As Crônicas do Castelo Drácula, -Crônicas Liam Hänssler As Crônicas do Castelo Drácula, -Crônicas Liam Hänssler

Escuridão

No porão úmido daquela casa, o aroma mórbido de mofo consumia minhas narinas, mesmo e apesar da máscara sobre meu rosto. O corpo estendido no chão era só mais um…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

No porão úmido daquela casa, o aroma mórbido de mofo consumia minhas narinas, mesmo e apesar da máscara sobre meu rosto. O corpo estendido no chão era só mais um, asfixiada por uma corda de juta após ser presa e sedada. Rápido e indolor. “Ela precisa morrer essa noite, caso contrário, eu perco tudo o que conquistei durante todos os últimos vinte anos.” — Foi o que ouvi do contratante. Que vida efêmera. Que vida frágil. A podridão das circunstâncias e o caos do acaso. Setenta mil reais em criptomoedas na minha conta no dia seguinte, sem vestígios, isso é o que me importava.

No entanto, a chuva aumentara de modo estranho naquele momento, demais para um inverno comum. Subi as escadas do porão e a cabana parecia mais escura do que antes. Caminhei em silêncio enquanto observava os arredores; aquela escuridão terrível turvava meus sentidos. Um breu cuja origem só poderia ser o inferno. Quando, pelo tato, encontrei a maçaneta de alguma porta, abri-a de imediato em busca de quaisquer evidências que me sinalizassem o lugar em que eu estava. Sim, eu tinha uma lanterna. Quando você mata pessoas com certa frequência, você evita a luz e busca as sombras, naturalmente.

A porta rangeu como um espírito esquálido. Sua madeira era pesada e seu movimento lento; aquilo era mais bizarro do que pode parecer, pois eu estava em uma cabana e não em um antigo mausoléu. Mais escuridão. Adentrei-a sem hesitar, então vi uma chama vívida e trêmula. Olhei para traz e nenhuma porta encontrei, meu único destino era seguir, embora eu questionasse minha sanidade naquele momento. “Lars…” — Ouvi. Um sussurro anômalo, feminino e lânguido. Segurei meu revólver com uma fugacidade brutal. Seja quem for, se sabe meu nome, deve morrer. — Essa era uma das minhas regras. 

Era impossível ouvir meus passos. Apontava a pistola em todas as direções que eu olhava. O silêncio era denso e a escuridão era quase perpétua, pois alcancei a chama frágil em um castiçal sobre uma escrivaninha; isso me permitiu olhar bem para cada detalhe. Eu não estava na cabana. Aquele lugar possuía paredes de pedra bruta, mobiliário antigo, poeira, longos corredores. O castiçal era de bronze. Abri as duas gavetas da escrivaninha e o que encontrei em uma delas fora um livro. “A Divina Comédia”. Então ouvi passos à direita. Longínquos passos. “Que porra é esse lugar?” — Questionei a mim mesmo, talvez em busca de ouvir a minha voz para ter certeza de que eu não estava sonhando.

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa
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Capítulo 4: Medos e Fraquezas

O céu era de uma profunda escuridão estrelada. Eu estava próxima de um arvoredo denso cujo negrume das copas, banhadas pelo caráter do infinito acima…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O céu era de uma profunda escuridão estrelada. Eu estava próxima de um arvoredo denso cujo negrume das copas, banhadas pelo caráter do infinito acima, se condensavam em sombras oscilantes. Eu parecia só, embora uma presença se manifestasse próxima, como se contemplasse cada um de meus movimentos. Eu colhia flores de um azul límpido e fosco que envolvia, em arbustos pequenos, os arredores daquela floresta. Ao meu lado, e carregado por mim conforme eu caminhava para um pouco mais adentro da balça ou para os lados onde mais flores assomavam, um cântaro. Eu estilava as flores dentro do cântaro com água límpida, uma infusão lenta e à frio. Aos poucos, a água que era mesmo hialina, azulescia e ganhava um sabor cítrico adocicado e uma textura encorpada. Embora eu estivesse feliz com as flores colhidas, eu sabia e tinha uma certeza inenarrável de que, mais à fundo naquele balcedo, eu encontraria as melhores flores para a infusão. Era perigoso, no entanto, seria de fato um deleite encontrá-las, pois, através daquela memória, parecia-me se tratar de uma data especial e, por esta razão, eu preparava a bebida. 

Escrever a lembrança não transfere a dor mórbida que atravessara meu cerne mais uma vez. Segurei meu coração pelo toque no tórax, arrastei-me à porta do cômodo para abri-la; meu corpo frêmito suava e a morte parecia envolver a minha alma. Um pânico tétrico conduzia minha visão que se escureciam aos poucos em razão da algia horrenda. Cai sobre o assoalho em um corredor e apenas gritei por socorro, pois, àquele instante, a dor perdurava diferente de outrora, aguda estalando em cada órgão de meu corpo e mais, aturdindo minha mente e mortificando-a. A cada nova lembrança a dor parecia ascender e eu não suportava mais. Fui segurada rapidamente por aquelas pessoas que me receberam com afável conduta, ouvi suas vozes longínquas, como se estivessem no horizonte eterno. “Virëhs nohlom, nohlom virëhs! Nill’aeme! Nill’aeme!” — Ouvi, diversas vezes. Fui levada para fora da casa e uma fogueira pálida fora acendida, a flama crepitante luzia e aquecia meu corpo enquanto a dor perdurava. Envolveram-no em um manto e deram-me um liquor amargo para sorver; tinha notas de cacau e fundo férreo com aroma silvestre. Como um entardecer sereno, a agonia torturante esmoreceu gradativamente conforme sorvia do liquor. Muitos dos residentes quais me recepcionaram desde o início naquela vila, ficaram em volta da fogueira e olhavam-me atentos. 

Te sentes melhor? — Dissera a mesma voz feminina, era ela a que me acomodara naquele aposento. Movimentei-me a cabeça para concordar com sua indagação, falar era-me árduo demais. — Algo insalubre deleita-se sinistro em tua alma, jovem... — Senti seu toque em meu rosto. — Estás febril... — Ela olhou para um dos outros. — Somme Glizullahs aelim. — Proferiu a ele, aquilo o fizera levantar-se rapidamente e adentrar uma das casas próximas; parecia ter sido ordenado a fazer alguma coisa. Assim, portanto, o silêncio abrandou a todos e a mim; ouvia grilos pela floresta ao redor da vila e outras criaturas cujos sibilos eu não saberia identificar. Alguns dos cidadãos, mais aliviados, assaram alguns frutos à chama tórrida enquanto conversavam entre si naquele idioma pulcro. Quando o horror cessara de fato, aquele que fora embora a mando da mulher retornou com uma cumbuca contendo algum tipo de alimento. — Coma. — Ela dissera. Olhei para aquilo e vi que se tratava das mesmas bagas dadas por Seth, as quais recusei; estavam submersas em um líquido vermelho vivo e acompanhadas por folhas semelhantes ao louro. Degustei sem receios. Era uma iguaria de sangue frutado, agridoce, com uma leveza picante. 

O que é este lugar? — Murmurei, todos me ouviram e silenciaram. 

Estás em Séttimor, querida minha; uma vila construída com afabilidade e honra. 

Somos os séttimôros! — Afirmou alegre uma das crianças próximas, parecia não conviver tanto com o meu idioma, mas o compreendia em certo nível. 

Sou Liliana. — Ela tinha parte do rosto ausente, como se nunca tivesse existido. Seu olho direito, no entanto, reluzia vítreo e seus longos cabelos brancos eram finos, esvoaçantes e ondulados. Impressionei-me com suas vestes, tecidos costurados entre si, em tons prateados. Pormenores quais só pude observar naquele momento. Todas as meninas e mulheres se vestiam de maneira semelhante; os homens e meninos possuíam tecidos menos prateados e com nuances em carmim escuro. Também usavam cortes diferentes, mais leves que os femininos. As roupas indicavam parte crucial da cultura da Vila, eu acreditava assim; eles se complementavam, davam-me essa certeza tão somente ela forma como se comportavam. 

Obrigada por tão gentil acolhimento, Liliana. Receio não poder apresentar-me com meu nome, pois, perdi minhas memórias e não me reconheço mais naquela que fui... porventura nem mesmo nesta que sou... — Liliana sorriu, ternamente, tocou-me as mãos aquecidas. 

Deve ser, então, o exato momento de resignificar-se a si mesma, minha querida. — Ela disse e suas palavras, desde então, colidem em minha consciência.  

Posso ficar aqui? — Pedi com a voz embargada. Liliana expressava uma mansidão magistral. 

Adoraríamos que pudesses ficar, no entanto, tu sucumbirias ao Paradoxo da Atemporalidade em, pelo menos, algumas noites. — Explicara. — Sei que pode parecer confuso, no entanto, desde que o primeiro séttimôro encontrou os arredores do Castelo Drácula e de lá, do Castelo, foi expulso; temos lidado e aprendido com o Paradoxo que existe pela ausência de tempo e de espaço. 

Percebo haver algo estranho, de fato, com o tempo deste lugar e em como tudo acontece rápido em demasia ou tão vagarosamente quanto a eternidade... 

Sim. Dentro do Castelo, querida, a Magia de Olga Nivïttz protege seus residentes do Paradoxo, no entanto, aqui fora... — Liliana respirou fundo, parecia pensativa. — Aqui não há proteção. — Doeu-me ouvi-la amargurada. 

Olga pareceu-me tão cortês. Por que ela os expulsa do Castelo? Deixando-vos ao léu dos perigos insalubres? 

Ela decerto tem suas razões, querida virëhs. Sabemos que somos diferentes dela e de todos os residentes do Castelo, algo sobre nós deve estar guardado nos arcanos da Magista e de seu fiel Conde. — Pensei, silente, sobre as informações compartilhadas. — Não se martirize. Agradecemos por viver em Séttimor. Criamos nossa verdade, nossos rituais, nossa existência; nada disso aconteceria se estivéssemos no Castelo. 

Olhei ao redor; aquelas pessoas com rostos vazios e, por vezes, fumegantes como se exalassem a névoa que envolve toda a Séttimor. Elas pareciam bem. Guiadas por uma fé resoluta e uma paixão pela existência; eram criaturas únicas, com ensinamentos insondáveis. Por instantes considerei morrer pelo Paradoxo em nome da sensação agradável e sombria de pertencer à Séttimor. 

Tu precisas partir. — Ouvi. A voz era masculina, vinha de um séttimôro que se aproximara de nós. Ele tinha apenas os lábios em seu rosto, e escuridão mórbida. Esvaía de seus poros a névoa cinérea; o fumegar era fúnebre. — O Nevoeiro Ramoso está se densificando e pode prender-te em Séttimor por longas noites. — Ouvi e voltei-me ao olho vítreo de Liliana. 

O Castelo é um claustro sem fim, abismal e vazio; suas entranhas ludibriam, iludem os sentidos, atormentam a alma... — Confessei em lamúria. 

Tens muito a viver e desvelar no afligir das paredes de pedra do Castelo. Não temas, tens a força para enfrentar o que quer que cruze o teu caminho. — Expressara Liliana, com intensa cordialidade. 

Temos recebido muito visitantes nos últimos dias, parece-me que uma transição percorre aquele lugar. — Expôs o homem. 

É verdade... Lëvri fora o último, antes de ti. — Senti minha garganta fechar ao ouvir aquele nome — Buscava por alguém, por isso nos encontrou.  

Lëvri? — Indaguei com a voz falha. 

Sim, tu o conheces? Buscava por Ennehris, vociferara pelo nevoeiro o nome dela, ouvimos daqui; até que o encontramos, estava exausto pelo que o Paradoxo causa, a desorientação, a vertigem. Tentara dizer detalhes sobre a moça, sua aparência e roupas que usava, no entanto, sufocara-se em demasia no nevoeiro e foi levado por Szënin até o Castelo. 

Sim, eu o levei. E creio que devo levar-te também. — Disse o homem. Szënin. Eu estava, intimamente, perturbada. Saber de Lëvri... saber que ele me procurava fez minhas emoções irromperem em um declínio amargo e solitário; apenas dentro de mim, uma sensação que corrompia, uma saudade que me atristava. “Gostas... minha Ennehris... que eu faça... devagar?” — Lembrei. Descansei minhas pálpebras, ocultando meus olhos por segundos infinitesimais. Revivi o seu toque, seu afundar-se em meu oceano íntimo; seus lábios, sua voz... e a extensão da sua natureza, o ímpeto, a voracidade da sua sede... o cuidado comigo, terno e caloroso. Lëvri... com a Rosaemori tatuada em suas costas. Meu corpo respondeu à lembrança, senti-me tórrida e lânguida; e olhei de novo para a flama da fogueira. 

Seus olhos... avermelharam-se como mágicos quartzos! Nunca vi algo assim! — Ouvi de Liliana que expressava em sua fronte um assombro e um encantamento. Todos ali sussurraram ininteligíveis palavras, espantados como Liliana. Levantei-me, retirando a manta de meu dorso. 

Devo ir... e vou só. Agradeço o cuidado, Liliana. E agradeço o alerta, Szënin. Reconheço toda a recepção que tive em Séttimor; não me olvidarei de vós. 

Não olvidaremos de ti, querida. — Liliana levantou-se, abraçando-me cautelosa. Ela tinha um aroma de Lycoris radiate. Algumas das crianças expressavam tristeza; todos pareciam apreciar visitantes como eu. Almejei morrer em Séttimor, no entanto... Lëvri... eu precisava vê-lo outra vez e se a morte era inevitável, então que ela me coroasse com a sua presença excelsa quando, pelas mãos de Lëvri, eu me embebedasse do fluído bruto da Rosaemori. 

Encarei, então, a nívea e silente névoa; vi Liliana cada vez mais longe, erguendo-me sua mão em um gesto de adeus. E vi todas aquelas pessoas com seus rostos vazios, tomados por um tipo de abandono, sensação que permeava meu coração igualmente. Caminhei cada vez mais à fundo na palidez e, em seu interior, eu vi estranhos ramos brancos e secos que se espalhavam ao derredor e se movimentavam como se vivos, respirando. “O nevoeiro não é apenas um fenômeno natural, senhorita. Esteja atenta. Ele conduz a sua mente e corpo, ele evoca o horror da sua própria alma. Não pare, siga sempre adiante, mesmo se ouvir uma voz familiar. Siga sempre adiante.” — Essas foram as palavras de Szënin e embora sua expressão fosse menos afável que a de Liliana, ele igualmente se preocupava comigo. Mantive suas recomendações em minha consciência e jurei que veria Seth personificado, no entanto, ele estava ausente; sua voz abissal não penetrava meus pensamentos desde nosso desentendimento. Esperei-o, portanto, para me defender daquela sinistra palidez; nada acontecera. Os males narrados por Szënin pareciam, naquele ínterim, uma lenda e nada mais. Contudo, em meu peito, uma solidão mórbida enraizava-se. 

Os ramos brancos aparentavam, cada vez mais, como árvores e, em seus galhos eu via cordas negras. Andei sem parar, todavia, a névoa tocava minha tez e, por meio dela, parecia alcançar a minha alma; fui imersa, sem que eu pudesse me resguardar, na solidão obscura, enquanto todas as cordas negras cingiam-me o pescoço, chamavam-me sem um único som. Se há ninguém neste antro, se estarei na eternidade isolada; por que viver? — eu pensava, uma conclusão que não parecia vir de mim mesma. Um bálsamo de infelicidade e melancolia, esmorecimento insistente; a certeza do perpétuo exílio no intermúndio de minha essência desfigurada por tantos acontecimentos e mistérios. Desejei envolver aquelas cordas em meu pescoço e cair no abismo que tanto harmonizava-se com o meu imo. Avancei sobre todos os ramosos esquálidos e inclinei-me sobre seus vértices almejando rasgar minha tez e sangrar até a morte; por átimos ponderei sobre a vida detrás do fim, se eu encontraria Lorrt e se, lembrando-me de tudo, por fim, o amaria de novo. Arrancaria do peito o que dói, destruiria minha maldição que, mesmo maldita, não se manifestava ali — abandonara-me igualmente, eu sentia, tal como a vida e tudo o que eu mesma sou. 

“Estou aqui” — ouvi, não era uma voz humana; não se tratava do abismo de Seth. Senti o tênue dilatar de minhas pupilas e foi naquele único momento que cessei meus passos. As palavras constituíam-se de um tipo de sibilar, um sonido etéreo e melódico. “Quem és?” — questionei sob um encantamento que quebrantara todos os meus mais tetros horrores. Quando fitei as cercanias em busca da origem daquele som, notei as paredes de pedra, o Castelo Drácula estava logo à frente e a névoa já dissipava. Senti que estava, de novo, como dona dos meus pensamentos e aquela mórbida angústia passara como o dia passa e a noite se achega trazendo quietude. Respirei fundo e adentrei, mais uma vez, aos umbrais daquele lugar. Um remanso em meu ser, uma certeza estranha de que aquilo que proferira as palavras de presença, é a chave para o sossego da minha conturbada existência, no entanto, naquele átimo frágil, eu estava apenas cingida pelo silêncio absoluto; e a poeira rarefeita, as luzes trêmulas e a solidão perpétua. 

Vaguei pelos claustros e cômodos, guiando-me pelo que já conhecida daquele lugar. Indaguei-me se aquele rapaz, sorvido pelos meus lábios... aquele cujo sangue vertera inocente... estaria vivo. Compreendi a necessidade de encontrar Lëvri outra vez e confessei ao próprio âmago dorido que a esperança de revê-lo era intensa e pulsante, porém, não com Seth. Embora Seth estivesse ausente. Era-me estranho não tê-lo sussurrando em meu crânio; despida da tua incorpórea maldição. Assim que encontrei o meu aposento, percebi que a solidão se estendia por todo o cômodo, densificando o ar. Era noite e as estrelas lá fora reluziam longínquas. Retirei as vestes pálidas e, nua, caminhei à banheira de marfim. Imersa na mais límpida água cujos sais adicionados aromantavam como flores em um campo veranil, relembrei tudo o que se tornara memória àquele ínterim. Eu odiava estar só, percebi; um ódio que conduzia minha angústia e transfigurava-a em profundo poço insalubre. Ao menos o banho revigorara minhas energias e vesti-me para poupar a pele da frígida noite, mas, eu não pude permanecer naquela alcova lânguida. Retomei a caminhada pelos passadiços e aposentos até encontrar o mais belo lugar naquela mórbida residência: a biblioteca. 

Embora o meu intuito estivesse enraizado em meu corpo, evitei pensar diretamente a respeito, pois, decerto Seth não teria esvaído como se nunca tivesse se envolvido, de alguma forma, com Lahgura e, portanto, comigo. As portas abriram-se rangendo e vi, logo à frente, um quadro de um homem. Parecia-me familiar. Aproximei-me com a sutileza de um felino e vislumbrei a tinta à óleo e os traços marcantes daquela face masculina. Possuía cabelos grisalhos, como a barda; tinha belos olhos azuis e uma postura imponente. Desejei querer me recordar, no entanto, estando tão só, tive medo da dor. Então caminhei pelos corredores mais escuros, onde livros mais empoeirados e pesados jaziam sôfregos e silentes. Li dezenas de títulos, acreditei no abismo da minha esperança de que, decerto, eu encontraria um livro, apenas um, dotado do conhecimento preciso para destruir a minha maldição — seja o que fosse preciso sacrificar em nome da magia mais oculta e perigosa. Foi então que eu o senti; sua mão gélida em meu pescoço, virando-me contra ele na penumbra sombria. Minha tez fez-se uma voragem de arrepios súbitos e quando vi seus olhos azuis brilhando na escuridão, eu temi; o medo mais pulcro da minha alma. 

Hum... — Ele gemeu. Segurei seus braços na tentativa de fazê-lo parar de me sufocar, embora um pouco de ar conseguisse fissuras para encontrar meus pulmões oprimidos. — Confesse, minha bela Aesatt, que sei as faces da tua judas-pretensão. Protejo-te nas trevas quais sou rei e morro co’a tua afável gratidão… — Sussurrou, irônico. 

Seth... — Tentei falar, no entanto, a voz espargia fraca. Ele trouxe meu corpo para perto dele, ainda segurando meu pescoço; seu semblante de ódio estava próximo e sua feição segredava rancor, eu pude sentir. Então, devagar, sua mão tornou-se menos agressiva e seu olhar fitara meus lábios. 

Exorcizar-me... que plano fascinante... — Ouvi-o com sua voz símil aos oceanos mais profundos. Sua mão deslizara para minha nuca e fez oscilar minha estrutura. — Ah... se eu pudesse... — Murmurou, ainda encarando meus lábios e estando, pois, com todo o seu corpo justo ao meu.  

O que? — Ousei questioná-lo em sussurro e vi seu sorriso nascer como o cume de uma adaga no dorso, atravessada. 

Curiosa... — Sua mão reteve meus cabelos, puxando-os para baixo; com o impacto, meu queixo se ergueu e eu ouvi a risada de Seth; sombria como ele. Logo depois, a mesma feição de rancor, ainda mais intensa. E ele me olhou por algum tempo, em silêncio. Suas mãos deslizaram mais uma vez, uma ao torso, outra à cintura; e senti seu hálito até, por fim, a névoa negra da sua ausência abrupta. O exílio em seu eterno retorno — talvez a minha verdadeira calamidade. Meu corpo, trêmulo; meu desejo, atiçado — e nada além, nada mais. Apenas a mudez do ambiente crepuscular. Suspirei... e sentei-me à poltrona mais próxima. Odiei-me por desejá-lo e por, vítima da minha compulsão por um significado fora da minha genuína aflição, não conseguir suportar mais uma dose de soledade. Uma dose era suficiente para me embriagar. 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Um alto preço

Sempre considerei minha existência entrelaçada ao tecido do universo, mais firme do que qualquer mortal ou imortal poderia imaginar…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Greta Tsylla, especialista em pesquisa de eventos sobrenaturais

21 de Janeiro de 2000 - Sempre considerei minha existência entrelaçada ao tecido do universo, mais firme do que qualquer mortal ou imortal poderia imaginar - pelo menos assim eu considero. A escuridão não era apenas meu refúgio, mas a minha essência. As sombras que se estendem pela vastidão do universo não eram apenas um manto que me cobria, mas uma extensão de mim mesma. A luz do dia era uma afronta para mim, um lembrete cruel de que minha não-vida estava limitada a esgueirar-se por becos e esgotos. Contudo, havia uma lenda, e mesmo que eu não confie em lendas, já que não passam de histórias atraentes, algumas possuem um fundo de verdade, e meu trabalho é estudar essas verdades e o quanto elas podem ser perigosas para nós criaturas das trevas. Mesmo que seja talvez 1% da verdade, porém nesta lenda em específico eu senti uma pontada de esperança. Imaginei ser algo relacionado aos seguidores de Set, mas não encontrei referências que os ligassem a essa lenda, então continuei. 

Em minhas pesquisas, na SchreckNET e bibliotecas empoeiradas, encontrei poucas referências a esse evento muito específico. A noite eterna, que como dizia em um manuscrito deteriorado, libertaria todas as criaturas das trevas do domínio da luz. Onde não haveria mais aurora a temer, apenas a escuridão sobre a face do abismo. E nessa escuridão eu poderia andar pela terra livremente, não mais relegada às sombras dos túneis e esgotos por necessidade, mas por escolha. Nessas minhas pesquisas eu soube também de um artefato, um relicário de um metal estranho e decorados com símbolos que mais pareciam arabescos, linhas entrelaçadas sem início ou fim, esse relicário revelaria se a noite eterna estava prestes a acontecer. Meu ceticismo começou a apitar, mas já havia chegado longe nas pesquisas para voltar atrás depois de tudo, depois de muitas trocas de informações e negociações consegui o tal relicário, com o aviso de que muitos tentaram e não conseguiram e outros ainda desistiram. Mesmo que isso não passasse de uma lenda, pelo menos eu a testaria e chegaria à conclusão de que era mesmo apenas uma história atraente. Os manuscritos que encontrei e os poucos relatos encontrados na SchreckNET, diziam que esse artefato nas mãos certas faria a noite eterna se tornar real. Eu estava ansiosa, pois sabia que poderia ser o momento, que sem saber, eu aguardei por séculos. Mas tudo parecia fácil demais, sem rituais, sem cânticos, sem palavras em línguas estranhas ou mortas. 

Me instalei em um túnel ferroviário abandonado, onde o silêncio era acolhedor e todas as noites de eclipse por oito anos eu esperei a noite eterna, havia combinado comigo mesma que só esperaria por dez anos e depois desistiria dessa ideia. Neste período vivendo entre túneis e cemitérios, minha solidão foi amenizada pela presença de Amanita, uma gata rajada que se afeiçoou a mim e me trazia “presentes” toda a noite para me alimentar. Depois de um tempo ela deu à luz a Cortinarius, Lepiota e Russula, e minha solidão planejada e meu silêncio acolhedor teve fim. Numa noite de eclipse, me retirei para o centro de um antigo cemitério acompanhada dos quatro felinos, como tinha feito por oito anos. Sentei-me perto de um túmulo e esperei, a escuridão ao meu redor se tornou densa. Me levantei e segurei o relicário em minhas mãos, sabendo que se fosse o momento ele me diria. 

A lua cheia iluminava o céu, enquanto eu olhava o eclipse lunar começava a se desenrolar. A sombra da Terra lentamente cobrindo a lua, a tingindo de vermelho e mergulhando tudo em trevas. O ar parecia parar como se a própria noite estivesse prendendo a respiração. Respirei fundo, ou pelo menos fiz o gesto, pois há muito séculos o ar não me era necessário. Eu estava focada, me sentindo em sintonia com o universo. Então devagar abri o relicário, dentro dele havia um pequeno espelho, cuja superfície não refletia, mas absorvia luz. Olhei para ele e, por um momento, nada aconteceu. Até que um brilho fraco começou a emanar do espelho, crescendo em intensidade. Ah! Até que enfim, murmurei aliviada. As sombras começaram a se movimentar ao redor de mim, imitando cada movimento meu. A sensação era inebriante, algo que eu nunca havia experimentado antes. As sombras moldavam-se e dançavam ao meu redor. Era como se as trevas me reconhecessem como sua soberana. Eu sentia como se pudesse moldar a escuridão, moldar o mundo à minha vontade, trazer ao mundo a noite eterna e libertar todas as criaturas das trevas. Me sentia confortável com todo aquele poder, todo aquele conhecimento borbulhando no meu cérebro, toda aquela escuridão fazendo parte de mim e eu dela. 

Mas conforme todo esse poder crescia, algo começava a mudar. As sombras se tornaram mais densas, quase sufocantes. A escuridão que anteriormente parecia ser uma comigo, agora era uma prisão. Uma dor lancinante começou a percorrer meu corpo como se injetasse um líquido corrosivo em minhas veias. As sombras haviam ficado fora de controle, me envolviam com força, me apertando, esmagando. O poder que me acolheu estava me consumindo. Gritei, tentando recuperar o controle, mas parecia um esforço inútil. Tentei lutar contra aquilo e por um breve momento pude sentir como se a escuridão que me apertava estivesse me dando oportunidade de pensar se eu queria continuar com aquela tortura. Com esforço abri minha mão esquerda e consegui soltar o relicário que caiu no chão. As sombras ao meu redor se dissiparam de repente, e eu me encontrei deitada na terra úmida e recém mexida daquele cemitério, o poder e o todo aquele conhecimento perdido e minha esperança destroçada. 

A noite começou a dar lugar ao amanhecer, e mais uma vez, eu estava condenada a esgueirar-se pelas sombras dos becos escuros. A frustração era intensa, uma dor profunda tomava conta da minha alma. Eu havia vislumbrado todo um conhecimento, vislumbrado o que poderia ser e, ao mesmo tempo, percebi que o preço a pagar pela noite eterna seria a minha própria destruição. Voltei aos túneis levando comigo o relicário como um lembrete de que eu deveria cuidar melhor da minha não-vida. Caminhei pelos becos, agora mais consciente do que nunca, de que os lugares úmidos e escuros eram meu lar, que eu não deveria entender isso como uma maldição, mas como um limite que eu apenas deveria respeitar. Me instalei em uma casa abandonada num bairro pouco movimentado e levei comigo Amanita, Cortinarius, Lepiota e Russula. E retornei as pesquisas de outras lendas ou qualquer evento sobrenatural que merecesse atenção. E foi assim que rejeitei a façanha de me tornar a salvadora, aquela que libertaria o povo que é obrigado a andar em trevas, para usufruir da noite eterna. Não achei nenhum ser das trevas merecedor de tal bênção, já que pagaria com a minha não-vida, um preço muito alto a se pagar. E eu não poderia fazer isso tendo agora pequenas vidas para cuidar. 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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31 de dezembro? — Antes que começasse a me ensinar algo, a criança de cabelos escuros veio até mim com um tecido de…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

31 de dezembro? — Antes que começasse a me ensinar algo, a criança de cabelos escuros veio até mim com um tecido de algodão e um vidro âmbar com um líquido que, pelo cheiro, parecia ser álcool. Limpou a ferida no meu antebraço e o enrolou com cuidado com outro tecido de algodão, dando pequenos nós em suas pontas. Após todo esse procedimento, ela colocou suas pequenas mãos nas minhas, me fazendo sentir uma onda quente e reconfortante que me envolveu. Senti como se meu corpo vibrasse, como se as minhas moléculas estivessem vibrando e aquecendo. Um súbito medo tomou conta de mim. Fechei os olhos e senti como se meu corpo encolhesse e se tornasse leve. Abri os olhos e estava na altura da menina de cabelos negros. Eu havia me transformado em uma criança outra vez, e uma felicidade parecia me inundar, tomando o lugar daquele medo inicial.

Logo, outra criança, com uma sombra um pouco maior do que a da menina de cabelos escuros, veio até mim. Segurou minhas mãos sorrindo, e a mesma sensação de calor reconfortante me envolveu. Dessa vez, mantive meus olhos abertos. Senti-me crescer e fui preenchida por pensamentos confusos que começavam a me incomodar. Depois, outra criança, com uma sombra grande e curvada, me tocou. Meu corpo pesou e senti um cansaço físico, mas minha mente parecia mais clara. A experiência era ao mesmo tempo fascinante e assustadora, uma montanha-russa física e emocional. Voltei para meu corpo original, um pouco atordoada. As crianças me olhavam com curiosidade, parecendo esperar algum comentário meu sobre a experiência, mas eu estava sem palavras. A menina de cabelos pretos veio até mim sorrindo.

— A transmutação não é apenas física. Ela envolve a essência, a percepção e o controle do próprio ser no fluxo do tempo. Há aqueles mais aptos que conseguem ir além da transmutação temporal, conseguem se tornar outras versões deles mesmos e até outras pessoas. — disse isso com um sorriso inocente.

Minha mente estava em turbilhão, mas fisicamente eu estava cansada. A menina percebeu isso.

— Agora, como prometido, vou te levar aos seus aposentos. Acho que a aula foi demais para você. — falou isso com preocupação no rosto, parecendo sincera.

— Talvez voltar aos meus aposentos neste momento não seja uma boa ideia. — Eu disse preocupada. Não me sentiria segura lá nesse momento.

Ainda atordoada pela experiência de transmutação, perguntei a ela se haveria um lugar seguro para ficar. Ela confirmou com um aceno de cabeça e caminhou comigo pelo castelo. Enquanto isso, minha mente fervilhava com as novas informações. Caminhamos por entre corredores e subimos várias escadas. Eu acompanhava seus pequenos passos rápidos e ritmados. Ela me levou até uma área do castelo onde havia uma escada em caracol que ia muito mais alto do que eu podia enxergar.

— Suba por essa escada até o fim. Você vai encontrar um observatório e poderá ficar lá por enquanto. Mas aconselho que volte para seus aposentos depois, pois lá é sempre o lugar mais seguro. — disse ela ainda com aquele sorriso infantil estampado no rosto.

Fui subindo aquela escada e refletindo sobre aquele conhecimento, até que a compreensão me atingiu. Drácula, a figura que tanto me causava temor e que às vezes me confundia, aparecera para mim de diversas formas, idades e aparências diferentes durante minha permanência aqui. Ele tinha a capacidade de transmutar, assim como aquelas crianças naquele salão. Lembrei-me do nosso primeiro encontro no corredor, Drácula como um jovem de aparência andrógina e olhos cor de violeta; do nosso encontro na capela, onde ele parecia um Cristo vampírico grotesco; e no baile de máscaras, como um homem de meia-idade imponente que parecia carregar o peso dos séculos em seus olhos profundos. Cada uma dessas suas formas parecia trazer uma presença distinta, uma aura diferente. Agora fazia sentido, Drácula talvez dominasse a transmutação. Ele podia escolher a aparência e a idade conforme sua vontade. Todas aquelas formas eram manifestações do mesmo ser, utilizando a transmutação temporal para se moldar.

Drácula não era apenas um vampiro imortal, ele talvez também fosse um mestre do tempo, com capacidade de navegar pelas eras e se adaptar a qualquer situação. Porém, para confirmar qualquer hipótese que meu cérebro poderia conceber sobre Drácula e seus poderes, eu precisaria de mais conhecimento. Preciso encontrar uma biblioteca, talvez aquela em que tive uma conversa com minha doppelganger no mundo espelho. Talvez essa biblioteca exista nessa versão do castelo também. Uma sala com um computador facilitaria meu trabalho na hora de juntar as informações, mas isso talvez seria pedir demais. Terei que me contentar apenas com papéis e livros. Terei que vencer certos temores também, explorar mais o castelo e sempre me lembrar que estou lidando com um ser que talvez transcenda qualquer limitação e entendimento humano.

Enquanto essas ideias se assentavam em minha mente, cheguei ao observatório. Entrei naquele cômodo, fechando a porta atrás de mim. Havia uma abóbada de vidro que permitia uma visão clara do céu. No centro, um telescópio, um instrumento ao qual estou familiarizada. Sentei-me numa poltrona ao lado de uma mesa cheia de papéis antigos com belas ilustrações de planetas e símbolos astronômicos. Observei o anoitecer enquanto fui tomada novamente por pensamentos que chegavam em turbilhões. Estava me sentindo dividida entre aceitar que Hadassa se foi e essa nova obsessão de trazê-la de volta com o conhecimento que talvez Drácula pudesse ter sobre a morte. Por que devo aceitar? Por que devo desistir? Ainda assim, ouço minha voz interior me advertindo sobre os perigos de se buscar conhecimentos que não compreendo. Tentei me convencer a desistir e aceitar a realidade, mas o que é a realidade se tudo aqui parece uma ilusão tentando se passar por realidade? Fui tomada por uma fúria por não conseguir parar meus pensamentos. Meu corpo tremia, senti minha mente se despedaçar em questionamentos complexos demais.

Anoiteceu totalmente e me deparei com um eclipse total quando olhei para a abóbada de vidro. Levantei-me e decidi investigar os céus, na esperança de encontrar alguma distração. Posicionei-me e comecei a ajustar o telescópio, procurando algo naquele breu, minhas mãos tremiam. Um vento atormentado soprava, fazendo as árvores e as flores mortas do jardim abaixo, mal iluminado por um antigo poste de luz, balançarem de maneira assustadora. Ao longe, pude ouvir o som de ondas quebrando com violência contra as rochas. Fiquei surpresa com isso, pois não sabia da existência de mar tão perto do castelo. A natureza parecia responder de modo violento ao eclipse, como se estivesse compartilhando comigo meu tormento interno.

Minha mente foi assaltada por lembranças rápidas de quando Hadassa e eu observávamos as estrelas juntas, falando da beleza cósmica, a beleza que agora apenas me traz angústia. Lembrei-me dela sempre repetindo: “Somos poeira das estrelas, Rute. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Isso é maravilhoso, não é?”. Era mesmo maravilhoso ouvi-la falar disso, mas saber que agora ela talvez não passe de restos do que um dia foi me entristece. De repente, uma sombra cobriu o telescópio. Levantei-me e vi, através da abóbada de vidro, uma figura gigantesca e disforme pairando no céu como um manto escuro salpicado de estrelas. Emanava uma fúria que nem de longe poderia ser comparada à minha. Olhava diretamente para mim com o que pareciam olhos em espirais. Fiquei paralisada de terror. Será que, de alguma forma, essa figura era uma manifestação dos meus sentimentos? Ou apenas um alerta para que eu desista dessa empreitada? Ou algo ao acaso que calhou de eu observar? Não sei. Só sei que as dúvidas, o terror e a ira dentro de mim continuaram. Devo aceitar a morte de Hadassa e deixá-la descansar em paz? Ou devo seguir em frente nessa ideia de que sei ser perigosa e trazê-la de volta?

Fechei meus olhos por um momento, esperando que, assim que eu os abrisse, a figura desaparecesse. E ela desapareceu, mas a sensação de terror permanecia. Deixei o telescópio e me virei para a poltrona, dando alguns passos. Tudo em mim pesava. Minha mente se questionava se Hadassa merecia uma segunda chance ou se eu queria me dar uma segunda chance, não importando o que fosse necessário para isso. Eu me sentia em frangalhos, tonta, com dores pelo corpo; fazia tempo que eu não tinha uma boa noite de sono. Senti algo escorrer pelo meu antebraço e vi que a ferida estava sangrando muito através do tecido. Senti-me fraca. Mal havia chegado à poltrona e apenas me deixei cair na escuridão.

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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A Luz se Apaga

O céu estava negro e denso como minha alma, mas uma estrela de esplendor singular havia me cativado. Brilhava alheia à escuridão que a cercava…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O céu estava negro e denso como minha alma, mas uma estrela de esplendor singular havia me cativado. Brilhava alheia à escuridão que a cercava. Sentada no parapeito da janela do meu quarto, assistia a esse espetáculo noturno.

Malus adentrou o recinto e direcionei meu olhar para a porta. Questionou o que fazia sozinha àquela hora. Quis mostrar a estrela esplêndida que me roubara toda a atenção, mas para meu desalento, já não a via mais no céu. A escuridão parecia ter engolido a luz que tanto me fascinara.

— Estava ali agora mesmo! Diferente de todas que já havia visto. — Suspirei em descontentamento.

Ele acariciou meu rosto, como se tentasse me consolar. Olhou-me ternamente; seus olhos eram como bálsamo para mim. Ainda com sua mão gélida sobre minha face, observou o céu pela janela e disse, enfim:

— Mesmo que efêmeras, as coisas que tocam a nossa alma têm o poder de deixar marcas que perduram para sempre.

Ele tinha razão. Jamais esqueceria toda a beleza daquela cena. A súbita partida daquela estrela fez-me recordar minha irmã. Assim fora com ela, tão bela e tão pura, mas ceifada de forma tão inesperada por mim mesma. Talvez eu seja de fato uma parte grotesca deste mundo...

— Desculpa? — Questionei. Malus falava enquanto eu estava perdida em meus pensamentos e não pude compreender.

— Vamos! Pegue minha mão. A noite não deve ser desperdiçada.

Aceitei o convite e saímos do castelo. Andamos por uma estrada de terra batida cercada por carvalhos, todos dispostos em fileiras, milimetricamente separados uns dos outros. Ao final, um imponente e ornamentado portão de ferro se fazia guardião de um cemitério antigo, o qual eu ainda não conhecia.

Meu companheiro tirou um singelo molho de chaves de seu sobretudo, pegou uma chave com uma cruz dourada entalhada e abriu a fechadura sem dificuldade. Passamos pelo portal.

A beleza das esculturas centenárias era de uma grandiosidade que não encontro palavras para expressar. Caminhei por entre altas lápides e dancei sobre sepulturas. O brilho único de uma estrela e aquela adorável galeria de arte me faziam sorrir como uma criança.

— Venha. Sente-se aqui. — A voz risonha deixava evidente que se divertia às minhas custas.

— Não ria! — Sentei-me junto a ele nas escadas de um mausoléu de mármore branco que tinha o portão aberto.

— Trouxe seu diário e meu caderno de esboços. Teremos nossa própria noite erudita.

Malus era um artista. Seus desenhos eram impressionantes. Amávamos passar o tempo no castelo com nossas artes; esta seria a primeira vez em um lugar diferente. Em seus esboços naquela noite, ele registrou as mais variadas paisagens. Desde uma árvore reduzida a tristes galhos até mesmo eu, sentada naquele descanso eterno de não sei quem, distraída, escrevendo e sonhando acordada. A forma como as lápides soavam no papel era extasiante, mas ainda não se comparava ao fascínio que proporcionavam a olho nu.

Foi uma noite inigualável. Poética, reflexiva... fiz anotações em meu diário e escrevi poesias; não poderia me negar a elas. Podia sentir no paladar... a escuridão é saborosa, a poesia é como um beijo suave de língua. E o Castelo Drácula sabe disso. Ele vive, respira e inspira arte. Se você adentrou aos portões, sabe muito bem onde encontrar cada um dos meus versos...

Até breve!

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Perfeitos Estranho III - Morte

Morte. É isso que verte pelas paredes do Castelo. […] Após escrever a carta para a minha família, deixo-a em uma espécie de escrivaninha…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Morte. É isso que verte pelas paredes do Castelo.

A nuvem de poeira que me atinge após o fechar das portas é suficiente para me trazer à mente outra necessidade, que de outra maneira teria levado alguns minutos para revisitar: minhas luvas. Tateio os bolsos do casaco e as encontro. Um belo par de luvas brancas, maltratadas pela longa jornada a esse local repulsivo. Me pego refletindo sobre as justificativas que ele teria dado a si para carregar consigo itens aos quais não se recorda de possuir. De qualquer maneira, me sinto satisfeito pela gentileza acidental e as calço.

Me encontro no saguão principal do castelo — uma área ampla, de teto alto, e surpreendentemente limpa e bem cuidada, contrastando com a maltrapilha aparência externa do prédio. O espanto me impacta, afinal, imagino o trabalho homérico que é manter essa propriedade asseada e em bom estado.

À esquerda vejo um corredor largo que provavelmente leva a outras áreas do castelo, áreas estas que me darei ao luxo de explorar em um momento posterior, depois que minha curiosidade for sanada, afinal, que donzela misteriosa seria aquela que avistei pelas janelas do andar superior? Fui alertado quanto à natureza sobrenatural do Castelo e como manipula as distâncias, podendo fazer com que objetos pareçam mais próximos, ou mais distantes, do que realmente estão. Outros perigos me foram informados, mas tomarei nota de todos eles após encontrá-la.

Resolvo investigar os demais cômodos, para me sentir seguro para buscar respostas no piso superior. Adentro o corredor à direita, ganhando o novo ambiente. É uma galeria arrojada, com quadros antigos representando as mais diversas paisagens, além de pequenas estátuas com alguns traços medonhos. Admiro a criatividade do escultor, mas não sou capaz de admirar a beleza poética de corpos de mármore dobrados em ângulos estranhos. Sigo por generosos metros até me deparar com duas portas fechadas. Um detalhe que talvez tenha passado despercebido: lá fora, havia anoitecido e as poucas luzes que iluminavam o castelo por dentro eram de velas dispostas, estrategicamente, pelos ambientes.

As portas eram antigas, de madeira maciça e com trancas rústicas. Forcei uma, depois a outra, sem qualquer sinal de sucesso em abri-las. Decidi não continuar com o trabalho inútil, por receio de gerar mais barulho e chamar a atenção dos outros moradores do castelo. Este detalhe, aliás, não havia ficado claro para mim. Havia outros, sim, mas nada sei sobre suas intenções e, tampouco, se são confiáveis ou não. Não seria eu outra presa, capturada pelas demoníacas garras do castelo. Ah, não!

Sem sucesso em prosseguir, resolvi me virar e voltar pelo caminho que havia seguido. Para o meu terror, o corredor já não era mais o mesmo. Os quadros haviam mudado para paisagens grotescas e disformes. As pequenas estátuas, de natureza desprimorosa, se tornaram versões ainda mais bizarras de si mesmas, como uma confusão de membros retorcidos. O corredor estava ainda mais escuro e já não era possível enxergar com clareza o seu outro lado.

No ápice da minha tolice, eu fui pego.

Tomado pela aflição e pelo pavor, tentei não expressar tais sentimentos. Tateei as paredes. Eram sólidas e firmes. Segui tateando, passo a passo, em direção ao que antes era o saguão principal, mas que agora estava tomado pela escuridão. Impossível ter escurecido em um espaço tão curto de tempo. Antes de mergulhar no breu, respirei fundo.

Avancei por alguns metros pela total obscuridade. Ao longe, avistei um vestígio de luz. Era outra sala, iluminada por uma vela solitária que já havia doado metade da sua vida, disposta sobre uma pequena mesa de canto. Ao lado, uma janela, de onde pude observar o céu estrelado, tão limpo como nunca havia visto antes. Apoiei os dedos na madeira áspera da moldura e fui hipnotizado pela visão.

Minha visão vacilou e minha mente estremeceu. As estrelas ficavam cada vez mais próximas, e a própria lua começou a se deformar em uma massa branca amarelada. O horror estava entranhado em mim.

Antes de perder a consciência, lembrei da donzela da janela. Espero que tenha um destino melhor do que este…

Recobrei os sentidos, prostrado no corredor. Todo o cenário estava da exata maneira que o vi pela primeira vez: os quadros dispostos pelas paredes e as pequeninas estátuas excêntricas.

A mensagem era clara. Eu não devia me esquivar. Deveria seguir a imagem misteriosa no piso superior, sem hesitar.

Retornei ao saguão principal e observei a escada que dava acesso ao primeiro andar. Senti um perfume excepcional, de natureza floral e aveludada. Algo nele despertou fortes emoções em mim, como a necessidade sem precedentes de descobrir sua fonte. Então, subi pela escada a passos largos, seguindo a fragrância, que ficava cada vez mais forte. Um corredor, depois outro. Fui tomado por tamanha ansiedade que não me atentei em decorar o caminho de volta. Finalmente parei em frente a uma porta, entreaberta. Ao abri-la, um nome me veio à mente e deixei escapar pela boca.

— Nauärah?

… 

Após escrever a carta para a minha família, deixo-a em uma espécie de escrivaninha mágica, em formato de esfera, desacreditando que este castelo, magicamente, a transportará para a minha aldeia no Brasil. Sorrio, e pela primeira vez com um riso mais disposto aqui neste lugar, pois a magia daqui é totalmente diferenciada da magia que conheço, embora sejam magias, de fato, e esta tem me conquistado, me incentivado a estudá-la e praticá-la mais profundamente. Mas questiono-me: como a minha carta, algo físico, chegará em minha aldeia através de uma espécie de portal na superfície de uma bancada mágica? Sorrio novamente, pela segunda vez, respondendo para mim mesma que a carta será enviada com a mesma força da magia em que acredito.

Um sono inexplicável alcança-me, fazendo as minhas pálpebras ficarem mais lentas. Este Castelo é enérgico o suficiente para me fazer pensar que estou sendo manipulada por sua magia. Consegui sorrir algumas vezes e ainda ficar em um local praticamente sozinha, embora haja outros residentes. E por falar nisso, acredito que eu tenho certeza de ter fechado a minha porta. Eu sempre fecho e a tranco. Sabe? Se este castelo é poderoso o suficiente, ele vai tratar de conferir todas as trancas por si só. O meu sono não me permite verificar mais nada aqui e me dirijo, sonolenta, ao meu dossel, saindo da antessala da minha alcova.

Apenas me livro dos acessórios mais pesados em meu corpo, penteio leve os meus longos fios com as mãos, retiro a capa áspera que me cobre, lavo o meu rosto e higienizo a minha pele. Depois, utilizo a minha fragrância favorita, com aroma floral e aveludado. Eu sempre fecho bem o meu perfume, mas o sono que sinto agora, me faz ficar sem forças. É. Eu acho que eu escrevi demais. Deixo o frasco na cômoda próxima à cama e paro de lutar contra o meu cansaço.

Deito-me na cama, bocejando leve, mas suficientemente profundo para deixar escapar um som sutil do bocejo. Apago a luz do abajur e o quarto finalmente fica escuro e agradável para o momento do meu sono. Nem consigo me cobrir totalmente, mas os lençóis deste lugar parecem me envolver, magicamente. Neste instante, posso sentir alguma presença próxima, dentro do Castelo, mas estou tão vulnerável agora que não conseguiria segui-la com as minhas lanças e vestida com a minha capa.

Um cheiro também invade as minhas narinas, e não é o meu. É um cheiro quase familiar, mas estranho. Estranho? Lembro-me do cavalheiro que as minhas vistas alcançaram em uma das noites anteriores. Se o vi nas matas, se aproximando, e logo depois o vi neste recinto, o quarto dele deve ser próximo ao meu. A minha intuição grita que há alguém perto. E o meu trauma zomba de mim, me dando a certeza de que é uma figura masculina, mas por que sinto isso? Por que sinto aquele homem tão perto?

O cheiro dessa presença é masculino, sinto, sei. Mas não me atreveria a explorar mais nada à essa altura. Por que sinto esse cheiro agora? E tão agradável? Por que eu gosto desse cheiro?

Lembro-me da minha adolescência, quando chegavam na vila estrangeiros trazendo especiarias. Eles vendiam esse cheiro e também tinham esse cheiro... Não. Eu não deveria gostar. Não devo nem ficar curiosa como estou agora, ainda que sonolenta. Foi um homem com um cheiro desse que desgraçou a minha vida.

Pesadelos... sempre eles. Devem ser pesadelos... Este lugar parece me pregar peças.

Estou deitada na cama, dormindo e uma espécie de paralisia do sono me acomete. Nela, uma silhueta toma conta do meu espaço, não o espaço que antecede o meu quarto, mas pior, o ambiente próximo à minha cama, de fato.

"Tem um homem no seu quarto... é ele. É ELE!". A voz zombadora insiste em minha mente. Mas ela zomba me revelando sempre a verdade... E o pesadelo não termina.

"Nauärah?", ouço meu nome em um tom de voz viril, firme e suave. Como se um desconhecido me chamasse.

Com muito esforço, quase me debatendo na cama, consigo despertar do transe. Os meus olhos se abrem e, apesar do escuro, a mesma silhueta está aqui. Um homem. No meu quarto. Próximo à minha cama. Não. Não pode ser... Uma figura que tanto temo... entrar dessa maneira no quarto de uma donzela?! Onde estão todos os meus líderes para defender-me agora? Onde estão os guardadores deste lugar? O que mais temo, acontece — estou sozinha e na presença de um homem estranho.

Penso em esticar o meu braço e pegar a minha flecha a poucos centímetros da cama. Parece que eu sabia que seria surpreendida e precisaria usá-la. Mas algo dentro de mim diz que não devo retribuir com agressividade. Ainda assim, estou temerosa, com a respiração ofegante e quase suando frio.

A única solução que encontro é ficar calma e respirar fundo, controlando a situação, como se eu realmente estivesse dormindo, e a figura se esvairá. Caso contrário, fingirei estar morta, porque morta é como desejo estar, se ele fizer algo contra mim.

Lembro-me das cenas perturbadoras há anos. A minha mente parece reviver tudo novamente, sem nada ter acontecido agora, e uma lágrima quente começa a querer chegar.

Espero, respiro e tomo a coragem necessária para encarar a silhueta que também me encara, através do canto dos meus olhos emocionados, e constato: É ele. A mesma figura vista pelas minhas retinas naquela noite através da minha janela. Agora entendo a sensação da sua presença e o cheiro... que exala todo o meu quarto e que odiosamente eu aprecio. Ele fica parado próximo à minha cama, o que faz o meu peitoral ficar arfante pelo medo e denunciar que eu estou acordada. Porém finjo que não estou vendo, então, aperto firme e discretamente o meu cristal caído ao redor do meu pescoço, encolhendo ainda mais o meu corpo, com impotência e medo, debaixo dos lençóis.

Eu não arriscaria dizer uma palavra, mas os meus ouvidos saberiam se, pela sua voz, ele é alguém de confiança ou não — aprendi a identificar tom de vozes. Quem dera seja um bom amigo ou algum guardador deste lugar, caso não, a minha flecha teria que assustá-lo hoje, pois isso não se faz com uma dama deitada em sua cama e com vestes particulares.

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Resenha: O poeta maldito e a rainha da noite

1850, em uma noite tempestuosa, uma antiga taverna abriga cinco homens imersos em suas histórias…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

1850, em uma noite tempestuosa, uma antiga taverna abriga cinco homens imersos em suas histórias. Aos olhos dos mais desatentos, tais figuras não passam de aventureiros românticos e poetas embriagados. No entanto, os contos declamados pelos audazes indivíduos escondem uma profunda camada sombria, e tão logo a embriaguez os leva a testemunhar um terrível e sangrento assassinato. Não tão longe do local, e em outra perspectiva, estudantes da Academia de Ciências Jurídicas e Sociais aproveitam a juventude. Entre eles está Álvarez de Azevedo, mais conhecido como Maneco. Sensível e romântico, Maneco tem sua vida transformada ao cruzar o caminho de uma mulher desconhecida, tornando-se cúmplice em um rastro de morte e sangue por toda a cidade.

"O Poeta Maldito e a Rainha da Noite" é uma obra de ficção histórica baseada em um livro de cinco contos do autor Álvares de Azevedo. A trama introduz uma história romântica e punitiva, com elementos poéticos e grotescos, dando espaço para o protagonista, o próprio Álvarez de Azevedo, revelar um pouco de seu cotidiano. Muito se sabe sobre sua vida, embora pouco seja relatado por seu próprio ponto de vista, pois rapidamente veio a falecer na maturidade dos 21 anos.

Com toda certeza, a experiência de ler este livro será relembrada por mim com muito carinho, pois, quando adolescente, fui muito apegada ao autor Álvares de Azevedo. Hoje, nove anos mais velha do que o autor chegou a ser, pondero sobre tudo que senti em meu primeiro contato com sua escrita, especialmente como não pude refletir sobre o teor da inadequação de sua obra "Noite na Taverna". Agora, mais velha, posso não só absorver uma boa obra de ficção, seja qual for o tema, mas também compreender o fator do tempo e dos costumes de outras épocas, mesmo que possam soar cruéis nos dias atuais.

O livro foi uma ótima forma de conhecer um pouco a mente de um jovem de dezenove a vinte e um anos, inserido na sociedade brasileira do ano de 1850, traçando um doce paralelo entre a ingenuidade e a fantasia lírica. Sem julgamentos e sem afastar nosso carinho pelo autor, mas com uma abordagem atual e reflexiva, a respeito de temas importantes como a violência contra a mulher e a forma como fomos ignoradas e mal compreendidas ao longo das décadas.

Gostei tanto, sou muito grata por essa experiência.

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Dúvidas

Desde o fatídico dia… ou melhor dizendo, desde a fatídica noite, aquela em que fui atacado, envolvido pela estranha e irrecusável aproximação da…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Desde o fatídico dia… ou melhor dizendo, desde a fatídica noite, aquela em que fui atacado, envolvido pela estranha e irrecusável aproximação da misteriosa vampira, me vejo recluso, incapaz de mover um pé sem que duvide das minhas forças, do meu livre-arbítrio que, suponho, fora totalmente sujeito, desde então, à influência daquela mulher e sua força…

Nada de muito grave aconteceu fisicamente comigo, desde então; porém, sabendo ter sido “corrompido”, inoculado em mim algum veneno que, se não mortal, pelo menos indicador parece de que não sou mais o mesmo, sinto a necessidade de me privar de movimentos, de sair pelo Castelo e, quem sabe, me deparar com “ameaças” afins…

Pois certamente que aquele ataque, na forma de uma desconcertante mulher, não deve ter sido uma exclusiva demonstração do ambiente misterioso com que me deparo aqui…

Há poucos dias, revirando os papéis que abundam pelas mesas do lugar (a escrita compartilhada de outros convivas do Castelo), li coisas que me deixaram profundamente preocupado. A primeira e mais inquietante descoberta (será um fato?) é a presença, segundo alguns, de uma vila chamada “Séttimor”. Não que a existência de lugares vizinhos a esse ambiente seja algo excepcional; antes de chegar aqui, bem lembro, avistei casas, espécies de cabanas e alguns moradores que, ao que tudo indicava, nada tinham de anormais; porém, essa tal vila “Séttimor”, nos textos com os quais tive contato, era descrita como lar de pessoas sem rosto(!), de pessoas que, sem possuírem expressão facial, demonstravam, inquietantemente, comportamento benigno…

Qual não foi minha surpresa ao parar com essa leitura e, numa pequena reflexão, me perguntar se aquele povoado que avistei ao me aproximar do Castelo, em minha chegada aqui, não era esse descoberto e discutido em uma das crônicas…

Por certo que os outros frequentadores desse recinto sabem mais do que eu… A pergunta é se, estando aqui, estou sujeito aos mesmos fenômenos que essas pessoas já devem ter visto ou presenciado, se não como protagonistas de algo mais obscuro, além de meu entendimento, pelo menos como coadjuvantes de alguma ação — até mesmo sofrido aquilo que eu, completamente rendido, testemunhei e do qual fui alvo, agora sem saber das futuras consequências… 

Como lidar com tal testemunho, tal possibilidade de realidade fantástica ao redor desse local onde atualmente habito e que, comprovadamente, está aberto à visitação de outras enigmáticas vidas? Que segurança tenho de me manter vivo, dono de minhas vontades e sonhos, estando rodeado por forças muito além da simples compreensão natural? Mesmo sendo elas, segundo as provas lidas por mim, ainda distantes das paredes do meu quarto — e, assim espero, dos muros do Castelo —, o que já experienciei por conta própria aqui dentro (o Baile, o ataque) há muito que já me dotou da certeza de que aquele eu inicialmente chegado aqui, com vistas apenas a fazer parte de uma sociedade de práticas artísticas, não é mais o mesmo…

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Insondável

Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea. Desde a minha “morte” tenho presenciado o desconhecido em suas variadas formas, mas nada como o inquietante arranhar dos pálidos galhos sob a estrutura do castelo, causando-me intensos arrepios.

Meus dedos escorregam pela maçaneta, deixando-a para trás. Fito mais uma vez o cinzento céu e caminho devagar rumo à janela. Ouço o soprar dos ventos que, sorrateiramente, rastejam por entre as frestas do castelo, remetendo aos acordes presentes na linda e fúnebre missa composta por Mozart, intitulada Réquiem.

A vejo surgir no canto esquerdo. Ela possui um estranho brilho, ao mesmo tempo que é opaca. A densa névoa parece dotada de algum tipo de inteligência, pois escala com muita perícia cada tijolo, tal qual uma astuta formiga que segue seu caminho com fervor. Volto meu olhar para a escuridão cinzenta e percebo então o que havia constatado há algum tempo: meu âmago é tão vazio e tenebroso quanto a nívea que se move lá fora, usurpando o tênue luar, bem como o brilho das estrelas.

Enquanto meus devaneios me afastam da realidade, uma horrenda dança orquestrada pelos ventos soturnos é iniciada. O balançar dos arbustos e das árvores soa como uma nefasta canção de ninar, proferida secretamente pelos deuses do infindável cosmo, espalhando pelas sombras suas verdes folhas.

Em estado de torpor, acompanho com meus olhos brilhantes o bailar da flora pelos arredores do castelo. Elas parecem obedecer aos comandos de alguma entidade que desconheço, assim como aquele ramoso nevoeiro.

Acabo atraindo a atenção dos incontáveis ramos, que logo vieram ao meu encontro, e finalmente vi sua horrenda forma com clareza. Eram compostos por extensos fragmentos esbranquiçados que, unidos, formavam os pavorosos e colossais ramos. Uma estranha sensação abraça meu corpo, sinto-me vulnerável, como se o ramoso nevoeiro conhecesse minha natureza. Minhas entranhas se contorcem, meu colo palpita desregulado.

Retiro minha mão do vidro com rapidez, mas eles permanecem ali, pairando na escuridão cinzenta, me observando e arranhando a janela de maneira ininterrupta, produzindo um som medonho que logo faz morada em meus ouvidos. Os ventos se intensificam, fazendo com que a dança dos galhos se torne mais intensa. Neste momento, uma dessas lembranças que nosso cérebro tanto se esforça para manter enclausurada nos confins do subconsciente decidiu nadar até a superfície.

Aquele arranhar dos galhos trouxe à tona algo que estava adormecido. Meus olhos agora vestiam uma sombria cortina de lágrimas que estava prestes a cair. Os amargos anos que passei ao lado do Airton foram repugnantes. O som dos galhos remetia aos talheres ainda com resquícios de macarronada deslizando sobre os pratos de porcelana branca, produzindo um som detestável. Ele fazia isso com um sorriso perverso no canto da boca, entre outras inúmeras grosserias. Seu respirar pesado e desagradável era como o soprar dos ventos lá fora. Infelizmente, ele ainda me assombra, tal qual um obsessor que sempre fica à espreita.

Lágrimas caíram e, por breves segundos, a ira se apoderou de mim. Meu corpo tremia, meus punhos estavam cerrados. Um grito emergiu das minhas entranhas: — Deixe-me em paz, criatura horrenda, não me tortures mais! — Gritei até meus pulmões cansarem, para a assombração que cruelmente sorria em meu subconsciente. Minhas palavras foram ouvidas por cada tijolo do castelo. Por mais que queira perder-me em lascívia, precisava me conter. Meu corpo se encontrava febril, minhas mãos sedentas. Com a finalidade de afugentar aqueles pensamentos, fecho a jaqueta, cruzo os braços e inicio uma caminhada em círculos, ignorando completamente o fato de que o assombroso nevoeiro ocupa grande parte do meu aposento.

Após um longo período, vou me acalmando. Mais uma vez, estou diante da porta. Tenho que sair. Respiro fundo e, antes de sair, noto uma presença atrás de mim. Cautelosa, olho por cima do ombro, com a mão na maçaneta. Então, vislumbro algo horripilante: a neblina havia tomado meu aposento quase por inteiro, tal qual a chegada sorrateira da noite, devorando os últimos raios de sol.

Munida de coragem, abro a porta. Sou agraciada por uma brisa gélida. Antes de fechar a porta, vejo pela fresta a névoa se movendo de forma estranha, em círculos. Sinto o frio na espinha me abraçar. Atrás de mim, um enorme corredor iluminado por anêmicas velas que lutavam para não cair dos candeeiros dispostos nas paredes. — Finalmente consegui sair! Sussurrei, enquanto meu olhar se perdia pelo corredor ornamentado pelas sombras disformes vindas das velas. Prossigo em direção à biblioteca; preciso folhear aquele livro mais uma vez.

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Hereditário: Parte II, Darquinha — Capítulo III: Desmerecimento

Bem antes de o sol nascer, Madame Staell já estava de pé, preparando um forte café preto para iniciar…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Bem antes de o sol nascer, Madame Staell já estava de pé, preparando um forte café preto para iniciar aquele dia que, ela sabia, seria longo e muito tumultuado. Darquinha ainda dormia tranquilamente naquele momento, depois de dolorosas lágrimas e muitas lamentações. Os suspiros e gemidos que emitia vez por outra demonstravam um imenso cansaço – o sofrimento consegue levar qualquer ser vivo à mais profunda exaustão. Seu vestido sujo de sangue havia sido lavado com suco de limão e já secava num pequeno varal dentro da barraca. Todo e qualquer vestígio que pudesse de alguma forma ligá-la ao crime em si havia desaparecido por completo. Com a morte de seu tio Nicolas – acusado injustamente do assassinato de Vladimir – o assassinato do faquir tinha sido solucionado. Madame Staell, que esteve bastante preocupada com o semblante de Darquinha e a possível desconfiança de seus companheiros pela tristeza dela, agora estava bem mais aliviada. Afinal, a jovem acabara de perder, de uma forma bastante violenta e covarde, seu único parente vivo. Mesmo com todos os defeitos que seu tio Nicolas pudesse ter, ainda assim, era o irmão de seu amado e saudoso pai. Sendo assim, ela poderia chorar à vontade e lamentar como quisesse seu luto.

Tanto Vladimir quanto Nicolas Benetti foram enterrados naquele mesmo dia. O velório de ambos fora simples, sem muita cerimônia, apenas as exéquias necessárias – exigência feita por parte da autoridade eclesiástica. A mulher que também perdera a vida naquela fatídica confusão fora velada e enterrada com toda a grandeza de uma pessoa de altíssima posição. Toda a cidade – até mesmo quem não simpatizava com ela – chorou pela sua morte. No fim da tarde, – na hora do ângelus – os sinos da igreja repicaram de forma tão triste que a qualquer um causaria um aperto no peito. Naquela noite, não houve espetáculo – pois até mesmo a quermesse fora cancelada – e, por mais uma vez, o circo estava de luto pela perda de dois integrantes ao mesmo tempo, como outrora o fora com os pais de Darquinha, parecendo que uma sombra de tragédia os acompanhasse.

De certa forma, todos estavam abalados com o acontecido – não porque alguém morresse de amores pelos dois companheiros que se foram, mas pela forma como tudo acontecera. O faquir morto pelo próprio instrumento de sua arte – que, juntamente com ele, fora enterrado numa sepultura simples. E o anão, pela violência de seu assassinato – que certamente ficaria impune – também fora jogado numa cova sem muito glamour. Pois aqueles que morrem mortes heroicas ou pelas mãos do destino trágico são eternamente lembrados. No entanto, ladrões, bêbados e todos os covardes são rapidamente lançados nas valas do esquecimento.

No provérbio: “... há males que vêm para o bem...” há mais verdade do que se imagina. No caso da perda de dois outros integrantes do circo, esse trágico fato tornara-se muito conveniente para as pretensões do dono do circo, que naquela mesma noite de tristeza e lamentação decidiu de uma vez por todas colocar um fim naquele artístico empreendimento. Estando recluso em seus aposentos, por mais de uma vez contou suas economias, e com determinada resolução decidiu que, no dia seguinte, assim que se acalmasse, faria uma reunião com todos seus companheiros e anunciaria sua decisão. De certo modo, ele conseguiu retirar um peso de suas costas e, naquela mesma noite, após fazer e refazer seus planos de poder finalmente retornar para sua terra natal, conseguiu dormir como há muito tempo não fazia.

Se por um lado o sepultamento da querida conterrânea fora prestigiado por toda a cidade, o enterro dos artistas do circo foi vazio e insosso. Darquinha – assim como muitos outros artistas – não quis acompanhar as exéquias de seus companheiros. Madame Staell, além de se fazer presente todo o tempo, com poucas palavras – que ninguém ousou questionar – justificou a ausência de sua protegida no último adeus ao seu tio, dizendo que ela estava muito abalada. A convite da própria cigana, pediu ao negro Thomás que zelasse pela pobre órfã, ficando em sua companhia até que tudo se desse por encerrado. De certo modo, a cigana unia o útil ao agradável. Mantinha sua protegida sob severa vigilância, enquanto tentava aproximar aquele promissor casal. Pois, sabia ela, que dias tenebrosos estavam por vir e que certamente precisaria de um porto seguro, caso a tempestade que se aproximava se mostrasse violenta demais para suas já calejadas forças.

Naquela mesma noite, após o sepultamento de seus companheiros de longa data, como Thomás estivera quase o dia todo na companhia de Darquinha, ele também fora convidado a ficar para o jantar, na tentativa de quebrar o clima de tristeza que se abatera sobre todo o acampamento. Comeram um repasto simples e tomaram um refresco que Thomás buscara na venda, juntamente com figos cristalizados para a sobremesa, que ele trouxera como mimo para Darquinha. Sobre o acontecido, poucas palavras foram ditas. Contudo, Madame Staell percebeu que entre eles um extenso diálogo era travado na constante troca de olhares. De alguma forma, eles já haviam encontrado uma maneira de se entenderem sem precisarem do uso das palavras.

O dia seguinte foi sem graça e sem muitos afazeres. Primeiro porque choveu quase o dia todo, segundo porque ninguém ousou ir até a cidade, que, de certa forma, estava ofendida pelo acontecido e também agora com a presença daquele circo em suas cercanias. Por último, ainda havia um sentimento de perda que pairava no semblante de todos. Com a lama que tomava conta do acampamento e se impregnava até os ossos, e o frio enregelante que a chuva trouxera, todos passaram o dia cada qual em sua barraca, como animais escondidos do inverno em suas tocas. No fim da tarde, a chuva deu uma trégua e, já se despedindo daquele dia, tímidos raios de sol tentavam iluminar aquele melancólico acampamento. Como o tempo dava mostras de se firmar, logo uma grande fogueira foi acesa no meio do acampamento para que, com o calor do fogo e o brilho das chamas, um pouco de animação pudesse pairar sobre eles.

Antes das oito da noite, quando o Sr. Zacky percebeu que todos já haviam se alimentado e todos os afazeres diurnos estavam encerrados, convocou a todos ao centro do acampamento, ao redor da fogueira que ardia incessantemente, e iniciou um longo discurso. Com a voz entrecortada pela emoção, relatou sobre a magnitude daquele circo em tempos áureos nas distantes terras do velho mundo. Com certa nostalgia, relembrou sua infância e a imagem saudosa de seus pais e velhos artistas que já haviam partido. Nesse momento, teve que interromper sua fala, pois a emoção lhe tomara as palavras e as lágrimas lhe turvaram a visão. Enquanto tentava controlar as emoções, foi ovacionado com uma forte salva de palmas e palavras de apoio. Assim que secou seus olhos e novamente já era senhor de si, citou a qualidade de cada um dos presentes e também dos que já haviam partido e, mais uma vez, reafirmou o laço de amizade que sempre houvera entre eles. Com um esforço descomunal, conseguiu reunir a coragem necessária e, ainda com muitas palavras de afeto e eterna gratidão, disse a frase que há tempos já estava ensaiando.

– É com muita tristeza no coração e com uma dor inconsolável no peito que, de minha parte, declaro que minhas atividades nesse circo se dão por encerradas de uma vez por todas.

O silêncio que pairou por um breve momento naquele acampamento foi algo fora do comum; parecia que até mesmo a natureza ao redor, com suas inúmeras criaturas da noite, se calara perante aquelas palavras. Somente o crepitar da fogueira se fazia presente. Um dos gêmeos que, juntamente com seu irmão, fazia parte do grupo de palhaços – cinco ao todo – questionou de forma muito inocente para onde eles iriam. A resposta do Sr. Zacky foi vazia e bastante insossa, como se a responsabilidade pelo circo não lhe dissesse mais nenhum respeito.

– Sinceramente, meu nobre amiguinho, não sei! O que sei é que todos vocês agora são livres para fazerem o que bem quiserem, até mesmo tocarem o circo sozinhos se assim for do agrado de todos. O que estou dizendo é que meus dias de picadeiro acabaram. Amanhã mesmo retornarei para a capital, e de lá, assim que possível, voltarei para a Europa...

Ninguém disse mais nenhuma palavra na presença do dono do circo, que, pela inconveniência do comunicado, se viu constrangido pelos olhares acusadores e de surpresa que de todos os lados lhe eram desferidos. O Sr. Zacky logo se retirou para seus aposentos. Assim que se viram a sós, começaram as discussões e burburinhos. Houve todos os tipos de comentários; desde os mais elogiosos até os de mais baixa infâmia. Depois de muitos reclames e infinitas lamúrias, decidiram que o melhor a se fazer era dar continuidade aos espetáculos, pelo menos por enquanto. A liderança do grupo ficou a cargo do Homem Montanha – dois metros e dez de altura de pura massa muscular muito bem distribuídos em mais de 130 quilos – que, dentre eles, parecia ser o mais versado e confiável para aquela função.

Madame Staell, que por nenhum momento em nada fora consultada, observou tudo em absoluto silêncio, prestando bastante atenção em tudo que estava ocorrendo, mas principalmente em como cada um se comportava perante tudo aquilo. Após perceber que estava sendo ignorada como alguém que já não mais fazia parte daquele grupo, recolheu-se à intimidade de sua barraca e logo, através de gestos, comunicou a Darquinha tudo que estava ocorrendo e lhe disse que, sem a proteção do Sr. Zacky, o melhor que elas poderiam fazer era aproveitar a oportunidade e também deixar o circo, seguindo o infinito ciclo universal de todas as coisas que, da mesma forma que se iniciam, também têm um fim. Disse a sua protegida de uma forma bastante maternal que o Infinito, de alguma forma, nos deixa mensagens de como devemos proceder perante os acasos a que todos os dias somos submetidos. Devemos ter a mente aberta para entender essas mensagens.

Certamente, o trágico ocorrido nos últimos dias era um aviso do universo para que elas – tal qual o próprio dono do circo – seguissem em frente, abandonando o circo. Quando Darquinha lhe questionou sobre como elas poderiam sobreviver longe do circo, Madame Staell a tranquilizou, deixando bem claro que o futuro de ambas estaria garantido, pelo menos por um tempo. O que precisavam era decidir sem muita demora o que fariam e para onde poderiam ir. Sendo elas uma mulher já madura, quase cega, e uma donzela surda-muda ainda bastante jovem, o mundo poderia ser bastante hostil fora do circo e da proteção que elas sempre puderam contar. Mesmo com todas as dificuldades e as inúmeras diferenças que pudessem existir entre eles, ainda assim, aquele grupo sempre fora muito unido perante as adversidades, como se fizessem parte de uma grande família, e ela sempre se sentira muito segura sob a proteção do circo.

Devido a tudo que ela pôde perceber – e através de sua intuição – ela logo entendeu que o melhor a se fazer era buscar refúgio em outros caminhos. Em mais uma noite insone, ela buscou respostas em todas as vias que conhecia. Em todos os meios que consultou, a resposta para sua mais terrível pergunta – "Que fazer?" – era sempre a mesma: um obscuro silêncio. Já na alta madrugada, quando ela, vencida pelo cansaço, conseguiu adormecer, sua resposta veio num sonho ou talvez uma visão – ela não conseguiu discernir ao certo – onde via claramente o negro Thomás e a jovem Darquinha saindo de mãos dadas de uma pequena igreja, ambos vestidos em trajes nupciais, e com o semblante demonstrando uma incontida felicidade. Madame Staell, que tinha sua sensibilidade bastante aflorada, acordou sobressaltada com aquela visão, mas de alguma forma sentiu-se aliviada e com o coração tranquilo em saber como deveria proceder.

Na manhã seguinte, o tempo amanheceu cinzento e bastante frio devido a uma leve garoa que caía sem cessar. O Sr. Zacky fazia os últimos preparativos para sua partida, como se aquela resolução já tivesse sido decidida há bastante tempo. Levava consigo apenas seus pertences mais íntimos em dois grandes baús. E todo o restante de seus bens, deixava para ser dividido em partes iguais entre todos, sem exceção. Madame Staell e Darquinha foram deixadas de lado na divisão daqueles bens. Sem demonstrar muito interesse naqueles inúteis cacarecos e muito menos na forma como seus companheiros procediam perante ela, deu dois tostões para que um dos gêmeos fosse até a cidade em busca de Thomás, pois tinha um negócio importante a tratar com ele. Darquinha, devido a tudo que ocorrera nos últimos dias – tanto sua trágica desventura com o atrevido faquir, bem como a perda não tão sofrida de seu tio Nicolas – mantivera-se fechada em seu particular universo de silêncio e quietude. Seu semblante preocupado e tristonho apenas se alterava na presença de Thomás, que havia se tornado para ela em pouco tempo algo indispensável.

Naquela manhã, Thomás havia conseguido uma diária de trabalho como ajudante de um carpinteiro que estava dando manutenção no telhado da padaria. Assim que recebeu o recado, disse que no final daquele mesmo dia estaria com elas. O dia ainda esteve frio e cinzento por quase todo o tempo. O Sr. Zacky partiu logo cedo em direção à capital e ninguém mais teve notícias dele – certamente conseguiu retornar para o velho mundo. Assim que o dia estava findando, Thomás apareceu na tenda da velha cigana. Havia se lavado e colocado seu melhor traje. O cheiro dele era bastante agradável, lembrava canela, livros antigos e, também, tabaco perfumado, talvez com almíscar. Foi recebido com muito préstimo e bastante alegria por ambas. Por mais que tentasse recusar, foi convencido a jantar com elas. Madame Staell lhe disse que o que tinha a tratar com ele era algo bastante delicado, pois dizia respeito ao destino dos três...

Terminado o jantar, a cigana, com toda a experiência de uma pessoa que já vivera muitos janeiros e enfrentara muitos altos e baixos, expôs-lhe a situação. Primeiro, relatando parte da sofrível história de Darquinha e os trágicos acontecimentos de sua vida até aquele presente momento. Relatou-lhe o quanto ela era cara para ela, tanto pela sua simpatia quanto pela sua inocente fragilidade. Disse ainda o quanto havia se afinizado com sua pessoa, percebendo o quanto ele era um homem de princípios e bastante honrado. Por fim, explanou suas intenções de ambas deixarem o circo e irem viver em alguma cidade mais próspera, quem sabe até mesmo em alguma capital. Após ter gastado bastante o verbo com um rodeio que não parecia ter mais fim, ela decidiu, afinal, lhe fazer a proposta de acompanhá-las. Antes que ele pudesse responder, ou mesmo confundir a proposta, ela lhe relatou sobre sua visão, dizendo ainda que fazia muito gosto em saber que Darquinha seria entregue em boas mãos.

Sendo ele um homem de índole incorruptível, de imediato quis recusar a proposta. Alegou, através de um breve discurso, que havia inúmeras diferenças que os afastavam, mas logo foi convencido por um único olhar que Darquinha lhe desferiu. Ela, mesmo sem poder ouvir nada, entendeu praticamente tudo que fora dito e lhe direcionou um olhar questionador, como se perguntasse: “... não sou digna do seu amor?”. Ele rapidamente tomou suas mãos, beijando-as ternamente e, olhando em seus olhos, disse-lhe:

– Desde o momento em que a vi, é tudo que eu mais quero nesta vida. Eu que não me sinto digno de tanta beleza e simpatia. Se me tornares seu marido, serei para ti o mais gentil dos homens, prometo com toda a força de minha alma amá-la e protegê-la até o fim dos meus dias.

Naquele momento, o mais dorido dos suspiros se ouviu naquela tenda, e lágrimas banharam a face da bela Darquinha como uma torrente que não parecia ter mais fim. Madame Staell concluiu que em toda sua vida jamais presenciara a mais sincera demonstração de amor de um ser para com outro. Naquele momento, o destino daquelas três pessoas foi traçado para todo o sempre.

Menos de um mês depois, já estavam os três vivendo na capital. O circo que ambas deixaram para trás seguiu seu caminho, e nada mais se soube nem sobre ele, muito menos sobre seus integrantes – que, de certo modo, sentiram-se aliviados com a partida da velha cigana e de sua protegida. Thomás e Joana D’arc se casaram numa singela igrejinha no alto do morro na periferia onde se instalaram. Todo o enxoval foi presente da velha cigana, incluindo o alinhado terno do noivo e o belíssimo vestido da noiva. A cerimônia pode até ter sido simples aos olhos de outrem, mas para aquele casal, foi um acontecimento apoteótico. A alegria de ambos era um inquestionável exemplo de que o Amor é realmente um sublime sentimento capaz de tornar o impossível em algo extraordinário, possibilitando a união das mais diferentes criaturas em um único ser.

Os primeiros dias após suas núpcias foram de um total deleite. Contudo, assim que contraiu matrimônio com Darquinha, sentia-se de certo modo hostilizado por olhares perscrutadores e maledicentes. Ele, um negro cinquentão – talvez até um pouco mais velho – ela, uma jovem branca de olhos claros, que teria talvez idade para ser sua filha – quem sabe até mesmo neta. Não era uma relação bem-vista pelas pessoas autoproclamadas "pessoas de bem". Thomás sempre fora um ser de espírito livre e jamais se incomodara com aquilo que diziam dele, afinal, era um negro e ex-cativo vivendo numa sociedade onde, há bem poucos anos, pessoas como ele eram vendidas como uma mercadoria qualquer, e já havia sentido na pele e na própria alma a maldade humana. Mas agora, tudo havia mudado e era o nome de sua amada que estava na boca da raia miúda e desocupada.

Thomás não suportava esses olhares e os cochichos que pareciam inconvenientemente estar em todos os lugares, mesmo na rua, no rosto de desconhecidos. Durante o dia, ele trabalhava duro para arcar com as despesas da casa, que agora tinham aumentado bastante, mesmo com Madame Staell ajudando em parte com algumas contas do lar. À noite, mesmo coberto de carícias de sua adorada companheira – que estava descobrindo aos poucos as delícias do leito – não conseguia dormir direito. E se perguntava por quê. Será que dava tamanha importância a essas pessoas que sempre o olharam com descrédito e certa repugnância? Com certeza não! Pois sempre tivera total resiliência de quem ele era e de onde tinha vindo. A opinião dessas pessoas – consideradas por ele como pessoas de mente vazia – não tinha nenhum peso sobre ele, o deixando até irritado de, às vezes, se deixar perturbar pelos seus hostis olhares. Por ser uma pessoa de índole diferenciada, achava tudo aquilo por demais desprezível. Como algo tão insignificante poderia estar incomodando-o agora? No fundo de sua alma, sabia que não deveria ficar dependendo da aprovação de pessoas que ele mesmo considerava limitadas e de caráter duvidoso.

Pode ser que a profunda desconfiança que sentia das pessoas ao seu redor, e talvez saber que esse sentimento fosse recíproco por parte delas, tivesse exercido uma forte influência em sua decisão de deixar a cidade grande e se estabelecer no campo, distante de olhares curiosos e acusadores. Thomás se viu, pela primeira vez, numa situação em que o simples ato de ir ao mercado tornava-se um verdadeiro suplício, pois vários olhares caíam sobre aquele casal que, na maioria das vezes, estava acompanhado pela velha cigana, já praticamente cega por completo. Em algumas ocasiões, esses olhares indiscretos eram acompanhados por algum comentário ofensivo. De certo modo, a situação começou a ficar insustentável. O trabalho para Thomás começou a rarear e, logo, o senhorio da pequena casa em que viviam solicitou o imóvel de volta, alegando que o havia vendido e que o novo proprietário o desejava desocupado o mais brevemente possível.

A pedido de Darquinha – que irradiava uma tranquila paz de espírito, jamais se deixando abater por qualquer coisa que fosse – Thomás até tentou alugar outra casa. No entanto, além de estar praticamente sem dinheiro, havia a questão da cor de sua pele que o denunciava. Depois de várias recusas, já havia compreendido que sua história era por demais conhecida e que as pessoas, em sua grande maioria, eram más e se regozijavam com a humilhação moral de negros e imigrantes. Por mais que ele, utilizando sua boa oratória, tentasse convencê-los de ser uma pessoa de boa índole, ninguém queria dar ouvidos à conversa de um ex-cativo; desconhecido, sem trabalho e, principalmente, sem dinheiro no bolso.

Através da intervenção de Madame Staell e do dinheiro que ele ainda possuía, conseguiram alugar uma casa praticamente do outro lado da cidade. Essa locação só foi possível pagando seis meses de aluguel adiantado. Thomás, que trabalhava em qualquer tipo de trabalho que se apresentasse, logo conseguiu serviço. Darquinha fazia pequenas costuras para fora e Madame Staell, mesmo com a visão praticamente a abandonando, ainda assim, vez por outra, tirava a sorte de um aqui, outro acolá. Essa calmaria não duraria por muito tempo.

Certa noite, já em horas avançadas, após o amor e estando ele sentado no leito olhando ao longe pela janela aberta, estando claro como o dia, pois era noite de lua cheia, Darquinha se aproximou dele em silêncio e, após o abraçar, estando ele com o torso nu, começou suavemente a acariciar suas costas e delinear com a ponta dos dedos suas inúmeras cicatrizes. Sem poder conter sua curiosidade – que nas mulheres é considerado um dom, pois essa mesma curiosidade feminina foi o solene motivo de várias descobertas e invenções que em muito ajudaram na evolução da humanidade – perguntou-lhe de um modo muito delicado, olhando nos olhos dele e gesticulando com os ombros em gestos de curiosidade. Thomás, que de alguma forma a compreendia, mesmo sem ela pronunciar nenhuma palavra, após suspirar profundamente, disse, mais para si mesmo do que em resposta:

– Algumas pessoas machucam seus semelhantes simplesmente pelo fato de poderem fazê-lo. Essas marcas em minhas costas são uma pequena amostra daquilo que meu corpo padeceu quando eu ainda era cativo. No entanto, muito pior que essas horrendas cicatrizes é aquilo que ainda padeço por causa de minha cor e minha origem. Nossa gente foi liberta de nossos grilhões, mas ainda somos prisioneiros do preconceito e da discriminação...

Na manhã seguinte, um domingo bastante agradável de céu limpo e ensolarado, após retornarem da missa, tiveram um terrível dissabor, pois foram avisados por um vizinho que os donos do imóvel haviam estado bem cedo batendo em sua porta, deixando o recado que retornariam naquele mesmo dia. O que de fato realmente aconteceu e a notícia que trouxeram consigo não foi nada agradável. O marido da mulher que lhes locara o imóvel solicitava a desocupação imediata da casa, alegando acionar até mesmo a justiça se fosse necessário. Era ele uma pessoa de aparência bastante repugnante e ameaçadora, tinha uns 55 anos, talvez 70, quem sabe até mais – algumas pessoas parecem ter sempre a mesma aparência, como uma montanha que, aos perenes olhos humanos, não demonstra nenhum leve traço de mudança. Já lhe faltavam mais da metade dos dentes e os que sobraram estavam podres e enegrecidos pelo uso constante de tabaco, que tornava o seu hálito nauseabundo, fato que fez com que Darquinha tivesse ânsia de vômito e saísse discretamente de sua presença, tapando a boca com as mãos.

Quando Madame Staell questionou-lhe sobre os seis meses de aluguel que foram pagos de forma adiantada, o senhorio respondeu que nenhum negócio havia feito com eles e que nenhum valor lhe fora pago, que buscassem por seus direitos perante a justiça. Como o imóvel lhe pertencia e ele não lhes alugara coisa alguma, dava-lhes o prazo de três dias para que se mudassem. Após dizer que não queria problemas com ninguém, apenas seu imóvel de volta, saiu sem se despedir, prometendo retornar ao fim daquele prazo estabelecido e reaver sua casa de volta, independente de quais meios fossem necessários para esse fim.

Aquela tarde foi bastante inquietante para aquela peculiar família. Thomás sentia-se bastante injustiçado, ao ponto de dizer que só sairia da casa se a justiça o obrigasse. Darquinha, tomada de um sentimento de completa resiliência, disse que sempre haveria outros lugares e que o melhor a se fazer era evitar todo e qualquer tipo de problema. A cigana, por sua vez – que já havia sentido na própria pele a injustiça da Justiça brasileira – com sua longeva sabedoria, disse por fim:

– Já ouvi dizer que simples palavras podem ser como uma leve brisa, que mal nenhum pode nos causar. No entanto, até mesmo a mais suave das brisas pode se transformar em um vento forte e trazer uma terrível tempestade. Não sou mais jovem e, a cada dia que passa, minhas forças me abandonam um pouco mais. Seja como for, no fim, a noite cai para todos nós, e às vezes cedo demais para alguns. Preciso de um lugar tranquilo para passar meus últimos dias nesta terra. Ainda tenho comigo algum dinheiro e alguns pertences dos quais posso me dispor e comprar uma pequena propriedade no campo onde possamos viver em paz. Se ambos cuidarem de mim na minha senilidade – que se aproxima em passos velozes – deixo a vocês dois essa propriedade para que possam criar seus filhos e seguir com suas vidas sem ninguém os perturbar novamente.

E assim foi feito. Em dois dias, já estavam hospedados numa pensão, onde logo conseguiram contato com um corretor de imóveis – irmão do dono da pensão – que, de forma muito benevolente, lhes conseguiu um excelente negócio, desde que a propriedade fosse paga de forma imediata e em dinheiro vivo. Em menos de dois meses, já estavam vivendo no campo, numa aconchegante, mas bastante humilde casa no alto de uma colina, onde as manhãs eram alegres e o entardecer bastante iluminado pelos raios do sol poente. Era o início de um novo ano e de uma nova vida.

Thomás – que tinha os conhecimentos necessários para a lida no campo – iniciara os trabalhos de lavrar a terra e cuidar de alguns animais que a cigana adquirira, enquanto Darquinha zelava da casa e dos afazeres domésticos, vez por outra sendo auxiliada pela cigana, quando sua saúde permitia, pois a cada dia sentia-se mais fraca, sendo vencida pelos sinais do tempo. No final daquele mesmo ano, a família ficaria um pouco maior com a chegada de uma nova flor para aquele belo jardim. A felicidade parecia enfim ter feito morada naquele humilde lar. No entanto, no horizonte distante, nuvens negras anunciavam uma terrível tempestade. Darquinha tivera uma gestação conturbada e constantemente reclamava de fortes dores de cabeça, principalmente nos ouvidos...

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Lírios do Campo

... – Era para ser apenas uma tranquila viagem entre amigos. Um pitoresco passeio em busca de uma paz que somente o campo poderia nos oferecer…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Observem como crescem os lírios do campo...”. — Mateus 6,28

... – Era para ser apenas uma tranquila viagem entre amigos. Um pitoresco passeio em busca de uma paz que somente o campo poderia nos oferecer, onde nos divertiríamos como pessoas normais – ou ao menos tentaríamos fazê-lo. Fugindo do estressante caos da cidade grande, nos dirigimos para o pequeno vilarejo onde Amélia nascera. Uma localidade que sequer constava no mapa. Na opinião da maioria, um lugar ideal para a paz e o sossego. Na verdade, o que todos nós buscávamos era justamente tentar nos afastar ao máximo da loucura do dia a dia da cidade grande. Estávamos em busca de momentos de paz. Levando em consideração os problemas emocionais e as crises existenciais de cada um, nada mais nos interessava naquele momento.

Como todos sabem, quando partimos – sem saber que o pior aconteceria – estavam naquele carro apenas cinco pessoas – todos nós, amigos de longa data. Além de mim, havia: a própria Amélia – nossa anfitriã – Marcos, Esther e, por último, o filosófico Luís. O veículo em que estávamos pertencia ao pai de Luís. Era uma Kombi velha, mas em ótimo estado de conservação, com uma mecânica invejável. Os pneus eram novos e, antes de partirmos, Luís havia feito – a pedido do pai – uma revisão completa no veículo, para que nenhum incidente viesse a nos incomodar pelo caminho. A maioria de nós era habilitada. No entanto, durante todo o trajeto, Luís fez questão de estar sempre ao volante. A viagem duraria em torno de cinco a seis horas – isso se não chovesse pelo caminho. Quando saímos, ainda pela manhã bem cedo, o céu estava limpo e o clima bastante agradável. Nada poderia dar errado...

Daniel se calou de forma bastante repentina, seu olhar ficou distante e vazio – talvez tentando ver algo ao longe ou se lembrar de algum detalhe esquecido. Houve um momento de reflexão e um silêncio que durou quase cinco minutos. Contudo, logo ele retornou à realidade e, sem mais demora, continuou seu relato.

... – Durante quatro ou cinco horas, rodamos por quase quatrocentos quilômetros sem fazer nenhuma parada. A estrada estava em ótimas condições e, como Luís era um exímio motorista, a viagem rendeu bastante nesse primeiro trecho. Da forma como as coisas estavam se desenrolando, tínhamos a intenção de chegar à casa da avó de Amélia antes do anoitecer. Se isso tivesse realmente acontecido, teria sido excelente, pois nenhum de nós estava nem um pouco interessado em rodar durante a noite por caminhos desconhecidos, muito menos dormir em pensões na beira da estrada. A verdade é que nem mesmo Amélia se lembrava ao certo de como estavam as estradas pelo caminho. Afinal, ela havia saído de sua terra natal quando ainda era uma criança de colo. E isso fora há muitos anos.

Amélia era uma jovem alegre, descontraída e com um sentimento de liberdade estampado no rosto, mas trazia nos olhos algo de muito obscuro. Até as vésperas de nossa viagem, jamais havia falado sobre sua infância, qual era sua origem ou muito menos sobre sua família. No entanto, quando propusemos fazer uma viagem para bem distante da cidade e de nossa vida no campus, ela logo sugeriu que visitássemos sua avó em um distante lugarejo no interior. Mesmo havendo certa desconfiança com aquela repentina euforia por parte dela, Amélia acabou por nos convencer de que seria uma viagem inesquecível para todos nós...

Passava um pouco do meio-dia quando paramos em um posto para abastecer o veículo e fazer uma breve refeição, e percebemos ao longe que uma forte tempestade se anunciava no horizonte. Assim que terminamos de nos alimentar e o veículo estava devidamente abastecido, decidimos que deveríamos continuar seguindo viagem. Não conseguimos rodar nem mesmo cem quilômetros e logo nos deparamos com uma obra de recuperação de uma ponte que havia caído e tivemos que nos desviar da estrada. As placas diziam que o desvio era de apenas três quilômetros, através de uma nada pitoresca estrada de terra. Mal tínhamos começado a rodar por aquele poeirento e esburacado caminho quando o céu, que já estava se fechando, escureceu por completo e uma pesada chuva começou a cair.

Logo, a estrada tornou-se um verdadeiro mar de lama. Luís não tinha nenhuma perícia para dirigir em estradas de terra, ainda mais com aquela terrível tempestade desabando sobre nós. Aquela não era uma chuva comum; mais parecia um segundo dilúvio. O céu era constantemente riscado por faiscantes relâmpagos que culminavam em retumbantes trovões que balançavam todo o firmamento. A chuva era tão intensa que dava a impressão de não apenas cair, mas ser despejada por um céu bastante furioso. Após apenas algumas curvas um tanto quanto perigosas demais para um condutor inexperiente com aquele tipo de terreno, Luís logo decidiu que o melhor a se fazer era encontrar um lugar seguro, parar e esperar que a chuva desse uma trégua para podermos seguir viagem em segurança.

Após contornarmos uma curva bastante fechada, depois de um pequeno bosque de enormes árvores que cobriam a estrada com seus frondosos galhos, nos deparamos com um pequeno descampado com uma vegetação rasteira carregada de flores, principalmente lírios, que naquele momento eram jogados de um lado para o outro pelas rajadas de vento que os açoitavam de forma impiedosa. No centro desse descampado havia uma pequena casa às margens da estrada que, à primeira vista, parecia estar abandonada. Era uma humilde construção em estilo simples, mas com traços de uma arquitetura bastante aconchegante. Suas feições – mesmo em ruínas, aparentando estar há bastante tempo abandonada – demonstravam que, em seus tempos áureos, havia sido uma bela morada. Na frente da construção havia uma grande varanda, e mesmo que não conseguíssemos adentrar na casa, poderíamos nos abrigar da chuva ali mesmo.

Assim que o veículo foi estacionado em frente à casa, rapidamente nos dirigimos rumo à varanda e, para nossa surpresa, assim que pisamos no velho assoalho já em frente ao umbral da porta de entrada, esta se abriu por completo e uma bela jovem veio nos receber, como se já fôssemos esperados naquele lugar. Essa jovem de pele clara e belíssimos olhos azuis aparentava ter uns quinze anos – talvez até um pouco menos, pois tinha um semblante bastante juvenil – estava com um castiçal em uma das mãos, cuja luz de uma vela iluminava o obscuro interior da casa na qual ela nos convidava a entrar, para nos abrigar da chuva e do vento. Desde criança aprendi que jamais deveríamos falar com estranhos e muito menos entrar em lugares desconhecidos. Contudo, aquela jovem parecia ser a criatura mais doce e inofensiva de toda a Terra. Como do lado de fora o frio e a umidade estavam bastante intimidadores e o interior da casa parecia ser quente e muito aconchegante, sem pestanejar decidimos que o melhor a se fazer era aceitar o convite e aguardar até que a chuva passasse.

Assim que entramos, logo, com um forte estrondo, a porta foi fechada às nossas costas, e quando Esther quis questionar, nossa anfitriã respondeu de forma meiga e bastante convincente:

– Se não fecharmos a porta barrando o vento frio, de nada adianta nos abrigar aqui dentro!

Logo fomos direcionados a nos aproximar de uma crepitante lareira. Havia um enorme estofado em formato de semicírculo em frente ao aconchegante calor do fogo, de onde vinha um convidativo odor de folhas de erva-cidreira sendo fervidas. Sentada de frente a essa lareira, numa poltrona à parte, havia uma peculiar senhora, de aparência bondosa e confiante índole, que logo nos foi apresentada como sendo a avó da jovem que nos recebera. Essa senhora se servia de um fumegante chá que logo nos foi oferecido. A maioria de nós achou por bem recusar, mas Esther, a mais mística dentre nosso grupo, sempre receptiva a velas, incensos e todo tipo de beberagem natural, logo quis experimentar o sabor daquela bebida, até porque o cheiro estava bastante convidativo. Como Esther o tomara e não tivera nenhuma reação imediata, nem mesmo demonstrara nenhum tipo de comportamento estranho, logo todos nós fomos servidos. O chá estava quente, doce e com um sabor que trazia certa paz de espírito, proporcionando um lento relaxamento do corpo e da mente. Após tomar aquele chá, tudo se tornou escuro e vazio.

Quando acordei, a impressão que tive é que haviam passado várias horas. Tentei me levantar, mas logo percebi que não estava deitado, mas sim sentado em uma cadeira e amarrado a esta. Ao meu redor tudo era silêncio e quietude. Pelas frestas no alto das paredes e no teto, pude perceber que estava em uma espécie de porão e que lá fora o sol brilhava forte. Pelo barulho dos pássaros e pelo frescor ao meu redor, tive a impressão de que era uma bela manhã. Durante quase uma hora, após chamar por meus amigos sem obter resposta e clamar desesperadamente por socorro sem sucesso, me esforcei de todas as formas até que consegui me desvencilhar das amarras que me prendiam. Com muita dificuldade, consegui encontrar a saída daquela espécie de porão, que mais parecia ser um covil de uma terrível criatura que, se realmente existisse, naquele momento estaria dormindo ou escondida em algum lugar se refugiando da luz do dia.

Logo, sem muito esforço, já estava do lado de fora daquela estranha casa. A Kombi estava parada no mesmo lugar em que fora deixada. No entanto, não havia nem vestígio do paradeiro dos meus amigos. Por quase uma hora rodeei em volta da casa, gritando por cada um deles sem sucesso. Por fim, decidi pegar a Kombi e ir em busca de ajuda. As chaves principais haviam ficado com Luís, mas no quebra-sol do veículo havia uma chave reserva. Saí com a Kombi e retornei pelo caminho que havíamos chegado ali, voltando até o posto de combustíveis onde havíamos almoçado e, de lá, pedi que a atendente chamasse a polícia. Foi quando vi que havia vários panfletos – alguns, até mesmo bem antigos – com pessoas desaparecidas...

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Sangue

Sangue. | Lápide fria | Noite escura, céu acima. | Sangue. | Você me abomina | Mas suas vísceras são minhas. | Sangue. | Seu carmesim cintilante | Colore o cemitério…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sangue.
Lápide fria
Noite escura, céu acima.

Sangue.
Você me abomina
Mas suas vísceras são minhas.

Sangue.
Seu carmesim cintilante
Colore o cemitério neste instante

Anjos choram pela inocência
Profanam minha existência
Mas ela os devora

Sangue.
Um olhar mais acima...
A garotinha é minha!

Sangue.
Debaixo de uma cruz
A pele pálida reluz.

Sangue.
O túmulo cinza me suplica
“Dance para mim, querida”

Sangre...

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A Luz se Apaga

Majestosa, | Brilhante e inigualável estrela no céu. | Reinando em um mar de escuridão | Mas impiedosa, | Tão bela quanto cruel. | Tomou meus olhos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Majestosa,
Brilhante e inigualável estrela no céu.
Reinando em um mar de escuridão
Mas impiedosa,
Tão bela quanto cruel.

Tomou meus olhos
Meu corpo e espírito.
Elevou-me a mais linda visão
Para em seguida abandonar-me
Na escura solidão.

Não era vida
O que eu via.
Sua morte brilhava
Iluminando um negro céu.

Não era vida
O que eu sentia.
Era o último suspiro
De quem jazia a sabor de mel.

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Dissoluções

Desfalecem os sonhos | Que sucumbem à incompleteza | Em grandes ondas, | No profundo mar da inconstância | Naufraga impotente a nau da incerteza…

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Desfalecem os sonhos
Que sucumbem à incompleteza
Em grandes ondas,
No profundo mar da inconstância
Naufraga impotente a nau da incerteza
Agoniza o sonho de vil substância

Dissolve nas águas como um papel delicado
O frágil objeto de laços estreitos
Carregando fragmentos de sonhos desfeitos
Nas fluidas correntes do mar agitado
Leva o coração de um sonhador acordado
Até, por fim, encontrar no éter defeitos 

Há um doido a nadar nestas águas
No licor de negrume do fosco luar
Se debatendo entre velhas resíduas
Golpeia a superfície escura do mar.
Luta valente com golpes fantásticos
E a lua aberta, mãe dos lunáticos,
Severa assiste seu filho afogar

Que salvem ele, ó navegantes!
Tirem ele deste mar de espinhos!
Mas se for para que volte a ser como antes
Deixemos então que se mate sozinho!

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Espólios

O chão de mortes rubro e corpos cheio | (Vedado por metais, escudos falhos), | Por nuvens de abutres carniceiros | Agora é posto em sombras, surgem vários…

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O chão de mortes rubro e corpos cheio
(Vedado por metais, escudos falhos),
Por nuvens de abutres carniceiros
Agora é posto em sombras, surgem vários

Girando em asas torpes, altaneiros
— Selado o fim da guerra, de mortais —,
Até que um voo rasante, já sem medo,
No vão mais degradante ele decai.

Saltit‘entre o despojo abandonado;
Mordisca a parte sua da mortalha —
Vitória sem lesão, nenhum ataque.

Banquete assim aberto, assinalado…
De sobra a fosca pilha de medalhas —
Sem brilho e de valor menor que a carne.

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Cosmo Soturno

caminho pela escuridão da noite | tentando imaginar minha vida | sem a correnteza das águas que | caem abundantemente em sua face…

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caminho pela escuridão da noite
tentando imaginar minha vida
sem a correnteza das águas que
caem abundantemente em sua face

tê-la em meus braços fora o
único momento bom deste 
viver melancólico e sombrio
que arrastei por todos os anos

neste corpo gélido, não sinto mais
a força pulsante dos mares de
sangue que fluem inundando 
minha soturna existência 

às sombras arrancaram de mim 
toda a solidão cravada em meu peito
lançando em um abismo obscuro
o mal sedento e submerso por ti

onde estou ainda consigo ouvir
tuas súplicas arrependidas e
desesperadas por mim 
clamando por meu retorno 

lançado em um universo onde 
as trevas devoram minha alma 
suplico em meus devaneios para quê 
a solitude em meu peito aproxime nossas almas.

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Entropia

Todas profundas marcas que deixaste em mim | São tão irremovíveis quanto a dor que sinto… | Por isso, em lutar por ti eu não mais insisto: | Que o Cosmos…

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Todas profundas marcas que deixaste em mim
São tão irremovíveis quanto a dor que sinto…
Por isso, em lutar por ti eu não mais insisto:
Que o Cosmos se dedique a nos juntar, enfim!
Na aglutinação dos astros com os insetos,
Quando os organismos todos verem, unidos,
A chegada de apocalípticos cometas...
Então a hecatombe final do universo
Vai me unir a teu amor não correspondido
Em seus próprios detritos de sóis e planetas…

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Diário de Anto Stefan Miahi - Part. IV

Meu caro amigo, te envio notícias da capital. Além desta carta, somam-se alguns jornais nossos….

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De Marcel D. Laurent II

De: Marcel D. Laurent
Para: Anton S. Miahi
28 de junho de 1871

Meu caro amigo, te envio notícias da capital. Além desta carta, somam-se alguns jornais nossos. Infelizmente até chegar em suas mãos devo admitir que vão estar atrasadas. Por feliz graça você me deixou a direção do tal conde, realmente espero que estejam chegando minhas cartas.

Paris tem tido momentos sombrios no espectro político e social, isso desde que Napoleão caiu nas mãos de Frederico, O Grande, e se viu despido de toda sua majestosa glória divina concedida pelo Papa Pio IX e sua igreja. Foi uma guerra santa feita por pecadores e desgraçados que banharam o centro da Europa.

Recordando que quando voltávamos a casa na longa viagem que fizemos, antes que se molhasse a pena e manchasse o papel, os comunas assumiram as rédeas da nação com o apoio das Forças Nacionais.

Por culpa daquele detrator e infame Adolphe Thiers. Ele que ao invés de entender o valor do sangue derramado, não pelo infeliz ex-presidente e imperador, mas pelo próprio povo, fechou a boca e se recusou a dar valor a honra de nossos irmãos de trincheiras, assim como de suas famílias que derramaram lágrimas.

Meu amigo, tudo tem custo, não é mesmo?

Apenas um pesadelo após o outro!

Vimos os horrores da guerra longe de casa, para voltar ao final de 1870. Desde o início do ano de 1871, por volta de março, penso eu, fora possível notar que aqui também poderíamos sangrar, não contra inimigos externos, países estranhos, mas contra nossos vizinhos, primos, irmãos e pais. As

A hora em que te escrevo essa carta é no silêncio da noite, Bernie está dormindo no andar superior, enquanto estou acompanhado de duas garrafas de um bom vinho tinto produzido na vinícola de meu primo Ghutier. Nada como o doce sabor da uva para soterrar as más lembranças e curar velhas feridas da alma.

Recomendo como seu amigo esse tratamento tão singelo, mas de excelente resultado.

Talvez por essa razão eu esteja te escrevendo esta carta, parte de uma clara preocupação com seu bem-estar, e com a nossa amada França.

Vivemos um tempo de efervescência social nunca vista em nosso país, já que ainda existem núcleos de descontentes com governo provisório e por sua falta de força e respostas perante o fracasso de Napoleão frente a Prússia.

O ano apenas está na metade e parece que já viveremos o apocalipse dos textos sagrados!

Já que Versalhes está com o governo provisório e Paris passou um tempo nas mãos dos comunas. É de se pensar quanto ao sacrifício que estes revoltosos estão dispostos a fazer. Lutam pelo poder popular, poder do povo. Querem reinventar a roda? Difícil crer que eles poderiam conseguir algo sem o povo ao seu lado, menos ainda sem os mosquetes que os nobres conseguem armazenar.

A política tem muitas faces, meu amigo.

Enquanto nós, enfrentávamos outra nação pelo poder do presidente da segunda república francesa, Charles-Louis Napoleão Bonaparte. No quintal nosso borbulhava sentimentos de inconformismo que tomaram as ruas. Inegável a destruição causada em Paris, ruas manchadas de vermelho, bloqueios, cartazes a favor da comuna por todas as partes. E os livros de um tal de Victor-Marie Hugo, dizem que ele saiu da região de Besançon. Este homem que motivava por meio de suas obras a já existente e crescente insatisfação contra o poder vigente no país.

2 de setembro de 1870, a dobrada de joelhos de Bonaparte, a fome, a crise social, a guerra tudo parecia conduzir para essa situação catastróficas que foi essa revolta de Paris, ao não aceitar a rendição.

O que também apoiei até certo ponto.

Admito que o problema tão logo foi a infestação dos comunas que se viam bebendo das fontes prussianas dos pensadores críticos da produção favoráveis e da luta de classes. Muitos não viram o racha que isso poderia causar.

Ali nasceu a divergência, bem no meio dos defensores de Paris e o governo provisório contra uma possível luta em solo francês contra os prussianos.

Acho que o vinho começa a me fazer devagar, meu amigo. Novamente espero ter notícias tuas. Amanhã irei aos correios, se conseguir levantar.

De seu irmão de trincheiras,
Maurice.

Anton S. Miahi IV
(Anotações feitas em Séttimor)

24 de junho — A curiosidade me levou por caminhos que admito eu desconhecer, e mais que isso, sou imerso em assombro proveniente dos recantos distantes do imaginário humano, com verdadeiras visões que fazem minha racionalidade falhar.

Aceitei entrar na casa de um dos ditos moradores do povoado oculto no vale abaixo do Castelo Drácula. O lugar é lúgubre, funesto. Olho aquelas pessoas, algumas nem mesmo face mais tem, no entanto, sinto nelas angústia, medo, e algumas, noto a completa ausência de esperança.

Por diversas razões, encontro-me imerso em um tormento psicológico que remete diretamente às tendas dos socorristas durante a guerra Franco-Prussiana. Esses cenários, uma vez repletos de desesperança e dor, agora se desenrolam em minha mente como um pesadelo eterno. Naqueles campos de batalha, os olhares dos moribundos, resignados ao seu destino cruel, eram apenas sombras de um sofrimento interminável.

Aqui, neste lugar desolado, sinto a mesma sensação de derrota avassaladora. Não há nada que inspire ou motive; apenas um vazio absoluto. O ambiente é um eco da minha experiência, uma paisagem desolada onde o ânimo e a esperança parecem ser conceitos estrangeiros, pertencentes a um mundo distante e inalcançável.

Nesta cidade, a ambição pela vida é um resquício remoto do que eu conhecia. O espírito de luta que uma vez me impulsionou agora parece ter sido extinto, substituído por uma desolação fria e implacável. Cada dia aqui é uma lembrança do desespero que experimentei nos campos de batalha, uma contínua crise emocional onde o desejo de viver é uma memória dolorosa e distante.

Uma sensação de um luto constante, o ar parece viciado, angustiante, que nos remete a tormentos passados. Estou aqui há poucas horas e já me sinto quase no mesmo estado emocional que essas pobres criaturas.

As casas de ripas e toras de madeira escura, com seus telhados pontiagudos como garras estendidas ao céu, exalavam uma sensação de decadência eterna. Embora não estivessem se desfazendo, a idade delas era palpável, como uma entidade maligna que se recusava a partir. Musgo verde-escuro rastejava pelas paredes, e ervas retorcidas subiam como dedos ossudos, emprestando um ar de abandono e desespero. A cada sombra lançada pelas casas, o ambiente ficava mais opressivo, como se a própria vila respirasse o medo e o espalhasse pelo ar frio e denso.

Por dentro, o lugar exalava uma estranha e enganosa sensação de aconchego, envolta em suas limitações desconfortáveis. Ervas pendiam na janela ao lado da porta, secando lentamente, emitindo um odor forte e acre que se misturava ao cheiro persistente de fumaça velha e fuligem. A lareira rústica de pedra, marcada por anos de uso, exibia manchas negras de fogo e fuligem, espalhando uma luz trêmula e vacilante pelo ambiente.

Apesar de uma aparente limpeza superficial, havia uma sensação de desordem oculta, como se algo sinistro estivesse apenas aguardando para se revelar. O ar carregava uma mistura de cheiros: carne seca pendurada, ervas em decomposição e um leve aroma de mofo, criando uma atmosfera sufocante e opressiva.

O que mais me perturbou foi a ausência total de símbolos da Igreja Romana. A ausência de qualquer sinal de fé comum na Europa era inquietante, deixando a impressão de que o lugar seguia crenças antigas e esquecidas, talvez até proibidas.

No canto oposto à lareira, uma escadaria estreita e escura subia para o andar superior, envolta em sombras espessas que pareciam pulsar com uma presença invisível. Panelas de pedra e partes de animais penduradas nas paredes completavam a cena macabra, transformando o que poderia ser um refúgio acolhedor em um antro de mistério e terror.

Percebo que um jovem do meio daquelas pessoas no lado externo da casa se aproxima da dela. Seu rosto ainda existe, seu corpo é pequeno, magro, mas não raquítico, suas roupas são tão puídas. Não parece estar com mais de vinte anos, seu rosto expressa ansiedade e lampejos de gato curioso. Os olhos são da cor vermelha, sua respiração libera uma neblina, ou melhor, é mais semelhante a uma suave fumaça, como um fumante, porém, sem cachimbo. Ele caminha rápido e se senta na cadeira na frente da mesa onde me encontro.

— Senhor, como está o mundo fora da vila? — Ele pergunta como uma inocência e sinceridade infantil.

Então uma voz de uma mulher se escutou no mesmo instante que notei seus passos pesados nas escadas. Era vigorosa, aguda, com um suave sibilar ao final das frases.

— Deixe o nosso visitante em paz, Andrei. — Seu tom era como a bronca de uma mãe ou uma mulher mais velha. Olhei fixamente para escada e quando ela surgiu, creio eu que esperava muito que ela fosse mais humana, no entanto, não. Ela tinha os mesmos traços que os demais. — E qual o nome do cavalheiro?

Demorou uns quantos segundo para que meu cérebro voltasse a se comunicar com minha boca.

A imagem daqueles indivíduos fora da casa, tanto quanto, os dois que ali estavam perturbavam minha mente. Seus corpos disformes, os rostos tão perturbadoramente anormais.

A cada instante, meus dedos apertavam com mais força a bainha do meu sabre, como se apenas o contato com a arma pudesse afastar a crescente sensação de pavor. Mesmo percebendo uma aparente tranquilidade na cidade, meu coração batia descompassado, cada pulsação reverberando em meus ouvidos como um tambor de guerra.

O ar parecia carregado de uma presença invisível, uma energia que se enroscava em minha pele como um manto sufocante. Sentia um frio gélido subindo pela espinha, e uma voz sussurrava insidiosamente em minha mente — “Corra”, “Fuja daqui!”.

Os odores ao meu redor eram intensos e perturbadores: o cheiro metálico do medo, misturado com um aroma acre de mofo e decomposição, impregnava minhas narinas, mais do que das ervas ou da carne seca, tornando a respiração difícil e pesada. A luz pálida do dia parecia ser sugada pelas sombras, que se alongavam e se moviam antinaturalmente, como se tivessem vontade própria.

Cada som era amplificado na quietude opressiva: o farfalhar das árvores, o uivo sombrio do vendo soprando, os passos ecoando do lado de fora da casa, e um sussurro distante que parecia vir de todos os lados. Meus sentidos estavam em alerta máximo, cada fibra do meu ser gritava para eu deixar aquele lugar. A cidade, com sua aparente calmaria, exalava uma malevolência silenciosa, uma promessa de perigo iminente que não podia ser ignorada.

— Me chamo, Sargento Anto Stefan Miahi. Oficial e pesquisador vindo de Paris para estudar os documentos que o Conde Drácula tem em sua posse. — Admito que falar com eles fez com que lembranças viessem e revisassem emoções que eu havia pensado ter superado. — E a senhora como se chama? — Perguntei com toda cortesia que me era possível evocar.

— Sou, ou é como resolveram me chamar, Catalina Rusu. Então o jovem mestre Anton, está como convidado do conde? — Aquela senhora expressou o que parecia um sorriso amargo.

Antes que eu pudesse tentar dizer algo, ela retomou.

— Nem todos são aceitos na morada do Drácula… —Soando quase um murmuro, sua voz carregada de suspense. — E menos ainda aos cuidados de Olga Nivïttz, onde segredos sombrios são guardados!

— Quem seria essa Olga Ni… Nivïttz? — Ficou clara a minha completa ignorância quanto aquela pessoa. — Que segredos a senhora se refere?

Todos que estava prestando atenção em nossa conversa do lado de fora da casa se entre olharam com notório espanto e crescente receio.

— Em algum momento conhecerá ela acredite em mim. — Falou o jovem sentado de frente comigo. Com os braços cruzados, olhando para o chão como se estivesse com medo de que a mãe escutará aquelas palavras no como ao lado no meio da noite.

Naquele momento, uma sensação de inquietação tomou conta de mim. Instintivamente, minhas mãos tremiam quando fui olhar meu relógio de bolso, com o emblema da cavalaria gravado. Fiquei paralisado ao ver que os ponteiros estavam imóveis, congelados. Um frio gelado percorreu minha espinha outra vez — será que o relógio havia parado exatamente agora? Isso não fazia sentido. Quando o trouxe de Paris, ele estava funcionando perfeitamente. E, enquanto me preparava, não percebi se havia algo de errado com ele.

A ansiedade apertava meu peito, e eu me vi obrigado a olhar pela janela aberta. O céu lá fora estava inalterado, a lua ainda no mesmo ponto alto que havia visto ao sair do castelo. Mas a pergunta aterrorizante começou a me atormentar: quanto tempo havia passado desde então? A sensação de confusão e a crescente angústia se entrelaçavam, como se o tempo estivesse se esticando e se deformando de uma maneira incompreensível, e eu estivesse preso em um intervalo de terror absoluto.

De Dr. Christopher V. Walker
(Carta para Anton)

De: Dr. Christopher V. Walker
Para: Anton S. Miahi
20 de junho de 1871

Caro colega, sinto não haver podido estar na sua partida de Paris. Mas graças a Marcel nosso bom amigo em comum pude saber para onde enviar meus desejos de sucesso.

Por pouco não o alcancei antes que pisasse na carruagem, mas por questões acadêmicas fiquei retino na universidade de Oxford com umas quantas palestras. E acabei atrasando minha viagem para Paris. Queria haver podido dar um abraço e entregar uns quantos livros para seu divertimento. Devo dizer que fiquei demasiadamente surpreso com o quanto nossos amigos britânicos avançaram em suas pesquisas com referência a mente, ao corpo, e alma humana.

Existe uma revolução intelectual ocorrendo e Paris se perdendo entre baioneta e pólvora. Inacreditável os efeitos que a guerra terá nos anos que viram.

Querido amigo, espero que esta carta chegue o mais rápido possível, desejo ter notícias suas. Aproveitei e junto a ela estou enviando um pacote com livros que consegui em Oxford que espero que te entretenha por algum tempo. Estarei nos arredores do Boulevard Saint-Michel no cortiço de Anne e Morgana.

Do seu estimado Dr. Christopher V. Walker! 
Anton S. Miahi V
(Anotações feitas em Séttimor — II)

24 de junho — Parece que as horas foram passando, o ar de tensão que senti ao chegar foi suavizado, porém não desapareceu. Ainda me mantenho com os sentidos em alerta, o corpo parece enrijecido, os músculos doem, sinto dormência na mão que está segurando a bainha do sabre. Apesar de sensação de tempo avançar, a lua seguia em seu firmamento, admirando do alto todo o antinatural cenário que se desvelou ao meu redor.

A Catalina, a senhora que me abriu as portas da sua casa, foi até as ervas na janela e pegou um pote pequeno de argila, com um couro de animal amarrado, tomou um tempo escolhendo alguma coisa dentro dele. Ela retira de dentro o que parecia serem casca de romã desidratada, ela devolve o invólucro ao seu lugar e caminha em direção da lareira que está acessa. A senhora retira uma haste de ferro longa que numa ponta é em formato de L que ela encaixa em duas argolas que estão uma em cima da outra, presas na pedra na borda da lareira. Enquanto na outra é um gancho quadrado, nesta ponta ela coloca uma velha chaleira que estava sobre uma mesinha e que ela havia cheio de água do balde que estava ao lado da lareira, muito bem escondido. A dona da casa faz tudo com cuidado, coloca no recipiente cheio d’água e logo o leva ao fogo.

Catalina rompe o silêncio.

— Cada um de nós “nasceu” na vila, e ao adentrar ao paradoxo, começamos nossa jornada. — Começou ela a contar com um tom professoral que Anton já conhecia bem, pois ele mesmo usava. — Aqui, estamos presos no paradoxo. Você deve entender as sete mortes que nos conduziram até este destino.

Ela fez uma pausa e seu rosto disforme parecia assumir um pesar muito incomum.

Segundo ela, cada um de deles estava condenado a passar por sete mortes, um ciclo implacável que começava no momento em que nasciam na vila. “Nosso nascimento aqui sela nosso destino,” disse ela, seus olhos vazios refletindo a luz da lareira. “Não há escapatória.”

A primeira morte, adentrar ao paradoxo, marcava nosso nascimento. Desde o início, estávamos presos, uma sensação sufocante de predestinação que nos envolvia como um manto frio. Sentíamos o paradoxo durante a infância, uma presença constante e opressiva, como sombras que espreitavam ao nosso redor. “Quando crianças, sentimos algo errado,” ela sussurrava, “uma presença constante, sufocante.”

À medida que avançávamos para a pré-adolescência, percebíamos o paradoxo de forma mais aguda. Os rostos ao nosso redor começavam a se desvanecer, a realidade se distorcia, tornando-se uma pintura borrada de horror. “Na pré-adolescência, começamos a perceber a distorção da realidade,” explicou ela. “Os rostos que se desvanecem.”

Na adolescência, as perguntas surgiam, mas nunca encontrávamos respostas. “Adolescentes, começamos a questionar o que é real,” disse ela, a voz carregada de um desespero silencioso. “Nossas perguntas nunca encontram respostas.” A cada questionamento, a escuridão ao nosso redor se aprofundava, como se a própria vila se alimentasse de nossa dúvida e confusão.

Quando chegávamos à vida adulta, a compreensão do paradoxo nos envolvia como uma teia de escuridão. “Adultos, compreendemos que estamos presos em uma teia de escuridão, nossos destinos já traçados.” A sensação de estar aprisionado se tornava insuportável, cada dia uma luta contra uma força invisível e inescapável.

Na velhice, o desejo de se entregar ao paradoxo crescia, uma rendição silenciosa e inevitável. “Na velhice, o desejo de entregar-se ao paradoxo cresce,” ela dizia com uma voz quase inaudível. “A resistência é inútil.” A resignação se infiltrava em nossos ossos, e qualquer vestígio de esperança desaparecia como um sopro na escuridão.

Um som estrondoso reverberou pelo ar, ecoando como um trovão ancestral. Os moradores, como que em um transe silencioso, começaram a olhar ao redor. O vento aumentou de intensidade, chicoteando as árvores ao redor com uma fúria repentina, enquanto luzes de cores vibrantes começavam a dançar no céu, pintando um espetáculo etéreo acima de nós. O mais surpreendente era a ausência de espanto nos rostos dos habitantes; eles apenas voltaram seus olhares para a entrada da cidade com uma calma quase reverente.

Senti uma curiosidade irresistível e saí para me juntar a eles. Ao olhar na mesma direção, notei uma névoa espessa começando a se formar do lado de fora dos portões da cidade. As runas antigas gravadas nos umbrais começaram a brilhar com uma luz azul misteriosa, emitindo faíscas como se estivessem carregadas de uma energia arcana.

A névoa se ergueu em um redemoinho, girando cada vez mais rápido, formando uma coluna luminosa. Uma luz cegante emanou do centro do vórtice, forçando-me a proteger os olhos com o braço esquerdo. O mundo ao meu redor desapareceu momentaneamente na intensidade da luminosidade.

Então, tão repentinamente quanto começou, tudo cessou. O vento acalmou, as luzes desapareceram e a energia que impregnava o ar dissipou-se, deixando apenas o eco distante do fenômeno. O que restou, em meio ao nevoeiro remanescente, foi uma silhueta. Parecia uma forma humana, imóvel, na parte interna do portão.

A névoa se dissipou lentamente, revelando uma figura enigmática. Vestia roupas rasgadas, sujas e puídas que pareciam feito de sombras, as bordas tremeluzindo com uma luz suave que lembrava estrelas distantes. Seus olhos eram escuros e fundos com um vermelho profundo.

Os moradores, como que movidos por uma força invisível, correram em direção ao novo visitante. Seus rostos mostravam uma mistura de expectativa e aceitação, como se esperassem por esse momento. A figura misteriosa permaneceu imóvel, observando tudo com uma calma serena, emanando uma presença que parecia, ao mesmo tempo, inocente e perdida.

Eu, paralisado pela cena impressionante, sentia uma mistura de ansiedade e fascínio. A cidade de Séttimor, já envolta em mistérios e segredos, revelava agora mais uma camada de seu enigma. A chegada desse ser, envolto em magia e luzes sobrenaturais, marcava o início de algo profundo e transformador, um evento que todos, mais que eles eu, sentiríamos em nossas almas.

Presenciei algo que não podia explicar, quero dizer, já não consegui quanto aos moradores que já estava vendo, agora com este novo evento me vi desprovido de argumentos, não havia nada em que eu pudesse me lastrear. Minhas pernas bambearam. Apenas cai no chão sem ter o que pensar.

Os moradores vieram em festa pelo novo membro daquele pequeno vilarejo. Aquilo era o nascimento? Era daquilo que a velha Catalina falava? Eles vinham assim para este mundo?

— Vamos jovem Anton, levante-se, hoje temos o que comemorar! — Falou a Catalina da porta de sua casa. — O novo nascido e a chegada de um estrangeiro. Hoje é um bom dia — Disse ela com uma suave e doce. Seu rosto expressou um sorriso, ou parecia ser.

Momentos, ou horas, mais tarde — Voltei para dentro da casa de Catalina e conversei com ela sobre a história da cidade e de seu tempo naquele lugar, enquanto isso observava pela janela a corrida que se fazia para preparar um grande banquete, os homens e jovens carregando madeira, os bancos de madeira, a levar algumas mesas, todos eram bem-organizados. A fogueira no centro da cidade, e para as pequenas espalhadas ao redor dessa, eles as alimentavam para que colocasse as carnes para assar. As mulheres se apressaram em levar os pedaços de carne para a praça, ervas também eram carregadas, óleos e outras coisas.

Catalina veio até mim com uma caneca de metal batido.

— Acho que ainda não comeu, é bom que pelo menos com esse chá aguentará um pouco mais até que tudo esteja pronto. — Ela me entregou a caneca com cuidado, sua presença, apesar da aparência, era acolhedora.

O chá feito de casca de romã, admito, não era meu favorito entre os tipos, mas o cheiro era agradável e parecia que ela havia agregado no preparo, mel. Sorvi um pouco do líquido quente e seu sabor era suave, refrescante e na doçura adequada. Uma coisa que notei era que o ar frio que sentia fora da cidade era muito menor dentro dela. Como se o clima fosse menos agressor aqui, no interior dos muros de Séttimor, do que fora.

Quando me dei conta, eles já tinham terminado de montar tudo. Deixei a caneca sobre a mesa e fui até a porta para observar melhor aquela festa que estava começando. Estranhamente, o tempo neste lugar era algo estranho, eu não sentia sua passagem, e para ser sincero, desde que cheguei no Castelo isso não me incomodava de verdade. Agora que penso dormir, não dormir, parecia não dar diferença.

Eles tinham tambores e tamborins, alguns carregavam instrumentos de cordas. Um começou a tocar o com as mãos nuas. As batidas dos tambores ressoavam no ar com uma força hipnotizante, cada golpe profundo e reverberante ecoando como o coração pulsante da terra. Os ritmos, inicialmente lentos e graves, criavam uma tensão quase palpável, como se o próprio ar estivesse carregado de eletricidade. Era algo que eu nunca escutei, não eram as músicas dos bailes, era algo mais primitivo, selvagem.

A cada batida sentia o coração pulsar, então notei que alguns pareciam se submeter as batidas a melodia. Começavam a se reunir ao redor da fogueira principal, as jovens almas ali presentes moviam seus corpos com suavidade, delicadeza e sensualidade. Cada mover dos quadris, a ondulação era um poema de elegância e sensualidade, fluindo suavemente como um rio que conhece bem seu curso. Com um sutil balançar, elas evocavam a cadência de uma melodia antiga, um ritmo que falava de mistérios e histórias esquecidas.

Os quadris das dançarinas eram a expressão máxima de seu controle e liberdade. Suas mãos no alto com movimentos sutis, delicados reverenciando os céus. Um convite ao desejo, ao sonho. O mergulhar na loucura. Em cada movimento, havia uma mensagem silenciosa de confiança e poder, uma demonstração de que a beleza reside nos detalhes e na capacidade de contar uma história sem palavras. E assim, com cada balanço e ondulação, ela cativava e encantava, transformando a dança em uma experiência verdadeiramente mágica.

Os dançarinos homens avançavam com passos firmes e decididos, emanando uma energia viril que preenchia o espaço ao seu redor. Seus movimentos eram poderosos e precisos, cada gesto carregado de força e propósito, como se estivessem desenhando a história de seu povo no ar.

Os pés batiam no chão com uma cadência rítmica, ecoando como tambores de guerra. Os corpos musculosos se arqueavam e giravam com uma agilidade impressionante, combinando resistência física com uma elegância rústica. As pernas, fortes e bem treinadas, marcavam o ritmo com uma precisão quase militar, transmitindo uma sensação de disciplina e coragem.

À medida que os tambores aceleravam, suas batidas transformavam-se em uma cascata de som, cada toque provocando um arrepio na pele. Era uma música que não apenas se ouvia, mas se sentia, reverberando nas profundezas do corpo e da alma. Cada batida era como um feitiço lançado, evocando imagens ancestrais e rituais sagrados sob um céu estrelado.

O som dos tambores parecia invocar espíritos antigos, suas vibrações impregnadas de uma magia antiga e poderosa. Havia algo de sedutor na maneira como os ritmos se entrelaçavam, um convite irresistível para se perder no mistério e na paixão da música. As batidas fortes eram como sussurros carregados de segredos, prometendo revelações ao mesmo tempo, tentadoras e assustadoras.

Nesse momento me vi sendo atraído para dentro daquela dança, eu senti ela me chamar, uma voz na escuridão, insistente e incansável. Algo familiar em minha mente.

E então, uma voz de barítono se ergueu acima do ritmo, recitando uma poesia encantadora na melodia que estava sendo tocada, fazendo uma harmonia sombria.

Do mais profundo emergiu, das trevas,
Uma melodia entoada com requinte,
Jamais ouvindo algum escutou algo tão grandioso,
Um delicado convite, um encanto irresistível. 

A composição envolvia, tão sedutora,
Ansiava por ela, com fervor, mergulhar na sandice,
Do longínquo, uma voz ressoava,
Epopeia dos perdidos a me seduzir. 

Contorcia-se como serpente encantada,
Atraindo-me como um sortilégio sutil,
No compasso dos seus pés, passos enganosos,
Tal qual fogo-fátuo sobre o campo febril. 

Nos alcançava os ouvidos, sinistro e encantado,
Essa enigmática melodia, vida do etéreo,
E assim, imerso em seu mistério profundo,
Para além da vastidão do oculto, em Séttimor o silêncio tumular.

Eu estava completamente imerso em uma experiência sensorial, cada batida da música ressoando em meu peito com uma intensidade quase palpável. As letras penetravam tão fundo na minha alma, rompendo as barreiras e despertando emoções que eu nem sabia que poderiam existir. A música era uma tempestade arrebatadora, e eu me deixava levar por cada acorde, cada nota vibrante.

Então, alguém me entregou uma caneca de cerveja. Seu aspecto era inusitado, quase misterioso, e um aroma robusto e cativante logo se espalhou pelo ar. O cheiro era uma promessa sedutora: malte torrado com profundidade de café fresco e um toque de caramelo queimado. Era como se a cerveja estivesse murmurando segredos antigos, convidando-me a explorar seus encantos.

Ao tocar os lábios, a textura da cerveja preta se revelou um deleite. A espuma, espessa e da cor de um café encorpado, derretia lentamente em uma sensação macia e aveludada. Era como ser acariciado por uma nuvem de creme, a suavidade envolvente proporcionando um contraste delicioso com a intensidade da música que ainda pulsava em meu coração.

E então veio o sabor, uma explosão de complexidade que me envolveu completamente. As notas iniciais de malte torrado se desdobravam no paladar, revelando ricos sabores de café expresso e cacau amargo, cada gole era uma viagem profunda e prazerosa. O caramelo surgia para suavizar o amargor, criando um equilíbrio perfeito, enquanto nuances de baunilha e toffee acrescentavam uma doçura sofisticada e uma profundidade sedutora. Cada gole era uma descoberta, uma mistura mágica de sabores que dançavam na minha boca, prolongando o prazer e deixando um final caloroso e envolvente.

A combinação daquela música intensa e a cerveja preta, com sua textura aveludada e sabor multifacetado, era um convite ao prazer absoluto. Eu estava completamente cativado, mergulhado em uma experiência sensorial que tocava todos os sentidos e me deixava ansioso pelo próximo gole, pelo próximo acorde, pela próxima emoção que me esperava.

Ali estava eu seguindo o ritmo, acompanhando os homens, dançando com eles. Sim, me vi eufórico, dançando como um adolescente. Sorrindo e saltando, acompanhando os homens ao redor da fogueira.

Meus olhos pareciam estar falhando, ou era a desidratação de tanto dançar com o povo da vila, ou a cerveja que já me tomava por completo, mas vi a sombra de outra pessoa emergir do nada. No entanto, não parecia ser um morador de Séttimor, parecia um espírito invocado por aquela música. Sim, miragens, tinha que ser. Uma volta mais ao redor da fogueira e então a silhueta de uma mulher se formou atrás das pessoas. Parei de dançar por um instante, e passei a observar melhor aquela sombra que gradualmente foi ganhando detalhes.

Ela parecia não estar ali, ninguém mais a estava vendo? Ou será que não estavam dando atenção? Será que todos já beberam demais?

Seu rosto lentamente revelava uma pele morena agraciada pela noite, lábios carnudos e charmosos, olhos delineados, um nariz pequeno e belo. Seus cabelos eram longos e escuros, ondulados da raiz até onde eu podia ver. Não parecia ser alta, aparentava ser esguia e suas roupas não eram como a dos locais e menos ainda dos romenos ou francês, o que me indicava que ela vinha de um lugar que desconhecia. Ela começa a se mover, ao que parecia ela ouvia a música que estava sendo tocada. Mas, ela em si parecia uma miragem, sua imagem ondulava.

Os movimentos dela eram, ao mesmo tempo, delicados e vigorosos, uma combinação de força e sutileza que fascinava o olhar. Quando ela girava os quadris, era como se o mundo ao seu redor desacelerasse, fixando toda a atenção na harmonia dos seus gestos. A cada passo, uma promessa; a cada giro, um segredo revelado.

Suas mãos se moviam com uma fluidez quase etérea, traçando padrões invisíveis no ar que pareciam desafiar as leis naturais. Seu corpo, livre das amarras do mundo material, dançava como se flutuasse sobre as ondas da música que preenchia o ambiente.

Em um instante, pude vê-la em toda a sua magnificência. Vestia uma saia leve que cobria seus ombros. Ela balançava com cada movimento, pendendo até pouco abaixo dos joelhos, revelando um jogo de luz e sombra sobre sua pele. Braceletes de metal adornavam seus braços, cintilando a cada gesto com uma aura de mistério e magia. Seus pés estavam calçados com sandálias finas, que acariciavam o chão em passos suaves e ritmados.

A dança tribal que ela executava era um espetáculo de graça e destreza. Seus movimentos eram uma fusão hipnótica de ondulações e giros, cada curva e contorção um testemunho de um domínio profundo sobre seu corpo e a música. Com cada balanço dos quadris e cada rotação sutil, ela exibia uma feminilidade e uma jovialidade que parecia transcender o tempo e o espaço.

Enquanto a música inundava o ambiente com suas notas pulsantes, ela se destacava como uma visão encantada em meio aos habitantes de Séttimor. A dança a envolvia em um manto de brilho etéreo, mas a presença dos moradores muitas vezes atravessava sua imagem, deixando-a momentaneamente desfocada, como um sonho fugaz.

Eu a observava hipnotizado, imerso na magia da melodia e na intensidade de seus movimentos. Ela parecia uma entidade de outro mundo, suas danças evocando um mistério profundo e sedutor que me mantinha cativo. A cada passo, a cada gesto, ela me arrastava mais fundo na espiral de sua dança encantadora, enquanto o som da música envolvia cada canto da cidade, criando um ambiente onde a realidade e o sonho se entrelaçavam em perfeita harmonia.

Um estrondoso som foi escutado, a melodia cessou, todos pararam para observar atentamente ao redor. Nuvens negras se formaram no alto das montanhas, relâmpagos desabaram sobre a terra, linhas luminosas corriam os céus.

Então me dei conta de que fiquei em Séttimor por tempo demais. Eu precisava voltar o baile do conde. Mas sendo sincero, quanto tempo fiquei aqui nessa cidade? Já não sei dizer se foram realmente horas. Comecei a andar em direção do portão da cidade até que alguém segurou meu braço.

— Melhor o senhor não sair agora. A floresta entre o castelo e nosso povoado oculta segredos mortais. E o senhor como visitante pode acabar sendo uma triste vítima. — Era o jovem que veio falar comigo quando cheguei. Sua expressão é de terror. Ele, ou eles, sabiam de algo.

— Quem é você?  Do que está falando? — Questionei ele com uma cara de poucos amigos.

— Aqui me chamaram de Ioan. Estou na minha quinta morte, senhor Anton, eu não cheguei aqui ontem. — Sua voz era firme e severa, mas transmitia segurança. — Confie em mim.

Não podia evitar aceitar seu pedido. Inesperadamente um som alto que começou de maneira grave e foi ficando agudo surgiu. A princípio era como o sopro do vento em meio uma tempestade, mas esse era diferente, foi quando me dei conta que era um uivo de lobo. De apenas um viraram dez em tons diferentes. Olhei para o Ioan, então percebi que não era um aviso e um pedido tolo.

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Com Amor Infinito, Nauärah

Às margens de um rio próximo à sua aldeia, Nauärah brinca com uma coroa de flores ao redor da sua cabeça, quando seu pequeno amigo Tupiará se aproxima…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Anos Antes...

Às margens de um rio próximo à sua aldeia, Nauärah brinca com uma coroa de flores ao redor da sua cabeça, quando seu pequeno amigo Tupiará se aproxima.

— Nauärah, você está parecendo uma noiva com essa coroa de flores coloridas. 

— Tupiará, você me seguiu? Volte para a sua aldeia já, pequenino!

— Só se você prometer que eu serei o seu pajem!

— Para você ser o meu pajem, eu preciso me casar, e essa coroa de flores precisa ser branca.

— Então, faça outra coroa e se case. — Tupiará sorri de maneira inocente.

— Não é assim tão rápido, pequeno. — Nauärah sorri.

— Então, eu te ajudo a fazer a coroa de flores e você entra com os passos bem devagar para o casamento ser demorado.

Nauärah gargalha e toca o rosto do petiz.

— Não ria de mim, Nauärah, isso não é justo! Sempre foi meu sonho entrar levando alianças, flores e óleo ungido em um casamento. Um dia eu quero ser o seu pajem!

— Ó, pequeno deusinho, sente aqui mais perto. Para eu me casar, preciso completar dezoito anos. Eu acabei de fazer dezessete. Além do mais, eu preciso amar alguém de verdade, bem forte, aqui dentro. — Nauärah brinca de apertar as mãozinhas fechadas de Tupiará próximo ao seu peito. 

— Vai demorar muito pra você amar alguém bem forte aí dentro e fazer dezoito anos?

Nauärah sorri da inocência de Tupiará.

—  Bem, para os meus dezoito anos ainda falta um ano, deusinho, que são trezentos e sessenta e cinco dias inteiros com a noite junto, entendeu? Sobre amar alguém bem forte aqui dentro e me casar, não sei quando será, meu pequenino. Mas eu te prometo que no dia em que eu me casar, você será o meu pajem! É uma promessa...! Você está ouvindo?

Eles sorriem à beira do rio e a voz da promessa de Nauärah ecoa nos ouvidos de ambos.

Semanas depois...

— Nauärah, o que houve? Você não sai da sua aldeia há muito tempo... — Tupiará adentra o seu quarto, correndo.

— Retire-se, Tupiará. Você é muito pequeno para compreender o que eu estou sentindo agora. 

— Mas... eu ainda vou ser seu pajem um dia?

— Eu não sei, Tupiará... eu realmente não sei... Não é que eu não queira que você seja meu pajem, mas a promessa só vale se eu realmente me casar, e o fato é que não sei se quero mais me casar algum dia. É melhor você sair do meu quarto agora. Não gostaria de ver ninguém por enquanto.

— Você não conseguiu nenhum noivo, por isso está triste e não quer mais se casar, não é? Mas você é tão linda! Como não apareceu um noivo?

— Só você para arrancar um pouquinho do meu sorriso, mas não é por isso. Eu apenas não quero mais. É melhor você sair agora, pequeno. Obrigada por vir me visitar, mas eu estou em um estado que você não pode compreender. Estou suja e não quero te contaminar. É uma sujeira que você não pode ver. 

— Você não está suja. Você está cheirosa. Eu não consigo ver sujeira nenhuma!

— Um dia você entenderá, pequenino... Por agora, saia.

Nanquim observa Tupiará saindo triste do quarto de Nauärah e retornando à sua aldeia. Ele nota que ela está agora sozinha e planeja confortá-la ainda mais. Ele entra no quarto dela lentamente e senta-se na cama, tocando suavemente seus pés cobertos.

— Como você está, minha Veracruz?

— Eu não sou mais a sua Veracruz. Nem de nenhum homem. Guarde a veracruz para a Ayärah, que acabou de nascer.

— Você sempre será a minha Veracruz. Isso nunca mudará! A veracruz é única, individual, intransferível! Vim saber como você está se sentindo agora.

— Suja, imunda, impura, desonrada. 

Nanquim fecha os olhos e põe as mãos na fronte. Respira fundo, de cabeça baixa. Depois a olha nos olhos.

— Minha filha, por favor, não se veja assim, nem se trate dessa forma. 

— Mas eu não sou mais pura, pai...

— Não diga mais isso. É claro que você é!

— Como? Quem vai querer se casar comigo agora? Quem? Só se for algum urbano da cidade, sem nossos preceitos. Eu prometi tanto a Tupiará que ele seria o meu pajem...!

— E ele será o seu pajem! Se você casar com um indígena ou um urbano. Mas se você não quiser se casar um dia, não a obrigarei, nem sua mãe, nem ninguém. Talvez seja até melhor assim, tendo você sempre conosco na aldeia. Não precisarei entregar a minha Veracruz a ninguém. Eu sinto muito, muito mesmo, minha filha. Você não pode imaginar o quanto me culpo por não estar ao seu lado naquele momento cruel. Eu o teria matado, se ele não tivesse morrido.

— Eu também sinto muito, pai, por ser impotente. Eu queria tanto lhe dar a honra de me casar um dia... Mas agora o matrimônio parece mais distante... quase impossível, e eu não consigo mais. Perdi minha honra da pior maneira possível. Como poderei confiar em alguém ou me aproximar de um rapaz sem lembrar de tudo? Não... Não consigo... Também não quero mais falar sobre isso. Me dói o tempo todo.

— Não precisa dizer mais nada... Mesmo com o nascimento dos seus irmãos gêmeos, não sairei do seu lado um só instante daqui para frente. Eu deveria ter lhe entregado esse amuleto ainda na infância. — Nanquim mostra um amuleto com o cristal chamado "Ágata de Fogo". — Quero que coloque isso no seu pescoço. Ele que lhe dará força e proteção. Está consagrado pela sua avó e programado com palavras de sua mãe. Qualquer um que tentar contra você, será lançado ao mal no mesmo momento.

As palavras de Nanquim soam como um decreto à luz da lua cheia, que acabara de apontar no céu de um início de noite.

Dias atuais...

Querida aldeia,

Espero que esta carta vos encontre bem. Escrevo a vocês e gostaria que esta primeira carta vocês lessem com boa dicção para os outros líderes, para os meus pais e o restante da aldeia que me viu partir.

Aqui é tudo diferente. Há outra cultura. As pessoas se vestem como se fosse um inverno eterno, apesar de vocês sempre me educarem a preservar também o meu corpo. Eu não tiro a minha capa um só instante, nem mesmo para dormir. Aqui é frio o tempo todo.

Neste lugar também tem magia, percebo pelo próprio Castelo Drácula. Mas acredito que a magia natural da terra cuja qual eu conheço, pode servir como proteção e aprendizado.

Quero comunicar também que eu fui bem recebida. A anfitriã Olga Niviitiz me recebeu com educação e respeito. Por outro lado, há figuras masculinas por perto e o meu coração anda temeroso por isso, vocês podem imaginar. Os homens daqui são diferentes de vocês. Eu ainda estou temerosa, assim como estava ao deixar a aldeia.

Falando em homens, eu avistei um bem próximo, mas ele não me dirigiu a palavra nem ousou se aproximar. Deve ser um residente como eu. Mas prometo que irei me cuidar. Também prometo que não apontarei a minha flecha para ninguém...! Vocês me ensinaram a não agir mais com violência e a usar a força apenas quando necessário e para o bem, ou pensam que não sou boa no kyuudoo?

Papai, não me julgue nem fique preocupado comigo. Eu sei que exceto por conúbio, o senhor não gostaria que eu saísse do meu lugar, nem deixasse a proteção do teu abraço, especialmente despois de tudo o que aconteceu comigo, e ainda mais sozinha. Também sei que, ao partir naquela grande embarcação, você jurou a Tupã e prometeu aparecer aqui neste castelo quando eu menos esperasse, mas por favor, tenha calma! Depois explicarei por que não podes fazer isso ainda. Mas ainda tenho esperança de que quebres o teu orgulho, de uma forma que possas adentrar as portas do Castelo onde estou hospedada para me visitar sem mágoas nem bravura. Aqui é diferente, mas não se assuste, estou bem e os meus estudos sobre esse lugar têm sido produtivos. A sua Veracruz está bem protegida aqui, eu garanto, pai. Amo muito você.

Mãezinha, as suas rezas e toques por todo o meu corpo surtem efeito até o momento. Ainda ouço a música ritualística que cantavas, ao me lembrar do seu ritual de proteção. Me sinto abençoada por isso. Ainda sinto o afago das tuas mãozinhas cuidadosas percorrerem toda a minha pele com a tinta tão rubra e milagrosa. Eu estou com tanta saudade do teu abraço e do teu carinho de mãe. O amuleto que me protege continua pendurado em meu pescoço, não se preocupe. Eu te amo muito também.

Ayurä e Ayärah, eu espero que vocês tenham parado de brigar. Tupã está triste e o céu chora, encharcando o barro de lágrimas, quando vocês se desentendem. Brigas não fazem parte da nossa cultura, meus irmãos. Conflitos podem surgir, mas vocês dois precisam se consagrar mais e se reconciliarem. Estão esquecendo dos ensinamentos xamânicos? Criança indígena não briga. Vocês estão permitindo que a violência da cidade adentre os vossos corações, meus pequenos? Amem-se um ao outro porque eu também amo vocês.

Vozinha, eu não vou me esquecer do que a senhora disse. Tentarei encontrar por aqui as folhas medicinais que mencionou. Mas este lugar é tão sombrio e mágico ao mesmo tempo... Não sei quando retornarei, por isso não guardo as plantas. Se eu encontrar alguma planta medicinal, utilizarei. Meus cabelos estão com uma textura péssima, vó. Como o carinho das tuas mãos fazem falta para os meus fios...

Bom, no mais, eu estou bem. Estou cuidando do meu corpo, pois não esqueci que ele é um templo. Estou me alimentando bem também, embora a alimentação aqui neste lugar seja bastante diferente e menos saudável, exceto no Castelo. E digam a Tupiará que um dia... ele será o meu pajem, não importa a idade.

Cuidado com as onças e sucuris da região. Não estou aí para lançar flechas como ninguém, caso se aproximem. 

Escrevam-me. Gostaria de receber notícias de vocês. Que Tupã vos guarde.

Com Amor Infinito...,

Nauärah Tupiniquim.

Personagens neste capítulo:

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Sete Maneiras de ir para Setealém — Parte 02 

Se você não leu a primeira parte das sete maneiras de ir para Setealém, “volte uma casa” e leia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Se você não leu a primeira parte das sete maneiras de ir para Setealém, “volte uma casa” e leia.

Apesar de ser um manual que soa divertido, ele é assustador e não perde a força real que há na energia desse lugar, então, lembre-se de deixar alguém avisado sobre as suas experiências ou até ter alguma pessoa por perto. Tentar ir para Setrealém estando sozinho pode ser perturbador.

Vamos ver outras sete maneiras de ir para Setealém:

08.  Através de Um Ônibus

Essa é a maneira mais comum e conhecida de se chegar em Setealém. Conta-se por aí que ao andarmos pela rua e avistarmos um ônibus, devemos perguntar para onde ele vai. É óbvio que o(a) motorista dirá que é para algum lugar que você conhece, aqui deste mundo. Mas, a depender da sua intenção, se você fizer isso, a resposta pode ser "Para Setealém", e se você subir nesse ônibus, já sabe onde vai parar. Há outro viés da história que diz que ao entrar em qualquer ônibus e alguém dentro dele disser para você descer, significa que ele irá para Setealém. Cabe a você querer ficar dentro do ônibus e não arredar o pé dali ou descer imediatamente.

Se você for aficionado(a) por esse lugar assim como eu sou, você pode dizer em voz alta que deseja ir para Setealém. É óbvio que as pessoas vão te olhar ou você vai encontrar passageiros que queiram fazer o mesmo. Caso sinta vergonha de fazer isso, diga apenas em pensamento. Vale a pena tentar. Mas se você perceber o ônibus sendo conduzido por outro caminho estranho e escuro, você já sabe para onde ele está indo. E nessa hora, não dará para desistir no meio do caminho.

09.  Através de um Ritual

Essa é uma das maneiras mais perigosas de ir para Setealém. Rituais envolvem muitas coisas: energias, objetos, ambientes. A depender do ritual que você estiver fazendo, o seu estado de concentração para acessar aquela energia lhe conduzirá a Setealém. Ou, até mesmo, um ritual que lhe conduza especificamente para lá. Eu não aconselho ser dessa maneira. É perigoso e atrai muitas energias não tão suaves.

10.  Através de Elevadores

Elevadores são misteriosos e muito surreais. Ao mesmo tempo que modernos e divertidos, contam histórias terríveis que já aconteceram ali. Para ir para Setealém através de um elevador é simples: entrar nele, apertar o botão do último andar e fechar os olhos até ele parar, é suficiente para você chegar nesse mundo. Mas cuidado. O risco de o elevador dar um probleminha de funcionamento é grande.

11.  Através de Escadas

Essa maneira de ir para Setealém é assustadora. Pois quando você começa a subir ou descer as escadas na intenção de chegar em Setealém, elas parecem não ter fim. Escolher ir para Setealém de escadas é entrar em uma espécie de looping que pode durar minutos eternos. Isso porque as escadas começam a ficar infinitas e o seu trajeto por elas parece não ter fim. Mas somente assim para conseguir acessar o lugar. Então lembre-se deste detalhe: quanto mais você subir as escadas, mais demorado vai ser para você chegar em Setealém, mas será rápido você voltar, e quanto mais você descer as escadas, mais rápido vai chegar em Setealém, porém mais demorado vai ser para você retornar. Cuidado com essa escolha.

12.  Através de Banheiras

Ir para Setealém após entrar em uma banheira é muito comum e causa muito medo. Até porque em banheiras já aconteceram muitos acidentes, inclusive, mortes. Então, é uma maneira muito sombria, mas você pode conseguir acessar esse mundo quase submerso em uma delas. Só é necessário ter cuidado para não ficar em um estado inerte demais e sofrer algum desmaio, resultando em afogamento. Por isso, a necessidade de deixar alguém próximo a você nesse momento é obrigatória, para que a pessoa te puxe para fora imediatamente, caso haja algum “problema técnico”. Mas cuidado: no desespero, pode ser que o visitante de Setealém acabe puxando a pessoa para dentro da banheira. Bem, eu prefiro não imaginar a confusão.

13. Através do Banho

Outra maneira parecida com a banheira é através do banho. Mas acontece de maneira diferente. No banheiro sabemos o quão fácil é as pessoas chorarem e se sentirem mal, por isso, a aura que ronda na parte do chuveiro é sombria. Ao tomar um banho, a depender do seu estado de relaxamento ou de sentimento, você pode acessar o mundo de Setealém por alguns instantes. É como se você estivesse lá e tudo ao seu redor fosse o ambiente setealemiano. Antes você precisa fechar os olhos enquanto a água cai pelo seu corpo, e logo você vai se sentir no lugar. O problema é o desperdício de água. Cuidado com isso.

14. Através do Pensamento

Sabemos que o que pensamos, atraímos. Pois é o pensamento que cria a vibração de determinada coisa que está rondando a nossa mente, resultando, assim, na criação daquilo. É um processo que faz parte da cocriação. Se concentre, então, se imagine saindo desta órbita e adentrando Setealém, calmamente. E vai se sentir lá, de fato. É a maneira mais simples e mais segura, pois você vai acessar o lugar, estando onde está, apenas através da sua imaginação. Mas cuidado com o seu pensamento, ele pode te levar para Setealém, de fato, e você nunca mais voltar.

Estou apenas brincando. Ou será que não estou?

Lembre-se: Setealém não é brincadeira. Se você brincar com esse lugar, ele também vai brincar com você.

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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