Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era frio e úmido. Como bueiro. Como fui chegar ao ponto de conseguir deitar a cabeça sobre as pedras? Como sujeitei-me ao insujeitável?

Há muitos à minha volta, tantos que nem sei o nome, nem a conduta de outrora, mas ainda assim me sinto só. Quando o ser humano deixa-se levar por seus instintos, acaba por tornar-se algo inimaginável, incompreensível.

Como vês, eu me tornei tudo aquilo que repudiava. Como somos enganados por nós mesmos. Como nos deixamos enganar!

Aqui, ninguém me vê, só eu mesmo, e não gosto do que vejo, se é que vejo. Não vejo! Minha habilidade de visão foi afetada, e eu, mesmo percebendo o que me ocorria, persisti. Deixei-me conduzir pelo caminho enigmático que separa a razão da emoção. Como ser pulsante e suscetível aos caprichos do destino, tornei-me marionete em suas arbitrárias mãos; não consegui escapar de seus encantos, envolto em seus caprichos e habilidades surreais. Ah, o desconhecido, que sussurra segredos quase sempre incompreensíveis, enlaçando-se em suas garras doces... Sairei incólume deste conflito?

Ali, no cantinho da parede pichada e tomada pelos fungos, está a jovem, grávida; o bebê não sabe quem é seu pai. Num frenesi instantâneo, como a divagar sob o céu que eu mesmo construí, pairo sobre abismos imaginários, mas que agora tornam-se reais, tangíveis. Percebo minha respiração, que de súbito está ofegante. O ar se rarefaz.

— Jovem, por que está aí? Não tem família? — Pergunto-lhe.

— Acho que tenho, mas não lembro mais quem são... Não lembro nem quem eu sou também...

— Me chamavam de Gregor, e você, como se chama?

— E-eu? ... Ah, eu não lembro! — O rosto sujo e desfigurado é banhado por lágrimas sinceras.

Desespero. De súbito, minha respiração me incomoda; os batimentos cardíacos, como solos de bateria, são. Então resolvo interromper o curtíssimo diálogo que comecei. Vou à rua.

Carros. Pessoas. Poluição.

Tudo ali, convivendo harmoniosamente. Só eu que não posso entrar neste círculo simétrico. Permaneço aqui. Imóvel. Um recipiente repleto do mais absoluto vazio. O peso da escuridão esmaga meus ombros; não é fácil carregar o fardo de suas más escolhas.

Os que por mim passam, me repudiam, torcem o nariz, viram as faces. Colocam em prática tudo quanto aprenderam; a sociedade ensina direitinho.

Caminhei por horas — horas? — a noção de tempo me fora arrancada, como um tumor maligno; mas o cirurgião era semelhante ao açougueiro desleixado e deixou-me com as marcas de sua inaptidão... E eu terei que conviver com essa escolha alheia a mim.

Com pesar, continuei caminhando a esmo, remoendo memórias de tempos felizes, ou assim eu acreditava que era. Como pude deixar o trem da minha vida descarrilar e, assim, me transmutar nesse ser horrendo que vos fala? Na verdade, eu não deveria ter abusado daquelas substâncias, bem que me avisaram...

Vejo a fumaça negra que emana pelo ar, saída do escapamento do caminhão, este, tão velho quanto o mundo. Percebo que ele poderá me ser útil, e o será à sociedade também. Neste momento, ele é tudo o que eu mais quero; vê-lo por debaixo é tudo o que desejo. O fio clama por ser rompido; estiquei tanto a corda que é impossível aguentar sua pressão. Jogo-me à sua frente. Só ele conseguiu acabar com essa coisa que chamam de vida, só ele quis ser, finalmente, meu herói.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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