A Queda de um Anjo Caído

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“... ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele...”.
Apocalipse 12:9

Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constante. Dentro daquele sonolento ambiente estava quente e abafado, devido as janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de início de semana. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido, vez por outra, pelo som de bolas de bilhar, o barulho do silencioso carteado e pelo som de copos sendo reabastecidos. As antigas canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fosse um fúnebre fundo musical.

Sempre nas noites de segunda-feira — único dia de folga de Salatiel, em seu novo emprego de segurança noturno — ele buscava um lugar onde pudesse beber sossegadamente, ouvir um pouco de música e tentar se socializar um pouco, de forma que pudesse observar os outros ao seu redor, e se possível não ser notado. Nem sempre dava muito certo e havia a constante necessidade de ter de trocar de lugar de tempos em tempos. Havia certa peculiaridade nesse estranho ser, que o tornava um tanto quanto diferente; de certo modo parece que ele era perseguido pelo senso de fazer justiça e por onde andava sempre se deparava com uma irrecusável oportunidade de desfazer algum desagravo a uma alma inocente. Para tentar conviver num mundo tão hostil e covarde, buscava os lugares mais discretos possíveis.

Certamente não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase ao ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente, nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas, para tentar se esconder de seus próprios problemas.

Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad eternum no ar, sempre há alguém disposto a buscar o momento de paz para consigo mesmo. Da mesma forma que todo ser vivente tem os seus segredos mais profundos, Salatiel não era de todo diferente. Contudo, qualquer um que viesse a saber quem ele realmente era, certamente não viveria para contar a quem quer que seja, e se por acaso contasse, ninguém acreditaria.

Assim que entrou naquele ambiente, sentou-se num dos cantos mais afastados do balcão — onde a luz era praticamente insuficiente — e, logo, pediu uma bebida. A jovem que viera o servir era de uma beleza ímpar. Uma mulher de altura mediana, de corpo bem feito, com belos seios rijos e um agradável perfume com leves notas no odor de almíscar. Seus belos olhos eram brilhantes e de um castanho claro como a cor do mais puro mel. Sua boca de lábios carnudos estava delineada por um batom de um tom carmim. Quando o cumprimentou, mostrou-lhe um inocente sorriso de dentes brancos como o mais puro marfim.

— Boa noite, nobre cavalheiro! Seja bem-vindo ao nosso humilde estabelecimento. Meu nome é Denise, quero que saiba que é um prazer poder conhecê-lo. Estou aqui hoje para servi-lo da melhor maneira possível! O que vai beber?

— Boa noite! Traga-me por gentileza uma garrafa de conhaque. — disse de uma forma fria e até um tanto quanto ríspida. De cabeça baixa estava e assim continuou.

A bela jovem, acostumada àquele tipo de cliente, não deu muita atenção a toda aquela falta de delicadeza do belo cavalheiro que optava por se esconder naquele penumbroso canto do bar. Salatiel era um ser de uma beleza que poderia se dizer um tanto quanto... exótica. Mesmo escondido nas sombras, ainda assim era possível perceber que era um homem alto, másculo, de mãos fortes e ombros largos; cabelos negros como uma noite sem luar e uma face lisa desprovida de qualquer traço de barba ou bigode. Num primeiro momento, não foi possível ver a cor dos seus olhos nem mesmo o brilho de seu sorriso — se esse, porventura, viesse a existir —, mas tinha a leve aparência de ser um sujeito decente.

A noite tinha tudo para transcorrer tranquilamente até a chegada de um estranho valentão ávido por uma confusão. Antes de qualquer coisa, já entrou no bar falando palavras de baixo calão num tom bastante alto e muito desagradável. Ao passar próximo à mesa de bilhar, esbarrou num dos jogadores, atrapalhando a jogada, o que fez com que uma discussão se iniciasse, mas logo fora amainada quando o valentão mostrou o cabo de uma brilhante pistola. Ao sentar-se, deu um forte soco no balcão — quase derrubando a garrafa de conhaque de Salatiel, que logo previu que aquilo não terminaria bem. Quando a jovem bartender, muito prestativamente, veio lhe servir, ele logo lhe mostrou o seu lado mais abjeto após colocar a arma sobre o balcão e se dirigir a ela, em seguida, de forma bastante desrespeitosa:

Belezoca, quero uma bebida e uma beijoca.

– Boa noite, senhor. Qual bebida poderei lhe servir? — disse ela, muito educadamente.

– Daquelas que se bebe! Sua piranha. E para sua informação, Senhor está no céu.

– Peço perdão, senhor, mas são normas da casa o tratamento respeitoso que damos a todos os nossos distintos clientes. Contudo, se me disser o seu nome, terei imenso prazer em chamá-lo da forma que preferir. Insisto em perguntar-lhe qual é o tipo de bebida que deseja? — disse ela mais uma vez, num tom bastante sereno, sem deixar se abalar pela indelicadeza do cliente.

– Quando eu lhe disser o meu nome, terá mais cuidado na forma como fala comigo. Pensei em tomar uma cerveja, mas posso beber qualquer coisa que você me sugerir. — respondeu ele.

Quando ela foi lhe servir, delicada e com muito bom jeito, ele a segurou pelo braço e a arrastou para próximo de si, tentando beijá-la à força. Quando ela tentou recusar, já se viu na mira da arma que ele apontava entre seus seios, com a séria intenção de atirar se fosse necessário. Como que por passe de mágica, o estranho que estava no canto mais afastado do balcão, em um simples piscar de olhos já estava ao lado do valentão e lhe segurava o ombro dizendo, muito calmamente, para que ele soltasse a moça. Um silêncio se fez por completo naquele instante, como se o próprio tempo tivesse parado. Todos ficaram bastante atônitos com o que poderia vir a acontecer naquele tranquilo bar.  

Num ímpeto de selvageria, o estúpido cavalheiro que havia adentrado aquele ambiente para perturbar a paz ali existente, virou a arma na direção de Salatiel e apertou o gatilho várias vezes. O som que a arma emitiu, fez com que todos ficassem boquiabertos, inclusive o próprio valentão que não acreditava no que estava ouvindo, pois, por mais que insistisse em apertar o gatilho, a arma girava no vazio como se estivesse descarregada. Salatiel, com toda a serenidade que lhe cabia, tomou a arma do valentão como se tomasse um brinquedo de uma criança. Em seguida, o segurando pela mão direita, olhou profundamente nos olhos dele e disse algumas palavras que ninguém conseguiu entender ao certo, nem mesmo a jovem que estava próxima a eles dois. Denise também pôde ver que os olhos de Salatiel tinham mudado de um tom azulado bastante sedutor para um negro bastante sombrio. Naquele momento, ela teve a estranha impressão de ter visto dois profundos abismos no lugar dos olhos.

Em alguns poucos segundos, ao olhar nos dois abismos que se tornaram os belos olhos de Salatiel, o valentão fez uma longa viagem pelas terras onde a esperança não jaz e, acompanhado daquele estranho ser — que naquele lugar tinha outras feições bastante assustadoras —, pôde vislumbrar um lugar de dor e bastante sofrimento. Todas as estórias que ouvira sobre a terra da danação eterna se tornou real perante seus olhos. Num voo rápido pôde ver, com seus próprios olhos, centenas de milhares de pessoas em terrível padecer, clamando por piedade num incessante lamuriar. Tentou fechar os olhos, para não ver toda aquela dor, mas percebeu que, ao fazer esse gesto, uma ardente chama se acendeu logo atrás de seu globo ocular, como se sua cabeça estivesse pegando fogo. Assim que abriu os olhos novamente, a ardência desapareceu. Pôde então perceber que estava ali, justamente para ver toda aquela angústia.

Após presenciar todo aquele sofrimento que poderia levar qualquer um à loucura, sentiu seu peito se fechar num profundo pesar; mas o pior ainda estava por vir: quando viu seu falecido pai, preso ao chão com correntes incandescentes, ser estuprado por dois terríveis monstros com feições de crianças demoníacas. Essas crianças sodomizavam seu pai sem nenhuma piedade, como se aquilo fosse em exercício de uma função a ser executada de forma profissional. Mas havia prazer nos terríveis olhos daquelas duas criaturas que, para piorar ainda mais a situação, tinham um semblante que lembravam duas crianças inocentes. Seu pai, percebendo uma estranha presença próximo a ele, levantou sua cabeça e logo reconheceu a imagem do filho que estava a sua frente, ao lado de Salatiel. Num urro de tremendo remorso, gritou para o filho:

 — Jeremias, me perdoe! Eu era uma pessoa doente e agora sei todo o mal que lhe causei.

Jeremias soube, então, que tipo de lugar era aquele e porque seu pai estava sendo punido daquela forma. Lembrou-se, então, de tudo o que havia sofrido nas mãos de seu pai quando sua mãe não estava em casa. Após poder contemplar o castigo dos ímpios, um triste pesar tomou conta de todo o seu ser. Essa viagem de Jeremias durou, para ele, quase meia hora, mas no bar não se passara nem cinco segundos. Quando ele piscou os olhos, logo viu que todos estavam estupefatos, imaginando o que ele faria em seguida, mas para a surpresa geral, ele baixou sua cabeça e em seguida lançou as mãos no rosto e começou a chorar como uma criança.

Ninguém no bar entendera coisa alguma. Jeremias completamente tomado pela emoção, ainda pagou pela bebida que nem mesmo chegou a tomar e, com o rosto banhado em lágrimas, implorou pelo perdão de Denise; logo em seguida saiu correndo do bar, deixando para trás seu maço de cigarros, um pacote de dinheiro e a arma que lhe fora tomada. Denise olhou para o estranho cliente que viera em seu socorro e, sem entender nada daquilo, logo lhe questionou:

— O que foi aquilo? O que o senhor disse a ele?

— Nada demais, apenas disse a ele para que endireitasse suas veredas e que tivesse um pouco mais de respeito para com o seu próximo. Acho que daqui para frente ele será um homem um pouco mais educado e bem mais cuidadoso com suas atitudes.

Salatiel, após dizer essas palavras, pegou a arma que ainda estava sobre o balcão, a descarregou em seguida, guardando, tanto a arma quanto as munições, nos bolsos da jaqueta jeans que estava usando. Voltou para seu lugar e tomou mais uma satisfatória dose de seu conhaque. O restante da noite transcorreu de forma tranquila, sem mais nenhuma perturbação. O bar fechava em dias de segunda-feira, por volta de uma hora da madrugada. Antes de encerrar o trabalho, Denise muito gentilmente agradeceu seu salvador novamente, dizendo que seria um enorme prazer recebê-lo uma vez mais ali naquele humilde ambiente.

Assim que ela fechou o bar, seguiu seu caminho direto para casa que distava somente algumas quadras de seu trabalho. Salatiel, como era de costume, sempre levava consigo o restante da garrafa que sempre sobrava, e sentava-se num banco de uma praça qualquer; ainda ficava, até quase o dia amanhecer, sentado de face virada para cima, contemplando as estrelas e se lembrando de tempos de outrora. Estava ele caminhando em passos lentos quando ouviu gritos desesperados vindos de uma rua logo abaixo de onde ele estava. Rapidamente se encaminhou na direção dos gritos e, lá chegando, logo percebeu que pela segunda vez naquela noite, Denise necessitava de sua ajuda novamente, pois dois homens tentavam encantoá-la para um local escuro, possivelmente com a intenção de abusar de sua inocência.

Mais uma vez, com a calma de um pastor que tange suas ovelhas, Salatiel se aproximou dos dois agressores e parece que repetiu o mesmo que havia feito no bar, pois assim que tocou nos agressores, em alguns segundos os dois saíram correndo aos prantos, clamando que Deus tivesse piedade de suas almas. Denise, uma vez mais, achou tudo aquilo bastante estranho, mas, mesmo assim, o agradeceu novamente e pediu para que ele a acompanhasse até em casa. Sem poder dizer não, para uma jovem que se parecia por demais indefesa, assim ele o fez. Ao chegarem ao portão de sua casa, quando Denise já estava prestes a se despedir, um agradável rostinho apareceu na janela. E para surpresa ainda maior daquela batalhadora garçonete — que criava sozinha, com o parco salário que ganhava, uma filha adotiva que padecia de leucemia —, ouviu quando a menina disse que o convidasse para entrar.

Ela sorriu e pediu que ele entrasse somente um pouquinho, para que a menina não se contrariasse. Salatiel jogou, a garrafa que trazia nas mãos, na lixeira; e seguiu Denise. Assim que entraram na casa, ele logo pôde perceber que havia uma menina de uns nove anos, sentada numa cadeira de rodas. Tinha a pele pálida como a neve — a ponto de deixar visíveis quase todas as suas veias. Na cabeça nua, não tinha nenhum fio de cabelo sequer. Era tal magra, que dava a leve sensação de que não duraria muito tempo. Contudo, para surpresa tanto de sua mãe, bem como para o próprio Salatiel, a menina se direcionou a ele como se o conhecesse há muito tempo.

— Boa noite, Salatiel. Como tem passado? Não reconhece mais um de seus irmãos quando vê um? Pelo que vejo tem se adaptado bem à sua nova vida...

Para não restar nenhuma dúvida, Salatiel respondeu na língua dos anjos.

— Boa noite, Galalel. Agora se disfarça de menininhas doentes para andar entre os seres humanos? Ele já foi mais criativo para nos enviar entre os seus preferidos.

— Não há preferidos para Ele! Somente aqueles que o obedecem e os que, por escolha própria, são rebeldes. Estou aqui por uma causa nobre. Denise é muito preciosa para ele e precisa ser testada em sua fé. Respondeu Galalel, também na língua dos anjos...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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