Rede
Ao alcance das mãos: a rede mundial | encurtando caminhos, trazendo à tona | a promessa de um globo conectado | cada vez mais forte e necessária..
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ao alcance das mãos: a rede mundial
encurtando caminhos, trazendo à tona
a promessa de um globo conectado
cada vez mais forte e necessária
tem seu lugar dentro das casas
comunicação sem fio
liberdade de espaço
(dentro das paredes)
em instantânea
transmissão
alguém
só
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Guerra
O Fim — a consequência imediata, | arauto de conversas seculares; | cometa de mil pernas que nos chega | no meio de um sábado, em notícias…
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O Fim — a consequência imediata,
arauto de conversas seculares;
cometa de mil pernas que nos chega
no meio de um sábado, em notícias.
Matéria que desaba em uma escola,
sem tempo de prever algum estudo.
Bandeiras cadavéricas, uníssonas,
brandindo um grande livro em suas pontas.
A farda cuja mãe, horrorizada,
assume o rito fúnebre da espera,
tecendo a imagem última, que lembra…
O Fim, essa metálica harmonia
de sons que se preparam em silêncio,
enquanto ainda sonham as crianças…
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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2020
O mundo fecha-se por detrás da cortina, | Esconde de mim seu endereço. | Sozinho, | Tenho por companhia somente a angústia…
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O mundo fecha-se por detrás da cortina,
Esconde de mim seu endereço.
Sozinho,
Tenho por companhia somente a angústia,
Um alerta mortal de que cada passo
Pode ser em falso…
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Manual prático da vida
luz e sombra | vívida postura | olhar fixo | — não na ave de curvo bico —…
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luz e sombra
vívida postura
olhar fixo
— não na ave de curvo bico —
nas asas de quem busca ver a história.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Jardim
vozerio giratório | 90 graus de alegria | disputa acirrada na pista de pneumáticos | pela janela…
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vozerio giratório
90 graus de alegria
disputa acirrada na pista de pneumáticos
pela janela
(ora atingível)
desespera-me ver do lado de fora
que o tempo fez de mim um brinquedo que
vai
e não volta
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Espelho
O mímico das sombras, em pessoa | pelo corredor mais oblíquo
pareceu chegar. | Picadeiro exclusivo, | não fez graça, ressalva alguma…
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O mímico das sombras, em pessoa
pelo corredor mais oblíquo
pareceu chegar.
Picadeiro exclusivo,
não fez graça, ressalva alguma.
Carregado de pedras, tudo o que vi:
seu pesar.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Amor de maldição
Ela tinha a voz rouca, rasgada; quando falava, eu percebia em sua garganta o esforço que aquele gogó tinha para dar vazão ao som que parecia…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ela tinha a voz rouca, rasgada; quando falava, eu percebia em sua garganta o esforço que aquele gogó tinha para dar vazão ao som que parecia friccionar as cordas vocais. O resultado era aquele tom, aquele sonzinho meio que aveludado saindo de sua boca. Aquilo me lembrava das brincadeiras de infância, de quando eu transformava as pás do ventilador da empregada em microfone, o que me deixava com aquela voz metálica, de robô...
Entrei naquele cursinho sem saber o que me esperava. De início, era tudo uma surpresa, afinal, fazia tempo que eu não estudava, não abria um caderno. Naquele momento, tudo o que eu precisava era de conhecimento, elevar minhas capacidades para os vestibulares que se aproximavam. Eu estava disposta a estudar, a entrar numa faculdade, a ter um futuro em mente. Só não imaginava que começaria a amar...
Ela surgiu numa das matérias onde eu tinha as maiores dificuldades. Nunca gostei de ler, somente o necessário: revistas, jornais; eu lia o que tinha de mais banal, o mais corriqueiro; uma lida básica sobre a programação de tv e a previsão do tempo, alguma notícia policial, fofoca das celebridades... Literatura, nada... Machado de Assis, Clarice Lispector, Graciliano Ramos... eram nomes que eu só ouvira falar.
Quando ela começou a explicitar a importância daqueles autores, a dizer sobre o que eles tinham inovado, deixado para trás e começado a fazer, foi quando eu senti um choque, uma nova leva de sensações que eu nunca imaginei sentir. Se eu já havia amado alguém antes daquela maneira? creio que sim, mas há muito tempo. Aquilo tinha ocorrido com as mesmas proporções quando eu ainda estava no ensino fundamental, quando tinha recém deixado de ser uma criança, me preocupando já com roupas de marca e me decidindo pelos artistas favoritos. Gostava de um menino lá; não só eu, mas diversas colegas compartilhavam do mesmo gosto — até os meninos, que pareciam orbitar sempre ao redor do rapaz, meio que o amavam. Acabou que ele ficou com uma das apaixonadas por ele, uma alemã, que hoje em dia fiquei sabendo estar um horror de esquisita.
Enquanto passava aquele filme na minha cabeça, retornei ao estado de atenção que antes me proporcionara a reflexão. A professora me conquistava pela voz, cativava com seu doce modo de falar, de explicar a matéria. No ensino médio, nem perto chegavam de tal capacidade as professorinhas sonsas, que sabiam apenas copiar dos livros o conteúdo transmitido aos alunos — estes, então, achavam mais interessante bagunçar a sala ou ficar na deles escutando música nos fones de ouvido.
Ali, na frente da sala de aula do cursinho, se destacava um tipo diferente de professora, mais sabedora do assunto, mais culta, mais elegante. Detrás daqueles enormes aros dos óculos, eu observava uma profissional segura do que falava, preocupada em fisgar seus alunos pela transparência do discurso, sem rodeios, sem gaguejar. Era de outro mundo a professora de literatura daquele cursinho...
Alguns meses se passaram e as aulas foram se tornando mais e mais interessantes. Mergulhada no mundo dos livros, eu me via já prestes a poder me decidir sobre um futuro, sobre um rumo seguinte àquelas deliciosas horas passadas na pequena sala de aula. Enquanto copiava as coisas escritas no quadro branco, porém, eu compreendia receber estímulos não apenas dos esquemas organizados pelas canetas coloridas, das datas que me colocavam diante dos momentos-chave da literatura brasileira; enquanto eu transcrevia para as folhas do meu caderno o conteúdo exibido no quadro, eu escutava o som lírico e mágico fluindo lá da frente até meus ouvidos, que recebiam as angélicas vibrações acústicas da professora letrada e simpaticíssima, que falava e falava e falava, conquistando-me de maneira irreversível...
Minha intimidade com ela era do mesmo nível que o dos colegas: uma aproximação simplesmente comum, que bastava à solução de dúvidas e dicas de leitura. Numa dessas oportunidades, quando eu realmente precisei conversar a sós com ela para lhe avisar sobre uma futura falta minha nas aulas, foi quando tive um abalo bastante desagradável, um erro grosseiro da minha parte, um passo em falso da minha confiança que crescia e já não cabia em mim.
Sentada na classe dela, a professora percebeu minha aproximação, depois que todos os outros estudantes tinham ido embora. Cheguei ao seu lado, cumprimentei-a nervosamente e comecei a falar. Disse-lhe os motivos da minha ausência na aula seguinte, assuntos pessoais, um caso de saúde psíquica... Ela, calma e aberta ao diálogo, compreendeu no mesmo instante meu problema, passando a alongar o assunto até um ponto em que eu me esquecia do que falávamos. Respondendo-lhe de maneira automática, eu apenas concordava com suas proposições, acenando maquinalmente com minha cabeça a cada ideia ou exemplo de vida que ela me revelava. Em certo momento da conversa, já envolta pela aura animadora da professora, aliciada por uma força esmagadora imanente dela, eu me via, cegamente, de encontro ao ombro da mulher, jogando-me adormecidamente sobre o corpo imóvel e repousado da educadora... Num átimo, saída de uma viagem inebriante, numa fuga temporal incompreensível, eu retornava àquela realidade estudantil, sendo cutucada no pulso, no antebraço pelos dedos finos e delicados da professora.
Baixo minhas vistas e me deparo com o sorriso indeciso dela, um sorriso que me deixava contra a parede, obrigada a me explicar imediatamente...
Minha vontade era de sumir, consumir-me em pó e sair voando pela janela aberta da sala — janela que eu abria, às vezes, devido aos calores desconfortáveis que sentia de uma hora para outra —, que lá de fora recebia um vento refrescante e rumoroso da noite. Como explicar-me, encontrar palavras para traduzir os efeitos efusivos da voz conquistadora e enfeitiçada que dela vinha até meus tímpanos? Como eu iria me aprumar, retomar uma postura que já não se sustentava com forças naturais, e me manter séria ao confessar à professora o sortilégio que era escutar os ruídos quase imperceptíveis de sua voz rouca?
Fiz-me de desentendida e contornei a situação. Revelei a ela uma suposta queda de pressão, que vez ou outra me acometia nos momentos mais inoportunos, fazendo-me buscar apoio nos esteios mais próximos do corpo. Pedi a ela que não tomasse "conclusões precipitadas", fazendo de tudo para fazê-la acreditar naquele sintoma mentiroso. Fiquei segura da minha conduta ao ver a professora depositar seus materiais, suas canetas e celular dentro da bolsa, pedindo a seguir que eu lhe avisasse caso sentisse a necessidade de ir ao hospital.
De início, achei "gracioso" da parte dela oferecer assim, sem empecilhos, uma carona para me socorrer. Contudo, eu sabia que seria um logro, uma enganação da minha parte continuar com aquele jogo. Por mais que eu quisesse escalar aquele montante de chances que eu tinha de me aproximar ainda mais da professora, "coloquei meus pés no chão" e resolvi não fazer uso da boa vontade dela. Abrandei sua autêntica preocupação e me apresentei revigorada, passado o "susto" que antes me afligira.
Despedimo-nos uma da outra e saí da sala. Enquanto caminhava pelo longo corredor da escola, rumo à saída, eu sentia no peito um misto de ardor e esmorecimento, duas temperaturas que se misturavam e formavam um sentimento esquisito, caótico e — o que sobressaltava dentre minhas suposições — "verdadeiro", resultado de uma experiência vivenciada num ambiente de estudos, de discussões literárias...
Naquele dia em que faltei à aula do cursinho, me senti extremamente mal. Como se um buraco surgisse no meu âmago, meu organismo se agitava dum modo que eu não conseguia acompanhar. Não era dor, nem um desconforto passageiro; o mais próximo que eu chegava de concluir era que sofria de uma "falta", de um furto às minhas necessidades mais vitais.
A terapia que eu frequentava já não supria a realidade em que eu me via feliz, saudável, "normal". As palavras da doutora, "profissional", "especialista", entravam por um ouvido e saíam no outro. Eu já tinha me apercebido do poder da palavra: era tarde. As tentativas dela de me ludibriar, de me fazer ver meus "problemas" de uma outra forma, eram falhas. A professora de literatura do cursinho tinha me apresentado, de um modo muitíssimo superior, a virtude das palavras, a estética das boas letras, a medida intocável da poesia formal, a anarquia revolucionária do estilo livre... A psicologia, perto da literatura, era apenas uma sombra, incapaz de tomar o protagonismo da prosa humana, patrimônio "material" da humanidade.
Saí do consultório decidida a não mais voltar — que me cobrassem os custos necessários! O que eu precisava era ler, adicionar mais material à minha cultura, armazenar mais informação no meu histórico de leituras feitas. Eu chegaria em casa, onde vivia sozinha, herdeira de um casamento suicida, e faria uma maratona, um sarau literário comigo mesma. Tinha nas minhas prateleiras quase todos os romances indicados pela professora, dos mais basilares do academicismo brasileiro até os clássicos do Velho Continente.
Chegando em casa, estagnei diante daqueles novíssimos volumes que enfeitavam as paredes da sala, dos quartos, dos criados-mudos. Sobre o tapete oriental, volumoso e colorido, ornamento secular da residência, havia caixas de papelão, encomendas pagas, títulos esgotados no mercado editorial brasileiro, encontrados apenas em revendedores particulares — um labirinto de opções, horas e horas possíveis de se passar num universo criado por autores nacionais e internacionais, por cânones, por vanguardistas...
Subi ao meu quarto e optei por uma leitura em voga nas últimas aulas do cursinho. Uma coletânea de contos, tramas fantásticas e absurdas, escritas por um autor maldito e obscuro... coisas que a professora dizia nas aulas. Aquela seria a obra que me acompanharia em mais uma noite, passada sob a luz da lua que penetrava curiosa pelas janelas retangulares do solar...
Na semana seguinte, eu estava de volta ao cursinho. Sete dias longe da sala de aula, e eu havia me dado conta do efeito avassalador causado pelo acúmulo de histórias na minha cabeça; um zunido capcioso, sugestivo, sobrepunha agora as picuinhas cotidianas que eu estava acostumada a vivenciar. A simples observação dos raios do sol, a lamúria dos pombos, o barulho sussurrante das folhas que no jardim exterior caíam das árvores, que até pouco tempo me comunicavam alguma "poesia", agora eram transformados em meros significados, em raquíticos acontecimentos, muito aquéns de uma realização potencial; havia agora um verdadeiro motivo na vida, que eu cogitava ser plausível, real...
Não seria nenhuma grande loucura, uma atitude impensada... Poe, ao escrever seu conto, devia estar sob o efeito de alucinógenos, do ópio talvez. Eu estava alucinada, sabia disso. O sortilégio que me dominava era real, vinha da professora, do ar expelido pelos pulmões dela. Sua voz me conquistara desde o primeiro dia de aula, quando ela chegou na sala e se apresentou para a turma. A partir dali, nenhum domínio eu tinha sobre o futuro de nossa relação; fosse uma amizade, um namoro, uma simples relação alternativa entre duas mulheres, fato é que não seria um relacionamento normal. Havia desde aquele primeiro encontro um combustível a mais para a minha presença ali, entre gente desconhecida e em busca de uma vaga na universidade. Eu chegava apenas ao cume de um romantismo tardio, não vivenciado de maneira semelhante até àquela altura da minha vida.
Aproximando-me da escola, eu me descobria trêmula, bastante ansiosa para aquela chegada na sala de aula após uma semana longe das exposições, da classe, da voz aveludada da professora. O meu desejo era que as coisas ocorressem como eu fantasiava: uma recepção acalorada da educadora, um "como estás?" sincero, preocupado, naquele tom de voz ruidoso pelo qual eu amava ser "seduzida"...
Soubesse eu que a dura realidade ainda vigorava, que os acontecimentos lidos nos livros estavam longe dos destinos traçados pela efêmera e limitante existência efetiva, eu faltaria mais uma semana, abandonava de vez o cursinho, não mais iria ao encontro da professora...
Meus pêsames professora, foi uma infelicidade, uma grandessíssima pena eu ter visto a senhora naquela situação, quando eu cruzava a rua, prestes a adentrar no portão da escola. Você e seu namorado, seu marido, eu não sabia... Para mim você era única, singular, uma pessoa imaculada, sem traços de parentesco com ninguém, uma divindade na Terra. Eu, órfã e sozinha, sem amparos que me fizessem acreditar na solidariedade humana, depositava em você toda esperança de ainda me ver com alguém, preenchida de um amor que eu nunca tive... Uma lástima aquela visão...
Ainda mais cruel foi você ter me chamado, com seu irrecusável sorriso no rosto, a fim de me apresentar para aquele invasor, seu companheiro. O que você queria? que eu me abrisse toda para ele? que eu demonstrasse simpatia diante do ladrão de sonhos? Impossível. Eu estava arrasada, não conseguindo acreditar em tamanha desilusão.
Cumprimentei você e seu homenzinho e desviei para o corredor da morte, em direção à sala de aula, que jazia abandonada pela professora e sua pureza intocável.
Aquela foi a pior aula, a menos interessante, sem graça alguma. Você, absolutamente calma, parecendo não suspeitar da dor que eu sentia, continuava falando, sem interromper sua ladainha, nem por um minuto. Quando você finalmente parou, não foi para descansar, para beber um pouco d'água na sua garrafinha e revigorar o encanto da sua distinta voz: vi que você pegou o celular e pediu licença a todos, saindo porta afora a seguir... Aquilo irritou-me profundamente, foi o estopim!
Quando você retornou, com aquele seu costumeiro sorriso, eu já era outra, assumira uma insólita identidade. Mantive a pose, fazendo de conta que escutava e me interessava pela sua aula, ficando assim até o final, até onde minha paciência suportava. Podia-se dizer que minha feição exterior era completamente oposta à interior; corroída, deteriorada... insuportável era o peso que me atormentava naqueles minutos finais de aula.
Quando acabou aquele tormento, esperei que todos tivessem juntado seus pertences, me certificando de que não sobrasse nenhuma vivalma para testemunhar meus passos seguintes. Esperei você guardar suas coisas, apagar o quadro, fechar seu livro... Eu reorganizei a sala, coloquei as cadeiras no lugar, alinhei-as todas; deixei o ambiente limpo, para assim ele ser encontrado pela turma da manhã seguinte, como você sempre nos lembrava... Então me aproximei de ti.
Você nem suspeitava, estava segura, tranquila como nunca! Parecia feliz; sem sorrir, sem exclamação alguma, eu detectava essa felicidade, esse porto seguro existindo em algum lugar... um lugar distante dali, daquela sala. Nem meu olhar, que fuzilava seu rosto, sua boca, em busca de respostas para desmascarar a bruxaria oriunda de sua voz você era capaz de decifrar... Você realmente estava em outra...
Primeiramente, eu pensei em mentir, em te deixar preocupada como naquela vez em que quase desmaiei no seu colo, e pedir uma carona até a minha casa. Mas aí pensei de novo. Num instante, achei melhor nutrir sua curiosidade e dizer que havia lhe comprado um presente, uma "coleção de obras" que você não acreditaria quando visse; você me olhou interessada, dando créditos àquelas palavras... Eu torcia para que você não acreditasse.
Fomos juntas no seu carro, pela primeira vez. Você dirigia e me perguntava pelo nome das ruas, confirmando no seu GPS o endereço da minha casa. Mal habituada àquele bairro distante da periferia, sua cabeça não parava de se mexer, olhando a todo momento para os lados — creio que fascinada pela arquitetura das residências. Enfim, tínhamos chegado...
Desembarcamos do carro e caminhamos lado a lado até as proximidades da minha casa. Você continuava surpresa com a região onde que eu morava, elogiando a limpeza das ruas, estimando o silêncio "respeitoso" da vizinhança... Quando eu contornei o imenso cercado, acionando a abertura do portão, você perguntou: "chegamos?"... Sim, essa era a minha casa...
Com as luzes ligadas aqui dentro, você achou que tinha gente, perguntou se eu estava "acompanhada". Claro que não. Mas não te julgo, eu nunca lhe disse nada, nenhum detalhe sobre a minha vida... Você passou pela porta, esperei que se aproximasse da vasta prateleira com livros, e te golpeei...
Atingi sua nuca com o atiçador da lareira, esforçando-me com o mínimo da força necessária para fazê-la desmaiar. Você caiu dura, causando um estrondo no tapete da sala. Corri para o seu lado e logo me certifiquei do seu desmaio; você ainda respirava, fazia barulhos com a garganta, saía ar do seu nariz..., mas não abria os olhos...
Peguei as chaves da empregada, há muito esquecidas sobre a papelada dos advogados, e abri o pequeno compartimento embaixo da escadaria. Após, voltei para perto do seu corpo desacordado, assustadoramente imóvel, e agarrei seus calcanhares; tive de me esforçar para puxá-la até o pequeno quarto, depositando com extrema agonia e dó sua figura inerte sobre aquele colchão surrado...
O arrependimento, mesmo que tardio, não trará mais nada de volta, nem sua confiança, nem seu espectro simpático, que tanto me fez tentar contornar a desconfiança sobre este mundo, essa realidade ora estimulante — como a sua voz acalentadora —, ora insatisfatória...
Subi agora há pouco, ainda posso te ouvir, caso você desperte... Enquanto você dorme — espero que durma —, continuarei lendo A carne, de Júlio Ribeiro, livro que você me indicara. Estou amando... verbo perigoso esse... Espero ouvir novamente sua voz.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
Exploração
Pela primeira vez, em muitos dias, resolvi caminhar pelo ambiente exterior do castelo. Estranhamente animado, de alguma forma seguro após...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Pela primeira vez, em muitos dias, resolvi caminhar pelo ambiente exterior do castelo. Estranhamente animado, de alguma forma seguro após me deter na leitura e refletir sobre os escritos que chegam à minha mão (oriundos de quem me informa, involuntariamente, acerca do ambiente lá fora), me fiz levantar e partir desabalado pelas escadas do recinto.
Também penso que não tenho muito com o que me preocupar. De acordo com minhas próprias conclusões — e já tendo passado por experiências suprafantásticas aqui —, o simples fato de ser recebido de portas abertas, e sendo dispostas para mim toda sorte de atmosfera e meios para dar vazão ao meu estro criador, devo interpretar como convites para uma venturosa exploração…
Sobre aquele ainda marcante episódio fantasmagórico, em que me vi envolto nos braços de uma figura quase espectral, devo assumir que não me percebo mais completamente refém de algum sintoma… Pelo contrário, passado um longo período desde aquele ocorrido, parece até que fui vítima de algum delírio, alguma febre suscitada por demais imaginar o que se passa por aqui. É como se tivesse sonhado: ainda com memórias do acontecido, mas com dificuldades para expressar o fato… Se aquela mulher foi ou não, de fato, uma criação da minha mente, só me resta esperar…
Agora, o que me chamou bastante atenção durante essa minha fuga do lugar-comum, e que não posso negar que tenha seu pé na realidade, foi aquele capcioso silêncio… Melhor dizendo (para mais objetivamente me referir ao testemunho e não enganar meus próprios sentidos), notei uma quietude não observada antes, ao passar em frente a algumas salas cujos ocupantes eu já havia visto. Estranhei, pois considerava ali, atrás daquelas portas, a razão de tantos poemas, contos e outras criações que brotam e dão vida a esse castelo. Passando diante daqueles cômodos (que certamente serviam à intimidade dessas mentes criadoras), logo compreendi suas ausências, um vazio preenchido, agora, unicamente por suas obras, simbolicamente deixadas como lembranças de sua visita aqui…
*
Ameritt… Esse o nome daquela simpática senhora. Descendo as escadas do castelo, contornando o jardim que, da minha janela, eu sempre perscrutava com certo receio, apreensivo de ver algo inaudito, topei com ela. De costas para a parede, diante do que parecia alguma porta de acesso para algum lugar, tinha em suas mãos um besouro…
Estranho amigo. Vendo-me prender o olhar nela, pareceu proposital seu gesto de esticar os braços e fazer aquele inseto ir e vir, como se fosse domesticado. Achando-me talvez interessado em sua peça, ofereceu-me as mãos, algo que fiz naturalmente — por certo que depois de considerá-la alguém sem suspeitas.
Pois Ameritt, até então uma quieta senhora, eu já havia visto em outras ocasiões. Nas minhas andanças pelos corredores; saindo do quarto e indo em direção à sala principal; nas visitas à biblioteca, onde muitos dos textos são deixados… Via sempre a presença dela, aqui e ali fazendo um serviço de caseira, como o de alguém responsável pela organização do castelo — que, devo confessar, está sempre impecável, limpo e benquisto para qualquer dos sentidos.
Ainda que “deslizando” por ambientes pouco ou mais escuros, sua sombra nunca foi a de alguém devidamente ameaçadora, mas a de uma mulher reservada, que, desde minha chegada aqui, já tinha por potencial relação.
Aquele momento em que deixei seu besourinho subir em meus braços, começando a comichar e dar a sensação de algo risível, pareceu-me então uma prova de minhas suspeitas. Seu sorriso aberto, a luz alegre emanando de seus belos olhos — um anúncio de exuberante jovialidade, ainda existente —, aquele cruzar de braços como de quem convida para uma conversação… e então meu nome, saído de sua boca:
— Wallacebesin…
Minha surpresa com aquelas palavras (de onde ela sabia meu nome, com tanta segurança?) não foi maior do que a agradável sensação de parecer chamado de benzinho, vocativo tão macio e saudoso de minha terra…
Trocadas impressões, palpites do clima, gostos pessoais de cada um, logo nos descobrimos partilhar do amor natural, essa espécie de apreço pela fugacidade sensível da vida, a adoração das coisas inapreensíveis pelo tempo. Nossa conversa, como a de gente há muito conhecida, sem se preocupar com passado ou futuro, receios ou intenções, tomou parte tamanha daquela minha fuga, que mal percebia ter escurecido o céu ao meu redor. Do recanto em que nos via, apenas a parede se destacava, já iluminada pela lua sempre imperiosa da paisagem…
Ensaiando uma despedida, ao tocar gentilmente nas mãos de minha companheira de assunto, fui surpreendido por seu convite: queria saber se não aceitava uma refeição em suas dependências — escondida por aquela porta, atrás de sua forma esguia e acolhedora…
Sem querer parecer desconfiado, preferindo manter as impressões de alguém realmente admirado por descobrir uma parceira de conversa e, por que não, amiga, disse-lhe que ficava para uma próxima, tendo agora de me recolher para, sob um pequeno impulso, tentar terminar de escrever uma composição…
*
Assim, então, foi passado esse meu pequeno deslocamento: curto em extensão, enorme de surpresa. O “até mais” dito por mim para Ameritt, estou convicto, foi recebido como promessa. Tenho agora a esperança de, por meio dessa gentil senhora, descobrir as minúcias desse lugar, mesmo suas origens… Da próxima vez, caso a encontre, não recusarei igual convite. Se temo algo, apenas é a existência de não somente besouros entre seus amigos animais…
O carácter nada intimidador, aprazível daquela senhora, mostra-me também o aspecto cada vez mais determinante desse castelo, a confirmação de que tudo tende a ser, quase sempre, bastante diferente do imaginado — devendo ser, para tal descobrimento, explorado…
Leia mais em As Crônicas do Castelo Drácula:
A Casa Torta
Certo lugar, ao sul do país, numa destas regiões chamadas serras (abrigo de pequenas cidades e população reduzida), foi palco, não há muito tempo...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Certo lugar, ao sul do país, numa destas regiões chamadas serras (abrigo de pequenas cidades e população reduzida), foi palco, não há muito tempo, de uma inquietante descoberta que, se não causara certo rebuliço nos jornais, ganhou considerável destaque entre os nichos interessados — continuando, muito provavelmente, sendo discutida nos fóruns mais recônditos da internet.
O acesso a essas informações — que certamente devem arregalar os olhos de quem as obtém — eu alcancei de forma quase involuntária, certa vez em que varava a madrugada em claro, em busca de entretenimento. Minha primeira sensação (lembrando agora daquela experiência inaudita) foi a de estar diante de uma mera ficção urbana, de um relato possivelmente retirado, com requintes de criação regional, de algum filme estrangeiro… Para minha surpresa, a leitura de tais informações, naquela vigília, me transformou em um investigador tão inquieto dos acontecimentos que não sosseguei enquanto não desvendasse mais a fundo a veracidade ou não daquela história.
Encontrei mais detalhes sobre o caso ao conseguir comunicação direta, via bate-papo, com uma das supostas testemunhas que estiveram no local, perto da descoberta… Por conta disso, para não expor nenhuma das partes envolvidas e evitar problemas legais, esse interlocutor me pediu total privacidade no testemunho descrito, me proporcionando, em contrapartida, a oportunidade de conhecer por completo (ou até onde ele sabia) a mais "aterradora" verdade da ocasião — considerando-me, inclusive, uma garantia de que a história vivenciada por ele teria a quem chegar...
***
M... tinha chegado à cidade como um turista, assim como muitos brasileiros que visitam aquela região em determinadas épocas do ano. Como naquele mês estava para acontecer um famoso festival que marca o nome da cidade, ele me disse ter unido o útil ao agradável e feito um esforço para conseguir meios de se sustentar até o final das celebrações. Tirando de onde podia os recursos para tal empreitada, pedindo aqui e ali para alguns parentes, em poucas horas se viu apto a não se preocupar mais em como iria dividir a despesa entre o turismo e os futuros gastos para presenciar o festival, tendo apenas de planejar, então, seus próximos passos no passeio.
Numa das andanças pela cidade, completamente rendido aos atrativos e ruas que lembravam uma paisagem europeia, M... dizia ter se enveredado para longe do centro, pois, à medida que caminhava (e convencido de que a segurança vista ali era das mais propícias à atividade), diminuía a presença de outros pedestres, limitando-se a ver apenas moradores em suas janelas ou pequenos comércios abertos, com pouca ou nenhuma clientela.
Dando uma olhada para o final das ruas onde se encontrava, na esperança de ver uma novidade que valesse ou não uma aproximação maior, M... descartava ou adicionava mais um passo em direção aos recantos da cidade, sentindo-se alguém disposto e convidado a desvendar o que quer que fosse sob o clima agradável do dia igualmente aprazível.
Gastando assim os créditos de um abençoado turista, sem se preocupar com o dia seguinte (estava de férias), foi então que houve uma virada nos rumos aparentemente imperturbáveis da viagem. Contornando uma imensa casa, do autêntico estilo “enxaimel”, bastante visto na região, M... prendeu o olhar numa estrutura que destoava de tudo o que ele havia presenciado desde a chegada.
Visivelmente inclinada, com o teto formando um ângulo quase colaborativo com a árvore vizinha ao empreendimento, avistava-se uma residência ou galpão, também construído no estilo tradicional. De onde estava, parado e surpreso com a observação incomum, M... diz ter esquecido até mesmo de fotografar a imagem, tamanha a estranheza do que se exibia naquela direção. Não tendo como ignorar o absurdo que seus olhos viam — até então maravilhados com toda a organização e asseio da cidade —, tudo o que ele fez foi avançar até lá para saber se alguém ou algo explicava o porquê da assimetria...
Para sua surpresa, segundo ele me disse, uma viatura policial cruzou seu caminho quando estava prestes a se dirigir diretamente para aquela estranha arquitetura. Vendo sair de dentro do carro um policial completamente equipado, M... afirmou ter sentido até medo, erguendo os braços como forma de comprovar sua inocência e dando a entender, em seguida, que era apenas um turista de passagem pelas ruas daquela região.
Disposto a ouvi-lo e exibindo nada mais que a preocupação natural da profissão, o policial tratou apenas de perguntar seu nome e saber as intenções de M... por aquelas ruas. Respondendo o óbvio, suas palavras, de acordo com o que me confessou, foram acompanhadas por um singelo aceno em direção àquela estranha casa, que o oficial logo tratou de observar. Perdendo alguns segundos para tentar compreender a peculiaríssima visão, os dois agora estavam absorvidos pela tortuosidade da casa, buscando alguma explicação plausível para o que se exibia diante deles naquela rua.
M... cogitou até sugerir ao policial que fossem os dois até lá para saber mais sobre a razão do fato; contudo, segundo suas palavras, o oficial parecia não acreditar que houvesse "nada demais", optando por indicar outro caminho ao visitante. Com um sorriso no rosto, o policial perguntou a M... se ele "não curtia cinema", pois naquela noite aconteceria a principal cerimônia a que concorriam muitos famosos, sugerindo que ele corresse para não perder um lugar para observar — "nem que fosse de longe".
E assim fez M..., dando as costas e partindo, sem deixar de dar outra olhada para aquela pequena, mas marcante paisagem que se alojara interrogativamente em sua cabeça.
Sabendo, pela boca do policial, da festa que estava para acontecer, M... disse ter simplesmente esquecido do ocorrido e partido numa carreira bastante apressada em direção ao centro da cidade. Em nosso bate-papo, lembrou ainda ter sentido a mesma calma e silêncio que havia ao chegar ali: poucas pessoas, pouco barulho naquelas ruas, menos até do que o presenciado horas antes. Quanto à casa, jurou não ter imaginado nada além de uma proposital construção, feita para atrair moradores locais ou turistas. O teto bastante inclinado, sugerindo um quase desmoronamento do material acima, possivelmente indicava, segundo ele, uma disposição particular de algum cômodo superior — agora fora do alcance de M... para ser visitado.
***
Na chegada ao centro, o esperado: fotógrafos, fãs, curiosos, seguranças e muita vitrine para aqueles que fariam da noite uma lembrança inesquecível. M..., se colocando entre os interessados pela novidade da aproximação com a gente famosa, mais do que realmente desejando pertencer a determinado público, deslumbrava-se com as luzes e o vozerio da noite. Por pouco, me disse ele, não enxergou um grupo de homens fardados, todos formando um círculo ao lado de viaturas enfileiradas.
M... se viu impelido a avançar até lá. Assim como, horas antes, havia sido impactado pela estranha imagem de uma construção “desabando”, agora, diante de um grupo de militares organizados, também era confrontado com um ímpeto de mistério a ser solucionado. Chegando perto de um dos oficiais que parecia disponível para um diálogo, M... tratou de confessar sua dúvida quanto à presença de tanta força policial ali, "certamente não necessária para um festival não tão numeroso"...
Descrença e susto. Pavor e fraqueza. Sorte e comoção… Com essas palavras, M... esboçou para mim uma tradução do que, para ele, era impossível de acreditar. Da fala econômica e incisiva do policial, como a de quem explica um acontecimento natural para uma pessoa menos experiente, ele diz ter ouvido a trágica ironia:
— Achamos uma casa repleta de corpos, todos colados na parede. Um maldito artista fez seu próprio troféu...
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Dúvidas
Desde o fatídico dia… ou melhor dizendo, desde a fatídica noite, aquela em que fui atacado, envolvido pela estranha e irrecusável aproximação da…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Desde o fatídico dia… ou melhor dizendo, desde a fatídica noite, aquela em que fui atacado, envolvido pela estranha e irrecusável aproximação da misteriosa vampira, me vejo recluso, incapaz de mover um pé sem que duvide das minhas forças, do meu livre-arbítrio que, suponho, fora totalmente sujeito, desde então, à influência daquela mulher e sua força…
Nada de muito grave aconteceu fisicamente comigo, desde então; porém, sabendo ter sido “corrompido”, inoculado em mim algum veneno que, se não mortal, pelo menos indicador parece de que não sou mais o mesmo, sinto a necessidade de me privar de movimentos, de sair pelo Castelo e, quem sabe, me deparar com “ameaças” afins…
Pois certamente que aquele ataque, na forma de uma desconcertante mulher, não deve ter sido uma exclusiva demonstração do ambiente misterioso com que me deparo aqui…
Há poucos dias, revirando os papéis que abundam pelas mesas do lugar (a escrita compartilhada de outros convivas do Castelo), li coisas que me deixaram profundamente preocupado. A primeira e mais inquietante descoberta (será um fato?) é a presença, segundo alguns, de uma vila chamada “Séttimor”. Não que a existência de lugares vizinhos a esse ambiente seja algo excepcional; antes de chegar aqui, bem lembro, avistei casas, espécies de cabanas e alguns moradores que, ao que tudo indicava, nada tinham de anormais; porém, essa tal vila “Séttimor”, nos textos com os quais tive contato, era descrita como lar de pessoas sem rosto(!), de pessoas que, sem possuírem expressão facial, demonstravam, inquietantemente, comportamento benigno…
Qual não foi minha surpresa ao parar com essa leitura e, numa pequena reflexão, me perguntar se aquele povoado que avistei ao me aproximar do Castelo, em minha chegada aqui, não era esse descoberto e discutido em uma das crônicas…
Por certo que os outros frequentadores desse recinto sabem mais do que eu… A pergunta é se, estando aqui, estou sujeito aos mesmos fenômenos que essas pessoas já devem ter visto ou presenciado, se não como protagonistas de algo mais obscuro, além de meu entendimento, pelo menos como coadjuvantes de alguma ação — até mesmo sofrido aquilo que eu, completamente rendido, testemunhei e do qual fui alvo, agora sem saber das futuras consequências…
Como lidar com tal testemunho, tal possibilidade de realidade fantástica ao redor desse local onde atualmente habito e que, comprovadamente, está aberto à visitação de outras enigmáticas vidas? Que segurança tenho de me manter vivo, dono de minhas vontades e sonhos, estando rodeado por forças muito além da simples compreensão natural? Mesmo sendo elas, segundo as provas lidas por mim, ainda distantes das paredes do meu quarto — e, assim espero, dos muros do Castelo —, o que já experienciei por conta própria aqui dentro (o Baile, o ataque) há muito que já me dotou da certeza de que aquele eu inicialmente chegado aqui, com vistas apenas a fazer parte de uma sociedade de práticas artísticas, não é mais o mesmo…
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Espólios
O chão de mortes rubro e corpos cheio | (Vedado por metais, escudos falhos), | Por nuvens de abutres carniceiros | Agora é posto em sombras, surgem vários…
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O chão de mortes rubro e corpos cheio
(Vedado por metais, escudos falhos),
Por nuvens de abutres carniceiros
Agora é posto em sombras, surgem vários
Girando em asas torpes, altaneiros
— Selado o fim da guerra, de mortais —,
Até que um voo rasante, já sem medo,
No vão mais degradante ele decai.
Saltit‘entre o despojo abandonado;
Mordisca a parte sua da mortalha —
Vitória sem lesão, nenhum ataque.
Banquete assim aberto, assinalado…
De sobra a fosca pilha de medalhas —
Sem brilho e de valor menor que a carne.
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Entropia
Todas profundas marcas que deixaste em mim | São tão irremovíveis quanto a dor que sinto… | Por isso, em lutar por ti eu não mais insisto: | Que o Cosmos…
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Todas profundas marcas que deixaste em mim
São tão irremovíveis quanto a dor que sinto…
Por isso, em lutar por ti eu não mais insisto:
Que o Cosmos se dedique a nos juntar, enfim!
Na aglutinação dos astros com os insetos,
Quando os organismos todos verem, unidos,
A chegada de apocalípticos cometas...
Então a hecatombe final do universo
Vai me unir a teu amor não correspondido
Em seus próprios detritos de sóis e planetas…
Leia mais em “Poesias”:
À Espreita
Aconteceu que minhas dúvidas foram sanadas; meus receios confirmados, em parte… Aquela tensão que me corroía e me deixava em vigília por noites…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Aconteceu que minhas dúvidas foram sanadas; meus receios confirmados, em parte… Aquela tensão que me corroía e me deixava em vigília por noites e noites, após chegado aqui no Castelo, dissipou-se da maneira mais simbólica e carnal que poderia esperar… Chegaria a hora ter de escrever sobre isso.
Inclusive, neste momento em que o faço, já não sei bem se respondo por mim ou por outro eu, outra persona que suspeito haver nascido no ambiente sobrenatural desse lugar…
Ao adentrar no espetacular pórtico que me recebera de portas abertas, com suas dependências acolhedoras e convivas até então, de certa forma, simpáticos (ainda que ariscos, falando mais por meio de suas histórias habilmente desenvolvidas e reveladoras de suas origens do que no tête-à-tête), como já registrado, diversas manifestações estranhas e, devo dizer, fantásticas me fizeram de testemunha — quando não um ator nesses acontecimentos, diretamente envolvido com as singulares pessoas… O último desses foi algo cabal; acima de tudo, definidor do que agora devo classificar esse recinto: infestuoso.
Pois de maneira nada além do natural, voluntária foi com que me vi “vítima” — já nem sei se assim devo me dizer — da manifestação orquestrada por uma agente das sombras desse Castelo. Como se completamente entregue às suas forças, vi-me envolvido e invadido por sua influência, por algo da mais obscura e encantadora categoria…
Estava retornando de uma das minhas caminhadas — após me deter por alguns minutos na vista avassaladora que temos aqui de cima, diretamente para a Lua e o panorama quase que expressionista do horizonte —, quando voltei para o meu quarto. Eu sabia que havia passado sozinho toda a noite (algo estranho de se dizer, mas sincero de minha parte, pois há momentos mais que outros em que nada mesmo parece acercar-se de nós além de nossos pensamentos), sem nenhuma companhia exceto os livros e esboço de ideias para alguma escrita, quando me virava para fechar a porta e dar uma última olhada para o corredor...
(Devo anotar que não duvido de que essas nossas escritas, poemas, contos e crônicas — principalmente essas últimas — passam pelo crivo de alguma leitura mais atenta, de alguém que a faz e, após isso, inteira-se melhor das atitudes e pensamentos dos habitantes do Castelo…)
Ao me deter no final do corredor, foi que a vi… Espectral, longuíssima, numa veste branca iluminada (ao menos parecia branca), coroada pelos raios de luz daquela Lua fantasmagórica no céu lá fora… Os cabelos negros, longuíssimos… (se bem enxergava, do alcance da barra daquele vestido) E seu rosto… fixo, teso, em direção a mim…
Eu escrevera “longuíssimos”… quão precisa essa palavra para traduzir o que eu via… Os olhos dela, seu rosto… ainda que impreciso daquela distância, eu percebia me olharem, fixos em mim, numa atração estranhamenteatraente… impossível de me desvencilhar. Quando o mais natural seria entrar abruptamente por aquela porta, me fechar com chave no quarto e apelar (por que não?), por socorro, eu agia como se esperasse a aproximação dela…
Então, segundos, talvez minutos naquela troca de impressões, como se calculássemos nossos próximos movimentos, eu a vi chegar perto de mim. Estranho que minha memória agora não consiga precisar se de fato eu enxergava seus pés ou mesmo uma flutuação dela até onde eu estava…, mas prefiro acreditar que tenha sido, sim, um movimento de alguém de carne e osso — meu ceticismo, até onde eu puder, colocarei à frente de qualquer decisão mais radical, ainda que este Castelo, sem dúvidas, demonstre algo bastante além das manifestações naturais…
E lá estava ela… a poucos metros, depois tão próxima que esbocei um contato — respondido pelo que parecia um sorriso… Um esgar de confiança, de alguém que, certamente, por mais maldosa que fosse, eu não teria como evitar… Fosse minha morte, minha danação prestes a acontecer naquele momento, e eu estaria entregue, completamente à mercê do que quer que seguisse…
E como não?! Pudesse transmitir por palavras aquele enlevo, aquela aura obscura, porém sedutora, enigmática em toda sua forma desinibida diante de meu olhar estarrecido… Minha expressão era de desespero… mas do tipo que já não via saída, então contando com a benesse do tempo para que nada de grave resultasse daquilo, que aquela invasora mostrasse alguma piedade entre seu manifestado poder…
Suas mãos estenderam-se em direção às minhas… Quando fui agarrá-las, não foi o toque delas que as sentiu, mas meu pescoço! Temi ali por minha vida; senti ali o resultado incontornável de toda essa história de vampiros, do Conde até então figurante… Ela era, com certeza, daquele universo, uma de suas forças intransigentes, surdas a qualquer súplica desesperada, sedenta pelo meu sangue!...
Tudo o que depois lembro de ter acontecido foi sentir o toque daquele aguilhão; devo ter erguido meu pescoço, ansioso para que aquilo acabasse logo, temeroso apenas da dor, de alguma febre demoníaca, do tipo que me fizesse contorcer em ais e angústia por alguma maldição completa, sem chances de escapatória…
Acontece que acordei sem dores. Ainda que carregue as marcas do fatídico encontro (um jogo de camas manchado em rubor), trago comigo ainda mais dúvidas: o que será daqui para frente? Encontrarei de novo essa figura ostentosa, dona de um encantamento misterioso e terrivelmente sedutor? E as consequências daquela mordida… causaram ou causarão em mim algum efeito?
Não sei mesmo o que esperar…
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Mártir
Exangue, sua antiga força agora | Distante está de todo o heroísmo… | Mas vê-se, no bater d’última hora, | Seu corpo combater o derrotismo:…
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Exangue, sua antiga força agora
Distante está de todo o heroísmo…
Mas vê-se, no bater d’última hora,
Seu corpo combater o derrotismo:
Os olhos — duas órbitas pra fora —
Erguidos, qual chorassem, comovidos…
Seus braços, envolvendo toda a glória,
Num gesto de abraçar algo invisível…
A dor de humana ação parece pouca
Perante o rosto altivo, quase indene,
Lavando com seu sangue o turvo chão…
De onde faz-se ouvir, de boca em boca:
Sem dúvida nenhuma dentro dele
Pulsava a cor vermelha da paixão.
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Solilóquio
Os acontecimentos anteriores me deixaram ainda mais convicto das incertezas deste lugar. Um salão de festas, cheio de gente, onde ninguém…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Os acontecimentos anteriores me deixaram ainda mais convicto das incertezas deste lugar. Um salão de festas, cheio de gente, onde ninguém olhava diretamente para mim, sem nem ao menos esboçar uma qualquer comunicação, visual ou verbal, seja comigo, seja com outros presentes naquele momento… para piorar, aquela fatídica dança, aquela misteriosa parceira de noite que, além de me fazer magicamente entortar as pernas e mãos ao redor de seu corpo, me deixou tonto da cabeça e cheio de pensamentos ao final do evento…
Não diria estar me sentindo cativo aqui, à mercê de algum projeto secreto, nas mãos obscuras de um(a) maquinista oculto e arranjador de situações para, aos poucos, me levar a algum destino… pelo contrário: continuo afastando-me dessa conclusão e sentindo-me estranhamente confortável, servido diariamente de estímulos e atmosfera para o desenvolvimento da escrita. Pois sim, este é o verdadeiro objetivo que parece se desenhar por trás de minha presença e dos outros convivas do Castelo.
Leio-os, todos, com afinco, e retiro de suas experiências narrativas a conclusão de que estamos unidos pelas sensações, pela profundeza de ideias que o ambiente cercado por estas paredes parece cavar e encerrar mais — o resultado final dessa escavação, ainda um mistério… a incerteza no ar…
…
Há pouco, sentado diante desta biblioteca enorme de livros, disposta de maneira a — imagino — atender aos meus anseios (ou faltas) de inspiração, percebi-me atingido por uma vaga ideia: um raio capcioso de argumentação, de dúvidas quanto à realidade em que estou inserido, varou meu íntimo literalmente “do nada”... algo iniciado, se posso tentar adivinhar uma mínima origem, ao me desviar rapidamente das estantes e cruzar o olhar com o brilho espectral da Lua, invadindo este quarto…
Pois registro aqui que a Lua, vista da torre em que faço morada, todas as noites parece iluminar a paisagem sem barreira aparente. Da janela pela qual deixo entrar o ar nas deliciosas noites que fazem, junto com essa luz, sinto chegar igualmente até mim toda a sorte de sensações e mistérios que imagino rodar pelo mundo, invariavelmente causando em almas sensíveis os gatilhos necessários para se começar a pensar…
Eis o de agora: quem dirá (além dos raros cosmonautas) ter plena certeza de que a Lua se encontra lá, naquele céu misterioso e enganador que não sabemos seu fim? Se longe que estamos, e até onde nossos olhos alcançam, não podemos ter convicção alguma de não confundirmos uma árvore com alguma parede de maior estatura e verdejante; uma casa com algum tipo de projeção artificial, devidamente iluminada; um ser humano com alguma criatura além de nossa compreensão…
Vejam só, neste mesmo procedimento sobre o qual falo: por que essa reflexão? De onde tirei a iniciativa, estando há alguns minutos preocupado unicamente em tentar enxergar os títulos dos livros que me fazem companhia? São procedimentos mentais totalmente voluntários?... A própria linha de raciocínio e ação parece completamente indiferente a qualquer tentativa de apreensão. Qual terá sido o primeiro gesto, o pontapé inicial da minha série de atitudes que determinaram (pois assim deve ter sido) minha chegada a esta etapa da vida, a esse momento de incisiva reflexão? Mantém-se a pergunta…
Havendo resposta ou não para esse brilho do céu, para essa dúvida quanto às sucessivas etapas que me trouxeram a esse quarto, e por que decidi me atentar ao processo de pensar, certo é que cheguei aqui impulsionado por uma onda — já estando à espera (e à deriva) da próxima. Se nem mesmo os passos que eu daria ao entrar no Castelo — que me revelaram, por mais absurdo que possa parecer, o aprendizado da dança(!), além de outras descobertas quanto a habilidades de escrita — puderam ser previstos, que dirá ter plena certeza dos movimentos reais do satélite natural, assim nomeado por quem também acha ser apropriada a definição…
Encontrando ou não alguma razão em minha estadia no Castelo, uma resposta final ou explicativa de minha chegada aqui, certo é que estou mais aberto aos estímulos de fora, atento aos acontecimentos que se mostram e surgirão a cada dia aqui — já com a plena certeza de ter sido aceito nesse lugar por obra de alguma construção minha (antecedida por outras), consciente ou não…
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Angústia
Quantas são as declarações tardias? | Quantas confissões guardadas no peito? | Quantas vezes não se tira proveito, | E dá-se lugar a insossos "bons dias"?…
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Quantas são as declarações tardias?
Quantas confissões guardadas no peito?
Quantas vezes não se tira proveito,
E dá-se lugar a insossos "bons dias"?
Há verdades que nunca são faladas,
Relações que a vergonha e o orgulho impedem;
Potenciais relações nunca iniciadas,
Olhares que se cruzam... e se perdem.
Coisas assim ocorrem diariamente,
Sentimentos reais sendo enterrados,
Suspeitos apegos sendo negados,
Paixões existindo secretamente.
Um coração que jamais se insinua,
Que enganando-se a bater continua.
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Baile das Sombras
Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui…
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Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui, me comprova ser totalmente compreensível uma abertura dessas para o mundo-outro, o outro-mundo… whatever…
Jamais sabemos o que pode estar nos esperando ao dobrarmos num corredor, ao abrir uma porta… De uma hora para outra, podemos cair num buraco do qual nem tivéramos notícias antes, ou então sermos puxados para algum recanto que também mal imaginávamos poder existir… Isso tudo tenho dado como possível de acontecer desde os últimos acontecimentos…
Finalizei minhas mais recentes anotações ao me deparar com batidas na minha porta… No quarto em que estava (concentrando-me em colocar no papel minhas impressões advindas dos fenômenos ocorridos nesse lugar), só podia pensar ser algum coabitante, outra presença, talvez, decidida a estabelecer contato e, quem sabe, me convidando para alguma conversa — coisa dificilmente vista no ambiente, devo ressaltar, longe de parecer desejada pelos presentes, ainda arredios pela recente chegada…
Aconteceu que não havia ninguém… vivalma alguma, no limiar de meu quarto, para me dizer o que quer fosse. O que eu entrevi ao olhar para os dois lados do corredor foi somente uma carta, quase sob os meus pés, mas chamativa o suficiente para me fazer pensar no porquê da pessoa que a deixara ali não ficar para me entregar em mãos… Situação no mínimo enigmática.
E qual não foi minha reação ao ver o remetente da carta: Drácula! Sim, o próprio, era quem aparentemente assinava... Ao menos, era o que eu não podia duvidar, tendo passado por todas aquelas situações vivenciadas até então, com fumaça nos corredores, presenças semifantasmagóricas no local…
Era um convite, me convocando para um baile no salão principal do Castelo; havia até a indicação de roupa formal para o “evento”, a qual eu encontraria, já à disposição, no armário do meu quarto. Ou seja: pensei estar passando por algo planejado antes mesmo de minha chegada! (em algum filme eu devo ter visto isso: convidados chegando inesperadamente, encontrando-se com outros desconhecidos, todos eles sendo, de uma hora para outra, chamados para igual confraternização… O jeito como isso acabava que não lembro de ser sempre boa coisa).
Enfim… me vesti, da maneira que achava mais confortável (pois, de fato, não sendo muito chegado a festejos, gosto no mínimo de me arrumar de modo que me sinta satisfeito dentro de alguma roupa de ocasião), e dei outra olhada naquele cartão deixado no sopé da porta. Li mais uma vez a parte em que dizia estar programado o fim do baile pontualmente às 3h da manhã… Ora! mais essa! Chegando às sete da noite, o desfecho seria nesse horário da madrugada, que, pelo que eu saiba, tem simbologias fortes e dizem ser o momento de maior ocorrência de fenômenos paranormais… Juro que estava empolgado, mas lá, no fundo, temendo algo do desconhecido…
Tudo no mesmo dia, tudo ocorrendo como se eu fizesse parte de algum jogo, fora do meu controle… Minha apreensão era do tamanho da minha curiosidade; ainda que não fossem muito claras as intenções para aquele convite, eu não tinha como não sentir certa “honra”, certa disposição positiva para fazer presença nesse baile que, a meu ver, tinha tudo para ser como eu imaginava: um salão suntuoso, repleto de mesas, lustres enormes, cristais… Mas entre todas essas divagações acerca do que haveria ou não no evento, o que mais me inquietava era saber sobre os outros convidados… Quem estaria lá? Será que outros membros do Castelo? Gente de fora?... Por conta disso, finalizei o trato do meu traje e parti, rumo ao salão principal.
Minha chegada ao salão foi do jeito mais peculiar que podia imaginar. Aproximando-me da majestosa entrada, ela parecia abrir de maneira voluntária, sem força aparente que a manipulasse… E qual não foi minha surpresa ao ver o que acontecia lá dentro: uma centena, quiçá milhares de pessoas (o que se via era uma nuvem de cabeças, de vestimentas e máscaras, impossibilitando meu olhar de enxergar a parede oposta de onde eu estava), a maioria trajada em vestes escuras, de rosto coberto, encarando umas às outras, de maneira que adivinhei casais confabulando entre si, amizades sendo feitas… Em razão do uso solicitado de máscaras, senti-me aliviado, pois, de outro modo, alguém teria certamente visto meu semblante impressionado e, também, assustado diante de toda a pompa…
Enquanto ensaiava uns tímidos passos em direção à mesa mais próxima, onde percebia um recoberto prato de refeições, fui interrompido… Uma mulher, um pouco maior que eu, completamente envolta em sua luxuosa indumentária (tão escura que fazia eu perder a perspectiva de seu corpo, perto de mim), estendia-me uma das mãos… Minha presença ali, que já parecia involuntária, agora estava totalmente ao dispor dos estímulos exteriores; sendo assim, sem demora, tudo o que lembro foi estender meu braço e me deixar guiar por aquela dama — sem saber seu nome, seu rosto, sem um pingo de consciência sobre quem me arrastava agora para o meio do salão…
Vou escrevendo na medida em que me recordo dos últimos acontecimentos no baile; pois, estranhamente, depois de me ver guiado por essa mulher, as imagens que me vêm à memória são de uma completa estranheza (pelo menos, da maneira com que me lembro).
Abrindo espaço entre as pessoas que nos rodeavam — todas de máscara, com taças na mão, misteriosamente encarando-nos dos pés à cabeça, sem esboçar outra reação —, fui percebendo que estava começando a soar uma música, sutilmente chegando de algum canto do salão e ambientando o lugar. Escondendo meu rosto por trás daquela máscara, mas ainda assim receoso de levantar o olhar e me deparar com algo além das minhas capacidades humanas, minha companheira desconhecida subitamente estacou o passo. Arranjando-me uma das minhas mãos ao redor de suas costas, com a outra eu maquinalmente suspendendo uma das mãos dela (recordo neste instante o contato com seus dedos, graciosos e gélidos dedos), nós iniciamos a dança…
Não tendo ideia alguma de onde eu poderia ter aprendido aquilo, simplesmente lembro de conseguir acompanhar minha parceira da noite. Seus leves movimentos de quadril e pernas, no ritmo da música que tocava, eram seguidos dos meus, nada estabanados, todos dando um prosseguimento digno e, diria, primoroso ao ritmo da dança.
A todo momento, quando nossos olhares pareciam se alinhar, eu tentava observar em meio àquela máscara dourada os olhos de minha enigmática companheira. Rapidamente, sempre que isso eu ansiava, ela baixava o olhar, e logo em seguida me envolvia em sua espiralada dança. Também a música, nesses momentos, parecia conspirar contra a minha vontade de adivinhar a identidade de quem me acompanhava, e sucessivos foram os períodos em que uma agitação tomava conta do salão, impossibilitando de vez qualquer iniciativa de estabelecer contato visual ou vocabular com ela…
A noite foi passada assim, literalmente assim… dançando, girando, contemplando os pares que surgiam ao redor de nós e se abraçavam, repetindo os movimentos de nossa dupla… ninguém, absolutamente ninguém eu pude perceber fazer outra coisa que não fosse dançar, rodopiar naquele salão e contribuir com o brilho de sua máscara dourada para o reflexo quase entorpecedor de luzes e mais luzes…
Tenho a absoluta certeza de que, desde o primeiro minuto em que coloquei os pés dentro daquele baile, nada mais fiz a não ser me ver dominado pela decisão daquela estranha e atraente mulher de me guiar para a dança. Levado como fui por suas mãos — aquele toque que ainda agora sinto roçar em meus braços, preenchendo meu corpo com frígida sensação —, somente lembro de ficarmos juntos, perdidos nas horas em que acontecia o evento e sem nos preocuparmos com mais nada. Nem mesmo a comida, que quase eu descobrira ao adentrar no salão, eu pude saber qual era… Cardápio nenhum passou por meus olhos e boca… Absolutamente nada foi o que eu fiz e descobri — além de me ver capaz de empreender alguns passos de dança, bailando junto de alguém cujo nome não tenho ciência, e me deparar sobre a minha cama, nesse meu quarto do Castelo Drácula (que leva o ilustre nome de quem assinava o convite, mas de quem não tenho lembranças de ter avistado durante a noite), após o que parecia soar como um aviso de que havíamos chegado, talvez, às 3 horas da manhã, horário final da festa…
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Dobrado, na sarjeta cinza e úmida
Jazia o corpo: inerte, a sós… De ação
Em volta, apenas olhos, viaturas;
No ar, a curiosa exclamação:
“Coragem pra saltar daquela altura!”
Diziam, como se a motivação
Daquela agora morta “criatura”
Passasse por igual preocupação…
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Vagando qual anônimo indigente —,
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De viés, sutil, no canto da avenida, | Entre os gritos e a pressa dos passantes, | Vê-se a figura triste, e num instante | Ela desaparece, na surdina…
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De viés, sutil, no canto da avenida,
Entre os gritos e a pressa dos passantes,
Vê-se a figura triste, e num instante
Ela desaparece, na surdina.
Corre junto à calçada, sempre avante;
Qual fuga de um ladrão, vai rua acima;
Detém-se então cansado; numa esquina
Tem agitado o peito, angustiante.
Resulta ali a dor de tantos dias,
A decisão que teve agora, enfim,
Depois de resistir por tantas vezes...
Não quis nem optar por outras vias:
Subiu no prédio… acaba tudo assim,
Com trinta e poucos anos e alguns meses.
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Melancolicamente, ele saiu...
Precisava comer alguma coisa…
Achou um bar, entrou... sussurrou: "moça,
Por favor… meu estômago vazio...
Faz dias que eu não como... nem me mexo...
É como se uma sombra me impedisse,
Como se um ser maligno em casa eu visse,
E me dissesse que comer não devo..."
A mulher o escutava com assombro,
E ao fim daquela inusitada história
Entregou a ele um pouco de comida;
Ao vê-lo sair, estranhou seus ombros...
A postura inclinada de suas costas
Era a de alguém pisado pela vida…
Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…