A Escultura
Carlos sempre flertava com a ideia de viver uma vida simples, sem muitas preocupações, de preferência numa…
MidjourneyAI
Carlos sempre flertava com a ideia de viver uma vida simples, sem muitas preocupações, de preferência numa cidade pequena. Como de costume, ele acordou cedo para comprar jornal na banca próxima a sua casa e, ao folheá-lo, se deparou com um anúncio na parte dos classificados, era o convite que ele estava esperando. Tratava-se de um incrível chalé em frente à praia, numa pequena e charmosa vila pesqueira. Um singelo sorriso surgiu de seus lábios enquanto guardava o jornal.
Certo dia, ele resolveu conhecer o lugar, reservou o chalé por um final de semana e se apaixonou imediatamente, tudo era encantador, a sala ampla, um sofá aconchegante, uma cozinha bem planejada e bastante arejada, a poltrona de balaço feita de palha na varada, o quarto com uma janela linda de madeira, e abaixo da janela, uma confortável cama feita de madeira. Tivera uma estadia fantástica, deixou a vila com saudades.
Anos se passaram e Carlos desejara voltar à vila, mas, desta vez ele queria se mudar, todos diziam que era uma loucura, preocupados em como ele iria se sustentar. Mesmo assim, contra todos os conselhos, ele planejou tudo escondido, estava cansado daquela vida caótica da cidade. Programou-se, economizou e estava decidido a se mudar, não foi fácil, mas ele conseguiu, com muita paciência e dedicação ele finalmente foi morar na vila, foram tantos fins de tarde contemplando o belíssimo pôr do sol, ouvindo o som das calmas ondas beijarem os grãos quentes de areia, os siris buscando abrigo subterrâneo para proteger-se das ondas, porém nada se compara com a grandiosa e misteriosa falésia que, estendia-se por toda praia.
A principal fonte de renda da vila era a pesca, eram conhecidos por terem os mais belos exemplares de peixes, exportavam para todo o Brasil, ampliando, também, para mercado exterior. Foi justamente nesta peixeira que Carlos conseguiu um emprego, era um ambiente leve e tranquilo de se trabalhar. Não se importava com cheiro, ele estava feliz. Acordava animado, gastava por volta de dez minutos da sua casa ao trabalho. Às vezes ele acompanhava as embarcações que ancoravam no cais, trazendo a mercadoria, catalogava quantos peixes foram trazidos e quantos foram vendidos, as vezes ele fazia a limpeza dos peixes.
Por volta das 4 horas da tarde, ele retornava para sua casa, tomava banho acomodava-se em sua poltrona de palha, sempre na companhia de seu café, sentindo a brisa refrescante do mar tocar seu rosto, enquanto admirava o mar e sua imensidão. Estava gostando muito daquele lugar, o clima era agradável mesmo com o imponente sol, a noite era mais fresca e nos finais de semana, as crianças dominavam a pracinha e as ruas, podia-se ouvir as traquinagens e os chinelos batendo contra os paralelepípedos; milho assado, algodão doce e cachorro-quente eram vendidos ao lado da igreja, na praça.
Já nos dias da semana, era menos movimentado. Assim, Carlos vivera momentos felizes. Tinha um ótimo trabalho, ganhava bem e possuía o que ele mais buscava: qualidade de vida. Acordar, e dormir com aquele som das ondas quebrando à beira-mar, não tinha preço, mas aquela serena vila pesqueira escondia um segredo terrível.
Fora em uma noite, na taverna do local, que histórias horrendas atravessaram a mente de Carlos, levando a uma profunda impregnação em seu subconsciente. Aquela noite terrível naquela taverna fizera com que a visão poética que Carlos tinha sobre a vila, fosse fragmentada em micro pedacinhos, tal qual um cristal quebrado. Desde então, quando se encontrava apoiado com os cotovelos na moldura da janela, observando com olhar sereno a despedida das arrastadas noites, assistindo o firmamento receber gentis pinceladas em tons flamejantes e ouvindo ao longe o cantar dos pássaros que anunciam o início do dia, pois cruzam o céu de ponta a ponta, repousando seus corpos nas folhas dos inúmeros coqueiros dispostos por toda extensão da vila pesqueira, tudo não era mais como antes, mesmo com o mesmo cenário.
Sem demora, a inevitável luz matinal começara a surgir no horizonte trazendo o aprazível calor, ainda na janela, com aquele cenário. Carlos, então, bocejou. — “Essa insônia ainda vai acabar comigo!” — pensou enquanto esfregava seus olhos cansados, seguindo em direção ao banheiro. A passos vacilantes, desviou de algumas garrafas de bebidas, porém acabou tropeçando no lençol, o qual fora lançado ao chão. Finalmente chegou ao seu destino, viu-se no espelho, apático. Enxaguou seu rosto ornamentado pelas rugas, enquanto seus olhos castanhos desejavam deixar essa mísera existência. Penteou os poucos cabelos que lhe restavam, trocou de roupa, comeu metade de um pão adormecido, e foi trabalhar.
A silenciosa praia escutava os passos de Carlos, ele seguia caminhando em alerta, sob os grãos fumegantes de areia. A mão esquerda elevada à altura dos olhos, o protegiam debilmente do impiedoso sol. Ao chegar no trabalho, seus colegas se espantaram com sua fisionomia, seu rosto denunciava as noites de insônia. O vigor que outrora trazia, sumira do seu corpo, dando lugar a uma fadiga constante. Joaquim, preocupado com seu amigo, questionou o que estava acontecendo, Carlos explicou tudo o que sucedera, sobre as histórias assombrosas que ouvira na taverna, bem como os terríveis pesadelos constantes e, ao ouvir tudo aquilo, Joaquim paralisou por segundos e disse que era melhor que Carlos esquecesse tudo o que ouvira, pois, as histórias, por mais bizarras que fossem, tinham um fundo de verdade. E, de fato, por um tempo, e com esforço, Carlos conseguiu esquecê-las, no entanto, elas sempre rastejavam até a superfície, assombrando-o. Sua alma havia sido corrompida pelo desconhecido.
Novamente ele assistiu o doce amanhecer aquecer o dia e, mesmo exausto, foi trabalhar, pois, assim esquecia, por algumas horas, as lembranças. Ao chegar no trabalho, foi designado para receber uma grande carga e fazer as devidas anotações. O dia passara tão rápido que ele nem percebeu que a noite havia chegado, todos foram para suas casas, menos Carlos, pois o patrão confiava muito nele para aquele serviço. Ele, então, respirou fundo e pegou a caixa, foi recebido com uma baforada de odor pútrido, sentiu o gosto azedo do suco gástrico subir até a garganta, vislumbrou um peixe enorme, nunca visto antes, seus olhos esbugalhados eram vazios, exibiram um terror ancestral.
De suas escamas fluía uma secreção escorregadia ao toque e sua boca estava costurada com náilon, como se protegesse um terrível segredo. Era a exata cena das histórias que ouvira. Tonto, Carlos lutava para se manter de pé. As escamas brilhavam, estranhamente, em tons de azul fluorescente. Apesar de todo o horror, ele foi até o fim, queria descobrir a verdade. Após amolar sua faca, cortou o náilon, a criatura emitiu um gemido repugnante enquanto ele prosseguia, com as mãos tremulas, na incisão na criatura. O som da pele sendo dilacerada ecoava no silêncio. Carlos contemplou as escamas bailando no ar, com olhos perplexos ele finalizou o corte e fitou as vísceras espalhando-se sob a mesa.
Desta vez ele desmaiou. Quando pôde retomar a consciência, minutos depois, a cena grotesca permanecia ali. Ele apoiou suas mãos na mesa e notou algo nas entranhas da criatura, era uma estátua esverdeada, com mais ou menos 40 centímetros, ela era disforme, coberta por escama, ostentava inúmeras patas longas e arqueadas que ocupavam toda a extensão do corpo, por fim, múltiplos olhos complementam a escultura medonha. Carlos ergueu o nefasto objeto à altura dos olhos, os contornos pareciam ganhar vida, pensou ele ao admirar a escultura: — “Essa é justamente a representação da criatura que algumas pessoas desta vila maldita prestam culto”.
Antes de desmaiar pela segunda vez, ele a ergueu aos céus, suas mãos cobertas por vísceras, e suplicou por alguma intervenção divina, desabando em seguida naquele chão coberto por escamas e entranhas, desta vez, ele teve uma visão de eras remotas, onde o mundo era governado por seres multidimensionais, eles habitavam no espaço-tempo, e um desses seres era a temível escultura que acabara de ver, ela se locomovia com rapidez devido suas enormes patas, gerando gigantescos vórtices. Esse ser era de tamanho imensurável, seu corpo era repulsivo, gelatinoso e amorfo; seu brilho era assombroso. Aquela verdade era muito espetaculosa para a ínfima mente humana.
Carlos abriu seus olhos inertes após a súbita visão, seu corpo tremia compulsivamente e, enquanto ele balançava a cabeça em negação, gritou de forma gutural, chegando a ficar sem voz. Em seguida levantou-se ainda nauseante, enxergou a carnificina, viu, também, a maldita estátua e, tomado pela insanidade, ele ergueu a faca e extirpou seus olhos, ao mesmo tempo que gritos obscenos e risos histéricos eram ouvidos por toda vila. Seu corpo entrou em choque e despencou em meio às tripas.
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A Erva Maldita
Vou ter que passar um fim de semana na casa do José e, francamente, eu não gosto de ir para a casa dele…
MidjourneyAI
Vou ter que passar um fim de semana na casa do José e, francamente, eu não gosto de ir para a casa dele. A euforia dele não me cabe, era como se ele tivesse esquecido o nosso Halloween do ano passado.
Infelizmente o meu gás está com vazamento e o José é o único que ainda restou do nosso grupo… não tenho escolha a não ser ir para lá.
Eu moro na periferia e ele mora na cidade. Eu não estive a par das notícias, pois tenho trabalhado muito em meu novo livro. Ao chegar no terminal da cidade, as pessoas estavam evitando comentar sobre um tal de “jinra”.
Quase que passei no terminal que estava esse tal que não pode ser mencionado, para mim era um pouco distante de certa forma, e de problemas eu já estou cheia.
Cheguei a casa do meu amigo e ele ainda estava no trabalho, mas deixou tudo preparado para mim. Fui desfazer a minha mala. Aproveitei para dar uma volta em sua casa, que eu não me lembrava que era tão grande. A decoração estava completamente diferente da última vez que vim aqui.
11 meses atrás
Eu ganhei um desconto para viagem em grupo. O pacote foi agradável ao nosso bolso; assim comemoramos nosso Halloween naquele parque tão famoso. Entre meus amigos estavam José, Sara, Thays, Lorena e eu… bom, levei meu gatinho Jason. Aquelas mochilas de passeio de gato foram uma das melhores invenções que já fizeram. Assim, nunca me distancio do meu bichinho querido.
A viagem foi bem divertida no caminho, até mesmo quando chegamos ao parque que estava vazio, para minha surpresa — já que era muito conhecido. Nos Dias das Bruxas ele era bastante visitado. Mas isso não foi empecilho para a diversão e a adrenalina correrem soltas em nossa trupe.
A Sara foi a primeira a correr para a trilha. Ela foi a única das meninas que foi de calças; os galhos não machucaram as pernas dela. As outras meninas sofreram um pouco. Bom, eu também sofri um pouco, pois fui de vestido. E o Jason estava pesando um pouco nas costas.
Na trilha do parque tinham árvores com setas que determinavam um caminho. Foi fácil seguir, já que as setas eram gigantes. “Por que eles fazem isso tão grande????”
Chegamos ao destino e era o lugar mais lindo do parque. Tinha um campo de lavandas e borboletas de todas as cores. Tinha uma estalagem próxima em que a entrada tinha a aparência de uma caverna — bem insólita e sem grandes acabamentos. Era praticamente só a “pedra”, e ainda bem que levamos dois colchões de ar de casal.
Não levou muito tempo para que Sara se perdesse. Ela estava de calças, mas a mente dela não era tão ágil quanto aos perigos de se afastar do grupo. A Thays e a Lorena estavam atrás dela, enquanto o José e eu estávamos enchendo os colchões de ar.
Coloquei a casinha do Jason em um lugar com vista para as lavandas. Não poderia soltar meu bichano até encontrar uma maneira de fechar essa entrada. Não posso perder meu filhinho felino.
As meninas retornaram com Sara e ela voltou pálida. A mesma tinha se perdido no meio dos compartimentos da caverna que, aparentemente, era enorme por dentro. Não posso falar com afinco, já que não andei muito. Meu vestido estava com alguns carrapichos; tive que tirar de um por um para não me cortar, e, logo que terminei, me estirei no colchão.
Fizemos nossa janta especial e com o aplicativo de vela, tivemos um jantar à luz de velas modernizado.
Tiramos algumas fotos no campo de lavanda. O Jason saiu fofo em todas elas.
Fui me deitar um pouco mais cedo do que os meus amigos. Estava completamente exausta não tenho o costume de sair de casa. Trabalhar por conta própria tem as suas vantagens. Mas também criei o hábito de dormir cedo.
03:33
A hora exata em que eu acordei, a Sara havia sumido. José e Lorena estavam procurando por ela. A Thays era um pouco assustada e tímida, minha companheira de colchão que esperava um tempo de procura para me acordar. Olhei para a minha mochila de modelo espacial e meu gato não estava. Me levantei num susto e já fui logo abrindo minha vela do aplicativo para participar da busca.
Quando a Sara tinha falado sobre as muitas entradas cujas quais eu não tinha acreditado, a caverna era imensa por dentro. Eu pensei que era só um ponto de descanso depois da trilha. Mas agora entendo que ela era a única “hospedagem” para os visitantes do parque. Então, o espaço tinha que ser grande, meio que não ter lotado no nosso dia.
Me deparei com o José correndo com a Sara nos braços e ela estava em transe. O corpo dela estava paralisado e alguma coisa havia deixado ela em choque. A Lorena estava vindo atrás e como ela não tinha certeza de nada, percebi que meu gato não estava entre eles.
A Thays estava vigiando as nossas coisas; caso alguém voltasse ela estaria de prontidão. Não imaginava que algo assustador iria acontecer, então, não preparamos uma caixa de remédios ou algo do tipo. Mas eu entendia de ervas e remédio caseiro. Tinha uns machucados no braço da Sara, cegamente. Ela ainda sofreu um choque, mas aos poucos foi se recuperando.
— Sara o que aconteceu com você? — Thays disse calmamente.
Eu ainda pensei no Jason. Minha amiga estava ficando bem. Mas eu não consigo parar de pensar no meu gatinho.
— Eu fui dar uma volta com o gatinho, para ele sair um pouco da mochila dele. Só que ele se assustou com um barulho e saiu correndo, acabou me arranhando e fui correndo atrás dele sem ter noção para onde estava indo. Aqui é maior do que eu imaginava. Sinto muito, Maria, mas eu perdi o seu gatinho.
— Ele não passou por aqui. Estou vigiando não só as coisas, mas também essa única entrada que conhecemos. — Thays me ajudou a tranquilizar.
— Quando o José encontrou a Sara, eu ouvi um barulho baixo vindo de algum lugar da caverna; parecia um eco baixo, mas acredito que possa ser o miado do Jason. — Lorena falou
Isso me deu uma ponta de esperança e eu fui com a Thays em sua procura. Os demais estavam descansando. A Sara estava aparentemente bem e os riscos já estavam sarando, o que me deixou feliz. Talvez a erva tenha surtido efeito rápido.
A Thays era minha amiga virtual e a gente se viu poucas vezes. Essa era nossa primeira viagem juntas. Ela saia mais com os outros do grupo — eles tinham mais papéis juntos. Eu sou mais recatada e fico entre meus livros e meu gato.
— Vamos encontrá-lo!!
Eu dei um suspiro e abaixei os ombros tristemente.
Chegamos ao ponto em que encontramos José com a Sara e a Lorena. Seguimos o caminho e escutei um miado. Sacudi a vasilha com a ração para chamar o Jason. Ele adorava o barulho da ração mexendo no pote e sempre vinha correndo para ganhar sua recompensa por ser a coisa mais linda do mundo.
Fomos para a esquerda; eu já estava com um braço apoiado no braço de Thays. Com a outra mão eu sacudia a vasilha. E ela nos guiava pela vela do aplicativo. Descobri uma outra saída depois de andar em algum tempo, só que essa saída não dava para o parque. Ela dava para um caminho isolado de pedras e nada verde. Estava muito frio e eu não conseguia enxergar quase nada.
Eu senti um tremor vindo de Thays, não sei se era de frio ou de medo. Mas também nunca saberei…
— Por aqui, venham… — uma voz sedutora nos guiava.
Miauu
Sacudi a ração desesperada e chamei o Jason. Senti um eriçar na panturrilha e pensei que fosse meu gato me acariciando. Mas não era ele ainda; estava com muito frio e meus pelos estavam arrepiados.
— Thays??? Thays???
Eu me desencontrei dela. Estava preocupado em meus pensamentos e só pensando no Jason e na voz que ouvi.
— Maria??? Vem logo por aqui, segue a vela.
A Thays me encontrou e a bateria do celular estava fraca. Ela estava um pouco agitada e as mãos dela estavam muito geladas. Eu ouvi um estalo e depois um barulho ensurdecedor; ouvi um rosnado, e minha amiga também não estava mais aqui. O celular estava com ela e esse caminho de pedras não estava nos levando a nenhum lugar.
— Thayssss?????
Comecei a ficar mais nervosa e a ansiedade estava querendo atacar. Era Dia das Bruxas e eu estava apavorada. Talvez fosse alguma travessura do parque.
Fui seguindo caminho sem enxergar nada, só na base do tato e tentando colocar pensamentos positivos na mente.
— Maria??? — José me chamava de algum lugar distante.
Levei um baque muito grande quando meu gato pulou em mim. Ele saiu me arranhando todo. Fiquei feliz por encontrá-lo, mas ao mesmo tempo assustado com a raiva que ele me arranhou. Os olhos dele eram vermelhos, e eu enxerguei outros olhos vermelhos e não era de bicho, era de gente. E tinha mais ou menos a minha altura.
— Quem é você? O que fez com meu gato?
— Eu sou aquilo que você não acredita. — A mesma voz sedutora de antes.
— O que você quer com a gente? Tem alguma câmera escondida aqui? É uma pegadinha? Você já está me assustando.
— Não existe câmera, não tem pegadinha, e eu só quero o seu pescoço.
— Por que você quer o meu pescoço? Você vende muitos filmes de terror e quer bancar um vampiro? — Tirei onda para esconder meu nervosismo.
— Eu sou tudo aquilo que temem e não acredito. Já fiz de duas amigas suas, minhas súditas. Em breve a transformação será completa e dessa caverna vocês não sairão. Seu gato também já se tornou um de nós.
Eu comecei a ficar cada vez mais assustada, eu não estava acreditando muito nessa baboseira. Mas eu sou bruxa e acredito em tantas coisas, astrologia, energias, viagem no tempo, mas nunca tinha pensado em vampiros. Com medo mesmo eu comecei a correr.
— Onde você pensa que vai?
Grrrrrr grrrrrrr
O Jason não parava de rosnar. Derrubei a ração no chão, fui correndo para algum lugar. Acabei me esbarrando com o José que já tinha me chamado distante.
— Temos que sair daqui o mais rápido possível. A Sara nos contou o que de fato aconteceu e nos mostrou uma mordida com duas pontinhas finas. Ela estava assustada, estava muito pálida e começou a delirar depois de nos contar a verdade. Quem mordeu foi o Jason, ele estava com uma mulher de cabelos compridos loiros. Ela era muito pálida e estava com um vestido medieval.
Eu não queria acreditar em nada disso, não sei se era a mesma mulher de voz sedutora que falava comigo. Eu só consigo enxergar os olhos vermelhos.
— Onde está a Thays?
— Eu não sei. Tinha uma mulher onde eu estava, que disse que iria transformar minhas amigas em suas súditas. Onde está Lorena?
— Ela saiu assim que você foi procurar o Jason. Ela ficou muito assustada e disse que as energias do lugar eram intensas. Ela saiu sozinha e disse que nos encontraremos depois.
— Você não está assustado?
— E por que eu estaria? É Halloween, coisas acontecem nesse dia. — Falou com confiança.
Tentei ser complacente, mas não saia da minha mente a voz daquela mulher e meu gato que me machucou com seu pulo alvoroçado.
Chegamos ao nosso acampamento e Sara não estava; ela deixou um bilhete dizendo “Não retornem, fujam o quanto antes. Estou sentindo a transformação; não quero matar vocês”
Peguei minhas coisas e a mala espacial do meu gato… hum… eu não estou preparada para isso. Arrumamos nossas coisas e o José parecia estar ciente de tudo, achando que era apenas tudo uma pegadinha. Tentei levar na esportiva, mas minha intuição dizia que não estava certo. Que tinha algo macabro nessa caverna. E se de fato os vampiros existiam?
Já estava amanhecendo quando chamamos nosso carro de aplicativo para nos levar até a estação de ônibus de viagem. Meu coração não estava tranquilo, não conseguia relaxar nem um pouco. E para variar, o José estava muito tranquilo. Ele conseguiu dormir o caminho todo sem se preocupar com as meninas. Carreguei meu celular e tinha uma mensagem da Lorena dizendo que estava bem.
Como ela estava bem? Ela chegou a tempo em casa? Ainda era madrugada, acho que não tinha nem ônibus esse horário? Minha cabeça não parava de fazer questionamentos.
Chegamos em casa, cada qual na sua. Meu coração não parava de latejar com saudades do meu bichano. A casa era vazia sem ele, cada espaço era preenchido com a fofura dele e agora só resta eu e minha mente — que tem mais palavras que um calhamaço.
Passaram-se três dias do acontecido e meu coração ainda estava pesado.
Segui minha vida em frente, mas não quis adotar outro gato; eu ainda tinha esperanças de encontrar o Jason e ficar tudo bem.
Atualmente
— Oi Maria? Você está bem? Quer alguma coisa?
José havia chegado em casa e estava com os pés azuis.
— O que isso nos seus pés? E por que está descalço?
— Isso é só a Jinra. O ônibus deu prego, tive que andar a pé até o terminal que não é tão usado. Não sei se você está sabendo da notícia. Mas tem uma erva que começou a nascer perto desse terminal, e ela contamina a pessoa, fazendo-a delirar. É tipo uma água azul que depende do tom azul. Ela tem um efeito mais “profundo”. Eu entrei pela porta errada do terminal e acabei pisando, mas já lavei meus pés por lá, é só esperar sair a mancha e vai ficar tudo bem. Eu estou bem e feliz por você estar aqui. Já faz alguns meses que não nos vemos, né?
Eu queria ter essa confiança que ele tem sobre tudo. Fiquei divagando se ele não estava assustado com essa tal de jinra. E se ele ainda pensou nas meninas — que desde o Halloween se afastaram da gente. Na verdade, nunca mais nos vimos pessoalmente.
No próximo mês vai fazer um ano do acontecido e as memórias desse dia seguem intactas no meu diário e na minha mente.
— Estou bem! Me organizei, posso descansar? Não estou muito animada hoje.
Menti. Eu não queria conversar com ele. Achei tudo muito estranho e desconfortável. Queria minha casa triste e melancólica. Resolvi sobre um tal jinra que eu nem sequer sabia antes, fiquei totalmente desprovida de informações depois que me afastei das redes sociais. Essa erva, segundo alguns sites místicos, ela foi criada para deixar as pessoas loucas, isso tudo era carma da sociedade que não cuidava bem do nosso país. Em outros sites mais ocultos, sabiam que uma bruxa poderosa havia colocado uma praga somente nesse terminal, porque ela tinha morrido queimada na idade média. Alguns outros hereges da internet falam coisas bem absurdas. E cientificamente eram só vários compostos químicos que deram errado e acabaram ficando apenas nesse lugar da cidade.
Acabei dormindo com o celular na mão. Quando acordei estava tudo escuro. Cocei os olhos e tomei um susto. Eu estava na caverna novamente. Como eu vim parar aqui? O José que me trouxe? Por que ele faria isso?
— Oi, Maria, ainda bem que acordou. Vamos terminar o que começamos no ano passado. — A bendita voz sedutora
— Como você? Por quê?
Seu — amigo me fez um favor e trouxe você até aqui. Ele estava sob meu domínio desde que veio aqui. Eu esperava que ele trouxesse você somente no próximo mês para fechar o Dia das Bruxas com o ritual completo. Mas como ele está delirando e com os pés azuis, acredito que aconteceu algo. Mas isso não importa. Pois agora você vai se juntar as suas amigas.
Meu coração não parava de palpitar e quanto mais acelerado ele ficava, mais assustada eu fiquei; e estava beirando a crise do pânico.
— Não consegui me apresentar da última vez. Meu nome é Thammy. Agora teremos uma longa jornada para montar nosso coven de vampiros. Seremos tão fortes que todos irão nos temer. Não vejo a hora de sair dessa caverna e todos os homens caírem aos meus pés. Vamos transformar todas as mulheres e elas finalmente serão livres na escuridão profunda, enquanto nossos homens escravos irão trabalhar para nós durante o dia.
Eu só devo estar sonhando, não é possível. Olhei para o José e ele estava batendo os dedos na parede da caverna, como se estivesse tentando fazer um buraco na pedra só com os dedos.
— Seu amigo passou no meu teste. Ele ficou fiel a mim desde que vocês vieram aqui.
Grrrrr grrrr
Miaauuuu
— Jason?? Você ainda está vivo? Estou aqui, venha para a mamãe.
Meu gato pulou em mim com euforia e me deu uma mordida no pescoço. Meu sangue jorrou e senti muita dor. Meu coração estava acelerado, eu não sabia se estava morrendo. Mas de uma coisa eu tinha certeza: eles me trouxeram para o clã. E eu já não era mais a mesma. Fui transformada por um gato. Ao menos era um que eu amava.
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Os Órfãos
Há muito tempo, em terras distantes das cidades, longe de todas as comodidades de uma civilização, quando em noites…
MidjourneyAI
"Um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível."
Há muito tempo, em terras distantes das cidades, longe de todas as comodidades de uma civilização, quando em noites de calor extremo, onde ficar dentro de casa era quase um suplício, o frescor da varanda demonstrava-se como uma dádiva. Na quietude da noite onde não havia música ou livros — e estes, se houvessem, seriam totalmente inúteis para uma maioria de sertanejos que não sabiam ler — a diversão e o entretenimento das pessoas, logo após a ceia e pouco antes de se recolherem, era se ajuntarem na varanda em dias de chuva, ou mesmo logo a frente da casa sob a luz do luar entre um gole ou outro de café quente — as vezes até algo um pouco mais forte. Era comum preencher o tempo ocioso com diálogos diversos e curiosas histórias, algumas até verdadeiras, outras nem tanto. Contudo, em alguns casos — ou causos — para corroborar essas estórias, havia até mesmo cicatrizes ou sérios traumas psicológicos que acompanhariam o indivíduo até o fim de seus dias.
Numa noite não muito diferente de qualquer outra, assim que o clarão do dia cedeu lugar à escuridão — apesar de que, aquela noite em questão estava clara como o dia, pois além da lua cheia, o céu estava completamente limpo sem nenhum rastro de nenhuma nuvem sequer — e como o calor do dia já havia cedido lugar ao frescor da noite que vinha a cada momento se tornando mais agradável devido a leve brisa que soprava vez por outra, todos se acomodaram no pátio em frente à casa, logo ao lado do curral e, sem mais delongas, entre um gole de café recém-coado e uma baforada ou outra de cigarros de palha, ou até mesmo cachimbos, iniciaram uma animada conversa. Os conteúdos eram variados: intrigas de família — daqueles que estavam ausentes — fofocas inéditas, o clima, o valor dos produtos e das mercadorias e muitas outras coisas sem sentido. Contudo, dentro de todos os assuntos, um que jamais passava batido nessas rodas de conversas era a morte recente de conhecidos. Se o falecido fosse alguém querido, muito se falava sobre seus feitos e suas qualidades, mas se fosse alguém detestável o assunto se encerrava com poucas palavras. A Falecida recente era Dona Amélia, e ninguém disse uma palavra sobre ela.
Naquela noite depois de muita conversa fiada jogada fora sem muito aproveito, alguém iniciou uma estória sobre uma velha ponte que passava sobre o Riacho da Prata, onde já, há bastante tempo, ninguém ousava cruzar após o sol se pôr. Fosse quem fosse a coragem logo abandonava o mais corajoso dos homens. Primeiro, porque a ponte se encontrava numa curva bastante fechada e debaixo de duas grandes árvores que a deixavam na mais completa penumbra mesmo em pleno dia de sol claro e durante a noite era completamente tomada pelas trevas. Segundo, devido aos dois suicídios que aconteceram em uma de suas travas, sucedidas um ao outro no período de menos de uma semana. Sendo os dois infelizes da mesma família. A primeira das mortes se deu à filha de 15 anos, — por se achar grávida de um homem casado — depois logo em seguida a própria mãe — por ser a esposa desse homem, padrasto da filha infeliz — casada com o suposto pai da criança que sua única filha levava no ventre. E por último, os diversos relatos de inúmeras pessoas de índole confiabilíssima que alegavam, com veemência, terem visto duas mulheres de pé sobre a ponte, sendo uma delas, uma bela jovem que segurava uma criança no colo.
A seguir, alguém contou uma estória sobre um negro cego que pedia esmolas à beira de uma velha porteira nas noites de sexta-feira. Se, porventura, alguém de coração bondoso, com coragem suficiente, lhe doasse algum trocado, esse mesmo negro lhe concedia um pedido, que logo lhe seria realizado. Todavia, se a esmola solicitada pelo negro fosse ignorada por alguém de alma dura e vazia, não demoraria muito para que uma tragédia se abatesse sobre aquela pessoa. Para evitar tanto uma coisa quanto outra, — sempre que possível — quem sabia das estórias sobre a encantada porteira fazia de tudo para evitar cruzar por esse caminho nas noites de sexta-feira, período no qual o velho negro era visto esmolando. Uma pessoa sábia de forma alguma gostaria de nenhum tipo de envolvimento com uma entidade do outro mundo. Um favor recebido por um ser mítico poderia se concretizar numa dívida difícil de ser saudada, pior ainda seria ter um dissabor com um ser do outro mundo.
Como a Lua estava clara e o tempo bastante agradável, as estórias foram se sucedendo umas às outras, até que alguém, dentre os presentes, logo propôs que todas aquelas estórias seriam puras bazófias para assustar crianças e mulheres medrosas. Ele, por sua vez, tinha quase meio século de vida, e mesmo andando por ermos caminhos em horas tardias da noite, nunca vira nem presenciara nada que pudesse ser considerada como sobrenatural. Um dos presentes, que acabara de acender seu cachimbo e iniciar um excesso de tosse, assim que conseguiu recuperar o fôlego respondeu com uma voz tranquila de uma pessoa já experimentada em anos.
— Tião — Sebastião Tavares era o nome do incrédulo que acabara de falar — Vosmecê deveria ter mais respeito com aquilo que não entende. Não é porque vosmecê nunca viu, que essas coisas não possam existir. Eu tenho idade para ser seu avô, porque Graças ao nosso bom Deus, já estou chegando aos cem anos e também devo confessar, tendo Nosso Senhor Jesus Cristo como testemunha, que até hoje meus olhos nunca viram nada do outro mundo. Nem presença nenhuma senti, muito menos barulho estranho meus ouvidos ouviram. Mas acredito que tem muita coisa sombria se escondendo pelas frestas escuras desse mundo.
Tião que era um homem que fora educado a sempre respeitar quando os mais velhos falassem, não quisera retrucar o que Nhô Quinca havia dito, e por um breve momento, em respeito ao ancião, o silêncio se fez presente, até que foi quebrado por um jovem um tanto quanto mais atrevido, que disse, — até mesmo em tom de galhofa –.
— O nosso companheiro Tião é um velhaco, falando essas coisas. Não passa de um medroso que teme até a própria sombra e fica querendo se amostrar dando pinta de homem corajoso. Eu, de minha parte, Nhô Quinca, tenho medo de andar por alguns lugares até mesmo durante o dia claro, agora imagine durante a noite, período que as criaturas das trevas vagueiam livres por todos os lados.
— Vosmecê é um menino sabido Jorge!
Respondeu Nhô Quinca com orgulho do jovem marido de sua neta. Sabendo que era ele um homem que fora ensinado a respeitar tudo aquilo que não podemos compreender.
Juscelino Peixoto era talvez, dentre todos ali presentes, o mais destemido. Celino, como era mais conhecido, era um homem na altura de seus 30 anos muito bem vividos. Amigo fiel do copo, um eterno apaixonado pelas cartas e de forma alguma dispensava um rabo de saia. Para ele, excetuando sua mãe e suas irmãs, o restante das mulheres — solteiras ou casadas — se fossem de seu agrado e tivesses dispostas, ele jamais recusava uma boa oportunidade. Não tinha a aparência de nenhum príncipe encantado, é certo dizer. Contudo, tinha os lábios de mel e era raro acontecer de uma mulher — mesmo que séria ao extremo — após uma conversa em particular não cedesse aos seus encantos. Para seus amigos era um companheiro fiel, sempre disposto a ajudar a quem quer que fosse não importava a hora nem o lugar.
Desde que saíra de casa, ainda com 17 anos, para seguir a vida de peão, vivia sempre sozinho em busca de trabalho numa fazenda e outra tentando se estabelecer em algum lugar que lhe fosse mais agradável. Longe do carinho da mãe e da proteção do pai, se encontrara obrigado a enfrentar o mundo sozinho, contando apenas com a proteção do Céu. Por essas e outras a coragem era sua única companheira. Celino era do tipo de individuo que abaixo de Deus, a nada temia nesse mundo. Contudo, para se solidarizar com Nhô Quinca — há quem ele muito respeitava — disse:
— Devo concordar com o senhor, Nhô Quinca, que há muita coisa que nós desconhecemos, mas, para falar a verdade, eu, quando ainda era garoto, tinha um medo terrível de Dona Amélia. Na noite que fiquei sabendo de sua morte, fiquei acordado até bem tarde rolando na cama de um lado para o outro impressionado com a lembrança que eu tinha da aparência dela, quando ainda era viva.
Naqueles dias próximos, havia falecido uma senhora que era bastante impopular entre a maioria dos que estavam ali presentes e certamente dos que também não estavam. Dona Amélia era uma criatura ímpar dessas que são únicas em todo o universo. Vivia só, desde que perdera seu único parente que se tinha notícias. Essa parenta era sua irmã Angelita que morrera há mais de quinze anos, supostamente afogada na própria saliva após uma crise convulsiva de epilepsia. O verdadeiro motivo de sua morte, ninguém sabia ao certo, essa suposição se deu pelo fato dela ter sido encontrada morta no caminho entre sua casa e o pequeno riacho onde uma vez por semana, ela lavava suas roupas e da própria irmã que a tratava como uma espécie de gata borralheira.
Amélia sempre fora fechada de humor, detentora de um comportamento taciturno e irascível, — a quem diga, que sua personalidade fora moldada dessa forma, após ter sido abandonada pelo noivo que desaparecera sem nunca mais dar notícias, deixando-a com dois filhos na barriga. Tal como o próprio noivo, dessas crianças ninguém nunca mais ouviu falar — o que se sabia ao certo era que marido nunca tivera. Sendo assim, tanto Amélia como Angelita eram beatas sem nenhum outro parente conhecido — se esses, porventura, existissem, não era do conhecimento de ninguém –. Muito raramente frequentavam a igreja e jamais foram vistas em visita a lares alheios. Em sua casa não recebiam ninguém, até mesmo o próprio padre Severino era despachado da varanda mesmo, sem nunca ter sido convidado a entrar. Nem mesmo no velório de Angelita houve visitas a sua casa, uma vez que todas as exéquias foram feitas na própria igreja.
Após o falecimento da irmã, Dona Amélia ficara tão reclusa que muitos até mesmo se esqueceram de sua existência. Era o tipo de pessoa que, de forma alguma, se interessava pela vida em sociedade, uma vez que produzia praticamente tudo que sua humilde existência necessitava, até mesmo a visita ao mercado local era uma raridade. Talvez a sua reclusão pudesse ter mil motivos, a solidão a que se acostumara, a vergonha por ter sido abandonada pelo noivo ainda quando era jovem, mas certamente a sua aparência era o mais preponderante deles. Dona Amélia era uma mulher de quase um metro e noventa de altura, de corpo magro com feições cadavéricas. Seu rosto era chupado e cheio de marcas deixadas pela varíola. Tinha fiapos de grossos pelos entre um lugar e outro na face, e um bigode que faria inveja há muitos rapazotes. Sempre de cara fechada, quando muito raramente sorria, esse era, por sua vez, com traços maquiavélicos, mostrando dentes amarelados que enfeitavam uma boca de lábios finos — quase ausentes — boca essa que não perdia uma oportunidade de praguejar quem cruzasse o seu caminho.
Se, por um lado, até os adultos já experimentados pelos anos a temiam, as crianças, por sua vez, tinham pavor à simples menção do seu nome. Os pequenos mais apocalípticos eram ameaçados com a visão noturna de Dona Amélia caso não se comportassem. Essa sinistra criatura se viva já era apavorante, quando morreu, transformou-se numa visão tão terrível que até mesmo o padre Severino benzeu-se todo ao vê-la estendida no chão da sala de sua própria casa onde ela fora encontrada morta. O preparo de seu corpo fora feito de forma negligente e sem muito capricho, até mesmo porque, ela fora encontrada morta já de alguns dias. Seu corpo estava ressequido, mas preservado dando a entender que nem mesmo os vermes tocariam suas carnes.
Seu corpo fora envolvido numa simples mortalha e colocado num caixão improvisado feito às pressas por Seu Juca — coveiro e agente funerário voluntário, que sempre auxiliava padre Severino nessas questões. O velório — que não teve — e o enterro ocorreram no mesmo dia, de forma rápida e sem muita cerimônia. Além dos quatro homens que foram solicitados por padre Severino para ajudarem a transportar o corpo até o cemitério — mas logo foram embora — estavam presentes o próprio padre Severino — quem fez as exéquias, Seu Juca — quem cavou a sepultura e se encarregaria do enterro do corpo — e Dona Alzira, uma alcoviteira local — que fazia as vezes de carpideira voluntária — que nunca perdera um enterro sequer em toda a sua inútil existência. Além dessas parcas testemunhas, ninguém mais estava presente ao último adeus a essa singular criatura, exceto um pássaro ou outro assentado nas árvores próximas que circundavam o cemitério.
Seu Juca que, além de cavar a sepultura de Dona Amélia, também fora o responsável de colocar o corpo dela no improvisado caixão — que ele mesmo o fizera — ao ouvir Celino dizer que ficou impressionado com a lembrança de sua aparência ainda em vida. Disse que certamente ele ficaria traumatizado se a tivesse visto morta no caixão.
— Gente! A criatura estava tão medonha que seria capaz da fazer homem barbado borrar as calças. Até mesmo o padre Severino ficou tão aterrorizado que pediu para que eu lacrasse logo o caixão. Nunca em toda minha vida presenciei um enterro tão rápido.
Nessa altura da conversa, Tião que havia ficado muito ofendido com as palavras de Jorge, que não apenas o chamara de covarde, mas também dissera que ele era apenas um velhaco atrevido, quisera mais uma vez chamar a atenção para si, propondo ao destemido Celino um desafio que sacramentaria de vez se este, por sua vez, era realmente um homem de coragem ou apenas mais um borra botas com pinta de valentão.
— Celino meu nobre amigo, uma vez que há certa unanimidade entre os aqui presente, que dentre todos nós, você é o mais corajoso, proponho a você um desafio simples, que de forma alguma possa representar nenhum perigo a sua integridade física, mas que a de vir a requerer muita coragem para executá-lo. Tenho em minhas mãos esse relógio de ouro que fora de meu falecido pai e, como bem sabes, vale muito dinheiro. Certamente o ordenado de pelo menos seis meses de trabalho. Além do valor monetário tenho por esse objeto um apreço pessoal, mas estou disposto a me desfazer dele, se você tiver a coragem suficiente para ir agora até o cemitério e nos trazer pelo menos uma das varas do banguê que transportou o corpo de Dona Amélia até sua última morada. Esse belo relógio será seu.
Essa fala fez com que muitos dos presentes se escandalizassem com tal abjeta proposta. Nhô Quinca dotado de uma severa postura de recriminação dissera:
— Vosmecê é um sujeito desrespeitoso ao extremo, Tião. Parece que não conhece limite algum. Nem de brincadeira, jamais devemos importunar os mortos em seu merecido descanso.
Houve muitas outras recriminações, principalmente por parte dos mais velhos. Devido a inconveniência da proposta, fez-se um breve silêncio, que fora rompido com a resposta de Celino, que por sua vez fora dada de forma mais desafiadora do que a proposta de Tião.
— Não devo deixar nosso companheiro Tião sem resposta. Afinal, um desafio como esse não poderia ficar no vazio. Devo confessar a todos aqui presentes, que não tenho toda essa coragem, até porque, como eu mesmo o disse, eu tinha pavor da simples imagem de Dona Amélia mesmo ela estando ainda viva, imagine agora que ela se foi então. Contudo, uma vez que você, Tião, brada aos quatro cantos que não acredita em estórias de fantasmas e sempre diz que os mortos não podem nos fazer nenhum mal, eu dobro sua aposta e faço esse mesmo desafio a você. Se agora mesmo, você for até o cemitério e trouxer o mesmo objeto que me pediu e mostrar a todos aqui presentes dou-lhe meu cavalo arreado como está e mais essa arma. Que também é para mim, um objeto de muito estima, pois me fora dado pelo meu pai. A diferença é que, pela Graça de Nosso Senhor, ainda está vivo, mas se cumprir essa tarefa tudo isso será seu.
Dizendo essas palavras, Celino retirou a arma do coldre e a entregou a Tião. Era uma bela pistola Beretta 380, objeto de desejo de muitos dos que estavam ali presentes, inclusive do próprio Tião, que por mais de uma vez havia lhe demonstrado interesse em comprá-la caso Celino quisesse, por algum motivo se desfazer dela.
Todos ficaram boquiabertos com a contraproposta de Celino. Até mesmo o próprio Tião, que não esperava por algo daquele tipo. Nhô Quinca reiterava sua posição quanto ao desrespeito por aqueles que já se foram. Todavia, a maioria — que sempre se ofendia com o ceticismo de Tião — aprovou a resposta de Celino perante aquela afrontosa proposta. Até mesmo aqueles que apenas ouviam a conversa em silêncio até então decidiram se manifestar em favor de Celino. Tião que pela primeira vez naquela noite, se vira sem argumentos necessários para uma resposta satisfatória, percebeu que acabara de cair numa armadilha. Para que não tivesse seu ceticismo colocado à prova, decidiu que aceitaria a aposta, dizendo logo em seguida:
— Aceito a proposta, mas para que tudo logo se resolva, uma vez que já era hora bastante avançada, e amanhã tenho compromisso bem cedo, peço que me permita ir em seu cavalo, pois assim em menos de meia hora estarei de volta. Também quero levar a pistola comigo, para o caso de me encontrar com Dona Amélia perambulando fora de sua sepultura.
Essa última frase fora dita em tom de galhofa, fato esse que também gerou desagrado a Nhô Quinca que apenas balançou a cabeça em gesto negativo. Contudo, nada mais dissera, sabendo que seria inútil gastar palavras perante tamanha teimosia e desrespeito. De posse da pistola, já na cintura. Tião montou no cavalo de Celino — um belo alazão todo ajaezado com todo tipo de parafernália que se tinha direito — e sem mais delongas, saiu num trote rápido pela estrada afora em sentido ao cemitério que distava menos de meia légua dali de onde estavam. Como a lua estava em todo seu esplendor no meio de um céu limpo e azulado a estrada estava banhada de luz, clara como o dia. Para os que ficaram aguardando o retorno do destemido e imprudente Tião, fora possível ainda vê-lo mesmo já bem longe na estrada, trotando despreocupadamente.
O cemitério ficava num outeiro limpo e descampado, onde o capim ao redor era baixo e bastante raspado pelo gado que muito apreciava a sombra das árvores que o circundavam — um enorme jatobazeiro, uma amoreira baixa e um frondoso cajueiro. Num trote rápido, em menos de vinte minutos, Tião estava em frente ao pequeno portão de entrada daquela mórbida cidadela onde o silêncio reinava em absoluto. Rapidamente, apeou do cavalo e, após amarrar as rédeas num dos galhos da amoreira, entrou sem nenhum tipo de receio e ali, de pé entre os mortos, pôde perceber ao clarão da lua como aquele lugar era simples. Nenhum mausoléu, nem mesmo uma pequena capela, apenas humildes sepulturas, — algumas de tão antigas nem mesmo a cruz que identificaria quem ali estaria repousando em seu descanso eterno, existia mais –. Um lugar onde o luxo e a prepotência não tinham espaço. Nivelando todos os seus residentes num único rebanho de condenados.
De certo modo, sentiu-se estranho estando ali sozinho no meio da noite, rodeado por todos os lados de tantas pessoas que já se foram. Como era um cemitério bem antigo, havia sepulturas com quase cem anos, pessoas que ninguém mais se lembrava, talvez nem mesmo seus próprios descendentes soubessem que um dia existiram. Involuntariamente deu um profundo suspiro e logo foi em busca do que viera buscar. Como era um cemitério pequeno, numa rápida olhadela, conseguiu logo identificar onde se encontrava a sepultura de Dona Amélia, pois era a mais recente e ainda de longe era possível perceber que a terra estava revolvida de novo. Um dos galhos do cajueiro lançava sua sombra justamente em cima daquela mais nova moradia. Ao lado da sepultura, encostado no pequeno muro que circundava toda aquela lúgubre cidadela, estavam as varas que formavam o banguê que trouxeram o caixão até ali.
Sem nenhum tipo de cerimônia ou demonstração de respeito, Tião empunhando uma das varas do banguê como se fosse um cavaleiro medieval preparado para uma justa, ficou de pé perante a sepultura de Dona Amélia olhando para a pequena cruz que identificava quem ali dormia o sono dos justos, pensou consigo mesmo: — Levarei também essa cruz, para que ninguém ouse duvidar que estive aqui. Sei do atrevimento de Jorge, em muitos espertinhos que podem muito bem, alegar que essa vara não seja parte do banguê que transportou a defunta até aqui.
Até aquele momento, nada de estranho havia acontecido naquela fresca e enluarada noite de aventuras, mas, quando ele, rompendo todos os limites da decência, arrancou a cruz da sepultura, uma enorme coruja, que a tudo aquilo observa em zeloso silêncio, assentada num dos galhos do cajueiro, deu um agourento piado e passou num voo rasante sobre sua cabeça e foi se assentar na amoreira próxima a seu cavalo, que deu um assustado relincho e vários pinotes, quase se soltando do galho da amoreira onde estava com as rédeas amarradas. Tião, temendo que pudesse ter que retornar a pé, caso o cavalo se soltasse e se debandasse em disparada de volta para seu antigo dono, logo que reuniu os objetos que viera buscar encaminhou-se para a saída e a após montar no arredio cavalo que a custo fora acalmado, rapidamente seguiu o caminho de volta para sacramentar sua vitória perante aquele audacioso desafio e tomar posse de suas preciosas prendas.
Assim que apontou com seu cavalo na cabeceira da estrada que dava para a casa de Nhô Quinca, logo percebeu que muitos dos presentes se levantaram para recepcioná-lo, ainda na porteira de entrada da casa. Até mesmo o próprio Celino, veio lhe dar os parabéns. Todos ficaram admirados com sua coragem e pela sapiência, em ter trazido também a cruz, para que ninguém duvidasse de seu destemido ato. Todos lhe deram os cumprimentos, exceto Nhô Quinca, que de muito mau humor, com uma voz em tom de advertência lhe dissera:
— É certo que vosmecê provou que tem mesmo coragem. Suas prendas foram conquistadas de forma merecida, mas será que tudo isso valerá a pena, perante a dívida que vosmecê adquiriu ao profanar o túmulo de alguém que nem mesmo quando ainda estava viva gostava de ser incomodada?
Perante aquelas palavras, um perturbador silêncio se estabeleceu entre todos. Até mesmo os mais exaltados se calaram. Celino, mais uma vez foi o responsável por romper o inquietante mutismo de todos, que em respeito as palavras do venerável ancião se mantinham calados.
— Quero que todos saibam, que eu nada tenho a ver com isso! Como todos aqui presenciaram, minha coragem foi experimentada e logo de imediato puderam perceber que eu me recusei veementemente. Pois, me faltara e ainda me falta a coragem necessária para tal ato. O que Tião fez agora na calada da noite, eu não o faria nem mesmo durante o dia com sol claro. Contudo, como eu mesmo propusera uma contraproposta perante o desafio que Tião me apresentara e ele por sua vez o aceitara, tendo ele honrosamente cumprido tal tarefa, tanto meu estimado cavalo, bem como minha preciosa pistola lhes pertence de agora em diante. Agora, quanto às dívidas que você, Tião, adquiriu ou deixou de adquirir, isso já não me diz respeito. Pagando o que te prometi eu lavo minhas mãos.
Todo cheio de si, como se fosse o dono de toda a verdade e da razão, Tião ainda quis dar uma amostra de humildade e após apertar a mão que Celino lhe estendia, devolveu-lhe as rédeas de seu cavalo, dizendo-lhe logo em seguida:
— Também lhe dou os parabéns por ser um homem honrado e cumpridor de suas promessas, mas esse cavalo lhe pertence, apesar de ser um belo alazão, e eu tê-lo ganho de forma honesta, dentro daquilo que você mesmo me propôs, não acho justo te desprover de sua única condução e também meio de trabalho, agora a pistola, essa eu faço questão de ficar com ela! Até mesmo para me precaver, caso Dona Amélia ou alguma outra entidade desocupada venha me cobrar alguma dívida.
— O recebo de volta, desde que você, Tião, aqui na presença de todos dê a sua palavra que a aposta foi devidamente paga! E que foi você mesmo, de livre e espontânea vontade, que não quisera recebê-la ao todo, mas tão somente a pistola que lhe fora oferecida.
Com mais um aperto de mão, assim fora feito. Como o semblante de Nhô Quinca — o anfitrião em questão — ficara bastante carrancudo, demonstrando uma desaprovação total perante aquela ultrajante situação e também como já era bem tarde, um por um, os presentes foram se despedindo e cada qual foram tomando o rumo de suas devidas casas. Por último, além dos residentes da casa, ficaram o próprio Celino e também Tião que não sabia — ou se fazia de ignorante — quando sua presença se tornava inconveniente em algum recinto. Celino, percebendo tal fato, após pedir sinceras desculpas ao dono da casa por todo aquele acontecido ter se passado em sua residência, despediu-se de todos e também logo seguiu seu caminho, convocando Tião que o seguisse, pois, o acompanharia parte da estrada até onde o caminho dos dois se separava. Algo muito constrangedor acontecera então, pois ao tentar se despedir do dono da casa, Nhô Quinca não quisera apertar sua mão. Tião ao estender a mão, recebera fora uma severa reprimenda quando o sábio ancião lhe dissera:
— Tião, esperei que todos saíssem para poder lhe dizer de forma que não lhe causasse nenhuma ofensa perante nossos companheiros, mas quero lhe dizer uma única vez. E quero que ouça bem minhas palavras. O que vosmecê acredita ou deixa de acreditar, não me diz respeito, até porque nós dois somos apenas amigos, e é em nome dessa amizade que vou lhe pedir que o que aconteceu aqui hoje, jamais volte a se repetir em minha humilde casa. Peço-lhe que tenha mais respeito, se algum dia vosmecê decidir voltar aqui outra vez. Minha casa está de portas abertas para qualquer pessoa que saiba se comportar de forma decente e respeitosa. Se nossa amizade tem algum valor para vosmecê, peço-lhe encarecidamente que pegue esses objetos e os devolva de onde você os retirou.
De forma bastante envergonhada, tanto Celino bem como o próprio Tião se desculparam de Nhô Quinca, que dera mostras de estar profundamente ofendido com a desventura de ambos. Tião, de posse dos fúnebres objetos, após dar sua palavra que os devolveria no mesmo lugar que os pegara, despedindo-se mais uma vez, seguira pela estrada afora, carregando tanto a cruz bem como a vara do banguê nas costas. De pé, tendo uma das mãos nas costas e a outra segurando o cachimbo que levara a boca para mais uma baforada, Nhô Quinca ao lado de sua esposa, olhando Tião se distanciando pela estrada, ainda iluminada pela luz da lua que brilhava soberana, disse:
— Tenho pena dessas pessoas ignorantes que se acham sabidas demais e acabam por se deixar guiar pela emoção e agem de forma estúpida e intempestiva, sem pensar nas consequências de seus atos. Tais indivíduos são como os peixes em sua grande maioria, acabam se perdendo pela boca.
Menos de um quilometro a frente, Celino seguindo por outro caminho o deixou só em seu retorno para casa, uma vez que seus caminhos se separavam. Caminhando agora mais devagar, e também porque estava a pé, demorou um pouco mais a chegar até o cemitério. Devido a claridade da lua, não havia necessidade de uma lanterna, pois a estrada estava clara como dia. De acordo que a hora avançava o tempo esfriava a cada momento, deixando a noite mais fresca e agradável, fria até, pois Tião vez por outra sentia um estranho arrepio correr por todo o seu corpo. Por mais de uma vez sentiu uma brisa um pouco mais forte lhe roçar a face. Ele, bastante orgulhoso de si mesmo, trazia na cintura o prêmio por sua coragem e perspicácia. Nos ombros trazia tanto a cruz bem como a vara do bendito banguê. Por mais de uma vez, pensou em abandonar pelo menos aquela comprida vara. Porém, uma vez que de qualquer forma teria que passar em frente ao cemitério, de forma alguma correria o risco de deixar algum vestígio que poderia gerar comentários que viessem a manchar sua reputação, dizendo que ele não passava de um vil profanador de túmulos. Além do mais, dera sua palavra a Nhô Quinca — que se ofendera bastante com sua conduta — que devolveria aqueles itens onde os havia encontrado.
Resoluto de que cumpriria com sua palavra, seguiu com passos firmes e ao terminar de subir uma pequena ladeira um pouco mais elevada na estrada, do alto já conseguia ver o pequeno cemitério que ficava menos de quinhentos metros à frente. Mesmo de longe pode perceber que havia algo de errado, pois o portão do cemitério ainda estava aberto. Parou por instante, primeiro para tomar um pouco de fôlego, pois a pequena subidinha o tinha tirado as forças, sentia que aquela vara junto com a cruz em suas costas começara a ficar bastante pesadas. Segundo porque, além do portão estar aberto, parece que havia duas figuras estranhas na porta do cemitério. Mesmo com a claridade da lua, devido à distância não era possível discernir do que se tratavam aquelas duas sombras ladeando o pequeno portão. Como até aquele momento, tudo correra dentro da mais cômoda normalidade, continuou caminhando sem titubear, até porque trazia uma arma na cintura.
A menos de cem metros do portão e com todos os pelos do corpo espontaneamente eriçados, teve um leve sobressalto e quase correu, quando a mesma coruja — pelo que pareceu — mais uma vez deu outro rasante sobre sua cabeça com um piado mais pavoroso do que o primeiro. Ainda dominado pelo seu ceticismo, concluiu que o portão fora ele mesmo quem o deixara aberto quando na pressa de logo retornar, não o fechara devidamente. A coruja certamente teria um ninho ali por perto e estava tentando o manter longe de seus filhotes. Contudo, quando já estava buscando uma explicação lógica para as duas sombras que circundavam o portão, pode perceber que as sombras eram duas crianças. Um casal de uns sete anos ou até um pouco menos, — se fossem irmãos certamente seriam gêmeos –. Estavam ambos muito bem-vestidos, como se estivessem vindos de uma festa.
Tião parou já quase em frente ao cemitério e por um momento ficou sem reação. Talvez devido ao susto de encontrar duas crianças daquela idade, sozinhas no meio da noite. Como sempre fora um homem de gentileza maior, mesmo com todo seu inconveniente ceticismo, quisera logo trazer algum conforto àqueles pequenos inocentes que ali se encontravam em tão abandonada situação. Talvez por sua incredulidade, quantas as coisas que não pertencem a esse mundo, ou por mera inocência de espírito se aproximou das crianças e foi logo dizendo:
— Boa noite, crianças! O que estavam fazendo aqui a essa hora da noite? Quem são seus pais? Onde eles estão?
A menina, uma criança de face meiga e sorriso inocente, lhe respondeu educadamente, mas com o olhar desolado, de quem padeceu uma grande tribulação.
— Boa noite, senhor Sebastião! Não sabemos quem são nossos pais! Somos órfãos!
Tião sentiu suas pernas perderem as forças quando a garotinha de cabelos cor de ouro disse seu nome de batismo, como se o conhecesse. Ficou mais pasmo ainda quando ela lhe dissera que eles eram órfãos, pois vivia ali naquela região desde que nascera e jamais ouvira falar de algum casal que tinha tido filhos gêmeos, muito menos que tinham ficado órfãos. Exceto a inverossímil estória que havia escutado ainda naquela mesma noite, sobre as duas crianças que Dona Amélia havia perdido — ou mesmo abortado — quando seu noivo a havia abandonado. Antes que pudesse chegar a uma racional conclusão, mesmo estando ainda pelo lado de fora do cemitério, pôde ver que a figura de uma enorme mulher caminhava em sua direção com as mãos levantadas em decidido movimento de agarrá-lo. Ao luar, a face da mulher que logo entendeu que só poderia ser a própria dona da cruz em pessoa, muito se assemelhava às monstruosas imagens que certo dia padre Severino mostrara numa missa, como sendo as criaturas que povoavam o reino das Trevas. Rapidamente jogou tanto a cruz, bem como a vara no chão e, num desesperado ímpeto de se defender, sacou a pistola e a apontou em direção àquela cadavérica e infernal figura que se aproximava numa rapidez que não era própria de um ser humano, pois aquela horripilante criatura planava por sobre as lápides. No silêncio daquela tranquila cidadela, onde o orgulho e arrogância não jazem, um único tiro foi dado.
Como o tempo estava limpo e a noite bastante silenciosa, o estampido daquele tiro fora ouvido há uma distância bastante considerável. Nhô Quinca, que ainda não havia se recolhido, e estava naquele momento sentado em sua varanda, numa confortável cadeira de balanço, fumando sossegadamente seu cachimbo, pensou consigo mesmo: — Parece que o nosso incrédulo Tião se encontrou com sua verdade tão almejada, tomara que aquela pistola tenha lhe servido de algum conforto nessa hora tão ingrata –…
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A mulher sábia constrói o seu lar. Provérbios 14:1
Em um casarão antigo, e um tanto conservado, morava um solitário cientista obcecado em criar a noiva perfeita, ele se embrenhava em cemitérios e necrotérios, onde outros homens davam a ele — por uma generosa quantia — acesso às partes que ele precisava para sua criação. Tudo era levado para seu frio e organizado laboratório, munido com seu conhecimento de anatomia, alquimia e tecnologia ele pode dissecar e meticulosamente selecionar os órgãos e membros que precisava, suturando membros, conectando vasos sanguíneos e nervos, e para finalizar muita eletricidade e, assim, a noiva estava terminada. Ela era um belo exemplar de partes costuradas, um quebra-cabeça de carne morta-viva — que se sentia mais morta do que viva — trazida à vida pela obsessão por perfeição do homem que a criou.
A noiva era perfeita — pelo menos na visão de seu criador — ela foi criada para ser a companheira carinhosa, sempre disposta a dizer sim, esposa, mãe, ouvinte, cozinheira e excelente dona do lar. De estatura mediana, esbelta e de traços delicados, lábios belos de uma tonalidade rosada, de tom de voz baixo e acanhado, olhos gateados da cor de âmbar, sempre submissos, pele muito alva e delicada, cabelos longos como um véu translúcido, de uma beleza feérica e melancólica metodicamente criada, com uma sutileza de vaidade. Partes suturadas com delicadeza, todas elas bem selecionadas e imaculadas. Sua mente — como inocentemente acreditava seu criador — era uma tabula rasa, sempre pronta a aprender aquilo que seu senhor desejasse.
Porém, ela refletia confusamente com tudo o que ele permitia que ela lesse, ele achava conveniente que ela tivesse — nem que fosse um pouco — conhecimento. E assim como selecionara suas partes, escolheu um a um aquilo que ela tinha permissão para ler. Astronomia, arqueologia, botânica, filosofia e aventuras fantásticas onde os protagonistas — sempre homens — viajavam, exploravam e — assim como ela que lia — se fascinavam com as belas paisagens. Ela ficava perturbada por desejar conhecer tudo aquilo, mas não queria ser o homem, apenas desejava ter a liberdade de experimentar — como eles — tudo o que lia nos livros. As vezes se esquecia dos seus afazeres domésticos, entretida com tantas palavras e imagens, perdidas entre as prateleiras daquela biblioteca desordenada.
O homem, estudioso de renome, sussurrava belas palavras ensaiadas no ouvido dela, discursava — de maneira sutilmente dominadora — sobre o seu vasto conhecimento e de como ela era abençoada por merecer o seu amor, pois ele não era como os outros, outros esses que ela não conhecia e nunca tinha ouvido falar. Quando ela declarava querer conhecer o mundo fora dali, ele dizia que ela tinha liberdade para ir aonde quisesse, desde que fosse nos limites da sua propriedade, pois o mundo lá fora poderia corrompê-la. Ele a considerava o ápice da perfeição até não ser mais. Às vezes ela sentia o peso da sua mão, por uma palavra ou ação errada, logo o peso cedia e a mesma mão que a havia ferido, a acariciava, assim ela voltava a ser a noiva idealizada. A noiva ficava confusa com os sentimentos conflitantes que tinha por ele. Ele sempre estava ocupado demais em seu laboratório — a única parte do casarão ainda intacta — para ouvir ou fazer as vontades da noiva e perceber o que nela aos poucos se alterava.
A noiva não tinha um nome ou uma identidade própria que pudesse chamar de sua, mesmo que seu criador a chamasse de Sofia, que significa sabedoria — para o “homem” o significado dele era admirável — não era um nome ao qual ela sentia ser o seu. Ela era apenas a companheira perfeita, planejada e idealizada para o solitário monstro que ela conhecia como o “homem”. Cada parte do seu corpo era um retalho, a união de muitas mulheres que tiveram suas vidas extintas. Ela era uma amálgama de sonhos quebrados e esperanças fragmentadas, e era assim que agora ela se sentia.
Em quase todas as noites em que a escuridão parecia abraçar aquele casarão decadente, onde a luz da lua mal conseguia penetrar as grossas cortinas poeirentas, a noiva repousava em seu leito de seda escura, seus olhos brilhavam com uma luz fantasmagórica e observavam as sombras que dançavam no teto e nas paredes úmidas, refletia sobre a sua existência, enquanto o “homem” nela mergulhava para satisfazer suas próprias vontades, ela mergulhava em si mesma. E ansiava por algo além de ser a criação e serva do outro. Seu coração, já havia noites, estava sendo, aos poucos, alimentado por uma centelha sobrenatural, pulsando pela necessidade de escolha e liberdade. Porém, suas memórias eram um mosaico de vozes que em vida foram silenciadas, um coro de almas desesperadas sepultadas em carne ressuscitada.
Ela olhava para suas mãos, seus braços, pernas e pés, partes que antes pertenceram à artistas, musicistas, dançarinas, donas de casa, universitárias, e tantas outras mulheres que poderiam ter sido importantes, que encontraram o fim antes do tempo. Cada parte carregava uma história não contada, uma narrativa trágica de vidas interrompidas. Os olhos, que agora observavam o mundo, já haviam testemunhado o auge e a decadência, mas suplicavam por mais. A noiva ansiava por se libertar daquele casarão decrépito, que ela sozinha não conseguia dar conta, se sentia pressionada e cansada demais de apenas servir e manter um lar. Ela queria ser mais que uma sombra no caminho do “homem” que a criou para servi-lo. Todas as suas partes desejavam a liberdade de escolher seu próprio destino, ser sua própria criadora, de escrever e viver sua própria história, assim como nos livros que ela lia.
E a cada dia, em secreto, ela sentia a comunhão com as suas partes mortas-vivas em um pacto silencioso feito dentro de si mesma. Cada pedaço seu desejava insistentemente — a ponto de ela não conseguir controlar — escapar das correntes da obediência e ser livre. O cérebro antes uma cacofonia de vozes em desespero, agora uma sinfonia de pensamentos e memórias desenterradas que clamavam por autonomia. Os membros — uma união de habilidades antigas e paixões — que desejavam por serem livres para explorar o mundo fora dos muros daquele casarão arruinado.
A noiva ergueu-se do seu leito conjugal — onde todas as noites aguardava por ele -, seus cabelos pálidos ao redor dela como um véu. Ela se olhou no espelho e analisou a sua imagem por um longo tempo e em concordância com todas as suas partes, decidiu que era hora de as correntes do “homem” serem quebradas. Desafiando o que foi imposto a ela, ainda carregada de ansiedade e insegurança, andou por aqueles corredores escuros, malcuidados, úmidos e rachados com determinação. A noiva saiu às escondidas daquela prisão e as almas que a tinham como morada sussurravam entre si agradecidas pela liberdade. Porém, mesmo rompendo os grilhões da obediência, deixando para trás o casarão em ruínas, elas sabiam que haveria outras que ocupariam o seu lugar na vida do “homem”.
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A Guirlanda
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"É de facto verdade que o conhecimento é muito mais cego do que a inocência."
Por motivos dos mais diversos, existem pessoas que trazem em sua bagagem de vida, traumas que lhe acompanham até o túmulo ou quem sabe por toda a eternidade, — se essa porventura vir a existir para nossa insignificante existência — causando-lhe diversos dissabores, não somente a si próprios, mas as vezes até em prejuízo de outrem. A inverossímil história de Oscar Caetano poderia ter todos os ingredientes para ser um enredo de superação e exemplo a ser seguido. Contudo, nem todas as histórias têm um final feliz, nem mesmo com todas as forças do universo agindo a favor, pois entre os seres humanos, mesmo que o infinito — aquele que rege o destino de tudo e de todos sem exceção — assim o deseje, nada pode acontecer e nem ser feito de forma que contraponha o Livre-arbítrio de uma pessoa. Mesmo que a história de cada um já esteja escrita, mesmo antes de seu nascimento, são suas escolhas, feitas durante sua trajetória terrena, que irão concluir as consequências finais de sua vida. A vida, a bem da verdade, é uma grande lavoura onde tudo que é plantado e mais dia menos dia deverá ser colhido. Assim sendo, o resultado de uma plantação ruim consiste numa colheita um tanto quanto não muito satisfatória.
Oscar, em muitas ocasiões de sua trágica existência, se viu obrigado a fazer escolhas que nem todos poderiam considerar como sendo corretas. É certo que, em diversas ocasiões, a situação não permitiria outra escolha que trouxesse um resultado satisfatório e imediato, em muitas ocasiões o individuo é movido pelo desespero e termina por se enveredar por caminhos incertos. Numa vida cheia de privações e decepções diversas, Oscar não era do tipo de pessoa que tinha grandes esperanças na possibilidade de um amanhã melhor, levando em consideração a existência de um ontem não muito agradável. Seguia sua vida de forma intempestiva e sem muitas expectativas, pois não acreditava em muita coisa a não ser nele mesmo e em satisfazer seus desejos a qualquer custo, inclusive em detrimento daqueles que por infelicidade do destino se encontravam na posição de sua esposa e filho. O pequeno Gilson era quem mais penava perante a devassidão e inconsequência daquele que deveria por obrigação moral ser seu maior exemplo. Nem sempre o pecado dos pais recai sobre os filhos. O certo é que a divida adquirida aqui também deve ser quitada.
Gilson era um jovem de origem simples e humilde, filho de pais sem muitas posses, teve uma infância muito pobre, cheia de privações e muitas humilhações. Numa casa humilde, desprovida de quase tudo onde até mesmo a comida era muito escassa, a palavrapresentesignificava apenaso agora, e não algo que vinha embrulhado em papel brilhante com um laço colorido. Aniversário era uma simples data que servia para contar os anos vividos; a Páscoa era o domingo posterior ao final de semana onde as ruas ficavam enfeitadas com ramos de palmeiras e o Natal não era nada mais que uma época onde pessoas bem situadas enfeitavam suas casas com luzes coloridas e, numa determinada noite muito especial, havia festas com muita comida e bebidas variadas, servidas aos convivas que às vezes vinham até de lugares distantes.
As dificuldades de uma vida sejam elas: decepções, frustrações ou até mesmo privações daquilo que lhe é indispensável à sobrevivência até podem ser compreendidas por um adulto senhor de suas capacidades mentais e emocionais, mas conseguir convencer uma criança que alguns poucos escolhidos podem usufruir de certos privilégios enquanto uma grande maioria apenas se restringe à simples oportunidade de sonhar com dias melhores não é uma tarefa fácil. Uma criança, independente da classe social que ela pertença, é um pequeno ser carregado de sonhos e fantasias. São singelos seres movidos pela magia do faz de conta. Se brincar é a sua única responsabilidade, sonhar é uma prática constante e sem fim. Gilson, mesmo sendo uma criança muito pobre, ainda assim com todas as privações possíveis que um ser pode suportar, conseguiu a oportunidade de se matricular numa escolinha de uma igreja Batista, que sua mãe vez por outra, frequentava quando o cansaço e a exaustão lhe permitiam.
Essa escola, como fazia parte de uma congregação cristã, tentava fazer jus aquilo que pregava em suas celebrações, no final de cada ano, sorteava bolsas de estudos para crianças carentes numa carismática forma de praticar o amor ao próximo, principalmente para aqueles que eram mais necessitados. Não se sabe se Gilson poderia se considerar um sortudo, pois sua vida no ambiente escolar era tão deprimente e humilhante como em qualquer outro lugar. Seu uniforme — já bastante surrado — não era tão bom quanto o de seus colegas; seus materiais eram incompletos e insuficientes — sempre havendo a necessidade de pegar algo emprestado — e por fim, como ele não se alimentava adequadamente em casa, assim que o lanche era servido, ele comia avidamente, fato que gerava piadas e gracejos por parte de seus colegas, que chegaram ao ponto de o apelidarem de ferrugem. Quando eles retornaram das férias do meio do ano, a professora solicitou que fosse feita uma redação com o odioso titulo: “O que você fez nas suas férias?” Mas o pior de tudo era os dias festivos, onde seus colegas disputavam entre si quem havia ganhado o melhor presente. Foi justamente na escola, próximo ao final do ano que Gilson ouviu pela primeira vez sobre as festas de fim de ano e tudo aquilo que envolve o espírito natalino e o verdadeiro sentido do Natal.
Sua professora — Tia Letícia — propôs a eles que todos fizessem uma guirlanda para ser colocada na porta de suas respectivas casas para que todos pudessem dar boas-vindas ao espírito do Natal em seus lares. Nessa mesma aula, Tia Letícia lhes explicou sobre o sentido do Natal, o que representava cada símbolo natalino e como não poderia ser diferente, citou-lhes sobre a importância dos presentes e a figura do Papai Noel, propondo que todos eles também escrevessem uma pequena carta para o bom velhinho mencionando o que gostariam de ganhar de presente de Natal. A aula foi esplêndida! Todos os alunos adoraram, principalmente quando Tia Letícia contou-lhes a história de São Nicolau — o bondoso e endinheirado senhor, que já no final de sua vida, distribuía presentes para crianças carentes de sua comunidade e lugarejos próximos — que após sua morte se tornara na lendária figura do Papai Noel e continuando seu ato de bondade passara a dar presentes de Natal a crianças do mundo todo, desde que essas tivessem sido comportadas e obedientes durante o ano.
Aquele dia foi um dia extraordinário para Gilson, talvez o dia mais feliz de sua vida até então. Durante o decorrer da aula — o último dia letivo do ano — influenciado pelo alegre ambiente festivo, completamente envolvido por toda aquela história de Natal, presentes, espírito natalino etc. e tal, por um breve momento chegou até mesmo esquecer-se de sua vida sofrida, e a triste realidade em que se encontrava sua deplorável existência. Contudo, como tudo em sua vida estava reduzido a um mundo de privações e necessidades, o breve momento de euforia logo se desfez assim que chegou em casa e se deparou com sua verdadeira realidade. Tia Letícia havia dito a eles que a cartinha para o Papai Noel deveria ser colocada sobre a lareira — para quem a tivesse em casa — ou aos pés da árvore de Natal e em último caso se assim fosse necessário, até mesmo na janela. A guirlanda deveria ser fixada na porta de entrada da casa para que todos pudessem ver. A jovem professora em sua doce inocência recomendara aos alunos para que pedissem auxílio a seus pais para prenderem suas guirlandas de forma segura, sem correr algum risco de se ferirem. Tia Letícia apenas não sabia que o pai de Gilson era o tipo de individuo singular, totalmente desprovido de qualquer sensibilidade ou algum sentimento nobre que o valha.
Oscar era o tipo de homem frustrado com vida e sua deprimente situação financeira, o que o tornava um sujeito sombrio e taciturno ao extremo. Passava a maioria do tempo embriagado e quando muito raramente trabalhava — na função de carpinteiro — o pouco que ganhava era gasto com bebidas e tabaco para seu velho cachimbo, eternamente pendurado num dos cantos da boca. Era já bastante velho na aparência e estava muito mais para avô do jovem Gilson do que para pai. Aos 54 anos casara-se com sua própria sobrinha órfã de pai e mãe, que ficara aos seus cuidados quando seus pais morreram quando ela tinha apenas 5 anos. Assim que ela tomou corpo de mulher antes mesmo de completar 13 anos, Oscar logo a tomou por esposa alegando que jamais deixaria sua amada sobrinha nas garras de um homem qualquer. Os dois primeiros filhos daquele incestuoso casal não vingaram, morrendo antes de completarem um ano de vida. Entretanto, Gilson o terceiro filho teimava em resistir a todas as agruras que a vida pudesse lhe oferecer. Em seu ultimo aniversário — no mês de julho — completara 7 anos. Mesmo com um corpo franzino de faces com semblante doentio era um menino bastante forte e resistente demonstrando esbanjar saúde e disposição e naquele dia em especial estava euforicamente feliz.
Assim que chegou em casa, pulando de contentamento pelas diversas novidades que aprendera na escola sobre o Natal e todas as maravilhas que envolvem esse abençoado evento, logo foi em busca de sua mãe para lhe relatar sobre os pormenores de seu dia na escola e mostrar-lhe sua bela guirlanda. Contudo, para sua decepção, sua mãe — como já era de costume — não estava em casa. Havia saído para trabalhar na limpeza da casa de alguma senhora distinta, que vez por outra, lhe contratava como faxineira. Isabel era uma mulher jovem, na idade de 26 anos ainda, mas já de aparência cansada e envelhecida pelas tristezas e decepções que a vida sempre lhe oferecera. Com um corpo também franzino — como seu próprio filho — com as faces chupadas, olhos fundos e um cabelo mal cuidado tinha a aparência de uma mulher bem mais velha. Desprovida de qualquer tipo de carinho e afeto desde que perdera seus pais, assim que se viu sob a tutela de seu tio, logo teve de esquecer qualquer coisa que se referisse a infância e fantasia, sem mais delongas logo se viu obrigada a assumir todas as responsabilidades dos afazeres da casa. Como a casa de seu tio não era muito grande e as tarefas domésticas não eram muitas, como lhe sobrava muito tempo ocioso, muito rapidamente seu tio entendeu que ela também poderia se ocupar em pequenas tarefas em casas alheias e assim ganhar algum trocado — que sem demora lhe era confiscado sem remors
Belinha — como era mais conhecida — logo se tornara uma faxineira bastante requisitada, pois trabalhava muito exigindo pouco. Assim sendo, todos os dias estava ocupada na casa de alguém prestando algum trabalho doméstico. Oscar, que mesmo ainda na juventude cheio de vigor e disposição nunca fora muito adepto ao trabalho, logo estava vivendo as expensas do parco ordenado que a sobrinha recebia. Assim que a tomou por esposa, como ela vivia debaixo de seu teto, se viu no direito de viver sendo sustentado pelo árduo trabalho de sua esposa que dava o melhor de si, dia após dia. Enquanto Belinha se matava no trabalho, derramando seu sagrado suor na limpeza de casas de grã-finos, Oscar por sua vez, quando não estava em casa de cama — de ressaca — alegando mal-estar, que se tornara uma constante nos últimos tempos, estava perambulando pelas ruas — de bar em bar — segundo ele em busca de algum trabalho que somente ele não conseguia encontrar jamais.
Quando Gilson entrou em casa muito eufórico gritando pela mãe — que estava ausente — sem receber nenhuma resposta, imaginando que naquela hora talvez seu pai não estivesse em casa, continuou com toda sua algazarra pela a casa adentro, mas para sua surpresa e infelicidade, todo aquele barulho acabou por acordar seu pai, que naquele infeliz momento estava tirando um cochilo vespertino no então denominado: “sono da beleza”. Oscar que, naquele dia, ainda não havia comido nada, mas já havia visto o fundo de uma garrafa, fato esse que já lhe alterara o juízo — que não era muito bom estando sóbrio — se levantara meio que assustado, meio que irritado e sem muitas palavras, logo recepcionara o filho com tabefes e safanões. Quando o menino ainda eufórico tentou argumentar sobre o motivo de toda aquela alegria, logo fora interrompido com mais uma demonstração de afeto que lhe deixara a orelha quente e o ouvido zumbindo. Esse último tapa fora sucedido por uma reprimenda sobrecarregada de lição de moral e diretrizes que deveriam ser seguidas perante uma pessoa mais velha. O sermão fora enfeitado com mais algumas ameaças, beliscões e diversas ofensas direcionadas à sua mãe que segundo Oscar, era a única culpada pelo menino não ter bons modos.
Muito decepcionado com aquela desprezível conduta de seu pai — um velho bêbado desprovido de qualquer forma de escrúpulos — Gilson se evadiu para o fundo do quintal para lamuriar as mágoas e momentaneamente lavar os olhos de dentro para fora. Refeito de mais um momento de tristeza e decepção, logo tratou de cuidar de suas obrigações. Tarefas essas que se não fossem feitas por ele, além de poder receber mais uma surra de seu pai e outra odiosa reprimenda, — que era pior do que as surras, pois sempre havia ofensas dispensadas a sua pobre mãe — sabia ele que, mesmo retornando exausta para casa, sua mãe teria que executar sem falta. Seu pai que também era tio de sua mãe, uma vez que, fora ele mesmo quem a educara, se sentia no direito de vez por outra, por qualquer motivo que fosse, bastava ele entender que fosse necessário, aplicava um corretivo nela também. Para evitar tais lastimáveis acontecimentos, tudo era feito de forma que seu pai não fosse contrariado em nada.
Assim que terminou todas as suas tarefas, influenciado pela ociosidade e pela ansiedade de agradar sua mãe, decidiu ele mesmo, sem nenhum auxilio fixar sua guirlanda na porta. Em sua ingenuidade e inocência, quisera ele fazer uma surpresa para sua querida mãe. Utilizando-se do martelo de seu pai — ferramenta de trabalho, do outrora competente e caprichoso carpinteiro Oscar — após subir num pequeno banquinho, iniciara o processo de fixar um prego na porta. Na primeira martelada conseguira a incrível façanha de quase arrancar uma de suas unhas numa forte pancada que errara o alvo e acertara em cheio um de seus dedos. Após alguns pinotes e sacudidelas na mão, sugou o sangue que brotara da unha e assim que a dor se aliviou um pouco, recomeçou sua hercúlea empreitada novamente. Quando já estava pegando o jeito de utilizar aquela pesada ferramenta, sem esfolar o restante dos dedos, estando o prego já quase todo fixado, seu pai mais uma vez se levantara devido a toda aquele bate-bate e assim que viu o filho com uma de suas sagradas ferramentas na mão foi tomado de um ódio incontrolável e sem remorso algum deu um tapa descomunal no peito do menino, que pelo susto em ver o pai naquele estado e já estando meio desequilibrado sobre o banquinho, com o sopapo que levara, caíra de costas jogando o martelo para alto. Essa enorme ferramenta fez um circulo no ar e ao cair acertara o menino em cheio no meio da testa. Oscar guiado pelo ódio fez a guirlanda em mil pedaços — destruindo por completo um sagrado símbolo natalino –. Antes de socorrer o filho, ainda quis lhe dar alguns safanões pela desobediência de ter pegado uma de suas ferramentas para brincar. Mas, ao perceber que o filho não se movia e que um fio de sangue já começava escorrer pelo ouvido da criança ficou momentaneamente atordoado e logo entrou num ensandecido desespero, imaginando que o filho estivesse morto. Rapidamente pegou a criança nos braços e saiu pela porta afora em busca de socorro. O diretor da escola — que também era pastor da igreja que Belinha frequentava — estando subindo a rua naquele exato momento foi quem lhe prestou os primeiros socorros levando pai e filho para o hospital.
Gilson dera entrada no pronto socorro com traumatismo craniano crônico. Oscar ainda meio embriagado com um insuportável bafo de cachaça misturado com tabaco, contou uma estória que a ninguém conseguira convencer. Alegou que estava deitado com um terrível mal estar e uma enxaqueca insuportável, quando ouvira o estrondoso barulho do filho caindo. Logo pode perceber que o menino estava tentando pregar alguma coisa na porta da sala utilizando-se de um pesado martelo e que certamente se desequilibrara do banquinho ao qual estava subido, quando acertara uma pancada no dedo. Na queda, possivelmente o martelo acertara sua cabeça. Assim que Belinha chegou ao pronto socorro sabendo que o filho estava em estado gravíssimo, mas ainda vivo, decidiu que o melhor a fazer era acreditar na historia de Oscar — mesmo sabendo no fundo de sua alma, que era uma mentira deslavada — pois sabia ela que qualquer coisa que dissesse naquele momento que pudesse desabonar seu marido e tio, certamente teria sérias consequências posteriores.
Naquela mesma noite, assim que fora informada pelo diretor daquele triste infortúnio, Tia Letícia ao chegar ao hospital a fim de visitar o pobre e infeliz Gilson que estava em coma profundo, contara a sua inconsolável mãe tudo o que havia ocorrido na escola naquele dia e como o menino estava feliz com toda história sobre o Natal e todos os outros pormenores, inclusive sobre a confecção da guirlanda que deveria ser afixada na porta de entrada da casa. Disse ainda como se sentia culpada por tudo aquilo. Belinha lhe confortara com palavras de afeto, tentando convencê-la que tudo fora um trágico acidente e que ela não era culpada de coisa alguma, pois em seu íntimo ela sabia realmente quem era o verdadeiro responsável pelo seu amado filho se encontrar naquela lastimável situação.
Por treze dias Gilson caminhou pelo vale da sombra da morte. Os médicos já não tinham mais esperanças e esperavam o fim do pobre menino a qualquer momento. Belinha era somente lágrimas e desespero, pois amava o filho mais que tudo nessa vida. Mesmo tendo de trabalhar durante os dias, passava todas as noites velando pelo menino em seu leito de morte. Oscar em nada mudara sua rotina, e quando em momento de desespero Belinha quis questionar algo sobre o acontecido foi violentamente reprimida com palavras ofensivas e alguns safanões. De forma ríspida — como lhe era de costume — culpara a pobre mãe pelo acontecido, alegando ser ela negligente com a educação do menino. Culpou também a inocente professora, por ficar inventando histórias sem sentido para as crianças. Belinha que já não estava mais suportando toda aquela situação, mesmo temendo a reação de seu tio, com uma voz carregada de dor dissera quase em sussurro:
– Ele é apenas uma criança cheio de sonhos e fantasias e nunca fez mal a ninguém.
Num ímpeto de uma terrível ira e num total descontrole emocional, recebendo aquelas palavras como algum tipo de desconfiança perante sua conduta sobre o acidente com o menino, aplicou em Belinha um violento corretivo e mais um de seus odiosos sermões sobre o funcionamento do mundo e a dura realidade que a vida nos impõe a cada dia. Belinha nada mais dissera sobre aquele assunto e seguira sua vida na esperança que seu filho pudesse se restabelecer e voltar logo para casa. Já na véspera de Natal, estando ela prostrada no leito do menino acariciando suas mirradas mãozinhas banhadas pelas lágrimas que caiam de seus olhos sem cessar, olhando para o crucifixo sobre a cabeceira da cama rogou a Cristo essas simples e dolorosas palavras:
– Senhor, sei que não sou digna de te pedir nada, mas não o peço por mim, mas rogo pelo meu filho amado. Também sei que o aniversário é seu e És Tu que deveria ganhar um presente, mas por tudo que é mais sagrado imploro por tua misericórdia e peço que coloque um fim em todo esse sofrimento. Se não puderes devolver meu filhinho que o leve Contigo para um lugar melhor.
Envolta nesse ambiente de dor e sofrimento, Belinha adormeceu prostrada aos pés daquele triste leito. Num sonho — talvez uma visão — teve a impressão de ter visto um vulto branco sobre o leito do menino. Pouco antes da meia noite acordou com o som de uma risada muito alegre vindo de algum lugar sobre a janela e ao levantar ser rosto viu que Gilson acariciava-lhe a face. Milagrosamente o menino se restabelecera por completo e já no dia seguinte — dia de Natal — os dois puderam retornar para casa como se nada tivesse acontecido. Caminhado de mãos dadas numa alegria incontida como se fossem as duas pessoas mais felizes do mundo logo entram em casa para se depararem com uma cena lamentável. Já na entrada da humilde sala — que se encontrava na mais completa desordem, como se uma terrível luta ali tivesse sido travada — encontraram o corpo de Oscar caído morto com os olhos estatelados de pavor. O mesmo martelo que causara o acidente no pobre Gilson estava fincado em sua testa e em seu peito havia profundos rasgos que deixavam os ossos de suas costelas à mostra. Marcas terríveis, que pareciam terem sido feitas por uma fera selvagem. Oscar segurava nas mãos uma pequeno pedaço de papel, que Gilson logo reconhecera como sendo sua cartinha para o Papel Noel. Na carta estava escrito com letras tímidas e tremidas:
Querido Papai Noel, na verdade não sei nem o que devo pedir, pois já tenho tudo que alguém possa sonhar na vida. Sou um menino muito abençoado, pois tenho o melhor dos presentes que alguém pode ter o amor de minha mãe. Mas se eu puder pedir um presente para outra pessoa, peço que se puderes, alivie os sofrimentos de minha pobre mãe e permita que ela possa viver em paz.
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Os Cervos
Tomou-me o livro das mãos, ardil, com dor e fúria nos olhos. — Escute-me. Preciso de um ouvido. — pediu, com tom…
MidjourneyAI
Tomou-me o livro das mãos, ardil, com dor e fúria nos olhos.
— Escute-me. Preciso de um ouvido. — pediu, com tom de autoridade na voz.
Olhei para o meu livro, agora longe de mim, quase jogado em outra mesa por suas mãos esnobes. Direcionei o meu corpo para ele, ainda posicionada na cadeira. Nada proferi. Apenas o olhei, aguardando a sua voz e dando, assim, o meu ouvido para o seu tom.
— Sabes que tens os meus ouvidos para quando quiseres proferir as suas angústias.
— Uns cervos estão rondando este castelo. E o livro que você está lendo está os atraindo. Pare imediatamente. Eu tenho medo de cervos, você sabe. Você é a única que tem ciência desta minha fraqueza.
Sorrio, mas logo me contenho.
— Não se trata de fraqueza, senhor Lucius. É apenas um medo. O senhor tem um medo. Todos nós temos. E eu tenho um medo também.
— Qual o seu medo, Amma?
— Ser expulsa deste lugar e ter a sua confiança por mim perdida.
— Se continuar lendo aquele livro, isso vai acontecer.
— Esse era o meu outro medo. Mas aquele livro não fala sobre cervos e não tem nada que possa atraí-los.
— Mentirosa! — grita, batendo forte as duas mãos sobre a mesa à minha frente.
Eu fecho os olhos e respiro fundo, amedrontada. Senhor Lucius me conhece. Me conhece totalmente, quase.
— Eu fui mentirosa. — confesso. — Mas eu não tenho esse tipo de caráter. Eu não lerei mais aquele livro. Não aqui no seu castelo. Posso lê-lo fora daqui. Na floresta, por exemplo, não posso?
— Na floresta? — ele me rodeia, como se me analisasse. — Quem é você, Amma? Quem? Não tem medos, nem receios grandiosos. Se comporta como se fosse um membro da minha família e não uma simples mucama.
— Eu sou aquela que o senhor viu atrás daquela cela, mal vestida, com olhar triste e...
− E educada, culta. Por isso a comprei.
— Mas o comércio de pessoas já foi proibido. Por que ainda me quer aqui neste castelo e me chama por esses apelidos? Por que não me dispensa, senhor Lucius?
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Sorrio.
— O senhor se preocupa comigo. Parece bruto, mas apenas parece. Eu vou continuar minha leitura lá fora. - faço menção de levantar-me
— Espere! Eu não lhe dispensei .
— Sim, senhor Lucius, eu espero. Sabes que não me atrevo a retirar-me sem antes ser dispensada. - respondo fria, mas com feição serena.
— Desculpe-me. Eu devo estar mais exaltado hoje. Não deveria ter tratado você assim.
— Eu notei, senhor Lucius. Está desculpado. O que mais gostaria?
— Pegue o livro. — ele aponta, agora mais calmo. — Leia-o onde você quiser. Menos neste grandioso recinto. Aliás, aqui está.
Senhor Lucius posiciona o livro sobre a mesa, devolvendo-me. Não precisa eu entrar em discussão, nem exaltar-me para ter alguma razão. Aprendi a ser mais calma e resiliente. Com a minha paciência e subserviência eu consigo acalmá-lo da sua ira diária. Ele comprou-me para isso, na época em que ainda havia venda de seres humanos, cujos quais recebiam o título de escravos. Se ele não tivesse me comprado, ninguém mais me compraria. Aquele era o último momento, antes daquela atrocidade terminar. Vivemos em uma época muito difícil. A mulher é a mulher. E não sei se um dia eu estaria onde o Lucius está, não sei. Mas anseio tal realização em um futuro onde podemos ser e fazer as coisas naturalmente.
Dez anos antes:
— Pare de chorar. Eu não farei nada com você. Medusa, tire essa moçoila da minha frente. O choro dela é irritante e não quero sentir dor de cabeça hoje. Mostre-lhe um quarto e providencie vestimentas de qualidade para ela. Depois leve-a à sala de jantar. Ela precisa se alimentar o quanto antes. Onde está o Claus agora?
— Eu não sei, senhor. Mas ele saiu desde cedo e embrenhou-se nas matas.
O homem respira fundo, impaciente, e o meu choro começa a cessar, pela minha curiosidade sobre aquelas matas.
— Eu não sei o que tanto tem nessas matas para ele fazer isso! Mande outro servo ir buscá-lo por lá imediatamente. Quero que ele conheça a... Amma. — tenta se recordar o nome, estalando os dedos próximo à sua fronte. — E saiba algumas coisas sobre a presença dela no meu castelo.
— Sim, senhor.
Eu fervo de raiva por aquele senhor esnobe. Dizer que o meu choro é irritante apenas me faz pensar que ele ignora a minha dor; ignora a humilhação de ser negociada, junto à outros seres humanos, como se eu fosse um objeto. Não fazer nada comigo é o mínimo que não deve acontecer. Quero dizer, não sei. Ele pode estar blefando e quando nenhum servo estiver por perto, eu serei o cardápio àquela mesa. Porque eles comem muita carne, e o sangue está bem presente aqui, eu vi. Aquela sala de jantar cheira a sangue. E se for preciso eu fugir por aquelas matas, eu irei, para não ser devorada, assim como um cervo totalmente aberto e sangrando, morto, próximo deste lugar.
Dias atuais:
— Obrigada pela sua confiança, senhor Lucius. Eu não vou demorar. Estou no primeiro capítulo e só pretendo ler um por dia. Gosto de ler lentamente, assim como você saboreia o cálice de sangue que deita sobre a sua taça e desce a sua garganta abaixo.
— Cale-se! — profere irascível.
— Eu estou apenas dizendo a verdade. O senhor bebe com uma satisfação incomparável. É sangue de cervo, não é? — ele nada responde, mas olha para mim com ira. — Talvez isso que os tenha atraído para os arredores deste castelo. O senhor os mata, devora a sua carne e depois bebe o seu sangue fresco. Beba mais sangue! O senhor tem a pele muito clara, senhor vampiro — inconsequentemente o provoco.
— Já chega! Saia da minha frente imediatamente!
— Mas eu...
— Saia! Agora, Amma! — ele toca o encosto da cadeira firmemente.
— Sim, senhor Lucius. Com a sua licença.
Me retiro da biblioteca. Talvez, desta vez, eu tenha provocado a ira do senhor Lucius demais. Mas quero que ele saiba que sei muito bem quem ele é e o que tem feito.
Dirijo-me para fora do Castelo e sigo rumo às matas, com o livro em mãos. Encontro um grande cervo. Aproximo-me dele, sem receios e, de onde estou, visualizo o senhor Lucius olhando-me amedrontado da sua janela escura e encarando o cervo e eu. Lhe sorrio fria, irônica, próxima ao cervo, e abro o livro para continuar a leitura. Outros cervos se aproximam e o vampiro fecha a sua janela fortemente. Ouço um grito desesperado vindo dele — o vento o traz. Certifico-me: Eu tinha medo do senhor Lucius. Agora ele é quem terá medo de mim.
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O desejou a vida inteira. Secretamente clamou por sua chegada. Nada no mundo a deixava mais radiante do que a ideia de reencontrar aquele ser com o qual se esbarrou ainda jovem. Entre noites em claro e sonhos profanos, seguia o esperando.
“É um milagre”, diziam. “Quem cruza com criatura tão torpe não sai impune. E a criança nada sofrera.” Em seu íntimo sabia que sua alma fora despida naquela súbita noite.
Agonizando em seus próprios anseios pensou que não resistiria. Mas os ventos de outono a despertaram. O temor invadiu os corações alheios, mas o seu, bombeava devaneios.
E quando o céu escureceu, o chão foi tomado por vermelho carmesim. O horror instaurado era um prelúdio anunciado.
Suas vestes cor de marfim deslizavam pelos rastros de sangue. Cada célula de seu corpo se agitava em deleite. Olhos na escuridão emergiram a seu encontro… era ele!
Como se flutuasse, em segundos já estava em seus braços. O amante secreto a segurava com leveza. Pela primeira vez pôde o olhar com clareza. Não poderia descrever sua face, mas gemeu quando sentiu que lhe perfurava sua carne.
O sangue que escorria de seu pescoço ia de encontro com o sangue que invadia a barra de sua camisola. Em êxtase desfaleceu, mas como noiva da morte, renasceu.
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Após ter sofrido toda a dor possível — e impossível — ao ter revelado meu amor à pessoa amada e não ter sido correspondida…
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“Quanto maior é a sede, maior é o prazer em satisfazê-la.” – Dante Alighieri
Londres – janeiro de 1898
Após ter sofrido toda a dor possível — e impossível — ao ter revelado meu amor à pessoa amada e não ter sido correspondida, fui indicada pelo Dr. Seward, durante nossas sessões psicoterapêuticas, a me distrair de alguma maneira, a fim de esquecer um pouco as dores do amor e do mundo. Foi quando passava pela Oxford St. no retorno para casa e vi uma espécie de boutique na qual nunca havia reparado que existia ali — o que era raro, já que mamãe fazia questão que eu soubesse cada nova loja de roupas e cosméticos que Londres pudesse ter. Confesso que fui seduzida a entrar na nova boutique, primeiramente porque o cheiro ambiente que os funcionários mantinham na loja era doce e também porque as cores dos vestidos que estavam na vitrine eram de um colorido que eu nunca havia visto antes. As funcionárias daquela loja eram todas muito atenciosas e apesar da maioria das estampas dos vestidos e roupas de baixo serem bem alegres, o que despertou o meu senso de consumismo fora um vestido cinza escuro. Instintivamente, fui até o vestido, a fim de perguntar a uma das atendentes se eu poderia experimentar, porém, no mesmo momento em que fui em busca da roupa, uma outra mulher, de um loiro quase branco acabou perguntando ao mesmo tempo. Ficamos surpresas ao ver que perguntamos pelo mesmo vestido e percebi que a mulher me olhava – mesmo que discretamente – por todos os lados a fim de analisar se meu gosto poderia ser tão parecido com o dela, já que aparentemente, mesmo que eu venha de uma família de posses, ela possuía um requinte e fineza sem igual, até bem diferente dos habitantes de Londres. Apresentamo-nos e naquele momento descobri que a mulher que aparentava seus 30 e poucos anos se chamava Alexia. Conversamos um pouco e Madame Alexia me informou que era nova ali — apesar de conseguir falar inglês fluentemente e sem sotaque — e me disse que vivia há pouco tempo em Londres, que recentemente viera de Bucareste, na Romênia, pais que pouco eu havia escutado falar e tão pouco conhecia os costumes. Ela possuía uma beleza peculiar; a pele e os cabelos muito claros e os olhos de um estonteante tom de azul.
Informalmente, Madame Alexia me convidara para tomar o chá das 5 horas em sua nova residência — que se localizava na Abbey Road — , o que não faltava muito, já que eram por volta das 4:30 e como era inverno, Londres já se encontrava completamente escura desde às 3 horas da tarde. Por muita insistência lhe prometi que iríamos juntas em sua carruagem, mas informei que eu não demoraria muito, pois já era noite e eu não queria preocupar minha mãe. Chegando a residência de Madame Alexia, percebi que o ambiente era muito aconchegante, apesar da decoração envolver a temática sobre répteis, sobre tudo ao que dizia respeito às serpentes. Havia um espelho em cima do buffet da sala que possuía uma moldura trabalhada em madeira escura, era muito bonito apesar de ter sido moldado sob a desenho de uma grande cobra. Logo que perceberam que eu havia adentrado a sala, os criados da casa vieram com todo o aparato da cozinha, a fim de não demorarem muito a servir o chá. A mulher parecia estar confortável, pois se encontrava em sua casa, mesmo sendo uma imigrante, parecia que aquele local era o seu reino, que fora transportado juntamente com ela da Romênia, e parecia não sentir falta de nada. Após conversamos mais um pouco e ela ter me dito que estava em Londres e ficaria um longo tempo, pois precisava resolver algumas questões pessoais como problemas com o sogro — que segundo ela vivia em Londres há algum tempo e agora se encontra com problemas de saúde — senti que após ter bebido o chá, que me encontrava um pouco cansada e sonolenta e então quando finalizamos nossa conversa, tentei me levantar e caminhar até a porta, porém vacilei e desmaiei.
Quando acordei, o ambiente já não era a sala de estar de Madame Alexia. Estava em um ambiente totalmente desprovido de claridade; não fazia ideia de onde me encontrava. Foi quando o local ganhou um pouco de luz que percebi que estava em uma espécie de calabouço e com a luz percebi que vinham três pessoas em minha direção. Quando as luzes das velas se aproximaram de mim, percebi que ali estavam três mulheres e estas possuíam aparência familiar com a de Madame Alexia; todas eram muito pálidas e os cabelos muito claros. Ao lado da que carregava o candelabro e as velas, uma das mulheres carregava alguma criatura que parecia de grande porte e peçonhenta. Foi quando se aproximaram mais ainda de onde eu estava que percebi que ali encontrava-se uma grande serpente.
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O cadáver de um coração
Fechei a porta a procura de concentrar-me em meu próprio luto, pois tortura-me pensar a respeito do que ocorre após…
MidjourneyAI
Fechei a porta a procura de concentrar-me em meu próprio luto, pois tortura-me pensar a respeito do que ocorre após o findar da vida humana. Temia a morte, porém nunca me atentei na existência de uma outra forma de morrer. Por este motivo ocultei meus sentimentos aconchegando-me por detrás das estantes, abrigado entre a vasta literatura oferecida por nossa coleção particular. Contornei as lombadas a procura de um clássico qualquer, um que ouvi falar, mas jamais pus os olhos, ou desejava ler desde sempre, porém perdi o encanto.
Há muito tempo desenvolvi aversão à leitura, o desespero me tomava no momento em que colocava os olhos sobre as páginas, e logo meu coração saltava, sustentando uma pavorosa confusão mental tomada de medo e desprezo pelo processo cognitivo básico de decodificação. As mãos pouco obedeciam ao meu desejo de tocar as páginas, e tão logo a contração involuntária de meu estômago empurrava todo o meu conteúdo gástrico boca a fora; ler me adoecia. Torturava-me dessa forma, ainda que soubesse sobre a importância de meu afastamento, embora ler tenha feito parte de minha história e um dos maiores prazeres da vida.
Após minutos de indecisão, afastado do triste velório que ocorria no andar superior e acompanhado pelo coro musical composto por vozes trêmulas e femininas, afundei os dedos em páginas amareladas do romance ‘’O cadáver de um coração’’, redigido por um magnífico autor espanhol, de prática escrita sombria e estranhamente doce e delicada, chamado Benite Carrilho. Benite iniciou o primeiro parágrafo de sua obra valorizando pensamentos pessimistas e saudosos e apontando centenas dos mais delicados detalhes acerca do corpo humano, fazendo de nossa estrutura interna e externa a mais bela das composições naturais do criador.
Ao passar os olhos sobre as páginas, senti a costumeira queimação ocular interromper meu deleitoso momento particular, assim como o palpitar do coração no interior da cavidade toráxica, meu corpo relatava o indício da rejeição pela decodificação das palavras, porém, lutei contra o findar de meu princípio vital, sugando o ar de volta aos pulmões e o expelindo em seguida.
Nas doces e sombrias páginas do romance conheci Adélia, cujas formas eram descritas como joviais e singulares, uma vez que seus jovens olhos castanhos igualavam-se a grandes esferas brilhantes e saltadas, de pálpebras largas e pestanas alongadas. Sua fisionomia, apesar de primeiramente arrancar deleite, era traçada por pequenos órgãos da face miúdos e estreitos, tão estreitos que os mais chegados contavam sobre como ao nascer assemelhava-se a um primata recém-nascido, por carregar olhos enormes e assustados, próximos aos lábios e ao nariz.
De tão pequena, Adélia cresceu atormentada pela beleza jovial, a qual jamais sofria mudanças, fazendo dela alvo de comentários e troça pelo vilarejo espanhol onde residia. Seus órgãos internos eram mesmo pequenos, assim foi constatado após uma investigação profana em sua morte. Instantaneamente procurei apanhar o romance e escondê-lo em meus aposentos, onde lia com fascínio todas as linhas transcritas como um relato de um telespectador curioso e próximo.
Passados os dois primeiros dias de leitura meu corpo retornou aos indícios da ojeriza habitual, tal como meus olhos cansados e em chamas cerravam ao passo em que uma dor latejante se apossava de minha cabeça, palpitando uma veia grossa em minha têmpora, foram esses os primeiros indícios da rejeição, porém prossegui movido pelo interesse em investigar a vida de Adélia e suas excentricidades, parte de mim desejava acariciá-la em momentos de incompreensão e rejeição de parentes e amigos.
Dias se passaram em minha debilidade emocional e vitalidade comprometida, de modo que já não levantava de meu leito, pouco falava aos mais próximos e dores se espalhavam por todo meu corpo, por vezes acreditei deixar de ser minha própria pessoa, e um pavor excruciante surgia da incompreensão diante de meu estado. Bastava deixá-la de lado, devolver Adélia as prateleiras empoeiradas, esquecê-la para sempre, todavia não podia afastá-la, acompanhar sua dor trazia-me a esperança de que o compadecimento se tornaria suficiente e assim a leitura já não afetaria minha saúde, porém, afundei em desgraça com o passar dos capítulos.
Adélia fora rechaçada ao desabrochar prematuramente, logo o broto mamário evidenciava mudanças biológicas e fisiológicas, dessa forma e à vista de tais mudanças, homens maduros apreciavam sua imagem e apontavam com lascívia parte do que a deixava embaraçada. A jovem sofreu consequências do amadurecimento com a demasiada proteção dos guardiões, ao mesmo tempo em que desprezada era vista como tola e indigna de fala.
Detalhes de seu corpo e mente foram dissecados pelo autor de modo que pude odiá-lo pela exposição desnecessária e intrigante, a jovem era vendida em uma obra, aparentemente ficcional, como um relógio de algibeira comercializado por um ambulante em todos os cantos do império. Quando me aprofundo em tais pensamentos a vejo aliciada e apalpada, aberta e controlada como um piano a ser avaliado e tocado, avariado perdendo parte da utilidade por um enxame de cupins.
Quando mulher, o esposo a aprisionou, pois longe da vista de outros não despertaria o deleite e podia se guardar somente para ele, como uma boneca de porcelana intocada, pois mesmo em sua defloração ainda mantinha a beleza da juventude. O tempo não passava, era uma mulher madura em um corpo de moça.
“Linda, mas se linda, como há de ser desprezada? Esperta, mas se esperta, como há de ser ludibriada?”
Gritei padecendo em desgosto, uma desgraça apossada de minha pobre alma, eu não resistia à leitura. Todo meu corpo sofria com a teimosia, e por consequência o sumo suco da vida saltava de minha garganta acompanhado do revirar das entranhas. Eu desfalecia, sentia o fim conforme a obra finalizava.
Quando li as últimas palavras redigidas pelo autor, o qual finalizava descrevendo o fim de uma vida longa e lamentável, fui atordoado por uma síncope repentina. Reclinado em meu próprio sangue senti o sumo emporcalhar minha face ao passo em que perdia a consciência. O fim de uma vida, e o cadáver de um coração aprisionado havia me consumido à exaustão. Sei apenas que despertei após o corrido, porém não era mais o mesmo.
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Assunto: Revisitação às Sombras do Passado
Espero que esta mensagem a encontre bem e revigorada. Como solicitado, venho compartilhar…
Foto de Miguel Alcântara
Querida Dra. Joana,
Espero que esta mensagem a encontre bem e revigorada. Como solicitado, venho compartilhar minhas reflexões após nossa última conversa, na qual a senhora sugeriu que me conectasse com minha criança interior. É um exercício desafiador, mas que me levou a revisitar um capítulo peculiar de minha infância.
Ao fechar os olhos, vi-me novamente de frente a igreja, a fachada de tijolos avermelhados, com três portas de madeiras, a do meio tem a imagem de Santa Cecilia em relevo, logo acima três vitrais na mesma direção que as portas, sua fachada tem quatro colunas retangulares e as duas do meio vão até o alto. Elevando meus olhos admiro a torre do centro que tem uma janela redonda, mais adiante, o campanário com um sino, do qual só me recordo de conseguir ouvir de perto ao meio-dia; olhando mais além tem uma pirâmide pontuda que termina com uma cruz, a igreja fica no bairro onde cresci conhecido como o mais quente do Rio de Janeiro. Ao lado daquela igreja tem uma praça e, sob o calor infernal e sufocante do bairro, era para mim um oásis de esperança que ecoou em minha memória. Naquelas tardes intermináveis, a praça tornava-se meu refúgio e, a igreja, meu castelo de segredos. Minha mente infantil criava um mundo onde Drácula, senhor das trevas, era meu salvador. Cada descida no escorregador, aquecido pelo sol, eu vislumbrava Drácula como meu guardião com suas asas escuras, alguém capaz de me proteger das aflições da minha infância complicada, pois sempre tive amor pelos cantos inquietos e escuros da minha imaginação, amor esse que eu não conseguia compartilhar com todas as outras crianças, por algumas delas não compreenderem que eu me via distante do comum. A igreja, imponente e majestosa, era o palco onde as promessas de Drácula ecoavam em coros celestiais.
Adentrar a igreja era como entrar num santuário de magnificência. No seu interior, altos arcos que se estendem ao teto, a ala central é espaçosa, ao andar mais um pouco eu posso ver o altar com uma cruz de madeira no centro com o Cristo morto, a direita dele São Sebastião, a esquerda Santa Cecilia, acima um vitral com o sagrado coração de Jesus que filtra a luz do sol. O cheiro bem suave, terroso e amadeirado que dava à igreja uma aura misteriosa, fazia-me imaginar se aquele não seria o cheiro do próprio Drácula. As sombras tremulavam, o coro preenchia o espaço e, em minha mente infantil, Drácula habitava as sombras dançantes entre os bancos. Essas memórias, mesmo após o peso dos anos, permanecem como se gravadas em pedra.
Chegando à juventude, os ecos da infância me acompanharam. Unia-me aos jovens alternativos na praça à noite, onde as sombras se entrelaçavam com risos, segredos sussurrados e vinhos baratos. Porém, mesmo estando entre eles ainda me sentia distante do mundo deles. Alguns, desrespeitosos, profanavam o lugar que para mim era sagrado. Eu, sempre fiel ao meu imaginário salvador, alertava aos meus companheiros que mesmo que não compartilhassem da minha veneração pelo local, ao menos o respeitassem, pois na minha mente a igreja era o refúgio do meu salvador e eu não permitiria que desonrassem. Os corredores da igreja, mesmo ao longo da adolescência, continuaram a me acolher. As sombras ainda dançavam, o coro ecoava, o cheiro mesmo que leve ainda era persistente e a presença de Drácula, mesmo que de forma sutil, na minha mente permanecia.
Hoje, na idade adulta, senti-me compelida a voltar à igreja. A vida adulta trouxe consigo dores e desafios, como você bem sabe, estou perdida nos corredores labirínticos da minha própria mente e as sutilezas das interações sociais entre os adultos fazem eu me perder em um mar de confusão que me levam a querer me refugiar no isolamento, então mais uma vez, busquei naquele santuário a promessa de alívio. E ao entrar, a grandiosidade do local envolveu-me como nos dias de infância, mas algo mudou. A sensação de que Drácula não apenas residia ali, mas dentro de mim, tornou-se inegável. E sem perceber, pronunciei as palavras: “Agora não mais eu vivo, mas Drácula vive em mim.” Foi como se eu tivesse feito um pacto com as sombras do passado, aceitando que o verdadeiro poder para enfrentar as dores da vida reside na compreensão do que vive dentro de mim, e agora eu sentia de forma real que meu salvador não apenas vive, mas vive em mim.
Espero que estas palavras possam fornecer uma compreensão mais profunda sobre o que ocorre dentro da minha mente, e que com esse relato, você possa me guiar nessa jornada de autodescoberta. Agradeço pelo seu tempo.
Com respeito e gratidão,
Vânia R. Campos
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Hereditário
Desde o princípio mais remoto da caminhada da humanidade por essa terra, o homem, esse magnífico ser pensante, utilizando-se de sua singular capacidade de raciocínio, sempre…
MidjouneyAI
Desde o princípio mais remoto da caminhada da humanidade por essa terra, o homem, esse magnífico ser pensante, utilizando-se de sua singular capacidade de raciocínio, sempre esteve envolto a invenções e mecanismos que quase todo o tempo lhe proporcionou satisfatórias vantagens sobre as inúmeras adversidades e percalços que poderia a vir enfrentar durante sua insignificante existência nessa aventura chamada vida. Principiando pelo controle do fogo, — que talvez tenha sido o primeiro e maior avanço para aquele ser ainda primitivo, que possivelmente, talvez por algum acidente da natureza ou para quem quer acreditar, um presente de Prometeu, de repente se viu com a satisfatória possibilidade de, com apenas uma simples fogueira, poder se aquecer em congelantes noites de inverno e, ao mesmo tempo, iluminar as tenebrosas noites sem luar nos fundos de uma caverna escura, mas principalmente cozer seus alimentos, os tornado mais palatáveis e mais digeríveis.
Passando pela descoberta ou quem sabe talvez a invenção da roda, — mecanismo esse que para muitos é considerado como a maior de todas as invenções, pois somente a partir da roda, a grande maioria das outras invenções se tornaram possíveis — até chegar ao domínio dos céus, após a invenção dos aviões — primeiro, simples aeroplanos que mais pareciam armadilhas voadoras, posteriormente os confiáveis aviões comerciais capazes de transportar dezenas de passageiros de uma lado ao outro do mundo em questão de horas, até a invenção de potentes jatos supersônicos com incríveis capacidade de deslocamento —.
As descobertas e invenções desse inquietante ser pensante, na maioria das vezes, trouxe-lhe mais conforto e maior possibilidade de controlar e até mesmo alterar a natureza ao seu bel prazer.
A partir do surgimento das primeiras carroças — primeiro; puxadas por braços humanos, posteriormente por tração animal — barcos a vela e logo após a vapor, locomotivas, automóveis, seguidos por fim pelo intrépido avião, o homem conseguiu com seu incrível senso de inventividade vencer grandes distâncias em curto espaço de tempo, conseguindo chegar com suas engenhocas a lugares, antes até mesmo, inimagináveis. Contudo, bem como a própria evolução não é equânime a todos os seres vivos da mesma forma, nem todos as invenções servem a todos ao mesmo tempo. Enquanto em determinadas regiões, os meios de transporte já estão avançados ao ponto de enormes congestionamentos assolarem as ruas e avenidas dos grandes centros urbanos, por outro lado, em muitos lugares, ainda ermos e distantes, o translado de uma local para o outro qualquer, ainda é feito sobre o lombo de animais de carga, ou na maioria das vezes, sobre as próprias pernas. Nesses pitorescos lugares, onde o tempo passa muito lentamente e as novidades demoram bastante tempo a chegar, quando se faz necessário o transporte de alguma carga, essa obrigatoriamente é transportada por animais ou até mesmo nos próprios ombros das pessoas que habitam essas longínquas e esquecidas regiões.
Em muitas regiões dos mais profundos rincões do sertão, nem mesmo estradas existem, apenas tortuosos e improvisados caminhos, por onde se tocam boiadas. Sobre pequenos regatos ou até mesmo estreitos riachos, muitas das vezes não existem pontes, quando muito uma simples e traiçoeira pinguela que quase sempre é feita com rústicos e abaulados troncos de árvores que por uma tempestade um pouco mais violenta, caem sobre o veio d’água ou próximo as margens. Se, o rio é um pouco mais largo e muito caudaloso com fortes correntezas, a travessia deve ser feita em canoas. É sempre comum nesses caminhos cortados por largos rios, haver às margens desse mesmo rio a presença de um canoeiro, que morando pelas cercanias, sempre se demonstra a disposição para atravessar qualquer um que esteja disposto a pagar uma pequena taxa, cobrado, pelo indispensável serviço. Contudo quando em períodos de chuvas intensas, e rio se encontra cheio bem acima de seus limites aceitáveis, com suas correntezas em bravia violência, se faz necessário baixar acampamento às margens desse rio e aguardar, as vezes por dias ou até semanas, até as águas diminuírem de volume e as correntezas amainarem um pouco sua violência para, então, se fazer a travessia de forma segura. Um canoeiro experiente, que conhece bem o rio onde ele presta seus serviços, por dinheiro nenhum desse mundo, ousa desafiar a violência das águas e as inconstantes forças da natureza que de forma impiedosa ali imperam.
Nesses determinados lugares, distantes de quase tudo aquilo que possa ser considerado civilizado e evoluído em comparação às grandes cidades, reina o atraso e o obscurantismo num grau assustador aos olhos de um ser citadino, isto é, há um angustiante misticismo, carregado de todo tipo de estórias e costumes, ainda um tanto quanto, arcaicos se faz presente. O homem nessas regiões ainda está muito ligado a natureza que, por sua vez, rege sua vida desde o nascimento até bem depois de sua morte. A religião com seus dogmas e costumes também se faz presente durante toda a vida desses seres, ditando as regras básicas de como suas vidas devem ser geridas a fim de no final de sua inquietante e sofrida trajetória, o descanso eterno possa lhe ser possível.
Se por um lado algumas engenhocas mecânicas ainda não são conhecidas de muitos sertanejos embrenhados pelos mais longínquos lugares, no campo do conhecimento intelectual não é tão diferente. Esse mesmo individuo que ainda não teve contato com as inovações tecnológicas tão pouco teve acesso as belas letras da literatura de Shakespeare, Victor Hugo, Goethe, Dostoiévski e tantos outros, nem de longe sabe por onde passa a geometria euclidiana, as ideias de Platão ao seu costume interiorano de ser obediente e temente a Deus podem facilmente ser entendidas como uma imperdoável blasfêmia passível dos mais temíveis castigos divinos. Nessas ermas regiões os costumes ancestrais são obedecidos a risca pelos mais velhos, que de forma equânime as ensina aos mais jovens que, assim que as apreendem, dão continuidade ao eterno ciclo de saberes e costumes que dão certo sentido às suas insípidas vidas campesinas.
Um desses costumes era que, o local de sepultamento de um individuo — independente de quem fosse ou o que tivesse feito em vida –, deveria ser um cemitério, ou seja um campo santo previamente benzido por autoridades eclesiásticas com autonomia para tal. Se, porventura, esse mesmo individuo que se deparou com o seu último e inadiável compromisso nessa terra, residisse distante de algum cemitério, seu corpo após as exéquias iniciais — lavagem e preparação do corpo para o funeral — logo, deveria ser transportado para o cemitério mais próximo de sua antiga morada. Nesses ermos e distantes locais, onde ainda não existia meios de transportes mais adequados, o traslado do falecido sempre era feito por seus pares mais próximos — fossem eles parentes, amigos, conhecidos ou apenas papa-defuntos — em rústicas padiolas rapidamente improvisadas, denominadas no linguajar do sertão como banguê.
Justamente em uma dessas regiões, onde ainda o progresso demoraria um longo tempo a se fazer presente, em certa manhã escura de novembro, muito fria e de constante chuvisqueiro, viu-se por um desses improvisados caminhos, um pequeno grupo de transeuntes que caminhavam no mais respeitoso silêncio com passos tão lentos que facilmente poderiam ser contados por quem desocupadamente os observasse. O silêncio entre o grupo era absolutamente melancólico, o único som que pudesse ser ouvido era de seus próprios passos ou aqueles inconfundíveis sons que a natureza em seu esplendor matinal brinda qualquer um que tenha tempo para apreciar, — o leve cair da chuva, o vento frio, que vez por outra soprava entre as folhas das frondosas árvores e o alegre cantar dos pássaros em agradecimento por mais um dia em suas vidas. À frente desse grupo caminhavam quatro homens fortes, mas, ainda assim, já bastante fatigados pelo frio e pelo cansaço, por estarem carregando aos ombros nus um banguê, com um enorme e rústico caixão, que dava a impressão de ter sido improvisado muito às pressas, com algumas tábuas fortes mais já bem velhas.
Esse silencioso grupo não era muito grande, oito homens que se revezavam de tempos em tempos no transporte do banguê, que visto, mesmo de longe, dava a impressão de estar bastante pesado. Além desses incansáveis e vigorosos transportadores, havia ainda uma chorosa e muito bela mulher, aparentando ainda estar na flor da idade, essa triste criatura arrastava pelo braço um belo jovem de aparência muito angelical de uns doze anos, talvez até um pouco mais, pois era difícil determinar sua idade certa, se por um lado seus gestos e aparência era um tanto quanto infantis seu tamanho físico era um tanto quanto descomunal. Tinha ele, já o tamanho de um homem adulto, tanto em altura bem como em largura com uma estatura já bem definida, contudo seu semblante trazia em si traços de uma inocente infância bem cultivada. Esse viçoso jovem de pele amorenada num tom bem leve, de vasta cabeleira cacheada da cor de ouro escuro, se demonstrava ser uma criança muito inquieta e bastante irritadiça e naquele momento em questão, estava num frenesi que misturava seu temperamento indócil com o sentimento de perda de algo muito precioso.
Como não era para menos, pois além de ter perdido um ente muito querido para ele, estava enfrentando uma longa caminhada debaixo de uma chuva fria, que nem por um instante sequer dava uma mínima trégua. Devido a tudo isso, vez por outra reclamava do frio e do cansaço quebrando o respeitoso silêncio que de forma involuntária era estabelecido por todos. Essas inconvenientes reclamações, que vez por outra eram dirigidas a sua bela e melancólica mãe, — que além do sofrimento de perda que lhe dilacerava a alma já estava se impacientando com essas indiscrições — já haviam lhe rendido alguns dolorosos beliscões e algumas caras feias, por parte dos mais velhos que ajudavam no traslado daquela funérea carga. Esse pequeno e silencioso grupo era então num total de dez pessoas, coincidentemente como; os dez mandamentos ou os dez Sephiroths — os atributos de Deus na criação do Universo — o certo era que mesmo que involuntariamente, os dez criavam uma espécie de circulo protetor ao redor daquela funesta carga. Logicamente que nenhum deles tivesse a menor noção disso tudo.
Completando o fúnebre grupo, era óbvio que havia o defunto, que estava dentro daquele improvisado esquife, que era trasladado, pelos já calejados ombros, ávidos por um merecido descanso de tão nobre, mas não menos pesada carga. Nobre, não por que o defunto em questão pudesse ter possuído em vida algum tipo de título importante, mas porque todos nós, assim o tornamos, quando finalmente cumprimos nossa árdua sentença nessa vida e nos encontramos com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele sinistro fato sem explicação que iguala tudo quanto é vivo num único rebanho de condenados, porque tudo que é vivo, um dia morre e ao morrermos nos tornamos todos bons e dotados de inúmeras qualidades. A certo modo, a morte em si é uma espécie de restauração da índole do individuo. A bem da verdade, a carga em si era realmente bastante pesada, pois o homem, sendo respeitosamente ali transportado, era de uma descomunal estatura. Grande e muito pesado era aquele defunto, pois além de seu próprio peso físico, aquele inerte e funesto corpo, carregava consigo o peso de incontáveis pecados, sendo alguns hediondos e quem sabe talvez, até mesmo imperdoáveis, aos olhos de Deus.
Por mais cansados, que pudessem estar todos eles, pois já caminhavam por quase quatro horas, enfrentando além da enorme distância percorrida, uma fina e insistente chuva de invernada, que caia tão fria naquela manhã dando a leve impressão que pudesse congelar até os ossos e já um ou outro, quase concordando com o jovem que a quase todo momento solicitava que parassem pelo menos um pouco, para recuperarem o fôlego, os mais velhos seguiam silenciosamente renitentes em frente num passo firme, pois sabiam que uma parada, por mais breve que fosse não era de todo recomendada. Qualquer tipo de parada, poderia esfriar o sangue do corpo e pairar certo esmorecimento entre os caminhantes e além do mais, segundo os mais velhos — rigorosos guardiães de uma inquestionável sabedoria milenar — havia certo conhecimento que, quando um cortejo fúnebre partia da antiga morada do falecido, com seu corpo, rumo a sua nova e eterna morada, não poderia de forma alguma, haver nenhuma tipo de parada pelo caminho, pois se, porventura, isso viesse a acontecer em qualquer lugar, o espírito do falecido entenderia que aquele seria o seu local de infinito descanso.
Se, porventura, o lugar não fosse um campo santo e não tivesse sido liturgicamente benzido, como é o caso das igrejas bem como os cemitérios em si os são, a alma do defunto sendo ali transportado ficaria ali estacionado vagando a esmo sem descanso, atormentando os vivos que, por acaso, passassem por aquele local. Para alguns mais extremistas ainda, nas questões de misticismo antigo, acreditavam que essas almas atribuladas buscavam avidamente uma forma de dar descanso ao seu espírito, como esse espírito errante estava proibido de entrar no paraíso ou até mesmo padecer no inferno, para não ficarem vagando no eterno abismo que separa os mundos, tentaria de qualquer forma encontrar um novo corpo, para assim, voltar a terra e refazer todo o trajeto novamente. Havia certo temor entre os mais velhos, que se uma mulher de recente gravidez se demorasse tempo suficiente num desses locais atormentados, o espírito errante poderia encontrar uma porta para o nosso mundo através da criança que viria nascer. Alguns, até mesmo acreditavam, na ignorante ideia, de que as pessoas loucas são frutos provenientes desses espíritos errantes que atormentam a mente do individuo desde o seu nascimento.
Todos os prestativos companheiros que se revezavam continuamente no transporte daquela funérea carga eram moradores da região e conheciam bem o falecido. Na verdade pode se dizer que apenas conhecidos, mesmo sendo vizinhos de muitos anos, pois amizade mesmo era um termo já desconhecido do defunto há séculos, era do tipo de pessoa que para o mundo ele já havia morrido há bastante tempo. Dentre os homens que compunham tal seleto grupo que transportava aquele inglório banguê, o mais velho dentre eles era Senhor Juraci Fonseca — conhecido por toda região como Seu Jura — de quase oitenta anos, mas milagrosamente ainda muito forte e vigoroso. Mesmo sendo quase octogenário, sempre fazia questão de acompanhar todo e qualquer cortejo fúnebre. Desde o inicio do velório até o cemitério. Alguns, — longe de sua presença obviamente — o chamavam de papa-defuntos e diziam — pelo menos os desocupados — que Seu Jura tinha um estranho deslumbre com a morte, pois independente de quem era o falecido — criança, velho, mulher ou quem quer que fosse — era ele o primeiro a chegar ao velório e um dos últimos a deixar o cemitério, bem depois do sepultamento.
Seu Jura era um homem de estatura mediana, com a pele queimada pelo sol devido a incontáveis anos de lida no campo, desde que se entendera por gente. Sua barba sempre bem aparada era branca como um chumaço de algodão, dando-lhe a aparência de uma sábio ancião. Havia uma estranha sombra de mistério sobre seus olhos castanhos cor de âmbar que já perdiam o brilho. Ele caminhava em absoluto silêncio e apenas emitindo longos suspiros entre um intervalo e outro; talvez tivesse receio de que algo estranho acontecesse a qualquer momento.
Esses doridos suspiros mais pareciam um frio sopro de inverno, quem o observasse naquela completa melancolia, deduziria facilmente que o defunto era seu ente mais querido, mas em qualquer velório seu comportamento era sempre o mesmo. Contudo, naquele cortejo em si, havia algo sinistramente diferente. Esse senil senhor parecia um guia bastante rigoroso, uma espécie de arauto da morte, pois sempre caminhava à frente, estando ele carregando o banguê ou não. Com o semblante sempre muito sério, embora forte e confortador, com gestos firmes e determinados, comandava o rito fúnebre. Seguindo sempre em frente, sem demonstrar esmorecimento algum ou considerar qualquer possibilidade de descanso, ensimesmado com seus pensamentos sobre as grandes questões que envolvem os mistérios tanto da própria existência bem como da morte, ele se lembrara de algo que tinha ouvido em algum lugar: “…por ocasião de uma partida ou à beira da morte, um homem é capaz de refletir sobre seus próprios atos, ordinariamente fazem um inventário minucioso de suas ideias e crenças em geral e, nesses momentos, fazem um retrospecto do passado, se questionam de forma incômoda sobre o futuro e, evidente, o que vem depois…
Seu Jura com certeza não tinha a leve noção de seu próprio destino, mas, de alguma forma, sabia com exatidão o que o destino reservava ao nobre defunto que estava sendo, também por ele mesmo, ali transportado. Sendo ele um senhor já bastante experimentado na vida, quase nada temia desse mundo em si, porém, de certo modo naquela manhã em especial, algo o incomodava bastante, deixando os pelos de sua nuca eriçados e com estranhos arrepios que corriam por todo o seu corpo tal como em seu passado, quando ainda era uma criança e tinha medo de quase tudo — em especial a escuridão das noites de tempestades — . Esse estranho sentimento de ansiedade e temor o fazia, vez por outra, olhar para trás, guiando seus olhos até onde a vista alcançava pela infinitude do caminho como se estivesse esperando por algo ou por alguém.
O mais jovem, dentre aquele curioso grupo de carregadores, era o belo e instruído Gottardo Domingues, recém-chegado da capital, onde já era tratado pelos amigos — a maioria um bando de bajuladores — como Doutor Gottardo, pois este, devido a sua aguçada inteligência e prematura entrada nos estudos — como era filho de família abastada, desde pequeno já se via envolvido no mundo das letras e números — logo em breve seria um médico formado. Seu pai Laércio Domingues não poupava elogios para o filho, que aos seus olhos era o grande orgulho da família, — o primeiro doutor entre os Domingues –, pois estando ele, Gottardo, já no terceiro ano da Faculdade de Medicina, o que o pai recebia por parte dos professores e até mesmo do próprio Reitor era laudas e mais laudas pela inteligência e desenvoltura do filho nos estudos — e, de fato, o jovem era um prodígio em seu aprendizado, no entanto, a faustosa doação feita anualmente pelo seu pai à instituição incentivava bastante o aflorar destes elogios — . Ali na região, desde criança, ele sempre fora conhecido pelos mais íntimos como Dominguin e, naquele exato momento, contava com seus vinte e um anos recém completados de poucos.
Dentre os homens adultos, Dominguin era o único homem solteiro daquele grupo, todos os demais eram casados e tinham família formada, com filhos e netos e, no caso de Seu Jura, até mesmo um bisneto já a caminho. O motivo de estar acompanhando aquele grupo não era por amizade ao falecido, muito menos pelo social de representar sua família no velório, até porque o falecido não era bem visto pelo Seu pai, tampouco por sua mãe que temia o finado como uma criança teme os mistérios das trevas. A razão real de um jovem como ele, — quase um doutor — , recém-chegado da cidade grande, com todas as suas libertinas atrações, estar acompanhado aquele humilde cortejo e estar, durante todo o trajeto até ali, se mostrando aos outros como incansável e com um vigor extremo, era o fato de seus olhos estarem pousados sobre a única mulher que acompanhava o grupo.
Essa chorosa criatura era a única filha do então falecido, e acompanhava o grupo com doridos suspiros e pesadas lágrimas que lhe banhavam sua meiga face deixando-a aos olhos do jovem enamorado, ainda mais atraente. Certo era que, Gardênia, mesmo com todos os seus encantos, já era uma mulher madura e tinha quase o dobro de sua idade, mas sempre fora para o jovem Dominguin seu grande amor platônico. Desde sua pré-adolescência, esse letrado jovem cultivava uma ardente paixão pela encantadora filha do afamado feiticeiro Thomás, sentimento esse que lhe rendera incontáveis noites de agonia e sonhos lascivos que, vez por outra, lhe sujava os seus lençóis.
Na cidade grande, Dominguin havia se deitado com inúmeras outras mulheres, mas sua grande obsessão sempre fora ter, um dia, Gardênia entre seus braços e realizar com ela seus mais ardentes desejos. Todas as vezes que se deitava com outra mulher, era ela quem ele via, sentia o perfume dela em outros corpos, via seus ardentes olhos em outras faces. Enfim, Gardênia era, na verdade, para Gottardo Domingues, que sempre tivera de tudo e nada nunca lhe fora negado, uma prenda que parecia estar longe de suas possibilidades até então. Entretanto, agora com a morte de seu pai, estando ela naquele momento de extrema fragilidade, certamente estaria bem mais acessível a uma investida feita com cautela e parcimônia.
Mesmo naquele momento de profunda fragilidade, Gardênia ainda trazia consigo todo o seu encanto que desde sempre fora motivo de plena admiração, contudo, se essa bela mulher por um lado era bastante atraente, com todos os traços que um corpo bem feito pode oferecer, de certo modo era profundamente repudiada por todos aqueles que a conheciam de perto e sabiam de sua história e dos dois únicos homens que um dia ousaram se aproximar dela. O primeiro deles um coronel que se achava acima de tudo e de todos e pensava que o restante do mundo era o quintal de sua fazenda e tudo lhe pertencia; o segundo, um exibido boiadeiro que sempre sorria na face da morte e nada temia, a este último deve ser dado um desconto, pois seu idílio com Gardênia foi um acidente de percurso, mas encontrou um triste fim da mesma forma. A partir de então, essa encantadora mulher havia se tornado uma flor solitária onde todos temiam o odor que ela exalava, pois por mais doce e atraente que pudesse parecer, seu perfume tinha cheiro de morte a quem ousasse apreciá-lo.
Dominguin havia se tornado um belo jovem de corpo atlético, com um bigode muito bem cuidado, cabelo cortado ao estilo dos cavalheiros da capital e mesmo de longe já dava mostras de ser bastante polido e muito instruído. Sendo ele um homem das letras e da ciência, não dava muito importância a certas estórias contadas à beira de uma fogueira para assustar crianças pequenas e mulheres inocentes. Seus atraentes olhos claros não viam esses relatos como concretas ameaças para ele, além do mais, estava embevecido pelos encantos daquela mulher, pode se dizer enfeitiçado até, por toda a beleza que era exalada de cada movimento de Gardênia. Quando soube do falecimento de Pai Thomás, imediatamente se dispôs a prestar seus sentimentos a filha do velho feiticeiro. Sua mãe imediatamente se colocou contra aquela determinada resolução, mas logo o pai, Seu Laércio se interpôs dizendo que ele já era um homem feito e tinha todo o direito de tomar suas próprias decisões. Sua mãe, em contrapartida, tentou dissuadi-lo lhe contando algumas estórias sobre o falecido e seu envolvimento com o mundo das trevas. Dominguin para convencer e deixar sua mãe mais tranquila a abraçou e deu-lhe um estalado beijo em sua testa dizendo logo em seguida:
– Minha doce mamãe, sou um homem da ciência, quase um doutor, pode-se assim dizer. Eu só acredito naquilo que eu vejo e que tenha uma explicação lógica. Não acredito nessas coisas que não existem no meio científico. Aqui no campo ainda paira um misticismo bastante arcaico, essas coisas de bruxarias, espíritos errantes e demônios só servem de explicações para tentar responder de forma conveniente aquilo que essas pessoas ignorantes ainda não conseguem compreender. Para essa gente humilde, muito facilmente uma pessoa com sérios problemas mentais poderia ser confundida com um endemoniado e certamente um padre seria chamado para tentar resolver a questão, ao invés de um tratamento médico-hospitalar sério e eficaz.
– Abençoado aquele que mesmo sem poder ver, ainda assim acredita naquilo que os olhos não podem ver. E não precisa se queimar no fogo para saber de seu violento calor, mas acredita no perigo das chamas, simplesmente pelas histórias de quem assim já o padeceu. Você mesmo meu filho, que se diz um homem da ciência, deveria saber, pelas palavras daquele poeta lá dos estrangeiros; “que existem bem mais coisas entre o céu e a terra do que julga a nossa vã Filosofia…”. — disse sua mãe por fim, mas vendo a resolução nos olhos do filho, não o impediu de ir.
Dominguin era jovem e muito ousado, ainda na flor da idade. É comum ao jovem, transpirando o frescor da juventude, perder o bom senso para o desejo, o amor e a cautela. Qualquer aviso nessa idade soa bem mais como a um desafio ou até mesmo um irrecusável convite. Então ali estava ele, ansiosamente aguardando uma melhor oportunidade para uma investida segura e eficiente. A caminhada continuava de forma obstinada e, depois de quase quatro horas, ainda faltava um terço do caminho. A maioria dos homens já se mostravam exaustos e ansiavam por um breve descanso quando, ao longe, foram avistados quatro cavaleiros vindos por trás na direção do grupo em uma obstinada marcha. O grupo obviamente teria que se afastar um pouco do caminho para dar passagem aos cavaleiros, pois demonstravam estar bastante apressados para algum compromisso de suma importância.
Mesmo de longe ainda era possível discernir que os quatro cavaleiros pudessem fazer parte de algum tipo de batalhão ou algo parecido ao longe, eram os quatro praticamente idênticos. Estavam montados sobre belíssimos corcéis negros de pelo reluzente, e os próprios cavaleiros vestiam negro dos pés a cabeça, galopando rápido na direção do cortejo, mais pareciam quatro manchas negras que cortavam o caminho, criando um contraste curioso no verde da relva ao redor e o branco acinzentado daquela manhã chuvosa que pairava no ar.
Seu Jura ao ver os cavaleiros se benzeu por completo com o sinal da cruz e iniciou um apressada oração em sussurro, como se temesse que algo ou alguém pudesse ouvi-lo. Os demais viam aquilo com certa curiosidade, primeiro porque nunca tinham presenciado Seu Jura agir daquela maneira, demonstrando estar profundamente apavorado e, também, pela novidade daqueles estranhos cavaleiros estarem transitando ali naquele lugar. Nenhum daqueles que compunha o grupo parecia conhecer qualquer um dos cavaleiros, nem mesmo o porquê de eles estarem vestidos daquele modo. A cada passo que os cavaleiros davam, encurtando cada vez mais a distância entre eles, as preces de Seu Jura se intensificava um pouco mais. Até mesmo Gardênia se mostrara incomodada com tudo aquilo.
Dominguin já acostumado a ver todo tipo de estranhezas que pululavam pela capital, não demonstrou qualquer tipo interesse nos cavaleiros, nem mesmo no comportamento absurdo de seu ancião companheiro — que para ele era normal pela sua senilidade — para os demais tudo não passava de apenas uma estranha novidade até o momento que os quatro cavaleiros se emparelharam junto ao grupo e se puseram a disposição para levarem o banguê. Seu Jura que sempre fora uma espécie de guia que regia aquele tipo de evento e até o presente momento havia coordenado todas as ações, estava agora num silêncio sepulcral, meio que paralisado. Quem o observasse com mais atenção naquele momento, diria facilmente que nenhum músculo de seu corpo se movia, temendo até mesmo soltar o ar de suas narinas.
Assim que os cavaleiros solicitaram a honra de conduzir aquela funérea carga, — solicitaram — , é o certo a dizer, pois foi assim mesmo que se sucedeu, não foi apenas um cavaleiro quem falou, mas os quatro de uma única vez, como se apenas um falasse, mas o som das vozes vinha das quatro direções ao mesmo tempo, uma voz cavernosa e firme, quase como uma ordem inquestionável dada por um terrível superior ao seus temerosos subordinados. Como Seu Jura nenhuma palavra dissera e nem ao menos um único gesto demonstrara em contrário a solicitação dos negros cavaleiros, logo, também ninguém se opusera — pois a grande maioria ansiava por logo se verem livres daquela pesada carga. Assim que o primeiro carregador entregou sua parte do banguê ao primeiro cavaleiro, logo fora acompanhado pelos outros que também entregaram suas devidas partes. Seu Jura estava paralisado como uma estátua e nem sequer ousara levantar os olhos, como se naquele exato momento, tivesse vendo estampado no chão toda a verdade do universo ou apenas temesse olhar para os cavaleiros.
Contudo, Dominguin, que fora o último a entregar sua parte do banguê, olhou para a face do ultimo cavaleiro, mas não conseguiu ver muita coisa, a maior parte de seu rosto estava coberta por uma espessa barba negra e a imensa aba do chapéu que também era preto bem como o restante de toda a indumentária, entretanto por um breve relance imaginou ter visto parte dos olhos do cavaleiro ou aquilo que deveria estar no lugar de onde deveria haver olhos. Dominguin teve a impressão de ter visto dois profundos abismos no lugar dos olhos, mas tudo foi muito rápido, por que assim que esse último cavaleiro suspendeu sua parte da carga, logo esses quatro cavaleiros se afastaram em um trote rápido, como se o cortês auxílio prestado àquele exausto grupo fosse, na verdade, uma importante missão para eles. Estando eles, ainda a menos de vinte metros de distância, disseram os quatro em uníssono ou talvez apenas um falasse e a voz ecoou como se fosse os quatro ao mesmo tempo, o som da fala era muito estranho, e bastante sinistro, tanto que, a todos causou arrepios, até mesmo o douto Dominguin teve sua dose de temor, experimentando certo receio, quando ouviu os cavaleiros dizerem:
– Thomás! Thomás! Como esse sempre tomara mais…
Assim que os quatro cavaleiros disseram essas lacônicas palavras, estando eles já de posse daquela funesta carga, seguiram a trote rápido pelo caminho afora numa velocidade que não seria possível para um homem comum conseguir acompanhá-los a pé, talvez nem mesmo montado a cavalo. Quanto mais se afastavam mais a velocidade de seus cavalos parecia aumentar, de certo modo, vistos já bem distantes dava a estranha impressão que pudessem estar voando sobre a estrada, como um pássaro em um voo rasante pairando sobre as águas.
Seu Jura demonstrando estar terrivelmente assustado, não dissera uma única palavra, apenas se aproximou de Gardênia e tocando em seus ombros com as mãos trêmulas de uma forma bastante paternal, olhou no fundo dos olhos dela e após dar um longo suspiro, iniciou a caminhada de volta pelo caminho por onde até então estavam vindo. Pela primeira vez em toda sua vida, aquele senil senhor abandonava um velório antes de seu término — fato esse que causou estranheza a todos os presentes –. Como muitos ali, estavam apenas prestando uma última gentileza a uma indefesa e inconsolada filha e tinham vindo acompanhando Seu Jura para o auxiliar no transporte do falecido, assim que esse — de forma ainda incompreendida — iniciou o seu retorno para casa, também logo, o seguiram para seus determinados afazeres. Gardênia e seu filho continuaram em frente, pois deveriam chegar até o cemitério para onde o corpo de seu pai estava sendo levado para assim que recebesse as determinadas exéquias, pudesse em fim descansar em paz no local de sua ultima morada.
Dentre os companheiros que iniciaram a jornada, desde a casa de Pai Thomás, ainda de madrugada, apenas três seguiram Gardênia pelo caminho — dois deles provavelmente tinha algum tipo de negócio a resolver na distante corrutela ou apenas estavam ansiosos para saberem o desenrolar daquele estranho acontecimento. Dominguin, agora livre do peso que estava carregando nos ombros, se colocou ao lado de Gardênia e a acompanhou, bem próximo, esperando avidamente pela oportunidade de travar algum tipo de diálogo com ela, todavia manteve o silêncio que ela havia predeterminado para si naquele triste momento, silêncio que se quebrava somente pelo suspiro profundo e dolorosamente sofrível.
Dominguin, vez por outra, a olhava de cima a baixo, sem poder acreditar que as estórias que os desocupados da região contavam sobre aquela meiga e indefesa mulher pudessem de alguma forma ter um mínimo sequer de verdade. Segundo ele — um homem que vivera por anos na capital, rodeado das inovações tecnológicas da ciência e das comodidades do progresso — as estórias que contavam sobre seu falecido pai e seus estranhos e inverossímeis poderes paranormais era uma completa bazófia. O que havia acontecido aos dois homens que tiveram relacionamentos com ela, teria sido apenas simples acidentes do acaso e logicamente teria uma explicação cientifica plausível para cada caso em si. Coronel Guilhermino, que havia morrido bem antes dele nascer, fora acometido por algum tipo de doença que carecia de diagnóstico correto e tratamento adequado, já o boiadeiro Emanoel havia sofrido uma queda de sua montaria, apenas um trágico acidente de trabalho comum a qualquer um que se destina a esse tipo de função.
Naquele momento seus interesses eram bem maiores do que dar ouvidos a estórias contadas pelos caminhos e varandas ao luar sobre maldições, pragas e magia negra ou qualquer coisa que o valha. De qualquer forma não seria nem um pouco cavalheiresco de sua parte abandonar tão bela dama ali, no meio do caminho naquele momento tão triste. Além do mais ele não tinha muita coisa para fazer naquelas terras do sem fim. Depois de uma profunda discussão interna consigo mesmo, decidiu que deveria a qualquer custo acompanha-la até o fim. Como já haviam caminhado bem mais do que a metade da distância, e como o tempo dava mostras de melhorar um pouco, aceleraram o passo e seguiram pelo caminho. Todos de cabeça baixa e no mais absoluto silêncio…
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O Paciente das 18h
Todos os acontecimentos aqui narrados aconteceram entre o verão de 2020 e o inverno de 2021. Resolvi reunir todos meus registros sobre o caso, cada nota, cada página…
MidjourneyAI
Todos os acontecimentos aqui narrados aconteceram entre o verão de 2020 e o inverno de 2021. Resolvi reunir todos meus registros sobre o caso, cada nota, cada página de meu diário, cada mensagem trocada, cada relato, a fim de que outras pessoas possam se proteger daquilo que eu mesma, infelizmente, quase não pude.
Mesmo após anos de carreira e estudo, podemos nos surpreender por pacientes com demandas muito… singulares, eu diria. Apesar de todo o preparo que recebi para não impor minhas crenças, conceitos e princípios às pessoas que atendo e que buscam meu consultório, devo admitir que nunca fui tão desafiada, tão pressionada, tão questionada quanto fui com o último paciente que atendi como psicóloga clínica.
Antes de começar sua leitura, preciso que acredite em cada palavra que escrevi, pois, todas são verdadeiras, mesmo aquelas que pareçam impossíveis ou carregadas de angústia e desespero. Mesmo que não acredite, peço que se mantenha atento, afinal, existem seres que se parecem conosco, falam como nós, se comportam e, talvez, até um dia tenham sido mesmo pessoas comuns, mas hoje estão além de qualquer atribuição comum — embora eu creia que até exista uma, porém ela é fantasiosa demais para ser escrita aqui.
Não se deixe seduzir. Não se deixe levar pelo desejo ou pelos gracejos. Isso pode custar sua vida.
5 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Dei por encerrados os atendimentos do dia. Já era tarde e eu precisava liberar Laura, secretária da clínica, para ir descansar. Não lembro ao certo, mas creio que atendi mais de quinze pacientes hoje e estou exausta. Me despedi dela, desejei um ótimo final de semana e disse que eu mesma fecharia a clínica.
Desliguei as luzes do consultório, guardei meu caderno e notebook na bolsa. Fechei a porta. Fui à recepção, acionei o alarme, tranquei a entrada no tempo de o alarme se armar.
Meu carro estava, como de costume, em frente à clínica. Entrei, joguei a bolsa no banco do passageiro e resolvi verificar as mensagens do celular. Havia, como sempre, mensagens de alguns pacientes (que Laura prontamente responderia na segunda-feira de manhã) e pouquíssimas mensagens pessoais (somente minha mãe comunicando um almoço em família, o que eu certamente ignorei).
Me dei conta de que a rua estava muito vazia e silenciosa, então resolvi guardar o celular dentro da bolsa e colocá-la debaixo do banco.
Pessoalmente não acredito em instinto, ou algo parecido, mas fui abatida por uma sensação estranha. Angústia, medo, como se eu estivesse sendo observada. Olhei ao redor, através dos espelhos do carro, porém nada encontrei. Resolvi ignorar. Liguei o carro e voltei para casa, que fica há poucos minutos da clínica.
Como sempre, sem trânsito.
Ao chegar em casa atualizei os registros de alguns pacientes e dei meu trabalho encerrado por hoje.
Uma taça de vinho é minha companheira enquanto escrevo essas páginas.
7 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Ontem descansei como não fazia há muito tempo. Fui ao parque, caminhar pela manhã. Passei o restante do dia lendo e vendo alguns filmes.
Hoje cheguei antes do horário. Abri a clínica como de costume e fiz café. Laura chegou pouco depois de mim. Ela é sempre muito prestativa e companheira. Está cursando psicologia e, assim que se formar, quer atender junto comigo, aqui mesmo. Fico feliz de tê-la ao meu lado.
Como sempre, tive a agenda cheia até tarde da noite.
Meus pacientes são, em sua maioria, adultos, embora eu atenda alguns adolescentes, casais em processo de divórcio, executivos à beira de um burnout, jovens que em breve irão prestar vestibular… é uma diversidade muito grande de casos.
O último paciente do dia desmarcou em cima da hora. Isso é raro de acontecer. Mesmo assim, eu e Laura ficamos na clínica, conversando sobre o andamento da faculdade dela. Estava no quinto semestre e tirava ótimas notas.
O telefone tocou. Interrompemos a conversa, as risadas, e eu mesma atendi.
A voz ao telefone era de um homem, muito sereno e quase alegre por falar diretamente comigo. Ele disse que gostaria de marcar uma consulta para aquele mesmo momento. Eu disse que, infelizmente, não havia mais horários disponíveis para hoje, mas que poderíamos marcar para o dia seguinte, logo cedo. Ele foi categórico, quase contrapondo a postura que tinha até então, e me perguntou se haveria algum horário depois das 18h. Confirmei a disponibilidade e ele ficou feliz novamente. Disse que estava ansioso em me conhecer. Nos despedimos e liberei Laura.
Ao voltar para casa, mantive meu hábito de atualizar alguns prontuários.
Logo fui invadida pela lembrança daquela ligação. Um novo paciente. Mesmo após anos de profissão, ainda fico um pouco ansiosa quando alguém novo aparece. Meus pacientes estão todos comigo há muito tempo e, geralmente, minha agenda não comporta mais, então eu encaminho para outros profissionais, amigos da faculdade.
Por sorte, eu diria, havia um último horário disponível para o dia seguinte.
Vou preparar a ficha dele e dormir.
8 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Pontual, exatamente às 18h, ele chegou à Clínica e tocou a campainha. Eu sei, pois, Laura me contou, dado que a campainha só toca na recepção. Eu estava encerrando um atendimento naquele instante. Laura o recebeu e, mais tarde, quando estávamos a sós, ela me disse que, mesmo após abrir a porta para o homem, ele esperou. Fitou os olhos e a entrada da clínica, como se esperasse um convite. Ela então disse para ele entrar e ficar à vontade, pois logo seria atendido. Assim, abrindo um sorriso, o homem agradeceu e entrou.
Seus cabelos eram curtos e muito bem cortados. Seus olhos eram castanhos, num tom avermelhado que eu jamais havia visto. Seus dentes eram incrivelmente brancos e sua pele bem cuidada.
“Raphaël” era seu nome, exatamente como escreveu na ficha. Deve ter origem francesa ou algo do tipo.
Vestia um belíssimo terno. Sapatos engraxados e a camisa aberta, sem gravata.
— Ah, doutora! É um grande prazer conhecê-la! — E me estendeu a mão, em cumprimento. Eu aceitei sua oferta e imediatamente senti seu aperto de mão firme e seguro, como poucos homens costumam fazer.
Eu o levei até a porta do consultório e fiz menção para que entrasse. Ao entrar, logo após ele, senti um vento gelado que me fez arrepiar. Muito provavelmente veio da janela que deixei aberta, dentro da sala. Por um instante, ele parecia uma criança, curioso e fascinado com tudo que via. Ficou parado por alguns segundos, no meio da sala, enquanto eu fechava a porta.
— Onde devo me sentar? — Perguntou, olhando para as duas poltronas disponíveis. — Onde achar melhor.
Ele olhou mais um pouco e decidiu, como quase todos os pacientes, a sentar-se na mais próxima. Eu me sentei na outra poltrona, de frente para ele.
Ele estava realmente encantado com tudo que via, desde a estante repleta de livros até a mesa de centro.
— As pessoas choram muito aqui? — Perguntou, ao ver a caixinha de lenços na mesa de centro. Eu não respondi, especialmente porque ele não pareceu dar atenção à própria pergunta que fez.
— Então, como começamos? — Ele cruzou as pernas, se apoiou confortavelmente e me olhou nos fundos dos olhos, ansioso.
— Quer falar um pouco de si? — Eu faço uma pergunta simples, para que o paciente comece a elaborar a partir daí.
— Sempre tive muita curiosidade para saber como era dentro de um consultório, para saber como tudo isso funciona. As pessoas entram, falam sobre suas vidas e saem bem. Não sei que tipo de magia é essa que os psicólogos possuem, mas estou interessado nela. — Ele respirou profundamente. — De toda forma, não é sobre isso que vim falar. — Um pequeno silêncio pairou sobre nós — Eu li muitos livros, muito mais do que consigo contar. Tenho uma coleção tão grande quanto a sua. — E apontou para trás, para a estante.
— Sobre o que você lê? — Perguntei, novamente.
— Ah! Muitas coisas! Sou um homem muito curioso. A curiosidade nos mantém entretidos! — Seus olhos brilharam. — A curiosidade mantém uma mente ocupada, e uma mente ocupada é uma mente saudável, não é? — Então, me olhou novamente nos olhos, buscando uma resposta. Com um gesto, concordei. — Eu li seu currículo.
A fala soou estranha e desprendida, mas não era raro novos pacientes pesquisarem por mim na internet. As pessoas gostam de saber para quem estão olhando.
— Excelente formação acadêmica. Diversas pós-graduações. Pesquisas sobre prevenção ao suicídio… acredito que você é a pessoa perfeita para me ajudar.
Aqui a sessão tomou outro rumo. O paciente descruzou as pernas, se projetou para frente e, com os dedos entrelaçados e apoiados no queixo, me olhou ainda mais profundamente nos olhos.
A essa distância pude ver que seus olhos, sob a luz do consultório, eram mais vermelhos do que eu pensara ter visto.
— Eu tenho tido sonhos… como não tinha há muitos e muitos anos. — Com o que sonha? — Sonho que estou sendo perseguido. É dia e o sol queima no céu. Eu corro tentando me proteger, enquanto uma turba me persegue, armados. — Ele faz uma pausa, quase desconfortável, e continua — Eu não sonho, e não deveria sonhar. — Por que não deveria sonhar? — Pergunto. — Eu… não durmo o suficiente para sonhar. Para entrar naquela profundidade de sono onde os sonhos nascem, você entende. — A resposta parecia inventada de última hora, e soou falsa. — Como o sonho continua? — Ah! A curiosidade do psicólogo… bem, eu me sinto incapaz de continuar a fugir. Eu poderia, em outras circunstâncias, facilmente lidar com todos eles, mas, por algum motivo que me foge da compreensão, não consigo! Então eu sinto… — Ele parou, apreensivo. Alguns segundos se passaram, que pareceu verdadeira eternidade — Eu sinto medo.
O paciente transpareceu uma expressão de pesar. Então, se levantou. Caminhou pela sala, correndo as mãos e os dedos pelos móveis. Parou em frente à estante.
— Freud… Jung… Lacan… — Se referindo aos autores. — Você não lê fantasia? Romances? — Novamente, não respondi. Era claro que ele se esquivava constantemente dos reais motivos que o levavam até ali. O pensamento sobre medo o perturbou ao ponto de se levantar e buscar comentar sobre qualquer outra coisa.
Olhou o relógio em seu pulso e disse, em tom surpreso, que já precisava ir.
— Mas ainda temos trinta minutos… — Acredito que já progredimos o bastante por hoje. Foi um prazer conhecê-la! Posso voltar neste mesmo horário, na semana que vem? — Vou confirmar e te retorno até amanhã cedo. — Que assim seja! — Respondeu abrindo a porta e partindo.
Confesso que fiquei intrigada com aquele comportamento. Em raras situações vi pacientes evitarem tão arduamente determinados assuntos. Ele simplesmente saiu, incomodado com suas próprias palavras. De toda forma, semana que vem ele voltará, e poderemos progredir.
8 de dezembro
Nota retirada do caderno de Laura
Vi o novo paciente sair às pressas do consultório, no meio da sessão. Ele parecia apressado para algum compromisso. A doutora nada disse sobre, apenas me dispensou mais cedo e fechou, ela mesma, a clínica.
Aqui, na faculdade, não consigo me concentrar na aula, então resolvi escrever.
Antes de sair, ele parou ao lado da porta, abotoando o último botão do paletó. Me levantei e fui abrir a porta para ele. Quando toquei a maçaneta, senti sua mão quente sobre a minha. Um arrepio gelado me subiu pela espinha quando vi seus olhos fixados aos meus.
Só pude fingir constrangimento e pedir desculpas. Ele se despediu e saiu, me desejando boa noite.
14 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Outro dia repleto de atendimentos. Cheguei em casa há poucos minutos e estou exausta. Só percebi agora que sequer almocei. Estou um pouco tonta.
Antes de dormir, vou atualizar alguns prontuários e preparar as coisas para amanhã.
14 de dezembro — Mais tarde, naquela mesma noite
Diário da Dra. Camila
É incrível como podemos ser vítimas de diversos acontecimentos quando estamos em um estado de exaustão. Agora pouco eu poderia jurar, com toda a minha convicção, que ouvi três batidas na porta. Levantei, assustada, e me aproximei. Não ouvi nada lá fora. Voltei a dormir.
15 de dezembro
Diário da Dra. Camila
O paciente Rafael (não vou me acostumar a escrever “Raphaël”) voltou, como era esperado. Antes dele entrar, percebi que Laura estava um pouco pálida, mas ele adentrou o consultório antes que eu pudesse perguntá-la se tudo estava bem.
O paciente se sentou e começamos a sessão.
— Peço desculpas por ter saído às pressas na semana passada. Me dei conta de que estava atrasado para um compromisso que não poderia deixar de comparecer.
— Tudo bem… E como foi a semana?
— Creio não ter te contado, mas me mudei recentemente. Vim para São Paulo lidar com questões familiares, eu diria.
— E como tem sido a adaptação?”— Perguntei.
— São Paulo é uma cidade enorme… Muitas pessoas e todas elas muito… agitadas. A cidade não dorme, como dizem por aí, e eu gosto bastante disso. — Ele fez uma pausa, como se procurasse uma forma de expressar algo. — A senhorita costuma sair à noite? — Perguntou. Respondi que não tinha esse hábito desde antes da faculdade. — É uma pena. A noite reserva diversões bem… peculiares… sobre o sonho, gostaria de falar mais sobre ele.
Eu tinha certeza de que ele voltaria a esse assunto, uma hora ou outra, mas não esperava que fosse tão rápido.
— Ele continua, quase todos os dias… Eu sou perseguido, sem chance de reagir, e quando estou acuado eu acordo. — Perguntei a ele que sentimentos este sonho trazia. Ele parou e refletiu, por um bom tempo. Eu esperava que a palavra “medo” surgisse novamente. — Não sei dizer. — Respondeu, com os olhos fixos no chão.
— Angústia? Raiva? — Sugeri.
— Ah, não! Eu não vivencio tais sentimentos há mais tempo do que consigo lembrar!
— Ser perseguido e atacado deve trazer sentimentos ruins… — Sugeri novamente.
Ele esboçou um sorriso tímido, o suficiente para mostrar seus dentes incrivelmente brancos.
— Sim, deveria! Mas eu não os tenho, como te disse. Não sei dizer o que sinto.
— Percebo que o que te preocupa mais é o fato de sonhar do que o sonho em si.
Ele cerrou os olhos, que agora pareciam castanhos novamente.
— Creio que você tem razão… E digo mais! Creio que ambos os fatos são estranhos para mim! Afinal, sequer me lembro do último sonho que tive, além deste. Por que deveria eu sonhar agora? Seria um aviso, como alguns acreditam? Uma premonição vinda do inconsciente? Um receio guardado tão profundamente que só veio à tona agora? O que acha? — Disse, empolgado.
— Freud dizia que… — Comecei, até ele me interromper abruptamente.
— Eu sei o que Freud dizia! Já li todas as suas obras, mais de uma vez. Tomei a liberdade de pesquisar muito sobre o assunto antes de vir procurá-la. Sonhos são a manifestação do inconsciente, não? É através deles que nossos desejos reprimidos vêm à tona, mas numa linguagem que não entendemos.
Então, ele se aproximou, sentando na ponta da poltrona, projetado na minha direção.
— Eu sei o que os livros falam, doutora, mas eu não quero ouvi-los, quero ouvir a senhorita.
A voz dele se tornou ríspida, árida e desafiadora. Ele queria uma resposta, uma solução, mas somente ele poderia encontrá-la.
— Sonhar é normal e comum a todos, desde que você tenha uma boa noite de sono. — Respondi, e continuei — Agora, por que acha que as pessoas o perseguem?
Ele voltou a se recostar na poltrona, mais relaxado.
— No sonho, você diz? — Perguntou, então confirmei com um gesto.
— Ah, sim! Eles têm medo! — Respondeu, quase rindo novamente.
— Eles sentem medo?
— Sim! Sentem! Posso ver isso em seus olhos enquanto estão furiosos atrás de mim. Medo, doutora, o mais profundo e visceral medo, eu diria!
Neste ponto, acredito que o paciente esteja projetando seus próprios sentimentos, por mais que os renegue, aos seus perseguidores.
Um vento gelado entrou pela janela, me fazendo arrepiar. Levantei-me e a fechei.
— A noite está linda, não está? — Perguntou, atento a cada movimento meu.
Quando sentei e fiz menção de continuar, ele se levantou.
— Veja só! Preciso partir. Creio que avançamos o suficiente!
Sessões tão curtas e breves não permitem um bom progresso. Sugeri marcamos mais cedo para a próxima semana, sugestão que foi negada prontamente por ele.
Saiu às pressas, assim como na semana passada.
15 de dezembro
Nota retirada do caderno de Laura
O mesmo paciente voltou. Novamente, saiu rápido do consultório, poucos minutos depois de entrar. Parou em frente à minha mesa e tirou um envelope pardo. Disse que ali havia dinheiro suficiente para quitar sua dívida e adiantar as próximas sessões.
Quando peguei o envelope, enquanto abria, me dei conta de que o paciente não estava mais lá. A porta estava entreaberta e não percebi quando saiu. Me sinto inquieta.
21 de dezembro
Diário da Dra. Camila
O Natal se aproxima. Minha mãe insiste que eu vá às comemorações da família, mas não me sinto à vontade para isso. Todos os anos é a mesmíssima história: jantares chatos, comentários desagradáveis e uma competição estranha por “sucesso”.
Este ano acho que vou abrir uma garrafa de vinho em casa e maratonar alguma série. Preciso descansar…
21 de dezembro — Mais tarde, naquela mesma noite
Diário da Dra. Camila
Isso deve ser uma piada! Ouvi as mesmas três batidas na porta há poucos minutos. Acordei num sobressalto e fui, com uma faca, até a porta. Novamente, ninguém. Deve ser algum engraçadinho tentando me assustar.
22 de dezembro
Registros pessoais do policial Jonathan
Essa cidade é uma merda. Toda noite é uma novidade… agora os viciados começaram a matar animais! Toda noite aparecem mortos um… dois… às vezes até três animais de rua.
Imagina ter que limpar essa merda toda… todo dia uma novidade!
Se não forem os viciados deve ser algum desafio entre jovens ou sei lá. Se essa porra continuar vou ter que abrir uma investigação, e como sempre vai sobrar pro meu rabo.
22 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Estive cheia de atendimentos e o dia passou rápido. Atendi o penúltimo paciente antes do horário e fiquei esperando as tão aguardadas 18h.
Fui ao banheiro e voltei. Perguntei a Laura se nosso paciente havia chegado, ela disse que ainda não.
— Ora, perdoem minha falta de modos!
Não tenho ideia de onde ele veio, mas estava na porta do consultório, com os braços cruzados, quase impaciente. Tentei esconder o susto, mas creio que meu semblante tenha transparecido.
— Como a porta estava aberta, tomei a liberdade de entrar. — Disse, sereno.
— Ah, tudo bem! Vamos entrar… — Meu coração ainda estava acelerado pelo susto e vi, pelo canto do olho, Laura quase que paralisada pelo acontecimento.
Antes de entrar, peguei um copo d’água na recepção.
— Noite quente? — Perguntou, quase que em deboche. Não respondi e fiz menção para entrarmos, fechando a porta em seguida.
Ele se sentou na mesma poltrona de antes. Cruzando as pernas e entrelaçando os dedos. Sentei-me e perguntei como havia passado a semana.
— Ah, muito bem. Tenho me acostumando cada vez mais com a cidade grande, me sinto vivo! — Disse, transparecendo uma empolgação que eu, poucas vezes, vi antes.
Reparei, novamente, em seus olhos. Estavam mais vermelhos e menos castanhos que da última vez, deve ser a iluminação da sala.
— Doutora, preciso perguntar uma coisa. — Então, assumiu a clássica postura projetiva, sentando-se na ponta da poltrona e se inclinando sobre a mesa de centro. Pegou a caixa de lenços e começou a lê-la.
— Você já desejou a morte? — A pergunta foi fria e direta.
— Não, nunca. — Respondi, o mais calmamente possível.
— Ah, que bom! Pois eu a desejei por várias vezes. — Disse, com uma calma que eu jamais pensei em ver em alguém que admitia, abertamente, pensamentos suicidas.
— Está dizendo que já desejou morrer?
— A grande surpresa aqui é a senhorita nunca ter desejado a morte! Mas não é esse o ponto… O ponto é que lembro com clareza de quando isso aconteceu. Faz tanto tempo que por pouco não esqueci por completo. — Soava estranho ouvir tantas vezes menções a acontecimentos tão distantes, sendo que ele havia relatado ter apenas trinta anos de idade. Mantive a atenção e o foco na narrativa. — Eu estava distante, muito distante, na Itália. Já conheceu a Itália doutora? — Neguei com um gesto, e ele continuou — Uma pena! A Itália possui lugares onde eu facilmente escolheria viver até o fim dos tempos!
— Você disse que foi lá que os pensamentos sobre morte começaram… — As respostas iriam aparecer.
— E sim, de fato foram! Reflita comigo, doutora, quando você observa algo tão lindo, por tanto tempo, poderia este algo permanecer tão belo quanto a primeira vez que seus olhos pousaram nele? Claramente não! A experiência, o momento, é único e, após perdido, jamais retorna. Foi exatamente aí que percebi que lugar algum neste planeta me faria feliz pelo tempo que desejo.
— Então você pensou em morrer?
Ele riu alto.
— Talvez! Ou teria sido antes? Não sei dizer…— Como sempre, se recostou na poltrona, voltando a relaxar. — Quando você vive sem medos, doutora, a vida se torna um tédio infindável. Hoje, nada me falta. Aprecio meu trabalho e o faço com prazer. Possuo uma casa grande o suficiente para me acomodar por muito tempo. Possuo fortuna abundante herdada de meu pai. Que mais ei de querer?
Agora o cenário começa a se desenhar. Ele é um herdeiro entediado e começou a refletir sobre a vida.
— E como é sua relação com esse pai? — Estamos progredindo.
Ele deu de ombros, com um sorriso no canto da boca.
— Eu mal o conheci. Tivemos um relacionamento intenso e extremamente curto, eu diria. Depois disso, nunca mais o vi. Recebi um comunicado quando ele morreu, me declarando herdeiro de todas as suas poses. Eu era jovem e creio ter aproveitado muito bem as oportunidades que me foram dadas. — Senti um tom amargo e pesado em sua fala. Tive receio de que desse a sessão por encerrada e tentei buscar mais respostas.
— Você relaciona o tédio com a morte. — Quando eu disse, ele rapidamente me olhou nos olhos, focado. — Como se o tédio fosse te consumir e tirar de você a vida. — Arrisquei. Ele refletiu em silêncio por alguns minutos. É um dos poucos pacientes que sustém o silêncio, a maioria se sente incomodado e fala o que vem à cabeça.
Levantou-se devagar, pensativo.
— Veja só, que horas são. Preciso partir. Retomamos na semana que vem? — Eu disse que vamos entrar no pequeno recesso de Natal e ano novo, e que vamos retomar na primeira semana de janeiro. Ele não pareceu satisfeito, mas concordou.
22 de dezembro
Nota retirada do caderno de Laura
Beleza, tem alguma coisa muito estranha acontecendo. Aquele cara simplesmente apareceu do lado de nós duas! A porta não estava aberta, eu tinha acabado de olhar pra ela uns, sei lá, dois segundos antes disso tudo!
Eu não suporto aqueles olhos vermelhos me olhando…
24 de dezembro, véspera de Natal
Diário da Dra. Camila
Me permiti ficar em casa, em paz e tranquilidade. Já separei o vinho, os salgadinhos e a série. Quero dormir até tarde e descansar.
24 de dezembro — Mais tarde, naquela mesma noite
Diário da Dra. Camila
Devo ter caído no sono sem perceber, ou o vinho me derrubou. Não tenho ideia como, mas acordei de pé, de frente para a porta, e ela estava aberta. As chaves estavam na minha mão. Será que tive um episódio de sonambulismo? Isso nunca me aconteceu antes. Depois preciso perguntar para mamãe se existe histórico disso na nossa família…
É surreal a sensação de acordar e estar de pé, quase saindo de casa. Mal posso imaginar o que poderia ter acontecido.
Bem, chega de vinho nos próximos dias.
25 de dezembro — Natal
Registros pessoais do policial Jonathan
Odeio trabalhar no Natal, mas prefiro isso do que ter que trabalhar no Ano Novo. Ninguém merece.
Estou na delegacia, tomando um café enquanto vejo o noticiário da madrugada. O caso dos animais mortos só piora e, pra melhorar tudo, agora uma pessoa apareceu morta! Deve ter algum cachorro ou outro bicho andando por aí, porque o corpo tinha as mesmas marcas que encontramos nos animais, como se fossem pequenos furos no pescoço. Será que tem um morcego andando por aí? Mas que caralho de morcego conseguiria matar uma pessoa?
25 de dezembro — Natal
Diário da Dra. Camila
Fazia muito tempo que eu não descansava decentemente… A rotina entre atendimentos e relatórios era tudo que eu tive desde que me formei na faculdade. Me tornei referência na área, atendendo mais casos do que sou capaz de lembrar. Até escrevi alguns livros sobre terapia cognitivo-comportamental e casos específicos que atendi.
Agora, tudo que quero, é me desligar, nem que seja por alguns dias, das responsabilidades e obrigações.
Respondi a pouco a algumas mensagens desejando um feliz Natal.
Vou ao mercado comprar algo especial para o jantar.
25 de dezembro — Natal, à noite
Diário da Dra. Camila
Me sinto tão linda. Coloquei um vestido que não usava a muito tempo e que serviu perfeitamente em mim. Preparei uma ceia farta (até demais para uma única pessoa) e até pus a mesa! Deixei tocar uma lista de músicas clássicas, que deixaram a casa com uma atmosfera maravilhosa e acolhedora.
Pensei em convidar Laura para cear comigo, mas acredito que a coitada queira um pouco de privacidade depois de um ano inteiro trabalhando ao meu lado.
Vou tomar uma, e somente uma, taça de vinho, somente para relaxar e aproveitar melhor o fim da noite.
25 de dezembro — Natal, mais tarde naquela mesma noite
Registros pessoais do policial Jonathan
Como sempre digo, essa cidade sempre é uma novidade. As investigações tomaram outro rumo depois que outro corpo foi encontrado. Dessa vez, havia algo diferente. O corpo não havia sido apenas mordido, mas destroçado. Seria irreconhecível se não fossem as digitais preservadas. A merda é que o exame deve levar dias, talvez semanas, até retornar quem era o viciado que virou jantar de algum bicho.
Por sorte, dessa vez achamos duas testemunhas e uma câmera que pegou de relance o responsável por essa insanidade: um cachorro. A imagem era péssima, desfocada e parecia acelerada, mas dava pra ver um cachorro enorme, preto, que cruzava a rua e desparecia.
Essa cidade é absurda de dia, e ainda mais de noite.
Não virei policial para dar conta de cachorro, mas olha essa merda! A porra do cachorro destroçou um homem adulto como se fosse nada.
Amanhã cedo vou acionar o centro de controle de animais e passar esse caso de merda pra frente.
26 de dezembro — A noite
Diário da Dra. Camila
Acho que o tempo de descanso, aliado do pouquíssimo vinho que tenho tomado, devem ser os responsáveis pelas alucinações visuais que tenho tido a noite, mas essa foi muito, muito vívida pra mim, tanto que estou escrevendo isso tonta e com as mãos trêmulas.
Eu estava na cama, coberta e acomodada, quando sofri um episódio do que deve ser terror noturno. Não consegui me mover, estava paralisada por completo, mas consciente de tudo ao meu redor. Olhei ao redor, tomada de terror e medo. Minha visão estava borrada, turva, mas eu reconheci claramente a imagem de um gato preto, grande, sentado no pré da minha cama, me olhando nos fundos dos olhos, que pareciam dois rubis. Eu não tinha um gato fazia muito, muito tempo, e a vizinhança não era receptível com eles. Por onde ele entrou? A casa estava completamente fechada, desde as janelas até a porta, e eu tinha certeza absoluta de que tranquei tudo antes de me deitar.
Contrariando toda a lógica e probabilidade, lá estava ele. Escuro como a noite, imóvel como uma estátua, com aqueles dois pontinhos brilhosos na escuridão.
Me esforcei ao máximo para me mover, nem que fosse um único e pequeno movimento, mas falhei. O terror noturno é apavorante, mesmo quando você o conhece.
Tentei gritar, mas minha boca sequer se moveu.
Eu estava indefesa, desprotegida, sem chance alguma de reagir a qualquer coisa. E o gato continuava ali, imóvel como uma esfinge.
Em um pulsar, ele pareceu maior e mais próximo. Comecei a sentir um desespero visceral, que me corroía os ossos.
Aquilo não era um gato.
Mergulhei em seus olhos rubi e adormeci profundamente, como nunca havia adormecido antes.
28 de dezembro
Nota retirada do caderno de Laura
Faz dias que eu não tenho uma noite de sono decente. Eu me sinto observada, em casa, na rua, em qualquer lugar. Talvez o estresse do final de semestre na faculdade tenha encadeado alguma condição clínica em mim… Eu durmo e acordo assustada, como se escapasse por pouco de algo.
A privação de sono tem surtido efeito… Minha memória anda péssima e minhas capacidades cognitivas estão ridiculamente baixas… se eu estivesse em época de prova estaria ferrada.
Estamos no final do ano, eu deveria estar dormindo doze horas por dia, mas sequer consigo dormir três horas seguidas…
Se tudo isso continuar, vou procurar ajuda.
30 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Desde o terror noturno não mais problemas em dormir. Tenho tirado tempo para caminhar no parque, continuar meu último livro, que estava parado havia meses, ouvir música e pôr a leitura em dia.
Me sinto linda, jovem e disposta como nunca estive antes.
31 de Dezembro
Registros pessoais do policial Jonathan
Trabalhei durante o Natal e agora vou ter que trabalhar no final do ano! Já estou farto dessa porra de trabalho… ainda estou preso no caso dos ataques noturnos, especialmente agora que mais meia dúzia de corpos, dilacerados, ocupam as mesas de autópsia do centro médico. Os veterinários levantaram hipóteses absurdas sobre o culpado dos assassinatos… Cachorros de raças de grande porte, leões, animais exóticos… Eu estou convencido que existe um assassino em série aqui, e que ele tenta a todo custo despistar a polícia.
A real é que não sei o que achar… nunca vi um caso assim e é praticamente impossível rastrear um culpado.
3 de janeiro
Diário da Dra. Camila
Amanhã voltam os atendimentos. Me sinto descansada e preparada. Só existe uma coisa que tem me incomodado… Laura não responde minhas mensagens.
Lhe desejei um feliz Natal e um ótimo ano novo, ela nem mesmo viu as mensagens e tampouco as respondeu. Resolvi não fazer caso, afinal, Laura deve estar entretida com a família e pode não ter respondido por achar se tratar de mensagens sobre o trabalho. De toda forma, amanhã nos veremos e podemos pôr o papo em dia.
O paciente das 18h confirmou a sessão para amanhã, disse que estava ansioso para contar as novidades e que a terapia seria “chocante”, seja lá o que ele queira dizer com isso.
Às vezes é difícil se ausentar pelo período das férias, mas é necessário e até terapêutico para alguns pacientes.
Estou empolgada para rever Laura contá-la sobre meus últimos dias.
4 de janeiro- Pela manhã
Diário da Dra. Camila
Laura não deu notícias e tampouco foi trabalhar. Meu coração ficava cada vez mais apreensivo com o passar das horas e sem o mínimo sinal dela. Não recebeu minhas mensagens, não atende o celular e nem mesmo sua família dá notícias sobre seu paradeiro. Se ela não aparecer amanhã vou tentar outras formas de comunicação.
Precisei seguir o dia sozinha e cuidar da recepção e dos atendimentos.
4 de janeiro- A noite
Diário da Dra. Camila
Com anos de profissão ainda me surpreende que os pacientes possam trazer acontecimentos que me façam questionar as minhas próprias noções de realidade. Isso aconteceu hoje.
Rafael, o estranho e singular paciente das 18h, apareceu e, como da última vez, com sua repentina entrada cheia de mistério. Quando seu horário chegou, surgiu dentro do consultório, me dizendo que a porta estava aberta e que tomou a liberdade de entrar. Não sei como ele faz isso, mas vou por algumas hipóteses à prova na próxima semana.
Ele estava empolgado, corado e, arrisco dizer, até jovial. Seguiu me contando animadamente sua rotina durante o recesso, animado com suas descobertas sobre a “cidade grande” que São Paulo é. Parecia uma criança quando me contou que passou horas sentado em um café na Avenida Paulista, observando as pessoas que entravam e saíam, tentando prestar atenção em cada detalhe, desde suas roupas, seus gestos, sua forma de falar… Tudo isso dramatizando cada fala, como em um teatro.
Pela primeira vez, a sessão foi do começo ao fim, de forma fluida e vaga. Não nos aprofundamos em nenhum dos temas anteriores e ele parecia completamente renovado.
Ao chegar em casa, tentei contato com Laura pelas redes sociais, mas ainda sem resposta…
8 de janeiro
Diário da Dra. Camila
Estou horrorizada… mal consigo escrever estas palavras sem deixar escapar as lágrimas… Laura está morta.
Pelo relato da polícia, ela foi atacada dentro do próprio quarto, por um animal ou algo do tipo. O sepultamento ocorreu ontem pela manhã, sem velório… Meu coração dói profundamente.
Acompanhei a cerimônia e o breve discurso ao lado de sua família. Pai, mãe e irmão, todos extremamente abalados pela brutalidade do acontecimento.
Contive as lágrimas e a dor até agora pouco, quando cheguei em casa.
Estou devastada… vou cancelar os pacientes da próxima semana e tentar me recompor.
6 de janeiro — Último registro
Nota retirada do caderno de Laura
Eu não consigo dormir… não consigo comer… tem alguma coisa muito errada comigo… estou ficando sem desculpas para justificar o porquê passo o dia inteiro no quarto.
Estou sem forças, sem vontade… até arrisco dizer que estou vivendo um quadro depressivo, embora não tenha a menor ideia de como isso começou.
Não consegui nem mesmo pegar o celular para responder a doutora, que deve estar preocupadíssima comigo…
O pior de tudo são os sonhos… faz dias que tenho o mesmo sonho: Estou paralisada, completamente imóvel, e me sinto observada, como uma presa indefesa. Vejo a figura de um homem alto, com dois pontos vermelhos onde seriam os olhos. Ele me olha com desejo, raiva, crueldade… A cada noite ele se aproxima e eu tenho medo, muito medo, do que pode acontecer hoje.
11 de janeiro — A noite
Diário da Dra. Camila
Minhas mãos tremem e preciso me concentrar para escrever a insanidade que acabei de viver. Preciso que alguém acredite em mim.
Cancelei todos os atendimentos da semana, para tirar tempo para me recompor pela perda da Laura. Todos os pacientes compreenderam bem a questão e não insistiram. Exceto um. O paciente das 18h disse que precisava urgentemente falar comigo e foi inflexível. Eu disse que marcaria nossa sessão para o primeiro dia disponível. Ele nada respondeu e desligou o telefone.
Eu adormeci, com o rosto inchado e vermelho pelas lágrimas.
Acordei durante a noite e peguei o celular para conferir que horas eram. Exatamente 3h3. Meu coração disparou e deixei escapar um grito curto quando percebi que tinha alguém no quarto. Era o paciente das 18h!
Estava ali, tão real e vivo quanto eu estou agora, escrevendo isso. Sentado, com as pernas cruzadas e os dedos entrelaçados, me observando dormir.
Com o susto, deixei o celular cair e ele apagou, mergulhando o quarto na escuridão quase que total, apenas iluminado por um facho de luz vindo da pequena abertura na janela.
Ele não disse uma única palavra, permanecia imóvel e observador. A quanto tempo estava ali? Minutos ou horas? Isso já foi muito além da relação entre paciente e terapeuta!
Fiz menção de pegar o abajur da mesa de cabeceira, para tentar usar como arma, mas fui interrompida:
— Eu não faria isso se fosse você, senhorita. — Ele estava perto demais para que eu conseguisse fugir ou pegar qualquer coisa para usar como arma. — Tem um copo de água ao seu lado. Tome e vamos conversar.
Olhei para a outra mesa de cabeceira, do lado esquerdo, e realmente tinha um copo d’água ali. Deve ter algo ali, pensei.
— É seguro, beba.
Peguei o copo e tomei, sem tirar os olhos dele. Agora eu tinha um objeto, de vidro, que podia usar contra um possível ataque.
— Desculpe entrar deste jeito, mas não havia outra forma. Eu preciso da senhora e nosso encontro não poderia ser adiado.
— Quando você invadiu a minha casa cruzou uma linha que não deveria ser cruzada. — Respondi, tentando permanecer calma.
— Invadi? Ah, não! Você mesma me convidou, não se lembra?
A porta… A única vez que abri a porta sem perceber foi durante o episódio de sonambulismo. Mas eu tenho certeza de que havia fechado a casa inteira hoje. Que absurdo era esse?
— Só adentro ambientes aos quais sou convidado, senhorita. Sou educado e jamais ousaria entrar na casa de uma dama que não houvesse aberto as portas para mim.
Eu precisava lidar com aquilo. Eu poderia jogar o copo nele, correr até a porta, mas a essa distância não tinha como ter certeza se estava ou não aberta.
— As coisas fugiram um pouco do… Controle. — Disse, tomando um ar sombrio e quase vulgar. — Acho que me deixei levar pela febre da cidade grande e errei a mão em alguns momentos. A senhorita deve entender.
— Do que está falando? — Estava difícil manter a compostura perante uma cena insana como aquela.
— É chegada a hora de algumas verdades, doutora. — Ele se levantou, parecendo muito maior do que eu me lembrava. — Existem coisas que se parecem com seres humanos, andam, agem e até falam como, mas não são. Coisas que vagam pela Terra a tanto tempo que sequer se lembram do fatídico primeiro dia de suas novas vidas. Coisas, doutora, que veem pessoas belas e coradas como você como rebanho.
Era muita informação para processar, mas eu precisava estar atenta a narrativa e pensar em uma forma de escapar dessa loucura.
— Eu sou assim, há mais tempo do que me recordo. Meu sangue não corre, meu coração não bate e eu preciso de vocês para continuar assim! — Enquanto falava, seus dentes se tornavam mais brancos e seus caninos mais pontudos. — Note, bela dama, que não me orgulho de nada que fiz! Mas fiz por necessidade. Vim para São Paulo com esperança, devo admitir, esperança de encontrar alguém que me ajudasse a entender minha condição. Como viemos a descobrir, existem coisas que não devem ser compreendidas, apenas aceitas!
Minha mente vagueou e o terror tomou conta de mim.
— Aceitas! Sim! — Em uma fração de segundo, ele estava perto de mim, tão perto que consegui sentir o calor do seu corpo e suas mãos em meu rosto. Aproximou sua boca de meu ouvido e sussurrou — Cansei de tentar negar a fera que habita em meu interior. Cansei de manter oculto a vontade bestial de dilacerar, caçar e de tirar a vida. — Estava tomada pelo terror e por uma sensação de submissão. — Monstros foram feitos para serem monstros, doutora.
Em um espasmo de coragem consegui virar o copo com força contra ele, mas, no mesmo instante, seu corpo não estava mais lá, mas próximo à janela, fazendo com o que o copo espatifasse na parede.
— Hostilidade não combina com você.
— Saia já da minha casa! — Exclamei, com as forças falhando.
— Durma! — Foi a última palavra que lembro de ouvir, antes de acordar pela manhã, tonta, e com os cacos de vidro ao lado da cama.
Estou a horas sentada no canto do quarto, tentando entender tudo que vivi… até onde aquilo foi real? Até onde foi uma alucinação? Até onde posso confiar em meus próprios sentidos? Minha mente colapsa diante de tantas perguntas sem resposta…
Estou exausta, confusa, dolorida e apavorada.
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…