Descrença

Com as mãos trêmulas, levo mais um copo de whisky à boca. O sabor forte afoga minha língua e anestesia a sensação…

Imagine

Com as mãos trêmulas, levo mais um copo de whisky à boca. O sabor forte afoga minha língua e anestesia a sensação de desespero e pavor que toma conta do meu ser.

Sou incapaz de descrever o medo visceral que sinto. Estou congelado, petrificado em frente ao computador, com uma tela de busca aberta. Facilmente eu seria tido como tolo por qualquer ser existente neste mundo, mas as coordenadas que recebi durante meus sonhos apontam para um local real. É anti-natural acreditar que isso seja verdade, mas assim o é!

Já há alguns meses tenho tido sonhos cada vez mais vívidos. Um anfitrião (ou anfitriã?) me convoca a sua casa, ao seu Castelo, onde devo produzir uma grande obra em sua homenagem. Durante os primeiros sonhos a figura se mostrava distante, observadora, mas aos poucos passou a ficar cada vez mais próxima, chegando ao ponto de me estender as mãos pálidas e esguias. Pude ver a pele cinza, pútrida, com ossos quase aparentes, que causou uma repulsa intrínseca ao meu ser.

Durante o último sonho, recebi ordens concretas de me dirigir a sua residência sem maiores delongas. Inclusive a figura agora vestia um grande manto negro e surrado. Por uma pequeníssima fração de segundo, pude ver seus olhos de cor púrpura, tão profundos e famintos quanto o próprio inferno. Fora me informado as coordenadas, com exatidão. Acordei em sobressalto e resolvi escrever os números antes que acabasse esquecendo.

Agora, pela manhã, me propus a pesquisar, por mera curiosidade e para poder, finalmente, dormir em paz.

Estou em estado de choque, como nunca estive antes. O local é real, o Castelo é real, ele existe tal como meu computador, minhas anotações, minha casa… Ele reside lá, no topo da montanha, com sua majestade brutal e melancólica. O musgo em seus muros como seu manto. As torres como sua coroa.

Já tive que lutar contra meu café da manhã para que continuasse onde está, além de dividir espaço com as três ou quatro doses de whisky que tomei.

Nada reduz o tremor, o espanto, a amargura, a angústia… Desejo ao mesmo tempo tanto me esconder quanto ir até lá!

Bem, deixarei aqui este registro, para que saibam que resgatei minhas economias, reuni tudo que pude e partir para aferir se é possível existir alguma verdade em tal abismo de descrença e loucura.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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Púrpura Espectral

Ainda não havia encontrado Malus, mas muito me foi oferecido no Castelo Drácula. Fui instalada em um suntuoso quarto vitoriano…

MidjourneyAI

Ainda não havia encontrado Malus, mas muito me foi oferecido no Castelo Drácula. Fui instalada em um suntuoso quarto vitoriano. Nunca tive tanto à minha disposição. A atmosfera sombria e gélida do castelo adentra a minha alcova e sinto paz. A tapeçaria em tons de púrpura é um deleite, sendo eu tão apaixonado por esta cor rara no vilarejo de onde vim.

A cama é de uma beleza e conforto inenarráveis, me delicio com o toque da ceda pura em minha pele. Reparo que toda a mobília mantém os mesmos ornamentos. Me distraio com apetrechos específicos em cima da penteadeira, mas a escrivaninha me chama ainda mais a atenção.

Ao me aproximar, uma vela de chama roxa acende sozinha. Pego a flor negra solitária que repousava em cima de um envelope, dentro havia uma carta com os seguintes dizeres:

Ane, sinto por não estar presente durante sua chegada, pois foram-me designadas ocupações para além do castelo. Você está segura aos cuidados do Conde.

Há um baú, você deve ter notado, nele encontrará o traje para a noite de hoje. Sim, se a chama violeta acendeu para você, é hora de se aprontar, minha cara.

Anseio pelo nosso reencontro.

Malus.

Um longo, mas não muito volumoso, vestido de um roxo tão escuro quanto o céu que eu podia ver por detrás das cortinas das janelas entreabertas, me deslumbrou. Suas delicadas rendas me fizeram lembrar das roupas simples que outrora usava, mas agora era diferente. Não mais me parecia com a frágil camponesa que fitava a lua. Eu sinto o poder que emana de mim, e embora tudo pareça tão fantástico, sinto-me despertar para a vida.

Ouvi o badalar das 7 horas. Não tinha certeza de qual parte do castelo o som saiu, mas sem alguém para me acompanhar ou impedir, caminhei até o jardim. Um vulto com roupas em tons violáceos me chamou a atenção. Segui-o. Suponho que estava perdido, pois, mesmo eu estando ali pela primeira vez, percebia que seus passos não eram seguros de si.

Estava obcecada. Não poderia desejar nada mais do que perfurar suas veias e beber de seu sangue, gota a gota. Quando finalmente me aproximei o suficiente para realizar tal ato de luxúria, fui abordada por uma voz cavernosa.

— Apreciando a noite, senhora?

— Muito mais me alegra apreciar você.

Uma névoa lilás translúcida nos envolveu. Malus tocou meu rosto e me beijou. Olhou por trás de mim e sorriu maliciosamente.

— Você estava caçando? Pois bem, faremos juntos.

De um modo o qual não compreendia, aquela figura, que antes me parecia perdida, caminhou para o nosso encontro. Pude ver que se tratava de um homem. Meu companheiro beijou sutilmente minha mão direita e a segurou. Mordeu o pescoço que eu tanto ansiava e, se voltou a mim. De suas presas enormes escorria um líquido roxo. Consentiu com a cabeça e me entregou o ser.

Indescritível o êxtase que me foi fornecido. O sangue púrpura se apoderou de mim e me arrebatou em uma explosão de sentimentos. Sensações nunca antes experimentadas me deixaram atônita. Tudo ao meu redor agora era de um esplendor violeta.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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Sob a Luz da Chama Purpúrea

Nenhuma voz, nenhum som garganta afora…

MidjouneyAI

Diário de Nauärah, não datado

Nenhuma voz, nenhum som garganta afora. Percebo apenas um lumiar em tom violáceo no salão onde eu me encontro e essa tonalidade transmite-me algo importante que eu tinha aprendido em minha aldeia: a cromoterapia, o poder das cores. Ver a cor violeta é sempre uma dádiva. Além do mais, lembro da violeta, a flor que tantas mulheres da nossa aldeia admiram.

Começo a pensar se foi boa a ideia de me aproximar deste castelo. Em meio a pensamentos distraídos e neste grande salão frio, noto, ao longe, uma silhueta. Cabelos negros e presos, com mechas soltas. Vestes levemente vitorianas com traços góticos. Bem… é uma dama, certamente, mas a sua energia etérea — que posso sentir daqui da outra extremidade, me faz engolir medrosamente menos de um mililitro de saliva, principalmente, quando percebo que ela não se move e parece tomar notas em uma espécie de papiro.

Antes mesmo que ela pusesse seus supostos serviçais para me colocarem para correr, penso em me apresentar, humildemente, porque está clarividente que ela reside por aqui ou é a esposa do Drácula. Ou, até mesmo, é o próprio Drácula em uma figura feminina.

Entre a iluminação violácea, não percebo que a criatura de pele translúcida já está perto de mim. Tão entretida com a beleza deste local, não a notei em seus movimentos. Mas a olho, fixa e medrosamente. A sua pele translúcida, quase, me amedronta. Se ela se atrever a me tratar de maneira rude, os meus arcos já estão na posição correta e as minhas flechas se armariam em segundos. Mas são apenas pensamentos de medo pelo que passei com alguns homens de pele caucasiana. Com essa criatura não consigo ser tão ruim. É como se eu buscasse nela força e cumplicidade para apaziguar os meus traumas.

Eu estou acostumada com animais da mata, a lutar, como uma boa arqueira. Para mim, é natural. Mas aqui eu teria que abaixar a minha guarda de indígena rude, pelo menos, enquanto necessito. Aqui há humanos, mais do que isso — seres híbridos, quase, até vampiros, eu tenho certeza. Mas se eu não pareço tão rude quanto demonstro, possivelmente ninguém também será, dos que residem por aqui. Certamente, se eu impuser limites aos hóspedes seria apenas uma maneira de preservar a minha segurança.

Com certeza, as minhas armas a assustaram. Paro de pensar demais e tento abaixar os arcos e flechas, abaixando, também, a minha cabeça e fazendo um gesto que aprendi com o meu pai, que aprendeu com o meu avô pajé: fechar o punho e o colocar sobre a testa, em sinal de rendição. O faço.

— Sou da família “Tupiniquim” — profiro, quase me sentindo uma tola. Mas a minha força interior me ergue e continuo. — Uma aldeia antiga da região do pantanal do Amazonas, no Brasil. Sou filha de Uyara e Nanquim. E o meu nome é Nauärah.

Eu não faço ideia se ela compreende um terço sobre o que eu digo. Confesso que nossos nomes são específicos e quase incompreensíveis.

— Tenho muito conhecimento em caça, pesca, armas de arco, flecha e construções de madeira maciça. Conheço sobre as matas, ervas medicinais… Meus avós são curandeiros. Derroto qualquer animal, se necessário. Posso ser útil e a minha intenção aqui é a mais serena, senhora. Eu vim apenas colaborar, estudar. Por onde passo, eu sou assim. Foi o que minha aldeia me ensinou. — Solto o ar de cansaço. Aquele ar gélido estava adentrando a minha boca e nariz. Acostumada com o clima quente, já posso saber que eu teria que me acostumar por aqui ou mudar totalmente as minhas vestes. Uma capa longa na cor de terra não iria me proteger. — Se eu puder ficar, posso mostrar o dom da força que carrego dentro de mim, caso o Castelo precise e vocês serão ainda mais fortes.

Ouso e a olho, aguardando, temerosa, a sua aprovação, enquanto as luzes violetas parecem se direcionarem ao meu rosto, como se fossem as luzes, servas desta mulher.

Quase tremo, mas profiro em tom profícuo, para que ela me ouça, ainda que ela não entenda a minha linguagem — qual idioma ela fala? Qual? Pergunto-me, inutilmente. O meu nervosismo é visível e os meus apetrechos parecem tremer com algum movimento que faço. Mas sorrio leve para ela, pois fui sincera e genuína.

Trecho do Memórum de Olga Nivïtzz, página 299, ano desconhecido

Frígidas são as alcovas e cômodos d’este sombrio lugar, caríssima senhorita. — Proferi em plácida voz, pois, o medo que emanava de sua energia evidenciava seu desconhecimento sobre o Oculto, ao menos, no que se refere à Magia de Sangue e, portanto, não pretendia alimentar seu temor. Reconheci-a como uma conviva, ela decerto ouvira o chamado do Portal e viera, portanto, é inestimável o seu bem-estar durante a estadia.

O eterno inverno úmido que reside no Castelo poderia matá-la, suas vestimentas eram propícias apenas para localizações tropicais. “De qual século tal peculiar dama deve advir?” pensei. Não reconheci sua nacionalidade proferida, ainda não sou capaz de dominar o universo em sua multiforme veracidade.

Permita-me vestir-te com esta peça — indaguei-a, seu semblante expressava suspeita, retirei com delicadeza meu sobretudo e a sorri para pacificá-la o quanto me fosse possível.  — Basta que retires as tuas armas de teu dorso. Estás segura comigo. — Afirmei.

Nauärah… interessante. Seu nome possui uma sonoridade bastante sui generis, no entanto, há resquícios reais da influência, ao que me soa, da língua da Magia; alehanuhra eriihs, eu diria. O idioma Mágico emergiu no vínculo entre todas as mais valiosas línguas da existência humana.

Ao oferecer-lhe minhas vestes, senti o frio ultrapassar o tecido de meu vestido; há éons que não me arrepio de tal forma com essa aragem de íntima gelidez. De fato, minha intuição consegue se estimular facilmente, a mera tez absorve inúmeros sinais. Desde que abri o Portal para trazer novos residentes a esse valioso receptáculo, meus pressentimentos estão assim, à flor da pele.

Diário de Nauärah, não datado

Zelo, presteza, excelência. Essas três palavras definem tal criatura feminil. Ainda me sinto confusa sobre seu nome e quem é, de fato. Por outro lado, sinto-me segura, realmente, como ela assegurou-me.

Ela veste-me com uma roupa ainda mais felpuda e calorosa do que o meu sobretudo. O roupão protetor é violáceo, quase negro. Eu não mudarei a minha essência e a qualquer momento que eu retirar esta capa, a minha identidade se revelará. Por outro lado, bom utilizar outras vestes que não deixem absolutamente nenhuma extensão da minha pele se revelar.

Apenas a olho, como quem acredita que ela não me importunaria. Não consigo proferir uma palavra. Ninguém me toca, ninguém nunca me tocou, exceto quando no terrível acontecimento. Não permito que ninguém se aproxime, mas, por um acaso, ela é uma dama. E não a proíbo que o faça.

— A vossa pessoa faz-me lembrar dos meus líderes. Minhas felicitações por isso. Não confio em ninguém, senhorita, entretanto, quiçá, haja uma primeira vez para que isso aconteça. — Sorrio, apenas com os meus lábios, mas consigo sorrir.

Olho os meus apetrechos pelo chão púrpuro, ainda assim, suave. Ninguém ousaria mexê-los. Talvez a minha sutil aspereza seja apenas uma capa, assim como esta. Esta capa tem uma energia intensa, mas propícia. Aprendi a silenciar e identificar as energias advindas de lugares inimagináveis. E isto aqui é poderoso, constato.

Trecho do Memórum de Olga Nivïtzz, página 299, ano desconhecido

Sinto-me honrada em evocar tais valiosas memórias em ti — respondi afastando-me ligeiramente. — Fique à vontade n’este Castelo, há outros residentes que poderás conhecer. Eu sou Olga, meus cumprimentos. — Curvei-me de modo suave. Faz tanto tempo que estou imersa n’esta atemporalidade… já não sei se possuo a educação de minha infância, aquela que eu tinha quando eu era ainda uma humana a viver como qualquer outra; já não sei se estou em demasia ultrapassada, dado que hoje — seja o que for que o “hoje” signifique — há mais futuro do que passado.

Não necessitarás de armas por aqui, não há inimigos que sofrerão com elas ou que sangrarão com o fincar das afiadas lanças. O mal que faz lar n’esta lacuna em que estamos, entre o tempo e o espaço, apenas jaz por meio de nossa única e verdadeira arma… a mente… — Aproximei-me da lareira, o lume que permeava a sala estava em um tom violeta muito mais profundo, sentia energizar meu ser. Nauärah em silêncio, é uma inteligente mulher — sei disso, pois noto pelas suas falas e referências. Sua mudez expressa muito da sua introspecção preciosa, a qual sempre darei grande valor. Sinto que há uma ligação dela com outros residentes, não compreendo se esta intuição advém do plano corpóreo, pois, ela emana uma espiritualidade incomum. 

Se me permites, preciso descansar um pouco, mas sempre que precisares de mim, vá ao último cômodo do corredor maior ao norte do Castelo, este é meu aposento; seus umbrais possuem um tom avermelhado e ornamentos específicos, como sigilos de uma antiga doutrina. Tu o reconhecerás, sem dúvida. — Despedi-me, ela gesticulou uma saudação. Seu olhar era de compreensão enquanto minha exaustão parecia ainda maior do que antes. Afastei-me devagar à saída que levava ao caminho de meu quarto, tudo estava frígido como se eu estivesse lá fora, na neve. Pouco antes de chegar aqui, assim, tão perto de abrir a porta e começar a escrever, senti uma mórbida e silente solidão que apertou meu peito em amargura — e que está ainda, insistente, perdurante enquanto observo a noite pelos vitrais e continuo recordando de todos aqueles que já deveriam ter se tornado reminiscências exíguas.

Diário de Nauärah, não datado

Vejo Olga sumir em um dos corredores. Decerto, ela pensaria que sou observadora demais por segui-la com o olhar até ver sumir a sua silhueta. 

Por eu estar sozinha agora e não ter visto nenhum outro hóspede, eu sigo para um dos quartos e enquanto adentro-o, percebo tons violetas nas paredes do imponente castelo. Me vejo envolta por uma atmosfera de mistério e encanto. Retiro a capa colocada em mim por Olga e a guardo cuidadosamente. O meu corpo adornado por peças ancestrais se casa com os reflexos púrpuros das paredes com tapeçarias tecidas em tons violáceos. Isso cria um ambiente acolhedor e ao mesmo tempo enigmático. 

Caminho silenciosamente em direção à janela alta, observando flores roxas no jardim. A lua, quase no mesmo tom, as lumia e as cortinas suaves parecem dançar a dança da noite sombria. 

Uma luz violeta suave é lançada sobre os móveis de madeira escura que há neste quarto onde estou. Há também uma lareira, uma cadeira estofada e um umbrífero, mas caloroso dossel, que me convidava a descansar, enquanto ao redor, estão os meus artefatos indígenas cuidadosamente dispostos ao chão, sobre o tapete roxo. É coisa de Olga, penso... ela parece caprichosa no que diz respeito a ambientes. 

Olho-me no espelho e penso em uma maneira de comunicar à minha aldeia a minha chegada. As minhas vestes trazem à tona lembranças da minha terra natal. 

Viro-me e a cama majestosa, adornada com lençóis de seda violeta, parece convidar-me a mergulhar em sonhos profundos e reconfortantes. Por um momento, eu fecho os meus olhos, sentindo-me em casa mesmo em meio à grandiosidade e o desconhecido, ainda, deste castelo. Sei que aqui estou segura, não importa o hóspede que venha a chegar. 

Confiro a tranca da porta — ainda temerosa, e suspiro aliviada. Ninguém me faria mal aqui. E se fizesse, certamente eu saberia a quem recorrer. 

Exploro o banheiro e o som da minha respiração ecoa aqui. Respiro fundo e sorrio pela segunda vez neste lugar. A banheira em mármore lilás me encanta. E todo o ambiente está bem organizado e disposto.

Já refrescada e pronta para o sono, deito-me e me aqueço demasiadamente. E sei que o meu sono me levaria a lugares inimagináveis antes mesmo do amanhecer. 

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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2. Castelo Vampírico: O Encontro

4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de…

Foto de Rita Ox na Unsplash

Diário de Rute Fasano

4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de falar algo errado, ou esquecer de dizer algo que era certo dizer. Pude observar de longe alguns membros, todos parecem muito interessantes. Depois do encontro de ontem na sala principal do Castelo, cada membro foi se ocupar dos seus interesses. Uns foram levados para um quarto do castelo, outros ficaram na sala principal admirando a decoração, outros conversavam entre si. Eu apenas observava e tentava criar um roteiro na minha cabeça de como me apresentar a cada um deles sem parecer estranha, enquanto tocava a ponta dos óculos o tempo todo como uma forma de me acalmar a cada momento que alguém trocava olhares comigo, isso fazia eu parecer realmente estranha. 

Observei de longe os membros e poucas coisas pude perceber:

— Anelly tem aura romântica e etérea, parece vinda de um mundo de sonhos, alheio às sombras que permeiam o castelo. 

— Astrid emana uma aura de seriedade e erudição, seus olhos penetrantes revelam um intelecto afiado. 

— Jason é um gato, ele veio com Maria, observa tudo com uma curiosidade felina, suas ações parecem mais calculadas do que instintivas, e isso é bastante curioso.

— Maria parece ter conhecimento de ervas, desperta uma curiosidade misturada com cautela. Seu conhecimento de ervas faz ela ter a habilidade para aliviar a dor e também a capacidade de causar danos irreparáveis. 

— Olga tem uma postura enigmática, transmite uma sensação de mistério, como se guardasse segredos profundos por baixo de uma expressão imperturbável. 

Há dois membros que ainda não sei o nome:

— O rapaz que parece imerso em suas próprias reflexões, uma melancolia sutil paira sobre ele, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros. 

— A jovem indígena que possui um olhar desconfiado, parece estar constantemente avaliando os motivos ocultos por trás das interações, sempre alerta para possíveis perigos. 

Fiz todas essas observações, mas podem não ser exatas. Deduzi de apenas observar, ainda não conversei com nenhum deles para confirmar tais deduções. Ouvi alguém comentar que ainda tem mais membros chegando. Isso me deixa um pouco ansiosa.

Fui para o quarto e fiquei pensando no rumo que a minha vida tomou, sonhava na infância viver da escrita e de todas as ideias e histórias loucas na minha mente, mas a curiosidade intensa e a obsessão de entender o mundo e seu funcionamento fez com que eu fosse para o caminho da ciência. Não me arrependo nem um pouco disso, ela continua sendo a minha obsessão. Porém, cheguei à conclusão de que deixei o caminho de viver da escrita para chegar a esse momento em que eu preciso dela para manter essa entidade, o Castelo, viva. Que louco, não?

6 de dezembro — Eu acho que vi Drácula pelos corredores nesta madrugada, pode ser que não seja ele, mas sim o efeito da cafeína e noites maldormidas. Eu saí do meu quarto para esticar as pernas, mais ou menos às 3h da manhã, comecei a andar pelos corredores e os ecos dos meus passos aumentavam junto com aquela agradável sensação de solitude. Depois daquele passeio eu iria retornar ao conto que eu mal havia iniciado, passei a maior parte do tempo fazendo arabescos nas bordas da folha. Em meio à penumbra daquele corredor pouco iluminado, eu vi uma figura solitária diante de mim, caminhando lentamente, seu andar era quase etéreo e ecoava pelos corredores como sussurros.

Meu primeiro pensamento era de que outro hóspede do castelo teve a mesma ideia que eu e decidiu perambular pelos corredores. Essa figura segurava um castiçal que emitia uma luz suave que lançava sombras dançantes no corredor do castelo. Tudo que eu conseguia ver era suas costas. Vestia uma blusa branca de mangas bufantes com punho em renda que contrastava com a calça preta justa que parecia moldada a seu corpo. Para completar, botas de cano alto pretas. Os cabelos negros longos que caíam como cascata até a sua cintura e, quando virou à esquerda, fez uma breve pausa e olhou através de mim como se não me visse. Senti um arrepio subir a minha coluna que me fez paralisar. Um feixe de luz do castiçal que segurava revelou seu rosto e fui incapaz de definir se o que eu via era um homem ou uma mulher, mas tinha certeza de que não era nenhum dos hóspedes do castelo.

Seu rosto era uma obra de arte andrógina, sem traços que me ajudassem a definir o seu gênero. A pele pálida da figura parecia quase que translucida sob aquela luz fraca, o que me permitia vislumbrar suas veias roxas através dela. Nariz adunco que adicionava uma elegância à sua aparência. Mas foi nos olhos que vi a característica mais intrigante, um matiz de azul-violeta, mais profundos e enigmáticos do que os olhos de Elizabeth Taylor e ecoando o mistério do próprio castelo. E o seu cheiro! Tão pungente de uma mistura de rosas com nuances amadeiradas tão real que podia sentir o toque aveludado das pétalas das rosas na minha face —ou seria o toque de Drácula?

E o gosto de cobre suave e adocicado que me provocou um excesso de salivação, tive que pôr a mão na boca rapidamente — e assim me tirando daquela paralisia momentânea — para impedir que escorresse, pisquei para voltar a si. Decidi não esticar mais as pernas aquela noite, não exatamente por medo, quero dizer, claro que eu estava apavorada, mas ao mesmo tempo fascinada a ponto de não saber o que fazer, mas não estava preparada para aquela presença. Acho que foi o bastante por hoje para estimular meu cérebro a continuar produzindo. E assim me vi imersa em um mistério, aquela presença enigmática era Drácula?

O que quer que fosse deixou uma marca na minha mente.

P.S. Em meio à escrita, meu cérebro descontrolado foi criar teorias. Drácula existia isso era óbvio, e é de conhecimento geral também, mas será que Bram Stoker quando escreveu Drácula não usou suas próprias experiências com o Conde para escrever o livro? Isso seria um ótimo assunto para ter com os demais membros do Castelo. Adoraria ouvir as teorias deles, se eu tiver oportunidade para iniciar a conversa. 

Estou incrivelmente surpresa que Drácula cheira tão bem para quem é um morto-vivo, imaginava algo como odor de putrefação, esse eu conheço bem, sangue seco e mofo escondido por baixo de um forte odor impregnante de canela e cravo. Se a figura for mesmo Drácula, isso eu ainda não tenho certeza.

7 de dezembro — Depois de pensar muito e me esconder no quarto fugindo de interações sociais, decidi esperar o mesmo horário que eu vi o que eu acho ter sido Drácula. Sai do quarto e dessa vez não havia ninguém no corredor, aliviada e, ao mesmo tempo, decepcionada, dei passos cautelosos pelo corredor e virei à esquerda. Aquele cheiro novamente, porém sem a figura que eu esperava. Segui adiante até chegar numa porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas, como aqueles que eu havia feito nas folhas em branco que eu deveria escrever. Empurrei a porta devagar e entrei e o cheiro ficava mais intenso. Uma névoa púrpura densa preenchia aquele lugar, e espectros disformes estavam de um lado a outro produzindo uma cacofonia de sons, fui em direção aquele que emanava o cheiro que eu imaginava ser o de Drácula. Caminhei em direção a esse espectro e o toquei.

Fui levada para um local onde a névoa púrpura estava mais fina, mas a música mais alta e a figura, que de alguma forma agora eu tinha certeza de que era Drácula, estava de costas para mim. Ele no alto de uma montanha, como um maestro, fazia movimentos e cada movimento formava uma parte do castelo, como uma parte de uma melodia numa partitura. Estávamos no castelo, porém fora, era como um mundo dentro de outro mundo, só que no castelo. Drácula de costas para mim se destacava de pé em uma colina escarpada contra aquele céu crepuscular arroxeado, fazendo gestos precisos como de um maestro conduzindo uma orquestra, e com cada gesto ele parecia moldar aquela névoa púrpura com as mãos. 

Pude ouvir a música calma, atenuada, suave como uma valsa lenta. Olhava tudo em volta e aos poucos as vozes em coro iam crescendo, crescendo e tomando tudo ao redor. Com movimentos amplos ele fez as rochas se erguerem do chão formando as muralhas do castelo, tudo acompanhado da melodia, tudo em volta respondia à sua vontade. Eu sentia a melodia me apertar e pressionar, despertando os meus sentidos e crescendo como se a qualquer momento fosse explodir. E tudo era preenchido por essa melodia. O castelo tomava forma, as torres, as janelas, as portas, tudo se erguia como notas ascendentes em uma partitura, as janelas se abriram seguindo o ritmo da música e pude ver os hóspedes do Castelo, cada um ocupado com sua própria criação, e eu pude me ver dali.

Senti como se meus ouvidos fossem tapados com a pressão que a melodia causava expandindo sem cessar, eu não mais a ouvia, mas sentia a vibração e o ritmo através da minha pele e uma pulsação inexplicável dentro na minha cabeça que crescia e vibrava com a música. O último tijolo foi colocado e Drácula ergueu os braços para o céu fazendo a música atingir seu clímax. O castelo estava completo, e era uma obra de arte viva que nós, hóspedes, estávamos alimentando. Pude ver os finos filamentos violetas que interligam Drácula ao castelo e aos hóspedes.

A melodia cessou, algo que parecia eletricidade passou por aqueles filamentos em direção a mim e percorreu todo o meu corpo, se detendo no meu cérebro que relaxou. E uma sensação de leveza caiu sobre mim. Minha mente se aquietou, vazia, sem pensamentos. Ele olhou para trás com meio sorriso como se somente naquele momento tivesse percebido a minha presença, fez um lento e último gesto com a mão para que eu me fosse, mas assim que meu cérebro quis dar a ordem para minhas pernas se moverem, eu simplesmente apaguei. 

8 de dezembro — Acordei na cama, renovada como nunca antes. Coloquei meus óculos que haviam sido deixados na mesa de canto e vi que em cima da escrivaninha um toca-discos tocava Réquiem em Ré menor de Mozart e também um vaso com belas orquídeas roxas. Automaticamente lembrei do que minha avó dizia: “o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas”. O que sei sobre o amor tem relação com bioquímica e escolha, então escolhi ter afeição por esse ato. E aqui está a trouxa que vos fala. É melhor eu começar a escrever agora. E que Deus, se existe um, tenha piedade de mim.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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Como não poderia deixar de ser, tamanho Castelo não teria somente minha presença em suas dependências…

MidjourneyAI

Como não poderia deixar de ser, tamanho Castelo não teria somente minha presença em suas dependências… vejo que estou acompanhado por mais pessoas: homens e mulheres, das quais já sei alguns nomes, dividem comigo esse espaço. Listarei a seguir os que tomei nota.

Astrid, essa quem vi na posse do que parecia um diário (datado de 1880? isso mesmo que eu lera?); Anelly, cuja figura pálida, quase vampírica, por excelência, somada ao seu expresso apego por poemas e vinhos dispostos no lugar, atiçam de maneira peculiar a busca por querer saber mais sobre ela… Rute Fasano, uma presença que eu consideraria a menos digna de receios nesse Castelo; sua atenção dada às plantas, aos animais do ambiente… isso me leva a crer que seja, talvez, uma bióloga, cujo interesse deve abarcar tanto os domínios de sua presumida área quanto o mundo sobrenatural, que possivelmente nos rodeia… Uma estudiosa, por certo. E Maria, na companhia de seu gato (Jason creio ser o nome dele) … parecem estar aqui para algum objetivo específico, visto que ela e o felino parecem até se comunicar…

Entre todas essas figuras femininas, cujos nomes eu anotei, uma não consta por não saber justamente como chamá-la… com seu aspecto de verdadeira estirpe guerreira, imponente e, pelo que pude reparar — ainda que ela tentasse esconder, ao que parece —, dotada de arco e flechas… tudo isso me dá a certeza de estar num lugar completamente especial, fora de qualquer cogitação na tentativa de classificá-lo.

Digo fora de classificações por se tratar de um Castelo, aparentemente, à margem da realidade visível… chego a essa momentânea conclusão a partir das impressões vindas de outra presença nas torres desse lugar: Olga… Olga Nivïttiz (seja lá como se pronuncia esse seu sobrenome, anotado por mim ao bisbilhotar seu diário, ao que parece, que ela deixara de lado num raro momento, sobre um móvel do Castelo). Essa mulher, ao que tudo indica, possui algum tipo de conhecimento muito além do que eu poderia imaginar; talvez, contenha sob os bolsos de seu manto, dessa indumentária longa e escura que arrasta pelos corredores, a própria resposta para as perguntas que me surgem desde que passei a fazer parte das dependências desse habitáculo… algo assim não deixa de ser misterioso e, ao mesmo tempo, fascinante para querer solucionar…

Não registrei nas linhas anteriores os nomes de homens que frequentam o Castelo, mas com certeza (para deixar também aqui anotado) eles devem estar presentes: prova disso são os poemas e contos que pude ler, de autoria de alguns deles, sem menção a suas alcunhas, mas assinalados com os dizeres “escritor membro do Castelo Drácula” …

Finalizo agora essas anotações, prestes que estou a arriscar uma exploração maior pelos aposentos. Há pouco, vi o que parecia ser uma enorme entrada, numa das galerias daqui; por ela, tenho quase certeza de ter visto um fumacê de cor roxa… algo estranhíssimo e que, do mesmo modo, parece gritar pela minha presença…

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa
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O abraço da Toreador - a gênese do vampiro Valentine Lencastre

Emergi das entranhas da Revolução Francesa, envolto pelo terror e caos que assolavam as ruas ensanguentadas de Paris…

MidjouneyAI

Emergi das entranhas da Revolução Francesa, envolto pelo terror e caos que assolavam as ruas ensanguentadas de Paris. Ferido durante os tumultos da revolta, fui forçado a desertar, buscando refúgio nas terras desoladas e sinistras que testemunharam a brutalidade da guerra. Meu corpo curvou-se à dor, e, em súbito, abracei o solo de uma floresta sob o testemunho de hematófagos morcegos.

Fui resgatado por uma senhora, cujas escamas no rosto a tornavam uma figura ímpar, distanciando-a de qualquer similaridade com a condição humana. Ela, detentora de um silêncio descomunal, cuidou do meu corpo como quem pretendia embalsamá-lo. Ervas e muitas tiras de tecido tocavam minha pele carcomida. Eu vi tudo!... Mas toda vez que tentava falar, indagar onde eu estava, a minha língua mais parecia uma lemimscata, limitada a movimentar-se perpetuamente em si.

Fiquei sete dias e sete noites sob a tutela da anciã, até que, numa noite de plenilúnio, ela resolveu servir-me como oferenda para uma jovem e bela mulher. Todavia, por detrás de todo aquele véu de beleza e sensualidade, estava escondida uma fera faminta. Antes que a criatura se aproximasse de mim, a velha bruxa despiu-me de todas as ervas e tecidos e, com uma jarra, encharcou-me de vinho enquanto proferia algumas palavras em língua estranha, as quais evocavam a feroz criatura que habitava o corpo mais belo que pude conhecer em vida, pois também despida, em meio à penumbra, suas curvas se desenhavam alimentando os meus olhos com um espetáculo de rara beleza.

Enquanto a cópula era presente, a dama da noite, o ser advindo das trevas, em lascívia abocanhou o meu pescoço e cravou sem piedade suas presas. Fui do prazer à dor, da dor à morte, da morte à vida, pois renasci como uma nova criatura, mal sabia eu que havia sido escolhido devido ao meu ofício quando humano. Eu era um arquiteto, um dos mais requisitados da França, e ela, a besta da noite, pertencia ao clã Toreador e estava recrutando os melhores artistas para servi-los. A fome me apertava e o cheiro de sangue me atiçava a querer atacar a anciã que assistia a tudo com expressão de prazer. 

Com orientação da vampira e algumas regras expostas, disse que eu não precisava atacá-la, pois ela era sua carniçal em troca de alguns presentes. Pegou a jarra do meu banho de vinho, atacou suavemente a senhora e encheu de sangue aquele recipiente, servindo-me ainda quente. Entendi, naquele momento, que os traços de humanidade que havia em mim não mais me pertenciam. Fui abraçado pelas trevas, fui abraçado pela sedutora Toreador, clã ao qual agora sou filho.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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Rose

Caminhava eu, cautelosamente, sobre os paralelepípedos ainda úmidos da decrepita rua. Se tratava de um trajeto bastante íngreme…

MidjourneyAI

Caminhava eu, cautelosamente, sobre os paralelepípedos ainda úmidos da decrepita rua. Se tratava de um trajeto bastante íngreme. Notei, também, a presença de limo por todo o percurso que era iluminado por puídos postes, emissores de uma oscilante luz em tons de amarelo.

Era uma plácida e refrescante noite de outono, eu trajava uma blusa verde musgo, calças e botas pretas, além de uma jaqueta jeans azul marinho, roupas que foram maculadas e manchadas de escarlate, assim como minha alma. O gosto ferruginoso permanecia na minha língua. Afasto meus cachos ruivos que insistiam em cair sobre minha pálida testa, vislumbro o firmamento, onde a tímida lua minguante brilhava palidamente por detrás das nuvens pintadas de grafite, a sutil brisa noturna passara por mim, quase imperceptivelmente, espalhando o pútrido lixo por toda a extensão da rua, proveniente de sacos rasgados por gatos arteiros.

Enquanto meus olhos passeiam pela noite, meus aguçados ouvidos escutam sons familiares, como risadas de crianças, conversas, e até mesmo o fechar de portas. Conforme eu caminho, sinto um cheiro que me faz parar, era um apetitoso jantar, um pernil assado com batatas coradas, servidos com arroz de especiarias. Por mais suculento que fosse, deixou-me enjoada, então, apoiei os braços em meus joelhos, respirei e andei o mais rápido possível.

Nunca desejei tal destino, tudo o que eu queria era seguir minha vida tranquila, porém, meus planos e sonhos foram usurpados por aqueles belos e vazios par de olhos. Enquanto caminho mergulhada em uma espécie de catalepsia, penso o quão fui tola em aceitar o convite para aquela festa, praguejo a mim mesma, imersa em pensamentos sombrios, sinto a culpa me consumindo como um verme de insaciável fome. Então me deparo com o final da rua, porém, algo me perturba, elevo meus olhos e noto uma imensa ladeira bastante íngreme. Instigada pela minha curiosidade, início mais uma jornada.

A rua era completamente diferente da outra, a ausência de casas me chamou a atenção, como se fosse um caminho para o desconhecido, ela assemelhava-se a um verdadeiro conto horrífico. Notei, também, que ela era feita de terra, ornamentadas de grandiosos pinheiros, ocupando toda a extensão, formando um interminável túnel, impedindo, assim, que o lânguido luar iluminasse aquele lugar. Seria um caminho que a grande maioria evitaria, devido a sua atmosfera soturna, mas algo dentro das minhas entranhas clamava para que eu caminhasse por aquelas terras, e assim segui. Em determinado trecho, percebi que o soprar do vento se tornou mais intenso, trazendo um cheiro pungente, inspirei, um forte arrepio abraça meu corpo, sentia em minhas entranhas que precisava chegar ao final da rua. Enquanto isso, as árvores bailavam ao som de uma canção desconhecida, o som dos galhos reverberava na escuridão. Novamente me encontro refém dos meus pensamentos, ao olhar para traz, vejo a rua desaparecendo, sendo tragada pela escuridão. Ando mais alguns metros, mas paro imediatamente, eis que vejo uma construção magnifica, um colossal castelo, com os mais belos adornos presentes na arquitetura gótica, meus olhos não alcançam o cume, os vitrais brilham lindamente na escuridão. Em êxtase, subo alguns degraus empoeirados e sou recebida pela imensa porta de madeira, em tons brilhantes de escarlate, por fim, uma grande aldrava de ferro fundido completa aquela obra de arte.

— Será que ouso bater na porta?

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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O Memórum de Olga Nivïttiz: ano desconhecido, página 298

Intensidade, Sabedoria e... desolação...

MidjourneyAI

Intensidade, Sabedoria e... desolação... 

Compreendo que a dúvida cega o instinto primevo que me faz ser uma escolhida de Vehrvorus. Posso ouvir essa verdade em meu âmago como um sussurro que já não me cabe distinguir se é, de fato, a minha voz no obscuro psíquico ou se é o Ente Vehrvorus em sua magnânima revelação etérea. Respiro fundo sob o exalar noturno da noite mais escura do que a própria escuridão e, enquanto escrevo, recordo-me dos estranhos sentimentos erguidos desde meu despertar nesta manhã. O dia oferecera às minhas entranhas uma absoluta sensação de incômodo, porventura eu previsse, em certo grau inconsciente, o insólito agouro; pressentimento possível somente pelo que jurei encobrir a todo o custo: o medo. Guiada pelo temor, tenho despertado em todas as auroras debaixo de um manto de enraizada aflição, especialmente nesta, mesmo sob a égide do Ente que me revelara há certo tempo — o qual não posso mensurar com exatidão — que minha incumbência era guiar os Iguais e os Magistas pela ordem deste receptáculo — destino que me mantêm sempre lúcida em meu próprio equilíbrio. Mas, bem, tive sinais que reforçaram a intuitiva e perdurante amargura, um deles foi pouco antes de iniciar o registro duzentos e noventa e oito. 

Devo afirmar que sei que a hora é esta e que reconheço a força de meu encargo. Eu sinto o quão vestal é o espargir sublime do poderoso Ente, bem como seu fascinante existir. Eu não poderia redigir palavras de hórrida negação sobre as grades atemporais de tal sombrio alcácer, pois, ao menos para mim, não estou em um martírio. Eu compreendo as oscilações emocionais, contudo, estou cravejada ao meu desígnio; minhas retinas estão fixas em meu fado. Sim, eu também tenho com clareza os seus ardores, símeis ao O Fortuna, nunc obdurat et tunc curat ludo mentis aciem (ora oprime, ora cura, brinca com a mente). E, se posso me prolongar, confesso a minha atração mórbida ao medo e à tristura, mesmo quando me assombram — decerto que esta é uma das razões pelas quais estou aqui. Apesar de tais impulsivas e voláteis vicissitudes, quando não estou preparada, obrigo-me à preparação, obumbrata et velata (sombria e velada) e, se preciso, dorsum nudum fero tui sceleris (o dorso nu entrego à tua perversidade) — a perversidade do efêmero sentir. Eu ainda sou humana, o ínfimo tormento pode ser o bastante para me absorver.

Ó… querido Memórum, explico-me como uma criança em busca de consolo… eu sei que algo maior virá, é isso que me embarga a serenidade. Um sopro abrupto de aragem regélida abrira os vitrais deste aposento e arrepiara minha rosácea tez agora pouco. Olhei para o abismo lá fora, os pinheiros e as tão negras montanhas. Desta torre alta, o vislumbre de uma natureza singular e sombria traz uma sensação insólita — Eu não temo este lugar... — murmurei a mim mesma e fechei, apressada, os vitrais. Porém, no exato momento em que me lembrei que os convivas chegariam em breve ao receptáculo, fui penetrada por um escuso presságio que trouxe aquele rosto em minhas lembranças. Vívido rosto... ó... que augúrio. Uma singela e, se não fosse sob tal contexto, ingênua reminiscência. Feroz como um fulgor, desvelou-se e velou-se ágil, deixando seu rastro de desolação. Esse foi o primeiro sinal. 

Daemor... — Sei que sussurrei o nome dele n’um impulso irracional. 

Disparei, em seguida, ao salão principal no esvoaçar do damanoute negror que cobria meu corpo e, às mãos, como sempre, meu grimório. Sequer apreciei as refeições fascinantes feitas por Drácula. Aliás, Drácula têm sido minha única companhia há tempos insondáveis; embora seja tão somente um simulacro, possui uma veracidade que me assombra. Nota importante: Lembrá-lo de colher as Viinmdras para o ritual que não pode ser obliterado, elas devem florear na próxima lua nova; com elas será possível realizar o encantamento que desvelará a existência de Magistas entre os convivas.

Oödo ess ellahr, nonm loduus së qeom eciehllum — Proferi ao centro do símbolo de Vehrvorus. Uma névoa rubra espargiu de meus olhos, os espelhos certificavam. A minha íris anil tornou-se apenas esclera, no entanto, eu enxergava. Com a mão esquerda distendida e a direita apoiando o aberto grimório, intensifiquei a névoa cetrina a partir d’um símbolo mudhrà feito com os dedos. — Escielisih ohrnonm ohrnomus esselis. — Sigilos abissais para vislumbrar cada um dos que receberam o chamado, até o momento, por meio do portal cuja aldrava é o encanto do espectro sombrio. Estão alguns em seus devidos caminhos, percebo, estão próximos do Castelo. Percorri os claustros apressada, porque aquele sinal incitou a possibilidade de... do espectro ser assimilado por... de alguma forma... por causa da atemporalidade da invocação…

Quero dizer, o conjuro dos convivas ao Castelo Drácula é a única forma que tenho para propagar a palavra do Ente e os ensinamentos da Magia de Sangue Arcana. Os que respondem ao chamado, chegarão. No entanto, para que seja efetivo, é preciso uma abertura desvelada, límpida. E ele... ele facilmente assimilaria uma convocação de tão grandiosa significância, sobretudo por, decerto, estar, também, em busca de sanguíneos receptáculos para sua sangrenta busca por poder. Indago-me em que tempo ele está... Daemor... Temo redigir o seu nome, amarga-me tê-lo recebido em minha memória n’um súbito deslize, dói-me como a morte doeria menos do que ter sussurrado seu nome por impulso. No entanto, não o encontrei na aura do espectro, isso aponta para certas premissas, a primeira delas é que ele pode estar morto... ou ele pode residir na atemporalidade, tal como eu. Essas irresoluções perduraram à míngua, resisti a cada uma, estava certa de que eram tolices, entretanto, o segundo sinal aflorou, após longas e exaustivas horas, e dissuadiu todas as minhas certezas. 

Eu sonhei com Daemor... Os sonhos podem ser índices leais que percorrem a consciência dos Magistas para orientá-los de fissuras do espaço-tempo. Eu os levo sempre em consideração. As fissuras, como se fossem um lume vívido atravessando estreitas rachaduras n’uma parede, revelam, pela intuição, conhecimentos de inestimável valor. Tomar desta sabedoria impede que, na realidade do presente em que se encontra, o Magista sofra algum malefício em razão de mudanças temporais. O maior dos malefícios seria deixar de existir, quero dizer, nunca ter existido. Ter a linha do tempo rasurada a este ponto não é algo vulgar de ocorrer e eu não prestei honras a esta rara chance, pois, o sonho com... Daemor... foi de outro tipo... e é imprescindível redigi-lo aqui enquanto ainda me lembro. Os sonhos… como são efêmeros... 

Em sua fisionomia prepotente repousava uma seriedade pontiaguda — e eu não sei o que isso significa, contudo, esta é a melhor forma de descrevê-lo. Estávamos em uma estalagem símil ao do lugarejo em Múrmura onde o vi pela primeira vez. Vestia-se de cores sombrias, com singelos adornos em dourado envelhecido. Estávamos a sós e não demorou para Daemor aproximar-se de mim. Austero. Olhos de felino. Todavia, tomou-me em seus braços com violência e, segurando-me no rosto, forçou-me a olhar para o espelho detrás da recepção destinada ao registro dos hóspedes. Eu vestia roupas de seda pura, um longo vestido igualmente adornado em dourado, era símil a um alvo damanoute. Daemor, enquanto ainda me continha os movimentos segurando firme em meu maxilar, com sua mão esquerda expôs-me sua adaga cuja lâmina brilhava aos meus olhos. Álgida... e rígida... em meu pescoço foi colocada. Comprimi minhas pálpebras enquanto o pavor germinava cruel em minhas vísceras. 

À guisa de ímpeto deflorar, meus olhos abriram-se bruscos, senti verter dos poros de minha pele um licor espesso. Não estávamos mais no mesmo lugar, vi-me n’uma alcova sangrenta cujo dossel aspergia lentamente o sangue sobre mim e assemelhava-se estar constituído de vísceras. Às mãos de Daemor, cujas veias proeminentes afiguravam-se como canais de algum tipo de fluído caliginoso, carregavam um látego. O mesmo se dava aos seus olhos, estavam em completo breu e deles vertia o mesmo fluído das veias enquanto refletiam minha posição inerte sobre o leito. A correia brusca acertara minha pele e gritei à força de meus pulmões. Nenhuma voz difundiu-se. O flagelo sobre meu corpo denunciava a violência de Daemor... úmida violência. De minha arculva um enlevo pecador a cada flagelar. Ouvia os respingos galgarem ainda tórridos. Deseje, no mais profundo de mim, que Daemor se introduzisse ao bel prazer de meu corpo no exato instante em que tudo se apagou. 

Minha lascívia não é comum. Nunca fora. Por esta razão amei Daemor e desejei ter sua violência sangrenta em minha pele, apetece-me a dor prostrada ao meu deleite. A tortura, carregada de lágrimas quentes e salinas, é meu frenesi. A sujeição progenitora do feto da tristura é, em sua profundez mais sórdida, o apogeu de meu êxtase. Há certas dores, distingo-as com perfeição; umas são a fonte d’esta avidez promíscua, outras não. No entanto, com a fronte oprimida n’uma deformidade palpável, um peso árduo em meu torso e o silêncio mórbido de um vazio em meu peito, ainda no plano onírico, vi-me n’um pântano desértico, feito de lodo, solo quase infértil e eivado, vegetações secas e escuras debaixo de um horizonte em eterno crepúsculo. Sim, Memórum, a calamidade de Ohropro. “Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz” — sussurei no sonho. Ao entoar o primeiro verso da lenda de Ohropro, senti a presença de Exício, no entanto, diferente de tudo o que emerge na imaginação a partir das lendas mais ancestrais, eu fui tomada por um esmorecimento ingente, maior do que toda a melancolia que um dia senti; maior que a flor do desalento infeliz que cultivo dentro do meu âmago. 

Prostrei-me sufocada pela lhana mortificação e, ó… sim… que prazer! Um estado de espírito, alma, ser, existência e não-existência; uma condição que parecia compor um novo coração em meu imo. Então, lágrimas assomaram-se a ruir nas curvas de meu rosto, tipificadas em eterno afogo. Eu estava morta. Assim é a morte, então? É assim. Não sou capaz de preterir tal ilustre espetáculo. Todavia, que infortúnio, que santa e horrenda lástima... um fulgor símil ao sol trouxe-me à vida, extirpando minha edulcorada desolação. Vi, outra vez, o rosto amável e viril de Daemor e despontou-se a minha consciência de vez, aprisionando o simbolismo do sonho e me acordando. Minha respiração estava frenética A Necroumbrae é inconcessa, sim, ilícita e deveras hostil... arriscada...insegura... mas... experienciar a morte daquela forma tão inebriante... que minha condenada alma me perdoe... eu quero sentir outra vez, ainda que apenas no mórbido sonhar. 

Não sei ao certo, mas, este segundo sinal... soa-me como... não sei... não pode ser... preciso de um tempo. Que hora inconveniente para tudo isso... devo meditar, cuidadosa, e talvez trazer minhas impressões no próximo anoitecer. 

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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Desígnio Sombrio

O sol é intenso na região de onde parto. Sair do meu país é quase deixar de me descaracterizar fisicamente. Não sei se estou…

MidjourneyAI

O sol é intenso na região de onde parto. Sair do meu país é quase deixar de me descaracterizar fisicamente. Não sei se estou pronta para o frio que me espera lá fora. Mas consigo fazer uma boa viagem, enquanto admiro o alto mar que, com suas ondas sobre as pedras firmes, banha as terras locais. Preparo-me para o desembarque e é agradável ouvir as correntes que conduzem a abertura da grande embarcação. As vozes de pessoas se encontrando, felizes, me faz saber que estava sendo direcionada para um bom lugar, embora frio e escuro. Estava pronta, decidida, preparada para enfrentar o que me esperaria dali para frente.

Depois de muito procurar me situar no local, avisto um grande espaço: “É aqui”, pensei. Um borboletar em meu estômago denunciava que eu temia um pouco a nova vida.

Pude avistar grandes casas com balaustradas ornamentadas e muito bem estruturadas. Quantos braços foram capazes de levantá-las deste jeito? Quanto suor fora vertido? E quanta beleza! Faz jus ao trabalho feito.

Todas as casas e castelos, bem como seus espaços semi-internos são formidáveis. Mas me aproximo de um Castelo em especial. Algo aqui parece conversar com meu interior, me convidar. Respiro fundo e admiro todo ornamento e altura do ambiente. Aposento um pouco a minha trouxa e tenho certeza de que não serei confundida como ameaça, devido a arcos e flechas instaurados pela minha vestimenta principal. Pois, aqui parece bélico. E o contraste da minha certeza se funde às penugens sobre a minha cabeça. É. Enquanto penso no próximo passo, espero ser acolhida. Ajeito meu roupão em estilo cardigan e me cubro bastante. Não sei se a cultura local estaria pronta para a vestimenta de indígenas natos brasileiros, e não quero arriscar, até então.

Admiro, mais uma vez, e sorrio, mesmo sentindo medo — parece que algo vai acontecer a qualquer momento. Se sim, estarei pronta para qualquer vislumbre de fantasmas.

A minha vida é apenas mudança de planos. Desde que nasci, o plano era ter os meus pais vivos, cuidando de mim. Mas tudo mudou quando há vinte e três anos eu fui deixada recém-nascida em uma outra aldeia xamânica para não morrer como eles. Os líderes me deram abrigo, sobrenome e um linda cultura que se assemelha à minha.

Já crescida, o meu plano, agora, seria desbravar castelos e não aldeias. Agora encontro o Castelo Drácula, que, com muita nobreza, cedeu seu recinto para que eu pudesse visitá-lo, enquanto sigo viagem de férias.

Alguns acontecimentos em minha vida não são bons. Não tenho mais os meus pais e no final da minha adolescência tive o pior desprazer da vida de uma indígena. Desprazer este que não merece tal recordação.

A penumbra deste lugar se aproxima do que eu sinto em mim, pela morte dos meus pais, pela morte da minha honra. Para que eu decidi vir para este lugar? Para quê?

Respiro fundo e desvio o meu caminho, avisto um enorme e escuro castelo, com ar gélido e alvacento. Uma bela visão eu tenho. É a única explicação. O castelo é muito bem localizado e com característica fortemente gótica.

Logo olho para as minhas vestes. Vestes de gente que vive nos campos e nas matas. Com certeza os próximos fantasmas vão caçoar de mim, eu imagino, ainda mais que não sou totalmente aberta a pessoas estranhas, a relações. Preciso, ao menos, fingir que não tenho medo das pessoas. Talvez, no fundo, eu seja afetuosa. Talvez, seja só uma capa para camuflar os meus medos e incertezas.

Meus medos me fazem encolher-me em uma bolha somente minha. E espero que eu possa utilizar bem a minha sabedoria por aqui para interagir com as almas vivas ou mortas, sem assustá-las, pois, ando com meus arcos e flechas carregados sobre meu corpo como se fosse uma selvagem, e, também com essas roupas e tecidos me cobrindo da cabeça aos pés, eu sei. Mas este lugar parece pedir que eu mude totalmente esta roupa que me cobre. Pode ser que um outro clima e temperatura do ambiente me façam mudar de vez em quando. Contudo, não quero perder a minha essência. Talvez fosse receio dos meus líderes, eu mostrar em demasia a minha pele. Meu corpo se acostumou com proteções em todos os sentidos possíveis.

Posso sentir a energia de muitos espíritos passando por perto de mim, atravessando as portas deste grandioso castelo sem fazerem esforço e posso, também, ouvir sussurros sombrios ao longe, com ecos ensurdecedores.

Olho para todos os lados de maneira ainda redil. O novo me assombra, mas os meus líderes xamânicos estão sempre aqui comigo, dentro de mim. E me ensinaram que eu não devo ter medo de nada.

Talvez eu seja a mais estranha? Talvez. Mas uma coisa eu tenho em comum com todos os seres: uma etnia e um desígnio na vida, não importa o quão sombrio seja.

É. Eu acredito que estou pronta. Paro de pensar demais e adentro, enfim, o grande salão principal do castelo. Encantada, logo vejo que é muito mais do que pensei e terei muito o que relatar aos meus líderes sobre esta viagem. A conexão que eu sinto com este lugar é similar ao meu pertencimento com a terra. Preciso me instalar por aqui.

Para não parecer tão redil, caminho levemente, experimentando degustar com o meu cerne toda a atmosfera umbralina deste lugar, mesmo que haja ninguém. Do jeito incomum que eu estou vestida, alguém irá perceber-me e não posso ser confundida com as possíveis assombrações que irei encontrar aqui.

— Olá… — brinco assustadoramente com a minha voz, que viaja sozinha, repetitiva e decrescente por todas as paredes escuras e rugosas deste lugar.

Começa-se uma nova jornada para uma indígena brasileira que adentra os umbrais do primeiro castelo que irá estudar em toda a sua vida.

Meu coração é sombrio,
a minha mente, soturna,
o meu corpo é Tupiniquim,
a chama que vibra em minh’alma — noturna.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa
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As Crônicas do Castelo Drácula, -Crônicas Castelo Drácula As Crônicas do Castelo Drácula, -Crônicas Castelo Drácula

Maria

Olha Maria, vou te passar mais um serviço e dessa vez exige muita confiança e esperteza. Estamos progredindo aqui…

MidjourneyAI

Carta não datada

Olha Maria, vou te passar mais um serviço e dessa vez exige muita confiança e esperteza. Estamos progredindo aqui nessa cidade, mas vou demorar mais que o combinado.

Te deixei um bilhete informando tudo que preciso na nossa estalagem das lavandas.

Entre as pedras tem um lugar que o Jason conhece bem, leve ele nessa sua nova jornada e não me faça ter arrependimentos de confiar algo especial. Não quero saber de nada desse serviço que estou lhe passando, confio em você e no Jason, está nas “presas” de vocês.

De sua Mestre Vampira
Thammy

Já ensinei ela a mexer no celular, mas é difícil se acostumar sendo uma vampira tão velha — que ela não me ouça chamando-a disso. Ainda bem que li a “carta” que está mais para um bilhete na estalagem, vim descansar depois da nossa maratona vampiresca de recrutar todas as mulheres de Fortaleza.

Agora nosso clã de vampiras nordestinas está completo, os homens ainda padecem de serem nossos súditos. A bendita jinra foi um grande feito para nossas incumbências em acelerar o processo de servidão.

Alguns minutos depois

Não é possível que ela acha que serei capaz de fazer alguma coisa no Castelo do Drácula. Vou precisar elaborar algum plano até chegar lá, afinal sou vampira há apenas dois anos e meio. Fui transformada pelo meu gato e apesar de ele ser minha melhor companhia, eu não posso deixar de ser grata pela Thammy que transformou não só todas as minhas amigas, como todas as mulheres da cidade. Quiçá terei meu segundo livro publicado na editora das vampiras escritoras com aquela ilustração muito engraçada do morcego de cabelo com sangue escorrendo nos lábios e delineador nos olhos do morcego.

— Vamos Jason, não te levarei na mochila dessa vez.

Viajar até o castelo será tranquilo, assim espero. Ser vampira não me fez ter tanta segurança de si como achei que fosse ter. Porém, Romênia lá vamos nós!

Alguns dias depois
#Bloco de Notas da Maria&Jason

Como se minha alma ainda existisse.
Se eu não estivesse morta, agora seria minha deixa…
Quem diria que algo da minha estirpe,
Estaria tão próxima de tal magnitude.
Adentrei nesse castelo profano
O ar pegajoso de mofo e cheiro ocre de sangue.
Estão me levando a um deleite nobre,
Uma sensualidade me conduz para um dos cômodos.
Jason foi a procura do anfitrião

Vou fazer breves anotações no bloco de notas para não me perder dos meus deveres. Vou abrir essa porta que está me levando a alguma vítima de outrora ou seria apenas minha imaginação que está me guiando com sensações jamais sentidas por mim.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa
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Onde estou?

Por que diabos entrei num lugar chamado Castelo Drácula? Eu já não ouvira falar sobre esse nome (um ser maligno, até onde sei…

MidjourneyAI

Por que diabos entrei num lugar chamado Castelo Drácula? Eu já não ouvira falar sobre esse nome (um ser maligno, até onde sei, cujo mal é morder as pessoas e desafiar sua sanidade)? Estaria falando então sobre o próprio diabo? É em sua casa, em seu castelo que me fui colocar? Por que diabos o diabo me iria convidar?

Se é sobre o mal que pesou minha escolha, pensando encontrar aqui um lugar para depositar esse mesmo mal que, talvez, habite em mim, certamente que é curioso imaginar… Onde habita a maldade em mim? Ora, não sou nenhum vampiro, nenhum assassino; pelo que sei, o máximo que cheguei de cogitar atentar contra alguma vida, fora a minha própria… Mas, até onde também sei, foram laivos da juventude, logo superados ou, pelo menos, contornados, tendo em vista a maturidade que teve de chegar…

Fosse por essas reflexões, eu não deveria estar aqui, muito menos me sentir atraído pelo lugar… Mas acontece que já estou. Sinto que, ao entrar nesse Castelo, acato um convite irresistível de recusar. Será o resultado de minha procura incessante pela beleza? essa beleza que procuro há muito e, de tanto cavoucar e nada enxergar, me fez dar essa volta e achar as paredes frias, mas sólidas do Castelo? Estaria tal venustidade entranhada nas formas lúgubres, mas sensíveis, dessas muralhas? O anfitrião ou anfitriã desse Alcácer… possuiriam a chave dessa minha procura?

Ditas todas essas considerações, adiciono aqui o seguinte: desde que vim fazer presença no Castelo, seu anfitrião — ou anfitriã, ainda não sei dizer ao certo — me solicita apenas, como um tipo de passe, que redija alguns textos de acordo com a atmosfera do lugar. Sendo assim, venho escrevendo (e com estranho gosto, não posso negar) poemas nos quais utilizo a antiga técnica do soneto (ontem mesmo finalizei mais um!).

Vejam bem: antes de entrar aqui, eu já escrevia, e fazia bastante uso dos sentimentos amargos que achei de acordo a serem explorados na feitura desses textos solicitados por ela… ou por ele. O que me faz pensar: será que não achei, no fim das contas, um necessário caminho para dar nas vistas de quem, de fato, procura por essas expressões… artísticas? Será o Castelo Drácula um endereço ao qual cheguei por obra das mesmas forças que me impingem a escrever e que, agora, encontram seu lugar sob essa “sombra mecênica” que ainda não sei definir?

Continuarei a explorar…

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1. Castelo Vampírico

21 de outubro — Envolvida na análise de vários artigos científicos sobre os processos biológicos da morte e sua…

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Diário de Rute Fasano

21 de outubro — Envolvida na análise de vários artigos científicos sobre os processos biológicos da morte e sua relação com a natureza, busquei compreender os mitos e tabus que cercam a morte. Essa atenção afasta minha mente da melancolia da sobrevivência, proporcionando-me um breve descanso mental. Ao me distrair nas redes sociais, fui abordada por um chamado para fazer parte do Castelo Drácula. Ao investigar, percebi que seria necessário provar minha aptidão, o que me fez hesitar. Optei por deixar de lado e preparar um café forte para estimular meu cérebro cansado, retomando a leitura dos artigos. Porém, a ideia persistente de que talvez aquilo fosse para mim, continuava a me inquietar. Deixando de lado os estudos por um momento, busquei antigos escritos pessoais que, em outros momentos, me proporcionaram paz de espírito. Será que integrar o Castelo seria o problema que minha alma necessita para essa melancolia que me encontro?

Insatisfeita com todos os escritos, reescrevi aquele que se aproximava mais da paz que buscava, o enviei e agora espero ansiosamente por uma resposta. E agora estou incapaz de me concentrar nos estudos aos quais estava focada anteriormente.

Sair um pouco da minha reclusão e me conectar com outros indivíduos semelhantes parece ser a escolha lógica a ser feita?

30 de novembro — Recebi a notícia da minha aceitação no Castelo e, junto com ela, “A carta” que estabelecia minha ligação ao pacto de sangue da linhagem Drácula. Embora tenha ficado ansiosa por essa confirmação, uma sensação de temor apertou meu peito, embrulhou meu estômago e despertou minha síndrome da impostora. Por que, meu caro cérebro, você insiste em me sabotar?

3 de dezembro — Prevendo que talvez a jornada até o castelo seria longa e desgastante, vesti roupas e botas pretas confortáveis. Preparada com o essencial na mochila — livro, diário, folhas de rascunho, caneta e uma garrafa de água — não tinha ideia de para aonde ir, mas senti que ao começar a andar encontraria o caminho. Uma sensação intensa de paz e familiaridade tomou conta do meu ser, aguçando meus sentidos. Era como se eu estivesse retornando a um lugar que nunca visitei, mas conhecia o caminho.

Passando por um belo cemitério no percurso, não pude deixar de observar toda a fauna e flora local. Era surreal ver plantas fora de época coexistindo, várias flores, todas em tons escuros, entrelaçando aromas. Árvores, também diversas, que faziam parte da paisagem, atraindo uma variedade de animais, dos que eu pude observar, morcegos, mariposas, aranhas, lagartos, sapos, que, por sua vez, atraíam gatos, cachorros, corujas, urubus e corvos. Havia variedades de cogumelos, outros animais, plantas, rios e lagos, tudo formava um ecossistema fascinante e estranho, mas que naquele momento eu não poderia pausar para dedicar um tempo e observar todos os detalhes.

Essa diversidade incomum de vida selvagem e vegetação peculiar me cativava, guiando-me em direção ao caminho do castelo, em meio a esse cenário de fantasia sombria ou uma versão às avessas de folhetos de uma certa denominação cristã. Diversas espécies compartilhavam um espaço que não parecia ser o seu habitat natural. Não conhecia a exata localização do castelo, apenas sentia a necessidade de alcançá-lo. Se alguém me perguntasse sobre como chegar, não teria uma resposta precisa, mas estava certa de que havia chegado. Me questionava se toda essa diversidade não era algo criado pelo próprio castelo para me guiar até ele, como uma espécie de estrada de tijolos amarelos. Se assim fosse, significaria que o destino final prometia algo bom?

O castelo era sombrio, envolto por uma sutil névoa e algumas árvores de galhos retorcidos, exibia várias torres altas que se elevavam como espinhos negros afiados, prontos para romper o céu noturno estrelado. Sua arquitetura não seguia padrões, com torres irregulares que pareciam capazes de brotar a qualquer momento para acomodar novos aposentos. Janelas obscuras, grandes como os olhos de sentinelas, decoravam a estrutura. Ao chegar à imponente porta de madeira maciça, bati três vezes, ela se abriu com um leve rangido, fui prontamente recebida por uma figura misteriosa vestida de preto da cabeça aos pés. Com um sorriso discreto, fez sinal para que eu pudesse entrar, e pronunciou com calma e cortesia:

— Seja bem-vinda ao castelo! Entre por sua livre e espontânea vontade. Vá com segurança e deixe um pouco da felicidade que você traz!

A menção ao livro Drácula arrancou de mim um sorriso breve. Fui guiada pelos corredores labirínticos, cheguei a uma sala iluminada por velas em majestosos lustres e castiçais. A decoração, repleta de quadros e esculturas, revelava um intrigante anacronismo, onde elementos clássicos e contemporâneos convivem em harmonia, não apenas na decoração, mas também nas pessoas presentes.

Na longa mesa central desta sala, indivíduos de aparência misteriosa aguardavam, ansiosos assim como eu, pela chegada de outros membros. Todos sedentos pelo conhecimento sombrio que nos aguardava. A entrada da anfitriã chamou a atenção de todos. Com olhos profundos e uma presença tranquila, nos cumprimentou com serenidade, pronunciando as seguintes palavras:

— Bem-vindos, sombrios visitantes, ao majestoso Castelo Drácula. Este recinto suntuoso serve de abrigo para aqueles destemidos que ousaram adentrar os domínios das sombras, desbravando os abismos do profundo e desvelando os mistérios do oculto. O castelo, qual entidade viva, nutre-se vorazmente de toda expressão artística mergulhada na obscuridade, transcendendo as fronteiras do tempo e do espaço.

Então era das narrativas, da poesia, da música e de todas as formas de arte que o castelo absorvia para se nutrir? Fiquei fascinada com a ideia de o castelo ser uma entidade viva. As artes eram como o fluido vital escarlate que alimentava o castelo, lhe dando vida, grandiosidade e uma aura acolhedora. Eu pude sentir a relação simbiótica entre o castelo e seus membros, estabelecida a partir do momento em que o pacto foi selado. Quanto mais fosse oferecido a ele nossos dons artísticos, mais seríamos beneficiados com uma inspiração sombria. Fiquei bastante curiosa para entender os mistérios do castelo e, também, ser beneficiada com essa experiência. Acredito que meu tempo no castelo será bastante proveitoso e mal posso esperar pelo que o futuro reserva.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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Anelly

Nasci em um vilarejo onde todos se conheciam. Eu era constantemente vigiada. Apenas entre as mais altas…

AI

Nasci em um vilarejo onde todos se conheciam. Eu era constantemente vigiada. Apenas entre as mais altas árvores da floresta me sentia livre.

Minhas escapadelas eram perdoadas se voltasse a tempo para a ceia. E assim eu fazia. Mas a lua era minha paixão, por vezes me via inebriada por seu brilho sem igual e foi em uma dessas vezes que tudo mudou.

— O que faz uma jovem tão bela aqui sozinha? — Fui desperta de meu transe de sobressalto.

— Não se levante. — O intruso sentou-se na raiz exposta a meu lado e perguntou meu nome.

— Anelly. — Respondi.

— Graciosa, sim. Definitivamente seu nome.

— Grata pela gentileza. — Sorri envergonhada. — Você não me parece ter tanta idade, mas fala como meu avô.

— Garanto que já vivi muito mais do que ele…

— Não mesmo! — Disse prontamente.

Dei uma boa olhada para ele, iluminado quase que fantasmagoricamente pelo luar. Era elegante, tinha uma cartola não muito alta na cabeça e aparentava não ser muito maduro, embora seus modos dissessem o contrário. Lembrei que não perguntei seu nome.

— Pode me chamar de Malus. — Respondeu como se adivinhasse meus pensamentos.

Era loucura, eu sabia. Mas estar em sua presença me despertava sensações jamais antes vividas por mim. Já era tarde demais para não ter perdido a ceia, com toda certeza eu me daria muito mal quando chegasse em casa, desse modo, viveria cada minuto de prazer momentâneo que este encontro inesperado me proporcionava.

— Percebi que a lua te cativa, o que mais a faz suspirar?

— Poemas, vinhos e agora você. — Essa última parte saiu quase sem querer. Meus olhos se arregalaram com o tamanho de minha ousadia.

— Vejo que tens bom gosto. — Malus sorriu maliciosamente.

— Sabe, Ane. Não é comum o que está a acontecer conosco. Eu sinto e sei que você sente… — Senti suas mãos frias segurarem as minhas.

— É um encontro de almas.

— Almas gêmeas? — Interrompi.

— Pode-se dizer almas que se reconhecem. — Deslizava suas unhas enormes sobre a pele de meu braço exposto. Estava arrepiada.

— Não parei aqui por acaso. — Continuou. — Senti seu cheiro de pureza, mas não é somente isso.

Malus segurou meu queixo e ergueu minha cabeça em direção a sua. Ele era mais frio do que a noite e isso só me fazia o desejar mais.

— Sua alma implora pela minha. — Finalmente me beijou. Senti que flutuava.

— Há muitos segredos para serem desvendados nesta vida. Sinto que está pronta para conhecê-los.

— Segredos? — Questionei. Desejando secretamente que voltasse para o ato anterior.

— Não tens medo do desconhecido ou das trevas, sua áurea é doce, mas escura.

— Áurea? — Repeti.

— O bem e o mal é somente um ponto de vista. O que me diria se tivesse que trocar a vida de alguém pela sua?

— Se não houvesse alternativa, teria que ser feito. — Respondi sem pensar muito.

— É sobre isto que me refiro.

Malus me tomou em seus braços e me entreguei. Mesmo sem entender de fato o que me dizia, eu sabia que por toda minha vida era por ele, e por este momento, que eu ansiava.

Calor e frio eram mesclados nessa união. Mas o que se seguiu, tenho apenas como vagas lembranças. Após o prazer carnal, veio a dor. Sangue escorria de meu pescoço e, agonizando, eu morri. Sei que houve choro, gritaria e desespero. Meu corpo fora encontrado na manhã seguinte. Talvez velado, mas com certeza enterrado.

Despertei algum tempo depois enclausurada, na total escuridão. Sem muito esforço cheguei à superfície terrosa e entendi. Tudo estava diferente. Aos poucos minha mente era iluminada por segredos que me foram revelados, por uma vida à qual sucumbi e ao que me tornara.

Sentia Malus. Mesmo sem saber para onde ir, ou como chegar até ele, apenas segui. “Uma vida pela minha”, chegou-me à memória. Sangue de cervo me foi de muita valia.

Estava radiante pela primeira vez. A cada paço, sob a luz prateada, a nova Anelly se solidificava na Terra. A escuridão fazia parte de mim, preenchia cada centímetro de meu ser como nunca antes. Estava muito mais viva depois que a vida me deixara.

Próximo ao amanhecer, enfim, o encontrei. Não exatamente Malus, mas o começo de minha nova jornada. Ainda posso sentir meu sangue vibrar como naquela noite, ao se abrirem os portões quando eu cheguei em casa… Quando cheguei ao Castelo Drácula.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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