, quando voltei a fitar o horizonte, nenhum lago permanecera e tudo o que ficara fora o intenso frio e a compreensão amarga.
Retornei ao cômodo que outrora estive, debaixo do dossel. E vi, tão logo aproximei-me do leito, era Lëvri. Adormecido. E em suas costas, ao meu espanto, porém, previsível em algum nível singular, seu dorso contemplava uma imensa Rosaemori tatuada em sua tez. A rosa maligna. O veneno do clã. E sim, eu o amei, o senti dentro de mim e vi bem seus olhos de trevas. Finalmente eu entendi quem ele era.
“Mate-o"...“Ele é um traidor”... “Mate-o”...“Mate-o agora!”... “Ele é um traidor”...“Ele está vulnerável”... “Mate-o”...“Não seja fraca”... “Mate-o agora!”...“Destrua-o"... “Não seja fraca!”... “Ele matou seu único amor”... — Ouvi, insistentes e perenes, repetindo enquanto eu fitava o dorso de Lëvri. Eu ouvi... caóticas e intensas; mórbidas e lúgubres... eu ouvi... ouvi as sete vozes do abismo.
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Diário de Anto Stefan Miahi II
(Anotações em folhas soltas) 21 de junho de 1871 - Por alguma razão, desde que cheguei a este castelo, sinto ter perdido…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário de Anto Stefan Miahi II
(Anotações em folhas soltas)
21 de junho de 1871 - Por alguma razão, desde que cheguei a este castelo, sinto ter perdido algo mais que meu bom senso. Nesta manhã busquei meu caderno, que uso há algum tempo para escrever meus pensamentos, e não pude localizá-lo em parte alguma de minha habitação. Tirei do armário as roupas, joguei gavetas para todos os lados e nada de encontrar meu pequeno companheiro. Tive que recorrer às folhas soltas que encontrei na escrivaninha disposta defronte da cama, que por sorte também não são poucas, e posso gastar algum tempo nestes registros de minha aventura dos últimos dias.
Inicio este meu relato em meio a esta tarde de sol opaco e ventos uivantes com sinais sombrios de tempestade. Voltando para o dia 19 de junho, pela manhã despertei com alguma dificuldade. A minha mente estava nebulosa. O quarto estava em um completo breu, e pouca coisa conseguia ver. Alguns minutos se passaram até que pude realmente abrir meus olhos sem me sentir dentro de um maldito barco. Meus hábitos como militar me fazem levantar da cama às cinco da manhã. Nem mesmo o galo é tão pontual quanto um militar bem doutrinado.
O que a rotina e a repetição fazem com o indivíduo? Resultam em uma clara domesticação do homem selvagem e brutal, criando nele o senso de civilidade e consonância social que passam a ser demasiadamente enraizados em sua alma, e ele cria estima por eles. Bem, isso parece lógico.
Devo dizer que este lugar é impressionante por si só. De onde estou, posso ver uma cadeia montanhosa com seus altos pontos completamente brancos, verdadeiros gigantes adormecidos. O quarto está bem-posicionado, devo dizer. O Sol, por detrás daqueles picos majestosos, tira o ar de tão impressionante que é.
Após estes momentos de percepção e admiração que nunca foram de meu interesse, mas que neste momento sinto que devo pontuar, volto ao castelo propriamente dito. Os corredores exibem tapetes vermelhos e tapeçarias que parecem retratar e remontar as gerações anteriores que aqui viveram. Os móveis dispostos neles são elegantes, com desenhos em baixo relevo. Parece que em todo lugar que olho tem história, fatos. Ao que vejo, se for retirada uma pedra do seu lugar, talvez seja capaz de remontar a algum evento na antiguidade. Minha ansiedade é tanta que imagino que, em minhas pesquisas, eu possa descobrir que daqui veio algum Papa, ou um parente perdido de Joana D’Arc que buscava redenção para a pobre moça.
Caminhando pelo primeiro andar, pude notar um detalhe curioso nos quartos. Muitas portas estavam, não apenas fechadas, mas trancadas com chave. Dessas, algumas poucas, pude notar um odor incomum que logo desapareceu e que me fez lembrar os campos em que estive. Isso me estremeceu as pernas, um frio percorreu minha espinha, e, em pouco tempo, as lembranças vieram à minha mente. Dei dois passos para o lado, me apoiei no móvel que ali estava, e logo levei minha mão direita até minha face, cobrindo os olhos. Pouco tempo passou e voltei a mim.
Decidi que deveria descer. Já eram quase sete e meia da manhã, e não tinha a intenção de me atrasar para o café da manhã. Supus que deveria ser esse o horário para comer, já que, até este momento de minha exploração, não havia encontrado ou escutado uma única alma viva no corredor, nem mesmo nos quartos que estavam com as portas abertas ou destrancadas.
O castelo do Conde era realmente grande. Um convidado poderia se perder dentro dele. Isto constato ao pensar que ainda haveria dois andares para cima, o terraço, e as torres que dão mais um ou dois pisos para cima. Admito que desconsidero haver algo abaixo da terra, não me parece lógico. Contudo, não posso descartar por completo a possibilidade de que os criadores dessa construção tenham investido empenho e criatividade para agregar algo indo para baixo do térreo.
Desci lentamente as escadas que encontrei, torcendo serem elas que levariam à entrada, aos cômodos inferiores, onde se encontraria o grande salão para poder quebrar este meu jejum. Por sorte, tomei o caminho correto.
Me deparei com a grande porta de madeira maciça com belos umbrais entalhados que havia visto na noite anterior, antes do meu desmaio inusitado, que também irei pontuar mais para frente neste meu relato, que se mostra um fato com detalhes estranhos.
Da porta de entrada, em ambos os lados, disponha duas flâmulas curtas, do tamanho da altura da cintura de um homem adulto comum. As duas paredes laterais eram amplas e nelas estavam dispostas, em cada uma, duas flâmulas do mesmo tamanho, entre elas uma grande tapeçaria com o brasão que parecia ser da família do conde.
A imponência daquele ambiente era de deixar muitas famílias da nobreza francesa envergonhadas. Próximo a mim, em ambos os lados, havia passagens em arco, sem portas, para cômodos que poderiam ser explorados.
Olhei primeiramente para a esquerda; era um cômodo amplo, com uma mesa no canto oposto à porta por onde eu observava o interior, feita de madeira escura, sobre a qual estavam dispostos vários papéis e alguns livros. Atrás dela, uma poltrona do mesmo tom de verniz e madeira, com um grande encosto. Nela, estavam várias peles grossas, uma parecia ser de urso-pardo. No alto do encosto, estavam esculpidos dois corvos, um de frente para o outro, mas com as cabeças voltadas para baixo.
Nunca havia visto algo tão sombrio e incomum. Quanto ao cômodo em si, suas paredes estavam repletas de livros, cobrindo a totalidade das superfícies. Então, percebi uma porta ao fundo, não muito alta, de frente para o portal por onde eu observava. Ao lado dela, deparei-me com algo que parecia um corrimão entrando na parede, indicando um ambiente a mais em um cômodo oculto.
Antes que eu me desse conta, uma voz serena de barítono me tirou de minha exploração visual.
— O senhor é esperado neste aposento para o desjejum. — Apesar da voz calma e do tom educado, sua expressão facial era aterradora. Tinha olhos grandes, castanho-escuros, com órbitas afundadas. Sobrancelhas arqueadas, um nariz aquilino e um queixo curto. Os lábios eram finos e esbranquiçados, com as maçãs do rosto muito pronunciadas. A pele, sem muita cor.
— Oh…! Obrigado. — Minha voz saiu de sobressalto, e minha reação instintiva foi levar minha mão esquerda até a cintura em busca da bainha de minha espada. Para minha profunda frustração, ela não estava em seu lugar devido. — Quem é o senhor? — Questionei o homem diante de mim, vestido com trajes subalternos.
Ele sorriu, o que o deixou ainda mais assombroso, com um ar psicótico.
— Sou seu humilde servo, Narcís Nestor. E creio que o senhor seja Anton, certo? — Ele fez uma reverência um tanto longa enquanto falava, e ao término dela se endireitou. Era alto e magro, e suas roupas lhe davam um porte elegante e igualmente ameaçador. Seus cabelos, longos até os ombros, estavam presos em um rabo de cavalo com fios ruivos e ondulados.
Apenas assenti com um movimento de cabeça, confirmando sua informação.
— Venha por este caminho, cavalheiro. — Ele girou nos calcanhares e começou a andar sem me dar a chance de questioná-lo sobre qualquer outra coisa.
Ele me conduziu por um corredor sem janelas e, ao alcançarmos o meio dele, havia um portal, este com portas. Ele abriu ambas as portas, revelando uma sala de jantar espaçosa. No centro, uma grande mesa acomodava até dezesseis pessoas. A mesa era de carvalho em tom bege-claro, e as cadeiras completavam o conjunto na mesma cor. Na parede oposta à porta, havia uma lareira grande, acesa, e acima dela, um escudo com duas espadas cruzadas.
— Ao entrar, o ambiente estava quente e aconchegante. Olhei para cima, observando os detalhes o máximo que me era possível. O pé-direito daquele espaço era alto, com dois grandes lustres feitos de rodas de carroça, presos por correntes.
Mesmo naquela sala de jantar, o luxo não era escasso, pois notei grandes vitrais acima da porta. Nas bordas, o azul-índigo se destacava, enquanto o centro era de cristal, permitindo a visão do exterior, onde uma tempestade de neve se formava. No meio, um azul-escuro predominava, bloqueando a entrada da luz do sol. Além disso, cortinas duplas pendiam do ponto mais alto, cobrindo quase toda a janela. As cortinas mais grossas eram de um tom bordô profundo, de tecido que parecia veludo, enquanto as mais finas eram brancas, lembrando a neve que caía lá fora, feitas de seda.
O ambiente não parecia carecer de luz natural com todas aquelas velas e a lareira queimando lenha. Isso me fez perceber um detalhe que me havia escapado até então: muitas das janelas tinham esse mesmo tom escuro. Mesmo a do meu quarto possuía um tom azulado que deixava o ambiente mais sombrio.
— Aconselho que o senhor se sente neste lugar enquanto trazemos seu café da manhã. Já está ficando tarde e creio que esteja com fome, cavalheiro. — Ele apontou para uma cadeira que havia movido, indicando onde eu deveria me sentar. Sua expressão estava séria, apesar de tentar parecer convidativo e educado.
— Claro, evidentemente não queremos atrasar o café da manhã do Conde! — Tentei ver se Narcís dizia algo sobre seu mestre, já que até o momento ele não havia me fornecido nenhuma informação sobre ele ou sobre o castelo. — Não podemos fazer essa quebra de protocolo social.
— O mestre Drácula tem o hábito de comer em seus aposentos. Mas, ele lhe desejou um excelente desjejum. — Novamente, aquele sorriso que faria até um coveiro sentir arrepios na coluna.
— Que inusitado. Bem, diga ao Conde que também lhe desejo o mesmo e que gostaria de poder sentar-me com ele para conversarmos sobre o assunto que me trouxe até aqui. — Tentei dar meu melhor sorriso para a criatura ao meu lado, que estava arrumando meus talheres.
— Vou transmitir sua mensagem ao Conde. — Narcís se colocou ereto e seguiu em direção à porta na parede oposta àquela por onde eu havia entrado, mais próxima à parede à direita.
O mordomo Narcís caminhou rápido e silencioso, parando quase em frente à porta. Ele estendeu o braço para pegar um sino sobre um móvel ao lado esquerdo, e logo o fez soar. A porta se abriu com um forte rangido. Dela saiu uma senhorita de cabelos pretos, pequena e esguia, trazendo um carrinho com vários pratos e bebidas quentes. Ao se aproximar, pude observar melhor suas feições. Os olhos eram amendoados, de um tom de âmbar que eu nunca havia visto, tão intensos e atentos. As sobrancelhas eram retas, um pouco finas demais. O nariz era delicado, levemente aquilino. O queixo pontudo, com o lábio superior fino e o inferior carnudo.
Ela levava um tecido amarrado sobre a cabeça para prender o cabelo, e ao se aproximar para pôr a mesa que trazia no carrinho, notei que seus cabelos eram negros e ondulados.
— Obrigado, ficarei apenas com o café, a manteiga, alguns pães e talvez essa geleia que parece ser de mirtilo. — Busquei um tom gentil e a expressão mais sincera possível. Mas aquela senhorita mantinha o rosto sem emoções.
— Se é o que o senhor deseja. — A voz dela era de uma soprano, agradável de se ouvir, um verdadeiro contraste. Um choque.
— Por favor, qual é o seu nome? Eu me chamo Anton, é um prazer conhecê-la! — Tentei ser social e educado, mesmo parecendo que ela não permitiria que eu me aproximasse. Desejava poder conversar com alguém, já que minha tentativa anterior foi frustrada.
Apenas obtive um profundo e consternante silêncio por parte daquela jovem.
Naquele mesmo dia ao entardecer - Devo dizer que me senti compelido a retornar ao meu quarto após o almoço e após abrir mais alguns livros da biblioteca. Tem sido uma exploração frutífera. No entanto, uma inquietante sensação vem dominando meus pensamentos. A lástima é que ainda não pude perceber a razão desses pensamentos ou mesmo sua fonte, se ela habita em mim ou é proveniente de algo externo. O que acalma meu espírito é estar neste quarto com a caneta, a tinta e o papel ao meu alcance.
Voltemos ao dia 19 de junho.
Apesar de minhas tentativas de criar vínculo com os empregados do castelo terem sido um completo fracasso, naquele dia Marcos, após o desjejum, me guiou para outra sala que eu havia observado antes. Ele disse que eu poderia acessar todas as obras dispostas neste cômodo e que em outro momento me levaria a uma sala ainda maior, contendo obras raras que o conde mantinha apenas para si, mas que, por conta de minha presença, estaria inclinado a abrir para que eu pudesse investigá-las.
Eu não havia visto a totalidade daquela sala. À esquerda da porta, ao fundo, havia uma curta escadaria em L que avançava para dentro e para cima da parede, acima da porta, como um patamar com mais prateleiras e livros que só se podia notar ao adentrar o ambiente. O andar inferior tinha pé-direito alto, e ao lado da mesa havia duas janelas em arco de dois metros e, entre elas, uma porta de vidro que levava ao pátio, além de outra pequena, de madeira, que não ousei verificar.
Desde o andar de baixo até o de cima, do piso até a metade da altura de um homem adulto, as paredes eram revestidas com uma madeira caramelo formosa e bem cuidada. O patamar superior tinha um pouco menos de um metro e noventa de altura, o que me fez desviar dos candelabros presos nas colunas quando subi para explorar.
O que me surpreendeu foi que cada volume estava bem cuidado, suas capas pareciam novas, com sinais de pouco uso. O conde deve ser rigoroso com a conservação das obras mantidas aqui em seu castelo.
As horas passaram enquanto eu verificava cada obra naquela imensa sala. Levaria um longo tempo até que eu revisasse cada livro ou, no mínimo, juntasse os que realmente me interessavam. Ao olhar para o exterior pelas janelas da porta, percebi que já estava escurecendo. No pico das montanhas, a luz começava a desaparecer, e fiquei hipnotizado por aquela vista.
Então, uma voz profunda e calma quebrou meu transe.
— Espero que não esteja interrompendo, senhor Anton? — Por um instante senti que meu corpo se congelava, no entanto não durou muito. Uma voz, apesar de grossa, era firme, capaz de fazer o silêncio reinar com apenas uma palavra numa estalagem cheia de bêbados.
Dei meia volta para ver quem falava, apesar do susto. Ele estava parado no patamar superior, escorado no guarda-corpo, com um livro na mão. Sua altura era menor que a minha, o corpo um tanto esguio, com tudo estava bem trajado com uma camisa branca e um colete de dois tons pelo que parecia, preto nas costas e vermelho na frente. Os cabelos pretos e levemente ondulados e um tanto longos caíam sobre os ombros.
— Sou um homem de hábitos noturnos, para a infelicidade de meus convidados. — Ele virou o rosto ficando de perfil de frente com uma lâmpada que estava a menos de um metro dele pendurada na coluna, revelando uma aparência surpreendentemente jovial. O bigode e cavanhaque bem aparados mostrando refino como evidência de sua vaidade, assim sendo esperado de alguém que vinha de uma da alta sociedade. A pele parecia de marfim, de um aspecto fantasmagoricamente translúcido, como se os raios dourados carregados por Apolo jamais a tivessem tocado. Seus lábios finos e brancos pareciam sem vida, e seu nariz aquilino deixava sua expressão severa, algo enigmático, que me causava calafrios por toda a espinha. Ele me observava de soslaio, dando-me a impressão de pouco interesse.
Sua presença era imponente, inundava a biblioteca, dando-me a triste impressão de estar na companhia de um animal selvagem, um indivíduo de poderes não mensuráveis, pronto para me atacar. Meus instintos mais íntimos gritavam freneticamente para que eu saltasse pela porta de vidro às minhas costas, enquanto meu treinamento me compelia a manter a posição e enfrentar meu temor, como fiz tantas vezes diante dos estrondosos gritos dos inimigos de Napoleão e das baionetas dos prussianos.
— O senhor me pegou desprevenido… — Minha voz saiu rouca, porém o mais firme que consegui. Fitei seus olhos, que pareciam de um tom quase âmbar, vivos, atentos, de uma profundidade assombrosa. Parecia ler minha intenção combativa. O conde havia movido apenas a cabeça para olhar minha pobre existência confrontando sua magnitude. — Devo supor que seja meu estimado anfitrião, que vi na minha primeira noite e com quem, por alguma infelicidade, não pude trocar muitas palavras. — Neste momento, escapou dos lábios dele um sorriso sem jeito. Tentei recobrar minha dignidade e civilidade perdida com o susto.
Vlad então fechou o livro que estava em suas mãos e começou a descer a escada oculta atrás da parede. O que me assombrou de sobremaneira foi a completa ausência do som de seus passos na escada de madeira. Parecia caminhar como um gato. A sensação de perigo voltou a invadir minha mente, meu coração acelerou, e instintivamente me movi para a frente da grande mesa. Minha mão esquerda mais uma vez buscou a bainha de minha espada, e novamente sua falta me deixou frustrado, fazendo-me sentir nu, desprovido de proteção, à mercê de quaisquer poderes que o conde Drácula pudesse tentar contra mim.
Mesmo ele sendo menor que eu na altura e, naquele momento, estando na escada à minha frente, aquele sentimento opressor não se amenizava. Quando a silhueta de Drácula se delineou na curva do L da escadaria, seus olhos ganharam um estranho brilho amarelo. Uma emanação que não encontro outra palavra para descrever, senão espiritual. Como pequenas pedras em sua face que emanavam uma presença aterradora. Naquele momento, meu ceticismo quase cedeu aos mitos contados pelas ciganas das periferias de Paris sobre as lendas dessa terra estranha.
Seu corpo, não muito mais alto que um metro e setenta e cinco, alcançou a luz do andar de baixo, e sua face havia mudado completamente, ganhando ares mais suaves. Seu porte tinha uma elegância incomum, e seu caminhar era calmo, demasiadamente sereno.
— Ora… Devo assumir que este sou. Seja bem-vindo oficialmente ao meu humilde lar. — Vlad tentou exprimir um sorriso que revelou seus dentes, e o que me surpreendeu foram os caninos anormalmente pontiagudos e brancos, similares aos de um lobo. O que me deixou desconfortável, mesmo ele parecendo tentar acalmar-me. — Espero que suas acomodações e alimentação estejam de acordo com seu gosto. Suponho que alguém que venha da cidade grande tenha preferências alimentares mais requintadas, não é mesmo, Anton? — Aquela pergunta me soou estranha, mas até aquele momento minha estadia no Castelo Drácula não havia tido problemas, exceto minha tentativa falha de me comunicar com os empregados.
— Conde, não tive qualquer problema quanto aos aposentos ou mesmo referente à alimentação. Militares se habituam a dormir em catres desconfortáveis, a dormir pouco, e a comer mal. — Recorri à minha honra como soldado para voltar ao meu centro, meu equilíbrio mental. — Aqui está além daquilo a que me habituei nos últimos anos.
Vlad passou as horas seguintes conversando comigo, tratando da cultura local, suas influências, as histórias, e me mostrou alguns de seus títulos favoritos. Nossa conversa foi amistosa, e me senti como diante de um dos mestres da minha antiga universidade, aprendendo o que estivesse ao alcance de minhas faculdades mentais. O tempo, em alguns instantes, pareceu ficar mais lento. A noite avançava vagarosamente, mesmo que a conversa estivesse empolgante, aquela percepção não me abandonava.
O conde realmente era um homem da noite, estava cheio de energia, diferente de seus primeiros momentos naquela sala. Sua oratória, o vasto conhecimento que ele apresentava, me dava a impressão de que alguns dos fatos narrados ele havia vivido. A riqueza de detalhes, a precisão do relato, traziam uma segurança que apenas quem viveu, presenciou e experimentou poderia possuir.
Andávamos por todo o cômodo enquanto conversávamos. Apesar de eu ter despertado antes do galo, realmente podia sentir que não me faltava energia, um impulso, não, uma força me sustentava ali naquela conversa. Parei diante da porta, com ela às minhas costas, enquanto observava Drácula caminhar em direção à poltrona com dois corvos de cabeças voltadas para o assento. Ele se sentou como um rei, cruzou as pernas, apoiou-se no braço esquerdo e repousou um livro sobre a perna esquerda, olhando fixamente para mim. Sua forma de olhar era intimidadora, novamente notei aquele estranho brilho.
Olhei o relógio que carregava no bolso do colete e pareceu-me que eram quase seis horas da manhã do dia seguinte. Meus olhos voltaram para as janelas, onde a luz da lua ainda brilhava intensamente. Caminhei em direção à porta de vidro e, ao olhar para fora, o espanto me dominou. A lua ainda se encontrava no ponto mais alto do céu. O pátio do castelo estava coberto de neve, e a luz que vinha do céu dançava em tons de azul, brindando a neve branca com um belo detalhe.
Subitamente, o ar pareceu ficar denso, difícil de respirar. Olhei para trás e vi o rosto daquele homem pequeno, sentado em sua grande poltrona, com um sorriso arqueado na face, novamente revelando aqueles caninos animalescos, num ar malicioso.
A biblioteca tinha uma pequena lareira na parede à direita da porta de entrada, onde também se encontrava a porta de vidro. Mesmo assim, minha respiração condensou como se eu estivesse ao ar livre. Voltei meu rosto para fora e notei a silhueta de uma mulher parada próxima ao muro. Não era alta, e seus cabelos pareciam longos. Aproximei-me mais da janela para tentar ver melhor, quando a luz da lua recaiu sobre ela, revelando uma pessoa com o mesmo tom de pele do senhor Drácula. Ela deu alguns passos mais para o centro do pátio, evidenciando mais detalhes de sua fisionomia.
Os cabelos eram ondulados, mais longos do que notei inicialmente, de um tom preto similar ao céu noturno. Seu nariz fino e levemente pontudo contrastava com seus olhos grandes, que pareciam ser de um azul claro. Os lábios eram volumosos. Seu corpo era pequeno, esguio e delicado. Sua expressão era apática, distante. Ela olhou para a lua e, assim como o senhor do castelo, pareceu-me exibir uma aura sobrenatural. Seus olhos brilharam num tom branco pálido, mas logo meu ceticismo voltou, e supus que era efeito da luz da lua.
Aquela presença no pátio estava apenas coberta com um vestido de algodão rústico e uma capa transparente. Direcionei minha atenção aos pés dela, que estavam descalços.
Quando pensei em tocar na fechadura para chamar a jovem no pátio, senti algo me impedindo de tomar aquela ação. Mais uma vez, meus instintos soaram em minha mente como trombetas de guerra. Girei nos calcanhares, com os punhos fechados e os dentes cerrados, como se estivesse pronto para receber o primeiro golpe. Assim que o fiz, um vento gélido invadiu o ambiente, a lareira apagou, sobrando apenas a iluminação natural vinda de fora que, ao passar pelos vitrais, deixava o ambiente num jogo de vários tons de azul. Foi então que, ao abrir meus olhos, notei três pares de olhos me observando. O único que reconheci foi o que havia visto nos olhos do conde, que ainda se encontrava sentado em sua poltrona. Os que vi no patamar eram vermelhos com toque âmbar, enquanto os que estavam próximos à entrada que conduzia ao interior do prédio eram de um tom vermelho como brasa viva.
Ouvi um grunhido de feras ocultas na escuridão. Sentia a adrenalina subir e inundar cada parte do meu ser. Minha respiração ficou rápida e as batidas do meu coração eram palpáveis dentro do peito.
Então, o silêncio. A escuridão. O vazio apagando cada um dos meus sentidos. Sobrando apenas o impacto oco do meu corpo contra o chão de madeira do castelo.
Para meus registros finais nestas folhas deste último evento, não me pareceu ter levado mais que alguns poucos minutos, segundo minha percepção. Corrijo, o que recordo destes últimos momentos é como um pesadelo sombrio e muito vívido. Não consigo confiar em minhas memórias desta manhã, ou noite. Existe algo que me obscurece a razão, que me desafia a duvidar dos fatos. Será que o que vivenciei naquela manhã, ou noite, era real? O que vi foi realmente um fato? Quem era aquela jovem no pátio? Será que fiz a escolha correta de vir ao meio do nada em Bram, no centro da Europa?
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Lúgubre
Por mais que eu tivesse anseios em sair de lá, sabia que minha alma pertencia àquele lugar tenebroso onde o odor escarlate emanava de cada puído tijolo…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Por mais que eu tivesse anseios em sair de lá, sabia que minha alma pertencia àquele lugar tenebroso onde o odor escarlate emanava de cada puído tijolo, onde a escuridão chegava a ser tangível.
Após o empurrão, me afastei do salão principal, mas permaneci estática diante daquela figura horrífica, enquanto os musicistas dedilhavam seus dedos sangrentos sob as cordas de aço do violino que lamentava a cada acorde tocado.
— Senhorita! Perdoe minha indelicadeza, permita-me recomeçar por favor, meu nome é Conde Nickollas, disse ele, seus lábios moviam com elegância, e os olhos azuis, apesar de vazios, iluminaram aquele pálido rosto, as maçãs do rosto eram protuberantes, seus lábios sedutores eram um convite à luxúria, emoldurando seu fino rosto. Cabelos lisos, penteados para trás em tons castanhos, ele se portava como um verdadeiro lord, seu vocabulário era riquíssimo.
— Me chamo Rose — minha voz soou trêmula como um sussurro, ele me convida novamente para dançar, aceito seu convite. Enquanto caminhava, o imenso salão tornou-se vazio, tal qual numa dança nupcial, o que causou desconforto, pois era uma lembrança dolorosa, não sei como sobrevivi àquele casamento... foram anos terríveis ao lado daquele crápula, ainda carrego marcas, imersa naquele poço lamacento de lembranças. Ele me conduz de forma gentil, assim como fizera mais cedo.
Meus cachos ruivos bailam no ar, ao som daquele nefasto quarteto de cordas que agora executava a fúnebre peça de Bach: Toccata and Fugue. Enquanto bailo, questiono minha sanidade, tudo isto é real? Quem será o dono deste colossal castelo? O castelo é real? Devo estar em algum sonho, ou em alguma realidade paralela. Meu par, percebeu minha inquietação, envolveu seus braços em volta da minha cintura, sorriu e disse: — Senhorita Rose, o que lhe aflige? — Meu busto palpitava, olho em volta, sinto a volúpia através das máscaras, sussurros se intercalam com sorrisos.
— Não há o que temer... — em seguida ele sorriu, então, vislumbrei o que seus lábios de seda escondiam, eram caninos pontiagudos brilhantes. Desviar o olhar se tornou uma árdua tarefa.
Uma leve vertigem apoderou-se de mim, disse-lhe que não me sentia bem, então fomos em direção a uma das inúmeras janelas. Chegando lá, fomos agraciados com uma túrgida e lânguida lua, brilhava soberana sob a temível escuridão. Fui arrebatada por aquela visão, fui tomada por um inominável terror, mas não consegui emitir nenhum som. Ao abri a janela, uma impetuosa lufada de vento nos abraça, se não fosse a rapidez do meu par, estaria ao chão.
Olhando em meus olhos ele disse: — Notei que você está fraca, suponho que esteja faminta, vamos alimente-se. — Ele, então, ergueu seu punho sob a luz do lúgubre luar, era possível ouvir o pulsar de suas veias, sem pensar, cravo minhas presas com vigor em seu braço, sinto o rasgar de sua pele, e finalmente vejo a vida escorrendo do braço, o líquido viscoso e amargo desce por minha garganta, estava faminta, por mais que o gosto fosse repulsivo, eu precisava.
Espasmos percorriam meu corpo, acompanhados de gemidos inaudíveis, meus lábios e busto estavam manchados de escarlate, assim como meu lindo vestido.
Experimentei um profundo torpor, foi mais devastador do que a primeira vez, olhei ele e agradeci, após isto, sucumbi em seus braços.
Acordei nos meus aposentos com uma forte dor de cabeça e náuseas. Eu ainda estava de vestido, o vestido com manchas escarlate, e aquele estranho gosto na boca. Pouquíssimo me recordo da noite anterior, então permaneço deitada e tento entender o que ocorrera.
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7. Jardim da Morte: Dança da Morte
Na penumbra da noite eterna, um jardim agora floresce no Sheol. O jardim…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Na penumbra da noite eterna, um jardim agora floresce no Sheol. O jardim agora possuía rosas negras que exalavam um perfume fúnebre. A ceifadora trouxe de uma de suas viagens e deu a mulher a responsabilidade de cultivá-las naquele solo incomum. A mulher estava fazendo um bom trabalho com as flores. Antes só ficava ali sentada perdida em pensamentos à espera da ceifadora para mais um de seus jogos habituais e suas conversas, mas agora a mulher tinha uma atividade além de só esperar.
— Você voltou rápido dessa vez. — Murmurou a mulher olhando para a ceifadora que se sentava à mesa e descansava a sua foice ao seu lado, o símbolo do seu inescapável ofício.
— Sim — A ceifadora respondeu com um sorriso enigmático.
— Ainda bem que está de volta, depois do nosso passeio você saiu tão rápido para seus afazeres que nem pude te contar os detalhes do que ocorreu. — A mulher se sentou à mesa de mármore de frente à ceifadora.
— Você sabe que eu estava lá, não é? Eu presenciei tudo. — Disse a ceifadora.
— Eu sei, eu sei, mas você é a única com quem posso falar e eu queria falar sobre isso.
— Está bem. Podemos falar disso enquanto jogamos então? — Disse ela arrumando as peças de xadrez à mesa, brancas para ela e pretas para mulher. — Depois tenho um convite a te fazer. — A ceifadora sorri, seu olhar penetrante refletindo a luz pálida da lua.
— Humm…que misteriosa, agora fiquei curiosa. Está bem, vamos jogar. — A mulher se preparava.
A ceifadora sorri e avança o peão da dama para a quarta casa.
— Ah…— Suspirou a mulher. — Aquela belíssima capela, iluminada pelas chamas das velas naqueles castiçais dourados tão brilhantes. — A mulher responde com o peão da dama para a quarta casa.
— Eu vi, tudo estava perfeito. Como se fosse feito só para você. — A ceifadora prossegue avançando seu peão da coluna “c” para a quarta casa, expondo sua rainha de maneira tão prematura.
— A música que tocava, uma sonata tão melancólica que fazia ter vontade incontrolável de cantar e dançar. Rute debruçada sobre a Bíblia. Ela sempre foi curiosa e não resistia a um livro, não importa qual fosse. — A voz tingida de nostalgia. — E, quando nos vimos, era como se nunca tivéssemos nos separado. Dançamos ao som daquela sonata. Cada movimento era uma lembrança tão saudosa. — A mulher faz seu peão avançar e capturar o peão da ceifadora na coluna “c”.
— Vocês dançaram lindamente. — Disse a ceifadora sorrindo para ela e avançando o cavalo do rei para a terceira casa.
— Então tudo ficou escuro e voltei para cá num piscar de olhos. — Disse a mulher em tom triste.
— Os momentos mais preciosos são fugazes. — A ceifadora murmurou isso acenando lentamente.
A mulher tentou reagir, mas os movimentos da ceifadora foram implacáveis. Cada avanço, uma captura, uma dança mortal. Peões caem, cavalos são abatidos até que em um movimento final, a ceifadora encurrala o rei da mulher com um xeque-mate inescapável.
— E mais uma vez você vence. — A mulher suspira.
— E olha que nem me esforcei hoje. — Diz a ceifadora sorrindo. — Estou cansada de tantas vitórias. — Confessa a ceifadora, apoiando as mãos no queixo.
— E o convite? — A mulher pergunta ansiosa.
— Ah, sim, o convite, sim. — Ela tira um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados da maleta e entrega à mulher. — Então minha adorável dama, você aceita me acompanhar em um baile de máscara no castelo do Conde Drácula? — Disse isso de forma afetada.
— É claro, que dizer é… — A mulher falava tropeçando nas palavras. — Conde Drácula, o vampiro? Baile de máscaras? Isso não seria quebrar as regras? — Ela olha a ceifadora em dúvida.
— Sim é o baile anual do Conde Drácula o vampiro e…sim, em partes estaríamos quebrando algumas regras, mas recebi o convite para esse baile, estou trabalhando demais também, preciso de um pouco de diversão, entende? — A ceifadora olha para ela com um sorriso forçado.
— Então, por que não? Vamos? — A mulher sorri intrigada.
E assim, uma porta preta, adornada de arabescos dourados nas bordas envolta em uma névoa carmesim se materializou foram transportadas para um grande salão suntuoso. As duas estavam belamente vestidas, a mulher com um magnífico vestido de veludo sanguíneo com decote em V, mangas longas bem justas terminadas em um punho largo finalizado em rendas. A saia volumosa que arrastava graciosamente pelo chão. Em seu pescoço um colar dourado que pendia um camafeu delicado. Em seu rosto uma máscara simples em tom de sangue adornada de dourado, os cabelos escuros longos presos atrás como uma cascata de cachos.
A ceifadora em seu vestido preto vitoriano, com a saia volumosa em camadas que varriam o chão com graça a cada movimento, o vestido parecia sussurrar lamentos. Um corpete justo que realçava sua figura esguia. Uma gola alta e austera, mangas bufantes nos ombros que desciam justos até os punhos, com babados delicados de renda. Em sua cabeça, a ceifadora usava um pequeno chapéu preto de abas, posicionado de lado. O chapéu adornado com fita preta de seda e uma única pena negra. Os cabelos grisalhos, que contrastavam com a sua pele de um grafite cinzento, preso atrás com uma trança única. No rosto uma máscara de médico da peste ocultava suas feições. Feita de couro branco, a máscara tinha um bico longo e curvado semelhante a um corvo, com lentes redondas e escuras que ocultavam seus olhos de um branco leitoso sem pupila. Segurava firmemente uma bengala de ébano, no lugar de sua foice. A bengala com um cabo ornamentado em prata, terminava em sua ponta metálica que ressoava de modo suave ao tocar o chão.
A ceifadora entrou no salão de braços dados à mulher, com sua confiança habitual. Observava cada detalhe através das lentes escuras da máscara. A música espectral, as luzes tremeluzentes criavam um ambiente convidativo para elas. Algumas pessoas no baile não ousavam se aproximar demais da ceifadora devido a sua presença impactante. Ao lado dela a mulher estava deslumbrada com toda aquela decoração, parecia um sonho para ela estar presente num evento tão impressionante.
— Vamos dançar? — Sugeriu a ceifadora, sua voz ecoando através do bico de sua máscara.
— É claro. — Disse a mulher radiante. — Mas vou logo te avisando, não sei conduzir.
— Sem problema, eu só sei conduzir. — Tomando a mão da mulher, a ceifadora a levou até o meio do salão. Seus movimentos eram fluidos e precisos. As duas a dançar criavam um espetáculo hipnotizante.
Elas dançaram graciosamente pelo salão. Se divertindo enquanto rodopiavam. O riso de ambas se misturando a música. Trocaram de pares várias vezes aproveitando cada segundo do baile e cada companhia excêntrica. Aproveitaram da comida e das bebidas, conversaram amenidades com aqueles que queriam dialogar e dançaram com aqueles que estavam ali somente para dançar. Retornaram a dançar juntas, era chegada a hora da última dança da noite. Bailaram aproveitando cada movimento e a música findou. O baile havia chegado ao fim, a mulher estava eufórica:
— Nunca imaginei que em morte iria realizar um sonho de adolescente de participar de um baile de máscara vestida como uma verdadeira dama gótica. — Ela sorria e apertava as mãos eufórica. Enquanto a ceifadora sorria para ela por trás da máscara.
Elas andaram pelo castelo procurando um portal que as levasse de volta ao jardim. Seus passos ecoando juntos com tantos outros que seguiam para seus aposentos ou para a saída do castelo. Tantos seres tão estranhos quanto elas. A atenção da mulher foi atraída para a vista de uma varanda, seguiu adiante e se deparou com um céu estrelado tão belo e uma lua cheia descomunal que parecia quase dominar o firmamento. Sentiu-se preenchida por uma sensação serena, como se pudesse sentir uma mão divina acariciar seus cabelos a deixando tranquila. Começou a cantarolar de modo suave uma canção e sua voz ecoava. A melodia saía de seus lábios harmonizando com a calmaria da noite. Ela estava hipnotizada por aquela lua, seus olhos fixos nela enquanto cantava. Ficou ali cantando para o luar e perdida em pensamentos. A ceifadora se aproximou, interrompendo seu canto suave:
— Vamos, princesinha gótica, já passou do nosso horário. Temos que ir logo. Já encontrei o portal. — Ela falou batendo sua bengala no chão de pedra impaciente.
— Até a próxima vez. — Sussurrou a mulher para o castelo e a lua. Relutante ela se virou e foi de encontro à ceifadora. Entraram na porta cinza adornada de beladona e voltaram ao jardim.
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Diário de Rute Fasano. 25 de dezembro — Acredito que você tenha perguntas — Ela fixou seu olhar no meu…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário de Rute Fasano
25 de dezembro -
— Acredito que você tenha perguntas — Ela fixou seu olhar no meu, sorrindo. — Venha, vamos procurar um lugar mais calmo para poder conversar.
Andou à minha frente me guiando pelos corredores do castelo, abriu uma grande porta que dava para uma imensa biblioteca com inúmeros livros, fechou a porta atrás de nós deixando lá fora o barulho da música. eu estava deslumbrada com aquele cômodo que eu ainda não tinha conhecimento. Imaginava se na minha versão do castelo também havia uma igual, estantes altas, livros de diversas cores, uns muito antigos e outros mais novos. Havia uma mesa no centro com um tecido preto e acima dela um livro muito antigo, ao qual não pude deter minha atenção, minha doppelgänger apontou para algumas poltronas num canto da biblioteca. Nos sentamos, ela retirou sua máscara e eu permaneci com a minha:
— Como isso é possível? — Eu disse ansiosa por uma resposta que fizesse sentido.
— Eu poderia explicar isso usando o conceito de multiversos, das múltiplas versões de nós mesmas vivendo vidas diferentes em cada mundo, mas acredito que você já pensou nessa hipótese. — Ela falava com tanta desenvoltura, que eu me perguntava se a natureza vampírica dela que a tornou assim.
— Você tem razão. Não é essa a pergunta que eu quero fazer. — Me endireitei na poltrona tentando formular a pergunta na minha cabeça enquanto balançava a perna esquerda. — Qual é o motivo de tudo isso? Esses bailes, assombrações, perturbações, revelações, tudo isso.
Ela sorriu, talvez percebendo o quão mal eu poderia formular uma pergunta. Cruzou as pernas, colocou as mãos sobre o colo, respirou fundo mantendo aquele sorriso intacto:
— Entenda, Drácula não está em busca de poder, e sim, como cada hóspede deste castelo, em busca de conhecimento e tudo que o mantenha vivo, que faça com que ele se sinta mais vivo. A eternidade às vezes nos leva a não sentir nada, ser indiferente a certos prazeres e a nossa presença enche o castelo de vitalidade. — Me olhou séria. — Os estratagemas terríveis que ele usa é para despertar em nós sentimentos e sensações que às vezes não nos permitimos sentir, mas que alimentam o castelo e a nós mesmo. Ninguém aqui é como antes de adentrar o castelo. Ele não pode sair daqui, mas pode trazer e convidar quem há de melhor lá fora para cá. E ele aceita os curiosos, os sedentos, os perdidos e os fugitivos. — Na última palavra ela levantou as sobrancelhas, com um sorriso que já começava a me irritar e fixou o olhar em mim por bastante tempo.
— Entendo, mas qual o motivo de ele se apegar a partes muito específicas do meu passado? O que ele quer conseguir com isso? Eu já superei essas coisas. — Eu disse já bastante incomodada e com uma certa irritação na voz.
— Você está tentando se enganar, ou melhor me enganar, não é? — Falou usando um tom de voz debochado.
— Então o que devo fazer? deixar as coisas acontecerem e ver o que vai dar? — Me endireitei mais uma vez na poltrona e cruzei os braços.
— Escute, eu não posso te dar todas as respostas, apenas partes delas, não posso dar a você o refrigério da alma que você necessita. — Falou isso olhando para cima e movimentando a cabeça de um lado para o outro. — O que aconteceu comigo, os caminhos que percorri aqui, as escolhas que fiz são diferentes das que você tem tomado, compreende isso? Em nenhum momento desde a minha entrada no castelo até esse momento eu não me encontrei com nenhuma doppelgänger, o que significa que talvez você não venha se tornar o que eu me tornei, então não posso dizer o que você deve fazer, você entende isso? A única coisa que posso dizer a você é… — Ela parou por um momento, fechou os olhos sorrindo e balançando levemente a cabeça. — Me surpreendo com o que vou dizer agora, mas deixe a lógica por um breve momento de lado e tenha fé.
— Sério? — Olhei para ela em dúvida, ainda de braços cruzados, tentando acreditar no que ela havia dito.
— Sei que parece piada, mas leve em consideração a nossa nova família.
Ficamos em silêncio até que tomei fôlego para mais uma pergunta. Ela me surpreendeu colocando os dedos gelados em um movimento suave em meus lábios, impedindo que eu formulasse uma frase.
— Eu sei que pode parecer estranho, mas sinto que devemos dançar. — Disse retirando os dedos devagar. — Daqui a pouco vão anunciar a última dança e após isso devemos voltar a nossos aposentos. Sei que Drácula se ocupará em fazer você voltar sã e salva, talvez nem tanto sã, para seu mundo. Então vamos aproveitar a nossa própria companhia por alguns instantes?
Não havia percebido que o tempo passou tão depressa. E como tinha pouco tempo aceitei a última dança. Ela recolocou sua máscara e voltamos ao salão. Todos os pares já se preparavam para dançar. E dançamos no meio do salão com ela conduzindo, repetindo exatamente os passos que dancei com minha amada na capela. E rodopiamos uma, duas, três e quatro vezes e meu corpo, como se eu não tivesse controle sobre ele, foi jogado em seus braços. Do meu peito apertado pude sentir irradiar aquele formigar característico que parece abrir caminho pelos meus músculos como se eu estivesse eletrificada. No meio daqueles rostos que me olhavam por trás das máscaras e gargalhavam mais alto do que eu havia percebido inicialmente, a música alta, o arrastar dos pés sobre o chão do salão que agora parecia mais cheio, o som rascante dos tecidos roçando em outros tecidos, tudo isso me consumia e eu precisava fugir dali. A música cessou:
— Calma. Inspire e expire lentamente. — Ela disse suavemente com um olhar preocupado. — Nosso tempo acabou, espero que sua experiência com a Selenoor seja diferente da minha. Nos veremos de novo e com mais tempo, espero. — Ela tirou minha máscara e me deu um beijo suave na minha face direita, olhando em meus olhos ainda preocupada. Em um piscar de olhos eu estava de frente a porta do meu quarto.
Já havia passado das 3h, coloquei a mão na maçaneta e fiquei à porta pensando se devia entrar no quarto ou tentar a sorte por entre o castelo, sei que deveria seguir as regras, mas e se eu não as seguir? Drácula foi bem específico no convite dizendo que as três deveríamos estar em nossos aposentos, mas o tempo que fiquei pensando se entrava ou não, deve ter feito com que eu passasse das três. Então eu já estava quebrando a regras, o que de pior ou anormal poderia acontecer comigo além do que já aconteceu? Assim que tirei minha mão da maçaneta pude sentir um frio percorrer meu corpo e irradiar por ele, gelando meu coração, trazendo a ele uma sutil tristeza e desesperança já conhecida minha. Fui então em rumo do que o castelo tinha a me proporcionar, a palavra “Selenoor” ecoava em minha cabeça, o que seria isso, algo com que eu deveria me preocupar? Então fui em busca de mais uma perigosa aventura e a cada passo que eu dava eu me perguntava o motivo de estar fazendo isso tudo, por que estou me colocando em perigo, me fazendo presenciar situações intensas, procurando gatilhos para acionar memórias traumáticas?
Caminhei sem rumo, perdida em pensamentos e encontrei novamente a capela de outrora. E a capela que antes se encontrava em ruínas, agora estava no ápice de sua beleza, não havia somente traços dessa vez, ela era bela e imponente. Eu entrei e o ar dentro dela estava denso e gélido, os castiçais com velas que antes estavam velhas e quebradas, agora tremulavam de modo suave suas chamas sobre o altar, percorri o corredor entre os bancos de madeira agora todos em perfeito estado para chegar ao ambão. A bíblia estava em perfeito estado e curiosa fui olhar se haveria de novo algo marcado, aberta no livro de Mateus no capítulo 17 e em um azul-pálido bem fraco apenas parte do versículo 20 estava marcado “Por causa da vossa pouca fé” li e ri disso, aparentemente minha falta de fé era algo perturbador. Uma luz azul pálida vinda da lua se infiltrava pelos vitrais, iluminava a capela de modo incomum, e isso me perturbava, eu sentia o brilho da lua penetrar a minha pele através das minhas vestes e sua luminosidade era fria. Me sentei trêmula em um dos bancos, e coloquei as mãos sobre o colo. Fechei meus olhos e deixei minha mente vagar permitindo qualquer pensamento vir, fui invadida por uma fragrância cítrica e nostálgica, que trouxe memórias de infância. Me lembrei de segurar a mão de minha mãe enquanto entrávamos por portas grandes de madeira maciça. A luz do sol sendo filtrada pelos vitrais coloridos, espalhando um arco-íris quase que hipnótico pelo chão de pedra. Me lembrei de correr pelos bancos da igreja, os sapatos ecoando por aquele espaço santo, minha mãe rindo e me chamando para que eu me sentasse ao seu lado. As missas sempre com aqueles cantos alegres que me envolviam com um calor reconfortante, como se eu pudesse sentir o abraço de algo divino. A sensação de pertencimento era incontestável, eu me sentia segura, parte de algo que era muito maior que eu mesma.
Deixei minhas lembranças continuaram a fluir e chegarem à minha adolescência, a igreja que antes era meu lugar seguro, se tornou um local de exclusão. Eu sentia o peso dos olhares de desaprovação, os sussurros abafados quando eu adentrava aquele local santo. As mesmas pessoas que antes me tinham como família agora me olhavam com desconfiança e desgosto. Eu não compreendia o que havia mudado até perceber que a questão estava em quem eu era. O lugar que sempre me acolheu agora me rejeitava, as palavras de carinho se tornaram sermões fervorosos sobre pecado e redenção. Cada palavra era como facas afiadas penetrando minha alma. As palavras de amor ditas no púlpito começaram a parecer cada vez mais contraditórias atreladas com os olhares de julgamentos que passei a receber. E a cada dia a sensação de não pertencimento crescia, aquele lugar sagrado se tornou para mim apenas mais um edifício de pedra, as orações não eram mais um consolo e eu me sentia traída.
Meus pensamentos foram interrompidos por um som etéreo, vozes em coro vindo de todas os lados ao mesmo tempo e ecoando e preenchendo aquela capela, de modo suave cantavam em uníssono de modo quase tangível:
— Iesum, salvator mundi. Tue famuli subveni. Quos pretioso sanguine. Quos pretioso sanguine. Redemisti.¹
Apertei os olhos e as mãos com força para tentar controlar meus sentimentos e as sensações que logo me dominariam. Ouvir aquela canção depois de tantos anos irrompeu em mim um sentimento de nostalgia e pesar. Uma voz feminina familiar, vinha do lado de fora, além das paredes de pedra do castelo, começou a cantarolar:
— Fairy lady who stands on the walls, life is short and wait is long… — Era a voz da minha amada morta, um soprano angelical que ressoava com um toque sobrenatural. — The stars, away, dim with the dawn, fairy lady who stands on the walls…
Abri os olhos e ao reconhecer a melodia, e logo me levantei. Olhei para os vitrais e a luz azul pálida da lua parecia ter se intensificado. Fui em direção a música que parecia flutuar pelo ar me atraindo para algum lugar fora do castelo. Corri por aqueles corredores de pedra fria, sentia aquele ar gelado queimar os meus pulmões, meu coração palpitava descompassado. Eu podia ouvir meus passos ecoarem naquelas paredes de pedra. A cada curva, um novo corredor, a voz que me guiava parecia estar mais próxima e ao mesmo tempo fora do meu alcance. Os castiçais nas paredes lançavam uma luz rubra que contrastavam com minha ansiedade. Meus pensamentos eram inundados por lembranças, pelas nossas lembranças, fui tomada por uma mistura de medo e desejo. Será mesmo que eu queria vê-la de novo depois do nosso último encontro?
— Your tale has only begun, it comes from far, the Nowhereland…
Finalmente cheguei aos jardins do castelo, parei por um momento tentando recuperar o fôlego, me virei em direção a voz, minha respiração ainda ofegante. Olhei para cima e inclinada sobre o parapeito da sacada alta do castelo estava ela. Meu coração pareceu parar por um instante. Era ela com um vestido vermelho vivo longo, de mangas longas com punhos largos, como uma dama de conto de fadas. Curvilínea, saudável e corada, o cabelo comprido escuro em cachos, exatamente como eu me lembrava. Minha amada.
— The wind is blowing a sound well known, fairy lady, your love is long gone…
Ela cantou mais um verso da canção, que era a sua preferida e o tempo pareceu congelar. Eu queria gritar seu nome, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. A luz da lua iluminava seu rosto e seu olhar era atraído para ela. E antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, ela se virou lentamente, como se tivesse alguém dentro do castelo a chamando, e entrou sem nem notar a minha presença. Dei alguns passos, tentando encontrar fôlego para gritar. “Espera, por favor!” e minha voz saiu como um sussurro que foi levado pelo vento. Ela já havia ido e a visão dela desvaneceu na escuridão do castelo. Fiquei ali, parada, olhando para onde ela estava, sentindo as lágrimas virem e usando toda a força possível para não deixar elas descerem. Eu ouvia apenas o leve som do vento nas folhas.
Inspirei profundamente, segurei o ar por alguns segundos e soltei, virei para a lua cheia que havia chamado a atenção dela. O céu de um azul profundo salpicado de estrelas, e com uma lua descomunal tão perto. Reparei no jardim em que eu estava, envolto em um clima gélido, eu sentia o ar frio cortando a minha pele. Uma nuvem de vapor saía com cada respiração minha. A escuridão naquele jardim só era amenizada pelo brilho daquela lua cheia enorme e opressiva no céu iluminando os chuviscos que começaram a cair. Cada passo meu naquele chão úmido rangia sobre os meus pés enquanto caminhava. Havia estátuas de anjos com expressões melancólicas, de asas abertas ao vazio, damas esculpidas em mármore, com véus sobre seus rostos escondendo talvez semblantes tristes. Naquele jardim havia uma profusão de rosas espalhadas em arbustos, com pétalas de um vermelho sanguíneo que contrastava violentamente com o azul profundo do céu e o branco sobrenatural daquela lua cheia.
Enquanto eu caminhava o chuvisco aumentava, suas gotas frias se misturavam às lágrimas quentes que eu não conseguia mais segurar. As rosas, agora mais úmidas, pareciam mais vibrantes, era como se sangrassem sob a luz da lua. Um perfume adocicado levemente metálico impregnava o ar junto com o cheiro da terra úmida e do musgo sobre o chão e as estátuas. O jardim estava vivo e pulsante e fui invadida por um sentimento de solidão. A chuva aumentou ainda mais, o frio se infiltrou em meus ossos e precisei voltar para dentro do castelo. Corri para ele e escorreguei pisando em poças de água e terra que haviam se formado. Logo me levantei e continuei meu caminho. Todos aqueles corredores longos se tornaram tão curtos na minha volta ao quarto. Meus pensamentos eram um redemoinho confuso de saudade e culpa que me consumiam. Entrei no quarto, um ambiente agora familiar que me proporcionava um mínimo de conforto, com as mãos trêmulas fechei a porta atrás de mim com força numa tentativa vã de me afastar de tudo lá fora. Eu sentia que algo além da tristeza havia entrado comigo.
Tirei as roupas molhadas que agora eram um incômodo, o tecido colado em meu corpo. O vestido molhado que pesava e precisava ser removido como um fardo. Tomei um banho rápido para tirar a lama, mas não consegui tirar a sensação de que tinha algo agarrado a mim. Vesti algo confortável e largo e me deitei cansada. O sono veio logo, mas sem tranquilidade. Estava inquieta, sonhos conturbados agitavam minha mente, uma criatura escondida na escuridão azulada me observando silenciosa. Sua forma era nebulosa, mas sua presença era palpável, senti um peso sobre meu peito, tentei gritar no sonho, mas minha voz não saía.
26 de dezembro - Abri meus olhos e um calafrio percorreu todo meu corpo. No quarto escuro iluminado apenas pela luz da lua, percebi uma presença naquela escuridão azulada. Uma forma indefinida, com olhos como brasa. Meu coração batia descompassado e minha mente tentava racionalizar aquilo como produto da minha imaginação. Mas o medo intenso que me consumia dizia o contrário. Me sentei na cama e a forma sumiu, talvez fosse apenas um resquício dos meus pesadelos. Não consegui mais dormir, então fui usar meus sentimentos para escrever algo que valesse a pena ser lido. Percebi que não amanhecia, a lua continuava lá, cada vez mais brilhante, eu sabia que era manhã, pois o café-da-manhã trazido para mim no mesmo horário acompanhado pelas três batidas na porta já havia chegado. Passei o dia abatida, a presença da criatura ainda fresca em minha mente. Na hora de dormir sentia arrepios constantes e a sensação de ser observada por olhos invisíveis. Mal conseguia fechar os olhos. Sonhei com corredores intermináveis, sempre correndo, mas nunca chegando a lugar nenhum.
27 de dezembro - Acordei assustada, com uma sensação de algo se infiltrando em meus pensamentos. A lua agora parecia assustadoramente mais próxima. A criatura parecia mais distinta dessa vez, os olhos ardendo em chamas. Tentei me apegar aos pensamentos de que ela era apenas fruto da minha imaginação e voltei a dormir um sono agitado. Minhas noites se tornaram um tormento, sonhos terríveis onde minha amada aparecia, os olhos cheios de uma dor incompreensível, a voz melodiosa agora carregada de desespero. E na escuridão azulada, a criatura espreitava, aguardando sua oportunidade.
28 de dezembro - A lua não desapareceu ao amanhecer e sua presença já tornava o tempo irrelevante. Acordei sentindo dores pelo corpo, sensação de fraqueza e náuseas. Mesmo assim sentei-me para escrever e por vezes podia enxergar a criatura pelo canto do olho a me rondar como se esperasse seu momento. A sensação de mal-estar parecia piorar então voltei para cama e adormeci.
29 de dezembro - Os dias se misturavam, eu já não tinha muita certeza de que dia era. Me guiava apenas pelas batidas habituais na porta do café-da-manhã, almoço e jantar. O mal-estar piorará e eu estava febril, uma dor de cabeça lancinante, enjoos incessantes, me levantava da cama com dificuldade. Dormia várias vezes ao dia em uma sequência de tormento e vigília. E sentia a criatura mais próxima a cada abrir e fechar de olhos. Em meus sonhos eu ouvia gritos acusatórios da minha amada me culpando por sua morte. Minha mente parecia à beira da ruptura. A criatura estava mais próxima, quase tocando a cama onde eu dormia.
30 de dezembro? - A lua permanecia no céu, uma sentinela que vigiava meu sofrimento. A febre queimava a minha mente, dores incessantes em meu corpo. Não conseguia mais sair da cama, e a criatura estava tão próxima que eu podia sentir seu hálito gelado, grandes olhos vermelhos brilhando com intensidade, o corpo esquelético, a pele pálida e esticada sobre os ossos protuberantes, parecia faminto com aquele sorriso aberto de orelha a orelha com dentes afiados e amarelos. Comecei a delirar, não distinguia mais o que era real e alucinação. Meus sonhos eram um entrelaçamento de imagens de morte, gritos de agonia, imagens distorcidas. A criatura ao meu lado de olhos fixos em mim, parada apenas a espera.
31 de dezembro? - Mais um dia sem conseguir levantar da cama. A lua parecia estar prestes a devorar tudo ao redor, era tão grande que eu já nem via mais o céu. A criatura estava deitada ao meu lado com o rosto frio bem junto ao meu, seus grandes olhos vermelhos e aquele sorriso incômodo. Com uma mão de dedos finos e longos acariciava minha cabeça como se eu fosse sua cria ou um pequeno filhote, parecia testar minha sanidade. Eu só conseguia me imaginar morrendo ali e meu corpo, talvez devorado, sendo encontrado tempos depois. Tentava me segurar ao pouco de sanidade que eu ainda tinha. Sentia a criatura como um abutre apenas esperando minha morte para se apossar do meu corpo ou saciar seus hábitos necrófagos, ou fazer sabe-se lá o que. A lua, essa entidade, o medo, a culpa, tudo se misturava na minha mente, eu não encontrava mais forças para lutar contra aquilo, eu havia deixado toda a esperança escapar por entre meus dedos febris. Tentava me agarrar ao pouco de sanidade que me restava, mas eu não tinha esperança de que sobreviveria mais uma noite.
Nota de rodapé:
1.Jesus, Salvador do mundo / Teus servos te pedem ajuda / Aqueles a quem com teu precioso sangue /Aqueles a quem com teu precioso sangue / Você resgatou
Senhora encantada que espera no muro /A vida é curta e a espera é longa / As estrelas ao longe, enfraquecem com o alvorecer / Senhora encantada que espera no muro / Seu conto apenas começou / Vem de longe, da Terra de Lugar Nenhum / O vento está soprando um som bem conhecido / Senhora encantada, seu amor há muito se foi.
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Remorso Póstumo
Estive por tanto tempo absorta em pensamentos, me deliciando com as palavras ganhando vida em páginas em branco. Vestígios de um sangue…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Estive por tanto tempo absorta em pensamentos, me deliciando com as palavras ganhando vida em páginas em branco. Vestígios de um sangue azul de outrora me levaram para um frenesi que Malus não pôde prever. Vidrada, fui escrava de meus sentimentos e escrita desenfreada.
Desci a meu antigo vilarejo. Esbanjando suavidade, beleza e terror. Não cogitaram que eu pudesse ser um mero fantasma, me chamaram de Diabo, e levantaram suas cruzes para mim. Escárnio. Eu que dormia ao pé de uma cruz de madeira com um Jesus crucificado testemunhando meus desejos e sonhos pecaminosos. Ah, se eu fosse o Diabo... Não lhes tomaria somente o sangue, com prazer, torturaria suas almas.
O pai que minha mãe me dera, não de sangue, era um paspalho pervertido que tentara contra sua própria filha, Carrie, minha única irmã, 10 anos mais nova do que eu. Minha amada progenitora nada fazia, nada dizia, éramos nós por nós mesmas.
Eu almejava as alturas, ser imponente como a lua que me permitia enxergar na escuridão. E diante dela, eu jurei nunca mais temer alguém insignificante, desprezível e tão patético quanto aqueles que me criaram.
No deleite, alimentando-me do líquido carmesim de seus corpos, fui vista por Carrie. A fúria que se abateu em mim, por meu próprio ato descuidado, fez com que jogasse seu corpo frágil contra a lareira mal esculpida. Na tentativa de trazê-la de volta à vida, sem sucesso, me peguei saboreando de seu sangue puro, inocente e doce, como jamais havia sentido. Não era azul, mas era tão sublime quanto, ou ainda mais.
Delírios, devaneios, remorso, culpa, deleite... em minha vingança falha atentei contra o que ainda me prendia a um mundo do qual já não mais pertencia.
...
Malus
Deveras como um cadáver. Muito mais fria do que o habitual, pele azulada, quase que seca quanto uma flor desidratada.
— Maneira sublime de morrer, Concordo. Mas nada bela. — Peguei o corpo cadavérico de Anelly que estava jogado sobre a cama e o acomodei de maneira mais confortável.
— Há quanto tempo não se alimenta? — Ainda sem resposta, fiz um corte considerável em meu pulso e a alimentei.
A princípio permanecia inerte. Como se a vida já a tivesse escapado. Mas ao toque de meu sangue em seus lábios, pude perceber que Ane ainda estava ali. Com um toque fraco de suas mãos em meu braço, se alimentava gentilmente. À medida que recuperava suas forças, sentia que o impulso aflorava em seu ser. Esta era a jovem por quem estava ludibriado, sozinha, mas não inocente, doce, mas não frágil, delicada, mas sombria como a noite sem luar.
...
Anelly
Não pude suportar o peso de ter tomado a vida de quem mais amei. Carrie me assombrava e me fazia perder a sanidade que já duvidava se realmente tinha.
Fugi de mim, entregue às valsas, fios invisíveis e enquanto rastejava nas sombras. Pouco a pouco abandonei meu ser, deixando meu corpo inerte, à mercê da própria sorte. Quanto mais neve avistava pela janela, mas eu definhava.
Estava oca, a fome já havia me abandonado. Sentia minha pele fria se enrijecer, e minha mente se apagou. Não posso dizer quanto tempo depois fui desperta. O sabor inconfundível da criatura mais interessante e deliciosa que eu já havia conhecido tocou meus lábios, e eu só conseguia desejar por mais.
— Definitivamente não é uma bela forma para uma donzela padecer. — Falou seriamente Malus.
— Donzela? — Ri, deixando que um pouco de seu sangue percorresse o canto esquerdo de minha boca. — Uma piada, certamente, mas que não combina com seu tom de voz.
— Você desapareceu por dias. Não a sentia mais. Estive fora do castelo e não tinha certeza se te encontraria no meu retorno. — Franziu o cenho e perguntou interessado. — O que levaria você a fazer uma greve de fome?
— Não fiz uma greve de fome! — Respondi brava, incomodada com a insinuação tola e juvenil.
— Dias sombrios abraçam até os seres mais obscuros, eu sei. Mas o que houve, minha cara?
Relatei meu infortúnio e remorso póstumo. Malus deu de ombros. Disse que transformar minha irmã teria sido uma péssima ideia, e continuou:
— Bebês... Crianças e bebês têm o sangue mais doce e puro que poderá encontrar. Não saboreá-los é um desperdício. Não deixe que laços do passado a castiguem por um mal necessário. Uma vez que foi vista, não teria outra escolha.
Estranhamente me senti mais confortável comigo mesma após ouvi-lo. Era divertido ter sentimentos por ele. Alguém como nós sentir algo tão bom um pelo outro. Uma paixão ardente, mórbida e que cada vez mais me via dependente.
Folheando rapidamente meu diário, me prometeu um novo, em breve. Admirava a rapidez com que eu havia preenchido tantas páginas. Questionou uma máscara partida em cima da escrivaninha, preta e de renda. Disse não saber sobre sua origem, mas mostrei-lhe o poema "A Valsa dos Desesperados". Ele sorriu. Disse que o conde não perdia oportunidades. Beijou minha mão direita e se retirou.
Já muito mais disposta, caminhei até a janela. A neve havia se instaurado com força. O céu banhando em um azul-carmim, evidenciava uma lua lúgubre. A melancolia percorria minhas veias. Uma tristeza sem cor avançou sobre mim. Quase não tinha mais páginas, mas o tinteiro estava cheio. Malus deveria se apressar com meu novo diário, caso contrário, teria que recorrer a outros meios para continuar a escrever.
Suas veias azuladas
As mesmas que via em mim
Sob um sol frio e pálido
As últimas lembranças que me restam de ti.
(...)
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Sete Noites
Após a noite do abraço, parecia que eu havia dormido por uma eternidade, mas o que constava no jornal local fora que se passaram seis dias…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Após a noite do abraço, parecia que eu havia dormido por uma eternidade, mas o que constava no jornal local fora que se passaram seis dias. O que falar das sensações pós abraço? Tive contato com a criatura tenebrosa que me hipnotizara e me fizera ingerir não somente seu sangue, mas também sua carne. Antes que eu pudesse desmaiar e ser enterrado em uma cova, senti que ao invés da criatura se tornar mais fraca, aquilo lhe dera forças. O monstro havia se humanizado; surgiu um homem de cabelos longos e negros por debaixo da carne podre do quase cadáver que me atormentara e me infligira a ter impulsos repugnantes. O homem possuía dois olhos vermelhos e expressivos, olhar que eu nunca tinha visto parecido ou igual. Já não sabia distinguir se era melhor ter visto apenas o quase morto ou se o que se transformou em homem era mais assustador.
Em oposição a criatura que se despertara, eu estava fraco, algo me consumia por dentro tal qual chamas de uma fogueira. Já não sabia distinguir se era o efeito do vinho ou o consumo da carne podre. Quando dei por mim, já estava sonolento e sendo arrastado pelos pés pelo cemitério. Senti uma espécie de choque, entendi que havia sido mordido, seguido a isso, o homem de cabelos negros me induziu a beber mais do seu sangue e logo após senti que meu crânio iria se despedaçar após levar um soco do homem em questão. Após entender que havia sido soterrado em alguma das covas, percebi que despertei em alguns momentos, mas não saberei precisar as noites, pois se bem me lembro, já não me recordava de sentir o sol das manhãs, apenas das fases lunares não precisos através das frestas de terra que me possibilitavam enxergar alguma coisa. Em um primeiro momento só tive forças para empurrar meus braços e minhas mãos para fora da cova. Em um segundo momento, empurrei meus pés, no terceiro momento já me sentia mais forte e consegui tirar meu corpo por inteiro de toda a terra que me empurrava à sete palmos abaixo. Já me sentia forte, mas também fraco ao mesmo tempo; algo me necessitava.
Juntei as forças que ainda me restavam e perambulei, pelo que me constava, pela sétima noite no cemitério. Vi que o coveiro ainda trabalhava para enterrar um dos moribundos que enfim ganhava seu lar eterno em uma das covas. Já via e sentia com detalhes que antes não precisava, mas algo me despertou atenção; ao passo que me aproximava mais do coveiro, conseguia sentir todo o sangue, veias e artérias que ali pulsavam, sentia todo o sistema vascular do pobre homem. Sentia sobretudo sede. Sem pestanejar, surpreendi o coveiro pela retaguarda e por instinto o mordi. Fora minha primeira vítima e foi cruel o que eu fiz; além de sugar todo o sangue que pude, utilizei dá pá de enterrar para abrir seu corpo: primeiro consumi seu cérebro, depois o seu coração e por fim suas vísceras. Quase nada sobrara ali. Sentei-me por um segundo na lápide de algum morto, farto como se tivesse banqueteado em um jantar na corte. Estava todo rasgado e ensanguentado, queria poder trocas as vestimentas, porém, quando já estava a ponto de deixar o cemitério, uma voz intrusa invadiu minha mente com ordens e comandos. Senti alguma semelhança com a voz que me hipnotizara na tumba misteriosa e entendi que algo poderia estar me ligando ao sujeito que me oferecera a própria carne e o sangue e que também havia me mordido. Por impulso e ordem voltei até a tumba. Quando adentrei o local e dei por mim, o mesmo homem misterioso de olhos rubros e cabelos negros como a noite esperava por mim. Mas eu já não sentia medo e sim semelhança.
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Solilóquio
Os acontecimentos anteriores me deixaram ainda mais convicto das incertezas deste lugar. Um salão de festas, cheio de gente, onde ninguém…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Os acontecimentos anteriores me deixaram ainda mais convicto das incertezas deste lugar. Um salão de festas, cheio de gente, onde ninguém olhava diretamente para mim, sem nem ao menos esboçar uma qualquer comunicação, visual ou verbal, seja comigo, seja com outros presentes naquele momento… para piorar, aquela fatídica dança, aquela misteriosa parceira de noite que, além de me fazer magicamente entortar as pernas e mãos ao redor de seu corpo, me deixou tonto da cabeça e cheio de pensamentos ao final do evento…
Não diria estar me sentindo cativo aqui, à mercê de algum projeto secreto, nas mãos obscuras de um(a) maquinista oculto e arranjador de situações para, aos poucos, me levar a algum destino… pelo contrário: continuo afastando-me dessa conclusão e sentindo-me estranhamente confortável, servido diariamente de estímulos e atmosfera para o desenvolvimento da escrita. Pois sim, este é o verdadeiro objetivo que parece se desenhar por trás de minha presença e dos outros convivas do Castelo.
Leio-os, todos, com afinco, e retiro de suas experiências narrativas a conclusão de que estamos unidos pelas sensações, pela profundeza de ideias que o ambiente cercado por estas paredes parece cavar e encerrar mais — o resultado final dessa escavação, ainda um mistério… a incerteza no ar…
…
Há pouco, sentado diante desta biblioteca enorme de livros, disposta de maneira a — imagino — atender aos meus anseios (ou faltas) de inspiração, percebi-me atingido por uma vaga ideia: um raio capcioso de argumentação, de dúvidas quanto à realidade em que estou inserido, varou meu íntimo literalmente “do nada”... algo iniciado, se posso tentar adivinhar uma mínima origem, ao me desviar rapidamente das estantes e cruzar o olhar com o brilho espectral da Lua, invadindo este quarto…
Pois registro aqui que a Lua, vista da torre em que faço morada, todas as noites parece iluminar a paisagem sem barreira aparente. Da janela pela qual deixo entrar o ar nas deliciosas noites que fazem, junto com essa luz, sinto chegar igualmente até mim toda a sorte de sensações e mistérios que imagino rodar pelo mundo, invariavelmente causando em almas sensíveis os gatilhos necessários para se começar a pensar…
Eis o de agora: quem dirá (além dos raros cosmonautas) ter plena certeza de que a Lua se encontra lá, naquele céu misterioso e enganador que não sabemos seu fim? Se longe que estamos, e até onde nossos olhos alcançam, não podemos ter convicção alguma de não confundirmos uma árvore com alguma parede de maior estatura e verdejante; uma casa com algum tipo de projeção artificial, devidamente iluminada; um ser humano com alguma criatura além de nossa compreensão…
Vejam só, neste mesmo procedimento sobre o qual falo: por que essa reflexão? De onde tirei a iniciativa, estando há alguns minutos preocupado unicamente em tentar enxergar os títulos dos livros que me fazem companhia? São procedimentos mentais totalmente voluntários?... A própria linha de raciocínio e ação parece completamente indiferente a qualquer tentativa de apreensão. Qual terá sido o primeiro gesto, o pontapé inicial da minha série de atitudes que determinaram (pois assim deve ter sido) minha chegada a esta etapa da vida, a esse momento de incisiva reflexão? Mantém-se a pergunta…
Havendo resposta ou não para esse brilho do céu, para essa dúvida quanto às sucessivas etapas que me trouxeram a esse quarto, e por que decidi me atentar ao processo de pensar, certo é que cheguei aqui impulsionado por uma onda — já estando à espera (e à deriva) da próxima. Se nem mesmo os passos que eu daria ao entrar no Castelo — que me revelaram, por mais absurdo que possa parecer, o aprendizado da dança(!), além de outras descobertas quanto a habilidades de escrita — puderam ser previstos, que dirá ter plena certeza dos movimentos reais do satélite natural, assim nomeado por quem também acha ser apropriada a definição…
Encontrando ou não alguma razão em minha estadia no Castelo, uma resposta final ou explicativa de minha chegada aqui, certo é que estou mais aberto aos estímulos de fora, atento aos acontecimentos que se mostram e surgirão a cada dia aqui — já com a plena certeza de ter sido aceito nesse lugar por obra de alguma construção minha (antecedida por outras), consciente ou não…
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Afirmando a autenticidade dos fatos
Estimado amigo, admito, elaborei uma farsa a respeito de meu passado. Fabulei em minhas rotinas de escrita. A razão de minha expulsão…
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Estimado amigo, admito, elaborei uma farsa a respeito de meu passado. Fabulei em minhas rotinas de escrita.
A razão de minha expulsão, digo com relação ao colégio interno destinado a jovens moças. Nenhum plano malévolo jamais fora arquitetado contra minha pessoa, sou a única responsável por meus infortúnios. Concebo imagens de minha silhueta abraçada a mim mesma, consoladas sobre o mesmo véu negro invadido pela desesperança. Vejo-me como uma pedra afligindo uma fina flor, e afogo-me em luto, minhas mãos alcançam a superfície, porém ninguém jamais poderá resgatar-me da transgressão; deixe-me flutuar junto ao mar de flores, tal como Ofélia, deixe-me sangrar até sucumbir penalizada...
Através da janela contemplei a vista dos vales inteiramente cobertos pela neve, as árvores empalidecidas e parcas parecem-me solitárias a certa distância.
Extraordinário a forma habitual como o azul tingido na amplidão do céu durante a alvorada, atinge todo o horizonte com a variação índigo da cor. Ressentida, deixei uma lágrima escapar ao testemunhar as nuvens ocuparem o espaço, absorvendo a coloração, tornando o firmamento empalidecido, como o azul das Campânulas ressequidas ao alcance de minhas mãos, como os olhos de Teodoro Trindade. Em momentos de extrema lucidez, desejo de todo coração não possuir uma memória impressionantemente vasta, até mesmo os sons são armazenados em minha memória.
Adaptei-me a adormecer na companhia de uma sonoridade específica; os gritos pueris da infância, as desconexas sentenças, assombrosas, que ecoam em minha memória, regularmente, durante as madrugadas. No momento em que ocorre, sinto um certo alívio, sinto-me em casa. Próxima a Teodoro Trindade.
Amadeu, Luiz Antônio e Theodoro Trindade eram membros do Esquadrão da Guarda do Vice-Rei de Portugal, o 1º Regimento de Cavalaria do Exército. Os homens Trindade deixaram seu país de origem após a invasão napoleônica, buscando abrigo em nosso simplório colégio. Eu os vi adentrar os portões cercados pela neblina cálida e úmida, desenvolvida por consequência da sensação térmica elevada, e arrisquei-me a estudar o estranho trotar de seus cavalos em nosso território. O Sargento Teodoro carregava consigo, abraçado ao tronco, uma criança, mais tarde descobri ser um jovem de seu próprio sangue, nascido de um caso vulgar de amor
Por meses eu o vi arar a terra e auxiliar nas tarefas de manutenção do terreno e do prédio onde se alocava o colégio. Teodoro trazia, em seus olhos azuis, profunda tristeza lacrimosa, e os cachos dourados de seus cabelos perdiam o brilho e a maciez conforme seu tempo estendia-se em nossa companhia. Trindade não fazia uso das palavras, perdera a habilidade da manifestação vocal ao ter a língua decepada durante uma tortura, minutos antes de sua fuga.
Após as tarefas, o sargento recolhia-se aos fundos da propriedade, onde dedicava-se ao filho, o acalentando, na esperança de fazê-lo olvidar os dias de flagelo. A criança berrava noite e dia, e os olhos de Teodoro enchiam-se de lágrimas instantaneamente, mesmo ele carregava na alma o efeito da covardia humana, e sobrevivia puramente pela esperança de auxiliar o retorno do filho à jovem casca.
Eu o visitava pela madrugada, o sargento tinha meu interesse como o presente dos céus, uma gentileza atrelada a minha alma pura e jovial, embora eu nutrisse certa fraqueza por seus olhos azuis lacrimosos e a força como atravessava o rio da vida, molhando-se o tanto quanto era permitido, afogando-se na esperança de sufocar a dor latente de carregar bárbaras memórias de violação de seu corpo e de quem mais amava, um sobrevivente, jamais carregado pela maré, apesar do desejo oculto de permitir que a morte ceife sua vida.
Sentei-me certa vez ao pé de sua cama, de modo que pudesse tocar em seus dedos alvos e longos, sentindo a aspereza de sua pele sobre a palma de minhas mãos. Trindade era um jovem homem na casa dos vinte e cinco anos, poucos anos à minha frente, porém, sua constante vestimenta branca, o olhar puro e temeroso e o movimentar dos olhos vagarosamente ao levar as mãos aos lábios pequenos e rosados, o atribuía um ar pueril.
O homem fora meu lar quando esquecida por meus familiares e vivia em uma rotina cansativa de estudos e leituras, ao menos meus livros acompanharam-me em minha jornada. Jamais nos beijamos em vida, ou trocamos o calor de nossos corpos, embora eu tenha fantasiado, e no desfecho de nossa história encostar os lábios nos seus empalidecidos, em busca de soprar-lhe de volta à vida, intoxicando-me com o gosto frio da morte impiedosa.
Pois bem, Trindade aproveitou de meu conhecimento para que o ajudasse em uma ocorrência, fez-me prometer encontrar uma forma de ceifar sua vida e a da criança, primeiramente segurou minhas mãos trêmulas sobre um punhal de encontro à sua artéria, imprensando seu torso nu, aproveitando de minhas distrações por seus olhos lacrimosos e melancólicos e lábios rosados para arrancar de mim a ímpia promessa de morte.
Eu não o matei, não à sua hora, embora o tenha executado mais tarde, quando sua afeição fora direcionada à irmã Celeste. Ele jamais a pediu que o deixasse escapar para o descanso eterno, era feliz ao seu lado, contudo cumpri minha promessa, findei sua vida, e a de seus irmãos e de sua prole, ambos envenenados com arsênico, privando suas células do organismo de obter oxigênio. Antes de partir, Teodoro abraçou o filho, assentiu para mim de forma compreensiva e pranteou ao aceitar a morte.
A culpa recaiu sobre mim como podes imaginar, a jovem ensanguentada por fustigar o rosto contra parede em busca da dor e do padecimento, a jovem cujas lágrimas misturavam-se ao plasma sangrento, gotejado sobre as pálpebras e lábios entreabertos em um grito de cólera. Não havia uma outra alma sabida como a minha em companhia de uma coleção de livros e artigos intelectuais relacionados à biologia, alquimia e estudos herméticos. Neguei o crime, todavia deixo aqui minhas palavras, afirmando a autenticidade dos fatos.
Ainda consegues nutrir afeição por mim, estimado amigo, mesmo após ouvir a minha verdade?
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Cognição Vampírica
Minha mente parece estar composta por todos os destroços das minhas vítimas, a sofreguidão me acalenta em sua dissidência estupidamente melancólica…
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Diário Não Datado – Declínio Dourado
Minha mente parece estar composta por todos os destroços das minhas vítimas, a sofreguidão me acalenta em sua dissidência estupidamente melancólica.
Minhas lamúrias são como abraços de facas que me atravessavam sem pausas, eu me sinto tão morta quanto estive antes de me tornar essa criatura.
Éramos e ainda somos, apenas eu e ele...
— Miau — Jason telepaticamente mia.
Penso que se talvez eu não tivesse aceitado rodopiar naquele baile, o que me teria alcançado? Quais sentimentos iriam me consumir de acordo com as minhas escolhas?
Como seria bom voltar para as cores daquela festa, o dourado irradiava naquele salão, mesmo que dentro de mim fosse como uma borracha apagando ativamente cada vestígio da Maria existente de outrora. Sinto tantas coisas ao mesmo tempo que sinto um vazio me cobrir a cada segunda em que busco respirar nessa carcaça imortal. E a minha adorável amiga... meu outro consolo neste imenso castelo que me cerceia de dúvidas, se meu coração pudesse saltar, agora ele estaria no chão do quarto com um vestido vermelho dançando algum tango com as minhas emoções conflitantes.
— Miau — Jason me interrompe na hora da minha escrita.
Não consigo sentir raiva dele neste momento, pois ele me acordou por um bem maior. Tem estado preocupado comigo desde a nossa última refeição e que felicidade seria apenas ser uma viagem alucinante após um copo do líquor-carmesim que eu nem sequer tocara.
Levanto-me deste dossel e agora percebo que tudo no meu quarto combina com as cores do meu cabelo, antes eu estava tão no automático e procurando respostas, que nem dei vazão para as emoções com tanta destreza que nem agora que me encontro em tamanho descontentamento. Passei o dia estranhamente no escuro e na companhia do meu gato não vi a hora passar. Eu me senti em combustão depois de sorver todo o sangue daquela criatura que atrapalhara meu caminho. Os humanos são tão frágeis que chega a ser repugnante, ao mesmo tempo que os invejo.
Com as cortinas fechadas o dia inteiro, a escuridão se fez presente e ao vaguear agora no corredor do castelo com o Jason, percebo que já anoiteceu. Mas não vejo a lua amada que admiro todos os dias. Hoje está diferente. A lua está cheia, mas as cores estão diferentes, nos vitrais brilham três tons e esse carmim me traz vagas lembranças...
— Miau — Jason faz uma interação telepata tentando me confortar.
— Eu não sei se consigo controlar Jason, eu me sinto cheia de ontem, mas algo me chama e eu quero mais. Eu estive todo esse tempo suprimindo meus desejos e os suprindo com a escrita. Mas não sei se irei aguentar por tanto tempo, me sinto perturbada nesse momento. Você consegue me entender agora nesta nova fase?
— Miau — Jason mia baixo e me mostra em nossa conexão mental que estará comigo em todos os momentos. Que preciso me controlar, pois há muito ainda a ser feito e vamos aprender algo com nossa dor atual.
— O que é aquilo? — Vejo uma sombra no vitral e nunca fui cética, pelo contrário. Não consegui sentir nenhum cheiro, a etérea fantasmagórica nos convida.
Vamos correndo seguindo-a pelos vitrais no clarear da lua túrgida. Eu consegui me desvencilhar um pouco dos sentimentos enquanto estava nessa fuga da minha realidade. Não consigo observar os detalhes com clareza, a aparição tem apenas cabelos longos e o corpo parece coberto por uma manta.
Ao chegar aonde não se encontrava mais nossa descoberta, sou pega de surpresa, pois há uma catedral dentro do castelo. As paredes não têm a mesma pintura dos cômodos do castelo. São tantas cruzes e tantos símbolos de religiões diferentes, que julgo ser um lugar para aqueles que buscam algum refúgio para o espírito, vampiros fazendo prece me parece tão satirizado.
Seguro-me em um banco que está envolto de um lençol branco, algumas árvores cortadas estão na catedral e tudo parece um grande caos abandonado. São tantos vitrais de modelos diferentes. Mesmo que distintas em seus formatos, apenas a luz dessa lua que tange em reflexivo e penetrante cor todo o ambiente.
Como já venho me sentindo tão amargamente contrariada e lamuriosa, resolvo pedir para a única em que acreditei em toda a minha vida, a mãe natureza. Quem sabe me respondesse em meio a esse lugar nada sagrado, para a minha alma já perdida e uma mente volúvel que agora só crer no poço profundo que busca incessantemente.
Peço para Jason fechar os olhos e junto comigo um clamor para que ela se faça presente naquele momento, que me desse alguma brecha para que um novo rumo se abrisse à minha frente.
Não aguento mais ficar na constante dúvida de existir nesta nova vida em que levo. E mesmo que eu não tenha os elementos mágicos para fazer os pedidos aqui comigo, deixei todos no meu quarto. Deixei-os de lado depois que me tornei vampira, mas sempre estão comigo de algum modo que me prendesse na vida humana em que eu tivera.
Não demorou muito para que uma nova forma etérea aparecesse e com ela um clarão incandescente, seu formato fazia conjunto com os troncos cortados próximos aos bancos. Sua silhueta em formato de uma mulher, de uma mãe que estava gestando não apenas um filho, mas uma chusma. Seus cabelos estavam esvoaçantes em formas de arbustos num verde claro que ainda sim era ofuscado pela luz dos vitrais da lua. Em suas mãos tinham sálvias me trazendo o sentimento que eu almejava.
Meus olhos ficaram avermelhados e em seguidas lágrimas escorreram pelo meu rosto, lágrimas de sangue e, ao olhar para o Jason, ele sentia o mesmo.
Meus cabelos curtos em formato de algodão doce ruivo com manchas verdes agora estavam voando como o dela, da mãe que me trouxera a conexão divina que é um dos significados da sálvia e a sabedoria que eu almejava. Eu não consigo conter minhas lágrimas e me sinto sonolenta. Ao bocejar sinto meu corpo esvanecer.
Lembranças
Sinto o cheiro da grama molhada do meu antigo jardim, da casa que tive meus melhores momentos com o meu pai. Minha mãe havia falecido quando eu ainda era uma bebê e tudo que me restava dela eram algumas fotos que tirara comigo no dia do meu nascimento. No dia que mudamos para essa casa, meu pai me contara diversos sonhos que tinha para nós e lembrar que, ainda morando neste lar, também o perdi. Me submeti a uma nova mudança logo após o passar do meu luto, estava decidida a morar sozinha e viver uma carreira de autora, ainda que fossem difíceis os sentimentos de lembrança do meu melhor amigo, um pai presente, que para muitos hoje está em falta.
A herança que ficou para mim, usei para gastos supérfluos, aumentando meus atos compulsivos e impulsivos de colecionadora. Morar numa cidade quente como Fortaleza me fez repensar muito nas minhas compras.
Tento abrir os olhos e logo sou jogada para uma nova lembrança.
— Esse dia não, por favor. — A mãe me acalenta com uma das plantas em suas mãos e eu adormeço novamente.
Os dias absurdamente quentes que as nuvens não estavam à nossa vista, o sol queimava a retina e o corpo transpirava em lugares inenarráveis. Nessa época eu estava de cabelo azul, assim como a cor da caneta que eu escrevia no meu diário. Meu livro ainda não tinha vendido nenhum exemplar e eu me sentia desconsolada e as esperanças esquecidas no meio de qualquer lugar do mundo. Eu olhava para o céu em busca de queimar de vez a retina e a minha esclera quiçá ficasse da cor que era a emoção que me afligia. O céu naquele azul intenso que me ardiam os olhos, me dizia que eram dias que eu tinha que me recolher. E foi dentro de mim mesma que virei um casulo… Nesses dias eu me jogava no chuveiro, uma cidade tão quente e neste dia minha alma estava tão fria… “Por aqui, a única tempestade que tinha era de minhas lágrimas enquanto eu molhava meu corpo, escorria tudo de dentro de mim e, por fora, eu virava apenas uma só com a água”.
Enquanto vagueio nessas lembranças, me vêm esses trechos do meu diário e me recordo que nesse mesmo dia eu o conheci. Depois de um banho e logo suada estava novamente, fui caminhar até a praia e no antigo Porto dos Ingleses ou Ponte Metálica eu fiquei a refletir sobre a minha escrita e foi ali que eu ouvi um miado. Bem distante e um serzinho mufino escondido com os pelos siameses e sujo. Eu queria morrer naquele dia, minha mente estava explodindo com todos os meus problemas além do livro. Eu cogitei me jogar daquela ponte até aquele miado me entreter. E foi assim que Jason nunca mais saiu da minha vida.
Diário Não Datado - Um novo dia
Ao acordar depois daquele encontro, ainda no meu dossel, apalpei meu rosto e senti as lágrimas secas e grudadas, Jason ao meu lado estava do mesmo jeito. Acredito que a mãe natureza quis me mostrar que independente de tudo que estejamos enfrentando nesse castelo sombrio, se continuarmos juntos, seremos mais fortes. Quanto à lembrança do meu pai, sinto que era o consolo que eu buscava, após perdê-lo criei um desconforto em manter algum tipo de comunicação com homens, foram poucos que tiveram minha atenção. E agora que me encontro neste castelo vou precisar lidar com isso, principalmente quando Drácula vier ao meu encontro, ou algum morador do castelo.
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Capítulo 1: O Adágio Sibilino
Um flúmen carmesim cruzava o níveo balcedo e, deste liquor consistente, eu me inebriava, sorvendo sem temores, e imergindo-me nua em seu sereno caudal…
Um flúmen carmesim cruzava o níveo balcedo e, deste liquor consistente, eu me inebriava, sorvendo sem temores, e imergindo-me nua em seu sereno caudal cujo aroma ferroso seduzia-me. O álgido inverno mordaz congelava-me os cílios, alvejava meus negros cabelos e sobrancelhas enquanto a torrente escarlate era estranhamente tórrida como uma nascente termal. Eu não sabia a origem daquele sangue, no entanto, em minh’alma residia a intuição de que advinha de um mórbido pecado. Despertei deste sonho após tal intuição fissurar o plano onírico e, então, senti sede. Não foi uma sede qualquer, parecia-me como mãos a asfixiarem-me a garganta; senti dilatarem as minhas pupilas e um ímpeto terrífico embaçara em rubro a minha visão. Foi isso que aconteceu naquele dia após o sono sombrio no amanhecer. Despertei às dezessete horas, completamente alucinada.
Então, lá estava ela; uma taça de ouro lapidado e brilhante que por certo fora disposta sobre a mesa poeirenta enquanto eu devaneava, uma vez que eu não a vi n’outro momento desde meu despertar primevo, quando tudo era-me tão somente uma penumbra de indagações a pairar pelo ambiente frígido. N’um único movimento suave, segurei o lustroso cálice e levei-o aos meus lábios sequiosos após notar que dentro dele habitava um espesso líquido acarminado, em demasia semelhante ao flúmen de meus oníricos recônditos. Posso ter olvidado cada uma das memórias do meu passado, todavia, ainda detenho os conhecimentos mais precisos, e alguns além, que me permitem compreender o mundo; um destes saberes é que este sangue não deveria ser tão apetitoso para mim, tampouco matar deveria esta minha inominável sede.
Na voracidade mitigada pelo degustar, observei um envelope esculpido em um tipo de material valioso, talvez um quartzo. Toquei-o, estava próximo à cama e, em minhas mãos, ele lumiava como uma folha feita de um excêntrico e natural rubi fissurado por ouro. Era apenas um papel, todavia, não poderia advir dos eucaliptos setentrionais. Em seu interior, letras conduziam uma misteriosa mensagem.
“A escuridão do ressurgir possui ímpar esplendor, contudo, o exício d’alma, como Rosaemori, habita na dança da meia-noite pela lembrança ao refletir, onde o doce carmim se putrefaz às faces dos que jamais se delatam.”
Um peculiar enigma de essência familiar, embora tão ofuscado pelo mórbido vazio de minhas mais ínfimas memórias. Conservei uma proximidade à letra cursiva, mas desconfiei apenas encontrar-me delirante. Esforcei-me em profundo pensamento, no entanto, o “exício d’alma, como Rosaemori,” e as “faces dos que jamais se delatam” soavam-me como um longínquo corvejar em um horizonte crepuscular inebriante, isto é, passível de admiração intensa, mas não de compreensão. Dobrei a epístola insondável e escondi-a em meu vestido, próxima aos seios; e asseei meus lábios úmidos pelo fascinante e fresco vinho da profanação. Era hora de deixar aquele sôfrego aposento e conceber novos retratos à conservação dos momentos advir — e tentar colher do inconsciente as mais ocultas verdades, pois, possuíam seu incontestável valor.
Abri com ampla facilidade os altos umbrais e dirigi-me pelo corredor silencioso. Candelabros espargiam de si um lumiar trêmulo, porém, vigoroso, e clareavam as veredas obscuras. À vista dos vitrais de um grandioso salão, o qual adentrei sem anelo por meio de um esmo perscrutar, observei um esguio homem no jardim; à sua frente uma mesa de carvalho servia de repouso a incontáveis itens fúlgidos e tecidos de apurada aparência. Destinada a conhecê-lo, busquei escadas que me levassem ao andar de baixo e não demorei a encontrá-las, pelo caminho, contudo, examinei alguns quadros, estantes vazias, livros e gavetas. Tudo era símil a uma abandonada mansão, mas, de forma ambígua, habitada por um singelo número de pessoas, o suficiente para que a poeira se esquivasse aos cantos por onde pés não andejam.
— Ó! Fascinante donzela! Ande! Apressa-te! Esgotar-se-á o teu tempo, tens uma mísera hora para aprontar-se para o Baile, vamos, venha, venha! — Proferiu o homem ao ver-me aproximar; seu sorriso era largo, tétrico e pontiagudo, seu rosto era pálido e seus olhos lembravam-me das chamas sobre as velas dos candelabros. Os dentes afiados pareciam esculpidos em etéreo marfim e os dedos das mãos quais se abanavam n’um gesto chamativo em minha direção, eram franzinos e longos. Os trajes do indivíduo peculiar possuíam uma fina elegância, envoltos aos tons mais negrumes com adornos sublimes e áureos. Sob uma tenda rubra ele se mantinha em pé, um relógio de bolso dependurava-se em seu braço e, pela indumentária extravagante, o curso de uma corrente lhe enfeitava as mãos ao vincular-se aos seus anéis de pedras preciosas. Quando próxima, vi-o erguer alguns vestidos.
— Há excelsas peças, Dama soturna, veja, veja, veja!
— Perdoa-me... — Iniciei uma conversa hesitante — Não compreendo sobre o que falas ao mencionares um... baile? — Indaguei com a sutileza mais sincera, o homem cessou seus movimentos apressados e fitou-me atento.
— Não recebeste o convite? — Indagou, cismático. Ponderei por instantes fugazes sobre revelá-lo o bilhete enigmático, no entanto, receei. — Vamos, diga-me teu nome! — Ele voltou a movimentar-se entre seus apetrechos, em especial as gavetas de uma grande mobília detrás dele.
—Eu... — Eu não sabia meu nome.
— Diga-me! O Tempo se escassa a cada átimo! — Abrindo e fechando cada uma das gavetas, o homem procurava por algo.
— Eu não... sei... — Revelei. Novamente, mirou-me seus olhos lumiados. E, então, cruzou seus braços magérrimos e elevou, com sutileza polida, seu maxilar.
— Hum... — Ele parecia pensar, seus sonidos eram de, porventura, um abismal refletir. — Creio que tu sejas, então, a esperada...
— A esperada? — Questionei em uma curiosidade infante. O homem retirou de sua manga, em uma lentidão performática, um envelope fascinante em simetria e perfeição. Estendeu-o a mim. Nada havia escrito ao lado de fora do envelope, todavia, era selado com um tipo de mecanismo único feito com delgados ornamentos fulvos e, no centro, um único elemento cetrino, era um verídico Realgar esculpido em formato orbicular.
— Fui instruído a dar este invite à primeira donzela inominada que viesse ao meu encontro.
— Quem o instruiu? — Minha voz estva mais célere, enquanto eu me sentia embriagada pela beleza do artefato que agora eu segurava em minhas mãos.
— Ora, ora... um alguém... — Ele olhou para o tecido à sua frente, retirando-lhe uma longa agulha e, com um monóculo, observou a fenda por onde, sem delongas, atravessou uma rúbida linha.
— Quem, afinal? Possuía um nome? — O homem gargalhou com requinte diante meu questionamento.
— Perdoa-me o riso... é que tu, inominada como és, estás a indagar sobre o nome de outrem? Ora, parece-me tão pitoresco. — Respirei impaciente. Olhei para o belíssimo invite e toquei-o, admirada. Assim que o fiz, em especial na preciosa Realgar, o envelope abriu-se n’uma deslumbrante carta e todos os ornamentos dourados fragmentaram-se à fulvo pó com aroma de cestrum nocturnum.
“Caríssima dama! Que adorável noite! Venho por meio desta missiva convidar-te à Masqarilla, a qual terá seu início às dezenove horas. A solenidade saudará os novos residentes com o liquor-carmesim e dançaremos sob o luar. Como desperta, é de inefável valor que venhas ao nosso encontro e participe deste fascinante festejo, este é seu novo lar. Tenho sob minha guarda uma carta destinada, creio eu, à senhorita; decerto é de teu interesse tê-la em mãos. Com apreço, Conde Drácula.”
— Como o reconhecerei? — Sussurrei.
— Conde Drácula? — O homem à minha frente indagou, ainda obcecado por costurar o seu tecido. Respondi-lhe que sim. — Tu o reconhecerás, não te preocupes. A influência da presença do Conde é notável, mesmo no mais longínquo. — O Homem ergueu, após sua fala, o vestido que costurava. — Que tal este? Do teu exato tamanho, vermelho como os teus olhos.
— Belíssimo! — Encantei-me com a peça e, ao tocá-la, vislumbrei abaixo, no mais oculto da mesa de carvalho negro, uma máscara peculiar. — E esta?
— Ó... Esta? Sim, sim, uma máscara especial de uma criatura mítica há muito esquecida.
— Pensei tratar-se de um corvo.
— Um crânio fidedigno, caríssima inominada, de uma criatura mítica dos dédalos florestais... Segure, isso mesmo, experimente! Deve servir em tua fronte. — Era perfeita para mim, tive tal certeza ao vesti-la; somou-se a uma proximidade tênue que senti no exato instante. — Sabes que uma taça de ouro do Castelo pagaria facilmente o indumento e a máscara... — Disse o homem esguio, com seus olhos dispersos e lábios trêmulos, de alguma estranha forma ele sabia da taça que eu possuía em meu aposento. Curvei-me a ele em um cortejo formal e, em alguns minutos, lhe entreguei o fulvo cálice para tão logo aprontar-me para o festejo misterioso, mas... algo me estorvava a empolgação de desvelar os segredos da tal carta em posse do Conde; ou mesmo de conhecer mais sobre este imensurável castelo à beira do abismo. “O exício d’alma, como Rosaemori” — aquele insólito bilhete era a razão do meu remorar frente aos umbrais de minha alcova.
Não obstante, entretanto, corri pelos claustros e passadiços, passei pela galeria e o saguão, até ouvir ao longe o murmúrio dos convivas. Afoita e um pouco sem fôlego, antes de chegar à câmara do festim, busquei a serenidade de minha mente e corpo e, assim, pelos meus íntimos pensamentos, revisitei cada questionamento que me perturbava desde o despertar do dia anterior. Não importa quem, mas decerto — eu pensava — que alguém naquele lugar sanaria minhas vertiginosas dúvidas. Cingida por esta certeza, adentrei o grandioso salão e meus olhos reluziram pela riqueza dourada que se desvelou a eles com magnitude.
À leste, o vermelho, todavia, espargia das tapeçarias aos ornamentos que decoravam o pequeno púlpito destinado à banda, a qual, por sua vez, era composta por treze pessoas; tocavam valsas marcantes, onde o violino tinha destaque ao lado do acordeão. Meia dúzia de outras pessoas compunham um pequeno coral ao lado, com vozes marcantes que ecoavam à valsa que, julgo dizer, possuía ares circenses. Todo o som difundia pelo gigantesco local e parecia conduzir, pela abóbada de rubi, um encanto fantasmagórico estonteante. Lembrar-me da cena transporta-me a ela, parece vívida em sua volúpia teatral e, certamente, estivera; a mastodôntica câmara abrigaria mais de mil indivíduos, estou certa disso e, porventura, ali estivessem mil e um. Todos com elegantes trajes e máscaras sombrias, que fascinante! Compreendi a razão pela qual o Conde a nomeara “Masqarilla” e não apenas “Mascarada”, a primeira palavra em si tinha gosto de cereja, as mesmas dispostas em cachos na ampla mesa destinada ao banquete; além disso, ornada pelo “q”, perpassava a sensação de mórbido assombro por causa da extravagante ourada, os veludos de ouro, os vitrais de ouro, o néctar de cacau banhado à ouro para acompanhar as cerejas, tudo exótico e aclarado, sim, luminoso como um dia de sol, embora penumbral como a mais fúnebre noite.
Embora eu fitasse com minhas atentas retinas cada lôbrego e exuberante pormenor, dos cântaros com cestrum nocturnum a exalar um aroma notívago, aos candelabros cujas chamas febris estavam envoltas por decágonos feitos de um tipo de quartzo — eu alvitraria tratar-se de sirehnniha, pois se mesclavam entre o escarlate e o marfim, o que causava um efeito bizarro no ambiente à medida em que as chamas fremiam pela aragem; e, enfim, a despeito de tudo isso, quando eu conduzia minhas atenções aos olhos daqueles que cruzavam o meu caminho, os quais eram igualmente fascinantes em suas vestimentas, joias, peças e máscaras, eu parecia não ser vista. Talvez o crânio da criatura mítica a me ocultar o contorno facial fosse um empecilho para as aproximações virtuosas — ainda assim, eu não o retirei de meu semblante, pois, de modo incomum, detrás dele eu me sentia protegida.
Acabei por passar boa parte do tempo assentada n’uma das poltronas de um belvedere interno, acessado por escadas encíclicas, por onde o horizonte da Masqarilla era mais bem admirado. Isso me permitiu notar que, com o passar das horas, as velas envoltas aos decágonos de sirehnniha marfim iam se apagando, de modo que o ambiente, n’um aspecto tétrico profundo, se avermelhava cada vez mais. Além disso, a lua cheia subia no firmamento lucífugo e aos poucos o seu lumiar soturno se espargia pela abóbada de rubi acima do encalço destinado às danças. Essas minúcias provocavam-se uma inquietação ofuscante, no entanto, algo me prendia àquele lugar, não apenas algo brumal e símil a tudo o que se desvelou a mim desde meu despertar; houvera algo ainda mais misterioso, porém tangível, que me impeliu a permanecer na meia-luz escarlate.
Em um fantasmagórico cárcere que vinha sobre mim no silêncio de minha mente conturbada, um alguém de vestes obscuras sentou-se ao meu lado e o vi apenas quando sua voz grave sonorizou sua presença à minha audição que se alucinava com o mórbido som do órgão de tubos.
— A morte é a eterna dança da alma no abismo. — Dissera, intenso, entregando-me um ramo ornamentado de cestrum nocturnum. O bálsamo da flor penetrou, marcante, meu olfato e, tamanha era sua veemência que, por instantes, desorientei-me. — Dance comigo. — Sussurrou o homem com a mesma delicadeza viril, então segurei o belíssimo e inebriante ramo que era erguido em minha direção e ponderei sobre qual seria o sabor daquelas pequenas flores lívidas, pois que o perfume me era um êxtase sui generis. O misterioso Dom à minha frente aguardava, atento e sombrio.
— A quem devo a honra? — Indaguei, segurando-lhe a mão estendida. O homem a ergueu, beijando-a. Ele usava uma ornamental máscara negra que se assemelhava a um rosto humano com traços felinos; o vazio dos olhos tinha um exagerado tamanho, curvados como os de um tigre e cobertos por uma manta interna, no mesmo tom noturno. Somente seus lábios estavam à disposição, onde pude sentir sua pele fria; todo o restante de sua feição estava sob a paralisia do felino rosto ornamental feito de escuridão dourada. As mãos, por sua vez, estavam sob a proteção de luvas de couro e seu traje régio dispunha-se dos mesmos tons trevais por onde jaziam seus olhos ocultos. Uma umbrosa gema, talvez obsidiana, fora lapidada na fronte de sua máscara. Com este vulto de um alguém, iniciei o bailar ao som da umbrífera valsa.
— Lëvri Dorean — Revelara-me enquanto nos movíamos sob o som sepulcral. Muitos ao nosso redor seguiam na coreografia, o que nos impedia de um diálogo contínuo. Entretanto, enquanto a lua chegava ao cume da abóboda-rubi e quase todas as velas no decágono marfim se apagavam, o carmim transfigurava o ouro em sangue e tudo o que víamos era nós dois, a cada cinesia organizada, seguimos um diálogo em partes, entre as sombras de outrem. — E qual haveria de ser o nome da tua espécie? — Ele questionou com seriedade.
— Minha espécie? — Perguntei atenta enquanto a penumbra roubava-me a serenidade, conquanto a presença marcante daquele que não desviava seus olhos ocultos de mim fosse o apaziguar da solidão e do esquecimento, ainda que evolasse de sua aura algo inenarrável a me enlear ao medo lúgubre.
— É o que as flores possuem... espécie, classe e gênero. Da classe, sem dúvidas, és da mais excelsa; do gênero, decerto feminil. Falta-me a espécie. — Explicara, como um gomil a verter sobre minha pele um puríssimo néctar das belíssimas flores da arbórea Calliandra angustifolia. E meu corpo próximo ao dele, as palavras sedutoras, uma cura plena cujo mistério impedia-me de dosar o quanto eu poderia ficar imersa, ludibriada, e então sentir o veneno pela dosagem exacerbada.
— Dama-da-noite. — Ele sorriu com sutileza ao me ouvir, no entanto, um regélido arrepio tétrico percorreu meu corpo, originando uma desagradável angústia, de modo que seu sorriso se afigurou mais vil do que cativante.
— Quero o teu nome real, o qual eu possa sussurrar quando estiver só em meu aposento. — Neste íntimo, unimos outra vez os nossos corpos, com as mãos dadas, à valsa da morte. Era quase meia-noite. As sensações desoladoras ascendiam céleres, e os efeitos dos decágonos vermelhos à luz das chamas, me entonteciam.
— Eu te diria, se assim pudesse. Mas não me recordo... — À altura daquele diálogo, tudo de horrífico que eu pressentia, alastrou-se de repente. E, assim, uma pungente dor em meu crânio expandiu-se terrífica e meus olhos lacrimejaram detrás da máscara. Cessei meus movimentos, a lua era o astro de sangue no píncaro da abóboda de rubi, iluminando em um denso rubro tudo que debaixo estava, e a música não cessava. A aragem ao redor esfriara no exato átimo em que a aflição dardejara de mim, pelas têmporas. Fui obrigada a retirar, de súbito, minha máscara, revelando meu rosto entre os que bailavam à meia-noite vermelha, e minha dor hórrida espargia e se dilatava; lembro-me de olhar para o abismo dos olhos de Lëvri, ele me observava estático e, talvez, amedrontado — eu nunca poderia saber. Então, no aterramento da tortura, quando minha lancinante dor aguda colidiu-se com a minha sanidade, perdi-me dentre os corpos dançantes, perdi-me de Lëvri.
Na morbígera dança, colidindo com os corpos, as máscaras se distorciam à minha visão, elevavam às sombras cetrinas uma hórrida composição pavorosa. O som do violino agudo confrangia meu coração acelerado e o pulsar da dor abissal em minha mente era como tambores insondáveis. Um, dois, três, em cada ouvido, tímpanos invadidos por sonatas em tenebrosa essência, um adágio de repugnante e diabólico vibrar. Eu só podia estar delirando e eu não conseguia deixar o encalço dos dançantes, conforme a meia-noite se prolongava, e o que me parecia ser uma desgraça de infortúnio, tornou-se o maior dos meus pesadelos, pois, perante os tambores do antro do meu crânio, na dor cruel e violenta, todos aqueles que dançavam tornaram-se inertes. Um a um. Viraram seus rostos para mim enquanto a música intensificava, perversa.
Em movimentos lentos, no meu desesperar medonho por fitar as máscaras distorcidas, o escarlate tremeluzindo; cada uma das pessoas, uma a uma, retiraram os sinistros objetos desfigurados de seus rostos, e o que vi não foram semblantes. Cada rosto possuía entranhado, em suas faces sanguinolentas, um fragmento fincado de espelho. Pedaços que, de imediato, voltados a mim, refletiram o que deveria ser eu, mas não era. Fui terrificada por imagens perturbadoras do mais cruel possível ao meu olvidar, eu não soube se eram reais ou não. Mortificada, corri para sair daquele lugar, no entanto, não havia saída, mesmo que todos estivessem paralisados; olhavam-me no infinito salão. Eu não podia fechar meus olhos. Cada reflexo desvelava-se n’uma cena macabra e, no primeiro deles, vi um homem com uma flor de cor negra-gaultéria fincada em suas entranhas pelo torso aberto com lâmina dourada; a planta sorvia dele, mirrando seu corpo dolorosamente; e a cada rosto que eu olhava, o reflexo d’esta cena, aos gritos soturnos do homem, se evidenciavam.
Em outro instante, fora refletido um animal símil às serpentes, embora com um aspecto corvino, era decerto idêntico à minha máscara; mas vivo. A criatura mítica. Seus olhos eram amarelos e fúlgidos e seu corpo fascinante era esfaqueado por homens de olhos negros, sem esclera. O sibilar, vociferado pela criatura, era o clamor ensurdecedor do mais execrável sofrimento. E repetia-se a cada refletir dos espelhos, o quais cravados nas frontes dos inertes, sangravam cada vez mais; eram como manequins por todo o salão dourado daquele festejo cruel, manequins humanos. E na última cena — pois que após ela eu já não pude mais permanecer consciente — havia um ventre protegendo um feto que foi banhado por um líquido níveo, transfigurado em sangue logo depois, e partes deste embrião se via pelo sangue, rasgado e moído como carne fresca; e o fluído alvo-enrubescido manava de dentro de meu ventre, do meu corpo imerso em águas salinas que se escaldavam em vermelhidão; a água escarlate e ferrosa de um rio... a água que eu bebia... do flúmen carmesim de meu sonho daquela manhã.
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5. Castelo Vampírico: Agora conheço em parte, mas, um dia, conhecerei plenamente
Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário de Rute Fasano
23 de dezembro - Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações, a ansiedade, o medo, a raiva, tristeza, todas elas presas e misturadas na minha mente, borbulhando, e correndo pelas minhas sinapses e causando um estrago no meu psicológico. As únicas coisas que tenho feito esses dias já se tornaram tão rotineiras que nem me dei ao trabalho de escrevê-las diariamente, pois se resumem apenas a acordar, tomar banho, meditar, esperar pacientemente com o ouvido atrás da porta para a boa alma que ainda não conheço e sempre vem deixar o café da manhã, o almoço e o jantar na mesa ao lado da porta do quarto. Nunca vejo essa pessoa, mas ela sempre bate três vezes na porta e sai caminhando a passos lentos e arrastados. Eu só a ouço, porém sempre agradeço com um bilhete escrito à mão. Depois do café da manhã eu escrevo ouvindo música, tem um toca-discos aqui que foi deixado provavelmente por essa pessoa depois do meu primeiro encontro com Drácula.
O som muito específico da agulha passando pelo vinil me faz relaxar, então escrevo até o almoço e depois fico à porta ouvindo, me alimento e coloco o prato e o copo na mesa do lado de fora. Escovo os dentes, releio um pouco do único livro que trouxe. Preciso encontrar uma biblioteca nesse castelo. Volto a escrever até o jantar, volto à porta e escuto, me alimento, faço minhas outras necessidades fisiológicas específicas e tomo banho, escovo os dentes e me preparo para dormir. Me deito e leio até ficar com sono e durmo. Essa rotina é parecida com a que eu tinha fora do castelo, tirando a parte da escrita e adicionando um trabalho repetitivo, fascinante, porém estressante.
Tenho estado tanto tempo presa no quarto que memorizei todo o ambiente, tanto que consigo perceber quando algo diferente aparece no quarto. A grande cama com dossel, com lençóis de linho na cor verde escura, travesseiros com fronhas bordadas à mão, papéis de parede verdes com arabescos numa tonalidade que parece bronze, há uma escrivaninha de castanho-avermelhado bem escuro perto de uma janela, parece algo de muito boa qualidade, diferente dos móveis de madeira suspeita que tenho em casa. Há uma cadeira da mesma cor onde me sento para escrever, um armário com espelho grande ao lado, uma poltrona em frente a uma lareira que nunca precisei usar, pois aqui parece que o clima nunca muda. Um grande tapete persa com detalhes verdes escuros, diferentes tons de marrons e vinho, a textura macia que me faz andar descalça por ele por horas quando estou bloqueada criativamente ou cheias de questões não resolvidas na minha cabeça, gosto da textura dele em meus pés, me acalma.
Uma vez ou outra eu penso em fugir do castelo e voltar para minha vida, mas me vejo obcecada por algo novo, e só quero saber disso, ouvir e falar sobre isso. E Drácula, o castelo e seus hóspedes são minha nova obsessão, eu quero entendê-los, estudá-los, me aprofundar neles, analisá-los minuciosamente até que eu me sinta saciada por esse conhecimento tão fora do comum, tão fora do meu comum lógico e pragmático. Porém, tenho medo, pois sinto que de alguma maneira, aos poucos, Drácula tem tentado ter controle sobre mim, me controlar como uma marionete, será? Eu não consigo pensar sobre o motivo disso, já que estou aqui por vontade própria. Se ele quer que eu escreva para alimentar ele e o castelo, por mim tudo bem, desde que se mantenha longe das minhas veias e artérias.
Fui despertada das minhas viagens dentro da minha mente pelas batidas na porta fora dos horários habituais, fui até a porta e pude ouvir os passos se distanciaram, era a mesma pessoa de sempre, já conheço seus passos. Abri e tinha uma grande caixa baixa, porém larga com um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados, abri o envelope e aqui escrito com uma bela caligrafia, escrito dessa forma:
“Prezada Rute,
É com imensa honra e profundo fascínio que lhe envio esta carta, convidando-a para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. Este é um evento de requinte e mistério, onde o traje formal é obrigatório, e uma máscara é imprescindível.
À meia-noite, será servido um banquete memorável, seguido pelo brinde com nosso especial liquor-carmesim, servido em taças de diamante vestal, para celebrarmos o ápice da Lua Cheia. A música encantadora nos acompanhará até às três da manhã, momento em que solicito gentilmente que nossos estimados hóspedes retornem aos seus aposentos.
Sua presença, sem atrasos, é solicitada para as dezenove horas de amanhã. Esperamos ser agraciados com sua presença sublime neste deslumbrante evento.
Com respeito, Conde Drácula"
Dentro da caixa havia um belo vestido preto, com pequenos bordados dourados no busto parecendo estrelas num céu negro, godê longo, acinturado, gola alta, mangas longas bufantes, o tipo de vestido que eu usaria se eu tivesse o hábito de usar vestido. Junto a ele também havia uma máscara grega trágica negra com uma lágrima dourada do lado direito. Um baile mesmo que pareça um evento social assustador que já me causa certa comichão, é também uma oportunidade de saber mais e ainda, quem sabe, poder me encontrar com outros hóspedes. Tenho que preparar meu psicológico para isso e aproveitar essa oportunidade.
24 de dezembro - Chegou o dia do baile, e eu estaria mentindo se dissesse que estou preparada para ele. Uma vez li que quando você tem medo de uma situação e a faz mesmo assim, isso é coragem, então tenho que ir e acreditar que sou corajosa, pois de que outra forma eu conseguiria saciar essa minha curiosidade, se não fosse enfrentando meus medos?
Me vesti, prendi meus cabelos atrás, deixando algumas tranças soltas, estava ansiosa demais para planejar um penteado mais elaborado. Coloquei minhas botas confortáveis, mesmo que junto à caixa estivessem saltos adequados para a festa, eu não conseguiria usá-los. O vestido longo escondia um pouco dos meus sapatos, além deles serem mais úteis caso eu precisasse correr. Me olhei no espelho e o que vi me agradou. Coloquei a máscara que me obrigou a deixar os óculos de lado, pois não dava para usar os dois. Respirei fundo e saí do quarto, e como sempre eu não sabia o caminho, mas sabia como chegar lá.
No salão de baile, com lustres e candelabros majestosos, todos bem-vestidos, com uma diversidade de máscaras bem decoradas, músicos tocando uma música num volume agradável, pessoas conversando, outras rindo, a maioria dançando, olhei ao redor tentando ver se reconhecia alguém mesmo com máscaras, mas não fui bem-sucedida, fiquei um longo tempo no canto apenas observando. A única pessoa que reconheci pelo jeito de se movimentar foi Drácula. Vestido com requinte, todo de preto, com a camisa de seda de um vermelho vivo brilhante, uma sobrecasaca preta com bordados dourados e o forro escarlate. Ficou um tempo conversando com os convidados e dançou com alguns deles. Olhou em minha direção e era como se soubesse que eu os estava observando, veio andando e eu podia sentir cada passo seu. Respirei fundo e me preparei.
— Permita que eu conduza? — Ele disse estendendo a mão para mim, olhei para ele e concordei com a cabeça sem pensar demais. Dançamos em silêncio por algum tempo, até ele quebrar o silêncio:
— Ah, sim, os bailes de máscaras... uma festa para os vivos, onde escondem suas verdadeiras faces por trás de máscaras elaboradas. Interessante observar como revelam mais de si mesmos do que jamais admitiriam em suas formas mundanas.
Silencio entre nós novamente:
— Entendo suas hesitações, minha cara, seu desejo de às vezes escapar deste lugar que pode parecer uma prisão. Mas saiba que posso oferecer a você e a todos os que aqui estão algo muito mais profundo do que simples entretenimento. Posso saciar a sede insaciável de vocês por inspiração e conhecimento, através de meios que alguns considerariam sombrios. E eu sei que você compreende o preço que deve ser pago por tal conhecimento?
Nada do que ele estava dizendo era mentira, desde que entrei no castelo as ideias fervilham da minha mente, mesmo que às vezes eu não consiga colocá-las no papel, elas estão lá se debatendo para serem criadas e escritas. Essa situação não era nem um pouco agradável para mim, como no nosso último encontro, sua presença tentava impor tranquilidade, mas ele estava tão perto de mim, mais perto do que permito a maioria estar, era desagradável, pois meu corpo lutava contra essa imposição. Não conseguia responder nada a ele, a proximidade me deixava sem palavras, só olhava através dele e percebia seu sorriso pelo canto do olho.
— Ah, minha querida, não se preocupe. Estou aqui apenas para facilitar sua adaptação neste ambiente. Jamais a forçaria em algo que não desejasse. Afinal, você veio ao baile por sua própria vontade. Como um verdadeiro cavalheiro, sempre solicito permissão, mesmo para os atos mais... sombrios, por assim dizer. Embora possam não ser explicitamente revelados. — Ele sorriu ao dizer isso. — Veja, não há necessidade de se sentir obrigada a me acompanhar nesta conversa, se assim não desejar. Simplesmente desfrute da dança, entregue-se ao ritmo e deixe-se levar pela atmosfera deste lugar.
Mesmo que aquele sorriso fosse uma tentativa de me acalmar, seus caninos brancos e protuberantes me causaram arrepios. Quando estou muito ansiosa com um alto nível de adrenalina, não consigo pronunciar nem uma palavra sequer e, então, a única coisa que me foi possível foi concordar com a cabeça. Dançamos, ele me conduzia, e para mim era difícil me deixar conduzir quando eu sempre conduzia na dança, sempre seguia os mesmos passos básicos, não importava a dança. Ele me conduziu de maneira tão suave que era como se eu sempre tivesse dançado nos passos dele.
— Não vá tão precipitadamente, minha cara. Lembre-se de sua inata curiosidade científica. Se partir agora, perderá a oportunidade de compreender tudo isso. Permita-se um momento para acalmar os ânimos. Talvez uma breve caminhada para espairecer, uma conversa amistosa com os demais presentes, desfrutar da comida e da bebida, tentar se integrar socialmente... ou, se preferir, a opção da fuga sempre está disponível. Faça o que julgar melhor para si. — A música havia terminado. — Porém, antes que siga seu caminho, permita-me um gesto de cortesia. — Ele segurou minha mão e depositou um leve beijo sobre ela, fazendo uma reverência. — Devo agora dispensar-lhe minha atenção, pois há outros hóspedes e convidados a quem devo dedicar minha presença. Afinal, há mais danças não solicitadas a serem atendidas. — Com um sorriso sutil, ele se virou e se afastou, entre os demais convidados.
Vi-o andar resoluto por entre os convidados e soltei o ar, era como se eu tivesse prendido minha respiração sem perceber todo o tempo em que estava com ele. Fui aproveitar um pouco do baile antes de fugir para meu quarto, me sentei e comecei a olhar todos em volta, reparando em suas belas máscaras e vestimentas, tudo tão elegante. Os passos ecoados pelo chão de mármore, a música suave que agora tocava enquanto todos dançavam e se divertiam, a decoração e o grande banquete era de encher os olhos, eu estava deslumbrada. Peguei uma taça cristalina com um líquido escarlate que me foi oferecida, aparentemente já era meia-noite e brindaríamos o ápice da lua cheia. Torci para que não fosse sangue ou vinho, eu nunca bebo vinho. Levantei um pouco a máscara para tentar sentir o cheiro que exalava e não parecia nenhum dos dois, virei a taça nos lábios para experimentar e o sabor que sentia de um amargor adocicado, eu podia sentir uma textura aveludada que envolvia minha língua. Tomei coragem e tomei logo um gole, me deleitei com aquela sensação, e aquele gole foi o bastante para me conduzir a outro mundo, tão rápido como um piscar de olhos.
Esse mundo era uma cópia sombria do castelo com cheiro sutil ferroso de sangue fresco com um fundo de rosas. E, para meu pavor, todos os presentes emanavam uma aura pesada e, de alguma forma que não sei explicar, eu sabia que eu era a única humana ali. Eu estava aterrorizada naquele lugar suntuoso, mas tinha que passar a impressão que fazia parte daquilo, tudo era como no castelo original, só que mais sombrio, mais pesado e frio. Andei entre eles e encontrei todos os hóspedes do castelo que eu já conhecia de vista e, junto a eles, outros que eu ainda não havia visto.
De alguma forma, dentro de mim, eu sabia que todos eram vampiros ou qualquer outra criatura sobrenatural que eu não conseguia identificar, todos com máscaras que cobriam apenas os olhos, todos bem-vestidos, conversando e entre si. Então eu vi uma mulher de olhos amarelos como de um gato, cabelos negros longos e volumosos, pele lisa de um marrom translúcido brilhoso e sobrenatural que permitia que eu visse suas veias esverdeadas em todo seu rosto, busto e braços, com um vestido vermelho decotado, a saia com camadas pretas e vermelhas com rendas douradas em suas bordas e uma fenda que deixava exposto sua coxa esquerda, um corpete preto justo, joias douradas em profusão, envolta em um ar de mistério e sensualidade, tão bela e assustadora como eu jamais seria.
Conversava tranquilamente e se expressando com as mãos e o rosto, parou e olhou para mim, sorrindo com os incisivos e caninos brancos à mostra, lábios grossos com vermelho carmesim, fiquei chocada a ponto de rir daquela situação surreal ao qual eu estava presente, não havia bebido tanto assim para me transportar para o universo espelho tal qual como em jornada nas estrelas, onde eu encontraria minha “gêmea do mal”. Coloquei as mãos no rosto só para me certificar que eu ainda estava de máscara, imagine a minha surpresa quando ela veio em minha direção:
— Já estou tão acostumada com o funcionamento do castelo que encontrar minha doppelgänger não me surpreende. É difícil se esconder de você mesmo por trás de uma máscara, quando se conhece tão bem. Não preciso me preocupar em ser apunhalada ou ter que te apunhalar, espero?
Era como olhar um espelho onde eu via uma versão inverossímil, porém atraente de mim mesma, tão assustadoramente imponente, terrivelmente bela que me despertou uma vontade incontrolável de interrogá-la para saber mais sobre ela. Eu tinha tantas perguntas, e também com quem mais eu poderia encontrar as respostas que eu precisava senão comigo mesma?
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O Poeta das Mil Noites
Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela, minha mãe era filha de um cavaleiro nobre que morreu na cruzada de reconquista. Estas poucas noções é tudo que sei da minha origem. Meu pai não sei quem foi, mas tenho feições mouriscas, por isso já levantei muitas suspeitas sobre quem sou, algumas um pouco assombrosas, talvez.
Quase não tenho lembranças de minha mãe e de onde eu nasci, também não sei descrever o lugar, fui levado de lá muito cedo, ainda criança e por isso tenho dificuldades com a língua castelhana. Fui tirado dos braços de minha mãe pelos invasores em uma noite sangrenta, raptado e levado para Córdoba, vendido como escravo para uma família de mercadores aristocratas do califado. Aprendi outros costumes e outras línguas, maneiras as quais eu não era familiarizado, mas hoje é como se tivesse sempre vivido entre os maometanos.
Quando cresci e comecei aprender as línguas estrangeiras, tive facilidade com o modo de falar dos mercadores que chegavam de toda parte do mundo. Talvez por isso me deram uma ótima educação, apesar da minha condição de prisioneiro, era de grande valor o servo que pudesse facilitar as comunicações com os negociantes, até boas vestes me foram concedidas.
Tive aulas com os melhores mestres andaluzes, com o tempo notaram minha vocação para o letramento, me ensinaram gramática, religião, história e também as artes do canto. Nesta arte encontrei minha primeira e mais duradoura paixão, junto dela também aprendi a correr os dedos pelo alaúde, aprendi a tocar muito bem este instrumento, dominei as cordas e os dedilhados melhor do que qualquer um dos menestréis de Córdoba. Permitiam-me algum tempo para praticar estes dons que eu descobri ainda jovem e sempre pediam que eu alegrasse o salão durante o jantar ou as visitas durante as conversas de negócios do meu senhor.
Mas um outro amor que eu encontrei junto com meu dom teve uma passagem mais breve e mais trágica na minha vida. A bela filha de meu senhor, Ester gostava de me ouvir cantar. Fiz bonitas canções para ela e foi exatamente esse o início da ruína deste grande amor. Nos descobriram enquanto eu cantava à noite nos terraços para que ela ouvisse, nunca estive junto dela, mas isso já era algo suspeito demais para manter minhas poucas liberdades. Fui aprisionado, privado de água e comida, e depois de alguns meses vendido para um traficante que me levou para Argel numa tortuosa viagem no porão de um zambuco. Quando cheguei naquele lugar fiquei aliviado de pôr os pés na areia, depois vi tanta areia naquela noite e mal sabia quanta areia ainda veria em toda minha vida.
Tantos anos se passaram em Argel, os anos mais difíceis. Deixei de ser jovem naquele lugar. Não sei quantos anos eu tenho agora, mas talvez tivesse chegado lá com quinze ou por volta disso. Servi o palácio como criado particular de uma das concubinas do Sultão. Uma mulher esguia que tramava inúmeras conspirações e intrigas no palácio. Notei como ela influenciava com língua de cobra as políticas do sultão e daquela corte. Também descobri um de seus muitos segredos, ela escondia nos seus aposentos livros de magia proibidos, dos antigos Dins, também conversava com estes espíritos no deserto. Na madrugada fria da imensidão de areia, saía de noite por uma passagem secreta e voltava manchada de sangue. Certa vez ela me trouxe um alaúde, disse que os Dins mandaram que ela comprasse um bom instrumento no bazar e desse para um de seus escravos. Por coincidência ela me escolheu, mesmo não sabendo que eu dominava aquele instrumento. Talvez este meu segredo tenha sido contado pelos espíritos do deserto que tinham algum tipo de propósito no meu destino. Peguei a concha de madeira bem trabalhada em minhas mãos, era o mais belo alaúde que eu pudera colocar os olhos, uma peça de carpintaria finíssima, não sei de quem ela obteve, não era do tipo que vendem os mercadores.
Temi não me lembrar de nenhuma canção, mas assim que o tomei nos braços e empunhei a escala e as cordas, foi como rever um velho amigo que não mudou nada com o passar dos anos, toquei com destreza e exímia habilidade. A feiticeira ficou muito impressionada e me exigiu que eu tocasse para todo seu séquito. Assim fiz durante algumas noites sem saber que, na verdade, aquela mulher tinha me amaldiçoado. Enquanto eu dormia, entrou pela janela um espírito muito antigo e me revelou nos meus sonhos que, quando eu aceitei o presente da minha senhora, firmou-se um contrato com os Dins. Eu empunharia o instrumento como ninguém jamais fez, cantaria tão lindamente como ninguém jamais pôde e criaria as mais belas canções que já foram criadas, no entanto a fama não alcançaria o meu nome, eu teria que provar a cada trova que eu era o grande bardo das noites argelinas, esta porém não era a condição mais cruel, eu só poderia exercer minha arte por mil noites e quando se esgotasse esta conta, nunca mais poderia cantar, pois ficaria mudo e cego até o fim da vida, condenado a vagar sozinho pelo deserto.
Incrível como foram as noites depois deste sonho assombroso, embora tivesse acordado assustado na manhã seguinte, eu não acreditei que aquilo era verdade, mas meu talento ficou muito mais aguçado e foi se desenvolvendo cada vez mais, de um modo que quase atingia a perfeição. Tocava pelas noites de Argel, no palácio e nas casas mais nobres, sempre cercado de boa comida, bajulações e mulheres jovens e bonitas. Tornei-me o maior amante dos prazeres, vivi empenhado em esbaldar das benesses que este dom me proporcionou, me embriaguei nas maiores abundâncias da riquíssima cidade de Argel, quase me esqueci que eu era um escravo.
Então que um novo sonho aconteceu, depois de uma noite das mais festivas e agitadas, um novo espírito entrou pela janela dos meus aposentos e me mostrou uma ampulheta que era o contador das noites que eu usufruí e das que ainda me faltavam. Não sei dizer ao certo o número que ainda restava, mas a areia já tinha escorrido a maior parte para o bulbo do vidro de baixo. Acordei desesperado ainda na madrugada, entrava um vento frio pela janela por onde eu via as estrelas e as dunas do deserto. Tive uma nova epifania acordado, pensei em toda a minha vida, na minha mãe e em Ester. Onde poderiam estar? Chorei pela primeira vez desde que eu era criança, pedi que algum espírito ou qualquer força maior me escutasse, pedi que quando minha maldição se concretizasse, eu vagando cego e mudo pelo deserto ainda pudesse ver com clareza as figuras de minha mãe e de Ester.
Decidi fugir daquela cidade, decidi ir embora de Argel. Arrumei algumas poucas coisas, água e tâmaras, embrulhei meu alaúde e segui pela passagem secreta que levava fora dos muros da cidade entre o mar e o deserto. Cheguei na praia e continuei para o leste sem saber o que esperar ou o que eu poderia encontrar, andando entre as quatro maiores imensidões que existem, a imensidão arenosa do deserto à minha direita, a imensidão salgada do mar à minha esquerda, a imensidão brilhante das estrelas no céu e, por último, a imensidão da alma dentro de mim.
Andei por tanto tempo, não sei estimar, mas algo estranho acontecia, aquela noite parecia eterna, como se passasse muito mais de doze horas e o dia não dava sequer sinais de alvorecer. Andei pela areia até Argel sumir à distância atrás de mim. Eu estava só caminhando sem ter um rumo ao certo, consumi todas as tâmaras e toda a água, tive certeza de que caminhei por muitos dias embora a noite jamais deixasse o céu.
Quando já estava exausto, sentindo a falta de água e de comida, minha mente turva sem saber se minha atitude foi sensata, avistei uma luz ao longe. Caminhei até me aproximar, quando chegava perto reconheci a forma de uma ampulheta espectral, uma névoa brilhante pendente no ar, parecia ser feita de estrelas. Tive vontade de tocá-la, estendi a mão e quando o fiz, um raio de luz me ofuscou num instante e percebi que estava em um lugar diferente. Eu pisava sobre um gramado, rodeado de jardins verdejantes e diante de mim havia um suntuoso castelo europeu. No ambiente pairava um murmúrio alegre e notei que chegavam convidados para uma festa, todos trajados com muita elegância e usavam máscaras cravejadas de brilhante, entendi que haveria um baile e me animei em participar.
Um cavalheiro vinha em minha direção, não o percebi chegar, tinha cabelos na altura do pescoço, bigode fino e cavanhaque pontudo, conversou comigo durante alguns minutos, tinha gestos delicados e uma postura muito gentil. Acho que ele é o dono deste lugar, um conde talvez. Por certo é muito rico e me passa ares de ser muito culto. Ele notou meu estado decadente e mandou que trouxessem um copo de água para matar minha sede. Aquela água estava deliciosa, parecia um elixir revigorante. No instante seguinte já pensava eu: “Que mal tem um pequeno grãozinho de areia a menos na parte de cima da minha ampulheta?”.
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O Baile Sombrio
Bailes são sempre bailes. Misteriosos, longos, satisfatórios e saudosos. Ser convidada para um baile é sentir o primor de ser considerada uma…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Bailes são sempre bailes. Misteriosos, longos, satisfatórios e saudosos. Ser convidada para um baile é sentir o primor de ser considerada uma verdadeira dama — importante para a sociedade, embora eu não tenha cavalheiro algum para acompanhar-me.
Olho-me no espelho e estou impecável para um baile. Meu vestido em tom violáceo representa a minha candura. Me falta apenas a máscara, a tão importante máscara. Mas dirijo-me tão logo ao Castelo Drácula, recinto do grandioso evento, onde avisto pessoas chegando e se aproximando. Há um homem esguio e comprido, como se fosse uma figura misteriosa. Paro os meus passos para contemplar a sua face, escondida em uma máscara levemente sombria, que cobre todo o seu rosto. Não se sabe se ele sorri ou se chora dentro daquele molde. Ainda assim, me aproximo e percebo que ele comercializa lindas máscaras acompanhadas de joias preciosas. Isso toma a minha curiosidade de tamanha forma que eu faço a minha escolha.
Uma das máscaras chama a minha atenção de maneira impressionante. Nela há um brilho especial ao redor da parte dos olhos. O brilho é lilás, quase da cor das vestes que me cobrem. O homem das máscaras impulsiona a pô-la em meu rosto. As suas mãos aproximando quase insistentemente a máscara da minha face me faz colocá-la em mim. Mais um pouco e seriam as suas enormes mãos a fazerem isso. A máscara vem acompanhada de uma joia, mas a deixo na bancada do seu quiosque, os meus dedos já estavam fartos de brilho.
Ao colocar a máscara, começo a me sentir estranha, com uma sensação de vertigem e desconforto. Não vejo outras pessoas se sentirem assim, apenas eu. Então, decido tirá-la, mas não consigo fazer isso, a máscara não sai dos meus olhos. Apenas os meus lábios podem ser vistos. Desisto de lutar contra e resolvo permanecer com ela sem pedir ajuda ao homem. Ele me olha como se soubesse o motivo daquela faixa brilhosa com dois orifícios grudarem em minha pele da face. Ele também sorri, sinuoso, sarcástico. Ignoro tal ato e entro no castelo; não poderia perder um minuto de baile por causa de loucos mascates.
Entrando no recinto, percebo que está tudo muito lindo, ornamentado em um trio de cores espetacular: preto, vermelho e dourado. A música é melodiosa, valsante, e as bebidas têm uma coloração intrigante em tons sempre escuros. Sento-me à uma mesa num canto discreto. Estou sozinha e não gostaria de ser notada tão facilmente, mas, ainda assim, sinto o aproximar de uma figura masculina, gentil, máscula e imponente. Respiro fundo, parecia admirável. Essa figura me estende a mão, nada me diz. E eu sei que é para uma dança, eu sei. Penso por uns instantes, ele está mascarado, é óbvio, a sua luva alvacenta e muito limpa me convence de que devo aceitar a sua dança.
Levanto-me, educadamente, e a minha face se curva ao cavalheiro. Mas o salão está levemente escuro, luzes baixas, e a música alcança uma frequência soturna demais para mim. De repente, os meus ouvidos captam um som doído e tento me afastar, mas o cavalheiro não permite. Não bastara a máscara que não sai da face minha, agora sou obrigada a ficar de mãos dadas e corpo colado a um homem que eu nem consigo ver a face, pois tal se cobre com um molde esdrúxulo e que parece também ter grudado em sua face, a qual não existe. Onde eu estava com a cabeça para aceitar dançar com ele? Era impossível ver o que havia de estranho com tanta delicadeza desse senhor cavalheiro. Mas me arrependo. Estou presa a esta dança como quem sente tortura até a hora da morte.
Depois de ficar presa ao corpo dançante do jovem homem, decido que quero abandonar a dança, mas ele me dá a condição de que se isso eu fizer, é certo eu aguardar algo negativo acontecer. Não me importo, e ao me afastar do seu corpo, ele desaparece, quase imediatamente. Se ele não tem face, como saberei onde ele vai?
Me perco nos pensamentos e já me sinto tonta, quando algum maitre parece perceber a minha fraqueza e me oferece um néctar rubro. Não penso, aceito e no mesmo instante parece que todo o baile se acaba, cessa e não estou mais lá no castelo. Deparo-me com outro ambiente similar, como se fosse um espelho de todo o baile. A tal máscara ainda está em meu rosto, o sabor do líquido rubro ainda desce garganta abaixo e não há nem mesmo o tal cavalheiro valsante sem face para me ajudar. As mesmas pessoas do baile estão presentes, mas todas sem cor, nem graça, nem rosto... como eu voltarei? Como?
Lembro-me de que não poderia parar de dançar. Se eu valsasse até o fim do baile talvez eu ainda estivesse lá e não viria para este recinto fúnebre, obscuro, demoníaco. As pessoas me olham e sorriem irônicas, sarcásticas e o som das suas risadas são como surras em meus ouvidos. Logo, as risadas transformam-se em gargalhadas colossais e, para completar o meu reflexo parece se fundir a um espelho negro e sorri para mim, desfigurado. Outrora chora e faz caretas perturbadoras e chacoteia de mim.
A minha lágrima desce, dolorida, dolorosa, e os seres fingem dó e compaixão, ironicamente, de maneira sarcástica. Me distraio com a face baixa, encarando o piso reluzente do salão, embora ele esteja coberto por um carpete em tons rubros e dourados. Nesse momento, ao levantar a minha face, não há mais ninguém e noto que estou de volta ao salão anterior, no castelo Drácula, sobretudo, vazio, escuro e já se aproxima das três horas da manhã.
Sozinha, mascarada, sem luz. Lembro-me da placa que li ao adentrar o castelo, que dizia que o baile seria encerrado às três da madrugada e todos deveriam se retirar e voltar para os seus lares ou aposentos. O que me resta é sair do recinto e tentar retornar para casa. Mas o silêncio é gritante e o som dos ponteiros de um relógio arcaico são ensurdecedores. Não obedeço. Fico ali olhando fixamente para o relógio do grande salão até passar da hora exata, como afronta. Não importa o que me aconteça. Continuo, e agora, três horas e um minuto, sinto a necessidade de seguir a luz da lua fúlvida que lumia a saída do salão.
Os meus olhos se deparam com aquele homem das máscaras caído ao chão e a face ensanguentada. A cena é terrível. O homem sem face também aparece e o toca no rosto coberto pelas líquidas hemácias. Eu não me sinto pronta para ver isso e quando penso em ir embora e sair daquele jardim afora, o mesmo maitre que me serviu a bebida rubra parece cercar o meu caminho para que eu não passasse, mas o venço e me retiro dali, junto à máscara, que arranco da face sem pensar mais. Respiro fundo, ofegante e aquele castelo parece ser engolido pela terra, restando apenas eu na estrada de volta para a minha casa.
Não contarei a ninguém. Não ousaria. Ninguém acreditará. Mas foi o baile mais assombroso cujo qual participei. Se eu voltaria ali? Contarei as horas para o próximo evento, que acontece de sete em sete anos.
Sete anos depois, sorrio sinistra para o terreno baldio, onde um dia aconteceu o grande evento e coloco uma placa cravada naquela terra, escrito “Preparem-se para o grande baile do Castelo Drácula”.
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Baile das Sombras
Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui, me comprova ser totalmente compreensível uma abertura dessas para o mundo-outro, o outro-mundo… whatever…
Jamais sabemos o que pode estar nos esperando ao dobrarmos num corredor, ao abrir uma porta… De uma hora para outra, podemos cair num buraco do qual nem tivéramos notícias antes, ou então sermos puxados para algum recanto que também mal imaginávamos poder existir… Isso tudo tenho dado como possível de acontecer desde os últimos acontecimentos…
Finalizei minhas mais recentes anotações ao me deparar com batidas na minha porta… No quarto em que estava (concentrando-me em colocar no papel minhas impressões advindas dos fenômenos ocorridos nesse lugar), só podia pensar ser algum coabitante, outra presença, talvez, decidida a estabelecer contato e, quem sabe, me convidando para alguma conversa — coisa dificilmente vista no ambiente, devo ressaltar, longe de parecer desejada pelos presentes, ainda arredios pela recente chegada…
Aconteceu que não havia ninguém… vivalma alguma, no limiar de meu quarto, para me dizer o que quer fosse. O que eu entrevi ao olhar para os dois lados do corredor foi somente uma carta, quase sob os meus pés, mas chamativa o suficiente para me fazer pensar no porquê da pessoa que a deixara ali não ficar para me entregar em mãos… Situação no mínimo enigmática.
E qual não foi minha reação ao ver o remetente da carta: Drácula! Sim, o próprio, era quem aparentemente assinava... Ao menos, era o que eu não podia duvidar, tendo passado por todas aquelas situações vivenciadas até então, com fumaça nos corredores, presenças semifantasmagóricas no local…
Era um convite, me convocando para um baile no salão principal do Castelo; havia até a indicação de roupa formal para o “evento”, a qual eu encontraria, já à disposição, no armário do meu quarto. Ou seja: pensei estar passando por algo planejado antes mesmo de minha chegada! (em algum filme eu devo ter visto isso: convidados chegando inesperadamente, encontrando-se com outros desconhecidos, todos eles sendo, de uma hora para outra, chamados para igual confraternização… O jeito como isso acabava que não lembro de ser sempre boa coisa).
Enfim… me vesti, da maneira que achava mais confortável (pois, de fato, não sendo muito chegado a festejos, gosto no mínimo de me arrumar de modo que me sinta satisfeito dentro de alguma roupa de ocasião), e dei outra olhada naquele cartão deixado no sopé da porta. Li mais uma vez a parte em que dizia estar programado o fim do baile pontualmente às 3h da manhã… Ora! mais essa! Chegando às sete da noite, o desfecho seria nesse horário da madrugada, que, pelo que eu saiba, tem simbologias fortes e dizem ser o momento de maior ocorrência de fenômenos paranormais… Juro que estava empolgado, mas lá, no fundo, temendo algo do desconhecido…
Tudo no mesmo dia, tudo ocorrendo como se eu fizesse parte de algum jogo, fora do meu controle… Minha apreensão era do tamanho da minha curiosidade; ainda que não fossem muito claras as intenções para aquele convite, eu não tinha como não sentir certa “honra”, certa disposição positiva para fazer presença nesse baile que, a meu ver, tinha tudo para ser como eu imaginava: um salão suntuoso, repleto de mesas, lustres enormes, cristais… Mas entre todas essas divagações acerca do que haveria ou não no evento, o que mais me inquietava era saber sobre os outros convidados… Quem estaria lá? Será que outros membros do Castelo? Gente de fora?... Por conta disso, finalizei o trato do meu traje e parti, rumo ao salão principal.
Minha chegada ao salão foi do jeito mais peculiar que podia imaginar. Aproximando-me da majestosa entrada, ela parecia abrir de maneira voluntária, sem força aparente que a manipulasse… E qual não foi minha surpresa ao ver o que acontecia lá dentro: uma centena, quiçá milhares de pessoas (o que se via era uma nuvem de cabeças, de vestimentas e máscaras, impossibilitando meu olhar de enxergar a parede oposta de onde eu estava), a maioria trajada em vestes escuras, de rosto coberto, encarando umas às outras, de maneira que adivinhei casais confabulando entre si, amizades sendo feitas… Em razão do uso solicitado de máscaras, senti-me aliviado, pois, de outro modo, alguém teria certamente visto meu semblante impressionado e, também, assustado diante de toda a pompa…
Enquanto ensaiava uns tímidos passos em direção à mesa mais próxima, onde percebia um recoberto prato de refeições, fui interrompido… Uma mulher, um pouco maior que eu, completamente envolta em sua luxuosa indumentária (tão escura que fazia eu perder a perspectiva de seu corpo, perto de mim), estendia-me uma das mãos… Minha presença ali, que já parecia involuntária, agora estava totalmente ao dispor dos estímulos exteriores; sendo assim, sem demora, tudo o que lembro foi estender meu braço e me deixar guiar por aquela dama — sem saber seu nome, seu rosto, sem um pingo de consciência sobre quem me arrastava agora para o meio do salão…
Vou escrevendo na medida em que me recordo dos últimos acontecimentos no baile; pois, estranhamente, depois de me ver guiado por essa mulher, as imagens que me vêm à memória são de uma completa estranheza (pelo menos, da maneira com que me lembro).
Abrindo espaço entre as pessoas que nos rodeavam — todas de máscara, com taças na mão, misteriosamente encarando-nos dos pés à cabeça, sem esboçar outra reação —, fui percebendo que estava começando a soar uma música, sutilmente chegando de algum canto do salão e ambientando o lugar. Escondendo meu rosto por trás daquela máscara, mas ainda assim receoso de levantar o olhar e me deparar com algo além das minhas capacidades humanas, minha companheira desconhecida subitamente estacou o passo. Arranjando-me uma das minhas mãos ao redor de suas costas, com a outra eu maquinalmente suspendendo uma das mãos dela (recordo neste instante o contato com seus dedos, graciosos e gélidos dedos), nós iniciamos a dança…
Não tendo ideia alguma de onde eu poderia ter aprendido aquilo, simplesmente lembro de conseguir acompanhar minha parceira da noite. Seus leves movimentos de quadril e pernas, no ritmo da música que tocava, eram seguidos dos meus, nada estabanados, todos dando um prosseguimento digno e, diria, primoroso ao ritmo da dança.
A todo momento, quando nossos olhares pareciam se alinhar, eu tentava observar em meio àquela máscara dourada os olhos de minha enigmática companheira. Rapidamente, sempre que isso eu ansiava, ela baixava o olhar, e logo em seguida me envolvia em sua espiralada dança. Também a música, nesses momentos, parecia conspirar contra a minha vontade de adivinhar a identidade de quem me acompanhava, e sucessivos foram os períodos em que uma agitação tomava conta do salão, impossibilitando de vez qualquer iniciativa de estabelecer contato visual ou vocabular com ela…
A noite foi passada assim, literalmente assim… dançando, girando, contemplando os pares que surgiam ao redor de nós e se abraçavam, repetindo os movimentos de nossa dupla… ninguém, absolutamente ninguém eu pude perceber fazer outra coisa que não fosse dançar, rodopiar naquele salão e contribuir com o brilho de sua máscara dourada para o reflexo quase entorpecedor de luzes e mais luzes…
Tenho a absoluta certeza de que, desde o primeiro minuto em que coloquei os pés dentro daquele baile, nada mais fiz a não ser me ver dominado pela decisão daquela estranha e atraente mulher de me guiar para a dança. Levado como fui por suas mãos — aquele toque que ainda agora sinto roçar em meus braços, preenchendo meu corpo com frígida sensação —, somente lembro de ficarmos juntos, perdidos nas horas em que acontecia o evento e sem nos preocuparmos com mais nada. Nem mesmo a comida, que quase eu descobrira ao adentrar no salão, eu pude saber qual era… Cardápio nenhum passou por meus olhos e boca… Absolutamente nada foi o que eu fiz e descobri — além de me ver capaz de empreender alguns passos de dança, bailando junto de alguém cujo nome não tenho ciência, e me deparar sobre a minha cama, nesse meu quarto do Castelo Drácula (que leva o ilustre nome de quem assinava o convite, mas de quem não tenho lembranças de ter avistado durante a noite), após o que parecia soar como um aviso de que havíamos chegado, talvez, às 3 horas da manhã, horário final da festa…
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Sob a luz do lustre dourado
Estimado amigo, hoje escrevo-te pela manhã. Após meu encontro com Maria, obtive certas respostas, creio que ainda permaneço abalada devido as recentes…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Estimado amigo, hoje escrevo-te pela manhã.
Após meu encontro com Maria, obtive certas respostas, creio que ainda permaneço abalada devido as recentes descobertas. Estou sozinha, estimado amigo, nada tenho, mesmo a mais vergonhosa mácula impregnada em meu passado fora extinguida com o disparar das horas e dos anos. Devo contentar-me com esta recém-adquirida nova vida, e transformá-la em uma oportunidade valiosa de encarregar-me de reconstruir minha imagem, afinal não fora isto que desejei toda a vida? Por anos, em momentos de descarrego emocional clamei em desespero por uma forma de aproximar-me da realidade, dos demais ao redor, como parte de um todo, a peça mais valiosa e não mais o borrão disforme vergonhosamente manchando o bonito cenário transcrito no livro da vida.
Lamento minha perda, não compreenda meu anseio pela nova vida como inércia.
Pois bem, após Maria e eu deixarmos o leito em vão em busca do relógio de ametista, unidas deslocamos nossos passos pelo interior do castelo, porém nada encontramos, como se a lembrança do artefato, e do caminho feito por mim ao vosso encontro, fora apenas fruto de minha mente criativa e exaurida.
Um minuto, caro amigo, fora empurrado algo por debaixo de minha porta e não posso ignorar esta ocorrência.
Escrevo-lhe horas após a ocorrido.
Paciente amigo, volto imensamente intrigada com minhas novas circunstâncias; algo fora deixado para mim, um convite de nosso misterioso anfitrião, vou transcrever suas palavras para que o registro deste evento jamais se perca.
Diz a missiva:
Inestimável conviva.
Com honra, e profundo fascínio, venho por meio desta carta convidar-te para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. O trajo deve ser formal, como deves presumir, e tua máscara deve lhe cobrir o rosto ou parte dele. Serviremos um banquete memorável à meia-noite e as extraordinárias taças de diamante vestal receberão nosso liquor-carmesim, o especial da casa, para que brindemos ao ápice da Lua Cheia. A música findará às três da manhã e os estimados hóspedes deverão regressar aos seus leitos neste momento. Solicitamos a presença, sem atrasos, às dezenove horas de amanhã. Que sejamos agraciados com a tua presença sublime neste deslumbrante evento.
Respeitosamente, Conde Drácula.
Interrompo meu relato por agora, pois o tempo é curto, e preciso do auxílio de Maria com os arranjos do baile, até breve.
Benquisto amigo, escrevo-te pela madrugada.
A noite iniciou de forma formidável, Maria e eu permanecemos obstinadas a encontrar uma resposta para o desaparecimento do artefato e a sala onde deveríamos encontrá-lo. Durante nossa reflexão, cuidamos de nos aprontarmos para o baile. Maria pediu-me que cortasse vossos cachos ruivos de mechas esverdeadas, fazendo deles uma nuvem volumosa de bonitos contornos espiralados, disse ela, que o novo corte lhe traria modernidade, uma vez que o ambiente em que nos encontramos era abarrotado o suficiente pelo passado, como um eco seco dos anos passados aprisionados nestas paredes medonhas envelhecidas.
Embora a valentia e a ferocidade façam parte da personalidade de minha nova amiga, a ternura trasborda de vossos olhos, eu a vi no momento em que o sorriso contido tornou-se alongado á medida que os olhos deslizaram por meus trajes, os poucos que ainda me restaram, porém ainda datados. Descobri que Maria é uma exímia colecionadora de artefatos antigos, trajes históricos estão em sua lista de preciosidades. Com tamanha felicidade apresentou-me o traje escolhido para a noite do baile; um belíssimo vestido francês verde-oliva repleto de pompa, com aplicações negras por todo o tecido, aberto e alinhado à cintura, acompanhando de peitilho, mangas e gola, ambos bufantes e rendados, por detrás da sobreposição formava-se uma cauda repleta de excepcionais pregas negras.
Maria explicou-me didaticamente os cuidados que tomava com as peças, e o traje, o qual fora adquirido de segunda mão, era uma raridade histórica de alto valor, e não poderia jamais ser manuseado com descuido. Ao apresentar-me vosso baú de preciosidades mal pude crer em meus olhos, pois junto aos tesouros de minha amiga estava meu vestido de baile, o vestido o qual jamais ostentei, pois logo após sua aquisição fui obrigada a deixar meus pertences para trás. Creio que o destino juntou-me a Maria, esta criatura nobre, querida e obstinada.
Ao sentir o vestido, que ainda permanecia belo e branco quanto me lembrava, e a delicadeza do cetim e da seda, transbordei em lágrimas. O belíssimo vestido de noite decotado, de corpete baixo, manga rendada, saia drapeada e cauda, que presa a cintura, na parte posterior, alongava minha silhueta, sempre fora o meu favorito. Após estarmos satisfeitas com as vestimentas, nos comprometemos a investigar o espaço, e nos encontrarmos no salão de baile.
Embora dolorosamente enfraquecida, cobri-me com minha capa e desci as escadas devagar, cuidadosamente para não encontrar-me com os demais moradores do castelo. Ao aproximar-me do salão ouvi a movimentação e a música que preenchia todo o ambiente. Em frente a porta, duas figuras mascaradas recepcionaram-me com cortesia, eu os cumprimentei receosa e entreguei minha capa, porém o simples movimentar de suas mãos, ao tocarem no tecido e logo após girarem sincronizadamente as maçanetas da grande porta dupla do salão, trouxesse um vento frio e cortante, arrastado através da movimentação das deslumbrantes figuras, também mascaradas, transitando com uma delicadeza mórbida pelo baile, feito marionetes.
Minutos após a minuciosa inspeção, não reencontrei minha amiga, ou qualquer outro rosto familiar, porém, afastado da multidão de bailarinos ardorosos ao som da sinfonia número cinco de Vivaldi, uma figura masculina de bonitos cachos loiros dourados, pele alva, bigodes finos, e olhos de um azul profundo, como os das campânulas soterradas pela neve encontradas por mim certa vez próxima ao poço, se aproximou sorrateiro como uma raposa e estendeu os dedos alongados e espaçados vagarosamente para mim em um convite para uma dança. Com o decorrer da movimentação teatral e exaustiva de nossos corpos projetou-se em minha mente um rosto masculino do passado, um erro o qual por dias venho procurado esquecer.
– Trindade? – Exprimi receosa, correndo os olhos por suas vestes brancas, como as dos oficiais da cavalaria. Contendo o impulso de tocar-lhe a face em busca de reconhecimento, afastei-me abraçada ao meu próprio corpo.
Ao ápice da lua cheia, o homem de meu passado estendeu a mim uma taça de diamante vestal repleta de um liquor-carmesim, exatamente como descrito na missiva de nosso anfitrião.
Contemplando os olhos, que outrora brilhavam em um azul celeste místico, distingui um ponto carmesim crescente o qual tomou a pupila rapidamente, distanciando a figura masculina da familiaridade anterior, deixando a imagem do homem de meu passado para trás, honestamente deixara de se igualar a qualquer ser humano comum.
A lembrança de Trindade, mesmo que por alguns instantes, lembrou-me da dor de retornar a memórias regressas, ultrapassando meu ambicioso desejo de permanecer altiva, e não desejava mais transformar-me, mas sim permanecer autêntica, afinal, minhas memórias e falhas fariam de mim a sobrevivente a qual deveria não mais representar e sim tornar-me.
A figura, agora estranha para mim, novamente estendeu-me a taça, porém, não me atrevi a tocá-la, pois ao recorrer ao instinto de tocá-la ouvi dela um grito agonizante á medida que o liquor ocupava minha atenção.
Sob a luz do lustre dourado e tortuoso de sinuosas curvas semelhantes a garras, permaneci solitária, mesmo meu acompanhante, desapareceu obediente a regra de recolhimento, e desacompanhada segui o clarão da luz pela madrugada, porém, o que testemunhei ao procurar pelo corpo celeste cintilante foi o retorno das memórias de um passado sangrento e lascivo, e pela primeira vez em minha curta vida, senti-me corajosa, nada amedrontada, preparada para enfrentar meus demônios e buscar uma forma de estabelecer minhas forças.
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Fluxo do Óbice
Desde que meu celular descarregou totalmente, me perdi um pouco com a minha escrita, deixei a desejar algumas coisas…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário Não datado – Encontrei uma humana
Desde que meu celular descarregou totalmente, me perdi um pouco com a minha escrita, deixei a desejar algumas coisas. Me encontro numa maré de dúvidas cercada de coisas que me atormentam de algum modo avassalador que me consomem e até a minha fome está em escassez.
Quando Jason e eu fomos destinados a visitar este castelo, não nos foi dito nada além do que nossa vinda e agora que já nos encontramos aqui, sinto que sei ainda menos. Conheci a jovem bela e solitária Astrid, que além de ter vivido em uma outra época, é uma humana que se encontra ainda em vida. O tempo não é mais equivalente desde que me tornei imortal, mas esse encontro com Astrid me deixou em conflito com minhas expectativas pessoais.
Nosso diálogo foi muito curto, mas senti uma conexão com tal, que me fez querer entender um pouco mais o propósito deste castelo. As vozes que antes foram escutadas de muito longe, agora são reais e existem pessoas nesse lugar além do anfitrião. O bálsamo que me atormentara outrora agora sumiu de vez e me sinto sem um sentido a que buscar além de verdades absolutas. Se é que existe alguma.
Vim para este lugar como subordinada com um propósito não específico e o que me restara além de divagações e disparates aleatórios é o Jason e um salão cheio de indivíduos que buscam algum sentido neste percurso.
— Jason, precisamos aprender a nos comunicar por telepatia, vamos nos unir mais do que já somos e vou precisar que haja com mais cautela, estamos entendidos?
— Miau! — Jason confirma com a cabeça.
Dia __
Um outro dia se passou e me recordei do encontro com Astrid, quando fomos à procura do relógio e que não encontramos nada além de mais uma sala vazia neste imenso castelo. Quão arraigada este sórdido acontecimento me aproxima a um pútrido estado de estagnação e frigidez inconsolável.
Caminhei neste quarto sem pensar em palavras que me aproximassem da minha escrita diária. Que me trouxessem alguma inspiração efêmera e me tirar desse abismo em que me encontro. Lembro-me que Astrid tem uma escrita solitária e sinto culpa por vaguear em suas palavras intimamente sem decoro.
Tenho o Jason como um companheiro para toda uma vida.
Somos gélidos, somos siameses em alma, nossas mentes se cruzaram em um destino mortificado de imortalidade, temos o mesmo desejo e na frígida presença em que me encontro, ele tem sido o meu maior consolo.
— Miau!
Jason me trouxe uma mensagem telepática enquanto caminhava do corredor até o nosso leito, na distância eu já percebera que algo novo estava surgindo e ao deparar-me com a missiva em sua boca felina:
Inestimável conviva, com honra, e profundo fascínio, venho por meio desta carta convidar-te para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. O trajo deve ser formal, como deves presumir, e tua máscara deve lhe cobrir o rosto ou parte dele. Serviremos um banquete memorável à meia-noite e as extraordinárias taças de diamante vestal receberão nosso liquor-carmesim, o especial da casa, para que brindemos ao ápice da Lua Cheia. A música findará às três da manhã e os estimados hóspedes deverão regressar aos seus leitos neste momento. Solicitamos a presença, sem atrasos, às dezenove horas de amanhã. Que sejamos agraciados com a tua presença sublime neste deslumbrante evento.
Com respeito, Conde Drácula.
Após a leitura, sinto uma fraqueza pela “falta” que me acomete, e com esta carta sei que respostas serão esclarecidas.
— Jason, precisamos encontrar Astrid, nossa nova companheira e amiga. Temos um baile à nossa espera.
Diário Não datado – Amizade
Sou completamente movida pelos meus sentimentos e Astrid me trouxe algo que já não sentia algum tempo... saudades da minha terra acalorada e onde moram todas as minhas amigas.
Desde que este cadáver ambulante não sente mais as gotas escorrendo pelo rosto de suor, tenho a impressão de que me afasto cada vez mais do que já fui um dia e mesmo inconsolavelmente angustiada, sinto que algumas coisas estão por vir.
Meu encontro com Astrid dessa vez foi mais íntimo e com uma confiança mútua pela minha nova amiga, compartilhei minha coleção preciosa de roupas e artefatos que passei alguns dos meus anos de vida de escritora independente garimpando em sites e brechós. Minha coleção vai além de indumentarias e, ao ver um vestido específico no meu baú, vi os olhos da minha amiga solitária brilharem pela primeira vez.
Aquele rosto jovial e sensível estava radiante, Jason brincava com Astrid enquanto ela cortava meu cabelo, um penteado novo para fazer jus à minha nova personalidade que luto diariamente para aceitar. Nos olhamos no espelho juntas, com nossos trajes, Jason estava usando um fraque vitoriano verde oliva, combinando com meu vestido, e um colar elizabetano preto, combinando com os detalhes do meu vestido, seus olhos me direcionavam amorosos e ele ronronava de felicidade.
Minha amiga Astrid estava belíssima naquele traje que fora feito especificamente para ela, uma jovem mulher com sentimentos tão profundos e que agora poderia compartilhar um pouco de suas dores comigo. Nos olhamos no espelho de maquiagem feita, cabelos no alto e combinamos de nos encontrar no baile.
Baile
— Jason, estamos devidamente trajados para a ocasião, não acha? Sinto que nos falta algo...
— Miau! — Jason confirma e telepaticamente esboça uma máscara em minha mente.
Desde que eu soubera da presença de outras pessoas neste castelo, o eflúvio que discorre neste ambiente tem me deixado deveras questionadora. Enquanto andamos até uma cabana de um homem esguio, os tons da cabana me chamaram atenção, parei para apreciar enquanto Jason procurava uma máscara. Como imaginar que estaríamos em um lugar como este e um evento como tal, podendo enfim usar meus trajes que estavam guardados, que utilizei apenas para algumas fotos com meus livros.
— Miau! — Jason me chama telepaticamente mostrando uma máscara de meio rosto que combina com os tons do meu vestido. Deixando apenas a minha boca a mostra e a dele da mesma forma.
Saímos da cabana do homem estapafúrdio, e decidimos procurar nossa amiga Astrid.
Nesta noite de lua cheia onde os lobos uivavam ao longe, e os sentimentos intensificados nos acendendo uma chama que há muito balança pesadamente no nosso corpo leve, Jason compartilha comigo de sua forma, mas sentimos do mesmo pesar e agora caminhando até o salão onde será servido o liquor-carmesim à meia noite.
Dancei um pouco com meu gato amado, relembrando os nossos momentos rodopiando ao som de The Cure em nosso quarto. Pedi para que ele cumprimentasse os membros que estavam no salão. A interação dela facilitaria ouvir algo que pudesse ser útil para entender nossa presença neste inestimável evento do Anfitrião.
Enquanto ele fazia amizades, eu pude olhar em volta e a ambientação com a decoração que só vemos em filmes e séries prestigiados, me irradiaram em algum momento. Me perdi nos tons de vermelho e dourado, as rosas vermelhas recheadas em diamantes exibidos nas mesas bem ornamentadas. O corredor que cercava alguns encontros de cômodos do castelo, estavam todos com quadros específicos para o baile e neles estavam todos com membros mascarados, alguns poderiam ser criaturas assim como eu e Jason, ou quiçá algo que não faço a menor ideia.
Sou levada pelas luzes dos candelabros e relembro de uma fascinante ópera que presenciei em minha cidade. Na nostalgia que me devaneava em sentimentos conflitantes. Fui tocada por alguém. E com a mão esquerda me convidando para uma dança.
Me senti receosa, pois a aparência de tal me deixava um pouco assustada. Devo ser a vampira mais frustrada existente... Criei coragem no meu âmago e aceitei a instância.
O ser a minha frente estava caracterizado com as cores que já citei anteriormente, combinando completamente com o castelo, como se fosse um membro importante. Enquanto em passos sendo bem guiados pelo salão, uma melodia começara e me lembrava o toque de Elfen Lied.
Não consigo discernir o que qualifica este companheiro, que com maestria me leva pelo salão de forma flutuante, eu não consigo ter totalmente o controle dos meus pés e por mais que eu precise encontrar Astrid, meus sapatos não param de se mexer, acompanhando, rodopiando, curvando e quase rasgando os fios delicados do meu vestido raro. Tento chamar Jason telepaticamente, mas não consigo tirar meus olhos dessa máscara que cobre o rosto por inteiro, consigo apenas enxergar que agora os olhos estão vermelhos e fascinantemente eu consigo desprender uma das mãos.
Ao tentar me desvencilhar por completo, acabei colidindo com um homem, de fraque preto, com detalhes amarelos e não dourados, a máscara cobrindo apenas metade do rosto como a minha. Ao tombar com este homem, meu vestido é fracionado e os tecidos tão delicados, agora estão no chão de mármore do salão.
Minhas veias inflamam no meu rosto, meus pulsos começam a acelerar juntamente com meu coração, meus olhos mudam de cor e agora não tenho mais controle, minhas presas foram direto no pescoço deste infeliz, que agora com a cabeça em uma das mesas com o jarro quebrando ao chão, me alimento firme, minha frigidez indo embora bruscamente, e num salto Jason pula no pulso dele. Alimentamo-nos juntos naquela carcaça que conseguira colocar para fora toda a raiva guardada dentro de mim.
Não consigo enxergar as pessoas à minha volta, só consigo pensar que Astrid não tenha medo de mim, pois não me alimento de mulheres assim como meu clã. E há muito não colocava para fora esse meu lado vampiresco. Só consigo pensar que perder algo importante para mim agora, meu vestido, uma amiga, minhas dúvidas jamais serão sanadas.
Ao terminar minha refeição juntamente com Jason, procuro à minha volta o ser que dançara comigo e não consigo mais avistar. Minha mente lateja junto com o toque relógio para a hora do liquor-carmesim e eu corro em direção ao meu quarto.
Estou cheia.
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Convite
Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o silêncio daquele lugar, causando sutis arrepios, em determinada hora, os passos cessam, pela minha visão periférica enxergo debilmente uma figura, ela traz consigo um castiçal contendo uma vela a qual projeta, sob o piso de pedra, dançantes sombras; ao virar, me deparo com uma figura trajando um manto sombrio e, após um comprimento formal, a figura estende uma das mãos, revelando um envelope rubro, se esvaindo na escuridão, deixando-me sozinha novamente.
Abro o envelope com cautela, meus olhos quase saltam da órbita. Escrito em letras douradas, no papel de mesmo tom rubro, um convite para um exuberante baile de máscaras; tal ideia me encanta, pois, sonho com este momento desde criança, leio com atenção as instruções, assim como a localização dos meus aposentos, bem como meus trajes.
Eufórica, imaginei-me rodopiando com algum deslumbrante vestido, animada, guardei o convite na jaqueta, respiro profundamente, e ele ainda está lá, o livro clama por mim, creio que terei tempo de vê-lo, mesmo que rapidamente. Volto-me para o livro, deslizo suavemente meus dedos sob a repugnante superfície daquele puído e grandioso exemplar, deixando resíduos debaixo das minhas unhas. Havia um símbolo em sua capa, vejam bem, apesar de nova, sou bastante curiosa em relação ao oculto, consumi alguns livros sobre o assunto, mas esse símbolo me causa certa estranheza, nunca vi nada igual, e se encontra severamente devorado pelo infindável tempo.
Ao abri-ló me deparo com uma série de funestos símbolos e fragmentos de textos, escritos em uma língua desconhecida, tão antiga quanto a existência. O odor ferruginoso salta no ar, fazendo-me salivar, meu colo pulsa fortemente, deixo escapar de meus lábios uma leve excitação, “preciso me controlar” digo a mim mesma, fecho o livro, e vou em direção aos meus aposentos, pois tenho um baile a ir.
Conforme eu caminhava, ouvia conversas e sussurros, alguém caminhava com graça sob saltos altos, escuto um ansioso respirar, notei algumas fragrâncias como sândalo, outras mais cítricas, cheguei até meu quarto e abri a porta. Meu coração, então, disparou, acima dos lençóis perfeitamente arrumados, encontrava-se meus trajes. Sem dúvida o anfitrião me conhecia, era um estupendo vestido longo renascentista, todo trabalhado no cetim roxo, adornos em rendas pretas abrilhantaram ainda mais a peça, por fim, uma encantadora máscara, feita inteiramente com rendas douradas e roxas.
Devidamente vestida, me dirigi com rapidez para o salão principal, meu colo batia descompassado, segui com mãos gélidas. Após atravessar um extenso corredor, me deparo com o salão principal, repleto de rostos desconhecidos, homens e mulheres trajando a mais pura elegância, todos exuberantes, tudo era maravilhoso, as máscaras deixavam tudo ainda mais misterioso.
Um quarteto de cordas tocava alegremente as quatro estações de Vivaldi, os acordes tocados eram um convite para bailar, meus olhos ainda contemplavam aquele belíssimo baile. Pouco a pouco os outros hospedes ocupam o enorme salão, meus olhos encontram uma estranha figura, ela se aproxima com leveza, muito cordial me oferece uma bebida em tom carmim, retribuo a gentileza, aceitando a taça dourada. Após erguê-la, sorvo de forma voraz, em seguida ele me conduz para o meio do salão, estende a mão direita e gentilmente me convida a dançar, ele trajava vestes negras, sua máscara do mesmo tom das vestes; seus olhos azuis me remetiam à horrenda noite em que experimentei o gosto amargo do sangue.
Após longos rodopios, encontrava-me em outro lugar onde a decadência reinava imponente, assemelhando a um sonho, o castelo estava em ruínas, todos os convidados assemelhavam a horrendas sombras bailando em celebração à depravação, a alegre canção que outrora preenchia o castelo fora substituída por notas fúnebres da sinfonia de Giuseppe Tartini, intitulada Devil’s Trill; a dança se tornou lascívia, com movimentos rápidos, meu estranhamento foi notado pelas criaturas, era possível ouvir sussurros maldosos através das sombrias máscaras. Soltei a mão do meu acompanhante e questionei o que estava acontecendo, mas ele gargalhou, senti o escárnio vindo dele.
Aproximou-se de mim e disse: “Você não pode fugir disto, é o seu destino! Entregue-se à escuridão”. Amedrontada, empurrei-o e tentei respirar, em vão, por mais medonho que fosse, ele tinha razão, pertenço à escuridão.
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Diário de Anto Stefan Miahi
15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e…
Imagem criada pelo autor, com CanvaIA
Diário de Anto Stefan Miahi
(Notas em meu caderno)
15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e pensamentos, e eventuais alegrias nessas páginas. Já não sei quantos escrevi, em meu escritório devo ter uns quantos armazenados na velha estante no lado esquerdo da mesa de trabalho, junto com meus livros queridos.
Já faz algum tempo que me correspondo com uma personalidade do meio leste da Europa, devo ter em minha maleta neste momento umas três cartas e pelo menos dez telegramas. Segundo as correspondências temos afinidades intelectuais. Algo poderoso em cada uma delas me compelia a responder, uma sensação indescritível, mas aqui tentarei traduzi-las. Devo dizer que o que senti era provocante, uma emoção que me deixa ainda agora agitado, ansioso, como se ali houvesse um feitiço e a cada palavra… Não! A cada onda das letras, elas estavam me atraindo, conduzindo minha existência, e por fim, a guiar minhas mãos para responder tão rápido quanto me fosse possível. Senti como um apaixonado respondendo a amante, numa carta secreta, contando segredos obscuros. Por vezes como uma inocente criança confessando à mãe seus feitos do dia com total inocência e despretensão.
Inegável que ao terminar, o ar que saía dos meus pulmões era como se estivesse libertando minha alma de dentro de um cativeiro do qual naqueles momentos não tinha como sair, e que a chave para tal era colocar o ponto final naquela folha, branca e inocente.
Após alguns minutos. - Após uns quantos chacoalhões da carroça e algumas tantas maldições proferidas, assim como insultos ao cocheiro e seu amigo, pude retomar os pensamentos aqui nessas páginas.
Para uma pessoa como eu; que sou dado às letras, ao pensamento, aos livros; me ver às voltas com uma baioneta em mãos, preparando o mosquete, e ouvindo o estrondoso som das explosões e o zunido dos projéteis voando por sobre a cabeça, realmente foi inesperado para assombroso. Uma completa mudança de ares.
Isto já se converteu em rotina realmente, estar com o lápis em uma mão e um caderno na outra, ainda mais após meu regresso daquele infame conflito entre os poderosos, Bonaparte e Frederico.
O cheiro da pólvora, das cinzas e do sangue ainda atormentam meu nariz e, os gritos, a minha memória. Campos verdes agora desfigurados, marcados e banhados com sangue de homens valentes e covardes, astutos e ignorantes, de amigos quanto de inimigos.
Faz um pouco mais de 3 dias que me encontro dentro desta repugnante carroça, e ainda me faltam um dia e umas quantas horas para chegar ao meu destino.
Escutando o condutor, um homem velho e rechonchudo, com uma barba malfeita, com uma semicalvície que ele oculta com um chapéu velho e sujo. O que lhe falta de altura compensa com o falatório. Enquanto seu amigo, que vai sentado ao seu lado direito, é alto, esguio, tão quieto que parece morto. Seus olhos cansados, e a cara de quem não quer nada com nada, não fazem jus a sua força física jovial, lançou as malas que eu levava com apenas uma mão para o alto da carruagem, e para o cúmulo repetiu a façanha com as de uma jovem senhorita com seu irmão e cuidadora que me acompanharia nessa viagem.
Pelo que pude notar a conversa de ambos não passava de, - “Adrian” - esse parecia ser o nome do homem alto e silencioso e do cocheiro pelo que percebia era Loui. - “Clarice não me deixou quieto, só por causa que me encontrei com os rapazes da estalagem para beber…” após isso me dei conta do quão desinteressante eles eram.
16 de junho de 1871 - Ontem à noite comecei a escrever e, ao relatar os fatos, terminei por cair em devaneios sobre o cocheiro e seu amigo, mas devo dar alguns pontos importantes a estes meus relatos. Acho que o cansaço e a monotonia da paisagem me levaram aos braços de Morpheus.
Retomo então para as minhas ideias originais.
Há um pouco mais, ou menos, não tenho certeza, de um mês, recebi minha última carta dele, dando as indicações e detalhes para minha viagem até sua terra. Com tantos preparativos para essa jornada, ainda mais depois de regressar da guerra, e mal ter pisado em Paris, já me aventurar novamente, tira o fôlego de qualquer um. Acabei não fazendo um registro justo e detalhado deste fato crucial nos dias anteriores.
Seu remetente era de uma parte de um país esquecido pelas divindades. Romênia. Um lugar cheio de uma mística, de umas quantas lendas, verdadeiro centro de contos. A história da região contada pelos ciganos é realmente impressionante se fosse crer em tudo o que dizem.
Devo acrescentar que é um texto elegante aquele que encontrei naquelas duas páginas, além de uma caligrafia impecável, da parte de um tal Conde Drácula. Suponho ser uma pessoa realmente culta, douta, pois em sua carta não notei um erro de sintaxe ou de modismo populares, pois sendo romeno, escreveu com exímia clareza, em um francês belíssimo. Isso me encantou, mesmo que minha área de entendimento fosse a História, os fatos, os heróis, aquelas palavras me cativaram de uma forma que apenas meus escritores favoritos poderiam.
Um convite para uma visita para explorar a história local, e acessar livros, ter contato com documentos exclusivos, e segundo o que dizia na carta, ter contato com um outro estudioso da história e da sociedade.
Paris estava um caos, e eu, só queria uma boa desculpa para pegar minhas coisas e sair daquela cidade infernal. Essa é uma oportunidade que não posso me negar. Corri para organizar minha partida.
18 de junho de 1871 - Cheguei hoje no meio da tarde, por volta das 15h, à região de Bram e há coisas que devo realmente relatar do dia de hoje nestas páginas.
A vista era montanhosa, com pequenas cidades sombrias e tristes, nos tons de cinza, marrom e branco, óbvio que aqui faz um frio de doer os ossos. O clima frio e severo do lugar não é convidativo, mesmo nosso cocheiro falante rendeu-se ao silêncio no trecho final da corrida. Todos tentavam manter a cabeça calma, e o corpo quente, por sorte a companhia de dentro da carruagem não era de todo ruim. A jovem, com sua dama e o acompanhante tinham consigo um pouco de vinho de Lyon.
Um breve comentário sobre os que estavam dentro da carruagem, a jovem, com olhos azuis, tinha cabelos negros bem amarrados numa trança perfeitamente trançada, o rosto denunciava sua pouca idade, passava muito tempo observando o exterior; enquanto aos que a acompanhavam: era uma senhora magra com rosto severo, loira, com cabelo abaixo dos ombros, de olhos verdes, tinha um crucifixo grande de madeira em seu pescoço, onde ela por várias vezes o buscou, como quem deseja receber conforto; enquanto ao cavalheiro, um tanto jovial, mas já passava dos trinta anos, suas roupas bastante elegantes, bem cuidadas, pele branca, com um bigode bem tratado adornado por bochechas rosadas, obviamente pelo frio e pelo vinho, o que deixa ele com aspecto ainda mais bonachão.
Nos primeiros dias pude conversar melhor com o cavalheiro, apesar de suas roupas, era uma pessoa simples e sociável, já a sua companheira por outro lado beirava o fanatismo quase igual aos jacobinos, por vezes intragável. Quanto a jovem, bem, tratava das coisas de seu tempo.
Eu, o sargento Anto Stefan Miahi, um historiador e militar, agora estou no meio das montanhas da Romênia, na intenção de mudar meu próprio rumo de vida. Longe de casa e outra vez com a promessa de ser reconhecido. Devo ter inalado muita fumaça de canhão.
Assim que cheguei a Bram, tive a infeliz surpresa de que teria que trocar de carruagem. Acabei numa conversa assombrosa com os condutores.
— Mas senhores, segundo minhas fontes, estamos a menos de duas horas de alcançar nosso objetivo. — Supliquei aos dois cavalheiros sentados no coche quase se abraçando para manter os corpos quentes, seus rostos estavam quase vitrificados de tanto frio.
— Senhor, sinto dizer que nem Jesus nos fará subir o caminho proposto. — Falou Adrian com uma voz trêmula, parecia um baritono, abraçando a si mesmo, com as mãos dentro do casaco negro que vestia.
— Sinto dizer que nem por minha mãe vou por este caminho, o senhor não viu enquanto vínhamos para esta cidade perdida de Deus? — A pergunta de Loui com uma voz rouca de quem bebia e fumava sem qualquer controle, mas me fez lembrar de algumas coisas. Todos com que cruzamos na estrada fazia o comumente sinal da cruz. Em seus rostos havia apenas uma expressão de angústia e desdém.
A conversa não avançou além deste ponto, e assim terminei no meio de um povoado estranho, que me olhava à distância como se eu tivesse alguma praga, ou estivesse acompanhado do próprio demônio.
Não demorou para que um velho senhor viesse pela estrada, arrastando seu corpo cansado, com um rosto de poucos amigos.
— O senhor vai para o castelo? — Perguntou avançando lentamente, sem olhar para qualquer lado. Ele para a minha frente, ele apenas move os olhos na minha direção, sinto que aquele olhar vai além de me ver.
— Sim, sim, eu vou! — Tentei simular meu melhor sorriso, mas algo no meu interior dizia que seria um esforço inútil.
Ele voltou a olhar para frente, baixou a cabeça, cuspiu no chão em frente aos meus pés, o que me fez dar um passo e meio para trás, mas antes mesmo que eu pudesse dizer ou fazer em resposta aquilo, o senhor se virou para mim, e logo estendeu os braços e agarrou minha mão direita. Naquele ato ele me entregou um colar de tira de couro com uma cruz de madeira rústica. Ele recolhe os braços para junto do corpo, rapidamente com sua mão esquerda ele tira seu gorro azul, e faz o mesmo sinal que vi na estrada quilômetros atrás.
De Anto Stefan, 18 de junho de 1871
Boa noite, meu estimado amigo, Maurice!
Como tem passado?
Já faz alguns dias que parti e espero que tudo esteja na mais perfeita ordem na nossa amada Université de Paris.
Agora são 22h, deste mesmo dia, após me estabelecer melhor pude retornar a este meu diário, pois ainda me sinto incomodado com os eventos até o presente momento.
Após aquela cena rara com aquele senhor na vila, ouvi o som do relincho dos cavalos, além do estalar de um chicote, não muito longe, descendo a estrada que eu deveria tomar.
O senhor deu meia volta nos calcanhares sem que eu notasse e tomou um caminho contrário, quando me dei por mim, apenas vi suas costas ao longe desaparecendo no meio do povoado.
Não demorou muito para que uma carruagem surgisse ao longe. Ela tinha uma pintura preta, e quanto mais perto chegava melhor eu podia ver os detalhes de suas estruturas, como cortinas vermelhas iguais a brasa viva, janelas adornadas com bordas de prata, e quatro cavalos negros maiores dos que eu havia visto na guerra. Pararam ao lado de onde eu estava. O cocheiro tinha seu rosto coberto por um cachecol vermelho escuro que deixava sua respiração passar e condensar o ar, suas roupas eram de couro tingido de preto, e um chapéu de abas largas e um trio de penas adornando. Os olhos dele eram soturnos, frios, parecia que para onde ele fosse olhar poderia congelar.
— O senhor se chama Anto Stefan Miahi? — Uma voz grossa que era abafada pelo cachecol deu para ser ouvida.
Ele nem esperou minha resposta e saltou da carruagem. Um homem alto, o pouco de pele que se podia ver, era branca, tal qual mármore, magro, de braços longos, e um cabelo comprido, de um castanho claro. Agora que ele estava mais perto, deu para ver a cor dos olhos dele, num tom verde e amarelo.
— Sim, sou eu. — Respondi o mais prontamente que me foi possível — Você é o cocheiro que vai me levar até o Castelo, do Conde? — Mesmo para um homem como eu experimentado na guerra, que viu coisas horríveis, aquela presença era intimidante.
Ele apenas assentiu com a cabeça de maneira positiva, e logo foi pegando as duas malas que estavam no chão ao meu lado. Num piscar de olhos ele as colocou no teto e já abria a porta para que eu subisse, sua agilidade fugia claramente do normal.
A viagem foi no mais profundo e mórbido silêncio, a monotonia reinou plena nas horas que se seguiram.
Um tempo depois, ouvi duas pancadas ocas no teto do carro. Abri a janela da porta e coloquei a cabeça um pouco para fora, o suficiente para poder ouvir e ver.
— Mais à frente já podemos ver o castelo, senhor Miahi. — Pude escutar a voz gutural do cocheiro que com sua mão esquerda aponta para frente uma série de pontos brilhantes, ainda distantes, dentro de uma sombra imensa, que tão pronto começou a parecer com uma estrutura, e não demorou muito para delinear a construção em si.
Alguns minutos mais tarde eu estava cruzando um portão de ferro, um portal de pedra, com uma muralha que terminava no que parecia um despenhadeiro gelado. Uma curta passagem que levava à porta principal, num grande pátio, e no seu centro uma velha fonte que agora estava cheia de neve. Mais ao fundo uma outra passagem que levava para o estábulo.
Os cavalos reclamaram quando o cocheiro puxou as rédeas forçando sua parada, ele fez algum som que os animais reconheceram e fizeram silêncio. Aquele homem alto saltou, e quando me dei por mim, ele já havia aberto a porta. Sai tentando absorver todo aquele cenário que beirava o aterrador, sombrio, e belo, com algo de clássico. A arquitetura do lugar era impressionante, mesmo já quase estando todo o ambiente submerso na escuridão.
Quando olhei o horizonte e vi na linha das montanhas o sol lentamente desaparecer, foi que eu ouvi o som das malas tocando o chão e a porta de madeira maciça ranger loucamente, como se gritasse. Nisso uma sombra se projetou dela. No alto de uma escadaria espaçada que conduzia para uma porta de umbrais de madeira grossa, com entalhes que já não podia ver bem, em tom natural, e em cada folha o que pareciam desenhos em baixo relevo.
A porta ficou completamente aberta, a luz dentro era amarela e forte, deixando apenas ali a silhueta de uma pessoa alta, coberta por algo que parecia ser uma capa, e uma voz se projetou. Algo nela me fazia recordar as mesmas sensações que eu sentia ao ler as cartas e telegramas do Conde Drácula.
— Já é noite meu jovem. As noites nessas paragens podem te matar numa única mordida. — Houve uma risada baixa ao final da frase.
— Certo… Claro! — Me apressei em subir as escadas, me esquecendo das maletas perto… bem… não sei em que momento ele havia subido na carruagem, porque quando me dei conta apenas ouvi o relincho dos cavalos, o som do ranger da madeira e um estalo agudo. — Deixe-me pegar as maletas, senhor, e logo vou apertar sua mão.
Por mais atrapalhado que pareça, tentei manter a pose diante de quem quer que fosse que estivesse ali observando no alto da escada com aquela postura imponente e sombria.
Assim que recolhi minhas coisas, já não havia mais luz do sol, neste momento olhei para o céu instintivamente, quando me deparei com aquele mar de estrelas, por um breve momento senti que o chão em meus pés estava desaparecendo e eu caia, foi então que senti em minhas costas um toque suave, gentil, e um rosto estava para se revelar a mim, quando apenas senti que caía num sono prazeroso, um abraço bem-vindo.
Maurice, há algo raro e estranho neste lugar, dentro deste quarto tão suntuoso, mas ao mesmo tempo tão frio, o carmesim das cortinas da janela, o roxo dos cobertores e travesseiros, a pedra cinzenta das paredes e a madeira dos móveis, parecem não vir deste mundo. Mais estranho é que senti essa emoção inquietante desde o momento que passei os portais do muro desde a construção belíssima de tão sombria. Existe um ar que me absorve e me acorrenta aqui.
Bem, já não vou mais importuná-lo nesta carta com estes detalhes anormais, aguarde minhas próximas cartas ou telegramas.
Desde já desejo a você, meu amigo e mentor das artes da história, toda a boa sorte.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…