Ela
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de nada da minha vida passada.
Quase nada. Apenas você.
A madrugada é o único tempo em que posso viver, agora que o sol se tornou tão doloroso quanto lembrar de você. Quando os humanos dormem, eu caminho. Quando os humanos sonham, eu caço. O mundo noturno tem leis diferentes para nós. As minhas são: a fome, a sobrevivência, o silêncio. Não me orgulho do que faço. Isso seria humano demais. Mas também não sinto culpa. A culpa morreu junto comigo, na noite em que me morderam e me deixaram sangrando num beco, esquecido por Deus. Agora sou só instinto. Quase só instinto. Porque você ainda está aqui. Não na minha vida, mas dentro de mim. Como um espinho que não posso arrancar. Como uma oração cujas palavras esqueci, mas cuja necessidade de rezar ainda sinto.
Toda noite eu saio. Toda vez que a fome me empurra para as ruas escuras, para os becos onde os vivos não se atrevem a entrar, lá encontro minha refeição. Não escolho minhas vítimas por maldade. Escolho por necessidade. Mas algumas noites… algumas noites o destino me oferece um presente. Foi assim em uma terça-feira qualquer.
Eu te observava de longe, mais uma vez. Como faço todas as noites. Você saiu do cinema mais tarde do que o normal, rindo com sua nova família, o cachecol preto balançando ao vento. Eu estava do outro lado da rua, na sombra de um prédio abandonado, invisível para você, como sempre.
Foi quando eu o vi.
Um homem. Acompanhava de longe. Não um amigo — eu conheço seus amigos, estudei cada rosto que se aproxima de você. Este era diferente. As mãos nos bolsos. O olhar fixo em você. O jeito de caminhar, lento demais, esperando demais.
Eu conheço esse tipo. Antes de me tornar o que sou, eu era apenas um homem. Eu via esses homens nas ruas. Eu sabia o que eles queriam. O que eles planejavam.
Ele esperou você. Esperou você entrar na rua mais escura, a que você insiste em pegar mesmo eu desejando, todas as noites, que você trocasse de caminho.
Ele acelerou o passo.
Eu também.
Não vou descrever o que fiz com ele.
Não porque me arrependo — e não me arrependo. Não porque foi difícil. Foi fácil, tão fácil que quase me assustou. O corpo humano é frágil quando confrontado com algo que não é mais humano.
Vou dizer apenas isto: ele não chegou perto de você.
Eu o peguei três quadras antes da sua casa. Eu o arrastei para um beco que cheirava a urina e morte. Eu olhei nos olhos dele enquanto ele tentava gritar e não conseguia, porque minha mão já estava em seu pescoço.
Ele tinha uma faca no bolso. Eu senti o metal contra minha pele quando o imobilizei. Uma faca. Ele ia usar aquilo em você.
— Você escolheu a mulher errada — eu sussurrei, com os olhos afiados e prazer na alma.
Ele não entendeu. Como poderia? Ele não sabia que você era protegida. Ele não sabia que, todas as noites, uma sombra caminhava atrás de você. Ele não sabia que o monstro das lendas era real e que aquele monstro amava você.
Eu o matei.
Sem culpa. Sem pressa. Com uma precisão que aprendi em décadas de noites solitárias.
Depois, limpei as mãos na parede molhada do beco e fui embora. O corpo ficou lá. Não era a primeira vez que eu deixava um corpo para trás. Não seria a última.
Mas esta noite foi diferente. Esta noite eu não matei por fome.
Matei por você.
Já nem sei quanto tempo passou.
Eu não mudei, não por fora. Mas não posso ter certeza, porque não vejo meu reflexo no espelho. Talvez eu tenha virado outra coisa. Talvez eu tenha virado ninguém.
Você, por outro lado… Você está diferente. Mais velha. Cabelos brancos, a pele enrugada. Ainda imatura de algum jeito, sempre foi assim… Seu jeito de rir, seu jeito de se irritar com coisas pequenas.
Mas ainda tão bonita quanto o dia em que te conheci.
Estou fadado à vida eterna sentindo sua falta. Por isso te observo todas as noites. Te vejo sorrir para outro homem. Te vejo se apaixonar por uma família que não posso ter. Te vejo viver uma vida que deveria ser nossa.
A dor não passa. Apenas se esconde. E volta mais pesada, mais cruel, mais torturante. Meu caixão não é apenas meu conforto. É onde aprisiono o choro e o eco das memórias que nunca terei com você.
A vida eterna não me abençoou. Ela apenas me amaldiçoou com a solidão.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Le Papillon et la Fleur
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dr. Christopher V. Walker II
(Anotações em seu caderno)
25 de agosto de 1871 — París.
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e se arrastaram pelos dias até o presente momento.
Torno a escrever minhas próprias memórias — sobre o dia 22.
Todos os eventos daqueles dias até agora ficaram terríveis na minha mente. Memórias que somente nessas folhas e com este lápis atrevo-me a confessar.
Minha jornada começou no distrito XIII, Gobelin, passando por Reuilly — XII distrito. As casas aqui foram algumas queimadas, atravessadas por projéteis dos canhões de campanha de 4 e 8 libras — sabíamos o tamanho dos projéteis pelas histórias dos que retornavam da guerra com a Prússia. Agora testemunhei com meus olhos e outros sentidos os efeitos dessas armas de destruição pelas ruas e casas de Paris.
— Ouvi tantos relatos durante a guerra contra a Prússia, que agora eu sou o que vai criar o relato. — Sussurrei para mim mesmo.
Foram tantos desvios de regiões tomadas por comunas e suas barricadas. Cadeiras, mesas, candelabros, paralelepípedos e até os postes, além dos sacos de terra para as barricadas. Tudo para impedir a mobilização dos soldados de Adolphe Thiers.
— Ainda creio estar entre os mortais? — Essas dúvidas persistem! Assim como as dores que ganhei tanto no corpo quanto na alma.
A luta tem sido tanta. A dor, a angústia e a penúria têm sido demasiadas.
— Os dias calmos agora parecem tão distantes, na linha do horizonte…
Tentava…
Me esforcei para evitar os conflitos!
Mas uma ou outra vez pelo caminho me vi diante do confronto direto.
A troca de golpes com soldados de sua majestade ou com os infelizes rebeldes da comuna. Na última vez que me vi num conflito, um jovem com uma baioneta, desferiu um golpe que achei haver evitado. Lutei como um cão faminto quando consegue carne e precisa defender a vida e seu bem precioso.
Corri, me escondi e me arrastei por entre destroços, corpos inchados, sangue com terra.
—Afirmo… Não nego que isso já é uma loucura. — Minha angustiante situação me fez tomar decisões estranhas.
“Piorado por sons estranhos, animalescos, inumanos que ouvi durante as noites.”, — Pensei, ao adentrar uma casa ao final da tarde. Se me lembro bem, sim, foi naquela noite dias atrás que rumores sobre eles começaram a correr pelas ruas.
Consegui um breve momento de paz. Havia um silêncio no ambiente que me soava estranho. Sinto o corpo esfriando, então… Uma agulhada cortando meu interior, do cotovelo ao ombro e depois aos dedos, correndo pelo meu braço… Dor!
Aquela sensação subiu intensamente como se fossem as ondas de disparo dos canhões da sua majestade. Encostei na porta e comecei a descer lentamente apoiado nela, senti sua madeira desgastada e áspera.
— Ah, droga. — Levo a mão do braço bom até o braço ferido. — Como…? Como não notei? — Rugi aquelas palavras entre os dentes.
Olhei para o braço. A manga rasgada estava escura, grudenta. Puxei o tecido com os dentes para ver melhor. Corte!
— Limpo… Sim… Pelo menos isso. — Tomo uns momentos para controlar a respiração. — Atingiu o bíceps... braquial, sim, essa é a palavra. Sorte que não pegou a artéria.
— Médico, lembra? — Um sorriso em meio à dor invade meu rosto. — Você é médico. Sabe o que fazer.
Foi como confessar segredos para comigo mesmo porque falar com as paredes era me soaria naquele momento delatar minha própria loucura.
Rasguei a barra da camisa. Amarrei-a firmemente acima do ferimento. Apertei até sentir o nó cravar na pele.
— Pressão. Aaaargh — Uma dor correu como um raio até a ponta dos meus dedos. — Primeiro… Oh, Deus… Pressão!
O sangue parou de escorrer como uma nascente. Respirei aliviado, mesmo com as ondas de dor percorrendo meu corpo.
Depois, limpar. Com quê?
— Água…? Onde nessa maldita casa terá água. — Me ergui com dificuldade, me escorando na porta, forçando ainda mais minhas pernas doloridas.
Passei a vasculhar aquela casa. O piso de madeira maltratado, desbotado e empenado. Móveis atirados ao chão. Cacos de vidro das janelas e das louças sobre grande parte do ambiente.
O som do ranger das tábuas a cada passo que dei, arranhou meus ouvidos, fazendo correr calafrios na espinha. Era como um monstro mórbido buscando amedrontar minha alma castigada.
Não havia água limpa…
Olhei dentro dos armários, correndo com os olhos. Quando no que estava num canto, na esquina, abri, dentro de uma garrafa suja, empoeirada. Dentro de um líquido verde fantasmagórico, não mais que meia garrafa, sim, absinto.
— Um doce remédio para um homem ferido e quebrado. — A voz saiu rouca e baixa. Meu rosto está esboçando o cansaço e o estresse. Mãos trêmulas, coluna doendo.
Antes de segurar a garrafa, caminhei até onde ainda havia uma cadeira intacta atirada ao chão. Coloquei-a de pé, encostada na parede ao lado do armário. Me sentei lentamente. Sentindo cada fibra muscular dura. Peguei a garrafa com a cor esmeralda.
— A primeira vai para o médico! — Abri a garrafa, o cheiro herbal e doce convidativo inundou meu nariz, tirei o pó do gargalo e logo levei a boca tomando um gole longo. — Aaaargh… Queima como o inferno! — Saiu quase como um rugido, o sabor doce e intenso tendo um contraste queimante na garganta, rasgando minhas entranhas.
Um gole de coragem e outro para o meu ferimento.
— Recomendação médica! — Sussurrei para mim mesmo.
Ardeu… Ah, sim, ardeu! Queimou, mas queimou tanto, que chamei todos os anjos do cânone.
— Isso vai doer por um longo tempo! — Eu me contorcia na cadeira suportando a ardência como podia. — Será que… Anton e o Marcel fizeram isso alguma vez enquanto estavam na frente de combate?
Busquei acalmar meu espírito.
— Quer parar de reclamar, doutor? — Gritei para mim mesmo naquela cozinha abjeta e escura.
Ri, num crescente, até gargalhar sozinho… Terminei num riso curto, amargo.
Pensei naquele momento: —“Médico ferido é pior que paciente.” Dei de ombros. O silêncio ambiente parecia uma redoma ao que ocorria em Paris. O cansaço deixou minha cabeça pesada, me fazendo apoiar na parede, de olhos fechados. Um novo pensamento me invadiu, “— Porque sabe exatamente o que pode dar errado.”
— Uma vez médico… Sempre médico!
Sentado naquela cozinha, as lembranças vinham em ondas. Não tive tempo para refletir com clareza sobre o que eu havia presenciado horas atrás.
Tomei outro gole da minha única bebida à disposição.
— Foi tão desolador… Ver os olhos perdidos daquela criança. — Me coloquei a analisar a cena. — A guerra arranca a alma de qualquer um, mas ver aquela monstruosidade foi além para aquela pobre criatura.
Seria aquele o pai dela?
Será que aquele dorso que foi queimado era alguém importante para ela?
A criança não… Ela não falou nada.
Ela ficou nos meus braços… Silêncio… Vazio!
Estamos do lado errado do céu?
— É possível…? Em algum nível?
Estamos tão condenáveis e reprováveis que as hostes infernais venham nos capturar?
Será que com suas mãos demoníacas de chamas condenatórias já estejam nos levando um por um?
— Oh, Deus… o que fizemos…? — Tomei um novo gole do líquido verde.
Lentamente sinto meu corpo relaxar, o coração se acalmou e a dor diminuiu. Os pensamentos ficaram tão distantes. Ao longe escuto o som de uma melodia tão suave e… Sim! Popular.
Estão… Alguém está cantando? Qual era…? Qual era a música? Ah, sim, “Le Papillon et la Fleur”.
— “Mas não, você voa longe demais! Entre incontáveis flores você voa, enquanto eu permaneço sozinha, observando minha sombra circular ao redor dos meus pés. ” — A bela melodia transbordou de minha alma até sair pelos meus lábios e me embalou o coração a um sono tão suave com lágrimas escorrendo em minha face.
Madrugada do dia 23 — Lembrar, revisitar essas imagens em minha mente é como tocar com bisturi uma ferida estranha que não encontra cura, apenas segue aberta e cheirando a queijo podre e rançoso, uma gangrena não tratada.
Eu caí num sono profundo, mesmo com todo aquele caos acontecendo, meu corpo apenas desmoronou naquela cadeira. Um sono sem sonhos. Sem perturbações. As poucas horas que mergulhei nos braços de Morfeu deram novo fôlego.
De sobressalto desperté. Um estado de alerta que não me era natural, se apossou de mim, como um espírito maldito e frio.
A garrafa estava ao chão, com seu interior parcialmente derramado. O ar tinha cheiro de “fada verde”, madeira molhada e um pouco de fumaça.
Primeiro, ouvi como se algo tivesse sido arrancado da casa. Depois, gradualmente soavam como se algo estivesse apertando a madeira da casa intensamente até ela estalar. Então, como se algo tivesse caído no piso superior, a poeira se soltou do teto com um som oco e pesado.
— Que diabos foi isso? — Sussurrei.
Comecei a buscar algo para usar como arma, observando as rotas de saída da casa.
Corri meus olhos no breu, até que a pouca luz das fogueiras na rua fez meus olhos notarem que havia algo perto da lareira. Me aproximei lentamente, tomando todo bom cuidado para assegurar minha posição. Aquilo parecia um atiçador! Sim, era. Feito de ferro fundido com duas boas pontas.
— Não sei o que está lá em cima, mas com isso tenho mais chances. — Uma certa calma tomou posse das minhas feições tanto quanto a segurança do meu espírito.
Caminhei em direção à porta pisando como um gato que busca um passarinho na janela aberta. Tomando todo bom cuidado para não provocar ruídos desnecessários e atrair o que quer que fosse que estava andando no piso superior.
Por Deus, meu coração galopava loucamente dentro do meu peito, apertando meus pulmões contra as minhas costelas.
Será que era mais uma estranha criatura que queima ao sol?
Olhei pela janela e o céu estava escuro demais até para ver as estrelas. Os astros estavam se escondendo dos olhos mortais naquela noite.
O que estava no andar de cima foi em direção às escadas que terminavam de frente com onde eu estava. Recordo de pensar, —“ Como eu não notei essas escadas?”. Olhei para a parte de trás da casa e dava para uma pequena janela que estava aberta. Olhei para a porta que estava fechada. Ela não estava trancada. Também nem poderia, o trinco está parcialmente quebrado, apenas uma ponta do ferrolho sobrou, qualquer batida externa arrebentaria aquilo.
Ao longe escutei o som do disparo de canhões, na sequência, as explosões, o barulho do disparo dos mosquetes. Gritos.
Meu cenário naquele lugar estava apenas ficando pior. A rua era quase uma reta, e no início da noite eu não lembro de ter visto barricadas nela.
O barulho externo parecia aumentar, o que já me deixava sem fôlego, novamente sendo pego no meio do conflito.
Olhei para o meu braço com o corte.
— Droga, minhas chances estão diminuindo rápido demais. — Rosnei a minha fala em voz baixa.
Então um rosnado na escada. Passos pesados.
— Meu amigo do andar de cima deve ser grande. — Sussurrei para mim mesmo e às paredes mudas e surdas ao meu redor.
Segurei o atiçador como se fosse um florete, só que mais pesado e rígido. — “Vou agradecer a meus amigos ingleses por terem me permitido umas partidas de esgrima no clube dos lordes.” — Acho que pensei isso na hora. Me faltou o gole de coragem para impulsionar meu valor.
Antes que minha decisão se formasse, na esquina da escada de canto, na parte superior de sua esquina, vejo surgir uma mão que parece humana. A respiração da coisa é pesada, há um grunhido animalesco soando.
Quando surge a coisa pela metade na parte superior da escada, seu aspecto é cadavérico, aquilo fica um tempo de perfil, quando decide seguir, ela vira seu rosto revelando olhos fundos com um estranho brilho esverdeado não natural.
Ela desce lentamente como se não tivesse pressa para fazer qualquer coisa. Observando… a mim! Quando ela chega ao fim da escada, pude ver melhor suas feições grotescas.
Além dos olhos, sua pele parecia branca demais, além de se assemelhar a um couro curtido e esticado. Sua boca esboçava um sorriso obscuro e malicioso. Ela emana uma presença aterradora.
— Por Deus, suas mãos…. — Minha voz falhou ou foi impedida de falar qualquer coisa.
A coisa tinha garras e o que pareciam presas. Das mãos a boca e o queixo gotejavam um líquido vermelho e negro.
Me correu um frio na espinha, um calafrio desceu da minha nuca até a ponta dos meus dedos. Me senti um felino diante de uma ameaça desconhecida eriçando os pelos.
Não sei sua origem, mas afirmo: não veio do céu muito menos deste mundo carnal.
Ele me olhava como se eu nada fosse, mesmo estando com atiçador numa das mãos. Não sei dizer se estava pronto para morrer, mas certamente eu queria muito viver.
A criatura seguiu seu próprio tempo brincando com a comida? Era essa a áspera sensação: eu era a próxima refeição dela!
Com um grito estridente que me fez doer os ouvidos até alcançar o cérebro, ela levantou seus braços na altura dos ombros com as mãos abertas e o peito descoberto. Ela não parecia temer minha arma e menos ainda a mim.
Avançando lentamente em minha direção, eu me preparei para o ataque. O atiçador pesava na minha mão. Sou médico, me dediquei uma vida para salvar outras. Nunca matei ninguém, aprendi a suturar feridas. Naquele preciso instante aquilo parecia ter uma diferença ínfima.
Num movimento a criatura avançou, abrindo a boca com quatro dentes longos e pontudos se projetando. Seu braço esquerdo fez um arco rasgando o ar, tal qual fosse uma foice. O defendi como era possível. O som metálico do encontro do atiçador com o corpo daquele monstro soava no ambiente.
Tentei dar um passo para trás… uma triste revelação… senti nas minhas costas a parede fria.
A criatura atacava de forma tão aleatória e estranha, que era perceptível sentir a maldade naqueles movimentos. Meu braço ferido começou a arder e doer com o suor do esforço, o sangue voltou a brotar da ferida.
— Argh! Criatura maldita. — Meus gritos eram para motivar meu espírito a seguir no combate.
A criatura no último movimento agarrou meu pescoço. A sensação daquela mão era de um frio polar, sua pele com textura tão ressecada, adornada com o odor fétido de sangue e gordura. Apertou lentamente meu pescoço. Olhei para ela, e com o atiçador ainda em minha mão, tive por intenção um golpe desesperado, que foi frustrado sem esforço pela criatura que agarrou meu braço, me fazendo derrubar minha única arma.
— Arrg….! Cri…aaa… turaaa….— Ele apertava minha traqueia como se eu fosse um boneco de palitos.
O ar começou a faltar. Minha memória daquele momento é aterradora, eu estava morrendo. Lembro dela se aproximando, ficando a poucos centímetros de mim. Como quem observa seu novo brinquedo sendo quebrado deliberadamente.
“Fraqueza. Pesar nos extremos. Visão ficando turva”. Comecei a listar os efeitos da privação do ar. Então quando estava sentindo que a esperança havia acabado.
Um som explosivo e estrondoso.
Um mosquete?
O vazio.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
À Procura da Dama Noturna
Já amei. | E talvez seja esta a maldição mais antiga | de todas as criaturas que atravessam os séculos: | não a morte, | não a solidão, | não a lenta erosão…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Já amei.
E talvez seja esta a maldição mais antiga
de todas as criaturas que atravessam os séculos:
não a morte,
não a solidão,
não a lenta erosão dos nomes,
mas a lembrança.
Os rostos passam como estações,
as cidades apodrecem sob novas arquiteturas,
impérios tornam-se notas de rodapé,
e até os juramentos mais ardentes
acabam dissolvidos na saliva do tempo.
Ainda assim,
há algo em mim que persiste.
Uma fome.
Não a fome do sangue,
como diriam os velhos contos,
mas a fome de uma presença.
Desejo uma mulher
como quem procura uma estrela desaparecida
há milhares de anos,
sabendo que sua luz ainda atravessa a escuridão.
Não a desejo perfeita.
A perfeição pertence às estátuas
e aos cadáveres.
Desejo-a viva,
contraditória,
capaz de esconder tempestades
sob um olhar aparentemente sereno.
Talvez tenha os cabelos negros
como uma noite que se recusa a amanhecer.
Talvez a pele guarde a palidez delicada
das criaturas que preferem a companhia da lua.
Talvez os olhos,
escuros e insondáveis,
carreguem mais perguntas do que respostas.
Não desejo uma santa.
As santas pertencem aos altares,
e os altares sempre me pareceram
solitários demais.
Desejo uma mulher
que compreenda a beleza das ruínas,
que veja poesia onde os outros veem defeito,
que não peça desculpas
por sua própria escuridão.
Uma mulher que saiba
que a melancolia não é doença,
mas uma forma de contemplação.
Que compreenda
que nem toda tristeza deseja ser curada.
Os tempos modernos,
tão orgulhosos de sua virtude,
ensinaram as pessoas a temer o abismo.
Transformaram mistério em problema,
silêncio em falha,
profundidade em excentricidade.
Mas eu continuo a acreditar
que há certa beleza
naquilo que não se deixa domesticar.
Por isso a desejo.
Entre multidões iluminadas por telas,
entre discursos apressados,
entre rostos que se repetem
como reflexos de um mesmo espelho partido.
Desejo aquela
que ainda conserve algo de indizível.
Aquela cuja beleza não termine na superfície,
mas continue para dentro,
como um corredor sem fim
em um castelo abandonado.
E se algum dia a encontrar,
não lhe oferecerei promessas eternas.
Os séculos ensinaram-me
a desconfiar das eternidades.
Oferecerei apenas a noite.
Uma noite longa,
silenciosa,
perfumada por livros antigos,
vinho escuro
e pensamentos proibidos.
E talvez,
enquanto o mundo dorme
sonhando com suas pequenas certezas,
nós possamos contemplar juntos
a estranha beleza de existir
como duas criaturas noturnas,
para além da moral dos homens.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
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PIGMEUS
Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Devemos temer unicamente o que pode de fato nos causar dano, e o simples temor não pode fazer mal”. — Dante Alighieri
Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava eu tinha crises de pânico que me tiravam até mesmo o apetite, independente de qual fosse o cardápio do jantar. As nuances das cores do amarelo e do vermelho dos raios de sol que se intercalavam entre si formando vários tons de alaranjado que hoje em dia eu vejo como uma prova inquestionável da existência de um Ser superior, que a cada entardecer nos presenteia com uma cena cada dia mais esplêndida, na minha inocência de criança era o prelúdio para mais um período de profundo sofrimento. O final de um dia e início de mais uma noite de profundo terror noturno.
Até hoje não sei explicar, – talvez nunca o saiba – o porquê eu tinha tanto pavor da noite. Às vezes imagino – em momentos de profunda reflexão – que esse incontrolável terror, pode ter sido causado pelas coisas que só eu conseguia ver, vagando pelas sombras da noite. Por mais que tentasse mostrar aos meus pais onde estavam e como tais criaturas eram, eles jamais acreditavam em mim. Sabendo que tentar convencê-los era algo inútil, decidi que deveria convencer a mim mesmo, que minha mãe – exemplo de doçura e sabedoria – estava certa, quando ela sempre me dizia que: monstros, assombrações, entidades e todas essas coisas do tipo, não existiam no mundo real. Que tudo era fruto de uma mente fértil que chegava a criar tais criaturas.
Mamãe, para tentar aplacar minhas crises de pânico, quando eu acordava toda a casa com meus gritos de terror, – e certamente, se minha voz tivesse a força igual ao medo que eu sentia meus gritos também acordariam toda a vizinhança – ela muito carinhosamente me dizia: – Seus olhos vêem aquilo que sua mente quer ver. Sabendo do amor que minha querida mãe nutria por mim, eu tentava de todas as formas me acalmar e me convencer que tudo o que via era fruto de minha imaginação. Contudo, eu sabia que todas aquelas criaturas eram reais, mas como ninguém mais as via, eu temendo me passar por uma pessoa mentalmente perturbada, decidi que eu deveria me silenciar quanto às minhas visões, e não tocar mais no assunto.
Certa vez, visitamos uma conhecida família, que perdera o pai para uma doença desconhecida. Um homem saudável ao extremo e forte como uma rocha, que da noite para o dia, contraiu uma infecção misteriosa que em questão de dias o levou à morte. Segundo essa jovem, a doença que matara seu pai, fora tão terrível que muitos de seus amigos e conhecidos, – até mesmo parentes mais próximos – não ousavam nem mesmo se aproximar dele em seus últimos momentos, pois os vermes já o estavam devorando, mesmo estando ele, ainda vivo. Dissera ela que, em suas últimas horas de vida, seu pai, sofrendo extraordinários ataques de pânico, aos gritos, implorava a todo o momento para que iluminassem o quarto – mesmo estando dia claro – pois, segundo ele havia terríveis criaturas o espreitando nas sombras.
Na volta para casa, minha mãe me questionou se eu havia prestado atenção no que nossa anfitriã havia nos contado. Quando eu dissera que sim, ela me alertou sobre o perigo daquilo que achamos que vemos escondidas pelos cantos sombrios. Suas palavras jamais foram esquecidas:
– Filho, não duvido de nada do que me dizes, mas não é porque eu acredito em você que os outros também deverão fazê-lo. Além de ser sua mãe, eu mesma também acredito que entre o Céu e a Terra existam muitas coisas estranhas e ainda incompreendidas pela mente humana, mas evite na medida do possível comentar com qualquer outra pessoa essas visões, para que não o tenham como um louco. Ver o que os outros não vêem o torna perigoso.
Depois da estória que ouvi, sobre um homem já experimentado em anos e que prezava do respeito de toda uma cidade, ter terminado seus dias tributado como louco, e pelos incansáveis conselhos de minha mãe decidi, que deveria silenciar as vozes e afastar aquilo que me atormentava nas trevas da noite. A última visão que tive, foi na vida adulta, quando eu já estava namorando. Foi algo assustadoramente constrangedor.
De visita a casa dos pais de minha namorada, – a primeira e última – assim que chegamos, estando todos sentados na varanda, fui educadamente cumprimentar a todos os seus parentes presentes no momento. Sem exceção de idade, um por um eu fiz questão de me apresentar e apertar a mão em um fino gesto de galhardia. Fui gentil com todos, inclusive com uma sorridente senhora que estava sentada numa confortável cadeira de balanço. Quando a cumprimentei com todo respeito e atenção que se deve ter a uma pessoa idosa, logo percebi que todos me olharam de forma assustada. Minha namorada, muito constrangida, logo me chamou num canto em particular e demonstrando estar um tanto quanto irritada, disse:
– O que pensa que está fazendo? Quer que meus pais pensem que o namorado da filha deles é um louco, um maníaco pervertido que fala com cadeiras vazias. Saiba, que quando eu disse para minha mãe qual era sua profissão – Professor de Filosofia – ela de imediato me questionou, se você não era daquele tipo de pessoa perturbada, que passa o tempo todo sob o efeito de substâncias entorpecentes...
Pedi sinceras desculpas, e disse que eu estava um pouco cansado, e que talvez eu pudesse estar confundindo a realidade, devido ao estresse causado pelo meu trabalho. Mas, assim que entramos na sala de estar, logo na parede de frente à porta de entrada, havia um enorme retrato da senhora a quem eu havia cumprimentado há pouco. Quando questionei minha namorada de quem se tratava a imagem do retrato, ela suspirando profundamente, me disse que era sua querida avó, a quem ela tanto estimava, mas que havia falecido há mais de cinco anos...
Na velha sabedoria de botequim, há um antigo provérbio que diz que os semelhantes se reconhecem apenas pelo olhar. Numa quente e abafada noite de meados de dezembro, após um estafante dia de trabalho, estava eu sentado numa velha banqueta, encostado num polido e gordurento balcão de um sossegado bar no centro da cidade, saboreando uma cerveja estupidamente gelada ao som de Belchior, quando um senhor se aproximou de onde eu estava e logo foi puxando assunto. Sem nenhuma cerimônia foi se apresentando e iniciou uma conversa por conta própria, – sem saber se eu gostaria de ouvi-lo, ou não – primeiro; falando do calor, da falta de chuvas, do custo de vida e por fim das dificuldades de se conseguir bons companheiros de trabalho. Como eu estava muito cansado e de cabeça quente, devido aos dias finais do ano letivo, fiquei apenas o escutando, e vez por outra interagia com ele de forma monossilábica.
Quando ele percebeu que tinha minha atenção, logo me questionou sobre minha profissão e se eu estaria ocupado nas duas próximas semanas. Respondi que era professor de Filosofia, mas que a partir da quarta-feira da semana seguinte estaria de recesso pelos próximos quarenta dias até o fim de janeiro. Sem titubear por nenhum segundo, me fez uma proposta de trabalho, que de forma alguma poderia ser recusada. Disse-me que era carpinteiro de telhados artesanais e que estava à procura de um ajudante, que lhe pudesse auxiliar por duas semanas, pois seu antigo ajudante havia sofrido um pequeno acidente e estaria indisponível por uns dois meses, talvez até um pouco mais – soube depois, que estava em coma profundo. Jamais trabalharia outra vez –.
O trabalho era no interior, numa fazenda afastada da cidade. Um lugar sossegado e bastante pitoresco para uns dias de descanso de uma vida atribulada de cidade grande. Fez-me uma oferta financeira bastante razoável, para quem não tinha nenhuma experiência com este tipo de ofício, e logo quisera me pagar metade do valor oferecido de forma adiantada. Após acertarmos os detalhes, ficou decidido que na quarta-feira seguinte, partiríamos para a tal fazenda onde ficaríamos até o término do trabalho.
Chegado o dia marcado, partimos bem cedo e antes do almoço já estávamos em nosso destino. Após nos instalarmos na casa onde ficaríamos alojados, depois de um improvisado repasto, ele disse-me que, meu dia seria devidamente pago e que eu poderia fazer o que bem entendesse naquela tarde. Ele por sua vez gostaria de descansar da viagem, e que se fosse possível, que eu não o incomodasse em seu sono vespertino. Aproveitei a tarde para ler, um dos livros que eu havia levado comigo – A outra volta do parafuso de Henry James, se não me falha a memória. Ele dormiu a tarde toda, só despertando no ocaso um pouco antes do início da noite. Após tomar um demorado banho, preparou nosso jantar, – galinha ao molho de pimenta – que fora servido acompanhado com um saboroso vinho tinto. – Lembrei-me de Jonathan Harker hospedado no Hotel Royal em Bistritz –.
Após o jantar ficamos conversando até tarde da noite. Ele me pormenorizou sobre seu passado, fatos que rememoravam sua infância mais remota. Acontecimentos de uma época em que eu ainda nem tinha nascido. – era ele um senhor de mais de sessenta anos – Percebi que ele tentava a todo custo me manter acordado com suas estórias, para lhe fazer companhia – uma espécie de Sherazade tupiniquim – Consegui me manter desperto até umas duas horas da madrugada, mas logo fui vencido pelo sono e pelo cansaço e acabei adormecendo na cadeira onde estava sentado, sendo despertado logo em seguida com gritos de pavor e desespero. Naquela noite não dormi mais do que meia hora ao todo, somando os pequenos cochilos que vez por outra me venciam, mas sendo logo despertado em seguida de forma abrupta.
Por três noites a fio, tudo se repetiu como na primeira noite. Eu já estava a ponto de um ataque de nervos. Por mais que eu tentasse de todas as formas, não conseguia dormir durante o dia. Ele por sua vez, iniciava sua jornada de trabalho às primeiras horas da alvorada e após o almoço, dormia quase toda a tarde, também me dispensando de meus afazeres. Depois de me certificar que aquele seu estranho comportamento estaria ligado diretamente ao mesmo terror noturno que eu enfrentara quando criança, decidi que eu talvez pudesse ajudá-lo. Sem deixar que ele percebesse, coloquei em sua bebida – que era de uso quase contínuo – dois dos comprimidos que tomava havia muitos anos para poder dormir uma noite de sono tranquila, sem ser incomodado por visões noturnas. O medicamento era controlado e bastava uma única dose para derrubar um cavalo. Como eu estava muito cansado, quis ser pragmático e lhe dar logo uma dose que eu sabia que seria mais do que suficiente para lhe proporcionar um pouco de paz.
Naquela noite nos recolhemos antes das oito da noite, pouco após o jantar ser servido. Aquele amedrontado senhor, meio que desmaiara em sua poltrona, com muito sacrifício consegui levá-lo para sua cama, – que até então só era usada durante o dia. Exausto como estava, logo adormeci pesadamente, sendo despertado por lamentosos gemidos de alguém que padecia um terrível sofrimento. Como há tempos, havia conseguido vencer meus temores noturnos, consegui me acostumar a dormir com a luz apagada, e naquela noite estávamos na completa escuridão. Quando olhei para a direção de onde vinha os gemidos, percebi que havia uma dezena de pequenos olhos amarelados ao redor da cama de meu companheiro, que por algum motivo parecia estar preso à cama sem poder se mover. Rapidamente acendi a luz e logo todos os olhos sumiram na mesma velocidade que a luz fora acesa.
Aquele senhor entrara numa espécie de catatonismo crônico, não conseguindo mais responder à realidade que o cercava. Num comportamento completamente ensandecido, mesmo estando com todas as juntas de seus membros inertes, ficava tentando se debater, como se unindo forças para se levantar e correr o mais rápido que pudesse e repetindo o tempo todo:
– Pigmeus! Pigmeus! Pigmeus...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Hexagrama
Ouço a voz do teu próprio hexagrama | Sussurrar a mensagem profanada; | Gemidos soltos de quem muito ama | Nos meus olhos fizeram sua morada…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ouço a voz do teu próprio hexagrama
Sussurrar a mensagem profanada;
Gemidos soltos de quem muito ama
Nos meus olhos fizeram sua morada.
Se deslizo em ti a minha chama,
Queimando a libido angustiada,
Tecerei a alegria da tua xana
Neste céu que escolheste por morada.
Contorces de prazer e tu derramas
Teu mel nessa boca alucinada...
Serpenteio o teu átrio de cigana.
Eis o arcano das vagas madrugadas,
Que desvela a essência castellana:
Infiro em teu corpo essas jornadas.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Caellum Noctis, Parte III - Vestígios de Lembrança
— Você… sabe onde estão minhas memórias? — perguntei. Ela juntou as mãos e esfregou o polegar. Hesitante, respondeu: — Sei. — Então me leve até lá!…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
— Você… sabe onde estão minhas memórias? — perguntei.
Ela juntou as mãos e esfregou o polegar. Hesitante, respondeu:
— Sei.
— Então me leve até lá! Me diga o caminho.
Ela entristeceu. Depois de uma longa pausa, suspirou e disse:
— Caellum, eu sinto muito…
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, ela continuou:
— Vá para o castelo. Suas memórias estão lá em algum lugar. Com eles. Você... você as encontrará...
— Mas?
Ela hesitou novamente. O silêncio entre nós se alongou como um corredor sem fim.
— Mas?
— Nada. Deixa pra lá. Você sempre faz isso… — disse, caminhando até a porta.
— Vá. Não perca seu tempo comigo de novo.
E eu fui.
Saí de lá com mais perguntas do que quando entrei.
Caminhei pela estrada de terra por alguns minutos, até começar a avistar o castelo. Era magnífico — uma estrutura gigantesca, com torres por toda parte. Se minhas memórias estivessem lá, seria muito difícil encontrá-las em um lugar tão grande.
Mas, mesmo assim, segui.
O caminho até o castelo era fácil de percorrer. Depois da estrada de terra, encontrei uma bifurcação que me levou a uma estrada de pedra, e então, aos arredores do castelo que exibiam um lindo jardim. E por mais que estivesse com pressa, parei para observar um pouco.
Era lindo. Como se alguém cuidasse dele todos os dias.
Então me adentrei no castelo.
E uma forte dor de cabeça invadiu minha mente. Segurei a cabeça com as mãos, tentando fazer aquela dor parar.
E então me lembrei.
De novo.
Eleine.
Ela estava sorrindo. Tocando meu rosto com afeto.
Esqueci da dor por um segundo.
Quando finalmente parou, consegui lembrar de verdade.
Ela era minha esposa.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Lugar
Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo. | Sou todas as mulheres e o amor que geraram | Bêbado da cachaça…
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Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo.
Sou todas as mulheres e o amor que geraram
Bêbado da cachaça e a ressaca do verão
Vertido em leituras que fiz a vida inteira e ainda as que me restam. Esses mortos me atordoam e os passo ao papel no momento em que sofro de paixão e angústia.
O escritor apenas repete sem originalidade todas as maldições que aprendeu.
Sinto que você tem medo de desejar profundamente e te escrevo no papel vazio
Sou tragado, rasurado e posto a nu, suscetível a uma avalanche de outras ideias
Sinto o amor e escrevo a dor
Sou ultrarromântico e quero morrer, sou um revolucionário e quero volver o futuro em fúria
É nesse campo aberto da folha que a vida rasura o poeta
Rascunha caminhos
E quando me lerem desejo que cada palavra toque em absurdo, porque serão as palavras de um morto.
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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O Segredo Abaixo dos Pés
Este pesadelo que baila e tortura minha mente — reflexo de uma vitória amarga contra minhas próprias convicções — escancara em minha fronte uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Este pesadelo que baila e tortura minha mente — reflexo de uma vitória amarga contra minhas próprias convicções — escancara em minha fronte uma máxima cruel: enquanto temíamos e vigiávamos os céus, o que realmente nos destruiria sempre esteve aqui. Silencioso, sob nossos pés, ansioso por erguer-se e devorar tudo o que estivesse ao seu alcance.
Era um daqueles entardeceres em que as sombras crescem como se quisessem devorar a luz. Entornei o café na xícara surrada e deixei que a pena deslizasse pelo caderno. As palavras surgiram primeiro tímidas, depois num jorro, como água de uma nascente há muito esquecida.
— Já parou para pensar — perguntei à Clara, enquanto ela enrolava um fio de cabelo escuro entre os dedos — que quase todas as teorias sobre o fim da espécie colocam o céu como o nosso grande ceifador?
O rosto dela contraiu-se numa expressão de genuína surpresa.
— Nunca tinha observado por esse prisma.
Sorri, tomando um gole do café já morno. Nossas conversas sempre tiveram essa dinâmica: eu lançava o anzol e ela mordia a isca sem hesitar, num balé intelectual que encenávamos desde o dia em que nos conhecemos.
— Existe um lugar ao qual damos pouca importância — continuei. Ela inclinou-se para frente; o decote do roupão revelou a curva familiar de seus seios, um detalhe que, mesmo após anos, ainda conseguia me distrair do fim do mundo. — As religiões falam de demônios, invasores estelares ou catástrofes vindas dos cometas. O dogma nos impõe olhar sempre para cima.
— Conte-me mais — respondeu ela, os olhos brilhando com aquela centelha que só surgia quando mergulhávamos nessas madrugadas de teorias e sombras.
— O erro é nunca olharmos para baixo — completei, sentindo o peso das próprias palavras. Seu pé descalço roçou o meu sob a mesa, um hábito antigo que me ancorava à realidade. — O que existe, de fato, no núcleo da Terra? Lençóis freáticos, magma e nada mais? Ou o abismo esconde espécies raras e comunidades secretas que o sol nunca tocou?
O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo ruído da cidade lá fora — uma sinfonia de buzinas e passos apressados, gente desesperada em sua jornada para lugar nenhum.
— Eu acredito em outros seres e outras moradas, mas não na Terra. E não consigo acreditar que sejam demônios.
A resposta dela me fez sorrir. Era a essência de Clara: cética quanto ao inferno, mas aberta aos anjos.
— Quão fundo nós realmente cavamos? — perguntei, mordendo a ponta do lápis. Ela riu baixo, conhecendo meu vício de roer o instrumento de escrita. — É possível perfurar a crosta a ponto de enxergar o outro lado, já que somos uma órbita suspensa no nada?
A noite já havia engolido a janela completamente, transformando o vidro em um espelho negro que nos devolvia nossas próprias imagens. Dois rostos, inúmeras dúvidas.
— Acho que isso reflete a hierarquia dos deuses — ponderou ela. — Seres divinos que precisavam estar acima dos humanos para dominá-los.
— O fundo do mar ainda não é o fundo da Terra — rebati. — Supõem que o magma seja o limite, o fim de tudo, mas são apenas suposições. Ninguém desceu o suficiente para registrar o que há abaixo do fogo.
— Não existe luz lá — a voz dela baixou para um sussurro, como se temesse acordar algo profundo. — Tudo o que vive lá é cego.
— Se há fogo, pode haver luz — contrapus. — A luz da superfície é uma projeção do fogo solar. A lava é a polpa do fogo telúrico. Creio que haja uma claridade própria nas entranhas do mundo.
O caderno agora era um labirinto de linhas tortas e pensamentos soltos: a cartografia de uma teoria proibida. Clara deixou a xícara tocar o pires com um tilintar metálico que ecoou pela sala.
— Falam tanto da Lua — disse ela, puxando o cobertor sobre os joelhos. — Mas você já reparou como as imagens parecem fabricadas? Sombras cruzadas, bandeiras que ondulam no vácuo... como um palco mal iluminado.
Abri o caderno em uma página repleta de cálculos e diagramas.
— O mais curioso é que pararam de ir justamente quando as brocas terrestres estancaram. 1969: o homem pisa na Lua. 1970: o Projeto Kola atinge seu ápice e para. Conveniente, não?
Clara puxou o caderno, os olhos devorando minhas anotações.
— Você sugere que foi tudo um teatro? Uma cortina de fumaça?
— Sugiro que é mais fácil simular a conquista do céu do que encarar o que encontrariam se continuassem cavando — respondi, batendo o indicador no chão de madeira. O som saiu oco, fúnebre. — Doze quilômetros. Foi o máximo que o homem alcançou. Doze quilômetros em um planeta com mais de doze mil de diâmetro. Uma gota num oceano de rocha.
Seu olhar desceu para o assoalho, tentando atravessar as tábuas.
— E por que pararam?
— Talvez porque as brocas começaram a encontrar o que não deveria existir. Quando os microfones captaram... sons. Gemidos de um planeta que não quer ser despertado.
O abajur piscou, instável. Na parede, nossas sombras se contorceram, alongando-se como se algo colossal se movesse por trás de nós.
— Gastamos bilhões para fingir que dominamos uma rocha morta a mil quilômetros de distância, enquanto o verdadeiro mistério está a meros passos de onde estamos. Se a Terra fosse uma maçã, Carlos, nem sequer rompemos a casca.
Um arrepio percorreu o ambiente. Na cozinha, o estalo de algo rolando pelo piso nos sobressaltou.
— É mais fácil apontar para as estrelas do que entender o abismo sob nossos pés — concluí, fechando o caderno.
Uma risada nervosa escapou entre nós, quebrando a tensão.
— Eu creio em vida extraterrena — ela disse, por fim. — Mas não creio que o mal venha de cima. Talvez os céus tentem nos salvar de nós mesmos... e do que habita o nosso próprio solo.
— Céu acima, purgatório embaixo. O ser humano teme o que não pode iluminar.
Nossos olhares se cruzaram sobre as xícaras vazias, cúmplices de uma heresia. Lá fora, a cidade ignorava o abismo sobre o qual fora construída. Decidimos, naquela noite, que nossa busca não seria pelas alturas, mas pelas profundezas. Porque o fim não precisa vir do espaço; ele já pode estar aqui, esperando pacientemente que o esqueçamos para que, então, possa emergir.
Ao final, puxei-a pelo cinto do roupão. Ela veio sem resistência, como sempre. Selamos nossa pequena loucura com um beijo prolongado e, por um instante, o abismo sob meus pés deixou de existir. Só havia ela.
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Reles
Eu sou um reles | não mereço nem desprezo | O desespero foi minh'única companhia | Me deixando ímpar no enfado deste inóspito…
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Eu sou um reles
não mereço nem desprezo
O desespero foi minh'única companhia
Me deixando ímpar no enfado deste inóspito
Eu sou um reles, como muitos que rastejam
Somente a poeira faz do meu caminho desvio
A lama do caos como um encosto se lambuzou de mim
Pesou sobre a carcaça
Me transformou em destroço
Até mesmo a vontade de se suicidar largou este enfermo
Sem nem sucesso para o fracasso
Eu sou reles,
Nem para a morte eu sirvo
O amor fez esquina longe de mim
E nem calçada passa em frente daquilo que o céu afastou de abrigo
Até o túmulo é esquivo
A cova é rasa porque só se deve perder tempo com profundezas da alma
Nem os urubus se alteram
A paixão quando jovem chegou em mim a partir dos olhos d'água noturna de uma gata
Mas só a mentira do desejo fez par comigo
Hoje, nem a mentira perde seu tempo com a desilusão da minh'alma
E sem vida continuo.... reles
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Conflito existencial?!
Acordava todas as manhãs e, na maioria delas, se perguntava o porquê ainda estava viva e respirava esse ar demasiado inóspito. Não que estivesse…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Acordava todas as manhãs e, na maioria delas, se perguntava o porquê ainda estava viva e respirava esse ar demasiado inóspito. Não que estivesse sentindo alguma vontade mórbida de interromper sua existência — diga-se de passagem, sem grandes venturas —, mas não entendia o significado de tal vivência.
Queria ser grande, desenvolver algo que mudasse a forma de pensar e agir dos outros, que fizesse o planeta sair de sua órbita. Levantar-se cedo, trabalhar, cuidar de afazeres diários e da família, não lhe pareciam feitos dignos de serem comparados aos de Einstein, Tesla, Machado e Da Vinci.
No fundo, achava que a vida lhe tinha sido injusta, pois outros tantos não faziam, ou melhor, não conheciam nem a metade do que sabia e eram muito mais prósperos... Enfim, concluía: Talvez fossem mais espertos!
Mas ainda assim não permitia que nada desse descontentamento abalasse sua rotina, continuava em sua fé, seu foco, no amor pelos seus e até por essa vida que julgava comum, e empenhava seus esforços da melhor maneira possível.
Por vezes ponderava sobre a situação do mundo, tão violento e cruel, como poderia assegurar o futuro dos seus? Em meio a tanta depravação, como manter a mente limpa e pura? Por que a sociedade evolui tecnologicamente à medida que se degrada moralmente? É... Era triste a constatação: O mundo constrói e caminha para sua própria destruição.
Mas de que adiantava tanto pensamento filosófico, e moralmente responsável na sua visão, se de fato nada fazia para tornar o mundo um lugar melhor? Não tinha o direito de sentir-se moral e intelectualmente superior. Era como os demais, comum e vulgar, ambígua e esporadicamente má. A antítese encarnada. O orgulho havia corrompido seu caráter, salvo por alguns momentos de pureza.
Em contrapartida, não era a favor de guerras, maus tratos a qualquer ser vivo; nunca roubou, matou ou infligiu mal aos outros, acreditava que no final “compensava” os seus erros. Havia autojustificado.
Bastava tudo estar ocorrendo conforme planejado, sobrevinha uma reviravolta ou outra a qual contornava com requintado louvor, e nesse “ciclo defeituoso” decorriam-se os dias e do nada... aquele sentimento!
“O que fazer? Como fazer? Por que fazer?”
Achava que devia existir um manual de instruções. Como se todos os problemas seguissem uma ordem. Como se respeitassem os indivíduos. Ingênua.
Mas mesmo a ingenuidade se veste de hipocrisia às vezes, o que lhe cai muito bem no discurso de como ser uma pessoa perfeita. Não em seu caso. Não sempre.
“Perfeição humana, em que consiste?”
Acreditava que tal expressão tratava-se de uma prosopopeia humana, pois um objeto pode ser perfeito, mas um humano?
E nesta crise existencial — ou não — vivia seus dias, na esperança de que um dia, talvez um dia, pudesse saber a resposta de sua indagação crucial: “Por que ainda estou viva, pra quê eu nasci?”, pois pensava ela que, quem sabe assim, pudesse descobrir a fórmula do tão sonhado sucesso... Tola, já havia descoberto e o estava desfrutando e nunca percebeu... Compreenderá algum dia?... Compreenderá que era simplesmente continuar rolando a pedra e viver sem grandes expectativas?!
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Muffins de Caramelo
Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo. Ela sorriu, reorganizando os ímãs na geladeira. Mas o sorriso se esmaeceu com peso na linha onde deveriam nascer rugas, e ela notou que alinhava ímãs já alinhados; que seu favorito estava descolando do esmalte ciano na porta do congelador.
Esqueceu de colocar o lixo para fora; agora os camarões podres teriam que esperar até o dia seguinte, aprisionados num cubículo de plástico quente junto das cascas de ovo e das rosas de Alberto. Passou aquele dia inteiro sozinha, embora não se sentisse assim. Começou preparando seus muffins de caramelo, cuja receita podia jurar que era primeira no mundo; separou a pasta em pequenas ilhas e as pôs no forno. Ligou a pequena Philco suspensa no teto num daqueles canais em que ela nunca sabia se as francesas discutiam ou se reconciliavam. Não é que, durante todos os séculos, não tivesse aprendido francês; havia parado de ouvir quando não lhe era necessário.
Havia passado o tempo correto. Ela abriu aquela grande boca de aço e sem querer queimou o polegar. A fumaça preta nunca havia saído do forno junto com os muffins. O sopro infernal subia tão agressivo que Akily largou o tabuleiro na mesa um segundo antes de espatifar no chão. Quanto mais a abanava, mais ela tomava formas distorcidas e dramáticas. Quanto mais a encarava, mais era encarada de volta; contornava seu corpo e encontrava seu rosto em algum ângulo imprevisível. Akily bufou. Não sabia quantas vezes teria checado a textura da massa antes de botar no compartimento pré-aquecido em toda a sua vida. Culinária vinha da mesma fonte que a música; um ajuste definia todo o corpo da receita, a melodia, a proporção; o que ela fazia com bolos de carne e tortas de maçã um século antes não era diferente, com exceção dos venenos açucarados extremamente gostosos dessa geração. Para ela, aquilo era felicidade com promessa e entrega instantâneas, seu estômago trituraria qualquer mal, as toxinas alimentariam seu sangue com vigor tal qual uma fruta colhida do pessegueiro alimentado com os restos da última bruxa de Salém.
Desligou a televisão. O francês a estava deixando com muito calor. Ouviu o barulho do lixeiro passando outra vez e abriu a boca, sentindo seu pulmão comprimir. Quando voltou à cozinha viu como o tabuleiro havia adquirido uma segunda pele de escamas marrons e pretas. Parecia a metade de cima de um dragão filhote, se eles não fossem mera fantasia. Enfiou seu dedo na massa e lambeu. O sabor familiar do caramelo em cubinhos nunca veio. A crosta de noz-pecã derretida amargou o céu da boca, mas o açúcar estava derretido o suficiente pela massa solada. Decidiu que estava bom. Apanhou uma mãozada e comeu assistindo seu reflexo cinza pela TV.
Ainda carregava satisfação em seu corpo quando resolveu se banhar à luz das velas aromáticas de uva, como se o caramelo tivesse escapado para o coração. Lembrou que devia beber logo do estoque novo de sangue, as três bolsas que guardara na geladeira junto da manteiga na promoção e o sangue quente que deixara no armário perto dos dois potes gigantes de creme de avelã. Faria isso assim que saísse do banho. Seu roupão fino permitia que a brisa gelada revelasse partes de seu corpo de que ela gostava bastante. Os cabelos, há muitos séculos retratados em pinturas agora engavetadas como liso morto, haviam conquistado ondulações suntuosas que refletiam as curvas de seus seios, coxas, dedos dos pés.
Pisou na água morna dentro da banheira, e só então se lembrou das pétalas de rosa guardadas num saquinho da loja esotérica dois quarteirões distante. Buscou-as e, num impulso que geralmente não lhe acometia, antes de notar que elas já murchavam, ao invés de jogá-las dentro da água: jogou-as para cima.
Estava submersa até a cintura; uma nova brisa gelada arrepiou sua clavícula, e sorriu de um modo que seus pelos se arrepiaram. Acabara de receber uma amostra do sopro de vida, tal como os seres vivos recebiam a água e o sol. O sol. Seu rosto contorceu, passando os dedos molhados pela barriga seca. “Se a vida é uma valsa cósmica que baila com o divino, a de um vampiro estará sempre um tempo atrasado, nunca sendo guiada pelas mãos do sol.” A frase da irmã ainda grudava. Ela não deixaria que a valsa parasse, mesmo assim. Seu coração se enchia tanto que enxergou sua condição com amor materno, tal qual um recém-nascido com uma alergia grave; mesmo que espirrasse, seriam espirros perfeitos, que a aproximariam cada vez mais do divino. Akily se levantou e fez os dedos contornarem a borda de alumínio do batente com bastante cuidado. Abriu mais a janela.
Depois que seus seios já balançavam na gravidade confortável da água, ela não sentiu vontade nenhuma de se tocar. Quando voltou para o quarto, havia decidido algo tão íntimo quanto seu nome ou quanto beber sangue.
Ao abrir o guarda-roupa de mogno antigo, dedilhou os vestidos suspensos no cabide e só parou em um daqueles poucos que nunca havia usado. Escolheu aquele azul com detalhes em marfim, que fora comprado num ato de altruísmo para sua irmã, antes que a dona cheia de pintas passasse na loja no dia seguinte. Se esqueceu de entregá-lo, afinal de contas, mas conseguia ver o rosto da irmã por entre as dobras de renda com cheiro de talco.
Demorou duas horas inteiras na frente do espelho da penteadeira, esfregando as cerdas macias pelos cabelos que passaram tempo demais no condicionador. Cheirava o sabonete em sua pele e depois dava um sorriso, seus olhos quase transbordando gotículas que faziam seus globos oculares doer. Sua barriga roncou. Pensar na bolsa de sangue fresca na geladeira pareceu tê-la saciado de quase todas as formas. Passou mais duas horas sentindo o quarto gelar com o ar-condicionado no 16. Lembrou-se do doce vento da Irlanda, a brisa gelada que arrepiou a pele quente e encheu o estômago de ar.
Só parou de alisar o lençol quando a palma da mão se irritou com a seda, e então repousou a cabeça de lado como quando dividia a cama com a irmã e deixou as pálpebras pesarem. Na manhã seguinte, quis ver a luz do sol pelo bumbum do tabuleiro de fazer muffins de caramelo.
Lavou a crosta doce com cheiro de açúcar artificial com força, afinal, não tinha tempo para compensar o vacilo de não o ter deixado de molho. Voltou para o quarto, calçou suas novas papetes roxas de borracha e vestiu a capa grossa de chuva com a qual recolhia as flores de Alberto diariamente. Caminhou fazendo barulho pelo azulejo do lado de fora e esticou o braço até o metal molhado encontrar a claridade do céu.
De repente sua varanda azuleou de tal modo que Akily se atribuiu asas. Estava voando por um verão sem nuvens, e então se deu conta de que havia tantos seres voadores no mundo. Podia fincar suas presas sorridentes e indolores nos corpos penados e ainda não faria a liberdade crescer em suas costas. Uma sobrancelha se levantou. Ela podia, claro que podia levitar. Mas não via graça nenhuma em manipular a gravidade com aquele formigamento todo na sola dos pés, na ponta dos dedos, das orelhas e pelo pescoço até o queixo. Ela queria voar como os anjos; mas não como nas pinturas no teto distante das catedrais em 1823 que tanto a irritavam. Detestava aquela leveza. Ela desejava os músculos eróticos que a conquistaram muito antes disso, que a tornariam uma deusa feita de curvas impossíveis; invejava o poder de voar até os céus com a promessa de ser um com o universo. No fundo, mesmo que não gostasse da ideia, sabia que seu voo pareceria muito mais leve do que gostaria.
Ainda contemplava em agradecimento a infinita luz azul, se perguntando se o sol era azul também, quando o tabuleiro escapuliu de seus dedos encapuzados. Seus ouvidos murcharam com o barulho estridente de um azulejo quebrado, o clarão do sol irradiando de uma forma que Akily se acuou para dentro da cozinha. Bateu a porta com tanta força que precisou conferir se a havia quebrado. Botou a mão no peito com os olhos arregalados. Não sabia o que dentro dela doía tanto. E então deu uma gargalhada desafinada e trêmula que expulsou o espírito daquela velha curandeira que lhe havia praguejado algumas décadas antes. Logo percebeu que respirava forçado demais, e ficou encarando o calendário da empresa de botija de gás enquanto sua alma, que voava tão alto, voltava para si. Teria esperado anoitecer para sair outra vez, mas sua garganta fechou; esperar algumas horas era tortuoso demais. Abriu a porta só mais um instante, um feixe de luz potente alcançando a geladeira ciano. Que luz poderosa e absoluta! Fechou a porta devagar e sem rir dessa vez.
Uma cólica tremenda a atravessou, a vista queimando. Um cheiro estranho e sinistro percorreu seu corpo. O lixo dentro de casa fazia aniversário. Se agachou para pegar o pote de Nutella, seu corpo pesando com exaustão. Foi para o quarto e ligou a TV. O francês piorou as dores no corpo. Passou o dia e a noite na cama.
Não se lembrava do sonho da madrugada, mas havia acordado com vontade de jogar mais pétalas para o ar. Ela viu o sol. Fechou os olhos com um sorriso bobo, quase como se pudesse ignorar as dores nas articulações. Por um momento, se imaginou novamente refletida naquela imensidão azuleada do céu da hora do almoço. Era quase como se tivesse memórias infantis que envolvessem dias solares encantados, embora soubesse que estava terrivelmente enganada. Preferia não ficar se corrigindo o tempo todo.
Tentou se levantar. Seu corpo não quis. Então espirrou tão forte que seu peito a fez deitar de novo. Em que momento havia resfriado? Passou a mão pelos braços, o rastro doendo até as dobras dentro da pele. A porta da cozinha devia estar se sentindo exatamente daquele jeito, foi o que pensou. O pote de creme de avelã havia deitado para dormir com ela e, por sorte, tivera sua boca fechada antes de ambos pegarem no sono. No fundo da colher ainda tinha Nutella, então ela a tomou na boca enquanto abria o pote outra vez.
No final do mesmo dia, estava tão faminta que precisou ir se arrastando com seu robe de seda rosa até o armário da cozinha. Embora seus cotovelos ainda lhe fossem fiéis, suas pernas tremiam como varas, e ela pensou que ter dado aquela risada histérica lhe havia custado caro; espantara espíritos importantes, que tomavam conta dela. Quando chegou no armário, percebeu como havia acumulado poeira no tecido fino. Arremessou o braço para dentro e rasgou a bolsa com a força que lhe restava. Virou-se para cima e deixou a cabeça descansar no travesseiro duro que era o chão do armário. Inclinou o líquido tão menos gostoso que avelã em direção à boca, mas seus braços fracos derramaram a primeira dose no colo do roupão.
Seu pescoço se levantou para abocanhar o corte no plástico, o sangue recheando sua boca por completo. Seu corpo mexeu um pouco. Ela tomou todo o sangue antes de lembrar de respirar, depois sentiu um espasmo fazendo-a contorcer como se despreguiçasse finalmente. Balançou os pés por um tempo, sentindo a dormência sendo expulsa, as unhas em vermelho descascadas. Estava completamente abastecida, o que a irritou profundamente. Conseguiu se levantar, xingando o roupão todo sujo. Ela não tinha deixado o chão imundo como parecia, aquilo não era verdade. Abriu a torneira e tomou água até que o gosto de ferro se dissipasse. Quando fez o movimento de jogar o restante da água na pia, sentiu que as juntas ainda reclamavam. Voltaria à loja esotérica para comprar mais pétalas depois que o sol se pusesse, mas antes das seis, se melhorasse. Compreendeu que era melhor, no fim, dormir em seu caixão naquela noite.
Ela só tirou o rosto do fundo estofado vermelho depois de algumas semanas; o velho despertador cismou de funcionar, e era sua primeira vez naquele ano inteiro, então Akily entendeu que era um sinal. Deu um pulo quando conferiu o horário; as cinco e meia da manhã na verdade eram cinco e meia da tarde, e então ela subiu pela escada em caracol até o quarto e trocou de roupa. Prendeu o cabelo, calçou a papete. Jogou o lixo podre no latão da rua. Catou o tabuleiro no chão da varanda. Havia esquecido as chaves dentro de casa; encostou o portão e saltitou com bastante convicção até a loja Bruxa Boa. Resolveu comprar uma balinha de cada tipo que pendia ao lado do caixa, a atendente dando piscadas tão demoradas que a tornou confortável em espiar tudo o que havia. Ah, vou levar essa mandala, também. Passou tudo no crédito pelo celular.
Fechou o portão e trancou a porta com carinho. Esticou a mandala pela mesa da cozinha, lamentando não ter um furo na parede para pendurá-la em sua cama. Comeu as três balinhas de alga de uma só vez, tendo certeza de que as cores diferentes não mudavam o sabor. Se o barulho do metal caindo ao chão não fosse tão alto, faria o sol aparecer pelo tabuleiro na tarde seguinte de novo. Abriu a barrinha de alfarroba e fez uma careta, depois pressionou o gosto com a língua até o céu da boca. Estava melhor do que seu muffin fracassado. Quando foi tomar banho para jogar as pétalas para o alto, passou pelo seu quarto e viu o pote de Nutella. Levou-o consigo.
O vapor do banho não queria subir, ruminando o calor dentro da água e transformando a banheira numa panela de cerâmica branca. Akily mergulhou lentamente, equilibrando a colher e o pote enquanto deixava a pele ceder e, quando os seios desceram, o perfume de rosas transbordou e molhou o tapete felpudo. Ao fundo, ouviu uma televisão vizinha alta, ligada na mesma novela que passava na Bruxa Boa. Deu um sorriso manso e levou uma colher cheia até a boca. Depois da segunda ou terceira colherada, resolveu que não precisava de doce para ser feliz, então a depositou no chão e inspirou profundamente. Encarou a janela, imaginando que tinha feito a noite se tornar manhã, recebendo o sol diretamente no rosto. Pensou que o calor que a cozinhava era dele, somente dele, e se pegou mordendo os lábios. Observou as pétalas que caíram com ela, tão murchas como a ponta de seus dedos, seus bebês com alergia grave. Ficou séria durante todo o resto do banho, seus olhos pesando tão pouco que ela mal precisava piscar.
Saiu da banheira, despediu-se da janela e foi para o quarto. As pegadas não a incomodariam daquela vez. Vestiu-se com o corpo ainda molhado, aquele vestido azul com rendas marfim que usara pela primeira vez semanas antes. Somente agora parecia entender tudo. Ousou rodopiar na frente do espelho da penteadeira. Sua irmã a teria puxado para dançar se lhe tivesse contado a descoberta. Colocou as mãos na frente da boca e rodopiou mais algumas vezes. Encarou-se no espelho como se não reconhecesse seus traços, embora ainda se achasse muito bonita. Talvez fosse um pássaro, quem sabe um Anjo. Era aquele passo que faltava em sua valsa.
Fez novos muffins, mas o caramelo havia sido orgulhosamente trocado pelo creme de avelã. Akily havia descoberto uma nova maravilha no mundo.
Aproveitou que ainda era antes das onze e ligou para Alberto. Dessa vez, não quis que ele a buscasse de carro, afinal, ela era a imortalidade encarnada, foi o que concluiu depois de séculos. Esqueceu a chave outra vez, mas fechou com firmeza a porta e o portão. Seus cabelos ainda escorriam e faziam cócegas molhadas pelas costas quando fez seus pés formigarem. Começou a levitar apenas o suficiente para o asfalto não machucar, e então foi levando seu corpo para frente. Mas o formigamento não valia a vagareza, portanto se atirou para o céu tão rápido que a fez se contorcer de frio. Como era bonito o bairro que escolhera para morar, pensou, à noite; apenas algumas luzes douradas acesas, sem o crescimento vertical excessivo das metrópoles poluídas. Desceu bem na frente da casa de Alberto e entrou sem tocar a campainha.
Alberto a tocou com paixão. Ela já lhe avisara que viajava às vezes, e ele compensou cada segundo de saudade com estocadas firmes. Akily o deixou admirar a pele nova sem que ele percebesse: ela não era mais como conhecia. Estava mantendo a virgindade de seu novo eu. Imaginou como seria enxergar o sol. Não era como se ela visse um fiapo de raio se esgueirando minutos antes do amanhecer para lhe beliscar a bochecha ou um clarão idiota num tabuleiro idiota. De forma alguma era aquilo. Sua boca se tornou passagem de gemidos molhados quando pensou no sol a enxergando de volta. Ele abriria os olhos, talvez um de cada vez, ou os dois ao mesmo tempo. Compreenderia suas feições, a cor de sua pele, e lhe diria com quem ela se parecia mais: a mãe ou o pai. Ela já não se lembrava, mas derreteu nos braços de Alberto, imaginando que se parecia mais com a mãe.
No dia seguinte, vestiu sua capa de chuva por cima do mesmo vestido azul e buscou as flores no correio. Rosas vermelhas. Não as jogou fora, porque aquele novo ser gostava muito das rosas vermelhas de Alberto. Na verdade, gostava dele como um todo, o suficiente para passar no banco e transferir a ele uma boa quantia do seu dinheiro secular antes de voltar para casa e se arrumar. Tinha um encontro, afinal de contas.
Preparou uma pequena lancheira da época de quando as escolas começaram a aceitar mulheres como alunas. Era o tipo de quinquilharia que ela não sabia para que guardava, mas preferiu não se julgar naquela situação agora que lhe era tão conveniente. Arrumou uma refeição com dois sanduíches de queijo e manteiga, depois foi até o banheiro, pegou o pote e enrolou mais dois pães-de-forma no creme de avelã. Faltava algum líquido, mas ela sabia que podia parar na banquinha logo antes de pegar o trem e comprar uma Coca-Cola. Guardou também o buquê de rosas.
— Desculpe, senhorita. Nós acabamos de fechar.
Akily não conseguia entender como a estação de trem tinha tão pouca opção na parte da noite. Então ela engoliu em seco e moveu lentamente seu polegar. O dono da banquinha perdeu qualquer expressão nos olhos, tornando-se o que Akily não gostava muito. Ele enfiou a mão com Parkinson no bolso largo da frente e buscou pela chave correta. Abriu a porta minúscula e barulhenta e catou uma latinha de Coca-Cola e uma garrafa de água com gás, as mais geladas que havia na geladeira e as depositou no chão sujo da estação. Ela segurou as bebidas e as limpou na barra do vestido azul. Abriu a água e deu uma golada, depois guardou as duas na lancheira e seguiu para a plataforma. Só deixou o homem retomar o controle depois que o fizera caminhar para bem longe, esperando que o tivesse guiado pela direção que ele pretendia.
Era 22:22 quando ela recebeu uma mensagem de Alberto. Estava fora de si, escrevendo palavras quase irreconhecíveis. Alguém havia mandado três milhões para a conta dele. Estava com medo de ser testemunha ou cúmplice ou mandante de algum crime, mandou áudio dizendo que seu coração doía. Akily pôs a mão no peito e se lembrou de quando o dela também doeu, compreendendo que o que sentira ao ver o sol no tabuleiro foi a sensação absurda de sorte que Alberto sentia agora. Mandou uma mensagem fazendo-o prometer que não contaria para ninguém que o dinheiro saíra de sua conta. Não queria que ele morresse, nem de preocupação nem de felicidade. Por fim enviou uma selfie e, sem esperar visualização, bloqueou a tela. Quando ouviu o trem que ela precisava pegar chegando na estação, jogou o celular no trilho e se preparou para embarcar.
Somente lá dentro conseguiu sentir um pouco de calma para observar o redor. Tudo o que existia na frente da vidraça manchada era um adolescente que ocupara seu lugar no banco. Desviou o olhar tão naturalmente que se esqueceu que tinha a intenção de observar. Aproveitou o assento de madeira bem alto e ficou mexendo as pernas descalça como estava, fazendo carinho na gola do vestido, enquanto encarava os homens de chapéu passando rumo a outra plataforma. A estação não era tão bem iluminada quanto a cidade vista do alto pelos seus pés formigantes, e concluiu que os limpadores não deviam receber tanto.
Quando o trem iniciou sua jornada às Dunas Múrmuras, algo dentro dela despertou uma felicidade extrema, como se Alberto a tivesse entendido. Como era prazerosa a nova carne recém parida, ainda nascente como sol do dia seguinte. Ela chegaria no deserto às 4h da manhã. Apanhou um sanduíche de queijo e manteiga já de olho no de Nutella. Sentia uma fraqueza sutil roendo seus braços. Abriu a Coca-Cola com um estalo orgulhoso e observou a paisagem como se a visse pela última vez. Sabia que em breve a pequena cidade seria substituída por uma série de construções cheias de janela, fumaça preta invasiva, trânsito que ela morreria dez vezes antes de pensar em pegar. Depois de algumas horas, jogou seu corpo para o lado e fingiu que o estofado vermelho era o interior de seu caixão.
Acordou com um formigamento e se assustou, pensando que estava tentando levitar dentro do trem. O breu que tomava conta do lado de fora só não a engoliu de vez por causa das luzinhas simpáticas que costuravam o tapete da cabine. Podia ter trazido um livro, ou até mesmo seu Kindle, se tivesse compreendido, antes, que seu novo eu gostava bastante de ler. Desceu na estação correta e estranhou ter sido a única. Colocou a lancheira nas costas e levitou lenta.
Akily sabia que precisava se afastar o máximo possível do trilho em linha reta. Logo tudo o que conseguia ver era a fina lua no céu, a aliança que o dia entregara para a noite como prova de seu amor. Seu dedão do pé bateu num monte mais volumoso de areia, e então ela percebeu que estava na hora de levitar mais alto. Atirou-se para frente numa súbita empolgação, o coração palpitando. Não sentia aquilo há mais tempo do que conseguia contar. O deserto brincava com seus olhos, de forma que parecia haver muitos pontos de luz colorida dentro da escuridão azúlea. Era como ir de encontro com o nada, sentindo a brisa fresca furando a pele com grãos gelados de areia. Eram tão virgens quanto ela, acariciando a face de um ser vivo pela primeira vez na vida, foi o que escolheu pensar. Sentiu-se fraca outra vez. Se já não estivesse no coração das Dunas, ao menos estaria em seu pulmão.
Deixou seu peso cair na areia quando percebeu uma leve declinação. Abriu a lancheira para retirar o buquê, acabou devorando logo os dois sanduíches cremosos antes que apodrecessem. Fechou os olhos, e cada vez que os abria, uma nova onda de claridade laçava seu corpo e a fazia tremer. Qual delas era a verdadeira face do Sol?
Ela vibrou quando se lembrou dele. Estava o evitando desde quando saiu do caixão, mas cada centímetro de sua pele nova gritava por ele, ansiava por sua aparição como os povos na época que ela nasceu. Falou seu nome em voz alta, depois seu queixo tremeu e sua risada virou um choro dolorido de sair dos olhos. Olhou para as pétalas que faziam cócegas no colo e sorriu, vendo que seu choro havia azuleado algumas das rosas vermelhas.
Um vento fez o corpo de Akily se expandir até sentir frio. Ela inclinou o rosto para não respirar areia, mas conseguia senti-la dançando entre os fios do cabelo. Seus olhos lacrimejaram outra vez. Enxergava tudo e qualquer coisa em sua frente. As dunas remetiam às catedrais com tetos que tanto lhe irritavam. As cordilheiras pareciam repetir as curvas de seu corpo, infinitas fileiras de areia moldada pelo vento, organizadas como nuvens num céu renascentista. Estava se casando. Fechou os olhos, sentindo uma fraqueza sem fim, e viu Alberto como um padrinho feliz, contente com o presente que acabara de receber na conta. Mas, do começo da passarela onde estava, Akily ainda não via seu noivo.
O arranjo no buquê continuava azulescendo; as rosas que já haviam azulescido antes tinham miolos distorcidos em marfim, como se Akily segurasse pequenas caveiras. Ela só não se lembrava em qual momento havia planejado um buquê daqueles. Mas não tinha problema; uma noiva deveria se lembrar de mil coisas e esquecer outras mil.
E então ela enxergou.
Ele não abriu um olho ou dois. O fogo galopava no horizonte trêmulo em cima de um cavalo dourado e forte. Akily gemeu quando sentiu a testa queimar, seus olhos incapazes de compreender o que via, ao passo que compreendia absolutamente tudo. O mundo era dourado para os que voavam.
Seu pescoço quase não se moveu, seus ossos rangendo conforme ela executava qualquer gesto. Somente ela podia se casar com ele, guardou aquela certeza em seu coração quando percebeu que não segurava mais o buquê. As duas rosas ainda vermelhas se derretiam em sangue pela areia. Num espasmo, as arrematou de volta e as lambeu, o gosto de ferro revigorando seu ser com um fogo quase tão ardente quanto o de seu futuro marido.
Seu estômago se revirou em ânsia; algumas cinzas inconvenientes tomaram a vista, mas, quando se viu livre delas, estava leve, como os anjos que tanto desgostava, e começou a rir. O fogo irradiava de seu peito para o deserto, seus olhos cegos por um clarão que a tomava inteira. Era a noiva mais linda, sairiam dizendo isso. Ela recebia o Sol impiedoso. Ele a atravessava crua. Não reconhecia aqueles pedaços de pele que rolavam com o vento forte sobre a areia fina.
Ela era toda Dourado, ela era toda Anjo, e recebia a coroa solar sobre o cabelo de fogo, na pele virgem que havia parido para ele.
Quando ele a segurou e a levou pelo horizonte em brasa, Akily enfim revirou os olhos e deixou uma última lágrima escapar, esquecendo-se de todos os muffins de caramelo que fez na vida.
Sophia Kaiser
S. Kaiser é escritora de ficção gótica contemporânea, fascinada por vampiros que parasitam o cérebro humano em forma de culpa e desejo. Sempre escreveu sobre ferida que grita antes que a palavra a decifre, geralmente na perspectiva do monstro rejeitado, tentando seu máximo para não romantizá-lo na vida real. Fortemente influenciada pela melancolia de Louis em “Entrevista com o Vampiro”, pela narração visceral de “Império do Vampiro” e pela complexidade psicológica de Dostoiévski e Clarice Lispector. Atualmente, revisita sua obra para relançamento na Amazon. » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Cantos de Magöhorror
As almas e as sombras, na noite aprisionadas, | Pela frígida névoa de Magöhorror, | Em marfins retorcidos, já desgastados, | Seguem o fluxo lento de antigo horror;…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Canto I
As almas e as sombras, na noite aprisionadas,
Pela frígida névoa de Magöhorror,
Em marfins retorcidos, já desgastados,
Seguem o fluxo lento de antigo horror;
Onde o anil turvo, por laços consagrados,
Une vida e morte em torvo esplendor;
Canto a saga em versos sombrios e graves,
De almas zumbis em seus cânticos suaves.
Canto II
Vede o rio, que d’além do tempo emana,
Bioluminescente em brilho azulescido,
Sua essência que a razão humana engana,
Como um saber arcano já esquecido;
Onde a fauna e a flora em forma insana
No terror mórbido surgem despidos;
Entre brilhos metálicos e aridez fosca,
Enquanto a própria vida se torna grotesca.
Canto III
Nas flores surgem rostos pareidólicos,
Dos olhos verte sangue em vão lamento,
Em versos que ecoam, quase bucólicos,
No vento frio que sopra sofrimento;
Criaturas outrora belas e melancólicas,
Perdem ao rio espectral seu alento;
Mortas ou vivas vagam no fundo,
Bioluminescência a guiar novo mundo.
Canto IV
Dunas Múrmuras, de areia e de pavor,
Sopram ventos que contam contos de dor,
Fábulas mortas, sem traço de amor,
Sob noite azúlea em frígido calor;
No Oásis Vil surge encanto traiçoeiro,
Atraindo as almas por falso roteiro;
Onde sede e fome se encontram famintas,
Entre criaturas das sombras distintas.
Canto V
Jardins de Olga, de viridário mágico,
Sensíflora estranha que o horror replica,
Cercam o alcácer em destino trágico,
Onde o Castelo Drácula se fortifica;
Pinheiros tremem em rastro nostálgico,
Gritos de arbustos que o sono prejudica;
Enquanto o azul da morte paira no ar,
E a decadência começa a reinar.
Canto VI
Vede os zumbis, de pele já rachada,
Sangue negrume estagnado nas veias,
Sua existência é triste jornada,
Entre solidões nadificantes teias;
Saem dos túmulos em marcha penada,
Por instinto vagam nas noites alheias;
Tentam amar com coração inerte,
Enquanto o diabo em riso se diverte.
Canto VII
Bebem seus próprios prantos em lamento,
Sonham sem dormir em eterno tormento,
Atraídos por sombras no barlavento,
Memórias do que não foi em esquecimento;
A vida em Magöhorror segue escura,
Na bioluminescência da noite impura;
Grãos de existência no vento lançada,
Como poeira na noite estrelada.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Vazio em estática
Um oráculo perfura a bolha de um arco-íris de sangue | A tinta de cádmio que tintila espuma derretendo sobre o tapete de veludo carmesim, | e o som não é música…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Um oráculo perfura a bolha de um arco-íris de sangue
A tinta de cádmio que tintila espuma derretendo sobre o tapete de veludo carmesim,
e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro do piano de cauda na sinfonia de uma porta com uma língua com cabelo,
Ébrio, múmia alquimia de carne, és que é tal eclipse doente,
O Réquiem não começa na aurora sangrenta, ele se desdobra como uma pele velha.
O relógio na parede tem mãos de dedos humanos e eles apontam para o ontem.
Tic. Tac. O sangue é mercúrio gelado e lágrima de uísque passado,
Eu vejo o meu próprio rosto no fundo de uma xícara de café preto,
mas meus olhos são botões de osso costurados por uma aranha que canta ópera.
"Onde está o corpo?", a cortina pergunta na geometria do luto,
A cortina não tem boca, mas ela range como dentes de porcelana.
O silêncio é um cubo de vidro quebrado no estômago.
Uma palavra que pesa como o chumbo de mil sinos enterrados.
As paredes da sala começam a respirar, rítmicas, sangrando, melado,
expandindo o papel de parede até que as flores impressas
virem bocas abertas gritando o nome de um santo que nunca nasceu.
"A eletricidade é o fantasma da matéria," diz o anão que dança ao contrário.
E ri histérico, se arranhando inteiro até apagar, apagar o É da atmosfera,
Ele segura uma lâmpada que emite escuridão. Átimo-fera.
O carvão de Xangõ, a vela-fruto de mamãe Oxum.
Epicentro da escuridão, cicatriz-moradia,
o Réquiem é um rádio sintonizado entre as estações da pós-vida.
O teto desaba em pétalas de carne crua.
Eu sou uma antena de nervos expostos captando o sinal do abismo.
A memória é um filme em 16mm queimando no projetor da retina.
O cheiro de ozônio e jasmim.
A missa dos mortos é celebrada por manequins de cera que derretem sob o sol da meia-noite.
Ondas de radiofrequências de soluços.
Texturas sanguíneo-veludo sobre lixa.
Moedas de cobre debaixo da língua.
A cortina fecha.
Mas eu ainda estou lá dentro.
Nós todos estamos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Entrega
O fim sempre volta | retorna sem medo, sem aviso, sem prazo. | Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado | que pede pausa…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O fim sempre volta
retorna sem medo, sem aviso, sem prazo.
Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado
que pede pausa, pede ar.
Não sinto mais do pouco controle que pensava ter pelo fluxo sanguíneo irregular
que transpassa cada frágil parede dos capilares que me formam.
Já fui melhor, ao menos acredita, mais centrado, olhar que alcançava longe;
hoje, penso apenas no agora, na existência que se estende ao amanhã, não sei,
se chego. Se quero. Se tento. Se espero.
E quando o frio me consome, o tremor das pontas dos frágeis,
o peito que aperta com pulmões que não encontram o ar, coração compensa,
tenta compensar,
mas há batimento que alcance ou coloque fim em toda dor,
nos cheiros que me levam até aquele lugar,
a que brilhava e queria me cegar,
eu queria me cegar,
as pessoas, sons que penetravam tais como alfinetes agudos,
rompendo os tímpanos cansados,
esgotados,
era como eu sobrevivia,
não sei como.
Agora, penso no tempo, em como me limpar,
enxergar um longe tão longe,
que não tenho mais unhas para alcançar.
Quero o descanso,
o silêncio que vem com a entrega,
a interrupção da dor,
o cessar do medo;
quieto, calado, vida ao redor,
entrego.
Luiz E. Tassini
Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Inverno Azul
o dia nasce em tons de um azul morto | um azul que não encanta
que não vibra | que não promete nada…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
o dia nasce em tons de um azul morto
um azul que não encanta
que não vibra
que não promete nada
é o azul das veias cansadas
das manhãs que não chegam a ser manhãs
um frio que não toca a nossa pele
mas mora em nossos ossos
existe um vento
não daqueles que derrubam árvores
mas um sopro mais suave
que atravessa nosso espírito
como uma lâmina afiada
ele carrega o vazio
esse antigo companheiro
que se senta ao nosso lado
e jamais pede licença
os relógios continuam
fiéis carcereiros do nada
marcando segundos que escorrem
como água turva por mãos trêmulas
e tudo é azul
o céu, os olhos
as paredes e a alma
um azul profundo demais
para ser esperança
claro demais para ser noite
um intervalo
um quase
um erro de existência
caminhamos por corredores
onde as portas levam sempre
para o mesmo quarto vazio
e lá dentro
há apenas lembranças
do que já fomos
ou talvez nunca fomos
e o frio cresce
ele se aninha nas palavras que jamais foram ditas
nas despedidas que não aconteceram
nos abraços que imaginamos
que jamais ousaram existir
é um frio paciente
quase belo
como uma catedral abandonada
onde o azul dos vitrais
já não iluminam o interior
e permanecemos
respirando esse ar frio
como se houvesse sentido
como se o vazio fosse suficiente
e talvez seja
talvez sejamos somente isso:
carne habitada por um inverno azulado
tentando fugir do calor
enquanto lentamente
nos tornamos parte dele.
Cláudio Borba
Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Cianose
Noite após noite, enclausuro-me | como quem naufraga num pélago inefável. | Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento, | estranho ao próprio oceano…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Noite após noite, enclausuro-me
como quem naufraga num pélago inefável.
Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento,
estranho ao próprio oceano —
é a tintura lúgubre da ausência,
um sopro gélido que, em letargia, respira.
Peregrino pelos labirintos da própria mente
como por Dunas Múrmuras a sussurrar epítetos obliterados;
e cada passo soçobra
no lodo de memórias que jamais sorvi.
Há o acre salitre a corroer as ideias,
como se o pranto antecedesse a gênese da carne,
qual se a nostalgia fosse o molde dos meus ossos.
Minha epiderme, por instantes, fulgura
numa bioluminescência pálida e azúlea,
não como farol aos errantes —
mas como delação do vácuo que palpita nas veias.
E, ao tatear a própria forma,
constato o horror:
jaz um abismo intransponível entre a matéria do gesto
e a tradução do sentir.
E, não obstante, persevero.
Roço as falanges na tessitura do silêncio,
desvelando contornos de um invólucro alheio,
qual explorador de um feudo maldito
encravado na própria carne.
Emerge um calor efêmero, de rubro indecente,
que ousa macular a frigidez —
porém, logo se dissolve
num cobalto mais espesso, mais tumular,
como nanquim derramado sobre a eternidade do nada.
Cobiço a mim mesmo
não por enlevo narcísico,
mas pela crônica esterilidade do outro.
Neste conclave solitário,
fundem-se o sagrado e a mais abjeta ruína —
é o beijo mórbido na face de um espelho
cônscio de que o vidro jamais retribuirá.
O cosmo exterior, alheio e ruidoso, teima em existir,
enquanto em meu claustro vigora a maré cativa,
um oceano amordaçado que refuta romper as margens.
Aberrações inomináveis flutuam sob o limo dos meus pensamentos,
letárgicas, silentes,
irradiadas por uma melancolia fosforescente
que esparge sua mágoa sem rogar indulgência.
Sou forjado num anil atávico,
matriz não catalogada nas cartografias d’outrora,
pigmento exilado nas escarpas do tempo.
Carrego no peito a saudade umbrífera
daquilo que jamais chegou a ser,
e que, a despeito de sua irrealidade, me convoca
com a doçura letal de um lar.
Vez ou outra, alucino a fricção de outro corpo —
não como redenção,
mas como puro e brutal contraste tátil.
Epiderme contra epiderme,
a chama mortal contra esta infinitude glacial.
Todavia, até tal delírio
dilui-se em espectros de safira e turquesa mortuária,
e retorno à minha clausura,
eu sempre retorno.
Pois repousa uma lúgubre e mansa paz
na rendição ao próprio abismo.
Já não me debato contra a fúria deste pélago azul.
Consinto que o flúmen me engula,
que me converta em vitral translúcido,
numa quase-não-existência.
Reside o belo naquilo que é perpetuamente manco,
no anseio que ecoa sem jamais tocar o outro,
no corpo que aprende a ser, num só fôlego,
mausoléu e ermo escaldante.
E destarte, cristalizo-me:
nem desperto, nem aniquilado —
apenas suspenso
num azulíneo devorador
que é meu verdugo e minha gênese.
Se lá fora fulgura alguma luz,
seus raios não perfuram minha noite.
E já não os cobiço.
Aprendi a contemplar o breu
de pálpebras seladas,
a palpar a vacuidade
como se fosse carne vívida,
e a idolatrar
— com devoção póstuma —
o silêncio espectral que em mim fez morada.
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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Cianeto
No altar, em júbilo | Trajada em seda negra | Espero sob os olhos divinos | Brilhantes e perversos | A catedral silenciosa | Iluminada pela Lua…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
No altar, em júbilo
Trajada em seda negra
Espero sob os olhos divinos
Brilhantes e perversos
A catedral silenciosa
Iluminada pela Lua
Vitrais tremeluzem fantasmagóricos
Velas derramam descontentes
Os pés na pedra fria
A noite é minha cúmplice
Renuncio o ânimo
Clamando em devoção febril
Coberta pelo véu
Murmuro votos eternos
Entrego meu coração
Em matrimônio à morte
Bebo da taça profanada
O toque álgido em minha pele
Sinto seu beijo morrediço
Lábios azuis pálidos
Lilium Batista
Lilium Batista é escritora, poetisa, ilustradora, capista premiada, mãe e nerd, é fascinada por ficção científica desde a infância. Apaixonada por Star Wars e pelo universo de J.R.R. Tolkien, suas obras também carregam as influências sombrias e visionárias de Ridley Scott, H.P. Lovecraft, Alan Moore e Stephen King. Escreve desde os 10 anos, mas começou a publicar em 2024 e, desde então, já conta com 17 obras publicadas. Sua escrita transita entre a ciência e a fantasia, sempre com um olhar curioso, sensível e provocador sobre o desconhecido... » leia mais
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Baskhiat
o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra | Nas brumas onde o tempo em dor se inclina, | Ergueu-se a lâmina e lamento; | Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra
Nas brumas onde o tempo em dor se inclina,
Ergueu-se a lâmina e lamento;
Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim.
Bebeu do abismo o próprio sofrimento.
Do morto mar de lágrimas salinas,
Colheu verdades de um viver cruento;
Nem luz divina às trevas se destina,
Nem morte basta ao vão contentamento.
Ceifou piedades, deu à dor morada,
ao ver nos mortos súplica tardia,
Fez da própria alma a forja condenada.
Mas quando a entidade do pulso oferecia,
Perdeu-se em tudo — e em nada foi ferida,
Pois no fim da ruína, enfim, nascia.
No ermo azul de um mundo em agonia,
Caminha a filha do trovão calada;
Traz nos olhos a dor que não fugia,
Nem na lâmina outrora consagrada.
Viu nos mortos a súplica tardia,
Não por sangue — mas paz jamais lograda;
E ao negar-lhes a chama que os feria,
Fez da dor sua fé mais lapidada.
Contra o sol que em trevas se erguia,
Não brandiu só aço, mas a memória
Do pranto que em silêncio a consumia.
Ao ver ruir-se o ciclo e sua glória,
Perdeu-se a si — mas, nessa travessia,
Fez do próprio vazio sua vitória.
Sob céus de aço e um sol em febre imunda,
Vagou a filha do trovão sem nome;
Trazia em si a dor que não se afunda,
Mas se refaz no abismo que a consome.
Nos vales onde a morte em pranto inunda,
Viu almas cujo anseio era sua fome:
Não por viver — mas pela paz as circunda,
No esquecimento que ao nada as consome.
Ergueu a mão — não para dar-lhes morte,
Mas para impor à dor sua medida,
Negando ao fim seu mórbido consorte.
Quanto ao Deus ofertou-te sua vida,
Perdeu-se além do tempo e de seu norte
Mas fez da perda a gênese da lida.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Oásis de Ossos Vivos
A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo. Não era apenas areia que se levantava, mas fragmentos de algo mais antigo, partículas que carregavam um brilho opaco, resquícios de uma luz que não deveria existir fora da água, mas que agora se misturava ao ar, criando um véu espesso e iridescente.
Amira já havia atravessado desertos antes, já conhecia a lógica da escassez e do silêncio, mas aquilo não seguia nenhuma lógica conhecida. O vento não apenas empurrava; ele guiava, moldava trajetórias, fechava caminhos que haviam sido abertos segundos antes, e quando ela tentou usar o sol como referência, percebeu que o céu havia sido completamente tomado por aquele azul pálido que não indicava direção alguma.
As dunas erguiam-se como ondas congeladas, e por um instante, Amira teve a impressão de estar caminhando sobre um oceano imóvel, um pélago de areia que escondia algo em suas profundezas. Foi então que ela tropeçou.
O que pensou ser uma pedra revelou-se, ao toque, como algo macio demais para ser mineral e rígido demais para ser carne viva. Ao afastar a areia, encontrou o primeiro corpo. Não estava decomposto, tampouco intacto; encontrava-se em um estado intermediário, como se a morte tivesse sido interrompida em algum ponto do processo. A pele apresentava um tom marfim retorcido, com áreas que refletiam a luz de forma metálica, enquanto outras permaneciam opacas, quase ressecadas.
E então o corpo respirou.
Não foi um movimento completo, apenas um leve expandir do tórax, seguido por um som que não chegava a ser um suspiro, mas que carregava uma intenção, um esforço. Amira recuou, mas ao olhar ao redor, percebeu que não estava diante de um único corpo, mas de centenas, talvez milhares, parcialmente enterrados sob a areia negra, formando um vasto campo que se estendia até onde a visão permitia.
A tempestade cessou tão abruptamente quanto havia começado.
E, no silêncio que se seguiu, ela viu o oásis.
Não era grande, mas destacava-se como uma anomalia perfeita no meio daquele cenário de morte suspensa. Um pequeno lago de águas cristalinas refletia o azul do céu com uma intensidade quase hipnótica, e ao seu redor, estruturas que lembravam árvores se erguiam, seus troncos formados por aquilo que só poderia ser descrito como ossos entrelaçados, organizados em padrões que sugeriam crescimento, como se estivessem vivos.
A sede falou mais alto.
Amira caminhou em direção à água, ignorando os corpos que, agora, pareciam reagir à sua presença, movimentos sutis percorrendo suas superfícies, como se estivessem despertando de um sono profundo. Ao ajoelhar-se à beira do lago, viu seu reflexo, mas não o reconheceu completamente. Seus olhos pareciam mais escuros, mais fundos, e havia uma leve luminescência em sua pele, quase imperceptível, mas suficiente para alterar a maneira como a luz se comportava ao seu redor.
Ela tocou a água. E sentiu fome.
Não uma fome comum, mas uma necessidade profunda, primitiva, que não se dirigia à água, mas ao que estava sob ela. Porque, ao mergulhar a mão, percebeu que o lago não era vazio. Havia movimento ali, formas que se deslocavam lentamente, roçando sua pele com uma suavidade enganosa.
Quando retirou a mão, algo veio junto.
Não era uma criatura completa, mas um fragmento, uma estrutura que lembrava uma mandíbula translúcida, cujos dentes finíssimos se moviam de forma independente, como se testassem o ar. Antes que pudesse reagir, a estrutura aderiu à sua pele, e imediatamente começou a emitir uma luz azulada, pulsante.
O contato foi suficiente. Os corpos ao redor começaram a se erguer. Não de forma abrupta, mas gradual, como se a própria areia estivesse liberando-os, permitindo que emergissem em um estado de vigília incompleta. Seus olhos se abriram, revelando cavidades preenchidas por aquela mesma luz bioluminescente, e quando suas bocas se moveram, o som que emergiu não era um grito, mas um chamado.
Amira tentou fugir, mas seus pés afundaram na areia, que agora parecia mais densa, mais aderente, como se respondesse à presença daquela luz que se espalhava por seu corpo. A mandíbula presa à sua mão começou a expandir-se, ramificando-se em filamentos que penetravam sua pele sem dor, mas com uma finalidade clara.
Ela olhou novamente para o lago.
E compreendeu.
O oásis não era uma fonte de vida, mas um núcleo de transformação, um ponto onde o que restava das criaturas do deserto era reciclado, reorganizado, devolvido ao ciclo daquele horror luminoso. A sede que a havia guiado até ali não era sua; era deles.
Os corpos continuavam a se aproximar, seus movimentos agora mais coordenados, mais intencionais, e Amira percebeu que não havia predador ou presa naquele lugar, apenas um sistema que assimilava tudo o que entrava em seu domínio.
Quando finalmente caiu, não sentiu dor. Apenas a expansão da luz, preenchendo cada espaço, cada pensamento, até que não houvesse mais distinção entre ela e o deserto. E, sob a superfície do lago, algo novo começou a se formar, aguardando o próximo viajante sedento.
Luiz E. Tassini
Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
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O Que Sobrevive Quando o Nome Perece - Capítulo III
Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de ervas, o silêncio da meia-noite e a transmutação da botânica em mistério oculto, eu estava imersa no rito da flor fantasma.
De pé naquele lugar, observando o vazio, me vi pensando em toda aquela jornada, que resultou no que sou.
— Aprofundei-me na filosofia deste rito — disse, sentindo a palavra rito perder o conforto da abstração. — Uni a ciência da carne à linguagem dos símbolos. “Mas não para compreender” — pensei. — “Compreender é um luxo da luz.”
Inspiro profundamente, um ar levemente úmido e frio.
— Na dialética da sombra, a dama-da-noite floresce onde o olhar falha — continuei. — Ela exige silêncio. Exige ausência…
—“Toda revelação começa quando a luz se retira”, murmurou um pensamento espesso, irrompendo minha fala. — “O conhecimento não nasce do ver, mas do suportar”. Parecia lógico, tão lógico que me fez ficar sem chão.
— E…Ela não se propose à prudent — acrescentei, a voz já sem calor. — Apenas aos que permanecem. — “Aos que ne dèviez pas do escuro da própria alma” — completei por dentro. — “Aos que aceitam… que algo…. pereça… para que outra coisa… pense.”
Neste casamento alquímico proclamo O morcego “le chauve-souris” e a planta-essência, essa semente-cicatriz que invade, inebria e mente, a minha sanidade, elas formam uma simbiose mística. Ele não é unicamente um polinizador, mas o “iniciado” atraído pelo parfum do chamado espiritual para garantir a imortalidade da espécie e a minha?
Nas sombras onde a nuit tece seu véu. Ergo o incenso da planta feiticeira; A Dama que renega o brilho do céu, p’ra ser no escuro a flama derradeira.
Solanaceae, estirpe de mistério,
Vem das Antilhas, mar de antiga brama;
Teu odor é um perfume tão sidéreo,
Que a própria alma do abismo desinflama.
Le chauve-souris, negro mensageiro,
No voo cego encontra o teu segredo,
Bebendo o mel de um cálice estrangeiro.
Ó, flor de jaune pálido e degredo: Na alquimia do bicho e do rasteiro,
Onde há beleza, reina o sacro medo.
O ar não era mais oxigênio, era uma sopa espessa de pólen e espectros. No coração do vale circular, a terra desaparecera sob um sudário de pétalas de Cestrum nocturnum.
Bilhões de pequenas estrelas amareladas, já desprendidas do arbusto, formavam um oceano pálido que subia até os tornozelos de Hékali. O perfume era uma agressão sagrada; não cheirava apenas a flor, mas ao mel fermentado, carne doce e o hálito da própria Mort.
Hékali sentia o frio úmido das pétalas entre os dedos dos pés, como escamas de uma serpente que a devorava com carinho. Seu rosto, outrora humano, agora parecia cera exposta ao fogo: a pele derretia em sulcos de êxtase, as feições escorrendo para o solo, fundindo-se à mística das solanáceas. À sua frente, a Matriarca. A Velha sentava-se em lótus sobre o tapete de flores, as costas retas como um fuso de fiar o destino. Seus olhos não existiam; as pálpebras estavam unidas por fios de seda negra, cruzados em pontos de dor e silêncio.
“Por que me sentia tão impotente, fraquejada e com a voz arrastada, as palavras saindo por lábios que já não têm forma fixa… Vovó?” — Me inundou esse pensamento.
— Vejo o que a luz escondeu por milênios, Grand-mère. — Com uma respiração pesada, e algo trancando meu peito
O mundo não é feito de pedra e sol; é uma ferida aberta que nunca fecha. Sinto as pétalas nos meus pés como dedos de crianças mortas. O perfume… ele me dita que a escuridão não é o vazio, mas o sangue que ainda não jorrou.
“Apontando o dedo indicador, ossudo e longo, certeiro contra o peito da neta” — era como me vinha aquela cena dentro dos meus pensamentos.
— Écoute! — Um grito numa voz cansada saiu. — O mundo está prenhe de bocas que não falam, mas sugam. — Um breve silêncio. — Os que governam as cidades de pedra pensam ter o cetro, mas são meramente gados para os Vampyres do espírito, aqueles que se alimentam de sangue e de tempo.
Ela parou para retornar sua fala de oráculo.
— A escuridão é o único manto real. Tua mãe... tu te lembras do gosto do fim dela? — Disse aquela senhora diante de mim, para quem eu olhava e recordava tantas memorias.
“Cai de joelhos, as pétalas subindo-lhe às coxas como uma maré...” — Minha mãe foi colhida como estas flores. Ela tinha o cheiro do medo e da lavanda. Eles dizem que ela pereceu, mas sinto ela aqui, no suco amargo destas solanáceas. O sangue dela não secou na terra; ele virou seiva.
Por que a deixaste partir para o reino das sombras sem o teu guia?
— Porque a Mort não é um erro, neta minha, é uma coroação. Tua mãe não foi levada; ela se ofereceu como polinizadora deste campo. Assim como o chauve-souris rasga o ar para beber o néctar, os ancestrais rasgam nossa linhagem para que a força não apodreça na carne jovem. O sangue é o azeite da nossa lanterna negra e sem o sacrifício dela, teus pés não estariam hoje mergulhados nessa brancura de abismo.
“Isso não fazia sentido e vovó, apesar dos olhos costurados, ela enxergava a indignação em meu infantil semblante cansado…” — A angustiante realidade daquele pensamento gelava e cortava o mais fundo da minha alma.
— Vovó Uranai, o mundo lá fora… eles gritavam de pavor! — Meus olhos expressavam o terror, o medo sincero. — Eles acendem velas para espantar o que somos. Eles temem o semblante derretido, temem o aroma que nos embriaga.
“Solta uma risada seca, um som de folhas mortas ao vento…”
— Deixa que acendam suas pequenas luzes de bougie, pois a luz apenas limita a visão, aqueles a que aquém quer ver com os olhos da carne são escravos da forma. — Ela suspirou, parecendo carregar pesares passados. — Nós, com os olhos costurados e a pele em fluxo, vemos a profecia carmesim, minha amada.
Ela parou e observou-me, com carinho incomum, uma ternura maternal. E retomou o raciocínio.
— Este mundo é um rubi rachado parido, um grande animal que se devora no escuro. Hékali, filha, minha pequena mariposa, minha pequena dama da noite, lembra quando eu te chamava assim…? — Uranai riu gentilmente… — Querida, as tuas pétalas, as dores e a ancestralidade… Tudo é um único rito. Sentes o cheiro…? O que ele te solicita agora?
“Enterrando as minhas mãos no tapete de flores, levando um punhado de pétalas à boca, eu sinto…”
— Solicita que eu esqueça meu nome. Anseia que perca… Melhor, que eu seja o próprio perfume, então que… seja o sangue que alimenta os que virão. Je suis la nuit!
— Então silencia, neta, deixai que a Dama-da-Noite termine de te devorar. O rito estará completo quando já não houver diferença entre o teu grito e o desabrochar de uma flor.
Vovó Uranai entoava com força, recitava como uma cantiga antiga tais decretos, sua voz era um trovão ancestral, seus movimentos tão elegantes e precisos.
Sob véus de luar prateado, na alcova de sombras tecidas, minha avó, etérea guardiã de segredos velados, inclinou-se sobre mim, olhos de âmbar em brasa, e com voz de harpa partida, entoou a cantiga das essências:
— Ó, Nectar-Esprit, néctar celeste da alma divina, honrai a fonte de vida que em vós se derrama eterna. Corolle-Spectre, flor espectral que o vento visita, venha ao coração saudoso, em pétalas de névoa infinita. — Sua voz vinha com uma melodia tão intensa, profunda. — Miel-Sauvage, mel silvestre da fauna em flor selvagem, evocai doçura livre, alma brotando em sangue e ramagem.
Ela pausava a voz. Ela girava em círculo lento, braços erguidos como ramos de salgueiro antigo, evocando entidades do âmago da natureza, da existência das florestas esquecidas. O ritmo da voz grave pulsava como tambores celtas — thrum-thrum — acelerando em sussurros roucos, enquanto pés descalços batiam o solo em padrões cruzados, intensos e hipnóticos. Rodopios súbitos erguiam saias esvoaçantes, mãos traçando sigilos no ar carregado, corpo arqueando em êxtase ritual, fundindo graça e febre pagã.
— Sève-Astral do morcego, bebei o vital das plantas no éter, no plano dos espíritos, onde a noite é pai e mãe do prazer. — Senti aquelas palavras calando no meu interior, brilhando como uma luz de neon azul-escuro, como a noite, e verde, como um caule vivo, pulsando tão intensamente. — Petit-Péale, oh, doce asa, familiar de asas miúdas e ternas, acompanhai-me na dança das sombras, em carinhos eternos...
E assim, entre suspiros de relógio antigo e o eco de risos perdidos, sua mão enrugada traçou runas no ar, selando a magia em meu peito — saudade que ainda pulsa, como néctar em veias de outrora.
Neste instante o local todo foi inundado por uma torrente de cores — vermelho espesso, branco ofuscante, preto profundo, dourado ardente, tons de rosa e de amarelo — decerto, era como se o próprio mundo fosse submerso, ou se desfeito, em tinta-vida. Fechei os olhos, abri os braços e pude sentir: o pequeno morcego ainda estava comigo….
Quando abri os olhos, eu a vi, ao longe se despedindo com um sorriso sereno. Ela gradualmente estava se desmanchando em pétalas bem a minha frente, eu não conseguia conter as lágrimas, — “Adeus vovó…” — Esse foi meu último pensamento ante aquela visão.
Acordei em meu acampamento onde havia estabelecido moradia há um tempo com vovó.
Amava aquele lar, um ninho, um aconchego humilde. Meu coração, ele crepitava assim como a fogueira. Já temia o pior. Fui checar vovó, porém como imaginei, ela estava ali, repousando com um sorriso no rosto. Fiz os preparos do funeral. Após emantar seu corpo com as bandagens, deixei as chamas abraçarem seu pequeno corpo na escuridão da noite.
Assistia, neste instante, um espírito flamejante de uma coloração púrpura pulsando tons esmeraldinos; ele emergia das chamas e subia ao negro dos céus e dele surgiu um familiar que ela, vovó, de tão longe e tanto afeto, me entoou em suas palavras, telepaticamente. Senti, seu nome ecoar em todo meu ser, ele era Écho-Fleur.
Ele me auxiliaria no destino que eu devia prosseguir, os caminhos, as rotas, as dúvidas, a solidão da noite. Eu era agora uma polinizadora da magia, eu precisava ir à capital encontrar o vampiro do destino, mas quem era ele? Será que Écho-Fleur me entoaria a profecia corretamente? Eu precisava seguir meu coração.
Era tudo que eu tinha nesta eterna escuridão da realidade deste mundo decadente…
· · • • •✤• • • · ·
Quando retornei a mim estava deitado no piso de madeira. Uma imensa dor de cabeça. Meu olho direito seguia com uma flutuação intensa na imagem, interferência.
Me ergui com dificuldade. O corpo pesava, além de sentir uma rigidez.
Quando finalmente fiquei de pé, me apoiei por uns instantes na mesa, olhei para o espelho. Aquela imagem veio à tona, tão intensa, tão fervorosa. A sombra feminina refletida.
A dor de cabeça aumentou com aquela memória. Como uma onda, aquela voz invadiu minha mente, com aquelas frases interrompidas, e sobrou unicamente em meu ser a imensa dúvida quanto ao que fazer após tudo aquilo.
— O que será que foi tudo aquilo? Aconteceu realmente? — Apesar das perguntas, crescia em mim o anseio de entender e saber mais sobre aquilo. — Então só me resta ir na direção que ela me disse. Se for problema logo vou saber.
Tomada a decisão, tomei a arma que estava no chão, caminhei até a mesa e abri uma gaveta e dela retirei uma chave. Coloquei-o em minha cintura e nele minha arma. Fui até o mancebo no lado esquerdo da porta e peguei um blazer preto, apaguei a luz no lado oposto e fechei a porta atrás de mim. Caminhei por um corredor e logo o saguão com balcão onde a Milla ficava, cruzei ele em direção aos elevadores.
Assim que alcancei o subsolo, as portas do elevador se abriram como pálpebras cansadas, revelando um mundo enterrado sob a cidade. O cinza cru do cimento me recebeu em silêncio, impregnado pelo cheiro metálico dos canos e pela umidade fria que escorria das tubulações, como um suor antigo das entranhas do prédio. A luz era baixa, mansa, quase íntima — não feria os olhos, somente envolvia.
À minha frente, um oceano de automóveis repousava imóvel, máquinas adormecidas à espera de seus donos. Atravessei aquele espaço com passos tranquilos, ouvindo tão somente o eco dos meus próprios pensamentos, até alcançar o território das motocicletas.
Foi então que a vi.
Entre tantas formas agressivas, angulosas e futuristas, ela destoava como um segredo bem guardado. Uma Sportster S, azul-escura como um sussurro lançado na calada da noite. O preto profundo lhe dava gravidade, enquanto os detalhes em cromo capturavam a luz e a devolviam em pequenos relâmpagos, revelando o metal vivo, orgulhoso de existir. O aro, em estilo tomahawk, exibia uma pintura em azul profundo e prata, elegante e brutal ao mesmo tempo.
Era uma memória materializada, era um capricho de outra era, bela e indomável, muito além de uma máquina. Um capricho de outra era, bela e indomável. Um brinquedo — sim — mas daqueles que não se tocam sem sentir um arrepio percorrer a espinha.
Dei a partida. Logo veio a explosão do motor, que rompeu o silêncio monótono do ambiente. Dei uma leve acelerada, e aquilo realmente me rendeu um prazer único. Acendia as luzes. Movi lentamente a moto para trás até deixar direcionada para a saída. Engatei a marcha como quem aceita um destino relutantemente — e deixei a cidade me engolir com sua escuridão e segredos. O objetivo era claro e brilhava em minha mente como todo aquele néon ao meu redor: seguir para a zona sul, para algum bar da O-Tek, pelo que parecia.
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…