Espasmos do Silêncio
Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar; elas morrem na garganta antes de se tornarem poesia.
Estou diante de ti, Dama Lacrima. O pintor desconhecido que te prendeu nestas tramas de linho e óleo certamente conhecia o inferno, pois capturou-o com perfeição. Teus cabelos, longos e lisos, escorrem como cascatas de nanquim, emoldurando um rosto de uma palidez cadavérica. As tuas mãos, eternamente erguidas próximas à face, parecem querer esconder o mundo de ti, ou tu do mundo.
Se hoje castigado sou pelo teu descontentamento, que vibra através das camadas de verniz, posso até guardar a culpa. Mas as chaves da tua liberdade são para mim um grande peso que devo suportar. Sinto o ódio irradiar da moldura dourada.
— A tua ira deve ser contida — murmuro para a figura estática, mas viva. — A raça humana não merece perecer. Por mais que um ou outro nos sirvam como bolsas de sangue, aconselho: declina-te desta vingança desenfreada. O mundo ainda tem muito a te servir.
Vejo, então, a alteração na pintura. O óleo parece dissolver-se. Aqueles olhos... aquelas escleras tomadas por um negrume absoluto, sem luz, fitam-me com desprezo. E o que antes era pigmento seco, agora escorre. Tu choras. Não água, nem sangue, mas lágrimas de piche, espessas e negras, maculando a pureza mórbida da tua pele pintada.
— Crês que me fará parar?... Como és tolo, Valentine! — O meu nome soa como blasfêmia nesses teus lábios imortais.
— Lanço o desafio — indago, hipnotizado pelo rastro viscoso que desce pelas tuas bochechas —, até onde estarás disposta a ir com tal empreitada?
— Farei do purgatório a vossa nova morada!
— E depois?
— Como assim, "e depois"?
Aproximo-me da obra, sentindo o cheiro de terebintina misturado a algo podre e antigo. — Quando finalizar o teu intento, sentirás o peso do silêncio. Este mesmo silêncio que, até pouco, tanto me assombrava, não irá parar de te perturbar. Serás torturada pelo resto dos teus dias numa galeria vazia, num mundo morto. Nem mesmo as tuas súplicas serão suficientes para te salvar, pois para destruí-lo terás que destruir a ti mesma, rasgar a própria tela. Então, eu lhe pergunto: até onde estarás disposta a ir?
A imagem trêmula. O piche das tuas lágrimas parece ferver. — O que vês à tua frente, Valentine? — Tua voz agora é um lamento, um gemido de túmulo aberto. — Um retrato sombrio adornado por uma bela moldura arabesca? Um fantasma habitando uma tela em que o tempo ousa não apagar? Ou a representação maior dos teus medos?
Encaro o abismo negro dos teus olhos, duas poças de trevas infinitas. — Teu alarde para destruir-me e destruir o mundo é apenas uma fuga de teus próprios medos — digo, e cada palavra pesa como lápide sobre o cavalete. — Até os demônios mais baixos, minha cara Dama, possuem medos ocultos. E o teu medo é que, sem nós para te observarmos, tu deixes de existir.
O piche escorre mais rápido, mas o silêncio volta a reinar, pesado e insuportável, na sala fria.
Revisado por Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Caellum Noctis, Parte I - O que eu perdi?
Havia retornado. E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Havia retornado.
E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou… De onde vim. Não me lembrava de nada. Quase nada.
Tinha apenas um nome que transbordava na superfície de minha mente, insistente como as notas pesadas de um piano desafinado.
Eleine Gallhan.
Repeti em voz alta tentando procurar um significado, forçando as peças do quebra-cabeça a se encaixarem. Eleine. Quem é você? Onde você está?
A única coisa que sabia era que aquele nome fazia meu peito doer. Então, instintivamente, levei a mão ao coração e apertei as roupas, tentando alcançar aquela dor, mesmo sabendo que não doía na pele, e sim na alma.
Ela mentiu, pensei.
Ela mentiu? Sim, eu sabia disso também. Quanto mais me forçava, mais doía, mais… Quase lembrava, como se a memória estivesse na ponta da língua e eu não pudesse dizer. Mas o pior não era a mentira. Era o silêncio que ela deixara dentro de mim.
Por que...? Por que não consigo me lembrar?
Meu próprio corpo parecia lutar para impedir que alcançasse essas lembranças. Mas por quê?
Tudo na minha cabeça girava, uma mistura de sentimentos sem imagem. Fechei os olhos e respirei fundo. E então, a pergunta. A pergunta que eu temia fazer. Aquela que fez o aperto no peito doer de verdade… E então, cessar.
Como você era?
Eu não me lembro do calor do seu toque. Do som da sua voz. Do peso do seu amor. Mas o rosto… o rosto era um buraco negro. Senti como se olhasse para um espelho depois de um banho quente, apenas um borrão que nunca tinha foco.
Eu preciso lembrar!
Abri os olhos e finalmente percebi onde estava. Aliás, consegui enxergar o que fora dos meus pensamentos, mas não sabia onde era aquele lugar.
O vento soprou uma pétala em minha mão, folha rosa que se desprendeu da grande árvore à minha frente. O toque suave fez tudo parecer, de certa forma, certo. E o mundo começou a devolver os fragmentos que eu mesmo trancava em minha mente.
— A árvore… Nós a plantamos, não é? — Sua voz ecoou, clara e traiçoeira, soprada pelo vento da memória:
“Quando voltarmos, iremos morar aqui. Eu, você, Lyfir… e nossos filhos.”
— Lyfir… — sussurrei. O nome tinha um gosto agridoce, como se eu não devesse pronunciá-lo em voz alta.
E então, mais peças se encaixaram: a sombra de um grande lobo negro ao seu lado. O olhar fixo de uma coruja pousada em seu ombro. Guardiões de uma mulher que eu não conseguia ver.
Quem é você, Eleine Gallhan?
Tentei forçar a memória. Mas, como já esperava: nada. Apenas o vazio com a forma dela.
Apertei as mãos, não com ódio, mas com uma frustração que doía nos ossos. Era a pessoa mais importante da minha vida; eu sentia isso, mas não me lembrava.
Foi então que a sombra daquela enorme árvore pareceu se espessar. E, de repente, um frio cortante, como o interior de uma cripta, fez os pelos da minha nuca arrepiarem. Alguém, ou alguma coisa, estava ali. Me observando.
— Você deseja… se lembrar? — A voz era um sussurro sedutor, como se a própria escuridão me convidasse a conhecê-la.
Ele se materializou não como uma forma, mas como uma falta de forma: uma silhueta humana feita de fumaça e sombra.
— Eles ouviram seu lamento — a voz sussurrada continuou. — Os Colecionadores de Memórias. Os Rostos Espirais não gostam de dívidas em aberto… nem de pactos incompletos.
Pacto. A palavra me atingiu como um estalo no crânio. E eu tive a terrível certeza: minha perda não era um acidente; era um contrato.
— Quem são eles? — Minha voz soou áspera, quebrada. — O que fizeram comigo?
E, se eu pudesse ver o rosto sob aquele manto, diria que ele sorriu com a minha pergunta.
— Eles guardam. Para cada memória tomada, uma razão. E a sua, Caellum Noctis, está guardada no coração do Castelo Drácula.
Ele fez uma pausa, deixando o horror se instalar.
— E se quiser recuperá-la… deverá adentrá-lo.
O Espectumbral estendeu as mãos. Seu corpo se desfez, transformando-se em um portal etéreo. No centro, apenas o nada me convidava a entrar.
Olhei para o portal. Depois, para a grande árvore, suas folhas caindo a cada lufada de vento. A promessa de um lar murchando como as pétalas caídas no chão. Fechei os olhos mais uma vez, criando coragem para encarar meu destino. Agora, eu sabia o que procurava. Agora, tinha um nome para meus algozes: Rostos Espirais.
Não havia escolha. A obsessão já era minha cela; agora, pelo menos, ela teria uma porta.
Estendi a mão e o toque não foi frio; foi uma ausência de calor, um vácuo que puxou algo vital de mim.
— Leve-me até eles — disse, e minha voz já soava diferente. Menos humana. Mais decidida.
O mundo ao redor começou a se desfocar, as cores escorrendo como aquarela na chuva.
E naquele instante, entre um suspiro e o próximo, tudo desapareceu.
Eu não estava mais em lugar nenhum.
Revisado por Sahra Melihssa
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Dança do Corvo #1
Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Terça-Feira, 28 de Setembro.
Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se identificar pelo vidro embaçado da janela daquele comboio a vapor que atravessava a linha ferroviária em plena madrugada.
Duas noites anteriores, uma carta fora destinada a mim, com a assinatura de meu pai que, por sua vez, escrevera aos prantos. Sua tão amada Hermina falecera depois de contrair uma doença à qual não me especificou nome. Talvez, nem mesmo ele soubesse o que afligira a sua esposa. Ele tinha medo. Soube disso, pois conseguira passar seu temor para o papel em letras trêmulas e garranchadas. Na mesma noite em que recebi a carta pelas mãos de uma das irmãs, dediquei toda minha euforia para ter a permissão de sair do convento e voltar para minha casa. Ela, e outras que também coordenavam o lugar, consentiram com minha saída, pois acharam que seria melhor eu cuidar de meu pai enquanto os tempos difíceis repousavam na minha família. Eu prometi que retornaria em breve e assim parti dois dias depois, sem ao menos imaginar que aquele seria um caminho completamente sem volta.
Junto a mim, nada carregava de muito valor. Ainda me lembrava daquela noite em travessia. Era apenas uma pequena mala contendo um saquinho de biscoito, cadernos e livros didáticos que eu deveria ler no tempo que estivesse fora da Escócia para compensar minha saída e o diário de minha falecida mãe que, não importava onde, sempre levava comigo.
O sono me pegou de surpresa, mas não se estendeu muito. O som rasante do comboio arranhando os trilhos conseguiu me despertar repentinamente em um pulo assustado. A madrugada já se tornava manhã e a parada da ferrovia já estava estampando minha visão. Já havia retornado à minha cidade e nenhuma surpresa me dominou por isso. Estava ali por um motivo de desgraça e nada daquilo me faria feliz.
· · • • • ✤🐦⬛✤• • • · ·
As ruas de St. Canard não estavam abarrotadas como eu nunca imaginei. Fazia já alguns anos desde que abandonei meu lar para seguir um caminho junto a Deus e seus ensinamentos, que pouco me lembravam do chão que voltei a pisar.
Mesmo assim, as lojas permaneceram da mesma forma enquanto eu me aprofundava pela cidade. As típicas mercearias, os ambulantes que dançavam nas calçadas animando quem passava... Sempre com um sorriso no rosto, as damas com seus leques e vestidos que vieram de boutiques caras nas quais nunca tive oportunidade de sequer entrar, pois era minha querida mãe que fazia – à base de trapos – minhas roupas humildes e, por fim, as carroças puxadas por cavalos que continuavam as mesmas, tirando o notável melhoramento em suas estruturas compostas de madeiras e metal, que agora eram mais charmosas e reluzentes do que antes. St. Canard não havia mudado muito em alguns anos. Sendo assim, ainda era fato de que eu sabia o caminho de minha casa.
A janela tinha suas persianas abertas quando encontrei minha antiga moradia sob um novo bazar que antes se encontrava em uma panificadora. A fachada estava com sua cor alterada. Antes, um bege quase branco se esticava por toda parede e agora havia um verde que já estava gasto e desbotado, porém a casa ainda parecia ser a mesma, esperava eu.
Decidi abandonar minha casa e seguir caminho ao encontro de Deus após o falecimento de minha mãe. Ela era nova, bonita e inteligente. Mesmo sem recursos financeiros, morávamos bem e sem problemas. Então as brigas entre ela e meu pai se tornaram mais frequentes e a casa foi ficando insuportável. Como antes dizia meu pai, ela o traía com outros homens, entre eles um eu conhecia: Dr. Marquês, filho do panificador que trabalhava em um hospital nas redondezas da cidade. Por sinal, ele era bem agradável. Nunca me dera motivos para sequer cogitar alguma coisa que o desagradasse, mas ao ser apontado por meu pai, sua ideologia formada em minha cabeça também foi pouco desgastada.
As acusações de adultério só foram comprovadas após o acidente no qual tirou a vida de minha mãe. Seu corpo foi encontrado na areia úmida da praia alguns dias depois que ela visitou uma amiga. Marquês se provou amante de minha mãe e alegou ter a ajudado com dinheiro para que ela comprasse tecidos, linhas e materiais para a customização de minhas roupas. Era fato de que, por um espaço de tempo naquela época, minha mãe estava aparecendo com mais tecidos do que o normal. Papai se casou novamente dois anos depois, por desgosto, e com Hermina teve outra filha: Emily, o bebezinho mais doce que eu vi na vida. E, quando isso aconteceu, eu parti para a Escócia, não por desgostar da minha nova irmã ou até mesmo da minha madrasta, mas por saber que somente encontraria o conforto que minha mãe dava nos braços do Senhor.
Antes de eu tocar na campainha ao lado da porta, meu pai já abriu e me encontrou segurando minha pequena mala. Tomou-me em seus braços e chorou por me ver, ao lembrar-se do motivo que me fizera retornar.
— Onde está Emily? – perguntei assim que pisei novamente em casa. O cheiro não era o mesmo. Ao invés de cheirar a assoalho velho e corroído por cupins, eu sentia algo desagradável o bastante que me faria voltar atrás. Não era nada condizente com minha sabedoria. – Quero vê-la. Tadinha... Deve estar acabada.
Meu pai seguiu à minha frente, percorrendo o corredorzinho no qual se dividiam os quartos, e chegou naquele onde eu já dormira um dia. Emily estava deitada com camadas de cobertas sobre seu corpo. Seu olhar cabisbaixo indicava doença, mal-estar. Seu cabelo loiro, que um dia eu vira por algumas pinturas ser lindo, brilhoso e radiante, estava embaraçado, seco e sem vida. Suas bochechas rosadas tinham um tom rude e cruel estampando-as, tornando a magreza de sua face mais evidente. O que estava acontecendo com ela? Os lábios carnudos também desapareceram incrivelmente, dando lugar a uma linha fina e roxa para representá-los. Seu colo tinha todas as cavidades do osso da clavícula marcadas. Ela estava magra igual a um esqueleto. E aquilo me assustava.
Respirei e, antes de me aproximar dela, fiz o sinal da cruz sobre o peito.
— Emily contraiu os mesmos sintomas de Hermina na mesma noite em que ela morreu, Lucy – dissera meu pai com sua voz acabada. – Eu não sei o que fazer mais. Não há remédio em minhas mãos que tarde essa maldita doença e, se existe algo, está muito além daquilo que posso arcar. Ela vai morrer... Vou perder minha filha, e você, sua irmã.
Acariciei a face de Emily, sorrindo para ela, mas acabei me levantando quando meu pai proferiu aquelas palavras banhadas de choro e medo. Agarrei suas mãos com força e as pousei sobre meu colo. — Não diga isso, papai. Vamos conseguir. Emy não irá morrer.
— O que podemos fazer para impedir tal acontecimento hostil? – perguntou ele, eufórico demais para raciocinar que eu estava tão próxima a ele e não necessitava elevar a voz ao falar comigo.
— Vamos primeiro contatar um doutor. Depois de curada, resolveremos o valor que devemos arcar. Tudo vai ficar bem, pai. O Senhor há de nos ajudar. Ele está conosco. – Meu pai pareceu não dar muita atenção para a parte em que falei da ajuda de Deus. Portanto, retornou com sua euforia e se mostrou um tanto duvidoso. – Marquês tinha um voluntário, Dr. Hoechlin. Emy o conheceu, talvez ele nos preste ajuda.
— Eu deveria negar por ser voluntário daquele senhor, mas caso aceite nos ajudar, será bem-vindo à minha casa – respondeu.
Emily se mexeu sob as cobertas. Tossiu, limpando a garganta, e chamou minha atenção com sua voz fraca e arranhada.
— Hoechlin partiu para Londres na noite retrasada. Voltará daqui a dois dias – comentou ela, esforçando-se para conseguir falar com clareza.
Olhei para meu pai com preocupação. Não sabíamos com o que estávamos lidando e, acima de tudo, aquilo poderia não existir cura alguma. Ele também estava preocupado. Com toda a certeza, não queria perder sua menina de dezesseis anos logo depois de sua mulher falecer.
— Quanto tempo Hermina suportou após contrair a doença, pai? – perguntei.
— Três semanas. – Uma semana se completaria para Emy quando o doutor chegasse. Ela teria que aguentar mais duas até os exames mostrarem uma saída.
Naquela noite, me ajoelhei perante a cama e rezei com toda minha fé. Tive medo de que oração alguma fosse forte o suficiente para afastar a sombra da Morte que pairava sobre a nossa casa.
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Quarta-Feira, 29 de Setembro.
Eu havia retornado ao quarto que me foi cedido, na extremidade do corredor, e o fiz não por cansaço, mas por um medo pungente de ser um estorvo àquela figura paterna já devastada pela dor. Minha prece fora fervorosa, mas o sono que se seguiu se mostrou leve e febril, interrompido a cada rangido do assoalho.
No fim, contive-me no som ritmado e pelas badaladas do relógio da sala que, ao longe, badalava as três da madrugada quando o silêncio da casa foi rasgado por um som aterrador. Não era o pigarro fraco que Emily vinha exibindo, mas sim um ruído quase gutural, violento demais e profundo, seguido de um gorgolejo que parecia vir do fundo de sua própria garganta.
Saltei da cama, com o desespero e o coração chocando-se contra as costelas, vesti apressadamente meu robe e corri descalça pelo corredor sem medo de talvez estivesse fazendo barulho em demasia para acordar meu pai. A porta do quarto de Emily estava entreaberta e a luz fraca da lamparina que eu havia deixado acesa na cômoda projetava sombras alongadas e distorcidas que dançavam quase como uma reverência ao meu medo.
Entrei. E ali, o terror se materializou em sua pior forma.
Nunca fui muito próxima do trabalho da morte. Muito pelo contrário… sempre permaneci distante dela para não parecer íntima demais a correr o risco de vê-la de novo. No entanto, as tosses vindas de Emily deixaram de ser comuns para mim quando a consequência seguinte fora vê-la se debater insanamente sobre a cama. O lençol branco que a envolvia já não existia mais, marcando em seu peito e pintando sobre o amontoado de fios uma paisagem infernal de carmesim. O sangue evidentemente estava espesso e quente, escorrendo de sua boca como riachos abundantes, manchando o queixo, o pescoço e a camisola que parecia ter sido mergulhada na mais rubra tinta. Os olhos de minha pobre irmã, antes esvaziados pela doença, arregalaram-se em uma súplica muda de socorro. Talvez eu nunca mais esquecesse o pânico estampado em sua face assim que me viu entrar em seu quarto.
Ela tentava puxar o ar, mas o esforço apenas fazia o sangue jorrar com mais violência, engasgando-a, silenciando-a como se algo condenasse a bela garota a um destino horrível e sangrento. — Emily! Oh, Deus, Emily! — Minha voz não passava de um sussurro rouco, quase abafado pelo som úmido do seu sufocar. E mesmo atingindo um tom acima do normal, pelo medo e desespero, ainda parecia baixa demais comparado aos engasgos e sufocamentos que originavam dela.
Corri para o seu leito, estendendo minhas mãos como uma forma fútil de tentar salvá-la, mas o desespero tomou conta da minha mente com uma força paralisante.
Eu não era médica; não era nem mesmo perto de ter os conhecimentos de uma mera enfermeira. Eu era apenas uma garota de vinte e quatro anos que, diante daquela cena de brutalidade biológica, toda minha fé e os ensinamentos do convento se dissolveram em um terror gélido e parvo. Tentei erguê-la, mas o toque na sua pele fria e pegajosa de suor e sangue fez-me recuar um passo atrás.
Eu falhei. Falhei miseravelmente com o desespero que também tomava conta de mim, assistindo à última e convulsiva exalação de vida de minha irmã, enquanto o sangue se espalhava em um mar espumoso sobre o travesseiro. No instante exato em que o último tremor abandonou o corpo de Emily, quando o gorgolejo cessou e o quarto mergulhou em um silêncio pesado e oco além do meu choro contido no alto da garganta, o ar ao redor do leito pareceu se condensar em um negrume mais denso que a própria noite. Não era a sombra projetada da lamparina, mas sim uma mancha de escuridão viva, alta e magra, que se desprendeu do colchão manchado como quem emergia de dentro da posição de mortalha dela na forma de um espectro obscuro.
Sombrio, sem rosto discernível, feito de fumaça e trevas.
O pavor me petrificou no lugar, e eu observei a personificação do demônio da morte tomar aquele ambiente como se fosse dele desde o início. Talvez de fato fosse, desde a partida da esposa de meu pai, pouco antes.
Não havia pés, nem o som em seus passos. A figura deslizava sobre o assoalho sem fazer qualquer ruído. Em vez de caminhar pelo chão, ela ascendia pela parede ao lado, como se a gravidade fosse uma simples sugestão e possibilidade de uma escolha inútil. Lenta e propositalmente, a aparição espectral moveu-se em direção a um canto escuro do quarto onde repousava, coberto por um tecido de linho branco, o grande espelho de vestir de Emily.
Talvez meu pai tivesse bloqueado o reflexo, tendo em vista o caos letal que acompanhava sua morada. Sua tentativa de ocultar o vidro fazia direta referência ao que diziam os supersticiosos e abandonados pela fé. Espelhos capturavam a alma dos doentes.
O espectro parou diante do espelho coberto, e ali permaneceu intacto, com sua silhueta escura parecendo fundir-se com a brancura do linho. Meus olhos, grudados naquele ponto de escuridão e tecido, não conseguiam mais se desviar. Eu estava hipnotizada. Horrorizada e sem qualquer força para fazer algo a respeito.
Lucy... Salve-me…! Está na hora de vir ao meu encontro, doce irmã. Liberte-me deste caos… Arranque o véu, irmã. Arranque o véu e perambule pela escuridão. Está tão frio aqui…
Era a voz de Emily, pura, sem o ranger da doença, mas etérea e fria, ressoando não do corpo inerte no leito, mas através do espelho coberto. Suas súplicas eletrizaram meu corpo, arrepiando meus pelos. Foi o suficiente para que eu sentisse verdade em sua solicitação. Movida por uma força que não era minha, um magnetismo frio que irradiava do vidro, dei passos hesitantes até o espelho. Minhas mãos tremeram quando agarrei a beirada do linho úmido de poeira, obedecendo ao chamado.
Rasguei o tecido com um puxão violento, e o espelho foi revelado em um átimo.
Não vi meu próprio reflexo pálido e aterrorizado. O vidro do espelho havia se transformado em uma espécie de janela ou pintura tão realista quanto. Através dele, a cena era de uma grandiosidade gótica e infernal, de um castelo sombrio, escuro, no alto de uma colina rochosa e pontiaguda. Dei um passo para trás, hesitante, e arfei alto com certo receio e pavor. O céu acima não era o teto de nuvens baixas de St. Canard; em vez disso, manifestava-se na forma de um pesadelo de nuvens revoltas em tons de um vermelho doentio que mais se poderia contemplar o mesmo tom do sangue jorrado de Emily do que se o próprio inferno viesse à terra.
O espelho, por um instante, pareceu vibrar. E antes que eu pudesse recuar, antes que eu pudesse gritar por socorro, uma rachadura surgiu na superfície do vidro. E, através dela, um braço explodiu para fora, estendendo-se até mim em uma velocidade absurda. Uma mão negra, ossuda e com garras longas e afiadas saiu do espelho com a precisão de uma víbora. Agarrou-me pela garganta.
O aperto seco e gelado, como gelo de caveira, demonstrou uma força inacreditável. O ar me fugiu por completo naquele último segundo, e acreditei fielmente que morreria também em seguida. Fui puxada para dentro do espelho sem qualquer delicadeza ou cuidado. Meus olhos viram, antes de fazerem a travessia, o reflexo distorcido da minha face contemplada de horror no vidro rachado. Soube, depois daquilo, que jamais poderia ter volta.
No fim, o vidro estilhaçou-se em uma explosão de neblina escura, engolindo-me para dentro de um mundo além da salvação.
Revisado por Sahra Melihssa
A Dança do Corvo
Sob a bruma de uma Inglaterra vitoriana marcada por mistérios e mortes inexplicáveis, Lucy retorna ao lar pela primeira vez em anos ao saber que sua irmã Emily está morrendo por um doença estranha. Mas na noite em que tudo deveria terminar em silêncio, Lucy presencia a alma de Emily sendo sugada para dentro de um espelho velho e adornado que reflete um mundo sinistro e desconhecido repleto de sombras derivadas de um castelo antigo.
Movida por amor e desespero, Lucy atravessa o espelho e se vê em uma dimensão onde a noite se mostra eterna e um castelo gótico que vigia o mundo com suas paisagens aterradoras. Lá, entre sombras e segredos ancestrais, ela deve confrontar forças que desafiam a vida e a morte antes que a alma de Emily seja perdida para sempre. » Leia todos os capítulos.
Gabriel Cordeiro
Gabriel Cordeiro é autor de terror gótico, romance sobrenatural e dark romance, conhecido por tramas intensas, sensuais e profundamente emocionais. Suas histórias exploram o sobrenatural com personagens marcantes e monstros que podem amar demais. Sua escrita mistura poesia sombria, suspense psicológico e erotismo visceral... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
29. Ritos Fúnebres da Ordem
Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os procedimentos que regem a passagem e a negação da morte.
Registro da Ordem - reprodução integral.
Ritos Fúnebres da Ordem
A Ordem segue rituais rigorosos para garantir que os mortos atravessem corretamente o ciclo, sem serem corrompidos ou presos entre os véus. Esses ritos variam de acordo com a situação da alma e do corpo.
1. O Rito da Travessia (Para aqueles que morreram naturalmente e sem pendências espirituais)
Este é o ritual mais simples, realizado para garantir que a alma do falecido não fique presa ao mundo dos vivos. O corpo é limpo com ervas amargas para afastar influências indesejadas. O nome do morto é escrito com tinta negra em sua testa para que ele se lembre de quem é ao cruzar o véu. É recitada a “Oração da Travessia”, guiando a alma em sua jornada:
"Você veio da sombra e retornará a ela. Nenhuma dor o seguirá. Nenhum medo o prenderá. Apenas vá."
O corpo é queimado ou enterrado em solo sagrado, dependendo do costume local. Se a alma resistir ou houver sinais de inquietação, passa-se ao próximo rito.
2. O Rito da Libertação (Para aqueles que morreram em agonia ou deixaram assuntos inacabados)
Quando uma alma se recusa a partir ou algo a prende, esse rito força sua libertação. O corpo é posicionado com os braços cruzados sobre o peito e os olhos cobertos com um pedaço de véu negro, para impedir que veja os vivos. Uma moeda marcada com o símbolo da Ordem é colocada na boca do morto, não para pagar uma travessia, mas para silenciar os lamentos. A encarregada pelo rito deve tocar a testa do morto e sussurrar o nome dele três vezes. Em seguida, a “Oração da Ruptura” é recitada:
"Nenhum amor o chama. Nenhuma dor o prende. Você pertence ao esquecimento. Vá."
Se a alma ainda resiste, um corte é feito na palma da mão do falecido, liberando qualquer energia que ainda o segure no mundo dos vivos. Se isso falhar, significa que a alma se tornou algo pior.
3. O Rito do Silenciamento (Para aqueles que morreram e retornaram de maneira impura)
Este rito é reservado para aqueles que foram trazidos de volta de forma errada (mortos-vivos, espectros vingativos ou qualquer um que se recusou a aceitar sua morte). O nome do morto é riscado dos registros da Ordem, simbolizando que ele já não pertence ao ciclo natural. O corpo é perfurado com agulhas de ferro negro, um material sagrado para impedir sua ressurreição. O sangue de uma irmã de maior nível hierárquico é usado para traçar o “Selo da Dissolução” no peito do falecido. A “Oração do Esquecimento” é entoada:
"Você já não existe. O mundo não se lembrará. Sua história termina aqui."
Se a criatura ainda se mover, deve ser destruída sem hesitação. Este é o rito que mais pesa sobre as irmãs, pois significa negar a existência de alguém.
4. O Rito da Execução (Para aqueles que desonraram o ciclo em vida e não merecem descanso)
Nem todos os mortos merecem compaixão. Alguns devem ser apagados completamente, para que nunca se ergam novamente. O corpo é queimado antes da morte (se possível), para impedir que a alma permaneça presa a ele. O coração é arrancado e reduzido a cinzas, garantindo que nenhuma maldição o traga de volta. Nenhuma prece é dita, nenhum nome é pronunciado. O condenado é esquecido imediatamente. É o rito mais cruel da Ordem, mas necessário para aqueles que desafiaram a própria morte e tentaram se tornar imortais.
Esses ritos mostram como a Ordem vê a morte como algo inevitável, mas que deve ser tratado com respeito ou severidade, dependendo das circunstâncias.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
28. Diário da irmã da Ordem IV
Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 25 de novembro de 1374
Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho da catedral, caminhamos por ela um bom tempo até que ela parou e falou: “Este, Mara, é nosso verdadeiro túmulo”, ela disse, apontando para as árvores. “Aqui é a floresta das raízes silenciosas.” O nome era apropriado, só se ouvia ali o som do vento entre os troncos. “Quando morremos”, Irmã Teodora continuou, “nosso corpo não é guardado em pedra fria ou muito menos deixado para apodrecer em qualquer lugar, somos devolvidas à terra da qual nascemos outra vez.” Ela deu mais alguns passos e passou a mão em uma árvore de tronco escuro. “Cada irmã da ordem escolhe em vida a sua árvore e essa é a única escolha que lhes é garantida. Quando morremos, somos enterradas ao pé delas, e nossas raízes se entrelaçam com as delas e assim nos tornamos parte dela.” Toquei no tronco da árvore e por um momento ela pareceu pulsar sob meus dedos. “E aquelas irmãs que a ordem não consegue recuperar o corpo?”, perguntei. “Se uma de nós se perde, ainda assim lhe damos uma árvore, um túmulo sem corpo, mas não sem memória”, ela disse, olhando para a árvore. Fiquei imaginando quantas irmãs não tinham sido encontradas e quantas árvores cresciam no vazio. Fiquei a olhar todas aquelas árvores ao meu redor. “Qual árvore você escolheu?”, perguntei. Irmã Teodora sorriu, me surpreendendo, e disse: “Um carvalho, firme e duradouro.” Não perguntei mais nada, mas quando estávamos saindo da floresta olhei ao meu redor e me perguntei: “Se eu caísse, qual raiz carregaria meu nome? Será que suas raízes iriam crescer no vazio?”. Talvez eu ainda não deva me preocupar com isso agora.
Data: 13 de dezembro de 1374
Estava andando pelos corredores da abadia, quando ouvi vozes abafadas, duas irmãs sussurravam, parei atrás de uma coluna e ouvi. “...o poder dele está além da compreensão”, murmurou uma delas. “A ordem finge que ele não existe, mas sabemos que ele está lá, seu domínio nunca caiu de verdade”, disse a outra. “Se a ordem quisesse, poderia enfrentá-lo…”, a primeira delas falou. “Se quisessem mesmo, já teriam feito”, a segunda bufou. Fiquei imóvel, ouvindo o que talvez fosse uma conversa proibida. “Drácula nunca morre, nunca é esquecido e há um bom motivo para isso.” O nome ecoou na minha mente. “Talvez seja por isso que a ordem não interfere no domínio dele, talvez seja algo que não possamos mudar”, uma delas falou. Eu já ouvi esse nome antes, em relatos de viajantes que passavam pela catedral, e o li em textos antigos com poucas informações, mas a ordem nunca falava sobre ele diretamente, não sabia se ele era um aliado ou apenas uma sombra à espreita, mas na ordem ele era um silêncio deliberado. As irmãs continuaram sem notar minha presença, me afastei logo, antes que me percebessem, fui para meus aposentos e o nome foi comigo. Drácula, Drácula, Drácula, como a batida de um coração no fundo da minha cabeça.
Data: 14 de dezembro de 1374
O nome Drácula continuou ecoando na minha mente como um coração pulsante a manhã e a tarde toda, ele se recusava a ir embora. Quando estava limpando as lâminas com a irmã Isolda, a única irmã à qual eu tinha afinidade, não consegui conter minha dúvida e tentei, de maneira casual, perguntar a ela sobre Drácula, ela estava na ordem há mais tempo que eu e poderia me dar mais informações. “Irmã Isolda, ouvi algumas irmãs sussurrando nos corredores, elas falavam de Drácula.” Seus dedos pararam por um instante na lâmina que estava afiando. “Drácula”, repeti, testando sua reação ao nome. Seguiu-se um silêncio pesado e Irmã Isolda voltou a afiar a lâmina como se eu não tivesse dito nada. “A ordem não se preocupa com ele?”, perguntei. “Não é uma questão de preocupação, é uma questão de decisão”, ela falou sem erguer os olhos. “E o que isso quer dizer?”, perguntei. Ela suspirou por um momento e respondeu: “A senhora da Morte tem seus motivos para não interferir nos domínios de Drácula e isso é tudo que você precisa saber.” E foi isso, nenhuma explicação, nenhum detalhe, a conversa estava encerrada antes de começar. Mas algo em suas poucas palavras me fez entender que Drácula era um nome a ser evitado e me restava saber o motivo dessa escolha ter sido feita.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
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10 - Na hora certa
O diário ainda estava quente entre minhas mãos quando o cerrei. Não conseguia me conformar com o que fizera a Viktor. As palavras dele latejavam…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
15 de Outubro de 1870?
O diário ainda estava quente entre minhas mãos quando o cerrei. Não conseguia me conformar com o que fizera a Viktor. As palavras dele latejavam em minha mente, como se tivessem sido infundidas com um veneno pernicioso. Ah, se eu pudesse exterminar essa frase maldita da minha mente. Tal lembrança pesava em meu peito. Escrevê-las dava uma certeza cada vez mais absoluta sobre uma verdade que eu já sabia, mas não queria aceitar… Eu não o odiava tanto quanto imaginara. Eu não era consumida somente pela culpa. O que também me atormentava era a certeza de que essa estranha saudade rangia: eram as engrenagens da razão e do coração que nunca se encaixavam. A sensação era de agonia e alegria. Eu evitava pensar nele, não só para evitar um choro convulsivo carregado de arrependimentos pelas escolhas erradas que fiz.
Eu evitava pensar nele porque a saudade me dilacerava; eu sentia falta de estar deitada ao lado dele em seu quarto, lendo compêndios enormes de medicina. Sim… era isso: eu amava o meu preceptor e também amava odiá-lo.
Foi então que um galho seco se partiu atrás de mim, um estalo súbito que cortou o ar gelado. Saí do transe. Era hora de subir. Hora de deixar as memórias — ou ser devorada por elas. Um gato, que tive a impressão de ser Meia-Noite, apareceu, deixando as marcas de suas patas no chão frio. Ele subia a estradinha que levava para Séttimor. Antes de virar uma curva e desaparecer, ele miou e olhou diretamente em meus olhos, assustado.
Levantei-me apressadamente, perseguindo a lembrança de algo familiar; ou talvez, só para ter a certeza de que era apenas um gato comum. Ao dobrar a curva, ele já não estava lá. Conforme eu subia, um murmúrio começou a se avolumar. Reconheci aqueles sons. Sim. Eu já os ouvira antes. Eram vozes infantis — choros abafados, soluços frágeis, lamentos curtos — exatamente como os que ouvira quando estagiava no berçário do hospital. Quanto mais eu avançava pela montanha, mais elas se multiplicavam.
Pensei estar aproximando-me do topo, mas aquilo não fazia sentido; eu não avistava nada além do vento cortante ululando por entre árvores de galhos ressequidos. O frio fazia minha carne tremer e meus dentes rangerem.
Era eu contra a montanha.
Os músculos doíam, mas já não sentia meus pés e mãos. Apesar disso, continuei a subir. Era caminhar ou morrer. Meus olhos começaram a vasculhar, procurando por um mínimo sinal de vida: alguma construção, alguma luz distante ou até mesmo a fumaça de alguma chaminé. Apeguei-me à vontade de sobreviver. No entanto, a esperança frágil de que algum tipo de vida habitava aquela montanha começava a desvanecer-se em meu peito, que agora doía mais e mais.
O caminho enrodilhava-se na montanha; eu seguia por ele, à procura das pequenas almas que deixavam aqueles fracos choros escapar de seus pulmões. Com exceção das árvores e plantas, nada prosperava por ali. Foi então que algumas delas capturaram a minha atenção. Ao longe, eu via pontos brancos; eram de tamanhos diversos, dependurados em vários galhos. Sustentando-os, finíssimos fios, que brilhavam sob a luz pálida do sol poente. Cobrindo os galhos ressecados, uma espécie de teia, feita destes mesmos fios. Seduzida pela misteriosa beleza da cena, subi, aproximando-me.
Ao alcançar as árvores, notei que não se tratava de teias; ao longe, pareciam finíssimos fios de seda tecidos pela natureza. Observando-os mais de perto, notei que eles pareciam ser uma espécie de rede integrada entre os casulos. Por dentro deles, havia um líquido branco como leite, alimentando os casulos, ao que parecia; lembrei-me do sistema linfático das aulas de anatomia de Viktor. Segui com os olhos até onde um ia dar. Acabava em um casulo, como pensei. Afastei o algodão que os envolvia, eles eram translúcidos, e deslumbrei-me com o que vi. Um dedinho fino se movia. Era a mãozinha de um feto; estava vivo!
Aproximei meu rosto, prendendo a respiração. Meu espírito se inflou de súbito. Que espécie de vida era aquela? O casulo agitou-se ao tocá-lo. Era um feto que refazia a sua posição. Quando terminou, pude ver seu rostinho. Um sentimento de ternura apoderou-se de meu ser. Mas, simultaneamente, comecei a sentir uma tristeza alheia a mim. Meu coração foi repentinamente esmagado. Era confuso: uma saudade chorosa de algo — que eu não sabia dizer do que era — invadiu meu peito… Como se eu desejasse algo com todas as forças, mas fosse interrompida, impedida.
Movida pela curiosidade diante daquele ser, notei que uma única lágrima, negra como piche, escorria do olho do feto. A lágrima manchou o branco leitoso do casulo. Quando terminou de escorrer, saindo do casulo, se desfez no ar. Então voltei a respirar sobressaltada.
Vencida pela ânsia científica, toquei-o novamente. O feto pareceu reagir, movendo-se delicadamente. Na segunda vez, escutei um som de tecido molhado. Lembrei-me do som que os cadáveres faziam quando eu os partia em pedaços, para poder levá-los em sacos de lixo. Seu casulo reluzia à luz quente dos últimos raios daquele dia. Admirei-o. Poderia dizer que éramos íntimos. Não… Era outra coisa, algo mais grandioso, visceral, antigo, primitivo… Éramos mãe e filho. Era isto que me fazia querer abraçá-lo. Afastei a minha mão. Outra lágrima escorreu, como se o bebê se ressentisse do meu distanciamento.
Notei algo estranho em mim. A agonia de uma saudade profunda invadiu-me. Junto a ela, a pressão no peito novamente, consegui tocar meu rosto… Uma lágrima escorria e molhou meu dedo. Depois desta primeira lágrima, muitas outras vieram. Murmúrios uterinos se multiplicavam. Até mesmo choros infantis se misturavam a eles. Horrorizada com aquilo, decidi fugir. Apesar do fascínio que aqueles fetos de algodão exerciam sobre mim, fui impelida a fugir. Minhas pernas se moveram, antes que eu pudesse comandá-las. A fúria dos sentimentos, contra o instinto de sobrevivência. Fora um lampejo de consciência. Eu sabia que devia fugir. Eu sofria por deixá-los, belos e inocentes. Agora, quase nenhuma luz os iluminava. Em breve, receberiam o abraço de prata dos raios lunares.
Continuei a subir, perturbada pelo que tinha visto. Apertei o passo, fugindo daqueles sentimentos torturantes. Continuei por cerca de vinte minutos. Eu juro que podia sentir meus pulmões ardendo pelo esforço.
Apesar disso, eu precisava avançar. Quanto antes chegasse em Séttimor, antes conseguiria a erva do descanso. Eu precisava daquela erva para deter o que Eleanor me fizera; ou talvez o que eu precisasse mesmo fosse do abraço sombrio da morte. Não! Desistir não era uma opção! Não iria me entregar. Depois de tudo o que eu passara nas garras de Viktor, eu não iria simplesmente desaparecer. Precisava voltar à Prússia: lugar que agora me parecia cada vez mais distante.
Desacelerei. Só então percebi que estava em uma parte mais densa da floresta. Estava quase escuro; meus olhos se ajustavam vagarosamente. Então pude escutar, ao longe, sons de galhos partindo-se. Estaquei, lembrando-me da criatura horrenda que Arale enfrentou. Poderia ser outro ser, mas igualmente perigoso. O chão da estrada parecia recentemente pisoteado.
Perdida nessas reflexões, reparei que um galho se movera atrás de mim. Virei-me e tive a impressão de ver um braço fino sumir atrás das folhagens. Então fugi. Mas não consegui correr mais do que cinco metros à frente; minhas pernas falhavam. Olhei para a trilha que eu acabara de vencer: eu estava só.
Sentei-me para recuperar o fôlego. Então eu vi. Atrás de alguns arbustos, três pequenos seres vinham subindo a trilha, mas tentavam esconder-se. Crianças. Julguei que fossem, pela estatura. Mas não tive certeza, pois seus olhos eram brancos; não havia pupilas, nem íris. Paravam de tempos em tempos para cochichar. Uma delas fez menção de aproximar-se, mas outra a impediu, segurando-a pelo ombro.
Novamente aquele peso no peito… Amaldiçoei meu destino, mas seria possível? Que toda criatura viva desta montanha estaria amaldiçoada com essa tristeza saudosa de tudo aquilo que não floresceu?
Então a terceira criança cruzou a barreira dos arbustos. Permaneci imóvel. Ela vinha em minha direção; um de seus braços estava estendido. O dedo pálido como o de um cadáver, em riste. Toda a sua pele era assim; seu corpo estava quase todo desnudo. Era um menino. Cabelos longos e desgrenhados moveram-se com a sua cabeça, a qual se inclinava curiosa. Ele parou para ajeitar a tanga, única peça que trajava.
Chegou muito próximo e movia-se como um símio, ora para frente, ora para trás. Quando bem próximo, eu fui invadida por outros sentimentos. Era um calor interno, de alma. Então uma memória atravessou meu cérebro, tão fugaz quanto nítida. Eu vi uma roda de hominídeos; ao centro, uma chama; estávamos sentados. Pisquei. Não os vi mais, apenas aquele ser à minha frente.
Foi como antes. A proximidade dele despertou em mim visões alheias. Eu enxergava por ele. Não era apenas isso — eu estava dentro do que ele lembrava. As roupas daqueles homens primitivos pareciam-se com as dele. Pertenciam a um passado muito distante, séculos antes de eu nascer, quando o homem acabava de inventar o fogo. Sim, pude sentir a paz de ser protegida por ele. Tudo se parecia com as noites em frente à lareira que dividi com papai.
Eu apreciei a valiosa sensação de estar segura. No entanto, afastei-me. Era necessário, era premente… Então, descansada, pude retomar a minha caminhada em direção ao cume. Séttimor aguardava-me. A estrada continuava montanha acima. Estava mais íngreme, menos pavimentada. Meus pés faziam pedriscos deslizarem, e utilizei-me de raízes expostas para agarrar-me. Logo avistei, mais adiante, que a trilha estava rompida. Um deslizamento de terra. Do outro lado do abismo estreito que ele formara, pude ver, iluminada pela luz da lua, a erva do descanso.
Pensei em apenas esticar minhas pernas, torcendo para serem suficientes para alcançar o outro lado. Por uma minúscula diferença, isso seria improvável. Era arriscado. Então eu soube que saltaria. Aproximei-me da borda, testei-a com os pés; pedras rolaram até o fundo. Não escutei o som delas batendo lá embaixo. Inspirei, profunda e conscientemente.
De ré, fui afastando-me do abismo. Iniciei uma corrida — minhas costas gelaram — antes de saltar. Flexionei os quadris e… senti como se algo em minhas espáduas tivesse se rompido. Não houve som algum, mas a sensação era vivaz! Aterrissei do outro lado, e lá estava ela: a erva do descanso. Era linda! Não me contive diante da beleza; arranquei-a e macerei com raízes e tudo. Apliquei a pasta em meu pescoço e colo. Um toque gelado como o da morte espalhou-se por todo o meu corpo. Eu estava tão fria quanto um cadáver — e aliviada.
O alívio se desfez ao virar da curva. Do outro lado do abismo, onde eu acabara de estar, uma luz dourada rasgou o véu escuro da noite. Um som cadenciado e vagaroso rompeu o silêncio. Eram cascos de cavalo. Eu o vi. Estava longe; surgiu por entre a bruma noturna. Era um daqueles alazões que cruzaram meu caminho. O mesmo do cocheiro na floresta dos Pinheiros Tristes.
Apertei as mãos. Senti as batidas do meu coração acelerarem. Mesmo sentada, recuei. Meus olhos percorreram o caminho das patas ao lombo do animal, instintivamente. Então eu vi uma figura imponente sobre ele. Trajava um jaleco branco.
Acho que senti o sangue correr de minha face:
— Quem é você?
O alazão não avançou. Permaneceu imóvel à beira do abismo, como se a própria noite o mantivesse suspenso. Então relinchou — um som oco, espectral, que não parecia pertencer a um animal vivo. O cavaleiro apertou as rédeas com lentidão deliberada. Seu rosto não se deixava ver: era apenas um borrão instável, dissolvido na névoa.
Levei a mão ao rosto. Minha pele ardia, embora eu estivesse fria por dentro. O coração batia fora de compasso, e ainda assim eu não conseguia me mover.
Foi então que a frase retornou, intacta, como sempre retornava. Não como lembrança, mas como marca. Ferro em brasa pressionado contra a carne da memória.
“Há coisas que só podem ser aprendidas na hora certa.”
Ele dizia isso com calma. Com paciência. Como quem não avisa — apenas espera.
E, ao encarar aquela presença imóvel do outro lado do abismo, compreendi, com um terror mudo, que talvez aquela fosse a hora.
Revisado por Sahra Melihssa
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
27. Se eu esperar, a sepultura será a minha casa; nas trevas estenderei a minha cama
Data Incerta – Mara ainda dormia, inteira, ainda humana. E eu senti um golpe de alívio em meu peito, controlei minha respiração, pois não queria que ela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta – Mara ainda dormia, inteira, ainda humana. E eu senti um golpe de alívio em meu peito, controlei minha respiração, pois não queria que ela acordasse e percebesse o meu descontrole. Levantei-me em silêncio, mas não o bastante, pois Mara acordou, mas não se levantou de imediato. Lavei o rosto em uma bacia de metal e pude ver meu reflexo embaçado, meus olhos carregados de névoa, como se houvesse uma película esbranquiçada que parecia carregar em si as lembranças do sonho da noite passada. Sentei-me em uma cadeira perto da janela e fingi normalidade, enquanto Mara se levantava em silêncio.
— Você sonhou — disse ela, afirmando.
— Acho que todos sonham, não é? — eu disse, tentando soar irônica. — Espero não ter falado enquanto dormia.
Mara me olhou por tempo demais e depois desviou o olhar.
— Vamos sair da torre. Preciso falar com você longe de tantos olhos e ouvidos atentos.
Não a questionei, apenas a segui, e a ordem parecia nem se importar com nossa saída, ou fingia não se importar.
Fomos para a vila, poucas janelas abertas, poucas portas entreabertas e poucos olhos e ouvidos. Enquanto andávamos, tive a sensação de que cada casa tinha suas cores dessaturadas, com contornos levemente trêmulos, como se tudo à nossa volta estivesse envolto em vidro embaçado, e a névoa fixa no céu parecia um negativo mal revelado.
Cada vez que eu piscava para tentar desembaraçar minha visão, parecia que algo se movia fora do tempo normal; eu me sentia puxada para dentro de algo que não era eu. Mara notou meu ritmo alterado.
— Você está lenta — ela disse.
— Só estou tentando me manter acordada.
Ela franziu o cenho e continuou andando.
Vi então um pequeno cemitério entre as casas antigas, pedras partidas, alguns lápides sem nome, musgo crescendo suave. E ali, sobre um mármore branco, juro que vi algo por um segundo, como um livro. Pisquei e não havia mais nada lá, mas a sensação ficou, como se, a qualquer instante, uma lembrança pudesse me atravessar e apagar o agora. Paramos naquele cemitério, e Mara fez questão de verificar que estávamos sozinhas antes de começar a falar. Tínhamos apenas a companhia dos mortos, mas, depois de tudo que passei, eu não estava certa de que poderia confiar no silêncio deles.
— Aquelas mulheres, há algo de errado nelas — Mara começou a sussurrar bem perto de mim — a ordem nunca protegeu o castelo e também nunca interferiu no domínio de Drácula. Essa ramificação da ordem quer proteger o domínio dele por algum motivo, e não é por bondade no coração delas, isso eu tenho certeza. Há algo mais por trás disso. E por qual motivo agora a verdadeira ordem quer intervir?
Eu a ouvia, mas parecia que ela fazia essas perguntas a si mesma, e não a mim, que não possuía nenhum conhecimento prévio sobre a ordem. Eu apenas estava no lugar errado na hora errada.
— Aquelas mulheres no teatro não eram apenas espectadoras; elas estavam esperando algo — ela continuou.
Olhei para ela.
— Você?! — eu disse, surpresa com quão óbvio isso parecia.
Ela assentiu.
— A ordem nunca se preocupou com Drácula, nunca tive conhecimento de nenhuma de nós entrando no castelo, a não ser eu.
— Você acha que isso é por sua causa? — perguntei.
— Talvez, mas quando elas me viram ali, de frente para ele, inteira, isso deve ter dado a elas a ideia de que eu sou a porta de entrada para o castelo — seu rosto se contraiu.
— Então elas vieram atrás de você — confirmei.
— Não posso ter certeza, é tudo teoria, eu não sei o que pensar — o silêncio ficou entre nós.
— Tudo bem, você deve ter uma ideia do que elas podem querer de você, não é? — eu disse.
— Como eu disse, talvez eu seja a entrada delas ao castelo, mas a dúvida que fica é o que elas querem lá…
Enquanto Mara falava, o mundo parecia se deformar à minha volta bem devagar. As lápides, as árvores, as ruas pareciam ondular; as casas tremulavam de leve, e as sombras se moviam com atrasos. Tive a sensação bem nítida de que, se eu me deixasse levar, eu poderia cair em algo que não era eu. Não sei como explicar melhor, mas eu sentia que aquele algo, que não sei descrever, era algo fora de mim que estava dentro de mim. Senti que estava sendo observada e sacudi a cabeça.
— Elas sabem que não conseguimos voltar ao castelo? — eu disse, tentando ainda voltar ao normal.
— Talvez saibam, mas isso não irá impedi-las de tentar entrar — Mara falou e olhou para mim com mais cuidado. — Você também percebeu isso, não é? Que elas não são do tipo que desistem.
Assenti.
— Então precisamos de uma forma de voltar para o castelo sem levá-las conosco — falei, e ela soltou um riso breve e amargo.
— Quando se trata da ordem, não sei se isso será possível, mas podemos tentar. Agora, melhor voltarmos.
Voltamos a andar e começou como um erro de profundidade: o chão parecia estar logo ali, mas, ao pisar, ele cedia um centímetro além do que era esperado. Como um degrau que não existe, meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar, e meu coração deu um salto.
— Rute — a voz de Mara veio de longe, ou talvez muito perto; eu não conseguia distinguir.
A vila começou a perder a cor, as casas se tornaram tão pálidas que começaram a desaparecer e o céu ganhou uma aparência embaçada. Eu pisquei e um livro se abriu, mas não havia livro em minhas mãos; havia páginas sendo viradas em minha cabeça. Vi uma mulher que não era eu ajoelhada diante de uma lápide sem nome. Vi mãos pequenas segurando uma adaga grande demais. Vi sangue escorrendo sobre um tecido que já fora branco. Vi o rosto mais jovem de Mara, endurecido, mas sem o peso que hoje ela parece carregar, e aquele mesmo olhar de quem não sabe como voltar atrás. Tudo se movia com uma luz neon branca, fraca e pulsante. O torpor veio doce e terrível, eu sentia como se meu eu presente na realidade começasse a se soltar de suas costuras; senti meu corpo ficar pesado e distante, como se estivesse sendo abandonado de mim ou por mim mesma. O ar começou a ficar espesso demais para respirar. Duas fendas se abriram na névoa; eram olhos não hostis, mas atentos, e, ao vê-la, algo dentro de mim doeu com uma nostalgia que eu não reconhecia como minha.
— O que está te prendendo? — disse.
Senti outras imagens querendo emergir. O teatro, o caleidoscópio, Drácula aplaudindo, Mara sendo refeita diante dos meus olhos, meu próprio rosto sendo refletido dentro de um vidro infinito. Senti o presente perder a importância, meus joelhos falharam e minha mente também; então algo me puxou com violência para trás.
— RUTE!
Mara segurava meu braço com força suficiente para doer. Sua mão era quente, real, dolorosamente real. O mundo retornou de uma só vez, com brutalidade, e eu caí contra Mara. Respirei em golfadas curtas e descontroladas; eu senti como se estivesse me afogando de novo.
— Você estava caindo — disse ela, com a voz controlada, mas os olhos não.
— Eu vi coisas que eu não vi — eu disse, e percebi que não fazia sentido nenhum.
Ela fechou os dedos nos meus braços com mais força.
— O que você viu? — ela perguntou, séria demais.
Engoli em seco, ainda não entendia aquilo que observava por trás dos meus olhos.
— Lembranças que não são minhas, mas querem ser — eu disse, desesperada, e Mara ficou em silêncio, me observando por tempo demais.
— Vamos voltar, finja que está tudo bem e volte para o quarto — ela me encarava enquanto dizia o que eu precisava fazer.
Voltamos e entramos na velha construção onde a ordem estava e, sob os olhos daquelas que fingiam não se importar, voltei para o quarto, pois estava cansada demais para os vivos, para os mortos e para a ordem.
Mais tarde — Essa noite eu sonhei de novo, ou tive uma lembrança que não era minha, não sei dizer ao certo. No sonho ou lembrança, eu já estava triste sem saber por quê. O céu era de um cinza vazio, como se nada no mundo pudesse preenchê-lo. Não havia vento; as flores ao meu redor eram brancas demais, quase fantasmagóricas, e, a cada movimento meu, elas se duplicavam, uma após outra, depois três ou quatro versões atrasadas de si mesmas, como se cada movimento meu estivesse dando defeito no tempo. Eu caminhava sem destino, sem urgência. Tinha apenas um peso no peito, uma tristeza antiga. Então vi o mar, e ele recuava a cada passo meu, como se tivesse medo de mim. Meus pés sentiam ainda a areia úmida. Tudo permanecia imóvel se eu permanecesse imóvel. Tudo respirava se eu respirasse, mas nada parecia vivo de verdade. Foi quando tudo começou a se misturar. Vi minhas mãos segurando uma lâmina que nunca toquei. Vi o rosto de Mara jovem, endurecido por uma dor que não era minha, mas que doía em mim. Vi uma lápide sem nome que me despertava uma culpa sem motivo. Eu queria chorar, mas não sabia qual das versões de mim deveria. A névoa aumentou, e duas fendas se abriram nela. Olhos, os mesmos de antes, e, ao vê-la, senti de novo aquela nostalgia absurda que não era minha, de algo que nunca vivi.
— Você está se perdendo? — disse a voz que eu sentia conhecer.
— Isso é meu, essas lembranças? — perguntei, e os olhos me observavam sem piscar.
— Agora é.
Olhei para baixo, meus pés não tocavam o chão e eu caminhava sobre aquela água inexistente, feita de lembranças alheias e das minhas lembranças. Eu olhava para elas, e a sensação era de que tudo estava prestes a desaparecer. Vi cenas que não reconheci como minhas. Senti medo, mas não o medo desesperador; foi mais um cansaço, pois eu estava farta de existir há muito mais tempo do que minha vida permitia.
— Se eu ficar aqui, isso passa? — perguntei.
— Nada aqui passa — a coisa respondeu — tudo apenas se sobrepõe.
Meu peito apertou e uma tristeza que eu reconhecia como sendo mesmo minha cresceu. Junto com aquela sensação de que existir havia se tornado pesado demais para uma vida só. Foi quando ouvi, de muito longe, meu nome sendo chamado, como se estivesse atravessando diversas camadas. A paisagem começou a rachar, as flores se desfizeram e o céu cinza se desfez. Os olhos recuaram.
— Volte ao cemitério, você ainda tem onde cair — disse a coisa.
E eu caí. Acordei com o peito em convulsão e o ar entrando como golpes em meu pulmão, como se eu tivesse sido puxada com violência, outra vez, do oceano. Meus olhos avistaram os de Mara, desesperados, e, como sempre, não sei dizer se era preocupação com a minha vida ou com a dela, que estava presa à minha, mas era uma preocupação genuína. Eu estava em seus braços novamente.
— Precisamos voltar ao cemitério agora — puxei o ar e disse, em desespero.
Saímos e fomos em direção ao cemitério. Não vi ninguém lá a princípio, mas tinha a sensação de estar sendo observada; foi então que os vi perto de uma lápide sem nome.
— Ali, você está vendo isso? Está vendo eles ali? — apontei para a lápide para confirmar que Mara via o que eu via.
— Eu não vejo nada — ela disse, negando com a cabeça — me diga o que você vê.
— Corpos imóveis, roupas que não parecem pertencer a tempo nenhum e os rostos em espiral. Não são máscaras, eles são mesmo assim, retorcidos por dentro, como se seus rostos tivessem sido entortados até chegar ao abismo da alma — disse a ela.
Mesmo assim, eu me sentia observada por aquelas faces sem olhos que conseguiam me atravessar. Eles continuavam parados, apenas observando, e eu comecei a caminhar, e eles continuavam lá, parados e distantes. Cada passo meu os tornava sutilmente mais próximos. Eu senti que não deveria chegar a eles rápido demais, mesmo que eu quisesse. Mara perdeu o foco, e eu sabia que ela falava algo, mas não conseguia escutá-la. Então um deles se aproximou o suficiente e não tocou em mim, apenas inclinou a cabeça e sussurrou:
— Esta não é sua, e não tem relevância.
Senti algo sendo arrancado de mim, mas não senti dor, e sim alívio. Sabia que algo tinha sido levado, mas não sabia o que. Então outro rosto em espiral se aproximou de mim e também arrancou algo.
— Essa você não vai precisar — sussurrou para mim.
Depois, um terceiro rosto em espiral e, ao invés de tirar, empurrou algo para dentro de mim. Minhas mãos começaram a tremer. Um outro rosto chegou mais perto, tão perto que quase chegou a me tocar. Então senti um incômodo, uma queimação na ideia de ser quem eu sou. Eu sentia como se uma parte de mim tivesse sido raspada por dentro, bem devagar, mas não como lâmina; era com algo mais bruto e doloroso. Comecei a gritar e eles continuavam me olhando sem olhos. Vi um rosto em espiral que parecia o meu ou que viria a ser o meu. Me sentia desorganizada dentro de mim mesma, reescrita. Apenas me lembro de ser arrastada com violência, vozes em torno de mim, os olhos de Mara em desespero, mãos me apertando e a sensação de que algo foi roubado e que algo que nunca foi meu crescia dentro de mim.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
9 - Toda dádiva reclama seu tributo
Diário de Sibila von Lichenstein. (Sem data - que dia é hoje?) A partida de Arale deixou um vazio em meu interior. Era curioso — talvez até contraditório…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
(Sem data - que dia é hoje?)
A partida de Arale deixou um vazio em meu interior. Era curioso — talvez até contraditório — que ela, tão claramente não humana, tenha sido a primeira criatura a me tratar como igual neste mundo. Porque aquele braço, e os apetrechos que manejava com tanta maestria, não pareciam pertencer a este tempo, nem a este plano. Nunca vira algo semelhante, e essa estranheza me dizia, sem palavras, que Arale não era feita da mesma matéria que eu. E, talvez por isso mesmo, soubesse: Arale, assim como eu, também não pertencia a lugar algum. Pois tanto ela quanto eu ansiávamos por algo — não algo que pudesse ser tocado com as mãos, mas algo que preenchesse de dentro para fora. E não saber exatamente o que era essa coisa tornava o buraco ainda maior. Sua companhia nos últimos dias me fez recordar os tempos em que passava as tardes na faculdade, auxiliando minha amiga Eleanor, que era assistente de laboratório. Amigos verdadeiros como Eleanor são raros — e Arale dera sinais de que, se o destino e nossos anseios não tivessem nos afastado, seríamos grandes amigas.
Apesar de ela ter me guiado até aqui, cuidado de mim, dividido sua comida e quase dado a própria vida para me salvar — e por mais grata que eu esteja por isso — ainda assim, sinto-me extenuada.
Acho que nunca irei me perdoar por ter atraído Eleanor para as garras de Frankenstein, por mais que, à época, eu não soubesse das verdadeiras intenções dele.
Ao mirar-me no reflexo de uma poça esta manhã, percebi que os hematomas que o fantasma de Eleanor — ou o que quer que tenha sido aquilo — deixara em meu pescoço se alastravam agora pelo colo. Algumas ervas que Arale me ensinou a macerar estavam retardando esse efeito, mas algo me dizia que eu não tinha muito tempo. À medida que a mancha crescia, menos vontade eu tinha de viver. Menos necessário se tornava o ato de falar. Urgia a vontade de sobreviver, se movimentar. Mas agora, diferente de muitas outras vezes, eu sabia para onde estava indo.
Resgatava forças das profundezas do meu ser para continuar caminhando. Minhas roupas ainda estavam úmidas do orvalho da manhã recém-anunciada. Além do ardor do hematoma — que queimava como fogo sorrateiro em meu peito — todo o meu corpo gritava por descanso. Eu estava cansada. Mas seguiria em frente. Ou melhor: para cima.
As parcas indicações diziam que Séttimor estava logo ali. Mas, para alcançá-la, era preciso seguir por uma trilha estreita de terra que serpenteava ao redor de uma montanha alta, feita de formações rochosas tão escuras quanto o ébano. Ao menos, era o que dizia o mapa desenhado na página arrancada do livro de botânica. O terreno começava a se elevar gradualmente, e continuei subindo até encontrar o início de uma trilha estreita que parecia seguir para o alto da montanha. No início da trilha, uma placa de madeira desgastada em formato de seta, pregada sobre um cepo, apontava para cima. Tive de passar os dedos sobre ela para ler as palavras quase apagadas pelas intempéries: “Vila de Séttimor”. Segui pela trilha, animada por estar no caminho certo.
Ao contornar uma das curvas, rastreando o chão em busca da erva do descanso, não ouvia som algum — apenas o vento, cada vez mais cortante. Eu sabia que estava só. Procurava não olhar muito para cima; mantinha os olhos no chão pedregoso, até que decidi parar para descansar aos pés de uma conífera enorme. Minhas roupas não eram para aquele clima frio e úmido, e a temperatura caía à medida que eu subia. Então o frio se apoderou de mim, invasivo e cortante. Percebi que não deveria ter parado. Aquele frio me lembrou do dia em que a lareira se apagou após a morte de meu pai. Eu estava deitada sobre o corpo gélido dele havia horas, mas só começara a sentir frio quando o fogo se apagara.
Era inverno, e era necessário que a lareira fosse constantemente abastecida para nos manter aquecidos. Mas meu pai sucumbira à peste — e eu, com ele. Nada vagava pela minha mente, a não ser o desejo de morrer. Lembro-me do corpo dele perdendo o calor, e com esse calor se esvaía também toda a garantia de que eu estava segura no mundo. Eu não comera, não me levantara para urinar, não dormira... Tinha a impressão de que já não estava mais viva. Quem cuidaria de mim? Recordo-me apenas da sucessão de claros e escuros através do vidro embaçado da janela, marcando a solidão que durou dias.
Foi então que ele apareceu. Primeiro, batendo à porta e espreitando pelo vidro da janela de nossa humilde cabana. Como eu não fizera menção de me mover ou responder, abriu a porta, que estava desimpedida.
— Santo Deus, finalmente a encontrei! Estava preocupado. Você simplesmente não veio mais ao trabalho. Perguntei de você para os alunos e professores, mas ninguém sabia dizer. Parece que não é muito sociável com os outros, não é, menina? Venha... me dê a mão. Deixe-me ver o que posso fazer pelo seu pai.
Eu já conhecia o doutor, mas nunca imaginara que ele viria atrás de mim. Pois, antes de me levar para morar com ele, eu não era estudante de medicina — era apenas assistente de laboratório. Minha função era limpar os corpos doados para estudo e cuidar da manutenção dos laboratórios da faculdade de medicina. Mais especificamente, era assistente do Dr. Frankenstein. Ele não se acertara com nenhum outro, e isso, para mim, era formidável, porque me permitia perguntar, observar e aprender. Mesmo que a universidade não permitisse alunas — apenas homens podiam se matricular — eu alimentava a ilusão de estar mais próxima do meu sonho. Mas era apenas isso: uma ilusão. Eu nunca seria aceita como estudante. Eu era uma mulher pobre e fraca, filha de um simples camponês.
Talvez seja por isso que aceitei a oferta de Viktor, morar em sua casa, sob a desculpa de que seria sua assistente particular em projetos pessoais que não envolviam suas atividades na faculdade. Em troca, eu poderia continuar sendo sua assistente na faculdade e assistir a todas as suas aulas, contanto que ficasse quieta e perguntasse apenas ao final. A morte de meu querido pai fora traumática, mas foi o que me catapultara. Em alguns meses, eu não era apenas assistente dele. Graças ao prestígio e após entrevistas com os professores donos das bancas do alto conselho da universidade, eu me tornei a primeira aluna mulher do curso.
Foi nesse mesmo período que Viktor passou a me chamar com frequência ao seu consultório, sempre com o pretexto de revisar gráficos e anotações de galvanismo.
— Sibila, minha querida, conseguiu terminar de revisar os gráficos de ontem?
— Ainda não, Dr. Frankenstein. Fiquei até o término da minha aula e depois fui para casa, fiquei estudando até tarde. Mas prometo que hoje terminarei.
— Eu já não te avisei de que o trabalho aqui do laboratório precisa estar em dia, Sibila? — perguntou com a cabeça baixa, mas os olhos azuis cravados em meus olhos.
Eu me virei, tentando disfarçar a minha preocupação.
— É claro, doutor! Me perdoe, acho que posso deixar de assistir a minha última aula, para vir até aqui e revisar.
— Mas por que não revisa agora, já que está aqui, minha cara? —
Aproximou-se sorrateiro, e falou próximo a mim, baixo e em tom professoral: — Entendo que dê valor aos seus estudos, mas espero que entenda também que nenhuma mão que nos estende algo, sairá vazia... Tudo tem um preço, ainda que não seja dinheiro. Por exemplo...
Senti seus dedos deslizarem da base do meu pescoço para o topo da nunca, enquanto fazia isso, terminou de falar:
— Eu dou a faculdade destaque com minhas pesquisas inovadoras no campo da medicina. O galvanismo pode ter aberto as portas, mas serei eu, o primeiro médico a fazer o ser humano a... Bem, não preciso falar sobre minhas pesquisas, você as conhece bem. O que queria dizer é que dei prestigio a essa casa de ensino e em troca pude cobrar favores, como exigir que a faculdade oficializasse o que já fazíamos, oficializando-a como minha aluna. Ou acha que, se você viesse bater à porta deles, como uma camponesa órfã de pai e de mãe, eles te dariam ouvidos? Eles sequer abririam as portas para te receber. Portanto, você deve se dedicar aos estudos, mas não se esqueça de que também me deve algo, certo minha pequena? — Agora a mesma mão que passeara pelo meu pescoço, enlaçando as pontas dos dedos nos cabelos finos e quentes da minha nuca, agora tentavam enlaçar a minha cintura.
Afastei-me um pouco assustada, mas mantive o rosto e o meu tom sério:
— Claro, doutor. Eu irei me dedicar.
Ele sorriu satisfeito. Olhou por cima das lentes dos óculos, o olhar cortante como gelo:
— Claro, querida, tenho certeza de que não vai me decepcionar, não é mesmo?
Seria aquele o primeiro sinal? Será que eu deveria ter percebido que Viktor era muito mais do que apenas um professor bondoso tentando ajudar uma órfã, filha de um velho conhecido seu? Naquele dia eu não percebi nada, eu nem sabia porque aquele toque me incomodara tanto. Mas, de alguma maneira, ele fizera os sinais de alerta do meu corpo tocarem: pelos eriçados, o coração acelerado, a respiração no limiar de se descontrolar, não fosse o meu foco nos gráficos de galvanismo.
— Quando terminar, cara aluna, venha para casa. Aguardarei você para o jantar.
Viktor saiu, não sem antes me lançar um olhar de contentamento. Sorri de volta, mais por educação do que por vontade. Eu sabia que não podia desagradá-lo; qualquer deslize poderia colocar em risco o meu futuro promissor na medicina. Após terminar de analisar os gráficos e deixar os resultados sobre a mesa do seu escritório, atravessei os corredores em direção à saída.
No corredor, dois retratos enormes dominavam as paredes: Bismarck e Humboldt, erigidos quase como ícones de devoção. Diante deles, dois alunos discutiam as teorias mais modernas. Lembro-me de ouvir as palavras galvanismo e eletricidade, mas, à medida que me aproximava, percebi que a conversa rapidamente se inclinava para a política, que definitivamente não era o meu foco. Eu não compreendia como aqueles homens jovens e privilegiados poderiam alegra-se tanto com a perspectiva que a guerra trazia, eles se consideravam os “soldados do conhecimento”. A meu ver: tolos. De qualquer forma, quem era eu para mudar alguma coisa nesse mundo, se nem senhora da minha própria realidade eu era? Eu sabia bem como me viam: uma mera trabalhadora, igual a tantas outras…
Ao longo dos outros corredores, as vozes se multiplicavam e ecoavam contra o mármore frio das paredes. Jovens exaltavam a promessa de uma Alemanha unificada sob a força de Bismarck, outros comentavam sobre as campanhas militares iminentes, como se a guerra fosse apenas mais um experimento inevitável. Entre eles, alguns exaltavam os avanços da medicina e chamavam Viktor de “o futuro da ciência prussiana”. Eu caminhava em silêncio, absorvendo cada palavra como quem ouve o cântico de um templo ao qual nunca pertenceria.
Um galho caiu próximo de mim, me despertando do transe em que as lembranças sobre Viktor me colocavam. Estava exausta, mas parar, naquele frio significava morte. Não precisava ser estudante de medicina para saber disso, eu precisava levantar. Então, para colocar o corpo em movimento, decidi colocar a mente para funcionar primeiro. Coloquei o meu diário sobre as minhas coxas e comecei a escrever. Eu ia escrevendo e transmitia as palavras de meu íntimo para o papel, as letras saíam trêmulas, mas não vacilantes:
“Hoje, pensei em Viktor novamente. Me surpreendi ao sentir falta dele. Antes dele, eu era uma camponesa órfã e desempregada. Depois dele, eu era a assistente estudante de medicina do Dr. Frankenstein. Eu era a mulher, dentre tantos homens, eu era a grande escolhida, o mais novo prodígio que se sobressaíram aos olhos dele. Assim eles diziam, mas eu sabia que era só órfã e útil. Hoje eu sei, ele se achava um deus e eu era seu sacrifício.”
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Delírio Febril
Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro? Abro a porta, olho em volta e, aparentemente, não há ninguém. Perambulando, encontro um dos muitos corredores existentes; conforme atravesso, lembro do encontro interessantíssimo que tive com o professor Monm, uma figura distinta. Dificilmente esqueceria o brilho em seus olhos, pois ele é semelhante ao meu... gostaria muito de ser uma de suas alunas, tenho certeza de que seu conhecimento seria de valor inestimável para mim. Espero que o Castelo proporcione nosso reencontro.
Ao final do corredor, encontro o grandioso salão, palco de uma noite memorável. Foi exatamente aqui onde ocorreu o primeiro baile de máscaras. As lembranças que pareciam estar adormecidas despertam com mais intensidade. Imediatamente, vislumbrei o vazio se materializar através de memórias fantasmagóricas.
Com clareza, vi o lugar sendo ocupado por mulheres e homens em trajes de gala, ostentando suas exuberantes máscaras. Reverberava em meu ouvido as funestas notas da peça Toccata and Fugue (música tocada pelo quarteto naquela ocasião). Contemplo os vultos em longos vestidos rodopiando em tonalidades diferentes, sem contar aquele vertiginoso encontro com aquela criatura lúgubre de olhos azuis, tão enigmáticos quanto a vastidão do universo.
Defronte para o silêncio, sussurro seu nome com a delicadeza de quem assopra a chama de uma vela: “Nickollas”. Meus caninos sobressaltam; não consegui disfarçar o desejo sombrio. Fito a janela onde ele me levou naquela noite para observar a túrgida lua — lembro de como a veia em seu pulso resplandecia à penumbra do luar e do excitante som ao rasgá-lo.
Mas algo me trouxe à tona: um brilho arcano de tonalidade magenta surgia pelos arredores do Castelo. Conforme ia se aproximando, clareava o recinto. O que será isto? Assustada, vou até a janela e a atravesso. O frescor da brisa toca minha tez ávida (não lembro a última vez que saí do Castelo).
Era impressionante a dimensão da névoa. Via-se pouquíssimo do firmamento, assim como a vasta e verdejante vegetação composta por exuberantes carvalhos com suas belas folhas, altas faias, baixos arbustos e, pelo chão, gramíneas cresciam desenfreadamente. Avisto uma esguia trilha que se estendia mata adentro; decido segui-la.
Nos primeiros passos, um frescor inexplicável invade meus pulmões, como se ali tivesse caído uma forte chuva. Tive a nítida sensação de que a vegetação se movia, como se estivesse respirando. Abaixo e inspiro aquele cheiro melancólico; então, enterro meus dedos sob aquele solo úmido, deixo escapar um gemido inaudível, acompanhado de intenso salivar. Retiro-os ainda úmidos (isso foi intenso) e sigo em frente.
A bruma que outrora era magenta adquiriu tons em escarlate e também ficou mais densa. Após muito caminhar, tenho um vislumbre espetacular: perante a mim, erguia-se um arco esculpido em mármore branco, de altura considerável. Os galhos das faias abraçaram aquela estrutura com afinco.
Estava perplexa com este lugar. Será que acessei outra realidade? Um brilho longínquo surgia dentro da mata. Munida de curiosidade e excitação, atravesso e, mais alguns passos à frente, encontro uma ampla piscina. Parece ser profunda, sua borda feita do mesmo material do arco. As águas eram serenas e sombrias, de mesmo tom da névoa, porém a cor escarlate era predominante.
Um incontrolável desejo de mergulhar se apoderou de mim. Estava prestes a realizar tal ato quando ouço passos em meio à névoa. Sem dúvidas, uma visão espantosa, semelhante a uma aparição fantasmagórica, movia-se com espantosa graça. Parou em frente à borda; então, tive um vislumbre estupendo.
Uma figura feminina, de altura média, sua pele lívida, semelhante a uma boneca de porcelana, dona de uma beleza arrebatadora. Seus olhos eram um excitante enigma o qual adoraria desvendar. As sobrancelhas eram arqueadas, o nariz afilado, emoldurando aquele rosto, longos cabelos negros com duas mechas brancas, chegando na altura dos quadris.
Usava um vestido translúcido; havia rendas francesas tanto na barra como no provocativo decote, ressaltando ainda mais os esplendorosos e firmes seios. Caminhava naquela névoa, tal qual uma bailarina.
Mesmo sem saber a natureza daquela aparição, anseio ardentemente possuí-la. Assisto-a andar pela borda com muita destreza. Em certo momento, ela mergulha a ponta do seu pé direito na água, espalhando gotículas vermelhas no ar, maculando o vestido, assim como a borda. Vi nascer de seus lábios um sorriso tão enigmático quanto o da Mona Lisa.
É impressionante o poder que ela exerce sobre mim. Seus gestos suaves afloram meu lado selvagem, atiçando uma luxúria quase obscena. Um desejo ancestral floresce do meu âmago; nunca pensei que fosse sentir tais sentimentos.
Desenvolvo uma certa obsessão, beirando ao voyeurismo. É excitante pensar na possibilidade dela estar me vendo... Depois de andar, ela senta com elegância e toca suavemente as águas com os dedos indicador e médio em movimentos circulares, criando calmas ondas. Hipnotizada, contemplo seu reflexo distorcido; então, escuto um sussurro vindo da criatura:
— Me chamo Olívian d’Nehr — finalmente pude ouvi-la. Sua voz era doce e irresistível, como o licor das maçãs sangrentas.
O movimento circular se intensificou, deixando a água cada vez mais agitada. Aquele som fez meu corpo contorcer em espasmos libidinosos. Das minhas entranhas escapam gemidos, até que os movimentos cessam (mas as águas permaneceram inquietas, assim como meu âmago). Em seguida, fitou-me e sorriu, enquanto meu colo pulsava em descompasso. Das águas, ergueu os dedos e me chamou silenciosamente; assim o fiz, caminhei ao seu encontro, sem questionar.
Olívian estava de pé, parada. Seus cabelos bailavam com muita leveza ao som dos ventos. Então, fechou os olhos e despiu-se. Fui acometida por um estado febril intenso; abracei a volúpia com fervor. Neste momento, éramos como Adão e Eva na imensidão do Éden e estávamos prestes a morder o fruto proibido. Gostaria de ter pincéis, tintas e um quadro para eternizá-la; seria uma pintura digna de filas quilométricas, sua beleza era assustadora.
Me despi com uma certa rapidez. Vi seus olhos castanhos escuros brilharem diante do meu corpo nu. Finalmente, estou face a face. Sua respiração tranquila, porém quente, toca meu rosto. Ela tinha as mesmas expressões da pintura “Deusa Vênus” feita pelo talentoso pintor italiano, Sandro Botticelli.
— É um prazer inefável conhecê-la, Olívian — as palavras foram silenciadas pelo desejo. Meneou a cabeça cordialmente, seguido do sorriso enigmático. Ouço novamente mais um sussurro: — Acompanhe-me.
Caminhamos por algum tempo até que avistamos uma frondosa árvore a qual me era familiar. Reconheceria aqueles frutos até de olhos vendados. Daquela árvore vinham as afrodisíacas maçãs sangrentas. Olívian pegou uma das inúmeras maçãs, olhou ardentemente em meus olhos e mordeu com avidez, espalhando pelo ar gotículas. A espessa seiva também serpenteou por entre dedos, mãos, queixo, pescoço, passando por entre o colo, cessando em suas pernas.
Ela me oferece a maçã; mordo com vontade, sinto novamente aquele gosto sombrio, porém inesquecível. Deixo a maçã escapar de minhas mãos. Banhadas pela bruma e pelo tênue luar, nossos corpos ardentes se entrelaçam, tornando-se um só. Sob o úmido chão, me entrego ao oceano de prazeres e libertinagem inimagináveis.
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Balthazar Crown – O Chamado do Castelo
A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu — abandonada em um fim de agonia, sem consolo, sem salvação.
Balthazar repousou a pena. O silêncio que se seguiu era denso, como se o próprio ar lamentasse. Então veio a recompensa: um calor súbito percorreu suas veias, reacendendo-lhe a vitalidade; a pele pálida brilhou com frescor juvenil; os músculos se retesaram com a firmeza de quem jamais conheceu decadência.
E então vinha o deleite. Não simples vigor, mas um arrebatamento febril, comparável ao êxtase da carne. Cada fibra de seu corpo vibrava como se mãos invisíveis o percorressem. O calor que lhe incendiava o peito não era apenas vida — era gozo, puro e incontido.
A imortalidade lhe trouxera a dádiva de provar todos os sabores da carne e, ao mesmo tempo, o fardo de que nenhum sabor permanecia por muito tempo. Mulheres, homens, corpos cis e trans, ativa ou passivamente — a eternidade lhe dera palco para todas as formas de prazer.
E, ainda assim, o tédio era sua sombra inseparável. Até o êxtase, quando repetido, tornava-se um abismo de monotonia. Talvez fosse por isso que a dor de seus personagens o excitasse tanto: era a única novidade capaz de incendiar-lhe a alma já cansada.
Ergueu-se da cadeira, esguio, elegante, com o porte ereto de um príncipe amaldiçoado. Atravessou o aposento até uma mesa lateral, onde repousava uma taça de cristal. Serviu-se de vinho vermelho-escuro, tão denso que lembrava sangue coagulado.
Elevou a taça na penumbra e brindou com a ausência invisível. — Mais um, minha silenciosa companheira. Mais um que se extingue para que eu continue. Tu não me tomas, mas jamais me deixas. Brindemos, pois, à eternidade que me cobra sempre em sofrimento alheio.
O cristal soou no vazio, e nenhum eco respondeu.
Foi então que o ar se quebrou. Não em som, mas em essência. O vinho tremeu dentro da taça, as velas se curvaram todas em uníssono, e um frio atroz se ergueu das pedras do chão, escalando-lhe os ossos como serpentes geladas.
Balthazar não piscou. Observava. Notou que as chamas não vacilavam ao acaso, mas oscilavam num mesmo compasso. Notou que o frio vinha em pulsos, intervalados como batidas de coração. Notou, sobretudo, que não estava só.
Uma presença sutil, quase imperceptível, pairava no ar. Algo invisível o estudava, respirava junto às suas palavras, como se o chamasse para atravessar os limites do aposento. O ar pulsava, pesado, e o frio que subia pelos ossos parecia guiar seus passos para um destino além da realidade conhecida.
A sombra diante dele não possuía forma fixa. Oscilava, dobrava-se, esticava-se. Em certos instantes lembrava um véu flutuando; em outros, curvas insinuantes, bocas que suspiravam, rostos deformados — talvez ecos das vítimas que enterrara em suas narrativas. O aposento inteiro cheirava a livros úmidos e a perfume noturno, como se cada palavra escrita por suas mãos tivesse se dissolvido no ar para compor aquele espectro.
Um homem comum teria recuado, mas Balthazar sorriu. — Ah… então és tu quem me observa quando escrevo.
Os olhos treinados dele conseguiram captar um espectro. Era parecido com as manifestações espectrais de seus personagens, que surgiam diante de si após escrever seus finais trágicos e dolorosos. Mas tinha algo a mais. Uma atração quase irresistível. Era como se a pena que repousava em seu bolso o puxasse na direção dela, como se o próprio ar o acariciasse.
Um passo na direção da presença e o chão dissolveu-se. As paredes tombaram como cortinas rasgadas. E ele caiu — não em queda, mas em transição. Quando abriu os olhos, o mundo era outro.
À sua frente erguia-se uma fortaleza impossível, construída à beira de um penhasco sem fim. Suas torres góticas se retorciam em direção ao céu, mas o céu era um vazio sem estrelas, um firmamento oco que não conhecia sol nem lua. As muralhas respiravam em silêncio, como se cada pedra fosse parte de um corpo vivo.
E os jardins… Infinitos. Labirintos de flores negras e árvores que se curvavam em ângulos proibidos, multiplicando-se como reflexos em espelhos partidos. As estátuas, espalhadas em meio à vegetação, fitavam-no com olhos que se moviam quando não eram vistos. Algumas possuíam corpos nus entrelaçados, contorcidos em êxtase petrificado. Pétalas úmidas brilhavam como se estivessem molhadas de lágrimas — ou de suor.
Balthazar caminhou até a beira do abismo. O vento inexistente não lhe tocava o sobretudo, mas ainda assim ele se abriu, como asas prontas a alçar voo. Seus olhos azul-acinzentados refletiam o nada infinito.
Ergueu a taça de vinho que ainda segurava. O líquido permanecia intacto, como se tivesse atravessado os mundos com ele.
— Eis teu palco, morte. — Ele sorriu com cinismo. — Ainda não ousas tocar-me, mas ainda assim me segues. Que teatro sem tempo é este, que aguarda pela minha pena?
O silêncio respondeu, profundo, eterno.
Mas então, outra voz se ergueu — não vinda do vento, mas da própria essência do abismo. Era doce e terrível, como sinos fúnebres ao longe, e carregava um perfume que lembrava tanto o velório quanto o leito.
— Chamam-no de Castelo do Drácula. — A figura surgiu diante dele, moldada em beleza impossível. Seus cabelos eram véus de treva, sua pele, mármore iluminado por uma luz sem fonte, e seus olhos, dois poços nos quais todos os séculos afundavam. — Um lugar fora do tempo, fora do espaço. Se chegou até aqui, é porque já o aguardavam. Mas não cabe a mim lhe explicar mais.
Balthazar sorriu com ironia suave, erguendo a taça na direção dela.
— E por que não vens comigo? Foste minha única companheira verdadeira por todas essas décadas.
Os lábios da Morte se curvaram, entre riso e desdém.
— Seria deveras interessante, Balthazar. Mas não fui convidada. Você sim. O que começa aqui, no receptáculo que se alimenta das tuas palavras, é apenas o primeiro capítulo.
O vento inexistente silvou como gargalhada. A Morte sorriu pela última vez — gesto que era tanto consolo quanto sentença — e então se desfez no ar, como névoa tragada pelo próprio vazio. Nenhum passo, nenhum som: apenas deixou de estar, tão abrupta quanto surgira.
Balthazar, sozinho outra vez, voltou-se para os portões colossais do Castelo. O vinho ainda repousava intacto em sua taça, e seu reflexo nas paredes vivas parecia observá-lo com expectativa. Ele respirou fundo, bebeu o líquido em um gole só, e uma centelha de júbilo percorreu-lhe o olhar.
— Está certo, então. A eternidade já estava ficando entediante. Aqui inicio um novo capítulo na minha história.
E caminhou, sem pressa, como quem escreve as próprias páginas com o simples peso de seus passos, sem saber ainda todos os segredos que aguardavam por ele no coração do Castelo Drácula.
Hel J. L. Costa
Hel J. L. Costa é escritor, poeta e editor da Editora Helden. Sétimo filho, nascido em Ribeirão das Neves (MG), em 1985, encontrou na escrita uma vocação desde a adolescência. Dedica-se a obras de fantasia, terror e temas sobrenaturais. Participa de diversas antologias e é autor do romance A Donzela e o Vampiro, disponível na Amazon. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Encontros tórridos com Eco reinventada
Contornei as curvas do belo corpo. Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Por Alana Mortensen
Contornei as curvas do belo corpo.
Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o sexo e rosto pueril, os dentes alinhados, sem a brancura excessiva resultado de tratamentos estéticos. A textura e odor das flores era o que mais me aprazia — podia sentir o frescor agradável tocar minhas narinas. Os efeitos que a iluminação e perspectiva suscitavam em sua tez reforçavam o cenário onírico.
O balanço gentil do rio acalmava quaisquer perturbações. Técnica ou efeitos do Castelo na tela?
O líquido carmim, que aspergi em seu colo, realçava a beleza delicada, primal e arredia. O processo contínuo e minucioso acalmou as elucubrações daquele dia, mas garras de perturbação insistiam em se engalfinhar na obra. O êxtase era obtido sem pressa.
Éramos peças postas de forma estratégica no tabuleiro-tela.
Aquela figura suave parecia desfilar na tela, meus pincéis já sabiam acompanhar seus intentos. Desnudava-me de meus preconceitos, deslizando por entre caprichos de Eco. A forma corpórea perdia-se entre as névoas magentas; a superfície assemelhava-se a espelho d'água. Contemplava a mim?
“Venha, não tenha medo... medo... edoo... edoo”, a voz vacilante, afogada pelas águas que abarcavam suas pernas; o olhar fixado, como quem não esmorece diante de nada; a mão estendida, convidativa, exercendo influência sobre mim. Tal qual fora a minha chegada a este Castelo, fui persuadida a adentrar aquele mundo rubro-desbotado. As águas do meu interior fervilharam ao tocar a mão fria, mas macia.
Meu quarto transformou-se no cenário irretocável, irreal e plástico. Eco escancarou a porta, cujo olho-mágico era a tela. Hipnotizada, deixei-me conduzir por seus encantos, sem conseguir emitir som, pois voz não fazia parte daquele momento pictórico. Deslizamos sobre a relva úmida, recordando sensações há tempos adormecidas.
Já tiveste contato verdadeiramente íntimo com alguém, a ponto de não precisar estimular as terminações nervosas da flor que desabrocha na adolescência, mas mesmo assim, sentir-se em estado de êxtase? Conseguiria afirmar que isso é possível?
Decorreram-se horas ou dias, isso não tem importância, o tempo já me é alheio. Após esses primeiros contatos, físicos ou metafísicos, chegamos ao seu lugar de refúgio, um reservatório com águas calmas e rubras, vigiado por oito colunas, com seus capitéis dóricos suntuosos, dispostos como voyeurs das nossas tórridas aventuras. Minhas mãos percorriam ágeis, agora sem pincéis, as curvas de Eco. Sentia-me fadigada, mas não conseguia interromper o ciclo retroalimentado pelo deleite extraído e provocado.
Continuei nessa posição até sentir uma pressão no tornozelo, que logo transformou-se em agonia. Recobrei meus sentidos e percebi que Lisa cravara suas presas com afinco. Por que não gritara?
— Não era Eco, mas uma criatura maléfica. Chamei reiteradas vezes... Esta foi a forma de trazê-la de volta. Ela minaria suas forças até você ... — respondeu, hesitante, e adivinhando meus pensamentos.
Meu braço ainda exibia a marca do beijo-toque, feito ferro em brasa, que a tinta fresca imprimiu em mim. Eu não saíra daquele quarto e, agora sabia, algo maléfico viera ao meu encontro.
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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26. Diário da irmã da Ordem III
A voz sempre esteve lá, não como um grito, nem como uma ordem, mas como um sussurro paciente no fundo da minha cabeça, sugerindo e esperando…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 5 de outubro de 1374
A voz sempre esteve lá, não como um grito, nem como uma ordem, mas como um sussurro paciente no fundo da minha cabeça, sugerindo e esperando sua vontade ser feita. Quando eu era mais jovem, acreditava que todos ouviam algo assim, que todos sentiam um vazio que precisavam preencher de qualquer forma, mas percebi que o que para os outros não passava de um pensamento momentâneo, para mim era uma vontade constante que precisava ser saciada. Irmã Teodora percebeu, ela sempre percebe tudo com aqueles seus olhos argutos; desde que entrei para a Ordem, ela me observa, medindo cada ação minha. Minha última missão, um tanto chamativa, só confirmou o que ela já desconfiava, e quando chegou à conclusão, não demonstrou medo ou repulsa, apenas veio até mim e me falou das regras.
“As leis da Ordem são a lógica em sua forma mais pura”, ela disse calma. “Elas existem para orientar aqueles que precisam de orientação”. Então ela criou um código, diretrizes adaptadas dentro das leis da Ordem, limites que eu deveria respeitar para uma boa convivência dentro da abadia e fora dela. Não era por moralidade que ela fazia isso, mas por necessidade de me fazer escolher entre um impulso sem propósito e um propósito que serviria a algo muito maior. Se eu fizer a vontade da voz, seguindo as regras obviamente, a voz se acalma, não desaparece, ela sempre está lá, mas fica satisfeita. Sei que irmã Teodora confia em mim para segui-las, sei também que se eu quebrá-las, ela será a primeira a me punir e com razão. Ainda tenho dúvidas se é pelo propósito que continuo aqui ou se pela facilidade de matar sem ser punida; talvez seja por isso que ela continua a me observar.
Data: 15 de outubro de 1374
Hoje fui acompanhar os moribundos, tarefa da Ordem que acho tediosa. Irmã Teodora me levou até um quarto onde jazia a irmã Anatólia; seu corpo estava definhando e sua mente se agarrava à vida, ela não queria partir. “Não podemos impedir a morte, mas podemos torná-la suportável”, disse irmã Teodora. Sentei ao lado da irmã Anatólia e segurei sua mão; sua pele era fina ao toque e seu pulso estava fraco. “Ouça-a”, irmã Teodora ordenou e saiu do quarto, nos deixando a sós. Passei horas ali; ela me contou sobre missões antigas, arrependimentos, desejos que não se realizaram e então, finalmente, ela fechou os olhos e aceitou a morte. Saí do quarto e a irmã Teodora estava à minha espera. “A morte para alguns deve vir como uma amiga e não como uma vingadora e nós somos quem a apresenta”, ela disse. Ainda não entendi muito bem que lição ela está querendo que eu aprenda, mas já entendi que é uma punição.
Data: 29 de outubro de 1374
Nem toda morte é sagrada como a da irmã Anatólia; algumas são roubadas ou profanadas. Aprendi que há criaturas que desonram esse ciclo: os necromantes, ladrões de almas, parasitas do além e tantas outras criaturas que não aceitam o fim e tentam se agarrar à vida de maneiras profanas, e a tarefa da Ordem é destruí-los. Hoje enfrentei um profanado; havia nele um parasita do além que se recusava a sair, usava dele para se alimentar dos vivos. Eu aprendi a matar sem causar sofrimento, mas também aprendi a prolongar o sofrimento se fosse necessário. Então o torturei até que ele saísse do profanado e eu pudesse destruí-lo. Ele se foi, mas o que restou estava um trapo e não merecia piedade; o matei sem hesitar, algo nele implorava por descanso. Ou algo em mim implorava para que ele fosse morto.
Data: 3 de novembro de 1374
Hoje fomos levadas a uma casa onde havia um homem que estava agonizando há dias devido a uma maldição. Sua família havia nos implorado que fizéssemos algo. Irmã Teodora se ajoelhou ao lado dele e perguntou baixo: “Você quer ajuda para atravessar?” O homem, com os lábios secos e os olhos assustados, confirmou com a cabeça. Seu peito subia e descia em pequenos espasmos. Ele tinha medo, e isso ainda o segurava à vida. Irmã Teodora olhou para mim para que eu tomasse seu lugar, então me ajoelhei ao lado dele e repeti as palavras que aprendi: “A morte não é sua inimiga, ela vem para levá-lo ao descanso.” Irmã Teodora olhou para mim. “Faça o que é necessário.” Então dei a ela a bebida que o livrou da dor da maldição e também do fardo da vida e com isso o medo se foi.
Data: 11 de novembro de 1374
Fui enviada para capturar um homem que vendia sangue de vampiro para feiticeiros. Um traidor do ciclo natural. Ele fugiu para as florestas, mas a Ordem é paciente e eu sou paciente. Passamos três noites esperando, observando cada movimento. E quando ele sentiu que estava seguro, cheguei silenciosa enquanto dormia. “Eu sei quem você é”, ele sussurrou, acordando antes que eu o tocasse. “Vocês não são salvadoras, são carrascos.” A lâmina atravessou sua clavícula antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Eu deveria levá-lo vivo, mas naquela noite a voz precisava ser saciada. Seu corpo não merecia ritos; deixei o fogo levar o que restava dele enquanto eu observava. A Ordem nos ensina que os indignos não devem deixar rastros e eu o considerava indigno.
Data: 13 de novembro de 1374
Os vivos e os mortos correm de nós, isso é um fato. Fui enviada para outra missão: convencer um espírito que ele deveria ir. Uma criança morta há algumas semanas em um incêndio, que ainda brincava em um quarto que não existia mais. Irmã Teodora pediu para que eu lidasse com isso, mesmo que ela não dissesse nada, eu entendia aquela missão como uma punição. Me sentei ao lado da criança naquela casa invisível e por horas brinquei com ela até que perdesse o medo de mim. “Você não precisa ficar aqui”, sussurrei para ela. Ela me olhou com aqueles olhos negros e vazios. “Eu não posso ir, tenho que esperar mamãe”, disse ela. “Sua mãe está te esperando no lugar para onde você deve ir”, eu disse. Ela chorou: “Mamãe está morta?” perguntou. Confirmei com a cabeça sem ter certeza se isso era uma verdade. Então ela sumiu. A Ordem nos ensina que devemos libertar as almas, mas nunca nos dizem ao certo para onde elas vão.
Data: 19 de novembro de 1374
A Ordem julga em silêncio, mata em silêncio, mas às vezes também mata diante de todos. Hoje uma mulher que usava cadáveres para rituais proibidos foi trazida diante de nós e depois foi levada a uma praça pública a quilômetros da abadia, para que fosse um exemplo. Estava amarrada, sangrando e sem arrependimentos nos olhos. A praça estava cheia e muitos olhos curiosos observavam. “Ela perturbou o ciclo, ela roubou os mortos de seu descanso”, disse irmã Teodora. “Seu castigo será dado por aquela que está pronta para servir a Ordem.” Então ela olhou para Isolda e os olhares das outras irmãs foram em sua direção. A morte dessa mulher seria a aceitação final de Isolda, uma aceitação que talvez eu nunca chegasse a conseguir. Isolda parou diante da mulher e ela sorriu de modo desafiador. “Eu só roubei corpos, vocês roubam almas”, ela gritou. A lâmina de Isolda atravessou sua garganta, o sangue escorreu e a multidão ficou em silêncio. Isolda foi aceita, mas em que exatamente ela se tornou?
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
24. A tua fé te salvou
Data incerta – Saímos da caverna em silêncio, como alguém que abandona um templo. Siehiffar nos acompanhou até a saída, onde a floresta retornava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data incerta – Saímos da caverna em silêncio, como alguém que abandona um templo. Siehiffar nos acompanhou até a saída, onde a floresta retornava. Ela me olhou com carinho e me abraçou. Senti uma pontada de pesar nos olhos dela, mas foi à Mara que ela entregou algo: um manto escuro e grosso. Um manto para protegê-la ou ocultá-la? Eu não sabia dizer. Ela apenas o vestiu, e imagino eu que só aceitou o presente por ser algo que o destino lhe dava.
— O lugar para onde vocês vão não é bom chamar a atenção de muitos olhos — ela disse, puxando o capuz sobre o rosto translúcido de Mara. — Mas quem caminha pela fé em algo, ainda que rachada, é visto mesmo no escuro.
Então partimos e caminhamos por muito tempo. Perdi a noção de quantas horas, pois o tempo se arrastava como um animal ferido. As árvores foram se tornando mais tortas, mais silenciosas, e a vegetação, rasteira. O céu, com nuvens paradas, opacas, cinzentas — nem uma cor vibrante podia ser vista.
E então chegamos a um lugar que não era Séttimor e também não era um vilarejo como os outros. Era uma extensão de alguma civilização que não deveria existir ali, mas existia. Havia casas em ruínas, outras eretas e bem conservadas, outras com janelas fechadas com tábuas e portas entreabertas. Havia névoa, muita névoa, espessa e úmida, e eu sentia um cheiro de cabra, sangue seco e metal oxidado.
Logo à frente vimos uma mulher de manto negro, com um capuz que cobria quase todo o seu rosto, exceto o queixo e os lábios. Carregava um cajado que parecia de carvalho. Atrás dela, tinha um pequeno rebanho de cabras negras, que nos observavam curiosas e em silêncio.
— Vocês não são daqui — disse ela sem emoção quando nos aproximamos, confirmando o óbvio.
— Estamos procurando o caminho para o castelo — falei. Mara manteve o rosto abaixado e coberto.
— O castelo está em todos os lugares e também não está em lugar nenhum. Vocês sabem disso, mas estão fingindo que não sabem, não é?
Eu sentia que ela não iria nos ajudar, mas precisava saber mais sobre o lugar em que estávamos.
— Que lugar é esse em que estamos? — perguntei.
— É o que resta de uma fé esquecida, daqueles que um dia buscavam a luz e encontraram a escuridão, a mesma escuridão que vocês encontraram.
— Só precisamos que nos mostre a direção e sairemos do seu caminho — disse Mara, impaciente.
A mulher não respondeu. As cabras começaram a berrar, como se estivessem chamando a atenção para algo, e então uma delas se aproximou de nós, e os olhos dela eram quase humanos.
— Continuem pela trilha — ela disse, e por um momento achei que era a cabra que falava. — Mas não toquem nas portas, nem respondam aos sussurros, a menos que gostem de distração.
— E você, quem é? — perguntei.
— E isso importa? Não é a mim que procuram — ela disse, e depois nos virou as costas e caminhou para longe, sendo acompanhada pelo seu rebanho.
Seguimos pela trilha, ouvindo o som dos nossos passos. Atrás de nós, o berrar das cabras, um céu escuro e opaco, e, muito ao longe, uma música, como se alguém tocasse para a nossa chegada. A trilha era estreita, coberta de folhas e galhos. Cada passo fazia o solo ranger, e me veio, não sei de onde, o pensamento de que estávamos pisando em ossos velhos, e aquele ar úmido tinha um forte gosto ferroso.
À medida que avançávamos, mais casas iam aparecendo. Mara caminhava em silêncio, o manto escondendo seu rosto, mas as pessoas que nos observavam em suas casas pareciam perceber a sua diferença.
Vimos uma mulher acompanhada de uma criança. Estavam paradas perto de uma cerca derrubada. A mulher vestia um vestido marfim encardido e os cabelos muito claros presos em um coque. Nos braços, uma menina de olhos bem abertos e perdidos no nada chupava o dedo sujo de terra.
— Boa tarde — eu disse sem ter certeza se realmente era tarde.
A mulher não respondeu de imediato, ajeitou a menina no colo e me olhou com aqueles olhos fundos, que não eram tristes, mas pareciam olhos que não descansavam fazia dias. Olhos que viram mais do que deveriam. Não sabia dizer se eram olhos alertas ou assustados.
— Onde estamos? — perguntei.
— Vocês estão onde sempre estiveram — ela respondeu com voz baixa e apática. — Nos domínios do castelo Drácula. Tudo isso é parte do castelo: a estrada, a névoa, as casas, cada pedra, árvore e cada animal. O castelo não é só feito de pedras e torres, sabia?
— Mas o castelo mesmo, onde está? — Mara falou, mostrando o quanto estava impaciente.
— Continuem, sigam a trilha que inevitavelmente vocês chegarão lá.
A menina no colo da mulher parou de chupar o dedo e olhou direto para nós, e seus olhos agora eram vermelhos.
— Ele está com saudades de vocês — ela disse com uma voz que não parecia de uma criança pequena.
Senti um frio no estômago. Mara deu um passo à frente, pegando no meu braço.
— Vamos — disse ela, firme.
A mulher e a criança apenas sorriram, nos seguindo com os olhos até sairmos na névoa.
— Vocês estão mais perto dele do que pensam — ela disse, ainda sorrindo.
A trilha começava a subir, se tornando mais íngreme, e a floresta ao nosso redor parecia se calar, como se estivesse segurando a respiração. Havia algumas árvores mortas, mas nenhuma delas estava caída. Seus galhos ainda pareciam avançar em direção àquele céu opaco. O solo tinha um cheiro de umidade antiga e, em alguns momentos, eu podia jurar que tinha visto silhuetas correndo entre as árvores. Formas humanas demais para serem confundidas com animais, distantes demais para se ter uma certeza do que eram.
O céu permaneceu o mesmo por quilômetros: cinzento, opaco e cheio de neblina. Depois de horas — ou talvez dias, não havia como eu saber com exatidão — a trilha se abriu e a névoa cedeu um pouco quando chegamos a uma pequena elevação. E de lá vimos outro vilarejo. Casas coladas umas às outras, com telhados cobertos de líquen. Cada rua como uma veia estreita que conduzia a mais casas. Havia roupas estendidas, crianças correndo de um lado a outro, vasos de flores — alguns secos — e incensos, muito incenso.
Mara puxou mais um pouco o capuz, pois sua aparência a traía.
— Não é possível que isso também seja parte do castelo — eu disse, mais para mim mesma do que para ela.
Mas ela assentiu, levantando a cabeça para olhar o topo de uma casa. Continuamos andando em silêncio. O vilarejo não estava abandonado, havia pessoas lá vivendo suas vidas, indo e vindo sem se dar conta de nossa presença. Outros poucos paravam e nos olhavam com estranheza, mas logo continuavam seu caminho.
E então o sino tocou. Um som oco e lento por três vezes, e, após o terceiro badalar, mais portas começaram a abrir e mais pessoas saíram de suas casas, enchendo as ruas. Mara segurou minha mão e, pela primeira vez desde que essa nossa aventura começou, eu senti que ela tremia. E, por algum motivo, eu achava que isso tinha algo a ver com o sonho que ela teve na caverna, ao qual ela não me revelou.
O centro do vilarejo tinha uma grande construção circular de pedra escura. Esculpido em cima do portal estavam as palavras em latim “Dominatio per Consanguinitatem” — domínio por consanguinidade ou coisa parecida. A porta estava aberta e de lá saía um cheiro doce de sangue. Todas as pessoas iam em direção àquela construção.
Uma mulher, um pouco mais jovem do que a maioria ali, se aproximou de nós. Usava um véu de um vermelho carmesim e um livro de couro preso à cintura. Seus olhos pareciam acolhedores, mas seus movimentos eram ensaiados demais.
— O senhor está acordado esta noite, e ele quer se divertir — ela disse.
— Qual senhor? — perguntei.
Ela não respondeu, apenas indicou a entrada com a cabeça.
— Se chegaram até aqui foi porque ele quis. Então entrem e participem da diversão, antes de continuarem seu caminho.
Quando me dei conta, já estávamos entrando junto com a multidão que esperava na entrada. Uma mulher de voz rouca, vestindo um vestido feito de panos e véus costurados um ao outro, nos recebeu com uma leve reverência.
— Entrem, entrem, a peça está prestes a começar — disse ela. — Tomem seus lugares.
Não perguntei do que se tratava a peça. A verdade é que havia algo em mim que já desconfiava que não seria algo que eu teria escolha em assistir ou não, então não adiantaria nada perguntar.
O interior era uma mistura de teatro e catedral, com bancos dispostos em semicírculo e grandes vitrais escuros de vidro vermelho e âmbar, e um palco ornamentado com bordas entalhadas em dourado, alto e fundo. Ao fundo, um órgão podia ser ouvido, bem sutil.
Um homem encapuzado se aproximou de nós. Em suas mãos tinha um objeto que logo reconheci como sendo um caleidoscópio — um tubo antigo de prata desgastada, com inscrições em volta que pareciam algo como o hebraico ou uma língua desconhecida. Ele estendeu o artefato e perguntou:
— Querem olhar? Observem, antes da peça, assim reconhecerão o ato — ele falou, oferecendo o objeto a mim, pois Mara se recusou a pegá-lo. Como ela não se opôs a que eu pegasse, aceitei o artefato.
Peguei o objeto, aproximei os olhos e a primeira imagem estava confusa — cores girando, vidros coloridos estilhaçados e formas abstratas — mas logo as imagens se organizaram e então eu vi. Ou melhor, eu me vi, ali no palco: eu chegando ao castelo, eu hesitando, dançando no baile de máscaras, chorando por Hadassa, conversando com Ameritt e Monm, falando com Mara, abrindo um diário, gritando para espelhos, segurando um cálice, me afogando e correndo e, então, eu observava a mim mesma com o caleidoscópio nos olhos.
Quase deixei o caleidoscópio cair, mas o homem o pegou, como se já esperasse a minha fraqueza depois de ver tudo aquilo.
— Tudo que foi visto, será encenado. É a lei do palco, é a única lei que aqui dentro obedecemos. — Ela falou isso e andou em direção ao palco.
Fomos conduzidas aos bancos de frente ao palco. A plateia cochichava, esperando o espetáculo começar. Todos pareciam ansiosos.
Uma voz feminina, grossa e alta, veio do palco, como se estivesse vindo do teto:
“Nesta peça, as visitantes reencontrarão a perda. Nesta peça, a alma se tornará carne. Nesta peça, nenhuma palavra será mentira.”
As cortinas pesadas, as luzes mortiças presas nas alturas, o som do órgão que produzia uma música densa, lenta e lacrimosa, a plateia com seus rostos apreensivos, ansiosos pelo que iria ser representado no palco.
Acho que toda a perda de memória começou com o caleidoscópio — aquele objeto simples que, quando toquei, arrancou sutilmente minhas lembranças sem que eu nem percebesse. Esqueci meu nome, minha história, minha dor. Me esqueci de tudo, e nada me fez falta.
A peça começou. No palco, uma mulher surgiu. Caminhava rápido demais, falava de menos, fazia escolhas bastante equivocadas, olhava com desconfiança para tudo e todos e carregava uma tristeza profunda e um ceticismo extremo nos olhos cansados.
Eu não sabia quem era ela, mas odiei cada escolha que ela fazia — ou deixava de fazer. Então, a cada ato, minhas memórias iam voltando, e percebi que ela era eu. Minha vida estava sendo encenada de trás para frente. E eu, sentada na poltrona, só conseguia criticar tudo.
Por que essa mulher — eu, no caso — se deixava ser engolida por aquilo tudo? Por que negava tudo? Por que se prendia tanto à lógica e à razão, se o mundo que agora a cercava era feito de delírios, criaturas inomináveis, fé e horror?
“Burra”, pensei — e logo calei esse pensamento, pois senti a dor do julgamento se voltando contra mim.
O teatro continuou a voltar mais e mais, até antes de Mara se tornar a criatura translúcida. Ali, naquele ponto da peça, algo mudou. A personagem — a outra eu — não encenava mais minhas lembranças. Ela impediu Mara de tocar o livro. A impediu de continuar o ritual, e, com isso, Mara não se desfez. Ela não se tornou aquela criatura translúcida. Na peça, ela permaneceu humana.
E a peça terminou.
A plateia aplaudiu, e uma figura em particular se levantou: Drácula, terrível e majestoso. Ele subiu ao palco, agradecendo os aplausos com uma sutil reverência. Ele me olhou — não a personagem, mas a eu sentada ali, presenciando aquele final de peça que não fazia sentido. Então voltou seus olhos a Mara e a chamou para o palco. E ela foi sem hesitar, ficando de frente a ele, que tirou o manto que ela usava, mostrando a pele translúcida que parecia feita com luz da lua.
E então eu senti como se tivesse sido arrancada de mim. Um ar espesso começou a sair da boca de Drácula e envolveu Mara, que estava diante dele, desaparecendo lentamente. Sua pele se tornou tão translúcida como vidro que eu podia ver Drácula através dela — ver as luzes e o próprio palco. Ela estava se desfazendo diante dos meus olhos e eu não podia fazer nada, pois estava presa à poltrona. Eu só podia vê-la sumir diante dos meus olhos.
Aquele ar espesso que saía da boca dele parecia aquecer aos poucos e começou a tomar forma. Os ossos de Mara — primeiro a espinha, depois as costelas, as pernas e braços — eram como algo se montando pedaço por pedaço.
Ele se aproximou mais dela. Seus lábios, antes distantes, agora tocavam o crânio recém-formado dela, e seus dedos afundavam na carne que começava a se formar. Mara gritava de dor, um grito abafado pelos lábios de Drácula — um som tão angustiante que parecia que sua alma estava sendo costurada à carne, e acredito que era isso que estava acontecendo. Veias, nervos, músculos, órgãos — eu via tudo: sangue fluindo, músculos formando e carne.
Os dedos de Drácula, ainda cravados no crânio dela, agora envoltos em carne e cabelo, formavam um contraste tão íntimo e brutal que não consegui conter o horror que se apossou de mim.
Ele então a deitou no chão, ajoelhou ao lado dela — que o olhava apavorada — e sussurrou algo no seu ouvido que eu não pude escutar, mas que a fez estremecer. Ele então olhou para mim, como se estivesse verificando se eu estava olhando, e depois voltou o olhar a Mara com um sorriso terrível e disse:
— Vá, minha filha, a tua fé te salvou. — Deu um beijo na testa de Mara e se levantou.
Depois desceu do palco e sumiu na multidão antes que eu pudesse ir atrás dele.
A plateia agora aplaudia de pé, pessoas emocionadas com o que tinha acontecido naquele palco. Mara permaneceu no chão por um tempo. Respirava. Estava viva, em carne e osso. Mas ainda assim, algo me dizia que não era só ela ali.
Depois que consegui me levantar, fui até ela. A abracei, sem saber ao certo o motivo de ter feito isso. A cobri com o manto novamente e saímos dali, acompanhadas pelos aplausos da plateia — que, ainda emocionada, continuava a aplaudir. Mas, por mais que nós não estivéssemos mais no palco, eu ainda me sentia dentro da peça.
Revisão por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
10: Sobre as versões de nós
Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou.
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Por Alana Mortensen
Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou. A forma de comunicação transformou-se, mais ágil e nem sempre assertiva, mas os anseios são os mesmos. A nossa insistência em tentar definir e nomear aquilo, o desconhecido que fascina e aterroriza em iguais proporções.
Lembro-me da primeira vez que li “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a Alana de quatorze anos ainda tinha sonhos e alegrias por vir. O impacto foi repentino e indecifrável: recebi os golpes, sem saber precisar de qual direção e remetente provinham. A fascinação foi ainda maior após reconhecer que o protagonista somente conseguia ser sincero, porque o além-vida lhe proporcionava esse despreendimento. Entende o que eu quero dizer? O medo de ser rejeitado nos prende à vida cotidiana, aquela na qual todos vagam sem experienciar a Vida.
Para que continuar seguindo as convenções se tudo o que outrora era vida já não mais existe?
Para que continuar dançando a valsa da vida se não há mais parceiros e a música cessou?
Sinto que, ao adentrar o Castelo, sofri a mesma transição que Brás Cubas: já não preciso me preocupar com a minha utilidade na sociedade; já não preciso continuar lidando com as situações sufocantes; já não preciso simular.
Tornei-me transparente. Não vês os meus circuitos internos? Olha como meu coração ainda bate, em um ritmo só dele, ainda bombeando o sangue que faz irrigar cada parte seca do meu corpo.
Quando era criança adorava fingir ser quem não era: professora, médica, forte, executando a “função” com tanta seriedade que ninguém ousava dizer que eu não era uma professora ou médica, ou forte. Aos poucos fui perdendo essa autoconfiança, a adolescência sufoca qualquer voz interior que tenta afirmar que “você é capaz”, ou assim nos fazem acreditar… Falam tanto na nossa cabeça que acreditamos exatamente naquilo que elas querem.
A jovem adulta não ficou menos hesitante, só aprendeu a suprimir esses dissabores, ninguém gosta de pessoa que seja e pareça fraca. Nem eu gostava. Mas aprendi que se deixar sangrar, deixar que vejam meu escoamento também é uma forma de força.
Essa bateria de palavras é somente as divagações de hoje. Aqui eu aprendi que eu posso e serei quem eu quiser. E não me importo se tentarem cerrar as cortinas, pois eu irei transpassá-las e continuarei com a minha apresentação, custe o que custar!
Revisão por Sahra Melihssa
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Primeiro Ato
Permaneci parada como se os deuses estivessem parados os ponteiros do infindável tempo, porém aquele ritmo cadenciado do relógio permanecia ressoando…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Permaneci parada como se os deuses estivessem parados os ponteiros do infindável tempo, porém aquele ritmo cadenciado do relógio permanecia ressoando em minha mente, como um mantra.
Mesmo sem vislumbrar a figura atrás de mim, notei sua sombra imponente projetada à luz do úmido piso de pedras, à oscilante luz vinda da lamparina, preenchendo aquela biblioteca, sem dúvidas tratava-se de alguém muito importante.
Uma tosse vinda da figura interrompeu o breve momento onde o silêncio se fazia presente, senti uma tensão quase eletromagnética percorrendo meu corpo, sua forte respiração aguçava minha curiosidade. Finalmente sua voz ecoou forte e calma, (estava correta, era um homem).
Cautelosa, virei-me, os cachos escondiam minha tez franzida, e de fato era alguém mui importante, suas vestimentas perfeitamente alinhadas, trajava uma camisa social branca com detalhes renascentistas no punho e gola, colete e terno eram pretos, cabelos curtos igualmente pretos, olhos penetrantes porém cativantes, na mão direita trazia uma lamparina, voltei minha atenção para seus ágeis dedos manuseando um relógio de bolso feito ouro envelhecido, a caixa de no estilo savonnette com detalhes em arabesco, o mostrador era num tom azul petróleo, os ponteiros eram de prata, e a longa corrente também em ouro velho.
— Perdoe-me por assustá-la, não era minha intenção. Me chamo Professor Monm, (apesar de sua voz ser um tanto grave, como um barítono), havia também nuances melancólicas, seu olhar sereno certamente era de alguém que já enfrentou muitas provações ao longo de sua vida.
— Bem, confesso que havia conhecido poucas figuras masculinas aqui no Castelo, a não ser os rápidos encontros durante as festividades, mas... posso fazer uma pergunta, se me permite? O que o senhor leciona?
Primeiramente ele sorriu com os lábios, e disse que era um prazer me conhecer. Em seguida, fechou a porta. Pairava naquela biblioteca uma misteriosa calmaria. Chamei-o para caminhar, ele aceitou de bom grado, e continuarmos a conversa.
— Com toda franqueza, senhorita, esta é uma pergunta complexa, mas pode-se dizer que leciono transmutação temporal, além de ser exímio conhecedor em relógios.
Meus olhos saltam de curiosidade pois lembrei das obras de alquimia que folheei incontáveis vezes, sempre às escondidas. Foi difícil esconder minha euforia, a sede pelo conhecimento me movia (mesmo que esse conhecimento fosse “proibido”).
Minha reação foi notada pelo professor, que esboçou um tímido sorriso e, em seguida, perguntou se possuía algum conhecimento sobre o assunto. Assenti, (li bastante a respeito). Vi então seu semblante mudar sutilmente, acho que o surpreendi.
Ele falava dos relógios com uma notável paixão e, sinceramente, seria uma honra poder ouvi-lo discursar sobre cada engrenagem e suas particularidades por horas.
Erguendo a lamparina à altura dos olhos, iluminou as enormes estantes de carvalho que se estendiam até o final da biblioteca, repleta de inúmeras e empoeiradas obras.
Meus olhos fitaram as centenas de obras, algumas deterioradas severamente pelo inexorável tempo e pelas insaciáveis traças. Conforme andávamos, ergui levemente meus dedos e me permiti sentir cada puídas lombadas de couro e suas respectivas marcas.
Alguns resíduos permaneceram em meus dedos. Observei também o impecável trabalho das aranhas ocupando aquele estreito espaço. “Será que um dia eu o encontrarei?” Monm, que também observava as estantes, cessou os passos e pousou os olhos castanhos sobre mim.
— O que disse, senhorita?
— Não foi nada, apenas pensei alto, mas... ou talvez o senhor possa me ajudar, absorta, inicio minha narrativa.
— Certa noite, perambulando pelo Castelo, encontrei algo que se tornaria minha obsessão, e desde então tenho procurado com afinco. Trata-se de um horrífico e grandioso Códex, confeccionado em couro humano. Sua deteriorada capa era uma desagradável fusão entre marrom e tons de escarlate. Trazia ainda um símbolo arcano, o qual nunca tinha visto, mas parecia ser tão antigo quanto a própria existência. Ele também emanava um odor pútrido terrível. Foi ali que o encontrei, sobre aquela mesa redonda vitoriana.
Saí do estado letárgico, ofegante, meu corpo tremia, com meu braço direito estendido apontando para a mesa vazia. Olhei para o professor, que me ouvia com atenção. Vi suas feições adquirirem contornos espantosos. Ele passou a mão esquerda sobre a testa e disse:
— Sem dúvidas, é um relato muito impressionante. Gostaria muito de poder ajudá-la, mas conheço bem esse caminho...
Seus lábios emudeceram. Então, vi o horror estampado em sua fronte, seguida por uma profunda e terrível melancolia. Os batimentos reverberavam no recinto, atônito, o professor recorreu novamente ao relógio, abrindo e fechando sem cessar. Em vão tentei chamá-lo, estava absorto, talvez por alguma lembrança.
Até que ele “voltou” num estado de confusão mental, que me deixou preocupada. Será que, neste período ausente, ele teve acesso a outras realidades? Se foi, gostaria muito de aprender.
— Professor Monm, o senhor está bem?
— Sim, senhorita, não se preocupe, está tudo bem, permita-me dizer que foi um prazer conhecê-la, mas infelizmente tenho que partir. Bom, espero que possamos nos encontrar novamente.
Checou o relógio mais uma vez, como se estivesse atrasado. Antes de cruzar a porta, ele sussurrou: — Muito cuidado com a obsessão, Rose, é um caminho bastante tortuoso, confie em mim, você não quer isso...
Aquele conselho soou estranhamente, o timbre de sua voz trazia um pesar, um arrependimento, o qual nunca saberei. Nos despedimos com um cordial aceno.
A introspecção recai sobre mim, trazendo à margem alguns pensamentos: quanto tempo mais suportarei manter esta falsa máscara de normalidade? Será que alguém realmente sabe quem sou? Será que interpretei bem o meu papel de falsa humana? Se bem que Ameritt conheceu meu verdadeiro eu...
Caminho até a porta envolta de questionamentos, toco na maçaneta e fico parada por alguns instantes, tal qual um ator que está prestes a entrar em cena. Ouço resquícios de diálogos que desaparecem pelos extensos corredores, passos apressados ecoam pelo Castelo, risadas que se perdem. Qual será o próximo acto desta magistral peça teatral?
Revisão por Sahra Melihssa
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Canto para meus tormentos
Abracei o teu convite e vim prestigiar a ópera. A Vida, a Morte e o Tempo estarão presentes no teatro das sombras. Abram vossas mentes para as experiências que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Abracei o teu convite e vim prestigiar a ópera. A Vida, a Morte e o Tempo estarão presentes no teatro das sombras. Abram vossas mentes para as experiências que farão um por um transmutar e viajar por entre os planos. Será uma noite inesquecível...
A dádiva da arte é para mim um novo sopro do ânima. É a força motriz que me sustenta longe da dor que é viver sob esta forma decadente. Agarro-me à esperança de que tal ópera seja uma ode ao meu escapismo. Perdoem-me, almas ancestrais, bestas viajantes, apreciadores de uma boa taça de sangue: em mim habita a angústia que dilacera tal qual os malditos raios do sol.
Lencastre está prestes a confrontar seus próprios demônios...
Na penumbra do teatro, sou fragmento suspenso entre dimensões. A matéria que compõe este receptáculo vampírico vibra em frequências ancestrais, pois em minhas veias corre o tempo líquido, essência primordial dos navegantes da eternidade. O palco diante de mim não é mero tablado — é portal onde as esferas se tangenciam, onde o Limiar permite vislumbrar os segredos que habitam o âmago do ser.
As cortinas se erguem, e eis que reconheço: sou aquele que desperta as criaturas, sou o convocador inconsciente de meus próprios tormentos. A orquestra entoa acordes que ressoam no ventre do caos, cada nota uma navalha a gerar carnificina em minha alma fragmentada.
No centro do palco, materializa-se a primeira visão: meu eu humano, tessituras de luz dourada emanando de sua forma. Vejo-me quando ainda pulsava em sintonia com o ritmo cósmico, quando o sol era bênção, não maldição. A criatura que fui estende-me as mãos, e em seus olhos habita a pergunta eterna:
— Por que escolheste navegar pelas sombras, quando podias dançar na luz?
Mas o Limiar rejeita respostas simples. O tempo sob seu comando é serpente que devora a própria cauda, e compreendo: não houve escolha, apenas o desenrolar do destino.
O palco transmuta-se em arena cósmica. Na fenda mais profunda de minha consciência, criaturas se gladiam — são deuses de suas histórias, manifestações dos medos que habitam o âmago do vampiro que me tornei. Cada demônio empunha lâminas forjadas nas essências da culpa, do remorso, da solidão infinita.
Vejo-os duelarem: a Nostalgia, de armadura dourada, combate contra a Sede Eterna, de garras escarlates. O Medo da Eternidade, gigante de olhos vazios, confronta a Culpa Ancestral, que chora lágrimas de sangue. Em cada golpe desferido, fragmentos de minha essência se desprendem como pétalas negras no vento cósmico.
Sou espectador e arena simultaneamente. Em meu peito, o coração que não bate ressoa como tambor de guerra. As criaturas lutam por domínio sobre o receptáculo que me tornei, mas todas ignoram uma verdade fundamental: sou o gladiador supremo, aquele que deve enfrentar a si mesmo na batalha derradeira.
Em minhas veias corre mais que sangue alheio — corre o poder dos navegantes primevos, daqueles que primeiro caminharam entre os mundos. Sou herdeiro de linhagem que remonta aos tempos quando a separação entre vida e morte era mera ilusão criada pelos mortais.
Ergo-me da poltrona, mas não sou mais Lencastre. Sou entidade que carrega em si a sabedoria das eras, receptáculo onde predador e protetor são um só no tecer dos destinos. Minha forma física começa a transmutar — não em destruição, mas em transcendência.
A carne se dilata, expandindo-se além dos limites mortais. Cada poro torna-se portal, cada célula uma estrela pulsante no cosmos interior. O sangue que jorra não é perda — é oferenda sagrada ao altar da transformação. Cada gota que toca o palco germina em flor de luz sombria, criando jardim onde o belo e o terrível dançam em harmonia.
Não há dor — apenas êxtase da dissolução consciente. Sou chuva de meteoros atravessando o véu entre os mundos, sou canção que ecoa nos corredores do tempo.
Minha voz, agora multidimensional, entoa o cântico final:
— Do sacrifício nasce a aliança sagrada... do receptáculo fragmentado emerge o navegante eterno... nas essências derramadas, a continuidade...
O teatro desaparece, e na sinfonia infinita que permeia o universo, minha nota ressoa eterna — não como lamento, mas como hino à transformação que aguarda todos os navegantes do tempo.
Revisão por Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Máscaras de Sangue
Sangro em silêncio, e a vida me devora, | sou mais ausência do que corpo, um fardo. | A cada passo o abismo me implora, | mas visto a máscara do riso pardo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Sangro em silêncio, e a vida me devora,
sou mais ausência do que corpo, um fardo.
A cada passo o abismo me implora,
mas visto a máscara do riso pardo.
Meu ser é cárcere em noite sonora,
eco perdido em labirinto, aguardo.
A dor é carne, o espírito a devora,
e o nada sussurra seu hino bastardo.
Procuro em vão sentido que me una,
mas a existência é lâmina e me fere.
Tudo é penumbra, e o mundo, a minha ruína.
O ser-em-si se cala e me difere,
mas sigo — alma vazia, vaga, nua —,
na máscara de sangue que me confere.
Sangro.
Sangro por dentro como quem se desfaz de si mesmo.
Ser-para-a-morte, Heidegger murmura,
mas a morte não vem,
a morte não vem!
e eu permaneço,
eu permaneço preso à minha própria carne trincada.
A máscara… ah, a máscara é tudo que resta.
Sangue coagulado que pinto sobre o rosto do espírito.
Riso falso.
Lágrimas costuradas.
O mundo não pode ver que, por baixo,
sou um corpo oco,
um eco oco,
um dasein fraturado.
“A angústia desvela o nada”,
dizem os mestres.
Sim.
Mas o nada me abraça como um amante ciumento,
e suga meus ossos até que só reste
o som de um coração
que bate para ninguém.
Caminho pelas ruas como um espectro com nome.
Carrego as palavras que já não me pertencem.
O ser-em-si me devora.
O ser-com-os-outros me apodrece.
O ser-para-a-morte me observa do canto da sala,
com seus olhos vazios,
pacientes.
E eu — poeta ou coisa —
cavo túneis dentro de mim
à procura de algo que não existe.
(há silêncio, depois grito, depois silêncio de novo)
A máscara escorre.
O sangue seca.
E ainda assim coloco outra por cima.
Para quê?
Para quem?
Não sei.
Talvez para a plateia invisível
que um dia vai aplaudir
quando finalmente eu tombar,
rasgado,
sem máscara.
Sonho-vos nos corredores de cinza,
phantasma talhado de osso ao luar.
Vossa pele alva — porcellana, perfeita, intacta —
persegue-me como cathedral devorada por fogo.
Vossos olhos d’azul são tormentas
que me desnudam a alma,
rasgando a medulla de minhas noites,
inda que jamais vos tenha tocado.
Saboreio-vos no sangue em minha língua,
imaginando vossos beiços, frios como sepulcros d’inverno,
a pregarem-se nos meus em beijo
que me perderia, e tal perdição cobiço como lobo famélico.
A distância é lâmina torcendo-se em minhas costelas,
cruel mar tragando cada brado.
Romperia a terra em pedaços,
queimaria cidades até se fazerem esqueletos negros,
por estar uma só vez — só uma —
no eclipse de vossa sombra.
Beberia a luz de vossas veias,
se apenas assim vos guardara,
por dar carne a vosso espectro,
sentir-vos tremer ao quebrar
toda a cadeia que nos aparta.
Mas quedo-me aqui,
escrevendo vosso nome em sangue
nas paredes que ninguém jamais verá,
enquanto vossa formosura me devora vivo
desde mil léguas de distância.
As cortinas de veludo rubro abrem-se com um ranger que parece o suspiro dos ossos.
Korzavéll surge no palco.
Sua máscara está rachada.
O trono de ossos o espera, mas ele não se senta.
Ele fala ao vazio, aos espectros, aos vivos fingidos.
Ah, plateia de mortos disfarçados, de corações que fingem pulsar! Vede-me! Vede o miserável!
Sou o último tecido niilista de humanidade costurado ao peito de um daemon cansado.
Eis-me aqui, cuspindo palavras como se fossem sangue coagulado,
no palco onde os espelhos só devolvem rostos partidos. Ergue os braços, como quem invoca um deus ausente.
Riem de mim?
Riem de Korzavéll,
lágrimas negras?
— Pois saibam: cada gargalhada que lançais é um prego a mais em minha carne!
E que carne é esta?
Esta ruína que palpita ainda porque eu a amo...
Sim, amo-a!
A bruxa de olhos azuis que toca minha face em astral projeção,
Caminhai devagar sobre os espelhos, cortando os pés descalços. O sangue escorre.
Ele ri, com um som quase infantil.
Oh, como ferem e enfeitiçam esses olhos!
Safiras lapidadas pela própria Hékate!
Olhos que me arrancam a medula,
que me dilaceram sem nunca ter me visto!
Ah, minha feiticeira distante...
Tu és o veneno que bebo com devoção.
Tu és a lâmina que me arranca a última esperança e, ainda assim, eu imploro por mais cortes, rasgai a própria máscara e revela um rosto manchado de lágrimas e sangue.
Dizei-me, plateia de espectros:
O que resta de um homem quando a beleza que ele adora lhe é inalcançável?
Resta-lhe o delírio.
Resta-lhe o teatro.
Resta-lhe a dança na beira do abismo, enquanto a razão se desfaz como cera ao sol.
Korzavéll ajoelha-se diante do trono de ossos.
Escutai-me, ó deusa dos cães e dos encruzilhados!
Hékate, senhora da noite que me moldou neste grotesco invólucro!
Tomai minha alma, já nada há que possa salvá-la.
Que eu me torne espectro, fera, poeira — o que quiserdes!
Mas deixai-me tocar sua pele uma vez...
Uma vez apenas!
Nem que eu tenha de beber o mundo inteiro em sangue para comprá-la!
Um silêncio mortal se instala.
Ele ergue a cabeça, com os olhos vidrados e vazios.
Mas vós sabeis, vós todos sabeis:
Eu permanecerei aqui, minha consciência estilhaçou,
rasgando meu próprio peito, escrevendo seu nome nas paredes que nunca verão a luz.
Ele se levanta,
tropeçando nos espelhos, deixando rastros de sangue.
Olhem bem para mim, malditos!
Olhem bem, pois eu sou o retrato do vosso destino:
a fome sem fim.
A espera que não conhece aurora.
O aplauso que não salva, apenas adia o silêncio.
A luz da lua cai sobre ele, fria, cortante.
Ele abre os braços como um crucificado.
A cortina descerá um dia.
Então, como eu, chorareis.
Como eu, vos sabereis ridículos.
Como eu, suplicareis por um olhar,
um beijo,
um toque de um amor que jamais vos alcançará.
Ele ri, um riso rachado,
ecoando no teatro vazio.
A luz se apaga.
Ah, permiti que as cortinas se descortinem em véus de sombra e suspiros — pois eis que surge Korzavéll, o cômico das lágrimas negras, habitante do palco onde o riso e o pranto se abraçam numa dança macabra e sublime.
No coração do teatro antigo, em pedra fria e madeira rangente, repousa um cenário que é sonho e pesadelo entrelaçados.
O teto, outrora inteiro, agora ostenta uma fenda descomunal — ferida aberta nos ossos do edifício — por onde a luz gélida da lua escorre como prata morta, pincelando os cantos com silêncios estelares.
As estrelas, testemunhas mudas da ruína, espreitam o palco com olhos de condenação, e a brisa da noite varre o salão como um sussurro de promessas quebradas.
O ar, espesso como o hálito de um morto-vivo, traz o odor metálico da melancolia e o doce azedo da ironia.
Lá, candeeiros de bronze, talhados em formas retorcidas de gárgulas que parecem espreitar os próprios espectadores, lançam uma luz trêmula — um fogo bruxuleante que se torna sombra, sombra que se torna lamento.
O chão é um mosaico de espelhos partidos, cada fragmento refletindo um rosto que se perde e se procura, um sorriso que fenece antes de nascer.
As cortinas, vestidas em veludo escarlate enegrecido pela fumaça das velas, respiram com a mesma tristeza que um prisioneiro antes da sentença.
Sobre o palco, um trono de ossos entrelaçados, feito não de poder, mas de promessas quebradas, espera o Cômico em seu reino de desespero teatral.
Quando Korzavéll pisa nesse tablado, o ar se adensa — e o tempo se curva ante sua presença.
Sua máscara, de porcelana fina rachada, sorri com os lábios de uma ironia que dilacera.
Cada passo seu ecoa como o tambor de um coração que bate na desesperança, e sua voz, rouca, se derrama como um cálice transbordando de lágrimas petrificadas.
“Ó vós, plateia de espectros e vivos ensaiados, quão frágil é o véu que vos separa do abismo!
Riam, chorem, pois tudo é um ato e eu sou o último suspiro antes do silêncio.”
Dançai — não como um homem, mas como a própria alma do teatro que se desfaz em cinzas.
As paredes sussurram antigos segredos em línguas esquecidas, e o vento, agora tocado pelo luar, parece carregar o lamento de mil risos jamais ouvidos.
O relógio, parado, acusa a eternidade de um instante em que a esperança perece, e Korzavéll, com sua máscara quebrada, é o maestro dessa sinfonia de desventura sob a luz fria da lua. Com as estrelas refletidas nos olhos de porcelana, ele murmura, como quem cospe uma profecia:
“Aqueles que se escondem no riso, hão de chorar quando o aplauso cessar — pois a alegria encenada não salva, apenas atrasa o cortejo.”
O teatro respira sua dor.
E Korzavéll reina — não para destruir, mas para mostrar que, no palco da vida, somos todos meros atores, condenados a representar a dor vestida em risos, até que a cortina final caia, e o escuro reine, silencioso e absoluto.
Revisão de Sahra Melihssa
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Sanctitas
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça. Atônita, contemplo o baile sombrio mover-se com extrema volúpia. Meus olhos não eram capazes de acompanhar os movimentos. Fecho os olhos, pois fui acometida por fortes náuseas. Deixo a taça no chão e, vagarosamente, caminho. Mesmo estando longe, era possível ouvir o doce dedilhar sob as cordas dos delicados violinos, assim como as risadas libertinas. Tiro a máscara, e minha tez está febril. Conforme ando, o som das festividades foi se distanciando, se igualando a estranhos sussurros vindos de alguma civilização esquecida há éons.
Em meu íntimo, desejo voltar para o baile. Minhas entranhas suplicam mais um gole do detestável licor. Tento silenciar os pensamentos, contemplando o Castelo. Ao fazer isto, constato que o mesmo se modificou — sua estrutura ganhara dimensões abissais; sofrera, também, graves mudanças. O Castelo estava imerso numa aura lúgubre; cada pedra foi consumida por uma cor inenarrável, profunda e viscosa.
As pedras também sofreram com a presença de terríveis musgos, ocupando as frestas presentes em cada pedra. Noto uma sutil, mas aterrorizante, mudança no ar, tornando árduo o ato de respirar. Vi o véu que guarda segredos além do tempo sendo rasgado perante mim, e então o imaginário se materializou.
— Eram semelhantes a inúmeras partículas de uma pálida poeira, pairando misteriosamente, alcançando todo o interior do Castelo. Fui até uma das janelas e constatei que vinham de fora. As palavras de Evelyn Dubois recaem sobre mim; sorrindo, ela dizia: “Com o passar do tempo, você irá se acostumar.”
A visão que tive foi demasiadamente extraordinária — a poeira ocupava cada centímetro daquela região. O céu ganhara horripilantes pinceladas num desagradável tom de azul-petróleo. Já no horizonte, a magnífica e dourada lua, em sua fase quarto crescente, resplandecia imponente, contornando o cume das montanhas, bem como toda a vegetação, desde as grandes árvores até os pequenos arbustos. Alumiava também os grãos pálidos da arcana poeira, que obedeciam fielmente ao soprar dos ventos. Inclusive, pude sentir um característico cheiro pútrido marítimo, deixando-me atordoada.
Pois bem, estarrecida, afasto-me da janela. Olho em volta; a quantidade de partículas aumentou consideravelmente. Assustada, cubro meu rosto com a mão direita e caminho sem direção, até que encontro um esguio e mal iluminado corredor. Por alguma razão, decido atravessá-lo. À medida que ando, as velas se tornam mais escassas. Noto também que a poeira está se dissipando conforme ando.
Estou entregue à minha própria sorte. Com pesar, observo seu moroso derretimento. Lembrei do meu pai — ele disse que cada vela derretia de uma forma; disse também que o mesmo acontecia com o pavio. Tal lembrança deixou meus olhos marejados. “Ah, pai, queria tanto te ver...” — a frase saiu sem querer, ecoando no imenso corredor. Se eu fechasse os olhos, conseguiria ver sua vasta biblioteca; o cheiro dos livros me acalmava. No centro, havia uma mesa de jacarandá, sempre ornamentada com anotações importantes, livros para pesquisa. Ocupando as laterais, estantes repletas de livros.
Assim como eu, ele era um curioso em relação ao desconhecido. O pouco que sei foi graças a ele. Naquela noite, meus pais não queriam que eu saísse (parecia que estavam prevendo meu terrível destino), mas eles cederam à minha insistência.
Se não fosse por aquele convite — tornei-me taciturna —, onde minh’alma fora devorada por aqueles sedutores e sombrios olhos azuis, eu estaria... Não importa. Estou condenada a carregar a mesma escuridão que meu algoz — ele estava enraizado em meu âmago, e às vezes soprava em meu ouvido verdades incontestáveis. São momentos assim que desejei o aprazível abraço da morte. Porém, algo me resgata do abismo.
Ando mais alguns metros. Vejo uma espécie de aura longínqua e, a princípio, parece disforme. Ando mais depressa, pois era uma visão intrigante. Cheguei perto o suficiente para ver do que se tratava: era uma luz branda, etérea, quase angelical. Fui acometida por uma estranha paz — senti algo semelhante quando estive em Somníria. A quantidade de poeira diminuiu consideravelmente. Paralisada, contemplo o gracioso mover da intrigante luz. Me questiono qual será sua natureza.
Sigo-a até uma porta alta e simples de madeira. Espantada, assisto ela atravessar a porta e desaparecer. Um terrível arrepio percorre meu corpo. Relutante, abro a porta — e não posso crer: achei a biblioteca que incansavelmente busquei. Foi aqui onde encontrei aquele Códex sinistro, que, desde então, havia se tornado uma obsessão. Por breves segundos, esqueci daquela figura espectral. Ela estava no final da biblioteca, levitando próxima da mesa redonda vitoriana, alcançando o abobadado teto — tal qual o famoso espiritualista escocês Daniel Dunglas Home.
Sem dúvidas, era uma visão espantosa. Fechei a porta; sua presença doce preencheu aquele lugar. Era como uma santa. Olhando mais atentamente, havia traços humanos: os cabelos negros ondulados balançavam sob o ar. Vi também um rosto delicado. Os olhos fechados traziam mansidão; já as palmas unidas em oração continham esperança. Para quem seriam aquelas preces?
Fascinada, caminho devagar ao seu encontro. Porém, algo me impede. Escuto, então, passos firmes vindo de fora, acompanhados de um sutil, mas pontual, tique-taque. (Sabia que se tratava de um relógio de bolso, pois era uma das paixões do meu pai.) A porta se abriu lentamente, emitindo um penoso ranger. Mas, antes disso, contemplei a figura sacra desaparecer da mesma forma que surgiu. Um sussurro escapa de meus lábios — mais um evento o qual não teria respostas.
Após isso, uma brisa gélida invadiu aquele âmbito. Meus olhos dançam frenéticos sob as pálpebras. Quem será que adentrou neste recinto? Que presença é esta?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
9 - Uma nova esperança em meio aos destroços
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Relato de Lisa
Alana já sabe sobre as mudanças que se fizeram em mim. De certo modo, me senti aliviada. Você não imagina como é difícil manter-se calada quando o coração está repleto de preocupações e reverberações das ações — incautas — alheias. Esperem. Vou contar-lhes tudo sobre esses últimos dias.
Gatos não têm religião, mas somos espiritualizados de uma forma que o conhecimento limitado humano é incapaz de compreender. Não se sintam ofendidos, mas imaginem uma situação em que vocês precisam explicar sobre a relatividade para um bebê de dois anos. Ninguém diria que o bebê é incapaz ou desprovido de inteligência, mas diriam que ele ainda não é capaz, pois precisa entender primeiro outros conceitos mais básicos. É exatamente assim que os vejo. Meus ancestrais, como já contei anteriormente, são seres além do tempo, míticos e que regem as leis do cosmos. Eu consegui me adaptar a essa existência limitante, mas não suprimi totalmente minhas capacidades cognitivas, e por isso, sei o quanto deve ser difícil para vocês entenderem certas coisas.
Sem mais delongas, porque isso está soando muito estranho, vou contar-lhes o que aconteceu com a minha Alana.
Há cinco dias ela acordou em meio a mais confusões noturnas — não consigo afirmar que aquilo era sonho. Eu não queria ter que usar os artifícios, pois quando adentrei nessa existência havia prometido para mim mesma que não iria interferir nas escolhas dos humanos, entretanto, tudo isso que aflige Alana não foi sua escolha, mas são consequências dos maus atos dos outros. Posso dizer que esse é um grande dilema, contudo, será assunto para outro relato.
Em meio ao conturbado despertar, entre lágrimas e terrores, esbocei a primeira frase audível para ela, que a princípio imaginou estar confusa pelo sono, pelo despertar recente ou pelo desassossego. Demorou para aceitar a realidade. Contei-lhe sobre os olhos flamejantes, minha ancestralidade e falei-lhe sobre Siehiffar Monm: ela te ajudará.
Aquela noite o vento assobiava entre as árvores retorcidas como se carregasse memórias que não deveriam ser lembradas. Alana hesitou de início, mas depois compreendeu que mal também não podia fazer. Partiu, guiada por uma promessa sussurrada por mim ela te ajudará.
Nos recônditos do Castelo havia o pequeno santuário iluminado por uma única vela bruxuleante, a luz parecia resistir por teimosia. Quando a porta rangeu sob o toque da minha tutora, o cheiro de cera derretida e madeira antiga a envolveu. E lá estava ela: Siehiffar.
Sentada em um banco gasto, o véu de linho repousando nos cabelos negros, as mãos postas sobre o colo — havia nela uma quietude que desafiava o mundo. Ela ergueu os olhos ao ouvir a porta, e o olhar que pousou sobre a recém-chegada não foi de julgamento, mas de acolhimento.
— Você veio. — disse Siehiffar com uma voz que parecia ser feita de manhãs brandas e orvalho. — Há dias sinto sua tristeza ecoando pelas paredes do Castelo.
Alana hesitou. (ela sempre hesita, mas faz).
— A minha gat... Lisa me contou sobre você. Eu... não sei por que vim. Só sei que não consigo mais carregar isso. A fé... desapareceu. Ou talvez nunca tenha existido.
Siehiffar se ergueu, seus passos silenciosos como preces. Aproximou-se sem pressa, até chegar de frente à alma atormentada. Tocou-lhe as mãos — mãos frias, que haviam cavado covas para os próprios sentimentos.
— Às vezes — disse ela — a fé se esconde. Não porque tenha deixado de existir, mas porque espera que a procuremos em lugares novos. No silêncio. No desespero. Naqueles instantes em que tudo parece perdido. Na banheira você teve fé, só não te ensinaram o nome daquilo.
— Você fala como se ainda houvesse esperança — e sorriu com amargura.
Siehiffar levou a mão ao coração.
— Porque há. Não a esperança tola de que tudo será fácil ou que as dores desaparecerão. Mas a esperança de que, mesmo com tudo isso, você ainda pode encontrar sentido. Que há beleza até mesmo na dor que transforma e machuca.
Um raio de luar atravessou a vidraça quebrada, banhando o rosto da minha Alana em prata. Pela primeira vez em anos, ela não sentiu apenas frio. Sentiu algo mais. Um calor tênue, sutil, quase imperceptível — a lembrança de um abraço.
— Fique, — disse Siehiffar, apontando o banco. — Não precisa falar. Apenas fique. Às vezes, a fé começa quando simplesmente decidimos não ir embora. Lisa, pode entrar também... É claro que ela sabia que eu estava à espreita. Entrei.
E Alana parecia mais leve do que esteve em anos. Eu sabia que Siehiffar podia ajudá-la, mas sinto que subestimei sua capacidade de amenizar as dores com uma precisão quase cirúrgica.
Se Alana precisará de mais sessões com ela, eu não sei... Só sei que estou disposta a fazer novas concessões se for preciso.
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 11 — A fé é a prova de balas
Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso? Pelo que estou lutando realmente? Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso?
Pelo que estou lutando realmente?
Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante que me devora mas não consigo mais seguir esta luz, por quê? Ela me sufoca, me deixa confusa, sinto uma vontade enorme de chorar pois estou sozinha, estou completamente isolada e perdida...
Não sei mais para onde estou indo, não sei mais o que buscar. Quando eu finalmente consegui sair daquele limiar eu percebi: seria aquilo minha última luta? Minha última escapatória?
Ou o início de um umbral que devo mergulhar? Cansada de ser a sina de um povo esquecido, perecido pelo tempo nas cinzas tristes de uma memória distante e falsa que se derrete como lágrima que se desfaz no oceano, sinto-me com tanta dor e saudade do que não sei...
Não sei mais no que acreditar...
Talvez eu esteja tendo uma crise de fé, talvez eu esteja apenas cansada.
Arale não sabia dizer, com precisão, se aquele som de engrenagens gemendo vinha do corcel ou de sua própria alma. Era como se o tempo se estilhaçasse em cada passo metálico da criatura. O Limiar... ah, o Limiar. Um espaço sem lógica, onde até mesmo Deus parecia hesitar antes de entrar. Ali, tudo era sonho febril condensado, e a dúvida era a única verdade estável.
Ela apertava o cabo do machado de plasma como quem se apega a um último pensamento lúcido antes da loucura. O brilho da lâmina vibrava, emitindo um ruído agudo, quase um suspiro — um som que lembrava os delírios de um condenado prestes a ser esquecido pela História. Estava exausta, sim, mas também faminta de sentido, como um espírito que busca uma revelação em meio à miséria do caos.
No caminho, os gobelinus rugiam, grotescos, com suas bocas costuradas por fios de pecado e olhos onde habitavam pequenas constelações mortas. Arale os ignorava. Ela já conhecia aquele tipo de criatura: seres que viviam entre a dúvida e o desejo, entre o riso demoníaco e a oração abortada. Eram sombras que haviam esquecido como era ser inteiro. E ela... ela se recusava a se tornar uma sombra. Ainda não.
Ao longe, no cruzamento de duas montanhas que pareciam suspensas por vontade suicida, uma figura se projetava, como uma cicatriz no espaço: Allant Elirrahz, o cartógrafo. Seu semblante era um mapa da própria decadência do universo — olhos que já haviam testemunhado mais do que qualquer mortal deveria e dedos que tremiam com o peso dos caminhos esquecidos.
— O que buscas, viajante do abismo? — ele perguntou, sem mover os lábios, como se a própria paisagem tivesse falado.
Arale desmontou, sua armadura chiava em protesto. Ela não respondeu com palavras. Estendeu lentamente a mandíbula arrancada de um gobelinus, envolta em prata líquida — um símbolo. Um gesto. Um pacto.
Allant assentiu com um olhar que compreendia o desespero mudo das coisas que não se dizem. E então, do chão, ele arrancou um mapa. Mas este não era feito de papel, nem tecido, nem pedra. Era feito de lembranças — memórias fossilizadas dos que se perderam tentando entender o Limiar.
— Siga a trilha dos olhos enterrados. Lá encontrará o prisma-espelho. Mas cuidado... Citlalmiquiztli a observa. Ela julga os desequilibrados.
À essa altura, o vento começou a zumbir como um velho bêbado recitando maldições. E lá, no horizonte, a figura dela surgiu.
Citlalmiquiztli.
Não como inimiga. Não como aliada. Mas como juíza.
Seu semblante jovial se mantinha, mas seus olhos... seus olhos não perdoavam. Em cada passo, ela pisava em realidades desfeitas. Em cada gesto, o universo parecia suspenso por um fio de cabelo. Ela olhou para Arale como se olhasse para o próprio destino — não com piedade, mas com pesar.
— Procuras justiça... ou vingança? — murmurou, quase com ternura.
Arale não respondeu. Talvez porque não soubesse mais a diferença.
E assim, ambas se encararam:
Uma guerreira do plasma, ferida pela lucidez.
Uma guardiã do cosmos, ferida pelo equilíbrio.
O Limiar assistia.
O tempo chorava.
E o destino, como sempre, permanecia de olhos vendados.
O silêncio que se instaurou entre Arale e Citlalmiquiztli era tão profundo que parecia devorar o próprio som. Um silêncio denso, inquisidor, feito não de ausência, mas de peso — o peso do que não se pode ignorar. Arale sentiu o machado em sua mão vibrar. Não por ameaça. Mas por dúvida.
E foi então que Citlalmiquiztli se aproximou. Seus passos não tocavam o chão, mas feriam a realidade. Cada pegada que deixava exalava símbolos — runas astrais, fósseis de uma linguagem esquecida, que tremeluziam e se apagavam como lembranças de um sonho que morria ao nascer.
— Dizes que buscas sentido, filha do plasma. Mas que sentido existe num universo onde até as estrelas enlouquecem? — perguntou ela, com um sorriso que não era deboche, nem compaixão. Era o sorriso dos que já entenderam que até a luz cansa.
Arale ergueu os olhos. Seu semblante, endurecido pela desconfiança, carregava a lucidez de quem já perdera tudo, menos o desejo de compreender.
— Se há sentido, ele se esconde nos cacos. Nos espelhos quebrados. No espasmo final do que amamos antes de ser devorado pelo absurdo — respondeu. Sua voz soava como se tivesse vindo de outra era. Uma era em que ainda se rezava.
Citlalmiquiztli parou. Estendeu a mão. Um gesto simples. Humano.
— Então prova. Olha.
Arale hesitou. Mas afinal, o que é a hesitação senão a sombra da coragem? Aproximou-se. E viu.
Na palma da mão da guardiã, surgiu o Prisma-Espelho de Sangue de Wendigo.
Mas não refletia luz. Refletia passados negados.
Arale viu a si mesma — não como guerreira, mas como menina, numa estação de mundos abandonados. Sozinha. Viu o momento em que escolheu o plasma, não por heroísmo, mas para não sentir mais o frio do afeto extinto. Viu os rostos que deixou morrer para sobreviver. Viu o riso do primeiro amor, silenciado pela lógica da guerra.
E chorou.
Mas não com lágrimas. Chorou com tremores, com silêncio, com a forma como a respiração se recusava a seguir o ritmo do universo.
— Não se forja uma arma devastadora sem devastar o que te habita — disse Citlalmiquiztli, guardando o prisma como quem sela um destino.
Então, e só então, ela entregou o primeiro item.
— Vais seguir. Ainda há a engrenagem da criatura orgânica e a lamparina da maçã fantasma. Mas te aviso: o que encontras do lado de fora só revela o que se nega dentro.
Arale assentiu. O corcel chiou atrás dela, como se sentisse o peso da revelação.
Ela montou. Seguiu.
Mas agora… cada passo do corcel reverberava memórias que ela nunca quis lembrar.
E Citlalmiquiztli ficou, fitando o céu, como quem consulta um mapa feito de constelações doentias.
Porque Ela sabia: a verdadeira caçada nunca é por objetos.
É por redenção.
O Limiar — esse teatro do impossível — começava a pulsar como um útero cósmico, doente e grávido de delírios. Após deixar para trás o prisma, Arale adentrava uma nova região. O ar ali não se respirava — engolia-se. Pesado, viscoso, úmido como uma confissão não dita.
O corcel de fuligem estancou. Farejava. Sentia. Algo ancestral despertava no ventre da terra, como se o próprio inconsciente universal estivesse prestes a vomitar uma lembrança reprimida demais para ser ignorada.
À frente, uma clareira. No centro, um ser.
Não era bicho. Não era máquina. Era o casamento malsucedido de ambos. Tinha braços como raízes nervosas, olhos em constante mutação, e um torso onde uma engrenagem de osso e carne girava, cuspindo uma gosma que cantava em notas dissonantes. A criatura vivia em sofrimento — mas um sofrimento orgulhoso, como o de um tirano que se recusa a morrer.
E falava.
Não com palavras. Mas com visões.
Arale caiu de joelhos. Um colapso. Não físico, mas existencial.
Ela se viu como mero código — dados emocionais transmutados em circuito de decisão. O que chamava de “alma”, ali, era interpretado como algoritmo de defesa psíquica. Nada mais.
A criatura a olhava e mostrava:
Que não há essência.
Que o instinto reina.
Que tudo que nasce… é para devorar.
E então avançou.
O chão fendeu. As árvores-gritos se enroscaram nos céus.
Mas Arale... ruiu para dentro.
Foi em seu colapso interior que encontrou a fagulha.
Não uma verdade.
Mas uma negação da verdade da besta.
Porque se tudo é instinto, por que ainda hesitamos?
Se a alma é um erro de cálculo, por que ainda morremos por ideias?
Ela ergueu o machado de plasma. Mas não o lançou.
Ela o fincou no próprio peito.
O golpe não a matou. Despertou.
O plasma fez contato com sua memória mais pura — a lembrança de quando amou sem saber o que era o amor.
E isso... não estava na lógica da criatura.
A besta recuou. Urrou. Engasgou-se com o próprio código vital.
E ali, no meio da dor...
a engrenagem orgânica caiu.
Arale a recolheu com mãos trêmulas.
Tinha dentes. Tinha coração. Tinha peso.
Mas também tinha um ritmo.
E pela primeira vez, o universo parecia sussurrar esperança.
Ela montou no corcel, agora exausto.
Mas sabia: só faltava a lamparina da maçã fantasma.
E que no caminho, os mortos — os dela — a esperavam.
A noite caía no Limiar como uma sentença, não como um ciclo. Não havia lua, apenas um céu costurado com fios de saudade. Arale cavalgava com a engrenagem orgânica presa ao peito — pulsando ainda, como um coração transplantado que não esqueceu a vida anterior.
Agora, ela adentrava um bosque.
Não um bosque comum.
Um bosque de árvores que murmuram nomes esquecidos.
Cada folha era uma lembrança.
Cada galho, uma escolha abortada.
E o chão... feito de promessas não cumpridas.
Ela desmontava.
O corcel recuava. Não por medo. Mas por respeito.
Ali, tudo era memória que não quer ser lembrada.
Então a vê.
A Maçã Fantasma.
Ela paira no ar, envolta em névoa translúcida. Uma fruta feita de luz e cheiro — com o aroma exato do lar perdido, do colo da mãe morta, da infância em que ainda era possível rir sem carregar culpa.
Mas a maçã... não brilha sozinha.
Está acesa apenas por um fio de chama interior.
A lamparina que a sustenta é o que Arale busca.
Mas tocá-la requer um preço:
lembrar do que mais se tentou esquecer.
E o Limiar cobra sem piedade.
A presença surge.
Ela.
A própria Arale — mas criança.
Menina, suja, faminta, segurando um brinquedo que não existe mais.
— Você me deixou — diz a criança.
— Eu precisei sobreviver — responde Arale, a guerreira.
— Sobreviveu? Ou apenas esqueceu como era viver?
A lamparina oscila.
A maçã escurece.
Arale faz o impensável.
Ela se ajoelha.
Abraça a criança.
Não com culpa. Mas com ternura.
E diz:
— Eu senti tua falta.
Por um instante, o Limiar treme.
A luz retorna.
A lamparina se acende em definitivo.
Ela a segura. A chama é fria, mas intensa — uma iluminação que não cega, mas revela.
Mostra o que se é, o que se foi, e o que se poderia ter sido.
Agora, com os três itens em mãos —
Arale retorna.
Mas algo mudou.
Ela não é mais só guerreira.
Ela é testemunha.
De si.
Do universo.
Do abismo.
Var’Ghul a espera.
E com o códex umbra, uma arma será forjada.
Mas a pergunta permanece, cintilando como estrela morta:
Que tipo de arma pode carregar o peso de uma alma redimida?
Arale entrega seu machado e aguarda, meditando do lado de fora da torre. Meditou por sete luas e sete sóis. Durante a meditação, ela enxergou um pássaro espiritual chamado Xa´vir lhe solicitando que siga ao horizonte, além do limiar: lá do outro lado da floresta reside uma pequena aldeia que ela precisa seguir...
Arale então abre os olhos e pondera:
— Por que minha máquina de ossos não me forneceu um pergaminho sobre esta missão?
Valgur a clama.
Ao adentrar no salão, ela fica deslumbrada com o que vê.
Seu machado está pulsando com uma lâmina nova, com uma luz de plasma e um cabo de carvalho escuro totalmente restaurado. No centro da lâmina, onde reside um formato de coração, ali fora inserida uma esfera de energia e o prisma. Ao apertar a esfera, o machado se transforma em uma arma que rasga os véus entre os mundos...
Seu machado, o T'Zakrah — A Gume do espírito ancestral — agora também pode transmutar em uma ceifadora com balas.
Nesse instante, a máquina lhe fornece um pergaminho:
“O T’Zakrah, seu tomahawk xamânico, é seu legado ancestral e é forjado da madeira fossilizada do Ipê Fantasma, banhado em prata lunar e embutido com cristais oníricos recolhidos dos sonhos dos antigos. Seu fio é etéreo — corta não só carne, mas também memórias e maldições. No cabo, inscrições em língua indígena extinta dançam ao toque da luz, pulsando com o ritmo do tambor do mundo espiritual. Quando em repouso, murmura cantos de guerra de um tempo perdido...
Ao pressionar a prisma-esfera ou ser girado três vezes no ar e batido contra o solo, o T'Zakrah libera um urro ancestral, evocando o espírito de um Jaguaretê de silício.
O machado se desfaz em partículas de luz âmbar, que orbitam em espiral ao redor do braço do portador — como se ele vestisse o próprio espírito da floresta em guerra.
As partículas se condensam num corpo de uma espingarda alongada, com uma coronha feita de osso de Ent digitalizado e cano duplo pulsante, atravessado por veios de código xamânico que brilham em vermelho-azul, como uma profecia radioativa.
Nome das Munições:
"Bala de Sangue Solar"
Condensada do plasma vital de entidades espectrais derrotadas. Ao atingir o alvo, explode em uma chuva de luz rubra que queima a escuridão como sal em ferida profana.
"Projétil de Próton Verdejante"
Conjurado de partículas bioespirituais — um ataque quântico que atravessa dimensões, desmaterializando qualquer sombra interdimensional que tente escapar da justiça cósmica.
"Munhão T’ata"
Disparo ritualístico que emite um grito ancestral ao ser disparado, causando pânico em entidades das trevas e chamando os espíritos guardiões da floresta digital para cercar o campo de batalha.
Em sua função espiritual, o T’Zakrah não é apenas uma arma — é um ritual ambulante. Ele reconhece apenas aqueles que ouviram o chamado do silêncio entre os trovões. Serve para caçar criaturas do abismo, desfazer pactos de trevas e selar portais abissais com um único golpe ou disparo...”
O pergaminho se cristaliza, então Arale o guarda na bolsa.
— Minha sincera gratidão... — ela acena com a cabeça e então gira a espingarda no ar, encaixando-a em suas costas e partindo para a nova missão que lhe fora revelada em sonhos.
Quando enfim Arale atravessa aquele inóspito vazio surreal de névoa e ilusão, ela chega ao continente de Aurax, uma região gélida e fantasmagórica. Ela avista de longe uma clareira que serpenteia alaranjada, destacando-se naquela mórbida pintura de prata, e então avança em direção à chama de um lar...
Enfim sua máquina de escrever de ossos lhe sangrara um pergaminho.
— Até que enfim, meu bebê... — ela brinca.
O pergaminho dizia:
"Tribo de Kjaarnheim à frente. (Cuidado com os falsos profetas...)"
Então o pergaminho se desfez no ar como pólvora no oceano.
A neve caía como lâminas de vidro sobre o mundo, cortando o silêncio com um sussurro cruel. O céu era um véu de chumbo rasgado por vendavais ululantes, e a névoa engolira tudo exceto os próprios pensamentos de Arale. Ela avançava com o corpo envergado, os ombros pesados de gelo e propósito, em direção à esquecida e sagrada Kjaarnheim, a vila indígena onde os anciões da Névoa Cinzenta ainda recitavam os nomes perdidos das estrelas.
A trilha era quase inexistente, devorada por dunas gélidas em mutação. Cada passo afundava no branco traiçoeiro que escondia rachaduras e galhos congelados como armadilhas. O vento gritava em línguas antigas, tão antigas que talvez nem o tempo as compreendesse. Arale apenas cerrava os olhos e cuspia sangue, o gosto metálico aquecendo a garganta.
Um clarão pulsante estourava na altura da lua de sangue.
Distante. Os olhos queimando da brancura. Um halo translúcido pulsando entre os pinheiros mortos — como se o próprio mundo respirasse dor. Foi ali que eles surgiram. Três lupinos brancos, criaturas geneticamente corrompidas, forjadas em laboratórios obscuros e esquecidos por seus próprios criadores. Gigantescos, com músculos pulsando sob pelagem albina, os olhos vazios, negros, sem alma. Seres que não rosnavam, mas rangiam, como engrenagens orgânicas sedentas por carne. Arale rugia alto.
Arale se deteve. A mão fria buscou a coronha da T’Zakrah, sua espingarda espectral.
A madeira era negra e viva, cravejada com runas escarlates que pulsavam em resposta à presença dos monstros. Arale rapidamente transmutava as armas com maestria, rasgava a palma com a lâmina do machado e deixava o sangue escorrer e em seguida a alquimia.
As balas da T’Zakrah beberam da oferenda. A arma estremeceu em suas mãos.
O primeiro disparo soou como o uivo de um deus morrendo.
A bala de sangue atravessou o peito do primeiro lupino, explodindo sua espinha e lançando entranhas em espiral no ar. Um clarão púrpura iluminou a névoa com espectros famintos. O segundo veio por baixo, rápido demais. Arale girou o corpo, mas as garras rasgaram suas costas, abrindo um sorriso sangrento que fumegava no frio. Ela caiu de joelhos, cuspindo gelo, mas seus olhos brilhavam como brasas.
O machado veio em arco. Um golpe seco, preciso, arrancando a mandíbula do inimigo que ainda vivia tempo suficiente para uivar como um cão de guerra antes de cair.
O terceiro, o maior, investiu.
Ela ergueu o braço esquerdo — o braço cibernético — uma peça de guerra herdada do colapso dos sete xamãs. Dentes se cravaram no metal. Chamas de dor pulsaram em seus nervos. Mas o braço de aço girou com força brutal. Um estalo seco. O crânio do monstro foi esmagado como fruta podre.
Sangue branco e viscoso jorrou em seu rosto.
Ela tombou de lado, arfando. A neve ao redor tingia-se lentamente de vermelho. O céu parecia mais próximo agora, como um teto de ferro prestes a esmagar tudo. Mas ao longe, as primeiras tochas da vila Kjaarnheim tremeluziam entre os pinheiros.
Ela estava ferida. Mas viva.
Os espíritos antigos, enterrados sob a tundra, sussurravam seu nome. Arale, a sangue-da-névoa.
Caçadora da Aurora.
Portadora do Machado-espingarda. T’Zakrah.
A aldeia surgiu como uma miragem sólida no fim da tempestade.
Kjaarnheim — a Última Vigília dos Ventos, como sussurravam os cantores das planícies geladas. Erguida entre falésias cravejadas de gelo e pinheiros retorcidos, a tribo pulsava com um estranho fulgor âmbar, uma fusão ancestral entre tecnologia esquecida e rituais milenares. Tochas plasmáticas queimavam em torres totêmicas feitas de chifres de urso-do-gelo e antenas de relíquias antigas. As ocas não eram meras cabanas, mas cúpulas vivas, entrelaçadas por cipós bioluminescentes que reagiam ao humor dos habitantes — luzes mudando de cor conforme passavam, como se a vila em si tivesse olhos.
Arale cambaleou ao entrar, o manto rasgado, o sangue ainda quente colando suas costas à armadura térmica. Os habitantes interromperam seus afazeres. Nenhum som foi feito. Eles apenas a observaram, os olhos escondidos por máscaras tribais feitas de aço enferrujado, couro de wyren tundral e lentes óticas de precisão adaptadas como visores. Vestiam-se com camadas sobrepostas de peles e placas cerimoniais, cada traje diferente — indicando caçadores, artífices, cuidadores de bestas ou mestres dos circuitos.
Dos confins da praça principal, avançou Thrym Urr-Naal, o Xamã das Três Códices. Alto, encurvado como as árvores tortas da encosta, o velho trajava um manto feito de asas de corvos mecânicos e fios dourados extraídos de núcleos de IA ancestral. Em seu cajado, um motor de dronossauro pulsava como um coração aprisionado. O rosto era parcialmente coberto por um visor rachado que projetava símbolos vivos em sua testa — runas fluídas de uma linguagem que ninguém mais sabia decifrar.
— Tu sangras, viajante dos ecos. — sua voz era rouca como couro velho sendo costurado. — E o sangue é bom. Ele chama. Ele lembra. Ele desperta.
Arale tentou falar, mas sua garganta era uma fornalha gelada. Apenas assentiu, caindo de joelhos diante da chama da praça — um reator nuclear primitivo disfarçado de fogueira cerimonial. Crianças de olhos vivos e cachos revoltos aproximaram-se com cautela, oferecendo a ela peles secas, água infundida com folhas de synarhk e pequenos ossos talhados em forma de lebres e engrenagens — votos de cura.
De uma estrutura mais afastada, cujas paredes eram feitas de painéis solares resgatados e adornadas com presas de cervomáquinas, saiu Darrun Eksveil, o Profeta de Silício e Vapor. Um homem de cabelos acobreados, longos e embebidos em óleos purificados, olhos cobertos por uma viseira neural que reagia ao ambiente com microexpressões matemáticas. Seus dedos eram implantes refinados, capazes de desmontar e reconstruir um behemoth com os olhos vendados. O povo dizia que ele lia o futuro nas quedas de tensão elétrica do vento e ouvia a voz da Terra através dos tremores do código enterrado sob os glaciares.
— Ela é a do presságio. A que carrega o aço que sangra. A conjunção está próxima, Thrym. — disse Darrun, sua voz embalada por microvibrações vocálicas, como se falasse em múltiplas frequências ao mesmo tempo.
— O T’Zakrah respondeu. A Primeira Batalha foi travada. Três sangraram, um rugiu. — completou o xamã, traçando no ar um símbolo com a ponta incandescente do cajado.
A aldeia então cantou.
Uma melodia grave, ressoante, acompanhada por tambores que eram feitos de chassis de velhas torretas de guerra e cordas extraídas de nervos sintéticos de ursos mecânicos. Mulheres com tatuagens luminescentes dançavam com movimentos precisos e circulares, evocando algoritmos de caça. Velhos narradores recitavam em transe a história do Tempo Antes do Código, enquanto um garoto conduzia um rebanho de fenrirs biomecânicos — grandes cães-lobos cujos ossos eram reforçados com titânio e que latiam em pulsos binários.
Ali, homens e máquinas não coexistiam. Eram um só corpo. Uma só mitologia.
Arale, ferida, mas não vencida, olhou para os céus que agora começavam a se abrir, revelando auroras retorcidas dançando como serpentes elétricas. Um silêncio ancestral pousou sobre ela, como uma coroa invisível.
Sabia, em seu sangue ferido, que aquela vila era mais do que refúgio.
O prelúdio da próxima guerra.
Os tambores estavam apenas começando a bater.
Acordou envolta em peles fumegantes de calor antigo, o corpo nu entre camadas macias que ainda cheiravam a musgo, cinza e especiarias minerais. A respiração era lenta, pesada, marcada pelo perfume estranho que preenchia o abrigo — uma mistura de óleo de engrenagens queimadas e raízes aquecidas. A pele de Arale estava limpa, o sangue lavado, os ferimentos cobertos por unguentos negros e cintilantes. Sentia-se leve. Vulnerável. Quase… humana.
O abrigo era um domo de energia filtrada, com paredes respirantes que pulsavam ao ritmo da luz lá fora. Sentado próximo, com os olhos mergulhados em uma planilha etérea de código flutuante, estava Darrun Eksveil, o profeta, o maquinista, o decifrador do invisível.
Seus olhos artificiais projetavam runas sobre as pálpebras — mas naquele momento, eles a fitavam diretamente, como se tentassem decifrar algo mais profundo que algoritmos. Havia nela uma ferocidade suave, felina. E algo nele, sob a camada de lógica e silício, ansiava pelo toque daquela desconhecida que despertava com olhos dourados e peito marcado por cicatrizes antigas.
Darrun desviou o olhar. Rápido demais.
Mas Arale viu.
Sentiu.
O cheiro.
Não como uma humana.
Mas como uma predadora.
Havia feromônio no ar. Aquela excitação primal disfarçada de reverência. O embaraço rastejando sob o silêncio técnico do cientista. Ela sentiu o calor subir à nuca, não de vergonha, mas de alerta.
Vestiu-se com as vestes que lhe haviam deixado: um manto cerimonial de fibras sintéticas trançadas com escamas de dracomarcas, uma calça ajustada feita de couro técnico tribal e um colar de dentes antigos, ainda vibrando com energia residual. Saiu sem dizer uma palavra, guiada pelo instinto que pulsava como bússola ancestral.
Thrym Urr-Naal aguardava.
Diante de uma estrutura ciclópica, meio santuário, meio torre de observação, onde relíquias de tempos esquecidos giravam em órbitas suaves, suspensas por magnetismo primitivo, o xamã erguia o olhar para as constelações ocultas sob o dia. Quando Arale se aproximou, ele sorriu. Um sorriso antigo, orgulhoso e... maravilhado.
— Tu és o eco perdido. O fragmento que não esquecemos. — disse ele. Aproximou-se, tocando o colar em seu pescoço. — Teus ossos vibram com as canções de Gaya.
Ela franziu o cenho.
— Não compreendo.
— Todos aqui nascemos com cauda. Alguns com orelhas. Pelos. Mas isso se perdeu com o tempo, cruzamentos, colapsos. Apenas os mais antigos lembram. Tu és pura. És nossa origem. És… nossa irmã.
A mente de Arale oscilou como um pêndulo. Imagens cruzavam sua consciência: caçadas em florestas que não lembrava ter pisado, vozes em línguas que nunca aprendera, e o brilho de olhos dourados — iguais aos dela — ecoando no passado.
— Viestes de outro tempo, talvez outro plano. Mas o sangue é o mesmo. — disse o xamã. — Este mundo, este que chamamos Gaya, não era sempre assim. Os anciãos dizem que ele colidiu com um outro céu, um plano superior chamado Fractis. E da fúria dessa colisão nasceram os Deuses.
— Jafari. — murmurou Arale, como se o nome lhe fosse sussurrado de dentro.
Thrym assentiu. Seus olhos lacrimejaram.
— O Leão da Luz. Nosso ancestral. E seu primogênito: No’ahki, o Guerreiro da Raiz. Eles enfrentaram o Caos de Fractis. Venceram. Trouxeram ordem. E teu machado, T’Zakrah, foi a lâmina que No’ahki empunhou. És sua herdeira. És a que retorna.
Ela cambaleou. O mundo girou.
— Teu verdadeiro nome, criança do eco, é... — ele sussurrou com solenidade.
— Baskhiat Sual’Ra — filha do trovão e das estrelas errantes.
Naquela noite, em um círculo de fogo azulado, realizaram a Cerimônia da Prisma Tríade. Arale — não, Baskhiat Sual’Ra — bebeu do vinho das almas, uma infusão de seiva de árvores vivas, sangue de lobo-máquina e lágrimas de obsidiana líquida. O calor subiu por sua garganta, queimando seus sentidos.
Ela testemunhou com lágrima nos olhos.
Isis, a Senhora do Véu: Uma feição tão amorosa e amigável**,** olhos que escondiam galáxias, e mãos de cura e destruição.
Nix, a Deusa do Abismo Noturno: com cabelos de serpentes de luz e nua como a noite, pele de estrelas em colapso, a voz um lamento de todas as mães que perderam filhos para o vazio.
Anubis, o Guardião dos Fios da Morte: cabeça de chacal sideral, corpo coberto de engrenagens rúnicas, segurando uma balança onde as almas eram medidas em bytes de destino.
— Há algo que cresce sob tua terra, Ysmir. — disse Isis.
— Um mal antigo, sem nome, sem rosto. — sussurrou Nix.
— Mas tua alma será guiada. Pela guardiã perdida... — completou Anubis.
Na névoa daquele diálogo ela apareceu.
Citlalmiquiztli.
A Deusa-estrela.
Com olhos de quartzo negro e um corpo feito de constelações mortas. Ela caminhava entre as dimensões como bruma. Sua voz, suave e imortal:
— O caminho te aguarda além dos Picos do Gelo da Morte.
No subterrâneo de tua linhagem repousa a pirâmide cybercosmo.
Lá encontrarás aquele que despertou:
Quetzalcóatl. O Senhor das estrelas.
Ela viu — ou sonhou — o vale oculto no coração do México, uma cidade abandonada entre raízes metálicas, e um templo com portas abertas para as almas perdidas. Sentiu o frio da encosta, o cheiro da floresta desconhecida, e o sussurro do dever.
Observar os astros. Proteger o equilíbrio.
Decifrar o destino. Despertou com um sobressalto.
As chamas ainda ardiam. Na parede da caverna, desenhado com o sangue do vinho sagrado, o símbolo dos três deuses pulsava.
— Tenho tantas perguntas... — Arale arfou.
— És da casa Fay´ax. Sua mãe Lyra está conosco, mas, para este povo, você é a representação da linhagem de Sual’Ra, a escolhida de Citlalmiquiztli para ceifar Quetzalcóatl.
— Se eles têm fé em minha origem, devo honrar meus ancestrais e meus descendentes, pois a única coisa que conheço à prova de balas é a nossa fé...
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…