Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“O maior feito de Jesus não foi ressuscitar os mortos, mas a capacidade de ressuscitar os vivos.”
— Padre Fábio de Melo

Havia já alguns dias que ele tinha apresentado os primeiros sinais de recuperação. Num primeiro momento, apenas um leve tremor nos dedos da mão esquerda, depois um longo suspiro, o que causou certo alvoroço dentre os médicos que o acompanhavam. Na segunda semana já havia sido desentubado e começava a se alimentar com comida sólida. E depois de um mês de muita fisioterapia já conseguia ir ao banheiro com suas próprias pernas, mas ainda estava na UTI. Sentia que estava se recuperando bem, mas o que lhe causava certo desconforto era o fato de, mesmo após ter saído do coma, ainda não ter sido visitado pela sua família nem uma única vez. Apenas sua irmã mais nova, vez por outra, colocava a face pela vidraça da sala e lhe acenava de forma bastante afetuosa.

Naquela tarde, dois meses após ter acordado de um coma profundo, sua médica plantonista, Doutora Aline, lhe comunicara que, na manhã seguinte, após uma bateria de exames, dependendo do resultado, ele poderia ser transferido para um quarto comum, e assim poderia receber visitas. Ele ficou bastante eufórico com a notícia. As horas passaram se arrastando naquela noite; mesmo depois de um longo tempo, que mais pareceu uma eternidade, logo as primeiras luzes do dia começaram a iluminar o quarto onde estava, e enfim a manhã chegou. Seus exames atestavam-no para uma progressão para outra ala e, se tudo corresse bem, naquela mesma semana talvez ele até recebesse alta. Assim que foi levado para o quarto, sua irmã o aguardava ansiosa. De alguma forma parecia que ela estava bastante estranha, parecendo mais velha e um pouco mais magra. Fato que ele de forma alguma quisera comentar.

— Bom dia, maninho querido. Como está se sentindo? Que baita susto você nos deu? — disse ela de forma bastante calorosa, mas com certo tremor na voz, como se houvesse algo de errado.

— Bom dia, Marianne! Estou me sentindo um novo homem. Por falar em nós... Onde está todo mundo? Por que Denise não veio me ver todo esse tempo? Onde estão as meninas? Minha mãe está doente? Parece que ninguém tem mais nenhuma consideração por mim.

A médica que o estava acompanhando até o quarto solicitou que, naquele momento, ele descansasse, e que depois tudo lhe seria devidamente esclarecido. Daniel não era o tipo de pessoa dotada de muita paciência e logo quis saber do que se tratava. O porquê de sua família não estar ali visitando-o? Afinal, ele tinha acabado de sair do coma. Apesar de nem ele mesmo se lembrar do motivo de estar internado naquele hospital, muito menos em estado de coma. Doutora Aline, com muita paciência, disse que era melhor que sua irmã, que o havia acompanhado durante todo aquele tempo, lhe deixasse a par de toda a situação.

Assim que Daniel foi devidamente acomodado, sua médica recomendou cautela quanto ao excesso de emoções, mas também disse que já era hora de lhe contar toda a verdade. Disse que retornaria à tarde para verificar sua evolução, mas que por hora o deixaria aos cuidados da irmã. Saiu e fechou a porta do quarto atrás de si, deixando os dois irmãos a sós no quarto. Marianne, quando viu a ansiedade estampada na face do irmão, não conseguiu manter o controle sobre si mesma e logo sua face estava banhada em lágrimas. Daniel de alguma forma compreendeu o que aquelas lágrimas diziam. Com o senso de irmão mais velho que nunca perdera, mesmo com o passar dos anos, abriu os braços e chamou a irmã para junto de si.

Marianne ainda chorou por um longo tempo. Parecia que havia uma enorme carga de tristeza e sofrimento sobre seus ombros. O tipo de pesar que alguém segura o quanto pode, mas quando começa a descarregar parece que não acaba mais. Assim que ela conseguiu recuperar o controle de suas emoções, pediu-lhe que ele permitisse que ela fosse até o banheiro lavar o seu rosto. Após se refazer, ela puxou uma cadeira que estava próxima e, ao sentar-se ao seu lado, rogou-lhe que ele contasse o que se lembrava de antes do acidente.

— Que acidente? — perguntou ele.

Nesse momento percebeu que era mais sério do que ela podia imaginar. E decidiu que deveria contar tudo de uma única vez. Se ele conseguiu sobreviver a um acidente onde mais de 40% dos ossos de seu corpo haviam se esfacelado, certamente ouvir a triste verdade sobre sua nova vida não poderia matá-lo. Afinal, até mesmo sua própria médica havia lhe dado carta branca. Sem mais delongas, Marianne disse-lhe que narraria tudo que era necessário para lhe pôr a par de sua situação, mas que ele deveria lhe prometer que não a interromperia até que ela terminasse de contar tudo o que ocorrera. Assim que ele concordou, ela principiou.

— ...Era feriado de Semana Santa, e como acontecia todos os anos, desde que se casara você sempre viajava para a casa dos pais de sua esposa a fim de passar a Páscoa com a família dela. Você justificava para mamãe que, uma vez que nós, como cristãos, tínhamos o Natal como um dia muito especial e que sempre passávamos juntos. Sendo assim, a família de sua esposa, como era de origem judia, a Páscoa era de suma importância para eles também. Por isso, para manter uma política de paz em seu lar, vocês todos sempre viajavam para a casa deles nessa época do ano. Acontece que naquela fatídica tarde de quinta-feira — véspera de Sexta-feira da Paixão — ninguém esperava que um motorista completamente embriagado estaria testando os limites de velocidade de sua nova pick-up para demonstrar para sua amante — uma bela jovem, ainda na flor da idade, que tinha idade para ser sua neta, a quem ele chamava de doce coelhinha, segundo a mãe dela em testemunho à polícia — o quanto ele tinha a capacidade de desafiar a morte em todos os sentidos possíveis.

Em certa altura da estrada, seu carro se chocara de frente com a pick-up desse inconsequente sujeito, que naquele momento dirigia na contramão a mais de 200 km/h, segundo a perícia. Pedaços do corpo da jovem, que estava com ele na pick-up sem usar o cinto de segurança, foram retirados daquilo que sobrou do seu carro e de um longo trajeto da estrada; o enterro dela teve que ser com caixão lacrado, para desespero de sua mãe. Denise e as crianças tiveram morte instantânea, sem sofrimento algum, segundo os peritos. De forma milagrosa, na hora da batida, você também estava sem cinto e, tal como a jovem “coelhinha”, também fora lançado para fora do carro, mas passando por cima da pick-up e caindo numa plantação de milho ao lado da estrada. O impacto quebrara grande parte dos ossos de seu corpo, mas de uma forma inexplicável você conseguira sobreviver.

Quando o socorro chegou, o homem que dirigia a pick-up já havia se evadido do local sem prestar nenhum tipo de socorro. Ele mesmo, que fora o grande causador daquela inexplicável tragédia, não tivera nenhum ferimento grave, apenas alguns leves arranhões. Os socorristas, que não tardaram a chegar ao local do acidente — acionados por outro motorista que passava pelo local um pouco depois que tudo ocorrera — ali mesmo lhe prestaram os primeiros socorros e logo conseguiram estabilizá-lo, salvando-lhe a vida. É certo que seus ferimentos foram tão graves que o deixaram em estado de coma profundo.

O motorista da pick-up logo fora localizado e preso pela polícia. Mas conseguira, através de pessoas influentes, aguardar o decorrer do processo em liberdade. Seu julgamento aconteceu um ano depois do acidente. Devido aos seus inúmeros contatos com pessoas importantes e pela sua enorme fortuna, fora-lhe aplicada apenas uma pena bastante branda, considerado o tamanho da tragédia que ele causara. Foi condenado a pagar uma fiança revertida em cestas básicas — que, até onde se sabe, nunca foram pagas — e a prestar alguns serviços comunitários relacionados ao trânsito — serviços esses também que jamais foram prestados.

Minha mãe, que já não estava muito bem desde que papai se fora, ao saber da morte de sua estimada nora e de seus adorados netos, além de saber que seu filho estava em estado de coma profundo num hospital, sem saber se algum dia conseguiria se recuperar, assim que viu o motorista da pick-up dirigindo livremente pelas ruas novamente, não suportou tanto descaso por parte das autoridades e, num ataque de desespero, atentou contra a própria vida. Amanhã faz dois anos que mamãe se matou...

Nesse momento Marianne abaixou sua cabeça e iniciou um lamentoso choro novamente. Daniel, que naquele momento estava de pé logo à sua frente, segurou sua face com ambas as mãos e disse-lhe com toda convicção possível:

— Esse tipo de homem se acha acima das leis que eles mesmos criam para serem aplicadas em outros abaixo deles. Contudo, se esquecem de que existem outras Leis que regem as engrenagens desse mundo conhecido por nós e de outro muito além de nosso entendimento. O Universo foi criado em plena perfeição e as Leis que assim o regem são exatas e nunca falham. Durante nossa insignificante passagem por esta terra, o tempo todo estamos adquirindo créditos e dívidas, independentemente de quem somos ou com demasiada soberbia pensamos ser; mais cedo ou mais tarde, teremos que acertar as contas com o Infinito. Certamente minha família e essa infeliz jovem não foram os primeiros a sofrerem esse tipo de atrocidade nas mãos de pessoas como ele, mas saiba você que, por parte dele, ninguém mais sofrerá esse tipo de injustiça. É uma promessa que lhe faço. Esqueça tudo isso e fique despreocupada, pois essa última dívida que ele contraiu, lhe será cobrada muito em breve. O dinheiro que ele acha que tem e sua honrosa posição social conseguiram livrá-lo da justiça, mas não conseguirá de forma alguma protegê-lo de mim. Tem quanto tempo que isso aconteceu, Marianne? Desde quando estou aqui nesse hospital?

— Três anos exatos. Afinal, domingo próximo é Páscoa novamente — disse ela.

Daniel ficou em absoluto silêncio e nada mais quis saber além do nome do homem que causara a destruição de toda a sua família. Abraçou sua irmã uma vez mais e logo pediu a ela que saísse, pois precisava descansar. Marianne, sentindo-se mais aliviada por ter conseguido contar ao irmão tudo o que lhe ocorrera, dirigiu-se para sua casa com o senso de dever cumprido. A pedido de seu irmão, lhe repassara tudo que ela sabia sobre o homem que causara aquele terrível acidente: quem ele era; onde vivia; e o que fazia da vida — ou seja, nada. Pois era um homem bastante rico, que nunca trabalhara, uma vez que sua enorme riqueza era proveniente de heranças que havia recebido tanto por parte de pai bem como por parte da mãe. Era o tipo de pessoa que se achava acima de tudo e de todos, imaginando que, com o dinheiro que possuía, poderia comprar qualquer coisa, até mesmo a dignidade de alguns e o silêncio de outros.

Na manhã seguinte — Sexta-feira da Paixão — Marianne soube que seu irmão havia se evadido de seu quarto e que, na fuga, havia levado consigo o carro de um dos médicos do hospital. Um veículo esportivo, bastante rápido e muito potente. A polícia estava em seu encalço desde então, mas ainda sem saber de seu paradeiro, tanto por ser ele um paciente ainda em tratamento, bem como pelo roubo do veículo de luxo.

Na manhã de domingo, o que sobrara de um veículo bastante caro fora encontrado caído numa ribanceira, com partes de um corpo presas no para-choque dianteiro. Os pés da vítima pareciam que haviam sido consumidos pela constante abrasão no asfalto; segundo a perícia, o corpo havia sido arrastado pelo asfalto em altíssima velocidade. Havia um leve rastro de sangue, carne e ossos por um raio de quase três quilômetros até o local onde o carro fora encontrado. Não havia sinais de quem havia dirigido o veículo. No banco do motorista havia apenas um inocente coelho de pelúcia amarrado ao volante, com um bilhete escrito: Feliz Páscoa...

 Revisado por Sahra Melihssa 

Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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