Castelo Vampírico: O Encontro

Foto de Rita Ox na Unsplash

Diário de Rute Fasano

4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de falar algo errado, ou esquecer de dizer algo que era certo dizer. Pude observar de longe alguns membros, todos parecem muito interessantes. Depois do encontro de ontem na sala principal do Castelo, cada membro foi se ocupar dos seus interesses. Uns foram levados para um quarto do castelo, outros ficaram na sala principal admirando a decoração, outros conversavam entre si. Eu apenas observava e tentava criar um roteiro na minha cabeça de como me apresentar a cada um deles sem parecer estranha, enquanto tocava a ponta dos óculos o tempo todo como uma forma de me acalmar a cada momento que alguém trocava olhares comigo, isso fazia eu parecer realmente estranha. 

Observei de longe os membros e poucas coisas pude perceber:

— Anelly tem aura romântica e etérea, parece vinda de um mundo de sonhos, alheio às sombras que permeiam o castelo. 

— Astrid emana uma aura de seriedade e erudição, seus olhos penetrantes revelam um intelecto afiado. 

— Jason é um gato, ele veio com Maria, observa tudo com uma curiosidade felina, suas ações parecem mais calculadas do que instintivas, e isso é bastante curioso.

— Maria parece ter conhecimento de ervas, desperta uma curiosidade misturada com cautela. Seu conhecimento de ervas faz ela ter a habilidade para aliviar a dor e também a capacidade de causar danos irreparáveis. 

— Olga tem uma postura enigmática, transmite uma sensação de mistério, como se guardasse segredos profundos por baixo de uma expressão imperturbável. 

Há dois membros que ainda não sei o nome:

— O rapaz que parece imerso em suas próprias reflexões, uma melancolia sutil paira sobre ele, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros. 

— A jovem indígena que possui um olhar desconfiado, parece estar constantemente avaliando os motivos ocultos por trás das interações, sempre alerta para possíveis perigos. 

Fiz todas essas observações, mas podem não ser exatas. Deduzi de apenas observar, ainda não conversei com nenhum deles para confirmar tais deduções. Ouvi alguém comentar que ainda tem mais membros chegando. Isso me deixa um pouco ansiosa.

Fui para o quarto e fiquei pensando no rumo que a minha vida tomou, sonhava na infância viver da escrita e de todas as ideias e histórias loucas na minha mente, mas a curiosidade intensa e a obsessão de entender o mundo e seu funcionamento fez com que eu fosse para o caminho da ciência. Não me arrependo nem um pouco disso, ela continua sendo a minha obsessão. Porém, cheguei à conclusão de que deixei o caminho de viver da escrita para chegar a esse momento em que eu preciso dela para manter essa entidade, o Castelo, viva. Que louco, não?

6 de dezembro — Eu acho que vi Drácula pelos corredores nesta madrugada, pode ser que não seja ele, mas sim o efeito da cafeína e noites maldormidas. Eu saí do meu quarto para esticar as pernas, mais ou menos às 3h da manhã, comecei a andar pelos corredores e os ecos dos meus passos aumentavam junto com aquela agradável sensação de solitude. Depois daquele passeio eu iria retornar ao conto que eu mal havia iniciado, passei a maior parte do tempo fazendo arabescos nas bordas da folha. Em meio à penumbra daquele corredor pouco iluminado, eu vi uma figura solitária diante de mim, caminhando lentamente, seu andar era quase etéreo e ecoava pelos corredores como sussurros.

Meu primeiro pensamento era de que outro hóspede do castelo teve a mesma ideia que eu e decidiu perambular pelos corredores. Essa figura segurava um castiçal que emitia uma luz suave que lançava sombras dançantes no corredor do castelo. Tudo que eu conseguia ver era suas costas. Vestia uma blusa branca de mangas bufantes com punho em renda que contrastava com a calça preta justa que parecia moldada a seu corpo. Para completar, botas de cano alto pretas. Os cabelos negros longos que caíam como cascata até a sua cintura e, quando virou à esquerda, fez uma breve pausa e olhou através de mim como se não me visse. Senti um arrepio subir a minha coluna que me fez paralisar. Um feixe de luz do castiçal que segurava revelou seu rosto e fui incapaz de definir se o que eu via era um homem ou uma mulher, mas tinha certeza de que não era nenhum dos hóspedes do castelo.

Seu rosto era uma obra de arte andrógina, sem traços que me ajudassem a definir o seu gênero. A pele pálida da figura parecia quase que translucida sob aquela luz fraca, o que me permitia vislumbrar suas veias roxas através dela. Nariz adunco que adicionava uma elegância à sua aparência. Mas foi nos olhos que vi a característica mais intrigante, um matiz de azul-violeta, mais profundos e enigmáticos do que os olhos de Elizabeth Taylor e ecoando o mistério do próprio castelo. E o seu cheiro! Tão pungente de uma mistura de rosas com nuances amadeiradas tão real que podia sentir o toque aveludado das pétalas das rosas na minha face —ou seria o toque de Drácula?

E o gosto de cobre suave e adocicado que me provocou um excesso de salivação, tive que pôr a mão na boca rapidamente — e assim me tirando daquela paralisia momentânea — para impedir que escorresse, pisquei para voltar a si. Decidi não esticar mais as pernas aquela noite, não exatamente por medo, quero dizer, claro que eu estava apavorada, mas ao mesmo tempo fascinada a ponto de não saber o que fazer, mas não estava preparada para aquela presença. Acho que foi o bastante por hoje para estimular meu cérebro a continuar produzindo. E assim me vi imersa em um mistério, aquela presença enigmática era Drácula?

O que quer que fosse deixou uma marca na minha mente.

P.S. Em meio à escrita, meu cérebro descontrolado foi criar teorias. Drácula existia isso era óbvio, e é de conhecimento geral também, mas será que Bram Stoker quando escreveu Drácula não usou suas próprias experiências com o Conde para escrever o livro? Isso seria um ótimo assunto para ter com os demais membros do Castelo. Adoraria ouvir as teorias deles, se eu tiver oportunidade para iniciar a conversa. 

Estou incrivelmente surpresa que Drácula cheira tão bem para quem é um morto-vivo, imaginava algo como odor de putrefação, esse eu conheço bem, sangue seco e mofo escondido por baixo de um forte odor impregnante de canela e cravo. Se a figura for mesmo Drácula, isso eu ainda não tenho certeza.

7 de dezembro — Depois de pensar muito e me esconder no quarto fugindo de interações sociais, decidi esperar o mesmo horário que eu vi o que eu acho ter sido Drácula. Sai do quarto e dessa vez não havia ninguém no corredor, aliviada e, ao mesmo tempo, decepcionada, dei passos cautelosos pelo corredor e virei à esquerda. Aquele cheiro novamente, porém sem a figura que eu esperava. Segui adiante até chegar numa porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas, como aqueles que eu havia feito nas folhas em branco que eu deveria escrever. Empurrei a porta devagar e entrei e o cheiro ficava mais intenso. Uma névoa púrpura densa preenchia aquele lugar, e espectros disformes estavam de um lado a outro produzindo uma cacofonia de sons, fui em direção aquele que emanava o cheiro que eu imaginava ser o de Drácula. Caminhei em direção a esse espectro e o toquei.

Fui levada para um local onde a névoa púrpura estava mais fina, mas a música mais alta e a figura, que de alguma forma agora eu tinha certeza de que era Drácula, estava de costas para mim. Ele no alto de uma montanha, como um maestro, fazia movimentos e cada movimento formava uma parte do castelo, como uma parte de uma melodia numa partitura. Estávamos no castelo, porém fora, era como um mundo dentro de outro mundo, só que no castelo. Drácula de costas para mim se destacava de pé em uma colina escarpada contra aquele céu crepuscular arroxeado, fazendo gestos precisos como de um maestro conduzindo uma orquestra, e com cada gesto ele parecia moldar aquela névoa púrpura com as mãos. 

Pude ouvir a música calma, atenuada, suave como uma valsa lenta. Olhava tudo em volta e aos poucos as vozes em coro iam crescendo, crescendo e tomando tudo ao redor. Com movimentos amplos ele fez as rochas se erguerem do chão formando as muralhas do castelo, tudo acompanhado da melodia, tudo em volta respondia à sua vontade. Eu sentia a melodia me apertar e pressionar, despertando os meus sentidos e crescendo como se a qualquer momento fosse explodir. E tudo era preenchido por essa melodia. O castelo tomava forma, as torres, as janelas, as portas, tudo se erguia como notas ascendentes em uma partitura, as janelas se abriram seguindo o ritmo da música e pude ver os hóspedes do Castelo, cada um ocupado com sua própria criação, e eu pude me ver dali.

Senti como se meus ouvidos fossem tapados com a pressão que a melodia causava expandindo sem cessar, eu não mais a ouvia, mas sentia a vibração e o ritmo através da minha pele e uma pulsação inexplicável dentro na minha cabeça que crescia e vibrava com a música. O último tijolo foi colocado e Drácula ergueu os braços para o céu fazendo a música atingir seu clímax. O castelo estava completo, e era uma obra de arte viva que nós, hóspedes, estávamos alimentando. Pude ver os finos filamentos violetas que interligam Drácula ao castelo e aos hóspedes.

A melodia cessou, algo que parecia eletricidade passou por aqueles filamentos em direção a mim e percorreu todo o meu corpo, se detendo no meu cérebro que relaxou. E uma sensação de leveza caiu sobre mim. Minha mente se aquietou, vazia, sem pensamentos. Ele olhou para trás com meio sorriso como se somente naquele momento tivesse percebido a minha presença, fez um lento e último gesto com a mão para que eu me fosse, mas assim que meu cérebro quis dar a ordem para minhas pernas se moverem, eu simplesmente apaguei. 

8 de dezembro — Acordei na cama, renovada como nunca antes. Coloquei meus óculos que haviam sido deixados na mesa de canto e vi que em cima da escrivaninha um toca-discos tocava Réquiem em Ré menor de Mozart e também um vaso com belas orquídeas roxas. Automaticamente lembrei do que minha avó dizia: “o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas”. O que sei sobre o amor tem relação com bioquímica e escolha, então escolhi ter afeição por esse ato. E aqui está a trouxa que vos fala. É melhor eu começar a escrever agora. E que Deus, se existe um, tenha piedade de mim.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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