10. Jardim da Morte: Na paz que a morte traz
O jardim estava envolto em uma tranquilidade quase palpável, o ar estava fresco e carregado do aroma que as flores exalavam. A mulher, que a cada dia trazia...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O jardim estava envolto em uma tranquilidade quase palpável, o ar estava fresco e carregado do aroma que as flores exalavam. A mulher, que a cada dia trazia mais vida àquele jardim e que agora se sentia em casa ali mais do que se sentira em vida, contemplava suas rosas negras. Foi então que a ceifadora apareceu, como sempre fazia, sem aviso, apenas emergindo das sombras com um sorriso misterioso nos lábios. Ela trazia consigo uma pequena cesta de vime, com diversas mudas ainda frescas.
— Trouxe algo para você. — Disse a ceifadora entregando a cesta à mulher.
Os olhos da mulher brilharam ao ver as mudas, não conseguiu segurar tamanha felicidade e sorriu. E isso se tornara mais comum agora. Ela olhou e não reconheceu algumas das flores, com folhas que eram de um verde profundo, e outras com pétalas de um vermelho sangue tão vibrantes.
— Onde você conseguiu essas belezas? — Perguntou curiosa.
— Com a jardineira do Castelo Drácula. — Respondeu a ceifadora com um leve aceno de cabeça. — Ela me deve alguns favores.
— Alguém nesse castelo não te deve algum favor? — Perguntou a mulher rindo.
— Escuta moça, o que posso fazer se sou uma pessoa muito requisitada. — Ela respondeu usando uma certa afetação na voz. — As pessoas me pedem favores, dessa forma me devem favores, simples.
— Entendi. — A mulher disse ainda rindo.
Sem perder tempo, a mulher se ajoelhou na terra macia e escolheu com cuidado os lugares onde plantar cada muda. Movia as mãos com delicadeza, plantando cada nova vida que ela iria cultivar naquele solo incomum. Enquanto trabalhava no jardim, a ceifadora ficou em silêncio, a observando, até que a mulher quebrou o silêncio, falando com suavidade.
— Sabe, eu encontrei paz no ócio. — Começou ela, seus olhos ainda fixos na terra enquanto plantava outra muda. — Mesmo que, de vez em quando, eu esteja aqui, no jardim cuidando das plantas, eu não vejo isso como um trabalho, não como via antes, em vida.
A ceifadora continuou em silêncio, esperando que a mulher continuasse.
— Antes de tudo isso. — Disse a mulher, se referindo a sua vida passada. — Eu tinha uma vida agitada. Não conseguia parar, eu precisava estar sempre fazendo algo, sempre produzindo. Parar para descansar era perigoso, porque se eu parasse, começava a ouvir minha própria voz na minha cabeça. — Ela fez uma pausa, sua expressão se tornou distante por um momento, como se estivesse revivendo memórias que havia tempo não visitava.
— Essa voz… — Parou tentando encontrar as palavras certas. — Ela insistia em me lembrar do quão sem propósito minha vida era, do quanto eu estava errada por ter virado as costas a Deus e à minha família por amor. Eu nunca me sentia como se estivesse fazendo o suficiente. Nunca.
A ceifadora escutava tudo com atenção, mas seu silêncio era de compreensão, permitindo à mulher um espaço seguro para ela desabafar.
— Aqui no jardim. — Continuou a mulher, agora plantando a última muda. — Eu sinto que estou experimentando uma vida de paz, mesmo que na morte. — Ela riu. — Parece meio complexo, mas a clareza que eu não tinha em vida, agora eu a possuo. E aquela voz, eu consegui silenciá-la. — Ela terminou de plantar e se sentou na terra ao lado das novas mudas, contemplando seu trabalho com um sorriso suave. — Não há mais aquela pressão incessante, aquele vazio que parecia sempre me consumir. Agora, eu só existo, e isso basta.
A ceifadora, ainda de pé ao lado dela, olhou para o jardim à sua frente, e contemplou toda a vida que a mulher havia trazido para aquele lugar.
— Você encontrou seu lugar. — Disse a ceifadora em voz baixa.
— Sim, e por mais estranho que pareça, estou feliz por ter encontrado essa paz na morte. — A mulher acenou com a cabeça.
A ceifadora deu um passo à frente e estendeu a mão para ajudar a mulher a se levantar.
A mulher aceitou a mão da ceifadora, levantando-se com leveza.
— Obrigada. — Sussurrou. — Então, o que vamos jogar hoje?
— Ah, sim! Hoje vamos jogar senet. — A ceifadora foi caminhando até a mesa, pegou sua maleta e tirou o tabuleiro de dentro.
— Nunca joguei esse.
— É fácil, um pouco parecido com um gamão. Existe a lenda de que, para sua alma ir para o paraíso, a pessoa deveria vencer Rá numa partida de senet. — A ceifadora falou com um tom de mistério na voz.
— Isso é sério?
— Talvez sim. — Disse a ceifadora enquanto separava as peças. — Mas duvido que você trocaria esse paraíso por outro que desconhece. — Ela sorriu, olhando para a mulher que retribui o sorriso. — Vamos começar.
A ceifadora sabia que, independentemente do que viesse a seguir, aquele jardim seria o lugar onde a mulher havia encontrado a paz que sempre buscou em vida e nada, nem ninguém, conseguiria mudar isso.
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Exploração
Pela primeira vez, em muitos dias, resolvi caminhar pelo ambiente exterior do castelo. Estranhamente animado, de alguma forma seguro após...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Pela primeira vez, em muitos dias, resolvi caminhar pelo ambiente exterior do castelo. Estranhamente animado, de alguma forma seguro após me deter na leitura e refletir sobre os escritos que chegam à minha mão (oriundos de quem me informa, involuntariamente, acerca do ambiente lá fora), me fiz levantar e partir desabalado pelas escadas do recinto.
Também penso que não tenho muito com o que me preocupar. De acordo com minhas próprias conclusões — e já tendo passado por experiências suprafantásticas aqui —, o simples fato de ser recebido de portas abertas, e sendo dispostas para mim toda sorte de atmosfera e meios para dar vazão ao meu estro criador, devo interpretar como convites para uma venturosa exploração…
Sobre aquele ainda marcante episódio fantasmagórico, em que me vi envolto nos braços de uma figura quase espectral, devo assumir que não me percebo mais completamente refém de algum sintoma… Pelo contrário, passado um longo período desde aquele ocorrido, parece até que fui vítima de algum delírio, alguma febre suscitada por demais imaginar o que se passa por aqui. É como se tivesse sonhado: ainda com memórias do acontecido, mas com dificuldades para expressar o fato… Se aquela mulher foi ou não, de fato, uma criação da minha mente, só me resta esperar…
Agora, o que me chamou bastante atenção durante essa minha fuga do lugar-comum, e que não posso negar que tenha seu pé na realidade, foi aquele capcioso silêncio… Melhor dizendo (para mais objetivamente me referir ao testemunho e não enganar meus próprios sentidos), notei uma quietude não observada antes, ao passar em frente a algumas salas cujos ocupantes eu já havia visto. Estranhei, pois considerava ali, atrás daquelas portas, a razão de tantos poemas, contos e outras criações que brotam e dão vida a esse castelo. Passando diante daqueles cômodos (que certamente serviam à intimidade dessas mentes criadoras), logo compreendi suas ausências, um vazio preenchido, agora, unicamente por suas obras, simbolicamente deixadas como lembranças de sua visita aqui…
*
Ameritt… Esse o nome daquela simpática senhora. Descendo as escadas do castelo, contornando o jardim que, da minha janela, eu sempre perscrutava com certo receio, apreensivo de ver algo inaudito, topei com ela. De costas para a parede, diante do que parecia alguma porta de acesso para algum lugar, tinha em suas mãos um besouro…
Estranho amigo. Vendo-me prender o olhar nela, pareceu proposital seu gesto de esticar os braços e fazer aquele inseto ir e vir, como se fosse domesticado. Achando-me talvez interessado em sua peça, ofereceu-me as mãos, algo que fiz naturalmente — por certo que depois de considerá-la alguém sem suspeitas.
Pois Ameritt, até então uma quieta senhora, eu já havia visto em outras ocasiões. Nas minhas andanças pelos corredores; saindo do quarto e indo em direção à sala principal; nas visitas à biblioteca, onde muitos dos textos são deixados… Via sempre a presença dela, aqui e ali fazendo um serviço de caseira, como o de alguém responsável pela organização do castelo — que, devo confessar, está sempre impecável, limpo e benquisto para qualquer dos sentidos.
Ainda que “deslizando” por ambientes pouco ou mais escuros, sua sombra nunca foi a de alguém devidamente ameaçadora, mas a de uma mulher reservada, que, desde minha chegada aqui, já tinha por potencial relação.
Aquele momento em que deixei seu besourinho subir em meus braços, começando a comichar e dar a sensação de algo risível, pareceu-me então uma prova de minhas suspeitas. Seu sorriso aberto, a luz alegre emanando de seus belos olhos — um anúncio de exuberante jovialidade, ainda existente —, aquele cruzar de braços como de quem convida para uma conversação… e então meu nome, saído de sua boca:
— Wallacebesin…
Minha surpresa com aquelas palavras (de onde ela sabia meu nome, com tanta segurança?) não foi maior do que a agradável sensação de parecer chamado de benzinho, vocativo tão macio e saudoso de minha terra…
Trocadas impressões, palpites do clima, gostos pessoais de cada um, logo nos descobrimos partilhar do amor natural, essa espécie de apreço pela fugacidade sensível da vida, a adoração das coisas inapreensíveis pelo tempo. Nossa conversa, como a de gente há muito conhecida, sem se preocupar com passado ou futuro, receios ou intenções, tomou parte tamanha daquela minha fuga, que mal percebia ter escurecido o céu ao meu redor. Do recanto em que nos via, apenas a parede se destacava, já iluminada pela lua sempre imperiosa da paisagem…
Ensaiando uma despedida, ao tocar gentilmente nas mãos de minha companheira de assunto, fui surpreendido por seu convite: queria saber se não aceitava uma refeição em suas dependências — escondida por aquela porta, atrás de sua forma esguia e acolhedora…
Sem querer parecer desconfiado, preferindo manter as impressões de alguém realmente admirado por descobrir uma parceira de conversa e, por que não, amiga, disse-lhe que ficava para uma próxima, tendo agora de me recolher para, sob um pequeno impulso, tentar terminar de escrever uma composição…
*
Assim, então, foi passado esse meu pequeno deslocamento: curto em extensão, enorme de surpresa. O “até mais” dito por mim para Ameritt, estou convicto, foi recebido como promessa. Tenho agora a esperança de, por meio dessa gentil senhora, descobrir as minúcias desse lugar, mesmo suas origens… Da próxima vez, caso a encontre, não recusarei igual convite. Se temo algo, apenas é a existência de não somente besouros entre seus amigos animais…
O carácter nada intimidador, aprazível daquela senhora, mostra-me também o aspecto cada vez mais determinante desse castelo, a confirmação de que tudo tende a ser, quase sempre, bastante diferente do imaginado — devendo ser, para tal descobrimento, explorado…
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Apertum Loculum
O homem ao qual me assemelhava não pronunciava sequer uma palavra, e também senti que ele não era dali; não me parecia que dividíamos a...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O homem ao qual me assemelhava não pronunciava sequer uma palavra, e também senti que ele não era dali; não me parecia que dividíamos a mesma pátria, não parecia ser um lusitano, mas tampouco eu me assemelhava ao povo da região em que nasci. Meus cabelos eram da cor do cobre e minha pele não curtia o sol, assim como acontecia com a maioria da população local. Sempre me queixava, no verão, da vermelhidão que surgia nas maçãs do meu rosto. Essas queixas foram sumindo com o passar do tempo, já que eu não me expunha mais ao sol com a mesma frequência; minha pele se assemelhava à branquitude arroxeada da pele dos cadáveres. Naquela ocasião, o homem continuava a me ordenar em pensamento, e eu não tinha como recusar suas ordens; tinha que segui-lo. Ao anoitecer, nos retiramos da tumba do cemitério e caminhamos até o Porto da Figueira da Foz, numa velocidade que nenhum mero mortal seria capaz de acompanhar.
Chegando à localidade, percebi que um grande navio estava atracado no cais. Era um navio diferenciado, nunca havia visto nada semelhante em toda a minha vida; o navio era de uma cor que alternava entre o cinza chumbo e o verde musgo, e nele havia um nome estampado em branco: “Ilona”. O homem de cabelos negros me ordenou que entrasse no navio, e, mesmo temendo ser barrado por estar maltrapilho, como um pedinte da região, nada aconteceu quando cruzei do cais para a entrada do navio. Reparei que os marujos que guardavam o navio eram tão esquisitos quanto eu e a figura do homem de cabelos escuros. No navio, sequer nos comunicávamos verbalmente; as ordens chegavam por pensamentos. No entanto, eu não conseguia decifrar o que era dito pelo homem misterioso e pelos marujos, só pude acompanhar o aceno de cabeça que faziam e a liberação dos espaços que o homem me guiava a acessar junto com ele.
Cheguei a um compartimento luxuoso do navio, que ficava no segundo andar. O local era grande, forrado em madeira e veludo, e, dentro dessa espécie de quarto, havia três caixões. A maioria dos caixões era ornada com plantas, roseiras vermelhas com muitos espinhos. O homem misterioso pronunciou duas palavras em um idioma antigo, que pelo pouco conhecimento linguístico que eu tinha, me pareceu latim. Então, os três caixões se abriram prontamente após o homem pronunciar as palavras mágicas, e ele ordenou, em pensamento, que eu escolhesse um dos três caixões para passar o turno diurno. Segui minha intuição e me deitei no caixão que estava no meio do quarto.
Após me deitar, quase que imediatamente, uma poça de terra começou a me cobrir. Tentei fugir, receoso de que aquilo me soterrasse, porém, o homem invadiu minha mente e me intuiu de que aquilo era para o meu próprio bem. Caí em sono profundo logo após a terra me cobrir, deixando apenas meu rosto exposto. Na noite seguinte, despertei renovado, como se tivesse nascido de novo. O homem me convidou mentalmente para um banquete que aconteceria em outro cômodo do navio. Ao chegar ao que imaginei ser uma espécie de sala de jantar, também ornada com veludo vermelho e madeira, percebi que havia panelas e utensílios de jantar nos aguardando. Por um momento, pensei que, se servissem comida comum, eu não teria fome. Quase como se adivinhasse meus pensamentos, um dos serviçais do navio começou a destampar as panelas, e observei que nelas havia uma espécie de caldos avermelhados que banhavam partes que pareciam ser membros de corpos humanos. Apenas em uma única panela, que parecia ser de barro, serviam um caldo verde que parecia banhar todo tipo de espécie de insetos.
Conosco à mesa estavam o homem de cabelos escuros, um dos marujos, que parecia ser o capitão do navio, e outro marujo de aparência semelhante. Ninguém conversava enquanto éramos servidos por um dos serviçais. Eu e o homem misterioso nos alimentávamos do caldo avermelhado e dos membros humanos, enquanto os outros dois marujos se serviam do caldo verde da panela de barro, recheado de variados insetos. Após a refeição, tentei ir a outras partes do navio para apreciar a vista, mas não por muito tempo. Fui interrompido em meu livre-arbítrio pelas ordens que meu Senhor infiltrava em minha mente, inclusive ordenando-me que me alimentasse novamente na sala de jantar. Ele também me intuiu a conhecer uma espécie de biblioteca e a ler alguns tomos de pergaminhos que me ensinavam a língua que eu ouvira quando ele pronunciou as palavras para abrir meu caixão, possivelmente o latim. Ao dormir, o homem de cabelos negros me acompanhou até o quarto onde estava o caixão em que eu dormira na noite anterior e, desta vez, calmamente, ele pronunciou para que eu entendesse: "Apertum Loculum!". Imediatamente, o caixão do meio se abriu, e eu repeti o mesmo ritual de adormecer com a terra me cobrindo, como no dia anterior.
Por sete dias (ou sete noites), minha rotina seguiu quase a mesma: duas boas refeições do caldo avermelhado (que agora eu já tinha mais certeza ser composto de sangue humano e de partes de membros de corpos humanos), ler tomos de pergaminhos em línguas diversas, como o latim e o grego, e abrir autonomamente o caixão que escolhi como cama, o qual me revitalizava a cada alvorecer. Na noite do sétimo dia, atracamos em uma espécie de cais, porém de porte reduzido em comparação ao de Porto da Figueira da Foz. Imaginei estar em um local bem distante de Portugal, mas não soube mensurar o quão longe, apenas pelos dias que se passaram. O homem misterioso me intuíra durante toda a viagem a desenvolver novas habilidades, uma delas sendo o conhecimento de novos idiomas. No entanto, ele nunca explicava por que eu precisaria dessas habilidades (exceto a função de abrir meu próprio caixão para garantir meu merecido descanso diário). Ao chegarmos, deparei-me com uma placa que indicava o nome “Constanta”. Apesar de todo o aprendizado em novas línguas, aquele nome não fazia sentido para mim.
Após desembarcarmos, quatro dos serviçais do navio trouxeram o que identifiquei como o caixão que eu havia escolhido para dormir, além de outro, e os despacharam na carruagem que nos aguardava. Na carruagem, um homem de aparência muito semelhante à dos marujos e serviçais do navio já nos esperava. O homem de cabelos negros mais uma vez verbalizou: “Apertum Loculum!”, e a porta da carruagem se abriu sozinha. Adentramos a carruagem e seguimos pela estrada afora por volta de quatro horas, até que paramos próximo ao que eu havia lido como “Pitești”. Paramos em frente a um grande, sombrio e pomposo castelo.
Rodeamos o castelo, e o homem de cabelos negros decidiu que entraríamos pelos fundos. Lá havia um portão de ouro envelhecido, ornado pela mesma roseira vermelha com espinhos que adornava o meu caixão e o do homem misterioso. O portão parecia ser feito do mesmo tipo de madeira, e sobre ele pousavam borboletas de marfim. Embora o portão parecesse belo, também emanava um ar sombrio, que combinava com a atmosfera do castelo. Era iluminado apenas por um lampião. Ao adentrar o portão, por ordem mental do meu Senhor, após ele pronunciar a expressão "Apertum Loculum!" e o portão se abrir sozinho, percebi que havia várias entradas que pareciam dar acesso a calabouços. Seguimos por um caminho reto e entramos na última entrada.
O homem me deixou em um local que parecia ser uma grande cozinha. Após alguns minutos, ele desapareceu, mas não me ordenou nada, e eu me senti à vontade naquele ambiente solitário.
Minha curiosidade se aguçou ao observar que, ao mesmo tempo que o local parecia uma cozinha, também lembrava um laboratório exótico. Havia ali panelas, artefatos de cozinha, tubos de ensaio, uma tabela na parede descrevendo várias espécies de insetos — muitos deles besouros e afins —, além de muitas ervas penduradas. Logo depois, surgiu pela entrada uma mulher que parecia ser uma anciã, com vestes pretas e vermelhas e um castiçal na mão, para iluminar melhor o ambiente, visto que havia apenas dois castiçais no espaço. Dada a grandeza do local, eles não eram suficientes para iluminá-lo devidamente, caso ela fosse a pessoa designada a trabalhar ali.
De todo o trajeto, do cemitério em Coimbra até ali, Ameritt foi a única pessoa com quem dialoguei. Não entendia por que o homem e seus serviçais não faziam contato verbal, mas com Ameritt foi diferente. Ela logo entrou na cozinha, se apresentou e perguntou como eu me chamava. Ao me apresentar, ela me apelidou, chamando-me de "Filipe-besin". Além do diálogo que me faltava, o senso de humor, que também já não me restava, veio à tona naquele momento, e imediatamente um sorriso surgiu no meu rosto ao ouvir a forma como a anciã pronunciava "Filipe-besin".
Em uma rápida conversa, ela me explicou que sua função ali era preparar o alimento de todos os hóspedes e serviçais do castelo. No entanto, assim como no navio, notei que os hóspedes, assim como eu e o homem misterioso, se alimentavam do caldo avermelhado e de membros de corpos humanos. De fato, em um dos calabouços havia uma espécie de câmara frigorífica onde muitos corpos mortais congelados eram armazenados, e Ameritt tinha acesso a esse local.
Ao longo dos dias, o homem de cabelos negros me ordenou que eu deveria ajudar Ameritt naquele local a preparar o alimento e, além disso, deveria fornecer um pouco do meu próprio sangue à anciã todos os dias, para que ela pudesse misturá-lo ao caldo esverdeado preparado com os variados besouros. E assim seguimos por dias incontáveis. Ameritt também me levou a uma espécie de biblioteca onde guardava os livros que forneciam parte do seu conhecimento para o preparo de comida, de algumas medicações, chás variados, entre outras poções mágicas. Ela também me disse que não era exatamente como eu havia me tornado, mas que todos ali estavam unidos por “sangue”, e que já estava em idade avançada, sem saber até quando conseguiria servir ao nosso Senhor, o homem misterioso de cabelos negros. Por isso, ela precisava passar seus conhecimentos adiante, tendo em vista que garantir o preparo do alimento dos que viviam no castelo era, de fato, uma das coisas mais importantes para todos ali.
E assim segui com uma nova função e aprendizado junto de minha estimada Ameritt, que tanto me ensinou.
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Escuridão
No porão úmido daquela casa, o aroma mórbido de mofo consumia minhas narinas, mesmo e apesar da máscara sobre meu rosto. O corpo estendido no chão era só mais um…
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No porão úmido daquela casa, o aroma mórbido de mofo consumia minhas narinas, mesmo e apesar da máscara sobre meu rosto. O corpo estendido no chão era só mais um, asfixiada por uma corda de juta após ser presa e sedada. Rápido e indolor. “Ela precisa morrer essa noite, caso contrário, eu perco tudo o que conquistei durante todos os últimos vinte anos.” — Foi o que ouvi do contratante. Que vida efêmera. Que vida frágil. A podridão das circunstâncias e o caos do acaso. Setenta mil reais em criptomoedas na minha conta no dia seguinte, sem vestígios, isso é o que me importava.
No entanto, a chuva aumentara de modo estranho naquele momento, demais para um inverno comum. Subi as escadas do porão e a cabana parecia mais escura do que antes. Caminhei em silêncio enquanto observava os arredores; aquela escuridão terrível turvava meus sentidos. Um breu cuja origem só poderia ser o inferno. Quando, pelo tato, encontrei a maçaneta de alguma porta, abri-a de imediato em busca de quaisquer evidências que me sinalizassem o lugar em que eu estava. Sim, eu tinha uma lanterna. Quando você mata pessoas com certa frequência, você evita a luz e busca as sombras, naturalmente.
A porta rangeu como um espírito esquálido. Sua madeira era pesada e seu movimento lento; aquilo era mais bizarro do que pode parecer, pois eu estava em uma cabana e não em um antigo mausoléu. Mais escuridão. Adentrei-a sem hesitar, então vi uma chama vívida e trêmula. Olhei para traz e nenhuma porta encontrei, meu único destino era seguir, embora eu questionasse minha sanidade naquele momento. “Lars…” — Ouvi. Um sussurro anômalo, feminino e lânguido. Segurei meu revólver com uma fugacidade brutal. Seja quem for, se sabe meu nome, deve morrer. — Essa era uma das minhas regras.
Era impossível ouvir meus passos. Apontava a pistola em todas as direções que eu olhava. O silêncio era denso e a escuridão era quase perpétua, pois alcancei a chama frágil em um castiçal sobre uma escrivaninha; isso me permitiu olhar bem para cada detalhe. Eu não estava na cabana. Aquele lugar possuía paredes de pedra bruta, mobiliário antigo, poeira, longos corredores. O castiçal era de bronze. Abri as duas gavetas da escrivaninha e o que encontrei em uma delas fora um livro. “A Divina Comédia”. Então ouvi passos à direita. Longínquos passos. “Que porra é esse lugar?” — Questionei a mim mesmo, talvez em busca de ouvir a minha voz para ter certeza de que eu não estava sonhando.
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Capítulo 4: Medos e Fraquezas
O céu era de uma profunda escuridão estrelada. Eu estava próxima de um arvoredo denso cujo negrume das copas, banhadas pelo caráter do infinito acima…
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O céu era de uma profunda escuridão estrelada. Eu estava próxima de um arvoredo denso cujo negrume das copas, banhadas pelo caráter do infinito acima, se condensavam em sombras oscilantes. Eu parecia só, embora uma presença se manifestasse próxima, como se contemplasse cada um de meus movimentos. Eu colhia flores de um azul límpido e fosco que envolvia, em arbustos pequenos, os arredores daquela floresta. Ao meu lado, e carregado por mim conforme eu caminhava para um pouco mais adentro da balça ou para os lados onde mais flores assomavam, um cântaro. Eu estilava as flores dentro do cântaro com água límpida, uma infusão lenta e à frio. Aos poucos, a água que era mesmo hialina, azulescia e ganhava um sabor cítrico adocicado e uma textura encorpada. Embora eu estivesse feliz com as flores colhidas, eu sabia e tinha uma certeza inenarrável de que, mais à fundo naquele balcedo, eu encontraria as melhores flores para a infusão. Era perigoso, no entanto, seria de fato um deleite encontrá-las, pois, através daquela memória, parecia-me se tratar de uma data especial e, por esta razão, eu preparava a bebida.
Escrever a lembrança não transfere a dor mórbida que atravessara meu cerne mais uma vez. Segurei meu coração pelo toque no tórax, arrastei-me à porta do cômodo para abri-la; meu corpo frêmito suava e a morte parecia envolver a minha alma. Um pânico tétrico conduzia minha visão que se escureciam aos poucos em razão da algia horrenda. Cai sobre o assoalho em um corredor e apenas gritei por socorro, pois, àquele instante, a dor perdurava diferente de outrora, aguda estalando em cada órgão de meu corpo e mais, aturdindo minha mente e mortificando-a. A cada nova lembrança a dor parecia ascender e eu não suportava mais. Fui segurada rapidamente por aquelas pessoas que me receberam com afável conduta, ouvi suas vozes longínquas, como se estivessem no horizonte eterno. “Virëhs nohlom, nohlom virëhs! Nill’aeme! Nill’aeme!” — Ouvi, diversas vezes. Fui levada para fora da casa e uma fogueira pálida fora acendida, a flama crepitante luzia e aquecia meu corpo enquanto a dor perdurava. Envolveram-no em um manto e deram-me um liquor amargo para sorver; tinha notas de cacau e fundo férreo com aroma silvestre. Como um entardecer sereno, a agonia torturante esmoreceu gradativamente conforme sorvia do liquor. Muitos dos residentes quais me recepcionaram desde o início naquela vila, ficaram em volta da fogueira e olhavam-me atentos.
— Te sentes melhor? — Dissera a mesma voz feminina, era ela a que me acomodara naquele aposento. Movimentei-me a cabeça para concordar com sua indagação, falar era-me árduo demais. — Algo insalubre deleita-se sinistro em tua alma, jovem... — Senti seu toque em meu rosto. — Estás febril... — Ela olhou para um dos outros. — Somme Glizullahs aelim. — Proferiu a ele, aquilo o fizera levantar-se rapidamente e adentrar uma das casas próximas; parecia ter sido ordenado a fazer alguma coisa. Assim, portanto, o silêncio abrandou a todos e a mim; ouvia grilos pela floresta ao redor da vila e outras criaturas cujos sibilos eu não saberia identificar. Alguns dos cidadãos, mais aliviados, assaram alguns frutos à chama tórrida enquanto conversavam entre si naquele idioma pulcro. Quando o horror cessara de fato, aquele que fora embora a mando da mulher retornou com uma cumbuca contendo algum tipo de alimento. — Coma. — Ela dissera. Olhei para aquilo e vi que se tratava das mesmas bagas dadas por Seth, as quais recusei; estavam submersas em um líquido vermelho vivo e acompanhadas por folhas semelhantes ao louro. Degustei sem receios. Era uma iguaria de sangue frutado, agridoce, com uma leveza picante.
— O que é este lugar? — Murmurei, todos me ouviram e silenciaram.
— Estás em Séttimor, querida minha; uma vila construída com afabilidade e honra.
— Somos os séttimôros! — Afirmou alegre uma das crianças próximas, parecia não conviver tanto com o meu idioma, mas o compreendia em certo nível.
— Sou Liliana. — Ela tinha parte do rosto ausente, como se nunca tivesse existido. Seu olho direito, no entanto, reluzia vítreo e seus longos cabelos brancos eram finos, esvoaçantes e ondulados. Impressionei-me com suas vestes, tecidos costurados entre si, em tons prateados. Pormenores quais só pude observar naquele momento. Todas as meninas e mulheres se vestiam de maneira semelhante; os homens e meninos possuíam tecidos menos prateados e com nuances em carmim escuro. Também usavam cortes diferentes, mais leves que os femininos. As roupas indicavam parte crucial da cultura da Vila, eu acreditava assim; eles se complementavam, davam-me essa certeza tão somente ela forma como se comportavam.
— Obrigada por tão gentil acolhimento, Liliana. Receio não poder apresentar-me com meu nome, pois, perdi minhas memórias e não me reconheço mais naquela que fui... porventura nem mesmo nesta que sou... — Liliana sorriu, ternamente, tocou-me as mãos aquecidas.
— Deve ser, então, o exato momento de resignificar-se a si mesma, minha querida. — Ela disse e suas palavras, desde então, colidem em minha consciência.
— Posso ficar aqui? — Pedi com a voz embargada. Liliana expressava uma mansidão magistral.
— Adoraríamos que pudesses ficar, no entanto, tu sucumbirias ao Paradoxo da Atemporalidade em, pelo menos, algumas noites. — Explicara. — Sei que pode parecer confuso, no entanto, desde que o primeiro séttimôro encontrou os arredores do Castelo Drácula e de lá, do Castelo, foi expulso; temos lidado e aprendido com o Paradoxo que existe pela ausência de tempo e de espaço.
— Percebo haver algo estranho, de fato, com o tempo deste lugar e em como tudo acontece rápido em demasia ou tão vagarosamente quanto a eternidade...
— Sim. Dentro do Castelo, querida, a Magia de Olga Nivïttz protege seus residentes do Paradoxo, no entanto, aqui fora... — Liliana respirou fundo, parecia pensativa. — Aqui não há proteção. — Doeu-me ouvi-la amargurada.
— Olga pareceu-me tão cortês. Por que ela os expulsa do Castelo? Deixando-vos ao léu dos perigos insalubres?
— Ela decerto tem suas razões, querida virëhs. Sabemos que somos diferentes dela e de todos os residentes do Castelo, algo sobre nós deve estar guardado nos arcanos da Magista e de seu fiel Conde. — Pensei, silente, sobre as informações compartilhadas. — Não se martirize. Agradecemos por viver em Séttimor. Criamos nossa verdade, nossos rituais, nossa existência; nada disso aconteceria se estivéssemos no Castelo.
Olhei ao redor; aquelas pessoas com rostos vazios e, por vezes, fumegantes como se exalassem a névoa que envolve toda a Séttimor. Elas pareciam bem. Guiadas por uma fé resoluta e uma paixão pela existência; eram criaturas únicas, com ensinamentos insondáveis. Por instantes considerei morrer pelo Paradoxo em nome da sensação agradável e sombria de pertencer à Séttimor.
— Tu precisas partir. — Ouvi. A voz era masculina, vinha de um séttimôro que se aproximara de nós. Ele tinha apenas os lábios em seu rosto, e escuridão mórbida. Esvaía de seus poros a névoa cinérea; o fumegar era fúnebre. — O Nevoeiro Ramoso está se densificando e pode prender-te em Séttimor por longas noites. — Ouvi e voltei-me ao olho vítreo de Liliana.
— O Castelo é um claustro sem fim, abismal e vazio; suas entranhas ludibriam, iludem os sentidos, atormentam a alma... — Confessei em lamúria.
— Tens muito a viver e desvelar no afligir das paredes de pedra do Castelo. Não temas, tens a força para enfrentar o que quer que cruze o teu caminho. — Expressara Liliana, com intensa cordialidade.
— Temos recebido muito visitantes nos últimos dias, parece-me que uma transição percorre aquele lugar. — Expôs o homem.
— É verdade... Lëvri fora o último, antes de ti. — Senti minha garganta fechar ao ouvir aquele nome — Buscava por alguém, por isso nos encontrou.
— Lëvri? — Indaguei com a voz falha.
— Sim, tu o conheces? Buscava por Ennehris, vociferara pelo nevoeiro o nome dela, ouvimos daqui; até que o encontramos, estava exausto pelo que o Paradoxo causa, a desorientação, a vertigem. Tentara dizer detalhes sobre a moça, sua aparência e roupas que usava, no entanto, sufocara-se em demasia no nevoeiro e foi levado por Szënin até o Castelo.
— Sim, eu o levei. E creio que devo levar-te também. — Disse o homem. Szënin. Eu estava, intimamente, perturbada. Saber de Lëvri... saber que ele me procurava fez minhas emoções irromperem em um declínio amargo e solitário; apenas dentro de mim, uma sensação que corrompia, uma saudade que me atristava. “Gostas... minha Ennehris... que eu faça... devagar?” — Lembrei. Descansei minhas pálpebras, ocultando meus olhos por segundos infinitesimais. Revivi o seu toque, seu afundar-se em meu oceano íntimo; seus lábios, sua voz... e a extensão da sua natureza, o ímpeto, a voracidade da sua sede... o cuidado comigo, terno e caloroso. Lëvri... com a Rosaemori tatuada em suas costas. Meu corpo respondeu à lembrança, senti-me tórrida e lânguida; e olhei de novo para a flama da fogueira.
— Seus olhos... avermelharam-se como mágicos quartzos! Nunca vi algo assim! — Ouvi de Liliana que expressava em sua fronte um assombro e um encantamento. Todos ali sussurraram ininteligíveis palavras, espantados como Liliana. Levantei-me, retirando a manta de meu dorso.
— Devo ir... e vou só. Agradeço o cuidado, Liliana. E agradeço o alerta, Szënin. Reconheço toda a recepção que tive em Séttimor; não me olvidarei de vós.
— Não olvidaremos de ti, querida. — Liliana levantou-se, abraçando-me cautelosa. Ela tinha um aroma de Lycoris radiate. Algumas das crianças expressavam tristeza; todos pareciam apreciar visitantes como eu. Almejei morrer em Séttimor, no entanto... Lëvri... eu precisava vê-lo outra vez e se a morte era inevitável, então que ela me coroasse com a sua presença excelsa quando, pelas mãos de Lëvri, eu me embebedasse do fluído bruto da Rosaemori.
Encarei, então, a nívea e silente névoa; vi Liliana cada vez mais longe, erguendo-me sua mão em um gesto de adeus. E vi todas aquelas pessoas com seus rostos vazios, tomados por um tipo de abandono, sensação que permeava meu coração igualmente. Caminhei cada vez mais à fundo na palidez e, em seu interior, eu vi estranhos ramos brancos e secos que se espalhavam ao derredor e se movimentavam como se vivos, respirando. “O nevoeiro não é apenas um fenômeno natural, senhorita. Esteja atenta. Ele conduz a sua mente e corpo, ele evoca o horror da sua própria alma. Não pare, siga sempre adiante, mesmo se ouvir uma voz familiar. Siga sempre adiante.” — Essas foram as palavras de Szënin e embora sua expressão fosse menos afável que a de Liliana, ele igualmente se preocupava comigo. Mantive suas recomendações em minha consciência e jurei que veria Seth personificado, no entanto, ele estava ausente; sua voz abissal não penetrava meus pensamentos desde nosso desentendimento. Esperei-o, portanto, para me defender daquela sinistra palidez; nada acontecera. Os males narrados por Szënin pareciam, naquele ínterim, uma lenda e nada mais. Contudo, em meu peito, uma solidão mórbida enraizava-se.
Os ramos brancos aparentavam, cada vez mais, como árvores e, em seus galhos eu via cordas negras. Andei sem parar, todavia, a névoa tocava minha tez e, por meio dela, parecia alcançar a minha alma; fui imersa, sem que eu pudesse me resguardar, na solidão obscura, enquanto todas as cordas negras cingiam-me o pescoço, chamavam-me sem um único som. Se há ninguém neste antro, se estarei na eternidade isolada; por que viver? — eu pensava, uma conclusão que não parecia vir de mim mesma. Um bálsamo de infelicidade e melancolia, esmorecimento insistente; a certeza do perpétuo exílio no intermúndio de minha essência desfigurada por tantos acontecimentos e mistérios. Desejei envolver aquelas cordas em meu pescoço e cair no abismo que tanto harmonizava-se com o meu imo. Avancei sobre todos os ramosos esquálidos e inclinei-me sobre seus vértices almejando rasgar minha tez e sangrar até a morte; por átimos ponderei sobre a vida detrás do fim, se eu encontraria Lorrt e se, lembrando-me de tudo, por fim, o amaria de novo. Arrancaria do peito o que dói, destruiria minha maldição que, mesmo maldita, não se manifestava ali — abandonara-me igualmente, eu sentia, tal como a vida e tudo o que eu mesma sou.
“Estou aqui” — ouvi, não era uma voz humana; não se tratava do abismo de Seth. Senti o tênue dilatar de minhas pupilas e foi naquele único momento que cessei meus passos. As palavras constituíam-se de um tipo de sibilar, um sonido etéreo e melódico. “Quem és?” — questionei sob um encantamento que quebrantara todos os meus mais tetros horrores. Quando fitei as cercanias em busca da origem daquele som, notei as paredes de pedra, o Castelo Drácula estava logo à frente e a névoa já dissipava. Senti que estava, de novo, como dona dos meus pensamentos e aquela mórbida angústia passara como o dia passa e a noite se achega trazendo quietude. Respirei fundo e adentrei, mais uma vez, aos umbrais daquele lugar. Um remanso em meu ser, uma certeza estranha de que aquilo que proferira as palavras de presença, é a chave para o sossego da minha conturbada existência, no entanto, naquele átimo frágil, eu estava apenas cingida pelo silêncio absoluto; e a poeira rarefeita, as luzes trêmulas e a solidão perpétua.
Vaguei pelos claustros e cômodos, guiando-me pelo que já conhecida daquele lugar. Indaguei-me se aquele rapaz, sorvido pelos meus lábios... aquele cujo sangue vertera inocente... estaria vivo. Compreendi a necessidade de encontrar Lëvri outra vez e confessei ao próprio âmago dorido que a esperança de revê-lo era intensa e pulsante, porém, não com Seth. Embora Seth estivesse ausente. Era-me estranho não tê-lo sussurrando em meu crânio; despida da tua incorpórea maldição. Assim que encontrei o meu aposento, percebi que a solidão se estendia por todo o cômodo, densificando o ar. Era noite e as estrelas lá fora reluziam longínquas. Retirei as vestes pálidas e, nua, caminhei à banheira de marfim. Imersa na mais límpida água cujos sais adicionados aromantavam como flores em um campo veranil, relembrei tudo o que se tornara memória àquele ínterim. Eu odiava estar só, percebi; um ódio que conduzia minha angústia e transfigurava-a em profundo poço insalubre. Ao menos o banho revigorara minhas energias e vesti-me para poupar a pele da frígida noite, mas, eu não pude permanecer naquela alcova lânguida. Retomei a caminhada pelos passadiços e aposentos até encontrar o mais belo lugar naquela mórbida residência: a biblioteca.
Embora o meu intuito estivesse enraizado em meu corpo, evitei pensar diretamente a respeito, pois, decerto Seth não teria esvaído como se nunca tivesse se envolvido, de alguma forma, com Lahgura e, portanto, comigo. As portas abriram-se rangendo e vi, logo à frente, um quadro de um homem. Parecia-me familiar. Aproximei-me com a sutileza de um felino e vislumbrei a tinta à óleo e os traços marcantes daquela face masculina. Possuía cabelos grisalhos, como a barda; tinha belos olhos azuis e uma postura imponente. Desejei querer me recordar, no entanto, estando tão só, tive medo da dor. Então caminhei pelos corredores mais escuros, onde livros mais empoeirados e pesados jaziam sôfregos e silentes. Li dezenas de títulos, acreditei no abismo da minha esperança de que, decerto, eu encontraria um livro, apenas um, dotado do conhecimento preciso para destruir a minha maldição — seja o que fosse preciso sacrificar em nome da magia mais oculta e perigosa. Foi então que eu o senti; sua mão gélida em meu pescoço, virando-me contra ele na penumbra sombria. Minha tez fez-se uma voragem de arrepios súbitos e quando vi seus olhos azuis brilhando na escuridão, eu temi; o medo mais pulcro da minha alma.
— Hum... — Ele gemeu. Segurei seus braços na tentativa de fazê-lo parar de me sufocar, embora um pouco de ar conseguisse fissuras para encontrar meus pulmões oprimidos. — Confesse, minha bela Aesatt, que sei as faces da tua judas-pretensão. Protejo-te nas trevas quais sou rei e morro co’a tua afável gratidão… — Sussurrou, irônico.
— Seth... — Tentei falar, no entanto, a voz espargia fraca. Ele trouxe meu corpo para perto dele, ainda segurando meu pescoço; seu semblante de ódio estava próximo e sua feição segredava rancor, eu pude sentir. Então, devagar, sua mão tornou-se menos agressiva e seu olhar fitara meus lábios.
— Exorcizar-me... que plano fascinante... — Ouvi-o com sua voz símil aos oceanos mais profundos. Sua mão deslizara para minha nuca e fez oscilar minha estrutura. — Ah... se eu pudesse... — Murmurou, ainda encarando meus lábios e estando, pois, com todo o seu corpo justo ao meu.
— O que? — Ousei questioná-lo em sussurro e vi seu sorriso nascer como o cume de uma adaga no dorso, atravessada.
— Curiosa... — Sua mão reteve meus cabelos, puxando-os para baixo; com o impacto, meu queixo se ergueu e eu ouvi a risada de Seth; sombria como ele. Logo depois, a mesma feição de rancor, ainda mais intensa. E ele me olhou por algum tempo, em silêncio. Suas mãos deslizaram mais uma vez, uma ao torso, outra à cintura; e senti seu hálito até, por fim, a névoa negra da sua ausência abrupta. O exílio em seu eterno retorno — talvez a minha verdadeira calamidade. Meu corpo, trêmulo; meu desejo, atiçado — e nada além, nada mais. Apenas a mudez do ambiente crepuscular. Suspirei... e sentei-me à poltrona mais próxima. Odiei-me por desejá-lo e por, vítima da minha compulsão por um significado fora da minha genuína aflição, não conseguir suportar mais uma dose de soledade. Uma dose era suficiente para me embriagar.
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Um alto preço
Sempre considerei minha existência entrelaçada ao tecido do universo, mais firme do que qualquer mortal ou imortal poderia imaginar…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Greta Tsylla, especialista em pesquisa de eventos sobrenaturais
21 de Janeiro de 2000 - Sempre considerei minha existência entrelaçada ao tecido do universo, mais firme do que qualquer mortal ou imortal poderia imaginar - pelo menos assim eu considero. A escuridão não era apenas meu refúgio, mas a minha essência. As sombras que se estendem pela vastidão do universo não eram apenas um manto que me cobria, mas uma extensão de mim mesma. A luz do dia era uma afronta para mim, um lembrete cruel de que minha não-vida estava limitada a esgueirar-se por becos e esgotos. Contudo, havia uma lenda, e mesmo que eu não confie em lendas, já que não passam de histórias atraentes, algumas possuem um fundo de verdade, e meu trabalho é estudar essas verdades e o quanto elas podem ser perigosas para nós criaturas das trevas. Mesmo que seja talvez 1% da verdade, porém nesta lenda em específico eu senti uma pontada de esperança. Imaginei ser algo relacionado aos seguidores de Set, mas não encontrei referências que os ligassem a essa lenda, então continuei.
Em minhas pesquisas, na SchreckNET e bibliotecas empoeiradas, encontrei poucas referências a esse evento muito específico. A noite eterna, que como dizia em um manuscrito deteriorado, libertaria todas as criaturas das trevas do domínio da luz. Onde não haveria mais aurora a temer, apenas a escuridão sobre a face do abismo. E nessa escuridão eu poderia andar pela terra livremente, não mais relegada às sombras dos túneis e esgotos por necessidade, mas por escolha. Nessas minhas pesquisas eu soube também de um artefato, um relicário de um metal estranho e decorados com símbolos que mais pareciam arabescos, linhas entrelaçadas sem início ou fim, esse relicário revelaria se a noite eterna estava prestes a acontecer. Meu ceticismo começou a apitar, mas já havia chegado longe nas pesquisas para voltar atrás depois de tudo, depois de muitas trocas de informações e negociações consegui o tal relicário, com o aviso de que muitos tentaram e não conseguiram e outros ainda desistiram. Mesmo que isso não passasse de uma lenda, pelo menos eu a testaria e chegaria à conclusão de que era mesmo apenas uma história atraente. Os manuscritos que encontrei e os poucos relatos encontrados na SchreckNET, diziam que esse artefato nas mãos certas faria a noite eterna se tornar real. Eu estava ansiosa, pois sabia que poderia ser o momento, que sem saber, eu aguardei por séculos. Mas tudo parecia fácil demais, sem rituais, sem cânticos, sem palavras em línguas estranhas ou mortas.
Me instalei em um túnel ferroviário abandonado, onde o silêncio era acolhedor e todas as noites de eclipse por oito anos eu esperei a noite eterna, havia combinado comigo mesma que só esperaria por dez anos e depois desistiria dessa ideia. Neste período vivendo entre túneis e cemitérios, minha solidão foi amenizada pela presença de Amanita, uma gata rajada que se afeiçoou a mim e me trazia “presentes” toda a noite para me alimentar. Depois de um tempo ela deu à luz a Cortinarius, Lepiota e Russula, e minha solidão planejada e meu silêncio acolhedor teve fim. Numa noite de eclipse, me retirei para o centro de um antigo cemitério acompanhada dos quatro felinos, como tinha feito por oito anos. Sentei-me perto de um túmulo e esperei, a escuridão ao meu redor se tornou densa. Me levantei e segurei o relicário em minhas mãos, sabendo que se fosse o momento ele me diria.
A lua cheia iluminava o céu, enquanto eu olhava o eclipse lunar começava a se desenrolar. A sombra da Terra lentamente cobrindo a lua, a tingindo de vermelho e mergulhando tudo em trevas. O ar parecia parar como se a própria noite estivesse prendendo a respiração. Respirei fundo, ou pelo menos fiz o gesto, pois há muito séculos o ar não me era necessário. Eu estava focada, me sentindo em sintonia com o universo. Então devagar abri o relicário, dentro dele havia um pequeno espelho, cuja superfície não refletia, mas absorvia luz. Olhei para ele e, por um momento, nada aconteceu. Até que um brilho fraco começou a emanar do espelho, crescendo em intensidade. Ah! Até que enfim, murmurei aliviada. As sombras começaram a se movimentar ao redor de mim, imitando cada movimento meu. A sensação era inebriante, algo que eu nunca havia experimentado antes. As sombras moldavam-se e dançavam ao meu redor. Era como se as trevas me reconhecessem como sua soberana. Eu sentia como se pudesse moldar a escuridão, moldar o mundo à minha vontade, trazer ao mundo a noite eterna e libertar todas as criaturas das trevas. Me sentia confortável com todo aquele poder, todo aquele conhecimento borbulhando no meu cérebro, toda aquela escuridão fazendo parte de mim e eu dela.
Mas conforme todo esse poder crescia, algo começava a mudar. As sombras se tornaram mais densas, quase sufocantes. A escuridão que anteriormente parecia ser uma comigo, agora era uma prisão. Uma dor lancinante começou a percorrer meu corpo como se injetasse um líquido corrosivo em minhas veias. As sombras haviam ficado fora de controle, me envolviam com força, me apertando, esmagando. O poder que me acolheu estava me consumindo. Gritei, tentando recuperar o controle, mas parecia um esforço inútil. Tentei lutar contra aquilo e por um breve momento pude sentir como se a escuridão que me apertava estivesse me dando oportunidade de pensar se eu queria continuar com aquela tortura. Com esforço abri minha mão esquerda e consegui soltar o relicário que caiu no chão. As sombras ao meu redor se dissiparam de repente, e eu me encontrei deitada na terra úmida e recém mexida daquele cemitério, o poder e o todo aquele conhecimento perdido e minha esperança destroçada.
A noite começou a dar lugar ao amanhecer, e mais uma vez, eu estava condenada a esgueirar-se pelas sombras dos becos escuros. A frustração era intensa, uma dor profunda tomava conta da minha alma. Eu havia vislumbrado todo um conhecimento, vislumbrado o que poderia ser e, ao mesmo tempo, percebi que o preço a pagar pela noite eterna seria a minha própria destruição. Voltei aos túneis levando comigo o relicário como um lembrete de que eu deveria cuidar melhor da minha não-vida. Caminhei pelos becos, agora mais consciente do que nunca, de que os lugares úmidos e escuros eram meu lar, que eu não deveria entender isso como uma maldição, mas como um limite que eu apenas deveria respeitar. Me instalei em uma casa abandonada num bairro pouco movimentado e levei comigo Amanita, Cortinarius, Lepiota e Russula. E retornei as pesquisas de outras lendas ou qualquer evento sobrenatural que merecesse atenção. E foi assim que rejeitei a façanha de me tornar a salvadora, aquela que libertaria o povo que é obrigado a andar em trevas, para usufruir da noite eterna. Não achei nenhum ser das trevas merecedor de tal bênção, já que pagaria com a minha não-vida, um preço muito alto a se pagar. E eu não poderia fazer isso tendo agora pequenas vidas para cuidar.
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9. Castelo Vampírico: Não se ponha o sol sobre a vossa ira
31 de dezembro? — Antes que começasse a me ensinar algo, a criança de cabelos escuros veio até mim com um tecido de…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
31 de dezembro? — Antes que começasse a me ensinar algo, a criança de cabelos escuros veio até mim com um tecido de algodão e um vidro âmbar com um líquido que, pelo cheiro, parecia ser álcool. Limpou a ferida no meu antebraço e o enrolou com cuidado com outro tecido de algodão, dando pequenos nós em suas pontas. Após todo esse procedimento, ela colocou suas pequenas mãos nas minhas, me fazendo sentir uma onda quente e reconfortante que me envolveu. Senti como se meu corpo vibrasse, como se as minhas moléculas estivessem vibrando e aquecendo. Um súbito medo tomou conta de mim. Fechei os olhos e senti como se meu corpo encolhesse e se tornasse leve. Abri os olhos e estava na altura da menina de cabelos negros. Eu havia me transformado em uma criança outra vez, e uma felicidade parecia me inundar, tomando o lugar daquele medo inicial.
Logo, outra criança, com uma sombra um pouco maior do que a da menina de cabelos escuros, veio até mim. Segurou minhas mãos sorrindo, e a mesma sensação de calor reconfortante me envolveu. Dessa vez, mantive meus olhos abertos. Senti-me crescer e fui preenchida por pensamentos confusos que começavam a me incomodar. Depois, outra criança, com uma sombra grande e curvada, me tocou. Meu corpo pesou e senti um cansaço físico, mas minha mente parecia mais clara. A experiência era ao mesmo tempo fascinante e assustadora, uma montanha-russa física e emocional. Voltei para meu corpo original, um pouco atordoada. As crianças me olhavam com curiosidade, parecendo esperar algum comentário meu sobre a experiência, mas eu estava sem palavras. A menina de cabelos pretos veio até mim sorrindo.
— A transmutação não é apenas física. Ela envolve a essência, a percepção e o controle do próprio ser no fluxo do tempo. Há aqueles mais aptos que conseguem ir além da transmutação temporal, conseguem se tornar outras versões deles mesmos e até outras pessoas. — disse isso com um sorriso inocente.
Minha mente estava em turbilhão, mas fisicamente eu estava cansada. A menina percebeu isso.
— Agora, como prometido, vou te levar aos seus aposentos. Acho que a aula foi demais para você. — falou isso com preocupação no rosto, parecendo sincera.
— Talvez voltar aos meus aposentos neste momento não seja uma boa ideia. — Eu disse preocupada. Não me sentiria segura lá nesse momento.
Ainda atordoada pela experiência de transmutação, perguntei a ela se haveria um lugar seguro para ficar. Ela confirmou com um aceno de cabeça e caminhou comigo pelo castelo. Enquanto isso, minha mente fervilhava com as novas informações. Caminhamos por entre corredores e subimos várias escadas. Eu acompanhava seus pequenos passos rápidos e ritmados. Ela me levou até uma área do castelo onde havia uma escada em caracol que ia muito mais alto do que eu podia enxergar.
— Suba por essa escada até o fim. Você vai encontrar um observatório e poderá ficar lá por enquanto. Mas aconselho que volte para seus aposentos depois, pois lá é sempre o lugar mais seguro. — disse ela ainda com aquele sorriso infantil estampado no rosto.
Fui subindo aquela escada e refletindo sobre aquele conhecimento, até que a compreensão me atingiu. Drácula, a figura que tanto me causava temor e que às vezes me confundia, aparecera para mim de diversas formas, idades e aparências diferentes durante minha permanência aqui. Ele tinha a capacidade de transmutar, assim como aquelas crianças naquele salão. Lembrei-me do nosso primeiro encontro no corredor, Drácula como um jovem de aparência andrógina e olhos cor de violeta; do nosso encontro na capela, onde ele parecia um Cristo vampírico grotesco; e no baile de máscaras, como um homem de meia-idade imponente que parecia carregar o peso dos séculos em seus olhos profundos. Cada uma dessas suas formas parecia trazer uma presença distinta, uma aura diferente. Agora fazia sentido, Drácula talvez dominasse a transmutação. Ele podia escolher a aparência e a idade conforme sua vontade. Todas aquelas formas eram manifestações do mesmo ser, utilizando a transmutação temporal para se moldar.
Drácula não era apenas um vampiro imortal, ele talvez também fosse um mestre do tempo, com capacidade de navegar pelas eras e se adaptar a qualquer situação. Porém, para confirmar qualquer hipótese que meu cérebro poderia conceber sobre Drácula e seus poderes, eu precisaria de mais conhecimento. Preciso encontrar uma biblioteca, talvez aquela em que tive uma conversa com minha doppelganger no mundo espelho. Talvez essa biblioteca exista nessa versão do castelo também. Uma sala com um computador facilitaria meu trabalho na hora de juntar as informações, mas isso talvez seria pedir demais. Terei que me contentar apenas com papéis e livros. Terei que vencer certos temores também, explorar mais o castelo e sempre me lembrar que estou lidando com um ser que talvez transcenda qualquer limitação e entendimento humano.
Enquanto essas ideias se assentavam em minha mente, cheguei ao observatório. Entrei naquele cômodo, fechando a porta atrás de mim. Havia uma abóbada de vidro que permitia uma visão clara do céu. No centro, um telescópio, um instrumento ao qual estou familiarizada. Sentei-me numa poltrona ao lado de uma mesa cheia de papéis antigos com belas ilustrações de planetas e símbolos astronômicos. Observei o anoitecer enquanto fui tomada novamente por pensamentos que chegavam em turbilhões. Estava me sentindo dividida entre aceitar que Hadassa se foi e essa nova obsessão de trazê-la de volta com o conhecimento que talvez Drácula pudesse ter sobre a morte. Por que devo aceitar? Por que devo desistir? Ainda assim, ouço minha voz interior me advertindo sobre os perigos de se buscar conhecimentos que não compreendo. Tentei me convencer a desistir e aceitar a realidade, mas o que é a realidade se tudo aqui parece uma ilusão tentando se passar por realidade? Fui tomada por uma fúria por não conseguir parar meus pensamentos. Meu corpo tremia, senti minha mente se despedaçar em questionamentos complexos demais.
Anoiteceu totalmente e me deparei com um eclipse total quando olhei para a abóbada de vidro. Levantei-me e decidi investigar os céus, na esperança de encontrar alguma distração. Posicionei-me e comecei a ajustar o telescópio, procurando algo naquele breu, minhas mãos tremiam. Um vento atormentado soprava, fazendo as árvores e as flores mortas do jardim abaixo, mal iluminado por um antigo poste de luz, balançarem de maneira assustadora. Ao longe, pude ouvir o som de ondas quebrando com violência contra as rochas. Fiquei surpresa com isso, pois não sabia da existência de mar tão perto do castelo. A natureza parecia responder de modo violento ao eclipse, como se estivesse compartilhando comigo meu tormento interno.
Minha mente foi assaltada por lembranças rápidas de quando Hadassa e eu observávamos as estrelas juntas, falando da beleza cósmica, a beleza que agora apenas me traz angústia. Lembrei-me dela sempre repetindo: “Somos poeira das estrelas, Rute. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Isso é maravilhoso, não é?”. Era mesmo maravilhoso ouvi-la falar disso, mas saber que agora ela talvez não passe de restos do que um dia foi me entristece. De repente, uma sombra cobriu o telescópio. Levantei-me e vi, através da abóbada de vidro, uma figura gigantesca e disforme pairando no céu como um manto escuro salpicado de estrelas. Emanava uma fúria que nem de longe poderia ser comparada à minha. Olhava diretamente para mim com o que pareciam olhos em espirais. Fiquei paralisada de terror. Será que, de alguma forma, essa figura era uma manifestação dos meus sentimentos? Ou apenas um alerta para que eu desista dessa empreitada? Ou algo ao acaso que calhou de eu observar? Não sei. Só sei que as dúvidas, o terror e a ira dentro de mim continuaram. Devo aceitar a morte de Hadassa e deixá-la descansar em paz? Ou devo seguir em frente nessa ideia de que sei ser perigosa e trazê-la de volta?
Fechei meus olhos por um momento, esperando que, assim que eu os abrisse, a figura desaparecesse. E ela desapareceu, mas a sensação de terror permanecia. Deixei o telescópio e me virei para a poltrona, dando alguns passos. Tudo em mim pesava. Minha mente se questionava se Hadassa merecia uma segunda chance ou se eu queria me dar uma segunda chance, não importando o que fosse necessário para isso. Eu me sentia em frangalhos, tonta, com dores pelo corpo; fazia tempo que eu não tinha uma boa noite de sono. Senti algo escorrer pelo meu antebraço e vi que a ferida estava sangrando muito através do tecido. Senti-me fraca. Mal havia chegado à poltrona e apenas me deixei cair na escuridão.
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A Luz se Apaga
O céu estava negro e denso como minha alma, mas uma estrela de esplendor singular havia me cativado. Brilhava alheia à escuridão que a cercava…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O céu estava negro e denso como minha alma, mas uma estrela de esplendor singular havia me cativado. Brilhava alheia à escuridão que a cercava. Sentada no parapeito da janela do meu quarto, assistia a esse espetáculo noturno.
Malus adentrou o recinto e direcionei meu olhar para a porta. Questionou o que fazia sozinha àquela hora. Quis mostrar a estrela esplêndida que me roubara toda a atenção, mas para meu desalento, já não a via mais no céu. A escuridão parecia ter engolido a luz que tanto me fascinara.
— Estava ali agora mesmo! Diferente de todas que já havia visto. — Suspirei em descontentamento.
Ele acariciou meu rosto, como se tentasse me consolar. Olhou-me ternamente; seus olhos eram como bálsamo para mim. Ainda com sua mão gélida sobre minha face, observou o céu pela janela e disse, enfim:
— Mesmo que efêmeras, as coisas que tocam a nossa alma têm o poder de deixar marcas que perduram para sempre.
Ele tinha razão. Jamais esqueceria toda a beleza daquela cena. A súbita partida daquela estrela fez-me recordar minha irmã. Assim fora com ela, tão bela e tão pura, mas ceifada de forma tão inesperada por mim mesma. Talvez eu seja de fato uma parte grotesca deste mundo...
— Desculpa? — Questionei. Malus falava enquanto eu estava perdida em meus pensamentos e não pude compreender.
— Vamos! Pegue minha mão. A noite não deve ser desperdiçada.
Aceitei o convite e saímos do castelo. Andamos por uma estrada de terra batida cercada por carvalhos, todos dispostos em fileiras, milimetricamente separados uns dos outros. Ao final, um imponente e ornamentado portão de ferro se fazia guardião de um cemitério antigo, o qual eu ainda não conhecia.
Meu companheiro tirou um singelo molho de chaves de seu sobretudo, pegou uma chave com uma cruz dourada entalhada e abriu a fechadura sem dificuldade. Passamos pelo portal.
A beleza das esculturas centenárias era de uma grandiosidade que não encontro palavras para expressar. Caminhei por entre altas lápides e dancei sobre sepulturas. O brilho único de uma estrela e aquela adorável galeria de arte me faziam sorrir como uma criança.
— Venha. Sente-se aqui. — A voz risonha deixava evidente que se divertia às minhas custas.
— Não ria! — Sentei-me junto a ele nas escadas de um mausoléu de mármore branco que tinha o portão aberto.
— Trouxe seu diário e meu caderno de esboços. Teremos nossa própria noite erudita.
Malus era um artista. Seus desenhos eram impressionantes. Amávamos passar o tempo no castelo com nossas artes; esta seria a primeira vez em um lugar diferente. Em seus esboços naquela noite, ele registrou as mais variadas paisagens. Desde uma árvore reduzida a tristes galhos até mesmo eu, sentada naquele descanso eterno de não sei quem, distraída, escrevendo e sonhando acordada. A forma como as lápides soavam no papel era extasiante, mas ainda não se comparava ao fascínio que proporcionavam a olho nu.
Foi uma noite inigualável. Poética, reflexiva... fiz anotações em meu diário e escrevi poesias; não poderia me negar a elas. Podia sentir no paladar... a escuridão é saborosa, a poesia é como um beijo suave de língua. E o Castelo Drácula sabe disso. Ele vive, respira e inspira arte. Se você adentrou aos portões, sabe muito bem onde encontrar cada um dos meus versos...
Até breve!
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Dúvidas
Desde o fatídico dia… ou melhor dizendo, desde a fatídica noite, aquela em que fui atacado, envolvido pela estranha e irrecusável aproximação da…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Desde o fatídico dia… ou melhor dizendo, desde a fatídica noite, aquela em que fui atacado, envolvido pela estranha e irrecusável aproximação da misteriosa vampira, me vejo recluso, incapaz de mover um pé sem que duvide das minhas forças, do meu livre-arbítrio que, suponho, fora totalmente sujeito, desde então, à influência daquela mulher e sua força…
Nada de muito grave aconteceu fisicamente comigo, desde então; porém, sabendo ter sido “corrompido”, inoculado em mim algum veneno que, se não mortal, pelo menos indicador parece de que não sou mais o mesmo, sinto a necessidade de me privar de movimentos, de sair pelo Castelo e, quem sabe, me deparar com “ameaças” afins…
Pois certamente que aquele ataque, na forma de uma desconcertante mulher, não deve ter sido uma exclusiva demonstração do ambiente misterioso com que me deparo aqui…
Há poucos dias, revirando os papéis que abundam pelas mesas do lugar (a escrita compartilhada de outros convivas do Castelo), li coisas que me deixaram profundamente preocupado. A primeira e mais inquietante descoberta (será um fato?) é a presença, segundo alguns, de uma vila chamada “Séttimor”. Não que a existência de lugares vizinhos a esse ambiente seja algo excepcional; antes de chegar aqui, bem lembro, avistei casas, espécies de cabanas e alguns moradores que, ao que tudo indicava, nada tinham de anormais; porém, essa tal vila “Séttimor”, nos textos com os quais tive contato, era descrita como lar de pessoas sem rosto(!), de pessoas que, sem possuírem expressão facial, demonstravam, inquietantemente, comportamento benigno…
Qual não foi minha surpresa ao parar com essa leitura e, numa pequena reflexão, me perguntar se aquele povoado que avistei ao me aproximar do Castelo, em minha chegada aqui, não era esse descoberto e discutido em uma das crônicas…
Por certo que os outros frequentadores desse recinto sabem mais do que eu… A pergunta é se, estando aqui, estou sujeito aos mesmos fenômenos que essas pessoas já devem ter visto ou presenciado, se não como protagonistas de algo mais obscuro, além de meu entendimento, pelo menos como coadjuvantes de alguma ação — até mesmo sofrido aquilo que eu, completamente rendido, testemunhei e do qual fui alvo, agora sem saber das futuras consequências…
Como lidar com tal testemunho, tal possibilidade de realidade fantástica ao redor desse local onde atualmente habito e que, comprovadamente, está aberto à visitação de outras enigmáticas vidas? Que segurança tenho de me manter vivo, dono de minhas vontades e sonhos, estando rodeado por forças muito além da simples compreensão natural? Mesmo sendo elas, segundo as provas lidas por mim, ainda distantes das paredes do meu quarto — e, assim espero, dos muros do Castelo —, o que já experienciei por conta própria aqui dentro (o Baile, o ataque) há muito que já me dotou da certeza de que aquele eu inicialmente chegado aqui, com vistas apenas a fazer parte de uma sociedade de práticas artísticas, não é mais o mesmo…
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Insondável
Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea. Desde a minha “morte” tenho presenciado o desconhecido em suas variadas formas, mas nada como o inquietante arranhar dos pálidos galhos sob a estrutura do castelo, causando-me intensos arrepios.
Meus dedos escorregam pela maçaneta, deixando-a para trás. Fito mais uma vez o cinzento céu e caminho devagar rumo à janela. Ouço o soprar dos ventos que, sorrateiramente, rastejam por entre as frestas do castelo, remetendo aos acordes presentes na linda e fúnebre missa composta por Mozart, intitulada Réquiem.
A vejo surgir no canto esquerdo. Ela possui um estranho brilho, ao mesmo tempo que é opaca. A densa névoa parece dotada de algum tipo de inteligência, pois escala com muita perícia cada tijolo, tal qual uma astuta formiga que segue seu caminho com fervor. Volto meu olhar para a escuridão cinzenta e percebo então o que havia constatado há algum tempo: meu âmago é tão vazio e tenebroso quanto a nívea que se move lá fora, usurpando o tênue luar, bem como o brilho das estrelas.
Enquanto meus devaneios me afastam da realidade, uma horrenda dança orquestrada pelos ventos soturnos é iniciada. O balançar dos arbustos e das árvores soa como uma nefasta canção de ninar, proferida secretamente pelos deuses do infindável cosmo, espalhando pelas sombras suas verdes folhas.
Em estado de torpor, acompanho com meus olhos brilhantes o bailar da flora pelos arredores do castelo. Elas parecem obedecer aos comandos de alguma entidade que desconheço, assim como aquele ramoso nevoeiro.
Acabo atraindo a atenção dos incontáveis ramos, que logo vieram ao meu encontro, e finalmente vi sua horrenda forma com clareza. Eram compostos por extensos fragmentos esbranquiçados que, unidos, formavam os pavorosos e colossais ramos. Uma estranha sensação abraça meu corpo, sinto-me vulnerável, como se o ramoso nevoeiro conhecesse minha natureza. Minhas entranhas se contorcem, meu colo palpita desregulado.
Retiro minha mão do vidro com rapidez, mas eles permanecem ali, pairando na escuridão cinzenta, me observando e arranhando a janela de maneira ininterrupta, produzindo um som medonho que logo faz morada em meus ouvidos. Os ventos se intensificam, fazendo com que a dança dos galhos se torne mais intensa. Neste momento, uma dessas lembranças que nosso cérebro tanto se esforça para manter enclausurada nos confins do subconsciente decidiu nadar até a superfície.
Aquele arranhar dos galhos trouxe à tona algo que estava adormecido. Meus olhos agora vestiam uma sombria cortina de lágrimas que estava prestes a cair. Os amargos anos que passei ao lado do Airton foram repugnantes. O som dos galhos remetia aos talheres ainda com resquícios de macarronada deslizando sobre os pratos de porcelana branca, produzindo um som detestável. Ele fazia isso com um sorriso perverso no canto da boca, entre outras inúmeras grosserias. Seu respirar pesado e desagradável era como o soprar dos ventos lá fora. Infelizmente, ele ainda me assombra, tal qual um obsessor que sempre fica à espreita.
Lágrimas caíram e, por breves segundos, a ira se apoderou de mim. Meu corpo tremia, meus punhos estavam cerrados. Um grito emergiu das minhas entranhas: — Deixe-me em paz, criatura horrenda, não me tortures mais! — Gritei até meus pulmões cansarem, para a assombração que cruelmente sorria em meu subconsciente. Minhas palavras foram ouvidas por cada tijolo do castelo. Por mais que queira perder-me em lascívia, precisava me conter. Meu corpo se encontrava febril, minhas mãos sedentas. Com a finalidade de afugentar aqueles pensamentos, fecho a jaqueta, cruzo os braços e inicio uma caminhada em círculos, ignorando completamente o fato de que o assombroso nevoeiro ocupa grande parte do meu aposento.
Após um longo período, vou me acalmando. Mais uma vez, estou diante da porta. Tenho que sair. Respiro fundo e, antes de sair, noto uma presença atrás de mim. Cautelosa, olho por cima do ombro, com a mão na maçaneta. Então, vislumbro algo horripilante: a neblina havia tomado meu aposento quase por inteiro, tal qual a chegada sorrateira da noite, devorando os últimos raios de sol.
Munida de coragem, abro a porta. Sou agraciada por uma brisa gélida. Antes de fechar a porta, vejo pela fresta a névoa se movendo de forma estranha, em círculos. Sinto o frio na espinha me abraçar. Atrás de mim, um enorme corredor iluminado por anêmicas velas que lutavam para não cair dos candeeiros dispostos nas paredes. — Finalmente consegui sair! Sussurrei, enquanto meu olhar se perdia pelo corredor ornamentado pelas sombras disformes vindas das velas. Prossigo em direção à biblioteca; preciso folhear aquele livro mais uma vez.
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Diário de Anto Stefan Miahi - Part. IV
Meu caro amigo, te envio notícias da capital. Além desta carta, somam-se alguns jornais nossos….
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
De Marcel D. Laurent II
De: Marcel D. Laurent
Para: Anton S. Miahi
28 de junho de 1871
Meu caro amigo, te envio notícias da capital. Além desta carta, somam-se alguns jornais nossos. Infelizmente até chegar em suas mãos devo admitir que vão estar atrasadas. Por feliz graça você me deixou a direção do tal conde, realmente espero que estejam chegando minhas cartas.
Paris tem tido momentos sombrios no espectro político e social, isso desde que Napoleão caiu nas mãos de Frederico, O Grande, e se viu despido de toda sua majestosa glória divina concedida pelo Papa Pio IX e sua igreja. Foi uma guerra santa feita por pecadores e desgraçados que banharam o centro da Europa.
Recordando que quando voltávamos a casa na longa viagem que fizemos, antes que se molhasse a pena e manchasse o papel, os comunas assumiram as rédeas da nação com o apoio das Forças Nacionais.
Por culpa daquele detrator e infame Adolphe Thiers. Ele que ao invés de entender o valor do sangue derramado, não pelo infeliz ex-presidente e imperador, mas pelo próprio povo, fechou a boca e se recusou a dar valor a honra de nossos irmãos de trincheiras, assim como de suas famílias que derramaram lágrimas.
Meu amigo, tudo tem custo, não é mesmo?
Apenas um pesadelo após o outro!
Vimos os horrores da guerra longe de casa, para voltar ao final de 1870. Desde o início do ano de 1871, por volta de março, penso eu, fora possível notar que aqui também poderíamos sangrar, não contra inimigos externos, países estranhos, mas contra nossos vizinhos, primos, irmãos e pais. As
A hora em que te escrevo essa carta é no silêncio da noite, Bernie está dormindo no andar superior, enquanto estou acompanhado de duas garrafas de um bom vinho tinto produzido na vinícola de meu primo Ghutier. Nada como o doce sabor da uva para soterrar as más lembranças e curar velhas feridas da alma.
Recomendo como seu amigo esse tratamento tão singelo, mas de excelente resultado.
Talvez por essa razão eu esteja te escrevendo esta carta, parte de uma clara preocupação com seu bem-estar, e com a nossa amada França.
Vivemos um tempo de efervescência social nunca vista em nosso país, já que ainda existem núcleos de descontentes com governo provisório e por sua falta de força e respostas perante o fracasso de Napoleão frente a Prússia.
O ano apenas está na metade e parece que já viveremos o apocalipse dos textos sagrados!
Já que Versalhes está com o governo provisório e Paris passou um tempo nas mãos dos comunas. É de se pensar quanto ao sacrifício que estes revoltosos estão dispostos a fazer. Lutam pelo poder popular, poder do povo. Querem reinventar a roda? Difícil crer que eles poderiam conseguir algo sem o povo ao seu lado, menos ainda sem os mosquetes que os nobres conseguem armazenar.
A política tem muitas faces, meu amigo.
Enquanto nós, enfrentávamos outra nação pelo poder do presidente da segunda república francesa, Charles-Louis Napoleão Bonaparte. No quintal nosso borbulhava sentimentos de inconformismo que tomaram as ruas. Inegável a destruição causada em Paris, ruas manchadas de vermelho, bloqueios, cartazes a favor da comuna por todas as partes. E os livros de um tal de Victor-Marie Hugo, dizem que ele saiu da região de Besançon. Este homem que motivava por meio de suas obras a já existente e crescente insatisfação contra o poder vigente no país.
2 de setembro de 1870, a dobrada de joelhos de Bonaparte, a fome, a crise social, a guerra tudo parecia conduzir para essa situação catastróficas que foi essa revolta de Paris, ao não aceitar a rendição.
O que também apoiei até certo ponto.
Admito que o problema tão logo foi a infestação dos comunas que se viam bebendo das fontes prussianas dos pensadores críticos da produção favoráveis e da luta de classes. Muitos não viram o racha que isso poderia causar.
Ali nasceu a divergência, bem no meio dos defensores de Paris e o governo provisório contra uma possível luta em solo francês contra os prussianos.
Acho que o vinho começa a me fazer devagar, meu amigo. Novamente espero ter notícias tuas. Amanhã irei aos correios, se conseguir levantar.
De seu irmão de trincheiras,
Maurice.
Anton S. Miahi IV
(Anotações feitas em Séttimor)
24 de junho — A curiosidade me levou por caminhos que admito eu desconhecer, e mais que isso, sou imerso em assombro proveniente dos recantos distantes do imaginário humano, com verdadeiras visões que fazem minha racionalidade falhar.
Aceitei entrar na casa de um dos ditos moradores do povoado oculto no vale abaixo do Castelo Drácula. O lugar é lúgubre, funesto. Olho aquelas pessoas, algumas nem mesmo face mais tem, no entanto, sinto nelas angústia, medo, e algumas, noto a completa ausência de esperança.
Por diversas razões, encontro-me imerso em um tormento psicológico que remete diretamente às tendas dos socorristas durante a guerra Franco-Prussiana. Esses cenários, uma vez repletos de desesperança e dor, agora se desenrolam em minha mente como um pesadelo eterno. Naqueles campos de batalha, os olhares dos moribundos, resignados ao seu destino cruel, eram apenas sombras de um sofrimento interminável.
Aqui, neste lugar desolado, sinto a mesma sensação de derrota avassaladora. Não há nada que inspire ou motive; apenas um vazio absoluto. O ambiente é um eco da minha experiência, uma paisagem desolada onde o ânimo e a esperança parecem ser conceitos estrangeiros, pertencentes a um mundo distante e inalcançável.
Nesta cidade, a ambição pela vida é um resquício remoto do que eu conhecia. O espírito de luta que uma vez me impulsionou agora parece ter sido extinto, substituído por uma desolação fria e implacável. Cada dia aqui é uma lembrança do desespero que experimentei nos campos de batalha, uma contínua crise emocional onde o desejo de viver é uma memória dolorosa e distante.
Uma sensação de um luto constante, o ar parece viciado, angustiante, que nos remete a tormentos passados. Estou aqui há poucas horas e já me sinto quase no mesmo estado emocional que essas pobres criaturas.
As casas de ripas e toras de madeira escura, com seus telhados pontiagudos como garras estendidas ao céu, exalavam uma sensação de decadência eterna. Embora não estivessem se desfazendo, a idade delas era palpável, como uma entidade maligna que se recusava a partir. Musgo verde-escuro rastejava pelas paredes, e ervas retorcidas subiam como dedos ossudos, emprestando um ar de abandono e desespero. A cada sombra lançada pelas casas, o ambiente ficava mais opressivo, como se a própria vila respirasse o medo e o espalhasse pelo ar frio e denso.
Por dentro, o lugar exalava uma estranha e enganosa sensação de aconchego, envolta em suas limitações desconfortáveis. Ervas pendiam na janela ao lado da porta, secando lentamente, emitindo um odor forte e acre que se misturava ao cheiro persistente de fumaça velha e fuligem. A lareira rústica de pedra, marcada por anos de uso, exibia manchas negras de fogo e fuligem, espalhando uma luz trêmula e vacilante pelo ambiente.
Apesar de uma aparente limpeza superficial, havia uma sensação de desordem oculta, como se algo sinistro estivesse apenas aguardando para se revelar. O ar carregava uma mistura de cheiros: carne seca pendurada, ervas em decomposição e um leve aroma de mofo, criando uma atmosfera sufocante e opressiva.
O que mais me perturbou foi a ausência total de símbolos da Igreja Romana. A ausência de qualquer sinal de fé comum na Europa era inquietante, deixando a impressão de que o lugar seguia crenças antigas e esquecidas, talvez até proibidas.
No canto oposto à lareira, uma escadaria estreita e escura subia para o andar superior, envolta em sombras espessas que pareciam pulsar com uma presença invisível. Panelas de pedra e partes de animais penduradas nas paredes completavam a cena macabra, transformando o que poderia ser um refúgio acolhedor em um antro de mistério e terror.
Percebo que um jovem do meio daquelas pessoas no lado externo da casa se aproxima da dela. Seu rosto ainda existe, seu corpo é pequeno, magro, mas não raquítico, suas roupas são tão puídas. Não parece estar com mais de vinte anos, seu rosto expressa ansiedade e lampejos de gato curioso. Os olhos são da cor vermelha, sua respiração libera uma neblina, ou melhor, é mais semelhante a uma suave fumaça, como um fumante, porém, sem cachimbo. Ele caminha rápido e se senta na cadeira na frente da mesa onde me encontro.
— Senhor, como está o mundo fora da vila? — Ele pergunta como uma inocência e sinceridade infantil.
Então uma voz de uma mulher se escutou no mesmo instante que notei seus passos pesados nas escadas. Era vigorosa, aguda, com um suave sibilar ao final das frases.
— Deixe o nosso visitante em paz, Andrei. — Seu tom era como a bronca de uma mãe ou uma mulher mais velha. Olhei fixamente para escada e quando ela surgiu, creio eu que esperava muito que ela fosse mais humana, no entanto, não. Ela tinha os mesmos traços que os demais. — E qual o nome do cavalheiro?
Demorou uns quantos segundo para que meu cérebro voltasse a se comunicar com minha boca.
A imagem daqueles indivíduos fora da casa, tanto quanto, os dois que ali estavam perturbavam minha mente. Seus corpos disformes, os rostos tão perturbadoramente anormais.
A cada instante, meus dedos apertavam com mais força a bainha do meu sabre, como se apenas o contato com a arma pudesse afastar a crescente sensação de pavor. Mesmo percebendo uma aparente tranquilidade na cidade, meu coração batia descompassado, cada pulsação reverberando em meus ouvidos como um tambor de guerra.
O ar parecia carregado de uma presença invisível, uma energia que se enroscava em minha pele como um manto sufocante. Sentia um frio gélido subindo pela espinha, e uma voz sussurrava insidiosamente em minha mente — “Corra”, “Fuja daqui!”.
Os odores ao meu redor eram intensos e perturbadores: o cheiro metálico do medo, misturado com um aroma acre de mofo e decomposição, impregnava minhas narinas, mais do que das ervas ou da carne seca, tornando a respiração difícil e pesada. A luz pálida do dia parecia ser sugada pelas sombras, que se alongavam e se moviam antinaturalmente, como se tivessem vontade própria.
Cada som era amplificado na quietude opressiva: o farfalhar das árvores, o uivo sombrio do vendo soprando, os passos ecoando do lado de fora da casa, e um sussurro distante que parecia vir de todos os lados. Meus sentidos estavam em alerta máximo, cada fibra do meu ser gritava para eu deixar aquele lugar. A cidade, com sua aparente calmaria, exalava uma malevolência silenciosa, uma promessa de perigo iminente que não podia ser ignorada.
— Me chamo, Sargento Anto Stefan Miahi. Oficial e pesquisador vindo de Paris para estudar os documentos que o Conde Drácula tem em sua posse. — Admito que falar com eles fez com que lembranças viessem e revisassem emoções que eu havia pensado ter superado. — E a senhora como se chama? — Perguntei com toda cortesia que me era possível evocar.
— Sou, ou é como resolveram me chamar, Catalina Rusu. Então o jovem mestre Anton, está como convidado do conde? — Aquela senhora expressou o que parecia um sorriso amargo.
Antes que eu pudesse tentar dizer algo, ela retomou.
— Nem todos são aceitos na morada do Drácula… —Soando quase um murmuro, sua voz carregada de suspense. — E menos ainda aos cuidados de Olga Nivïttz, onde segredos sombrios são guardados!
— Quem seria essa Olga Ni… Nivïttz? — Ficou clara a minha completa ignorância quanto aquela pessoa. — Que segredos a senhora se refere?
Todos que estava prestando atenção em nossa conversa do lado de fora da casa se entre olharam com notório espanto e crescente receio.
— Em algum momento conhecerá ela acredite em mim. — Falou o jovem sentado de frente comigo. Com os braços cruzados, olhando para o chão como se estivesse com medo de que a mãe escutará aquelas palavras no como ao lado no meio da noite.
Naquele momento, uma sensação de inquietação tomou conta de mim. Instintivamente, minhas mãos tremiam quando fui olhar meu relógio de bolso, com o emblema da cavalaria gravado. Fiquei paralisado ao ver que os ponteiros estavam imóveis, congelados. Um frio gelado percorreu minha espinha outra vez — será que o relógio havia parado exatamente agora? Isso não fazia sentido. Quando o trouxe de Paris, ele estava funcionando perfeitamente. E, enquanto me preparava, não percebi se havia algo de errado com ele.
A ansiedade apertava meu peito, e eu me vi obrigado a olhar pela janela aberta. O céu lá fora estava inalterado, a lua ainda no mesmo ponto alto que havia visto ao sair do castelo. Mas a pergunta aterrorizante começou a me atormentar: quanto tempo havia passado desde então? A sensação de confusão e a crescente angústia se entrelaçavam, como se o tempo estivesse se esticando e se deformando de uma maneira incompreensível, e eu estivesse preso em um intervalo de terror absoluto.
De Dr. Christopher V. Walker
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Para: Anton S. Miahi
20 de junho de 1871
Caro colega, sinto não haver podido estar na sua partida de Paris. Mas graças a Marcel nosso bom amigo em comum pude saber para onde enviar meus desejos de sucesso.
Por pouco não o alcancei antes que pisasse na carruagem, mas por questões acadêmicas fiquei retino na universidade de Oxford com umas quantas palestras. E acabei atrasando minha viagem para Paris. Queria haver podido dar um abraço e entregar uns quantos livros para seu divertimento. Devo dizer que fiquei demasiadamente surpreso com o quanto nossos amigos britânicos avançaram em suas pesquisas com referência a mente, ao corpo, e alma humana.
Existe uma revolução intelectual ocorrendo e Paris se perdendo entre baioneta e pólvora. Inacreditável os efeitos que a guerra terá nos anos que viram.
Querido amigo, espero que esta carta chegue o mais rápido possível, desejo ter notícias suas. Aproveitei e junto a ela estou enviando um pacote com livros que consegui em Oxford que espero que te entretenha por algum tempo. Estarei nos arredores do Boulevard Saint-Michel no cortiço de Anne e Morgana.
Do seu estimado Dr. Christopher V. Walker!
Anton S. Miahi V
(Anotações feitas em Séttimor — II)
24 de junho — Parece que as horas foram passando, o ar de tensão que senti ao chegar foi suavizado, porém não desapareceu. Ainda me mantenho com os sentidos em alerta, o corpo parece enrijecido, os músculos doem, sinto dormência na mão que está segurando a bainha do sabre. Apesar de sensação de tempo avançar, a lua seguia em seu firmamento, admirando do alto todo o antinatural cenário que se desvelou ao meu redor.
A Catalina, a senhora que me abriu as portas da sua casa, foi até as ervas na janela e pegou um pote pequeno de argila, com um couro de animal amarrado, tomou um tempo escolhendo alguma coisa dentro dele. Ela retira de dentro o que parecia serem casca de romã desidratada, ela devolve o invólucro ao seu lugar e caminha em direção da lareira que está acessa. A senhora retira uma haste de ferro longa que numa ponta é em formato de L que ela encaixa em duas argolas que estão uma em cima da outra, presas na pedra na borda da lareira. Enquanto na outra é um gancho quadrado, nesta ponta ela coloca uma velha chaleira que estava sobre uma mesinha e que ela havia cheio de água do balde que estava ao lado da lareira, muito bem escondido. A dona da casa faz tudo com cuidado, coloca no recipiente cheio d’água e logo o leva ao fogo.
Catalina rompe o silêncio.
— Cada um de nós “nasceu” na vila, e ao adentrar ao paradoxo, começamos nossa jornada. — Começou ela a contar com um tom professoral que Anton já conhecia bem, pois ele mesmo usava. — Aqui, estamos presos no paradoxo. Você deve entender as sete mortes que nos conduziram até este destino.
Ela fez uma pausa e seu rosto disforme parecia assumir um pesar muito incomum.
Segundo ela, cada um de deles estava condenado a passar por sete mortes, um ciclo implacável que começava no momento em que nasciam na vila. “Nosso nascimento aqui sela nosso destino,” disse ela, seus olhos vazios refletindo a luz da lareira. “Não há escapatória.”
A primeira morte, adentrar ao paradoxo, marcava nosso nascimento. Desde o início, estávamos presos, uma sensação sufocante de predestinação que nos envolvia como um manto frio. Sentíamos o paradoxo durante a infância, uma presença constante e opressiva, como sombras que espreitavam ao nosso redor. “Quando crianças, sentimos algo errado,” ela sussurrava, “uma presença constante, sufocante.”
À medida que avançávamos para a pré-adolescência, percebíamos o paradoxo de forma mais aguda. Os rostos ao nosso redor começavam a se desvanecer, a realidade se distorcia, tornando-se uma pintura borrada de horror. “Na pré-adolescência, começamos a perceber a distorção da realidade,” explicou ela. “Os rostos que se desvanecem.”
Na adolescência, as perguntas surgiam, mas nunca encontrávamos respostas. “Adolescentes, começamos a questionar o que é real,” disse ela, a voz carregada de um desespero silencioso. “Nossas perguntas nunca encontram respostas.” A cada questionamento, a escuridão ao nosso redor se aprofundava, como se a própria vila se alimentasse de nossa dúvida e confusão.
Quando chegávamos à vida adulta, a compreensão do paradoxo nos envolvia como uma teia de escuridão. “Adultos, compreendemos que estamos presos em uma teia de escuridão, nossos destinos já traçados.” A sensação de estar aprisionado se tornava insuportável, cada dia uma luta contra uma força invisível e inescapável.
Na velhice, o desejo de se entregar ao paradoxo crescia, uma rendição silenciosa e inevitável. “Na velhice, o desejo de entregar-se ao paradoxo cresce,” ela dizia com uma voz quase inaudível. “A resistência é inútil.” A resignação se infiltrava em nossos ossos, e qualquer vestígio de esperança desaparecia como um sopro na escuridão.
Um som estrondoso reverberou pelo ar, ecoando como um trovão ancestral. Os moradores, como que em um transe silencioso, começaram a olhar ao redor. O vento aumentou de intensidade, chicoteando as árvores ao redor com uma fúria repentina, enquanto luzes de cores vibrantes começavam a dançar no céu, pintando um espetáculo etéreo acima de nós. O mais surpreendente era a ausência de espanto nos rostos dos habitantes; eles apenas voltaram seus olhares para a entrada da cidade com uma calma quase reverente.
Senti uma curiosidade irresistível e saí para me juntar a eles. Ao olhar na mesma direção, notei uma névoa espessa começando a se formar do lado de fora dos portões da cidade. As runas antigas gravadas nos umbrais começaram a brilhar com uma luz azul misteriosa, emitindo faíscas como se estivessem carregadas de uma energia arcana.
A névoa se ergueu em um redemoinho, girando cada vez mais rápido, formando uma coluna luminosa. Uma luz cegante emanou do centro do vórtice, forçando-me a proteger os olhos com o braço esquerdo. O mundo ao meu redor desapareceu momentaneamente na intensidade da luminosidade.
Então, tão repentinamente quanto começou, tudo cessou. O vento acalmou, as luzes desapareceram e a energia que impregnava o ar dissipou-se, deixando apenas o eco distante do fenômeno. O que restou, em meio ao nevoeiro remanescente, foi uma silhueta. Parecia uma forma humana, imóvel, na parte interna do portão.
A névoa se dissipou lentamente, revelando uma figura enigmática. Vestia roupas rasgadas, sujas e puídas que pareciam feito de sombras, as bordas tremeluzindo com uma luz suave que lembrava estrelas distantes. Seus olhos eram escuros e fundos com um vermelho profundo.
Os moradores, como que movidos por uma força invisível, correram em direção ao novo visitante. Seus rostos mostravam uma mistura de expectativa e aceitação, como se esperassem por esse momento. A figura misteriosa permaneceu imóvel, observando tudo com uma calma serena, emanando uma presença que parecia, ao mesmo tempo, inocente e perdida.
Eu, paralisado pela cena impressionante, sentia uma mistura de ansiedade e fascínio. A cidade de Séttimor, já envolta em mistérios e segredos, revelava agora mais uma camada de seu enigma. A chegada desse ser, envolto em magia e luzes sobrenaturais, marcava o início de algo profundo e transformador, um evento que todos, mais que eles eu, sentiríamos em nossas almas.
Presenciei algo que não podia explicar, quero dizer, já não consegui quanto aos moradores que já estava vendo, agora com este novo evento me vi desprovido de argumentos, não havia nada em que eu pudesse me lastrear. Minhas pernas bambearam. Apenas cai no chão sem ter o que pensar.
Os moradores vieram em festa pelo novo membro daquele pequeno vilarejo. Aquilo era o nascimento? Era daquilo que a velha Catalina falava? Eles vinham assim para este mundo?
— Vamos jovem Anton, levante-se, hoje temos o que comemorar! — Falou a Catalina da porta de sua casa. — O novo nascido e a chegada de um estrangeiro. Hoje é um bom dia — Disse ela com uma suave e doce. Seu rosto expressou um sorriso, ou parecia ser.
Momentos, ou horas, mais tarde — Voltei para dentro da casa de Catalina e conversei com ela sobre a história da cidade e de seu tempo naquele lugar, enquanto isso observava pela janela a corrida que se fazia para preparar um grande banquete, os homens e jovens carregando madeira, os bancos de madeira, a levar algumas mesas, todos eram bem-organizados. A fogueira no centro da cidade, e para as pequenas espalhadas ao redor dessa, eles as alimentavam para que colocasse as carnes para assar. As mulheres se apressaram em levar os pedaços de carne para a praça, ervas também eram carregadas, óleos e outras coisas.
Catalina veio até mim com uma caneca de metal batido.
— Acho que ainda não comeu, é bom que pelo menos com esse chá aguentará um pouco mais até que tudo esteja pronto. — Ela me entregou a caneca com cuidado, sua presença, apesar da aparência, era acolhedora.
O chá feito de casca de romã, admito, não era meu favorito entre os tipos, mas o cheiro era agradável e parecia que ela havia agregado no preparo, mel. Sorvi um pouco do líquido quente e seu sabor era suave, refrescante e na doçura adequada. Uma coisa que notei era que o ar frio que sentia fora da cidade era muito menor dentro dela. Como se o clima fosse menos agressor aqui, no interior dos muros de Séttimor, do que fora.
Quando me dei conta, eles já tinham terminado de montar tudo. Deixei a caneca sobre a mesa e fui até a porta para observar melhor aquela festa que estava começando. Estranhamente, o tempo neste lugar era algo estranho, eu não sentia sua passagem, e para ser sincero, desde que cheguei no Castelo isso não me incomodava de verdade. Agora que penso dormir, não dormir, parecia não dar diferença.
Eles tinham tambores e tamborins, alguns carregavam instrumentos de cordas. Um começou a tocar o com as mãos nuas. As batidas dos tambores ressoavam no ar com uma força hipnotizante, cada golpe profundo e reverberante ecoando como o coração pulsante da terra. Os ritmos, inicialmente lentos e graves, criavam uma tensão quase palpável, como se o próprio ar estivesse carregado de eletricidade. Era algo que eu nunca escutei, não eram as músicas dos bailes, era algo mais primitivo, selvagem.
A cada batida sentia o coração pulsar, então notei que alguns pareciam se submeter as batidas a melodia. Começavam a se reunir ao redor da fogueira principal, as jovens almas ali presentes moviam seus corpos com suavidade, delicadeza e sensualidade. Cada mover dos quadris, a ondulação era um poema de elegância e sensualidade, fluindo suavemente como um rio que conhece bem seu curso. Com um sutil balançar, elas evocavam a cadência de uma melodia antiga, um ritmo que falava de mistérios e histórias esquecidas.
Os quadris das dançarinas eram a expressão máxima de seu controle e liberdade. Suas mãos no alto com movimentos sutis, delicados reverenciando os céus. Um convite ao desejo, ao sonho. O mergulhar na loucura. Em cada movimento, havia uma mensagem silenciosa de confiança e poder, uma demonstração de que a beleza reside nos detalhes e na capacidade de contar uma história sem palavras. E assim, com cada balanço e ondulação, ela cativava e encantava, transformando a dança em uma experiência verdadeiramente mágica.
Os dançarinos homens avançavam com passos firmes e decididos, emanando uma energia viril que preenchia o espaço ao seu redor. Seus movimentos eram poderosos e precisos, cada gesto carregado de força e propósito, como se estivessem desenhando a história de seu povo no ar.
Os pés batiam no chão com uma cadência rítmica, ecoando como tambores de guerra. Os corpos musculosos se arqueavam e giravam com uma agilidade impressionante, combinando resistência física com uma elegância rústica. As pernas, fortes e bem treinadas, marcavam o ritmo com uma precisão quase militar, transmitindo uma sensação de disciplina e coragem.
À medida que os tambores aceleravam, suas batidas transformavam-se em uma cascata de som, cada toque provocando um arrepio na pele. Era uma música que não apenas se ouvia, mas se sentia, reverberando nas profundezas do corpo e da alma. Cada batida era como um feitiço lançado, evocando imagens ancestrais e rituais sagrados sob um céu estrelado.
O som dos tambores parecia invocar espíritos antigos, suas vibrações impregnadas de uma magia antiga e poderosa. Havia algo de sedutor na maneira como os ritmos se entrelaçavam, um convite irresistível para se perder no mistério e na paixão da música. As batidas fortes eram como sussurros carregados de segredos, prometendo revelações ao mesmo tempo, tentadoras e assustadoras.
Nesse momento me vi sendo atraído para dentro daquela dança, eu senti ela me chamar, uma voz na escuridão, insistente e incansável. Algo familiar em minha mente.
E então, uma voz de barítono se ergueu acima do ritmo, recitando uma poesia encantadora na melodia que estava sendo tocada, fazendo uma harmonia sombria.
Do mais profundo emergiu, das trevas,
Uma melodia entoada com requinte,
Jamais ouvindo algum escutou algo tão grandioso,
Um delicado convite, um encanto irresistível.
A composição envolvia, tão sedutora,
Ansiava por ela, com fervor, mergulhar na sandice,
Do longínquo, uma voz ressoava,
Epopeia dos perdidos a me seduzir.
Contorcia-se como serpente encantada,
Atraindo-me como um sortilégio sutil,
No compasso dos seus pés, passos enganosos,
Tal qual fogo-fátuo sobre o campo febril.
Nos alcançava os ouvidos, sinistro e encantado,
Essa enigmática melodia, vida do etéreo,
E assim, imerso em seu mistério profundo,
Para além da vastidão do oculto, em Séttimor o silêncio tumular.
Eu estava completamente imerso em uma experiência sensorial, cada batida da música ressoando em meu peito com uma intensidade quase palpável. As letras penetravam tão fundo na minha alma, rompendo as barreiras e despertando emoções que eu nem sabia que poderiam existir. A música era uma tempestade arrebatadora, e eu me deixava levar por cada acorde, cada nota vibrante.
Então, alguém me entregou uma caneca de cerveja. Seu aspecto era inusitado, quase misterioso, e um aroma robusto e cativante logo se espalhou pelo ar. O cheiro era uma promessa sedutora: malte torrado com profundidade de café fresco e um toque de caramelo queimado. Era como se a cerveja estivesse murmurando segredos antigos, convidando-me a explorar seus encantos.
Ao tocar os lábios, a textura da cerveja preta se revelou um deleite. A espuma, espessa e da cor de um café encorpado, derretia lentamente em uma sensação macia e aveludada. Era como ser acariciado por uma nuvem de creme, a suavidade envolvente proporcionando um contraste delicioso com a intensidade da música que ainda pulsava em meu coração.
E então veio o sabor, uma explosão de complexidade que me envolveu completamente. As notas iniciais de malte torrado se desdobravam no paladar, revelando ricos sabores de café expresso e cacau amargo, cada gole era uma viagem profunda e prazerosa. O caramelo surgia para suavizar o amargor, criando um equilíbrio perfeito, enquanto nuances de baunilha e toffee acrescentavam uma doçura sofisticada e uma profundidade sedutora. Cada gole era uma descoberta, uma mistura mágica de sabores que dançavam na minha boca, prolongando o prazer e deixando um final caloroso e envolvente.
A combinação daquela música intensa e a cerveja preta, com sua textura aveludada e sabor multifacetado, era um convite ao prazer absoluto. Eu estava completamente cativado, mergulhado em uma experiência sensorial que tocava todos os sentidos e me deixava ansioso pelo próximo gole, pelo próximo acorde, pela próxima emoção que me esperava.
Ali estava eu seguindo o ritmo, acompanhando os homens, dançando com eles. Sim, me vi eufórico, dançando como um adolescente. Sorrindo e saltando, acompanhando os homens ao redor da fogueira.
Meus olhos pareciam estar falhando, ou era a desidratação de tanto dançar com o povo da vila, ou a cerveja que já me tomava por completo, mas vi a sombra de outra pessoa emergir do nada. No entanto, não parecia ser um morador de Séttimor, parecia um espírito invocado por aquela música. Sim, miragens, tinha que ser. Uma volta mais ao redor da fogueira e então a silhueta de uma mulher se formou atrás das pessoas. Parei de dançar por um instante, e passei a observar melhor aquela sombra que gradualmente foi ganhando detalhes.
Ela parecia não estar ali, ninguém mais a estava vendo? Ou será que não estavam dando atenção? Será que todos já beberam demais?
Seu rosto lentamente revelava uma pele morena agraciada pela noite, lábios carnudos e charmosos, olhos delineados, um nariz pequeno e belo. Seus cabelos eram longos e escuros, ondulados da raiz até onde eu podia ver. Não parecia ser alta, aparentava ser esguia e suas roupas não eram como a dos locais e menos ainda dos romenos ou francês, o que me indicava que ela vinha de um lugar que desconhecia. Ela começa a se mover, ao que parecia ela ouvia a música que estava sendo tocada. Mas, ela em si parecia uma miragem, sua imagem ondulava.
Os movimentos dela eram, ao mesmo tempo, delicados e vigorosos, uma combinação de força e sutileza que fascinava o olhar. Quando ela girava os quadris, era como se o mundo ao seu redor desacelerasse, fixando toda a atenção na harmonia dos seus gestos. A cada passo, uma promessa; a cada giro, um segredo revelado.
Suas mãos se moviam com uma fluidez quase etérea, traçando padrões invisíveis no ar que pareciam desafiar as leis naturais. Seu corpo, livre das amarras do mundo material, dançava como se flutuasse sobre as ondas da música que preenchia o ambiente.
Em um instante, pude vê-la em toda a sua magnificência. Vestia uma saia leve que cobria seus ombros. Ela balançava com cada movimento, pendendo até pouco abaixo dos joelhos, revelando um jogo de luz e sombra sobre sua pele. Braceletes de metal adornavam seus braços, cintilando a cada gesto com uma aura de mistério e magia. Seus pés estavam calçados com sandálias finas, que acariciavam o chão em passos suaves e ritmados.
A dança tribal que ela executava era um espetáculo de graça e destreza. Seus movimentos eram uma fusão hipnótica de ondulações e giros, cada curva e contorção um testemunho de um domínio profundo sobre seu corpo e a música. Com cada balanço dos quadris e cada rotação sutil, ela exibia uma feminilidade e uma jovialidade que parecia transcender o tempo e o espaço.
Enquanto a música inundava o ambiente com suas notas pulsantes, ela se destacava como uma visão encantada em meio aos habitantes de Séttimor. A dança a envolvia em um manto de brilho etéreo, mas a presença dos moradores muitas vezes atravessava sua imagem, deixando-a momentaneamente desfocada, como um sonho fugaz.
Eu a observava hipnotizado, imerso na magia da melodia e na intensidade de seus movimentos. Ela parecia uma entidade de outro mundo, suas danças evocando um mistério profundo e sedutor que me mantinha cativo. A cada passo, a cada gesto, ela me arrastava mais fundo na espiral de sua dança encantadora, enquanto o som da música envolvia cada canto da cidade, criando um ambiente onde a realidade e o sonho se entrelaçavam em perfeita harmonia.
Um estrondoso som foi escutado, a melodia cessou, todos pararam para observar atentamente ao redor. Nuvens negras se formaram no alto das montanhas, relâmpagos desabaram sobre a terra, linhas luminosas corriam os céus.
Então me dei conta de que fiquei em Séttimor por tempo demais. Eu precisava voltar o baile do conde. Mas sendo sincero, quanto tempo fiquei aqui nessa cidade? Já não sei dizer se foram realmente horas. Comecei a andar em direção do portão da cidade até que alguém segurou meu braço.
— Melhor o senhor não sair agora. A floresta entre o castelo e nosso povoado oculta segredos mortais. E o senhor como visitante pode acabar sendo uma triste vítima. — Era o jovem que veio falar comigo quando cheguei. Sua expressão é de terror. Ele, ou eles, sabiam de algo.
— Quem é você? Do que está falando? — Questionei ele com uma cara de poucos amigos.
— Aqui me chamaram de Ioan. Estou na minha quinta morte, senhor Anton, eu não cheguei aqui ontem. — Sua voz era firme e severa, mas transmitia segurança. — Confie em mim.
Não podia evitar aceitar seu pedido. Inesperadamente um som alto que começou de maneira grave e foi ficando agudo surgiu. A princípio era como o sopro do vento em meio uma tempestade, mas esse era diferente, foi quando me dei conta que era um uivo de lobo. De apenas um viraram dez em tons diferentes. Olhei para o Ioan, então percebi que não era um aviso e um pedido tolo.
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
8. Castelo Vampírico: O Vale da Sombra da Morte
31 de dezembro? - Um tremular doloroso e frio me consumia, a criatura continuou lá me acalentando e esperando paciente…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
31 de dezembro? - Um tremular doloroso e frio me consumia, a criatura continuou lá me acalentando e esperando paciente que eu fechasse meus olhos. Tudo ao meu redor começava a se tornar nebuloso e indistinto. Ao pé da minha cama uma mulher vestida de preto, de pele de um cinza escuro e cabelos prateados, me olhava com seus olhos brancos. Seu olhar agudo parecia me culpar pela minha situação. Meus olhos se fecharam devagar, eu estava cansada de lutar para me manter acordada. Fechei meus olhos. Quando os abri, eu estava deitada em outro lugar, entre sombras e neblinas. Me levantei e percebi que estava em meio a um vale cinzento, deitada perto de onde corria um rio com águas que pareciam mercúrio líquido. Olhei de um lado a outro e nem sinal do castelo, apenas neblina e vários tons de branco, vermelho, preto e cinza. E com infelicidade percebi que teria que andar descalça, já que fui para lá sem os sapatos.
Porém ao começar a caminhar comecei a ficar deslumbrada. A flora desse vale cinzento era ao mesmo tempo perturbadora e fascinante, havia uma certa estranheza que me estimulava a querer continuar aqui. Eu caminhei naquele lugar tentando entender a lógica da sua existência, mas era em vão. Observei cada detalhe da flora que me rodeava. As árvores eram as mais impressionantes, seus troncos de um branco pálido, como se fossem ossos muito bem preservados e com sua alvura intacta. Eu toquei a superfície da casca e era fria e lisa, me lembrando de mármore levemente acetinado. As árvores eram altas, galhos retorcidos formando contornos intrincados contra aquele céu nebuloso. As poucas folhas dessas árvores eram de um vermelho tão profundo, quase negro.
Espalhado pelos troncos das árvores havia líquens de um vermelho vivo como se estivesse saturado de sangue recém derramado. A presença de líquens aqui me encheu com uma sensação de alegria, respirei até mais profundamente para testar o ar, aquele líquen era um indicador de que o ar dali era puro, ou pelo menos eu queria acreditar nisso, já que aquela era uma outra realidade. Eu estava extasiada, as flores de lá possuíam um tom vermelho escuro, pareciam crescer em profusão, tinha caules finos e frágeis, mas ao tocá-los percebi que eram incrivelmente resistentes, algumas flores tinham pétalas com bordas serrilhadas que pareciam prontas para cortar qualquer um que as ousasse arrancar dali. Outras flores exibiam um vermelho muito mais intenso com pétalas que se abriam em espirais complexas, o centro delas de um negro profundo que parecia absorver toda a minha atenção como se eu estivesse a olhar um abismo.
No chão, uma vegetação rasteira cobria quase tudo. A grama era de um vermelho enegrecido, e ao pisar nela com meus pés nus, senti como se estivesse caminhando sobre um tapete de veludo. Espalhados por entre as árvores e a grama, havia os arbustos de folhas longas e estreitas, tingidas de uma cor que varia entre o vermelho escarlate e o preto. Esses arbustos estavam cobertos de bagas negras, que exalavam um aroma doce. Peguei uma dessas bagas, mas não ousei experimentar seu sabor, sua textura era macia. Apertei uma delas e um líquido vermelho vivo escorreu por entre meus dedos aparecendo sangue arterial fresco. As rochas que havia ali possuíam uma luminosidade, como se estivessem banhadas de orvalho. Havia musgo em algumas delas de um preto profundo.
Outras flores diversas haviam ali entre as rochas, umas se assemelhavam a lírios de um tom prateado, com pétalas longas e curvadas. Outras eram como lírio-da-aranha-vermelha bem vibrantes que se movimentavam em sincronia em seus caules como aranhas reais mexendo suas patas. Toda a flora daquele ambiente parecia estar saturada de uma vitalidade incomum, uma energia que parecia me fascinar e ao mesmo tempo me levar a uma saudade de algo que eu não sabia o que era, uma saudade equilibrada entre a beleza e o horror. Tentava, por hábito, procurar significado nessa sensação, e talvez decifrar a linguagem das flores que eu via neste vale cinzento. Mas aquele não era o momento para decifrar aquilo, eu tinha que encontrar o castelo.
Andei por aquela neblina, procurando o caminho de volta. E avistei uma vila peculiar, havia pessoas lá, com seus rostos disformes e uma fumaça negra que emanava de seus olhos e bocas, outros nem rosto possuíam, me deixaram intrigada e um pouco assustada. Porém eles não pareciam ser perigosos, mas olhar diretamente para eles me perturbava. Respirei fundo, eu fui até um deles, precisava voltar ao castelo. Cheguei perto com receio.
— Olá. Poderia me dizer em que lugar estou e como posso voltar ao castelo? — perguntei receosa.
— Essa é a Vila de Séttimor — ele respondeu com paciência. — Nem todas as pessoas são bem-vindas aos umbrais de Drácula ou aos cuidados de Olga Nivïttiz, então criamos aqui um lugar para existirmos. Para voltar ao castelo você deverá seguir em direção ao ramoso nevoeiro. — Ele apontou para esquerda para um lugar cheio de brumas e ramos brancos translúcidos que pareciam vivos. — Você é hospede do castelo? — ele perguntou se virando para mim.
— Sim, mas de alguma forma que não entendo, vim parar aqui.
— Você é bem-vinda aqui, se quiser ficar por um tempo. Mas ficar por tempo demais distante do castelo pode te fazer perder partes do seu corpo, memória, moral, consciência e existência. Tudo será corroído pelo paradoxo da atemporalidade. Nós, os settimôros, nos acostumamos a isso. Mas aconselho que, se não for da sua vontade, é melhor não permanecer por muito tempo aqui.
Mesmo com esse aviso eu não sentia vontade de ir, não naquele momento. A aparência fora do comum dos habitantes, aquele vale, aquela vila, tudo parecia me acolher. Enquanto eu o seguia para a vila em meio àquela neblina densa, pude reparar nas casas cinzas e de telhados pretos, alguns tão pontiagudos que pareciam espetar a neblina que ocultava aquele céu também cinzento. Em certos telhados eu podia ver aquele líquen vermelho como sangue, diferente do vale em que eu havia acordado, a flora daquele lugar parecia morta, flores secas e árvores altas com troncos e galhos enegrecidos. Os habitantes, apesar das aparências perturbadoras, não transmitiam perigo algum, assim como o morador que me guiava pela vila. Todos pareciam viver suas vidas, crianças, jovens, velhos todos, mesmo que sem nenhuma expressão em seus rostos vazios e cheios de fumaça, pareciam transparecer felicidade. Suas vestimentas variavam em estilos e cores, alguns usavam mantos longos e escuros, outros se vestiam com roupas que pareciam feitas de couro. Existiam aqueles que se apresentavam com trajes nobres em cores entre vermelho, preto e tons cinzentos, com diversos adornos. Resolvi ficar um pouco mais naquela vila, talvez para entender o motivo de eu me sentir tão confortável lá.
O morador, que depois se apresentou com um nome que parecia soar como Dalvk, ou coisa parecida, virou-se para mim talvez percebendo meu interesse na vila.
— Vejo que está interessada na vila, muitos que acabam aqui perdidos a acham extraordinária, outros a acham terrífica. Eu posso apresentá-la para que você tire suas próprias conclusões. Você aceita?
— Sim, claro. — Eu disse animada.
Ele me guiou pela vila me mostrando cada parte dela, me levou até uma das casas que era cinzenta também por dentro e dominada pela neblina que vinha de fora. Ele me mostrou um pequeno altar e me explicou que havia um desse em todas as casas da vila, onde diariamente eram deixadas oferendas ao Ente. Alguns deixavam pedras preciosas, flores colhidas no vale fora da vila, ou objetos feitos à mão. Ele me explicou que o Ente era uma entidade que representa para os habitantes da vila o entendimento além do paradoxo, ele representa a paz em meio ao desconhecido. Me contou que o Ente se manifesta para aqueles que estão próximos de sucumbir ao paradoxo, guiando-os.
Ele relatou que em noites de lua nova, os moradores vestem roupas cerimoniais em preto ou cinza e acendem velas em um ritual silencioso. Essa cerimônia era chamada de noite das sombras, onde eles homenageavam aqueles que passaram pela sétima e última morte. Toda a vila ficava em silêncio enquanto as velas eram levadas até o cemitério e deixadas sobre as lápides. Acho que ele percebeu que eu não estava entendendo essa coisa de “sétima e última morte”, pois olhou para mim como se sorrisse e me explicou.
— Eis as sete mortes que conduzem a vila. Me permita explicar cada uma delas.
— Sete mortes? — eu disse curiosa.
— A primeira morte é adentrar ao paradoxo, o nascer na vila. Esta morte é o início da nossa jornada, o momento que deixamos o desconhecido e entramos nessa existência. A segunda morte é sentir o paradoxo, na infância. Nesta fase começamos a sentir o paradoxo e nos deparamos com a complexidade do nosso mundo pela primeira vez. A terceira morte é perceber o paradoxo, na pré-adolescência. É quando começamos a perceber claramente as inconsistências do paradoxo, questionando a lógica que nos cerca. A quarta morte é questionar o paradoxo, na adolescência. Nessa fase, começamos a questionar o paradoxo em busca de respostas. A quinta morte é compreender o paradoxo, na vida adulta. É quando começamos a aceitar e entender o paradoxo e abraçando sua complexidade e sua existência. A sexta morte é desejar o paradoxo, na velhice. Nesta fase passamos a desejar o paradoxo buscando a complexidade que antes nos desafiava. E, finalmente, a sétima morte é sucumbir ao paradoxo, a morte em si. É quando deixamos essa existência e vamos de encontro ao um estado mental de paz, somos consumidos pelo paradoxo, nos entregando ao desconhecido uma vez mais e indo de encontro ao Ente.
— Isso é tão profundo e bonito. — Eu fiquei fascinada com a sua explicação.
— Sim, cada fase é uma pequena morte que nos transforma, nos prepara para a nossa próxima morte. Venha, quero te mostrar algo.
Eu o segui por entre o cemitério da vila, e a cada passo eu queria fazer parte daquele mundo e daquele povo. Ele me levou até um local que parecia um pequeno templo, sentado lá dentro algo que parecia um homem envolto em um manto negro sentado em posição de lótus, com o rosto virado para cima como se olhasse fixamente para o teto. Seu rosto paralisado, olhos profundos e negros, uma fumaça cinza escura que parecia sair dos seus poros.
— Este é nosso líder ancião Kvvus, ele está passando pela sétima e última morte. Ele não fala mais, não escreve, apenas fica a meditar e a sucumbir lentamente ao paradoxo. Logo o paradoxo o consumirá, e acredito eu, ele encontrará o Ente.
Não sei se foi a presença do ancião ou estar em um cemitério, mas comecei a me sentir estranha. Um enjoo, sonolência, uma sutil sensação de pavor que subia pelo meu ventre e se fixava no meu estômago. Olhei para minha pele que antes era um marrom claro e estava adquirindo um tom acinzentado.
— Os efeitos do paradoxo chegaram cedo demais para você. Aconselho que vá agora, pois depois não conseguirá sair mais. Venha.
Ele me levou até o ramoso nevoeiro e disse que eu deveria seguir por ele sem olhar para trás. Me despedi dele como quem se despede de um amigo de longa data e me surpreendi ao abraçá-lo sem pensar. Ele retribuiu o abraço e disse para que eu fosse logo. Caminhei por entre a neblina e cada passo era um desafio, sentia vertigens que se intensificavam aos poucos. Eu precisava encontrar alguém, a solidão que antes era uma necessidade para mim, agora era um incômodo insuportável, talvez o encontro com os settimôros tenha me deixado com a necessidade de estar no meio de outros. Eu não queria estar sozinha, eu queria voltar para a vila. Os galhos do nevoeiro me prendiam tentando me arrastar de volta para névoa e dentro de mim a vontade de apenas me deixar ir e ser levada por ele de volta à vila era quase irresistível. Enquanto me deixava ser puxada vi uma sombra parada para além da névoa. Eu precisava saber o que era ou quem era, sua aparência me era familiar. Então ela apareceu diante de mim, imponente e serena. Seus olhos de um branco cadavérico. Era a mulher que me olhava ao pé da minha cama. Ela me olhou por um tempo.
— Não é a sua hora, você não deveria querer estar aqui. — Sua voz era suave como um sussurro. — Hadassa não te culpa por nada. — Ela pegou um globo parecido com uma bola de cristal só que menor e me mostrou ela em um jardim cuidando de belas flores negras. — Ela está em paz e quero que permaneça assim. Esse apego está te matando aos poucos, volte para o castelo. — Ouvir o nome da minha amada sair de seus lábios fez com que eu sentisse um frio subir pela minha espinha e um incômodo no peito. E, enquanto escrevo essas palavras em meu diário, a lembrança do evento faz com que consiga sentir outra vez esse frio me percorrer.
Enquanto eu olhava para ela, tentava processar suas palavras. Minha mente era um turbilhão de pensamentos e emoções. Vê-la feliz em um jardim, saber que todos os encontros que tive com ela foram talvez reais, despertou uma ideia que dominou minha mente. Comecei a falar comigo mesma em voz alta, gesticulando de maneira incontrolável com as mãos, andando de um lado a outro.
— Será que é possível trazer ela de volta? Drácula fez isso, se eu soubesse como talvez eu poderia fazer o mesmo. Mas como ter acesso a esse conhecimento?
Perdida em minhas reflexões, mal percebi que a mulher tinha desaparecido e que a névoa ao meu redor se adensava. Seus ramos me reconfortavam de forma sutil. Só que agora com essa ideia na mente eu não queria mais permanecer lá, por mais tentador que fosse. Eu corri e seus ramos se moviam rápidos na bruma, mas meus esforços pareciam em vão. A mulher misteriosa de antes apareceu de novo, dessa vez carregando um lampião prateado, ela me entregou ele.
— Isso a guiará de volta ao castelo. — Voltei a me movimentar pela névoa e a mulher misteriosa segurou meu braço me obrigando a voltar a olhar para ela. — Que ela permaneça em paz onde ela está, para sua segurança. — Seu tom soou como uma ameaça e isso me alarmou. Ela soltou meu braço com delicadeza, fechou os olhos por uns segundos como se parasse para refletir. — Há mistérios que não precisam ser conhecidos. — Ela disse isso e desapareceu em meio à névoa, me deixando sozinha com o lampião.
Voltei a correr, segurando firme o lampião, e de repente me senti puxada na direção em que eu seguia. Logo me encontrei no quarto como se estivesse acordando de um sonho. Me sentei sobressaltada, uma euforia febril tomou conta de mim. Senti uma dor muito forte no antebraço esquerdo, a criatura estava roendo-o. A visão era horrível, seus dentes afiados cravados na minha carne, o sangue escorrendo. Senti uma onda de desespero e instintivamente, com toda a força que pude reunir, bati com o lampião na cabeça da criatura. O impacto foi brutal e deixou o lampião em pedaços, espalhando vidro e metal pelo quarto. A criatura urrou de dor, recuando com o golpe. Aproveitei a oportunidade e corri para fora do quarto, sentindo o coração bater forte e o sangue pulsar em meus ouvidos. Os corredores do castelo se estendiam intermináveis diante de mim, mas eu não podia parar, precisava escapar da criatura.
Corri até minhas pernas começarem a doer e meus pulmões arderem. Parei em um corredor por um momento para tomar fôlego. Havia uma grande janela à minha direita, me aproximei. Fiquei sem palavras com o que vi, depois de 6 dias de completa escuridão azulada, o céu estava finalmente clareando. Uma manhã cinza e enevoada, as flores estavam mortas e as árvores sem vida. A solidão que antes eu tinha como refúgio, agora me consumia. Aquela manhã gelada e cinza parecia tornar tudo mais incômodo dentro de mim. Eu não queria estar sozinha, não depois de passar um tempo com os settimôros e ver neles toda aquela união e o desapego por aquilo que era permanente. De repente, ouvi risadas. Risadas infantis, ecoando pelos corredores. Dissonante naquela atmosfera solitária. Sem pensar muito segui o som, na esperança de encontrar qualquer coisa.
Quanto mais eu me aproximava das risadas, mais meu coração acelerava de ansiedade. Passei por salas vazias com apenas retratos antigos que pareciam me seguir com o olhar. Cheguei a uma porta e as risadas vinham lá de dentro. Empurrei a porta e fiquei perplexa com aquele salão imenso e alto, bem iluminado, cheio de brinquedos, artes penduradas nas paredes de pedra e várias crianças brincando. Seus rostos angelicais, suas roupas anacrônicas. Ao me verem entrar pararam de brincar e me olharam com curiosidade. Uma das crianças, uma menina de cabelos negros e olhos brilhantes, se aproximou de mim.
— Você está perdida? — ela perguntou com uma voz inocente. Senti as lágrimas virem e as segurei enquanto olhava para aquelas crianças.
— Sim. — Respondi com a voz tremendo. — Estou perdida. — A menina sorriu e segurou minha mão.
— Venha talvez depois da aula eu possa te ajudar a encontrar o caminho.
Ela me levou para o fundo da sala, me sentei no chão e fiquei observando as crianças enquanto elas pareciam brincar. Então algo perturbador chamou minha atenção, sete espectros brancos agindo como sombras e imitando cada movimento das crianças. Cada espectro de tamanho diferente. De repente uma das crianças, em segundos, se transmutou e assumiu a forma de um adulto. Fiquei surpresa quando uma a uma as crianças assumiram a forma dos espectros e se transformaram cada uma, umas em adultos, outras em adolescentes, outras em velhos. Me lembrei das sete mortes dos settimôros, e senti falta daquele lugar incomum ao qual passei tão pouco tempo. A menina de cabelos negros havia acabado de se transformar em uma adulta e logo depois voltou a ser criança.
— Como isso é possível? — Perguntei cheia de curiosidade e espanto.
— Todos aqui são aprendizes do domínio do tempo. Aprendemos a nos transmutar com o professor Monm. Podemos viver a infância em um segundo e logo depois nos tornarmos adultos. Quer aprender? — Ela me perguntou cheia de entusiasmo na voz. Hesitei por um momento, mas a curiosidade de experimentar esse conhecimento era tentadora.
— Sim. — Respondi trêmula e fiquei um pouco em dúvida se era o certo a fazer.
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Capítulo 3: A Natureza do Ser
Lancei-me contra as sombras do corredor, apressei cada um de meus passos enquanto minha mente atordoada se alimentava de sua própria angústia…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Lancei-me contra as sombras do corredor, apressei cada um de meus passos enquanto minha mente atordoada se alimentava de sua própria angústia. Covarde. Vi o lume lunar se extinguindo e o silêncio se aguçando como o adentrar no fundo de um oceano mortal. É assim que farás justiça em nome de teu único amor? De algum modo inexato, tracei o caminho ao meu aposento, embora o Castelo parecesse um labirinto. A aragem soprava uma mórbida invernagem e conduzia, com sua extensão bizarra, todo o meu terror. Quanta tolice. Atravessei os umbrais semiabertos, e vi, como outrora, o meu leito. As sete vozes do abismo permaneciam, enquanto meu coração era um frenético pêndulo. Volte e acabe com isso! Em alguma instância, as lágrimas passaram a liderar minhas emoções. “Silêncio! Silêncio!” — Bradei, em busca de serenidade. Ele é mais forte, ele vai te encontrar. Eram límpidas e douradas, pois vertiam e desciam pelo meu rosto, a nascente de meus olhos, contornando meu queixo e morrendo na curva de meus seios. Então vi a cor. E vi que também ruíam coralinas. A morte dele seria um alívio. Vesti-me em busca de aquecimento e considerei cavar o túmulo de minha solidão perpétua. Todavia, eu não partiria antes de reter a minha missiva, decerto que possuiria valiosas verdades acerca de meu passado. “Lëvri… por quê?” — Pensei, ele não saía de minha mente. Traidor facínora, esqueça-o! Não havia escolha, era preciso encontrar Drácula.
Amável Áurea, teu semblante plácito incita minha esperança, aquém da morte encarnada, corroendo minha existência. Não conto com a tua lembrança, porque sei que Pherhesí, se mal manipulada tal como fora, poderá resultar em angústias de inominável poder. Perdoe-me, minha dócil, perdoa este que amou a tua humanidade e tirou-a de ti sem considerar as consequências. Não sei no que te transformaste... e anseio, com tudo o que há de mais humano em meu cerne, que sejas uma nova Illitan e que possas recomeçar a nossa raça em nome de quem sou, aquele que te amou e há de amar-te além-vida. Não anelo, sob o estado em que me encontro, considerar o pior. Áurea, amante minha, dulcífera criatura; encontre a quem amar e, se fores Illitan, dê à luz. Se não o fores, te recordes do último Illitan, honre meu nome à posteridade, de alguma forma.
Sinto a morte em minhas entranhas, ela é lenta e profunda; como um invadir de raízes dentre as minhas veias, alimentando-se do poder que me faz ser quem eu sou. Quão amargo não mais dar-te um primogênito; tampouco a pequena cabana aos pés da neve, com o oceano mórbido ao horizonte. Eu sinto muito. Ao despertares, não te aproximes desta belíssima flor que vês em meu peito, reluzente em carmim, com pétalas abertas como um lírio e outras semifechadas como as rosas mais sublimes, não toque nas raízes âmbar, tenha cuidado com os espinhos. Um toque bastará para que o veneno lhe adoeça à morte sôfrega. Fuja, Áurea minha, e agora que não mais lhe posso privar do hediondo saber, tenha cautela... e não pise, em hipótese alguma, seja o que for ou quem for que te guie, no império de Krvier, tampouco pelas terras de Vonssihren; vá para as Ruínas e em algum lugar de lá, crie seu próprio reinado.
A carta terminava com palavras ininteligíveis enquanto minha astenia súbita se alastrara por todo o meu corpo. Lorrt morrera, decerto, enquanto redigia; sua dor parecia atravessar meus ossos e o papel em minhas mãos tinha aroma de sangue. Quando a li, fui soterrada por uma tortura pontiaguda no coração, agulhas abruptas no âmago meu, entre lágrimas e temor — era insuportável. Prostrei-me, de joelhos, na alfombra de algodão sob meus pés e desejei a morte para ser digna do descanso eterno, sem as vozes abíssicas, sem a dor da lembrança, sem tudo o que parecia compor minha desgraça. Naquele recôndito, nenhuma luz lunar reluzia nas janelas; a noite, na verdade, parecia-me outra e essa confusa sensação temporal, atordoava-me. Só pude retomar minha sanidade, quando o mal que me doía destilou-se e o vi em névoa cinérea pelo lado de fora do Castelo, através dos vitrais semiabertos.
Illitan era a raça vampírica de Lorrt e seu falecimento acontecera durante, ou talvez depois, do ritual de transmutação vampírica — o qual me fez o que sou. Os Ohrmons, decerto, foram os que o mataram, como na visão que tive, vampiros da raça inimiga, com seus olhos negros sem esclera; eu jazia inconsciente em meu leito naquela noite ao lado de Lorrt, no entanto, não em completude, pois a dor mórbida que tomara meu corpo advinha da lembrança do momento em que os Ohrmons invadiram o local e vi Lorrt matar um por um até ser infectado pela Rosaemori no movimento último de um dos inimigos. O amor acima de sua própria vida. Ainda não compreendo a totalidade do que é a Rosaemori e o porquê ela existe, mas sei que um dos Ohrmons possuía uma adaga dourada imersa em seu veneno, ele a fincou, por fim, em meu único amor. Parte da revelação da carta fora dada a mim por meio de Lahgura, tudo fazia sentido. Quiçá, portanto, ali naquele Castelo misterioso, residisse a última vampira da raça Illitan — assim o compreendi. Notei, pela missiva de Lorrt, o quanto isso tinha valor para ele; lutou até o fim para não extinguir a sua raça e pensou nisso até o último instante de sua trágica morte, encorajando-me a procriar para dar à luz a novos vampiros de sua estirpe. O amor abaixo do curioso egoísmo de promover o próprio legado?
Embora eu lembrasse, por fim, de nosso vínculo, de seu heroico cuidado sobre meu corpo inerte naquele leito e de toda a sua nobreza; nada confortava meu espírito. Quando tive em mãos o papel, observei-o com longa demora, hesitei em lê-lo, pois, este desconforto enraizara-se desde que deixei Lëvri e fui guiada pelo cântico sombrio. “É parte de quem tu és, Ennehris; não temas a tua história” dissera Olga Nivïttiz. Fora ela quem me encontrara à esmo pelo Castelo, em busca de Drácula; sua feição era bela, como uma impactante mulher; tinha olhos de um azul pálido e era plácida como as nuvens de verão, carregava a carta em suas mãos enquanto andejava à minha procura — embora eu tenha pressentido o saber dela acerca do local em que eu estava naquele momento; a mulher que emanava algo obscuro e oculto — o que desejei não saber a respeito — tinha um tipo visível de elo com cada parede de pedra a nos cingir; cada vela e candelabro; cada escuro canto; ela parecia dominar as sombras e as luzes, e o fremir do silêncio. Seu sorriso singelo, ao fitar-me sob intranquilidade, aqueceu-me um pouco, na frialdade do meu amargor. Apresentou-se, formal e afável. Não a interroguei sobre o local, meu desgosto e confusão mental em razão daquelas mórbidas vozes deturpavam minha racionalidade e impediam-me de tomar as decisões mais corretas. Porém, tive a calmaria de ser convidada por Olga a recorrer ao seu aposento caso eu precisasse de quaisquer favores e esclarecimentos, assim, em razão do convite, não me senti na obrigação de prolongar, naquele átimo, a nossa conversa.
Todavia, quando a dor cessou e a solitude beijou novamente os meus lábios; uma das mórbidas vozes, única e mais grave, em meu sepulcro mental, antevira um instinto obsceno que eu jamais vivenciei; ecoou em meu crânio enquanto minha visão se encarnava. Sangue... Sangue... Sangue... Tudo, as tapeçarias, as pedras, o mobiliário do aposento; tudo era puro e negrume rubi, a cor mais vermelha e sanguinolenta que um dia imaginei existir. Senti-me sufocada, com todos os sentidos atormentados e, com uma sobrenatural rapidez, uma célere e monstruosa cinesia, tracei os claustros e passagens do Castelo Drácula, abandonando a carta que, até o momento que decidi abri-la, não a havia soltado. Aos meus ouvidos conduzia-se, tão somente, minha respiração afoita, meu coração pulsante frenético e o silêncio sombrio da minha sede. Temi a morte, no ápice da agonia. Então, n’uma caça qual nem eu mesma compreendia, avistei um homem adentrar um cômodo há pouco mais de dois metros de mim. Segui-o lentamente e vi-me transfigurada em sombras que tomavam cada canto daquele aposento, conduzindo o olhar do rapaz a um semblante de insegurança.
Não é uma dádiva a memória daquele momento, confesso que desejava esquecê-lo de modo integral, pois, a agressividade do que me conduzia e a visão encarnada trouxera-me uma estranheza medonha, um horror íntimo que só pude notar no fim, quando se dissipou. Até lá, no entanto, eu era apenas um títere escoltado pelas mãos do instinto daquilo que me tornei, refém do meu próprio poder. Uma vampira... obcecada pela seiva acerejada... doce liquor da vida humana. Consegui obscurecer todo o ambiente e ainda não era vista pelo jovem que estava cada vez mais amedrontado, embora sua feição não transmitisse horror em si, mas sim um encanto imerso em medo e angústia. Eu vislumbrava-o, cada artéria de seu corpo, cada veia; sua pele parecia translúcida e seu coração estava tão convulso quanto o meu, eu o sentia. Da névoa negra dissipando, fiz meus olhos serem vistos e, depois, meu corpo. Não sei como eu estava, contudo, através daqueles olhos por detrás dos óculos de grau, aquele rapaz avistava uma mulher sedenta e desta maneira, ébria e ávida, aproximei-me de seu corpo humano, ele não se afastava de mim, estava sendo conduzido por algo meu que eu mesma desconhecia. De perto pude ver um brilho pulcro em suas retinas, e as pupilas dilatadas e trêmulas, em estado de transe.
Então toquei-lhe o rosto empalidecido, descendo minha mão pelo seu pescoço viril enquanto fitava seu sangue ardente, quase fulgurante ao meu olhar, esplendoroso e acelerado. Aquele homem exalava vida, um tipo de vida que eu não tinha mais. Sei que o sorri naquele momento, porque mesmo dominada pelo inferno da minha condição, eu ainda era eu. Segurei sua cintura, lentamente; e próxima, por fim, de seu pescoço, finquei-lhe meus dentes que afundaram em sua carne sem dificuldade; o tórrido líquido entornou-se pelos meus lábios, inundando minha garganta gélida. Sorvi de seu éter com uma morosidade diabólica... embriagava-me em exultação perniciosa... e senti a estrutura física de meu mártir vibrar, ele gemia, lamúrias baixas, murmúrios de pavor e deleite. O licor vital escorria, traçando curvas pelo meu queixo e pelo corpo de minha vítima, manchando sua camisa branca, eternamente assinalada por minha atrocidade. Pouco a pouco a visão carmim se extinguia e eu voltava à sanidade, o suficiente para parar o meu ato e olhar para o corpo pálido daquele rapaz inocente. Seus olhos se fecharam devagar, eu não o havia matado, no entanto, retirei de seu corpo parte de sua vida, o qual carregarei para sempre em mim, mesmo que de modo tão simbólico. Deitei-o desacordado na cama, beijei-lhe o rosto frígido. “Eu sinto muito...” — sussurrei e olhei-o mais uma vez para, por fim, fugir. E fugi para o mais longe que pude, sem saber o que me esperava fora daquele lúgubre templo de morte. Corri na mesma urgência de outrora, quando dominada por minha bestialidade, e vi as torres altas do Castelo transmutarem-se, pouco a pouco, a um horizonte de névoa erma.
A cinérea bruma era densa, turvava-me o senso de direção. Caminhando com cautela, perscrutei o silêncio e a palidez anuviada, uma cerração quase tangível que, de forma sutil, pressionava minha alma, oprimia meu espírito, imergia-me na insólita sensação de dissipação existencial. Com delicadeza e, sobretudo, lentidão; a névoa parecia desgastar minha pele, mesmo não havendo nenhuma mudança visível; da mesma forma, conforme meu caminhar se prolongava sob a tortura daquele fenômeno, ouvindo corvos no horizonte, fui submetida a uma queimação, como o fumegar de meus órgãos e um fervilhar de minha seiva, embora o crocitar doasse-me tenra esperança por existir, naquela vastidão nuviosa, algum tipo de vida além da minha. Ainda assim, era um cruel suplício onde meu único alívio advinha do absoluto silêncio das sete vozes do abismo. Não sei, contudo, por quanto me inundaria de paz aquele vazio, pois um sonido fantasmagórico preencheu a falta de minha maldição e parecia-me sussurrar o inaudível, símil à chuva e à respiração ecoante, no longínquo e, ao mesmo tempo, ao meu lado. Um medo aterrador ascendeu meu pânico à uma fobia de toda aquela ausência de visão, contornada pela névoa, minha respiração tornou-se ofegante e comecei a correr outra vez até ver tudo lentificado, como dezenas de espectros no meu olhar, embaçado e tardio, completamente turvo e confuso. Assim caí de joelhos no que me parecia restos de uma densa floresta, com flores e folhas secas. Busquei pelo ar, mais e mais, toquei meu torso, como que para segurar meu coração que, estranhamente, parecia parar, embora continuasse pulsando.
Quando ouvi passos, temi em maior aterramento e olhei na direção do som. Mais passos. Por todas as direções. Mais e mais passos. Ofegante, estremeci em um horror conturbado, mas não havia força alguma em meu corpo, não havia como esgueirar-me dessa vez. Pensei em toda a culpa que carregava e supus ser o meu carma por sorver, sem permissão, daquele sangue. Então fui pega por criaturas com faces sombrias, pareciam humanos, pareciam pessoas com feições distorcidas. Demorou para que eu pudesse vê-los de fato, pois, toda a minha visão tornara-se palidez pura, enquanto eu me conduzia apenas pelos sussurros da névoa. Como fluíam as coisas... há pouco devorando uma frágil criatura humana, sendo apinhada de energia e poder sobrenatural, tendo em meus olhos encarnados o luzir da glória, o sabor quente do sangue nos lábios e, logo depois, ser a presa da densa névoa, uma vítima da natureza insondável daquele lugar. Não havia quaisquer possibilidades diante do que eu sentia, em meu peito havia, decerto, um relógio e, naquele instante, não só estava em perpétua paralisia, como duplicava-se e distorcia-se adulterado e violento — e triste, lúgubre, toldado de sua própria existência.
Quando restaurei meu precípuo sentido, enxerguei incontáveis casas em uma longa estrada de pedra. E vi mais daquelas pessoas com rostos estranhos, elas atentamente curiosas ao meu respeito, traziam consigo itens, dentre eles mantas, cálices de frutas. E notei casas com luzes trêmulas, das velas em castiçais de prata. Fui carregada a um dos lares, sendo posta em uma cama com frondosas cobertas cujo tecido assemelhava-se a um veludo estufado como um pedaço de algodão puro, conduzia um calor próprio; muitas as vestes daquele povo assemelhavam-se a este tecido, intrigava-me, porém, seus semblantes deformados e toda a sensação que transmitiam: pacificidade, solidão; um laço que os envolvia, a cada um deles. Os que me carregaram, prostraram-se diante meu corpo deitado, colocando artefatos e frutos trazidos pelos demais — alguns eram jovens, lembro-me de ver uma pequena criança carregando um frasco em suas delgadas mãozinhas.
— Trhe eroen virëhs! Eroen, eroen riamn! — Dissera o mais próximo de mim, pude confirmar a grafia de suas palavras a posteriori. Todos se retiraram do quarto e, daquele que permanecera, senti suas mãos tocarem minha fronte. — Ficarás bem, descansa-te. — Sussurrara, era uma voz feminina e o toque feminil fora tórrido e esmerado. Vi-a deixar o aposento, acendendo algumas velas apagadas pelo movimento fora do comum e fechando a porta em seguida. Som algum ressoou-se no perpassar dos instantes, inclusive deduzi que dormiam, quando os ouvi, ao que parecia, beijar seus rostos, eram como uma família, e repetiam a frase: “Nouen ehelun”, silenciando, todos eles, no suceder, quando lá fora, no nevoeiro, a noite se achegava — via pela fenestra diagonal do meu atual recanto. Assim que pude retomar a sanidade, sentei-me no leito e bebi da frígida água deixada na moringa sobre a mesa de canto próxima. Era água e não duvidei que seria; algo naquelas pessoas transmitiram-me profunda confiança, ainda que o terrífico de suas faces me assombrasse.
Dessarte, na penumbra, o calmo cuidado deixado pelos residentes, metamorfoseou-se na mórbida sensação de abismo, onde o medo e escuridão são as veredas por onde posso me orientar. Olhei à direita e vi mãos masculinas segurando bagas de um pequeno fruto de envoltório negro, como uvas ou mirtilos, porém maiores. Fitei, por fim, a face do indivíduo, possuía uma aparência adônia com olhos azuis, conspícua expressão, sem embargo ao seu tenro sorriso pontiagudo. Vestia-se de um negrume noturno, roupas de inverno intenso, embora não pesadas e em cortes oblíquos; assemelhava-se a couro, no entanto, não reluzia como tal. Diferentes os que me receberam, os que pronunciavam palavras de um idioma ancestral, este, em evidência, era como eu e não pertencia àquela cultura dos que não possuíam faces completas. Indaguei-me no súbito momento se, por acaso, tratava-se de um vampiro. Hesitei em pegar o fruto que me oferecia, pois, sua aura era funérea e instável.
— Não temas teu Arcanjo, bel donzela. — Voz de voragem, tom cruel; dúbia existência indigna da minha compreensão. Hesitei em respondê-lo. Levou uma das bagas à sua boca, mastigou-a com elegância, deixando as restantes sobre a ânfora destinada a frutas. O homem — se era mesmo um — sentou-se à cadeira de balanço, próxima à porta, e fitou-me pacífico, ainda, todavia, obscuro.
— Quem és tu? — Fui obrigada a questioná-lo.
— Tua maldição. — Respondera intenso. Confundi-me por instantes. — Ou apenas Seth, se preferires. — Decerto demonstrei ainda mais do conflito mental, o distúrbio da incompreensão, pois que ele, Seth, ajustou-se em seu acento, olhando-me fixamente — Sou teu Arcanjo, Áurea. Destinado a impedir que quaisquer males afetem a tua preciosa existência, pelo preço de conduzir tuas ações com as sete vozes do abismo, as quais são minhas, como podes notar. — De fato, sua voz era familiar, embora mais grave. Respirei fundo, olhando para a janela, indagando-me o porquê de todas as coisas. Senti-o se aproximar. Sentou-se ao meu lado, em meu leito aquecido. Olhei-o.
— Então te personificas humano... e, pelo visto, sabes tudo sobre mim. Andas, como a hialina aragem e estás ao meu lado como um gárrulo das sombras. — Ele sorriu, parecia mesmo um Arcanjo, dada a beleza viril que o preenchia da pele à barba rala, das veias aos olhos, dos poros à totalidade.
— Não. Geralmente estou... dentro de ti. — Silenciamo-nos por um tempo.
— Há como revogar minha aspiração? Olvidar todos os horrores, tal como outrora?
— Não, Áurea... Lahgura é uma perversa magista, manipula suas vítimas com maestria.
— Serves a ela, pelo visto, Senhor Arcanjo; tendo o trabalho norteado como uma tábula resignada, obrigado a fenecer ao meu lado a favor da minha existência.
— Errado, que previsível... — Olhei-o com mais atenção, seus olhos reluziam gentis, mesmo e apesar de seu poder ocultista e de sua ironia. — Existo dentro da tua alma... e corpo. Sinto o que tu sentes, ouço o que tu pensas... Tua morte, portanto, significará a minha. Não conheço todo o poder de Lahgura, tampouco sei como é possível que ela faça o que fez. Mas sei que estou vivo agora, através de ti.
— Se te personificas, por que não te ausentas do meu corpo? Se não tens vínculo com Lahgura, por que apenas não cala as tuas vozes abissais? — Outro sorriso, dele para mim, e um apoiar-se na cama, como se a ela pertencesse.
— Tua inocência pode acabar com a nossa vida. — Seth aproximou-se súbito, segurando meu queixo e respirando próximo de meus lábios; meu assombro despertou o que outrora estivera conduzido pela estranha vertigem e nada mais. — Não tenho elos com Lahgura, mas tenho contigo. Personifico-me, todavia, como a noite se afasta sob o alvor do sol no horizonte, não sou capaz de permanecer fora de ti por mais do que algumas horas. — Explicou, retirando sua mão de mim e voltando à cama, apoiando-se. — É isso que sei, pois sinto; é o que determina minha existência.
A consciência assimilada cingia-me sem pressa e o delíquio ascendia como o frio. À minha visão, um homem denominado Seth cuja personificação de minha maldição o significava, sendo, mais do que isso, uma criatura codependente de mim; convencida de suas palavras, lidava com a sensação de inabalável descrença, uma dualidade que me machucava — confabulado sobre Arcanjos, temia que ele fosse, em verdade, um demônio e, sendo um, dominador assíduo da mentira à vista disso. Silenciada, busquei refúgios em mim, esquecendo-me que a ele pertenço e provando do acre sabor dessa maldição ominosa.
— Áurea... — Fitei-o, odiava ouvir-lhe chamar-me pelo mesmo nome que Lortt em sua missiva inestimável. Prensei meus dentes como fuga do meu ódio. — Eu sei o que sentes... e o que pensas... — Reforçou, em razão de todas as verdades desveladas. Ele se levantou e tão logo senti sua mão em minha nuca, forçando-me a levantar. Assim pude notar sua estatura alta, ele não estava comprimindo o meu pescoço. — Irrita-me teu ódio contra mim, eu que sou o teu defensor; enfurece-me ouvir estas tuas afrontas silentes que atravessam meu crânio! — Seus olhos estavam ainda mais azuis e sua voz mais grave do que antes, seu rosto era como a noite mais mórbida dos mais medonhos pesadelos. — Tu achas que não estou sob a lôbrega coerção das tuas vozes abissais enquanto te vitimizas da maldição que tu escolheste? — Seth segurou meus cabelos com mais intensidade, aproximando-se de novo da minha face assustada. — Eu... diferente de ti... — Sua voz abaixava tanto que trazia o timbre do inferno, eu sentia fremer minha alma ao ouvi-lo. — Não tive escolha.
Então, seus olhos que eram azuis começaram a empalidecer e sua pele translucidar. Todo o seu corpo tangível transfigurava-se em um fantasmagórico organismo etéreo e aquilo, como um tipo denso de névoa, penetrava meus olhos, boca, narinas e ouvidos. Doía em minhas veias, sim, cada artéria por onde deveria correr a minha seiva humana. Eu o sentia por todos os meus músculos, pele e carne; um tipo de energia corrosiva, súbita e poderosa. Quando findara, tudo o que ele era já não estava ali — ao menos não personificado; contudo, no meu âmago, eu sentia o peso da sua existência, ascendido de forma desmedida se comparado com antes de conhecê-lo, quando era apenas sete vozes e não Seth, o Arcanjo. A intensidade fora tão insondável, que caí sobre o chão de madeira, batendo minha cabeça sobre a mesa de canto e, com isso, derruindo a ânfora no chão. Vi seu quebrantar, estraçalhado; e a água vertendo nas curvas naturais da madeira. Algo naquela cena, em seus detalhes exíguos, despontava reminiscências próximas à minha consciência.
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À Espreita
Aconteceu que minhas dúvidas foram sanadas; meus receios confirmados, em parte… Aquela tensão que me corroía e me deixava em vigília por noites…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Aconteceu que minhas dúvidas foram sanadas; meus receios confirmados, em parte… Aquela tensão que me corroía e me deixava em vigília por noites e noites, após chegado aqui no Castelo, dissipou-se da maneira mais simbólica e carnal que poderia esperar… Chegaria a hora ter de escrever sobre isso.
Inclusive, neste momento em que o faço, já não sei bem se respondo por mim ou por outro eu, outra persona que suspeito haver nascido no ambiente sobrenatural desse lugar…
Ao adentrar no espetacular pórtico que me recebera de portas abertas, com suas dependências acolhedoras e convivas até então, de certa forma, simpáticos (ainda que ariscos, falando mais por meio de suas histórias habilmente desenvolvidas e reveladoras de suas origens do que no tête-à-tête), como já registrado, diversas manifestações estranhas e, devo dizer, fantásticas me fizeram de testemunha — quando não um ator nesses acontecimentos, diretamente envolvido com as singulares pessoas… O último desses foi algo cabal; acima de tudo, definidor do que agora devo classificar esse recinto: infestuoso.
Pois de maneira nada além do natural, voluntária foi com que me vi “vítima” — já nem sei se assim devo me dizer — da manifestação orquestrada por uma agente das sombras desse Castelo. Como se completamente entregue às suas forças, vi-me envolvido e invadido por sua influência, por algo da mais obscura e encantadora categoria…
Estava retornando de uma das minhas caminhadas — após me deter por alguns minutos na vista avassaladora que temos aqui de cima, diretamente para a Lua e o panorama quase que expressionista do horizonte —, quando voltei para o meu quarto. Eu sabia que havia passado sozinho toda a noite (algo estranho de se dizer, mas sincero de minha parte, pois há momentos mais que outros em que nada mesmo parece acercar-se de nós além de nossos pensamentos), sem nenhuma companhia exceto os livros e esboço de ideias para alguma escrita, quando me virava para fechar a porta e dar uma última olhada para o corredor...
(Devo anotar que não duvido de que essas nossas escritas, poemas, contos e crônicas — principalmente essas últimas — passam pelo crivo de alguma leitura mais atenta, de alguém que a faz e, após isso, inteira-se melhor das atitudes e pensamentos dos habitantes do Castelo…)
Ao me deter no final do corredor, foi que a vi… Espectral, longuíssima, numa veste branca iluminada (ao menos parecia branca), coroada pelos raios de luz daquela Lua fantasmagórica no céu lá fora… Os cabelos negros, longuíssimos… (se bem enxergava, do alcance da barra daquele vestido) E seu rosto… fixo, teso, em direção a mim…
Eu escrevera “longuíssimos”… quão precisa essa palavra para traduzir o que eu via… Os olhos dela, seu rosto… ainda que impreciso daquela distância, eu percebia me olharem, fixos em mim, numa atração estranhamenteatraente… impossível de me desvencilhar. Quando o mais natural seria entrar abruptamente por aquela porta, me fechar com chave no quarto e apelar (por que não?), por socorro, eu agia como se esperasse a aproximação dela…
Então, segundos, talvez minutos naquela troca de impressões, como se calculássemos nossos próximos movimentos, eu a vi chegar perto de mim. Estranho que minha memória agora não consiga precisar se de fato eu enxergava seus pés ou mesmo uma flutuação dela até onde eu estava…, mas prefiro acreditar que tenha sido, sim, um movimento de alguém de carne e osso — meu ceticismo, até onde eu puder, colocarei à frente de qualquer decisão mais radical, ainda que este Castelo, sem dúvidas, demonstre algo bastante além das manifestações naturais…
E lá estava ela… a poucos metros, depois tão próxima que esbocei um contato — respondido pelo que parecia um sorriso… Um esgar de confiança, de alguém que, certamente, por mais maldosa que fosse, eu não teria como evitar… Fosse minha morte, minha danação prestes a acontecer naquele momento, e eu estaria entregue, completamente à mercê do que quer que seguisse…
E como não?! Pudesse transmitir por palavras aquele enlevo, aquela aura obscura, porém sedutora, enigmática em toda sua forma desinibida diante de meu olhar estarrecido… Minha expressão era de desespero… mas do tipo que já não via saída, então contando com a benesse do tempo para que nada de grave resultasse daquilo, que aquela invasora mostrasse alguma piedade entre seu manifestado poder…
Suas mãos estenderam-se em direção às minhas… Quando fui agarrá-las, não foi o toque delas que as sentiu, mas meu pescoço! Temi ali por minha vida; senti ali o resultado incontornável de toda essa história de vampiros, do Conde até então figurante… Ela era, com certeza, daquele universo, uma de suas forças intransigentes, surdas a qualquer súplica desesperada, sedenta pelo meu sangue!...
Tudo o que depois lembro de ter acontecido foi sentir o toque daquele aguilhão; devo ter erguido meu pescoço, ansioso para que aquilo acabasse logo, temeroso apenas da dor, de alguma febre demoníaca, do tipo que me fizesse contorcer em ais e angústia por alguma maldição completa, sem chances de escapatória…
Acontece que acordei sem dores. Ainda que carregue as marcas do fatídico encontro (um jogo de camas manchado em rubor), trago comigo ainda mais dúvidas: o que será daqui para frente? Encontrarei de novo essa figura ostentosa, dona de um encantamento misterioso e terrivelmente sedutor? E as consequências daquela mordida… causaram ou causarão em mim algum efeito?
Não sei mesmo o que esperar…
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Diário de Anto Stefan Miahi (Part III)
Caros colegas, Envio este memorando para compartilhar um breve parecer sobre minha investigação no Castelo Drácula, em Bram. O Conde…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Memorando para a Universidade de Paris
(De Anton Stefan Miahi)
22 de junho de 1871
Para: Meus pares da Universidade de Paris
De: Anton S. Miahi
Assunto: Investigação no Castelo Drácula, em Bram.
Caros colegas,
Envio este memorando para compartilhar um breve parecer sobre minha investigação no Castelo Drácula, em Bram. O Conde, senhor destas terras, possui uma vasta biblioteca dividida em dois setores. Infelizmente, até o momento, pude averiguar apenas um deles. Contudo, posso afirmar com certeza que este nobre local detém livros surpreendentes, alguns dos quais acredito serem de grande relevância para os departamentos de teologia e sociologia da nossa universidade.
Ao longo de sua vida, o Conde acumulou livros de diversos lugares, incluindo o Império Otomano e o Império Russo. Isso realmente me surpreendeu, pois, academicamente, temos enfrentado grandes dificuldades para adquirir conhecimento intelectual de regiões tão distantes.
O Castelo em si é um verdadeiro tesouro de registros documentais de períodos antigos e modernos. Notei a presença de obras de arte que datam de dois a três séculos atrás. O Professor Doutor Rafael, do departamento de arte, teria um imenso prazer em explorar tantas peças com ricos símbolos e histórias.
Desde já, afirmo que minha viagem a este lugar remoto não está sendo uma perda de tempo, como inicialmente pensei. No entanto, ainda há muito a ser investigado, pois o Castelo é imenso e possui muitos ambientes a serem verificados.
Agradeço aos amigos da academia pelo apoio. Anseio poder enviar mais detalhes sobre as descobertas nestas terras da Transilvânia.
Atenciosamente,
Anton Stefan Miahi
~’’~
De Marcel Durand Laurent
(Carta datilografada para Anton)
De: Marcel D. Laurent
Para: Anton S. Miahi
23 de junho de 1871
Bom dia, meu amigo e irmão Anton!
Como tem passado nestes últimos tempos? Fui surpreendido pelo carteiro ainda nesta manhã com sua primeira carta, além das cobranças do governo quanto ao dinheiro de nós, meros mortais.
Não sei o quão alegre se tornou minha manhã ao poder abrir sua carta e ler as novas de sua empreitada, meu amigo. A todos nós nos surpreendeu sua mudança de opinião quanto a essa viagem. Inclusive, sua irmã e mãe decidiram sair de Sevilha para rumar para Paris e centralizar suas cartas. Elas chegaram há alguns dias com minha esposa na estação, pois infelizmente não tiveram tempo hábil para te alcançar e se despedirem. Alojamo-las em uma boa casa, três casas para baixo da minha. O dono é um homem protestante, um britânico, mas às vezes parece ser como eu um bom católico; sua esposa ajudará ambas a se adequarem aqui na capital do mundo. Espero que elas nunca me ouçam dizer estas palavras, já que, pelo que notei, elas, como boas católicas e fiéis ao Papa, amam seu monarca. Quase são tão radicais e cabeças-duras quanto os jacobinos no nosso parlamento e nas ruas.
Pelo que li em sua carta, o lugar, apesar de admirável, é imerso em uma aura mística, como as narradas pelos imigrantes da Europa Central. Aquelas bruxas vindas do meio do nada do nosso velho continente sabem como contar histórias sombrias sobre essas terras natais, mas o que chama a atenção é seu relato, que quase se assemelha ao das velhas ciganas dos bairros afastados da nossa amada cidade.
Mediante a possibilidade, mantenha a calma diante do que lhe aflige emocionalmente. Para quem pode sobreviver aos campos de batalha, creio que uma perturbação ou outra seja apenas consequência. Mas, tendo em vista o homem que é, dotado da experiência e ceticismo de quem provou da dor e da ciência, não se permitirá perder a razão.
Busque dar objetivos aos seus pensamentos, meu amigo, e trazer à Universidade de Paris boas novas que lhe trarão orgulho. Ademais, quando regressar, o que espero que seja o mais breve possível, poderá reencontrar sua mãe Louise e sua irmã Jade.
Assim sendo, espero ter novas notícias suas, já que estas entregarei eu mesmo à sua família! Novamente digo que me sinto feliz e espantado pela tua decisão de viajar. Creio que a mudança de ares poderá te proporcionar um bom renovo.
De seu irmão de trincheiras,
Maurice.
~’’~
Anto Stefan Miahi III
(Anotações em meu diário)
25 de junho de 1871 — Depois de muito procurar encontrei meu fiel amigo que trouxe de Paris, meu diário. Agreguei a ele as folhas que usei para fazer minhas anotações anteriores.
Antes que eu possa comentar algo mais, quero registrar aqui eventos sociais dos quais pude ser partícipe e que a mim foram inequívocos fatos que me fogem aos parâmetros do natural e racional do presente século.
Me faz lembrar o que Descartes diria neste presente momento; “O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada.” Me vejo como um solitário e louco dentro deste castelo. Por dados momentos tive a triste sensação de retornar à guerra e seus horrores, no entanto, aqui estou, à salvo num castelo, mas tais pensamentos que proporcionam o suplício da mente inquieta meu sono e perturbam minha paz na consciência. Onde poderia eu casar a meditação de Descartes neste instante que parece querer romper as ideias e destroçar meu coração?
Bem, antes que meus pensamentos se percam na filosofia, mas é inevitável não recorrer ao pensador Rene, novamente, ao me ver dentro deste quarto quando ele diz algo como: “Frequentemente, as ideias que inicialmente me pareciam verossímeis revelaram-se enganosas ao serem transcritas para o papel.”, estendo para além delas mergulhando nessas palavras. E quando intenciono me confessar ao papel crendo ser mentira e vejo que revelo o que é verdadeiro nesta folha tão pura que agora se mancha com meus pensamentos?
Outra vez já estou divagando e quero ir direto aos fatos, aos eventos.
Na noite, eu acho, de 22 de junho, fui notificado de um evento social no castelo que deveria ocorrer na noite do dia 24 de junho.
Desde que cheguei, basicamente, tenho buscado me adaptar aos horários do conde, a quem devo admitir ter costumes de uma tesura inimaginável. Passo a confundir noite e dia, já que passamos as noites conversando sobre as obras, as teorias, a aristocracia, as políticas, e os pensadores. E tem sido muito profícuo nossos debates noturnos, pois me tem permitido exercitar minha experiência acadêmica, e não posso deixar de dizer o quão impressionante é o conhecimento do Conde, ele demonstra uma ampla vivência intelectual e dentro da alta sociedade que poucos homens de sua posição parecem apreciar.
Naquela noite em que ele me notificava que havia enviado convites para um evento social da alta sociedade local, tivemos uma conversa bastante incomum.
— Caro Anton, me vejo curioso sobre como anda Paris mesmo com estes tempos tão turbulentos. — Sua voz era calma e denotava claro interesse quanto ao tema.
E havíamos debatido sobre a tragédia do pensamento literário que a Rússia produzia em conflito da produção prussiana que denotava racionalismo, da francesa que buscava a liberdade da sociedade, da tirania dos poderes divinos do rei sem se desvincular da Igreja Apostólica Romana.
— “São a força e a liberdade que fazem os homens virtuosos. A fraqueza e a escravidão nunca fizeram nada além de pessoas más.”, Rousseau afirmou isso, e não posso discordar. Após a guerra promovida por Napoleão iniciar sua campanha, pudemos talvez ver melhor a própria França, as forças da aristocracia divina ruir ante nossos olhos. — Meu pensamento parecia ter soado distante e talvez apático, já que acabei sendo transportado para um lugar que lutava não voltar. — Creio que me fiz soar algo desconexo, Conde. No entanto, após a guerra chegar ao fim, distante da graça do Papa, com o escárnio da Prússia em nossa face, e estes sendo mantidos por aqueles maçons contra a sacrossanta igreja. Não duvido que também os judeus por detrás das cortinas políticas, às escondidas, não estivessem fazendo seu jogo contra o império, como dizem as más línguas. Meu sentimento em responder é de penúria.
Por um curto tempo se fez um silêncio e o conde apenas parou, observando a minha pessoa. O mais incomum era que ficava óbvio essa sensação de observação, e isso me impelir a ter que seguir com a minha resposta.
— Quando retornamos, Paris estava em conflagração interna, a aristocracia perdia seu lugar, o parlamento ganhava mais espaço, e Napoleão que caiu nas mãos inimigas vergonhosamente. O Estado do presidente imperador já não existiria mais. — Admito que após os horrores da guerra, voltar e ver uma revolução nos jardins do palácio de Versalhes foi pouco surpreendente pelas notícias que recebíamos de casa por parte dos nossos oficiais. — Creio que em meu rosto deve ter sido criado algum sinal ou expressão de antipatia quanto aos fatos tratados.
— “A missão suprema do homem é saber o que precisa para ser homem.”, posso estar enganado quanto a fonte, mas foi Kant que disse algo assim, e não estava de todo errado em afirmar isso ao pensar em suas luzes de racionalidade alemã. — A fala do conde denotou uma precisão cirúrgica num mar de calma e empatia. — Mas, como, em contrapartida, o saber é a chave da liberdade, creio que foi Robespierre que afirmou algo assim; “O segredo da liberdade é de educar os homens, assim como o da tirania é conservá-los na ignorância.’” Ao nos apoderarmos do saber nos expomos ao tormento do entendimento, diante da escolha de lutar contra ignorância, mas o que não podemos negar são os poderes que guiam este mundo; a cobiça, o poder e a tirania.
As palavras do conde foram como um soco bem-posicionado em meu estômago. Era inadmissível a alguém que se deu o trabalho de afundar-se nos livros, numa jornada pelo conhecimento, se permitir esquecer do fundamental da erudição que é a propagação do próprio saber. A guerra produzida pelos tiranos da Prússia e da França custaram almas humanas, um sangue que regou os campos de batalha sem haver razão.
Após uma hora mais de conversa, o conde decidiu se recolher às suas habitações em algum lugar do castelo. Em seguida me recolhi para meu quarto. Subi aquelas escadas em pedra e madeira observando lentamente os quadros e tapeçarias expostos. Ao chegar já fui abrindo a porta e entrando. A luz que estava no corredor invadiu o ambiente e pude notar sobre a mesa uma carta. Prontamente fui abrindo e nela continha um convite formoso.
23 de junho — Durante o dia e parte da noite deste dia não tive a companhia do conde durante o seu período habitual. Passado uma boa parte da madruga registrando os livros da parte da biblioteca do lado da porta pequena que ficava ao fundo da sala. Devo admitir que a curiosidade de quando aquela porta passou a aumentar, mas venho resistindo a investigá-la. Algo nela desperta minha atenção.
Seu servo, Narcís, por umas quantas vezes veio ver como eu estava passando e se eu necessitava de algo. Por umas três vezes ele conseguiu me surpreender, dando-me um grande susto já que estava completamente absorvido por minhas investigações. Mas devo dizer que ele tem passos incrivelmente silenciosos. Ele, em sua última visita, aproveitou para me avisar.
— Sr. Anton, o evento de amanhã ocorrerá a partir das 21h. Creio que os convidados irão comparecer cerca das 20h. Alguns deles tem uma pontualidade surpreendentemente similar à de um relógio suíço. — Sua postura era sempre extremamente séria, mesmo quando se tratava de coisas triviais como trazer o chá.
24 de junho — Após ter me recolhido mais cedo no dia anterior para poder ter energia suficiente para a reunião que o conde havia criado. Confesso ter ficado surpreso que ele, com hábitos tão únicos, tivesse interesse por este tipo de reunião. Um baile com máscaras. Por infelicidade não tinha as peças de roupas que combinassem com o solicitado no convite, mas o espantoso era que o conde havia se antecipado quanto a este que, a meu ver, lhe era completamente alheio, desconhecido.
Os tons eram carmesim e dourado, os detalhes eram finos, elegantes, fazendo jus às peças feitas para a nobreza. Mas para meu assombro, ao me vestir, que surpresa, as roupas estavam perfeitamente encaixadas. Nada folgava ou faltava, estava na medida perfeita. Me sobraram apenas as perguntas: “Como ele saberia as minhas medidas? Em que momento ele conseguiu saber quais eram elas?”. Creio que isso se somaria às demais coisas estranhas que tenho que tentar obter as respostas neste lugar.
Na justa hora do baile — Narcís, preparou um bom banho quente de tina, pude aproveitar bem este momento, ele aproveitou e me trouxe sais e pétalas de rosas, que segundo ele eram para suavizar minha pele queimada de sol. Como afirmei em outro momento, luxos para um militar eram ter um lugar para dormir, comida não mofada, e um rio gelado para refrescar, e muitas vezes nos vimos privados dessas coisas.
Após o banho com auxílio de Narcís que fez questão de ajudar-me a vestir aquelas roupas tão finamente produzidas. Calça, camisa, um sobretudo, um laço e, por fim, a máscara que, segundo o mordomo, era obrigatório.
O servo do conde me conduziu para outra parte do castelo, após terminar com retoques na roupa. Normalmente, assim que saía do meu quarto, tomava o caminho da direita e alcançava a escada que me levava direto para o salão onde eventualmente eu comia, a biblioteca e a entrada principal. Contudo, desta vez, fomos rumo ao lado oposto. O corredor era reto e terminava numa escada em L, e depois por outro corredor reto, diferente do que normalmente eu via lá atrás, nestes não havia quadros ou tapeçarias. Tinha apenas candelabros de bronze, uns quantos quartos que estavam fechados, e pouca mobília até que chegamos numa nova escadaria agora circular que levamos uns quantos minutos para descer, pronto uma luz amarelada e forte surgiu ao fundo da escadaria, estávamos estreando uma nova ala que eu não conhecia.
Assim que a luz ficou mais forte, uma porta se revelou, dela um salão belamente decorado, várias fitas nas mesmas cores que da minha roupa. O teto tinha um pé direito alto, poucas janelas, essas com vitrais com cores tão ímpares, escuros que pareciam perfeitos para impedir a luz crua do sol, dando uma iluminação muito peculiar de colorações singulares, um jogo de cores e sombras dançantes. Velas, lamparinas a óleo e uma lareira de um metro e meio de largura e quase dois metros de altura ajudavam a iluminar o local, além de aquecer.
Claro que, à princípio, não considerei verdadeiras as afirmações do mordomo da pontualidade da nobreza local, mas me deparei com muitos convidados já no ambiente. Os músicos estavam posicionados. Supus que ali se encontravam pelo menos cento e cinquenta pessoas, mas aquele salão suportaria seguramente uma quantidade maior de pessoas. Terminei de descer as escadas, olhei ao redor e vi mesas de madeira rústica nas laterais cobrindo parte considerável do espaço. De onde eu estava para o meio e o lado oposto estava completamente aberto e se podia ver uma grande porta dupla de madeira por onde alguns dos convidados entravam e saíam
Drácula entrou por uma porta disposta no lado esquerdo, ele se posicionou ao lado da banda que era um lugar elevado e cabia com folga oito músicos, o regente e ele sem ter que disputar espaço.
Ele faz um breve discurso e inicia a festividade, que sou claro em afirmar não saber sua razão ou a que se atribuía. Minha completa ignorância poderia proporcionar uma cena constrangedora.
Vejo o conde caminhar em minha direção e esticar seu braço direito até sua mão tocar meu ombro.
— Anton, hoje o senhor poderá descansar dos seus estudos e pesquisas. Minha intenção é proporcionar ao amigo umas quantas horas do desfrutar das vantagens da nobreza e descansar. — Era inegável o tom amistoso e a expressão empática que ele transmitia. Ele era o único sem máscaras até aquele momento. Drácula sorria no melhor de quem sabe ser político e aristocrático. — Dance, coma, cante, converse e seja feliz meu amigo.
Assim que ele terminou de dizer essas palavras, ele colocou a máscara, e pude perceber novamente aquela estranha aura no olhar que nas minhas memórias pensei ter visto. Tornar a ver nada mais que confirmava as minhas lembranças, não havia sido um engano.
Trouxeram-me uma bela taça de um vinho que, quando provei da taça de vinho tinto amadeirado, senti o aroma robusto que emanava das notas de carvalho e baunilha. Ao primeiro gole, os elementos frutados de ameixa e cereja dançaram em seu paladar, conferindo um toque suculento à bebida. A leve acidez cortava a doçura, criando um equilíbrio refrescante que tornava a experiência ainda mais sofisticada. A melodia melancólica do piano ressoava pelo salão, enquanto as sombras das figuras elegantes se entrelaçavam em um ritmo lento e hipnotizante.
Em alguns momentos me detive em perceber sombras incomuns dançando ao meu redor, seus olhares eram etéreos. Parei para observar tal fenômeno, mas estas pessoas surgiam e tão logo desapareciam, era uma sensação atordoante. Uma estranha sensação de perigo surgia em mim. Algo naquelas pessoas passou a me incomodar, seus olhares tinham um efeito similar do conde, me sentia uma presa diante de seus predadores, mas agora era em todas as direções.
Até que, perto da porta, notei cabelos pretos ondulados e a pele branca quase igual ao marfim. O ar parecia saturado, sentia minha visão ficando levemente turva, até que levei a mão aos olhos, e decidi que deveria sair daquele lugar. A música já começava a me soar hipnótica, acentuando ainda mais a sensação opressiva.
Decidi então que deveria tomar um ar, sair para o exterior. Rumei para a porta, mas por alguma razão sentia que a distância até ela estava demais e que era uma luta do meu corpo com uma massa invisível que queria me atrair para o centro do baile, mas meus instintos diziam para lutar contra. Com algum esforço consegui alcançar a porta e, ao abri-la, uma brisa fria passou — o que me fez sentir como se despertasse de algum tipo de sonho acordado.
No exterior, um pequeno pátio com um corredor para a esquerda que parecia conduzir a um lance de escadas. Uns poucos metros à frente, um beiral de pedra até quase a altura da cintura com uma vista magistral das montanhas nevadas e um vale com uma floresta de abeto-branco.
Um som vindo da escadaria me chamou a atenção que me fez ir em sua direção.
Quando me aproximei, notei que ela era uma longa escadaria correndo pela lateral do castelo até a base da montanha onde a casa do conde estava construída, culminando no início da floresta, olhei um pouco mais à frente e pude ver se destacar uma série de pequenas colunas de fumaça.
Em minha mente, as opções seriam voltar para a festa e voltar àquele mar de sensações embriagantes ou me aventurar nos arredores do castelo. Para mim a escolha era simples, qualquer lugar seria mais interessante que aquele oceano de emoções e alerta de perigo que não sei indicar a razão.
— Melhor aqui neste frio, com árvores, uma estranha e as montanhas. — após ter dito isso em voz alta, apenas me restou rir.
Comecei a minha jornada de uns vários minutos pela escadaria que serpenteava pela encosta da montanha do castelo Drácula. A descida foi monótona a um certo passo, mas minha curiosidade apenas me impulsionava para frente.
Ao atingir a base da escada pude ver um caminho de pedras de paralelepípedo por meio das árvores de abeto-branco que estavam cobertas de neve. Olhei ao redor e notei uma fina neblina se formando até que ela tocou a linha das árvores.
Não havia mais o que fazer, voltar e ignorar explorar essa região, de se privar da experiência de conhecer melhor o país do conde, ou simplesmente avançar e ver o que o destino me reservaria. As perguntas que havia deixado registradas no meu diário há uns dias nunca gritaram tão alto em minha mente como agora. Espero que minhas decisões não tenham sido um completo erro.
Obviamente, para fazer valer a chance de dar valor às minhas próprias palavras, decidi seguir adiante.
Por quase trinta minutos avancei em meio a flores por aquele caminho suspeito, cortando a neblina que parecia gritar na minha cara que eu estava rumando para o perigo.
A sorte e o instinto guiaram a minha decisão de incluir minha espada ao modelito para o baile. Graças a isso, pela primeira vez desde que cheguei, minha mão pode encontrar a bainha do meu sabre em minha cintura.
Antes que me desse conta, estava diante dos portais, dos muros de pedra e madeira, da entrada de uma cidade enfurnada no meio da floresta. Observei enquanto me aproximava que nas colunas continha inscrições no idioma local, o romeno. Elas cobriam da base até a parte mais alta. Aquele portal era feito do mesmo tipo de árvore da região, mas claramente era algo antigo, algumas partes estavam apodrecidas.
Quando toquei, eu senti como uma descarga de uma energia estranha, como se um raio percorresse o meu corpo. Olhei em direção à cidade, ela ainda estava a alguns metros. As casas eram rústicas, todas de madeira, o caminho de pedra seguia até o que parecia ser uma praça. Caminhei naquela direção. Notei serem um total de dez casas fazendo um círculo, e em todas havia chaminés com fumaça sendo expelida. Olhei ao redor e a princípio parecia abandonada, algo ainda mais estranho era evidente, a névoa não avançava para além dos portais e dos seus muros. Era como se algo impedisse que ela entrasse.
Então ouvi passos, não evitei sacar o sabre, os instintos foram mais fortes. Como se fosse uma miragem, de início não acreditei que fossem pessoas nas portas, janelas e ao redor de mim, logo elas começaram a se revelar.
A princípio eram como sombras sem definição, gradualmente tomaram forma que parecia humana, detalhes foram surgindo, quando reparei seus rostos completamente disformes. Os sons normais de um vilarejo rompem o silêncio que até então era rei.
— Quem são vocês pelo amor do bom Deus? — Exclamei num grito de assombro e terror, enquanto apontava a ponta do sabre na direção do que estava mais perto de mim. — De que inferno vocês surgiram?
— Somos os moradores sem sorte desta Vila conhecida como Séttimor! — Sua voz era rouca, e de sua boca saía uma fumaça cinzenta, foi quando notei que de alguns até dos olhos saía, enquanto de outros assombrosamente nem face tinham. — Aquele atrás de você é nosso chefe Kvvus! — Apontou ele com seu dedo da mão direita um homem sentado. Ele está em sua sétima morte, suas vestes eram simples e puídas. O expressava o vazio da existência num estado de paralisia, seus olhos de tão fundos lhe proporcionavam aspecto cadavérico.
O espanto que aquela cena me deu assombrou de tal forma que percebi a ausência de periculosidade naquele povo estranho habitantes da vila de Séttimor!
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Palidez
A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos, a doce e sedutora voz do Conde reverbera em meu inconsciente, bem como as notas tocadas por aquela fúnebre orquestra.
As vagas lembranças eram confusas, a dança, o jantar, aquela versão obscura do castelo, por mais estranho que fosse, queria estar lá novamente. Continuo deitada em meus aposentos numa majestosa cama, feita de madeira sólida, ela ocupava grande parte do quarto. Elevo meus olhos e noto uma cabeceira imponente em mogno, esculpida à mão, com adornos que eram um verdadeiro deleite.
A cômoda ainda trazia um aconchegante estofado, em tons de roxo, diria que o anfitrião me conhece muito bem, pois esse tecido me remete a um passado quase esquecido. Fecho os olhos e deslizo suavemente meus dedos ainda manchados da última refeição, sentindo toda maciez do tecido, deixando escapar dos meus lábios escarlates tímidos sorrisos.
Sem perceber, sou conduzida para épocas felizes, quando ainda criança, meus pais me cobriam com uma manta de veludo verde musgo, nos dias chuvosos, lembro-me do doce cantar entoado pela minha mãe, quando os intensos relâmpagos invadiam meu quarto, sua voz me acalmava e me fazia dormir. Se eu buscasse nas profundezas do meu subconsciente, ainda conseguia ouvir o sussurrar amoroso, desejando um boa noite, deixando seu inconfundível sutil aroma de rosas.
Por breves segundos, voltei a ser a inocente Rose, cujas únicas preocupações eram: ser uma boa filha, brincar e tirar boas notas. Mas, ao abrir meus olhos inundados de nostalgia, vejo os brilhantes cristais presentes em um lindo lustre feito de ferro fundido, um lembrete de que ainda estou aqui, percebo também que ainda era dia, pois a luz rastejava pela fresta da enorme cortina, (que também era de veludo) em tom de roxo, escondo-me atrás da cabeceira e espero o anoitecer.
Sem demora, ela chegou, a encantadora noite, me levanto com leveza. Caminho para a imensa janela, abro-a e sou banhada pelo cálido luar, em seguida, sinto o toque gélido da noite em meu rosto e meus cachos dançam com o soprar noturno.
Vejo que, ao lado da cama, há uma cadeira vitoriana com minhas roupas dobradas, talvez tenha sido o mordomo; em frente à cama se encontra uma lindíssima banheira vitoriana e, à sua direita, uma pia esculpida em porcelana branca que parece ser do século XIX, com detalhes em dourado.
Meu tempo é escasso, então, limpo meu rosto assim como algumas partes do meu corpo, sinto-me renovada com o toque da água gélida, só então troco de roupa, e torno a ficar em frente à janela.
Não sei ao certo, mas havia algo sombrio nos arredores do castelo, um medo irreal percorre cada centímetro do meu corpo, o terror se manifestar através de arrepios, vislumbro o céu com poucas nuvens, onde as estrelas ostentam um brilho nunca visto antes, a lua está em sua mais bela forma, imponente e cheia, minha atenção se volta para o horizonte, é possível contemplar inúmeras montanhas altíssimas, já outras menores, porém, todas brilhavam horrivelmente com o luar, e a vegetação presente nos picos das montanhas adquiriram um verde neon.
Uma visão arrebatadora, meus olhos seguem perambulando na escuridão, me deparo com vegetações mais rasteiras, e também alguns arbustos, mais abaixo, vejo algumas estradas serpenteando para diferentes direções, absorta, é quando vislumbro algo aterrador, em meio àquela escuridão, surge um denso nevoeiro, fazendo com que pouco a pouco as montanhas, estradas e vegetações desaparecessem em meio à neblina.
Entretanto, não era um simples nevoeiro, eu estava prestes a testemunhar a materialização do desconhecido, nossa ínfima mente não está preparada para tal visão, conforme ela se movia, pude ver uma espécie de galhos longos e esbranquiçados, alcançando alturas inimagináveis.
Absorta, vejo o nevoeiro ultrapassar os altos muros do castelo, fecho a janela pois, ele se aproxima, meu colo palpita descompassado, senti a mesma sensação ao tocar aquele funesto livro confeccionado em pele humana.
Enrolo meus cachos com os dedos frenéticos, e começo a lembrar de algo terrífico; na segunda página do livro, dividindo a folha com outros símbolos e frases, havia um desenho que ocupava uma boa parte da folha, eram longos ramos brancos, o horror ancestral corrói minhas entranhas, meus olhos continuam tragados pelo desconhecido, pouco a pouco me torno nívea.
Já não é mais possível ver as montanhas e vegetações, nem mesmo o brilho da lua, apenas o mover dos brancos galhos na imensidão do céu, ouço passos temerosos subindo e descendo as escadas do castelo, ouço sussurros que se perdem pelos corredores, aquele quarto se torna sufocante, preciso ir novamente à biblioteca.
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Capítulo 2: Abíssicas Escolhas
Embevecida pelo silêncio dos sonhos mais profundos, tudo se externava em suavinura. Andejei sob infinda serenidade por dentre um substancial…
Embevecida pelo silêncio dos sonhos mais profundos, tudo se externava em suavinura. Andejei sob infinda serenidade por dentre um substancial jardim de raras e inigualáveis espécimes florais — as quais eu parecia conhecer tão bem. E a crepuscular solitude felicitava minha alma dulcificada, enquanto no horizonte as cores tórridas se esvaneciam e o sol se amainava conforme a aragem soprava a noite fria. Cessei meus passos e olhei para trás, avistei um colossal castelo; à vista de meus olhos oníricos, a vida exalava de suas entranhas. Cada janela um tremeluzir se via, dos lumes das velas nos castiçais; cada torre ornamental, esculpida como se a mãos, por um único artista, quebrantava os céus, e protegia-me. O alcácer era incomensurável, havia um reino em seu âmago, preenchendo todas as suas terras. Era um lar, tinha alma de lar — como eu queria me lembrar. No entanto, sob a gana de alcançar a memória, desadormeci... e a luz azul-pálida tocara minhas pupilas, vinha da estranha lua túrgida visível das fenestras daquele aposento — em uma delas, uma silhueta viril eu avistei; ele admirava a beleza invulgar do índigo anoitecer perpétuo.
Ainda vestida em escarlate, reconheci o desvario daquele outrora quando os rostos eram terríficas cenas por espelhos fincados em seus semblantes. Lembrei-me de minha angústia, da dança macabra, do mórbido pavor. Contudo, indagava-me há quantos dias este baile acontecera e por quanto tempo residi em ilusões inconscientes. Quem trouxe-me aqui? Decerto aquele homem aguardava-me, talvez tenha salvo-me de meu delírio. Era imprescindível vê-lo, inestimável agradecê-lo e, sobretudo, reconhecê-lo. No entanto, aos meus lentos movimentos, passos serenos, não pude abandonar o lumiar lunar cujos tons níveo-cerúleos expandiam-se pelas trevas n’um azul-mar-abismo. As cores moldavam meu espírito e manipulavam minhas emoções e sei disso, pois ao que revelava meu despertar sonial, transmutava-se a realidade em outro sonho, capaz de extasiar tanto quanto. Assim, conforme me aproximava daquele homem, em desejo frígido — o suficiente para queimar —, eu me envolvia.
— Sentes-te melhor, mítica dama? — Dissera, com seus olhos voltando-se a mim, belos olhos enegrecidos, com escleras igualmente negras; eram como duas helleborus lihri-nocturnus, flor sempre adornada por uma essência invernal. Tal espécime é um cruzamento bastante peculiar entre o heléboro púrpura e o Lírio do Nilo, por isso tem a cor roxa profunda que, aos olhos, assemelha-se a um preto intenso. Um tênue sorriso ascendi ao homem misterioso e reconheci seus lábios, eram os mesmos daquele que me convidara para dançar na fatídica noite. Lëvri... eu me lembro. Lëvri levantou-se, portanto, segurando uma de minhas mãos e beijando-a, amoroso.
— Temo não ter despertado ainda. — Ele sorriu à minha resposta.
— A noite é o mistério índigo dos teus olhos rubros... ou, devo dizer, áureos? — Sua expressão encarava-me com uma virilidade instigante e, sob a estranha noite, eu sentia florescer em meu corpo a frenesia mais pujante.
— Não sei ao certo... não posso olhar para espelhos. — Revelo, ainda incerta; com a reminiscência dos fragmentos espelhados nas faces sangrentas dos convivas do baile. Turvei-me um pouco diante do lembrar e vi a rapidez de Lëvri para segurar meu corpo instável. Olhamo-nos como falésias à escuridão oceânica.
— Frágil... doçura pálida... por que enlevas a escuridão do meu universo com tua alma de Ennehris? — Ele ajuda-me a sentar na poltrona que outrora ele se sentara; sem que seu olhar esvaísse do meu. Pus-me sob a mais intensa luz lunar. Lëvri semi-ajoelhou-se em minha frente.
— Ennehris? — O fitar sedutor metamorfoseou-se em afabilidade.
— A história de Ennehris... Deixe-me contar-te... — assenti — De nome Ennehris, a estrela mais fulgurante do firmamento, tão mais que o sol, porém, longínqua. E de todas as longínquas, Ennehris, inestimável, é sempre a realçada na lúgubre antemanhã. Estrela-fascínio, mentora nas trevas daqueles que caminham ou navegam à noite. Alguns juram tê-la visto descer dos céus, para guiá-los com sua apaziguadora voz. — Segurou minhas mãos nas suas e, seguindo em silêncio, tocou-me a face gélida. — Disseste-me não saber teu nome, porventura esta seja a razão... estrelas da imensidão nunca sabem seus próprios nomes. — Sorri-lhe, pois, quão cativante as suas palavras se proferiam.
— Ah... que formidável seria ter este nome...
— E tens... — Lëvri levantou-se e, segurando-me, levantou-me envolvendo seu braço em minha cintura. — Ennehris... — Seus olhos negros fitavam meus lábios. — Hum... Posso ver... — Dissera-me ao voltar-se aos meus olhos. — Rubros outra vez... — A maneira como Lëvri estonteava-me era inenarrável. Todo o meu corpo respondia ao seu toque, à vivacidade de uma paixão lôbrega nos poros de minha tez. — Teu enigma confunde meus princípios...
—Lëvri... — Murmurei, ocultando-me nas minhas pálpebras fechadas, buscando as sensações do tato, as mãos dele em mim, seu hálito tão próximo de meu rosto e todo aquele palor lunar, induzindo-nos. Senti-o tocar minha nuca com a calmaria dos mais brandos mares. E beijei-o sem que as tristuras, tão humanas, me acovardassem. O beijo de saliva afrodisia, ardente mesmo que fôssemos tão álgidos; e seu sondar em meus cabelos, soltando-os, envolvendo-os para meu delírio íntimo, entre sussurros ininteligíveis. Lëvri pegou-me, à sua força vigorosa, levando-me para a cama onde veemente era a penumbra. Deitou-me, gentil; e toquei em seu torso, passando meus dedos dentre os botões de sua vestimenta, sentindo-o arfante. As veias de seu corpo, em especial em seu pescoço e fronte, avultaram-se de modo significante e seus olhos tornaram-se ainda mais escuros.
— Ennehris... — Soprou Lëvri, sensibilizando com seus lábios o que se enunciava da curva de meus seios por causa do corset e, enquanto seu semblante afogava-se ali, tateei as veias de sua fronte com a ponta de meus dedos. Quão ansiosa eu estava... dentre o índigo sombrio, o predizer soturno da lua plangente; minha alma condenada ao prazer inefável a desprezar quaisquer conjecturas da razão. Lëvri beijou-me voraz, pegando-me o corpo, levantando-me suavemente ao passo em que se mantinha no beijo vesano. E senti suas mãos desatarem os laços de meu corset que se fez tão logo afrouxado e, hábeis, suas mãos vieram a deslizar, com apreço, as mangas de meu vestido, resvalando pelos meus braços. Neste ínterim, pude vê-lo outra vez, sobre mim, livrando-me do vestido, devagar, beijando cada espaço pequeno da pele que se revelava.
— Esculpida... em perfeição... — Ouvi-o dizer, ao olhar-me os seios soltos e despidos. Logo, as veias de seu rosto pulsaram, em plenitude visíveis, e ele parecia sentir dor, pois abaixou sua face, franziu a fronte e fechou seus olhos negros.
— Lëvri? Estás bem? — Indaguei em completo receio, uma preocupação genuína.
— Sim... — Sua resposta não me agradara, mas ele voltou a me olhar, tocando meus lábios com seus dedos. — É apenas... a minha natureza... — Disse em seu tom mais grave. Degustei de seus dedos e o ouvi gemer sem distinguir se era a sua dor ou seu prazer, pois eu sabia que seu corpo sofria pelo desejo. — Tua enseada... há de acalmar... a minha nau... — Murmurou, e toda a minha enseado fez-se o mais bravio oceano. — Venha... — Fui conduzida por suas mãos e, como se dançássemos, Lëvri pôs-me em pé, perto de nosso leito, o vi deitar-se em seguida, ordenando-me que permanecesse de pé, e na cama ele se pôs de modo que pudesse avistar-me por completo. — Desvista-se para mim...
Naquele instante, parecia que o palor da lua túrgida me tocava de fato, senti o tato de seu lume misterioso pelo meu dorso nu. Olhei para os vitrais abertos, mas neles não me demorei. Com a lentidão de minha inocente lascívia, retirei aos poucos a minha vestimenta, exibindo meu corpo para Lëvri e vi minha sombra azul-escura tateando os lençóis daquela cama, os quais eram negros e possuíam uma maciez de lanugem, além de uma sutil transparência. Então, como uma escultura de gesso, eu estava nua e Lëvri semicerrava seus olhos, fechando seus punhos enquanto suas veias pulsavam por sua face e pescoço, cada vez mais animalesco. Assim, mais cuidadoso que outrora, ele se levantou para tocar minha nuca e beijar meus lábios. A brisa da noite anil arrepiava minha tez e conduzia a invernia por cada poro.
Álveo ninho... deitei-me sobre a lanugem negrume, colocada, novamente, pelas mãos firmes de Lëvri. E o vi-o tocar suas roupas... após fechar-nos no dossel que ilusionava aos nossos olhos uma suave névoa ao derredor. — Feche estes teus pulcros olhos rubros... minha Ennehris... — Eu estava atenta, ele percebera... eu estava atenta ao seu movimento e àquilo que eu veria por detrás daquela indumentária escura. Todavia, fui privada por aquele momento, hesitei em obedecê-lo. — Ah... sim... tua curiosidade... — Lëvri tocou-me os lábios outra vez... — Antes de vê-lo... tu sentirás... em ti... — Fremi e sei que gemi, ocultando minha visão e sentindo Lëvri se aproximar... sua respiração ofegante e o seu, agora, estranho calor. Ali, na penumbra em índigo poder, o corpo de Lëvri sobre o meu e o toque de sua rigidez... tão perto. — Sinta... assim... devagar...
Todo o seu teso viril, firme adentrara-me pouco a pouco e... eu o senti... em toda a sua extensão consistente... dilatava-me à margem de uma leve algia, no entanto, o prazer se ressaltava para mim e meu corpo tremia, tanto que meus olhos se abriram e meus lábios se entreabriram, e vi evaporar dos olhos vis de Lëvri um fumo umbroso, o qual eu respirava, pois estávamos próximos. Respirá-lo trazia-me vertigem, como um elixir fumegando e tendo suas essências difundidas. Tudo o que cruzava minha visão vinha zonzo, letárgico... e a penetração parecia tocar-me o ventre... eu lacrimejava. — Tão... fundo... — Sussurrei.
— Eu posso... regressar... — Disse-me, com uma voz bestial, embora fosse ainda a sua voz.
— Não... — Quantas intensas e antagônicas sensações, eu não poderia abdicar delas. — Quero... me sentir completa... — Ao revelá-lo meu anseio, embrenhou-se rígido ainda mais em mim, onde a gruta inundada sofrera estendida e contraída. Fui tomada por um tipo assombroso de energia que me convulsionava. Lëvri movimentou-se, então, n’um ir e revir de anômala rapidez e os sons que emitia, gemidos e sussurros de dor vinculados à extrema luxúria, ampliavam meu delíquio pelo vapor negro de seus olhos. As veias de seu avultoso poder, dentro de mim, estavam igualmente protraídas, tal como em seu pescoço e face... era um deleite senti-las em minha arculva. Todavia, Lëvri estava cada vez mais instável; sua cabeça se movia célere o tanto que sequer eu a compreendia, em determinada hora, quando aquela alcova parecia mais brilhante, como se a lua tão cheia excedesse no infinito a sua luminosidade, senti o aroma se sangue esvair pelo seu corpo, mas eu estava tão enervada...
— Por... favor... — Implorei e isso o fez amansar em segundos.
— Estou... hum... Ennehris... estou ferindo-te? — Senti-o acariciar meus cabelos, preocupado apesar de sua... natureza.
— Não... eu... — Era tão difícil proferir quaisquer palavras racionais. — Sinto-me... eu não estou... — Seus movimentos diminuíram, embora penetrasse compassado. Então suas mãos tocaram minha garganta e pressionaram-na para cessar minha respiração. Pude vê-lo outra vez sem desanuviar a imagem, pois não mais inalava a insanidade da sua aura sombria. Isso recuperou um tanto de meu vigor o que me levou a contrair meu interior; rapidamente Lëvri soltou-me, respirei apressada; seus olhos de escuridão fitaram meu espírito.
— Gostas... minha Ennehris... que eu faça... devagar? — Ouvi-o, embriagada. Meu sorriso o respondia que sim, envolto aos meus gemidos acentuados. — Agrada-me teu riso pulcro... doce... longânime... — Segurei-o firme, no intenso êxtase, arranhava-lhe as costas a cada aprofundar de seu plenitúrgido em mim e, assim, em certo instante, eu nada via além de meu abstrato prazer, um regozijo lascivo excelso atravessava-me violento vibrando minha alma, carne e pele. Então, pacifiquei-me, e ainda de olhos fechados, senti se entranhar em meu ventre um tórrido néctar, como um caule de Nelumbo Nucifera, e em meus ouvidos disseminaram-se os murmúrios sombrios de Lëvri, os quais me fizeram abrir os olhos. O seu corpo deslizara para meu lado, em nosso leito, e apreciei todas as veias negras desaparecerem lentamente, na imensidão do que vivíamos, pela natureza dele e a minha. Lëvri fitou-me em seguida e afagou meu rosto, deitei-me em seu peito sob seu chamado.
Adormecemos juntos sob o esotérico luar, abraçados como eternos amantes, todavia, amanheci outra vez, acredito que em poucos instantes depois, pois a imensa lua alumbrava da mesma forma. O que me levara a avivar meus sentidos fora um cântico mágico, o qual me guiara, em estranha curiosidade, para os jardins secos do inverno lá fora. Lëvri se mantinha na profundez de seus sonhos soturnos. Caminhei descalça, em níveo damanoute, pelo álgido índigo, sem me importar, pois, o cântico era como um encantamento que me protegia da friagem hedionda. “As sombras e o silêncio guiarão. A luz da tua memória ofusca o ouro. O escuro abraçará teu coração. Recorde estrela mítica, tesouro. Teus olhos brilharão, rubáurea rara.” — O cântico entonava em uma língua estranha, mas eu compreendia.
Um lago, de águas em tom azul-claro, avistei, e o vocalizar vinha de seu interior. Era uma queda-d'água, esplêndida por não estar congelada diante tais baixíssimas temperaturas. Em seu envolto, flores azuis bioluminescentes e altos pinheiros sombrios. Havia também pedras cinéreas a cingi-lo, como uma mágica fonte termal. No meu achegar, a neve deslizara das nuvens lívidas da imensidão anil-umbrosa, numa nevada de flocos tenros, no entanto, o Luar mantinha seu reinado poderoso. Assim me aproximei do lago envolvente e pouco a pouco fui reconhecendo aquela voz feminil... era a minha voz, fleumática como a neve que pendia na aragem. Ajoelhei-me sobre o pálido manto macio e fitei o interior do lago. O que vi não fora o meu reflexo, mas sim o de uma criatura símil à máscara que usei naquele baile carmim-dourado. Ali ela estava vívida, olhava-me atenta, piscava e respirava como eu. Parecíamos unidas na fantasia daquelas águas.
Era um animal magistral. De tez símil a um dragão, de um tom rubinegro que se alastrava acima para o vermelho vivo e abaixo para o preto profundo. Tinha um crânio corvino em osso marfim puro, e grandes olhos dourados. Seu corpo era como o de uma ampla serpente, conquanto rastejasse como uma, por vezes, comportava-se muito mais como um dragão, embora não voasse. Os pormenores de suas condutas não refletiam nas águas, sem embargo e decerto por uma lembrança fidagal, eu os compreendia. Gostaria, porém, de saber ao certo de onde vinha a criatura e qual seria a sua ligação comigo, eu percebia que havia muito dela a colidir com meus momentos desde que despertei, assim como o sangue — o qual me fascinava degustar. Então, como, porventura, Narciso fizera à sua própria venustidade, amantética vi-me no refletir onde a criatura mítica, tão estonteante, aparentava desejar algum diálogo comigo. Toquei as águas serenas, por fim, tão embevecida eu estava com o animal de áureos olhos.
Resvalei da neve de súbito, imergindo-me na imensidão do lago cerúleo cujas águas eram como um licor de luar e noite invernal, dentro delas, então, havia uma voragem, um infinito de escuridão, tal o oceano pacífico. Completamente imersa. Ouvi o cântico debaixo desse abismo. “As sombras e o silêncio guiarão. A luz da tua memória ofusca o ouro. O escuro abraçará teu coração. Recorde estrela mítica, tesouro. Teus olhos brilharão, rubáurea rara”. Destarte, tão brusco como a queda d’outrora, avistei, assustada, o lago; eu não havia imergido em seu interior e já não havia a criatura mítica no reflexo da fluência das águas encantadas, havia apenas eu; e vi meus olhos, por fim, um em tom rubro intenso e o outro em dourado nitente. Foi nesta surpresa misteriosa que uma voz feminina serena alcançou meus ouvidos, dispersando o ruído do vento; não era mais a minha voz. Olhei na direção da entonação e uma criatura se fez corpórea à minha frente, seduzindo meus sentidos.
— Bem-vinda, alma perdida. — Dissera-me. Levantei-me da regélida maciez alva e fitei os detalhes daquele espírito cuja forma assemelhava-se a uma mulher de longos cabelos brancos; seu corpo era um espectro azul-celeste. Um fantasma, eu diria, translúcido, porém, tangível, ao que me parecia. — Somente as mais pulcras essências são despertadas pelo meu lago. O que buscas, coração ferido? — Indagara com um tom de voz tênue que espargia longínquo.
— Quem... tu és? — Eu estava deslumbrada, cativada e envolvida pela aparição.
— Sou Lahgura, um espírito vilíneo. — Sua voz ecoava, um eco longo e exuberante. — Se posso ser vista pela tua heterocromia, então fui evocada por teu sortilégio... aquele que até mesmo tu desconheces. — Eu não a compreendia, era um ser insigne. Seu esvoaçar aproximou-se de mim, reluzindo em perfeição.
— Tens as respostas que busco? — Tremi pela possível resposta, ciente de que tudo naquele estranho lugar era guiado pelas mãos d’algum ilusionista.
— Posso tê-las... sim... eu sinto a tua esperança. Diga-me, flor pálida, diga-me o que desejas.
— Eu... desejo lembrar... eu... — Lágrimas nasceram em meus olhos ardorosos — Eu gostaria de... estar protegida... como no meu sonhar desta manhã... o belíssimo jardim de raras espécimes... o castelo familiar...
— Pulcra lacrimal, densa emoção. Ouça que tão logo desvanecerei... Eu, Lahgura, concedo-lhe o que vocifera em silêncio a tua tristura. Mas, não lhe posso abençoar sem um preço.
— Preço? Eu... eu... nada tenho a oferecer... — Sua corpórea espiritual tocava minha face, deixando-me aquecida.
— Não peço, gentil languidez, porém, tudo o que te darei trará consigo uma sombra. À memória recordada, virá tua dor a cada lembrar-se futuro. À tua proteção perpétua, virão as sete vozes do abismo. — Ponderei por longos instantes, entendendo a maldição que o enigma daquele ser conduzia.
— Recordarei tudo? Todo o meu passado?
— Singelo ser, a grandeza da penumbra equivale à amplidão do teu desejo... Lembrar-te de tudo o que és, resultará na maldição mais perversa que o esquecimento.
— Então... o que lembrarei?
— Cândida femínea, trar-te-ei uma memória de valor, tua, que precisa com urgência vir à consciência. — A compreensão começava a florir d’um peculiar botão enterrado em minha angústia e regado pelo meu medo.
— Após esta revelação, toda e qualquer outra, trar-me-á dor ao retornar à consciência. Tenho compreendido?
— Sim, vestal.
— E a proteção trar-me-á sete vozes do abismo... elas estarão sempre comigo?
— Virão quando estiveres em conflitos mentais. Entenda que o que sou é uma dádiva e uma calamidade; limiar do infortúnio à benção. Contudo, vejo em tua fronte um poder surreal, lidarás, decerto, com maestria a ambos os horrores. — Silenciei a ouvi-la, ponderando. — Uma única lembrança inestimável será o guia para tua existência e a proteção trará o sangue dos hostis aos teus lábios vampíricos.
Eu não poderia negar uma lembrança que lumiaria minha escuridão, embora aquele cântico... tão meu... entoando que “As sombras e o silêncio guiarão”. Por que eu diria tal desatino a mim mesma? Nada se vê no escuro, nada que não o temor. Que custosa fora tal decisão, e a tomei antes de articulá-la por fim. E Lahgura constatou. Ergueu suas mãos finas para que as flores bioluminescentes em anil envolvessem-me dos pés aos olhos em suas pétalas que se erguiam sutis, frígidas e vívidas. Rezou Lahgura, uma reza que não distingui. E então eu me lembrei; reconheci aquele que amei, morto pela Rosaemori, da espécie de classe única, veneno ao nosso clã. Presenciei outra vez o sangue flavescente, suas últimas palavras para mim e a crueldade dos olhos negros. Lembrei-me e, quando voltei a fitar o horizonte, nenhum lago permanecera e tudo o que ficara fora o intenso frio e a compreensão amarga.
Retornei ao cômodo que outrora estive, debaixo do dossel. E vi, tão logo aproximei-me do leito, era Lëvri. Adormecido. E em suas costas, ao meu espanto, porém, previsível em algum nível singular, seu dorso contemplava uma imensa Rosaemori tatuada em sua tez. A rosa maligna. O veneno do clã. E sim, eu o amei, o senti dentro de mim e vi bem seus olhos de trevas. Finalmente eu entendi quem ele era.
“Mate-o"...“Ele é um traidor”... “Mate-o”...“Mate-o agora!”... “Ele é um traidor”...“Ele está vulnerável”... “Mate-o”...“Não seja fraca”... “Mate-o agora!”...“Destrua-o"... “Não seja fraca!”... “Ele matou seu único amor”... — Ouvi, insistentes e perenes, repetindo enquanto eu fitava o dorso de Lëvri. Eu ouvi... caóticas e intensas; mórbidas e lúgubres... eu ouvi... ouvi as sete vozes do abismo.
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Diário de Anto Stefan Miahi II
(Anotações em folhas soltas) 21 de junho de 1871 - Por alguma razão, desde que cheguei a este castelo, sinto ter perdido…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário de Anto Stefan Miahi II
(Anotações em folhas soltas)
21 de junho de 1871 - Por alguma razão, desde que cheguei a este castelo, sinto ter perdido algo mais que meu bom senso. Nesta manhã busquei meu caderno, que uso há algum tempo para escrever meus pensamentos, e não pude localizá-lo em parte alguma de minha habitação. Tirei do armário as roupas, joguei gavetas para todos os lados e nada de encontrar meu pequeno companheiro. Tive que recorrer às folhas soltas que encontrei na escrivaninha disposta defronte da cama, que por sorte também não são poucas, e posso gastar algum tempo nestes registros de minha aventura dos últimos dias.
Inicio este meu relato em meio a esta tarde de sol opaco e ventos uivantes com sinais sombrios de tempestade. Voltando para o dia 19 de junho, pela manhã despertei com alguma dificuldade. A minha mente estava nebulosa. O quarto estava em um completo breu, e pouca coisa conseguia ver. Alguns minutos se passaram até que pude realmente abrir meus olhos sem me sentir dentro de um maldito barco. Meus hábitos como militar me fazem levantar da cama às cinco da manhã. Nem mesmo o galo é tão pontual quanto um militar bem doutrinado.
O que a rotina e a repetição fazem com o indivíduo? Resultam em uma clara domesticação do homem selvagem e brutal, criando nele o senso de civilidade e consonância social que passam a ser demasiadamente enraizados em sua alma, e ele cria estima por eles. Bem, isso parece lógico.
Devo dizer que este lugar é impressionante por si só. De onde estou, posso ver uma cadeia montanhosa com seus altos pontos completamente brancos, verdadeiros gigantes adormecidos. O quarto está bem-posicionado, devo dizer. O Sol, por detrás daqueles picos majestosos, tira o ar de tão impressionante que é.
Após estes momentos de percepção e admiração que nunca foram de meu interesse, mas que neste momento sinto que devo pontuar, volto ao castelo propriamente dito. Os corredores exibem tapetes vermelhos e tapeçarias que parecem retratar e remontar as gerações anteriores que aqui viveram. Os móveis dispostos neles são elegantes, com desenhos em baixo relevo. Parece que em todo lugar que olho tem história, fatos. Ao que vejo, se for retirada uma pedra do seu lugar, talvez seja capaz de remontar a algum evento na antiguidade. Minha ansiedade é tanta que imagino que, em minhas pesquisas, eu possa descobrir que daqui veio algum Papa, ou um parente perdido de Joana D’Arc que buscava redenção para a pobre moça.
Caminhando pelo primeiro andar, pude notar um detalhe curioso nos quartos. Muitas portas estavam, não apenas fechadas, mas trancadas com chave. Dessas, algumas poucas, pude notar um odor incomum que logo desapareceu e que me fez lembrar os campos em que estive. Isso me estremeceu as pernas, um frio percorreu minha espinha, e, em pouco tempo, as lembranças vieram à minha mente. Dei dois passos para o lado, me apoiei no móvel que ali estava, e logo levei minha mão direita até minha face, cobrindo os olhos. Pouco tempo passou e voltei a mim.
Decidi que deveria descer. Já eram quase sete e meia da manhã, e não tinha a intenção de me atrasar para o café da manhã. Supus que deveria ser esse o horário para comer, já que, até este momento de minha exploração, não havia encontrado ou escutado uma única alma viva no corredor, nem mesmo nos quartos que estavam com as portas abertas ou destrancadas.
O castelo do Conde era realmente grande. Um convidado poderia se perder dentro dele. Isto constato ao pensar que ainda haveria dois andares para cima, o terraço, e as torres que dão mais um ou dois pisos para cima. Admito que desconsidero haver algo abaixo da terra, não me parece lógico. Contudo, não posso descartar por completo a possibilidade de que os criadores dessa construção tenham investido empenho e criatividade para agregar algo indo para baixo do térreo.
Desci lentamente as escadas que encontrei, torcendo serem elas que levariam à entrada, aos cômodos inferiores, onde se encontraria o grande salão para poder quebrar este meu jejum. Por sorte, tomei o caminho correto.
Me deparei com a grande porta de madeira maciça com belos umbrais entalhados que havia visto na noite anterior, antes do meu desmaio inusitado, que também irei pontuar mais para frente neste meu relato, que se mostra um fato com detalhes estranhos.
Da porta de entrada, em ambos os lados, disponha duas flâmulas curtas, do tamanho da altura da cintura de um homem adulto comum. As duas paredes laterais eram amplas e nelas estavam dispostas, em cada uma, duas flâmulas do mesmo tamanho, entre elas uma grande tapeçaria com o brasão que parecia ser da família do conde.
A imponência daquele ambiente era de deixar muitas famílias da nobreza francesa envergonhadas. Próximo a mim, em ambos os lados, havia passagens em arco, sem portas, para cômodos que poderiam ser explorados.
Olhei primeiramente para a esquerda; era um cômodo amplo, com uma mesa no canto oposto à porta por onde eu observava o interior, feita de madeira escura, sobre a qual estavam dispostos vários papéis e alguns livros. Atrás dela, uma poltrona do mesmo tom de verniz e madeira, com um grande encosto. Nela, estavam várias peles grossas, uma parecia ser de urso-pardo. No alto do encosto, estavam esculpidos dois corvos, um de frente para o outro, mas com as cabeças voltadas para baixo.
Nunca havia visto algo tão sombrio e incomum. Quanto ao cômodo em si, suas paredes estavam repletas de livros, cobrindo a totalidade das superfícies. Então, percebi uma porta ao fundo, não muito alta, de frente para o portal por onde eu observava. Ao lado dela, deparei-me com algo que parecia um corrimão entrando na parede, indicando um ambiente a mais em um cômodo oculto.
Antes que eu me desse conta, uma voz serena de barítono me tirou de minha exploração visual.
— O senhor é esperado neste aposento para o desjejum. — Apesar da voz calma e do tom educado, sua expressão facial era aterradora. Tinha olhos grandes, castanho-escuros, com órbitas afundadas. Sobrancelhas arqueadas, um nariz aquilino e um queixo curto. Os lábios eram finos e esbranquiçados, com as maçãs do rosto muito pronunciadas. A pele, sem muita cor.
— Oh…! Obrigado. — Minha voz saiu de sobressalto, e minha reação instintiva foi levar minha mão esquerda até a cintura em busca da bainha de minha espada. Para minha profunda frustração, ela não estava em seu lugar devido. — Quem é o senhor? — Questionei o homem diante de mim, vestido com trajes subalternos.
Ele sorriu, o que o deixou ainda mais assombroso, com um ar psicótico.
— Sou seu humilde servo, Narcís Nestor. E creio que o senhor seja Anton, certo? — Ele fez uma reverência um tanto longa enquanto falava, e ao término dela se endireitou. Era alto e magro, e suas roupas lhe davam um porte elegante e igualmente ameaçador. Seus cabelos, longos até os ombros, estavam presos em um rabo de cavalo com fios ruivos e ondulados.
Apenas assenti com um movimento de cabeça, confirmando sua informação.
— Venha por este caminho, cavalheiro. — Ele girou nos calcanhares e começou a andar sem me dar a chance de questioná-lo sobre qualquer outra coisa.
Ele me conduziu por um corredor sem janelas e, ao alcançarmos o meio dele, havia um portal, este com portas. Ele abriu ambas as portas, revelando uma sala de jantar espaçosa. No centro, uma grande mesa acomodava até dezesseis pessoas. A mesa era de carvalho em tom bege-claro, e as cadeiras completavam o conjunto na mesma cor. Na parede oposta à porta, havia uma lareira grande, acesa, e acima dela, um escudo com duas espadas cruzadas.
— Ao entrar, o ambiente estava quente e aconchegante. Olhei para cima, observando os detalhes o máximo que me era possível. O pé-direito daquele espaço era alto, com dois grandes lustres feitos de rodas de carroça, presos por correntes.
Mesmo naquela sala de jantar, o luxo não era escasso, pois notei grandes vitrais acima da porta. Nas bordas, o azul-índigo se destacava, enquanto o centro era de cristal, permitindo a visão do exterior, onde uma tempestade de neve se formava. No meio, um azul-escuro predominava, bloqueando a entrada da luz do sol. Além disso, cortinas duplas pendiam do ponto mais alto, cobrindo quase toda a janela. As cortinas mais grossas eram de um tom bordô profundo, de tecido que parecia veludo, enquanto as mais finas eram brancas, lembrando a neve que caía lá fora, feitas de seda.
O ambiente não parecia carecer de luz natural com todas aquelas velas e a lareira queimando lenha. Isso me fez perceber um detalhe que me havia escapado até então: muitas das janelas tinham esse mesmo tom escuro. Mesmo a do meu quarto possuía um tom azulado que deixava o ambiente mais sombrio.
— Aconselho que o senhor se sente neste lugar enquanto trazemos seu café da manhã. Já está ficando tarde e creio que esteja com fome, cavalheiro. — Ele apontou para uma cadeira que havia movido, indicando onde eu deveria me sentar. Sua expressão estava séria, apesar de tentar parecer convidativo e educado.
— Claro, evidentemente não queremos atrasar o café da manhã do Conde! — Tentei ver se Narcís dizia algo sobre seu mestre, já que até o momento ele não havia me fornecido nenhuma informação sobre ele ou sobre o castelo. — Não podemos fazer essa quebra de protocolo social.
— O mestre Drácula tem o hábito de comer em seus aposentos. Mas, ele lhe desejou um excelente desjejum. — Novamente, aquele sorriso que faria até um coveiro sentir arrepios na coluna.
— Que inusitado. Bem, diga ao Conde que também lhe desejo o mesmo e que gostaria de poder sentar-me com ele para conversarmos sobre o assunto que me trouxe até aqui. — Tentei dar meu melhor sorriso para a criatura ao meu lado, que estava arrumando meus talheres.
— Vou transmitir sua mensagem ao Conde. — Narcís se colocou ereto e seguiu em direção à porta na parede oposta àquela por onde eu havia entrado, mais próxima à parede à direita.
O mordomo Narcís caminhou rápido e silencioso, parando quase em frente à porta. Ele estendeu o braço para pegar um sino sobre um móvel ao lado esquerdo, e logo o fez soar. A porta se abriu com um forte rangido. Dela saiu uma senhorita de cabelos pretos, pequena e esguia, trazendo um carrinho com vários pratos e bebidas quentes. Ao se aproximar, pude observar melhor suas feições. Os olhos eram amendoados, de um tom de âmbar que eu nunca havia visto, tão intensos e atentos. As sobrancelhas eram retas, um pouco finas demais. O nariz era delicado, levemente aquilino. O queixo pontudo, com o lábio superior fino e o inferior carnudo.
Ela levava um tecido amarrado sobre a cabeça para prender o cabelo, e ao se aproximar para pôr a mesa que trazia no carrinho, notei que seus cabelos eram negros e ondulados.
— Obrigado, ficarei apenas com o café, a manteiga, alguns pães e talvez essa geleia que parece ser de mirtilo. — Busquei um tom gentil e a expressão mais sincera possível. Mas aquela senhorita mantinha o rosto sem emoções.
— Se é o que o senhor deseja. — A voz dela era de uma soprano, agradável de se ouvir, um verdadeiro contraste. Um choque.
— Por favor, qual é o seu nome? Eu me chamo Anton, é um prazer conhecê-la! — Tentei ser social e educado, mesmo parecendo que ela não permitiria que eu me aproximasse. Desejava poder conversar com alguém, já que minha tentativa anterior foi frustrada.
Apenas obtive um profundo e consternante silêncio por parte daquela jovem.
Naquele mesmo dia ao entardecer - Devo dizer que me senti compelido a retornar ao meu quarto após o almoço e após abrir mais alguns livros da biblioteca. Tem sido uma exploração frutífera. No entanto, uma inquietante sensação vem dominando meus pensamentos. A lástima é que ainda não pude perceber a razão desses pensamentos ou mesmo sua fonte, se ela habita em mim ou é proveniente de algo externo. O que acalma meu espírito é estar neste quarto com a caneta, a tinta e o papel ao meu alcance.
Voltemos ao dia 19 de junho.
Apesar de minhas tentativas de criar vínculo com os empregados do castelo terem sido um completo fracasso, naquele dia Marcos, após o desjejum, me guiou para outra sala que eu havia observado antes. Ele disse que eu poderia acessar todas as obras dispostas neste cômodo e que em outro momento me levaria a uma sala ainda maior, contendo obras raras que o conde mantinha apenas para si, mas que, por conta de minha presença, estaria inclinado a abrir para que eu pudesse investigá-las.
Eu não havia visto a totalidade daquela sala. À esquerda da porta, ao fundo, havia uma curta escadaria em L que avançava para dentro e para cima da parede, acima da porta, como um patamar com mais prateleiras e livros que só se podia notar ao adentrar o ambiente. O andar inferior tinha pé-direito alto, e ao lado da mesa havia duas janelas em arco de dois metros e, entre elas, uma porta de vidro que levava ao pátio, além de outra pequena, de madeira, que não ousei verificar.
Desde o andar de baixo até o de cima, do piso até a metade da altura de um homem adulto, as paredes eram revestidas com uma madeira caramelo formosa e bem cuidada. O patamar superior tinha um pouco menos de um metro e noventa de altura, o que me fez desviar dos candelabros presos nas colunas quando subi para explorar.
O que me surpreendeu foi que cada volume estava bem cuidado, suas capas pareciam novas, com sinais de pouco uso. O conde deve ser rigoroso com a conservação das obras mantidas aqui em seu castelo.
As horas passaram enquanto eu verificava cada obra naquela imensa sala. Levaria um longo tempo até que eu revisasse cada livro ou, no mínimo, juntasse os que realmente me interessavam. Ao olhar para o exterior pelas janelas da porta, percebi que já estava escurecendo. No pico das montanhas, a luz começava a desaparecer, e fiquei hipnotizado por aquela vista.
Então, uma voz profunda e calma quebrou meu transe.
— Espero que não esteja interrompendo, senhor Anton? — Por um instante senti que meu corpo se congelava, no entanto não durou muito. Uma voz, apesar de grossa, era firme, capaz de fazer o silêncio reinar com apenas uma palavra numa estalagem cheia de bêbados.
Dei meia volta para ver quem falava, apesar do susto. Ele estava parado no patamar superior, escorado no guarda-corpo, com um livro na mão. Sua altura era menor que a minha, o corpo um tanto esguio, com tudo estava bem trajado com uma camisa branca e um colete de dois tons pelo que parecia, preto nas costas e vermelho na frente. Os cabelos pretos e levemente ondulados e um tanto longos caíam sobre os ombros.
— Sou um homem de hábitos noturnos, para a infelicidade de meus convidados. — Ele virou o rosto ficando de perfil de frente com uma lâmpada que estava a menos de um metro dele pendurada na coluna, revelando uma aparência surpreendentemente jovial. O bigode e cavanhaque bem aparados mostrando refino como evidência de sua vaidade, assim sendo esperado de alguém que vinha de uma da alta sociedade. A pele parecia de marfim, de um aspecto fantasmagoricamente translúcido, como se os raios dourados carregados por Apolo jamais a tivessem tocado. Seus lábios finos e brancos pareciam sem vida, e seu nariz aquilino deixava sua expressão severa, algo enigmático, que me causava calafrios por toda a espinha. Ele me observava de soslaio, dando-me a impressão de pouco interesse.
Sua presença era imponente, inundava a biblioteca, dando-me a triste impressão de estar na companhia de um animal selvagem, um indivíduo de poderes não mensuráveis, pronto para me atacar. Meus instintos mais íntimos gritavam freneticamente para que eu saltasse pela porta de vidro às minhas costas, enquanto meu treinamento me compelia a manter a posição e enfrentar meu temor, como fiz tantas vezes diante dos estrondosos gritos dos inimigos de Napoleão e das baionetas dos prussianos.
— O senhor me pegou desprevenido… — Minha voz saiu rouca, porém o mais firme que consegui. Fitei seus olhos, que pareciam de um tom quase âmbar, vivos, atentos, de uma profundidade assombrosa. Parecia ler minha intenção combativa. O conde havia movido apenas a cabeça para olhar minha pobre existência confrontando sua magnitude. — Devo supor que seja meu estimado anfitrião, que vi na minha primeira noite e com quem, por alguma infelicidade, não pude trocar muitas palavras. — Neste momento, escapou dos lábios dele um sorriso sem jeito. Tentei recobrar minha dignidade e civilidade perdida com o susto.
Vlad então fechou o livro que estava em suas mãos e começou a descer a escada oculta atrás da parede. O que me assombrou de sobremaneira foi a completa ausência do som de seus passos na escada de madeira. Parecia caminhar como um gato. A sensação de perigo voltou a invadir minha mente, meu coração acelerou, e instintivamente me movi para a frente da grande mesa. Minha mão esquerda mais uma vez buscou a bainha de minha espada, e novamente sua falta me deixou frustrado, fazendo-me sentir nu, desprovido de proteção, à mercê de quaisquer poderes que o conde Drácula pudesse tentar contra mim.
Mesmo ele sendo menor que eu na altura e, naquele momento, estando na escada à minha frente, aquele sentimento opressor não se amenizava. Quando a silhueta de Drácula se delineou na curva do L da escadaria, seus olhos ganharam um estranho brilho amarelo. Uma emanação que não encontro outra palavra para descrever, senão espiritual. Como pequenas pedras em sua face que emanavam uma presença aterradora. Naquele momento, meu ceticismo quase cedeu aos mitos contados pelas ciganas das periferias de Paris sobre as lendas dessa terra estranha.
Seu corpo, não muito mais alto que um metro e setenta e cinco, alcançou a luz do andar de baixo, e sua face havia mudado completamente, ganhando ares mais suaves. Seu porte tinha uma elegância incomum, e seu caminhar era calmo, demasiadamente sereno.
— Ora… Devo assumir que este sou. Seja bem-vindo oficialmente ao meu humilde lar. — Vlad tentou exprimir um sorriso que revelou seus dentes, e o que me surpreendeu foram os caninos anormalmente pontiagudos e brancos, similares aos de um lobo. O que me deixou desconfortável, mesmo ele parecendo tentar acalmar-me. — Espero que suas acomodações e alimentação estejam de acordo com seu gosto. Suponho que alguém que venha da cidade grande tenha preferências alimentares mais requintadas, não é mesmo, Anton? — Aquela pergunta me soou estranha, mas até aquele momento minha estadia no Castelo Drácula não havia tido problemas, exceto minha tentativa falha de me comunicar com os empregados.
— Conde, não tive qualquer problema quanto aos aposentos ou mesmo referente à alimentação. Militares se habituam a dormir em catres desconfortáveis, a dormir pouco, e a comer mal. — Recorri à minha honra como soldado para voltar ao meu centro, meu equilíbrio mental. — Aqui está além daquilo a que me habituei nos últimos anos.
Vlad passou as horas seguintes conversando comigo, tratando da cultura local, suas influências, as histórias, e me mostrou alguns de seus títulos favoritos. Nossa conversa foi amistosa, e me senti como diante de um dos mestres da minha antiga universidade, aprendendo o que estivesse ao alcance de minhas faculdades mentais. O tempo, em alguns instantes, pareceu ficar mais lento. A noite avançava vagarosamente, mesmo que a conversa estivesse empolgante, aquela percepção não me abandonava.
O conde realmente era um homem da noite, estava cheio de energia, diferente de seus primeiros momentos naquela sala. Sua oratória, o vasto conhecimento que ele apresentava, me dava a impressão de que alguns dos fatos narrados ele havia vivido. A riqueza de detalhes, a precisão do relato, traziam uma segurança que apenas quem viveu, presenciou e experimentou poderia possuir.
Andávamos por todo o cômodo enquanto conversávamos. Apesar de eu ter despertado antes do galo, realmente podia sentir que não me faltava energia, um impulso, não, uma força me sustentava ali naquela conversa. Parei diante da porta, com ela às minhas costas, enquanto observava Drácula caminhar em direção à poltrona com dois corvos de cabeças voltadas para o assento. Ele se sentou como um rei, cruzou as pernas, apoiou-se no braço esquerdo e repousou um livro sobre a perna esquerda, olhando fixamente para mim. Sua forma de olhar era intimidadora, novamente notei aquele estranho brilho.
Olhei o relógio que carregava no bolso do colete e pareceu-me que eram quase seis horas da manhã do dia seguinte. Meus olhos voltaram para as janelas, onde a luz da lua ainda brilhava intensamente. Caminhei em direção à porta de vidro e, ao olhar para fora, o espanto me dominou. A lua ainda se encontrava no ponto mais alto do céu. O pátio do castelo estava coberto de neve, e a luz que vinha do céu dançava em tons de azul, brindando a neve branca com um belo detalhe.
Subitamente, o ar pareceu ficar denso, difícil de respirar. Olhei para trás e vi o rosto daquele homem pequeno, sentado em sua grande poltrona, com um sorriso arqueado na face, novamente revelando aqueles caninos animalescos, num ar malicioso.
A biblioteca tinha uma pequena lareira na parede à direita da porta de entrada, onde também se encontrava a porta de vidro. Mesmo assim, minha respiração condensou como se eu estivesse ao ar livre. Voltei meu rosto para fora e notei a silhueta de uma mulher parada próxima ao muro. Não era alta, e seus cabelos pareciam longos. Aproximei-me mais da janela para tentar ver melhor, quando a luz da lua recaiu sobre ela, revelando uma pessoa com o mesmo tom de pele do senhor Drácula. Ela deu alguns passos mais para o centro do pátio, evidenciando mais detalhes de sua fisionomia.
Os cabelos eram ondulados, mais longos do que notei inicialmente, de um tom preto similar ao céu noturno. Seu nariz fino e levemente pontudo contrastava com seus olhos grandes, que pareciam ser de um azul claro. Os lábios eram volumosos. Seu corpo era pequeno, esguio e delicado. Sua expressão era apática, distante. Ela olhou para a lua e, assim como o senhor do castelo, pareceu-me exibir uma aura sobrenatural. Seus olhos brilharam num tom branco pálido, mas logo meu ceticismo voltou, e supus que era efeito da luz da lua.
Aquela presença no pátio estava apenas coberta com um vestido de algodão rústico e uma capa transparente. Direcionei minha atenção aos pés dela, que estavam descalços.
Quando pensei em tocar na fechadura para chamar a jovem no pátio, senti algo me impedindo de tomar aquela ação. Mais uma vez, meus instintos soaram em minha mente como trombetas de guerra. Girei nos calcanhares, com os punhos fechados e os dentes cerrados, como se estivesse pronto para receber o primeiro golpe. Assim que o fiz, um vento gélido invadiu o ambiente, a lareira apagou, sobrando apenas a iluminação natural vinda de fora que, ao passar pelos vitrais, deixava o ambiente num jogo de vários tons de azul. Foi então que, ao abrir meus olhos, notei três pares de olhos me observando. O único que reconheci foi o que havia visto nos olhos do conde, que ainda se encontrava sentado em sua poltrona. Os que vi no patamar eram vermelhos com toque âmbar, enquanto os que estavam próximos à entrada que conduzia ao interior do prédio eram de um tom vermelho como brasa viva.
Ouvi um grunhido de feras ocultas na escuridão. Sentia a adrenalina subir e inundar cada parte do meu ser. Minha respiração ficou rápida e as batidas do meu coração eram palpáveis dentro do peito.
Então, o silêncio. A escuridão. O vazio apagando cada um dos meus sentidos. Sobrando apenas o impacto oco do meu corpo contra o chão de madeira do castelo.
Para meus registros finais nestas folhas deste último evento, não me pareceu ter levado mais que alguns poucos minutos, segundo minha percepção. Corrijo, o que recordo destes últimos momentos é como um pesadelo sombrio e muito vívido. Não consigo confiar em minhas memórias desta manhã, ou noite. Existe algo que me obscurece a razão, que me desafia a duvidar dos fatos. Será que o que vivenciei naquela manhã, ou noite, era real? O que vi foi realmente um fato? Quem era aquela jovem no pátio? Será que fiz a escolha correta de vir ao meio do nada em Bram, no centro da Europa?
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Lúgubre
Por mais que eu tivesse anseios em sair de lá, sabia que minha alma pertencia àquele lugar tenebroso onde o odor escarlate emanava de cada puído tijolo…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Por mais que eu tivesse anseios em sair de lá, sabia que minha alma pertencia àquele lugar tenebroso onde o odor escarlate emanava de cada puído tijolo, onde a escuridão chegava a ser tangível.
Após o empurrão, me afastei do salão principal, mas permaneci estática diante daquela figura horrífica, enquanto os musicistas dedilhavam seus dedos sangrentos sob as cordas de aço do violino que lamentava a cada acorde tocado.
— Senhorita! Perdoe minha indelicadeza, permita-me recomeçar por favor, meu nome é Conde Nickollas, disse ele, seus lábios moviam com elegância, e os olhos azuis, apesar de vazios, iluminaram aquele pálido rosto, as maçãs do rosto eram protuberantes, seus lábios sedutores eram um convite à luxúria, emoldurando seu fino rosto. Cabelos lisos, penteados para trás em tons castanhos, ele se portava como um verdadeiro lord, seu vocabulário era riquíssimo.
— Me chamo Rose — minha voz soou trêmula como um sussurro, ele me convida novamente para dançar, aceito seu convite. Enquanto caminhava, o imenso salão tornou-se vazio, tal qual numa dança nupcial, o que causou desconforto, pois era uma lembrança dolorosa, não sei como sobrevivi àquele casamento... foram anos terríveis ao lado daquele crápula, ainda carrego marcas, imersa naquele poço lamacento de lembranças. Ele me conduz de forma gentil, assim como fizera mais cedo.
Meus cachos ruivos bailam no ar, ao som daquele nefasto quarteto de cordas que agora executava a fúnebre peça de Bach: Toccata and Fugue. Enquanto bailo, questiono minha sanidade, tudo isto é real? Quem será o dono deste colossal castelo? O castelo é real? Devo estar em algum sonho, ou em alguma realidade paralela. Meu par, percebeu minha inquietação, envolveu seus braços em volta da minha cintura, sorriu e disse: — Senhorita Rose, o que lhe aflige? — Meu busto palpitava, olho em volta, sinto a volúpia através das máscaras, sussurros se intercalam com sorrisos.
— Não há o que temer... — em seguida ele sorriu, então, vislumbrei o que seus lábios de seda escondiam, eram caninos pontiagudos brilhantes. Desviar o olhar se tornou uma árdua tarefa.
Uma leve vertigem apoderou-se de mim, disse-lhe que não me sentia bem, então fomos em direção a uma das inúmeras janelas. Chegando lá, fomos agraciados com uma túrgida e lânguida lua, brilhava soberana sob a temível escuridão. Fui arrebatada por aquela visão, fui tomada por um inominável terror, mas não consegui emitir nenhum som. Ao abri a janela, uma impetuosa lufada de vento nos abraça, se não fosse a rapidez do meu par, estaria ao chão.
Olhando em meus olhos ele disse: — Notei que você está fraca, suponho que esteja faminta, vamos alimente-se. — Ele, então, ergueu seu punho sob a luz do lúgubre luar, era possível ouvir o pulsar de suas veias, sem pensar, cravo minhas presas com vigor em seu braço, sinto o rasgar de sua pele, e finalmente vejo a vida escorrendo do braço, o líquido viscoso e amargo desce por minha garganta, estava faminta, por mais que o gosto fosse repulsivo, eu precisava.
Espasmos percorriam meu corpo, acompanhados de gemidos inaudíveis, meus lábios e busto estavam manchados de escarlate, assim como meu lindo vestido.
Experimentei um profundo torpor, foi mais devastador do que a primeira vez, olhei ele e agradeci, após isto, sucumbi em seus braços.
Acordei nos meus aposentos com uma forte dor de cabeça e náuseas. Eu ainda estava de vestido, o vestido com manchas escarlate, e aquele estranho gosto na boca. Pouquíssimo me recordo da noite anterior, então permaneço deitada e tento entender o que ocorrera.
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7. Jardim da Morte: Dança da Morte
Na penumbra da noite eterna, um jardim agora floresce no Sheol. O jardim…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Na penumbra da noite eterna, um jardim agora floresce no Sheol. O jardim agora possuía rosas negras que exalavam um perfume fúnebre. A ceifadora trouxe de uma de suas viagens e deu a mulher a responsabilidade de cultivá-las naquele solo incomum. A mulher estava fazendo um bom trabalho com as flores. Antes só ficava ali sentada perdida em pensamentos à espera da ceifadora para mais um de seus jogos habituais e suas conversas, mas agora a mulher tinha uma atividade além de só esperar.
— Você voltou rápido dessa vez. — Murmurou a mulher olhando para a ceifadora que se sentava à mesa e descansava a sua foice ao seu lado, o símbolo do seu inescapável ofício.
— Sim — A ceifadora respondeu com um sorriso enigmático.
— Ainda bem que está de volta, depois do nosso passeio você saiu tão rápido para seus afazeres que nem pude te contar os detalhes do que ocorreu. — A mulher se sentou à mesa de mármore de frente à ceifadora.
— Você sabe que eu estava lá, não é? Eu presenciei tudo. — Disse a ceifadora.
— Eu sei, eu sei, mas você é a única com quem posso falar e eu queria falar sobre isso.
— Está bem. Podemos falar disso enquanto jogamos então? — Disse ela arrumando as peças de xadrez à mesa, brancas para ela e pretas para mulher. — Depois tenho um convite a te fazer. — A ceifadora sorri, seu olhar penetrante refletindo a luz pálida da lua.
— Humm…que misteriosa, agora fiquei curiosa. Está bem, vamos jogar. — A mulher se preparava.
A ceifadora sorri e avança o peão da dama para a quarta casa.
— Ah…— Suspirou a mulher. — Aquela belíssima capela, iluminada pelas chamas das velas naqueles castiçais dourados tão brilhantes. — A mulher responde com o peão da dama para a quarta casa.
— Eu vi, tudo estava perfeito. Como se fosse feito só para você. — A ceifadora prossegue avançando seu peão da coluna “c” para a quarta casa, expondo sua rainha de maneira tão prematura.
— A música que tocava, uma sonata tão melancólica que fazia ter vontade incontrolável de cantar e dançar. Rute debruçada sobre a Bíblia. Ela sempre foi curiosa e não resistia a um livro, não importa qual fosse. — A voz tingida de nostalgia. — E, quando nos vimos, era como se nunca tivéssemos nos separado. Dançamos ao som daquela sonata. Cada movimento era uma lembrança tão saudosa. — A mulher faz seu peão avançar e capturar o peão da ceifadora na coluna “c”.
— Vocês dançaram lindamente. — Disse a ceifadora sorrindo para ela e avançando o cavalo do rei para a terceira casa.
— Então tudo ficou escuro e voltei para cá num piscar de olhos. — Disse a mulher em tom triste.
— Os momentos mais preciosos são fugazes. — A ceifadora murmurou isso acenando lentamente.
A mulher tentou reagir, mas os movimentos da ceifadora foram implacáveis. Cada avanço, uma captura, uma dança mortal. Peões caem, cavalos são abatidos até que em um movimento final, a ceifadora encurrala o rei da mulher com um xeque-mate inescapável.
— E mais uma vez você vence. — A mulher suspira.
— E olha que nem me esforcei hoje. — Diz a ceifadora sorrindo. — Estou cansada de tantas vitórias. — Confessa a ceifadora, apoiando as mãos no queixo.
— E o convite? — A mulher pergunta ansiosa.
— Ah, sim, o convite, sim. — Ela tira um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados da maleta e entrega à mulher. — Então minha adorável dama, você aceita me acompanhar em um baile de máscara no castelo do Conde Drácula? — Disse isso de forma afetada.
— É claro, que dizer é… — A mulher falava tropeçando nas palavras. — Conde Drácula, o vampiro? Baile de máscaras? Isso não seria quebrar as regras? — Ela olha a ceifadora em dúvida.
— Sim é o baile anual do Conde Drácula o vampiro e…sim, em partes estaríamos quebrando algumas regras, mas recebi o convite para esse baile, estou trabalhando demais também, preciso de um pouco de diversão, entende? — A ceifadora olha para ela com um sorriso forçado.
— Então, por que não? Vamos? — A mulher sorri intrigada.
E assim, uma porta preta, adornada de arabescos dourados nas bordas envolta em uma névoa carmesim se materializou foram transportadas para um grande salão suntuoso. As duas estavam belamente vestidas, a mulher com um magnífico vestido de veludo sanguíneo com decote em V, mangas longas bem justas terminadas em um punho largo finalizado em rendas. A saia volumosa que arrastava graciosamente pelo chão. Em seu pescoço um colar dourado que pendia um camafeu delicado. Em seu rosto uma máscara simples em tom de sangue adornada de dourado, os cabelos escuros longos presos atrás como uma cascata de cachos.
A ceifadora em seu vestido preto vitoriano, com a saia volumosa em camadas que varriam o chão com graça a cada movimento, o vestido parecia sussurrar lamentos. Um corpete justo que realçava sua figura esguia. Uma gola alta e austera, mangas bufantes nos ombros que desciam justos até os punhos, com babados delicados de renda. Em sua cabeça, a ceifadora usava um pequeno chapéu preto de abas, posicionado de lado. O chapéu adornado com fita preta de seda e uma única pena negra. Os cabelos grisalhos, que contrastavam com a sua pele de um grafite cinzento, preso atrás com uma trança única. No rosto uma máscara de médico da peste ocultava suas feições. Feita de couro branco, a máscara tinha um bico longo e curvado semelhante a um corvo, com lentes redondas e escuras que ocultavam seus olhos de um branco leitoso sem pupila. Segurava firmemente uma bengala de ébano, no lugar de sua foice. A bengala com um cabo ornamentado em prata, terminava em sua ponta metálica que ressoava de modo suave ao tocar o chão.
A ceifadora entrou no salão de braços dados à mulher, com sua confiança habitual. Observava cada detalhe através das lentes escuras da máscara. A música espectral, as luzes tremeluzentes criavam um ambiente convidativo para elas. Algumas pessoas no baile não ousavam se aproximar demais da ceifadora devido a sua presença impactante. Ao lado dela a mulher estava deslumbrada com toda aquela decoração, parecia um sonho para ela estar presente num evento tão impressionante.
— Vamos dançar? — Sugeriu a ceifadora, sua voz ecoando através do bico de sua máscara.
— É claro. — Disse a mulher radiante. — Mas vou logo te avisando, não sei conduzir.
— Sem problema, eu só sei conduzir. — Tomando a mão da mulher, a ceifadora a levou até o meio do salão. Seus movimentos eram fluidos e precisos. As duas a dançar criavam um espetáculo hipnotizante.
Elas dançaram graciosamente pelo salão. Se divertindo enquanto rodopiavam. O riso de ambas se misturando a música. Trocaram de pares várias vezes aproveitando cada segundo do baile e cada companhia excêntrica. Aproveitaram da comida e das bebidas, conversaram amenidades com aqueles que queriam dialogar e dançaram com aqueles que estavam ali somente para dançar. Retornaram a dançar juntas, era chegada a hora da última dança da noite. Bailaram aproveitando cada movimento e a música findou. O baile havia chegado ao fim, a mulher estava eufórica:
— Nunca imaginei que em morte iria realizar um sonho de adolescente de participar de um baile de máscara vestida como uma verdadeira dama gótica. — Ela sorria e apertava as mãos eufórica. Enquanto a ceifadora sorria para ela por trás da máscara.
Elas andaram pelo castelo procurando um portal que as levasse de volta ao jardim. Seus passos ecoando juntos com tantos outros que seguiam para seus aposentos ou para a saída do castelo. Tantos seres tão estranhos quanto elas. A atenção da mulher foi atraída para a vista de uma varanda, seguiu adiante e se deparou com um céu estrelado tão belo e uma lua cheia descomunal que parecia quase dominar o firmamento. Sentiu-se preenchida por uma sensação serena, como se pudesse sentir uma mão divina acariciar seus cabelos a deixando tranquila. Começou a cantarolar de modo suave uma canção e sua voz ecoava. A melodia saía de seus lábios harmonizando com a calmaria da noite. Ela estava hipnotizada por aquela lua, seus olhos fixos nela enquanto cantava. Ficou ali cantando para o luar e perdida em pensamentos. A ceifadora se aproximou, interrompendo seu canto suave:
— Vamos, princesinha gótica, já passou do nosso horário. Temos que ir logo. Já encontrei o portal. — Ela falou batendo sua bengala no chão de pedra impaciente.
— Até a próxima vez. — Sussurrou a mulher para o castelo e a lua. Relutante ela se virou e foi de encontro à ceifadora. Entraram na porta cinza adornada de beladona e voltaram ao jardim.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…