Menel Lomë II - Uma busca fútil
Menel continuava a procurar, sem nem mesmo saber ou entender aquele mundo. Onde estava? O que era aquilo? Por que ela veio para cá?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Menel continuava a procurar, sem nem mesmo saber ou entender aquele mundo.
Onde estava? O que era aquilo? Por que ela veio para cá?
Essas perguntas remoíam seus pensamentos.
Já caminhava há horas, e não conseguia sair da margem. A areia da praia já começava a incomodar sua pele fina e fria como cinzas.
Foi então que ele avistou uma esperança.
Um rastro dela.
Um sapato parcialmente soterrado pela areia.
Ele correu, esquecendo que estava sem forças, esquecendo onde estava. Só pensava que havia encontrado algo, algo que o levaria até sua alma gêmea. Era a única coisa que importava. Era a única coisa que ele queria.
Pegou o sapato como se fosse a flor mais delicada, e o analisou como se olhasse uma obra de arte.
E, então, Menel não estava mais na praia.
Sua visão escureceu por um segundo — apenas um segundo — e ele se viu em um lugar escuro.
Uma escrivaninha sanguinolenta.
Manchas secas. Manchas frescas. Algo brilhava sobre a madeira escura, algo que ele não queria identificar. O cheiro era metálico, doce, insuportável.
Menel correu para longe, mas não conseguia se afastar. Não conseguia se aproximar. Quando se virava e corria em outra direção, a escrivaninha estava lá, à sua frente. Como se o perseguisse. Como se o chamasse.
O sangue na mesa parecia se mover. Lentamente. Escorrendo para as bordas, pingando no chão com um som úmido e aterrorizante.
— Não... — sussurrou Menel, a voz falhando. — Pare!
Mas o lugar não perguntava o que ele queria.
Então ele piscou novamente.
E voltou à praia.
Suas mãos agora estavam manchadas com o rubro do sangue. Manchas frias, pegajosas, que se espalhavam pelos dedos e sujavam o sapato que ele segurava com tanto cuidado.
Menel não se aguentou.
Caiu de joelhos. O sapato rolou para o lado, parcialmente enterrado na areia molhada, agora também manchado.
Ele olhou para as próprias mãos. Para o sangue que não era dele. Para o horror que aquele mundo lhe trouxera sem aviso.
— O que é isso? — perguntou em voz alta, para ninguém. — O que vocês querem de mim?
O vento respondeu com silêncio.
Ele ficou ali por muito tempo. Ou talvez apenas alguns segundos. O tempo naquele lugar não obedecia às regras que ele conhecia.
Aos poucos, a respiração voltou ao normal. O coração ainda batia forte, mas já não parecia que explodiria. Menel limpou as mãos nas roupas, o sangue saiu, mas a sensação ficou. Uma ardência invisível. Uma memória na pele.
Ele olhou para o horizonte. Para o mar escuro. Para o céu de cor incerta.
Iria buscar sua amada. Iria salvá-la.
Mas será que sobreviveria ao horror que encontraria em cada beco? Em cada visão? Em cada escrivaninha sangrenta que o chamasse?
Menel pegou o sapato novamente. Limpou na areia. Guardou-o junto ao peito como uma promessa.
E continuou caminhando.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Simulacrum
26 de maio de 2097. Tudo começou na década de 20.O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
26 de maio de 2097
Tudo começou na década de 20.
O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim do mundo sutil. Não houve explosões, guerras nucleares ou cadáveres espalhados pelas ruas. Pelo contrário — as pessoas riam, faziam piadas e seguiam vivendo sem perceber para onde estavam indo.
Todos pareciam felizes demais para notar o fim do mundo chegando.
Lembro das histórias dos meus avós sobre algo que chamavam de Internet. Sobre como aqueles pequenos aparelhos em suas mãos arrastavam a humanidade, pouco a pouco, para um abismo confortável de dopamina.
E aquilo se tornou um vício.
Rolavam feeds infinitos no Instagram. Passavam horas no TikTok. Consumiam vídeos rápidos até perderem completamente a noção do tempo. E as grandes companhias perceberam cedo que atenção valia mais do que ouro.
Então começaram a moldar gostos.
Tudo era minuciosamente calculado.
O tempo que vocês passavam olhando um anúncio.
O segundo exato em que sorriam para um vídeo.
A música que fazia vocês pararem para cantar.
O rosto que prendia atenção por tempo demais.
Os celulares observavam tudo. Ouviam tudo. Espionavam tudo.
Cada termo de uso aceito sem leitura.
Cada cookie salvo nos computadores.
Cada clique.
Cada passo.
Cada informação entregue voluntariamente em milhares de sites.
Tudo registrado, analisado e vendido para corporações gigantescas.
Se alguém gostava de filmes de terror, logo era cercado por teorias, jogos, roupas, músicas sombrias e colecionáveis. Não importava se precisava daquilo.
Importava continuar desejando.
Continuar consumindo.
Continuar comprando.
Continuar acreditando que os próprios desejos pertenciam a si mesmos, quando, na verdade, haviam sido plantados ali.
Uma série sobre alienígenas estreava em um streaming. No mês seguinte, refrigerantes, brinquedos e propagandas utilizavam os mesmos personagens. Um filme de super-heróis chegava aos cinemas e, naquela mesma semana, milhares de crianças imploravam aos pais por bonecos produzidos em massa.
Tudo se conectava.
Tudo era publicidade.
Tudo era manipulação.
E o pior é que ninguém se importava.
Porque parecia conforto.
Parecia entretenimento.
Parecia felicidade.
Aos poucos, a humanidade começou a abandonar a realidade para viver no mundo digital.
Não havia mais CDs nas casas.
Nem VHS.
Nem DVDs.
Nem fotografias impressas.
Tudo se tornou digital.
Filmes.
Músicas.
Lembranças.
Relacionamentos.
Personalidades.
Até a própria vida passou a existir atrás de telas.
E então a humanidade começou a desaparecer.
Consumida pelo mesmo capitalismo que prometia conforto enquanto lentamente a levava à decadência. O mundo não acabou em guerra.
Acabou em consumo.
No lugar de cada pessoa surgiu um doppelgänger digital.
Um duplo.
Mais bonito.
Mais engraçado.
Mais interessante.
Mais fácil de amar.
E esses duplos começaram a se relacionar entre si enquanto os humanos reais apodreciam lentamente atrás das telas.
Ninguém mais saía de casa. Comida e suprimentos eram entregues por drones controlados por inteligências artificiais. Toda comunicação acontecia através de celulares, e os relacionamentos deixaram de existir entre pessoas reais.
As pessoas passaram a amar versões editadas umas das outras.
Perfis digitais.
Personagens inventados.
Duplos
É nessa realidade que você vive agora.
Uma realidade onde ninguém mais ama pessoas.
Apenas versões idealizadas delas.
Apenas os duplos digitais que consomem, compram e fingem ser melhores do que realmente são.
E eu?
Eu sou apenas a consequência daquilo que vocês criaram.
Eu sou você, daqui a alguns anos.
Escrevendo uma carta para meu próprio passado, implorando para que alguém me salve desse futuro.
Porque esse futuro…
Não é bonito.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Ela
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de nada da minha vida passada.
Quase nada. Apenas você.
A madrugada é o único tempo em que posso viver, agora que o sol se tornou tão doloroso quanto lembrar de você. Quando os humanos dormem, eu caminho. Quando os humanos sonham, eu caço. O mundo noturno tem leis diferentes para nós. As minhas são: a fome, a sobrevivência, o silêncio. Não me orgulho do que faço. Isso seria humano demais. Mas também não sinto culpa. A culpa morreu junto comigo, na noite em que me morderam e me deixaram sangrando num beco, esquecido por Deus. Agora sou só instinto. Quase só instinto. Porque você ainda está aqui. Não na minha vida, mas dentro de mim. Como um espinho que não posso arrancar. Como uma oração cujas palavras esqueci, mas cuja necessidade de rezar ainda sinto.
Toda noite eu saio. Toda vez que a fome me empurra para as ruas escuras, para os becos onde os vivos não se atrevem a entrar, lá encontro minha refeição. Não escolho minhas vítimas por maldade. Escolho por necessidade. Mas algumas noites… algumas noites o destino me oferece um presente. Foi assim em uma terça-feira qualquer.
Eu te observava de longe, mais uma vez. Como faço todas as noites. Você saiu do cinema mais tarde do que o normal, rindo com sua nova família, o cachecol preto balançando ao vento. Eu estava do outro lado da rua, na sombra de um prédio abandonado, invisível para você, como sempre.
Foi quando eu o vi.
Um homem. Acompanhava de longe. Não um amigo — eu conheço seus amigos, estudei cada rosto que se aproxima de você. Este era diferente. As mãos nos bolsos. O olhar fixo em você. O jeito de caminhar, lento demais, esperando demais.
Eu conheço esse tipo. Antes de me tornar o que sou, eu era apenas um homem. Eu via esses homens nas ruas. Eu sabia o que eles queriam. O que eles planejavam.
Ele esperou você. Esperou você entrar na rua mais escura, a que você insiste em pegar mesmo eu desejando, todas as noites, que você trocasse de caminho.
Ele acelerou o passo.
Eu também.
Não vou descrever o que fiz com ele.
Não porque me arrependo — e não me arrependo. Não porque foi difícil. Foi fácil, tão fácil que quase me assustou. O corpo humano é frágil quando confrontado com algo que não é mais humano.
Vou dizer apenas isto: ele não chegou perto de você.
Eu o peguei três quadras antes da sua casa. Eu o arrastei para um beco que cheirava a urina e morte. Eu olhei nos olhos dele enquanto ele tentava gritar e não conseguia, porque minha mão já estava em seu pescoço.
Ele tinha uma faca no bolso. Eu senti o metal contra minha pele quando o imobilizei. Uma faca. Ele ia usar aquilo em você.
— Você escolheu a mulher errada — eu sussurrei, com os olhos afiados e prazer na alma.
Ele não entendeu. Como poderia? Ele não sabia que você era protegida. Ele não sabia que, todas as noites, uma sombra caminhava atrás de você. Ele não sabia que o monstro das lendas era real e que aquele monstro amava você.
Eu o matei.
Sem culpa. Sem pressa. Com uma precisão que aprendi em décadas de noites solitárias.
Depois, limpei as mãos na parede molhada do beco e fui embora. O corpo ficou lá. Não era a primeira vez que eu deixava um corpo para trás. Não seria a última.
Mas esta noite foi diferente. Esta noite eu não matei por fome.
Matei por você.
Já nem sei quanto tempo passou.
Eu não mudei, não por fora. Mas não posso ter certeza, porque não vejo meu reflexo no espelho. Talvez eu tenha virado outra coisa. Talvez eu tenha virado ninguém.
Você, por outro lado… Você está diferente. Mais velha. Cabelos brancos, a pele enrugada. Ainda imatura de algum jeito, sempre foi assim… Seu jeito de rir, seu jeito de se irritar com coisas pequenas.
Mas ainda tão bonita quanto o dia em que te conheci.
Estou fadado à vida eterna sentindo sua falta. Por isso te observo todas as noites. Te vejo sorrir para outro homem. Te vejo se apaixonar por uma família que não posso ter. Te vejo viver uma vida que deveria ser nossa.
A dor não passa. Apenas se esconde. E volta mais pesada, mais cruel, mais torturante. Meu caixão não é apenas meu conforto. É onde aprisiono o choro e o eco das memórias que nunca terei com você.
A vida eterna não me abençoou. Ela apenas me amaldiçoou com a solidão.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Caellum Noctis, Parte III - Vestígios de Lembrança
— Você… sabe onde estão minhas memórias? — perguntei. Ela juntou as mãos e esfregou o polegar. Hesitante, respondeu: — Sei. — Então me leve até lá!…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
— Você… sabe onde estão minhas memórias? — perguntei.
Ela juntou as mãos e esfregou o polegar. Hesitante, respondeu:
— Sei.
— Então me leve até lá! Me diga o caminho.
Ela entristeceu. Depois de uma longa pausa, suspirou e disse:
— Caellum, eu sinto muito…
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, ela continuou:
— Vá para o castelo. Suas memórias estão lá em algum lugar. Com eles. Você... você as encontrará...
— Mas?
Ela hesitou novamente. O silêncio entre nós se alongou como um corredor sem fim.
— Mas?
— Nada. Deixa pra lá. Você sempre faz isso… — disse, caminhando até a porta.
— Vá. Não perca seu tempo comigo de novo.
E eu fui.
Saí de lá com mais perguntas do que quando entrei.
Caminhei pela estrada de terra por alguns minutos, até começar a avistar o castelo. Era magnífico — uma estrutura gigantesca, com torres por toda parte. Se minhas memórias estivessem lá, seria muito difícil encontrá-las em um lugar tão grande.
Mas, mesmo assim, segui.
O caminho até o castelo era fácil de percorrer. Depois da estrada de terra, encontrei uma bifurcação que me levou a uma estrada de pedra, e então, aos arredores do castelo que exibiam um lindo jardim. E por mais que estivesse com pressa, parei para observar um pouco.
Era lindo. Como se alguém cuidasse dele todos os dias.
Então me adentrei no castelo.
E uma forte dor de cabeça invadiu minha mente. Segurei a cabeça com as mãos, tentando fazer aquela dor parar.
E então me lembrei.
De novo.
Eleine.
Ela estava sorrindo. Tocando meu rosto com afeto.
Esqueci da dor por um segundo.
Quando finalmente parou, consegui lembrar de verdade.
Ela era minha esposa.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Menel Lomë I - O Herói Que Ninguém Pediu
Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
As pessoas que inventamos
Não existem fora de nossa cabeça
Por isso, inventar personalidades
De quem mal conhecemos
Pode ser nossa ruína
Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela escrivaninha. A tinta de sua caneta ainda pingava, e o papel ainda estava úmido. Com o retrato ainda secando.
Era o retrato de uma jovem: pele morena, cabelos enrolados, olhos profundos e vivos. Não se parecia com ninguém, pois era feito com memórias.
O resto do ateliê estava bagunçado; textos e cadernos jogados por toda parte, todos eles contando sobre a mesma mulher, sob a mesma perspectiva. Menel Lomë escrevia para tornar sua amada real, pois jamais teve coragem de dizer o que sentia quando ainda era tempo.
Mas então ela desapareceu. E isso levou Menel à loucura, guiado por um romantismo idealizado e irreal.
Ele a havia visto três vezes.
Na primeira, em uma viagem. Ela estava com um casal de amigos, posando para uma foto que se perderia no tempo, mas ele... ele a guardava na memória.
Ela sorria. O casal atrás, de mãos dadas, posava para a foto. A garota tirou a foto e correu para mostrar aos amigos, e todos pareciam felizes. Mas Menel viu solidão onde havia apenas um momento feliz de uma viagem.
Na segunda vez, foi mais perto. Perto de casa. Perto demais. Ela estava tomando café, lendo o livro preferido dele. Ele se apaixonou ali. Pensou em perguntar sobre o livro, pensou em fazer uma piada, pensou em comentar algo sobre o que ela estava lendo.
Pensou demais.
Ela fechou o livro, levantou-se e foi embora.
A terceira vez foi ontem. Ela caminhava à noite na rua, e ele a viu pela janela do ônibus. Criou coragem, correu para a porta e, quando o ônibus parou, desceu. Correu até ela. Mas ela já não estava mais lá. Ela havia sumido e, onde ela deveria estar, havia um portal mágico e sinistro fechando-se.
Menel, dessa vez, não pensou. Não hesitou. Apenas correu.
Jogou-se para o desconhecido, esperando ser o herói que ela não pediu para resgatá-la.
E então ele sumiu, tudo sumiu.
Menel apareceu caído em outro mundo; o rosto sujo, as mãos raladas, a pele sangrando.
Levantou-se e viu um homem de sorriso largo e pontiagudo que surgia com um manto negro bordado em ouro-bronze. Ele estava ao lado de um menino, a quem segurava pelas mãos; a criança tinha olhos pálidos e roupas singelas.
Menel se levantou e disse:
— Onde ela está?
O homem, em silêncio, apenas sorriu.
— Ela já se foi.
Aquele sorriso fez com que diversos pensamentos — um pior que o outro — passassem pela cabeça de Menel. E o homem voltou a dizer:
— Ela não morreu. Ainda não. Mas as coisas aqui vão mudar em pouco tempo. Cinco atos, cinco tempos. E o sofrimento-carmim vai acontecer.
— Não demore a encontrá-la — continuou o homem. — As coisas vão ficar bem complicadas se você demorar.
Então ele puxou uma joia, um anel muito bem adornado, com uma única pedra carmim reluzindo no centro…
— Aqui. Pegue. Vai te ajudar.
E no momento em que Menel tocou a joia, uma névoa cobriu sua visão, e o gosto de sangue tingiu sua boca. Menel sentiu náuseas, e o cheiro de sangue surgiu em suas narinas.
Um segundo depois, sua visão retornou.
E o homem e a criança já haviam desaparecido
Quando ele voltou à consciência, estava parado no mesmo lugar, mas, agora, sem a figura do homem, conseguia perceber onde realmente estava:
Na areia.
Seus pés, agora descalços, tocavam a areia fina e gelada. Sua mão ainda segurava a joia. Seu olhar se perdeu no horizonte do mar.
Estava perdido.
Mas sabia exatamente o que queria. Quem queria encontrar.
Só não sabia por onde começar.
Então ele caminhou pela praia, procurando-a. Procurando qualquer rastro que ela tivesse deixado.
Mas não encontrou nada.
E então começou a pensar nas consequências de ser inconsequente. Talvez ser o herói de sua alma gêmea fosse mais desafiador do que qualquer coisa que ele tivesse feito até agora.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Caellum Noctis, Parte II - Minhas Memórias
Eu havia entrado no que a Espectumbral chamou de Irihria. E nem nos meus melhores — ou piores — sonhos, eu imaginava algo tão… mágico…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Eu havia entrado no que a Espectumbral chamou de Irihria. E nem nos meus melhores — ou piores — sonhos, eu imaginava algo tão… mágico.
Aos poucos, minha visão se ajustou e comecei a entender onde estava, mesmo que isso fosse irreal. Eu tentei entender, mas acho que enlouqueci, pois nada do que conseguia ver parecia real. O céu era vermelho, o rio era brilhante e o cheiro parecia velho e antigo. Apesar de estar ao ar livre, era como estar preso em uma sala empoeirada demais.
O azulíneo do rio brilhava ou parecia brilhar. A luz iluminava apenas o suficiente para que minha imaginação completasse o resto — formas que se moviam nas bordas da visão, sombras que podiam ser árvores ou coisas observando, esperando o melhor momento para atacar.
Aquele lugar era hostil, eu podia sentir. Mas não era uma hostilidade comum, era como se qualquer coisa pudesse me matar... a qualquer momento..., mas escolhia esperar, escolhia não ter que caçar e apenas esperar para quando eu não pudesse mais fugir.
E então, eu a vi.
Como se sempre tivesse estado ali. Me observando.
— Eleine — sussurrei, esperando que meus olhos e minha mente entrassem em acordo sobre aquilo ser real ou apenas minha mente pregando uma peça.
Não era possível. Não podia ser ela. Era fácil demais.
Mas meu peito não queria saber. Ele acreditava. E isso é o poder que a imaginação tem sobre os homens apaixonados…
Descobri depois o poder daquele azulescer. As plantas que pareciam chorar sangue tinham algum efeito sobre a mente. E eu fui apenas mais uma vítima.
A última coisa de que me recordei, antes de desmaiar, fora seus cabelos: pretos de um lado, uma mecha branca do outro. Ela se ajoelhou perto de mim, e eu pude ouvir sua voz preocupada, perguntando-me se estava tudo bem.
E então…
O vazio.
Quando acordei, estava deitado em uma cama dura. Minha boca tinha gosto amargo, e minha mente continuava nublada, como um quebra-cabeças com peças faltando. Se recuperei alguma memória ao vir para cá, eu a esqueci novamente.
— Vejo que acordou — disse uma voz.
Suave. Melodiosa. Quase sedutora.
— Tive que cuidar de você e te tirar de lá. Aquele lugar é difícil para recém-chegados.
Segui o som da voz, procurando de onde vinha. E então a encontrei.
Ela era diferente da mulher que vi na minha ilusão. Não era Eleine. Eu não conseguia sentir o desejo, o amor, o prazer que me atravessavam quando pensava no que Eleine significava. Aqui, havia apenas curiosidade. E cansaço.
— Quem…? — tentei perguntar.
Queria fazer tantas perguntas: “Onde estou? Quem é você? Onde encontro respostas sobre mim?”. Queria saber tudo, mas não sabia como me expressar. Minha cabeça doía. Minha boca não falava o que eu mandava.
— O remédio ainda vai levar um tempo. — Ela se aproximou, sentando-se numa cadeira ao lado da cama. — Os efeitos colaterais… bom, tudo ainda vai levar algum tempo para melhorar. — Ela colocou a mão em minha testa, sentindo o calor do meu corpo, me examinando.
Ela me observou em silêncio por um momento. Os olhos dela eram estranhos, de uma cor que nunca tinha visto antes, de uma cor que não existia. Mas ali, era tão real quanto qualquer coisa. Se é que alguma dessas coisas eram reais.
— Não sei por que está aqui, estranho — ela continuou, inclinando a cabeça. — Mas talvez tenha seus motivos. Todos têm.
— Quero... quero encontrar minhas memórias...
E eu pude notar sua expressão, ela sabia o que eu estava procurando, ela sabia quem eu estava procurando.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Seu Calor Cruel
O azulescer | transbordou em meu peito | O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou | A voz invisível | Escapa pela cicatriz da minha pele | E meu coração grita…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O azulescer
transbordou em meu peito
O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou
A voz invisível
Escapa pela cicatriz da minha pele
E meu coração grita
Ecoando no vazio da minh’alma
Exigindo o calor
Que pode me matar
O conforto do sol
Em seu abraço
Os dois queimando minha pele
E me matando um pouco, toda vez
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Mente Assombrada
Era mais um dia de brigas. Mais um dia do mundo tentando reconstruir minhas ruínas, sem eu nem mesmo ter pedido. Fazendo com que eu fosse culpado por apenas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era mais um dia de brigas.
Mais um dia do mundo tentando reconstruir minhas ruínas, sem eu nem mesmo ter pedido. Fazendo com que eu fosse culpado por apenas… existir.
Esse mundo podre e corrompido. Escondendo absurdos à vista de todos que fingem não olhar. Esse mundo que destrói sonhos e enterra potencial. Sempre querendo acabar com quem somos, sempre querendo destruir quem é diferente.
Mas eu sou assim.
E não vou mudar para ser aceito.
O ciclo começa como sempre.
Despertador gritando, meu corpo pesado demais para se levantar. Minha mente cansada antes mesmo do dia começar.
E levantar da cama é uma tortura que envolve cálculos para entender se vale a pena. E cada movimento exige uma negociação silenciosa com os fantasmas que me prendem — “só mais cinco minutos”, e depois mais cinco, e mais cinco, até que, por fim, a culpa me levanta.
O banho é uma vitória. Escovar os dentes é mais demorado do que deveria.
E eu não comemoro nenhuma ação. Pode ser difícil para mim, mas para os outros é o mínimo e ninguém comemora o mínimo.
O dia se arrasta como areia no deserto. As pessoas falam alto demais, e eu escuto mais do que gostaria. Sorrio quando preciso sorrir. Respondo o suficiente para não ser notado.
Seria esforço demais ficar com essa máscara, se olhassem muito para mim.
Mas ninguém vê o esforço. Ninguém vê o cansaço nos ossos. As pessoas não me veem.
E eu…
Eu finjo que está tudo bem.
Mas sempre tem alguém para tirar minha paz.
E foi então que ela chegou. Sorrindo com os olhos.
Olhava para mim como se eu fosse a sombra imperfeita do seu dia.
Ela desfilou até mim, com uma mistura de ódio e preocupação, e sem saber o quanto aquilo iria me ferir, perguntou:
— Por que está triste?
Aquela pergunta. Mais uma vez. Ouvia ela todos os dias desde que me lembro. Ouvia dos meus pais, na escola, na faculdade, no trabalho. Ninguém me deixava em paz. E eu só queria gritar para eles: “ME DEIXEM FICAR EM PAZ!”
Eu não quero que se preocupem. Não quero que me ajudem. Não quero nada. Só quero ficar sozinho.
Mas ela ainda se incomodava, como se eu devesse ser grato por sua preocupação; que deveria ser feliz apenas por viver. E então, com impaciência no olhar, continuou, com um sorriso que tentava ser doce:
— Nada aconteceu, então fique feliz!
“Fique feliz”, repeti para mim mesmo. Como se felicidade fosse um botão que eu gostava de manter desligado. Como se fosse escolha. Como se já não tentasse todos os dias.
Podia sentir meus punhos se fechando. A raiva subindo pelo meu corpo. Mas consegui me controlar. Respirei fundo e comecei a sair dali. Comecei a ir embora.
Mas…
Algo aconteceu ali. Quando ela segurou meu braço e me impediu de ir embora.
Ela segurou em mim, e eu me virei para protestar. E naquele momento… aquilo fez o mundo parar por um segundo.
E eu vi em seus olhos horrorizados uma lágrima caindo.
Não era por mim. Não ainda. Era por ela. Pelo que ela viu ao me tocar e não sabia como nomear.
Pelo vazio que de repente ficou visível, como se por um segundo ela entrasse na minha mente e entendesse que felicidade era mais difícil para quem lutava pra se manter de pé.
Eu a olhei por mais tempo do que pareceu. E então percebi que já não estávamos no mesmo lugar.
Olhei para os lados e vi que o mundo parou de fazer sentido.
Pra cima era pra baixo. Pra baixo era pra cima. Corredores de escadas em labirintos que não levavam a lugar nenhum. Algumas portas tinham maçanetas quentes. Outras, frias. Algumas, sabia que não deveria abrir. Elas gemiam baixo quando prestava atenção demais.
O teto não existia. Ou existia, mas mudava de altura. O chão às vezes inclinava sem aviso, e o pé afundava como se pisasse em areia fofa, e no próximo passo o chão era pedra dura, e no próximo, algo pegajoso que não queria soltar.
Um relógio sem ponteiros flutuava no centro de um salão vazio. E o som das engrenagens ecoava pelo ambiente, fazia tudo parecer urgente, mas sem importância, fazia tudo ser tarde demais, tudo ser perigoso, tudo precisar de atenção.
Meu corpo quente reclamava do frio. E o peso da dor parecia triplicar ali. Mas não era uma dor de machucado. Era uma dor de existir. Uma dor surda, velha, encostada nos ossos como um inquilino que se recusa a sair. Eu já nem lembrava como era antes dela. Talvez nunca tenha existido um antes.
E a mulher estava comigo. Gritava e chorava como uma criança. Olhou para mim tentando entender.
E então eu respondi:
— Meu lar.
Ela, ainda mais horrorizada, não entendia.
Para ela, estar ali era como estar coberta de agulhas que tentam rasgar sua pele e corroer seus ossos, mas eu parecia tranquilo.
— Minha mente. É onde estamos.
Ela olhou ao redor. Viu os corredores infinitos. Ouviu, pela primeira vez, os ecos. Vozes que não estavam ali, mas enchiam o espaço. “Você está exagerando.”, “É só preguiça.”, “Você tem tudo pra ser feliz.” — As frases batiam nas paredes, voltavam, batiam de novo. Ela tapou os ouvidos, mas eu já sabia que era inútil, não havia como escapar.
E ainda horrorizada, com os olhos fechados e os ouvidos tapados, ela me perguntou:
— Como você consegue…
Ela não conseguiu terminar, a dor era pesada demais. Mas eu já sabia o que ela iria perguntar: “Como viver com a mente assim?”.
— Estou vivo, e morto ao mesmo tempo. Como se tivesse tomado do Magöhorror minha sina. Eu sobrevivo. Todo dia. — eu disse, me ajeitando no conforto desse caos. — Mas você não precisa entender. Ninguém entende. E está tudo bem. Só… não me diga que nada aconteceu. Porque tudo aconteceu. Tudo acontece. O tempo todo. Dentro de mim. E eu não posso desligar. Então me deixa ficar em paz, pelo menos do lado de fora.
E ela começou a chorar. Porque já não aguentava. Porque cinco minutos ali dentro já eram mais peso do que ela suportava.
Mas eu sabia. Sempre soube. Por isso nunca deixei ninguém entrar.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Caellum Noctis, Parte I - O que eu perdi?
Havia retornado. E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Havia retornado.
E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou… De onde vim. Não me lembrava de nada. Quase nada.
Tinha apenas um nome que transbordava na superfície de minha mente, insistente como as notas pesadas de um piano desafinado.
Eleine Gallhan.
Repeti em voz alta tentando procurar um significado, forçando as peças do quebra-cabeça a se encaixarem. Eleine. Quem é você? Onde você está?
A única coisa que sabia era que aquele nome fazia meu peito doer. Então, instintivamente, levei a mão ao coração e apertei as roupas, tentando alcançar aquela dor, mesmo sabendo que não doía na pele, e sim na alma.
Ela mentiu, pensei.
Ela mentiu? Sim, eu sabia disso também. Quanto mais me forçava, mais doía, mais… Quase lembrava, como se a memória estivesse na ponta da língua e eu não pudesse dizer. Mas o pior não era a mentira. Era o silêncio que ela deixara dentro de mim.
Por que...? Por que não consigo me lembrar?
Meu próprio corpo parecia lutar para impedir que alcançasse essas lembranças. Mas por quê?
Tudo na minha cabeça girava, uma mistura de sentimentos sem imagem. Fechei os olhos e respirei fundo. E então, a pergunta. A pergunta que eu temia fazer. Aquela que fez o aperto no peito doer de verdade… E então, cessar.
Como você era?
Eu não me lembro do calor do seu toque. Do som da sua voz. Do peso do seu amor. Mas o rosto… o rosto era um buraco negro. Senti como se olhasse para um espelho depois de um banho quente, apenas um borrão que nunca tinha foco.
Eu preciso lembrar!
Abri os olhos e finalmente percebi onde estava. Aliás, consegui enxergar o que fora dos meus pensamentos, mas não sabia onde era aquele lugar.
O vento soprou uma pétala em minha mão, folha rosa que se desprendeu da grande árvore à minha frente. O toque suave fez tudo parecer, de certa forma, certo. E o mundo começou a devolver os fragmentos que eu mesmo trancava em minha mente.
— A árvore… Nós a plantamos, não é? — Sua voz ecoou, clara e traiçoeira, soprada pelo vento da memória:
“Quando voltarmos, iremos morar aqui. Eu, você, Lyfir… e nossos filhos.”
— Lyfir… — sussurrei. O nome tinha um gosto agridoce, como se eu não devesse pronunciá-lo em voz alta.
E então, mais peças se encaixaram: a sombra de um grande lobo negro ao seu lado. O olhar fixo de uma coruja pousada em seu ombro. Guardiões de uma mulher que eu não conseguia ver.
Quem é você, Eleine Gallhan?
Tentei forçar a memória. Mas, como já esperava: nada. Apenas o vazio com a forma dela.
Apertei as mãos, não com ódio, mas com uma frustração que doía nos ossos. Era a pessoa mais importante da minha vida; eu sentia isso, mas não me lembrava.
Foi então que a sombra daquela enorme árvore pareceu se espessar. E, de repente, um frio cortante, como o interior de uma cripta, fez os pelos da minha nuca arrepiarem. Alguém, ou alguma coisa, estava ali. Me observando.
— Você deseja… se lembrar? — A voz era um sussurro sedutor, como se a própria escuridão me convidasse a conhecê-la.
Ele se materializou não como uma forma, mas como uma falta de forma: uma silhueta humana feita de fumaça e sombra.
— Eles ouviram seu lamento — a voz sussurrada continuou. — Os Colecionadores de Memórias. Os Rostos Espirais não gostam de dívidas em aberto… nem de pactos incompletos.
Pacto. A palavra me atingiu como um estalo no crânio. E eu tive a terrível certeza: minha perda não era um acidente; era um contrato.
— Quem são eles? — Minha voz soou áspera, quebrada. — O que fizeram comigo?
E, se eu pudesse ver o rosto sob aquele manto, diria que ele sorriu com a minha pergunta.
— Eles guardam. Para cada memória tomada, uma razão. E a sua, Caellum Noctis, está guardada no coração do Castelo Drácula.
Ele fez uma pausa, deixando o horror se instalar.
— E se quiser recuperá-la… deverá adentrá-lo.
O Espectumbral estendeu as mãos. Seu corpo se desfez, transformando-se em um portal etéreo. No centro, apenas o nada me convidava a entrar.
Olhei para o portal. Depois, para a grande árvore, suas folhas caindo a cada lufada de vento. A promessa de um lar murchando como as pétalas caídas no chão. Fechei os olhos mais uma vez, criando coragem para encarar meu destino. Agora, eu sabia o que procurava. Agora, tinha um nome para meus algozes: Rostos Espirais.
Não havia escolha. A obsessão já era minha cela; agora, pelo menos, ela teria uma porta.
Estendi a mão e o toque não foi frio; foi uma ausência de calor, um vácuo que puxou algo vital de mim.
— Leve-me até eles — disse, e minha voz já soava diferente. Menos humana. Mais decidida.
O mundo ao redor começou a se desfocar, as cores escorrendo como aquarela na chuva.
E naquele instante, entre um suspiro e o próximo, tudo desapareceu.
Eu não estava mais em lugar nenhum.
Revisado por Sahra Melihssa
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Infinito de Melancolia
Era sexta-feira 13. Achei que era apenas superstição este dia ser tão temido, mas aprendi a me arrepender de muitas coisas que vivi, e não ter medo de superstições…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era sexta-feira 13.
Achei que era apenas superstição este dia ser tão temido, mas aprendi a me arrepender de muitas coisas que vivi, e não ter medo de superstições foi uma delas.
Já não sei mais quanto tempo se passou desde que revisito esses momentos. Já decorei tantos rostos quanto os esqueci. Não sei seus nomes, e talvez devesse ter perguntado no dia em que os vi. Mas agora nada disso importa. Nada mais é importante.
Fico me perguntando o sentido disto. Se deveria me arrepender de algo, pedir desculpas a alguém. Mas nada do que faço funciona. Nada do que tento dá certo. Apenas consigo viver à margem daquele dia, como se nada fora do que vivi realmente existisse de verdade.
Todas as vezes. Todos os dias. Sempre iguais. SEMPRE. SEMPRE!
Acordo exatamente às 6h15. Preparo meu café da manhã: o pão, pálido como a luz desta manhã que se repete. Deveria ter escolhido algo melhor, se soubesse que seria meu último dia. Ovos e presunto. Talvez a pizza fria de ontem. Mas não posso mudar essa escolha. Não agora.
Saio de casa atrasado. Pego o casaco, o guarda-chuva, e caminho pelas mesmas ruas cinzas de sempre. O mesmo emprego tedioso em administração. O mesmo chefe a reclamar de atrasos e erros. Tudo já se repetia, mesmo antes.
Parando para lembrar agora... talvez eu já estivesse morto antes mesmo de morrer.
E então, vou para casa. E, após reviver este dia mais uma vez, sempre penso: o mais terrível nem foi morrer, foi ter de trabalhar o dia inteiro antes do fim. Talvez, se tivesse atravessado a rua no sinal vermelho às 7 da manhã, não estaria repetindo tudo. Não me arrependeria de ter morrido antes de começar a trabalhar. Talvez já estivesse renascendo noutro tempo, ou no céu, ou no inferno.
Não sei qual é o verdadeiro destino para quem morre.
Talvez seja isto: reviver as mesmas coisas, sempre. E eu esteja condenado a repetir este dia. Para sempre.
E depois de tudo, finalmente acontece: eu entro no supermercado que fazia as compras, mas dessa vez, na hora errada. O homem de máscara olha para mim e atira, e o tiro silencioso passa em câmera lenta, até me atingir. Eu não sinto a dor, apenas desabo no chão, arrependido, e acordo novamente, no mesmo dia, para reviver tudo de novo.
Revisado por Sahra Melihssa
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…