A Erva Maldita

MidjourneyAI

Vou ter que passar um fim de semana na casa do José e, francamente, eu não gosto de ir para a casa dele. A euforia dele não me cabe, era como se ele tivesse esquecido o nosso Halloween do ano passado.

Infelizmente o meu gás está com vazamento e o José é o único que ainda restou do nosso grupo… não tenho escolha a não ser ir para lá.

Eu moro na periferia e ele mora na cidade. Eu não estive a par das notícias, pois tenho trabalhado muito em meu novo livro. Ao chegar no terminal da cidade, as pessoas estavam evitando comentar sobre um tal de “jinra”.

Quase que passei no terminal que estava esse tal que não pode ser mencionado, para mim era um pouco distante de certa forma, e de problemas eu já estou cheia.

Cheguei a casa do meu amigo e ele ainda estava no trabalho, mas deixou tudo preparado para mim. Fui desfazer a minha mala. Aproveitei para dar uma volta em sua casa, que eu não me lembrava que era tão grande. A decoração estava completamente diferente da última vez que vim aqui.

11 meses atrás

Eu ganhei um desconto para viagem em grupo. O pacote foi agradável ao nosso bolso; assim comemoramos nosso Halloween naquele parque tão famoso. Entre meus amigos estavam José, Sara, Thays, Lorena e eu… bom, levei meu gatinho Jason. Aquelas mochilas de passeio de gato foram uma das melhores invenções que já fizeram. Assim, nunca me distancio do meu bichinho querido.

A viagem foi bem divertida no caminho, até mesmo quando chegamos ao parque que estava vazio, para minha surpresa — já que era muito conhecido. Nos Dias das Bruxas ele era bastante visitado. Mas isso não foi empecilho para a diversão e a adrenalina correrem soltas em nossa trupe.

A Sara foi a primeira a correr para a trilha. Ela foi a única das meninas que foi de calças; os galhos não machucaram as pernas dela. As outras meninas sofreram um pouco. Bom, eu também sofri um pouco, pois fui de vestido. E o Jason estava pesando um pouco nas costas.

Na trilha do parque tinham árvores com setas que determinavam um caminho. Foi fácil seguir, já que as setas eram gigantes. “Por que eles fazem isso tão grande????”

Chegamos ao destino e era o lugar mais lindo do parque. Tinha um campo de lavandas e borboletas de todas as cores. Tinha uma estalagem próxima em que a entrada tinha a aparência de uma caverna — bem insólita e sem grandes acabamentos. Era praticamente só a “pedra”, e ainda bem que levamos dois colchões de ar de casal.

Não levou muito tempo para que Sara se perdesse. Ela estava de calças, mas a mente dela não era tão ágil quanto aos perigos de se afastar do grupo. A Thays e a Lorena estavam atrás dela, enquanto o José e eu estávamos enchendo os colchões de ar.

Coloquei a casinha do Jason em um lugar com vista para as lavandas. Não poderia soltar meu bichano até encontrar uma maneira de fechar essa entrada. Não posso perder meu filhinho felino.

As meninas retornaram com Sara e ela voltou pálida. A mesma tinha se perdido no meio dos compartimentos da caverna que, aparentemente, era enorme por dentro. Não posso falar com afinco, já que não andei muito. Meu vestido estava com alguns carrapichos; tive que tirar de um por um para não me cortar, e, logo que terminei, me estirei no colchão.

Fizemos nossa janta especial e com o aplicativo de vela, tivemos um jantar à luz de velas modernizado.

Tiramos algumas fotos no campo de lavanda. O Jason saiu fofo em todas elas.

Fui me deitar um pouco mais cedo do que os meus amigos. Estava completamente exausta não tenho o costume de sair de casa. Trabalhar por conta própria tem as suas vantagens. Mas também criei o hábito de dormir cedo.

03:33

A hora exata em que eu acordei, a Sara havia sumido. José e Lorena estavam procurando por ela. A Thays era um pouco assustada e tímida, minha companheira de colchão que esperava um tempo de procura para me acordar. Olhei para a minha mochila de modelo espacial e meu gato não estava. Me levantei num susto e já fui logo abrindo minha vela do aplicativo para participar da busca.

Quando a Sara tinha falado sobre as muitas entradas cujas quais eu não tinha acreditado, a caverna era imensa por dentro. Eu pensei que era só um ponto de descanso depois da trilha. Mas agora entendo que ela era a única “hospedagem” para os visitantes do parque. Então, o espaço tinha que ser grande, meio que não ter lotado no nosso dia.

Me deparei com o José correndo com a Sara nos braços e ela estava em transe. O corpo dela estava paralisado e alguma coisa havia deixado ela em choque. A Lorena estava vindo atrás e como ela não tinha certeza de nada, percebi que meu gato não estava entre eles.

A Thays estava vigiando as nossas coisas; caso alguém voltasse ela estaria de prontidão. Não imaginava que algo assustador iria acontecer, então, não preparamos uma caixa de remédios ou algo do tipo. Mas eu entendia de ervas e remédio caseiro. Tinha uns machucados no braço da Sara, cegamente. Ela ainda sofreu um choque, mas aos poucos foi se recuperando.

— Sara o que aconteceu com você? — Thays disse calmamente.

Eu ainda pensei no Jason. Minha amiga estava ficando bem. Mas eu não consigo parar de pensar no meu gatinho.

— Eu fui dar uma volta com o gatinho, para ele sair um pouco da mochila dele. Só que ele se assustou com um barulho e saiu correndo, acabou me arranhando e fui correndo atrás dele sem ter noção para onde estava indo. Aqui é maior do que eu imaginava. Sinto muito, Maria, mas eu perdi o seu gatinho.

— Ele não passou por aqui. Estou vigiando não só as coisas, mas também essa única entrada que conhecemos. — Thays me ajudou a tranquilizar.

— Quando o José encontrou a Sara, eu ouvi um barulho baixo vindo de algum lugar da caverna; parecia um eco baixo, mas acredito que possa ser o miado do Jason. — Lorena falou

Isso me deu uma ponta de esperança e eu fui com a Thays em sua procura. Os demais estavam descansando. A Sara estava aparentemente bem e os riscos já estavam sarando, o que me deixou feliz. Talvez a erva tenha surtido efeito rápido.

A Thays era minha amiga virtual e a gente se viu poucas vezes. Essa era nossa primeira viagem juntas. Ela saia mais com os outros do grupo — eles tinham mais papéis juntos. Eu sou mais recatada e fico entre meus livros e meu gato.

— Vamos encontrá-lo!!

Eu dei um suspiro e abaixei os ombros tristemente.

Chegamos ao ponto em que encontramos José com a Sara e a Lorena. Seguimos o caminho e escutei um miado. Sacudi a vasilha com a ração para chamar o Jason. Ele adorava o barulho da ração mexendo no pote e sempre vinha correndo para ganhar sua recompensa por ser a coisa mais linda do mundo.

Fomos para a esquerda; eu já estava com um braço apoiado no braço de Thays. Com a outra mão eu sacudia a vasilha. E ela nos guiava pela vela do aplicativo. Descobri uma outra saída depois de andar em algum tempo, só que essa saída não dava para o parque. Ela dava para um caminho isolado de pedras e nada verde. Estava muito frio e eu não conseguia enxergar quase nada.

Eu senti um tremor vindo de Thays, não sei se era de frio ou de medo. Mas também nunca saberei…

— Por aqui, venham… — uma voz sedutora nos guiava.

Miauu

Sacudi a ração desesperada e chamei o Jason. Senti um eriçar na panturrilha e pensei que fosse meu gato me acariciando. Mas não era ele ainda; estava com muito frio e meus pelos estavam arrepiados.

— Thays??? Thays???

Eu me desencontrei dela. Estava preocupado em meus pensamentos e só pensando no Jason e na voz que ouvi.

— Maria??? Vem logo por aqui, segue a vela.

A Thays me encontrou e a bateria do celular estava fraca. Ela estava um pouco agitada e as mãos dela estavam muito geladas. Eu ouvi um estalo e depois um barulho ensurdecedor; ouvi um rosnado, e minha amiga também não estava mais aqui. O celular estava com ela e esse caminho de pedras não estava nos levando a nenhum lugar.

— Thayssss?????

Comecei a ficar mais nervosa e a ansiedade estava querendo atacar. Era Dia das Bruxas e eu estava apavorada. Talvez fosse alguma travessura do parque.

Fui seguindo caminho sem enxergar nada, só na base do tato e tentando colocar pensamentos positivos na mente.

— Maria??? — José me chamava de algum lugar distante.

Levei um baque muito grande quando meu gato pulou em mim. Ele saiu me arranhando todo. Fiquei feliz por encontrá-lo, mas ao mesmo tempo assustado com a raiva que ele me arranhou. Os olhos dele eram vermelhos, e eu enxerguei outros olhos vermelhos e não era de bicho, era de gente. E tinha mais ou menos a minha altura.

— Quem é você? O que fez com meu gato?

— Eu sou aquilo que você não acredita. — A mesma voz sedutora de antes.

— O que você quer com a gente? Tem alguma câmera escondida aqui? É uma pegadinha? Você já está me assustando.

— Não existe câmera, não tem pegadinha, e eu só quero o seu pescoço.

— Por que você quer o meu pescoço? Você vende muitos filmes de terror e quer bancar um vampiro? — Tirei onda para esconder meu nervosismo.

— Eu sou tudo aquilo que temem e não acredito. Já fiz de duas amigas suas, minhas súditas. Em breve a transformação será completa e dessa caverna vocês não sairão. Seu gato também já se tornou um de nós.

Eu comecei a ficar cada vez mais assustada, eu não estava acreditando muito nessa baboseira. Mas eu sou bruxa e acredito em tantas coisas, astrologia, energias, viagem no tempo, mas nunca tinha pensado em vampiros. Com medo mesmo eu comecei a correr.

— Onde você pensa que vai?

Grrrrrr grrrrrrr

O Jason não parava de rosnar. Derrubei a ração no chão, fui correndo para algum lugar. Acabei me esbarrando com o José que já tinha me chamado distante.

— Temos que sair daqui o mais rápido possível. A Sara nos contou o que de fato aconteceu e nos mostrou uma mordida com duas pontinhas finas. Ela estava assustada, estava muito pálida e começou a delirar depois de nos contar a verdade. Quem mordeu foi o Jason, ele estava com uma mulher de cabelos compridos loiros. Ela era muito pálida e estava com um vestido medieval.

Eu não queria acreditar em nada disso, não sei se era a mesma mulher de voz sedutora que falava comigo. Eu só consigo enxergar os olhos vermelhos.

— Onde está a Thays?

— Eu não sei. Tinha uma mulher onde eu estava, que disse que iria transformar minhas amigas em suas súditas. Onde está Lorena?

— Ela saiu assim que você foi procurar o Jason. Ela ficou muito assustada e disse que as energias do lugar eram intensas. Ela saiu sozinha e disse que nos encontraremos depois.

— Você não está assustado?

— E por que eu estaria? É Halloween, coisas acontecem nesse dia. — Falou com confiança.

Tentei ser complacente, mas não saia da minha mente a voz daquela mulher e meu gato que me machucou com seu pulo alvoroçado.

Chegamos ao nosso acampamento e Sara não estava; ela deixou um bilhete dizendo “Não retornem, fujam o quanto antes. Estou sentindo a transformação; não quero matar vocês”

Peguei minhas coisas e a mala espacial do meu gato… hum… eu não estou preparada para isso. Arrumamos nossas coisas e o José parecia estar ciente de tudo, achando que era apenas tudo uma pegadinha. Tentei levar na esportiva, mas minha intuição dizia que não estava certo. Que tinha algo macabro nessa caverna. E se de fato os vampiros existiam?

Já estava amanhecendo quando chamamos nosso carro de aplicativo para nos levar até a estação de ônibus de viagem. Meu coração não estava tranquilo, não conseguia relaxar nem um pouco. E para variar, o José estava muito tranquilo. Ele conseguiu dormir o caminho todo sem se preocupar com as meninas. Carreguei meu celular e tinha uma mensagem da Lorena dizendo que estava bem.

Como ela estava bem? Ela chegou a tempo em casa? Ainda era madrugada, acho que não tinha nem ônibus esse horário? Minha cabeça não parava de fazer questionamentos.

Chegamos em casa, cada qual na sua. Meu coração não parava de latejar com saudades do meu bichano. A casa era vazia sem ele, cada espaço era preenchido com a fofura dele e agora só resta eu e minha mente — que tem mais palavras que um calhamaço.

Passaram-se três dias do acontecido e meu coração ainda estava pesado.

Segui minha vida em frente, mas não quis adotar outro gato; eu ainda tinha esperanças de encontrar o Jason e ficar tudo bem.

Atualmente

— Oi Maria? Você está bem? Quer alguma coisa?

José havia chegado em casa e estava com os pés azuis.

— O que isso nos seus pés? E por que está descalço?

— Isso é só a Jinra. O ônibus deu prego, tive que andar a pé até o terminal que não é tão usado. Não sei se você está sabendo da notícia. Mas tem uma erva que começou a nascer perto desse terminal, e ela contamina a pessoa, fazendo-a delirar. É tipo uma água azul que depende do tom azul. Ela tem um efeito mais “profundo”. Eu entrei pela porta errada do terminal e acabei pisando, mas já lavei meus pés por lá, é só esperar sair a mancha e vai ficar tudo bem. Eu estou bem e feliz por você estar aqui. Já faz alguns meses que não nos vemos, né?

Eu queria ter essa confiança que ele tem sobre tudo. Fiquei divagando se ele não estava assustado com essa tal de jinra. E se ele ainda pensou nas meninas — que desde o Halloween se afastaram da gente. Na verdade, nunca mais nos vimos pessoalmente.

No próximo mês vai fazer um ano do acontecido e as memórias desse dia seguem intactas no meu diário e na minha mente.

— Estou bem! Me organizei, posso descansar? Não estou muito animada hoje.

Menti. Eu não queria conversar com ele. Achei tudo muito estranho e desconfortável. Queria minha casa triste e melancólica. Resolvi sobre um tal jinra que eu nem sequer sabia antes, fiquei totalmente desprovida de informações depois que me afastei das redes sociais. Essa erva, segundo alguns sites místicos, ela foi criada para deixar as pessoas loucas, isso tudo era carma da sociedade que não cuidava bem do nosso país. Em outros sites mais ocultos, sabiam que uma bruxa poderosa havia colocado uma praga somente nesse terminal, porque ela tinha morrido queimada na idade média. Alguns outros hereges da internet falam coisas bem absurdas. E cientificamente eram só vários compostos químicos que deram errado e acabaram ficando apenas nesse lugar da cidade.

Acabei dormindo com o celular na mão. Quando acordei estava tudo escuro. Cocei os olhos e tomei um susto. Eu estava na caverna novamente. Como eu vim parar aqui? O José que me trouxe? Por que ele faria isso?

— Oi, Maria, ainda bem que acordou. Vamos terminar o que começamos no ano passado. — A bendita voz sedutora

— Como você? Por quê?

Seu — amigo me fez um favor e trouxe você até aqui. Ele estava sob meu domínio desde que veio aqui. Eu esperava que ele trouxesse você somente no próximo mês para fechar o Dia das Bruxas com o ritual completo. Mas como ele está delirando e com os pés azuis, acredito que aconteceu algo. Mas isso não importa. Pois agora você vai se juntar as suas amigas.

Meu coração não parava de palpitar e quanto mais acelerado ele ficava, mais assustada eu fiquei; e estava beirando a crise do pânico.

— Não consegui me apresentar da última vez. Meu nome é Thammy. Agora teremos uma longa jornada para montar nosso coven de vampiros. Seremos tão fortes que todos irão nos temer. Não vejo a hora de sair dessa caverna e todos os homens caírem aos meus pés. Vamos transformar todas as mulheres e elas finalmente serão livres na escuridão profunda, enquanto nossos homens escravos irão trabalhar para nós durante o dia.

Eu só devo estar sonhando, não é possível. Olhei para o José e ele estava batendo os dedos na parede da caverna, como se estivesse tentando fazer um buraco na pedra só com os dedos.

— Seu amigo passou no meu teste. Ele ficou fiel a mim desde que vocês vieram aqui.

Grrrrr grrrr

Miaauuuu

— Jason?? Você ainda está vivo? Estou aqui, venha para a mamãe.

Meu gato pulou em mim com euforia e me deu uma mordida no pescoço. Meu sangue jorrou e senti muita dor. Meu coração estava acelerado, eu não sabia se estava morrendo. Mas de uma coisa eu tinha certeza: eles me trouxeram para o clã. E eu já não era mais a mesma. Fui transformada por um gato. Ao menos era um que eu amava.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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