Coelhinha
Havia já alguns dias que ele tinha apresentado os primeiros sinais de recuperação. Num primeiro momento, apenas um leve tremor nos dedos da mão esquerda…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O maior feito de Jesus não foi ressuscitar os mortos, mas a capacidade de ressuscitar os vivos.”
— Padre Fábio de Melo
Havia já alguns dias que ele tinha apresentado os primeiros sinais de recuperação. Num primeiro momento, apenas um leve tremor nos dedos da mão esquerda, depois um longo suspiro, o que causou certo alvoroço dentre os médicos que o acompanhavam. Na segunda semana já havia sido desentubado e começava a se alimentar com comida sólida. E depois de um mês de muita fisioterapia já conseguia ir ao banheiro com suas próprias pernas, mas ainda estava na UTI. Sentia que estava se recuperando bem, mas o que lhe causava certo desconforto era o fato de, mesmo após ter saído do coma, ainda não ter sido visitado pela sua família nem uma única vez. Apenas sua irmã mais nova, vez por outra, colocava a face pela vidraça da sala e lhe acenava de forma bastante afetuosa.
Naquela tarde, dois meses após ter acordado de um coma profundo, sua médica plantonista, Doutora Aline, lhe comunicara que, na manhã seguinte, após uma bateria de exames, dependendo do resultado, ele poderia ser transferido para um quarto comum, e assim poderia receber visitas. Ele ficou bastante eufórico com a notícia. As horas passaram se arrastando naquela noite; mesmo depois de um longo tempo, que mais pareceu uma eternidade, logo as primeiras luzes do dia começaram a iluminar o quarto onde estava, e enfim a manhã chegou. Seus exames atestavam-no para uma progressão para outra ala e, se tudo corresse bem, naquela mesma semana talvez ele até recebesse alta. Assim que foi levado para o quarto, sua irmã o aguardava ansiosa. De alguma forma parecia que ela estava bastante estranha, parecendo mais velha e um pouco mais magra. Fato que ele de forma alguma quisera comentar.
— Bom dia, maninho querido. Como está se sentindo? Que baita susto você nos deu? — disse ela de forma bastante calorosa, mas com certo tremor na voz, como se houvesse algo de errado.
— Bom dia, Marianne! Estou me sentindo um novo homem. Por falar em nós... Onde está todo mundo? Por que Denise não veio me ver todo esse tempo? Onde estão as meninas? Minha mãe está doente? Parece que ninguém tem mais nenhuma consideração por mim.
A médica que o estava acompanhando até o quarto solicitou que, naquele momento, ele descansasse, e que depois tudo lhe seria devidamente esclarecido. Daniel não era o tipo de pessoa dotada de muita paciência e logo quis saber do que se tratava. O porquê de sua família não estar ali visitando-o? Afinal, ele tinha acabado de sair do coma. Apesar de nem ele mesmo se lembrar do motivo de estar internado naquele hospital, muito menos em estado de coma. Doutora Aline, com muita paciência, disse que era melhor que sua irmã, que o havia acompanhado durante todo aquele tempo, lhe deixasse a par de toda a situação.
Assim que Daniel foi devidamente acomodado, sua médica recomendou cautela quanto ao excesso de emoções, mas também disse que já era hora de lhe contar toda a verdade. Disse que retornaria à tarde para verificar sua evolução, mas que por hora o deixaria aos cuidados da irmã. Saiu e fechou a porta do quarto atrás de si, deixando os dois irmãos a sós no quarto. Marianne, quando viu a ansiedade estampada na face do irmão, não conseguiu manter o controle sobre si mesma e logo sua face estava banhada em lágrimas. Daniel de alguma forma compreendeu o que aquelas lágrimas diziam. Com o senso de irmão mais velho que nunca perdera, mesmo com o passar dos anos, abriu os braços e chamou a irmã para junto de si.
Marianne ainda chorou por um longo tempo. Parecia que havia uma enorme carga de tristeza e sofrimento sobre seus ombros. O tipo de pesar que alguém segura o quanto pode, mas quando começa a descarregar parece que não acaba mais. Assim que ela conseguiu recuperar o controle de suas emoções, pediu-lhe que ele permitisse que ela fosse até o banheiro lavar o seu rosto. Após se refazer, ela puxou uma cadeira que estava próxima e, ao sentar-se ao seu lado, rogou-lhe que ele contasse o que se lembrava de antes do acidente.
— Que acidente? — perguntou ele.
Nesse momento percebeu que era mais sério do que ela podia imaginar. E decidiu que deveria contar tudo de uma única vez. Se ele conseguiu sobreviver a um acidente onde mais de 40% dos ossos de seu corpo haviam se esfacelado, certamente ouvir a triste verdade sobre sua nova vida não poderia matá-lo. Afinal, até mesmo sua própria médica havia lhe dado carta branca. Sem mais delongas, Marianne disse-lhe que narraria tudo que era necessário para lhe pôr a par de sua situação, mas que ele deveria lhe prometer que não a interromperia até que ela terminasse de contar tudo o que ocorrera. Assim que ele concordou, ela principiou.
— ...Era feriado de Semana Santa, e como acontecia todos os anos, desde que se casara você sempre viajava para a casa dos pais de sua esposa a fim de passar a Páscoa com a família dela. Você justificava para mamãe que, uma vez que nós, como cristãos, tínhamos o Natal como um dia muito especial e que sempre passávamos juntos. Sendo assim, a família de sua esposa, como era de origem judia, a Páscoa era de suma importância para eles também. Por isso, para manter uma política de paz em seu lar, vocês todos sempre viajavam para a casa deles nessa época do ano. Acontece que naquela fatídica tarde de quinta-feira — véspera de Sexta-feira da Paixão — ninguém esperava que um motorista completamente embriagado estaria testando os limites de velocidade de sua nova pick-up para demonstrar para sua amante — uma bela jovem, ainda na flor da idade, que tinha idade para ser sua neta, a quem ele chamava de doce coelhinha, segundo a mãe dela em testemunho à polícia — o quanto ele tinha a capacidade de desafiar a morte em todos os sentidos possíveis.
Em certa altura da estrada, seu carro se chocara de frente com a pick-up desse inconsequente sujeito, que naquele momento dirigia na contramão a mais de 200 km/h, segundo a perícia. Pedaços do corpo da jovem, que estava com ele na pick-up sem usar o cinto de segurança, foram retirados daquilo que sobrou do seu carro e de um longo trajeto da estrada; o enterro dela teve que ser com caixão lacrado, para desespero de sua mãe. Denise e as crianças tiveram morte instantânea, sem sofrimento algum, segundo os peritos. De forma milagrosa, na hora da batida, você também estava sem cinto e, tal como a jovem “coelhinha”, também fora lançado para fora do carro, mas passando por cima da pick-up e caindo numa plantação de milho ao lado da estrada. O impacto quebrara grande parte dos ossos de seu corpo, mas de uma forma inexplicável você conseguira sobreviver.
Quando o socorro chegou, o homem que dirigia a pick-up já havia se evadido do local sem prestar nenhum tipo de socorro. Ele mesmo, que fora o grande causador daquela inexplicável tragédia, não tivera nenhum ferimento grave, apenas alguns leves arranhões. Os socorristas, que não tardaram a chegar ao local do acidente — acionados por outro motorista que passava pelo local um pouco depois que tudo ocorrera — ali mesmo lhe prestaram os primeiros socorros e logo conseguiram estabilizá-lo, salvando-lhe a vida. É certo que seus ferimentos foram tão graves que o deixaram em estado de coma profundo.
O motorista da pick-up logo fora localizado e preso pela polícia. Mas conseguira, através de pessoas influentes, aguardar o decorrer do processo em liberdade. Seu julgamento aconteceu um ano depois do acidente. Devido aos seus inúmeros contatos com pessoas importantes e pela sua enorme fortuna, fora-lhe aplicada apenas uma pena bastante branda, considerado o tamanho da tragédia que ele causara. Foi condenado a pagar uma fiança revertida em cestas básicas — que, até onde se sabe, nunca foram pagas — e a prestar alguns serviços comunitários relacionados ao trânsito — serviços esses também que jamais foram prestados.
Minha mãe, que já não estava muito bem desde que papai se fora, ao saber da morte de sua estimada nora e de seus adorados netos, além de saber que seu filho estava em estado de coma profundo num hospital, sem saber se algum dia conseguiria se recuperar, assim que viu o motorista da pick-up dirigindo livremente pelas ruas novamente, não suportou tanto descaso por parte das autoridades e, num ataque de desespero, atentou contra a própria vida. Amanhã faz dois anos que mamãe se matou...
Nesse momento Marianne abaixou sua cabeça e iniciou um lamentoso choro novamente. Daniel, que naquele momento estava de pé logo à sua frente, segurou sua face com ambas as mãos e disse-lhe com toda convicção possível:
— Esse tipo de homem se acha acima das leis que eles mesmos criam para serem aplicadas em outros abaixo deles. Contudo, se esquecem de que existem outras Leis que regem as engrenagens desse mundo conhecido por nós e de outro muito além de nosso entendimento. O Universo foi criado em plena perfeição e as Leis que assim o regem são exatas e nunca falham. Durante nossa insignificante passagem por esta terra, o tempo todo estamos adquirindo créditos e dívidas, independentemente de quem somos ou com demasiada soberbia pensamos ser; mais cedo ou mais tarde, teremos que acertar as contas com o Infinito. Certamente minha família e essa infeliz jovem não foram os primeiros a sofrerem esse tipo de atrocidade nas mãos de pessoas como ele, mas saiba você que, por parte dele, ninguém mais sofrerá esse tipo de injustiça. É uma promessa que lhe faço. Esqueça tudo isso e fique despreocupada, pois essa última dívida que ele contraiu, lhe será cobrada muito em breve. O dinheiro que ele acha que tem e sua honrosa posição social conseguiram livrá-lo da justiça, mas não conseguirá de forma alguma protegê-lo de mim. Tem quanto tempo que isso aconteceu, Marianne? Desde quando estou aqui nesse hospital?
— Três anos exatos. Afinal, domingo próximo é Páscoa novamente — disse ela.
Daniel ficou em absoluto silêncio e nada mais quis saber além do nome do homem que causara a destruição de toda a sua família. Abraçou sua irmã uma vez mais e logo pediu a ela que saísse, pois precisava descansar. Marianne, sentindo-se mais aliviada por ter conseguido contar ao irmão tudo o que lhe ocorrera, dirigiu-se para sua casa com o senso de dever cumprido. A pedido de seu irmão, lhe repassara tudo que ela sabia sobre o homem que causara aquele terrível acidente: quem ele era; onde vivia; e o que fazia da vida — ou seja, nada. Pois era um homem bastante rico, que nunca trabalhara, uma vez que sua enorme riqueza era proveniente de heranças que havia recebido tanto por parte de pai bem como por parte da mãe. Era o tipo de pessoa que se achava acima de tudo e de todos, imaginando que, com o dinheiro que possuía, poderia comprar qualquer coisa, até mesmo a dignidade de alguns e o silêncio de outros.
Na manhã seguinte — Sexta-feira da Paixão — Marianne soube que seu irmão havia se evadido de seu quarto e que, na fuga, havia levado consigo o carro de um dos médicos do hospital. Um veículo esportivo, bastante rápido e muito potente. A polícia estava em seu encalço desde então, mas ainda sem saber de seu paradeiro, tanto por ser ele um paciente ainda em tratamento, bem como pelo roubo do veículo de luxo.
Na manhã de domingo, o que sobrara de um veículo bastante caro fora encontrado caído numa ribanceira, com partes de um corpo presas no para-choque dianteiro. Os pés da vítima pareciam que haviam sido consumidos pela constante abrasão no asfalto; segundo a perícia, o corpo havia sido arrastado pelo asfalto em altíssima velocidade. Havia um leve rastro de sangue, carne e ossos por um raio de quase três quilômetros até o local onde o carro fora encontrado. Não havia sinais de quem havia dirigido o veículo. No banco do motorista havia apenas um inocente coelho de pelúcia amarrado ao volante, com um bilhete escrito: Feliz Páscoa...
Revisado por Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Albergue
Era frio e úmido. Como bueiro. Como fui chegar ao ponto de conseguir deitar a cabeça sobre as pedras? Como sujeitei-me ao insujeitável?..
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era frio e úmido. Como bueiro. Como fui chegar ao ponto de conseguir deitar a cabeça sobre as pedras? Como sujeitei-me ao insujeitável?
Há muitos à minha volta, tantos que nem sei o nome, nem a conduta de outrora, mas ainda assim me sinto só. Quando o ser humano deixa-se levar por seus instintos, acaba por tornar-se algo inimaginável, incompreensível.
Como vês, eu me tornei tudo aquilo que repudiava. Como somos enganados por nós mesmos. Como nos deixamos enganar!
Aqui, ninguém me vê, só eu mesmo, e não gosto do que vejo, se é que vejo. Não vejo! Minha habilidade de visão foi afetada, e eu, mesmo percebendo o que me ocorria, persisti. Deixei-me conduzir pelo caminho enigmático que separa a razão da emoção. Como ser pulsante e suscetível aos caprichos do destino, tornei-me marionete em suas arbitrárias mãos; não consegui escapar de seus encantos, envolto em seus caprichos e habilidades surreais. Ah, o desconhecido, que sussurra segredos quase sempre incompreensíveis, enlaçando-se em suas garras doces... Sairei incólume deste conflito?
Ali, no cantinho da parede pichada e tomada pelos fungos, está a jovem, grávida; o bebê não sabe quem é seu pai. Num frenesi instantâneo, como a divagar sob o céu que eu mesmo construí, pairo sobre abismos imaginários, mas que agora tornam-se reais, tangíveis. Percebo minha respiração, que de súbito está ofegante. O ar se rarefaz.
— Jovem, por que está aí? Não tem família? — Pergunto-lhe.
— Acho que tenho, mas não lembro mais quem são... Não lembro nem quem eu sou também...
— Me chamavam de Gregor, e você, como se chama?
— E-eu? ... Ah, eu não lembro! — O rosto sujo e desfigurado é banhado por lágrimas sinceras.
Desespero. De súbito, minha respiração me incomoda; os batimentos cardíacos, como solos de bateria, são. Então resolvo interromper o curtíssimo diálogo que comecei. Vou à rua.
Carros. Pessoas. Poluição.
Tudo ali, convivendo harmoniosamente. Só eu que não posso entrar neste círculo simétrico. Permaneço aqui. Imóvel. Um recipiente repleto do mais absoluto vazio. O peso da escuridão esmaga meus ombros; não é fácil carregar o fardo de suas más escolhas.
Os que por mim passam, me repudiam, torcem o nariz, viram as faces. Colocam em prática tudo quanto aprenderam; a sociedade ensina direitinho.
Caminhei por horas — horas? — a noção de tempo me fora arrancada, como um tumor maligno; mas o cirurgião era semelhante ao açougueiro desleixado e deixou-me com as marcas de sua inaptidão... E eu terei que conviver com essa escolha alheia a mim.
Com pesar, continuei caminhando a esmo, remoendo memórias de tempos felizes, ou assim eu acreditava que era. Como pude deixar o trem da minha vida descarrilar e, assim, me transmutar nesse ser horrendo que vos fala? Na verdade, eu não deveria ter abusado daquelas substâncias, bem que me avisaram...
Vejo a fumaça negra que emana pelo ar, saída do escapamento do caminhão, este, tão velho quanto o mundo. Percebo que ele poderá me ser útil, e o será à sociedade também. Neste momento, ele é tudo o que eu mais quero; vê-lo por debaixo é tudo o que desejo. O fio clama por ser rompido; estiquei tanto a corda que é impossível aguentar sua pressão. Jogo-me à sua frente. Só ele conseguiu acabar com essa coisa que chamam de vida, só ele quis ser, finalmente, meu herói.
Revisado por Sahra Melihssa
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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O Velório que Nunca Acaba
Era, sem dúvida, o melhor velório a que eu já tinha ido, não pela comida, mesmo que o bolo de ossos moídos fosse bastante crocante e os brigadeiros…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era, sem dúvida, o melhor velório a que eu já tinha ido, não pela comida, mesmo que o bolo de ossos moídos fosse bastante crocante e os brigadeiros tivessem aquele sabor único de infância traumática. Não, o encanto, ou melhor, o diabo estava nos detalhes: ninguém ali precisava se preocupar em morrer de novo, mas convenhamos que é um alívio danado quando já se está morto. O salão principal parecia ter sido decorado por um coveiro muito entediado. Balões inflados com pulmões humanos balançavam no teto, emitindo estalos úmidos sempre que se tocavam. As velas, dispostas em fileiras, não derretiam em cera, mas em camadas de pele liquefeita que pingavam sobre toalhas bordadas com crucifixos invertidos. A cada gota que caía, os convidados riam como se presenciassem uma situação muito engraçada.
No centro da sala erguia-se o bolo: três andares de ossos moídos envernizados em glacê amarelado, de onde brotavam velas azuladas. Quando o primeiro pedaço foi cortado, não saiu recheio, mas um murmúrio coletivo, vozes dos mortos pedindo que ninguém os comesse. Os convidados, é claro, devoraram as fatias como crianças famintas. Um detalhe digno de nota: o cheiro era insuportável, mas ninguém parecia se importar. Pelo contrário, havia quem respirasse fundo, como se inalasse um perfume francês. Na vitrola tocava risadas de crianças desaparecidas, era uma trilha sonora que deixava qualquer chá de bebê no chinelo. De tempos em tempos, um dos balões estourava, cuspindo um sopro gelado de ar que, suspeito eu, fosse o último de alguém que não fez nenhuma falta.
Eu me lembrava de ter chegado, mas não lembrava de ter saído em algum momento, aliás, ninguém ali lembrava, éramos todos convidados, e o castelo não permitia que a festa acabasse. No auge da celebração, quando alguém abria a caixa com o coração pulsante, eu ria, ria porque não sabia de quem era aquele coração, mas tinha certeza de que não era o meu, ou talvez fosse, e o castelo apenas o tivesse me emprestado por mais uma rodada. A reunião prosseguiu com brindes em taças cheias de um vinho espesso demais para ser vinho. Um bruxo ao meu lado, com humor mórbido, cochichou:
— É da safra de 1897, o ano em que Drácula foi publicado, dizem que fermentaram com mais do que uvas.
Ri, nervosa, até perceber que algo se movia dentro do líquido. A cada brinde, a cada corte de bolo, eu pensava: “Este é o melhor velório de todos os tempos.” E era mesmo. Onde mais se poderia estar morto, estar vivo, e ainda assim se sentir um convidado de honra?
Foi então que o defunto da noite entrou, ele surgiu do nada, como se tivesse sido cuspido pelo próprio chão do salão. Vestia um terno antiquado, gasto e ligeiramente úmido, como se ainda carregasse a terra da cova em seus ombros. O rosto era pálido, com olheiras bem fundas. Um sorriso exagerado, costurado nos cantos por pontos malfeitos, se abria de orelha a orelha, revelando dentes amarelados e um hálito de formol. Os olhos muito escuros piscavam a todo momento, às vezes vivos, às vezes mortos, refletindo o brilho azulado das velas de pele liquefeita. No peito, uma flor murcha brotava de um alfinete, e a cada movimento seu, caíam pequenos fragmentos de terra, como se a cova o chamasse de volta, mas ele, teimoso, preferisse ficar para mais uma apresentação.
— Bem-vindos ao meu velório, queridos! Boa noite, plateia, ou seria boa morte? Enfim, tanto faz, não é, aqui ninguém sai vivo mesmo.
A plateia ria.
— Deixem-me apresentar, sou o defunto da festa, literalmente. E devo dizer que nunca estive tão animado. Quem diria que morrer era o segredo para finalmente dar uma festa que preste? Vamos aos destaques do cardápio? — Ele falava e apontava para a grande mesa. — O bolo foi feito com ossos moídos, muito crocante, nutritivo e cheio de cálcio. Cada fatia vem com um brinde exclusivo, o sussurro de um morto aleatório. É tipo o brinde do kinder ovo, mas com mais trauma. Já os brigadeiros...ah, esses são especiais. Você morde e, ou sai um verme, ou uma lembrança horrível da sua infância. Eu experimentei três e agora sei que minha mãe realmente preferia meu irmão.
A plateia gargalhava com cada comentário que ele fazia sobre o cardápio.
— A lembrancinha da noite? Uma caixa com um coração ainda pulsando, mas relaxem, ninguém sabe de quem é, mas pode ser seu, pode ser meu. A decoração também merece aplausos, vocês não acham? Velas que derretem como pele liquefeita, e não em cera. Sustentável? Sim, vegano? Nem tanto, mas quem liga, não é?
Mais gargalhadas histéricas.
— Balões feitos de pulmões inflados, se estourarem perto de você, considere-se beijado pelo além. E a música, claro, vem de uma vitrola amaldiçoada que em vez de melodias, toca risadas de crianças desaparecidas, muito mais autêntico que sertanejo universitário, vocês concordam?
E mais gargalhadas histéricas.
— Agora, o ponto alto, temos escritores fantasmas que escrevem melhor mortos do que quando estavam vivos, vampiros bêbados de sangue ralo batizado com água benta, sim, isso mesmo que vocês ouviram, porque sangue fresco já virou mainstream e leitores que entraram no castelo e nunca mais saíram. Ah, e eu, claro, seu anfitrião preferido ou não, que não pode ser expulso, afinal, eu fui enterrado aqui.
A plateia morria de rir.
— E o Castelo, esse grande sacana, adora brincar de mestre de cerimônias, ele tranca as portas, sopra brisas geladas e sempre me lembra: “Mais um ano está chegando, prepare o ritual.” E eu respondo: “Pode vir, Castelo, só não esqueça do open bar.” E o mais incrível é que a festa nunca acaba. A cada vez que você pensa que terminou, alguém novo chega e tudo recomeça. É como um Natal em família, só que divertido.
Mais e mais risadas.
— Por isso eu digo, com toda a certeza de um cadáver satisfeito: Este é o melhor velório que já existiu, porque, afinal, não se pode matar o que já está morto e agora, vamos brindar de novo. — gritou o defunto. — Quem tiver cálice, levante, quem não tiver, pode usar o crânio do vizinho. Moléstia eterna!
A multidão explodiu em aplausos e risadas histéricas, outros levantaram seus cálices e seus crânios. Então, como sempre, a festa recomeçou. A primeira convidada entrou, perplexa, reparando nas decorações bizarras, e todos aplaudiram como se fosse a atração principal e eu, com meu cálice de vinho que tinha gosto de sangue ralo, levantei-me para brindar:
— Um brinde à eternidade da festa, porque não se pode matar o que já está morto.
Todos riram de forma histérica, insana, até que o bolo voltasse a ser cortado e os murmúrios dos mortos se repetissem, como no primeiro dia, pois era, afinal, o melhor velório que nunca terminou.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Memórias Afogadas
Este lúgubre castelo com certeza é o lar de muitas histórias, de muitos seres e muitas memórias. São tantos segredos aqui guardados, mas o meu…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Este lúgubre castelo com certeza é o lar de muitas histórias, de muitos seres e muitas memórias. São tantos segredos aqui guardados, mas o meu, acredito que seja o mais apaixonado, envolto pelo sangue e pela culpa. Jamais esquecerei a noite mórbida e intensa em que cravei meus dentes em tua pele doce pela primeira vez, soube ali que jamais iria desejar outro alguém e, mesmo assim, parece que te perdi.
Lembro-me bem da primeira vez que te vi passar por uma fenda estranha, como se cortasse o mundo, nossos olhares se tocaram pela primeira vez. Eu te segui pela noite magenta e meu coração não suportou, apaixonando-se perdidamente por cada pedaço de ti, mesmo sem uma única palavra ser pronunciada. Eu não gostaria que tivéssemos um fim, mas como maldita criatura noturna que sou, minha natureza destrutiva precisava frustrar o amor transcendental que nos habitou.
Recosto a nuca na borda da enorme piscina, febril, como se meu corpo nu já não fosse meu, mas parte da água. As cores estonteantes oscilam entre roxo e rosa, tingindo o ar de vertigem, enquanto uma névoa branca desliza sobre o espelho líquido.
Dentro da piscina, observo as estátuas de mármore nuas ao redor. Vejo que elas não são apenas pedra. Seus olhos me seguem, suas bocas se curvam em sorrisos largos, trocando cochichos que ecoam baixos, incompreensíveis. Uma delas me encara com firmeza, parece-se contigo. Elas me veem derramar lágrimas de sangue por ti.
Ela continua a me olhar. A silhueta, os cabelos, as feições e todas as tuas características em um corpo pétreo e marmorizado ainda me encaram. Ela me lembra tanto de você! Do fundo da piscina, pétalas cintilantes sobem dançando silenciosamente. Minha respiração torna-se arrastada enquanto troco olhares com a tua estátua tão perto, tão fria e tão dura quanto nossa separação. Soluço em lágrimas.
Nos cenários de nossas mais fortes memórias de lubricidade, eu me encontro a todo momento desejando retornar no tempo. Sem ti, eu desejo que minha eternidade acabe. Estou em um transe ao flutuar, ouvindo apenas o leve som do movimento aquático. Tentando esquecer as feridas de meu coração morto e as duras memórias do teu amor e da tua paixão que deixei para trás. Estas castigantes lembranças de nosso envolvimento tomam conta de minha mente, fazendo-me lembrar de cada toque, de cada beijo e cada ato carnal que cometemos em nossos corpos tão libidinosamente. Eu desejava ser parte de ti, me unir a ti eternamente em um mesmo corpo como Salmacis e Hermafrodito.
Gostaria de me afogar nestas águas quentes na tentativa de que elas me fizessem esquecer a fúria de meu desejo insaciável por ti e cada lembrança tortuosa que acaricia minha melancólica libido na falta de ti. Eu anseio pela tua presença junto à minha, experienciar a sutileza e o torpor da tua pele, a maciez de teu rosto e o sabor danoso de teus lábios. As lembranças me consomem nestas águas:
Devaneio ao lembrar de como é sentir-te em meu íntimo: a ferocidade de teu toque por entre minhas pernas, sob a cama, fizeste-me liberar sons que antes estavam cativos em minha garganta, gritos abafados em frenesi delirante, ardentes de desejo. O calor da tua boca contra meu íntimo arrancava de mim espasmos, eu completamente incapaz de conter os gemidos que escapavam como súplicas entrecortadas. E tua língua, que me devorava, sem trégua, firme e voraz, roubando cada fragmento do meu controle, dominando-me. Eu me abria em arrepios sob tua fome, e cada investida me fazia implorar, ainda que em silêncio vacilante, por mais! O mundo se desfazia no nosso ritmo frenético e no gosto febril do prazer que nos consumia.
Nestas águas púrpuras observo os reflexos inebriantes das estátuas e permito que minhas lágrimas de sangue se misturem à tua intensidade, enquanto tento esquecer a dor. Mas… é impossível. Minha devoção é tua. Minha devoção às tuas mãos, que tocaram meu corpo com sofreguidão e torpor, conduzindo-me ao ápice dos prazeres lascivos de tua carne ardente. Recordo-me da minha respiração ofegante sobre teu rosto, de teus olhares devassos que devorariam minha alma, se eu ainda a tivesse. Aos poucos, desprendo a nuca da borda da piscina e deixo meu corpo deslizar para o fundo, como se a água me reclamasse.
O que mais eu poderia fazer? Deixei-me levar pelo medo novamente, afundando minha mente em pensamentos abruptos, frutos do meu fatídico apego evitativo. Eu te amo sem razão, sem medida, desde o instante em que nossos olhos se cruzaram sob a lua, com a constelação de Órion ao lado de Sírius e Júpiter. Amei-te profundamente até mesmo antes desses momentos, só nunca tive coragem de proferir as palavras quando ainda havia tempo.
Perder-te dói como se meu coração tivesse, enfim, apodrecido ao relento do tempo que nos separa. Amo-te tanto que nem mesmo estas águas de paixões infames conseguem me preencher. Meu corpo e minha alma, meu coração e minha mente sempre pertencerão a ti. Aqui, nestas águas, afundo-me e perco-me no fundo, como se nelas pudesse dissolver a dor insuportável por te perder.
As lembranças de nossos corpos entrelaçados, à luz trêmula da vela fúcsia, ainda dançam em minha mente e me seduzem sem trégua. Ouço tua voz em meu ouvido, clamando por meu nome, inflamando-se de prazer ao perder-se nos meus gemidos de luxúria. Ainda sinto a pressão de tuas mãos em meus pulsos, prendendo-me a ti, amarrando-me à força de um laço que transcendia o físico. Selamos um feitiço de libido, onde nos aprisionamos mutuamente, enquanto a vela ardia.
Desejo mais do que tudo sentir teu corpo contra o meu e ver teus longos cabelos soltos estirados sobre meu peito enquanto clamo pelo teu beijo devorador que me envenena de eterno prazer. Enquanto estamos distantes, eu não consigo ter olhos para outros lábios e ter uma chama sinuosa de paixão como a nossa em outros corpos depravados.
Desejo tanto que a água finde meu sofrer, esqueci-me do tempo observando o fundo da piscina e a vaga luz violeta que cintila aqui embaixo. O transe se desfez quando algo me puxou de volta: abrupto, revoltoso. Lutei em vão contra aquela força que me arrancava do silêncio líquido.
Quando retornei a mim, encontrei-te à beira da piscina. Não era exatamente você, mas uma figura de mármore, tão semelhante, tão cruel na lembrança. Mãos frias afastaram meus cabelos para trás de minhas orelhas, como tantas vezes fizeste. Lábios pétreos roçaram os meus, duros a princípio, mas logo se desfazendo em um calor febril. Os braços de pedra enlaçaram-se ao redor de minha cintura, colando o corpo marmorizado, ao meu, deixando-me sem ação. Um delírio tomou conta de mim quando as mãos frias desceram, aproximando-se do meu íntimo, e o beijo danoso, inescapável. Nenhum outro corpo poderia ocupar teu lugar, mas no mármore finalmente me afoguei por ti.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Conto do Corretor de Imóveis: o Diário de Bordo do Demônio
O pergaminho estava manchado de ferrugem e mofo, as bordas esfarelando como casca de árvore antiga, uma relíquia resgatada do fundo de um túmulo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O pergaminho estava manchado de ferrugem e mofo, as bordas esfarelando como casca de árvore antiga, uma relíquia resgatada do fundo de um túmulo úmido ou da sarjeta de algum arquivo esquecido. Atribuído à letra de Jonathan Harker, este texto, no entanto, não constava em nenhuma das edições conhecidas de suas memórias; um fragmento arrancado, talvez, ou censurado pela prudência dos seus editores, que julgaram seu conteúdo demasiado profano ou perturbador para a sensibilidade vitoriana.
O texto inicia-se assim, com a letra trêmula, por vezes quase ilegível, denunciando o tremor febril da mão que o escreveu:
Castelo do Conde Drácula, Noite Sem Lua
Tenho vivido dias que não ouso mais contar em números, pois a contagem se tornou um luxo que a minha mente não pode mais pagar. Não sei se é segunda-feira ou se já se arrasta o oco e frio domingo. Aqui, o tempo não flui; ele é devorado pelas paredes de pedra, digerido no silêncio espectral. A única marca do calendário é a ascensão da lua, que o Conde observa com uma paciência glacial, e as minhas tarefas, que se tornam mais bizarras e exigentes a cada noite que se afunda nas brumas da Transilvânia.
O Conde exige mais de mim. Não mais apenas as escrituras ou os negócios de Hillingham – um pretexto lamentável para me atrair para este calabouço de séculos. Agora, ele me interroga sobre tudo o que Londres esconde em suas entranhas modernas. Ele me esvazia, não de sangue, mas de informação.
Esta noite, fui novamente conduzido à sua biblioteca. Não é apenas vasta; é viva. Seus pilares de madeira escura elevam-se até um teto arqueado, onde sombras dançam, e as estantes se perdem na escuridão, repletas de tomos amarelados e cheiro de adormecimento. Os livros respiram poeira antiga e exalam um ar pesado, de mofo e conhecimento proibido, um aroma que parece alimentar o próprio Conde. A luz de poucas velas, presas em castiçais de prata maciça e retorcida, mal ilumina o centro da mesa, lançando um brilho covarde sobre mapas desdobrados e cadernos de anotações.
— Senhor Harker — disse ele, e a sua voz, grave e ligeiramente anasalada, carregava o som de pedras sendo arrastadas, ou talvez, do gelo quebrado de uma montanha. Ele se aproximou de mim com aquele hálito gélido que parece sorver o calor do ambiente, quase como se fosse uma nevasca localizada, e que parecia apagar a pequena chama das velas.
— Fale-me do vosso mundo. Do vosso... progresso.
Ele não se sentou. Permaneceu de pé, alto e ameaçador, a silhueta projetada pelas velas criando uma figura grotesca e distorcida contra a parede de pedra. Seus olhos brilhavam não como os de um estudante ávido, mas de um predador que fareja a artéria pulsante da modernidade. Havia uma impaciência cruel em sua postura, como um animal enjaulado observando o campo aberto.
Respondi-lhe, tentando manter a compostura, vestindo a máscara da cortesia profissional, embora soubesse que era um corretor de almas, e não de imóveis.
— Vossa Senhoria já possui uma coleção vasta. De que tipo de progresso deseja saber? De arte? De engenharia naval? De... mineração?
Ele sorriu. Um sorriso que não era humano. A linha fina de seus lábios se esticou, revelando uma frieza atemporal.
— Não da arte que é estática, nem dos navios que são lentos. Quero saber das vossas máquinas que falam sem voz. Daquelas que permitem que dois homens separados por milhas se escutem como se estivessem lado a lado, ou que lançam a notícia de um terremoto na Índia sobre uma mesa de café em Fleet Street antes que a terra se acalme.
Percebi, com um horror que gelou a medula dos meus ossos, que ele falava do telefone e do telégrafo. Não era a magia que o assustava, mas a velocidade.
— Sim, Conde. O Telefone. Uma invenção relativamente recente, mas já se espalha pelas cidades, criando uma teia de comunicação que... que encurta distâncias.
— Fascinante — interrompeu ele, a palavra dita com a mesma reverência que se daria a um ritual macabro. Ele passou os dedos longos, cujas unhas pareciam lâminas afiadas e polidas, sobre um atlas aberto, cujas páginas datavam de séculos, como se estivesse tocando um corpo vivo, ou talvez, um mapa de veias.
— Vozes que viajam por fios. Fios que penetram paredes, atravessam ruas, ignoram a escuridão e as fronteiras. Um sistema de veias invisíveis que corre sob a cidade, pulsando com a vida de outros. A própria alma do progresso — e então, ele inclinou-se, o olhar fixo e penetrante. — Um sistema de veias que ninguém vê.
Suas palavras soaram não como uma curiosidade acadêmica, mas como um diagnóstico preciso: não era interesse, era fome. A fome de um ser que depende do isolamento para caçar, e que via o seu campo de caça encolher a cada novo cabo estendido.
Fui obrigado, nas noites seguintes, a desenhar mapas. O Conde me forçava a traçar o labirinto. Usei tinta e carvão para delinear o traçado dos cabos telegráficos que percorriam toda a Europa, atravessando montanhas e mares, para finalmente desembocar no coração de Londres, na central de Holborn. Cada linha era uma artéria que ele desejava cortar, cada estação de retransmissão, um ponto vulnerável.
Mas não era apenas a comunicação.
Mostrei-lhe o labirinto dos esgotos que sustentava a cidade, a infraestrutura complexa que eliminava a sujeira e permitia que a elite esquecesse o subsolo. Mostrei-lhe o metrô, o Underground Railway, aquela serpente de ferro que corria sob os alicerces, vibrando e escavando o ventre de Londres, carregando milhares de almas a velocidades inconcebíveis para a sua época. E o sistema de jornais que, em poucas horas, lançava uma notícia fresa, uma advertência, uma descrição em cada mesa de café e em cada lar, unindo a cidade numa consciência coletiva e instantânea.
Ele absorvia cada detalhe com uma avidez silenciosa e voraz. Era a sua lição de casa. Ele tomava as minhas anotações, copiava-as com sua caligrafia elegante e arcaica, memorizava os nomes das centrais, das estações, dos engenheiros. Ele estava estudando o organismo.
— O vosso Van Helsing — disse ele certa noite, pronunciando o nome como quem mastiga veneno ou uma relíquia sacra. Estávamos na sala principal, onde a luz da lareira criava mais sombras do que calor, e onde ele costumava me reter até as primeiras horas do amanhecer, quando o medo se tornava quase insuportável. — Ele não me teme apenas com cruzes ou estacas. Ele teme a vossa rapidez. A velocidade da palavra.
Ele se levantou, caminhando até a janela, onde a neblina rastejava no pátio exterior.
— Os telegramas que unem caçadores separados. O correio que voa mais rápido que cavalos. Aquele seu telefone que o avisa de uma vítima antes que o sol se ponha. É essa a vossa verdadeira armadura, Harker. A vossa rede.
Seus olhos arderam em um vermelho profundo, a cor de uma brasa na escuridão, e a frieza de sua voz se intensificou, assumindo a solenidade de uma promessa de destruição.
— Para derrotar-vos, devo tornar-me mais veloz que a própria mensagem. Devo me infiltrar no vosso sistema de veias, e drená-lo de vida, de comunicação, de certeza.
Nesse instante, a revelação atingiu-me com a força de um soco no estômago, tirando o pouco ar que ainda me restava. Ele não queria Londres apenas por suas casas senhoriais, nem por suas vítimas, cujos pescoços representavam apenas o combustível necessário para sua travessia. Ele queria Londres por sua rede. Sua trama subterrânea de fios, túneis e informações. Ele planejava um ataque não apenas físico, mas logístico.
Ele era o Demônio, o Corretor de Imóveis, e o maior negócio que ele planejava fechar era a aquisição da infraestrutura do mundo moderno. Ele estava vindo para a civilização, mas não para se esconder nas sombras; estava vindo para aprender a desligá-la.
Mais tarde, encontrei-me sozinho em meu quarto, um pequeno cubículo frio onde a única companhia era o ranger das traves velhas no telhado e o silêncio opressor. Escrevi com o coração em chamas, a pena riscando o pergaminho com uma urgência desesperada. A cada palavra, sentia-me mais próximo da loucura, mas a necessidade de registrar a verdade era mais forte que o instinto de autoconservação.
— Ele não estava aprendendo a viver entre nós. Estava aprendendo a nos desligar. A nos desconectar. A nos isolar, célula por célula.
E assim, termino este registro, sem saber se verei a luz do dia, ou se Londres, minha pátria, minha cidade-máquina pulsante, verá a luz alguma vez mais. Pois temo que, quando Drácula caminhar em nossas ruas — e a ideia me faz sentir náuseas de terror —, não será o sangue que ele drenará primeiro. Será o mundo invisível das conexões que nos mantém unidos, que nos permite gritar por socorro através de milhas, que nos torna um organismo. Ele fará de Londres uma ilha, e então, um deserto de ecos. Ele cortará os fios, e a escuridão será absoluta.
Este fragmento encerra abruptamente, a última palavra distorcida, como se a pena tivesse sido arrancada bruscamente da mão de Harker. Não há continuação. O que resta é apenas o silêncio de uma página em branco, como se as palavras seguintes, o ápice do terror, jamais tivessem conseguido escapar da escuridão para a luz do registro.
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Peregrinus
No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“De onde você vem?”, perguntou o SENHOR. Satanás respondeu: “Estive rodeando a terra, e observando o que nela acontece”. — Jó 2:2
No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Depois de mais uma longa noite de bebedeira, já em alta madrugada, naquela hora fria e silenciosa que antecede os primeiros sinais da aurora, tendo como única companhia uma lua cheia plena e brilhante, mas também já se despedindo no poente, Ewerton retornava para casa – ou pelo menos o pardieiro que ele naquele momento se tornara sua casa – para mais um dia de ressaca, desespero e muitas lamentações.
Caminhando em passos trôpegos, ziguezagueando pela rua, tentando a todo custo se manter de pé devido ao excesso de bebida e pela falta de alimento já de muitos dias, mesmo já não confiando mais na exatidão de seus sentidos que vinham lhe pregando peças nos últimos tempos, pôde ver ao longe que havia alguém sentado nos degraus da porta da igreja. Templo esse que, há não muito tempo atrás, ele mesmo um dia, fora ministro de celebrações e por vezes incontáveis foi arauto das mensagens das Boas-Novas. Ao se aproximar, logo pôde perceber que a pessoa que estava ali em completo abandono naquelas horas tardias era uma mulher, e pela posição que estava sentada com o rosto prostrado entre os joelhos, demonstrava estar num terrível desconsolo.
Ouvindo que ela suspirava ais de tristeza, e pela solidão noturna em que ela ali se encontrava, entendeu muito rapidamente com o restante de cavalheirismo e dignidade que ainda lhe restara, que deveria prestar-lhe algum tipo de auxílio, com delicadeza e parcimônia aproximou-se a ela, e disse-lhe de modo cortês:
– Boa noite, minha senhora. Há algo em que eu lhe possa ser útil?
Com movimentos leves de quem estava há muito tempo na mesma posição, ela sentou de forma ereta e com a face completamente banhada em lágrimas, e com certa dificuldade tentou lhe responder com palavras entrecortadas entre soluços e suspiros de dor:
– Boa noite, meu amigo. Quem dera, se alguém neste mundo cruel pudesse fazer algo em meu socorro. Aquilo que perdi jamais me será restituído e o que me foi tomado não pode ser devolvido.
Ao vê-la falando dessa forma seu coração dilacerado pela dor, se encheu de ternura. Não somente pelas palavras que exemplificavam sua própria situação naquele momento, mas pela forma como ela soube se expressar. De certa forma estava ele muito condoído com aquela bela criatura ali naquele estado de completo desalento. Mesmo com a visão bastante embaçada pela bebida e pela ausência de claridade no local onde se encontravam, ainda assim pôde perceber que era uma bela mulher, ainda transpirando o frescor da juventude, com uma aparência bastante agradável aos olhos e exalando um perfume bastante sedutor. De forma muito gentil, pediu-lhe autorização para que pudesse se sentar ao seu lado. Vênia que de imediato lhe foi outorgada. Com uma estranha expressão ela disse:
– Que pobre e infeliz criatura sou eu para impedir que alguém se sente na porta da casa daquele que é o Pai de todas as criaturas? Sente-se e esteja à vontade.
Ewerton, que naquele momento não sabia discernir o certo do incerto, mesmo não entendendo o porquê de ela ter dito aquelas palavras, com certa dificuldade sentou-se ele ao seu lado, e logo almejou saber o motivo de tanta tristeza numa mesma pessoa. Ela por sua vez, secando os olhos com as costas das mãos, relatou-lhe em poucas palavras sua trágica e inverossímil história.
– Vivíamos outrora numa bela casa onde éramos todos felizes e satisfeitos com tudo ao nosso redor, em tempo algum soubemos o que era necessidade, dor ou tristeza. Nossa existência era baseada numa plenitude infinita de deleites sem fim. Mas por escolhas indevidas, feitas por uma vil influência baseada em promessas infundadas, decidimos por trilhar caminhos obscuros e incertos. Desde então, condenados pela Justiça Divina, eu e meus irmãos somos impedidos de retornarmos para nosso verdadeiro lar e somos obrigados a vagar pelo mundo como pobres peregrinos. Sem termos um destino certo, transitamos por ermos caminhos em busca de um lugar decente onde possamos pelo menos poder lamuriar nossa infinita desgraça sossegadamente.
Ewerton, que naquele momento já não era mais senhor de seu juízo perfeito, esquecendo-se por um instante de sua própria situação desoladora, por mais uma vez, vendo-se como um ministro de Deus, mesmo tropeçando nas palavras, disse-lhe de forma muito afetuosa, como se fosse um pastor se dirigindo a uma ovelha que havia se perdido e fora novamente encontrada.
– Não deixe que a tristeza te assole dessa forma, tome conta de seus sentimentos, por mais terrível que uma tempestade possa parecer, o sol sempre voltará a brilhar novamente. Não se deixe abater tão facilmente, você ainda é jovem e muito bonita...
Nesse momento, ela esboçou um leve sorriso, que à luz do dia, certamente seria bastante sinistro. Ele continuou:
– ... Dias melhores sempre estarão reservados para pessoas iguais a você. Já é muito tarde, não é certo que ninguém esteja na rua a essas horas, principalmente uma mulher indefesa igual a você. Há muitas pessoas ruins e hostis nesse mundo, seres que não têm nenhum apreço pelo seu semelhante. Não posso de forma alguma permitir que algo de ruim aconteça a você.
Ela abaixou a cabeça em reverência, concordando. Ele nem pôde ver que ela esboçava um novo sorriso, tão maquiavélico quanto o anterior, pois estava ele bastante entretido com sua oratória. Juntando forças sem saber de onde, colocou-se ele novamente de pé, gentilmente estendendo-lhe a mão esquerda – na outra mão ainda segurava uma garrafa de bebida – disse-lhe:
– Minha casa não é muito longe daqui, se quiser me acompanhar, posso lhe servir um café, uma cadeira para se sentar e se for de seu agrado tentarei ser um ouvinte atencioso para uma boa conversa. Não tenha medo, sou uma pessoa inofensiva, só consigo causar mal a mim mesmo.
Ela, agarrando-se à mão que lhe era oferecida, tocando de leve com a ponta dos dedos uma brilhante aliança que ele ainda ostentava no dedo, desferiu-lhe um olhar que seria capaz de enxergar os recantos mais profundos de sua alma, e foi logo dizendo:
– Agradeço pela oferta, gentil cavalheiro. Mas não quero ser nenhum tipo de incômodo em sua vida. Longe de mim, causar qualquer problema em quem quer que seja de forma intencional, mesmo que eu quisesse não me é permitido causar-lhe nenhum tipo de mal.
Por um momento, ele olhou tristemente para a aliança e suspirando profundamente ao relembrar sua dolorosa realidade – que por um breve instante fora esquecida – disse-lhe:
– Não se preocupe com isso, minha amada esposa não está mais entre nós. Ela fora arrancada de mim da forma mais injusta possível, e como uma desgraça nunca vem sozinha, junto com ela também se foram o fruto de nosso amor e também toda a minha felicidade. Parece-me que somos dois seres abandonados pela providência divina, eternamente condenados à dor e a uma tristeza sem fim.
Quando disse essas palavras, uma coruja que estava assentada numa árvore próxima e presenciava toda aquela cena, deu um piado ensurdecedor e passou sobre eles num voo rasante até outra árvore logo atrás da igreja. Estando Christine já de pé, percebendo que o convite estava sendo feito de livre e espontânea vontade, decidiu que aceitaria acompanhá-lo até sua casa com a promessa que ele deveria se comportar como um cavalheiro respeitando sua situação de jovem indefesa. Caminhando a seu lado, ainda segurando a mão dele, ela logo quis saber o motivo que de alguma forma ele pudesse imaginar que ambos poderiam ser semelhantes em alguma coisa. Sem muita cerimônia o questionou sobre o que ocorrera à sua esposa e seu filho.
– Filha! Ela se chamava Esther e tinha apenas três anos, era apenas uma inocente criança praticamente ainda de colo. Ela e minha esposa Lucy voltavam de uma celebração na casa de uma irmã que padecia de um mal irremediável e já estando essa irmã no leito de morte, quis minha amada esposa prestar-lhe os últimos votos de fé e de esperança num lugar melhor. Minha amada Lucy sempre fora uma excelente companhia para pessoas nesse tipo de situação. A celebração – mesmo com a situação em si – fora bastante ungida e alegre e se prolongou um pouco mais do que deveria. Já era tarde quando ela retornava para nossa casa, e desde o início da noite caía uma chuva fina, o asfalto estava bastante molhado e escorregadio. Lucy era uma motorista cuidadosa, mas o condutor do caminhão que vinha em sentido contrário, talvez por mil outros motivos, mas principalmente por estar completamente embriagado, não pôde perceber que estava invadindo a pista contrária com seu caminhão carregado com madeira e sem tempo ou destreza necessária, bateu de frente no carro de minha esposa, matando duas pessoas inocentes que naquela hora trágica, retornavam de uma celebração em intenção a uma pessoa em profundo sofrer...
Nesse momento, Ewerton, largando a mão da jovem, cobriu o rosto em completo desespero, e após alguns instantes, tentando segurar os soluços que estavam em sua garganta, olhou para o céu e como se estivesse perguntando para o firmamento com palavras carregadas de ódio e desespero, disse:
– Como um Deus a quem tanto adoramos, que deveria zelar por nós, pode tirar a vida de duas pessoas inocentes que naquele momento estavam justamente a serviço dele?
Pegando sua mão novamente e levando-a aos lábios para um beijo terno, ela disse:
– Pensei que tivesse sido um caminhoneiro bêbado que causara o acidente!
– E por acaso, não consta nas Escrituras Sagradas que não cai uma folha do céu sem que Deus assim o permita?
Se Deus fosse realmente tão bom quanto se autoeleva, não teria permitido a morte de minha querida filha, que nunca causara mal a quem quer que fosse.
– Mas também está escrito que o livre-arbítrio é um presente dos céus aos homens, que lhes fora concedido como dádiva desde o princípio, o direito de escolha: “...Tudo lhe será permitido. Contudo, nem tudo será lícito...” Não deveis jamais questionar os desígnios de Deus.
– Minha filhinha, uma inocente criança de apenas três anos, teve a oportunidade de usufruir do livre-arbítrio?
Questionou ele de forma ríspida.
Alguém certa vez também disse: “... Entre o céu e a terra existe muito mais do que julga a nossa vã filosofia...”
Ao ouvir essas palavras, ele parou de repente e num gesto não tão delicado, soltou sua mão mais uma vez, postando-se de frente a ela, um tanto quanto assustado, e perguntou-lhe:
– Quem é você? De onde vem tanta eloquência numa pessoa de aparência tão jovem?
– Ninguém mais importante do que você mesmo! Alguém que outrora também foi esquecida por Deus. Meu nome é Christine e se pareço sábia é porque a dor e o sofrimento moldaram cada parte do ser em que hoje sou. E tenha mais cuidado com as aparências, Ewerton!
Naquele exato momento estavam de frente a uma grande casa com traços esplêndidos e elegantes. De uma aparência muito bela, mas parecendo estar bastante desmazelada pelo abandono. Parados frente a frente iluminados pelos últimos raios de uma lua poente, ela logo lhe perguntou:
– Aqui é sua casa? Não vai me convidar para entrar e cumprir as promessas que me fez?
Ele, tentando se lembrar em que parte da conversa teria lhe dito seu nome, e ainda assustado com tudo que estava acontecendo, jogou a garrafa de bebida que ainda trazia consigo na lixeira e, pegando as chaves, se encaminhou para abrir o portão que conduzia para um jardim que demonstrava ter sido majestoso em outros tempos. Colocando a mão esquerda em movimento de dúvida sobre a boca, tentando ainda se decidir se deveria convidá-la ou não para entrar em sua casa, pôde sentir próximo às suas narinas um belo perfume que ficara impregnado em sua mão. O cheiro voluptuoso que sentia, o terno olhar que ela lhe desferira naquele momento sob o luar e o senso de cavalheirismo ainda existente dentro dele, foram determinantes para a decisão de convidá-la a entrar nos recantos que outrora vivenciara os dias mais felizes de sua vida. Com gestos de galhardia fez uma reverência e, apontando a entrada de sua casa, convidou-a para que pudesse entrar em seu não tão humilde lar.
Deitada numa aconchegante cadeira de balanço na varanda, estava o animal de estimação de sua filha Esther. Thereze era uma gata de cor preta de um negrume escuro como uma noite sem luar. Seu pelo era tão macio e sedoso que chegava a ser convidativo para uma carícia. Contudo, assim que percebeu a presença daquela estranha mulher adentrando em seu território, esse animal que então tinha sido dócil e extremamente pacífico, ficou arredio e bastante agressivo, colocando-se em posição de ataque com unhas e dentes arreganhados e com o pelo todo eriçado como se estivesse vendo o pior dentre todos os predadores, pronto a lhe tirar a vida. Atravessou na frente da porta de entrada da casa e ficou andando de um lado para o outro barrando a passagem, como se fosse uma devotada sentinela, guardando um tesouro de valor inimaginável. Ewerton pensou que aquele animal estivesse tendo algum tipo de ataque psicótico, talvez devido à falta que estava sentindo de sua estimada dona. Tentou em vão dissuadi-la a liberar a passagem de ambos, mas assim que Christine pôs o pé no primeiro degrau que levava ao alpendre da casa, a gata ficou ainda mais arredia, emitindo sons ensandecidos e demonstrando que de forma alguma permitiria que eles passassem por ela para entrarem na casa. Tanto convidada como anfitrião ficaram estupefatos com aquela estranha atitude de um animal que por natureza deveria ser totalmente absorto a tudo aquilo que acontecia ao seu redor, e muito diferente dos cães não se importava em vigiar a casa de pessoas estranhas.
Já sem muita paciência e com muita vontade de entrar em casa para usar o banheiro – sua bexiga já o estava alertando há um bom tempo que havia necessidade imediata de ser descarregada – Ewerton desferiu um violento pontapé na gata, que foi lançada para longe da porta, que imediatamente foi aberta. Assim que a entrada foi escancarada os dois logo entraram fechando rapidamente a porta atrás de si, pois mal a gata caiu ao chão, assim que se refez da pancada que recebera, lançou-se outra vez a fim de que impedisse a entrada dos dois. Ewerton balançou a cabeça em gesto negativo, mas não mais deu importância à gata, que agora estava do lado de fora da casa. Pediu que Christine se sentasse e se sentisse à vontade, enquanto ele rapidamente pudesse usar o banheiro. Após ter respondido o chamado da natureza, saindo do banheiro que há muitos dias não sabia o que era um gesto de assepsia, disse a Christine que o acompanhasse até a cozinha onde ele lhes prepararia um café bem forte. Christine por sua vez solicitou-lhe para que ela também pudesse usar o banheiro. Mesmo envergonhado pela sujeira acumulada há dias, ele, como um bom anfitrião, pediu perdão pela bagunça e disse-lhe que se sentisse à vontade como se a casa fosse sua. Ela por sua vez, esboçando um estranho sorriso, respondeu quase em murmúrio:
– Não só a casa! Não se preocupe com a bagunça, meu adorável coração partido! Já estive em lugares bem piores, locais que poderia muito facilmente levar qualquer homem à loucura.
Talvez pelo barulho ensurdecedor que a gata fazia no lado de fora, miando e arranhado a porta e as paredes numa tentativa ensandecida de adentrar a casa, ele não conseguiu ouvir corretamente o que ela dissera. Mas, também não se importou muito com aquelas palavras e logo se encaminhou para a cozinha a fim de preparar um saboroso café, pois até ele mesmo naquele momento tão tardio estava ansiando por algo quente e bastante forte para recarregar suas energias e tentar diminuir a enxaqueca que já começava a incomodá-lo. Rapidamente colocou a água no fogo e, sem mais delongas, logo o café ficaria pronto. Christine, que se demorara mais que o normal a se recompor no banheiro, assim que saiu estava totalmente diferente da pobre jovem que fora encontrada se entornando em lágrimas jogada de qualquer forma nas escadarias daquela escura e solitária igreja em horas tão tardias.
A mulher que agora estava encostada no umbral da porta entre a sala e a cozinha de sua casa era uma criatura de uma beleza ímpar. Um corpo esbelto de altura mediana com curvas bem definidas dando-lhe uma aparência sedutoramente voluptuosa. Os longos cabelos negros que caíam em cascata pelos ombros descendo quase até a cintura, com belos cachos parecendo as ondas do mar em seu infinito vai e vem. Destacando-se ainda mais a beleza desse véu noturno, havia duas volumosas mechas pintadas com uma cor avermelhada quase próxima ao cobre. Essas mechas dividiam seu penteado ao meio deixando sua bela face quase toda à mostra. Seus olhos eram de um verde muito brilhante num tom extremamente hipnotizante, seu sorriso inocente era irresistivelmente encantador. Ela havia retocado minuciosamente a maquiagem e em seus lábios agora brilhava um batom na cor de carmim tão púrpuro como o mais puro sangue.
Aquela imagem deixara Ewerton tão boquiaberto que até mesmo o café que ele estava preparando fora esquecido e derramou-se no fogão. O pouco que ainda sobrara foi servido em duas canecas. Oferecendo uma das canecas para Christine, instou que ela se sentasse numa cadeira na mesa de jantar. Ela, ao se aproximar dele para receber o café, pegou a caneca e a colocou sobre a mesa, e olhando no fundo de seus olhos com um sorriso cheio de uma maliciosa volúpia, o questionou se não havia algo um pouco mais forte em casa que ele pudesse lhe oferecer. Ele por sua vez, rapidamente serviu dois copos com uísque e gelo. Christine sorveu apenas um gole de sua bebida, enquanto Ewerton entornou a sua de uma única vez acompanhado de duas aspirinas. Christine perguntou-lhe:
– E por acaso nunca te disseram que não se deve misturar bebidas com nenhum tipo de medicação? Que em alguns casos pode-se levar a pessoa à morte?
Ele de forma bastante desdenhosa, mas ainda assim com gentileza, respondeu:
– Nesse momento da minha vida, a morte não está na minha lista de preocupações, na verdade talvez seja o que eu mais desejo. Pôr um fim em todo esse sofrimento de uma vez por todas.
Christine deu mais um gole em sua bebida e, abraçando-o em seguida, deu-lhe um longo beijo que fez com que ele quase caísse, pois seus joelhos ficaram trêmulos e suas pernas perderam as forças por um breve momento. Ewerton, mesmo se quisesse, jamais poderia se esquivar de tal situação. Aquela bela mulher demonstrava ser inabalável em seus gestos, a copiosidade de seu abraço e o forte perfume que ela usava fez com que ele perdesse completamente todo o controle de seus movimentos, se entregando de corpo e alma aos seus encantos. Entre beijos e carícias ela o foi arrastando para o quarto, como se tivesse estado naquela casa por muitas outras vezes.
Inebriado por tanta beleza e influenciado pelo desejo que agora tomava conta de todo o seu ser, deixou-se ele levar como um cordeiro para o sacrifício. Na mesma cama que um dia fora o leito sagrado onde ele e sua esposa consumaram seu abençoado matrimônio e imaginaram uma vida alegre, cheia de sonhos e prosperidade, agora estava sendo usado para uma orgíaca prática sexual sem nenhum tipo de pudor. Ewerton pôde na penumbra daquela madrugada fria, experimentar delícias que talvez nenhum outro ser vivo tenha sentido nessa existência. Christine com o corpo completamente desnudo se lançava sobre ele e se agitava como se fosse uma serpente. Seus movimentos eram cadenciados como o pulsar de seu próprio coração, naquele momento no mais completo êxtase, Ewerton se esqueceu de tudo que já havia se passado na sua inútil existência sobre essa terra, e numa atitude impensada, influenciado pelo calor do momento disse em palavras claras:
– Faça de mim o que você quiser, sou inteiramente seu!
Christine, que estava sobre ele, o segurando pelos ombros, pareceu por um momento ter ficado maior e mais robusta, as mechas vermelhas de seus cabelos davam a leve impressão de estarem se movendo como se fossem duas serpentes, seu sorriso tinha ficado maleficamente sinistro e em seus olhos havia algo sobrenatural, pois eles haviam sumido por completo, deixando dois infinitos buracos tão negros como azeviche e para completar ainda mais o assombro que naquele momento tomara conta de todo o seu ser, ela com uma voz cavernosa num tom sombriamente grave, disse:
– Já há muito tempo que você me pertence! Eu apenas estava esperando o momento certo para vir buscá-lo para o lugar que lhe será destinado por toda a eternidade. Tal como nós, sentirá você também a ira de Deus sobre todos aqueles que ousam traí-lo.
Naquele último momento de medo e aflição, Ewerton compreendeu quem ela realmente era e tudo o que estava acontecendo. Mesmo tentando usar toda as forças que lhe restavam, não conseguiu se libertar dos braços daquela sinistra criatura que havia adquirido uma aparência terrível aos olhos humanos. Sentiu que um calor intenso subia pelo seu ventre e tomava conta de todo seu corpo, como se uma chama tivesse se acendido em suas partes. Quando pensou que poderia pelo menos gritar em última tentativa pela misericórdia divina, foi consumido por um beijo tépido, seus olhos foram tomados por um intenso clarão que logo se tornou em trevas absolutas...
...Os vizinhos agiram rápido acionando o corpo de bombeiros, mas as chamas foram implacáveis e toda aquela bela casa fora completamente destruída num terrível incêndio. De seu ilustre e outrora simpático residente só sobraram cinzas. Da construção restaram as lembranças de um tempo onde ainda havia paz e felicidade naquele lar. Entre vizinhos e curiosos que assistiam àquele infortúnio sem nada poderem fazer, vagava uma gata preta ronronando entre uma perna e outra em busca de conforto.
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Memento Mori
A existência era gélida, angustiante, e drenava suas forças. Ela já havia passado, há muitos e muitos anos, pela excitação do novo, das descobertas e experiências intangíveis…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A existência era gélida, angustiante, e drenava suas forças. Ela já havia passado, há muitos e muitos anos, pela excitação do novo, das descobertas e experiências intangíveis. Não tinha mais curiosidade sobre o que viria a seguir, a noite não era mais a mesma e as pessoas eram cada vez piores e repulsivas**. Naquela noite, em específico,** até o mar, a única coisa que parecia acalentar sua alma, estava agitado demais.
— Minha alma! — disse em voz alta, sorrindo. Há quanto tempo não devia ter uma? Deve ter nascido com uma alma bem ferrada, afinal, para ter se fodido tanto em tão pouco tempo de vida. E não bastasse isso, as inúmeras sequências de escolhas erradas que fez ao longo dos muitos anos, dariam vários capítulos em um livro maldito.
Bom, o fato era que ela preferia o mar em seu estado calmo, por mais incoerente que isso possa soar, sabendo de toda sua imensidão, movimento, energia e seres de todos os tipos que o habitavam, dos microscópicos aos grandes leviatãs. Ainda assim, contemplar a água se movimentando levemente trazia um pouco de paz e conforto ao seu interior, sempre à beira da explosão.
O vento batia frio e úmido em sua pele, e trazia um pouco de areia e o cheiro de que tanto gostava. O céu estava estrelado e via, ao longe, pequenos pontos de luz amarelada de barcos pesqueiros. Olhou para baixo e observou uma embarcação passando sob a ponte que ligava a ilha à cidade — provavelmente seu lugar favorito no mundo. Ela pareceu esboçar um pequeno sorriso no canto de sua boca, mas logo pensou em Maria.
— Puta que pariu, Maria, você tinha que foder tudo! Não é possível que me deixou sozinha nessa merda de universo. — Seu hábito de falar sozinha e ter intensas discussões consigo mesma parecia só piorar. Quem convive muito tempo com a solidão acaba desenvolvendo certas habilidades adaptativas que podem ser muito interessantes. Há alguns anos, ela sentia que estava vivendo a melhor fase de sua existência, algo parecido com uma nova vida. Não estava mais sozinha, havia conhecido Maria e ela mudou seus dias. Toda perseguição, medo, fome, solidão, pareciam ter entrado em modo de stand by. Se conheceram bem ali, onde estava naquele momento, sobre aquele mar e sob aquele céu escuro e estrelado. Maria a viu de longe, parada em cima do parapeito, imóvel e com os braços abertos, parecendo um anjo prestes a cair.
— Ei, o que você está fazendo aí? Posso te ajudar? — Sem resposta, continuou: — Meu nome é Maria, estava dirigindo e vi você. Por favor, desce daí e vamos conversar!
Com um leve rotacionar da cabeça, Maria viu seus olhos pela primeira vez, verdes como esmeraldas, contrastando com sua pele clara e cabelos pretos.
— Posso me aproximar? Entendi que não vai conversar comigo agora, né? Só quero ajudar! Você é linda, está uma noite linda, mas muito fria... — Maria se aproximava lentamente enquanto conversava, quase sem respirar, tinha medo de que ela saltasse dali. Não passava carro algum naquele instante, não havia vento e o mar parecia estático, sem ondas ou som. Ao se aproximar, a uma distância de menos de um braço do parapeito, a mulher ofereceu a mão àquela alma triste e solitária — e ela aceitou. Quando as duas já pisavam sobre o meio-fio, Maria respirou pela primeira vez e percebeu sua taquicardia, respiração acelerada e suor frio.
— Daniela... meu nome é Daniela. — Ela mal abriu a boca para falar, parecia estar em outro lugar, outra dimensão, em outro corpo.
— Oi, Daniela, posso te dar um abraço? — Maria falava com o olhar fixo nos olhos verdes, marcantes e que pareciam contar tanta coisa. Enquanto se aproximava, uma pergunta ficava em sua mente: como uma criança pode ter um olhar que carrega tanto peso?
A garota aparentava ter seus sete ou oito anos de idade, muito bonita, com cabelos pretos caídos na altura dos ombros, porém, um rosto bastante abatido e aparentando preocupações e o peso comum aos adultos. Caminhava como se estivesse dopada, na verdade, fora conduzida por Maria e colocada no carro, no assento do passageiro.
— Daniela, você consegue me dizer onde estão seus pais ou qual o telefone deles? — A menina se manteve calada.
— Eu quero ajudar você, mas não sei por onde começar. Se você quiser ligar para eles ou amigos, ou algum parente, pode usar meu telefone.
— Não tenho ninguém, não tem mais ninguém, sou só eu.
Ao dizer isso, lágrimas escorreram de seus olhos e, instintivamente, a mulher lhe deu um abraço apertado.
— Você tem algum documento? — A menina fez uma negativa com a cabeça. — Então, vamos fazer uma coisa, vou com você à delegacia e tudo vai ser resolvi... — antes que Maria terminasse a frase, a menina arregalou os olhos, dilatou as pupilas, segurou com força o braço da mulher e gritou:
— Não é pra gente ir pra polícia nenhuma, eu não posso ir à polícia! Pra polícia eu tô morta! Se a gente for até lá e eles ficarem sabendo, vão me matar e vão matar você também!
— Calma, Daniela, não tô entendendo nada! Quem vai matar? Como assim você está “morta” pra polícia?
Naquela noite, a vida de Maria mudou. Aos poucos foi entendendo que Daniela não podia andar à luz do dia para não sofrer uma combustão; descobriu que a garota não comia frutas ou biscoitos, mas precisava caçar todas as noites, desde ratos até humanos, pois se alimentava de sangue — sangue esse que fluía nas veias de Maria e que esta não entendia o porquê de a garota não atacá-la; passou também a ser perseguida por um bando de criaturas com dentes caninos enormes, que pareciam voar durante a noite e as caçavam como bestas, sem descanso. A menina parecia ser tratada como algum tipo de oferenda necessária a um ritual cabalístico ferrado que precisava ser feito para que o mundo não acabasse — bem do tipo filme “B”, mas tudo na vida de Maria, naquela época, parecia um filme B. Maria demorou a digerir a ideia, mas entendeu e aceitou que aquela menina era um vampiro. E descobriu também que, naquele dia, na ponte, a menina pretendia se jogar, ela já não aguentava mais sua existência e solidão.
De início, a mulher não compreendia como poderia ser ruim, viver para sempre, poder viajar o mundo, não ser afetada por doenças, fazer, literalmente, o que tivesse vontade. Era tudo o que ela queria — mandar seu chefe ir se foder, bater à porta do escritório de merda onde trabalhava, largar o puto de seu namorado que vivia comendo outras enquanto ela o esperava com a mesa posta e ir embora. Matar vários filhos da puta, viver a luxúria até não aguentar mais, ser perene e atravessar as eras. Caralho, isso seria incrível, era a vida perfeita. Porém, aí que estava o problema: para Daniela não era perfeito, porque não era vida. Era viver escondido, só, atravessando o tempo em uma existência angustiante, vendo e sentindo as dores do mundo. E, em seu caso, presa em um corpo que não acompanhava sua mente — uma mulher, com mais de 100 anos, com corpo e feições de menina, que fora transformada à força, sem romantismos ou poesia envolvidos. Maria não conseguiria, mesmo que quisesse, compreender sua dor, porém tentou acolher da melhor forma que pôde.
Começaram a partir dali, um novo capítulo em suas existências, firmando uma espécie de pacto silencioso que tinha como objetivo, ressignificar seu tempo na Terra. Pode soar muito pretencioso — e era —, mas era o que fazia mais sentido para as duas naquele momento. Juntas, viajaram pelo mundo, observaram o céu noturno de diferentes locais, quase morreram por vezes a fio, leram, ouviram as mais variadas canções e discografias, amavam o cinema e artes em geral, aprenderam diferentes idiomas e caçavam em par. Na verdade, Maria acompanhava e ajudava Daniela na caçada — sabia seduzir muito bem as presas e deixá-las entregues à predadora criança. E isso a excitava bastante. Entretanto, nunca Daniela cogitou matar sua companheira ou condená-la à vida eterna. Estabeleceram uma relação de amizade muito forte, em alguns momentos, eram mãe e filha, em outros, mãe e mãe e, em vários, filha e filha, mas sempre, cúmplices da existência.
Um dia, de repente, como todas as mudanças de rota que a vida pode tomar, Maria foi embora e Daniela nunca mais a viu ou teve notícias. Nos primeiros dias ainda ouvia seu coração bater, um som fraco perdido no tempo, e isso servia de combustível para manter suas buscas. Procurava por Maria em todos os locais que frequentavam, nos bares e restaurantes, nas casas de show e de swing, hospitais, delegacias. Invadiu, inclusive, os covis de bestas ancestrais que as perseguiram por anos... e nada. Em alguns momentos e, em alguns momentos, e locais, o som do coração de sua amada parecia ficar mais forte e isso despertava em si um mecanismo de alerta feral, mas nada se concretizava. A criança se tornara quase uma lenda urbana; por onde passava, o número de assassinatos aumentava, as gangues ficavam vorazes e em modo de vigília, e as notícias sobre um psicopata ou serial killer se espalhavam. Ela se tornara o que a perseguia: uma criatura predadora, fria e monstruosa, que matava por matar e destruía por mais puro instinto. Não tinha sede por sangue, mas por aplacar sua dor e encontrar respostas, encontrar Maria. Talvez porque ela representasse sua tentativa de redenção no universo, não sabia mais dizer. Acima de tudo, a procura por sua companheira havia se tornado algo autodestrutivo; ela não se alimentava, não dormia, apenas matava, procurava, vigiava e não sentia. Não sentia mais nada, por nada ou ninguém. Desde que fora condenada à vida eterna, Daniela já não se sentia mais viva. Porém, agora percebia que a morte real a espreitava como um abutre e era dilacerada, todos os dias, por um punhal agudo que a estripava repetidamente.
Uma noite, ao acordar após exaustão extrema, ela parou de ouvir e sentir o coração de Maria. Não sabia se um dos vampiros a matara, se fora atropelada, ou o que acontecera, mas nunca mais a viu. Preferia crer em uma fatalidade como assassinato, acidente, sequestro... era menos dolorido do que encarar que a companheira a deixara, simplesmente, por não querer mais sua companhia. Pensava que Maria já não aguentava mais olhar seu rosto de boneca maldita, ou ouvir seu choro e lamentos noturnos, ou quem sabe, sentia vontade de ter uma vida comum, caminhar ao sol, amar alguém normal. Nenhum dos outros motivos mais pertinentes tinha tanto peso para Daniela quanto esses. E isso doía. Em algum momento, ela já havia lido em novelas chorosas vampirescas ou visto em filmes, vampiros chorando sangue. Era tudo uma bobagem romantizada, mas no dia em que Maria foi embora, ela acreditou ser verdade, pois perdera ali seu fluido vital.
E, naquele momento, do alto da ponte onde estivera na noite que conheceu Maria, o céu estava bonito e estrelado. Não havia visto uma noite tão perfeita em sua existência centenária, a Via Láctea parecia ter sido pintada para sua apreciação. Seu rosto era acarinhado por uma brisa leve e fresca, com o cheiro do mar que tanto gostava.
E o mar? O mar estava agitado, intenso, com ondas violentas estourando nas pedras, pronto para receber o corpo de Daniela, que , por dentro, estava calmo. Não sabia se tinha uma alma outra vez, mas se tivesse, devia tudo a Maria. Ao pensar nisso, pouco antes de ser abraçada pelo mar que tanto amava, a menina sorriu.
Luiz E. Tassini
Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Gêmeos
O ar da tarde estava tépido, pairando úmido e denso, reverberando com trovões distantes. Doutora Priscila olhava pela janela as escuras nuvens no horizonte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Pensa que o dia passado não volta mais!”. — Dante Alighieri
O ar da tarde estava tépido, pairando úmido e denso, reverberando com trovões distantes.
Doutora Priscila olhava pela janela as escuras nuvens no horizonte e, suspirando doridamente, previu que a noite seria bastante tempestuosa. Naquele momento, aguardava sua última paciente do dia. Era a primeira consulta de uma criança que, segundo os pais, vinha enfrentando sérias crises existenciais devido a visões imaginárias. Nenhum outro detalhe fora informado por telefone.
Perder um ente querido é doloroso para qualquer um, mas, no caso de Priscila — que tinha apenas nove anos na época —, foi algo avassalador. Não pela morte em si, mas por como tudo ocorrera. Sua irmã, Cecília, afogara-se em um pequeno riacho nos fundos do sítio da avó. Ambas sabiam nadar muito bem e costumavam banhar-se nas tranquilas águas cristalinas daquele regato. Contudo, de acordo com o boletim médico, Cecília sofrera um princípio de convulsão após um mergulho e acabou se afogando às margens do riacho. O socorro foi rápido, mas a menina não resistiu e chegou ao hospital já sem sinais vitais.
Com a trágica perda da irmã, Priscila ficou arrasada; trancou-se no quarto e recusou-se a participar do velório. Entretanto, assim que o caixão descia à sepultura, ela teve um ataque de histeria, gritando que sua irmã estava viva, que a deixassem sair do caixão. Debatia-se, implorando que o abrissem, certa de que todos veriam que dizia a verdade. Cecília passara toda uma tarde na agência funerária, fora velada por uma noite e metade de um dia. Todos os presentes testemunharam que, durante todo esse tempo, ela esteve como um cadáver deve estar: completamente inerte.
A mãe das meninas morreu alguns anos depois e foi enterrada na mesma sepultura da filha. Quando os funcionários do cemitério abriram a cova, depararam-se com algo perturbador. A tampa do caixão estava bastante danificada por dentro; o forro, totalmente rasgado; e havia lascas de madeira entre o que restara das mãos da criança, que jazia deitada de lado, como se dormisse tranquilamente.
A partir de então, Priscila — que desde o velório da irmã alegava ver vultos e ouvir sussurros pela casa — nunca mais foi a mesma. Após anos de terapia, buscou na psicologia uma forma de ajudar a si mesma e também crianças traumatizadas como ela.
A secretária avisou que sua última paciente havia chegado. Doutora Priscila pôde ouvir o que a mãe, mesmo em sussurro, dissera à filha quando foram convidadas a entrar:
— Nenhuma palavra sobre o Gabriel...
Como era uma psicóloga muito proativa, Priscila rapidamente iniciou uma interação com as duas belas crianças que entraram em seu consultório. O menino era um rapazinho de cabelos cacheados, faces rosadas e sorriso fácil; a menina, bastante parecida com o irmão, distinguia-se apenas pelos longos cabelos e pela face salpicada de sardas. Os pais, imaginando que ela estava interagindo com sua filha Letícia, nada disseram e ficaram apenas observando.
Doutora Priscila, virando-se para a menina, perguntou qual era seu nome. Ela, muito timidamente, respondeu:
— Letícia...
Os pais ficaram estupefatos quando a psicóloga, olhando para a cadeira vazia ao lado da menina, perguntou:
— E você, rapazinho de cabelos dourados... qual é o seu nome?
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
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Monstruosidade
O sol resplandecia imponente no firmamento azul-índigo. Diziam que era o dia mais quente do ano. Dentro da taverna, o calor era enlouquecedor; o suor não parava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O sol resplandecia imponente no firmamento azul-índigo. Diziam que era o dia mais quente do ano. Dentro da taverna, o calor era enlouquecedor; o suor não parava de exsudar da minha tez. Comecei a velar as horas com uma certa frequência, porém os ponteiros insistiam em caminhar morosamente. Parecia que o universo se deleitava com minha inquietação.
Apesar dessas adversidades, minha vida era boa. Tinha uma ótima casa. Trabalhar na taverna possibilitou conhecer muita gente e, consequentemente, suas histórias. Algumas eram fantasiosas por demais; era o caso do João, conhecido pela região por ser uma figura peculiar. Muitos o chamavam de “lunático” por conta de seus causos.
Suas narrativas rompiam o limiar entre a sanidade e a insanidade. Enquanto limpava o balcão, ele surgiu. Sorri e acenei; ele retribuíra minha saudação. Sua presença sempre animava o recinto, porém, enquanto caminhava, notei algo estranho. Conforme se aproximava, vi suas feições adquirirem contornos sombrios e seu olhar estava envolto por uma aura indescritível.
Ele trajava uma camiseta preta e calça jeans, ambas rasgadas e manchadas, e, nos pés, chinelos sujos. As poucas pessoas presentes espantaram-se, pois ele parecia desnorteado. Num estado de hipnose, ele se dirigiu até a bancada e sentou-se onde costumávamos conversar, mas permaneceu em silêncio. Aquele comportamento era estranho até para ele.
— Está tudo bem, João? — perguntei com cautela, mas obtive apenas o silêncio perturbador, acompanhado de um contido, mas assustador, sorriso.
Assustados, os clientes foram deixando o local, um por um. Minha atenção estava voltada para cada movimento seu. Sinceramente, não sabia o que iria acontecer. Talvez fosse melhor chamar as autoridades...
— Sangue, ele está vindo, prepare-se, Roberto — sussurrou João enquanto me encarava com olhos inexpressivos.
Nada me prepara para o desconhecido. Aquelas palavras soaram desconexas e confusas. Naquele momento, um desconforto se apoderou de mim; confesso que me senti observado. Repeti a mesma pergunta e obtive uma inesperada reação: ele começou a arranhar a madeira da bancada, gerando um som horrífico. Os movimentos das mãos foram progredindo, chegando ao ponto de as unhas se quebrarem, espalhando gotas escarlates sobre a madeira.
— Você precisa me ouvir. O Mestre está vindo e não há mais nada que possamos fazer — disse enquanto aniquilava e comia insetos como formigas e mosquitos que ocasionalmente surgiam.
Dito isto, pousou seu olhar nos meus e contou-me um dos mais medonhos causos que aquela taverna já ouviu. Sim, havia uma bizarra semelhança com a clássica obra Drácula, de Bram Stoker. Relatou que ouvira o chamado através de um sonho e, desde então, vive para o tal mestre, que lhe prometeu a eternidade através da aniquilação de pequenos insetos. Abismado, disse que aquilo era loucura e humanamente impossível; porém, ele se tornou mais agressivo, o que não é de seu feitio.
Temeroso pela minha vida, mandei que ele fosse embora. Falei que estava cansado e que precisava de uma boa noite de sono, pois o dia havia sido difícil.
João gargalhou de forma insana e alertou para que eu tivesse cuidado, pois hoje o mestre iria fazer uma visita. Deixou a taverna me encarando com um sinistro sorriso, o qual certamente me causaria pesadelos. Saí o mais rápido possível dali. Respirei aliviado ao entrar em casa. Tranquei a porta, liguei as luzes, tomei banho, comi uma lasanha que fiz no dia anterior, escovei meus dentes e me preparei para dormir.
Meu quarto não é tão grande, mas é confortável. Minha cama fica abaixo de uma janela de madeira deteriorada pela cruel maresia. Ao lado direito, uma mesinha de canto com uma moringa de barro e também uma Bíblia severamente desgastada pelas traças e bastante empoeirada. Em frente à cama, havia um aparador com um televisor. Por fim, um ventilador de teto que também sofreu com a maresia. Deitei-me e logo senti a brisa rastejar sutilmente pelas frestas da janela, produzindo uivos agourentos. Alguns minutos se passaram, comecei a sentir as pálpebras pesarem e finalmente consegui dormir.
Em determinada hora, acordei com uma intensa falta de ar. Em vão, meus olhos arregalados fitaram a pálida parede em busca de respostas. A cama de madeira rangia com pesar. — É apenas um pesadelo — repeti essa frase incontáveis vezes, como um mantra. Aquele medo irracional cravou suas perversas garras em meu corpo. Foi quando ouvi algo lá fora.
O som era semelhante a um sutil, mas imponente, bater de asas. Isto foi o suficiente para deixar as janelas inquietas. Em posição fetal, criei os mais irreais e absurdos cenários. Contemplei, então, uma presença abissal projetando uma densa sombra para dentro do cômodo. Em todo momento, ouvia as palavras proferidas por João e até cogitei considerar a existência de uma criatura tão aterrorizante como o personagem Drácula.
Sufocado, com o corpo encharcado pelo inenarrável, ergo uma das mãos em busca da janela. Abri-a e senti um denso vento gélido passar por entre meus dedos suados. Ao fazer isto, vi as sombras adentrarem, exterminando qualquer resquício de luz. Já não era possível enxergar o branco das paredes. Fechei-a imediatamente, mas já era tarde...
Sua monstruosa presença ocupava todo o quarto. No canto, ele estava a me observar. Mesmo com todo o breu, sua palidez era visível, assim como seus resplandecentes caninos. Percebo a nefasta criatura vindo ao meu encontro. Suas presas eram maiores do que havia pensado.
Ele parou, debruçou-se lentamente sobre mim, saboreando meu sofrer. Não consegui desviar de seu olhar vazio. Sua respiração era intragável. Ouço, então, sua boca abrir, revelando milhares de dentes. De sua comprida língua, gotejava uma saliva pútrida e viscosa. Seus olhos eram hipnotizantes. Antes que pudesse dilacerar meu pescoço, fecho os olhos e grito com todas as forças.
Acordo num quarto diferente do meu. A princípio, era tudo nebuloso. Então, ouço a porta abrir. Duas figuras de jaleco se aproximam.
— Vejo que acordou, Roberto. Como está se sentindo? — sua voz calma ecoou pelo recinto.
— Não sei onde estou. O que está acontecendo?
— Me chamo Pedro Sampaio, sou chefe da psiquiatria. O que direi pode ser assustador, peço que ouça com atenção. Faz alguns meses que você está aqui internado. Vizinhos encontraram você aos gritos, completamente histérico, balbuciando frases desconexas...
Minha respiração se alterou. Alguns fragmentos de memória surgiram em minha mente. Não é possível... Ele estava lá, seus dentes. O João estava certo. Tentei me mexer, mas fui contido, pois havia faixas por todo o meu corpo.
— Enfermeiro, por favor, aplique o sedativo. O paciente entrará em surto novamente. Antes de sentir os efeitos entorpecentes, escuto uma voz familiar cruzar o corredor, cantarolando a seguinte frase: “O mestre chegou e precisa de sangue.” João... é você?
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
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O órgão
Um dia, Lorde Vlad resolveu agir. Era o proprietário de um suntuoso castelo, cuidadosamente desenhado por sua falecida esposa, cujo conhecimento…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Um dia, Lorde Vlad resolveu agir. Era o proprietário de um suntuoso castelo, cuidadosamente desenhado por sua falecida esposa, cujo conhecimento em arquitetura permitiu que cada detalhe daquele lugar fosse confeccionado impecavelmente. Ele sempre considerou um exagero todo aquele espaço e recursos empreendidos em bens que ficarão aqui após sua partida — assim como para ela — que nada pode levar em sua jornada junto a Caronte.
Há algum tempo ele sofrera um mal, segundo suas suspeitas, fora revirado de dentro para fora e pretendiam utilizá-lo em uma doentia vivissecção. À medida que a dor aumentava, mais irascível ficava. Quanto mais raiva, mais cansaço.
Estava pálido, alguns de seus servos diziam que estava tão amarelado que parecia as folhas de outono que flutuam a esmo, comparação essa também em decorrência da visível perda de peso.
Afogava suas dores com bebida forte e sempre exigia que esse elixir fosse preparado mais e mais forte. Ele precisava dormir, só assim esqueceria a dor.
Decidiu consultar os oráculos, quaisquer que fossem suas origens e finalidades, desde que lhe oferecessem alguma solução. Chegou aos magos. Ele nunca se interessou em saber quais eram suas fontes, só pretendia obter a cura. Finalmente havia recebido um plano para sua cura. E assim ele decidiu oferecer um jantar.
Todos os homens do reino, entre 25 e 35 anos, foram convidados. O primoroso convite dizia que aquela noite seria uma data especial na história daquele local, pois o Lorde escolheria um dentre aqueles felizardos para receber o castelo e toda sua fortuna como herança. Como pode-se imaginar, todos os convidados não ousaram abster-se do convite.
No dia fatídico, chegaram cedo. Uma fila extensa se formava em frente aos enormes portais do castelo, que só foram abertos no horário exato. Os homens estavam animados e logo já foram servidos barris da bebida que o Lorde tanto apreciava. Após horas de confraternização entre si, finalmente, o grande banquete seria servido.
Mal sabiam eles que todo este tempo Lorde Vlad já os observava, pois pretendera escolher o homem mais respeitoso, sincero e gentil.
Após horas de comilança, Lorde Vlad interrompeu o burburinho e a algazarra generalizada, tocando com um talher de ouro em sua taça repleta do elixir:
— Meus bons homens, espero que tenham apreciado essa singela cerimônia. Não tenho a intenção de atrapalhar vossas conversas, mas preciso contar-lhes algo. Há alguns meses venho sofrendo mazelas, as quais não desejo nem ao pior dos meus inimigos. Em consulta aos sábios, descobri que seres espectrais tentaram contra minha vida e retiraram meus fluidos e órgãos com suas próprias mãos ressequidas. Devolveram as minhas partes para dentro de mim, mas os efeitos desse procedimento horrendo sinto até agora. Não sei até quando durarão meus dias nesta terra e, como não tenho herdeiros, preciso passar meu legado a um de vós aqui presente.
Um silêncio perturbador preencheu o enorme espaço. Mesmo com muitos convidados, ainda havia espaços vazios, mas o ar tornou-se pesado ante a este pronunciamento. Lorde Vlad, por fim, adentrou a espessa névoa que suas palavras haviam procriado:
— Meus bons homens, por obséquio, não me olhem com essas caras funestas. Tudo o que lhes digo é para que entendam meus motivos. Comam e bebam. À meia-noite irei anunciar meu escolhido.
Sob o efeito da bebida, todos os homens voltaram à alegria descomedida de outrora, como se ao se calar Lorde Vlad tivesse despausado a cena e todos pudessem voltar a rodar e girar sem limites.
Meia-noite. Desta vez, o pronunciamento foi exigido após os acordes do suntuoso órgão, que viera de terras longínquas, mas era como se uma marcha fúnebre retumbasse. A música ressoava tão forte que balançava as estruturas ósseas dos presentes. Horlok foi o escolhido, o herdeiro. Era o único sóbrio e sério.
Todos foram convidados a se retirarem. Restava agora a Horlok discutir os termos deste acordo. Deveria ter o seu nome no testamento.
Foi levado a um corredor, permeado de incontáveis portas, que, segundo o servo, eram alguns dos quartos do castelo. Ao final do corredor, chegaram a uma câmara iluminada, onde o Lorde e um senhor com roupas extremamente limpas o aguardavam.
Horlok não conhecia a aparência de autoridades da lei, mas aquele senhor não se parecia com um deles, arriscou pensar que era um médico.
— Sou o doutor Seward. O Lorde precisa saber o quão saudável és, pois não almeja correr risco de que seu castelo caia em mãos inimigas.
E sem esperar qualquer resposta ou reação de Horlok, segurou-o com ajuda dos servos, para que ficasse firmemente colado à mesa. Lorde Vlad estava deitado na mesa ao lado.
Após alguns minutos, Horlok estava inerte. Alguma mistura, que mais tarde seria conhecida como ópio, foi enfiada brutalmente em seu corpo. Suas mãos jaziam em cada um dos lados da mesa. Um corte profundo em seu abdômen permitiu que seu órgão fosse cuidadosamente retirado. O sangue escorria sem parar, mas o doutor não iria perder tempo com isso. Um corpo ao lado esperava ansiosamente pelos novos anos de vida que aquele pedaço marrom iria lhe proporcionar.
E Horlok sucumbiu. E quem diria que a má educação e hábitos torpes daqueles outros homens um dia salvariam-lhes a miserável vida.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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A Melodia da Noite
Em um cemitério antigo, esquecido pelo tempo e pela memória humana, repousava uma presença mórbida, imóvel e serena. As lápides, gastas pelo vento e pela chuva…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Em um cemitério antigo, esquecido pelo tempo e pela memória humana, repousava uma presença mórbida, imóvel e serena. As lápides, gastas pelo vento e pela chuva, desenhavam sombras longas que se confundiam com a escuridão da noite. Ao redor, o ar carregava o cheiro úmido da terra e o sussurrar de folhas secas, como se cada detalhe conspirasse para manter a paz que reinava há séculos. Ninguém poderia imaginar que, sob a terra fria, uma figura masculina descansava na sombra. Muitas almas haviam cruzado o lugar, histórias nasceram e morreram entre túmulos de mármore e pedra, mas nada, nem o tempo nem os viventes, fora capaz de perturbá-lo. Até que, numa noite como qualquer outra, algo rompeu a eternidade do silêncio.
Não era a fome que o despertava, mas uma voz. Uma melodia feminina, doce e cortante, atravessando a terra e o tempo, penetrando a escuridão de seu sono com insistência. Palavras estranhas e ao mesmo tempo familiares ressoavam, acompanhadas por sons metálicos, arranhados, que seu ouvido antigo não conhecia. A combinação era quase dolorosa em sua intensidade. E, ainda assim, havia algo nela que o chamava. Algo que o forçou a abrir os olhos em meio à escuridão de sua tumba, arrancando-o do repouso dos condenados.
Garras longas arrombaram a tampa da tumba, liberando a poeira antiga no ar frio. Da escuridão da câmara subterrânea, a figura do vampiro emergiu. Alto, esbelto, a pele pálida refletindo a luz da lua. Os cabelos loiros, levemente desalinhados, caíam sobre a testa, revelando um rosto aristocrático, de traços delicados e olhos azuis profundos que carregavam séculos de segredos. A capa negra arrastava-se pelo chão, levantando pequenos tufos de poeira, enquanto o resto das roupas — outrora elegantes — denunciava o desgaste do tempo.
Ainda atordoado pelo despertar, ele caminhou entre os túmulos, sentindo o frio da noite penetrar seus ossos imortais, absorvendo cada som, cada cheiro, cada sombra. O chamado daquela voz continuava a guiá-lo, mais insistente a cada passo, conduzindo-o até fora do cemitério. A praça diante dele surgia banhada por lâmpadas mortiças e pelo brilho distante da lua, que parecia conspirar para destacar cada detalhe do mundo desperto ao redor.
Ali, sob a luz difusa, estava ela. Uma mulher que, à primeira vista, parecia pertencer à própria noite. Seu cabelo negro caía sobre os ombros como uma cortina de seda, contrastando com a pele pálida, quase etérea. Os olhos escuros, profundos, carregavam uma melancolia pensativa, reflexiva, uma inteligência silenciosa que se percebia em cada gesto, cada pausa, cada respiração.
Em sua cintura se emoldurava um espartilho sob o longo vestido negro, emanando sensualidade e adornado com rendas, revelando simultaneamente força e delicadeza. A guitarra em suas mãos parecia uma extensão de sua própria alma e corpo; os dedos deslizavam pelas cordas com uma ferocidade natural, extraindo sons que misturavam violência e doçura. Cada nota parecia narrar suas memórias, suas reflexões e sua solidão ao cantar.
Para ela, o mundo desperto e mecânico nunca a fascinara. As luzes artificiais, o barulho das cidades, as obrigações humanas, tudo isso a cansava em demasia. Por isso escolhera a música, por isso tocava à noite, quando a atmosfera da madrugada e o vento frio a tornavam mais viva, mais intensa. E naquela melodia carregada de emoções, havia algo que o vampiro jamais experimentara: uma afinidade silenciosa com sua própria essência eterna.
Ele se escondeu entre as sombras, hipnotizado. Cada acorde atravessava seu ser como uma lâmina, cada pausa da música o fazia flutuar entre o desejo e a curiosidade. Não era apenas o som que o atraía, mas a essência que dela emanava — a melancolia, a capacidade de se destacar do mundo comum, a forma como abraçava a noite como se fosse uma aliada em sua voz.
Quando a última nota cessou e ela parou de cantar, com cuidado ela começou a guardar o instrumento e desmontar seu equipamento. Desmontou o suporte do microfone e o guardou, acomodou a guitarra na bolsa e recolheu os cabos do amplificador enquanto observava ao redor e percebeu a presença dele ao longe. Ele, entre as sombras, deu alguns passos adiante, o magnetismo da presença irradiando em ondas quase tangíveis. A pele branca refletia a luz da lua, os cabelos loiros captavam cada nuance do brilho noturno, e os olhos azuis profundos a analisavam, ironicamente fascinado e envolto em mistério.
— Boa noite — disse ele, a voz grave, carregada de um magnetismo que parecia esticar o ar ao redor.
Ela inclinou a cabeça, apenas curiosa.
— Você estava me ouvindo? Parece diferente das pessoas daqui!
— Diferente? — Ele indagou, com certo sarcasmo, quase em um sussurro. — Sua música me chamou a atenção, seu instrumento que é diferente e sua voz é bela. Quando você toca parece atravessar a noite e os séculos, como se já conhecesse inúmeros segredos.
Ela sorriu levemente, intrigada, tentando entender o fascínio dele, se era por ela ou pela guitarra. Até que indagou:
— E qual seria o nome do meu admirador? — Ele logo respondeu:
— Sou conhecido de muitas formas, mas gostaria que me chamasse de Amdis. E qual é seu nome, minha cara?
Ela colocou a guitarra nas costas, seguida por um trejeito de quem já tinha certa prática, e voltou a atenção para ele ao responder:
— Me chamo Margot, combinando com o amargor da vida.
Os dois iniciaram uma conversa leve, entre risos e olhares cúmplices. Sentaram-se em um dos bancos da praça, ao lado de um esqueleto falso posicionado de forma curiosa: pernas cruzadas, um chapéu na cabeça e um cigarro preso entre os dedos como se estivesse fumando. A estranha figura chamou a atenção de Amdis, o vampiro que brincava de ser humano. Intrigado, ele perguntou o motivo de aquilo estar ali.
Ela explicou que era outubro, mês do Halloween, e que alguns pontos da cidade estavam decorados com enfeites semelhantes. Ela achou estranho ele perguntar, já que estava vestido de uma forma tão não convencional, com roupas tão maltrapilhas, quase como um zumbi. Amdis achou graça e, em um gesto teatral, fingiu fumar o cigarro do esqueleto, arrancando dela uma gargalhada. Ele conseguiu driblar a desconfiança dela dizendo que ele não lembrava de enfeites como aquele nos lugares, mas já estava experimentando seus trajes para a noite da festa.
Entre a conversa, pequenos flertes surgiam inevitáveis, mesmo quando ela tentava disfarçar. Um olhar mais demorado, um sorriso cúmplice e a forma como ele inclinava o corpo na direção dela em alguns momentos. Ele percebia o rubor contido no rosto de Margot, e se divertia em provocar. No fundo, era algo natural, como se aquela atração simplesmente os unisse sem que pudessem evitar.
— Eu gostaria de acompanhá-la, se me permitir passar um tempo com você — murmurou ele, como se desejasse pronunciar aquelas palavras desde seu despertar. — Há um lugar onde o tempo não ousa tocar, onde posso mostrar-lhe o que é realmente a noite. Se quiser...
— Então, “viajante da escuridão”, não sei se devo aceitar — ela provocou, de maneira sutil. Hesitante, não pela estranha imagem dele, mas pelos perigos que a noite realmente reserva para as mulheres.
Ela hesitou apenas por um instante, contemplando a aura sedutora dele, a luz dos postes refletida na pele pálida, e o ar de mistério que o envolvia. Então, ela assentiu, mesmo hesitante. Ele se ofereceu para carregar o instrumento guardado, mas ela recusou e ofereceu a caixa do amplificador para que ele carregasse, assim ele fez. Juntos, eles caminharam um pouco sem rumo.
Por onde passavam estava silencioso, exceto pelo farfalhar de algumas folhas secas sob os passos deles na calçada e o sussurro do vento frio que se infiltrava entre as árvores da praça. Cada passo parecia prolongar o tempo, e a noite ao redor tornava-se mais densa, mais intensa, envolvendo-os em seu manto. Ele caminhava ao lado dela, mas não de forma invasiva, cada movimento era calculado.
Em um momento ela olhou de soslaio, curiosa, e encontrou aqueles olhos azuis que pareciam mergulhados em sua alma. Eles caminharam para longe da praça, seguindo por ruas silenciosas; ela imaginava que iriam até um bar perto dali.
— O que acha de nosso passeio e porque resolveu vir comigo? — perguntou ela, curiosa. — Não acho que há nada em mim que mereça sua atenção além do que eu estava tocando.
Ele liberou um sorriso cínico, um gesto irônico e humano ao responder:
— Não é apenas sua música que me chama a atenção. É você. Sua forma de existir. Como você parece pertencer à noite. Acredito que seja algo raro encontrar alguém que viva assim, que respire o noturno como se fosse ar enquanto canta.
Ela suspirou, quase sem perceber, sentindo o frio da noite misturar-se àquela estranha sensação que percorrera seu corpo ao ouvi-lo pronunciar aquelas palavras. Ela finalmente percebeu um sotaque que não era comum na voz dele.
— Sua voz é estranha, mas sobre o que você falou, eu meio que sempre me senti… deslocada entre as pessoas vivas. O mundo desperto, com sua pressa e barulho, me deixa ansiosa. Talvez, seja por isso que a música se tornou o meu refúgio particular — ela disse, olhando para o céu noturno, a lua estava refletindo um brilho azul em seus cabelos negros. — Aqui, à noite, sinto-me mais viva e tranquila por algum motivo!
Ele permaneceu em silêncio por um instante, absorvendo cada palavra que ela dizia, cada nuance e cada pequena hesitação. Então ele disse, diminuindo o volume na voz:
— Você é diferente, sim. Diferente de tudo que já conheci. A melancolia que carrega não é tristeza; é consciência. Sinto que você possui uma sabedoria que a maioria despreza. Por isso, fascina-me.
Ao ouvi-lo falar, ela se sentiu estranhamente reconhecida, como se ele tivesse lido cada camada que escondia atrás do sorriso e do olhar distante que adornava a face por trás do que cantava.
— E você? — ela perguntou, sem conseguir evitar demonstrar interesse. — O que carrega dentro de si que permite que veja tanto em uma pessoa desconhecida?
Ele sorriu novamente, com aquele ar de ironia e mistério que a deixava inquieta.
— Segredos. Séculos de segredos. Observação. Experiência. Um toque de ironia. E, às vezes, fascínio genuíno pelo que é raro e belo — disse, a voz melodicamente se misturando ao sussurro breve do vento.
Ela sorriu e desviou o olhar quando o silêncio caiu sobre eles, confortável, mas carregado de uma tensão entre eles quase palpável, uma troca de olhares sedutores. A cada passo, uma estranha conexão entre os dois parecia nascer, mesmo sem palavras. A noite parecia dobrar-se ao redor deles, os sons da cidade desaparecendo, substituídos pelo bater do coração dela e pelo ritmo antigo e constante da eternidade dele.
Ela parou por um instante, sentindo a presença dele tão próxima que podia perceber a sutil respiração, mesmo que ele não precisasse respirar. O calor que emanava daquela proximidade despertava nela uma inquietação doce, um desejo não dito.
— Este lugar que estamos indo… — disse ela, inclinando-se na direção dele com um leve deslize na voz, curiosa. — É seguro para mim lá, não é?
Ele inclinou a cabeça, aproximando-se a ponto de seus lábios quase tocarem o ouvido dela, os olhos azuis ardendo sob a luz da lua. Ela estava hipnotizada por ele.
— Seguro… — murmurou, deixando a palavra pairar entre eles, como se tivesse um sabor secreto. — Acredito que isso vai depender do que você entende por segurança. Mas lá, você sentirá a noite como nunca antes. Longe dos vivos, do tempo, do mundo mecânico que insiste em nos moldar. Apenas nós dois e a noite. Você vai gostar da minha companhia!
Ela respirou fundo, sentindo o frio da madrugada penetrar em seus ossos, mas também um calor estranho e intenso que emanava dele. Ela queria abraçá-lo. A melancolia dela encontrou ecos na profundidade da presença dele. Era como se ambos tivessem se reconhecido na “vida” que compartilhavam de maneiras distintas.
— Então, vamos — disse, decidida, mesmo com o coração acelerado. — Mostre-me a sua noite!
Ele assentiu, quase imperceptivelmente, e estendeu a mão. Ela hesitou por uma fração de segundo, mas a tomou, sentindo um arrepio percorrer seu corpo ao toque da pele pálida e fria dele. Cada passo dali em diante parecia mais intenso, cada sombra mais escura, o silêncio mais carregado de significado. O mundo desaparecia atrás deles, e apenas a escuridão testemunhava a aproximação do que viria.
Finalmente, chegaram a um local ermo, uma encruzilhada, afastada do mundo desperto da cidade, onde o vento soprava com mais intensidade, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e das folhas em decomposição. As árvores se inclinavam como testemunhas silenciosas, e a lua cheia banhava o espaço com uma luz prateada, quase líquida. Ali, o tempo parecia dobrar-se; os sons da cidade não mais existiam, apenas o ritmo constante da noite e o silêncio profundo que abraçava cada passo deles.
Ele parou, olhando para ela com os olhos que pareciam abismos. Sua pele branca refletia a luz da lua, tornando-o quase etéreo. A capa empoeirada se espalhava ao redor de seus pés, e o vento agitava os cabelos longos e loiros de forma quase teatral. Eles se aproximaram num ímpeto inevitável assim que ele colocou o amplificador no chão. Quando os corpos se encontraram, ele roçou os lábios frios contra os dela. Ela deixou escapar um suspiro entrecortado de sofreguidão, cedendo ao toque com a urgência de quem desejava muito mais que apenas um beijo.
— Aqui… — disse ele, a voz grave e envolvente — é onde a noite pode tocar você de verdade. Sem distrações, sem medo, apenas nós e o que ela nos oferece.
Ela sentiu o coração acelerar, mas não de medo. Era uma mistura de expectativa e fascínio, como se cada fibra de seu corpo soubesse que algo mudaria para sempre, ela o desejava.
— Eu confio em você — murmurou, a melancolia ainda presente, mas suavizada pela curiosidade e pelo desejo. — Mostre-me, então, a noite que você conhece!
Ele se aproximou, o magnetismo da presença dele tornando-se quase insuportável, e estudou seu rosto com atenção, os olhos dela brilhavam. Cada traço, cada olhar, cada hesitação revelava uma alma rara, e isso o fascinava profundamente, quase de forma perturbadora.
Os olhares se encontraram de novo, e o ar pareceu suspender-se entre eles. Ele a puxou contra o peito, a capa envolvendo-os como um véu de sombras. O beijo veio urgente e faminto. As mãos dele apertavam a cintura dela, suas costas, puxando-a com uma força que a fazia tremer; as mãos dela se perderam nos cabelos loiros, apertando-os enquanto a boca dele a quase devorava.
Ela arfava entre um beijo e outro, sentindo o corpo arder em um misto de desejo e vertigem. O mundo desaparecia, só havia o frio do corpo dele e a chama que aquilo acendia nela. Então, os lábios dele deslizaram pela curva de seu rosto, até a pele exposta do pescoço. O roçar dos lábios frios a fez estremecer, e por um instante ela percebeu o perigo, mas não recuou. Então, num gesto rápido, mas quase poético, ele tocou-lhe o pescoço com os dedos frios.
— É necessário — disse, sua voz baixa e reverberante — que você aceite o dom, se quiser compreender a noite em sua plenitude.
Ela fechou os olhos, sentindo a tensão subir pelo corpo. Por um instante, hesitou, mas o magnetismo dele, a aura eterna e a paixão a tomaram. Quando ele mordeu suavemente a carne, o frio se misturou a uma estranha euforia, e ela sentiu a energia da eternidade percorrer suas veias. A dor era fugaz, substituída por um êxtase sombrio e fascinante, como se a própria essência da noite estivesse se infiltrando nela.
Tudo se dissolveu. Restava apenas a escuridão que pulsava com intensidade, e o vampiro, cuja presença agora se tornava parte de sua própria consciência. A paixão que ela sentia parecia mais aguçada.
Quando o êxtase passou, ela abriu os olhos e percebeu que tudo havia mudado. Amdis estava sentado com ela em seu colo no chão da encruzilhada, afagando os cabelos negros dela com carinho. A guitarra estava a alguns metros de distância deles, como se tivesse sido largada de qualquer jeito perto do amplificador.
Ele sorriu para ela enquanto ela abria os olhos para o mundo noturno, seus olhos pareciam outros, ela enxergava formas perambulando ao redor deles, formas que ela não sabia explicar.
A pele parecia mais clara que antes, os sentidos mais aguçados, cada sombra, cada sussurro do vento, cada farfalhar distante de asas noturnas carregavam uma vida própria. Amdis endireitou a coluna, afastando-se um pouco, apenas o suficiente para contemplá-la melhor. Seus olhos azuis refletiam uma mistura de orgulho cínico e paixão ardente.
— Bem-vinda à noite, vampira Margot! — disse ele, com um sorriso enviesado. — Ao tempo que não termina, à eternidade que não cessa.
Ela olhou para ele, absorvendo a transformação, sentindo-se ao mesmo tempo viva e imortal, uma nova entidade, ligada para sempre à escuridão, à música e à melancolia que agora compartilhava com ele, quem a trouxe para este destino e tinha roubado seu coração.
E naquele silêncio, onde apenas o vento e a lua testemunhavam, dois seres da noite permaneceram lado a lado, eternamente ligados pelo mistério, pelo fascínio e pelo desejo.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
As gavetas dos últimos dias
São Paulo, terra da garoa e dos mortos. A violência é intensa, isso não podemos negar, e com isso a vida desacontece a todo momento. Aprendemos a lidar com a morte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
São Paulo, terra da garoa e dos mortos.
A violência é intensa, isso não podemos negar, e com isso a vida desacontece a todo momento. Aprendemos a lidar com a morte, ela é nossa fiel escudeira, única acompanhante nos becos, nas estações vazias e viadutos abandonados.
E nunca se sabe quando o encontro fatídico ocorrerá, e ele ocorre para a maioria da população mais cedo do que se pode esperar.
Com o acúmulo de corpos sem vidas, uma Companhia percebeu a demanda e fez uma oferta irrecusável. Uma vez que os cemitérios tradicionais já não comportavam o volume de corpos, surgiu a brilhante ideia: e se eles fossem condicionados verticalmente, tal qual o Japão que adaptou suas lavouras às condições e criou robustos sistemas de hortas verticais. Prédios vazios e sem uso comercial foram transformados em criptas, onde o céu era o limite. E como havia espaço até que as bordas dos edifícios tocassem a beira do firmamento.
Os edifícios eram arrematados em leilões. Empresas que declaravam falência eram as principais ex-proprietárias. Estavam, em sua maioria, em ótimo estado, alguns precisavam ter a energia elétrica religada, pois estavam há meses sem pagamento, mas nada que onerasse a Empresa da morte. O fim da vida tornara-se algo lucrativo e tinham certeza de que logo recuperariam o valor investido, o lucro viria.
Os elevadores eram enormes, como bunkers reforçados de aço, robustos e impenetráveis. Após os possíveis ajustes, cada andar era remobiliado: saíam as baias que antes abrigavam os humanos sobreviventes de suas rotinas miseráveis; entravam as gavetas onde eram condicionados os corpos, agora, sem vida.
A visão daquelas caixas perfeitamente encaixadas causava satisfação para quem observava, tudo era limpo e quieto, o SPA após a vida. Quem visitava esses decorados ficava encantado com a disposição impecável, de certo, esse era o descanso merecido.
Renan era o corretor mais bem-sucedido daquela Companhia. Seus argumentos e simpatia comedida sempre eram convertidos em vendas, mesmo quem não queria, pois dizia não ser “bom agouro comprar o lugarzinho ali”, acabava sendo seduzido por suas dóceis palavras. Se buscar o conforto próprio não era o suficiente, ele apelava para o dos entes queridos, e a esse discurso ninguém ousava olvidar.
Naquele dia tinha agendado uma visita para as 14h, e como de costume chegou mais cedo ao local. Cumprimentou Olivia, a recepcionista com quem tinha uma amizade discreta, e entrou no elevador.
As teclas, numeradas de 1 a 16, o perscrutavam, esperando o momento em que uma delas seria tocada, e após uma espera de milésimos de segundos, a 13ª saiu vencedora.
1, 2, 3...
Quando a gaveta de ferro iniciou a subida, bateu as mãos nos bolsos: “Putz, esqueci o celular”. Apertou o 0, mas o elevador seguiu fielmente sua missão e continuou a subida até o andar selecionado.
4, 5, 6...
Obedecendo a pensamentos intrusivos, apertou a tecla 8, mas o elevador ignorou seu pedido e continuou seguindo cegamente a programação. “Como sou burro, ele respeita a ordem de seleção, agora vai demorar mais ainda para descer, mais uma parada inútil.”
Tentou calar a voz da ansiedade. A caixa de metal finalmente chegou ao 13º andar. Parou. Era esperado as portas demorarem 3 segundos para abrir, sim, ele tinha contado durante algumas crises de ansiedade. O medo de um dia ficar preso dentro daquilo era vencido pelo sedentarismo, subir 13 lances de escadas não iria rolar, mas agora se arrependia da tola decisão. Dez segundos passaram, as portas insistiram em permanecerem cerradas. Pressionou outra tecla, aquela com ícone de telefone para caso de emergência, alguém atenderia e diria que estava tudo bem, seria resgatado. Mas não ouviu voz humana, aliás, não conseguiu distinguir o barulho, parecia uma geladeira que grita do nada na madrugada. Sentia a respiração descompassada, dançando uma música sem ritmo e sem nexo.
“Que droga, respira, 1, 2, 3... Como a Carla ensinou”. Carla era a terapeuta, partes de suas manias e fobias foram amenizadas com as sessões, mas nada o havia de fato preparado para aquilo. O elevador desceu de forma violenta, como se 1, 2, 3 fosse um comando de voz, luzes piscando como uma discoteca infernal.
Parou bruscamente, pareceu ter atingido os limites do solo. Com a freada, Renan caiu de joelhos, que ardiam com o impacto brutal. “Que merda foi essa?”.
As luzes estabilizaram e o coração insistia em sair pela boca, mas ele o engoliu e o forçava a bombear sangue, mesmo irrigando partes que não deveriam, molhado demais. “Pera, eu mijei?”.
Conseguiu levantar-se após empregar força sobre-humana em seus joelhos, as pernas ainda tremiam, mas era de medo.
Apertou novamente o botão que o salvaria, mas nada, outros ruídos surgiram.
Deslizou derrotado na parede em frente à porta, aquela situação era demasiadamente difícil para ele. Olhou para cima, buscando um deus no céu de aço, e encontrou o painel, que indicava o número dos andares, piscando em alto e bom neônio vermelho: -10.
Pensou e riu consigo mesmo que havia chegado a um ciclo, até então, desconhecido do inferno.
Enquanto lamentava sua situação, algo lá fora arranhava a porta e forçava entrada. “Era melhor ter morrido esmagado”.
O teto, obediente à sentença proferida pelo miserável, desceu rápido e implacável. Metal contra carne. Não houve grito, somente os estalos dos ossos cedendo e esmigalhando, fundindo elevador e homem em uma massa disforme única.
Não era o jazigo que havia comprado, mas era o único e último que teria.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A última penitência
Já estava acostumado a descer aquela escada de pedra. Tão saturado, que já não percebia mais o cheiro úmido e o fedor de bolor invadindo suas narinas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Já estava acostumado a descer aquela escada de pedra. Tão saturado, que já não percebia mais o cheiro úmido e o fedor de bolor invadindo suas narinas como na primeira vez. Mas ainda sentia o toque molhado das paredes, ao apoiar a mão para não cair. A cada descida, parecia mais velho, como se os degraus roubassem um pouco de sua vitalidade. Aquela escada, escondida atrás do altar, conectava a majestosa nave da igreja à cripta silenciosa no subsolo.
Com os anos, a tarefa tornara-se cada vez mais árdua: seus ossos doíam, e as pedras soltas rangiam sob seus pés como se respondessem ao lamento de suas articulações. O musgo, que crescia livremente pelas paredes e degraus, transformava o caminho em uma armadilha traiçoeira. Mais cedo ou mais tarde, seria ele a habitar aquela cripta.
— Causa da morte? Escorregou nas escadas e bateu a cabeça — resmungou, enquanto descia vagarosamente.
O que tanto ocupava o coroinha, que nunca atendia sua ordem de limpar os degraus? Seria ele o único a respeitar os mortos? O único que se lembrava das almas abandonadas?
— Santo Deus, tende misericórdia deste vosso pobre servo... — murmurou, enquanto os ecos de sua voz se misturavam ao silêncio da cripta. — Talvez eu seja mesmo o único a me importar. Um padre enrugado no fim da vida, que insiste em descer até aqui para orar e acender velas por estas almas esquecidas.
Quando tocou o chão com a ponta dos pés, pareceu que iria cair. A fraca luz da lamparina bruxuleava contra as paredes, sob o efeito de seus braços trêmulos. Eles fraquejavam com o peso dos anos. A luz dançava e iluminava diferentes partes dos esquifes que ali se encontravam. Sem problemas: mortos não enxergam. Portanto, não precisam de luz.
Colocou a lamparina ao lado de um deles. Ajeitou os cabelos, levando-os para trás das orelhas. Retirou a vela do bolso, acendeu o pavio, ajoelhou-se e começou a orar. Tudo ocorria como sempre, de forma mecânica. A mesma sequência de preces; em seguida, cerrava o missal e voltava para a vida lá em cima, não sem antes permanecer mais algum tempo lá, numa tarefa que exigia sua atenção, conforme explicava ao coroinha, sempre que se atrasava.
— Eu oro pelo dever. Nenhuma ovelha deve ser deixada para trás. Até mesmo aqueles que morreram merecem socorro e uma chance de penitência. E eu dou atenção a eles…
Mas, de alguma maneira, se perdia em seus pensamentos: após sua morte, quem faria isso por ele? Provável que prestassem grandes homenagens no seu velório. Mas quem viria até ali? Após ser depositado ali mesmo, quem se lembraria de descer e acender uma vela por ele?
Pensava sobre se o que fizera até ali, fora certo. Achava que na maior parte de sua longa vida, sim. O resto, aquilo que não ousava nem falar para si, deixava quieto e apodrecendo, soterrado por anos de camadas e mais camadas de beatices e ritos sagrados.
Na sua soberba, que nem ele ousava revelar para si mesmo, achava-se superior aos outros: o mais digno de ingressar no céu daquela paróquia. Após anos de servidão, Deus havia de o perdoar sem pestanejar.
Foi quando fez menção de fechar o missal que o notou. Molhou os lábios e engatou mais um pai nosso, depois mais uma ave-maria, enquanto tentava captar com a visão periférica quem tinha ido até ali procurá-lo.
O vulto estava de pé. Tinha a impressão de que era da mesma altura que ele. As costas eram menos encurvadas. Ouvia apenas o som de goteiras, marcando a passagem do tempo, feito um relógio descompassado.
— Não se entrará no céu com meia dúzia de rezas.
O velho padre assustou-se. Aquela voz ecoando no vazio de sua alma. Suas mãos começaram a suar. Empertigou-se. Dançou com os joelhos cansados e doloridos sobre o chão de pedra, procurando uma penitência tolerável. Fez os joelhos e os quadris chacoalharem em conjunto. Isso lhe conferia uma aparência fraca e patética.
— Dançar sobre os joelhos também não adiantará… O passado é imutável.
— É por isso que ele deve ser deixado onde está. Vá embora!
— Eu não teria tanta certeza… — O homem retrucou. — Nele, não se muda nada, mas é dele que nasce o futuro.
Quem quer que fosse, estava tentando intimidá-lo. Reparou que, após terminar de falar, o homem molhou os lábios. A luz iluminava apenas a metade de baixo de seu rosto, o qual achou familiar. Tinha a impressão de que já o conhecia. Quando ia perguntar se a arquidiocese havia mandado alguém para visitá-lo, o homem continuou:
— O passado molda o futuro. Hoje, Katia e Helena foram separadas.
— Não conheço Katia, nem Helena. Vá embora, estou ocupado! Logo atendo o senhor lá em cima.
— Teria conhecido! — O homem interrompeu o padre rudemente. — Mas negou abrigo para ambas, na época das chuvas. Perderam a casa para a enchente. Uma delas morreu.
— Não pode me julgar, o senhor não é Deus!
— Será mesmo que não sou? Mas garanto que o Maurício pode julgar.
— Não quero saber desse Maurício.
— É o mendigo que você expulsou ontem. Suicidou-se. Achou que não era digno, nem na casa de Deus.
— Eu não sou responsável por isso.
— Tudo isso sem mencionar sobre você e o coroinha, bem aqui. Santo Deus!
— Eu parei há tempos... Me arrependi, já dei a conhecer o meu crime no confessionário. Cumpri a penitência. Nada devo — respondeu calmamente.
— Acho engraçado como um homem pensa que pode apagar pecados após o sacramento da confissão.
— Além de pagar a minha penitência, eu não voltei a pecar, deixei o coroinha em paz.
— Que arrogante!
Aquele que debatia com o padre constatou.
— Nenhuma penitência lavará o pecado que repousa nessa cripta.
O homem encostou um ombro numa coluna de pedra, umedeceu os lábios antes de continuar a falar:
— Os homens não têm poder algum sobre o que é digno de perdão ou não. A única liberdade que lhes foi dada é o livre-arbítrio. Pensa que está tomando um atalho para o céu, quando mente para si mesmo.
— Agora, apenas dou vazão aos meus instintos, aliviando-me aqui.
Eximiu-se o religioso de sua culpa.
— Por que não na privacidade de seu quarto? — questionou o homem com genuína curiosidade.
— Não é o ato… é o pecado que me excita — disse, ajeitando o que tinha entre as pernas.
— Culpado!
— Não... Mas quem é você? Eu não sabia que estava sendo julgado. Isto é um absurdo! — o padre protestou.
— A sua penitência será não mais visitar essa cripta. Se insistir, invariavelmente aparecerei, mas dessa vez nada direi! — advertiu o homem, seu rosto ainda oculto pelas sombras.
O pároco, com medo que fosse alguém da alta cúpula da Igreja, saiu em disparada. Ao cruzar com o indivíduo, notou que ele ajeitava o cabelo atrás da orelha.
Não esperou que o homem saísse de lá e, como naquela semana não ouviu e nem recebeu nenhuma visita ou ligação de algum bispo, ou arcebispo, achou que o episódio com o homem misterioso da cripta era fruto de sua mente que não dormia há dias. Permaneceu alguns dias longe da cripta, mas após a missa de domingo, desceu até lá.
Após cumprir seu rito em homenagem aos mortos, já ia subindo as escadas. Mas conforme subia a escada, sentiu algo se avivar em meio às suas calças e não conseguiu se controlar. Deixou a lamparina em uma das saliências de pedra na parede, ergueu a batina e ali, no escuro, começou a acariciar-se. Terminou o ato feliz e satisfeito, até sorria, tendo certeza de que a conversa na cripta que correra na semana passada, fora um delírio de sua parte…
Subia as escadas com a cabeça abaixada, prestando atenção aos degraus. Estacou repentinamente, quando viu que havia um homem parado em um deles. Reparou que os sapatos eram iguais aos seus, arriscaria dizer que até eram do mesmo número. Foi erguendo a cabeça, reparando que a calça e a batina eram as mesmas. Até que chegou ao rosto.
Abriu a boca estupefato. O homem era uma cópia perfeita sua, mas a expressão era de decepção. Sem dizer uma palavra, empurrou-o escada abaixo. O padre bateu a cabeça várias vezes, o que causou sangramento cerebral e morte.
O novo padre da paróquia incumbiu o coroinha de cuidar da cripta da igreja, local onde o corpo mais recente a habitar fora o do último padre que morrera ali mesmo no subsolo. Toda semana o coroinha descia para limpar as tumbas e lavar o chão. Sempre acendia uma vela para o antigo padre.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Sapateiro e o Gigante
Na beira do oceano ficava uma aldeia de pescadores. Era um vilarejo pequeno, lugar muito pacato onde a maioria dos homens trabalhava no mar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Na beira do oceano ficava uma aldeia de pescadores. Era um vilarejo pequeno, lugar muito pacato onde a maioria dos homens trabalhava no mar, seus barcos de pesca espalhados pela baía de águas calmas, que se formava logo em frente à praia branca do píer. Ali também morava um sapateiro, moço novo que tinha aprendido a profissão com seu velho pai. Desde pequeno ele ajudava a engraxar os sapatos, reformar couro gasto e colar meias-solas. O rapaz tornou-se muito bom naquele ofício e aprendeu a construir botas muito resistentes. Seus sapatos tinham ótima qualidade, encaixavam perfeitamente nos pés dos clientes, amorteciam a pisada com a base cheia de cortiça e a costura apertada não deixava que qualquer umidade adentrasse. Além de tudo, eram bonitos, com forma perfeita e verniz de brilho impecável.
As botas que ele fazia eram muito apreciadas pelos navegantes e aventureiros que vez ou outra passavam pela aldeia. Também tinha exímia habilidade com sapatos finos, com seu acabamento primoroso para vestir autoridades e também belas moças. Ele, como ninguém, sabia fazer saltos firmes que ainda assim eram confortáveis.
O sapateiro ficou conhecido pela qualidade do seu trabalho, viajantes de todo o mundo aproveitavam para fazer suas encomendas quando seus navios mercantes estavam aportados, principalmente os marinheiros que precisavam de botas resistentes para a lida no mar, que não fossem se corroer facilmente com a umidade e o sal.
A vida naquela aldeia era muito calma e lenta, os anos se passaram vagarosamente durante toda a juventude do sapateiro. Todo dia, com o nascer do sol no leste, os barcos eram desamarrados do píer e enchiam a paisagem até onde o horizonte se confunde com o céu. Quando caía a noite, as luzinhas no mar, guiadas pelo pequeno farol que ficava no desfiladeiro da ponta da praia, regressavam para o atracadouro e esperavam até o dia seguinte para partir novamente em busca de mais cardumes.
O sapateiro tinha sua oficina bem perto da praia e trabalhava o dia todo observando os barcos dos pescadores, ele conhecia muito bem qual era cada um, tinha uma visão privilegiada e desde longe identificava as cores e listras dos barcos de madeira dos seus amigos e familiares. Ele mesmo não gostava do balanço do mar, nas poucas vezes que esteve sobre as águas, logo quis estar de volta em terra firme. Seu negócio era a firmeza de uma banquetinha de madeira e as fôrmas de sapatos onde esticava o couro. A luz do sol ajudava a enxergar seus afazeres e por isso nunca forçava a vista em trabalhar depois do anoitecer. Iniciava cedo a sua rotina, mas também nunca apressou nenhuma encomenda.
Apesar de tudo, ele tinha sua proximidade com o mar, o azul era uma imensidão companheira quando desviava os olhos por alguns instantes naquela visada do grande manto com suas espumas e seus brilhos prateados na ondulação das águas. Depois voltava ao seu trabalho, com sapatos no colo, sobre o avental de lona sujo de graxa e verniz. Quando parava à tarde para beber um café, que se misturava ao cheiro dos vernizes presos na sua mão, também olhava contemplativo para o mar enquanto as cores mudavam. O horizonte se escurecia mais que o entorno, e o ocre do céu se dissolvia nas águas que tinham um cintilar reflexivo muito brilhante. Corria o olhar por toda a extensão reconhecendo os pontinhos mais distantes, desde o mar aberto até o desfiladeiro na ponta da praia. Assim ficava tanto tempo que às vezes a bebida se esfriava na sua caneca de esmalte. Quando o farol se acendia ao longe, ele finalizava o seu dia de trabalho, recolhendo as ferramentas e lavando os pincéis. Não forçava mais a vista com a luz fraca do cair do dia. Seus amigos marinheiros diziam que esta visão era uma dádiva invejável, habilidade muito boa para quem vive do mar, e que era um desperdício para quem fica na terra trabalhando com objetos que sempre estão ao alcance das mãos.
O sapateiro, muitas vezes recusou timidamente convites para se juntar às pequenas expedições de pesca. Ele não se interessava em ver o que o mar trazia até ali, mas se perguntava o que existia muito adiante, depois daquela imensidão de águas. Como eram os lugares das histórias que os viajantes contavam? Os tais desertos e geleiras? Tinha imagens imprecisas na imaginação, mas também pouca disposição para procurar torná-las mais nítidas.
Eis que um dia tudo mudou, um dia comum em que nada precisava mudar. Neste certo raiar de brisa manhosa, o sapateiro foi o primeiro a ver, quando abria sua oficina. Quando fitou o horizonte, ainda antes do sol despontar na aurora, muito ao longe algo estranho vinha pelo mar. Era a figura de um homem gigantesco, em que primeiro surgiu sua cabeça, com seus olhos fixos e um bigode aterrador, depois, conforme se aproximava da costa, seus ombros também emergiram das águas desafiando o senso de proporção de quem olhava desde a praia. Era tão grande, que, sendo grande, parecia estar perto, mas não poderia ser, pois ainda estava longe.
As pessoas da aldeia se juntaram para ver, primeiro forçando os olhos, com a mão reforçando as sobrancelhas, mas depois tudo ficava mais evidente. Com medo, os homens não queriam embarcar para a pesca, os que já tinham saído, rapidamente regressaram e amarraram os barcos novamente. Toda a gente, aos poucos foi se retirando. Apavorados, alguns se trancaram em suas casas, outros tentaram fugir para a serra. Logo se podia sentir um tremor em cada passada lenta que o gigante dava na direção daquela aldeia. O mar ficou revolto e virou os barcos do cais, as ondas eram imensas e invadiram as casas da beira da praia. Aquele homem foi emergindo da baía, pouco a pouco revelando a sua altura, até que cobriu o sol do quase meio dia. Então parou onde já era raso o suficiente e apenas os seus pés estavam submersos.
Tudo ficou quieto um instante enquanto o mar se acalmava. Logo mais o gigante, com sua voz grave, que parecia um trovão, chamou “Sapateiro!”. Não houve nenhuma reação, o rapaz estava tremendo de medo em sua própria casa. Depois de alguns minutos o gigante tornou a chamar “Sapateiro!”, e chamava insistentemente a partir de então “Sapateiro! Sapateiro! Sapateiro!”.
O sapateiro sentiu o peso da responsabilidade recair sobre si, só ele poderia salvar sua aldeia querida e as pessoas que nela moravam. Tomou fôlego e coragem para sair de casa. Calçou suas botas e foi para as areias molhadas, onde as águas caóticas ainda se alevantavam mais que o normal.
A figura era aterradora, um titã, como um filho de Gaia com o Tártaro. A feição do seu rosto estava ofuscada pelo brilho do sol que parecia coroar a cabeça. O sapateiro subiu até o farol do desfiladeiro, tomado da fúria de um herói. Quando chegou ao topo, inflou ares no seu pulmão para gritar de maneira épica. “O que quer?! Por que vem atormentar este lugar tão pacífico?!”. O gigante estranhou aqueles dizeres, o corrigiu dizendo que ali era o Atlântico. Depois voltou ao seu propósito. “Quero que faça um par de sapatos para mim”.
E então tirou um pé das águas enquanto apontava para ele mostrando. Era um pé terrível, de dedos espalhados, com unhas grandes, quebradas nas pontas e, além de tudo, era maior que o maior navio que o sapateiro já tinha visto em sua vida.
Então o gigante se apresentou de maneira cortês, ele falava muito vagarosamente e tinha modos nobres, apesar dos seus olhos estalados, seu bigode amedrontador e seu tamanho colossal. Então ele contou suas histórias, disse que já tinha lutado contra serpentes e monstros marinhos, mas ele não vivia na imensidão do mar e sim nas praias. Acontece que para ele, nadar de um continente ao outro não era uma tarefa tão difícil, no entanto, tinha vindo da costa da África e estava muito cansado. Pediu para sentar-se, e o enorme desfiladeiro era apenas como um banquinho para ele. Depois explicou que sempre acreditara que ele mesmo era a coisa maior e mais alta do mundo. Em todo lugar onde esteve nunca tinha visto rocha, nem mesmo serra que superasse sua estatura, e se gabava disso, bradava com soberba até o dia em que um navegante mencionou que existiam coisas muito maiores, chamadas de “Montanhas”. Naquele dia o gigante ficou tomado de ira e exigiu que o navegante dissesse o que eram essas tais montanhas e onde ficavam. “Elas ficam muito além das praias, grande caminho, continente adentro”. Mas toda vez que o gigante tentava deixar a areia suave do mar e das praias, as árvores machucavam os seus pés, por isso precisava de um par de sapatos que lhe protegessem as solas.
O sapateiro topou o desafio, mesmo sem ainda ter ideia de como poderia realizar tal tarefa. Ficou muito tempo aflito com seus pensamentos até encontrar uma maneira de começar, por muitos dias rodeava o gigante. As pessoas da aldeia foram se acostumando com aquela figura estática, sentada no desfiladeiro da ponta da praia e, com o tempo, voltaram a pescar. Muitos ainda tinham medo do gigante, mas ele ficava apenas ali quieto, dizia não querer atrapalhar.
O sapateiro levou meses, apenas para fazer o planejamento. Com persistência convenceu amigos a colaborar com os esforços. Encomendaram material de toda parte, a notícia correu e comerciantes vinham de muito longe para trazer couro, madeira e algodão, além de cola e outros insumos que chegavam nos navios.
O gigante era muito paciente, permanecia sentado, com o queixo apoiado num braço, enquanto o outro braço cruzava sobre a barriga. Demorava semanas para mudar de posição e permanecia calado e sereno observando os trabalhos. Foram seis meses somente para fazerem a medição, tudo demorava enormemente, de modo que o sapateiro aprendeu a fazer as coisas no tempo dos gigantes. Ao longo de dois anos construiu as solas, durante mais três ergueu a cobertura e deu acabamento caprichoso, teceu os cadarços trançando cordas navais, reforçou a costura e poliu o couro. O sapateiro ficou amigo do gigante, conversavam enquanto ele trabalhava ou depois que terminava o dia. O gigante contou dos inúmeros lugares onde esteve e das proezas que já tinha feito. Como tinha muita paciência, descrevia com calma e riqueza de detalhes tudo que já tinha visto no mundo, mas somente quando as estrelas saíam e só restava o sapateiro e o gigante no alto do desfiladeiro é que o homem titânico abria seu coração e sonhava com suas preciosas montanhas.
Eis que chegou o dia em que os sapatos ficaram prontos. Orgulhoso de seu trabalho, o sapateiro convidou o gigante a prová-los, mas teve uma súbita surpresa. Sem falar nada, o homem mergulhou no mar, sumiu por três dias e deixou todos sem compreender o que tinha se passado. Depois ele retornou trazendo em suas mãos pedaços do que eram as ruínas do naufrágio de um antigo galeão espanhol. Despejou tudo em um canto da praia e, quando foram revirar, encontraram um grande baú, repleto de joias e moedas de ouro. Era o agradecimento e devido pagamento pelos trabalhos. A aldeia ficou rica, dividiram aqueles espólios, sendo que a maior parte ficou para o sapateiro.
O gigante, no mesmo dia, calçou sua encomenda e rumou em direção às serras. A cada passo um tremor de terra era sentido, os primeiros eram muito fortes, mas depois foram se esmaecendo. Foi deixando pegadas enormes, como clareiras na mata densa tropical. Ele andava muito devagar e demorou mais de um mês até que os tremores fossem imperceptíveis e sua figura ficasse pequenina novamente no horizonte. O sapateiro, aproveitando seu descanso depois do longo trabalho, assistia toda tarde o seu amigo sumir devagar na paisagem. Com os olhos altivos, do alto do farol, conseguia ver uma infinidade de coisas, terra adentro ou mar afora, e ficava pensativo. Todos notaram que seu coração estava mudado.
O tempo foi passando e a vida como era, naquela aldeia, mudou muito com a fama e a riqueza. O sapateiro, percebia que nada mais era agora como antes. Ele foi se tornando uma pessoa ainda mais reclusa e melancólica.
Um certo dia, com a parte que lhe pertencia do tesouro, o sapateiro encomendou uma quantidade inimaginável de novo material. Voltou aos andaimes e estruturas, já abandonadas, que tinha usado para construir o maior par de sapatos do mundo. Começou a trabalhar sozinho em um novo pé de sapato, um pouco menor, mais módico. Não dizia a ninguém o motivo do que estava fazendo, tampouco aceitava ajuda. Todos diziam que o sapateiro tinha enlouquecido, ainda mais quando, com o passar dos anos, se formava um único pé de sapato, que ninguém sabia dizer se era um pé direito ou esquerdo.
Desta vez, sozinho, foram sete anos até que aquele sapato solitário tomasse forma e ficasse pronto. Como todos os outros que tinha construído, era primoroso, muito bonito. Assim que terminou, toda gente ficou curiosa para uma revelação. Para quê serviria aquilo?
Quando estava finalizado e com toda a cola bem seca, com a impermeabilidade testada e um brilho lustroso, o sapateiro empurrou aquele pé ao mar, desde o alto do precipício. As pessoas ficaram estarrecidas. O enorme sapato caiu nas águas e espirrou um jato fenomenal, mas foi quando aquilo voltou à superfície que o sapateiro comemorou e pulou de alegria.
Por muito tempo ainda trabalhou no seu projeto, instalou mastros e leme, encomendou uma bujarrona, adaptou um convés e tablado. Era uma beleza, ele tinha feito sua obra prima.
Em uma manhã, antes que todos acordassem, quando o vento manhoso esvoaçava os panos enquanto o oeste absorvia a madrugada, o sapateiro partiu em seu navio-sapato. Rumou para o grande mar, no sentido contrário do sol que se levanta, venceu, no mesmo dia, a maior distância que já estivera de casa. Logo já não podia mais ver a costa. Estava sozinho, em pleno esplendor do oceano sem fim. Precisou consultar os livros de navegação que guardava na cabine, com o passar dos anos aprimorou o que era verdade e descobriu o que era mentira daquelas instruções escritas nos papéis.
O sapateiro viveu uma vida no mar, navegou por toda parte, viu os desertos infindáveis, a neve que cai vagarosa, florestas úmidas e rochas estéreis, conheceu o doce e o salgado. Passou por tormentas e calmarias, aprendeu a enfrentar tempestades e aproveitar o mar calmo, aprendeu a navegar no vento generoso e esperar com paciência as correntes vindouras, racionar na escassez e fartar-se na abundância, vibrar nas aventuras e recolher-se no tédio, apreciar o quente e o frio, simplesmente pelo quente não ser frio e o frio não ser quente. Viu as ilhas da Grécia, a areia das Arábias, os mares de toda parte, do gelo do norte ao gelo do sul.
Viu tudo que existe no mundo, fez proezas em muitos lugares por onde passou. Seu nome se tornou uma lenda. Certa vez ouviu sua própria história da boca de um poeta, em uma bela canção que recitava os feitos do capitão do navio-sapato.
Com os anos que acumulava também colecionava feitos impressionantes. Mas o tempo passou e ruiu casacos e chapéus, desgastou também o corpo e a disposição do sapateiro, fraquejou as mãos e os braços, arqueou a coluna e cansou suas pernas.
Aquele navio-sapato, que já teve tripulações grandes e pequenas, que já havia transportado maravilhosos tesouros, cruzado mares e oceanos, passado por lugares nunca antes navegados, também estava decaído. Já não tinha o brilho do lustre desde a primeira viagem, sofrera inúmeras avarias e precisou de muitos reparos, até reformas inteiras. Agora também se encontrava sem sua tripulação. Somente o sapateiro andava calmo e sozinho pelo convés.
Foi no entardecer de um dia qualquer, quando as nuvens se acobreavam num espetáculo fascinante. O navio-sapato vagava à deriva pelo mar, e o sapateiro só tinha a fazer contemplar a vista e beber um café.
Em um instante, as águas revolviam a frente da proa e, de repente, surgiu do mar um velho rosto conhecido. Ele não tinha mudado nada, a não ser por uns poucos fios grisalhos no seu bigode. O sapateiro pulou de alegria, ficou imensamente feliz ao ver seu amigo de tantos anos.
O gigante quis saber o que tinha feito e como havia chegado naquelas águas. O sapateiro contou toda a sua história, desde que partiu no navio-sapato. Durante vários dias eles conversaram. Teve tempo suficiente para se contar todas as proezas e aventuras, e o gigante ouviu atento, rindo e se emocionando em cada passagem.
“E você, nobre amigo, viu as suas montanhas?”
Então respondeu o gigante: “Eu andei pela terra, até que os sapatos que fizeste pra mim furaram as solas. Depois de tanto caminhar encontrei a montanha, olhei para cima impressionado, até então só tinha erguido meus olhos assim para ver as estrelas. Contemplei e louvei a montanha. Então eu subi na montanha, escalei a rocha e alcancei o topo, e de lá enxerguei uma nova montanha, ainda maior e mais alta. E na nova montanha vi outras tantas muito maiores. Vaguei por muitos anos procurando a montanha mais alta do mundo até que a encontrei. Com muito esforço alcancei o topo frio da maior montanha do mundo. Era gelado e solitário lá em cima, mas dava para ver muito ao longe, então me senti pequeno pela primeira vez, não pela montanha, mas sim pelo mundo. Fiquei muito tempo olhando o mundo de lá de cima até perceber que acima de nós todos, também estavam as estrelas, e percebi também que elas sempre estiveram em toda parte. Levantei-me, pensando estar tão alto, tentei alcançar as estrelas, não conseguia. Então chorei, me esforcei novamente, esticando os braços e ficando na ponta dos pés, a luz ainda parecia tão distante. Esperava sentir a luz na ponta dos meus dedos, mas não sentia. Por um descuido escorreguei e rolei montanha abaixo, caí como as pedras ao meu redor. Em pouco tempo estava de volta ao mar, todo machucado, e a montanha parecia ainda maior que antes. Mas fiquei feliz de estar de volta, depois de tantos anos andando pela terra, finalmente pude pisar descalço nas areias da praia.”
O sapateiro lamentou “Me vejo tão distante de casa, meu caro amigo. Queria eu poder voltar, assim num instante. Grande sofrimento tem sido vagar sem rumo nestes últimos anos.”
“Pois faça um último esforço neste navio, ponha no teu corpo velho a força vivaz de um jovem marinheiro e estenda as velas novamente, com isso não posso te ajudar, mas vou soprar na direção de onde fica a tua aldeia.”
E o sapateiro assim o fez, hasteou as velas, traçou o curso e ajustou o leme. Quando estava tudo pronto, ele, em prantos, agradeceu ao gigante. O homem colossal se preparava para assoprar, mas antes de tomar fôlego, antes de absorver tornados de ventos marinhos em seus pulmões, ele disse as últimas palavras ao sapateiro.
“Já te aprume preparado a soltar a âncora. Descobri, meu amigo, que o caminho pra longe de casa é sempre muito mais longo que o caminho de volta pra casa.”
FSSSSSSSSSSSS!
Henrique Siviero
Residente de São José do Rio Pardo, Henrique Siviero formou-se em Física e escreve sobre o que lhe desperta na vida, de experiências particulares às fantasias e tradições. Trabalha atualmente na revisão de seu Romance, possui contos e poemas publicados pela Amazon, dentre eles, estão os títulos "Cruiz Credo" e "Meia Dúzia de Poemas". » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Baile do Silêncio
A antiga Mansão Hollengrave não se erguia: ela se impunha, uma massa compacta e sombria de pedras escuras cravada no topo de uma colina…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A antiga Mansão Hollengrave não se erguia: ela se impunha, uma massa compacta e sombria de pedras escuras cravada no topo de uma colina, como um mausoléu esquecido pelo tempo. A névoa, densa e fria, não subia; ela se arrastava pelo chão como dedos espectrais à procura de algo perdido, envolvendo a estrutura em um sudário úmido. Os vitrais partidos, restos de desenhos góticos de anjos caídos e figuras distorcidas, refletiam a lua em fragmentos de luz doentia. Lá dentro, as abóbadas internas perdiam-se na escuridão, iluminadas apenas por candelabros de prata antiga cujas chamas trêmulas se contorciam, finas e pálidas, como se resistissem à própria existência em um ar tão pesado. O cheiro era de mofo, cera queimada e, subjacente a tudo, um perfume metálico de decadência.
O convite para o Baile de Halloween dos Silenciados chegara com a precisão de um epitáfio. Vinha em um envelope negro de papel áspero, com bordas que pareciam luto, lacrado por uma espessa gota de cera vermelha escura, quase preta. Na parte interna, a caligrafia elegante e sinuosa trazia a única regra e a única senha:
“Somente aqueles que conhecem a noite em silêncio compreenderão o chamado.”
Aaron Melchior — alto, de compleição esguia e ombros tensos sob a casaca de veludo. Seus olhos profundos, de um castanho intenso, estavam sempre em alerta, absorvendo o mundo com uma vigilância que a maioria das pessoas, dependentes do som, jamais conheceria. A perda do sentido era a sua bússola. Ele sentia a vibração no chão, lia a tensão nos músculos e a mudança de ritmo nos corações.
Ao seu lado, Lídia Vessoni era um contraste vibrante. Seu vestido carmesim de seda, que se movia em camadas de véus, parecia ter sido feito de névoa sangrenta, contrastando com sua pele de porcelana. Lídia não apenas vestia a cor; ela a encarnava. Ela se comunicava não apenas com as mãos, mas com todo o corpo: a inclinação da cabeça, a forma como a mão repousava no antebraço de Aaron. Ambos partilhavam a ausência do som desde o nascimento. Não havia palavras articuladas, apenas o silêncio mútuo. Sua comunicação fluía em olhares longos e complexos, em gestos precisos da Linguagem de Sinais (LS) e em uma cumplicidade que tornava cada movimento, cada toque, imediatamente compreensível um para o outro. Eram duas metades de um mesmo silêncio.
Ao atravessarem as portas de carvalho maciço e entrarem no imenso Salão Hollengrave, Aaron sentiu o primeiro arrepio que não vinha do frio da noite. Era a vibração, o detalhe que o fez apertar a mão de Lídia com mais força: todos ali eram como eles. Surdos.
O salão estava repleto. Damas em vestidos sombrios de seda e tule, cujas máscaras cobriam metade do rosto, revelando apenas sorrisos contidos. Cavalheiros de casacas pretas rigidamente abotoadas e máscaras douradas simples, quase sem feições. Eles dançavam.
Dançavam uma valsa invisível. Não havia som, mas o ritmo era palpável. O olhar dos convidados seguia o Maestro, uma figura alta e esguia, envolta em um fraque antiquado, que agitava a batuta com precisão maníaca no palco de ébano. Diante dele, os músicos eram mudos. Seus violinos, violoncelos e harpas estavam posicionados, mas os arcos apenas roçavam o ar, as cordas eram tocadas com a leveza de fantasmas. Não havia música, mas o corpo de cada dançarino seguia o compasso imaginado, uma sinfonia coreografada pelo silêncio.
As paredes, de um verde musgo desbotado, estavam adornadas por espelhos antigos com molduras de bronze corroído. Eram espelhos imperfeitos, que distorciam a luz. Mas havia algo mais perturbador. Aaron percebeu que, em cada reflexo, a imagem parecia sempre atrasada. Um segundo, talvez menos, mas o suficiente para que os convidados reais e suas imagens fossem duplos, presos em outra dimensão de tempo.
Aaron apertou a mão de Lídia. O aperto era um código entre eles. Seus olhos, que se encontraram por um instante sob as luzes trêmulas, sinalizaram o terror: algo não está certo. A mansão não era um simples local de encontro; era uma armadilha de cumplicidade.
De repente, a harmonia perturbadora da valsa silenciosa foi interrompida. Uma convidada – Srta. Majory Darven, com uma máscara de penas pretas que cobria todo o rosto – caiu no meio do salão. O som não existia, mas o impacto visual foi violento. As luzes das velas vacilaram ao mesmo tempo, como se um sopro tivesse percorrido o salão. O corpo de Majory tremeu no chão, uma convulsão silenciosa, como se uma onda de energia percorresse seus ossos. E então… o silêncio continuou, mas seus olhos se arregalaram em desespero puro.
Quando ela se levantou, cambaleando, algo estava dramaticamente diferente: seus gestos, antes elegantes na dança muda, eram agora bruscos, descontrolados, como os de um fantoche cujos fios foram cortados. Ela levou as mãos à cabeça, apertando as têmporas. Ao abrir a boca, um grito sem som deformava-lhe o rosto, um contorcimento de horror mudo que ela não conseguia parar.
— Ela está ouvindo algo… — sinalizou Lídia, suas mãos voando em movimentos rápidos e horrorizados. Sua expressão era de náusea.
Aaron percebeu a progressão do terror. Um a um, os convidados começavam a reagir como Majory. O Sr. Cadwell Ormond, um homem de bigodes finos, pálido como marfim, levou as mãos às orelhas, numa tentativa frenética e instintiva de tapá-las. A Lady Miriam Eckhart, conhecida por sua calma gélida, cambaleou, e lágrimas de sangue começaram a correr-lhe dos olhos, escorrendo sobre o vestido de veludo negro.
Havia uma nova presença no salão. Era invisível, inaudível para Aaron e Lídia, mas era perceptível na forma como o ar parecia vibrar, na tensão dos rostos, e, mais aterrorizante, nos reflexos dos espelhos.
Aaron arrastou Lídia para trás, até um canto escuro, diante de uma tapeçaria puída que representava uma cena de caça macabra. Ele usou a comunicação tátil — uma forma de LS de toque rápido e pressão — escrevendo rapidamente em sua mão, com a ponta do dedo, sentenças curtas e urgentes: Eles. Estão. Ouvindo. O. Que. Nós. Não. Podemos.
E então veio a revelação, tão clara e brutal quanto um golpe físico. Nos espelhos, as versões atrasadas dos convidados não apenas se moviam: eles gritavam. Suas bocas estavam abertas em berros histéricos; eles cobriam os ouvidos com as mãos esqueléticas e imploravam por socorro. Não era mero reflexo. Eram eles, os seres reais, aprisionados em uma dimensão paralela onde o som existia — e onde algo sussurrava, gritava, ou gemia.
— Você vê? — sinalizou Lídia, os olhos fixos em um ponto atrás da confusão. Ela apontou para o Maestro.
O Maestro não estava mais de pé. Estava curvado sobre o pódio. Sua batuta não era mais madeira. Era um osso humano polido, ensanguentado, que ele agitava com uma pulsação sinistra. Sua boca estava aberta, escancarada em uma forma que não era humana, deixando escapar uma sombra líquida, negra e oleosa, que escorria pelo palco.
A sombra subia. Subia pelos corpos dos músicos mudos, deformando-lhes os rostos. Os violinos não tinham cordas. As cordas de seus instrumentos eram seus próprios nervos tensionados, brilhantes e úmidos, vibrando com a presença da Sombra. O Maestro estava conduzindo a dor, orquestrando o tormento auditivo.
Um arrepio gélido percorreu a espinha de Aaron, um medo visceral que ele nunca sentira. Aquilo não era um baile. Era um ritual. O evento não celebrava a ausência de som, mas preparava os surdos para o tormento final: fazê-los ouvir o que jamais deveriam. A Sombra era a encarnação do Som Primordial do Horror.
Um por um, os convidados eram consumidos. A cena era uma tela viva de horror silencioso. Não se ouvia nada, mas via-se tudo: gargantas dilaceradas sem ruído, olhos suplicantes cheios de lágrimas de sangue, bocas abertas em gritos mudos que só os espelhos registravam.
Aaron e Lídia tentaram fugir. Correram para as portas principais, mas elas estavam seladas por correntes grossas que se moviam sozinhas, enrolando-se nas maçanetas com a lentidão de serpentes. As janelas, quando Aaron conseguiu quebrá-las com a base de um candelabro, revelaram apenas mais paredes da própria sala, como se a mansão fosse um labirinto de Mobius, uma gaiola sem saída.
No centro do salão, o coração do ritual, os espelhos começaram a rachar. As fissuras surgiam como teias de aranha negras, e das fendas brotaram mãos negras, esqueléticas, que não eram reflexos, mas tentáculos de uma realidade faminta. Majory foi a primeira a desaparecer. Seu corpo, ainda convulsionando em audição forçada, foi sugado para dentro do vidro pela sua própria versão distorcida, deixando apenas um vestígio do vestido carmesim.
Aaron puxou Lídia com desespero febril para o último ponto de sombra. Mas, ao olhar para o espelho diante de si, ele congelou. Não pela mão, mas pela expressão. Sua versão refletida estava sorrindo. Sorrindo de um modo que ele nunca sorrira: um sorriso de cumplicidade macabra, os olhos vibrando com uma alegria doentia, já contaminado pela Sombra.
— Não olhe! Se concentre em mim! — sinalizou Lídia, seus movimentos eram de puro pânico, tentando chamar a atenção dele, mas já era tarde demais.
A mão espectral do reflexo atravessou o vidro com a facilidade de um fantasma e agarrou Aaron pelo rosto. Ele sentiu a pressão esmagadora e a textura fria da morte.
E então… som.
O mundo explodiu. Não foi um barulho. Foi uma invasão. Um sussurro insuportável, como mil vozes gritando ao mesmo tempo a sua ignorância, a sua insignificância. O som era físico: queimando sua mente, rasgando-lhe o crânio por dentro, o berro da entropia. Era a primeira vez que Aaron ouvia algo — e ele soube, com a certeza fria do destino, que seria a última.
Lídia caiu de joelhos, o chão vibrando com a agonia que ela não podia ouvir, mas podia sentir. Ela viu Aaron ser tragado pelo espelho, seu corpo desaparecendo no vidro líquido. Sua imagem refletida, a versão que havia sorrido, não estava em pânico: ela dançava, leve, ao som de uma melodia inaudível de puro horror.
Quando a última vela no candelabro de prata se apagou, o salão foi engolido pela escuridão total. Restou apenas o silêncio absoluto da Mansão Hollengrave.
O salão estava vazio, exceto pelos espelhos — onde todos ainda dançavam, aprisionados, ouvindo eternamente o que jamais deveriam.
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Mansão Blackwood
A morte caminhava ao meu lado. Espreitava em cada corredor por onde eu passava. Morei nesta mansão desde o nascimento e, ainda assim, o lugar guardava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Parte I — Rachaduras
A morte caminhava ao meu lado. Espreitava em cada corredor por onde eu passava. Morei nesta mansão desde o nascimento e, ainda assim, o lugar guardava segredos que eu desconhecia.
As molduras douradas brilhavam sob a luz do meu castiçal — um contraste bonito demais para as rachaduras que se acumulavam nos cantos das paredes. Rachaduras tão discretas quanto as sombras da nossa família.
Cada passo era cauteloso. O ranger da madeira me entregava, mas o resto da casa permanecia afogado em silêncio. Suponho que ninguém tenha notado minha ausência. A madrugada era o único momento em que eu não sentia os olhos do meu pai me seguindo.
O quarto de Cassandra estava logo à frente. Precisei me lembrar de respirar sem sufocar. As chamas das velas oscilavam com a corrente de ar fria. Alguma coisa me chamava. Eu só não sabia o quê. Tinha essa sensação há um tempo. Às vezes, ouvia as paredes sussurrando.
Hesitei ao tocar a maçaneta. Fingi que a tremedeira vinha do frio, mas era outra coisa — medo, talvez. Medo de que ela me odiasse. Medo de que fosse minha culpa.
Olhei ao redor. Quando tive certeza de que ninguém me seguia, empurrei a porta.
Agarrei o tecido fino da camisola. Cada passo até a cama de Cassandra tornava o ar mais espesso, como se eu estivesse mergulhando em um lugar onde respirar era um esforço.
Ela se tornou um punhado de ossos frágeis, prestes a se quebrar com um sopro. Os cabelos ruivos, antes cheios e vibrantes, agora caíam em mechas opacas e grudadas. Afastei os fios úmidos de seus olhos fechados. Senti uma ardência súbita no rosto — só percebi quando as lágrimas escorreram.
Os olhos dela se abriram. Encararam-me com uma frieza que eu nunca conheci.
— Você ainda não desistiu? — Sua voz era tão áspera que parecia ter bebido um copo de areia. Não restava nenhum traço da ruiva vibrante e risonha que eu conhecia.
Durante semanas pensei no que dizer: pedir desculpas, perguntar se ela ainda me amava, dizer que a dor de não saber estava me matando. Mas nenhuma palavra saiu.
Eu não estava pronta para ouvir a verdade.
— Não, e nem pretendo. Com quem você acha que eu aprendi essa teimosia? — Tentei despertar alguma lembrança nela, algo que fizesse sua expressão suavizar. Mas ela continuou imóvel. — Cassie, por favor, me diga o que aconteceu. Estou cansada de inventar explicações.
Nada. O olhar dela estava longe — fixo, morto. Isso me matou ainda mais por dentro.
Cassandra era tudo o que eu tinha desde a morte da minha mãe. Ela foi meu primeiro beijo, meu primeiro toque. Nenhum outro corpo me envolveu como o dela. Nenhum outro coração me acolheu como o dela.
Ela agarrou meu pulso. O toque foi como uma descarga: gelado e fugaz. Sua força não fazia jus à aparência fragilizada.
— Você precisa ir embora — disse com firmeza. Quando abri a boca para perguntar por quê, ela já continuava: — Seu pai acordou. Volte para o seu quarto. Agora.
— Como você sabe que ele acordou? — Cassandra se levantou, empurrando-me em direção à saída. — Espera...
Já estava no corredor quando ela parou na porta, olhos fixos no escuro. Brilhavam como os de alguém que pressente um desastre.
— O que você procura vai te destruir, Teresa.
E então, ela fechou a porta.
Parte II — Cicatrizes
As palavras de Cassandra me assombravam. Cada dia era uma tentativa frustrada para encontrar uma resposta. Por que a verdade me destruiria se quem estava sofrendo era ela? Não fazia sentido, a não ser que Cassandra tenha recebido uma punição para me proteger.
Meu coração foi esmagado por essa possibilidade.
Eu sofreria por ela sem hesitar, mas não podia aceitar que ela fizesse isso por mim. Não quando ela tinha passado a vida se submetendo a trabalhos humilhantes por dinheiro. Chegava a ser ultrajante alguém lhe causar ainda mais dor.
— Senhorita Teresa! — A voz alarmada da governanta me trouxe de volta ao presente. Ela correu até mim com uma toalha. Não entendi sua comoção até ver o sangue pingando do meu punho fechado.
Abri a mão. O sangue tingia minha palma. Marcas de unhas se espalhavam na região. Como pude fazer isso sem perceber?
— Precisa ter mais cuidado, senhorita**. — Ela dizia, enquanto limpava minha mão. —** Não está sentindo dor?
Sua pergunta me causou inquietação. A resposta veio até a ponta da língua. “Sim, estou com dor”, mas as palavras foram engolidas antes que eu abrisse a boca. Essa dor não vinha dos ferimentos de unha. Mas a governanta não era a pessoa adequada para ouvir algo tão íntimo. Eu só revelava esses sentimentos para Cassandra.
Mas Cassandra não estava aqui.
O vazio se abriu como um abismo.
— Use luvas durante a festa, senhorita. Assim pode proteger sua mão e esconder os ferimentos.
Era o que minha família fazia. Escondia todas as cicatrizes com tecidos de luxo. Queria acreditar que alguém naquela casa zelava pela minha proteção além de Cassandra. Nem eu mesma fazia isso. Toda vez que aceitava usar a máscara social de uma Blackwood era uma violação contra mim.
Cada sentimento silenciado deixava uma nova rachadura nas paredes.
Não havia Cassandra para me salvar agora. Eu quem deveria salvá-la, e não fazia ideia de como. Não percebi o quanto era impotente até ver Cassandra sofrendo sem que eu pudesse fazer nada. Era algo muito cruel.
Coloquei as luvas. Olhei para o veludo azul cobrindo as feridas abertas. Sufoquei as lágrimas. Nem uma gota poderia ser vista durante a festa.
Por mais que a dor em meu peito estivesse me estilhaçando.
Parte III — Caos
Sentia cada vibração do violino. Observava os músicos enquanto ignorava as conversas ao meu redor. Não nutria o mínimo interesse nos assuntos enfadonhos dos convidados. Estatísticas, acordos, lucros. Pelo menos, isso os fazia esquecer de virem me questionar sobre casamento.
O salão estava preenchido por homens. Poucos trouxeram suas esposas, a maioria levou as filhas. Eles exibiam as meninas como gado para seus colegas, esperando que algum deles fizesse uma proposta irrecusável.
Nojentos.
Cassandra não apareceu para trabalhar. Ela costumava servir bebidas durante as festas. Sua presença encantava até aqueles que a consideravam indigna de respeito. Ela era radiante e cheia de vida. O oposto da criatura apática de ontem.
O som melancólico do piano traduzia a tristeza em meu peito. Um ato de conforto e desespero ao mesmo tempo.
O que deixou Cassandra daquela forma? Eu iria morrer se não tivesse uma resposta.
“Teresa”
Escutei ela me chamando. Pensei ter sido imaginação, talvez um reflexo da minha angústia. Eu tinha certeza de que ela não estava naquele salão.
Em seguida veio um sopro na nuca.
Cravei as unhas no tecido da luva. Não podia reagir bruscamente na frente dos convidados. A última coisa que eu queria era chamar a atenção.
Devagar, virei o corpo para trás.
Cassandra não estava ali. Em seu lugar, encontrei meu irmão me encarando. O desconforto foi inevitável. Por isso que eu me sentia assombrada. Realmente havia um par de olhos demoníacos sobre mim.
Ele era como um rato, espreitava pelos becos mais escuros e se alimentava da sujeira mais podre das ruas. Desde criança eu via o quanto Thomas Blackwood era dissimulado. Um parasita social em todos os sentidos. E, ainda sim, nosso pai o escolheu como sucessor. Não tinha esperança de carregar o título da família, mas também não esperava ser reduzida como gado.
Eu repudiava cada homem naquele salão.
Algo estremeceu meu âmago. Talvez tenha sido o ritmo do violino se tornando mais frenético.
— Teresa. — Meus pés se encolheram dentro do sapato. Meu pai se colocou à minha frente com uma postura rígida. — Lord Rochester fez uma ótima proposta. Ele é viúvo e experiente, além de te conceder um sobrenome valioso. Você irá se apresentar formalmente para ele após a festa.
Olhei para Lord Rochester.
Ele era mais velho do que meu pai. Quase rasguei a luva quando ele me avaliou com aquele olhar repulsivo. Se Cassandra estivesse aqui, nós duas faríamos inúmeras piadas com aquela cabeça calva. Ela sempre conseguia fazer a pior situação se tornar engraçada.
Mas ela não estava aqui. Não havia mais ninguém para me defender.
— Entendi. — falei contra a vontade. Isso não passou despercebido por meu pai. Tive a sorte de um dos convidados o chamar para conversar naquele momento.
Aproveitei a oportunidade para ir até um ponto mais isolado. O olhar do meu irmão me seguiu. Diferente do nosso pai, ele me encarava com deboche, fazendo uma ameaça silenciosa de revelar meus segredos.
Ele sabia sobre Cassandra e eu? Nunca tive certeza, porém o arrepio em minha nuca dizia que sim.
Encostei na parede. Tive vontade de sentar encolhida no chão e deixar o peso do vazio me afundar. O som do violino me atingiu. As cordas assumiram um ritmo agressivo. Com o punho fechado, desejei com todas as forças que Cassandra surgisse no salão.
Mas nada aconteceu.
Me sentia traída pela fé. Traída por Cassandra. Ela precisava ter uma razão inquestionável para ter se afastado de mim. Se ela não tivesse, significava que nosso amor era tão frágil quanto o ego dos Blackwood.
Lágrimas queimaram meus olhos. Não iria suportar segurá-las por muito tempo.
Olhei ao redor. Cada risada no salão me açoitava como ferro em brasa. Isso não era melancolia. O que crescia em mim era uma força muito mais perigosa.
Ignorando as consequências, dei as costas para a festa e mergulhei no corredor. Nenhuma punição poderia ser pior do que cair no choro em frente àquelas pessoas. Elas não mereciam saber o que habitava no meu coração.
Busquei refúgio na biblioteca. Desde pequena, os livros têm sido meu consolo. Lembrava-me de todos os momentos em que minha mãe os lia para mim. Ela possuía o mesmo brilho de Cassandra, seus cabelos dourados reluziam como ouro. Mas uma sombra a levou embora. Meu pai se recusava a falar no assunto, agia como se nunca tivesse sido casado.
E agora se deitava com todas as putas da cidade.
Não queria pensar assim. A culpa não era daquelas mulheres, porém me enojava saber que elas se deitavam na cama onde minha mãe repousava. E era ainda mais insultante o fato de meu pai manchar a imagem dela daquela forma.
Ele e meu irmão eram iguais.
Dois parasitas. Deveria ter colocado arsênico no vinho do banquete e assistir eles engasgarem.
Cassandra fazia essa voz desaparecer. Ela trazia luz aos meus pensamentos obscuros.
Eu precisava dela.
Não poderia viver sozinha nessa mansão. A ausência do seu amor estava drenando a barreira que construímos. Aos poucos, as dores adormecidas começaram a se sobrepor aos meus preciosos momentos com Cassandra.
Não sabia quem eu era sem ela.
E não queria descobrir.
Corri até a janela. O vento noturno me acariciou. Seu toque suave me lembrou de Cassandra. Tudo me lembrava dela, não importava para onde eu corresse. Ela estava em todo lugar, enraizada nas paredes da casa.
Enraizada no meu corpo.
Deveria ter fugido com ela. Poderia ter pegado o tesouro do cofre e ido morar com ela em um lugar distante, talvez no interior da Itália. Por que não fiz isso?
Contive a vontade de gritar.
Poderia ter envenenado meu pai quando tive a chance.
— Cala a boca. — murmurei àquela voz. Não podia deixá-la falar.
Ela não deveria existir.
Mas eu existo.
Sem minha fonte de luz, estou totalmente vulnerável a essa sombra. Apertei a borda da janela. Não conseguia manter as lágrimas sufocadas. Deixei que elas caíssem. Escorreram como ácido nas bochechas.
O vazio se tornava caos.
— Cassie… — murmurei como uma oração.
Senti outro sopro na nuca. Com a esperança doendo no peito, olhei para trás. Alguém abria a porta da biblioteca.
Poderia ser ela?
Dei um passo para frente. Toda a esperança se esvaiu quando encontrei a figura do meu irmão. O sorriso debochado continuava em seus lábios mentirosos. Talvez eu devesse parar de rezar, não acho que tenha alguém me escutando.
— Nosso pai está furioso por você ter fugido. Precisei vir aqui para te levar de volta. — ele se aproximou — Vou falar só uma vez, Teresa. Siga-me de boa vontade.
Quebre os dentes dele com a enciclopédia.
Abri a boca, mas nada saía. O que estava acontecendo comigo? As palavras entalaram em algum canto da garganta.
Thomas me avaliou.
— Está bêbada? — agarrou meu queixo. — Ou estava imaginando a língua da Cassandra na sua vagina? — ele riu em escárnio.
Meu estômago vibrou. Havia uma vontade incontrolável de colocar algo para fora. Eu precisava respirar. Não me lembrava de como empurrar o ar para os pulmões.
— Vá embora. — foi tudo que consegui dizer. Thomas riu com ainda mais zombaria.
— Você é patética, Teresa. Vá embora. — imitou minha voz — Igual a nossa mãe. Não vou me surpreender se um dia você também cortar os pulsos.
Por que nossa família era assim? Havia alguma maldição sobre os Blackwood. Todos na linhagem do meu pai carregavam a crueldade no coração. Minha mãe não deve ter suportado viver nesse ninho de ratos. Eu não suportava. Também teria feito o mesmo que ela se não tivesse a Cassandra.
Você não tem mais a Cassandra.
Eu não tinha.
Não havia nada entre aquela sombra e eu — exceto a teimosia em me apegar ao restante da minha inocência.
— Vamos logo. — Thomas agarrou meu pulso. Por instinto, puxei de volta.
Ele me encarou contrariado.
— Eu te arrasto até o salão se for preciso, Teresa. — me puxou novamente. Meu corpo lutou. Não sabia o que estava controlando aquelas ações. — Sua puta mimada. — agarrou o meu cabelo. Pontadas dolorosas se espalharam pelo couro cabeludo.
Quebre o pescoço dele.
Entre chutes e socos, sem a mínima sincronia, o acertei algumas vezes até deixá-lo furioso. Suas mãos agarraram meus ombros e ele me empurrou com violência contra uma das estantes. O baque contra minha cabeça me deixou atordoada.
Quando caí no chão, alguns livros despencaram sobre minhas costas doloridas. Tentei me arrastar, mas a tontura tornava cada movimento insuportável.
Algo escorreu em meus cabelos. Coloquei a mão sobre eles e senti a textura pegajosa. O cheiro de sangue era familiar.
Morrer não parecia ruim.
Deitei a cabeça em rendição. Queria ser levada para o sono eterno. Meu pai ficaria aliviado em não ter que se preocupar comigo manchando sua reputação. E eu poderia reencontrar a minha amada mãe.
Estava exausta de tudo.
Senti um calor me acariciar. Reconhecia aquela sensação aconchegante. Quando abri os olhos, a imagem borrada de Cassandra surgiu diante de mim.
— Eu disse que isso a destruiria.
— Já estou destruída. — não tenho certeza se falei em voz alta ou se pensei. — Por favor, me conte o que aconteceu.
Ela hesitou. Havia uma dor profunda em seu rosto. Não sei se a dor estava em seu corpo ou na sua afeição por mim. Eu desejava que fosse a segunda opção. Se Cassandra sentia dor ao me ver sofrendo, significava que seus sentimentos por mim eram reais.
— Eu irei te mostrar.
Parte IV — Destruição
A biblioteca se desfez em uma nuvem de fumaça. Não sentia mais o meu corpo. Busquei por Cassandra em meio ao borrão ao meu redor. Tentei chamar seu nome, mas a minha voz deixou de existir.
Onde eu estava?
Talvez a pancada na cabeça tenha me matado e tudo a partir daquele momento fosse minha transição para a morte. Já estava me convencendo disso quando vi cabelos alaranjados passando do meu lado.
O perfume de Cassandra me invadiu. Aos poucos, o cenário foi tomando forma até eu reconhecer o corredor da mansão. A imagem de Cassandra se tornou clara. Eu não respirava, mas ainda tive a sensação de perder o fôlego ao vê-la caminhando. Nem o uniforme cinza de camareira diminuia seu brilho. Sua beleza não dependia de tecidos luxuosos ou jóias. Ela brilhava mais do que qualquer uma dessas coisas.
Corri em sua direção. Quando toquei o seu ombro, minha mão a atravessou como uma camada fina de neblina. Eu não existia ali, mas estava consciente.
Cassandra continuou andando, alheia à minha presença. Ela sempre ia ao meu quarto de noite com a desculpa de que iria me ajudar a trançar meu cabelo para dormir. Ninguém nunca desconfiou de duas meninas trancadas no quarto, achavam que a gente ficava a noite toda fofocando sobre rapazes.
Tolos.
Nós amávamos fazer todos da mansão de tolos. Esse era o único momento onde eu me sentia viva. Fora daquele quarto, longe de Cassandra, eu me tornava apenas uma submissa aos caprichos dos Blackwood.
Escutei um grito.
Cassandra e eu paramos.
Vi os olhos dela indo em direção à porta que levava ao quarto do meu pai. O grito era feminino, horrorizado e estridente. Tive o súbito desejo de sair correndo, mas não sabia exatamente do que. Cassandra ficou parada com o olhar fixo na porta de madeira maciça. Seu peito subia e descia em uma respiração dificultosa.
Ouvimos um estrondo em seguida. Parecia que alguém tinha caído em cima de um móvel. Tentei agarrar o pulso de Cassandra em vão. Nem a minha força de vontade era o bastante para tirá-la dali. Não sabia o porquê daquela angústia súbita. Eu pressentia que algo iria machucá-la.
Passos percorreram o quarto. Cassandra deu um passo para frente. Pela primeira vez enxerguei sua coragem como um ato de estupidez. Ela não devia se meter nessa situação. Por que ela não corria dali? Debati os braços em um impulso desesperado para alertá-la.
A porta do quarto se abriu em um rompante. O som deve ter despertado até os mortos. Me coloquei à frente de Cassandra, ainda me agarrando à ilusão de que eu poderia protegê-la.
Uma garota saiu do quarto.
Ela parou no corredor, ofegante e com os olhos saltados. Suas roupas de tecido fino denunciavam que deveria ser uma das garotas que trabalhavam no bordel da cidade. Elas usavam vestimentas parecidas, como uma mancha expondo o tipo de serviço que ofereciam.
Queria ignorá-la, mas os hematomas nos seus olhos me impediram de desviar a atenção.
— Me ajuda, por favor. — Tive a impressão de que ela estava falando comigo até escutar a voz de Cassandra.
— O que aconteceu? — Cassandra passou por mim e foi em sua direção. Ela sempre deixava sua empatia falar mais alto, acolhia qualquer um pedindo ajuda. Não sei porque isso me deixava tão nervosa agora.
— Ele matou todas elas… — havia sangue em seus lábios — Por favor, me ajude…
Quem estava matando quem? Aproximei-me do quarto e encontrei meu pai desacordado perto da antiga penteadeira da minha mãe.
Infelizmente, ainda estava vivo.
Esse não era o momento de deixar a voz falar. Precisava manter a racionalidade. Cassandra precisava de mim, embora eu soubesse que não poderia fazer nada para mudar o rumo dos eventos a seguir. Retomei a atenção para a garota trêmula com as roupas quase caindo do corpo. Ela agarrava a parte superior do vestido como uma armadura.
— Como posso te ajudar? — Por Deus, Cassie, onde estava seu senso de preservação? Ela nem mandou a garota revelar o que aconteceu antes de oferecer ajuda. E se a menina estivesse mentindo?
Mas ela não estava.
Por isso a minha revolta era tão grande. Se Cassandra estava me mostrando isso, então aquela garota deveria ter sido a causa de tudo.
— Por favor, me ajuda a fugir daqui. — suplicou.
Eu a odiava.
Não queria sentir isso. Essa garota nem tinha alcançado a maioridade. Isso era repugnante. Mas eu não conseguia engolir a raiva. Não era raiva da garota, mas por ela ter colocado Cassandra em perigo.
— Venha comigo, rápido. — Cassandra segurou a sua mão trêmula e a guiou pelo corredor. Em nenhum momento duvidou do que a menina dizia. Poderia ficar furiosa com isso, mas sabia que essa era a verdadeira Cassandra.
Ela nunca abandonaria uma mulher precisando do seu auxílio. Eu a ouvi dizer isso tantas vezes enquanto contava sobre as encrencas que se metia para defender as outras criadas.
Você sabe o fim dessa história.
Eu me recusava a pensar nisso. Sufoquei a voz do abismo e segui as duas pelo corredor. Elas atravessaram a mansão em silêncio até alcançarem a saída. Cassandra não tinha as chaves das portas, então ajudou a garota a escapar pela janela. No processo, ela segurou o pulso de Cassandra. Seus olhos se arregalaram de uma forma assustadora. Pensei que saltariam das órbitas.
— Ele esconde embaixo da mansão. — olhou ao redor como se estivesse sendo observada — Você precisa ir embora daqui. Todas devem ir embora. Você não tem ideia das coisas… Por favor, fuja desse lugar.
— Do que está falando? — enfim, Cassandra questionou. Por trás da sua coragem, eu percebia o medo crescendo lentamente.
— Não posso me comprometer, desculpe. — Passos no andar de cima nos interromperam. A garota soltou o pulso de Cassandra e pulou para fora da janela como se estivesse fugindo do próprio Diabo. — Vá embora desse lugar! — alertou antes de correr pela noite.
Dessa vez, não precisei me preocupar com a audácia de Cassandra, ela correu antes dos passos chegarem na escada. Senti um alívio até me lembrar de que aquilo eram memórias do passado. Cassandra podia ter fugido agora, mas o destino era inevitável. O alívio se transformou em agonia.
Não havia nada que eu pudesse fazer.
Nada.
Isso me fez querer morrer.
Olhei para a escadaria principal. Os passos vinham num ritmo predatório. O mundo se fechou ao meu redor, me engolindo em uma aura densa. O dono daqueles passos carregava algo pesado, opressivo e sufocante. Enxerguei sua silhueta no primeiro degrau.
É ele. Você sabe.
Não tinha certeza do que sabia. Nunca tive. Mas aquela dúvida sempre esteve ali. Encarcerada em minha mente pelas grades do medo. As palavras de Cassandra começaram a se repetir como uma profecia:
“O que você procura vai te destruir, Teresa”
Lembrei da imagem do cadáver de minha mãe. Seus pulsos possuíam um corte tão fino na horizontal. Não era o bastante para matar. Eu sabia disso porque fiz o mesmo corte em mim. Como não possuía conhecimento médico, não podia fazer afirmações sobre um assunto que não dominava.
Ensinavam-nos, desde pequenas, a confiar somente nos homens de terno, toga e jaleco branco. Afinal, eles possuíam o conhecimento. Nós, Cassandra, eu, minha mãe e as garotas do bordel, éramos apenas mentes incapazes de acompanhar a lógica prolixa dos homens. Questioná-los era considerado estupidez, mesmo quando qualquer tolo podia enxergar a verdade.
O feixe pálido do luar iluminou a escadaria.
Encontrei o rosto do meu pai.
Queria confrontá-lo. Começaria pela morte da mamãe, faria ele admitir o que fez com ela. O calor retornou ao meu estômago. Queimava com mais intensidade. Com fome. O vazio em mim ansiava por ser alimentado.
Estiquei as mãos para agarrá-lo. Queria empurrá-lo da escada. Mas ele me atravessou. O fogo interno se transformou em um sopro de gelo quando vi ele indo em direção ao corredor que levava aos aposentos das criadas.
Onde Cassandra dormia.
Não.
Por favor, não.
Você sabe o que vai acontecer.
Corri para impedi-lo, mesmo sabendo que não podia. As lágrimas entaladas formaram uma tempestade em meu peito. Trovões violentos anunciavam a tragédia prestes a acontecer. Não havia como atravessar sem naufragar. Cada passo do meu pai em direção ao quarto de Cassandra me inundava.
Os olhos dele estavam tomados por um brilho cruel. Não era como os olhares de desprezo que me dava. Esse era diferente, desumano e brutal. Até as pinturas congeladas nas paredes tinham mais humanidade do que ele.
Implorei por qualquer intervenção divina que pudesse me escutar. Mas nada aconteceu. Meu pai continuou andando e, por fim, parou em frente à porta do quarto. Girou a maçaneta sem pedir licença. Ele se orgulhava de ser o dono da propriedade e tudo dentro da mansão o pertencia.
Inclusive as pessoas.
Ele entrou no quarto.
Não queria ver o que iria acontecer. Fui empurrada até a porta aberta. Não poderia sair dali sem ver a verdade com meus próprios olhos. Esse era o passo decisivo, sabia que depois de olhar dentro do quarto eu nunca mais seria a mesma. Meu mundo desapareceria. Tudo que achava que conhecia seria desfeito.
Tempestade e fogo se cruzaram.
— Onde ela está? — ouvi meu pai dizer. Ele estava parado em frente à cama. Cassandra se encolhia sobre o colchão, as mãos agarradas na barra do uniforme cinza.
— Ela quem, senhor? — Cassandra mentia mal. Não fazia parte da sua natureza fingir. Mas eu queria que ela tivesse aprendido a fazer isso.
— Pensei que fosse mais esperta, Cassandra. — ele se inclinou até estar na mesma altura que ela — Me conte a verdade e prometo ser misericordioso. Não fui um bom senhor para você? Posso continuar sendo.
Parte de mim gritava para Cassandra dizer a verdade. A vida de uma prostituta não valia mais do que dela. Mas a outra parte se lembrava dos hematomas daquela garota e do seu corpo adolescente. Eu não seria capaz de condenar uma menina. Agora, diante dessa decisão, não conseguia ter raiva da integridade de Cassandra. Ela não era a culpada e nem aquela pobre garota.
Ele era o culpado.
O homem que condenou as duas.
Eu sabia qual seria a resposta de Cassandra.
— Não sei de quem está falando, senhor. — sentenciou com o olhar firme. Ela não abaixou a cabeça nem quando a morte estava diante de si.
Meu pai a agarrou pelo pescoço. Selvagem e possessivo. Podia compará-lo a um animal, mas os animais matam para se alimentar e para se defender. Ele não. Cassandra não lhe oferecia ameaça, mesmo se ela contasse para alguém sobre a garota, quem iria acreditar na palavra de uma criada? Havia inúmeras alternativas, mas ele escolheu a pior delas. Não para se defender. Ele escolheu porque queria.
E porque podia.
— Já que deixou minha coelhinha fugir, então será a substituta dela. — O sorriso sádico em seus lábios nojentos fizeram o fogo vencer a tempestade. Tremia, incapaz de conter e ebulição tomando conta de cada parte da minha alma.
Meu pai se levantou e veio até mim. Eu o encarei, desejando que sentisse o incêndio prestes a devorá-lo. Com aquele sorriso repugnante, ele fechou a porta. Os gritos de Cassandra ecoaram pela mansão. Todos a ignoraram.
O vazio virou caos.
E, agora, o caos virava destruição.
Parte V — Morte
O cenário foi borrado. Cassandra me impediu de assistir a sua morte. Mas ouvi cada um dos seus gritos. Eles iriam me assombrar até meu último suspiro.
Onde eu estava na hora em que ela foi assassinada?
Você estava triste porque ela não tinha ido até seu quarto.
Eu me lembrava agora. Meu coração estava tão apertado naquela noite. Tive pesadelos terríveis com alguém tentando me sufocar. Pensei ter sido apenas um delírio. Meu pai sempre dizia que eu era delirante.
Como pude ser tão estúpida em acreditar nele? Eu me odiava tanto. Não por não ter percebido o que acontecia embaixo do nosso teto, mas justamente por ter ignorado minha intuição. Podia ter feito alguma coisa para impedir o destino de Cassandra se não tivesse sido tão covarde.
— Não é sua culpa, Tess. — a voz dela veio até mim como um acalento — Você precisa se levantar agora. Não desista, por favor. Lute. Por mim, por sua mãe.
Mamãe.
O peso do ódio dobrou sobre mim. Ódio por não ter salvado quem eu amava, ódio por ter sido tão submissa e ódio pelo homem que eu chamava de pai.
O fogo se alastrou. Incontido, desesperado para engolir tudo pela frente em suas chamas.
Deixe-me sair, Teresa.
Eu ri, um som agudo e insano. Não precisava dar permissão para aquela voz sair. Ela nunca iria embora, estava incrustada nos meus ossos e se enraizava no meu coração. Minha inocência morreu com a mamãe. E agora a humanidade morria com Cassandra. A luz cedeu à escuridão. Estranhamente, isso veio acompanhado de uma sensação libertadora.
Quando abri os olhos, encontrei Thomas em cima de mim. Os olhos dele eram sádicos como os do nosso pai. Ele pretendia me matar, não precisava de provas para isso. Dessa vez iria acreditar no meu próprio instinto.
Escutei uma risada nas profundezas do abismo.
— Pensei que tivesse morrido. Ficou parada igual um cadáver durante minutos. — podia ver que parte da sua confiança se desfazia. Eu acho que ele não planejava me matar acordada. Queria me enterrar em silêncio.
Thomas seria o primeiro a ser consumido.
A fome borbulhou. Com força, agarrei os cabelos dele e puxei seu pescoço para baixo. Ele disse alguma coisa, mas não me importei em escutar. Senti o cheiro da sua carne podre com tanta sujeira impregnada. Ele fedia, assim como meu pai e assim como todos aqueles velhos na festa.
O ódio não iria se satisfazer com pouco.
Ele queria devorar tudo.
Cravei os dentes no pescoço de Thomas. Ele gritou em um som agonizante. O gosto da sua dor era um deleite. Queria fazê-lo se sentir tão indefeso quanto eu.
O empurrei para longe e me levantei. Cuspi seu sangue. Thomas engasgou algumas palavras até pousar o olhar atônito sobre mim. Ele não esperava por isso da sua doce irmãzinha. Não havia necessidade de verbalizar nada. Thomas transparecia tudo. O choque era explícito em sua feição contorcida.
Ninguém esperava uma atitude bruta da Teresa. Eles me olhavam sempre de cima, alguns com piedade e outros com aquele sorriso debochado. Todos eles achavam que eu nunca seria capaz de tomar o lugar do predador ao invés da presa. Eu mesma acreditava nisso.
Não mais.
Olhei para a enciclopédia na estante. A edição pesada com capa de couro se destacava. Quantas páginas ela tinha mesmo? Eu acho que cerca de dois mil. Nunca tive vontade de ler. Ela me despertava outro tipo de interesse.
Tive vontade de fazer isso tantas vezes, aquela voz do abismo era somente um eco dos meus desejos reprimidos. Eu entendi isso agora.
Teria ficado aterrorizada se não estivesse me sentindo tão poderosa. O sabor do poder era viciante. Não era à toa que os homens morriam em busca de uma gota dele. Eu controlava as minhas ações e o rumo da situação. O que eu decidisse se tornaria realidade.
Ninguém poderia me impedir.
Peguei a enciclopédia. O peso fez meu pulso tremer. Tive que segurá-la com as duas mãos.
Thomas se arrastou pelo chão quando me aproximei. Ele sabia qual era a minha intenção. Talvez porque ele mesmo tenha pensado em usar aquele livro dessa forma. Afinal, éramos irmãos e devíamos ter algumas coisas em comum, tipo o apetite por quebrar os ossos de quem odiamos.
— Teresa, por favor…
Eu poderia fazer um discurso agora. Dizer o quanto essa família era desprezível, fazer ameaças sobre expor todos os podres dele e do nosso pai e gritar histericamente. Mas do que isso adiantaria? Thomas nunca mudaria. Ele escolheu se tornar um homem repulsivo. Não merecia uma justificativa.
Homens como ele só mereciam sofrer. Nossas palavras eram muito valiosas para serem desperdiçadas com criaturas tão medíocres.
Ergui a enciclopédia.
Respirei.
O primeiro impacto quebrou o maxilar dele. O estalo seco do osso foi um deleite proibido. O segundo quebrou seu nariz. Depois do terceiro, parei de contar. Cada fratura acendia uma sensação revigorante.
Poder. Vingança. Ódio.
Só parei de golpeá-lo quando meu pulso latejou. O rosto de Thomas era agora uma máscara grotesca de carne inchada e sangue. Irreconhecível. Nunca imaginei ser capaz de tamanha brutalidade.
E se eu fosse igual ao meu pai?
O pensamento me fez recuar.
Não queria ser como ele. Mas também queria matar. Entre nós havia uma linha tênue demais.
— Você não é igual a ele, Tess. — Cassandra surgiu ao meu lado com a aparência frágil de ontem.
Larguei a enciclopédia. Ela caiu com um baque no chão. Só então me dei conta da dimensão do seu peso. Como pude segurar aquilo por tanto tempo sem vacilar?
— A mesma violência habita em mim Cassie. — minha voz falhou. — Não eram só pensamentos.
O ódio oscilou quando encontrei seus olhos. Mesmo ofuscados pela dor, eles ainda eram os mais bonitos que existiam.
— Sua violência nasceu da injustiça. Eu sinto o mesmo ódio. Por que deveríamos nos culpar? Eles nunca se culparam.
— Mas eu ainda estou viva. — engoli seco. — Não me sinto no direito de justificar… você quem… — não fui capaz de verbalizar. Cassandra entendeu, pude notar através do seu olhar carregado de amargura.
— Sofremos violências diferentes, Tess. Uma não é maior do que a outra. Você não escolheu ser assim. Diferente dele — pressionou os lábios — Seu pai escolheu ser um monstro. E, acredite, ele desfruta de cada momento.
— Eu… eu desfrutei também.
Cassandra sorriu, delicada. Meu monstro adormeceu. Estendi a mão, mas o toque atravessou seu rosto. Senti apenas um calor fugaz. Meu coração foi destruído ao saber que nunca mais a tocaria novamente. Não sentiria seus lábios, sua pele ou sua respiração quente.
Nunca mais.
— Não foi prazer em matar. Foi prazer em revidar. Prometemos nunca mentir uma para a outra. Então acredite: você não é igual a ele.
— Mas eu quero matá-los. Todos.
— Por quê?
A resposta já me queimava por dentro. Sempre esteve ali, escondida nas feridas que fingi ignorar. O olhar repulsivo de Lord Rochester. O desprezo do meu pai. As risadas sujas do meu irmão.
Eu os odiava com uma fúria que me consumia.
— Porque eles roubaram tudo de mim. De nós.
Olhei para minhas mãos.
As luvas estavam cobertas com o sangue de Thomas. O veludo precioso, manchado para sempre. As criadas sempre diziam: mancha de sangue nunca sai.
Elas estavam certas.
Cassandra me fitou em silêncio.
— Então roube tudo deles também.
A morte apagou seu brilho. Ela não era mais a moça radiante, assim como eu não era mais a moça retraída. Podia ouvir as paredes da mansão racharem. Os pilares que a sustentavam deixariam de existir.
Olhei para Thomas desfigurado. Não precisava me preocupar com seu cadáver.
Em breve, teriam muitos outros.
Parte VI — Sussurros
O barulho da festa desapareceu. Já não ouvia nem o assovio do vento lá fora. Olhei para a escadaria de pedra diante de mim. Ela levava ao subsolo da mansão, parecendo o caminho para as profundezas do inferno — embora Cassandra tivesse me afirmado que esse lugar não existia.
Iluminei os degraus, mas a luz não alcançava o fim. Nunca havia entrado aqui. Mamãe dizia que abaixo das escadas só havia ratos e esgoto antigo. Os criados, por sua vez, contavam lendas sobre fantasmas assombrando o subsolo. Acho que ambas as teorias estavam perigosamente próximas da realidade.
— Eu consigo ouvi-las. — Cassandra disse.
— O que elas dizem?
Tive a impressão de escutar um lamento profundo vindo das escadas. Lembrei das palavras daquela garota. Como ela descobriu o que tinha lá embaixo? Talvez nem estivesse mais viva para nos contar. Meu pai deve ter ido atrás dela depois da fuga. Ele não a deixaria escapar ilesa.
— Estão nos chamando — disse num sussurro solene.
Seria ironia ter medo de mergulhar em um local assombrado quando eu estava acompanhada de um fantasma. Não havia razão para temer os mortos. Pelo contrário — eles eram os únicos que sabiam de toda a verdade.
Respirei fundo. O ar gelado me fez tremer. Estiquei a mão para segurar a de Cassandra, mas me lembrei do nosso limite. Ela me deu um olhar triste.
Não precisava tocá-la de fato. Sua presença bastava para que eu a sentisse comigo
Descemos os primeiros degraus.
Mantive a lamparina na altura do rosto. Cassandra ia na frente, virando a cabeça de tempos em tempos para me dar olhares de incentivo. Queria saber como era estar no outro plano, mas talvez essa fosse uma pergunta indelicada no momento.
— Cassie. — quebrei o silêncio.
— Sim?
Nossas vozes ecoavam através das paredes de pedra.
— Me desculpe por não ter te salvado. Eu sabia que não tinha como... mas isso não diminui a sensação de fracasso.
Cassandra se virou para mim.
— Você não tem culpa de nada. Por favor, Tess, não carregue um fardo que não te pertence. — seu olhar era compassivo — Foi culpa dele. Só dele.
As lágrimas escaparam. Não precisava conter o choro diante de Cassandra. Deixei que os sentimentos entalados escorressem por um tempo: culpa, melancolia, arrependimento. Eu não podia me esquecer da nossa missão, mas sentia como se o choro fosse me engolir.
— Tess. — ela sorriu — Andar alivia o peito. Eu sempre me sentia melhor depois de uma caminhada. Você se lembra?
— Sim, eu me lembro.
As lágrimas escorriam até meus lábios, salgadas, enquanto eu mantinha a cabeça baixa, descendo mais um degrau.
— Você gostaria de esquecer nossas memórias? — a pergunta veio em tom velado, quase temeroso.
Continuei a andar. Ela sabia a resposta, mas precisava ouvi-la. Cassandra devia achar que eu pararia de sofrer caso não me lembrasse de nós.
— Nunca. Você me deu as minhas melhores lembranças. Nenhuma tragédia pode apagar isso.
O silêncio que se seguiu era denso, necessário. Minha respiração soava pesada. As pernas ardiam de dor; eu ainda não havia me recuperado da luta com Thomas. Os braços vacilaram, e precisei segurar a lamparina com as duas mãos.
Foi então que senti uma corrente de ar.
Um cheiro úmido, como o de um cemitério após a chuva, invadiu meus pulmões: lama, podridão, catacumbas fechadas há séculos. Cassandra me lançou um olhar de incentivo.
Avançamos até o último degrau. O corredor de pedra se abriu diante de nós, conduzindo a uma caverna profunda. A vibração do solo parecia ressoar nos meus ossos. Ali, segredos haviam sido enterrados.
O odor de decomposição me envolveu.
Abaixei a lamparina.
O corpo de uma garota jazia diante de mim. Sua carne sendo devorada por roedores. Os olhos congelados nas órbitas. Chutei um rato que tentou escalar minhas pernas. Ele guinchou e correu pela trilha escura — onde outro cadáver repousava.
E outro.
E mais outro.
As lágrimas queimaram meus olhos. Não era piedade. Era ódio. Indignação. Repulsa. Apertei a lamparina até sentir meus dedos afundarem na própria pele.
Lembrei das palavras da garota em fuga: “Ele esconde embaixo da mansão.”
Cassandra não foi a única vítima.
Ele não era apenas um assassino. Era um viciado em matar. Um compulsivo. Apontei a luz para as roupas ensanguentadas. As gargantas cortadas, os braços dilacerados, os rostos deformados como bonecas partidas. Não bastava a ele roubar a vida delas. Precisava torturá-las, degradar seus corpos. Transformar sofrimento em espetáculo.
O que levava um homem a tamanha crueldade?
Poder.
Eu também já senti o gosto do poder. Mas não assim. Não dessa forma. Olhando para aqueles corpos esquecidos, percebi que não era como ele. Podíamos carregar sombras, mas não éramos iguais. Cassandra tinha razão: ele escolheu esse caminho.
Eu fui empurrada para a violência. Se não tivesse matado Thomas, ele teria me matado. Minha sede de sangue não era apenas vingança: era proteção. E agora eu via que não se tratava apenas de mim. Era sobre impedir que ele arrastasse mais garotas para aquele abismo.
O fogo ardeu dentro de mim, pronto para consumir a mansão inteira.
Olhei para Cassandra.
— Se o inferno não existe, então eu irei criá-lo.
Parte VII — Renascimento
5 de novembro de 1890
O trágico incêndio na mansão Blackwood ceifou a vida de quinze pessoas, entre elas o senhor Arthur Blackwood, seu filho Thomas e seus estimados colegas de trabalho. Após uma investigação considerada meticulosa, as autoridades concluíram que o fogo teve origem em um descuido dos responsáveis pela cozinha naquela fatídica noite.
Embora tais circunstâncias tenham custado a vida de homens de tão ilustre reputação, a atual Lady Blackwood — uma das poucas sobreviventes — declarou não pretender castigá-los. Tal gesto de clemência tem sido recebido com severa censura pelos familiares das vítimas; ainda assim, é compreensível que a jovem Teresa, após perder seus últimos parentes consanguíneos, tenha adiado o julgamento para o período além do luto.
Por ora, Lady Blackwood recolheu-se à antiga residência da família, em Edimburgo, até que a mansão Blackwood seja restaurada. Estima-se que as obras demandem anos, mas a jovem já anunciou que continuará administrando os negócios de seu falecido pai e, mais ainda, que pretende expandi-los, a fim de honrar seu nome.
Inúmeros pretendentes, movidos tanto pela compaixão quanto pela ambição, já lhe ofereceram matrimônio — nenhum, até o presente momento, foi agraciado com resposta. O futuro da dama permanece envolto em incertezas e tem despertado a mais viva curiosidade entre os círculos londrinos. Quanto a mim, ouso acreditar que seria sábio conceder-lhe o silêncio e o tempo de que necessita. Tenho a convicção de que, quando sua sombra emergir do luto, Lady Blackwood nos brindará com notícias de arrebatadora magnitude.
Aqui deixo meus mais sinceros pêsames à distinta Lady e às famílias que se encontram enlutadas por tão horrenda tragédia. Que Deus guie as almas dos que partiram até a morada da paz eterna.
Revisão de Sahra Melihssa
Monica Maria
Desde a infância, cultiva uma paixão por romances sombrios, investigação criminal, literatura gótica e ocultismo. Iniciou sua escrita com fanfics inspiradas em suas bandas e livros favoritos, descobrindo cedo o desejo de transformar palavras em profissão. Após sua estreia em um podcast de horror, fez uma pausa para cuidar da saúde mental. O diagnóstico de autismo trouxe novos olhares sobre si mesma. Hoje, aos 32 anos, transforma antigas dores em narrativas viscerais. Além de escritora, atua como cartomante, magista e criadora de conteúdo no Instagram e no TikTok. » instagram da autora
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
A Harmonia do Acaso
Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Vós que aqui entrais, abandonai toda a esperança”. — Dante Alighieri
Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar que uma Força maior talvez tenha interferido no destino de alguém. Os fatos ocorrem de forma sincronizada, uma simples ação desencadeando outra e mais outra até que algo inevitável aconteça. Naquela madrugada, após chegar em casa às três horas, depois de mais uma noite de bebedeira, Antônio jamais esperaria que o dia seguinte lhe traria dissabores inomináveis. Como lhe era de costume, chegou em casa, procurou algo para comer, descalçou os sapatos e, ainda mastigando um pedaço de queijo velho – de há muito tempo abandonado na geladeira – jogou-se na cama do jeito que estava e logo caiu no sono, sem se preocupar que a vida teria que continuar dali a algumas horas.
Acordou assustado com o telefone tocando e com o barulho de uma buzina de um caminhão que havia acabado de dobrar a esquina. A casa em que morava – um apartamento de dois quartos no segundo andar de um sobrado antigo – situava-se numa esquina bastante movimentada àquelas horas da manhã. Aquele barulho lhe arrancara de seu sono pesado e o trouxera de volta à sua dura realidade. Ainda meio zonzo pelo susto, ao olhar para o rádio-relógio – que ele esquecera de programar o alarme – na cômoda ao lado da cama, logo se colocou de pé num sobressalto. Estava bastante atrasado para o trabalho. O relógio marcava 08h35, e ele já deveria estar na loja desde as 08h00. Assim que olhou para o telefone e viu que o número identificado era do asilo onde sua mãe estava há mais de dois anos, o ignorou por completo, pensando consigo mesmo: – Na hora do almoço, ligo de volta para saber do que se trata.
Em menos de dez minutos já havia tomado banho e se barbeado. Foi até a cozinha em busca de algo para comer e, como nada de agradável para uma manhã de ressaca fora encontrado, tomou apenas um copo de leite frio. Já vestido com seu uniforme, foi mais uma vez ao banheiro para escovar os dentes e, sem mais delongas, se encaminhar rapidamente para o trabalho. Ao retirar o creme dental do tubo, talvez devido à pressa em que estava, ou mesmo por falta de perícia, conseguiu sujar toda sua camisa – de cor preta – com uma considerável quantidade daquela pasta branca. Por mais que tentasse, não conseguiu, de forma alguma, deixá-la apresentável. A única solução fora usar a mesma camisa do dia anterior – amarrotada, suja de suor, fedendo a cigarro e a todo tipo de odor que um botequim pode oferecer.
Aquele era um dia que ele, de forma alguma, poderia faltar ao trabalho. Um grande artista da música pop iria pessoalmente até a loja buscar um violão estilizado, que havia sido encomendado há dias. No dia da encomenda do tal instrumento, após aquele momento de trocas de gentilezas entre vendedor e cliente – onde certa intimidade se estabelece –, Antônio se aproveitou daquela oportunidade única – que ele há muito tempo aguardava – e, sabendo de quem se tratava, logo relatou sobre sua paixão pela música e também falou sobre suas composições, que certamente, na voz de um grande intérprete, talvez poderiam se transformar em hits de sucesso. Solicitou então àquele artista que, assim que voltasse à loja – se fosse de seu interesse e sem compromisso algum –, pudesse dar uma olhada rápida em suas composições e, quem sabe assim, encontrar alguma canção que lhe interessasse.
Antônio era um homem talentoso e bastante sonhador. Um indivíduo muito trabalhador, mas também muito irresponsável com suas finanças e bastante negligente consigo mesmo. Já na casa dos trinta anos – tal como sua própria mãe, agora abandonada num asilo – ainda não havia se casado e muito menos conseguido algum tipo de sucesso na vida. Filho de uma professora aposentada, que o concebera já madura em anos, quando já contava com quarenta anos. Essa professora – Tia Adélia – uma bela solteirona que havia dispensado várias oportunidades de casamento em sua juventude, preferindo investir seu tempo e disposição em sua carreira pedagógica, certo dia, num baile de carnaval, sob efeito de uma bebida um pouco mais forte, se deixou levar pelos encantos de um sedutor caminhoneiro que estava de passagem pela cidade. O resultado dessa ébria noite de carnaval viria se apresentar ao mundo nove meses depois, na figura de um belo e saudável menino que receberia o nome de Antônio Augusto.
Como não conhecera seu pai – que certamente morrera sem saber da existência de um filho –, fora criado pelo avô – que também se chamava Antônio – que tentou, dentro de suas possibilidades, lhe dar uma boa educação. Seu Antônio tinha, em parceria com seu irmão Jaime, uma serraria na pequena cidade onde moravam. Foi nessa serraria que Antônio Augusto – chamado Toninho – passou sua infância e adolescência aprendendo todo tipo de coisa: tudo o que prestava e também aquilo que não seria de nenhum proveito.
Esse seu tio-avô, Jaime, era a pior espécie de pessoa que poderia servir de exemplo para uma criança. Não era muito achegado ao trabalho duro, bebia como um louco e fumava feito uma chaminé. Era mulherengo ao extremo e tinha meia dúzia de filhos – nenhum deles reconhecido por ele – espalhados por toda a cercania com diversas mulheres diferentes, mulheres essas de índole e caráter bastante duvidosos. Contudo, não há nada no Universo de que não se retire algum proveito. Tio Jaime, por mais que possa parecer ser um indivíduo completamente imprestável, mesmo tendo ensinado o jovem Toninho os diversos segredos da malandragem, também fora o responsável por encaminhá-lo ao mundo da música, ensinando-o a tocar diversos instrumentos musicais. Tio Jaime era um exímio instrumentista e lhe ensinara tudo o que sabia.
Sua mãe se aposentara no mesmo ano em que ele completara 18 anos. Nessa época, seu avô já havia falecido há dois anos; sua avó morreria no ano seguinte, ficando apenas ele e sua mãe morando numa casa enorme. A serraria fora vendida assim que Seu Antônio falecera. Tio Jaime sobrevivia de sua parca aposentadoria e de um ou outro trocado que recebia de algum aluno que o procurava para aprender a tocar algum instrumento musical, mas também viria a falecer em pouco tempo, após uma vida carregada de lascívia e devassidão.
Como Tia Adélia não via muito futuro para o filho numa cidade pequena, decidira se mudar com ele para a cidade grande. Antônio Augusto – que deixara o apelido de Toninho para trás – tentara de todas as formas seguir carreira como artista. Contudo, não obtendo a sorte e a oportunidade necessárias ao estrelato, se firmara como vendedor numa loja de instrumentos musicais, onde trabalhava há mais de dez anos. Sem o tempo necessário e com pouca paciência para com sua mãe, que na senilidade se tornara irascível e taciturna ao extremo, decidira por interná-la num asilo, onde, para desencargo de sua própria consciência, dizia para si mesmo que ela seria muito bem cuidada por profissionais especializados nessa função.
Aquele dia – que não havia começado muito bem – tinha tudo para ser um grande dia. Ele não deixaria que ninharias o abatessem. Vestiu a camisa do dia anterior – mesmo não estando na melhor das condições –, pegou seu crachá e suas chaves e desceu correndo as escadas para ir para seu trabalho. Sabia que o tão esperado artista só estaria na loja após as dez da manhã. Para isso, ele ainda tinha tempo. A questão era que seus atrasos estavam ficando corriqueiros demais, e a nova gerência da loja já o havia advertido naquela mesma semana quanto a tal situação. Quando chegou ao portão de saída de sua casa, lembrou que estava se esquecendo do item mais importante daquele dia – seu caderno de composições. Talvez fosse a coisa mais importante de toda a sua vida. Por isso mesmo, voltou correndo até seu apartamento e, já de posse de tão importante objeto, desceu mais uma vez as escadas que levavam até a saída. No escuro corredor das escadas, sentiu uma estranha presença perto de si e, ao cruzar o portão de saída, teve a sensação de ter visto um vulto passando por ele. Bastante eufórico com as promessas daquele dia e totalmente absorto em seus pensamentos, atravessou a rua sem olhar para os lados e, quando o fez, a única coisa que viu foi uma enorme mancha verde vindo sobre ele. Num último momento, ouviu um estrondoso barulho que misturava sons de buzina, freadas de pneus e uma forte pancada. De repente, havia apenas o silêncio, e tudo ficara completamente escuro...
... Quando conseguiu, por fim, abrir os olhos, estava num lugar estranho, onde parecia estar anoitecendo, mas não conseguia ver os traços de um entardecer, muito menos o menor sinal de um céu estrelado. Ao olhar para cima, o que viu foi a escuridão de um céu que parecia estar nublado, pronto para descarregar uma tempestade a qualquer momento, mas não havia o menor sinal de chuva. O tempo estava quente e abafado, não havia uma única brisa soprando. Havia um fétido odor de coisa podre pelo ar, como se houvesse um esgoto a céu aberto ali por perto e vários velórios acontecendo ao mesmo tempo, com seus vapores de defunto, velas e flores murchando. Levantou-se e logo quis saber onde estava, mas as pessoas que passavam por ele, caminhando a esmo, agiam de forma estranha, não diziam coisa com coisa. Pareciam estar bêbadas, caminhando trôpegas e falando coisas sem nenhum nexo. Alguns pareciam estar em profundo remorso, pois batiam no próprio peito numa inconsolável lamentação.
Decidiu que o melhor a fazer era tentar encontrar alguém que conhecia, para saber que lugar era aquele e, principalmente, tentar entender o que estava fazendo ali, uma vez que deveria estar na loja para encontrar a pessoa que poderia realizar o grande sonho de sua vida. Caminhou sem destino certo por quase uma hora, sem encontrar ninguém que pudesse lhe dar uma explicação plausível; todos que encontrava pelo caminho pareciam estar muito envolvidos em seus próprios problemas. Ninguém interagia com ninguém, era um verdadeiro “cada um por si e Deus por todos”. Contudo, de algum modo, ele teve a estranha sensação de que Deus não estava presente naquele lugar. Sentindo-se cansado e com um gosto estranho de sangue na boca, com o corpo todo dolorido, como se tivesse sido violentamente espancado, não conseguia de forma alguma se lembrar de como chegara ali. Suas pernas estavam doendo pela caminhada, mas não sentia sede, e até mesmo a fome que o açoitava ao se levantar naquela manhã o havia abandonado. Numa das mãos ainda trazia consigo as chaves de casa, que ele não havia colocado nos bolsos, e na outra carregava seu caderno de composições.
A rua pela qual ele caminhava parecia não ter fim, como se estivesse caminhando em círculos, mas, por mais que andasse, não passava pelo mesmo lugar mais de uma vez, como se estivesse numa cidade infinita. Percebeu que, nas casas, as luzes estavam apagadas e todas as portas – de casas, lojas, botequins etc. – estavam fechadas. Havia pessoas de todas as formas e tipos, as mais diversas, pelas ruas. Todas caminhavam de um lado para o outro, tristes e cabisbaixas, e, quando ele tentava interagir com alguém, cumprimentando-as ou lhes perguntando algo, ninguém lhe dava atenção. Depois de certo tempo, que lhe pareceu ser quase uma eternidade, teve a impressão de ter visto, caminhando em sua direção, sua antiga professora do jardim.
Tia Cecília fora sua professora quando ele ainda tinha sete anos, mas, pelo que se lembrava, ela havia morrido há alguns anos num trágico acidente de carro que colhera tanto a vida dela quanto a do marido e de seu único filho – bastardo, diziam as más línguas. Pelo que soubera, eles estavam voltando de uma festa, onde tanto ela como o marido haviam bebido muito e decidiram que o menos ébrio pegaria a direção. O resultado de álcool e direção fora desastroso. Tia Cecília passou por ele como se fosse um completo estranho e nem ao menos lhe respondeu quando ele a cumprimentou, chamando-a pelo nome. Antônio pensou que havia se confundido. Continuou caminhando e, ao dobrar uma esquina, se deparou com seu Tio Jaime, que esse sim o reconhecera. Pois foi Tio Jaime quem lhe direcionou a palavra, questionando o que ele estava fazendo naquele lugar. Muito satisfeito por ter encontrado um rosto conhecido, mas bastante assustado por saber que era alguém que havia falecido há muitos anos, logo questionou seu tio sobre o que significava tudo aquilo, o que, com certa relutância, lhe fora explicado.
— Este lugar tem vários nomes, filho: Hades, Purgatório, Inferno... Aqui nós o chamamos de Umbral. Território desprovido de todo e qualquer sentimento de piedade, não há fraternidade aqui presente, ninguém parece se importar com a dor do outro. Cada um purgando seus próprios pecados, nesse infinito vai e vem de transeuntes ensimesmados. Vez por outra, aparecem por aqui umas pessoas vestidas de branco, transcendendo uma estranha luz azulada, que escolhem alguns dentre os que caminham e os levam consigo. Para onde, ninguém sabe, até porque os que são levados não retornam para contar, e quem os leva nunca diz nada para os que aqui ficam.
O que sei é que muitos, como eu mesmo, ficam bastante tempo por aqui. Após muita reflexão – e tempo para refletir é o que não falta por aqui – cheguei à conclusão de que o tempo passado aqui depende de como foi sua vida no mundo dos vivos. Pois alguns são rapidamente resgatados pelos seres de luz. Quando alguma criança chega, algum ser de luz já está à sua espera e ela é imediatamente levada. É estranho você chegar no mesmo dia em que sua mãe também passou por aqui. Vocês estavam juntos? Tiveram algum acidente?
Naquele momento, Antônio teve um sobressalto e, todo assustado e trêmulo, disse:
— Como assim? Que história é essa? Minha mãe está ou esteve aqui?
Tio Jaime, após um longo suspiro – ou pelo menos algo que pudesse se assemelhar a tal –, respondeu:
— Cheio de perguntas como todo mundo! Sua mãe passou por aqui mais cedo, um pouco antes de você chegar. Mas, como tinha um coração puro e inocente como uma criança, logo foi resgatada por um dos seres que já aguardava. Ela não chegou a me reconhecer como você o fez. Porém, eu a reconheci de imediato e, como estava próximo a ela, pude ouvi-la quando questionou ao ser que a aguardava: “O que seria de você sem ela para protegê-lo?”. O ser, muito gentilmente, respondeu que você ainda teria bastante tempo para endireitar suas veredas...
De repente, uma forte luz que banhava sua face lhe cegou os olhos momentaneamente, e o barulho de uma buzina quase o deixou surdo. Mas o que mais lhe incomodava naquele momento era o irritante som do telefone que tocava insistentemente. Antônio despertou de um terrível pesadelo, seu estômago estava embrulhado e sua cabeça doía terrivelmente. Ao perceber que o telefone não lhe daria paz, decidiu atendê-lo. Era do asilo onde sua mãe estava internada.
— Senhor Antônio Augusto de Albuquerque?
— Sim! Sou eu.
— Infelizmente, não tenho uma boa notícia para o senhor...
Revisão de Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
De como Solas governa Zélis
Seis mil anos antes da invasão do Abismo, um arquidemônio já sombreava o plano terrestre com suas asas. O continente-reino de Zélis era o menor do mundo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Seis mil anos antes da invasão do Abismo, um arquidemônio já sombreava o plano terrestre com suas asas.
O continente-reino de Zélis era o menor do mundo de Palais. O rei Mietaz, da casa Andros, governava naquelas circunstâncias.
O rei, idoso e muito afeiçoado, tinha somente uma filha, a única herdeira de seu reino. A donzela Eneza, porém, já frágil de constituição, contraiu uma doença desconhecida. A notícia abalou o carinhoso rei e seu semblante nunca mais se recompôs.
A enfermidade acamou a princesa: um flagelo cruel, com febres constantes, bolhas pútridas e delírios que, segundo fanáticos, eram possessões. A doença não concedia sequer o benefício da morte.
Eneza sofreu por longos meses; o desesperado rei não encontrava físicos nem doutores que tivessem a causa ou a cura.
Mietaz, num gesto humilhante, enviou cartas e emissários a todos os continentes e reis de Palais. Mas nenhum nobre, nenhum médico, dispunha de solução.
A fagulha de esperança surgiu após um ano de sofrimento. Um visitante chegou à corte.
Forrasis era o nome dele. Pálido, alto, cortês e eloquente; apresentava-se como um diplomata enviado por Sarakh de Alfara.
Mietaz conhecia a fama do rei Alfaro. Sarakh era chamado de “o Prístino”, pois vivera mais de um milênio, sustentado por meios herméticos e controversos. Forrasis sugeria esses meios.
As audiências entre ele e Mietaz tornaram-se frequentes e sempre privadas. Os altos nobres estranharam a ausência do conselho real de Zélis. Mas o rei dizia que se tratava apenas de diplomacia externa.
O secretismo possuía nefastos motivos: o diplomata prenunciou a morte de Eneza e a anarquia de Zélis caso o rei recusasse sua proposta.
O rei, mais desesperado que nunca, aceitaria quase antes de ouvir. A proposta era simples e profana: conjurar o mestre dos segredos, Solas, arquidemônio do Abismo, por meio da demonurgia conduzida por Forrasis.
Naturalmente, Mietaz hesitou. Um arquidemônio como curandeiro? Mas Forrasis garantia: o Abismo já havia curado outros. Sarakh recorrera à alquimeria abissal para se manter vivo e fizera de Alfara uma potência com tal ciência.
Mietaz resistiu por alguns dias. Mas Eneza era sua filha. Sua vida sustentava não apenas o coração do rei, mas também a sucessão de Zélis. Era isso, ao menos, que murmurava para si mesmo, e bastou para que cedesse.
Forrasis logo produziu um símbolo distorcido, um ídolo abissal, como o objeto daquele acordo.
Seu sangue régio devia banhar por treze dias o ídolo; preces numa língua distorcida, que apenas o diplomata conhecia, deviam ser repetidas em sessões demoradas. Para isso, Mietaz mandou construir uma sala oculta, adjacente à sala do trono.
No décimo quarto dia, o ídolo se partiu em estilhaços e Solas se manifestou.
Sua forma era estranha aos olhos humanos: uma coruja altíssima, de pernas longas e nuas. O torso era magro, mas suas asas quase tocavam todas as paredes da câmara. Seus olhos, macabramente vermelhos, ignoravam a presença do rei.
Ele conversou primeiro com Forrasis numa língua profana. Somente depois cedeu um pouco de atenção ao rei, que suava e retraía seu corpo pelo medo, mesmo que o diplomata garantisse a segurança.
O rei vomitou em resposta ao cheiro pútrido de Solas. A pedido de Forrasis, Solas ocultou parte de sua essência. Encolheu-se. Tornou-se uma coruja comum aos olhos de quem o visse. Seu cheiro pútrido também desapareceu.
Mietaz falou, ainda que tremendo, no idioma que sabia, de sua aflição. Revelou suas dores e prestou reverência à criatura. Solas, primeiro em silêncio, respondeu no mesmo idioma do rei.
Solas concordou. Mas em troca, exigiu uma sala do trono, uma coroa real e o título eterno de conselheiro absoluto da coroa de Zélis.
Mietaz hesitou, dessa vez com mais consciência. Olhou para o chão. Suas mãos tremiam. Por um instante, cogitou recusar. Mas ao lembrar-se do estado de Eneza, cedeu de novo. Murmurou para si que era por Zélis… mas sabia, no fundo, que era só por ela.
O contrato foi feito, o ritual selado.
Treze dias depois, Eneza levantou-se da cama. Suas bolhas haviam sumido. Sua pele era clara e firme. Sua saúde perfeita. O rei chorou de alegria. Agradeceu a Solas e prestou mais reverências.
Mas a princesa não parecia a mesma de antes. A amabilidade de seu rosto desapareceu; a gentileza, antes costumeira, não mais existia. Ela desprezava o conselho, o povo, o pariato. Falava pouco, e cada vez mais passava tempo com o demônio. E seu cheiro, quando sentido de perto, era o de um cadáver.
Ao passar das semanas, Mietaz percebeu que foi enganado. Sua filha redespertou como serva de Solas, como fantoche do Abismo.
Todos os sacrifícios que ele ofereceu ao demônio, as crianças e as donzelas, foram somente para alimentar sua transformação. Almas humanas foram os temperos dos remédios.
Ele não suportou o peso da culpa. No segundo mês da “cura” de Eneza, o rei Mietaz se jogou de sua torre.
Sua filha não chorou, nem fingiu luto. Assumiu o trono. Ela dissolveu o conselho e instituiu Solas, trajando agora diversas aparências humanas, como conselheiro real.
Solas, por séculos, atuou como conselheiro real, e como o governante de facto do reino. Por ele, o continente se tornou o centro da tecnologia de Palais. E também o berço da alquimeria abissal.
A corte de Zélis, hoje repleta de vassalos demoníacos, foi uma importante coluna para a Igreja abissal e para o surgimento da fissura em Alfara.
Solas, o arquidemônio dos segredos, ainda governa ali, trajando uma coroa esplendente. Loquaz, simpático, crente de ser o mais sábio dos entes antigos.
Revisão de Sahra Melihssa
Ricardo Zanella
Ricardo Zanella, também Áster e Venez, é tradutor, escritor e poeta por vocação. Nascido no início do milênio, em Itaperuna, Rio de Janeiro, é um ardente mantenedor da antiga poética dos trovadores. Áster escreve por vocação e por necessidade interior, pois, como afirma, “há uma razão suficiente para cada verso”. Acredita na arte literária como o caminho mais belo para a elevação do espírito. É autor de "Abissais", fantasia sombria que mescla o horror metafísico a um vislumbre de redenção. Em seus escritos, o amor cortês é o tema mais recorrente. » Instagram do Autor
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
A Ópera dos Vampiros
As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante do largo palco de madeira rangente. Quando todos estavam bem acomodados e o silêncio reinava, as cortinas vermelhas se abriram sob o tremelicar dos trilhos empoeirados.
O vulto de Melinda foi iluminado pelas luzes manuseadas por Syrrha, uma estranha jovem que guardava consigo uma lamparina e o dever de iluminar o palco. Melinda, que interpretava Christine Daaé, atenta a seu papel, ouviu os espirros do público, contagiados pela poeira. Ela andou vagarosamente até o centro, atraindo a atenção. Aquela plateia tinha olhos mórbidos, como bonecos de cera; pareciam imersos em um encanto sorrateiro que os prendia naqueles bancos.
Uma orquestra peculiar se destacava ao redor do palco; os músicos pareciam petrificados e presos aos seus próprios instrumentos pesados. O maestro produzia movimentos rápidos e rígidos, mas as roupas deles pareciam antigas e puídas pelo tempo. As faces mostravam-se sulcadas e fragilizadas pelo torpor de um sofrimento incomum, como se eles já não pertencessem ao mundo dos vivos, hipnotizados. Cada instrumento — os violinos, cujas cordas rangiam como unhas arranhando algo; oboés, que exalavam um chiado fúnebre; trompas de metal oxidadas — exibiam um véu espesso de pó, como se cada nota fosse expelida de um porão esquecido. Mas nada daquilo impressionava Melinda.
Ao som da orquestra sepulcral, ela entrou vestida com um longo traje de veludo escarlate, que ondulava como sangue sob as luzes do palco. Melinda era magneticamente bela. Seus cabelos ruivos, de um tom acobreado, eram uma cascata de cachos que desciam até a cintura, emoldurando um rosto pálido e aristocrático. Os olhos cor de mel, intensos e levemente entorpecidos, contrastavam com o ambiente imerso na penumbra. Era impossível fitá-la sem sentir-se atraído ou atraída.
Ao atravessar a coxia, ela desfilava em beleza pelo palco de madeira, enquanto sua voz reverberava doce e cálida, ecoando alta pela plateia absorta. Syrrha corria pelo fundo do palco para apontar a iluminação corretamente, contando com a ajuda de pessoas que ela via apenas como vultos na mudança de cenário.
Melinda atuava no teatro particular do Castelo Drácula, e aquela peça era nada menos que “O Fantasma da Ópera”. A ópera preenchia cada canto do teatro em um feitiço sonoro e, a cada nota, um desejo crescente pulsava nas veias dela. Ao fim de cada apresentação, sentia-se sedenta, pois seu canto exigia sacrifício.
Enquanto a vampira guiava os atos em atuação, aqueles vultos que Syrrha via estavam sob seu comando e, pelo comando dela, com apenas um único olhar, eles fizeram descer, por cordas, imagens de candelabros por trás de Melinda, imersa no papel de Christine e do Fantasma. A poeira suspensa dançava em redemoinhos no ar; iluminada pelos feixes de luz difusos, ela parecia tremelicar.
O Fantasma da Ópera entrou em cena, vindo das sombras de uma das coxias; ele deslizou sob o palco. A máscara branca ocultava parte de seu rosto mortiço, mas não podia esconder o sorriso traiçoeiro que se insinuava em seus lábios. Envolto em uma capa negra, ele avançava elegante; cada palavra entoada reverberava à luz vacilante dos candelabros. Era possível distinguir o brilho afiado de seus caninos sempre que sua voz cortava o ar, sugerindo sua realidade por trás do personagem.
A melodia era bela, entoada pela voz una do dueto e pela orquestra, incitando arrepios em Melinda. Enquanto a voz una do dueto se fundia às notas sombrias da orquestra, eles cantavam e encenavam como se estivessem possuídos.
“Those who have seen your face, draw back in fear...”
Melinda caminhava lentamente pelo palco, os braços erguidos em gestos fantasmagóricos, mas seus olhos permaneciam vigilantes. O Fantasma surgia por trás dela, como uma sombra a sugá-la para si; o rosto parcialmente coberto pela máscara branca, a capa ondulante como fumaça ao vento.
“I am the mask you wear...”
“It’s me they hear...”
A orquestra morta, mas vibrante, acompanhava ritmicamente o dueto. Enquanto a jovem dos olhos de mel ali cantava, podia sentir a respiração do Fantasma se aproximando pela sua nuca. Ele a abraçava, entrelaçando-se a ela com uma tensão entre ambos quase palpável, como se o palco fosse real. A voz dele roçava sua pele como um toque gélido.
“Your spirit and my voice in one combined...”
“The Phantom of the Opera is there...”
“Inside your mind...”
Quando o último verso desta parte foi entoado, ele ergueu os braços atrás dela, como se fosse uma entidade que a possuía por inteiro. Os rostos estavam muito próximos um do outro. Neste momento, Melinda o viu olhar por cima de seu ombro; ela sempre esquecia que o nome verdadeiro de seu par não era Erik. Ele olhava para a escuridão além da coxia.
Algo no Fantasma estava levemente estranho naquela noite; ele parecia mais sedento que o normal, mais insano e libidinoso que o usual. Lançou um olhar inquietante para o lugar onde Syrrha se escondia, enquanto cuidava da iluminação, e Melinda sabia o que aquele olhar sádico poderia significar — ele queria sangue. Mas aquela garota não era permitida para eles.
O espetáculo sombrio foi interrompido pelo Fantasma vampiresco, e as cortinas começaram a descer lentamente. A plateia permaneceu imóvel, com olhos vidrados, sorrisos petrificados, mãos imóveis segurando binóculos dourados. Melinda estava confusa.
O Fantasma, movido pelo impulso, deslizou para fora da atuação. Seus olhos escarlates, inflamados pelo desejo de sangue, fixaram-se em Syrrha, a jovem que, nos bastidores, sentiu o perigo. Em um ímpeto febril e faminto, ele avançou sobre ela, mas não conseguiu alcançá-la. Melinda tentou contê-lo, mas não conseguiu e foi arremessada para longe.
Syrrha recuou às pressas entre as cordas; seus dedos trêmulos seguravam a lamparina de óleo que carregava. No desespero da fuga, ela tropeçou. O vidro se partiu com um estalo seco contra o chão de madeira, o que fez com que as chamas, aos poucos, consumissem parte do palco. Um brilho soturno estava nos olhos dela, e uma energia enigmática e ameaçadora, emanada por ela, fez com que o vampiro se afastasse.
Melinda voltou a se aproximar e o segurou pela mão, pedindo para que parasse com aquilo, pois aquela garota não era para eles. O rosto da criança endureceu, como se o tédio e a raiva a possuíssem; uma risada sarcástica ecoou de sua boca. Ela parecia triste e, ao mesmo tempo, impetuosa. Por trás dela, vultos observavam, encobertos por véus negros muito finos. Então, ela revelou aos dois vampiros:
— A dor de vocês foi mais suportável quando vivida como ficção. Eu quis preservar e proteger isso, mas a verdade é a verdade, mesmo que façamos da dor um papel e da morte uma peça.
Um estalo sutil percorreu o ar, e a plateia, antes enfeitiçada, piscou como quem desperta de um longo sonho no umbral. Os vultos de Syrrha atravessaram as pessoas em silêncio... e desapareceram. Os binóculos tombaram das mãos. Murmúrios roucos, de quem desperta, escaparam das gargantas de cada um. Os atores, músicos, espectadores... todos, desnorteados. Aquilo não era apenas um teatro; era uma prisão. E os que ali atuavam não eram meros vampiros, mas sombras aprisionadas num ciclo de encenação eterna, condenadas a repetir papéis que não escolheram.
Aquele foi o fim, o último ato. Estavam libertos, mas quem eram eles de verdade? A plateia se ergueu lentamente. Alguns caíram de joelhos. Outros choraram. A orquestra virou pó. E Syrrha, a guardiã do encanto, tornou-se sua libertadora forçosamente. Melinda observava em silêncio, com uma lágrima de sangue imóvel à beira do olho esquerdo.
Quem era, afinal, seu companheiro de palco? Ela já não se lembrava. E ele desaparecera, deixando para trás apenas a máscara do Fantasma da Ópera, chamuscada pela chama da lamparina. Restaram apenas Melinda e Syrrha, sob o palco, no teatro abandonado por todos, em um silêncio ensurdecedor que queimava os ouvidos como uma tocha pode queimar o véu da ilusão.
Revisão de Tiago Serigy
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
O Último Blackwood e a Sombra de Lilith
Sete. O número ecoava no sótão empoeirado, onde a luz morria antes de alcançar os recantos mais profundos. Sete batidas secas do relógio de…
Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Sete. O número ecoava no sótão empoeirado, onde a luz morria antes de alcançar os recantos mais profundos. Sete batidas secas do relógio de pêndulo, cada uma um prego enferrujado fincado no caixão da esperança. Não que houvesse muita esperança por ali. A velha mansão dos Blackwood era um monumento à decadência, suas janelas como olhos vazios fitando a noite eterna que parecia ter se enraizado em seus alicerces.
E eu, Alaric, o último dos Blackwood, era um mero apêndice, um espectro que perambulava por corredores infestados de ecos. Meus dias eram preenchidos com o sussurro de vozes que nunca existiram, o farfalhar de sedas fantasmas e o som distante de um piano que ninguém tocava. Meu único consolo, se é que se pode chamar assim, era a coleção de livros proibidos, volumes encadernados em pele humana e tinta de sangue, que meu pai, em sua loucura final, reuniu no pequeno escritório trancado.
Foi numa noite como tantas outras, quando a lua se escondia atrás de um véu de nuvens pesadas e o vento uivava como um cão faminto, que o selo se quebrou. Não um selo físico, mas a barreira tênue entre o que era e o que deveria ter permanecido esquecido. Eu lia um tomo empoeirado, suas páginas amareladas cheirando a mofo e morte, quando um nome saltou aos meus olhos, gravado em uma caligrafia serpentina: Lilith.
O nome vibrou no ar, uma nota dissonante na sinfonia silenciosa da casa. Uma imagem se formou em minha mente: uma mulher etérea, com cabelos cor de ébano e olhos tão profundos quanto os abismos do inferno, envolta em um véu de mistério e perdição. Lilith. A rainha da noite, a primeira tentação, a sombra que persegue os sonhos dos homens.
Minha respiração engasgou na garganta. Eu conhecia o mito, as lendas sussurradas em cantos escuros. Mas aquilo... aquilo não era uma lenda. Era uma evocação. Meu pai, em sua busca insana por conhecimento, havia ido longe demais. Ele não apenas lera sobre as entidades que habitavam o limiar da realidade; ele as convocara.
Com um arrepio que me percorreu a espinha, percebi que o silêncio da casa não era mais o silêncio da ausência, mas o silêncio da observação. A escuridão não era mais apenas a ausência de luz, mas uma presença palpável, respirando em meu pescoço.
As sombras dançaram nas paredes, projetando formas grotescas que se retorciam e se contorciam, como almas condenadas. O cheiro de rosas murchas e terra revolvida invadiu o ar, misturando-se ao odor metálico de sangue antigo. E então, ouvi-a. Não uma voz audível, mas um sussurro que se infiltrava em minha mente, ecoando meus pensamentos mais sombrios, os segredos que eu guardava de mim mesmo.
— Alaric... — ela sibilou, e o som era como o farfalhar de asas de morcego em um sepulcro. — Você me chamou. Eu vim.
Meus olhos se fixaram na porta do escritório, que agora estava entreaberta, revelando uma escuridão ainda mais densa em seu interior. De lá, emergiu uma figura. Não a etérea Lilith de minha imaginação, mas algo muito mais antigo e terrível. Uma silhueta esguia, envolta em um manto que parecia feito da própria noite, seus olhos brilhando como brasas no inferno.
Ela não caminhava; ela deslizava, como uma nuvem de fumaça, em direção a mim. O ar ao seu redor parecia vibrar com uma energia profana, e o frio que emanava dela era tão intenso que parecia queimar minha pele.
— O que você deseja, Alaric Blackwood? — sua voz, agora mais clara, era um cântico fúnebre, sedutor e letal. — A vida que você conhece está morrendo. Eu posso oferecer outra. Um reino onde as sombras reinam supremas, onde a dor é êxtase e a eternidade é um fardo a ser carregado.
Eu recuei, meus pés enraizados no chão empoeirado, um terror gélido me paralisando. Eu havia brincado com o desconhecido, e agora o desconhecido estava ali, em minha sala, me oferecendo uma escolha que eu não queria fazer.
O silêncio voltou, denso e pesado, enquanto ela aguardava minha resposta. O relógio de pêndulo, lá no sótão, batia a oitava hora. Cada batida, um passo dela em minha direção. Cada batida, uma porta se fechando para o mundo que eu conhecia.
A mansão Blackwood nunca mais seria a mesma. E eu, Alaric, sabia que meu destino estava selado. Nas profundezas daquela noite sem fim, eu estava prestes a descobrir o verdadeiro significado de "nunca mais".
O que você acha que Alaric fará? Ele aceitará a oferta de Lilith ou tentará resistir à escuridão que o cerca?
Revisão de Sahra Melihssa
Bruno Reallyme
Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem.
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…