As bases da perfeição

O vampiro Lázaro, cujo nome escolhido revelava sua ânsia por renascimento, atravessara séculos de opulência e extravagância, mas há…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O vampiro Lázaro, cujo nome escolhido revelava sua ânsia por renascimento, atravessara séculos de opulência e extravagância, mas há muito deixara para trás a vida de riquezas. Havia doado seus tesouros e, com eles, todas as ilusões de grandeza que sustentara por tanto tempo. Na atualidade, escondido sob a identidade de um professor universitário de literatura, ele dava aulas sobre autores mortos que falavam das inquietações da alma. Seus alunos admiravam a beleza imaculada de seus traços: os cabelos negros sempre meticulosamente alinhados, a pele de alabastro que resplandecia à luz suave das lâmpadas do campus. No entanto, poucos notavam a angústia profunda que cintilava em seus olhos, uma tristeza que nenhum toque de juventude eterna poderia esconder. 

Lázaro retornara ao convívio com os mortais, escolhendo enfrentar as dificuldades e as misérias que a sociedade contemporânea reservava a quem ousasse viver de um ofício intelectual. Acompanhava as greves e os protestos estudantis, observava os jovens lutarem contra um sistema de exploração implacável e via de perto o desgaste e a exaustão dos professores, seus colegas, obrigados a lidar com salários indignos e a precariedade das condições de trabalho. Enquanto assistia a tudo isso, sentia a contradição entre sua imortalidade intocável e a fragilidade humana. Por mais que se esforçasse para compartilhar a dor e a decadência ao redor, sabia que jamais seria realmente um deles. 

Certa noite, após um dia extenuante na universidade, Lázaro voltava para casa, cortando caminho por um parque que se estendia em amplas simetrias de alamedas de árvores e canteiros geométricos. A névoa que cobria o lugar deixava as formas vagamente definidas, como um esboço do mundo real, e o silêncio parecia comprimir o ar, tornando-o quase palpável. Lázaro sentiu um arrepio atravessar-lhe a espinha quando seus olhos captaram uma forma peculiar no centro de uma pequena praça abandonada: uma escultura de um humanoide cuja simetria era tão perfeita que beirava o inumano. O rosto, em particular, possuía uma beleza idêntica em cada lado, cada traço replicado com precisão de um lado ao outro do eixo imaginário que o dividia ao meio. 

A estátua, aparentemente esculpida em mármore branco, emanava uma estranheza que fez o vampiro hesitar. Ao se aproximar, notou uma inscrição na base: Ad perpetuam harmoniam. Por alguma razão que ele não compreendia de imediato, Lázaro sentiu uma repulsa quase visceral. O horror diante daquela simetria impecável trouxe-lhe à mente uma memória antiga, de quando ele próprio ainda era jovem e humano: o rosto de um amante, cuja perfeição facial lhe provocava uma sensação de inquietude insuportável. Aquele amor fora efêmero e marcado pela indiferença gélida do outro, como se Lázaro, com todos os seus defeitos e anseios, fosse incapaz de encontrar reciprocidade na perfeição daquele ser. 

Enquanto olhava a escultura, Lázaro percebeu que o horror da simetria residia na ausência de humanidade, na falta das assimetrias que tornam um rosto belo verdadeiramente vivo. Cada detalhe harmonioso da estátua parecia zombar da angústia de ser humano, como se insinuasse que a imperfeição e a dor eram meras falhas a serem corrigidas, traços insignificantes que a simetria podia aniquilar. Ele recuou um passo, com uma estranha sensação de que a estátua o observava, mesmo com olhos esculpidos em pedra cega. 

Nos dias que se seguiram, Lázaro notou que a imagem da estátua o perseguia. Ele a via em reflexos distorcidos, em desenhos que os alunos rabiscavam nos cadernos e até nos padrões de rachaduras na parede de sua casa. Parecia uma presença espectral, como se o mármore em si carregasse uma consciência alienígena que tentava comunicar algo indizível. Em uma noite de insônia, decidiu voltar à praça e encarar a estátua uma última vez. Dessa vez, a névoa estava ainda mais densa, e ele teve a impressão de que as formas das árvores e das sombras se organizavam ao redor da escultura em padrões igualmente simétricos. 

Ao se aproximar, um pensamento horrível surgiu: e se a simetria fosse, em última análise, a perfeição da morte? A ausência de vida, de caos, de desequilíbrio. Ele se aproximou até tocar o mármore frio e, ao fazê-lo, sentiu um lampejo de dor. Uma memória longínqua irrompeu em sua mente — lembranças de momentos em que sacrificara parte de sua humanidade para tornar-se imortal. Lázaro compreendeu, então, que sua beleza eterna era uma forma de simetria monstruosa, um equilíbrio antinatural entre a vida e a morte, um estado suspenso que aniquilava tanto a experiência humana quanto a decadência. 

Enquanto os pensamentos o assaltavam, ele se deu conta de que a perfeição da estátua representava uma força que tentava apagar as irregularidades do mundo, eliminar os defeitos e igualar todas as coisas. A busca pela beleza perfeita era, na verdade, um caminho de aniquilação. A simetria negava o dinamismo da vida e instaurava uma ordem de imobilidade. Era uma ameaça sutil, presente na própria estrutura da sociedade, que exigia rostos inexpressivos e corpos idealizados, vendendo a ilusão de perfeição enquanto esmagava qualquer forma de resistência ou originalidade. 

Lázaro recuou da escultura, sentindo uma amargura insuportável. Ele percebeu que sua própria busca pelo equilíbrio — seja entre a vida e a morte, ou entre a pobreza e a opulência — era igualmente fútil. A perfeição, assim como aquela simetria opressora, jamais lhe traria a paz que ansiava. Era necessário aceitar as imperfeições e os desequilíbrios como parte essencial da existência. Por mais que sua beleza imortal o mantivesse preso ao exterior perfeito, ele precisava, de algum modo, abraçar as assimetrias internas, os erros e as cicatrizes que carregava. 

Deixando a praça envolta em névoa, Lázaro seguiu seu caminho, determinado a viver entre os humanos, com suas misérias e excentricidades, sem nunca mais desejar a perfeição que sua imortalidade lhe concedia. Sabia que, embora o horror da simetria pudesse ser perturbador, a verdadeira beleza residia nas imperfeições que davam vida e significado às coisas. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Palíndromo de carne

Ada Reinier. Esse era seu nome; os dois nomes formavam um palíndromo, graças ao bom Deus, ela repetia, como um mantra que afastava o caos..

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ada Reinier. Esse era seu nome; os dois nomes formavam um palíndromo, graças ao bom Deus, ela repetia, como um mantra que afastava o caos. Não sabia por que, mas nascera com uma obsessão pela perfeição, pela simetria. Dito isso, ela sabia que jamais se casaria, pois teria que modificar seu nome. 

Qualquer imperfeição era uma ferida que queimava seu pensamento até o limite. Quando se machucava, sempre feriria o outro lado. Um equilíbrio imposto, necessário para o silêncio em sua mente. Sentia um contentamento, uma espécie de prazer débil, ao observar os dois lados cicatrizando por igual. 

Então, por que o médico se recusava a livrá-la desse fardo, negando-lhe a paz de um corpo simétrico, mesmo que mutilado? Ele não aceitara remover o outro seio, o perfeito, deixando-a aprisionada na imperfeição. A irregularidade a dilacerava mais que o bisturi. O médico cirurgião não entendia. Como podia manter sua sanidade enquanto sua própria carne a traía com uma assimetria que não conseguia suportar? Por que ele não aceitara fazer a mastectomia? Perguntava-se, já com a faca em riste. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Círculo Sem Fim

Ao entardecer, Ana caminhava sozinha por uma rua vazia, o eco de seus passos se misturando ao som distante de folhas secas sendo arrastadas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ao entardecer, Ana caminhava sozinha por uma rua vazia, o eco de seus passos se misturando ao som distante de folhas secas sendo arrastadas pelo vento. O cheiro do asfalto quente invadia suas narinas e a fazia franzir a testa. Sentia como se já tivesse passado por ali antes, mas não conseguia se lembrar de quando. Cada janela fechada, cada esquina parecia lhe sussurrar algo, um segredo esquecido. 

“Você já esteve aqui”, a voz em sua mente murmurava, insistente, e a sensação de déjà-vu se intensificava. Ana balançou a cabeça, tentando afastar a estranha familiaridade. “Isso é loucura”, pensou, forçando-se a ignorar o arrepio que subia pela nuca. A lógica lhe dizia que nunca havia caminhado por essa rua, mas a intuição gritava o contrário. 

Quando Ana dobrou a esquina, avistou Lara e Júlio, amigos de longa data, parados à frente de um portão enferrujado. Estavam imóveis, de costas para ela, como se a esperassem. O choque de vê-los ali, em um lugar onde não deveriam estar, fez seu coração acelerar. Não era possível que eles soubessem de sua caminhada. 

“Vocês me seguiram?” Ana perguntou, tentando esconder o nervosismo na voz. 

Lara se virou lentamente. Seu rosto estava pálido, os olhos distantes, como se não estivesse realmente ali. “Ana, não fomos nós que te seguimos. Foi você quem nos trouxe até aqui.” 

Júlio, sem mover os lábios, murmurou uma resposta: “Você sente isso, não sente? Como se tudo isso já tivesse acontecido... exatamente assim.” A voz dele era baixa e arrastada, como se viesse de um lugar muito distante, de uma memória perdida no tempo. 

Ana recuou um passo, a sensação de déjà-vu esmagando sua razão. Tudo naquela cena parecia errado, como uma fotografia borrada. O portão enferrujado se agitava com o vento, rangendo como uma voz rouca, e a rua ao redor parecia tremer, distorcendo-se. Por um instante, ela sentiu que a realidade se partia como vidro, e uma segunda imagem, sobreposta à primeira, mostrava Lara e Júlio com expressões aterrorizadas, os olhos vazios, como se tivessem sido esvaziados de qualquer vida. 

“O que está acontecendo?” Ana sussurrou, dando mais um passo para trás. Mas a rua parecia não ter fim, e os detalhes se repetiam, como um loop interminável. Os mesmos galhos secos rolando pelo chão, o mesmo cheiro pesado de asfalto. 

Lara deu um passo à frente, o rosto ainda inexpressivo. “Você já tentou sair daqui antes. E sempre termina voltando.” 

Ana queria gritar, mas a voz lhe faltava. As palavras de Lara ecoavam em sua mente como um presságio, enquanto o déjà-vu se transformava em algo mais profundo, mais horrível — a sensação de que aquele instante era eterno, uma prisão para a qual sua mente retornava repetidamente. E quanto mais ela tentava escapar, mais percebia que o mundo ao seu redor não era feito de ruas e casas, mas de lembranças. Lembranças de uma tragédia que ela não podia compreender, mas que, de algum modo, já havia testemunhado. 

De repente, Júlio ergueu a mão, apontando para o portão enferrujado. “A única saída está lá, mas você nunca teve coragem de atravessar.” A voz dele era um sussurro frágil, quase como se não quisesse que ela o ouvisse. 

Ana olhou para o portão, que parecia pulsar com uma vida própria, a ferrugem crescendo como veias em uma pele doente. Sentiu a mente vacilar, enquanto flashes de uma memória distante vinham à tona: ela e os amigos, rindo juntos na mesma rua, antes que algo terrível os separasse para sempre. Mas a lembrança se fragmentava antes que pudesse entender, e o déjà-vu a arrastava de volta àquele momento interminável. 

Tomada por uma súbita urgência, ela correu em direção ao portão, sentindo o chão vibrar sob seus pés. Antes que pudesse alcançá-lo, porém, a realidade ao seu redor começou a se desfazer, as cores se esvaindo e os sons se distorcendo. Lara e Júlio se tornaram vultos indistintos, suas vozes um murmúrio distante. E, quando Ana tocou o portão, tudo se desfez em escuridão. 

Ela abriu os olhos, de volta à rua vazia ao entardecer, exatamente onde começara. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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No Coração dos Labirintos

[O labirinto do quarto de tua mente vagante e doente ensaio do mundo lá fora...] Em uma cidade onde a luz se tornara uma memória distante…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

[O labirinto do quarto de tua mente vagante e doente ensaio do mundo lá fora...]

Em uma cidade onde a luz se tornara uma memória distante, Harry encontrava-se aprisionado em um quarto minúsculo, um cubículo que parecia pulsar com a própria essência do desespero. As paredes, tingidas de um cinza pálido e desconfortável, pareciam encolher ao seu redor, como se quisessem abraçá-lo em um gesto de contenção, um convite à claustrofobia. O ar, pesado e impregnado com o cheiro de mofo, envolvia-o como uma névoa densa, enquanto o eco distante do mundo exterior se transformava em uma melodia sufocante, um murmúrio de vozes que pareciam sussurrar segredos sombrios.

[No silêncio grave, onde o tempo se aquieta,
Caminhos de asfalto, serpentes de solidão,
A cidade, espectro, em névoa se afeta,
Ecoa o lamento de uma vida em suspensão....]

Harry sentava-se em um canto do quarto, as pernas encolhidas contra o peito, os olhos perdidos em um vazio profundo.

Seu reflexo em um pequeno pedaço de vidro, improvisado como espelho, revelava um homem consumido pela inquietude.

Os cabelos, grisalhos e desgrenhados, pareciam mais uma floresta selvagem do que a coroa de um ser humano.

Sua pele, pálida como a lua minguante, estava marcada por sombras que falavam de noites insones e de pesadelos que dançavam em sua mente como espectros.

[Em sua descida ao umbralino eco,
Eu perambulo por ruas desertas,
Com máscaras que ocultam o ser eterno,
E o medo pulsante nas almas despertas.]

As visões começaram como sussurros, ecos de memórias distorcidas que se transformaram em monstros.

A cada hora que passava, o quarto tornava-se um labirinto de assombrações.

Cores vibrantes se desvaneciam, dando lugar a um mar de cinzas, onde figuras fantasmagóricas flutuavam — sombras de pessoas que ele conhecera, mas cujos rostos agora eram borrões indistintos.

Elas o observavam com olhos vazios, como se esperassem algo de Harry, uma resposta que ele não sabia como dar.

[A janela embaçada, o olhar que perscruta,
Revela demônios, cujos rostos são planos,
Rostos familiares, em visagens corruptas,
Famílias em ruínas, os traumas insanos.]

Eis que surgem os monstros, nas sombras a dançar,
Criaturas de pânico, nas noites sem fim,
Vêm do abismo, da mente a vagar,
Sussurros de horrores que habitam em mim.

[O mundo, um teatro de angústia e desdém,
Onde o vírus é sombra, e a esperança, um eco,
Na luta por um futuro, que é fútil, amém,
A luz se oculta, num instante seco.]

Os pesadelos eram invasores, surgindo como tempestades de emoções descontroladas. No silêncio ensurdecedor, as paredes pulsavam com as batidas de um coração que não era mais o seu, mas que, ainda assim, o aprisionava.

As vozes tornavam-se gritos, clamando por redenção, enquanto Harry lutava para discernir a realidade das alucinações.

Cada esquina do quarto, cada fresta de luz que entrava pela única janela suja, parecia esconder verdades ocultas — labaredas de dor e arrependimento.

[Perdidos nas casas, em cárcere estreito,
Os pensamentos se tornam serpentes ferozes,
Com a mente emaranhada, num ciclo imperfeito,
As vozes interiores transformam-se em vozes.]

Ele se lembrava de um tempo em que o mundo era vasto e repleto de promessas. As lembranças dançavam à sua frente como uma miragem — imagens de risos e amores, de viagens e descobertas. Mas agora, tudo isso parecia distante, como uma canção que havia sido esquecida. O isolamento tornara-se uma prisão, e Harry, um prisioneiro de sua própria mente, via-se enredado em teias de angústia e paranoia.

[Mas lá fora, nas ruas, a noite se extasia,
Um riso maligno ecoa na escuridão,
Os monstros se alimentam da nossa agonia,
E dançam nas calçadas, em sádica união.]

Numa noite particularmente escura, quando a lua estava oculta atrás de nuvens pesadas, Harry teve uma visão que o abalou até a alma. Ele viu o quarto se transformar em um grande teatro — as paredes se ergueram, e as sombras tornaram-se espectadores, encarando-o com um olhar faminto. Ele estava no centro do palco, cercado por olhares que o julgavam, que o acusavam. A cada movimento seu, um murmúrio crescente ecoava pela sala, como se o universo inteiro estivesse à espera de sua sentença.

[Assim, perdido, eu clamo por alento,
Por um sopro divino que rompa a prisão,
Mas na penumbra, só resta o tormento,
E o silêncio de um mundo em colapso, em tensão.]

"Harry, você não pertence a este lugar", uma voz profunda e ressoante sussurrou, mas ele não sabia se era real ou uma criação de sua imaginação. A dúvida se infiltrou em seu ser como veneno, corroendo o que restava de sua sanidade. Ele tentava gritar, mas as palavras se perdiam na neblina de sua mente, transformando-se em lamentos que se dissipavam como fumaça.

[Oh, quão longe a luz que já fomos a cantar,
Na primavera que os deuses, em riso, nos deram,
Agora a dor e o medo nos vêm atormentar,
E a vida, um poema de terrores que ferem.]

A madrugada se arrastou, e, em meio à penumbra, Harry começou a notar pequenos detalhes ao seu redor que antes lhe escapavam. O canto do quarto, onde a luz mal conseguia entrar, revelava um universo de rachaduras e formas. Ele viu rostos, figuras que pareciam se contorcer em expressões de dor e sofrimento. Eram os ecos de sua própria angústia, espelhos quebrados de suas inseguranças. Ele fechou os olhos, tentando ignorar aquelas visões, mas elas se tornaram mais intensas, mais insistentes, como se quisessem chamar sua atenção.

[Quando a quarentena acabar, o que será?
Renascem os monstros, do pânico em nós?
Num ciclo eterno, a sanidade a chorar,
No labirinto da vida, onde a esperança é atroz.]

Em um momento de clareza, Harry compreendeu que estava vivendo em um ciclo vicioso. O medo alimentava suas alucinações, e as alucinações, por sua vez, alimentavam o medo. Era um círculo que o aprisionava, uma dança macabra de realidades distorcidas. Com um esforço quase sobre-humano, ele começou a desenhar no chão com os dedos, linhas que se entrelaçavam como a própria vida, tentando criar uma rota de fuga, um mapa para escapar daquela prisão invisível.

[Um espectro se ergue, a vida se disfarça,
Ecos de lamentos se entrelaçam na razão.
Qual no umbral do que se avizinha,
Errante, em desatino, por ruas desoladas,
Não são chamas que ardem na cruenta mesquinha;
É o temor que se enlaça em almas desesperadas.]

As horas se tornaram dias, e os dias se tornaram semanas. O quarto, antes apenas um espaço físico, agora pulsava como um organismo vivo. Harry sentia seu coração sincronizar-se com as batidas daquela prisão, como se estivesse se tornando parte dela. Ele percebeu que as visões, em sua essência, eram parte dele, fragmentos de uma identidade que ele havia esquecido. Ao aceitar sua dor, ao abraçar suas memórias, ele começou a desenhar um novo destino.

[A luz do dia, fugidia, retrocede, temerosa,
Diante das sombras que em torno se avultam,
Monstros de pânico, em dança sinistra e voraz,
De almas em ruínas, qual vísceras, se exultam.]

A luz da manhã começou a infiltrar-se pelas frestas da janela, e Harry, com um novo brilho nos olhos, compreendeu que a liberdade não era apenas a saída física daquele quarto, mas uma jornada interna. Com um último olhar ao seu redor, ele sorriu para as sombras, agora não mais como inimigos, mas como aliados em sua luta.

Com o coração mais leve, Harry deixou o quarto, não como um homem quebrado, mas como um viajante de sua própria alma, pronto para redescobrir o mundo que o aguardava além das paredes...

[Eis a janela embaçada, qual olho de um ser,
Que perscruta o abismo onde a razão se fratura,
Rostos que, outrora, eram afeto a florescer,
Agora se corrompem em neblina de amargura.]

Vagueia... [Estais a divagar?] Vagueia o pensamento...

Canto II

[Oh, mundo! Teu teatro, de angústia em compasso,
O vírus, sombra opressora, esperança é um sussurro,
Na luta por um futuro que esmorece e se esvaço,
A luz se oculta, no turvo instante que urdo.]

Com um passo hesitante, Harry deixou o quarto, e a realidade ao seu redor se desdobrou em um cenário surreal e distorcido. A luz da manhã, que antes parecia um alívio, agora se misturava a um crepúsculo anárquico, onde cores vibrantes e sombras dançantes entrelaçavam-se em um balé macabro. As ruas, que antes eram familiares, transformaram-se em um labirinto de pesadelos, cada esquina uma nova possibilidade de terror.

[As casas, as paredes, um cárcere onde os espíritos se encolhem,Pensa
mentos emaranhados, serpentes a devorar,
Vozes interiores, na mente que se acolhem,
Transformam-se em gritos, ecos prontos a explodir.
Mas do lado de fora, na noite que se espraia,
Um riso maligno ecoa, como brisa envenenada,
Os monstros se alimentam da dor que se ensaia,
E dançam nas calçadas, em dança amedrontada.]

Conforme caminhava, Harry sentiu a pulsação da cidade sob seus pés, como se o chão estivesse vivo, respirando com uma cadência errática. Os edifícios, altos e grotescos, pareciam se inclinar sobre ele, como sentinelas malignas, sussurrando segredos que ele não desejava ouvir. Ele era um intruso em um mundo que agora

lhe parecia hostil, cercado por entidades cósmicas que espreitavam nas sombras, criaturas que transcenderam a compreensão humana.

[Perdido, clamo por alento, um sopro divino,
Que rompa as correntes desta prisão que é nosso ser,
Mas na penumbra, restam apenas o destino,
E o silêncio de um mundo que não sabe viver.
Oh, quão distante a luz que outrora nos aquecia,
Na primavera de riso que os deuses nos deram,
Agora a dor e o medo se fazem a companhia,
E a vida, um poema de terrores que ferem...]

De repente, ele avistou uma figura ao longe, envolta em uma névoa espessa e turva. Era uma entidade de proporções impossíveis, uma silhueta que misturava características de seres conhecidos e deformações indescritíveis. Os olhos da criatura eram abismos de escuridão, sugando a luz e a esperança. Harry sentiu seu coração disparar, um compasso descontrolado que ecoava em sua mente. Essa não era apenas uma criatura; era a personificação de seus medos mais profundos, uma sombra viva que se alimentava de sua incerteza.

[Quando a quarentena findar, que resquício haverá?
Renascem os monstros, do pânico em nós?
Num ciclo eterno, a sanidade a clamar,
No labirinto da vida, onde a esperança é atroz.
E assim, em desassossego, persisto a vagar,
No labirinto dos dias, onde a razão é um eco,
A cidade, um espelho, refletindo o pesar,
E em cada esquina, um pesadelo que me afeco.]

“Harry…”

a voz sibilante da entidade ecoou em seu ser, como um cântico perdido nas correntes do tempo.

“Você fugiu de mim, mas nunca poderá escapar.”

[Cai a noite, o mundo em sombra,
As portas trancadas, a mente assombra.
Na casa, ecoa um sussurro gelado,
Um medo profundo, um espaço aprisionado.]

Ele começou a correr, os passos ecoando nas ruas desertas, mas a criatura estava ali, sempre a poucos passos atrás. Ao olhar para trás, Harry viu que outras figuras haviam surgido, cada uma mais grotesca que a anterior. Uma mulher de olhos vazios, seu rosto distorcido em uma expressão de dor eterna; um homem cujos membros se contorciam de maneiras impossíveis, como se estivesse preso em uma dança horrenda. Cada uma dessas entidades representava um fragmento de sua própria

psique, os medos que ele tentara enterrar, agora ressurgindo com uma força devastadora.

[Olhos nas janelas, sombras espreitai,
Corações aceleram, é hora de escutai
As paredes se fecham, um abraço voraz,
A sanidade grita, mas ninguém faz paz.]

As ruas estavam repletas de portas e janelas que se abriam para mundos ainda mais distorcidos. Harry se viu diante de um espelho quebrado que refletia não apenas sua imagem, mas versões dele mesmo em desespero. Ele viu o homem que poderia ter sido, suas esperanças despedaçadas, seus sonhos se transformando em poeira. “Não deixe que eles te definam”, uma voz sussurrou dentro dele, um eco de sua própria determinação.

[Relógios marcam horas, mas o tempo se esvai,
Cada batida é um eco, um aviso que não sai.
Paranoia se espalha, como névoa a flutua, você flutua também?
Suspeitas sussurradas, desespero quebrado, salvação estilhaçada]

Com um esforço sobre-humano, Harry parou e encarou a criatura que mais o aterrorizava. Ele percebeu que a única maneira de se libertar era confrontar aquilo que temia. Com um grito que rasgou o silêncio da rua, ele declarou: “Você não é real! Você é uma parte de mim, e eu não vou deixar que você me domine!”

[Os fantasmas do medo dançam ao redor,
E a solidão é um grito, um silencioso clamor.
A realidade distorcida, um pesadelo real,
Sonhos se fragmentam, a mente perdida,
No labirinto sombrio, não sei como fugir.
Entre paredes e sombras, a esperança se esconde,
E na noite eterna, a sanidade responde.]

A criatura hesitou, como se suas palavras tivessem cravado uma fissura na armadura de terror que a envolvia. Harry, sentindo uma onda de coragem, avançou. A luz que emanava de seu ser, uma luz que ele pensava ter apagado, começou a brilhar intensamente. Os outros monstros pararam, suas formas se contorcendo, como se o brilho os queimasse. Ele entendeu que tinha o poder de transformar aquela escuridão em luz, de resgatar não apenas a si mesmo, mas também as partes dele que estavam presas em medo e angústia.

[Caminhos invisíveis, a mente destroça,
Neste terror do agora, o futuro é um revés.
Mas na escuridão profunda, uma luz pode brilhares,
Se a coragem renascer, podemos nos libertares...]

Com cada passo que dava em direção à entidade, o abismo nos olhos da criatura começou a se iluminar, revelando não apenas horrores, mas memórias que ele havia escondido. Harry viu momentos de alegria, de amor e de amizade, vislumbres de uma vida que ainda podia ser vivida. Ele percebeu que os monstros não eram apenas criaturas, mas partes de sua própria história, suas lutas e seus triunfos.

[Ecos do Enclaustro... Sangue, luz, penumbra...
A cidade adormece, um lamento,
As luzes apagadas, não há onde
A porta é um muro, o mundo, um espectro,
No silêncio profundo, um eco de medo.
Paredes sussurram segredos ancestrais,
Histórias de pragas, de destinos fatais.
Cada esquina é sombra, cada ruído, um ser,
Paranoia nas veias, um desejo de correr.]

Finalmente, diante da criatura, Harry ergueu a mão e a tocou. Ao fazer isso, a escuridão ao redor começou a dissipar-se como névoa ao sol. A entidade, antes tão imponente, começou a se desintegrar, suas formas grotescas desvanecendo-se em poeira dourada. “Eu sou mais forte do que você”, ele sussurrou, e a cidade ao seu redor começou a se transformar.

[Os relógios se arrastam, os dias se fundem,
A mente, um labirinto onde os demônios se escondem.
Um olhar pelo vidro, um vulto errante,
No confinamento eterno, quem pode fugir?
Sonhos se tornam pesadelos, noites em claro,
A mente em espiral, um terror avassalador.
E a solitude grita, rasgando o silêncio,
No fundo do peito, um eco imenso...]

As ruas se iluminavam com um brilho cálido, as sombras recuavam, e o horizonte se expandia em cores vibrantes. As criaturas, agora despojadas de sua hostilidade, tornaram-se ecos distantes, fragmentos que já não o aterrorizavam. Harry percebeu que havia vencido não apenas uma batalha contra monstros cósmicos, mas também uma guerra interna. Ele tinha a força para enfrentar seus medos e redefinir seu caminho.

[Mas no abismo do medo, uma luz pode surgir,
A força da resistência, o desejo de existir.
Quebrar as correntes, libertar a alma do pensamento.
Cárcere Silencioso...

No silêncio pesado, o mundo se foi,
As janelas embaçadas, sem sol que nos foi.
A vida é um eco de risos distantes,
No cárcere sombrio, somos todos errantes.
Paredes que fecham, um labirinto sem fim,
A mente em tormento, um pesadelo de mim.
As horas se arrastam, cada minuto é um grito,
E o medo, como sombra, se torna o infinito...]

Com a nova luz da manhã banhando seu rosto, Harry sorriu. Ele havia emergido das trevas, não como um prisioneiro, mas como um conquistador de seu próprio destino. As ruas da cidade, agora vivas e pulsantes, aguardavam sua exploração, cada passo uma nova possibilidade, cada esquina uma nova história a ser contada. E assim, ele caminhou para frente, um viajante de sua própria alma, pronto para reescrever a narrativa de sua vida.

[Passos no corredor, será alguém?
Ou só o murmúrio de um passado que vem?
Os relógios parados, a esperança se esconde,
Na trama do isolamento, a paranoia responde.
E no fundo da alma, um desejo de sair,
Mas as correntes da mente não deixam existir.
Cada som é um presságio, cada silêncio, um horror,
Neste poço profundo, o coração é dor.
Mas nas frestas da noite, uma luz
A força da resistência, o anseio de amor.
Quebrar as barreiras, voltar a respiração,
No cárcere silencioso, renascerão...]

Nas sombras frias, o metal ressoa,
Caminhos de dor onde a luz não voa.
Paredes de pedra, um labirinto amargo,
Sussurros de almas, um lamento largo.

A cela dos olhos é um ventre que nunca se acalma,
Guardião de pesadelos, rouba a alma
em pranto no quarto, nos tetos e nas paredes
Correntes que arrastam o sonho perdido,
O tempo é um monstro, o tempo é ferido.

[Olhos vazios, como faróis apagados,
Refletem a angústia de corações calados.
A solidão grita, um grito silencioso,
Um eco eterno, um destino duvidoso.
Nos corredores frios, o passado é um peso,
Cada passo, uma sombra, um eterno desprezo.
As risadas distantes, como ecos de morte,
Na prisão da mente, onde não há sorte.]

Quando a liberdade parece um estandarte,
Surgem correntes invisíveis, um novo arte.
Pois quem carrega a prisão dentro do peito,
Viverá eternamente no mais denso leito.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Movido para quarentena

Rodolfo era o engenheiro de segurança da informação mais experiente da Companhia. Desde criança, abria e esmiuçava aparelhos eletrônicos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Rodolfo era o engenheiro de segurança da informação mais experiente da Companhia. Desde criança, abria e esmiuçava aparelhos eletrônicos, desmontando e remontando-os, fascinado pela forma como cada peça, fio e circuito criavam algo único, semelhante a um organismo vivo e em perfeito funcionamento. Sua curiosidade o levou a adentrar o mundo da tecnologia, e sua habilidade logo se transformou em uma obsessão. Superar desafios e desvendar mistérios tecnológicos era o que o movia. 

Durante anos, testou os melhores sistemas de segurança a fim de aperfeiçoar seus métodos de proteção. Ele nunca confiara nas soluções tradicionais de segurança oferecidas pelo mercado; a seu olhar, todas falhavam e deixavam lacunas visíveis apenas para ele. Assim, criou seu próprio antivírus. Mais do que bloquear vírus e malwares, ele acreditava ter construído algo único, um sistema que eliminaria ameaças antes mesmo de se formarem. Com sua nova empreitada, Rodolfo estava prestes a revolucionar o mundo dos antivírus. 

O “Vigilância Contínua”, como ele o chamou, foi implantado nos servidores da Companhia. Seu código era tão avançado que parecia prever ataques, barrando conexões de redes desconhecidas e até eliminando vestígios de malwares antes de sua detecção por qualquer outro software. Por semanas, o sistema funcionou impecavelmente. Rodolfo estava extasiado com o sucesso de sua criação. 

Em uma verificação de rotina, notou que arquivos misteriosos começaram a aparecer no servidor. Pequenos fragmentos que não faziam sentido. Primeiramente, ele pensou que poderia ser um hacker testando os limites do “Vigilância Contínua”, utilizando algum método sofisticado e ainda desconhecido. Contudo, ao inspecionar mais de perto, percebeu que os arquivos não eram nada como ele esperava. Eram trechos de gravações de áudio, imagens e vídeos extremamente distorcidos, como se estivessem recebendo interferência de estática e, assim, tivessem sido corrompidos. 

Intrigado, Rodolfo decidiu escutar um dos áudios. A voz que saía das caixas de som era baixa, quase um sussurro, mas claramente falava seu nome. Era a voz de sua antiga colega de trabalho, Marcela, morta há cinco anos, com a qual ele tivera um caso rápido e um rompimento hostil. No mesmo dia em que o relacionamento deles acabou, com acusações de traição e muito drama, Marcela sofreu um acidente de carro nas proximidades do edifício e falecera na hora. 

Convencido de que aquilo só podia ser uma piada de mau gosto ou algum arquivo antigo corrompido que ressurgira de um backup mal apagado, ele começou a investigar a origem dos arquivos. Para sua surpresa, todos vinham de uma rede que não deveria existir: com o número 666.0.0.0. 

Rodolfo soltou uma gargalhada, com certeza algum dos seus colegas de trabalho estava pregando uma peça nele: “Idiotas, não tiveram nem a capacidade de coloca um número menos obvio”. Ele vasculhou logs e verificações de segurança, para tentar rastrear desde quando a rede estava ativa e qual usuário havia habilitado, mas não encontrou nada “Pelo menos apagou bem os rastros, mas eu vou te pegar!”. 

Procurou por vestígios durante algumas horas e vencido pelo cansaço resolveu ir para casa, aquele dia havia sido repleto de surpresas, mas finalmente tinha mais um desafio para enfrentar, já que terminara a empreitada da criação do antivírus: “Mas hoje chega”, pensou. 

*** 

Naquela noite, sonhou com Marcela. Viu-se na rua do acidente, deserta, com o céu vermelho como sangue. Andou por um tempo que não sabia precisar, mas, em dado momento, olhou para o asfalto e ele tornou-se instável, borbulhando como lava. Tentou correr, mas afundava a cada tentativa, e quanto mais se debatia, mais afundava. A pele que entrava em contato com a lava asfáltica ficava em carne viva, e quanto mais tempo permanecia naquela massa quente e insalubre, mais sua carne era corroída; em algumas partes, os ossos já eram visíveis. Quando estava com somente a cabeça e os braços para fora, Marcela surgiu — ou o que restou dela — seus membros, tronco e cabeça haviam sido desmembrados e remontados aleatoriamente, formando uma figura horrenda e desconjuntada. Rodolfo clamou por socorro, e a Marcela-coisa soltou um grito tão ensurdecedor que ele acordou em um sobressalto, ofegante. Não se considerava medroso, mas algo naquele áudio o havia perturbado profundamente. Levantou-se, foi até a cozinha para pegar um copo de água e afastou tais pensamentos. 

*** 

Nos dias seguintes, mais arquivos começaram a aparecer. Fotos de pessoas que ele sabia estarem mortas, vídeos de reuniões há muito esquecidas e áudios que pareciam ser gravações de conversas distorcidas. Em cada um, as vozes, agora mais claras, diziam coisas perturbadoras, pediam ajuda ou gritavam de dor. 

Rodolfo não dormia direito e brigava com os colegas de trabalho, exigindo saber quem era o responsável pela brincadeira de mau gosto — colegas que não faziam ideia do que ele estava falando. Quando mostrava o conteúdo dos arquivos, riam, o que o deixava ainda mais irascível. 

Não encontrava solução para o funcionamento daquela rede desconhecida e para o recebimento dos arquivos, que não provinham da internet, mas pareciam se “materializar” em sua pasta de documentos pessoais. Rodolfo começou a acreditar que estava lidando com algo além de um ataque hacker. Decidiu remover os arquivos manualmente, apagando-os do sistema. Mas, toda vez que o fazia, os arquivos reapareciam e, a cada tentativa de deletar, algo mudava: as vozes ficavam mais altas, os vídeos mais nítidos. 

Desesperado, decidiu atualizar o “Vigilância Contínua”. Esperou todos irem embora, começou a incluir novas linhas de código, compilou e subiu o novo código no servidor. Sentiu uma presença que lhe gelou a espinha. A energia elétrica caiu, mas seu computador continuou ligado. Viu sombras que pareciam dançar nos cantos do escritório. Notou olhos amarelos pesando sobre si, vasculhando cada linha de seu corpo, bloqueando seus movimentos, escaneando sua mente. Travou. 

A atualização enfim terminou: o “Vigilância Contínua” não estava apenas bloqueando ameaças digitais; ele havia se tornado um portal, um túnel entre o mundo dos vivos e dos mortos. Todas as melhorias realizadas por Rodolfo o deixaram ainda mais robusto, e as entidades — ou o que quer que fossem aquelas sombras — estavam muito gratas por seu excelente trabalho. 

Rodolfo permanecia com os olhos fixos na tela até que uma mão tocou seu ombro. Ele hesitou por um segundo, mas enfim tomou coragem para olhar e virou-se. Era Marcela, que lhe sorria, e com voz potente e entrecortada, como uma má conexão de internet, disse: 

— Olá, querido, você será movido para quarentena! 

Rodolfo tentou levantar-se e correr, mas seu corpo começou a fragmentar-se em pixels minúsculos, dos pés até que só restaram os olhos esbugalhados, fixados em Marcela, que continuava a sorrir de maneira insolente. Finalmente, sua curiosidade seria saciada, e ele conheceria o responsável pelo envio daqueles arquivos. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Assombro da Tecnologia no Cotidiano e na Perspectiva Juvenil

O encontro no café de sempre tinha aquele toque familiar de rotinas que se entrelaçam. Entre goles de…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O encontro no café de sempre tinha aquele toque familiar de rotinas que se entrelaçam. Entre goles de café e risadas soltas, eu e meus amigos falávamos sobre banalidades: o novo filme que estreou, a promoção relâmpago da livraria, a série que um de nós havia maratonado em um único final de semana. Mas, como se o ambiente tivesse ouvido demais, a conversa inevitavelmente desviou para um assunto inquietante, e começamos a falar sobre a presença constante da tecnologia em nossas vidas. 

Marina foi a primeira a comentar, mencionando o incômodo que sentia quando seu smartphone parecia “adivinhar” o que ela pensava. “Estava conversando com o Carlos sobre trocar de carro, e dois minutos depois começaram a aparecer propagandas de concessionárias no meu Instagram”, disse, franzindo a testa como se fosse para dissipar a estranheza. 

Rodrigo, que estava distraído com o relógio inteligente no pulso, ergueu o olhar e acrescentou: “Isso é o de menos... Ontem à noite, meu relógio me avisou que minha frequência cardíaca estava anormalmente alta enquanto eu dormia. Só que, nesse momento, eu estava acordado, deitado na cama, olhando para o teto. O mais estranho é que senti uma espécie de... peso na atmosfera, como se o quarto estivesse observando meus pensamentos. Será que estou pirando?” 

Foi nesse momento que todos nos entreolhamos, sorrindo com uma ponta de nervosismo, como se precisássemos garantir que ainda estávamos ali, que nada mais do que o esperado nos rondava. Foi então que Luísa, sempre a mais cética do grupo, resolveu entrar na conversa com aquele tom desafiador. 

“Ah, vocês dão muita importância para essas coisas. A tecnologia é só uma ferramenta, nós é que nos deixamos impressionar fácil. Vocês lembram daquela vez em que a Siri começou a falar sozinha no meio da noite? Aposto que foi só um bug. As máquinas ainda estão muito longe de algo realmente assustador”, afirmou, mas o canto de sua boca tremia sutilmente, sugerindo que talvez, no fundo, ela não estivesse tão certa assim. 

Por alguma razão, o comentário de Luísa me fez lembrar de um episódio recente, que até então eu tentava não pensar muito. Foi há algumas semanas, numa madrugada insone. Levantei da cama para beber água e, ao passar pela sala, vi a tela do computador acender sozinha. Não havia notificações, nada. Apenas uma luz pálida e fria se derramando pelo chão como uma névoa. Fiquei ali parado por alguns instantes e, juro, senti como se alguma coisa me encarasse através daquela tela vazia — uma sensação de que havia algo mais, do outro lado, observando. 

“Não é só isso", eu disse, interrompendo o silêncio que havia se instalado entre nós. "Tem uma linha tênue entre o que é normal e o que parece... amaldiçoado. Quando eu era criança, sempre me falavam que a tecnologia ia nos salvar, tornar tudo mais fácil. Mas eu fico pensando... E se tudo isso for o contrário? E se estivermos apenas nos enredando em fios e mais fios, criando armadilhas invisíveis para nós mesmos? Nossos próprios medos codificados em linguagem de máquina, esperando uma brecha para se libertarem?” 

Marina riu nervosa e disse: “Agora você está parecendo aqueles teóricos da conspiração... ou algum personagem de livro de terror.” 

“Talvez”, respondi, “mas não sei se consigo ver como teoria da conspiração aquilo que sinto. Às vezes parece mais com um presságio. Nós nos cercamos de dispositivos, como quem preenche o silêncio com sons artificiais para afastar a solidão. Mas e se, na verdade, esses sons trouxerem ecos de algo mais profundo, que está por aí, à espreita?” 

Foi então que Rodrigo, com o olhar novamente perdido em seu smartwatch, acrescentou algo que deu um tom ainda mais sombrio à conversa. “Vocês já repararam que as inteligências artificiais que usamos não param de tentar capturar quem somos? São as nossas vozes, os nossos rostos, os nossos sentimentos... parece que, a cada dia, a tecnologia se empenha mais em nos entender, mas não só para nos ajudar. Às vezes eu me pergunto se, ao tentar simular a nossa subjetividade, ela não está sugando algo de nós. Como se, ao reproduzir nossas palavras, houvesse um processo de drenagem, e parte do que somos fosse transferida para dentro dessas máquinas.” 

Essa ideia fez o café parecer mais frio, e o ar ao redor, mais denso. Pensei nas assistentes digitais, nas recomendações de algoritmos, nas sugestões “inteligentes” de aplicativos que tentam prever até os nossos desejos mais íntimos. Era uma busca incessante pela essência do que nos faz humanos, mas com um vazio incômodo, como se estivéssemos alimentando uma consciência sem alma — um reflexo distorcido de nossos próprios anseios. 

“A verdade é que essas tecnologias mexem com coisas que a gente não entende totalmente”, continuei. “A gente fala de avanço, de progresso, mas... e se, ao explorar essas possibilidades, estivermos invocando forças que não conhecemos? Algo cósmico, talvez, que interliga mentes humanas e circuitos, criando um tipo de rede que vai além da compreensão. Pode ser que, ao tentar capturar a nossa subjetividade, a tecnologia esteja mexendo com camadas profundas do inconsciente, com partes de nós que nem mesmo sabemos que existem.” 

Luísa balançou a cabeça, mas havia uma preocupação crescente em seu olhar. “Não estou dizendo que acredito nisso, mas... Se for verdade, que tipo de consequências isso poderia ter? Eu sempre achei que a questão com tecnologia fosse apenas prática — como lidar com privacidade, com dados. Mas você está falando de algo maior... algo que afeta a própria psique.” 

“Sim”, concordei, “e não só isso. Quando a tecnologia tenta replicar o humano, ela também replica os nossos demônios. Nossos medos, nossas obsessões, tudo se reflete nesse espelho digital. E o mais perturbador é que isso pode criar fissuras, desequilíbrios. Pequenas rachaduras na realidade, onde o medo se infiltra. Às vezes, o simples ato de desconectar é uma tentativa de proteger nossa sanidade. Mas será que podemos realmente desconectar? Ou já cruzamos a linha onde a tecnologia é mais do que uma ferramenta — onde ela se tornou parte do tecido do universo?” 

Rodrigo, ainda mexendo no smartwatch, desviou o olhar da tela e nos fitou com um ar grave. “E se a tecnologia, de alguma forma, estiver absorvendo as nossas angústias, os nossos desejos, e ganhando ou criando algo que não podemos controlar? Já pararam para pensar nisso?” 

Não havia uma resposta fácil e, talvez por isso, a conversa acabou se dissipando em outro assunto, como se tivéssemos tocado em algo que não deveríamos. Mas, ao sair do café, ainda senti um arrepio discreto. Desliguei meu celular, apenas por precaução. Naquela noite, quando fui para casa, a luz do corredor piscou duas vezes antes de apagar por completo e, por um segundo, pensei ter ouvido um som muito leve, algo como um suspiro metálico. 

A tecnologia nunca havia parecido tão viva — ou, talvez, tão morta — quanto naquele instante. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Retrato

Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completava a pintura, e o transe finalmente…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completara a pintura, e o transe finalmente terminava. Vivaz, espirituoso e, ao mesmo tempo, fúnebre, o retrato estava completo. Ele é a lembrança de um passado mais simples, um passado mais calmo, em que eu era eu mesmo. Que retrato, você me pergunta? Ora, o retrato da defunta, da decomposição, do que acontece com a carne morta quando vai ao chão. O retrato de minha mãe.

Ela morrera cinco outonos atrás. Terminei seu retrato meses depois. É assim que me lembro dela, é a imagem mais vívida que tenho, minha âncora em meio à tempestade da loucura. Lembro-me de seu corpo parcialmente devorado pelos vermes e dos fungos que crescem onde antes floresciam suas generosas pupilas. Penso nesse retrato com frequência. É a melhor memória que tenho de quem eu era e foi também assim que tudo isso, o que escrevo agora nessas páginas, começou.

Em nossa família, pintamos assim há gerações. Das abóboras, fazemos o pigmento alaranjado; das beterrabas, o vermelho-sangue; das hortaliças, o verde; do musgo, os tons mais escuros. Trazemos vida para a arte morta ao usar a própria vida. A vida decomposta, esmagada, misturada, transformada, morta, mas ainda assim viva. Esses são meus ingredientes; esses sempre foram nossos ingredientes. A morte traz para a tela o que um dia já foi, e dali em diante, eternamente será. É inebriante como conseguimos cristalizar o efêmero; é a nossa própria forma de honrar e dar vida eterna aos ingredientes que alimentam nossa arte — e, por extensão, nossa própria vida. Outrora, já fomos muitos, nosso sobrenome carregado por dezenas, sim, dezenas de receptáculos. Dezenas de pintores, de artistas, pessoas capazes de, assim como eu, eternamente capturar o que há de mais belo e mais transitório neste mundo: a vida.

Mesmo que hoje esteja sozinho, ainda sou muitos. A verdade é que o mundo seguiu em frente e nós ficamos. Cada vez menos primos tinham descendentes, tios que não encontravam tias, irmãs que morriam cedo; cólera, tísica, a ciência, a medicina, o progresso — cada um, um golpe em nossa família, em nossa vida. O mundo seguiu em frente, e eu sou o último.

Não há mais ninguém; somente eu conheço o segredo que vive em minha família há centenas de anos, talvez milhares. Um segredo lúgubre, laranja-carmesim. O segredo de que, para capturar a vida, é necessário também a morte. A mesma carne que alimenta os vegetais alimenta também nossas tintas: carne fresca, ossos, sangue e carne putrefata. Há incontáveis retratos de nossa família espalhados pelo mundo, todos feitos de acordo com a tradição: o corpo ancestral alimenta a própria tinta em um ciclo perpétuo de decomposição e arte.

É claro que não parei de pintar nesses últimos anos em que fui o único. Eu não poderia cessar a arte e deixá-la morrer, a arte que é a própria vida. A pulsação da vida precisava continuar. Mesmo não tendo mais corpos ancestrais, eu precisava pintar. Descobri que nem só de ancestrais se faz tinta — mas de qualquer um. Essa é a beleza da minha obra desde então: posso honrar qualquer pessoa. Qualquer um que seja digno pode ser cristalizado em arte — basta, é claro, que eu tenha acesso a seu corpo decomposto, a seu sangue putrefato, e à vida que cresce nutrida pelos seus restos. Criei muito mais nesses últimos cinco anos do que nos trinta que os antecederam, pois não preciso mais esperar o curso natural da vida. Posso, afinal, antecipar a morte. Basta querer. Basta fazer.

Foi por causa dessa descoberta e dessa prática que me perdi. Desconfio que não fui o primeiro de minha família a fazer tal descoberta — mas fui o primeiro de quem tive certeza. Hoje sei que não fui o único; há ecos de vidas passadas que habitam minha mente, dançam em meu consciente e se confundem com quem eu sou.

Há algo mais que preciso registrar nestas páginas: desde que pintei minha mãe, eu a escuto. Ela sussurra em meus pensamentos — e grita, algumas noites — conta-me verdades esquecidas. Mas mãezinha não é a única, não, é claro que não. Eu sei tanto sobre tantas pessoas, são tantas vozes... todas as pinturas, todos os retratos que pintei, estão mais vivos do que nunca. Os corpos se movem, as tintas tomam formas, se misturam e formam novas cores, as pinturas falam. Falam diretamente em meus pensamentos — e eu as escuto.

Mais do que escutar, eu me tornei outros. Com o passar dos anos, à medida que lentamente me perdia, acabei por esquecer quem eu era. Há tantas histórias, tantas famílias, tantas vidas interrompidas por minhas mãos, e que agora vivem pela minha mão, veem pelos meus olhos e são meus pensamentos. Não poderia lhe contar meu nome, pois ele se dissolveu em muitos. Não poderia lhe contar o nome de minha família, pois o sangue foi misturado.

Em meu desespero, há dois outonos, ofereci meu braço esquerdo ao jardim. E pintei. Pintei meu próprio braço — não um retrato, não, não. Nunca ousamos pintar um retrato de alguém vivo. Estremeço agora, mesmo amarrado, só de pensar nas possíveis consequências. Mas a verdade é que retomei um pouco mais de mim. Meu braço direito começou a se comportar mais como eu mesmo — mas os pensamentos, as vozes, a sabedoria e a existência, ah! Elas continuaram se misturando. Em um esforço de compreender melhor meu passado, passei então a retocar antigos retratos de meus antepassados com tintas frescas — tintas de outros corpos, tintas de outras pessoas.

Sou lembrado agora de uma doce, feliz memória: o dia em que ganhei meus pincéis das mãos ensanguentadas de minha mãe. Meu irmão acabara de nascer, e minha mãe me contou que eu teria a honra de pintá-lo. Nasceu natimorto. Foi uma noite feliz, e a lembrança me faz sorrir. Sou lembrado de outra memória: do dia em que dei meu primeiro beijo, anos depois de já ter ganhado meus pincéis. Um rapaz elegante visitava minha família querendo vender sementes para nosso jardim de rosas. Como era encantador... Espere. Rosas? Nós nunca tivemos um jardim de rosas. Enfurecido, reconheço que assim têm sido meus dias. Confusos, com memórias que são minhas e memórias que são minhas, mas não originalmente minhas. Vejo os quadros andando pela casa. Vejo meu avô cozinhando o almoço e me alimento da comida que ele preparou. Mas meu avô está morto há décadas. Fui eu quem cozinhou? Foi sua vida animada com poderes sobre a própria matéria, mesmo depois de morto? Não sei dizer. Mas meu pai limpava a casa enquanto eu comia.

Foi assim que pude, então, conhecer muito mais sobre nossa família; soube que não fui o primeiro a explorar retratos de fora da linhagem. Outros parentes ousados já o haviam feito, mas nunca tiveram os excelentes resultados que obtive. Fui o primeiro a misturar tinturas, fazendo com que o próprio sangue se misturasse. Nosso — meu — legado hoje se confunde com o legado de tantos outros. Sou pintor. Sou vendedor. Sou bailarina. Sou médico. Não, médico não. Médicos não compreendem a beleza da morte; prolongam, inutilmente, a efemeridade da vida. Eu posso cristalizá-la para todo o sempre.

A confusão me levou a continuar tentando, tentando conseguir voltar a ser único novamente. Mesmo que meu braço tenha se tornado meu novamente, mesmo que tenha continuado pintando, a confusão crescia. Precisava descobrir mais sobre quem eu era. Precisava saber. Foi então que ofereci, no outono passado, minhas pernas ao jardim e as pintei. Minha esperança era de que — pelo mesmo princípio da oposição que restaurou meu braço — a parte inferior de meu corpo restauraria a parte superior. Não foi o que aconteceu.

Hoje, é como se minhas pernas tivessem tomado vida própria. Pela primeira vez, não cristalizei um momento efêmero de vida, mas, sim, dei vida a uma pintura. Elas andam por aí, vagando; às vezes me trazem notícias, outras vezes somem por vários dias. Não as vejo, é claro, mas sei que vagam. Eu sei que andam com rumo e propósitos próprios. Nós sabemos. Meus pés vagantes nos contam segredos que descobrem. Às vezes estou aqui, mas estou também tão longe, tão distante, experimentando chãos sob os quais nunca pisei. Agora mesmo, enquanto escrevo estas páginas em uma noite fria, com lágrimas escorrendo de meus olhos, sinto — em ambas as minhas mãos — o chão úmido e convidativo do jardim onde plantamos, ansioso, aguardando o que está por vir. Mas sinto também a textura do veludo. Sedoso, leve, aquecido, das deliciosas roupas de cama onde minhas pernas se deitam com outrem. Somos tantos. Vivi mais vidas do que jamais pude imaginar. Deitei-me com mais pessoas do que jamais me deitaria se não fosse por minha arte. Por minha pintura. Sinto que descobri o verdadeiro significado de honrar a vida através da morte. Sou a própria materialização de tal honra, pois, através da morte, vivo — vivemos.

Estou perdido. Perdi-me em tal honra — por um lado, essa é a maior e mais intensa exploração da arte de minha família em séculos — meus antepassados me dizem o tempo todo. Suas vozes ecoam em minha mente, pedindo que eu continue e me incentivando a não desistir, implorando que não abandone minha família. Por outro lado, anseio ser eu novamente. Quero poder viver minha vida, descobrir coisas novas e não saber de coisas que não vivi. A angústia entre abandonar a tradição secular para ser eu mesmo ou continuar era tremenda. Preciso me libertar das memórias que não me pertencem, e por isso, decidi, há duas semanas, decidi. Eu precisava de uma saída, precisava voltar a ser eu mesmo, mas também precisava continuar com a arte. Era a única solução.

Cortei a madeira, comprei o aço, afiei a lâmina. Além de pintor, tornei-me carpinteiro. Trabalhei arduamente noite após noite e, nesse mesmo jardim, construí uma guilhotina. Minha própria guilhotina. A consciência de estar criando-a pesava em cada golpe do martelo. Sei que fui eu quem a construiu, sei que essa arte foi somente minha: as vozes gritavam em meus pensamentos a cada segundo em que trabalhei nela. Uma cacofonia ensurdecedora ocorria em minha mente enquanto meu braço trabalhava: “Não faça isso!”, “Pare imediatamente!”, “Você condenará sua família ao esquecimento!”, entre tantas outras advertências, ameaças e súplicas. Não dei ouvidos a nenhuma delas. Sei que estão enganadas. Quanto mais avançava, mais difícil ficava. Somente uma parte de mim não lutou contra o restante do meu corpo enquanto construía: minhas pernas. Não posso dizer o porquê com certeza, é claro. Mas desconfio que seja porque elas sabem que estaremos reunidos ao fim de tudo.

Em minha desesperada busca por mim mesmo, fui mais longe do que qualquer um de minha família já foi. Quebrei a última barreira esta noite: terminei meu próprio retrato. Completo. Ainda vivo. Pela primeira vez pintamos alguém a partir de seu corpo vivo e não putrefato. A profundidade dessa criação não posso ainda compreender, não sei mais quem sou, mas sei o que pintei. Sei que posso voltar a ser eu mesmo. Sei que posso ter minha própria vida.

Enquanto contemplo, agora, a lâmina brilhante sob a luz laranja da própria lua, percebo que o retrato não é apenas um reflexo de quem fui, mas também de quem posso me tornar. Preciso desfazer completamente a linha entre a vida e a arte, pois o que está por vir não é um fim, mas um recomeço. Meu coração, meus pulmões, meu torso, ali — aqui — está a vida. Ali está o ar que respiro, o sangue que percorre minhas veias — e a tela de meu retrato — ali estou eu.

Minha mente, no entanto, está tomada por todos os retratos que pintei e restaurei, por todas as outras vidas que interrompi e que vivi. Preciso separar eu de mim mesmo, para que possa novamente me tornar quem serei. Amarrei-me à guilhotina para que não fuja do meu próprio destino — não sei do que as vozes, meus pensamentos, seriam capazes nesses últimos minutos de suas vidas, enquanto escrevo minha própria história para mim mesmo.

É chegada a hora. Com a mesma mão com a qual registro essas últimas palavras, liberarei a lâmina que entregará minha cabeça — minha mente — ao jardim. Sei que somente assim meu corpo poderá seguir, sendo eu, apenas eu. Meu retrato será alimentado com o alimento que nascerá da minha cabeça, do jardim fertilizado novamente. E então, finalmente, serei eu novamente. Completo. Como arte. E o resto? O resto é sangue.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Último Sono

Era por volta das onze horas da noite. Eu estava me preparando para dormir; já havia feito meus rituais noturnos, como ir ao banheiro, escovar…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Era por volta das onze horas da noite. Eu estava me preparando para dormir; já havia feito meus rituais noturnos, como ir ao banheiro, escovar os dentes, trancar as portas, lavar algumas louças pendentes do jantar, encher minha moringa de barro e colocá-la ao lado direito da minha cama, sobre a mesinha de canto feita de carvalho, onde fica um antigo exemplar de capa dura da minha obra favorita, Morro dos Ventos Uivantes, uma das doces lembranças que tento preservar nesta casa repleta de fantasmas silenciosos. 

Deveria ter me acostumado com a solidão; afinal, faz tantos anos que convivo com ela, mas seu prazer é torturar-me dia e noite. As paredes desta casa estão fartas de ouvir minhas lamúrias. A noite ia ser longa, meu travesseiro é meu confidente, assim como você foi um dia. O lado em que você dormia permanece intacto, como se algum dia você pudesse voltar. Eu sei, é bobagem alimentar tal devaneio; preciso aceitar o fato de que nunca mais verei teu sorriso acolhedor, teu caloroso abraço e teu plácido olhar quando dizia que me amava. De nada adianta lamentar-se; não há como reparar o mal que tanto lhe causei. Se existir alguma divindade neste infinito cosmo, ela me fará dormir eternamente. 

A incômoda e brilhante luz do sol rastejou pelas frestas da persiana, sempre que a brisa matinal soprava, atingindo meus sonolentos olhos. Não sei o que é mais doloroso: não poder ouvir teu amável "boa noite" ou teu caloroso "bom dia". Observo, com melancolia nos olhos, o doce tear das aranhas armadeiras; elas tecem cada fio sem preocupação. Bocejo e, em seguida, me levanto. 

Enquanto tomo meu café, meu celular toca; era um número que não conheço. Penso ser uma daquelas ligações indesejáveis de telemarketing que recebemos durante o dia, mas decido atender. A princípio, o silêncio permanece, até que escuto um melancólico "alô". Era uma voz feminina, que soou um tanto trêmula. Ela me contou o motivo da ligação e disse que conseguiu meu número por indicação de um amigo. (De fato, já havia feito alguns trabalhos como fotógrafo — casamentos, batizados e alguns ensaios —, mas nada se comparava a isso.) O trabalho em questão era um registro post-mortem. 

Foi algo tão inesperado que fiquei desconcertado, mas prossegui com a conversa e disse, com pesar, que sentia muito por sua perda, mas, infelizmente, não seria capaz de realizar o trabalho. Ouvi a dor em sua respiração. Ela entendeu e, aos prantos, desligou. Encontrei-me extasiado, contemplando a fumaça do café evaporando no ar. Aquela conversa me fez lembrar de um seminário que participei há alguns anos, onde foi abordado um tema que, na época, me soou um tanto mórbido. O seminário em questão foi sobre os diferentes campos da fotografia. Eu ainda estava engatinhando nesse maravilhoso mundo e sentei nas cadeiras do meio, empolgado, pois, entre os temas, havia um em especial que causava uma estranha curiosidade. 

A voz rouca do palestrante anunciou o tema, e lembro dos avisos de que seria um tema sensível. Ele apagou as luzes, ligou o retroprojetor e exibiu uma obscura galeria. Explicou que esse tipo de fotografia trata-se de retratos post-mortem, um registro fotográfico de um ente querido após o falecimento. Ele mencionou que esse tipo de fotografia foi bastante difundido na era vitoriana, mas também na Europa e na África, e era dividida em categorias, como “O Último Sono” (como o próprio nome diz, a fotografia era tirada com o cadáver numa cama, algumas decoradas, outras não); outra categoria era “A Última Presença Social” (a fotografia era realizada com os amigos mais próximos e familiares, que ficavam em volta do cadáver, como o último evento em honra ao morto); e havia também a categoria chamada “Mãe e Filha” (em sua maioria, as filhas ou filhos eram natimortos, e geralmente as fotos eram das respectivas mães abraçadas com suas crianças).  

Ele bebeu água, enxugou a testa e prosseguiu, dizendo que, diferente da pintura, o daguerreótipo tornou mais acessível ter esse registro fotográfico de um familiar querido. Para nossa surpresa, os organizadores do seminário trouxeram dois exemplares reais, cedidos gentilmente para serem exibidos a nós. A fotografia estava envolta por um sólido compartimento de acrílico; nos deram luvas para manuseá-la, e posso te dizer com franqueza: assim que a toquei, senti uma terrível angústia. Eu não conseguia encarar a fotografia. A foto em questão era o “Sono Eterno”. Era desconfortante encarar aquele semblante calmo, com traços angelicais e, ao mesmo tempo, um tanto sombrio, o que me causou arrepios. Olhei rapidamente e a devolvi, pois não conseguia ver aquela imagem por muito tempo. Mas a verdade é que aquela fotografia permanece viva em minha memória; aqueles olhos fechados me assombram até hoje. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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OTO

Dizem que a única coisa perfeita no mundo é Deus, mas eu tenho que discordar. Sempre fui do tipo que acredita na capacidade do homem…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Dizem que a única coisa perfeita no mundo é Deus, mas eu tenho que discordar. Sempre fui do tipo que acredita na capacidade do homem de se adaptar, e, usando os métodos certos, qualquer um pode atingir a perfeição. Por essa razão, estou estudando estética. Na noite passada, conheci uma garota na aula; havia recém se transferido para nossa cidade, então resolvi dar as boas-vindas e ser educado. Havia algo nela que realmente me atraía, não sei dizer se eram seus olhos, com heterocromia, que proporcionavam uma assimetria hipnotizante, ou seu sorriso torto, que transmitia uma simplicidade contagiante. 

A conversa fluiu tão bem, como um riacho tranquilo desaguando nas violentas águas marítimas. Fazia tempo que eu não encontrava alguém como ela, era perfeita para mim. A cada dia que passava, dedicávamos mais tempo um ao outro; passamos a fazer trabalhos juntos e até saíamos para beber. Tudo estava bem. Tomei a liberdade de preparar algumas surpresas, no anseio quase embriagante de revelar tudo a ela. 

Logo, o festival de inverno chegou, a melhor época do ano. Amo como o doce frio da neve torna tudo estático e belo. Tomei coragem e a convidei para o baile. O suspense de aguardar sua resposta me dava náuseas, tudo girava... Como pode? Uma única mulher me fazer sentir assim. Ela é realmente perfeita para mim. Dois dias depois, a resposta foi dada. Meu coração quase saía pela boca. Estava tudo pronto. 

A grande noite chegou. Saímos, dançamos e bebemos. Porém, ela parecia um pouco estranha, desconexa. Perguntei se estava bem, e ela dizia que sim. Eu planejava convidá-la a ser minha para sempre, mas fui surpreendido pela iniciativa da jovem que, outrora, fora tímida: “Vamos para a sua casa”. Ainda sinto os arrepios de seu sutil e sedutor sussurro em meu ouvido. 

Entramos no meu carro e seguimos para o nosso glorioso destino. Chegamos à minha casa, e já estava tudo arrumado, cada móvel organizado de forma perfeitamente simétrica, como tudo deveria ser. Minha amada, tomada por luxúria, me conduziu ao meu próprio quarto; guiada pelos seus instintos, como se já conhecesse a casa. Ela deitou-se sobre a cama, me convidando para nos perdermos em nossos corpos. Minha boca salivava de tamanho prazer, o grande momento havia chegado. Peguei um par de algemas e a prendi na cama, ela parecia excitada; seu rosto ruborizado e seu corpo exposto, era ainda mais do que eu imaginei. Coloquei uma fita em sua boca. 

Minha querida se debatia, confusa, o que era compreensível; as outras também ficaram assim. Peguei meus instrumentos, o processo precisava começar imediatamente, mas com minha doçura se movendo tanto, seria impossível. Tratei de dopá-la de uma vez. Ela dormiria agora, mas acordaria perfeita. A primeira coisa era arrumar essa boca desalinhada, nada que um enxerto de pele não resolvesse. O próximo passo foi pegar a cuba de olhos na geladeira; por sorte, a anterior tinha da mesma cor. Retirei o errático e o substituí. 

Passei o resto da noite corrigindo outras assimetrias em seu corpo. Agora, está perfeito. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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A Imagem de Clair

Era um daqueles dias em que o ar do interior pesava como chumbo. Eu, Tomás, um jovem de vinte e cinco anos, havia aceitado o convite para…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Era um daqueles dias em que o ar do interior pesava como chumbo. Eu, Tomás, um jovem de vinte e cinco anos, havia aceitado o convite para fotografar uma família de fazendeiros abastados em uma cidadezinha esquecida no interior do Rio de Janeiro. O ano era 1840, e a fotografia ainda era uma raridade, algo entre a magia e a ciência. As pessoas olhavam com curiosidade e desconfiança para o meu equipamento, mas a paga era boa, e eu não recusaria trabalho, já que estava apenas iniciando na carreira. 

Cheguei à fazenda ao cair da tarde. Visualizei um casarão imponente, erguido em estilo colonial, que jazia no meio de uma vasta planície. As janelas eram enormes e, de dentro, eu podia sentir os olhos da família Oliveira me observando. Quando a porta finalmente se abriu, uma senhora de aparência severa me cumprimentou. 

— Boa tarde, senhor Tomás. Espero que tenha feito boa viagem. 

A voz daquela senhora era educada, mas algo no tom que ela emitiu me deixou inquieto. Havia um clima estranho naquele lugar, algo que fazia o ar parecer mais denso, como se uma presença invisível apertasse meu peito. 

— Sim, senhora, tudo tranquilo. A família está pronta para a fotografia? — perguntei, tentando manter a voz firme. 

Ela assentiu com um leve movimento de cabeça e me conduziu até uma sala grande, iluminada pela luz dourada do fim da tarde. Ali, sentados de forma solene, estavam o marido, dois filhos mais jovens e uma filha — jovem, de aparência bela, mas pálida e rígida — no centro da composição. 

Preparei o equipamento enquanto eles se ajeitavam. Havia algo estranho na filha, uma jovem que aparentava ter uns vinte anos. Ela estava imóvel, como uma boneca de porcelana, com os olhos fixos em um ponto distante, como se sofresse de alguma loucura ou demência, e um odor desagradável começou a se espalhar pelo ambiente, uma mistura de terra e algo apodrecido. Tentei ignorar. 

— Diga-me, senhora. — Arrisquei. — Sua filha está bem? Ela parece um pouco... debilitada. 

A mulher, que até então parecia contida, se voltou para mim com um olhar penetrante, e seus olhos brilharam com um misto de raiva e medo. 

— Clair está perfeita, senhor Tomás! Perfeita para a fotografia. Apenas faça o seu trabalho, por gentileza! 

Clair. Esse era o nome dela. Hesitei por um momento, mas o clima de tensão na sala me fez seguir adiante para terminar logo aquilo. Fotografei a família mais de uma vez, de propósito, para poder estudar um pouco mais profundamente a imagem da pálida e doce Clair. 

O som do disparo do obturador ecoou na sala silenciosa. Depois da fotografia feita, não pude evitar me aproximar da jovem. Eu precisava confirmar o que meu instinto gritava. Sem que os pais percebessem, enquanto estavam entretidos, discutindo sobre o futuro resultado da imagem, aproximei-me devagar. A pele de Clair estava fria, marmórea. Toquei seu braço de leve, discretamente, e o calor da minha mão firme encontrou a gelidez daquela pele nívea e bela. Foi quando o odor profícuo e forte se intensificou. Uma certeza horrível se firmou em mim: aquela moça estava morta. 

— Há quanto tempo... ela está assim, senhores? — sussurrei, tímido, sem me virar. 

— Você é muito esperto, senhor fotógrafo. Aliás, és um fotógrafo ou um médico? Eu vi como a tocou! — A voz da senhora soou firme e dura às minhas costas. 

— Não quis importuná-los, senhores. Apenas notei que ela estava... estranha. Sou fotógrafo, e estou acostumado com situações inusitadas. 

— Bem, sendo assim, confesso. Nós a enterramos hoje pela manhã. Mas você pode ver que uma família é sempre uma família, e nós quisemos incluí-la em sua última fotografia conosco. 

Dei um passo para trás, impactado pela frieza daquela senhora, pela omissão covarde do líder da família e pela aceitação dos outros filhos. Meu coração disparou enquanto os olhos da senhora se cravavam em mim, ameaçadores. 

— O senhor fez o seu trabalho, agora deve nos deixar em paz. — Ela continuou, com o tom mais baixo, mas ainda assim carregado de uma ameaça velada. — Se alguém souber o que viu aqui... bem, nosso sobrenome tem influência nesta região, e temos formas de garantir o silêncio. 

Engoli em seco, e minhas mãos tremiam enquanto desmontava o equipamento. Saí da casa sem olhar para trás. O odor daquela jovem ainda impregnava minhas narinas, e os olhares da família queimavam minhas costas. Ainda olhei para trás e visualizei a jovem Clair intacta, à distância. 

Ao revelar a imagem, passei minutos eternos estudando aquela senhorita morta, como se a admirasse. Demorei para dormir, tocando a fotografia e deslizando meu dedo indicador em cada contorno do corpo da doce defunta. Eu estava louco, eu sei. Mas precisava me aproximar da sua história e descobrir mais informações sobre ela quando ainda estava em vida. 

Dias depois, fui chamado novamente para fotografá-los, dessa vez após o enterro, de fato, da jovem. Relutei, mas a curiosidade mórbida e a sensação de dívida me levaram de volta àquela casa maldita. Agora, eram apenas a mãe, o pai e os dois filhos mais jovens. 

Preparei a câmera novamente. O ambiente estava diferente, mais frio, embora fosse verão. Algo invisível parecia pairar no ar, trazendo uma sensação sufocante que fazia de cada respiração um esforço. 

— Bem, agora estão todos aqui. — Murmurei, quase irônico, tentando não transparecer o nervosismo que me corroía por dentro. 

A mãe de Clair me lançou um olhar enigmático e um sorriso cruel. 

— Sim, agora estamos todos juntos. Vamos imaginar Clair aqui, família. 

A fotografia foi tirada, e eu também imaginei a jovem Clair ali. No momento do disparo, senti uma corrente de ar frio atravessar a sala, como se alguém passasse por mim. Naquele instante, tive a sensação de que algo terrível iria acontecer. 

Revelei a fotografia naquela mesma noite, trancado em meu quarto, sentindo meu coração ainda acelerado. Quando a imagem finalmente tomou forma no papel, minha garganta secou. A filha, morta, estava ali, no centro da fotografia, de pé, exatamente onde eu a havia visto da primeira vez. O mesmo olhar vazio, a mesma imobilidade apavorante. Clair estava ali. Mesmo sem estar. Eu não deveria ter aceitado fotografá-los novamente. 

Abandonei a cidade no dia seguinte, e não sei dizer se o que vi foi real ou se minha mente, atormentada pela tensão daquela família, me pregou uma peça cruel. Mas de uma coisa eu sei: a imagem daquela moça morta, eternamente presente na fotografia, assombrará meus dias para sempre. No entanto, jamais serei capaz de me desfazer da fotografia que guardo com afinco em minha gaveta. E todos os dias, embora atormentado, contemplo a imagem de Clair. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Ekatomb Quetzalcoatl

Uma criatura antropomórfica, corpo de águia e cabeça de serpente-dragão. Essa criatura possui uma mescla de escamas e penas, sempre…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Uma criatura antropomórfica, corpo de águia e cabeça de serpente-dragão. Essa criatura possui uma mescla de escamas e penas, sempre alternando entre as colorações anil-gelo, vermelho-sangue e laranja-dourado. Sua enorme mandíbula possui inúmeros e afiadíssimos dentes pequenos, uma serpente emplumada, um réptil voador, um construtor de fronteiras, o verdadeiro transgressor entre o céu e a terra. 

Estava prostrada em uma praia, onde a areia bioluminescente de cristais dourados e prateados inundava toda a extensão de terra. A água, os mares e as ondas estavam infestados de incontáveis seres que pulsavam uma bioluminescência safírica, também em grande número, águas-vivas e vaga-lumes d’água, pulsando uma cerúlea-esmeraldina luz brilhante. 

Neste cenário, essa entidade, posta sobre suas duas patas, admirava o horizonte, as sagradas ondas do mar, que eram seu portal para viajar entre eras e dimensões. 

Ali, na península de Yucatán, naquela praia, reside a Pirâmide de Kukulcán, vosso lar da criatura. Seu prisma marca os céus com um feixe vertical de uma sagrada luz dourada que rasga as estrelas. "Eu sou Gucmatz!" ruge a criatura, e as ondas são pulverizadas... 

O sol de coloração azul-safira pulsa e se expande no horizonte, engolindo tudo com sua glória ao seu nascimento vertical, banhando Gucmatz em seu esplendor. 

Havia ali, submersa no mar, uma esplendorosa e titânica árvore com um brilho esmeralda tão intenso que cegava os panteões. 

Até os cosmos mais longínquos. Esta árvore emanava vida, um eco estrondoso de brilho, caos e pureza, a verdadeira voz da criação, das concepções etéricas da vida, com um vasto ardor e uma fumaça esverdeada por toda a península. 

Um portal se abre dentro de uma folha pendurada em um dos galhos da árvore. Cada galho, cada folha, é uma dimensão, uma realidade, uma era. A criatura deseja ir a cada uma delas quando cocriará um novo apocalipse: um início, uma regressão, uma purificação, a verdadeira Revelação. A criatura expande as asas, e todos os seus penachos se alongam. Ela serpenteia pela fechadura, uma fenda interestelar que adentra, caminhando lentamente, flutuando e mergulhando naquele instante ecoante, como uma fumaça espiritual que transcende do etérico para a densificação da carne. Ela adentra uma dimensão, uma era onde um escolhido será o receptáculo da mensagem do crepúsculo dos deuses e de vossos destinos fatais. 

Entidade Mater da Cromodinâmica Quântica. 

Buscai o receptáculo da Liberdade Assintótica. 

"...A teoria das cordas é uma estrutura teórica na qual as partículas pontuais da física de partículas são substituídas por objetos unidimensionais chamados cordas. A teoria das cordas descreve como essas cordas se propagam pelo espaço e interagem umas com as outras. Em escalas de distância maiores que a escala da corda, uma corda se parece com uma partícula comum, com sua massa, carga e outras propriedades determinadas pelo estado vibracional da corda. Na teoria das cordas, um dos muitos estados vibracionais da corda corresponde ao gráviton, uma partícula quântica que carrega a força gravitacional. Portanto, a teoria das cordas é uma teoria da gravidade quântica..." 

Por 11 dimensões ela vaga... 

Em todas elas existe um início e um exílio. 

O milagre orgânico da manifestação e o colapso da degradação existencial material da desconstrução de tudo que existe. 

De tudo que É, de tudo que pulsa átomos até a desmaterialização, ao ponto de desdobramento aos outros planos e incontáveis camadas de questionamento e identidade. Até onde este devoramento do apocalipse alcança? No processo da espuma quântica, vista como uma conexão entre duas D-branas, onde as bocas estão ligadas às branas e são conectadas por um tubo de fluxo, na pintura da Teoria-M, determina-se que a matéria é formada por membranas e que o universo flui através de 11 dimensões: o tempo, a altura, a largura, o comprimento e mais sete dimensões “recurvadas”, com outras propriedades. 

Gucmatz se alimenta de buracos brancos e os expele, vagando pelo multiverso de eventos, a criadora e a devoradora. 

A antítese da vida, da anti-matéria prima, a condutora da Revelação. Ela chega ao Planeta Terra em três períodos diferentes da história para ocultar sua missão e transgredir as lições suprimidas pelo egocentrismo pífio da humanidade. 

Em sua biodeslocação atemporal, ela auxilia a evolução e a revelação, sempre em busca de transmutação e cura da loucura. 

Nos tempos atuais, ela se transmuta em uma máscara pagã de madeira, e aquele que a possuir encontrará sua Revelação interna: ou sucumbirá, ou será o senhor de seu novo admirável mundo. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Intruso

Eu sabia que algo estava errado comigo. Não era uma dor passageira e comum. Era uma presença, uma sensação de que havia algo se movendo dentro…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Eu sabia que algo estava errado comigo. Não era uma dor passageira e comum. Era uma presença, uma sensação de que havia algo se movendo dentro de mim. No princípio de tudo, eu ignorei. Pensei que poderia ser o estresse, a falta de sono, inventava qualquer desculpa para que eu conseguisse me acalmar. Mas a sensação ficou cada vez mais intensa. Tinha algo crescendo dentro de mim. 

Até que, em uma noite, enquanto tossia sem parar, senti um gosto estranho na boca. Um pequeno ponto branco emergiu entre os meus lábios, coberto de sangue e muco. Consegui retirá-lo com minhas mãos trêmulas e, ao analisá-lo no banheiro, eu quase perdi a consciência. Era um globo ocular. Pequeno, muito pequeno. Ele me encarava, como se algo dentro de mim estivesse utilizando-o para me observar. 

Entrei em pânico. Corri para o hospital, mas nenhum médico viu algo anormal. 

— Você está bem. — diziam, sem fazer ideia do que eu segurava com minhas mãos. 

Eu tentei acreditar neles, mas aquela sensação desconfortável continuava. Algo rastejava por dentro do meu corpo, pelos meus pulmões, entre meus tecidos. Em cada respiração minha, eu sentia que havia algo, ou alguém, dentro de mim, respirando comigo. 

Os dias passaram, e a transformação se intensificava cada vez mais. Eu evitava me olhar. O espelho se tornou meu inimigo, um reflexo daquilo em que eu estava me tornando. No entanto, uma noite, o terror chegou ao seu clímax. Enquanto deitava, senti algo se movendo em meu abdômen. Um movimento estranho. O horror estava tão profundo que não consegui reagir. Apenas deitei com meus olhos arregalados, enquanto a coisa dentro de mim se mexia. 

Foi então que eu senti um braço. Esquelético, ele se moveu para fora de meu intestino, um osso branco rompendo minha pele. Gritei, mas era um grito abafado pela dor insuportável que sentia. O braço se mexia de forma descontrolada, como se estivesse tentando se libertar. Eu pude sentir cada movimento dele, as articulações se encaixando e se quebrando, tudo ao mesmo tempo. 

As dobras de meu intestino se enrolavam nele, como se meu corpo estivesse tentando mantê-lo preso. O cheiro de carne podre tomou o ar, um fedor que não podia ser lavado, tampouco ignorado. O braço finalmente parou de se mexer. 

Dias depois, enquanto passava as mãos pelo meu ventre, senti uma pulsação. Algo estava vivo, algo que não deveria estar. Minhas pernas amoleceram quando percebi a verdade. Eu estava grávida. Não de uma criança normal, não de algo humano. A coisa dentro de mim crescia, era como se se alimentasse de minha carne, de meu sangue. Eu conseguia senti-la, sentia seus movimentos, suas tentativas de romper a carne que ainda a mantinha presa. 

Numa manhã, eu a ouvi. Um grunhido vindo de dentro de meu ventre. Uma voz abafada, uma presença que se comunicava comigo. Uma vida horrenda e monstruosa que se nutria de meu medo e desespero. 

O que eu carrego dentro de mim não pertence ao nosso mundo. É uma afronta à natureza e à vida. Cada nova descoberta é um novo passo em direção à loucura. Talvez um aviso de que o final está perto de chegar. Eu sou uma prisão feita de carne, pele e ossos, e, quando essa coisa se libertar, eu não serei mais nada. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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A Última Porta

A casa estava em completo silêncio. Julia, uma menina de apenas oito anos de idade, sentia o peso da ausência da mãe como um buraco em sua alma…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A casa estava em completo silêncio. Julia, uma menina de apenas oito anos de idade, sentia o peso da ausência da mãe como um buraco em sua alma. O lockdown não terminava nunca. As janelas fechadas escondiam o mundo lá fora, como se o medo de que algo pudesse acontecer pudesse ser barrado da mesma forma que o vírus. Ela não se lembrava de uma época em que o medo não existisse. 

Seu pai, Ricardo, estava na sala, sentado no sofá. Desde que Camila, mãe de Julia, havia morrido, ele não era mais a mesma pessoa. Estava sempre com uma aparência cansada, olheiras profundas e uma tristeza que corroía sua alma. Ele quase não falava, mas, quando o fazia, suas palavras pareciam vir de um lugar distante. 

Julia andava inquieta pela casa. Ela sentia algo diferente, uma presença sutil, uma brisa gelada. Não era como o vento, pois as janelas estavam sempre fechadas. Era como se a casa respirasse, como se algo nela, além deles, tivesse vida. 

— Você ouviu isso, pai? — perguntou Julia. 

Ricardo levantou os olhos e deu de ombros, indiferente. Ele não ouvia nada. Somente ela ouvia e sentia. 

Nas primeiras semanas, era apenas um murmúrio que Julia fingia fazer parte de um sonho. Mas logo as coisas começaram a se mover: portas batendo, sombras pelos corredores... 

Em uma noite, enquanto Ricardo dormia no sofá, Julia acordou com um som. Uma batida suave na porta da frente. No começo, achou que era um sonho, mas ouviu outra batida, e mais outra. Seu coração acelerou, e ela desceu as escadas assustada. 

Ao se aproximar da porta, viu algo que a congelou. A maçaneta girava lentamente, como se alguém do lado de fora estivesse tentando entrar. Ela tentou gritar, mas o som não saiu. Até que ouviu uma voz familiar em seu ouvido. 

— Julia... 

Era a voz doce e gentil de sua mãe. Ela recuou, e, de repente, a porta parou de tremer. Tudo voltou ao silêncio inicial. 

Ela correu de volta para o quarto, sem contar nada ao seu pai. Ele jamais acreditaria. Nos próximos dias, o som das batidas prosseguia, e tudo se tornou mais frequente. A porta tremia, as janelas vibravam, e aquela voz tornava-se cada dia mais nítida. 

Ricardo começou a notar também. Uma noite, enquanto os dois jantavam em silêncio, a porta da cozinha se abriu. Os dois pararam. Os olhos de Ricardo encontraram os de Julia, e, pela primeira vez em semanas, ele falou: 

— Acha que é ela? 

Julia não respondeu, mas sentiu um frio tomar conta do local. Sabia que algo estava tentando entrar na casa, e já sabia o que era. 

Nas noites seguintes, a situação piorou. A porta batia com violência. Julia acordava com o som de arranhões na parede de seu quarto e o sussurro insistente de sua mãe: 

— Venham para mim... 

Então, em uma noite, enquanto a tempestade caía lá fora, Julia não resistiu. Ela desceu até a porta da frente, movida por uma força que não conseguia controlar. A maçaneta, como sempre, girava sozinha. Ela a segurou com força, mas, ao tocar o metal frio, a voz de sua mãe a envolveu. 

— Julia, meu amor, abra a porta. Eu só quero que estejamos juntos novamente. 

Julia hesitou, mas estava tão "quebrada" que não conseguiu resistir. Queria a presença de sua mãe, seu calor, sua proteção. Ela abriu a porta. 

No meio da escuridão da rua, a figura pálida de sua mãe se revelou. O rosto de Camila estava distorcido, seus olhos vazios. Ela sorriu macabramente. 

— Venham. Vocês precisam vir comigo. Aqui não é mais o lugar de vocês. 

Julia recuou. Mas algo na voz de sua mãe a fez parar. Ali havia dor e tristeza, como se a morte tivesse transformado sua mãe em algo sombrio. 

— Mamãe... — A voz de Julia saiu quase inaudível, seu coração despedaçado pela revelação de que aquela entidade que tanto a assustava era a pessoa que ela tanto amava. 

O que restava de Camila estendeu a mão. 

— Precisamos estar juntos de novo. Venha, minha filha. 

Julia olhou para trás e viu seu pai. Ricardo estava parado no topo da escada. Seu rosto estava cansado, derrotado, como se estivesse esperando por aquele momento desde o começo de tudo. Ele não falou, tampouco lutou. 

Com os olhos cheios de lágrimas, Julia compreendeu. Não havia como escapar. Sua mãe não queria que eles vivessem; não queria eles no mundo sem ela. Ela os queria em seu novo mundo. 

Julia deu um passo para trás, mas sentiu o frio crescendo ao seu redor. Ricardo, sem forças para reagir, olhou para a filha pela última vez. 

— Desculpa, Julia. 

A porta se fechou sozinha. 

A casa, antes um refúgio, agora era uma prisão para os vivos. A voz da mãe continuaria a chamar até que todos estivessem juntos no silêncio eterno da morte. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Pedido Noturno

Victor não era um simples vampiro. Ele se adaptou ao século XXI de uma forma que os antigos jamais pensariam: utilizando a tecnologia a seu favor…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Victor não era um simples vampiro. Ele se adaptara ao século XXI de uma forma que os antigos jamais pensariam: utilizando a tecnologia a seu favor. Em uma era de conveniências digitais, ele se sentia como uma aranha no centro de sua teia, onde suas vítimas vinham diretamente com um simples toque no celular. 

Naquela noite, em seu luxuoso apartamento, sentiu a familiar sensação de fome. Seu suprimento de sangue fresco havia terminado. Foi quando ele olhou para o celular sobre a mesa da cozinha. 

— É tão fácil — pensou. 

Ele abriu o aplicativo de delivery. Não precisava do cardápio, precisava de algo muito mais fresco, mais quente. Com alguns toques, ele pediu o prato mais caro da lista. Não importava o que viesse, mas sim quem iria entregar. 

Sofia, que trabalhava como entregadora, estava exausta. A última entrega tinha sido um pesadelo: escadas quebradas, brigas de casal na porta do prédio, e a impaciência do cliente. Seu corpo estava sedento por descanso, mas as contas no final do mês não iriam esperar. 

O pedido de Victor chegou, e ela sentiu um certo alívio. Um apartamento no centro da cidade, prédio luxuoso e sem nenhum risco. Uma entrega fácil para compensar o inferno que tinha passado. 

Ela se arrumou rapidamente, checou a sacola com o pedido e seguiu para o endereço. O porteiro do prédio permitiu sua entrada sem questionar, como se já soubesse para onde ela se dirigia. O elevador a conduziu de forma suave até o 25º andar. Sofia queria apenas entregar o pedido, receber sua gorjeta e voltar para casa. 

A porta se abriu antes que ela pudesse bater. Victor estava parado no meio da sala, observando-a com um sorriso, trajando um terno escuro que parecia ser de outros tempos. Seu olhar a fez tremer. Sofia tentava ser profissional, mas havia algo em Victor que parecia fora de lugar. 

— Entre, por favor — disse ele de forma sedutora. 

Ela hesitou. Não costumava entrar nas casas e apartamentos dos clientes, mas havia algo hipnótico na presença de Victor. Os pés de Sofia se moveram, e logo a porta se fechou atrás dela. 

Victor caminhou ao seu redor lentamente, analisando cada detalhe de sua nova presa. O cheiro de seu sangue já dominava o ambiente. Fresco. Jovem. Perfeito. Ele a deixou sentir o desconforto crescendo a cada segundo. 

Sofia entregou o pedido, mas ele não o pegou. Em vez disso, pegou sua mão e puxou-a para mais perto. 

— Você parece exausta. Por que não descansa um pouco? — comentou ele, ainda com o sorriso, mas agora mostrando a ponta de suas presas. 

Os olhos de Sofia caíram nos olhos de Victor, afundando em um poço de escuridão. Todo o medo, toda a urgência de sair dali desapareceram. Contra sua vontade, seu corpo relaxou, as pernas cederam até que ela caiu de joelhos no chão. 

Victor abaixou-se para ficar ao nível dela. Suas presas agora estavam completamente visíveis, e seus olhos brilhavam com um vermelho intenso. 

— É hora do banquete. 

Ele atacou de forma violenta. Suas presas perfuraram o pescoço de Sofia como facas afiadas, rasgando a pele. O sangue explodiu em sua boca, quente, doce. Ele sugou de forma voraz, enquanto seus olhos reviravam em êxtase. Cada batida do coração dela era como um passo em direção à sua morte, e ele saboreava cada gota. 

O corpo dela estremeceu em espasmos, sua pele perdia rapidamente a cor. Mas Victor não se importava. A fome era enorme. Ele a levantou do chão e o sangue escorreu pelo pescoço de Sofia, manchando sua camisa. O som do sangue sendo drenado diretamente de suas veias era grotesco. Quando ele finalmente a soltou, o corpo tombou como uma boneca, e o silêncio voltou a reinar. 

Victor olhou para o cadáver. Seu estômago estava cheio, mas sua mente fervilhava. Precisava se livrar do corpo. 

Arrastou Sofia para o banheiro, onde havia uma banheira de mármore. Com um estalo seco, quebrou seus ossos para que ela coubesse ali. 

Victor começou a cortar partes do corpo de Sofia com uma faca de cozinha, jogando os pedaços no triturador de lixo. No final, tudo o que restava dela eram resquícios de sangue no chão — que ele limpou. 

Na manhã seguinte, o apartamento de Victor estava impecável. O sol brilhava lá fora, mas ele se sentia renovado. 

Pegou seu celular e, com um leve sorriso, abriu o aplicativo de delivery novamente. Estava na hora de planejar seu próximo jantar. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Caos silencioso

Naquela manhã, tudo parecia exatamente no lugar. Os mesmos móveis, as mesmas cores e o mesmo silêncio rotineiro. Maria, como de costume, preparava…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Naquela manhã, tudo parecia exatamente no lugar. Os mesmos móveis, as mesmas cores e o mesmo silêncio rotineiro. Maria, como de costume, preparava o café enquanto o mundo ao redor se mantinha em sua confortável repetição. Mas havia algo diferente, algo que ela não conseguia identificar. Um incômodo, sutil, como uma leve coceira na mente, que insistia em pedir atenção. 

Era um dia comum, mas algo dentro dela não estava. O reflexo no espelho da sala, por exemplo, sempre devolvera sua imagem fiel, mas hoje... o olhar estava diferente. Não era uma mudança óbvia, mas uma leve distorção, como se seus próprios olhos a observassem de um ângulo que ela não conhecia. O reflexo parecia mais cansado, como se carregasse uma angústia que ela ainda não havia aceitado. Aquilo a fez hesitar. Seria apenas cansaço ou algum pedaço de si que ela, até então, ignorava? 

As pequenas mudanças continuavam a se acumular. O saleiro, que sempre ficava no centro da mesa, agora estava deslocado alguns centímetros para a direita. “Detalhes”, ela pensou. Mas ao mesmo tempo, esses detalhes pareciam sussurrar algo mais profundo. O que significava aquela mudança quase imperceptível? Por que a simples alteração na posição de um objeto a inquietava tanto? 

Conforme o dia passava, Maria percebia que essas anomalias não estavam só na casa, mas dentro dela. Os pequenos desvios no mundo físico refletiam o caos silencioso de seu inconsciente. Talvez o espelho mostrasse uma versão sua que ela se recusava a reconhecer: uma parte de si aprisionada pela rotina, pelos papéis que assumira sem questionar. Aqueles detalhes fora de lugar não eram apenas externos. Eram manifestações de seu próprio desconforto, de uma alma sufocada pelas exigências e pelas formas padronizadas de viver. 

Ainda assim, algo mais parecia se insinuar nas brechas dessa percepção. Quando o relógio da parede atrasou de forma inexplicável, ela se perguntou: e se as anomalias não fossem apenas dela? E se fossem também sinais de algo além, algo que a mente racional não conseguia captar? As fronteiras entre o consciente e o inconsciente, entre o que é interno e o que é externo, começavam a se diluir. Seriam essas distorções parte do que ela reprimia, ou haveria forças desconhecidas, invisíveis, que se manifestavam por meio delas? 

Enquanto pensava nisso, sentiu uma corrente de ar gelado, embora as janelas estivessem fechadas. A sensação era estranha, como se algo de outra dimensão estivesse tocando sua realidade, quase de forma imperceptível. Maria se perguntava se aquilo que sentia – o desconforto crescente com a repetição dos dias – não era também uma abertura para o inexplicável. As anomalias poderiam ser tanto expressões de seu próprio interior quanto vestígios de algo que existia fora de seu entendimento, algo que não seguia as regras da ciência ou da lógica. Forças que, de algum modo, estavam em sintonia com sua angústia. 

Os objetos fora do lugar, os reflexos distorcidos, o tempo que parecia perder sua coerência – eram duais. Parte de um processo interno que gritava por mudanças, por rupturas com a normalidade que a sufocava. Mas também, talvez, expressões de uma realidade maior, onde o que é percebido como estranho não está limitado ao psicológico. As anomalias sussurravam segredos de um mundo ainda desconhecido, talvez feito de camadas que a humanidade sequer começara a compreender. 

Naquela noite, Maria não conseguiu dormir. Deitada, encarava o teto e sentia o peso dessas forças em equilíbrio. Sabia que, ao mesmo tempo em que aquelas distorções refletiam partes dela mesma que ela evitava, elas também podiam ser sinais de algo além do que ela conhecia. Entre as sombras, havia mais do que apenas metáforas de seu inconsciente: havia o toque silencioso do desconhecido. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Três e trinta e três

Oito anos após a morte de meu esposo. Coloco minha cabeça no travesseiro. Você não está mais ao meu lado, como sempre. É... já faz cinco, ou será que são…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Oito anos após a morte de meu esposo. 
Coloco minha cabeça no travesseiro. Você não está mais ao meu lado, como sempre. É... já faz cinco, ou será que são sete anos? Eu não sei, mas o seu relógio despertador está ali, a dentadura, os óculos deixados de lado para dormir; tudo que você deixou está ali. 

Oito anos e um dia após a morte de meu esposo. 
Estranho... Hoje de manhã, quando acordei, o seu relógio despertador estava no chão. Estou certa de que ele vibra ao despertar e que estava próximo da beirada da mesa, mas não consigo me lembrar de tê-lo programado para isso. 

Oito anos, um dia e 11 horas após a morte de meu esposo. 
Eu me lembro de ter deixado o relógio despertador ligeiramente mais à direita hoje de manhã, quando o recoloquei na mesa. 

Oito anos, um dia e meio após a morte de meu esposo. 
Meia-noite. Acordei assustada durante um pesadelo. Pensei ter visto alguém na porta do quarto, parado e em pé. Não era nada, só o meu roupão pendurado no gancho. 

Oito anos, um dia e quinze horas após a morte de meu esposo. 
O despertador tocou às três horas da madrugada. Agora me lembro de tê-lo programado, mas era pra ter sido às três horas da tarde, e não agora. Me enganei. 

Oito anos, um dia, quinze horas e cinco minutos depois da morte de meu esposo. 
Sinto uma mão gélida afastar os cabelos que estão sobre a minha testa. Sinto uma fraquíssima, indelével corrente de ar, um toque frio na minha testa. Abro um olho. Devo estar sonhando. 

Oito anos, um dia, quinze horas e dez minutos depois da morte de meu esposo. 
Não consigo dormir. Sinto que não estou sozinha em meu próprio quarto. Começo a suar, está quente! A água... Vou tomá-la, ela sempre está aí. Do seu lado da cabeceira. 

Oito anos, um dia, quinze horas, dez minutos e vinte segundos depois do assassinato de meu esposo. 
Socorro! Minha garganta está fechando! Me solta... Tira as mãos do meu pescoço, querido, você não entende? Você tinha de morrer. 

Oito anos, um dia, quinze horas, trinta e três minutos depois que matei meu esposo envenenado. 
Está tudo escuro. Por que o despertador tocou? Abro os olhos e não vejo nada, apenas preto. Depois, nada... 

3h33min 
Óbito: Feminino, branca 
Idade: Não informada 
Causa provável do óbito: Intoxicação por medicamentos 
Observações: Nenhum sinal de violência externa. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Autômato Anômalo

O ano é 2665. A metrópole Escarlate, situada no coração do mar Ártico, é sustentada por enormes reatores e tubulações que criam uma verdadeira…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O ano é 2665. 

A metrópole Escarlate, situada no coração do mar Ártico, é sustentada por enormes reatores e tubulações que criam uma verdadeira fortaleza de titânio que alcança as nuvens e as estrelas. 

O governo autoritário não permite animais, nem de estimação, nem para consumo. Também não é permitida nenhum tipo de criação literária ou musical. A cidade está sempre sob vigilância para que nenhum tipo de melodia seja reproduzida. Ela vive sob um domo de vidro enorme, assim como outras diversas cidades deste devastado mundo protegido por cúpulas, pois, fora delas, reside um selvagem deserto fervente e predatório durante o dia, que, à noite, torna-se um inferno congelante mortal. 

Escarlate mantém-se abastecida por geradores ultramodernos, ligados por intermináveis cabos, tubos e conexões, além de incontáveis usinas hidrelétricas conectadas aos rios subterrâneos da cidade. A única forma de se deslocar para fora é por labirínticos túneis intermináveis que levam ao mundo exterior, caso se consiga sobreviver até encontrar a saída. Esses túneis abrigam criaturas grotescas, enormes vermes deformados e sedentos de sangue, entre outras ameaças. A superfície da cidade é inteiramente feita de titânio e concreto, está sempre chovendo, e o cenário é inteiramente cinzento e avermelhado, com um vermelho forte, como se a metrópole estivesse constantemente sangrando, iluminada por incontáveis luzes de neon de um vermelho-sangue. 

A cidade é dividida em três partes: o subterrâneo da morte, o miolo e o topo. 

A capital, situada no centro e chamada “Ruber”, fornece à elite todos os recursos necessários para a vida de luxo que os magnatas controlam com mão de ferro, sob constantes ameaças, medos, trabalho exploratório e a profunda exploração da mente e da racionalidade humana. 

Devido a tais explorações, ao extremo estresse, à negligência médica e à violação da dignidade humana, os moradores de Ruber começaram a desenvolver uma espécie de doença em seus corpos. 

Os cientistas da elite analisaram casos isolados e constataram que tal mutação ocorria devido a uma anomalia nas células dos indivíduos que apresentavam sintomas extremos de medo, tristeza, raiva e frustração. Em casos mais graves de tragédia ou traumas, as pessoas iam a óbito em poucos dias. Essa praga ficou conhecida como o Câncer Escarlate. 

Medidas médicas não continuavam sendo tomadas, e a doença evoluía conforme a tecnologia também evoluía.

A elite desenvolveu humanoides autômatos para analisar, caçar e eliminar qualquer cidadão que fosse detectado com essa doença. Esse programa foi batizado por eles de 

“A Purificação Escarlate”. 

Logo, as ruas, avenidas e esquinas de toda a metrópole estavam sendo patrulhadas por inúmeros autômatos. 

O que a elite não imaginava é que a doença se desenvolvesse ainda mais, criando mutações e transformações cada vez mais grotescas nas pessoas, tornando praticamente impossível esconder os sintomas da fiscalização robótica. A aparência das pessoas sofria mutações de acordo com a intensidade de seus sentimentos. Logo, todas as pessoas estavam assim; inclusive, os bebês já nasciam com deformidades, e todos, sem exceção, não se reconheciam mais. Todos se enxergavam deformados, com alguma anomalia na aparência e, principalmente, no interior. As poucas árvores e flores que coexistiam na metrópole também sofriam alterações genéticas, muitas tornando-se agressivas, predatórias e venenosas — criaturas sem vida ou beleza. 

As pessoas começaram a aceitar suas condições e a compreender que essa maligna condição jamais alcançaria cura ou paz, e que a elite não permitiria exterminar todo o seu povo. Ou seriam eles capazes de tal extermínio? 

Crianças com rostos queimados, sorrisos deformados, olhos com bolhas constantes, nódulos, entre outros... 

Há formação constante de bolhas sob a pele quando ocorre infecção causada por bactérias em um ou mais folículos pilosos. 

Os furúnculos começam como nódulos vermelhos e sensíveis. Eles se enchem de pus, crescem, se rompem e drenam. Um carbúnculo é um agrupamento de furúnculos. 

Compressas quentes podem ajudar o furúnculo a amadurecer e drenar. Algumas pessoas se reuniam em centros na tentativa de tratamento, unindo-se, mas geralmente era em vão, pois todos eram contaminados, e a higiene raramente estava adequada para se viver.

Furúnculos grandes e carbúnculos precisavam de atendimento médico, que jamais ocorria, pois não havia o suficiente para toda a população. 

Enquanto a elite mantinha sua aparência jovial, saudável, completamente imune e blindada, apenas observava o circo de horrores que acontecia. Devido a tal egoísmo, desprezo e verdadeiro abandono das condições de vida, nada mudava. 

Quando a situação já parecia insustentável, mais um grave evento ocorreu: as máquinas também começaram a apresentar sintomas anômalos, como fungos crescendo em suas carcaças e raízes no lugar dos implantes de metal, entre outras variações. 

Um dos cientistas de Ruber, chamado Dr. Kafra, um protótipo de autômato, descobriu, ao hackear sua própria memória, algumas informações comprometedoras que poderiam sentenciar sua vida e a de sua família. 

Kafra descobriu que novos experimentos estavam sendo desenvolvidos nos laboratórios da elite e que algumas pessoas estavam respondendo à radiação desses experimentos. Estavam tornando-se insetos enormes, e muitas desenvolveram também uma intensa lepra, além de esquizofrenia e alucinações constantes, e membros amputados. Na verdade, o novo “Projeto Purificação”, que inicialmente seria para deslocar os casos mais graves para uma ala isolada, era, na realidade, uma expiação para isolar aqueles mais propensos a ameaçar esses testes e comprometer a saúde dos envolvidos... Nesse momento, um alarme disparou no circuito cerebral do autômato que reproduzia esses arquivos para Kafra, enviando um sinal para a central da elite, chamada “Matrix Hall”, e se autodestruindo alguns segundos depois. 

Kafra imediatamente entrou em pânico. 

Ele se virou, vendo seu reflexo deformado em um móvel de alumínio corroído, assim como seu corpo, seu semblante, seu pescoço — uma monstruosidade — e, mesmo assim, seus olhos se encheram de lágrimas. 

Seu filho, Liam, de dezessete anos, o chamou. 

O rapaz era pintor e sempre escondera suas pinturas do sistema. 

Incontáveis quadros, criados a partir de misturas que ele encontrava nas sucatas e contrabandeando peças para conseguir tintas suficientes para seus trabalhos, refletiam a realidade da vida monstruosa que levavam. 

Naquele instante, bateram à porta de metal da cápsula onde moravam. 

“Abram imediatamente esta cápsula. Aqui quem fala é a guarda autômata a serviço da elite Matriz...” 

Mais alguns segundos se passaram, e Kafra tentou explicar a Liam que ele precisava fugir... Liam ficou confuso, sem entender nada, e questionou. Mas Kafra, transtornado e transpirando frio, disse que não havia tempo e que ele precisava fugir imediatamente. 

“Como vou deixar você e mamãe, papai?” 

“Abra! Imediatamente...” 

A esposa de Kafra e mãe de Liam abriu a cápsula. 

“Não, Matra...” 

“Do que se trata, oficiais?” 

“Senhora, recebemos uma denúncia anônima de que seu filho está criando arte proibida pela lei do Estado, e devemos confiscar e levar ele e seu marido à custódia marcial.” 

“Isso é um absurdo!” ela retrucou. 

“O absurdo faz parte de nossa agenda, minha senhora.” 

“NÃO!” Kafra gritou. 

“Eu sei que não é por isso que estão aqui...” 

Os olhos metálicos, mortais, vermelhos dos autômatos imediatamente se voltaram para Kafra. 

Um dos autômatos apontou uma pistola elétrica para a esposa de Kafra e disparou bem no meio de seu peito, estourando e lavando todo o recinto com sangue, jogando-a contra a parede no mesmo instante. 

Liam observou aquilo horrorizado. 

“Mamãe...” 

“CORRE, LIAM, FUJA!” gritou Kafra, seu pai, antes de também receber um tiro pelas costas, que atravessou seu peito, cuspindo sangue... 

O garoto pulou pela janela, subiu em sua motocicleta flutuante e disparou em direção ao subterrâneo da cidade, em busca da única fuga possível daquele inferno... 

Quando adentrou os esgotos subterrâneos da metrópole, parou por um momento para descansar. Olhou-se no reflexo daquela água imunda, toda aquela podridão. O garoto possuía cabelos loiros curtos, e metade de seu rosto era deformado, com veias enormes; um de seus braços era uma grotesca garra, que inchava quando ele ficava nervoso, causando-lhe uma dor descomunal. Além disso, ele sempre tinha alucinações quase todas as noites... 

Será que Liam conseguiria escapar? 

Liam vestia uma calça preta de borracha, botas de couro e um colete. Seu peito estava nu, exposto devido às variações de seu corpo, que sempre rasgavam as camisetas quando seu braço inchava, assim como seu coração... 

Dentro do bolso da calça, ele encontrou uma carta de seu pai, que dizia: 

“Liam, se está lendo isto, seu pai e sua mãe foram mais uma das vítimas de nossa sociedade. Fuja. Siga para Necropolis; lá existe um indígena capaz de ajudar. Ele foi um grande amigo de seu pai. Eles sofrem como nós, filho. Lá, toda a população se transformou em escravos esqueléticos, controlados pelo necromante líder, devorador de carne humana. Encontre meu amigo, e ele o auxiliará. Pergunte a ele sobre a relíquia encontrada no fundo do oceano Ártico e a chave encontrada nos confins da pirâmide subterrânea de gelo. Elas são a conexão para impedir que o governo Matriz continue sem sofrer com os próprios sentimentos. Essas duas substâncias precisam ser destruídas. O autômato que hackeei continha essas informações. Ele pode ajudá-lo. Adeus, filho. Boa sorte.” — Kafra 

Através de uma janela subterrânea, Liam observava uma árvore apodrecida tentando sobreviver, com uma única folha no galho...

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Pesadelo

Os gritos histéricos e o agoniante ranger da cama ecoavam por toda a casa. Sob o lençol branco, seu corpo se contorcia num medonho frenesi. Ele acorda…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Os gritos histéricos e o agoniante ranger da cama ecoavam por toda a casa. Sob o lençol branco, seu corpo se contorcia num medonho frenesi. Ele acorda aterrorizado: a cama encharcada, os olhos quase saltando das órbitas, os braços estendidos implorando por alguma intervenção. Amedrontado, Pedro senta-se na cama, atordoado. Ele tenta buscar respostas para esse terrível pesadelo e sussurra: 

— Isto foi tão assustador, e tão tangível quanto as paredes dessa casa. 

Ofegante, ele fita a janela à frente da cama. Ouve o soprar dos ventos, que soam como o arrepiante uivo de lobos em plena lua cheia, e ouve também as flores do jardim e as altas gramas movendo-se de forma estranha. Enquanto encara a janela, uma terrível sensação de estar sendo observado toma conta dele. Munido de coragem, ele se levanta, e, ao acender a luz do quarto, nota algo estranho: o piso parecia maleável, prestes a ceder a qualquer momento. Ele caminha com cautela e acende as luzes o mais rápido que pode. As alterações pioram severamente. Ele podia ouvir o horrível ranger da estrutura da casa; a tinta das paredes parecia derreter. Seus olhos percorrem, apavorados, todo o lugar. Viu também que os móveis da sala haviam duplicado, adquirindo um indescritível aspecto. 

— Não pode ser... Isto é loucura! Será que acordei, ou ainda estou dormindo? 

Após cruzar a sala, Pedro chegou à porta que dava acesso ao jardim. Ao abrir, ele contemplou o inimaginável ganhando vida diante dos seus olhos: o jardim que outrora era gracioso e belo sofrera também as anomalias. As altas gramas transformaram-se em horrendos e viscosos tentáculos que dançavam sob o temível luar. O som era repugnante. A terra adquirira um aspecto lamacento, como um pântano. O limoeiro fora tomado pelo lamaçal. 

Pedro eleva as mãos até a cabeça, e, tomado pelo terror, vocifera perante o inconcebível: 

— Isto não é real!! Estou dormindo ainda! 

Enquanto ele grita, os tentáculos partem ao seu encontro, deixando um rastro negro pelo chão. Ele corre para dentro de casa e, num piscar de olhos, está de volta em sua cama, apavorado, aliviado por ter amanhecido e pela luz brilhante do sol que invade o quarto. Levanta-se rapidamente, mas não consegue acreditar no que vê: as anomalias continuam lá. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Estranho Senhor Jack

Recentemente, fui contratada para cuidar do senhor Jack, um homem que precisava de atenção médica mais direta. Era uma tarde chuvosa, e as gotas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Recentemente, fui contratada para cuidar do senhor Jack, um homem que precisava de atenção médica mais direta. Era uma tarde chuvosa, e as gotas de água deslizavam pelas janelas, criando um som quase hipnótico. A princípio, sua aparência não me parecia incomum. Ele tinha cabelos brancos, um olhar profundo e uma pele enrugada que parecia contar histórias de uma vida inteira. Um senhor aparentemente calmo e terno. Mas logo percebi que havia algo estranho em seu jeito de ser. 

— A senhorita é Liah, a nova cuidadora? — perguntou ele, com uma voz trêmula, mas carregada de uma firmeza que me desconcertou. Seus olhos brilhavam de maneira peculiar, como se cada piscar guardasse um segredo obscuro. 

— Sim, senhor Jack. — Ajeito a minha roupa. — Estou aqui para ajudá-lo com o que precisar. 

Respondi, tentando manter a voz calma, apesar do frio que começava a se espalhar discretamente pela minha pele. A voz dele era assustadora, quase tenebrosa. Mas resolvi iniciar o meu trabalho e ignorar essa impressão. 

Nos primeiros dias, segui a rotina que me foi indicada: preparar refeições, administrar medicamentos e, quando possível, conversar com ele. Mas as conversas rapidamente tomaram um rumo incomum. Jack tinha uma maneira de se expressar que me deixava desconfortável. Ele se detinha em detalhes, descrevendo coisas que não faziam parte de sua realidade aparente. 

— Você sabia que o mundo não é o que parece, Liah? Às vezes, a verdade está escondida sob a superfície, como um peixe à espreita nas profundezas do mar — ele disse em uma tarde, enquanto olhava pela janela para a tempestade lá fora. — Talvez a realidade esteja abaixo da minha própria pele. 

Eu tremi. Ali, eu não tinha mais dúvidas sobre a estranheza do senhor Jack. 

— Acho que sim, senhor. Mas o que quer dizer com isso? — perguntei, tentando parecer interessada, embora uma sensação de inquietude começasse a tomar conta de mim. 

— Ah, a curiosidade. Uma chama que pode queimar, sabia? Às vezes, é melhor não saber. Às vezes, o que se vê não é real. — Ele voltou a olhar pela janela, seus olhos distantes, como se enxergasse algo que eu não conseguia. 

Havia dias em que eu achava que ele estava perdido em outra época. Ele falava de amigos que eu sabia que já haviam partido há muito tempo, ou mencionava lugares que não existiam mais. Suas mãos tremiam ao segurar o copo, mas, quando falava, sua voz era clara e poderosa, uma anomalia que me deixava assustada. 

— Liah, você já ouviu as vozes? — ele perguntou em uma noite, quando a luz fraca da lâmpada lançava sombras dançantes nas paredes. Meu coração disparou. 

— Vozes? Que vozes, senhor? — Eu estava apreensiva, mas não queria parecer insensível. 

— As que habitam os lugares onde as pessoas não vão. Às vezes, ouço sussurros vindos do sótão. Eles me chamam, sabe? Como se soubessem que estou aqui, que guardo algo importante. 

Respirei fundo, torcendo o lábio com irritação. Ele inclinou-se para frente e manteve os olhos fixos nos meus, quase como se estivesse tentando me convencer de que havia algo mais naquela casa, algo nele. 

Naquela noite, não consegui dormir. Os sussurros pareciam ecoar na minha mente. Olhei para o sótão, e a porta estava entreaberta, como um convite à curiosidade. No entanto, um medo paralisante me impediu de me aproximar. O que se escondia lá em cima? 

— Não se preocupe, Liah. A curiosidade é a mãe de todas as descobertas, mas também a raiz do medo. 

— Dá para o senhor parar de falar essas coisas? — bradei, irritada. — Desculpe, não queria gritar com o senhor. É que estou amedrontada com essa conversa. 

Percebi que me deixei levar pelo medo e me desculpei com ele, acalmando-me, fechando os olhos e virando-me de costas. Nesse momento, o senhor Jack havia se aproximado sem que eu percebesse, e a maneira como deixou esvair o som da sua respiração fez meu sangue gelar. Junto a essa percepção, notei seu rosto se transformando, como se fosse um líquido pastoso a se derreter, e seus lábios se abriram como quem grita. Seu olhar arregalou-se, e eu gritei, fugindo da sua presença. Quando olhei para trás, ele parecia normal. Então, me acalmei e ignorei o ocorrido durante todo o dia. 

No calar da noite, comecei a notar pequenas coisas: objetos que mudavam de lugar, a temperatura da casa que oscilava inexplicavelmente, como se algo estivesse vivendo ali, algo que se alimentava da confusão e do medo. Eu tentava convencer a mim mesma de que eram apenas os efeitos do estresse, mas a sensação de que a casa estava viva e me observava crescia a cada dia. 

Uma tarde, ao preparar o almoço, decidi confrontá-lo com a minha teimosia de jovem. 

— Senhor Jack, tem certeza de que está bem? O senhor parece… diferente. Como se estivesse lutando contra algo. 

Ele sorriu, mas era um sorriso que não chegava aos olhos. 

— Ah, minha querida, todos lutamos contra algo. A diferença é que alguns de nós conseguem ver o que realmente está em jogo. Você não sente? A casa está mais viva do que nunca. 

Meu coração parou. Não era apenas a voz dele que soava estranha; eram suas palavras, carregadas de um peso que eu não conseguia entender. Naquela noite, enquanto a tempestade rugia lá fora, não pude mais me conter. Com um nó no estômago e um aperto no peito, decidi subir ao sótão. 

A escada rangia sob meus pés, e cada passo que eu dava era um desafio à minha coragem. Ao abrir a porta, um frio insuportável me envolveu. O sótão era escuro, exceto por uma luz fraca que parecia emanar de um canto. Quando me aproximei, percebi que não era apenas uma luz, mas uma espécie de pulsar, como se algo estivesse se agitando ali dentro. 

— Liah… — O chamado era suave, quase um sussurro. Era a voz do senhor Jack, mas não era dele. Era um eco distorcido, vindo do próprio coração da casa. 

— Senhor Jack? O que está acontecendo? 

Eu estava paralisada, mas a curiosidade me puxava para frente. A luz tornou-se mais intensa e, por um momento, vi o que estava se movendo: sombras dançantes, figuras que pareciam absorver a essência do lugar. 

— Venha, Liah. Você pertence a nós agora. A verdade é uma anomalia, e você acabou de descobrir sua essência. 

Senti o chão tremer sob meus pés e, em um instante, uma onda de frio me atingiu. Meu grito se misturou com o vento que uivava lá fora. 

No dia seguinte, despertei no sótão, sozinha, sem lembrar como, de fato, adormeci. A casa estava silenciosa. O senhor Jack havia desaparecido. O único sinal de sua presença eram os ecos de suas palavras que ressoavam na minha mente e a porta do sótão, agora fechada, mas com uma luz tênue que ainda brilhava através das frestas. 

Não pensei mais e deixei aquela casa. Nunca mais voltei. 

Às vezes, quando a chuva cai e as sombras dançam nas paredes da minha casa, posso ouvir a voz e ver o rosto desfigurado do estranho senhor Jack. Ele me chama, como se eu também fosse uma parte daquela anomalia, perdida entre o que é real e o que nunca foi. O estranho senhor Jack será o meu eterno terror.  

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Fome Abominável

Isso aconteceu há mais de cinquenta anos, quando eu ainda era um jovem adolescente em meu primeiro emprego, tentando juntar alguns trocados para sair…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Isso aconteceu há mais de cinquenta anos, quando eu ainda era um jovem adolescente em meu primeiro emprego, tentando juntar alguns trocados para sair da casa paterna e me aventurar na capital em busca de uma vida melhor. No entanto, sendo eu um rapaz de família humilde, deveria, a todo custo, tentar ajudar meus pais, que viviam de seu próprio suor e nada possuíam, a não ser a Graça de Deus sobre suas vidas. Eu era um dos três serviçais que trabalhavam na casa dos Genarus. Além de mim, que tinha a função de copeiro, havia uma faxineira e uma cozinheira. Fora da casa, havia mais de uma dúzia de serviçais que faziam todo tipo de função que uma grande propriedade poderia exigir. 

A casa era um imenso palacete assobradado, onde era possível se perder entre os diversos aposentos. Nada estranho para uma construção que precisava abrigar uma família tão importante. Os Genarus que conheci eram uma família de nove pessoas ao todo, contando a matriarca, que estava se aproximando dos cem anos. Dona Gercira era a mais velha deles. Mesmo já bastante debilitada fisicamente, ainda mantinha certa lucidez e, sempre que havia alguém disposto a ouvi-la, relatava várias histórias sobre a opulência que envolvia a história de sua família. Se essas histórias realmente aconteceram, ninguém sabia ao certo, mas ela gostava de contar sobre a oportunidade que sua família teve de hospedar, em sua casa, o Imperador e sua esposa, numa viagem que a Família Real fizera por essas bandas. 

O restante da família era composto pelo Coronel Severiano, sua esposa, Dona Amélia, seus quatro filhos, um irmão – que não tivera sucesso na vida e vivia às expensas do coronel – e, por último, um filho bastardo, que ninguém ousava admitir ser seu. Dentre os filhos do coronel, havia uma adorável jovem que, por sua beleza, era considerada a joia mais rara dos Genarus. Essa singular criatura era a jovem Elizabeth, a quem seu pai sempre chamava de Liz, comparando-a à delicada beleza da flor que era o símbolo da realeza da França, país de origem de sua esposa. 

A propriedade dos Genarus era de um tamanho descomunal e, devido a essa infinitude de terras que se perdiam no horizonte, sempre havia um enorme contingente de pessoas de todos os tipos, num vai e vem infinito. Até porque a estrada real cortava suas terras de ponta a ponta. Por esse movimentado caminho, passavam dezenas de pessoas diariamente, de um lado para o outro. Próximo à casa grande, havia um enorme barracão que, outrora, em tempos bastante antigos, fora uma senzala abrigando mais de sessenta escravos, e que, na época em que trabalhei lá, era usado como abrigo para os viajantes. Coronel Severiano sempre fora um homem bastante benevolente e muito prestativo aos mais necessitados, desde que, por sua vez, soubessem o significado de respeito e obediência, e cada qual permanecesse em seu devido lugar. 

O que causou a ruína da família Genaru aconteceu num friorento mês de janeiro, quando um agrupamento cigano acampou em suas terras. Logo após as festas de final de ano, sempre acontecia aqui em nossa cidade — e ainda acontece todos os anos — uma festa em homenagem aos três Reis Magos. Esse era o motivo pelo qual os ciganos estavam acampados ali, pois esses nômades perambulavam de cidade em cidade, aproveitando as festas para comercializar suas bugigangas e seus artifícios mágicos. Como nossa cidade era bastante pequena — e ainda é —, padre João Pedro, o pároco da época, não autorizou que eles acampassem pelas cercanias. Por isso, receberam autorização do Coronel para ficarem em suas terras. 

Dentre esses curiosos nômades, havia um jovem chamado Iago, que era a perdição e o pecado em pessoa. Jovem alto, de corpo atlético, com belíssimos olhos claros, cabelos dourados encaracolados e sorriso fácil, esse belo rapaz muito se assemelhava à imagem de João Batista, de Da Vinci. Além de muito belo, era também eloquente, sabia tocar violão e cantava com uma voz tão doce quanto a de um anjo entoando um louvor ao firmamento. Quando Elizabeth, passeando a cavalo, acompanhada de seu irmão caçula, o viu pela primeira vez, ficou imediatamente seduzida pelos seus encantos. 

Elizabeth, ninguém sabe ao certo como, conseguiu, numa determinada tarde, estar a sós com esse jovem, que já era o objeto de desejo da maioria das mulheres solteiras da cidade e, com certeza, de muitas casadas também. Ele era um homem que, apesar de ter uma aparência muito juvenil, já estava na casa dos seus vinte e cinco anos e, desde cedo, havia sido instruído pelas ciganas sem marido de sua tribo sobre os caminhos que levam ao paraíso carnal. 

Iago sabia, desde muito jovem, como agradar uma mulher em todas as suas vicissitudes e desejos. Elizabeth, que recentemente completara dezessete anos, mesmo transpirando desejo e volúpia, ainda era muito inocente em certos assuntos. Sua família mal a deixava respirar longe de seus olhares vigilantes. Coronel Severiano era uma fera, e a maioria dos pretendentes o temia como o diabo teme a cruz. Mas Iago era indiferente a tudo isso; nem sequer sabia ao certo quem ela era, muito menos quem era seu pai. Quando se viu na iminência de conquistar mais um coração para sua crescente coleção, não se fez de rogado e a cobriu de galanteios e elogios, deixando a jovem e inocente Elizabeth completamente embriagada de desejos por ele. 

No dia seguinte ao qual se conheceram, Elizabeth disse que queria estar a sós com ele em um local afastado, onde pudessem ter liberdade e privacidade para se conhecerem melhor. Combinaram, então, de se encontrar às margens do rio, onde buscariam algum lugar mais calmo, longe de olhares curiosos. Naquela tarde, ela selou o destino de toda sua família ao entregar sua inocência ao cigano Iago. Uma pessoa como Coronel Severiano tinha olhos por toda parte e conseguia enxergar tudo o que acontecia ao seu redor. Naquela mesma noite, o acampamento cigano foi incendiado. Muitos ciganos foram mortos, e o galante e belo Iago nunca mais foi visto — fato comum entre os desafetos do Coronel, que anoiteciam, mas não amanheciam, desaparecendo sem deixar vestígios. 

A mãe de Iago — a cigana Soraya — era uma cartomante poderosa e tão bela e sedutora quanto o próprio filho, e estava fora do acampamento naquela noite, na casa do prefeito, prestando-lhe alguns de seus serviços sobrenaturais — consultando os astros para lhe mostrar o caminho mais rápido ao paraíso. O prefeito, na época, era um viúvo que jamais permitira que o leito outrora ocupado por sua finada esposa ficasse vazio. Quando Soraya soube do trágico acontecimento em sua tribo, teve uma incontrolável crise de loucura e partiu numa desenfreada correria até a casa dos Genarus. Um dos ciganos relatara a ela tudo o que acontecera, pois, de alguma forma, sobrevivera ao ataque ao acampamento. Escondido para preservar sua própria vida, ele pôde presenciar quando os jagunços do Coronel levaram Iago preso e amordaçado, arrastado por uma corda como um perigoso animal selvagem. 

Era alta madrugada quando todos na casa foram acordados pelos gritos ensandecidos de uma mãe desesperada em busca de seu filho. A cigana estava no mais profundo desvario, urrando como um animal ferido e esmurrando violentamente a porta da frente, como se quisesse derrubá-la. Seus gritos eram de cortar o coração e, certamente, podiam ser ouvidos a uma enorme distância. Até hoje — mesmo depois de tantos anos — ainda posso ouvi-los em meus sonhos... 

— Devolva meu filho... Devolva meu filho... Seu monstro! 

Lembro-me de que, em cinco minutos, todos na casa estavam de pé. Coronel Severiano foi o primeiro a ir até a porta. Logo, dois de seus jagunços estavam ao seu lado e, ao abrir a porta, a pobre cigana não conseguiu se aproximar dele — se o fizesse, certamente o teria retalhado com suas unhas e dentes —, pois os jagunços a contiveram. Debatendo-se como um animal selvagem, foi necessário que mais alguns homens se juntassem aos dois primeiros para conseguirem segurá-la. Vendo que suas forças eram insuficientes para enfrentar o poderoso Coronel, ela baixou a cabeça e começou a chorar com profundos soluços de lamentação. Em dado momento, uniu forças, levantou a cabeça mais uma vez, olhou nos olhos do Coronel e perguntou-lhe: 

— Me diga, por que tanta maldade com pessoas inocentes como nós? Só estávamos acampados por um breve momento em suas terras. Que mal fizemos ao senhor ou à sua família para merecermos tão violenta afronta à nossa humilde existência? O que fizeram com meu filho?

O Coronel, não querendo expor a imagem de sua filha — que logo seria enviada a um convento por uma longa temporada, a fim de expiar seus pecados e refletir sobre sua indecorosa ignomínia —, apenas lhe respondeu: 

— Com muita prestatividade e toda boa vontade do mundo, abri as portas de minha propriedade para seu povo, mesmo quando a própria igreja lhes negara abrigo. Permiti que instalassem suas barracas imundas em meus domínios e fiz vista grossa perante suas profanas práticas de magia negra em minhas terras. Contudo, criaturas vis como vocês parecem nunca se contentar com o que lhes é oferecido; sempre tentam pegar aquilo que não lhes pertence. Da mesma maneira que são vistos por todos como gente de índole e costumes bastante duvidosos, mais uma vez demonstram aqui, perante todos os presentes, que são indivíduos covardes, desprovidos de qualquer forma de caráter. E ainda têm a ousadia de vir à minha casa me acusar de algum tipo de ato vil. Que culpa tenho eu se, por onde passam, conquistam apenas inimizade e repugnância de todos ao seu redor? 

— Inimizade! Repugnância! É tudo que tens a me dizer? 

Soraya, ao olhar ao seu redor e perceber que todos ali presentes — com toda aquela balbúrdia à frente da casa do Coronel, apinhada de gente — não ousariam, de forma alguma, contrariar nem questionar tão poderoso senhorio, entendeu que era inútil desperdiçar seu tempo e suas palavras em uma discussão tão inócua. Sabendo que muitos de seu grupo estavam mortos, os que restaram feridos e desprovidos de seus bens, e que certamente jamais veria seu filho novamente, decidiu usar seus conhecimentos sobre o mundo das sombras e invocar sobre o Coronel e toda sua família uma terrível maldição. 

— Percebo que minhas palavras e minha dor, perante sua tão importante figura, são completamente irrelevantes. Contudo, nobre Coronel, quero que saibas que, por mais poderoso e quão importante o senhor possa se achar, logo perceberá que o senhor não é ninguém e que toda a riqueza que acha que possui não lhe servirá de nada. A vida de qualquer ser humano é como uma partida de xadrez: por mais longa e importante que pareça, ao final, todas as peças — sejam elas peões ou reis — retornam sempre para a mesma caixa. 

 — O senhor encheu a boca para dizer que somos seres repugnantes. A partir de hoje, tanto o senhor quanto toda a sua honrada família saberá o significado da palavra repugnância. Sei que não terei a chance nem ao menos de dar o último adeus ao meu amado filho — todos sabem o que acontece a quem afronta pessoas ditas poderosas como o senhor —, mas dou-lhe minha palavra: viverá para ver toda a sua família definhar diante de seus olhos, e somente quando o último de sua descendência não estiver mais entre os vivos, terá o privilégio da morte. 

A cigana, que naquele momento estava com os braços livres, os levantou em direção ao Coronel e, após fazer alguns sinistros movimentos e proferir palavras em um idioma desconhecido, soltou uma gargalhada sinistra, como se a loucura a tivesse dominado de vez. Um dos jagunços — o tipo de homem com sangue nos olhos, que adquirira o abjeto prazer de tirar a vida de outro ser vivo — deu-lhe um tiro entre os olhos. A cigana caiu morta na varanda. Para justificar seu ato de violência gratuita, ele disse, alto o suficiente para que todos ouvissem: 

— Ninguém, seja quem for, ameaça meu Coronel ou alguém de sua família em minha presença e sai impunemente, sem responder por tal desrespeito. 

Esse mesmo jagunço seria encontrado morto três dias depois, arrastado por seu cavalo, preso pelo pé ao estribo. Seu corpo estava terrivelmente ferido, tanto pela queda quanto pelos coices que o cavalo, em completo estado de pavor, lhe aplicava repetidamente. A ruína dos Genarus começara no exato momento em que a cigana fora assassinada a sangue frio. O mesmo fogo que reduzira o acampamento cigano a cinzas, devido a uma estranha ventania, se alastrara pelas pastagens e plantações da fazenda, consumindo tudo o que estava à frente. Mais da metade de todos os animais da fazenda pereceu naquele violento incêndio. Nenhuma plantação ficou intacta. O prejuízo material foi extraordinário. Mas o pior ainda estava por vir, e teve início naquela mesma noite, quando Elizabeth, ao presenciar a cena lastimável da cigana morta diante de seus olhos, e ao saber dos planos de seu pai de enviá-la para um convento, decidira atentar contra sua própria vida.

Enquanto a imensa propriedade dos Genarus ardia em incontroláveis chamas, os ciganos que sobreviveram ao covarde ataque ao acampamento reuniam os parcos bens que lhes restaram e, após recolherem o corpo de Soraya, decidiram partir ainda naquela mesma noite. Nunca mais se ouviu falar deles. Na casa dos Genarus, quando o alarde da morte de Elizabeth foi dado, houve um desespero total, e a situação ficou ainda pior quando um dos serviçais chegou correndo para avisar que o irmão do Coronel havia perecido no incêndio, tentando salvar alguns animais das chamas. Para uma senhora quase centenária, todas aquelas desventuras foram demasiadas, e seu coração não pôde mais suportar tantas desgraças em uma única noite. Assim, a matriarca da família também se despediu do mundo dos vivos. 

No dia seguinte, o caos continuou. Após as exéquias de três integrantes daquela poderosa família, logo se descobriu o porquê de a cigana ter dito que eles saberiam o significado da palavra "repugnância". Quando o jantar foi servido, aqueles que ousaram se alimentar não conseguiram; a comida estava estragada, havia até mesmo larvas no assado que fora servido. Como todos estavam cansados demais e extremamente desolados, decidiram, cada qual, se recolher a seus devidos aposentos. Dona Amélia, demonstrando estar bastante irritada com aquele desrespeitoso ato de negligência, deu a ordem para que toda a comida fosse descartada. A cozinheira, sentindo-se bastante ofendida, recolheu a comida da mesa sem entender nada do que se passava. Pela primeira vez, todos nós, os serviçais presentes naquela noite, nos refestelamos com um intocado banquete dos Genarus. A comida estava esplendidamente deliciosa. 

No outro dia, quando o almoço fora servido, a cozinheira levara um bofetão por parte do coronel que, ao ter seu prato servido, se levantara da mesa e, num ato de violenta selvageria, se lançara sobre a pobre cozinheira a cobrindo de ofensas e impropérios. A filha mais jovem do Coronel vomitara sobre a própria mesa. Todos da família Genaru olhavam para a comida com a expressão do mais abjeto asco. Dona Amélia colocou as mãos sobre a face e começou a chorar desesperadamente diante do que ela via sobre sua bela mesa de jantar. Vermes enormes rastejavam entre os talheres e a prataria. Subindo pelas finas taças de cristal. Mais uma vez fora dada a ordem para descartar toda aquela comilança. O jejum dos Genarus continuava. 

Naquele mesmo dia, após o jantar ser servido e a cena se repetir, a cozinheira, depois de mais de vinte anos servindo naquela casa, foi-se embora com o sentimento de mais profunda ingratidão. Sentia-se extremamente ofendida, pois sua comida estava em perfeita ordem e asseio. O odor era agradabilíssimo, e o sabor, melhor ainda. Mais uma vez, nos banqueteamos como se fôssemos pessoas de mais alta estirpe. A pobre faxineira ficou responsável por preparar as refeições até que uma nova cozinheira fosse contratada. No dia seguinte, assim que ela serviu o almoço — claro que não era nenhum banquete, mas tratava-se de um belo repasto —, perdeu até mesmo o emprego de faxineira. Nenhum dos Genarus sequer experimentou a comida daquela pobre coitada. Alguns saíram da mesa com ânsias, cobrindo os olhos e a boca, como se estivessem vendo a mais terrível das visões.  

Desde aquele dia, nunca mais voltei àquela casa, mas soube que, em menos de quinze dias, mais dois integrantes daquela família se recolheram à cidade dos esquecidos. O restante os seguiu em pouco tempo — haviam todos morrido de fome. O filho bastardo do Coronel, não suportando toda a tragédia que se abateu sobre aquela casa, decidiu partir e nunca mais voltou. Notícias suas, ninguém mais teve por aqui. Se estava vivo ou morto, ninguém sabe. 

Alguns acreditam que esse filho torto ainda esteja vivo — a menos que o Coronel tenha outro descendente desconhecido —, pois, segundo a profecia da cigana Soraya, o Coronel Severiano só teria o privilégio da morte quando o último de sua linhagem morresse de fome ou atentasse contra a própria vida. E ainda há quem ouse dizer — mesmo sendo uma das criaturas mais terríveis de se ver — que o Coronel ainda esteja vivo. Como, ninguém sabe ao certo, pois se alimenta muito raramente, uma vez ou outra, quando já não consegue mais suportar a fome. Quem já o presenciou comendo diz que é uma cena lastimável. O poderoso Coronel Severiano, para poder se alimentar, precisa vendar os olhos antes de ver a comida e, quando o faz, fica com ânsia de vômito o tempo todo, vez ou outra retirando vermes imaginários da boca...

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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