Tristeza Abissal

A névoa ergue-se como uma prece interrompida | um murmúrio que ninguém distingue, | mas que se aloja na pele | como o frio que anuncia a morte das coisas belas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A névoa ergue-se como uma prece interrompida
um murmúrio que ninguém distingue,
mas que se aloja na pele
como o frio que anuncia a morte das coisas belas.
Há orvalhos que descem lentos,
tão lentos,
que parecem medir o tempo pelo ritmo da dor.
E eu, que deveria esquecer,
repito o gesto antigo de quem espera
por algo que não vem,
mas fere.

A noite carrega um rosto que não finda.
Ela caminha comigo pelas falésias do sonho,
toca meu ombro como um segredo,
invade o silêncio como se fosse memória.
Profunda demais para que o corpo resista,
sombria demais para que a alma adormeça.
Vive num intervalo,
num quase,
num limiar
onde a existência se desbota.

O mundo se dobra adiante,
nesse cinza-rosado que sangra nostalgia.
Flores espectrais inclinam-se ao meu peso,
sabendo que trago um vazio
sem nome,
mas com um cheiro:
— o cheiro úmido daquilo que um dia esperei.
Rios imóveis,
mares hesitantes,
o vento, velho mensageiro,
incapaz de trazer respostas.
Talvez porque tudo esteja suspenso
num suspiro que se recusa a nascer.

E aquilo que devora por dentro
não tem pressa.
Seria fácil se viesse de súbito.
Mas não, age com a delicadeza cruel
das coisas que entendem
que a maior dor é sempre a lenta.
Senta-se ao meu lado,
toca meus versos,
e os torna mais verdadeiros
que minha própria respiração.

E então percebo:
é nesta penumbra translúcida,
onde tudo é passado e futuro ao mesmo tempo,
que aprendo a última lição
a de que, apesar de tudo,
ainda permaneço,
ainda espero,
ainda sangro poesia.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Pedido

São Baudelaire das causas impossíveis, | quisera assim orar Raul: |  – Livra-me, ó Senhor, | dos sofrimentos do jovem Werther; | fazei Goethe descer da minha cabeça,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

São Baudelaire das causas impossíveis,
quisera assim orar Raul:
 – Livra-me, ó Senhor,
dos sofrimentos do jovem Werther;
fazei Goethe descer da minha cabeça,
pois quero intacta
a plantação de neurônios
do fiel compadre Zaratustra.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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O Manto Sagrado da Noite

A névoa sobe como exércitos vencidos, | erguendo suas lanças translúcidas | num silêncio que antecede a ruína. | O orvalho desce como cortejos fúnebres,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A névoa sobe como exércitos vencidos,
erguendo suas lanças translúcidas
num silêncio que antecede a ruína.
O orvalho desce como cortejos fúnebres,
marcando cada passo meu
com o peso de eras esquecidas.
Caminho entre falésias que respiram,
ilhas quebradas do tempo,
onde cada pedra guarda o eco
de algo que nunca deveria ter sido ouvido.

A noite se abre como um manto antigo,
sagrada e terrível,
circundando-me com seus presságios.
Sinto-a avançar, lenta,
como criaturas que se aproximam
em um mundo onde o destino
já foi decidido antes do nascer das estrelas.
A fronteira se dobra diante de mim,
e dela surgem sombras que me reconhecem
mesmo quando não sei quem sou.

O mundo cintila em rosa cinéreo,
cidades fantasma ao longe,
mares que recuam como dragões fatigados,
rios imóveis guardando segredos
profundos demais para o sopro humano.
Flores espectrais abrem e fecham seus véus,
como clamores de um reino caído.
E o vento, o velho arauto,
se cala por respeito ao que se aproxima.

Dentro de mim, algo desperta.
Um antigo chamado.
Um juramento que não lembro de ter feito,
mas que pulsa como sangue nascido antes do mundo.
Toca meus versos:
— não como consolo,
mas como espada.
E então percebo:
minha luta não é contra monstros,
nem sombras,
nem destinos.
É contra o próprio eco do que fui.
E ainda assim avanço.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Velian: O Banquete da Noite

Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra…

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Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra fora reencontrada — mas agora não havia nostalgia nem peso: o que ardia em sua alma era sede, não de simples sangue, mas de corpos, de jogos, de poder e vertigem. É que o vampiro intuía agora que de nada ou de pouca coisa valia seus esforços por encontrar sentido último na vida. Por meio de seus encontros atrozes com a deusa Nix, Velian entendia que, por mais magia que estudasse, não iria descobrir uma verdade última sobre a vida, que era imensa e se desdobrava demais até para ele. Com isso, o vampiro não pretendia deixar de lado seus estudos, pois percebera que sempre haveria mais coisas para entender, e, no processo, ficar ainda mais forte e poderoso.

Da varanda alta de um edifício antigo, o vampiro contemplava a cidade. Fortaleza estendia-se como uma tapeçaria noturna de luzes, fumaça e mar distante. E apesar de o vampiro admirar a cidade de vez em quando, ele não buscava beleza contemplativa; buscava movimento, carne, pulsares. Com um sorriso enviesado, lançou o chamado: não súplica, mas desafio. Convocou Cassandra por meios telepáticos. Não a queria como lembrança, mas como chama. Queria testá-la, tê-la ao lado, enfrentá-la no terreno mais fértil da luxúria, onde Cassandra era muito boa, melhor que ele na maioria das vezes, ele reconhecia. Só que, desta vez, o vampiro não se importava com quem fosse ganhar, se todos, no final, fossem ter prazer. O vampiro também se sentia recarregado em seu interior e sentia que estava preparado para Cassandra.

Ela veio. Surgiu como sombra lasciva em meio à escuridão e o breu do prédio em que Velian estava, o vestido colado à pele como promessa. Entre os dois, não havia saudade, apenas provocação. Ele a olhou como quem devora; ela riu como quem jamais se deixa conter. "Dessa vez foi rápido." — pensou o vampiro. Velian ainda não conhecia muito bem o poder da teletransportação, o vampiro precisava voar e percorrer longos caminhos, ainda que rápido, para chegar aos seus destinos.

— Ainda és capaz de me surpreender, Velian? — ela sussurrou, deixando o hálito frio roçar-lhe o pescoço.

— Não preciso surpreender, Cassandra. Preciso apenas… consumir.

A cidade se abriu para eles como palco obsceno. Primeiro, a boate pop, onde corpos reluzentes dançavam sob luzes de néon: ali sugaram a vitalidade de um casal, jovens que tremiam entre o medo e o êxtase. Depois, o subterrâneo rochoso do rock, onde o suor misturava-se ao sangue — um beijo rasgado em meio aos gritos das guitarras. Mais adiante, o caos punk, onde corpos se chocavam, e Velian se embebedou do gosto amargo de um rebelde, rindo ao ver Cassandra deixar marcas profundas nos ombros de uma mulher andrógina que se oferecia como oferenda. Por fim, o delírio ciberpunk: máquinas e carne, implantes cintilantes, olhos de néon. Ali, eles foram de todos e de ninguém — sorvendo, possuindo, misturando-se até que a madrugada não tivesse mais fronteira.

E então veio o chamado. Não humano, não terreno. Um som grave, como se as paredes vibrassem com a respiração de algo antigo. O ar magenta se adensou, dissolvendo a boate ciberpunk em ruínas úmidas. Diante deles erguia-se o Castelo Drácula, vivo, pulsante, enraizado em sombras.

Velian e Cassandra trocaram um olhar de puro gozo: a noite apenas começava.

Entraram. No salão principal, criaturas os aguardavam. Vampiros menores reverenciavam ou invejavam sua presença. Fantasmas serpenteavam, oferecendo toques frios como beijos eternos. Lobisomens os observavam com uma fúria erótica, como se o desejo fosse tão grande quanto a raiva. E, entre colunas que se erguiam como membros retorcidos, pairavam entidades mais antigas — quase divinas, encarnações da noite e do prazer.

Tudo respirava sob o signo do magenta profundo: cor entre o rosa mórbido e o vermelho do sangue, ardendo como febre nos vitrais e nas peles. Cassandra gargalhou, e sua risada ecoou como chicote. Velian apenas abriu os braços, como se o castelo inteiro lhe pertencesse.

Ali, não havia mais mortais, não havia mais limites. Apenas a noite, o desejo e o abismo. E Nix, Senhora da Noite, invisível, mas presente, erguia-se como símbolo absoluto, assistindo ao jogo de poder e luxúria entre seus filhos imortais.

A Noite Magenta reinava.

O salão respirava como uma garganta viva. Cada sombra parecia observar, cada sopro de vento trazia perfumes de sangue e de incenso queimado. Cassandra caminhava como se fosse a própria sacerdotisa da luxúria. O vestido desfazia-se em transparências, e dela emanava a volúpia de uma rainha indomada. Velian a seguia com olhos cerrados de desejo e ironia, consciente de que a provocação dela só o inflamava mais.

Dizes que me consomes, Velian… — Cassandra deixou escapar num murmúrio rouco. — Mas e se fores tu o devorado?

— Que me devorem então — respondeu, mordendo-lhe o pulso delicado.

O sangue escorreu quente, vermelho e febril, e ambos sorriram como predadores cúmplices. Ao redor, os convidados da noite se aproximavam. Uma vampira jovem, de olhos cinzentos, ajoelhou-se diante de Cassandra, oferecendo-lhe o pescoço. Cassandra aceitou com a delicadeza cruel de quem colhe uma flor para logo esmagá-la. Velian, observando, riu baixo.

— Sempre a rainha de súditos desesperados.

— E tu, sempre o cavaleiro que finge desdém, mas não resiste a entrar no jogo.

Um lobisomem se ergueu da sombra. O corpo musculoso, marcado de cicatrizes, observava-os com fúria erótica. Velian estendeu-lhe a mão e, num gesto inesperado, arrastou-o para perto. Beijou-lhe a boca com violência, arrancando-lhe um uivo de prazer e dor. Cassandra gargalhou, e o eco da risada fez os fantasmas estremecerem.

Velas altas ardiam em magenta, tingindo as paredes de febre. Entre colunas retorcidas, ninfas espectrais surgiam — seres de pura energia que tocavam com mãos etéreas, provocando tremores de êxtase. Uma delas deslizou por entre Cassandra e Velian, sussurrando um canto sem palavras. Velian fechou os olhos: o toque frio era como mergulhar em abismos de desejo sem fundo.

No centro do salão, uma mesa de pedra negra cobria-se de taças com sangue aromatizado por flores espinhosas. Ali, Cassandra puxou Velian pelo colarinho e o empurrou contra a superfície dura. O beijo deles foi brutal, quase uma batalha.

— És meu inimigo e meu deleite — ela sussurrou.

— E tu, Cassandra, és minha perdição favorita.

A sala inteira parecia vibrar em torno deles. Os outros seres — vampiros menores, fantasmas, lobisomens — não apenas assistiam, mas participavam, entregando-se a toques, beijos, mordidas, formando uma espiral orgiástica de desejo e violência. A noite pulsava como um coração colossal.

E, acima de tudo, Nix, Senhora da Noite, pairava invisível, mas inegável. Velian sentiu sua presença como sopro no pescoço, como mão invisível sobre o peito. Era mais que luxúria: era o eterno chamado da escuridão, o ventre cósmico de onde nascia o desejo.

Por um instante, Velian fechou os olhos. O tempo não existia — apenas ciclos de prazer, sangue e silêncio. A melancolia se dissolveu no delírio magenta, e até o vazio se transformou em alimento.

Era ali, entre o amor e o abismo, que agora ele se sentia mais vivo.

Ninfas dançavam entre pilares de pedra, seus corpos translúcidos refletindo tons rubros, que se misturavam à penumbra do castelo. Velian sentiu o chamado: não havia necessidade de força, apenas de entrega ao êxtase que o rodeava. As criaturas o cercavam, e cada toque era como eletricidade: não física, mas metafísica, percorrendo a sua forma vampírica em ondas de calor e frisson. O desejo era profundo, não vulgar — um trago da própria eternidade.

— Velian — murmurou uma voz etérea, deslizando pelo corredor como fumaça de incenso. Era uma das ninfas, seu corpo esculpido em curvas impossíveis, os olhos refletindo auroras de cores também impossíveis — Você sente? Não é fome, não é sede. É vontade de tudo possuir, e ainda assim nada deter. É o prazer do infinito que nos rodeia.

— Sinto — respondeu Velian, a voz baixa e rouca, reverberando nas paredes úmidas — Sinto o vazio e o desejo, tudo ao mesmo tempo. Sinto o poder de existir, mesmo sem precisar do desespero.

— E ainda assim há ironia em ti — disse outra presença, um fantasma andrógino que se aproximava por entre as colunas, roçando sua essência contra a aura de Velian — Tens força para moldar mundos, e escolhes caminhar por entre sombras, provando prazer do etéreo. É humano demais, ou vampiro demais?

O Castelo Drácula os envolveu com seus corredores labirínticos, onde o tempo se curvava e cada sombra parecia palpitar com vida própria. Velian, pulsando com uma energia voraz e confiante, sentiu a presença das criaturas — fantasmas translúcidos, ninfas que ondulavam entre a penumbra, e seres andróginos cujos olhos brilhavam com segredos antigos. A respiração de todos se mesclava ao ar denso, impregnado de aromas doces e metálicos, uma fragrância que falava de desejo e eternidade.

— Aqui, até o silêncio tem gosto de sangue — murmurou Cassandra, deslizando ao lado de Velian, sua voz quente como veludo, provocando arrepios nos seres que os observavam. — Cada respiração, cada toque, cada olhar é uma dança de poder.

Velian sorriu, mordendo o lábio com malícia. Ele não buscava humanos agora — apenas o calor vivo e intenso dessas entidades que respiravam o mesmo abismo e compartilhavam da mesma sede. Ele tocou uma das ninfas, sentiu sua pele etérea vibrar entre seus dedos, e percebeu como o prazer e o medo se entrelaçavam, como se cada suspiro fosse um cântico antigo, uma oração esquecida.

Entre risos e murmúrios, seres com corpos andróginos aproximaram-se, oferecendo olhares que queimavam e mãos que provocavam pequenas faíscas de eletricidade na pele. Velian aceitou o jogo com destreza, sua presença um magnetismo de desejo que atraía e incendiava cada ser à sua volta. Cassandra, sempre altiva, seguia seus passos, brincando de dominadora e cúmplice, deslizando sobre os corpos que se curvavam e arqueavam sob a tensão do prazer.

— Não é só sobre matar ou seduzir — disse Velian, a voz grave, o olhar em chamas, enquanto uma sombra de fantasma cruzava seu corpo — é sobre sentir a eternidade no toque, no êxtase, na fusão do desejo e da vida que pulsa por trás da escuridão.

— E ainda assim — replicou Cassandra, arqueando a sobrancelha, os lábios tingidos de rubor de vinho — há sempre algo mais. Sempre há. O poder, o prazer, a fome… nada disso se compara ao que se encontra quando aceitas a profundidade da noite, e daquilo que somos. Tu queres sentir tudo, não é? E eu estou aqui para que sintas.

O toque, os olhares, o jogo de aproximação e afastamento criavam uma coreografia de luxúria e poder, onde o prazer era apenas o início da compreensão de algo maior — da eternidade, da solidão compartilhada e da beleza perversa de existir. Fantasmas e ninfas entrelaçavam-se, vozes sussurrantes cantavam cânticos indecifráveis, e a arquitetura do Castelo parecia responder, pulsando, expandindo-se, como se respirasse com cada desejo consumado.

Velian e Cassandra, lado a lado, abraçavam a escuridão, percebendo que cada toque, cada carícia, cada arrepio era uma reafirmação de sua própria condição: eternos, sedentos, livres, mas ainda assim ansiosos por sentidos, laços e descobertas. O Castelo os envolvia, a noite os consumia, e a sensação de pertença àquilo que era maior que a própria vida os incendiava por dentro.

— Aqui, no fim, — murmurou Velian, sentindo a vibração de Nix, senhora da noite, pairando sobre todos — só o desejo e o vazio coexistem, e são eles que nos tornam mais vivos que qualquer mortal.

Cassandra sorriu, e juntos, absorvendo cada ser, cada suspiro, cada presença, permaneceram na dança eterna do Castelo, entregues ao prazer, ao poder e à própria eternidade, até que o vento metálico do limiar sugeriu que novas descobertas os aguardavam, e que a noite jamais terminaria.

O Castelo Drácula tremia. As paredes antigas estalavam como se quisessem expelir séculos de segredos, e as torres pareciam ceder ao peso da própria eternidade. Velian sentiu o chão vibrar sob seus pés, o ar metálico da noite se tornando denso demais, quase líquido, como se o próprio limiar se desfizesse. Fantasmas, ninfas e seres andróginos evaporaram em brumas ondulantes, deixando apenas o eco de suspiros e risadas antigas. O desejo, intenso e febril, continuava a arder dentro dele, mas o Castelo parecia avisá-lo: era hora de retornar.

Em um instante que durou simultaneamente uma eternidade e um sopro, Velian sentiu o mundo girar, e tudo desmoronar ao redor. A última visão do abismo do Castelo se desfez, e ele despertou.

O amanhecer já tocava Fortaleza. Raios de sol pálido atravessavam a cortina do quarto, dourando o ar ainda impregnado do calor da noite. Cassandra dormia ao seu lado, seus cabelos negros espalhados como sombras luxuosas sobre o travesseiro. O perfume dela misturava-se com o aroma do café da manhã não feito e o leve toque do sol nascente. Cada curva de seu corpo era uma promessa silenciosa, cada respiração, uma melodia antiga que atravessava os séculos.

Velian a observou, os olhos absorvendo cada detalhe: a delicadeza da pele, o arrepio dos fios de cabelo, o ritmo perfeito da respiração. Um sorriso lento curvou-lhe os lábios, a ironia e a certeza de si próprios entrelaçadas.

Revisado por Sahra Melihssa
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Espasmos do Silêncio

Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar; elas morrem na garganta antes de se tornarem poesia.

Estou diante de ti, Dama Lacrima. O pintor desconhecido que te prendeu nestas tramas de linho e óleo certamente conhecia o inferno, pois capturou-o com perfeição. Teus cabelos, longos e lisos, escorrem como cascatas de nanquim, emoldurando um rosto de uma palidez cadavérica. As tuas mãos, eternamente erguidas próximas à face, parecem querer esconder o mundo de ti, ou tu do mundo.

Se hoje castigado sou pelo teu descontentamento, que vibra através das camadas de verniz, posso até guardar a culpa. Mas as chaves da tua liberdade são para mim um grande peso que devo suportar. Sinto o ódio irradiar da moldura dourada.

— A tua ira deve ser contida — murmuro para a figura estática, mas viva. — A raça humana não merece perecer. Por mais que um ou outro nos sirvam como bolsas de sangue, aconselho: declina-te desta vingança desenfreada. O mundo ainda tem muito a te servir.

Vejo, então, a alteração na pintura. O óleo parece dissolver-se. Aqueles olhos... aquelas escleras tomadas por um negrume absoluto, sem luz, fitam-me com desprezo. E o que antes era pigmento seco, agora escorre. Tu choras. Não água, nem sangue, mas lágrimas de piche, espessas e negras, maculando a pureza mórbida da tua pele pintada.

— Crês que me fará parar?... Como és tolo, Valentine! — O meu nome soa como blasfêmia nesses teus lábios imortais.

— Lanço o desafio — indago, hipnotizado pelo rastro viscoso que desce pelas tuas bochechas —, até onde estarás disposta a ir com tal empreitada?

— Farei do purgatório a vossa nova morada!

— E depois?

— Como assim, "e depois"?

Aproximo-me da obra, sentindo o cheiro de terebintina misturado a algo podre e antigo. — Quando finalizar o teu intento, sentirás o peso do silêncio. Este mesmo silêncio que, até pouco, tanto me assombrava, não irá parar de te perturbar. Serás torturada pelo resto dos teus dias numa galeria vazia, num mundo morto. Nem mesmo as tuas súplicas serão suficientes para te salvar, pois para destruí-lo terás que destruir a ti mesma, rasgar a própria tela. Então, eu lhe pergunto: até onde estarás disposta a ir?

A imagem trêmula. O piche das tuas lágrimas parece ferver. — O que vês à tua frente, Valentine? — Tua voz agora é um lamento, um gemido de túmulo aberto. — Um retrato sombrio adornado por uma bela moldura arabesca? Um fantasma habitando uma tela em que o tempo ousa não apagar? Ou a representação maior dos teus medos?

Encaro o abismo negro dos teus olhos, duas poças de trevas infinitas. — Teu alarde para destruir-me e destruir o mundo é apenas uma fuga de teus próprios medos — digo, e cada palavra pesa como lápide sobre o cavalete. — Até os demônios mais baixos, minha cara Dama, possuem medos ocultos. E o teu medo é que, sem nós para te observarmos, tu deixes de existir.

O piche escorre mais rápido, mas o silêncio volta a reinar, pesado e insuportável, na sala fria.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Infinito de Melancolia

Era sexta-feira 13. Achei que era apenas superstição este dia ser tão temido, mas aprendi a me arrepender de muitas coisas que vivi, e não ter medo de superstições…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era sexta-feira 13.

Achei que era apenas superstição este dia ser tão temido, mas aprendi a me arrepender de muitas coisas que vivi, e não ter medo de superstições foi uma delas.

Já não sei mais quanto tempo se passou desde que revisito esses momentos. Já decorei tantos rostos quanto os esqueci. Não sei seus nomes, e talvez devesse ter perguntado no dia em que os vi. Mas agora nada disso importa. Nada mais é importante.

Fico me perguntando o sentido disto. Se deveria me arrepender de algo, pedir desculpas a alguém. Mas nada do que faço funciona. Nada do que tento dá certo. Apenas consigo viver à margem daquele dia, como se nada fora do que vivi realmente existisse de verdade.

Todas as vezes. Todos os dias. Sempre iguais. SEMPRE. SEMPRE!

Acordo exatamente às 6h15. Preparo meu café da manhã: o pão, pálido como a luz desta manhã que se repete. Deveria ter escolhido algo melhor, se soubesse que seria meu último dia. Ovos e presunto. Talvez a pizza fria de ontem. Mas não posso mudar essa escolha. Não agora.

Saio de casa atrasado. Pego o casaco, o guarda-chuva, e caminho pelas mesmas ruas cinzas de sempre. O mesmo emprego tedioso em administração. O mesmo chefe a reclamar de atrasos e erros. Tudo já se repetia, mesmo antes.

Parando para lembrar agora... talvez eu já estivesse morto antes mesmo de morrer.

E então, vou para casa. E, após reviver este dia mais uma vez, sempre penso: o mais terrível nem foi morrer, foi ter de trabalhar o dia inteiro antes do fim. Talvez, se tivesse atravessado a rua no sinal vermelho às 7 da manhã, não estaria repetindo tudo. Não me arrependeria de ter morrido antes de começar a trabalhar. Talvez já estivesse renascendo noutro tempo, ou no céu, ou no inferno.

Não sei qual é o verdadeiro destino para quem morre.

Talvez seja isto: reviver as mesmas coisas, sempre. E eu esteja condenado a repetir este dia. Para sempre.

E depois de tudo, finalmente acontece: eu entro no supermercado que fazia as compras, mas dessa vez, na hora errada. O homem de máscara olha para mim e atira, e o tiro silencioso passa em câmera lenta, até me atingir. Eu não sinto a dor, apenas desabo no chão, arrependido, e acordo novamente, no mesmo dia, para reviver tudo de novo.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Albergue

Era frio e úmido. Como bueiro. Como fui chegar ao ponto de conseguir deitar a cabeça sobre as pedras? Como sujeitei-me ao insujeitável?..

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era frio e úmido. Como bueiro. Como fui chegar ao ponto de conseguir deitar a cabeça sobre as pedras? Como sujeitei-me ao insujeitável?

Há muitos à minha volta, tantos que nem sei o nome, nem a conduta de outrora, mas ainda assim me sinto só. Quando o ser humano deixa-se levar por seus instintos, acaba por tornar-se algo inimaginável, incompreensível.

Como vês, eu me tornei tudo aquilo que repudiava. Como somos enganados por nós mesmos. Como nos deixamos enganar!

Aqui, ninguém me vê, só eu mesmo, e não gosto do que vejo, se é que vejo. Não vejo! Minha habilidade de visão foi afetada, e eu, mesmo percebendo o que me ocorria, persisti. Deixei-me conduzir pelo caminho enigmático que separa a razão da emoção. Como ser pulsante e suscetível aos caprichos do destino, tornei-me marionete em suas arbitrárias mãos; não consegui escapar de seus encantos, envolto em seus caprichos e habilidades surreais. Ah, o desconhecido, que sussurra segredos quase sempre incompreensíveis, enlaçando-se em suas garras doces... Sairei incólume deste conflito?

Ali, no cantinho da parede pichada e tomada pelos fungos, está a jovem, grávida; o bebê não sabe quem é seu pai. Num frenesi instantâneo, como a divagar sob o céu que eu mesmo construí, pairo sobre abismos imaginários, mas que agora tornam-se reais, tangíveis. Percebo minha respiração, que de súbito está ofegante. O ar se rarefaz.

— Jovem, por que está aí? Não tem família? — Pergunto-lhe.

— Acho que tenho, mas não lembro mais quem são... Não lembro nem quem eu sou também...

— Me chamavam de Gregor, e você, como se chama?

— E-eu? ... Ah, eu não lembro! — O rosto sujo e desfigurado é banhado por lágrimas sinceras.

Desespero. De súbito, minha respiração me incomoda; os batimentos cardíacos, como solos de bateria, são. Então resolvo interromper o curtíssimo diálogo que comecei. Vou à rua.

Carros. Pessoas. Poluição.

Tudo ali, convivendo harmoniosamente. Só eu que não posso entrar neste círculo simétrico. Permaneço aqui. Imóvel. Um recipiente repleto do mais absoluto vazio. O peso da escuridão esmaga meus ombros; não é fácil carregar o fardo de suas más escolhas.

Os que por mim passam, me repudiam, torcem o nariz, viram as faces. Colocam em prática tudo quanto aprenderam; a sociedade ensina direitinho.

Caminhei por horas — horas? — a noção de tempo me fora arrancada, como um tumor maligno; mas o cirurgião era semelhante ao açougueiro desleixado e deixou-me com as marcas de sua inaptidão... E eu terei que conviver com essa escolha alheia a mim.

Com pesar, continuei caminhando a esmo, remoendo memórias de tempos felizes, ou assim eu acreditava que era. Como pude deixar o trem da minha vida descarrilar e, assim, me transmutar nesse ser horrendo que vos fala? Na verdade, eu não deveria ter abusado daquelas substâncias, bem que me avisaram...

Vejo a fumaça negra que emana pelo ar, saída do escapamento do caminhão, este, tão velho quanto o mundo. Percebo que ele poderá me ser útil, e o será à sociedade também. Neste momento, ele é tudo o que eu mais quero; vê-lo por debaixo é tudo o que desejo. O fio clama por ser rompido; estiquei tanto a corda que é impossível aguentar sua pressão. Jogo-me à sua frente. Só ele conseguiu acabar com essa coisa que chamam de vida, só ele quis ser, finalmente, meu herói.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A Transcendência do Silêncio

O silêncio é um corpo que respira no escuro, | pele de sombra colada à alma da noite. | Ele pulsa como ferida não dita, | como promessa trancada em lábios de ferro…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

I – O Silêncio

O silêncio é um corpo que respira no escuro,
pele de sombra colada à alma da noite.
Ele pulsa como ferida não dita,
como promessa trancada em lábios de ferro.

Há nele o peso de cem catedrais desertas,
onde cada eco é oração abortada.
O desejo se deita nele, invisível,
como fera à espreita no ventre da escuridão.

Nenhuma palavra se atreve a nascer,
mas os olhos gritam em febre clandestina.
Entre duas bocas suspensas,
o ar é um véu que treme, mas não se rompe.

O silêncio é punhal e é véu,
é cruz e é carne.
Não consola, não acolhe,
apenas incendeia o que tenta ocultar.

A respiração é oração contida,
rosário de gemidos que se negam a existir.
Mas o corpo, traidor da alma,
curva-se ao chamado de sua própria vertigem.

Quem toca o silêncio abre portais,
como quem pisa em solo sagrado profanado.
A quietude é apenas disfarce,
máscara da fúria que quer ser revelada.

O instante é prelúdio,
e o prelúdio já é queda.
Não há inocência no mutismo:
há apenas desejo coagulado.

Quando o silêncio enfim se rompe,
não há volta.
O grito é nascimento e sentença,
e quem o pronuncia já não se pertence.


II – O Sangue

O sangue é a língua do êxtase.
Ele escorre como vinho sacrílego,
rubro sagrado que consagra o instante
em que dor e prazer se entrelaçam.

Cada gota é pacto selado,
palavra gravada em carne viva.
É comunhão obscura
onde dois se tornam um abismo único.

A mordida é rito e coroação,
incisiva coroa feita de dentes e vertigem.
Ela não fere: ela liberta,
abre a porta para o gozo sem nome.

O rubro é banquete dos amantes da noite,
melodia de artérias em festa secreta.
Não há saciedade, apenas mais sede,
e cada sorvo é eternidade roubada.

Vampiros sabem: o sangue é oráculo.
Ele canta segredos nas veias,
ele revela a nudez da alma
no instante em que se mistura ao desejo.

Não há corpo sem ferida.
Não há prazer sem cicatriz.
A dor é oferenda,
e o êxtase, sua colheita.

Quando o rubro desce pela língua,
é mais que carne é universo.
O beijo sangrento é sacramento,
e a eternidade se escreve em veias abertas.

O sangue não mente.
Ele é a assinatura do prazer.
Quem o prova jamais retorna,
pois já pertence ao abismo.


III – A Luxúria

O corpo é templo profanado.
Cada curva, altar; cada sombra, labirinto.
A luxúria dança em sua nave,
chama que devora, mas não se extingue.

O prazer nasce na ruína.
Gemidos quebram muros internos,
suor é chuva que batiza o pecado,
e a carne se faz escritura viva.

O desejo não pede, exige.
Ele ordena como tirano amado,
e o súdito, em delírio,
oferece a própria ruína como trono.

Cada toque é incêndio.
Cada suspiro, queda.
Não há ternura:
há apenas a fome dos que sabem da morte.

O gozo não consola,
ele fere, ele abre, ele consome.
Mas a ferida é cântico,
e o cântico é mais doce que salvação.

A luxúria é caminho sem volta.
Um labirinto sem saída,
onde quem entra nunca retorna
pois aprende a amar a própria perdição.

O corpo não é cárcere:
é catedral em ruínas
onde anjos caídos ainda rezam
em idioma de gemidos.

Luxúria é divindade noturna.
Não julga, não absolve.
Apenas recebe como altar insaciável
todas as oferendas da carne ardente.


IV – A Transcendência

Após o gozo, não há descanso.
Há queda mais funda.
Há voo invertido
de quem toca o inferno para ver o divino.

O êxtase é um dos Deuses sem rosto,
que exige adoração em lágrimas.
Não é amor, não é pecado:
é a fusão febril dos dois.

O coração, crucificado,
pulsa como altar em chamas.
Cada batida é prece e maldição,
cada suspiro, ascensão pelo abismo.

Não há céu depois da vertigem,
apenas outro mergulho.
O prazer é espiral infinita,
onde cada fim já anuncia novo começo.
Quem goza morre.
Quem morre renasce no desejo.
Esta é a lei secreta:
morrer sempre mais para viver sempre mais.

A transcendência não é luz.
É treva que acolhe como mãe,
é sombra que alimenta,
é eternidade que se confunde com delírio.

O corpo exausto despenca,
mas a alma desperta em febre.
Descobre que o abismo é também escada,
que a vertigem é também voo.

O êxtase não se esgota.
Ele recomeça em cada olhar,
em cada silêncio, em cada gota de sangue.
O eterno é isto: morrer e renascer no desejo em silêncio.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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LXXXIII

Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas | Pretensiosos corações abnóxios, | inerte a razão ante a escuridão | Em habitação tão inócua de tua mente…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas
Pretensiosos corações abnóxios,
inerte a razão ante a escuridão
Em habitação tão inócua de tua mente

Abjura sua íntima intenção, — Secretos e carnais anseios
Abrasamento inquietante das emoções
travessa criatura da noite

No interior de seu ergástulo, —Desnude sua alma ante a alva
O febril estado, os lábios trêmulos e a palpitação
Embriagando-se de ambrosia, — Da paixão com afronésia
o toque frio de imortal amor

Por filáucia mortal, — Transbordam palavras de cântaros de malícia
Fascina os ouvidos imprudentes,
Oh, estes alucinam avidamente o toque
Crônica de amores, — Refugio na noite magenta
Lucífugos corações relatam em seiva umbrífera
Revelações intricadas em folha tão pura,
nela a verdadeira anamnese do fim.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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LXXXII

O silêncio, a angústia, assim como o inaperto | em jornada abstrusa | pela dissoluta existência. | Aqui entre a absolvição e a condenação…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

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O silêncio, a angústia, assim como o inaperto
em jornada abstrusa
pela dissoluta existência.
Aqui entre a absolvição e a condenação

Gotas para aluir a alma
aturdir toda sanidade
O ensejo ao caos interior

Ramos secos de inocência, — O luar lânguido no firmamento
Uma frincha para espíritos livres,
para campos de flores de quimeras.
Os jardins perdidos de seu interior

Astros celestes absortos no infinito, — Crianças da noite
embebidas em tantos pensamentos
Ah, a matiz negra, —Revoltoso mar de seu interior.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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VI

Preces silenciosas | Perigosos pensamentos | Um sonho perturbador | Amarga ilusão | Padecer de sua ausência | atribulações para alma…

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Preces silenciosas
Perigosos pensamentos
Um sonho perturbador
Amarga ilusão

Padecer de sua ausência
atribulações para alma
O flagelo para o amante

O vazio celebra sua dor
Ode para o coração ferido
Abnegada existência
Composição para efêmera existência.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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XLI

Os desígnios da alma | esta que sofre com sua ingênua natureza | A inocência corrompida | na vil mortalidade…

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Os desígnios da alma
esta que sofre com sua ingênua natureza
A inocência corrompida
na vil mortalidade

A intenção para ir além do cativeiro
num desejo não natural
De ir numa jornada para liberdade

Os complexos pensamentos
do que é corpóreo
traz a clareza em meio a loucura
Num mar sem tranquilidade.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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Caveira

Esta nossa matéria é embebida | de muito narcisismo e vaidade... | Nada dela se nos dispõe à vida: | só há cansaço além de enfermidade…

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Esta nossa matéria é embebida
de muito narcisismo e vaidade...
Nada dela se nos dispõe à vida:
só há cansaço além de enfermidade.

Abre qualquer jazigo e vê se o peito
de algum poeta morto arqueja agora...
Repara, amigo, aí de que sou feito:
de carne podre que o verme devora.

Contudo, embora seja decadente,
esta carne há de ser regenerada
noutro modo de vida permanente.

Contra toda vaidade enraizada
em mim, sigo a lutar a esta maneira:
trazendo ante os meus olhos a caveira,
só para me lembrar de que sou nada.


Escrito por:
Thiago Amorim

Thiago Amorim terá seu primeiro livro, Scintilla Poetica, publicado pela Editora Telha em breve. Formado em Letras, o autor busca sua inspiração nos clássicos, tais: Camões, Florbela, Álvares de Azevedo entre outros. Sua escrita é clássica e o que mais o atrai na Literatura Gótica é "a morte como tema de reflexão sobre a condição humana". Além da literatura, o autor é multiartístico, é professor de dança e realiza oficinas e workshops. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Furta-cor

Nem um arco-íris faz | colorir dias gris | que tem por pretensão encantar, | mas, ao fim, | Só se faz desperdiçar…

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Nem um arco-íris faz
colorir dias gris
que tem por pretensão
encantar,
mas, ao fim,
Só se faz desperdiçar.

Porque a alegria é
interpretável
e hoje sou antagonista
na minha própria peça,
esta,
sem enredo inteligível,
sem nexo.

Só para disfarçar
as marcas n’alma,
negras ou carmesins,
brandas ou espessas,
que compõem todas
as emoções que,
de alguma forma,
preciso, quero,
insisto
em olvidar.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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O Regresso ao Bastidor

No palco etéreo da sala escura, | ergue-se a vida vestida de fantasia, | com gestos vãos, em atitude impura, | finge um riso e esconde a melancolia…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No palco etéreo da sala escura,
ergue-se a vida vestida de fantasia,
com gestos vãos, em atitude impura,
finge um riso e esconde a melancolia.

Nos bastidores se guardam segredos
de atores tristes sob uma luz velada,
e a cada ato, seus sonhos e medos
compõem uma trama jamais ensaiada.

Vestido de sombras, o destino escreve
com uma pena feita de silêncio e dor.
Quem tenta brilhar, muito em breve
prova do escárnio deste diretor.

A juventude, um prólogo febril,
tão breve quanto uma pequena cena.
No segundo ato, em um tom mais sutil,
a alma dança em uma veste pequena.

Momentos de amor, de glória e perdição,
coadjuvantes de um roteiro inacabado.
E o público, a própria solidão,
aplaude em prantos o ator já cansado.

Mas eis que surge, em névoa sutil,
a morte, trajada em linho e com olhar sereno,
murmurando ao vento: “Teu papel é pueril,
vem repousar no meu abraço ameno.”

Ela não exige nada, nem mesmo o enredo,
apenas tira o figurino já gasto,
apaga as luzes, extingue os segredos
e sela os lábios com seu beijo casto.

E então, no fim, sem som e sem cortina,
a peça termina num silêncio denso.
O palco, outrora tão vivo, declina,
e só o pó herda aquele espaço imenso.

Mas foi bela, ainda assim, a peça,
mesma envolta em dores tão sutis.
Pois só quem vive a dor que a vida tece
sabe o sabor de ter estado aqui.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Divina Presa

No ventre palestino o prometido, um dia, | Nasceu de uma virgem, sob luz de profecia. | Filho de Josué, do Espírito gerado, | Foi pelo rei temido, em berço arado…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No ventre palestino o prometido, um dia,
Nasceu de uma virgem, sob luz de profecia.
Filho de Josué, do Espírito gerado,
Foi pelo rei temido, em berço arado.

Como cordeiro em sangue, seu destino selado,
Ressurge em terra árabe, em chão desolado.
Mas a fome o ceifa, antes do primeiro ano,
E o anjo pacificador parte em vão, humano.

Terceira vez renasce em solo devastado,
Mas explosivos rasgam seu frágil passado.
E quando enfim retorna, abre os olhos feridos:
Fuzis brancos e azuis: seus únicos vestidos.

Perece o Cordeiro em guerra, fome e espanto,
Mas sua carne é pó, é luta, é grito e canto.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Leonardo Garbossa

Leonardo Garbossa nasceu em São Paulo, em 1995. Desde jovem é um leitor apaixonado e grande fã das obras romancistas. Sentimentalista por natureza, iniciou sua vida acadêmica na área das ciências exatas, migrando em seguida para psicologia, que estuda atualmente. Teve a infância conturbada após perder o pai para o suicídio, tema que se tornou seu foco nos estudos acadêmicos. Foi criado pela avó, que fez o máximo possível para ensinar a ele a importância da excelência nos estudos e na cultura. ... » leia mais
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A chegada - Homenagem a Ozzy Osbourne

Quando Ozzy desceu ao abismo profundo, | recusou pactos com o barqueiro sombrio. | Seu óbolo entre as joias do príncipe eterno, | e as cordas vocais que evocam poder e frio…

Imagem da Web, editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Quando Ozzy desceu ao abismo profundo,
recusou pactos com o barqueiro sombrio.
Seu óbolo entre as joias do príncipe eterno,
e as cordas vocais que evocam poder e frio
dos portões das trevas em pira erguidos,
tocando o limbo em ecos perdidos.

— O príncipe enfim retornou ao lar!
Ele sorriu, Crowley abraçando.
— Contempla, filho, sem hesitar,
a dança das almas que vão girando
em volúpia, êxtase e risos loucos,
celebrando tua volta por estes pocos.

Vens de um mundo que em brevidade
será destruído pela ignorância humana.
Quando lá estive, em minha jornada,
deixei segredos na trama profana—
mistérios ocultos jamais revelados,
códigos sombrios ainda guardados.

Rauzito aqui te aguarda ansioso,
breve governarás estes domínios
com ritmo ácido e som poderoso.
Tens em Raul, entre os gênios,
teu companheiro mais soturno,
parceiro neste reino noturno.

O céu observa com soberba vã,
mais alegre é nosso solo sombrio,
pois aqui cada estrela se dana
em dança eterna, sem desvio.
Feita a passagem derradeira,
teu corpo renasce em nova forma.

"Em espírito o vejo". Louco,
sonhador, deus do heavy metal,
herdeiro das sombras, da dor
e também do amor profundo.
Suas extravagâncias prosseguem
onde as trevas governam o mundo.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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8 - Quando a ciência se cala, Deus fala

Estás aí, ó grande Rei dos reis, | entre as paredes deste castelo sepulcral? | Tua infinita sabedoria, ó Cientista do Universo, | penetra as muralhas…

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Diário de Sibila von Lichenstein
10 de outubro de 1870.

Estás aí, ó grande Rei dos reis,
entre as paredes deste castelo sepulcral?
Tua infinita sabedoria, ó Cientista do Universo,
penetra as muralhas mágicas onde hoje habito?
És santo e sagrado o bastante para isso?
Pois se és, ó Senhor da infinita misericórdia,
eu rogo, eu imploro, pelo teu poderoso perdão.

Tuas pobres ovelhas, fui eu quem atraiu.
Com voz doce, chamei-as ao altar do carrasco.
Prometi salário, dei-lhes sepulcro.
Vendi minha alma por promessas de um homem
que se dizia mestre — e era coveiro.
Desejava ser médica, divina entre os mortais...
e tornei-me discípula do profano.

O hematoma em meu pescoço,
limo do pacto pecaminoso sob minh’alma.
Uma vida ilibada eu manchei,
concordando com suas equações pecaminosas
em monstro eu me transfigurei.
Tu me julgas digna de tua vingança — ou perdão?
Ou serei pó amaldiçoado à margem de tua criação?

Privada de meu pai, em nosso casebre o demônio me encontrou,
um mestre-deus da ciência que, em troca da minha decência,
sob o facho do arco voltaico da medicina — me exibiu.
Todos admiravam nossa inteligência: o mestre e sua pupila devota.
Tu me alçaste aos livros, me pagaste e me acolheste.
Entre as paredes da universidade: tua pupila aplicada.
Entre os lençóis de teu quarto: o velho amante aceito em silêncio.

A morte de Eleanor foi tua segunda máscara que caiu,
e em silêncio te entreguei a minha amiga mais cara.
Além de barregã, agora eu também era assassina.
Depois dela, outras seguiram para o vale da sombra da morte...
Quem dera eu ter essa sorte, pois minha vida tu já tomara...
Zombavas da morte, ser o mestre-deus da ciência não te bastava!
Teu saber te enlouqueceu — e tu quiseste o trono d’Ele.

Liberta-me, ó Deus, da cela onde eu mesma me enclausurei.
Perdoa-me se ouso proferir Teu nome,
pois arrasto o pesado cajado da morte em minha confissão.
Prostro-me, temerosa, diante de Tua justa punição,
mas anseio, por meio dela, o meu sagrado perdão...
Por favor, por favor... se Teus divinos olhos este castelo alcançam,
venha salvar a Tua mais humilde serva da escuridão

Rogo do negro e profundo umbral, ergo o olhar além do véu.
Tudo aquilo que a ciência sequer alcançou...
isso tudo repousa sob o eterno toque de Deus.
Tu és alfa, e tu és ômega.
Em mim a mácula reside, no Teu abraço a remissão.
Eu ignoro o meio de como me perdoar,
mas em Teus olhos brilha a luz da salvação.

As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Desintegração

Os ossos doem, | Gélidos. | O último abraço | Arrancou-me a pele. | A carne, | Outrora viva, | Longe do corpo | Apodrece…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Os ossos doem,
Gélidos.
O último abraço
Arrancou-me a pele.

A carne,
Outrora viva,
Longe do corpo
Apodrece.

Não foram as lágrimas
Que me martirizaram,
Tampouco a solidão,
Amiga inseparável.

O vazio que há em mim
Me devora,
Consome minha alma,
E a tristeza transborda.

A dor do corpo,
Do espírito,
O nada...
A melancolia tormenta,
Mas também me embala.


Escrito por:
Ana Kelly

Ana Kelly, natural de São Paulo (SP), é poeta, escritora, contista e artesã, sócia-proprietária da loja de acessórios e artigos alternativos, Ivory Fairy. Tem poemas e contos publicados como co-autora em diferentes antologias. No ano de 2009 recebeu o prêmio de 1º lugar, em um concurso de poesias do tema “Natureza”, do Projeto Chance... » leia mais
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7 - Um rastro de luz vívida atravessa a morte

Após revirar o laboratório de Viktor, ainda restava toda a casa a ser vasculhada. Minha mente era um mar revolto; preocupado com ela, eu tentava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Após revirar o laboratório de Viktor, ainda restava toda a casa a ser vasculhada. Minha mente era um mar revolto; preocupado com ela, eu tentava relacionar as pistas que encontrara no laboratório. Aqueles frascos com nomes de mulheres vazios, o aroma forte de éter, o caderninho repulsivo de Viktor… Havia algo ali que eu ainda não conseguira decifrar. Era como colar os cacos de um vaso que, mesmo restaurado, jamais voltaria a ser inteiro.

Decidi subir as escadas para continuar a procurar por pistas que me levassem até ela. Mesmo que o vaso nunca mais pudesse ser o mesmo, eu precisava reconstruí-lo. Eu nunca encontraria a paz caso não o fizesse. Talvez, antes de morrer, Viktor a tivesse matado e escondido o corpo. Há coisas desagradáveis pelas quais temos que passar, que nos forjam; então, se eu tivesse que descobrir que ela estava morta, assim seria. Mas, antes disso, eu tinha de ver o corpo e tocá-lo. Sim, eu não poderia morrer sem saber que toquei sua pele, ainda que gélida, ao menos uma vez. Então optei por investigar no quarto dele, que não fora mais aberto desde a noite em que removeram o cadáver do casarão.

Girei a maçaneta lentamente, com hesitação. A figura de Viktor gritando comigo com os olhos arregalados de pavor e asco, ordenando que eu fosse embora com palavras afiadas como um facão amolado, na noite em que me criou, ainda oprimia meu coração. Apesar de, após o meu nascimento, eu sequer ter entendido o que estava acontecendo, há gestos que não precisam ser ouvidos para serem compreendidos; eles cortam fundo e permanecem esculpidos nas retinas da memória. Mas eu não podia recuar. Ao abrir a porta, meu coração parou, talvez porque eu não soube que reação ter.

O quarto estava pouco iluminado, pois as pesadas cortinas de veludo vinho permaneciam quase totalmente cerradas, permitindo que apenas um fiapo de luz solar atravessasse o tecido espesso. Um cheiro metálico e de carniça ascendeu com o movimento da porta. Era quase o mesmo odor que senti ao resgatar o saco que Sibila jogara no rio Spree. Era o perfume horrível da morte, de carne putrefata, de sangue envelhecido. Desta vez, porém, ele estava seco.

Mirei a cama. Os lençóis, fronhas, travesseiros e toda a parafernália sem a qual os humanos não conseguem dormir não haviam sido trocados desde a morte dele. Como novo proprietário do casarão e de toda a fortuna que Viktor deixara, não permiti que nada fosse tocado ou limpo antes de uma análise minuciosa feita por mim. E logo a hesitação foi substituída pela certeza: Viktor estava realmente morto, e alguém o matara. A cama estava empapada, com uma grande mancha marrom sobre ela e muitos respingos ao redor. Era uma cena dantesca. Não consigo imaginar como a polícia escondeu isso dos jornais. Como suposto filho bastardo, claro, eu soubera que a morte dele não fora por causas naturais, mas me importava tão pouco com sua vida que sequer havia parado para pensar nisso. E Sibila? Por que a polícia não a colocou no rol de suspeitos? Será que ninguém sabia?

Retirei o lenço do meu bolso para poder respirar com mais conforto, apesar do cheiro forte de carniça. Abri as cortinas e as janelas, permitindo que a luz do sol entrasse e se apossasse do quarto. Achei que aquele quarto, tão tomado pela morte, merecia que um pouco de calor e vida o invadisse. Por mais que eu mesmo não me considerasse vivo — nunca fui. Fui feito de morte, de partes de diferentes cadáveres… Um experimento que Viktor, antes de completá-lo, julgava que iria criar um ser perfeito, melhor do que a própria raça humana. Quando ele me viu pela primeira vez, apenas se horrorizou com a minha aparência; Frankenstein nunca quis olhar para me conhecer verdadeiramente. E… nós tememos aquilo que não conhecemos.

Mas na noite da minha criação, ao invés de respeito, admiração e curiosidade pela própria obra, Viktor me concedeu unicamente o seu desprezo, provando que a única coisa que importava a ele era o seu próprio ego. A partir do momento em que eu — vamos ilustrar assim — saí de dentro de sua mente e passei a fazer parte do mundo real, ele passou a me ignorar. O afã, a paixão que existira, era por suas ideias; nunca fora por mim, por ninguém.

Então pude ver com mais clareza. Através dos fachos de luz, muitas partículas de poeira podiam ser vistas, iluminadas e dançando pelo ar, alheias ao que ali se passava ou se passara no quarto, feito retalhos de almas perdidas pelo espaço-tempo. A visão delas sempre me acalmara — exceto naquele dia. Porque, naquele instante, tive a certeza: a pequena chance de mudar minha aparência horrenda morrera com ele — o único homem com conhecimento suficiente para fazer isso.

Meu criador e meu algoz. Como suportar essa verdade inconveniente? Senti o rosto aquecer, rubro de ódio. Éramos semelhantes — quiçá iguais? Talvez eu fosse apenas um fruto que não caíra longe do pé. Cegado por minha própria condição, não pus fim à moléstia que representávamos ao mundo. Estava condenado a viver eternamente só e recluso. Pior ainda: sem ela para amar. E amar… amar? Que presunção a minha. Quem eu penso que sou para almejar tal coisa? Um ser composto por cadáveres, com olhos amarelados, como se estivesse doente, moribundo... Mas alguma coisa em mim recusava-se a perecer, e esse algo era Sibila. Se me aproximo de qualquer ser, assim que sou visto, noto a repulsa. Por que com ela seria diferente? Mas algo dentro de mim recusa isso. Não posso ceder. Tenho de encontrá-la. Tenho de colocar à prova o que minha intuição me diz: que ela é diferente. Que ela é inocente. Que ela está viva!

Encorajado pelos últimos pensamentos, decido explorar cada centímetro daquele quarto. Aos poucos, começo a limpá-lo — não por piedade a Viktor, mas por proteção a ela. Se alguém tivesse que tocar naquele espaço, que fosse eu. Não uma faxineira curiosa e fofoqueira. Tudo o que vi até agora me leva a crer que quase ninguém sabia que Sibila morava aqui. E quem sabia… se calou.

O quarto tinha paredes meio verde-musgo, a metade de cima forrada com painéis de madeira entalhados, com flores enormes e estilizadas. Na parede de trás da cama, havia um brasão da família Frankenstein. Ele era subdividido em quatro partes, ornado com capacetes de guerreiro prata, trevos de três folhas vermelhos. Ao centro, um escudo de coração dourado; nele, um machado de batalha vermelho oblíquo em ouro. A cama de dossel era de carvalho escuro, ricamente entalhada. A cabeceira mostrava a cena de um caçador esticando o próprio arco, à espreita de um cervo. Nada me surpreendia. O que eu mirava era a expressão de um homem ensimesmado, profundamente ordeiro e devotado ao método, exceto pelos lençóis revoltos na cama.

Decido começar a explorar pela Nachttisch. Ao fitá-la, vislumbro o manto que Sibila usava em meu sonho. Estava dobrado sobre ela exatamente como ela o dobrara, antes de sentar-se ao meu lado à beira do precipício onírico. Estendo a mão, toco o tecido e o levo ao rosto. Ele ainda guarda seu perfume, aquele perfume humilde. Mas há respingos de sangue nele — isso me leva a crer que ela esteve aqui e, mais: esteve envolvida com a morte dele. E o mais intrigante de tudo: como era possível eu ter sonhado com um manto idêntico ao que segurava agora em minhas mãos? Isso significa alguma coisa. Significa que, de alguma forma, nós realmente nos cruzamos em alguma realidade existente além deste mundo, dos meros sonhos.

Empolgado, abro a pequena gaveta da mesinha de cabeceira e encontro uma pasta de um couro tão puído quanto o caderno de Viktor, as páginas com os cantos meio sujos e desgastados — decerto de tanto ele as manusear. Naturalmente, ele havia feito muitos estudos sobre tuberculose, a doença que matou sua esposa. Depois dos estudos sobre a doença, havia outros sobre como o cérebro humano se comportava durante o sono… Eram assuntos tão divergentes que eu não consegui desvendar a ligação entre eles. Algumas continham símbolos arcanos ao lado de estudos de uma linguagem desconhecida por mim: traduções do que Viktor chamava de língua Séttimoriana. Séttimor deve ser algum local, então.

Uma tradução, em especial, prendeu minha atenção. Era a descrição de um ritual destinado à transposição de almas entre planos — algo que, segundo o texto, só poderia ser feito através da abertura de fendas dimensionais induzidas em estados de coma profundo ou durante sonhos lúcidos. O processo exigia que o corpo estivesse completamente inconsciente e envolvia um pagamento em sangue, retirado da alma-alvo. À margem, Viktor deixara um comentário enigmático, quase como se falasse consigo mesmo:

“25 de junho de 1869 — Após o procedimento ‘1E’ não ter surtido o efeito desejado, tenho sido atormentado pela alma dela, que se tornou vingativa. Essa é a única explicação que tenho encontrado para os acontecimentos paranormais que vêm ocorrendo. Para os próximos testes, precisarei encontrar um meio de me precaver quanto a isso. Nenhum sinal de Elizabeth, nem em sonho. P.S.: desconfio de que não apenas um corpo saudável seja necessário; pareceu-me necessário algum tipo de compatibilidade. Só preciso descobrir qual.”

Se ele tentava abrir portais entre mundos durante o sono, talvez isso explicasse meus sonhos estranhamente vívidos com Sibila. Estava claro que ele havia testado o ritual em uma de suas vítimas; e, após a morte, ela o deixou com medo. Finalmente eu estava começando a colar os cacos do vaso, isso me fazia entrar em um estado de exaltação tal, que eu sentia o líquido vital correr com força e vigor pelas minhas veias. Apanhei o manto de Sibila, com seus motivos orientais. Ela parecia ter especial apreço por ele. Pretendia devolvê-lo a ela... Senti que estava começando a desvendar o mistério de seu desaparecimento. Voltei ao papel. O que seria essa “compatibilidade” mencionada? Uma condição física? Psicológica?

Senti que as respostas não estavam ali, mas em outro lugar. Havia mais peças desse quebra-cabeça nas profundezas ocultas do casarão — e eu sabia onde procurar. Desci de volta ao laboratório. O odor acre de álcool e ferro me envolveu enquanto me aproximava dos frascos vazios. Comecei a manipulá-los com cuidado. Só então percebi: além dos rótulos com nomes de diferentes mulheres, havia inscrições nas tampas. Em um deles, escrito na caligrafia de Viktor: 1E (Vazio). Mas… se o 1E estava vazio e os outros também, por que apenas esse frasco tinha essa anotação na tampa? Recoloquei o frasco de Eleanor no lugar. Minhas mãos suavam — eu estava curioso, e agora, com medo também. Ao contrário de Viktor, eu nunca fora cético. E ao que parece, ele deixara de ser nos últimos meses.

E se, de repente, Eleanor também viesse me assombrar?

Para evitar problemas, devolvi o frasco à prateleira. Mas, tomado pelo desejo de rever Sibila — e também por uma curiosidade mórbida — peguei o último frasco, o que trazia a etiqueta “Ava”. Na tampa lia-se: 30A. Ao aproximá-lo do meu rosto, levei um susto e quase o derrubei: um rosto ruivo, em agonia, apareceu lá dentro. Larguei o frasco de volta no lugar, ofegante. Seria verdade aquilo? Será que aquele rosto me viu?

As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.

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Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
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