Palidez
A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos, a doce e sedutora voz do Conde reverbera em meu inconsciente, bem como as notas tocadas por aquela fúnebre orquestra.
As vagas lembranças eram confusas, a dança, o jantar, aquela versão obscura do castelo, por mais estranho que fosse, queria estar lá novamente. Continuo deitada em meus aposentos numa majestosa cama, feita de madeira sólida, ela ocupava grande parte do quarto. Elevo meus olhos e noto uma cabeceira imponente em mogno, esculpida à mão, com adornos que eram um verdadeiro deleite.
A cômoda ainda trazia um aconchegante estofado, em tons de roxo, diria que o anfitrião me conhece muito bem, pois esse tecido me remete a um passado quase esquecido. Fecho os olhos e deslizo suavemente meus dedos ainda manchados da última refeição, sentindo toda maciez do tecido, deixando escapar dos meus lábios escarlates tímidos sorrisos.
Sem perceber, sou conduzida para épocas felizes, quando ainda criança, meus pais me cobriam com uma manta de veludo verde musgo, nos dias chuvosos, lembro-me do doce cantar entoado pela minha mãe, quando os intensos relâmpagos invadiam meu quarto, sua voz me acalmava e me fazia dormir. Se eu buscasse nas profundezas do meu subconsciente, ainda conseguia ouvir o sussurrar amoroso, desejando um boa noite, deixando seu inconfundível sutil aroma de rosas.
Por breves segundos, voltei a ser a inocente Rose, cujas únicas preocupações eram: ser uma boa filha, brincar e tirar boas notas. Mas, ao abrir meus olhos inundados de nostalgia, vejo os brilhantes cristais presentes em um lindo lustre feito de ferro fundido, um lembrete de que ainda estou aqui, percebo também que ainda era dia, pois a luz rastejava pela fresta da enorme cortina, (que também era de veludo) em tom de roxo, escondo-me atrás da cabeceira e espero o anoitecer.
Sem demora, ela chegou, a encantadora noite, me levanto com leveza. Caminho para a imensa janela, abro-a e sou banhada pelo cálido luar, em seguida, sinto o toque gélido da noite em meu rosto e meus cachos dançam com o soprar noturno.
Vejo que, ao lado da cama, há uma cadeira vitoriana com minhas roupas dobradas, talvez tenha sido o mordomo; em frente à cama se encontra uma lindíssima banheira vitoriana e, à sua direita, uma pia esculpida em porcelana branca que parece ser do século XIX, com detalhes em dourado.
Meu tempo é escasso, então, limpo meu rosto assim como algumas partes do meu corpo, sinto-me renovada com o toque da água gélida, só então troco de roupa, e torno a ficar em frente à janela.
Não sei ao certo, mas havia algo sombrio nos arredores do castelo, um medo irreal percorre cada centímetro do meu corpo, o terror se manifestar através de arrepios, vislumbro o céu com poucas nuvens, onde as estrelas ostentam um brilho nunca visto antes, a lua está em sua mais bela forma, imponente e cheia, minha atenção se volta para o horizonte, é possível contemplar inúmeras montanhas altíssimas, já outras menores, porém, todas brilhavam horrivelmente com o luar, e a vegetação presente nos picos das montanhas adquiriram um verde neon.
Uma visão arrebatadora, meus olhos seguem perambulando na escuridão, me deparo com vegetações mais rasteiras, e também alguns arbustos, mais abaixo, vejo algumas estradas serpenteando para diferentes direções, absorta, é quando vislumbro algo aterrador, em meio àquela escuridão, surge um denso nevoeiro, fazendo com que pouco a pouco as montanhas, estradas e vegetações desaparecessem em meio à neblina.
Entretanto, não era um simples nevoeiro, eu estava prestes a testemunhar a materialização do desconhecido, nossa ínfima mente não está preparada para tal visão, conforme ela se movia, pude ver uma espécie de galhos longos e esbranquiçados, alcançando alturas inimagináveis.
Absorta, vejo o nevoeiro ultrapassar os altos muros do castelo, fecho a janela pois, ele se aproxima, meu colo palpita descompassado, senti a mesma sensação ao tocar aquele funesto livro confeccionado em pele humana.
Enrolo meus cachos com os dedos frenéticos, e começo a lembrar de algo terrífico; na segunda página do livro, dividindo a folha com outros símbolos e frases, havia um desenho que ocupava uma boa parte da folha, eram longos ramos brancos, o horror ancestral corrói minhas entranhas, meus olhos continuam tragados pelo desconhecido, pouco a pouco me torno nívea.
Já não é mais possível ver as montanhas e vegetações, nem mesmo o brilho da lua, apenas o mover dos brancos galhos na imensidão do céu, ouço passos temerosos subindo e descendo as escadas do castelo, ouço sussurros que se perdem pelos corredores, aquele quarto se torna sufocante, preciso ir novamente à biblioteca.
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Lúgubre
Por mais que eu tivesse anseios em sair de lá, sabia que minha alma pertencia àquele lugar tenebroso onde o odor escarlate emanava de cada puído tijolo…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Por mais que eu tivesse anseios em sair de lá, sabia que minha alma pertencia àquele lugar tenebroso onde o odor escarlate emanava de cada puído tijolo, onde a escuridão chegava a ser tangível.
Após o empurrão, me afastei do salão principal, mas permaneci estática diante daquela figura horrífica, enquanto os musicistas dedilhavam seus dedos sangrentos sob as cordas de aço do violino que lamentava a cada acorde tocado.
— Senhorita! Perdoe minha indelicadeza, permita-me recomeçar por favor, meu nome é Conde Nickollas, disse ele, seus lábios moviam com elegância, e os olhos azuis, apesar de vazios, iluminaram aquele pálido rosto, as maçãs do rosto eram protuberantes, seus lábios sedutores eram um convite à luxúria, emoldurando seu fino rosto. Cabelos lisos, penteados para trás em tons castanhos, ele se portava como um verdadeiro lord, seu vocabulário era riquíssimo.
— Me chamo Rose — minha voz soou trêmula como um sussurro, ele me convida novamente para dançar, aceito seu convite. Enquanto caminhava, o imenso salão tornou-se vazio, tal qual numa dança nupcial, o que causou desconforto, pois era uma lembrança dolorosa, não sei como sobrevivi àquele casamento... foram anos terríveis ao lado daquele crápula, ainda carrego marcas, imersa naquele poço lamacento de lembranças. Ele me conduz de forma gentil, assim como fizera mais cedo.
Meus cachos ruivos bailam no ar, ao som daquele nefasto quarteto de cordas que agora executava a fúnebre peça de Bach: Toccata and Fugue. Enquanto bailo, questiono minha sanidade, tudo isto é real? Quem será o dono deste colossal castelo? O castelo é real? Devo estar em algum sonho, ou em alguma realidade paralela. Meu par, percebeu minha inquietação, envolveu seus braços em volta da minha cintura, sorriu e disse: — Senhorita Rose, o que lhe aflige? — Meu busto palpitava, olho em volta, sinto a volúpia através das máscaras, sussurros se intercalam com sorrisos.
— Não há o que temer... — em seguida ele sorriu, então, vislumbrei o que seus lábios de seda escondiam, eram caninos pontiagudos brilhantes. Desviar o olhar se tornou uma árdua tarefa.
Uma leve vertigem apoderou-se de mim, disse-lhe que não me sentia bem, então fomos em direção a uma das inúmeras janelas. Chegando lá, fomos agraciados com uma túrgida e lânguida lua, brilhava soberana sob a temível escuridão. Fui arrebatada por aquela visão, fui tomada por um inominável terror, mas não consegui emitir nenhum som. Ao abri a janela, uma impetuosa lufada de vento nos abraça, se não fosse a rapidez do meu par, estaria ao chão.
Olhando em meus olhos ele disse: — Notei que você está fraca, suponho que esteja faminta, vamos alimente-se. — Ele, então, ergueu seu punho sob a luz do lúgubre luar, era possível ouvir o pulsar de suas veias, sem pensar, cravo minhas presas com vigor em seu braço, sinto o rasgar de sua pele, e finalmente vejo a vida escorrendo do braço, o líquido viscoso e amargo desce por minha garganta, estava faminta, por mais que o gosto fosse repulsivo, eu precisava.
Espasmos percorriam meu corpo, acompanhados de gemidos inaudíveis, meus lábios e busto estavam manchados de escarlate, assim como meu lindo vestido.
Experimentei um profundo torpor, foi mais devastador do que a primeira vez, olhei ele e agradeci, após isto, sucumbi em seus braços.
Acordei nos meus aposentos com uma forte dor de cabeça e náuseas. Eu ainda estava de vestido, o vestido com manchas escarlate, e aquele estranho gosto na boca. Pouquíssimo me recordo da noite anterior, então permaneço deitada e tento entender o que ocorrera.
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Convite
Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o silêncio daquele lugar, causando sutis arrepios, em determinada hora, os passos cessam, pela minha visão periférica enxergo debilmente uma figura, ela traz consigo um castiçal contendo uma vela a qual projeta, sob o piso de pedra, dançantes sombras; ao virar, me deparo com uma figura trajando um manto sombrio e, após um comprimento formal, a figura estende uma das mãos, revelando um envelope rubro, se esvaindo na escuridão, deixando-me sozinha novamente.
Abro o envelope com cautela, meus olhos quase saltam da órbita. Escrito em letras douradas, no papel de mesmo tom rubro, um convite para um exuberante baile de máscaras; tal ideia me encanta, pois, sonho com este momento desde criança, leio com atenção as instruções, assim como a localização dos meus aposentos, bem como meus trajes.
Eufórica, imaginei-me rodopiando com algum deslumbrante vestido, animada, guardei o convite na jaqueta, respiro profundamente, e ele ainda está lá, o livro clama por mim, creio que terei tempo de vê-lo, mesmo que rapidamente. Volto-me para o livro, deslizo suavemente meus dedos sob a repugnante superfície daquele puído e grandioso exemplar, deixando resíduos debaixo das minhas unhas. Havia um símbolo em sua capa, vejam bem, apesar de nova, sou bastante curiosa em relação ao oculto, consumi alguns livros sobre o assunto, mas esse símbolo me causa certa estranheza, nunca vi nada igual, e se encontra severamente devorado pelo infindável tempo.
Ao abri-ló me deparo com uma série de funestos símbolos e fragmentos de textos, escritos em uma língua desconhecida, tão antiga quanto a existência. O odor ferruginoso salta no ar, fazendo-me salivar, meu colo pulsa fortemente, deixo escapar de meus lábios uma leve excitação, “preciso me controlar” digo a mim mesma, fecho o livro, e vou em direção aos meus aposentos, pois tenho um baile a ir.
Conforme eu caminhava, ouvia conversas e sussurros, alguém caminhava com graça sob saltos altos, escuto um ansioso respirar, notei algumas fragrâncias como sândalo, outras mais cítricas, cheguei até meu quarto e abri a porta. Meu coração, então, disparou, acima dos lençóis perfeitamente arrumados, encontrava-se meus trajes. Sem dúvida o anfitrião me conhecia, era um estupendo vestido longo renascentista, todo trabalhado no cetim roxo, adornos em rendas pretas abrilhantaram ainda mais a peça, por fim, uma encantadora máscara, feita inteiramente com rendas douradas e roxas.
Devidamente vestida, me dirigi com rapidez para o salão principal, meu colo batia descompassado, segui com mãos gélidas. Após atravessar um extenso corredor, me deparo com o salão principal, repleto de rostos desconhecidos, homens e mulheres trajando a mais pura elegância, todos exuberantes, tudo era maravilhoso, as máscaras deixavam tudo ainda mais misterioso.
Um quarteto de cordas tocava alegremente as quatro estações de Vivaldi, os acordes tocados eram um convite para bailar, meus olhos ainda contemplavam aquele belíssimo baile. Pouco a pouco os outros hospedes ocupam o enorme salão, meus olhos encontram uma estranha figura, ela se aproxima com leveza, muito cordial me oferece uma bebida em tom carmim, retribuo a gentileza, aceitando a taça dourada. Após erguê-la, sorvo de forma voraz, em seguida ele me conduz para o meio do salão, estende a mão direita e gentilmente me convida a dançar, ele trajava vestes negras, sua máscara do mesmo tom das vestes; seus olhos azuis me remetiam à horrenda noite em que experimentei o gosto amargo do sangue.
Após longos rodopios, encontrava-me em outro lugar onde a decadência reinava imponente, assemelhando a um sonho, o castelo estava em ruínas, todos os convidados assemelhavam a horrendas sombras bailando em celebração à depravação, a alegre canção que outrora preenchia o castelo fora substituída por notas fúnebres da sinfonia de Giuseppe Tartini, intitulada Devil’s Trill; a dança se tornou lascívia, com movimentos rápidos, meu estranhamento foi notado pelas criaturas, era possível ouvir sussurros maldosos através das sombrias máscaras. Soltei a mão do meu acompanhante e questionei o que estava acontecendo, mas ele gargalhou, senti o escárnio vindo dele.
Aproximou-se de mim e disse: “Você não pode fugir disto, é o seu destino! Entregue-se à escuridão”. Amedrontada, empurrei-o e tentei respirar, em vão, por mais medonho que fosse, ele tinha razão, pertenço à escuridão.
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Escarlate
Antes de adentrar ao castelo, contemplei por mais uma vez aquela monstruosidade arquitetônica. Dentre as janelas, gárgulas e torres, algo me chamava a atenção…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Antes de adentrar ao castelo, contemplei por mais uma vez aquela monstruosidade arquitetônica. Dentre as janelas, gárgulas e torres, algo me chamava a atenção, se tratava das belíssimas e grandiosas rosáceas, despertando em mim as mais profundas emoções. Elas traziam um tom escarlate bastante vívido e brilhante, o pálido luar deixava-as ainda mais lindas, como se a tinta usada para as pintar fosse sangue. Ainda absorta, me aproximei da aldrava e, ao tocá-la, senti meu peito palpitar em desassossego, meu colo inflava de ansiedade, era nítido que aquele lugar clamava por mim e eu por ele. Fechei os olhos e escutei sutis passos, e sussurros, até mesmo um leve passar de páginas, algum escritor ou escritora talvez, mas eu estava decidida a entrar.
Minhas trêmulas mãos abriram delicadamente a majestosa porta rúbea, o ranger dela ecoou castelo adentro. Fui recebida por uma cálida lufada que embaraçava meus cabelos. Eu estava completamente arrepiada, pois aquele ambiente me parecia familiar, contudo, eu tinha de ser cautelosa, pois não sabia quem eu iria encontrar.
Pois bem, resolvi andar lentamente admirando tudo e, de fato, sua fachada era imponente, mas nada se comparava ao interior, quão aprazível era admirar aquele teto altíssimo, imaginar cada pedra sendo erguida, paredes sendo construídas, a decoração era de muito bom gosto, algumas poltronas vitorianas em tons escuros, uma mesa enorme de jacarandá repleta de cadeiras de veludo roxas. Notei uma grande quantidade de pratos de porcelana branca e talheres de prata dispostos, havia também guardanapos e taças de cristal que brilhavam ao longo da mesa; preciso citar o notável candelabro de ferro fundido. Outros móveis compunham o castelo, senti-me uma mísera formiga diante daquele majestoso lugar.
Os anseios em descobrir quem era o anfitrião deste castelo e quem eram os demais inquilinos que perambulam neste colossal castelo, preenchiam minha mente, porém, estava temerosa, pois logo menos eu sentiria fome.
Distraída em meus devaneios, me deparei com uma determinada porta, igualmente linda, com adornos talhados a mão. Admirei com um certo fascínio e respirei fundo ao sentir a gélida maçaneta de prata. Com o coração disparado, abri a pesada porta de mogno. Diante de mim estava um enorme cômodo que me parecia ser uma descomunal biblioteca recheada de incontáveis livros, todos em capa de couro das mais variadas cores, perfeitamente organizados do tom mais claro ao tom mais escuro. A estante ocupava toda a extensão das paredes que mediam por volta de quatro metros de altura. Toda a marcenaria foi pintada no mesmo tom presente nas rosáceas. No centro, havia uma mesa redonda vitoriana coberta por um manto negro e de imediato recordei do notável fenômeno das mesas girantes, popularmente difundido na Europa durante o século XIX. Acima da mesa havia uma obra de numerosas páginas, ao me aproximar, percebi algo nefasto, pois sua capa parecia ser feita de pele humana, exalava um terrível odor pútrido, sua coloração também era desagradável, um misto de tons avermelhados com pinceladas de marrom. As páginas estavam puídas, as traças haviam devorado horrivelmente as laterais das páginas.
Quanto mais eu contemplava aquele livro, mais queria folheá-lo. Finalmente fui derrotada pela minha curiosidade, cheguei até a mesa e debrucei-me diante dele, um misto de excitação e pavor percorria minha pele. Ao tocá-lo constatei que realmente era pele humana, eu estava prestes a abri-lo quando ouvi um ranger vindo da porta, alguém acabara de adentrar na biblioteca, paralisada, sinto a brisa soturna acariciar minha nuca, pergunto para mim mesma quem será? Ou... o que será?
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Rose
Caminhava eu, cautelosamente, sobre os paralelepípedos ainda úmidos da decrepita rua. Se tratava de um trajeto bastante íngreme…
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Caminhava eu, cautelosamente, sobre os paralelepípedos ainda úmidos da decrepita rua. Se tratava de um trajeto bastante íngreme. Notei, também, a presença de limo por todo o percurso que era iluminado por puídos postes, emissores de uma oscilante luz em tons de amarelo.
Era uma plácida e refrescante noite de outono, eu trajava uma blusa verde musgo, calças e botas pretas, além de uma jaqueta jeans azul marinho, roupas que foram maculadas e manchadas de escarlate, assim como minha alma. O gosto ferruginoso permanecia na minha língua. Afasto meus cachos ruivos que insistiam em cair sobre minha pálida testa, vislumbro o firmamento, onde a tímida lua minguante brilhava palidamente por detrás das nuvens pintadas de grafite, a sutil brisa noturna passara por mim, quase imperceptivelmente, espalhando o pútrido lixo por toda a extensão da rua, proveniente de sacos rasgados por gatos arteiros.
Enquanto meus olhos passeiam pela noite, meus aguçados ouvidos escutam sons familiares, como risadas de crianças, conversas, e até mesmo o fechar de portas. Conforme eu caminho, sinto um cheiro que me faz parar, era um apetitoso jantar, um pernil assado com batatas coradas, servidos com arroz de especiarias. Por mais suculento que fosse, deixou-me enjoada, então, apoiei os braços em meus joelhos, respirei e andei o mais rápido possível.
Nunca desejei tal destino, tudo o que eu queria era seguir minha vida tranquila, porém, meus planos e sonhos foram usurpados por aqueles belos e vazios par de olhos. Enquanto caminho mergulhada em uma espécie de catalepsia, penso o quão fui tola em aceitar o convite para aquela festa, praguejo a mim mesma, imersa em pensamentos sombrios, sinto a culpa me consumindo como um verme de insaciável fome. Então me deparo com o final da rua, porém, algo me perturba, elevo meus olhos e noto uma imensa ladeira bastante íngreme. Instigada pela minha curiosidade, início mais uma jornada.
A rua era completamente diferente da outra, a ausência de casas me chamou a atenção, como se fosse um caminho para o desconhecido, ela assemelhava-se a um verdadeiro conto horrífico. Notei, também, que ela era feita de terra, ornamentadas de grandiosos pinheiros, ocupando toda a extensão, formando um interminável túnel, impedindo, assim, que o lânguido luar iluminasse aquele lugar. Seria um caminho que a grande maioria evitaria, devido a sua atmosfera soturna, mas algo dentro das minhas entranhas clamava para que eu caminhasse por aquelas terras, e assim segui. Em determinado trecho, percebi que o soprar do vento se tornou mais intenso, trazendo um cheiro pungente, inspirei, um forte arrepio abraça meu corpo, sentia em minhas entranhas que precisava chegar ao final da rua. Enquanto isso, as árvores bailavam ao som de uma canção desconhecida, o som dos galhos reverberava na escuridão. Novamente me encontro refém dos meus pensamentos, ao olhar para traz, vejo a rua desaparecendo, sendo tragada pela escuridão. Ando mais alguns metros, mas paro imediatamente, eis que vejo uma construção magnifica, um colossal castelo, com os mais belos adornos presentes na arquitetura gótica, meus olhos não alcançam o cume, os vitrais brilham lindamente na escuridão. Em êxtase, subo alguns degraus empoeirados e sou recebida pela imensa porta de madeira, em tons brilhantes de escarlate, por fim, uma grande aldrava de ferro fundido completa aquela obra de arte.
— Será que ouso bater na porta?
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A Escultura
Carlos sempre flertava com a ideia de viver uma vida simples, sem muitas preocupações, de preferência numa…
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Carlos sempre flertava com a ideia de viver uma vida simples, sem muitas preocupações, de preferência numa cidade pequena. Como de costume, ele acordou cedo para comprar jornal na banca próxima a sua casa e, ao folheá-lo, se deparou com um anúncio na parte dos classificados, era o convite que ele estava esperando. Tratava-se de um incrível chalé em frente à praia, numa pequena e charmosa vila pesqueira. Um singelo sorriso surgiu de seus lábios enquanto guardava o jornal.
Certo dia, ele resolveu conhecer o lugar, reservou o chalé por um final de semana e se apaixonou imediatamente, tudo era encantador, a sala ampla, um sofá aconchegante, uma cozinha bem planejada e bastante arejada, a poltrona de balaço feita de palha na varada, o quarto com uma janela linda de madeira, e abaixo da janela, uma confortável cama feita de madeira. Tivera uma estadia fantástica, deixou a vila com saudades.
Anos se passaram e Carlos desejara voltar à vila, mas, desta vez ele queria se mudar, todos diziam que era uma loucura, preocupados em como ele iria se sustentar. Mesmo assim, contra todos os conselhos, ele planejou tudo escondido, estava cansado daquela vida caótica da cidade. Programou-se, economizou e estava decidido a se mudar, não foi fácil, mas ele conseguiu, com muita paciência e dedicação ele finalmente foi morar na vila, foram tantos fins de tarde contemplando o belíssimo pôr do sol, ouvindo o som das calmas ondas beijarem os grãos quentes de areia, os siris buscando abrigo subterrâneo para proteger-se das ondas, porém nada se compara com a grandiosa e misteriosa falésia que, estendia-se por toda praia.
A principal fonte de renda da vila era a pesca, eram conhecidos por terem os mais belos exemplares de peixes, exportavam para todo o Brasil, ampliando, também, para mercado exterior. Foi justamente nesta peixeira que Carlos conseguiu um emprego, era um ambiente leve e tranquilo de se trabalhar. Não se importava com cheiro, ele estava feliz. Acordava animado, gastava por volta de dez minutos da sua casa ao trabalho. Às vezes ele acompanhava as embarcações que ancoravam no cais, trazendo a mercadoria, catalogava quantos peixes foram trazidos e quantos foram vendidos, as vezes ele fazia a limpeza dos peixes.
Por volta das 4 horas da tarde, ele retornava para sua casa, tomava banho acomodava-se em sua poltrona de palha, sempre na companhia de seu café, sentindo a brisa refrescante do mar tocar seu rosto, enquanto admirava o mar e sua imensidão. Estava gostando muito daquele lugar, o clima era agradável mesmo com o imponente sol, a noite era mais fresca e nos finais de semana, as crianças dominavam a pracinha e as ruas, podia-se ouvir as traquinagens e os chinelos batendo contra os paralelepípedos; milho assado, algodão doce e cachorro-quente eram vendidos ao lado da igreja, na praça.
Já nos dias da semana, era menos movimentado. Assim, Carlos vivera momentos felizes. Tinha um ótimo trabalho, ganhava bem e possuía o que ele mais buscava: qualidade de vida. Acordar, e dormir com aquele som das ondas quebrando à beira-mar, não tinha preço, mas aquela serena vila pesqueira escondia um segredo terrível.
Fora em uma noite, na taverna do local, que histórias horrendas atravessaram a mente de Carlos, levando a uma profunda impregnação em seu subconsciente. Aquela noite terrível naquela taverna fizera com que a visão poética que Carlos tinha sobre a vila, fosse fragmentada em micro pedacinhos, tal qual um cristal quebrado. Desde então, quando se encontrava apoiado com os cotovelos na moldura da janela, observando com olhar sereno a despedida das arrastadas noites, assistindo o firmamento receber gentis pinceladas em tons flamejantes e ouvindo ao longe o cantar dos pássaros que anunciam o início do dia, pois cruzam o céu de ponta a ponta, repousando seus corpos nas folhas dos inúmeros coqueiros dispostos por toda extensão da vila pesqueira, tudo não era mais como antes, mesmo com o mesmo cenário.
Sem demora, a inevitável luz matinal começara a surgir no horizonte trazendo o aprazível calor, ainda na janela, com aquele cenário. Carlos, então, bocejou. — “Essa insônia ainda vai acabar comigo!” — pensou enquanto esfregava seus olhos cansados, seguindo em direção ao banheiro. A passos vacilantes, desviou de algumas garrafas de bebidas, porém acabou tropeçando no lençol, o qual fora lançado ao chão. Finalmente chegou ao seu destino, viu-se no espelho, apático. Enxaguou seu rosto ornamentado pelas rugas, enquanto seus olhos castanhos desejavam deixar essa mísera existência. Penteou os poucos cabelos que lhe restavam, trocou de roupa, comeu metade de um pão adormecido, e foi trabalhar.
A silenciosa praia escutava os passos de Carlos, ele seguia caminhando em alerta, sob os grãos fumegantes de areia. A mão esquerda elevada à altura dos olhos, o protegiam debilmente do impiedoso sol. Ao chegar no trabalho, seus colegas se espantaram com sua fisionomia, seu rosto denunciava as noites de insônia. O vigor que outrora trazia, sumira do seu corpo, dando lugar a uma fadiga constante. Joaquim, preocupado com seu amigo, questionou o que estava acontecendo, Carlos explicou tudo o que sucedera, sobre as histórias assombrosas que ouvira na taverna, bem como os terríveis pesadelos constantes e, ao ouvir tudo aquilo, Joaquim paralisou por segundos e disse que era melhor que Carlos esquecesse tudo o que ouvira, pois, as histórias, por mais bizarras que fossem, tinham um fundo de verdade. E, de fato, por um tempo, e com esforço, Carlos conseguiu esquecê-las, no entanto, elas sempre rastejavam até a superfície, assombrando-o. Sua alma havia sido corrompida pelo desconhecido.
Novamente ele assistiu o doce amanhecer aquecer o dia e, mesmo exausto, foi trabalhar, pois, assim esquecia, por algumas horas, as lembranças. Ao chegar no trabalho, foi designado para receber uma grande carga e fazer as devidas anotações. O dia passara tão rápido que ele nem percebeu que a noite havia chegado, todos foram para suas casas, menos Carlos, pois o patrão confiava muito nele para aquele serviço. Ele, então, respirou fundo e pegou a caixa, foi recebido com uma baforada de odor pútrido, sentiu o gosto azedo do suco gástrico subir até a garganta, vislumbrou um peixe enorme, nunca visto antes, seus olhos esbugalhados eram vazios, exibiram um terror ancestral.
De suas escamas fluía uma secreção escorregadia ao toque e sua boca estava costurada com náilon, como se protegesse um terrível segredo. Era a exata cena das histórias que ouvira. Tonto, Carlos lutava para se manter de pé. As escamas brilhavam, estranhamente, em tons de azul fluorescente. Apesar de todo o horror, ele foi até o fim, queria descobrir a verdade. Após amolar sua faca, cortou o náilon, a criatura emitiu um gemido repugnante enquanto ele prosseguia, com as mãos tremulas, na incisão na criatura. O som da pele sendo dilacerada ecoava no silêncio. Carlos contemplou as escamas bailando no ar, com olhos perplexos ele finalizou o corte e fitou as vísceras espalhando-se sob a mesa.
Desta vez ele desmaiou. Quando pôde retomar a consciência, minutos depois, a cena grotesca permanecia ali. Ele apoiou suas mãos na mesa e notou algo nas entranhas da criatura, era uma estátua esverdeada, com mais ou menos 40 centímetros, ela era disforme, coberta por escama, ostentava inúmeras patas longas e arqueadas que ocupavam toda a extensão do corpo, por fim, múltiplos olhos complementam a escultura medonha. Carlos ergueu o nefasto objeto à altura dos olhos, os contornos pareciam ganhar vida, pensou ele ao admirar a escultura: — “Essa é justamente a representação da criatura que algumas pessoas desta vila maldita prestam culto”.
Antes de desmaiar pela segunda vez, ele a ergueu aos céus, suas mãos cobertas por vísceras, e suplicou por alguma intervenção divina, desabando em seguida naquele chão coberto por escamas e entranhas, desta vez, ele teve uma visão de eras remotas, onde o mundo era governado por seres multidimensionais, eles habitavam no espaço-tempo, e um desses seres era a temível escultura que acabara de ver, ela se locomovia com rapidez devido suas enormes patas, gerando gigantescos vórtices. Esse ser era de tamanho imensurável, seu corpo era repulsivo, gelatinoso e amorfo; seu brilho era assombroso. Aquela verdade era muito espetaculosa para a ínfima mente humana.
Carlos abriu seus olhos inertes após a súbita visão, seu corpo tremia compulsivamente e, enquanto ele balançava a cabeça em negação, gritou de forma gutural, chegando a ficar sem voz. Em seguida levantou-se ainda nauseante, enxergou a carnificina, viu, também, a maldita estátua e, tomado pela insanidade, ele ergueu a faca e extirpou seus olhos, ao mesmo tempo que gritos obscenos e risos histéricos eram ouvidos por toda vila. Seu corpo entrou em choque e despencou em meio às tripas.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…