Filha da Noite
Sob o luar, ela vaga em beleza sombria, | Enquanto a lua sangra em melancolia. | A noite envolve, com véu de tormento, | Versos em tumbas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sob o luar, ela vaga em beleza sombria,
Enquanto a lua sangra em melancolia.
A noite envolve, com véu de tormento,
Versos em tumbas, sussurros ao vento.
Olhos gélidos, abismos profundos,
Rogam ao mal, senhor dos mundos.
Das sombras surgem garras vorazes,
Que a prendem nas trevas, em laços tenazes.
Pelas brumas da mente, perdida, caiu,
No abraço da noite, o destino a seguiu.
Agora, eternamente, em morbidez,
Ela reina no ventre do submundo!
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Vermelho
No sangue velado, | Em uma taça deixado. | Para os olhos a cor um deleite, | O espinho que perfura a pele| Encontra o sangue com requinte,…
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No sangue velado,
Em uma taça deixado.
Para os olhos a cor um deleite,
O espinho que perfura a pele
Encontra o sangue com requinte,
A rosa assim suga seu escarlate.
E o pulsar do coração se, enfim, se
[abate.
O que era rubro se torna acinzentado,
Pálido.
Pálido.
Pálido.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Ladrinha de Retrato
Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia!…
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Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia! Morria de medo do altar, e ria à virgem, medonha, sempre em vigília no canto do corredor. Morria de medo de alma, corria do escuro à cama e cobria-se de lençol. Lascivo horror...
“Menina travessa, menina ruim!”
Quebrara outra louça de herança... e como lhe odiaria sua avó! Se ao menos conhecesse...
Fervilha a noite, mexe com ela o demônio da indignação... Cansada de ser menina velha, cansada de ser trapo. Miserável e, ainda assim, vestida em tecido de qualidade, pendurada, todo dia, num urso pardo. De pano, é claro!
— Não quero, não, senhor. Tenho medo de ir pro inferno — E deságua a cachoeira, volta de sapato sujo, vestidinho ensopado. Crueldade com a empregada, “menina ruim, criatura da minha raiva.”
Vigia, vigia a janela, Emilinha, que é pra nenhum bicho entrar; vêm lhe buscar, vêm comer os vestidos e rasgar as novelas. Vêm-te punir, pois tu és melindrosa! Vêm buscar-te a alma.
E corria, outra vez, pra debaixo do lençol.
“É a última vez que roubo retrato! É a última, senhor!”
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Asas nos pés da fugitiva
Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus!…
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“Se opuseram, senhora.”
Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus! “Era tão jovem… era tão belo…” Retirou do armário quatro ou cinco frascos da valeriana, dois de olíbano e um da mais búlgara rosa. Lavandas, folhas em branco, água de laranjeira; velas que, segundo bisbilhoteiros transeuntes, eram feitas de gordura humana e ambarada. Mais livros que roupa, arames no fecho das bolsas, estatuetas de Héstia; colares de rubi; três ou quatro casacos.
“Basta!”
Tudo tinha. E nada deixava a ser encontrado. “Dê tudo às meninas do cais, distribua entre suas amigas. Fique com o que quiser, também.” ternamente, agradecia-a com olhos e pulseiras de brilhante que, àquela altura, já não lhe traziam serventia. Partia, rumo à terra dos exilados. “Bruxa maldosa”, “fera fugida do submundo”, a “eterna mal-amada”, repetiam. Esperavam-na na praça, os vendedores e as costureiras, políticos e patrícias, todos para assistir ao rolar daquela cabeça, toda feita da ventania. E tanto queriam ver, num sopapo de lâmina, o cabelo voar… quão deliciosamente odiavam… e seguiam, a praguejar.
“Sem direito a defesa, por escolha do conselho.” Queriam a cabeça, o pescoço e toda a honra que um dia tivera. “Maldita seja!” gritava um ou outro, e muitos eram os nomes que recebia. Pouco se importava que falassem os amigos da família, as mulheres que sempre tivera de cumprimentar, o marido de sabe-se lá quem... Bem sabia que o conselho era pago para pensar. “Não há oráculo, não tem sabedoria nesses velhos, que raio de substância compõe este conselho, afinal?!”
“É a ordem, querida. É como funciona a vida.”
Na escrivaninha, o fumo que não terminaria, cartas que não seriam entregues e a procuração, em horrendo estrelismo ao centro da mesa. “A quem tentam enganar?... Com que balança pesam a escolha da vida e da morte? Como conseguem enfiar o peso de oitocentos cavalos numa decisão?... Sem direito à defesa. Como bicho.” e certo é que bicho se sentia. Rangia os dentes e dizia-se — fitando no espelho o amargo dos olhos — que seria sua, a vida. Não mais de um homem! Não mais do amor. Seria sua!
— Dois soldados passaram na rua da frente… mais trinta ou quarenta minutos até que passem novamente.
E aprontava, a si e às malas. “Não precisaria fugir se não o tivesse matado… não o mataria se não tivesse tentado matar-me primeiro.” E seguia, desnaturada. Caminhante vulcão, deserdada por Hera, terrivelmente distanciada de tudo aquilo que era. De tudo que existia até o último mês.
Dizia a carta que claras são as leis. A envenenadora deveria vir a público e enfrentar o peso da justiça. Matara Mateo, afinal! Como justificaria a crueldade infeliz de assassinar o único filho do procurador? Como explicaria à pobre mãe o porquê de impor, a seu doce menino, tamanha dor? Vomitara parte das vísceras, eles sabem. Ah, amargo cianeto… alega a menina que ouviu, somente, o conselho de uma bruxa mesopotâmica que passava. “A tudo se dá, a todos escuta!”, dizia o procurador ao investigador principal.
Mais falaria se soubesse, mais falaria, se conhecesse, à peça. Cantava com lamúria profunda, “voz de enterro”, repetiam os vizinhos; chamava a chuva sempre que queria empatar o andar da cidade e nunca, nunca abaixava a cabeça aos generais que passavam. Agora, condenada… Condenada! Mas não havia de dar o gosto àqueles que criaram um monstro, alimentado com ambrosia e endossado sua desonestidade. Não havia de render espetáculo à deglutição funesta dessa gente ruim.
— Queime esta porcaria de procuração… diga a mamãe que eu parti.
— E se perguntar-me para onde?
— Conte o que sabe.
— Mas, Isolda, eu não sei para onde está indo!
— Exatamente, querida! Conte o que sabe.
Fugiria, viveria na Itália, escondendo-se num convento e fingindo rezar. Abençoaria, noite e dia, a vida que fica; soterrando com terra de jardim o amargo daquelas feridas. Vingaria a primavera daquela pele febril. “Dane-se Saturnália! Danem-se os parentes daquele mesquinho, dane-se a vida que tive na Grécia! Não existe mais Grécia para mim… perdoe-me, Athena, por não ser como as boas… Por não enfrentar a morte… perdoe-me…”
E num levantar de folhas, as árvores contavam — em pleno silêncio — que honra alguma há em sacrificar-se. Matara para viver, e viveria.
A tempestade rugia, feroz, em tortuosa melodia, lembrando-a, a todo instante, do sino e do lodo das rochas; fervia o leite e temperava de especiaria. Eruptiva garganta, estômago inflamado… morta por dentro, morta para esta terra e morta para eles; tão longe de ser compreendida… “apressa-te, menina, ou vai perder o barco!”
Bebia, hora ou outra, do frasco de lavanda francesa, fugindo do ópio dos ingleses. A tormenta vinha mansa, maldosa, no seio do sono. Inquieta passagem de estrelas, estranho burburinho dos viajantes que seguiam, tão pouco interessantes. Paralisava-se no remoer constante das raladuras de sua alma, outrora luminosa. Outrora feliz. E, por segundos, congelava em divagação, tornando por interrupção, “uma água, madame?”
Como doía a vida… quão ingrato era o amante que achara de ter… Velha prosa em desmantelo… torrente aguda que insistia em desaguar — queria não ter memória, e queria limpar-se daquele homem maldito, e, por horas, queria não mais ser gente... E sorria, em busca de confundir o enfado, no rumo da doce Itália. “Talvez uma fuga ou outra, talvez uma tarde na cidade...”
Manhãs em prosa com os panos de chão, túnicas a remendar, baldes cheirosos… comida quente; sabor algum, exceto nas noites de vinho — pouco e às escondidas —. E o pão… “deixa passar, Amália, deixa passar.” — Mais ainda fermentava. Comíamos, e quão bom era o estrago; deitar à luz do luar, procurando constelação e zombando das idiotices do passado. Todo mundo tinha história, todo mundo tinha alguma vergonha a contar. Morríamos de rir das de quedas, mais ainda das brigas por meninos e das tias, com seus romances clérigos. E a conversa sempre findava num quarto escuro, sob a sombra de um pai desprotetor, ou de um irmão malvado. E de tanto remendar os panos, aprendia a remendar a si e às outras, tão quanto, feridas.
“Paciência com o amargo das mais velhas… nunca se sabe o porquê de estarem aqui.” “Tantas não chegam pela fé, mas em fuga, dos outros ou de si.”
E perdoava a grosseria, a bronca, a piadela. Perdoava o que se podia perdoar. E dentre elas, a irmã Zélia, bruxa oculta e curandeira, a quem sempre recorria quando precisava chorar. “Reze em mim, irmã… mas reze com folha e flor…” e ela rezava. Amornava a água que, por dentro, fervia e espantava os miasmas com palavras d’outro lugar. “E que tua mãe te abençoe”, dizia a voz, de fumo e camélia.
E no descarrilho da noite, atormentava-lhe o fel da alma. “Por quanto tempo fingirá ser freira neste convento? Como viverá sem liberdade?” Perguntava-lhe a sombra esgueirosa que em toda parte se fazia presença — a voz do desprezo, entoada das cavernas de dentro. “Ao contrário.” respondia-lhe. E sabia, viveria Athena e o lago, viveria Artemis, as ninfas e os sátiros no véu de cada madrugada. “Aquosas são as formas da liberdade.”, repetia, e muito acreditava. Ficaria o tempo que precisasse. Pouco seria.
O tempo engolia, à farta colherada, a dor daquela que encontrou no amor a inominável deslealdade. A face que não se mostra; o avesso monstruoso. Pouca gente sabia que trazia, Mateo, feridas de lepra em seu caráter, e tão bem fingia que era bom... Tão bem forjava o amor… risonho, juvenil… carne macia e preenchida da vaidade mais vazia. Seguia, ela, lavando os panos. Mãozinhas embebidas de toda a culpa que não era sua. “deixa lavar, deixe que a água leve embora esse sofrer…” — E não mais questionava o curso dos rios. Não chorava pecado algum, e grande esforço fazia para não perder um único acordar daquele céu, de alaranjada explosão — algodão a abafar a melodia chorosa das iniquidades e da miséria escondida, num pequeno bolso de sua mala.
Acostumou-se às pedras — à memória, ao fantasma —. Embriagava-se de valeriana e plantava lavandas no canteiro lateral. O doce rapaz apodrecia, numa cova de família. Reinavam as flores, no solo acima, com beleza magistral.
Na Grécia, procuravam por Isolda. Na Itália, Leonora escrevia versos e cantava, com o ar que persistia nos pulmões. Cantava, para espantar toda maldade que, um dia, cruzou a estrada. Louvava à sorte, à ventania e ao coração.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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16. Com amor eterno, Hadassa
Muitas vezes o amor parece um abraço aconchegante, outras vezes, um peso que não conseguimos soltar, nosso amor foi tudo isso e mais, uma chama…
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Querida Rute,
Muitas vezes o amor parece um abraço aconchegante, outras vezes, um peso que não conseguimos soltar, nosso amor foi tudo isso e mais, uma chama que queimava intensamente, mas que também deixava cinzas em seu rastro. Você me deu tudo de si, até mesmo o que eu nunca tive coragem de pedir. Eu sei que você não queria isso, mas você fez o que era preciso. Agora, só espero que consiga conviver com isso, a decisão que tomou não foi justa para você, mas foi necessária para mim, eu precisava que fosse você, precisava que fosse por amor, porque só por amor você faria uma escolha que eu não tive coragem de fazer. Você me amou o suficiente para me libertar, mas será que eu a fiz carregar algo que você não merecia? Esta pergunta me assombra enquanto escrevo essa carta, pois nunca quis ser uma prisão para você, nem em vida, nem na morte. E, no entanto, você escolheu me libertar das amarras de um destino que eu temia encarar sozinha. Não lhe pedi nada, mas, mesmo assim, você me ajudou a encontrar a paz, sua coragem me deu o descanso que eu buscava, e por isso sou eternamente grata. Espero que, ao longo de sua jornada, você também encontre a paz que merece, espero que o peso do que fizemos juntas se transforme em algo mais leve, algo que você possa carregar com menos dor e mais amor.
Siga adiante, minha Rute, e viva por nós duas.
Com amor eterno,
Hadassa
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Quem é ela?
Uma dolorosa despedida | Veja! Lágrima seca pela dor | Oh, uma face tão abatida! | Os poéticos últimos momentos de uma flor…
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Uma dolorosa despedida
Veja! Lágrima seca pela dor
Oh, uma face tão abatida!
Os poéticos últimos momentos de uma flor
Fantasma que em meus sonhos habita
Estás me esperando além do purgatório?
Entidade em diversos livros descrita
Tal como Dante em seu fim inglório!
Quem, dentre nós, chegará mais abatido?
Quem em terra permanecerá, de joelhos
Ou com o coração pelo amor aquecido?
E quem apto será a grandes conselhos?
Veja, o derradeiro final que nos aguarda!
Trágicos amantes desprendidos na vanguarda.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O Céu das Alfazemas
Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia…
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Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia que chega! E felicito-me por recebê-lo assim, com uma despreocupação tão geniosa e sagaz. Que tenho a perder agora, homem? Diga!... nem mesmo o inferno tem algo para mim. Nada mais temo ou anseio. Mas a recusa, sim! A recusa me servirá como redenção. Vou-me ao pé dos quadros de Diana, nunca na cela fria deles.
Por que nos fizeram tão frágeis, minha amada criatura?... Onde puseram as lamparinas que conosco deviam seguir, impregnando de luminosa bondade esses campos fadados à escuridão? Podes ouvir quando sopro, nas pedras, teu nome?
Ao pecado do amor – demasiado, maldito e incorrigível–, a sentença: nunca mais amar, nunca mais o cheiro dos campos e a vida das montanhas, nunca mais... A morte! A morte aos que cometem heresia. Eu e tu, no breu prateado dessa infinidade. Eternos, como é eterna a dor e a tragédia nessa terra de gente vil. Escute!...Um coral de passarinhos sobrevoa! Zombam dessa bruxa velha, que há de morrer sem aprender a voar. Cai dum vasilhame ambarado o primeiro sinal dos olhos do sol. Pairam estrelas nesse horrendo céu de alfazemas, guerreando por espaço com a turvidão das nuvens, carregadas de toda, toda, toda a tristeza da vida.
Perseguida pela praga daquele dezembro, revejo-te incansavelmente, a cada hora, indo de encontro ao chão. Por três segundos olhou-me, por três segundos aspirou um sorriso, por três segundos amou-me com a feição... era a vida deixando a ti, como a alma de uma festa, abandonando a todos os convidados – famintos, mortos de sede–...
Por que, meu bem, por que tivera de condenar a mim e a ti? Ouso dizer que convenceria a Morte. Se ao menos houvesse tentado... Agora vou eu, fadada a seguir-te submundo adentro. Como poderia não ir? Acorrentaram-me em teu punho, e eu mesma vivo a lustrar as correntes.
Como cheiram os jasmins... quão intoxicante é a vida aqui, crisálida e perto do fim. E na moldura de carvalho que me permite observar a vida lá fora, ainda repousa a lua, lançando-me um fraco sorriso. Como se até mesmo ela sentisse alguma piedade de mim. Bela é a porcelana que carrega a camélia, adoçada em leite e gotejada por alma de beladona. Colhidas do abandonado jardim de um enforcado. É o fim, meu bem... é o fim! É o fim da desonestidade, e se pretendem nos prender, que encontrem corpos. Corpos a enterrar.
E não diga, nunca – e em parte alguma desse vale – que és um homem só. És metade formosa e sempre bem acompanhada. Lembra-te do pacto de perseguir, juntos, a chama da vida, e rasteje impiedosamente. Não pare, nem por um segundo. Não pare até me encontrar.
O vento sussurra promessas de primavera, com perfume de orvalho do passado. O céu de alfazema reina, onipotente contra a falta de sangue e coração daquele povo, tão firmado na descomunhão com tudo que é de visceral e estranha natureza. Em marcha lenta, cruzarei a ponte dos mundos, conformada de que nunca havia de entregar-me ao julgamento daqueles que se opõem ao fluxo que tem o corpo e o pensamento. Aos que andam assassinando as bruxas e poetas, julgando com fogo a cada delito, o mais sincero escárnio. Já é hora de partir, deixando para trás a indecência da repressão, indo à vida que emerge da morte, para nunca mais sofrer. Para nunca mais voltar.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Sepulte-me, Ana
Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! Não há morte, não há honra, não há sono...
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Prometeram,
Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?!
Não há morte, não há honra, não há sono...
Continuidade, Ana! A horrenda continuidade que me assola. Sopro as velas e corro da memória daquela lareira, onde aquecíamos a ponta dos pés, entornando canecas fumegantes de chocolate, lendo a tudo que não se pode ler numa idade como tal. O tempo passou... E malditos sejam eles, com seus terços e cânticos de funeral. Choram bem menos que o morto, quando acorda – brusco, desarmado – n’outro corpo e n’outro lugar.
Bate o peito, Ana...
Há tanto não devia bater! Há tanto ouviste parar... Se ao menos me dissessem porquê! Se ao menos me contassem quem sou...
Onde anda minha alma? Ora, eles cantam. Jane Doe, Jane Doe! O turvo vale roubou meu nome, e nem mesmo o posso praguejar sem que me pragueje de volta.
É o inferno, Ana, é o inferno e o céu, disputando lugar. É a brisa que incendeia os bares mundo adentro, e, ainda assim, não cessam os bêbados de pedirem conhaque. Furioso é o vento... nunca tivera piedade de mim. Vento feiticeiro que me traz o perfume d’outrora. Dos invernos em despercebida completude... Da vida que ascendia horripilantemente, tão bela. Dos pinheiros em oração e das infindáveis conversas sobre o mar.
A vela que aqui queima existe pelo mesmo princípio que ali acendíamos a lamparina. – Nasce do mesmo fogo que assava os leitões. – A chama imparável que reina, grandiosa, sobre o tempo e sobre os homens.
Prometeram-me um fim, e agora o reclamo. E não somente a ele, mas à vida, em impaciente e revoltosa espera. Que me tragam a primavera que não vi! Que tragam aquele amor, sepultado com mácula, roubado com tanta desonra. Clamo por encontrar a água viva na próxima parada.
Quanto me resta até que, ao fechar os olhos, não venham mais as cores de um outro campo? Quantas estações até que se faça o digno e ansiado Ponto final? Não remende o vestido, doce Ana... sempre serei a menina molambenta que apreciavam escarnar. Flores bastam. Sempre hão de bastar.
Diga que vivi com a injúria e a raiva de Artemisia. Que praguejei contra as abelhas e contra a rainha, encontrando a graça no outono e zombando de minha própria estupidez. Que vivi para morrer, e, ainda assim, não encontrei morte alguma para descansar.
Somos ametista bruta emergindo do solo, amiga minha. Um pedregulho no sapato de todo falso pregador. Somos nós a dúvida e a insanidade. Companheiras deste (e)terno velejar.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Às Trevas
Oh, Trevas, mulher de pele alva, | teu abraço é um manto que cala o grito, | teu sorriso, uma curva de mistério infinito, | e teus cabelos, negros como a noite sem estrelas,…
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Oh, Trevas, mulher de pele alva,
teu abraço é um manto que cala o grito,
teu sorriso, uma curva de mistério infinito,
e teus cabelos, negros como a noite sem estrelas,
despem-se sobre o abismo do meu ser.
És o que é e o que não pode ser,
um sussurro entre o real e o sonho,
onde a dúvida se faz melodia,
e a certeza, mera ilusão.
Oh, Trevas, guia-me com teus passos silenciosos,
pois és a dança de tudo que se perde
e tudo que se encontra no eco do vazio.
Em teus olhos não há luz,
e, ainda assim, vejo a beleza do infinito.
Não és sombra, mas a face do oculto,
a pulsação da incerteza e do desejo,
aquela que pergunta, mas não responde,
que dá forma à ausência e sentido ao caos.
Trevas, teu conhecimento é como a noite,
profunda, vastamente desconhecida,
tua confusão é a chama que ilumina
o que o dia jamais ousaria revelar.
És a donzela dos segredos,
o ventre onde nascem todas as possibilidades,
o sagrado e o profano, entrelaçados
no tecido do desconhecido.
Se és perda, também és reencontro.
Se és dor, também és êxtase.
Beleza que transcende o toque,
que seduz com a promessa de não ser compreendida.
Trevas, teu nome é amor e abismo,
um eterno beijo que se dissolve no nada.
Oh, mulher de cabelos negros como a morte,
e pele alva como a lua distante,
deixa-me cair em teus braços silenciosos,
onde a dúvida se torna o maior dos prazeres,
e a certeza, apenas um eco esquecido.
Porque em ti, Trevas,
encontrei não a resposta,
mas a pergunta que me faz viver.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Fragmentos na escuridão
Recordo-me dos fragmentos, | estilhaços que caem como ecos no abismo do chão, | as sombras dançam, | de uma presença silente e tímida, | que se oculta nas…
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Recordo-me dos fragmentos,
estilhaços que caem como ecos no abismo do chão,
as sombras dançam,
de uma presença silente e tímida,
que se oculta nas ossadas dos vitrais quebrados,
seus olhos negros, vazios, encontram os meus,
e, como cacos de vidro,
minha alma se despedaça,
perdendo-se nas profundezas insanas
de um precipício eterno e sem fim.
Deleito-me na fria sobriedade,
seduzida pelo sussurro envenenado da escuridão,
que, com garras de ferro forjadas,
arranca meu coração ainda vivo, mas morto.
Ainda hoje, lembro-me da dor,
e ainda hoje, me deito,
entre as ruínas de seus vitrais em cacos,
onde a escuridão é meu único refúgio.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Permaneça
Teu amor trouxera-me a escuridão; querido, o teu inferno cativou-me o peito cuja vida efêmera protege. Os sigilos do teu corpo enfermo, cicatrizaram-se…
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Teu amor trouxera-me a escuridão; querido, o teu inferno cativou-me o peito cuja vida efêmera protege. Os sigilos do teu corpo enfermo, cicatrizaram-se aos meus cuidados enquanto, em pesadelos, tive teu toque no meu mais íntimo anseio. Ouvi tua gravíssima voz em desabafos perniciosos, olhei-te com temor e alento; ouvi-te, também, na lamúria e nos brados de mórbido pesar. Não hei de beijar os lábios do arrependimento, meu Dom. Amorttam é traiçoeira tal como Lilith, mas não eu; deita-te em meu torso, amado, descansa-te sentindo este perfume que me possui na natureza do que sou; deixe-me alimentá-lo ao teu deleite, pela fé, pelo amor. Tornaste-me uma apaixonada inominável! Aquela que adormece somente após o teu sono nuvial, plácido.
Tua noite verdejara-se aos meus olhos, tua alma permitira o vindouro florescer dos meus lírios brancos; agora, esqueci tudo por ti, para manter-te amado enquanto a vida perfura-me a carne com as agulhas da morte, lentamente. E assim, lembro d’água doce que me deras e da tua atenção quando lacrimei aos pés da noite verdinegra; mesmo o medo que me fizeras sentir no belvedere, amor, jamais duvidei da tua inócua essência — desvelava-me a tua íris, uma genuinidade inexorável… ó, sim… tua íris-noite… teu semblante, amante, de calvário; viste em mim, eu sei, a tua fuga e te levei comigo, mesmo presos na Mansão Negra, éramos lá uma pulcra luz nas frestas dos umbrais silenciosos, éramos um segredo e aprendi amar o teu universo frígido, aprendi a acalorá-lo com afeto…
“Permita-me amar-te…” — Sussurraras. E eu permiti… assim te rogo, permaneças. Não te cinjas à vingança — olvides os males e banhe as tuas fissuras com azeite de ternura. Estou aqui por ti, tal como estive desde o início.
Por favor…
Com ardor,
Saeeri
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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No Reino do Sonho – Desejo
Ó figura pálida, de encanto secreto, | Onde o lilás dança entre véus discretos, | És a chama etérea que me seduz, | Na linha tênue entre sombra e luz…
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Ó figura pálida, de encanto secreto,
Onde o lilás dança entre véus discretos,
És a chama etérea que me seduz,
Na linha tênue entre sombra e luz.
Teus lábios, rubros de desejo calado,
Guardam segredos que o mundo há negado.
E teu toque, murmúrio de ardor contido,
É brisa e incêndio no meu peito perdido.
Nos salões dos sonhos, és rainha distante,
Intocável na vigília, mas tão próxima errante.
Teus olhos, astros da noite encantada,
São abismos de astúcia, doçura velada.
Sob o véu onírico, somos livres enfim,
Corpos enlaçados, sem começo ou fim.
E em teu perfume, que embriaga e sufoca,
Eu encontro a vida que a realidade me troca.
Mas quando desperto, só resta o vazio,
Um eco gentil de um amor sombrio.
E ao silêncio retorno, teu servo fiel,
Guardando-te em sonho, como doce infiel.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Poesias”:
A noite de todas as almas
Folhas secas, | Abóboras adornadas | Não é outono por aqui, | Mas não muda nada. | Os ventos que sopram | Me trazem lembranças de você…
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Folhas secas,
Abóboras adornadas
Não é outono por aqui,
Mas não muda nada.
Os ventos que sopram
Me trazem lembranças de você
Sussurram segredos
Que me fazem temer.
A noite de todas as almas
É sempre muito mais iluminada
E isso porque
Todos nós amamos alguém
Que não se pode mais ver.
Alcanço as lápides frias
Não sinto seu cheiro
Se o véu entre os mundos se abriu
Por que não te vejo?
Doces ou travessuras?
Minha vida pela sua.
De que me adianta uma eternidade
Sem sua ternura?
Como oferenda aos Deuses distantes
Deixe meu retorcido coração
Pode não valer mais nada
Mas todo o amor que me restou,
É ele quem guarda.
Minha vida pela sua...
Apenas um vislumbre na penumbra
E eu finalmente
Poderia adormecer.
Doces ou travessuras?
O que está feito,
Não se anula.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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Andreas, Luz e Sombra
Entre estantes de saber e livros calados, | Eu a vejo, Andreas, flor que jamais tocarei. | Tão próxima e, ao mesmo tempo, inalcançável, | Caminha entre…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Entre estantes de saber e livros calados,
Eu a vejo, Andreas, flor que jamais tocarei.
Tão próxima e, ao mesmo tempo, inalcançável,
Caminha entre intelectos e vozes eruditas,
Mas seu silêncio é o que mais ecoa em mim.
Seus olhos, castanhos claros, são o sol em fuga,
Ora frágeis, brilhando como uma chama tênue,
Ora intensos, como se guardassem segredos ardentes.
Oh, que mistério habita seu olhar,
Que ao cair do dia, brilha como estrelas apagadas?
Sua pele, alva como o mármore dos antigos deuses,
Reluz sob a luz dourada da tarde,
E seu cabelo, meio loiro, meio ruivo,
Ondula como as páginas de um livro que nunca poderei ler.
Sua franja, caindo sobre os olhos, a esconde
E a revela — única, distante, encantadora.
Ah, Andreas, sempre em negro vestida,
Tão introspectiva, afasta-se dos círculos ruidosos,
Busca nas sombras das bibliotecas sua paz,
Enquanto eu, perdido em vãos olhares,
A contemplo como quem deseja o impossível.
No pátio iluminado, entre discussões acaloradas,
Você brilha com uma luz que não é do sol.
Mas nos cantos de penumbra, onde os sábios se retraem,
Seu vulto se funde ao mistério,
E eu, preso à distância, só posso cumprimentá-la
Com a fria formalidade de quem sangra em silêncio.
Que dor é essa que me consome,
De estar tão perto e, ainda assim, exilado de você?
Ah, Andreas, será que jamais saberei
Se teus olhos flamejantes me veem além da saudação?
Em cada encontro, meu coração se esvai,
Pois seus gestos suaves são para todos, menos para mim.
E nas sombras da biblioteca,
Eu escrevo poemas que nunca lerás,
Sonhando com um toque que nunca terei.
Mas, ainda assim, teu nome ecoa em meu ser,
Andreas, Andreas, musa que o destino me nega,
E enquanto existirem livros, enquanto houver luz e sombra,
Eu permanecerei aqui, condenado a contemplá-la,
Silenciosamente, eternamente, sem jamais ser notado.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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Absentir-te
Virente arbóreo e úmido arrebol | Intenso verdinegro evanescente… | O fogo à vela é o único bel sol, | Enquanto uma elegia é confidente;...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Virente arbóreo e úmido arrebol
Intenso verdinegro evanescente…
O fogo à vela é o único bel sol,
Enquanto uma elegia é confidente;
Receio qu’encontrar-te é meu conflito,
Aos poucos, ribanceira, entr’este ardor…
Longínquo faz… no torso o manuscrito:
Alálicas, as juras, amargor…
“Por que me foges, Áurea?” Porque sinto.
O horror de não saber toda a verdade…
Teu toque, a voz, o corpo, alma-absinto…
E toda a traiçoeira ambiguidade…
Ó, sonho! Deixe o pélago de mim
Jazer n’este teu íntimo verdim,
Pois sofro o ímpio mal da realdade.
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Canção na Escuridão
Você pode me ouvir, | Chamando seu nome na escuridão? | Pode ouvir meus passos, | Ecoando nas paredes, | Enquanto corro em sua direção?...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Você pode me ouvir,
Chamando seu nome na escuridão?
Pode ouvir meus passos,
Ecoando nas paredes,
Enquanto corro em sua direção?
Eu te ouço cantando, sua voz me atrai.
A melodia suave, como brisa me encontra
E me leva a um frio jardim,
Com flores de um vermelho carmesim.
Lá no alto da torre do castelo,
Te vejo a lua contemplar,
Alheia a minha presença,
Sem me perceber, no silêncio implorar,
Por favor, não vá!
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Artemísia
A pressão rompe o silêncio na madrugada | Vibra o éter como música e ressoa | Reverbera no acetato, ainda...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A pressão rompe o silêncio na madrugada
Vibra o éter como música e ressoa
Reverbera no acetato, ainda longe da alvorada
Cadente, nos ouvidos desta pessoa
Aos poucos me vem memoráveis momentos
Que longe vai o meu pensar
Reavive voraz a figura e me revira o intento
Faltava a substância de alucinar
Aquela do verde frasco deixado na prateleira
Insiste, ainda que eu queira,
No convite para expirar os vapores novamente
Doces ilusões inspiradas na mente…
Tão logo nas minhas mãos impregnaram seu cheiro,
Contra a janela fumaça e nevoeiro,
E o perfume se expande neste cômodo lugar
Como se arrebentasse um vidro de perfume inteiro
E subitamente se espalhasse pelo ar
Descomedido, fui além do que posso aguentar
Oito taças me arrisquei ingerir
Insistindo por várias horas sobre a mesa do jantar
Para no último gole então descobrir
Materializava um corpo bem onde eu estava
A forma feminina a dançar em minha fronte
Mais derretido e sombrio eu ficava
Como se um riacho desaguasse no aqueronte
Sufocado eu pedia uma fonte de água
Depois, eletrificado, perdi de vez o sentido
Nesta hora era o tempo de ter me arrependido
Restou apenas um misto de todos os sentimentos
De todos os vapores, emplastros e unguentos
A rolar na minha pele como um óleo qualquer.
Algo então se rompeu em mim, algo que eu não saberia bem como explicar. Era uma lembrança talvez, ou talvez fosse um tipo de vontade (mais certo que era). Culpei o álcool e o exagero, mas a vida contigo foi um exagero em dobro, uma embriaguez de tantos anos que me assombravam naquele momento e se fixavam naquela forma perdida e naquele movimento.
Era um ideal, enfim entendi
Algo que estava em mim, mas não em você
E deixei-me jogado naquela cadeira
Sem me preocupar se havia um porquê
Fiquei contemplando o corpo despido
Por baixo da transparência daquele vestido
Eu dançava com os olhos, da minha maneira
Será que é sólida para que eu a abrace firmemente?
Não lembro ocasião de ter visto um ser todo verde
Mas sim com o rosto corado num tom de rosé
Tem forma, tem corpo e tem face
E todos eles pertencem a você.
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Sangue
Sangue. | Lápide fria | Noite escura, céu acima. | Sangue. | Você me abomina | Mas suas vísceras são minhas. | Sangue. | Seu carmesim cintilante | Colore o cemitério…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sangue.
Lápide fria
Noite escura, céu acima.
Sangue.
Você me abomina
Mas suas vísceras são minhas.
Sangue.
Seu carmesim cintilante
Colore o cemitério neste instante
Anjos choram pela inocência
Profanam minha existência
Mas ela os devora
Sangue.
Um olhar mais acima...
A garotinha é minha!
Sangue.
Debaixo de uma cruz
A pele pálida reluz.
Sangue.
O túmulo cinza me suplica
“Dance para mim, querida”
Sangre...
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A Luz se Apaga
Majestosa, | Brilhante e inigualável estrela no céu. | Reinando em um mar de escuridão | Mas impiedosa, | Tão bela quanto cruel. | Tomou meus olhos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Majestosa,
Brilhante e inigualável estrela no céu.
Reinando em um mar de escuridão
Mas impiedosa,
Tão bela quanto cruel.
Tomou meus olhos
Meu corpo e espírito.
Elevou-me a mais linda visão
Para em seguida abandonar-me
Na escura solidão.
Não era vida
O que eu via.
Sua morte brilhava
Iluminando um negro céu.
Não era vida
O que eu sentia.
Era o último suspiro
De quem jazia a sabor de mel.
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Cosmo Soturno
caminho pela escuridão da noite | tentando imaginar minha vida | sem a correnteza das águas que | caem abundantemente em sua face…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
caminho pela escuridão da noite
tentando imaginar minha vida
sem a correnteza das águas que
caem abundantemente em sua face
tê-la em meus braços fora o
único momento bom deste
viver melancólico e sombrio
que arrastei por todos os anos
neste corpo gélido, não sinto mais
a força pulsante dos mares de
sangue que fluem inundando
minha soturna existência
às sombras arrancaram de mim
toda a solidão cravada em meu peito
lançando em um abismo obscuro
o mal sedento e submerso por ti
onde estou ainda consigo ouvir
tuas súplicas arrependidas e
desesperadas por mim
clamando por meu retorno
lançado em um universo onde
as trevas devoram minha alma
suplico em meus devaneios para quê
a solitude em meu peito aproxime nossas almas.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…