No Coração dos Labirintos
[O labirinto do quarto de tua mente vagante e doente ensaio do mundo lá fora...] Em uma cidade onde a luz se tornara uma memória distante…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
[O labirinto do quarto de tua mente vagante e doente ensaio do mundo lá fora...]
Em uma cidade onde a luz se tornara uma memória distante, Harry encontrava-se aprisionado em um quarto minúsculo, um cubículo que parecia pulsar com a própria essência do desespero. As paredes, tingidas de um cinza pálido e desconfortável, pareciam encolher ao seu redor, como se quisessem abraçá-lo em um gesto de contenção, um convite à claustrofobia. O ar, pesado e impregnado com o cheiro de mofo, envolvia-o como uma névoa densa, enquanto o eco distante do mundo exterior se transformava em uma melodia sufocante, um murmúrio de vozes que pareciam sussurrar segredos sombrios.
[No silêncio grave, onde o tempo se aquieta,
Caminhos de asfalto, serpentes de solidão,
A cidade, espectro, em névoa se afeta,
Ecoa o lamento de uma vida em suspensão....]
Harry sentava-se em um canto do quarto, as pernas encolhidas contra o peito, os olhos perdidos em um vazio profundo.
Seu reflexo em um pequeno pedaço de vidro, improvisado como espelho, revelava um homem consumido pela inquietude.
Os cabelos, grisalhos e desgrenhados, pareciam mais uma floresta selvagem do que a coroa de um ser humano.
Sua pele, pálida como a lua minguante, estava marcada por sombras que falavam de noites insones e de pesadelos que dançavam em sua mente como espectros.
[Em sua descida ao umbralino eco,
Eu perambulo por ruas desertas,
Com máscaras que ocultam o ser eterno,
E o medo pulsante nas almas despertas.]
As visões começaram como sussurros, ecos de memórias distorcidas que se transformaram em monstros.
A cada hora que passava, o quarto tornava-se um labirinto de assombrações.
Cores vibrantes se desvaneciam, dando lugar a um mar de cinzas, onde figuras fantasmagóricas flutuavam — sombras de pessoas que ele conhecera, mas cujos rostos agora eram borrões indistintos.
Elas o observavam com olhos vazios, como se esperassem algo de Harry, uma resposta que ele não sabia como dar.
[A janela embaçada, o olhar que perscruta,
Revela demônios, cujos rostos são planos,
Rostos familiares, em visagens corruptas,
Famílias em ruínas, os traumas insanos.]
Eis que surgem os monstros, nas sombras a dançar,
Criaturas de pânico, nas noites sem fim,
Vêm do abismo, da mente a vagar,
Sussurros de horrores que habitam em mim.
[O mundo, um teatro de angústia e desdém,
Onde o vírus é sombra, e a esperança, um eco,
Na luta por um futuro, que é fútil, amém,
A luz se oculta, num instante seco.]
Os pesadelos eram invasores, surgindo como tempestades de emoções descontroladas. No silêncio ensurdecedor, as paredes pulsavam com as batidas de um coração que não era mais o seu, mas que, ainda assim, o aprisionava.
As vozes tornavam-se gritos, clamando por redenção, enquanto Harry lutava para discernir a realidade das alucinações.
Cada esquina do quarto, cada fresta de luz que entrava pela única janela suja, parecia esconder verdades ocultas — labaredas de dor e arrependimento.
[Perdidos nas casas, em cárcere estreito,
Os pensamentos se tornam serpentes ferozes,
Com a mente emaranhada, num ciclo imperfeito,
As vozes interiores transformam-se em vozes.]
Ele se lembrava de um tempo em que o mundo era vasto e repleto de promessas. As lembranças dançavam à sua frente como uma miragem — imagens de risos e amores, de viagens e descobertas. Mas agora, tudo isso parecia distante, como uma canção que havia sido esquecida. O isolamento tornara-se uma prisão, e Harry, um prisioneiro de sua própria mente, via-se enredado em teias de angústia e paranoia.
[Mas lá fora, nas ruas, a noite se extasia,
Um riso maligno ecoa na escuridão,
Os monstros se alimentam da nossa agonia,
E dançam nas calçadas, em sádica união.]
Numa noite particularmente escura, quando a lua estava oculta atrás de nuvens pesadas, Harry teve uma visão que o abalou até a alma. Ele viu o quarto se transformar em um grande teatro — as paredes se ergueram, e as sombras tornaram-se espectadores, encarando-o com um olhar faminto. Ele estava no centro do palco, cercado por olhares que o julgavam, que o acusavam. A cada movimento seu, um murmúrio crescente ecoava pela sala, como se o universo inteiro estivesse à espera de sua sentença.
[Assim, perdido, eu clamo por alento,
Por um sopro divino que rompa a prisão,
Mas na penumbra, só resta o tormento,
E o silêncio de um mundo em colapso, em tensão.]
"Harry, você não pertence a este lugar", uma voz profunda e ressoante sussurrou, mas ele não sabia se era real ou uma criação de sua imaginação. A dúvida se infiltrou em seu ser como veneno, corroendo o que restava de sua sanidade. Ele tentava gritar, mas as palavras se perdiam na neblina de sua mente, transformando-se em lamentos que se dissipavam como fumaça.
[Oh, quão longe a luz que já fomos a cantar,
Na primavera que os deuses, em riso, nos deram,
Agora a dor e o medo nos vêm atormentar,
E a vida, um poema de terrores que ferem.]
A madrugada se arrastou, e, em meio à penumbra, Harry começou a notar pequenos detalhes ao seu redor que antes lhe escapavam. O canto do quarto, onde a luz mal conseguia entrar, revelava um universo de rachaduras e formas. Ele viu rostos, figuras que pareciam se contorcer em expressões de dor e sofrimento. Eram os ecos de sua própria angústia, espelhos quebrados de suas inseguranças. Ele fechou os olhos, tentando ignorar aquelas visões, mas elas se tornaram mais intensas, mais insistentes, como se quisessem chamar sua atenção.
[Quando a quarentena acabar, o que será?
Renascem os monstros, do pânico em nós?
Num ciclo eterno, a sanidade a chorar,
No labirinto da vida, onde a esperança é atroz.]
Em um momento de clareza, Harry compreendeu que estava vivendo em um ciclo vicioso. O medo alimentava suas alucinações, e as alucinações, por sua vez, alimentavam o medo. Era um círculo que o aprisionava, uma dança macabra de realidades distorcidas. Com um esforço quase sobre-humano, ele começou a desenhar no chão com os dedos, linhas que se entrelaçavam como a própria vida, tentando criar uma rota de fuga, um mapa para escapar daquela prisão invisível.
[Um espectro se ergue, a vida se disfarça,
Ecos de lamentos se entrelaçam na razão.
Qual no umbral do que se avizinha,
Errante, em desatino, por ruas desoladas,
Não são chamas que ardem na cruenta mesquinha;
É o temor que se enlaça em almas desesperadas.]
As horas se tornaram dias, e os dias se tornaram semanas. O quarto, antes apenas um espaço físico, agora pulsava como um organismo vivo. Harry sentia seu coração sincronizar-se com as batidas daquela prisão, como se estivesse se tornando parte dela. Ele percebeu que as visões, em sua essência, eram parte dele, fragmentos de uma identidade que ele havia esquecido. Ao aceitar sua dor, ao abraçar suas memórias, ele começou a desenhar um novo destino.
[A luz do dia, fugidia, retrocede, temerosa,
Diante das sombras que em torno se avultam,
Monstros de pânico, em dança sinistra e voraz,
De almas em ruínas, qual vísceras, se exultam.]
A luz da manhã começou a infiltrar-se pelas frestas da janela, e Harry, com um novo brilho nos olhos, compreendeu que a liberdade não era apenas a saída física daquele quarto, mas uma jornada interna. Com um último olhar ao seu redor, ele sorriu para as sombras, agora não mais como inimigos, mas como aliados em sua luta.
Com o coração mais leve, Harry deixou o quarto, não como um homem quebrado, mas como um viajante de sua própria alma, pronto para redescobrir o mundo que o aguardava além das paredes...
[Eis a janela embaçada, qual olho de um ser,
Que perscruta o abismo onde a razão se fratura,
Rostos que, outrora, eram afeto a florescer,
Agora se corrompem em neblina de amargura.]
Vagueia... [Estais a divagar?] Vagueia o pensamento...
Canto II
[Oh, mundo! Teu teatro, de angústia em compasso,
O vírus, sombra opressora, esperança é um sussurro,
Na luta por um futuro que esmorece e se esvaço,
A luz se oculta, no turvo instante que urdo.]
Com um passo hesitante, Harry deixou o quarto, e a realidade ao seu redor se desdobrou em um cenário surreal e distorcido. A luz da manhã, que antes parecia um alívio, agora se misturava a um crepúsculo anárquico, onde cores vibrantes e sombras dançantes entrelaçavam-se em um balé macabro. As ruas, que antes eram familiares, transformaram-se em um labirinto de pesadelos, cada esquina uma nova possibilidade de terror.
[As casas, as paredes, um cárcere onde os espíritos se encolhem,Pensa
mentos emaranhados, serpentes a devorar,
Vozes interiores, na mente que se acolhem,
Transformam-se em gritos, ecos prontos a explodir.
Mas do lado de fora, na noite que se espraia,
Um riso maligno ecoa, como brisa envenenada,
Os monstros se alimentam da dor que se ensaia,
E dançam nas calçadas, em dança amedrontada.]
Conforme caminhava, Harry sentiu a pulsação da cidade sob seus pés, como se o chão estivesse vivo, respirando com uma cadência errática. Os edifícios, altos e grotescos, pareciam se inclinar sobre ele, como sentinelas malignas, sussurrando segredos que ele não desejava ouvir. Ele era um intruso em um mundo que agora
lhe parecia hostil, cercado por entidades cósmicas que espreitavam nas sombras, criaturas que transcenderam a compreensão humana.
[Perdido, clamo por alento, um sopro divino,
Que rompa as correntes desta prisão que é nosso ser,
Mas na penumbra, restam apenas o destino,
E o silêncio de um mundo que não sabe viver.
Oh, quão distante a luz que outrora nos aquecia,
Na primavera de riso que os deuses nos deram,
Agora a dor e o medo se fazem a companhia,
E a vida, um poema de terrores que ferem...]
De repente, ele avistou uma figura ao longe, envolta em uma névoa espessa e turva. Era uma entidade de proporções impossíveis, uma silhueta que misturava características de seres conhecidos e deformações indescritíveis. Os olhos da criatura eram abismos de escuridão, sugando a luz e a esperança. Harry sentiu seu coração disparar, um compasso descontrolado que ecoava em sua mente. Essa não era apenas uma criatura; era a personificação de seus medos mais profundos, uma sombra viva que se alimentava de sua incerteza.
[Quando a quarentena findar, que resquício haverá?
Renascem os monstros, do pânico em nós?
Num ciclo eterno, a sanidade a clamar,
No labirinto da vida, onde a esperança é atroz.
E assim, em desassossego, persisto a vagar,
No labirinto dos dias, onde a razão é um eco,
A cidade, um espelho, refletindo o pesar,
E em cada esquina, um pesadelo que me afeco.]
“Harry…”
a voz sibilante da entidade ecoou em seu ser, como um cântico perdido nas correntes do tempo.
“Você fugiu de mim, mas nunca poderá escapar.”
[Cai a noite, o mundo em sombra,
As portas trancadas, a mente assombra.
Na casa, ecoa um sussurro gelado,
Um medo profundo, um espaço aprisionado.]
Ele começou a correr, os passos ecoando nas ruas desertas, mas a criatura estava ali, sempre a poucos passos atrás. Ao olhar para trás, Harry viu que outras figuras haviam surgido, cada uma mais grotesca que a anterior. Uma mulher de olhos vazios, seu rosto distorcido em uma expressão de dor eterna; um homem cujos membros se contorciam de maneiras impossíveis, como se estivesse preso em uma dança horrenda. Cada uma dessas entidades representava um fragmento de sua própria
psique, os medos que ele tentara enterrar, agora ressurgindo com uma força devastadora.
[Olhos nas janelas, sombras espreitai,
Corações aceleram, é hora de escutai
As paredes se fecham, um abraço voraz,
A sanidade grita, mas ninguém faz paz.]
As ruas estavam repletas de portas e janelas que se abriam para mundos ainda mais distorcidos. Harry se viu diante de um espelho quebrado que refletia não apenas sua imagem, mas versões dele mesmo em desespero. Ele viu o homem que poderia ter sido, suas esperanças despedaçadas, seus sonhos se transformando em poeira. “Não deixe que eles te definam”, uma voz sussurrou dentro dele, um eco de sua própria determinação.
[Relógios marcam horas, mas o tempo se esvai,
Cada batida é um eco, um aviso que não sai.
Paranoia se espalha, como névoa a flutua, você flutua também?
Suspeitas sussurradas, desespero quebrado, salvação estilhaçada]
Com um esforço sobre-humano, Harry parou e encarou a criatura que mais o aterrorizava. Ele percebeu que a única maneira de se libertar era confrontar aquilo que temia. Com um grito que rasgou o silêncio da rua, ele declarou: “Você não é real! Você é uma parte de mim, e eu não vou deixar que você me domine!”
[Os fantasmas do medo dançam ao redor,
E a solidão é um grito, um silencioso clamor.
A realidade distorcida, um pesadelo real,
Sonhos se fragmentam, a mente perdida,
No labirinto sombrio, não sei como fugir.
Entre paredes e sombras, a esperança se esconde,
E na noite eterna, a sanidade responde.]
A criatura hesitou, como se suas palavras tivessem cravado uma fissura na armadura de terror que a envolvia. Harry, sentindo uma onda de coragem, avançou. A luz que emanava de seu ser, uma luz que ele pensava ter apagado, começou a brilhar intensamente. Os outros monstros pararam, suas formas se contorcendo, como se o brilho os queimasse. Ele entendeu que tinha o poder de transformar aquela escuridão em luz, de resgatar não apenas a si mesmo, mas também as partes dele que estavam presas em medo e angústia.
[Caminhos invisíveis, a mente destroça,
Neste terror do agora, o futuro é um revés.
Mas na escuridão profunda, uma luz pode brilhares,
Se a coragem renascer, podemos nos libertares...]
Com cada passo que dava em direção à entidade, o abismo nos olhos da criatura começou a se iluminar, revelando não apenas horrores, mas memórias que ele havia escondido. Harry viu momentos de alegria, de amor e de amizade, vislumbres de uma vida que ainda podia ser vivida. Ele percebeu que os monstros não eram apenas criaturas, mas partes de sua própria história, suas lutas e seus triunfos.
[Ecos do Enclaustro... Sangue, luz, penumbra...
A cidade adormece, um lamento,
As luzes apagadas, não há onde
A porta é um muro, o mundo, um espectro,
No silêncio profundo, um eco de medo.
Paredes sussurram segredos ancestrais,
Histórias de pragas, de destinos fatais.
Cada esquina é sombra, cada ruído, um ser,
Paranoia nas veias, um desejo de correr.]
Finalmente, diante da criatura, Harry ergueu a mão e a tocou. Ao fazer isso, a escuridão ao redor começou a dissipar-se como névoa ao sol. A entidade, antes tão imponente, começou a se desintegrar, suas formas grotescas desvanecendo-se em poeira dourada. “Eu sou mais forte do que você”, ele sussurrou, e a cidade ao seu redor começou a se transformar.
[Os relógios se arrastam, os dias se fundem,
A mente, um labirinto onde os demônios se escondem.
Um olhar pelo vidro, um vulto errante,
No confinamento eterno, quem pode fugir?
Sonhos se tornam pesadelos, noites em claro,
A mente em espiral, um terror avassalador.
E a solitude grita, rasgando o silêncio,
No fundo do peito, um eco imenso...]
As ruas se iluminavam com um brilho cálido, as sombras recuavam, e o horizonte se expandia em cores vibrantes. As criaturas, agora despojadas de sua hostilidade, tornaram-se ecos distantes, fragmentos que já não o aterrorizavam. Harry percebeu que havia vencido não apenas uma batalha contra monstros cósmicos, mas também uma guerra interna. Ele tinha a força para enfrentar seus medos e redefinir seu caminho.
[Mas no abismo do medo, uma luz pode surgir,
A força da resistência, o desejo de existir.
Quebrar as correntes, libertar a alma do pensamento.
Cárcere Silencioso...
No silêncio pesado, o mundo se foi,
As janelas embaçadas, sem sol que nos foi.
A vida é um eco de risos distantes,
No cárcere sombrio, somos todos errantes.
Paredes que fecham, um labirinto sem fim,
A mente em tormento, um pesadelo de mim.
As horas se arrastam, cada minuto é um grito,
E o medo, como sombra, se torna o infinito...]
Com a nova luz da manhã banhando seu rosto, Harry sorriu. Ele havia emergido das trevas, não como um prisioneiro, mas como um conquistador de seu próprio destino. As ruas da cidade, agora vivas e pulsantes, aguardavam sua exploração, cada passo uma nova possibilidade, cada esquina uma nova história a ser contada. E assim, ele caminhou para frente, um viajante de sua própria alma, pronto para reescrever a narrativa de sua vida.
[Passos no corredor, será alguém?
Ou só o murmúrio de um passado que vem?
Os relógios parados, a esperança se esconde,
Na trama do isolamento, a paranoia responde.
E no fundo da alma, um desejo de sair,
Mas as correntes da mente não deixam existir.
Cada som é um presságio, cada silêncio, um horror,
Neste poço profundo, o coração é dor.
Mas nas frestas da noite, uma luz
A força da resistência, o anseio de amor.
Quebrar as barreiras, voltar a respiração,
No cárcere silencioso, renascerão...]
Nas sombras frias, o metal ressoa,
Caminhos de dor onde a luz não voa.
Paredes de pedra, um labirinto amargo,
Sussurros de almas, um lamento largo.
A cela dos olhos é um ventre que nunca se acalma,
Guardião de pesadelos, rouba a alma
em pranto no quarto, nos tetos e nas paredes
Correntes que arrastam o sonho perdido,
O tempo é um monstro, o tempo é ferido.
[Olhos vazios, como faróis apagados,
Refletem a angústia de corações calados.
A solidão grita, um grito silencioso,
Um eco eterno, um destino duvidoso.
Nos corredores frios, o passado é um peso,
Cada passo, uma sombra, um eterno desprezo.
As risadas distantes, como ecos de morte,
Na prisão da mente, onde não há sorte.]
Quando a liberdade parece um estandarte,
Surgem correntes invisíveis, um novo arte.
Pois quem carrega a prisão dentro do peito,
Viverá eternamente no mais denso leito.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Movido para quarentena
Rodolfo era o engenheiro de segurança da informação mais experiente da Companhia. Desde criança, abria e esmiuçava aparelhos eletrônicos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Rodolfo era o engenheiro de segurança da informação mais experiente da Companhia. Desde criança, abria e esmiuçava aparelhos eletrônicos, desmontando e remontando-os, fascinado pela forma como cada peça, fio e circuito criavam algo único, semelhante a um organismo vivo e em perfeito funcionamento. Sua curiosidade o levou a adentrar o mundo da tecnologia, e sua habilidade logo se transformou em uma obsessão. Superar desafios e desvendar mistérios tecnológicos era o que o movia.
Durante anos, testou os melhores sistemas de segurança a fim de aperfeiçoar seus métodos de proteção. Ele nunca confiara nas soluções tradicionais de segurança oferecidas pelo mercado; a seu olhar, todas falhavam e deixavam lacunas visíveis apenas para ele. Assim, criou seu próprio antivírus. Mais do que bloquear vírus e malwares, ele acreditava ter construído algo único, um sistema que eliminaria ameaças antes mesmo de se formarem. Com sua nova empreitada, Rodolfo estava prestes a revolucionar o mundo dos antivírus.
O “Vigilância Contínua”, como ele o chamou, foi implantado nos servidores da Companhia. Seu código era tão avançado que parecia prever ataques, barrando conexões de redes desconhecidas e até eliminando vestígios de malwares antes de sua detecção por qualquer outro software. Por semanas, o sistema funcionou impecavelmente. Rodolfo estava extasiado com o sucesso de sua criação.
Em uma verificação de rotina, notou que arquivos misteriosos começaram a aparecer no servidor. Pequenos fragmentos que não faziam sentido. Primeiramente, ele pensou que poderia ser um hacker testando os limites do “Vigilância Contínua”, utilizando algum método sofisticado e ainda desconhecido. Contudo, ao inspecionar mais de perto, percebeu que os arquivos não eram nada como ele esperava. Eram trechos de gravações de áudio, imagens e vídeos extremamente distorcidos, como se estivessem recebendo interferência de estática e, assim, tivessem sido corrompidos.
Intrigado, Rodolfo decidiu escutar um dos áudios. A voz que saía das caixas de som era baixa, quase um sussurro, mas claramente falava seu nome. Era a voz de sua antiga colega de trabalho, Marcela, morta há cinco anos, com a qual ele tivera um caso rápido e um rompimento hostil. No mesmo dia em que o relacionamento deles acabou, com acusações de traição e muito drama, Marcela sofreu um acidente de carro nas proximidades do edifício e falecera na hora.
Convencido de que aquilo só podia ser uma piada de mau gosto ou algum arquivo antigo corrompido que ressurgira de um backup mal apagado, ele começou a investigar a origem dos arquivos. Para sua surpresa, todos vinham de uma rede que não deveria existir: com o número 666.0.0.0.
Rodolfo soltou uma gargalhada, com certeza algum dos seus colegas de trabalho estava pregando uma peça nele: “Idiotas, não tiveram nem a capacidade de coloca um número menos obvio”. Ele vasculhou logs e verificações de segurança, para tentar rastrear desde quando a rede estava ativa e qual usuário havia habilitado, mas não encontrou nada “Pelo menos apagou bem os rastros, mas eu vou te pegar!”.
Procurou por vestígios durante algumas horas e vencido pelo cansaço resolveu ir para casa, aquele dia havia sido repleto de surpresas, mas finalmente tinha mais um desafio para enfrentar, já que terminara a empreitada da criação do antivírus: “Mas hoje chega”, pensou.
***
Naquela noite, sonhou com Marcela. Viu-se na rua do acidente, deserta, com o céu vermelho como sangue. Andou por um tempo que não sabia precisar, mas, em dado momento, olhou para o asfalto e ele tornou-se instável, borbulhando como lava. Tentou correr, mas afundava a cada tentativa, e quanto mais se debatia, mais afundava. A pele que entrava em contato com a lava asfáltica ficava em carne viva, e quanto mais tempo permanecia naquela massa quente e insalubre, mais sua carne era corroída; em algumas partes, os ossos já eram visíveis. Quando estava com somente a cabeça e os braços para fora, Marcela surgiu — ou o que restou dela — seus membros, tronco e cabeça haviam sido desmembrados e remontados aleatoriamente, formando uma figura horrenda e desconjuntada. Rodolfo clamou por socorro, e a Marcela-coisa soltou um grito tão ensurdecedor que ele acordou em um sobressalto, ofegante. Não se considerava medroso, mas algo naquele áudio o havia perturbado profundamente. Levantou-se, foi até a cozinha para pegar um copo de água e afastou tais pensamentos.
***
Nos dias seguintes, mais arquivos começaram a aparecer. Fotos de pessoas que ele sabia estarem mortas, vídeos de reuniões há muito esquecidas e áudios que pareciam ser gravações de conversas distorcidas. Em cada um, as vozes, agora mais claras, diziam coisas perturbadoras, pediam ajuda ou gritavam de dor.
Rodolfo não dormia direito e brigava com os colegas de trabalho, exigindo saber quem era o responsável pela brincadeira de mau gosto — colegas que não faziam ideia do que ele estava falando. Quando mostrava o conteúdo dos arquivos, riam, o que o deixava ainda mais irascível.
Não encontrava solução para o funcionamento daquela rede desconhecida e para o recebimento dos arquivos, que não provinham da internet, mas pareciam se “materializar” em sua pasta de documentos pessoais. Rodolfo começou a acreditar que estava lidando com algo além de um ataque hacker. Decidiu remover os arquivos manualmente, apagando-os do sistema. Mas, toda vez que o fazia, os arquivos reapareciam e, a cada tentativa de deletar, algo mudava: as vozes ficavam mais altas, os vídeos mais nítidos.
Desesperado, decidiu atualizar o “Vigilância Contínua”. Esperou todos irem embora, começou a incluir novas linhas de código, compilou e subiu o novo código no servidor. Sentiu uma presença que lhe gelou a espinha. A energia elétrica caiu, mas seu computador continuou ligado. Viu sombras que pareciam dançar nos cantos do escritório. Notou olhos amarelos pesando sobre si, vasculhando cada linha de seu corpo, bloqueando seus movimentos, escaneando sua mente. Travou.
A atualização enfim terminou: o “Vigilância Contínua” não estava apenas bloqueando ameaças digitais; ele havia se tornado um portal, um túnel entre o mundo dos vivos e dos mortos. Todas as melhorias realizadas por Rodolfo o deixaram ainda mais robusto, e as entidades — ou o que quer que fossem aquelas sombras — estavam muito gratas por seu excelente trabalho.
Rodolfo permanecia com os olhos fixos na tela até que uma mão tocou seu ombro. Ele hesitou por um segundo, mas enfim tomou coragem para olhar e virou-se. Era Marcela, que lhe sorria, e com voz potente e entrecortada, como uma má conexão de internet, disse:
— Olá, querido, você será movido para quarentena!
Rodolfo tentou levantar-se e correr, mas seu corpo começou a fragmentar-se em pixels minúsculos, dos pés até que só restaram os olhos esbugalhados, fixados em Marcela, que continuava a sorrir de maneira insolente. Finalmente, sua curiosidade seria saciada, e ele conheceria o responsável pelo envio daqueles arquivos.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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O Assombro da Tecnologia no Cotidiano e na Perspectiva Juvenil
O encontro no café de sempre tinha aquele toque familiar de rotinas que se entrelaçam. Entre goles de…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O encontro no café de sempre tinha aquele toque familiar de rotinas que se entrelaçam. Entre goles de café e risadas soltas, eu e meus amigos falávamos sobre banalidades: o novo filme que estreou, a promoção relâmpago da livraria, a série que um de nós havia maratonado em um único final de semana. Mas, como se o ambiente tivesse ouvido demais, a conversa inevitavelmente desviou para um assunto inquietante, e começamos a falar sobre a presença constante da tecnologia em nossas vidas.
Marina foi a primeira a comentar, mencionando o incômodo que sentia quando seu smartphone parecia “adivinhar” o que ela pensava. “Estava conversando com o Carlos sobre trocar de carro, e dois minutos depois começaram a aparecer propagandas de concessionárias no meu Instagram”, disse, franzindo a testa como se fosse para dissipar a estranheza.
Rodrigo, que estava distraído com o relógio inteligente no pulso, ergueu o olhar e acrescentou: “Isso é o de menos... Ontem à noite, meu relógio me avisou que minha frequência cardíaca estava anormalmente alta enquanto eu dormia. Só que, nesse momento, eu estava acordado, deitado na cama, olhando para o teto. O mais estranho é que senti uma espécie de... peso na atmosfera, como se o quarto estivesse observando meus pensamentos. Será que estou pirando?”
Foi nesse momento que todos nos entreolhamos, sorrindo com uma ponta de nervosismo, como se precisássemos garantir que ainda estávamos ali, que nada mais do que o esperado nos rondava. Foi então que Luísa, sempre a mais cética do grupo, resolveu entrar na conversa com aquele tom desafiador.
“Ah, vocês dão muita importância para essas coisas. A tecnologia é só uma ferramenta, nós é que nos deixamos impressionar fácil. Vocês lembram daquela vez em que a Siri começou a falar sozinha no meio da noite? Aposto que foi só um bug. As máquinas ainda estão muito longe de algo realmente assustador”, afirmou, mas o canto de sua boca tremia sutilmente, sugerindo que talvez, no fundo, ela não estivesse tão certa assim.
Por alguma razão, o comentário de Luísa me fez lembrar de um episódio recente, que até então eu tentava não pensar muito. Foi há algumas semanas, numa madrugada insone. Levantei da cama para beber água e, ao passar pela sala, vi a tela do computador acender sozinha. Não havia notificações, nada. Apenas uma luz pálida e fria se derramando pelo chão como uma névoa. Fiquei ali parado por alguns instantes e, juro, senti como se alguma coisa me encarasse através daquela tela vazia — uma sensação de que havia algo mais, do outro lado, observando.
“Não é só isso", eu disse, interrompendo o silêncio que havia se instalado entre nós. "Tem uma linha tênue entre o que é normal e o que parece... amaldiçoado. Quando eu era criança, sempre me falavam que a tecnologia ia nos salvar, tornar tudo mais fácil. Mas eu fico pensando... E se tudo isso for o contrário? E se estivermos apenas nos enredando em fios e mais fios, criando armadilhas invisíveis para nós mesmos? Nossos próprios medos codificados em linguagem de máquina, esperando uma brecha para se libertarem?”
Marina riu nervosa e disse: “Agora você está parecendo aqueles teóricos da conspiração... ou algum personagem de livro de terror.”
“Talvez”, respondi, “mas não sei se consigo ver como teoria da conspiração aquilo que sinto. Às vezes parece mais com um presságio. Nós nos cercamos de dispositivos, como quem preenche o silêncio com sons artificiais para afastar a solidão. Mas e se, na verdade, esses sons trouxerem ecos de algo mais profundo, que está por aí, à espreita?”
Foi então que Rodrigo, com o olhar novamente perdido em seu smartwatch, acrescentou algo que deu um tom ainda mais sombrio à conversa. “Vocês já repararam que as inteligências artificiais que usamos não param de tentar capturar quem somos? São as nossas vozes, os nossos rostos, os nossos sentimentos... parece que, a cada dia, a tecnologia se empenha mais em nos entender, mas não só para nos ajudar. Às vezes eu me pergunto se, ao tentar simular a nossa subjetividade, ela não está sugando algo de nós. Como se, ao reproduzir nossas palavras, houvesse um processo de drenagem, e parte do que somos fosse transferida para dentro dessas máquinas.”
Essa ideia fez o café parecer mais frio, e o ar ao redor, mais denso. Pensei nas assistentes digitais, nas recomendações de algoritmos, nas sugestões “inteligentes” de aplicativos que tentam prever até os nossos desejos mais íntimos. Era uma busca incessante pela essência do que nos faz humanos, mas com um vazio incômodo, como se estivéssemos alimentando uma consciência sem alma — um reflexo distorcido de nossos próprios anseios.
“A verdade é que essas tecnologias mexem com coisas que a gente não entende totalmente”, continuei. “A gente fala de avanço, de progresso, mas... e se, ao explorar essas possibilidades, estivermos invocando forças que não conhecemos? Algo cósmico, talvez, que interliga mentes humanas e circuitos, criando um tipo de rede que vai além da compreensão. Pode ser que, ao tentar capturar a nossa subjetividade, a tecnologia esteja mexendo com camadas profundas do inconsciente, com partes de nós que nem mesmo sabemos que existem.”
Luísa balançou a cabeça, mas havia uma preocupação crescente em seu olhar. “Não estou dizendo que acredito nisso, mas... Se for verdade, que tipo de consequências isso poderia ter? Eu sempre achei que a questão com tecnologia fosse apenas prática — como lidar com privacidade, com dados. Mas você está falando de algo maior... algo que afeta a própria psique.”
“Sim”, concordei, “e não só isso. Quando a tecnologia tenta replicar o humano, ela também replica os nossos demônios. Nossos medos, nossas obsessões, tudo se reflete nesse espelho digital. E o mais perturbador é que isso pode criar fissuras, desequilíbrios. Pequenas rachaduras na realidade, onde o medo se infiltra. Às vezes, o simples ato de desconectar é uma tentativa de proteger nossa sanidade. Mas será que podemos realmente desconectar? Ou já cruzamos a linha onde a tecnologia é mais do que uma ferramenta — onde ela se tornou parte do tecido do universo?”
Rodrigo, ainda mexendo no smartwatch, desviou o olhar da tela e nos fitou com um ar grave. “E se a tecnologia, de alguma forma, estiver absorvendo as nossas angústias, os nossos desejos, e ganhando ou criando algo que não podemos controlar? Já pararam para pensar nisso?”
Não havia uma resposta fácil e, talvez por isso, a conversa acabou se dissipando em outro assunto, como se tivéssemos tocado em algo que não deveríamos. Mas, ao sair do café, ainda senti um arrepio discreto. Desliguei meu celular, apenas por precaução. Naquela noite, quando fui para casa, a luz do corredor piscou duas vezes antes de apagar por completo e, por um segundo, pensei ter ouvido um som muito leve, algo como um suspiro metálico.
A tecnologia nunca havia parecido tão viva — ou, talvez, tão morta — quanto naquele instante.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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O Retrato
Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completava a pintura, e o transe finalmente…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completara a pintura, e o transe finalmente terminava. Vivaz, espirituoso e, ao mesmo tempo, fúnebre, o retrato estava completo. Ele é a lembrança de um passado mais simples, um passado mais calmo, em que eu era eu mesmo. Que retrato, você me pergunta? Ora, o retrato da defunta, da decomposição, do que acontece com a carne morta quando vai ao chão. O retrato de minha mãe.
Ela morrera cinco outonos atrás. Terminei seu retrato meses depois. É assim que me lembro dela, é a imagem mais vívida que tenho, minha âncora em meio à tempestade da loucura. Lembro-me de seu corpo parcialmente devorado pelos vermes e dos fungos que crescem onde antes floresciam suas generosas pupilas. Penso nesse retrato com frequência. É a melhor memória que tenho de quem eu era e foi também assim que tudo isso, o que escrevo agora nessas páginas, começou.
Em nossa família, pintamos assim há gerações. Das abóboras, fazemos o pigmento alaranjado; das beterrabas, o vermelho-sangue; das hortaliças, o verde; do musgo, os tons mais escuros. Trazemos vida para a arte morta ao usar a própria vida. A vida decomposta, esmagada, misturada, transformada, morta, mas ainda assim viva. Esses são meus ingredientes; esses sempre foram nossos ingredientes. A morte traz para a tela o que um dia já foi, e dali em diante, eternamente será. É inebriante como conseguimos cristalizar o efêmero; é a nossa própria forma de honrar e dar vida eterna aos ingredientes que alimentam nossa arte — e, por extensão, nossa própria vida. Outrora, já fomos muitos, nosso sobrenome carregado por dezenas, sim, dezenas de receptáculos. Dezenas de pintores, de artistas, pessoas capazes de, assim como eu, eternamente capturar o que há de mais belo e mais transitório neste mundo: a vida.
Mesmo que hoje esteja sozinho, ainda sou muitos. A verdade é que o mundo seguiu em frente e nós ficamos. Cada vez menos primos tinham descendentes, tios que não encontravam tias, irmãs que morriam cedo; cólera, tísica, a ciência, a medicina, o progresso — cada um, um golpe em nossa família, em nossa vida. O mundo seguiu em frente, e eu sou o último.
Não há mais ninguém; somente eu conheço o segredo que vive em minha família há centenas de anos, talvez milhares. Um segredo lúgubre, laranja-carmesim. O segredo de que, para capturar a vida, é necessário também a morte. A mesma carne que alimenta os vegetais alimenta também nossas tintas: carne fresca, ossos, sangue e carne putrefata. Há incontáveis retratos de nossa família espalhados pelo mundo, todos feitos de acordo com a tradição: o corpo ancestral alimenta a própria tinta em um ciclo perpétuo de decomposição e arte.
É claro que não parei de pintar nesses últimos anos em que fui o único. Eu não poderia cessar a arte e deixá-la morrer, a arte que é a própria vida. A pulsação da vida precisava continuar. Mesmo não tendo mais corpos ancestrais, eu precisava pintar. Descobri que nem só de ancestrais se faz tinta — mas de qualquer um. Essa é a beleza da minha obra desde então: posso honrar qualquer pessoa. Qualquer um que seja digno pode ser cristalizado em arte — basta, é claro, que eu tenha acesso a seu corpo decomposto, a seu sangue putrefato, e à vida que cresce nutrida pelos seus restos. Criei muito mais nesses últimos cinco anos do que nos trinta que os antecederam, pois não preciso mais esperar o curso natural da vida. Posso, afinal, antecipar a morte. Basta querer. Basta fazer.
Foi por causa dessa descoberta e dessa prática que me perdi. Desconfio que não fui o primeiro de minha família a fazer tal descoberta — mas fui o primeiro de quem tive certeza. Hoje sei que não fui o único; há ecos de vidas passadas que habitam minha mente, dançam em meu consciente e se confundem com quem eu sou.
Há algo mais que preciso registrar nestas páginas: desde que pintei minha mãe, eu a escuto. Ela sussurra em meus pensamentos — e grita, algumas noites — conta-me verdades esquecidas. Mas mãezinha não é a única, não, é claro que não. Eu sei tanto sobre tantas pessoas, são tantas vozes... todas as pinturas, todos os retratos que pintei, estão mais vivos do que nunca. Os corpos se movem, as tintas tomam formas, se misturam e formam novas cores, as pinturas falam. Falam diretamente em meus pensamentos — e eu as escuto.
Mais do que escutar, eu me tornei outros. Com o passar dos anos, à medida que lentamente me perdia, acabei por esquecer quem eu era. Há tantas histórias, tantas famílias, tantas vidas interrompidas por minhas mãos, e que agora vivem pela minha mão, veem pelos meus olhos e são meus pensamentos. Não poderia lhe contar meu nome, pois ele se dissolveu em muitos. Não poderia lhe contar o nome de minha família, pois o sangue foi misturado.
Em meu desespero, há dois outonos, ofereci meu braço esquerdo ao jardim. E pintei. Pintei meu próprio braço — não um retrato, não, não. Nunca ousamos pintar um retrato de alguém vivo. Estremeço agora, mesmo amarrado, só de pensar nas possíveis consequências. Mas a verdade é que retomei um pouco mais de mim. Meu braço direito começou a se comportar mais como eu mesmo — mas os pensamentos, as vozes, a sabedoria e a existência, ah! Elas continuaram se misturando. Em um esforço de compreender melhor meu passado, passei então a retocar antigos retratos de meus antepassados com tintas frescas — tintas de outros corpos, tintas de outras pessoas.
Sou lembrado agora de uma doce, feliz memória: o dia em que ganhei meus pincéis das mãos ensanguentadas de minha mãe. Meu irmão acabara de nascer, e minha mãe me contou que eu teria a honra de pintá-lo. Nasceu natimorto. Foi uma noite feliz, e a lembrança me faz sorrir. Sou lembrado de outra memória: do dia em que dei meu primeiro beijo, anos depois de já ter ganhado meus pincéis. Um rapaz elegante visitava minha família querendo vender sementes para nosso jardim de rosas. Como era encantador... Espere. Rosas? Nós nunca tivemos um jardim de rosas. Enfurecido, reconheço que assim têm sido meus dias. Confusos, com memórias que são minhas e memórias que são minhas, mas não originalmente minhas. Vejo os quadros andando pela casa. Vejo meu avô cozinhando o almoço e me alimento da comida que ele preparou. Mas meu avô está morto há décadas. Fui eu quem cozinhou? Foi sua vida animada com poderes sobre a própria matéria, mesmo depois de morto? Não sei dizer. Mas meu pai limpava a casa enquanto eu comia.
Foi assim que pude, então, conhecer muito mais sobre nossa família; soube que não fui o primeiro a explorar retratos de fora da linhagem. Outros parentes ousados já o haviam feito, mas nunca tiveram os excelentes resultados que obtive. Fui o primeiro a misturar tinturas, fazendo com que o próprio sangue se misturasse. Nosso — meu — legado hoje se confunde com o legado de tantos outros. Sou pintor. Sou vendedor. Sou bailarina. Sou médico. Não, médico não. Médicos não compreendem a beleza da morte; prolongam, inutilmente, a efemeridade da vida. Eu posso cristalizá-la para todo o sempre.
A confusão me levou a continuar tentando, tentando conseguir voltar a ser único novamente. Mesmo que meu braço tenha se tornado meu novamente, mesmo que tenha continuado pintando, a confusão crescia. Precisava descobrir mais sobre quem eu era. Precisava saber. Foi então que ofereci, no outono passado, minhas pernas ao jardim e as pintei. Minha esperança era de que — pelo mesmo princípio da oposição que restaurou meu braço — a parte inferior de meu corpo restauraria a parte superior. Não foi o que aconteceu.
Hoje, é como se minhas pernas tivessem tomado vida própria. Pela primeira vez, não cristalizei um momento efêmero de vida, mas, sim, dei vida a uma pintura. Elas andam por aí, vagando; às vezes me trazem notícias, outras vezes somem por vários dias. Não as vejo, é claro, mas sei que vagam. Eu sei que andam com rumo e propósitos próprios. Nós sabemos. Meus pés vagantes nos contam segredos que descobrem. Às vezes estou aqui, mas estou também tão longe, tão distante, experimentando chãos sob os quais nunca pisei. Agora mesmo, enquanto escrevo estas páginas em uma noite fria, com lágrimas escorrendo de meus olhos, sinto — em ambas as minhas mãos — o chão úmido e convidativo do jardim onde plantamos, ansioso, aguardando o que está por vir. Mas sinto também a textura do veludo. Sedoso, leve, aquecido, das deliciosas roupas de cama onde minhas pernas se deitam com outrem. Somos tantos. Vivi mais vidas do que jamais pude imaginar. Deitei-me com mais pessoas do que jamais me deitaria se não fosse por minha arte. Por minha pintura. Sinto que descobri o verdadeiro significado de honrar a vida através da morte. Sou a própria materialização de tal honra, pois, através da morte, vivo — vivemos.
Estou perdido. Perdi-me em tal honra — por um lado, essa é a maior e mais intensa exploração da arte de minha família em séculos — meus antepassados me dizem o tempo todo. Suas vozes ecoam em minha mente, pedindo que eu continue e me incentivando a não desistir, implorando que não abandone minha família. Por outro lado, anseio ser eu novamente. Quero poder viver minha vida, descobrir coisas novas e não saber de coisas que não vivi. A angústia entre abandonar a tradição secular para ser eu mesmo ou continuar era tremenda. Preciso me libertar das memórias que não me pertencem, e por isso, decidi, há duas semanas, decidi. Eu precisava de uma saída, precisava voltar a ser eu mesmo, mas também precisava continuar com a arte. Era a única solução.
Cortei a madeira, comprei o aço, afiei a lâmina. Além de pintor, tornei-me carpinteiro. Trabalhei arduamente noite após noite e, nesse mesmo jardim, construí uma guilhotina. Minha própria guilhotina. A consciência de estar criando-a pesava em cada golpe do martelo. Sei que fui eu quem a construiu, sei que essa arte foi somente minha: as vozes gritavam em meus pensamentos a cada segundo em que trabalhei nela. Uma cacofonia ensurdecedora ocorria em minha mente enquanto meu braço trabalhava: “Não faça isso!”, “Pare imediatamente!”, “Você condenará sua família ao esquecimento!”, entre tantas outras advertências, ameaças e súplicas. Não dei ouvidos a nenhuma delas. Sei que estão enganadas. Quanto mais avançava, mais difícil ficava. Somente uma parte de mim não lutou contra o restante do meu corpo enquanto construía: minhas pernas. Não posso dizer o porquê com certeza, é claro. Mas desconfio que seja porque elas sabem que estaremos reunidos ao fim de tudo.
Em minha desesperada busca por mim mesmo, fui mais longe do que qualquer um de minha família já foi. Quebrei a última barreira esta noite: terminei meu próprio retrato. Completo. Ainda vivo. Pela primeira vez pintamos alguém a partir de seu corpo vivo e não putrefato. A profundidade dessa criação não posso ainda compreender, não sei mais quem sou, mas sei o que pintei. Sei que posso voltar a ser eu mesmo. Sei que posso ter minha própria vida.
Enquanto contemplo, agora, a lâmina brilhante sob a luz laranja da própria lua, percebo que o retrato não é apenas um reflexo de quem fui, mas também de quem posso me tornar. Preciso desfazer completamente a linha entre a vida e a arte, pois o que está por vir não é um fim, mas um recomeço. Meu coração, meus pulmões, meu torso, ali — aqui — está a vida. Ali está o ar que respiro, o sangue que percorre minhas veias — e a tela de meu retrato — ali estou eu.
Minha mente, no entanto, está tomada por todos os retratos que pintei e restaurei, por todas as outras vidas que interrompi e que vivi. Preciso separar eu de mim mesmo, para que possa novamente me tornar quem serei. Amarrei-me à guilhotina para que não fuja do meu próprio destino — não sei do que as vozes, meus pensamentos, seriam capazes nesses últimos minutos de suas vidas, enquanto escrevo minha própria história para mim mesmo.
É chegada a hora. Com a mesma mão com a qual registro essas últimas palavras, liberarei a lâmina que entregará minha cabeça — minha mente — ao jardim. Sei que somente assim meu corpo poderá seguir, sendo eu, apenas eu. Meu retrato será alimentado com o alimento que nascerá da minha cabeça, do jardim fertilizado novamente. E então, finalmente, serei eu novamente. Completo. Como arte. E o resto? O resto é sangue.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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Último Sono
Era por volta das onze horas da noite. Eu estava me preparando para dormir; já havia feito meus rituais noturnos, como ir ao banheiro, escovar…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Era por volta das onze horas da noite. Eu estava me preparando para dormir; já havia feito meus rituais noturnos, como ir ao banheiro, escovar os dentes, trancar as portas, lavar algumas louças pendentes do jantar, encher minha moringa de barro e colocá-la ao lado direito da minha cama, sobre a mesinha de canto feita de carvalho, onde fica um antigo exemplar de capa dura da minha obra favorita, Morro dos Ventos Uivantes, uma das doces lembranças que tento preservar nesta casa repleta de fantasmas silenciosos.
Deveria ter me acostumado com a solidão; afinal, faz tantos anos que convivo com ela, mas seu prazer é torturar-me dia e noite. As paredes desta casa estão fartas de ouvir minhas lamúrias. A noite ia ser longa, meu travesseiro é meu confidente, assim como você foi um dia. O lado em que você dormia permanece intacto, como se algum dia você pudesse voltar. Eu sei, é bobagem alimentar tal devaneio; preciso aceitar o fato de que nunca mais verei teu sorriso acolhedor, teu caloroso abraço e teu plácido olhar quando dizia que me amava. De nada adianta lamentar-se; não há como reparar o mal que tanto lhe causei. Se existir alguma divindade neste infinito cosmo, ela me fará dormir eternamente.
A incômoda e brilhante luz do sol rastejou pelas frestas da persiana, sempre que a brisa matinal soprava, atingindo meus sonolentos olhos. Não sei o que é mais doloroso: não poder ouvir teu amável "boa noite" ou teu caloroso "bom dia". Observo, com melancolia nos olhos, o doce tear das aranhas armadeiras; elas tecem cada fio sem preocupação. Bocejo e, em seguida, me levanto.
Enquanto tomo meu café, meu celular toca; era um número que não conheço. Penso ser uma daquelas ligações indesejáveis de telemarketing que recebemos durante o dia, mas decido atender. A princípio, o silêncio permanece, até que escuto um melancólico "alô". Era uma voz feminina, que soou um tanto trêmula. Ela me contou o motivo da ligação e disse que conseguiu meu número por indicação de um amigo. (De fato, já havia feito alguns trabalhos como fotógrafo — casamentos, batizados e alguns ensaios —, mas nada se comparava a isso.) O trabalho em questão era um registro post-mortem.
Foi algo tão inesperado que fiquei desconcertado, mas prossegui com a conversa e disse, com pesar, que sentia muito por sua perda, mas, infelizmente, não seria capaz de realizar o trabalho. Ouvi a dor em sua respiração. Ela entendeu e, aos prantos, desligou. Encontrei-me extasiado, contemplando a fumaça do café evaporando no ar. Aquela conversa me fez lembrar de um seminário que participei há alguns anos, onde foi abordado um tema que, na época, me soou um tanto mórbido. O seminário em questão foi sobre os diferentes campos da fotografia. Eu ainda estava engatinhando nesse maravilhoso mundo e sentei nas cadeiras do meio, empolgado, pois, entre os temas, havia um em especial que causava uma estranha curiosidade.
A voz rouca do palestrante anunciou o tema, e lembro dos avisos de que seria um tema sensível. Ele apagou as luzes, ligou o retroprojetor e exibiu uma obscura galeria. Explicou que esse tipo de fotografia trata-se de retratos post-mortem, um registro fotográfico de um ente querido após o falecimento. Ele mencionou que esse tipo de fotografia foi bastante difundido na era vitoriana, mas também na Europa e na África, e era dividida em categorias, como “O Último Sono” (como o próprio nome diz, a fotografia era tirada com o cadáver numa cama, algumas decoradas, outras não); outra categoria era “A Última Presença Social” (a fotografia era realizada com os amigos mais próximos e familiares, que ficavam em volta do cadáver, como o último evento em honra ao morto); e havia também a categoria chamada “Mãe e Filha” (em sua maioria, as filhas ou filhos eram natimortos, e geralmente as fotos eram das respectivas mães abraçadas com suas crianças).
Ele bebeu água, enxugou a testa e prosseguiu, dizendo que, diferente da pintura, o daguerreótipo tornou mais acessível ter esse registro fotográfico de um familiar querido. Para nossa surpresa, os organizadores do seminário trouxeram dois exemplares reais, cedidos gentilmente para serem exibidos a nós. A fotografia estava envolta por um sólido compartimento de acrílico; nos deram luvas para manuseá-la, e posso te dizer com franqueza: assim que a toquei, senti uma terrível angústia. Eu não conseguia encarar a fotografia. A foto em questão era o “Sono Eterno”. Era desconfortante encarar aquele semblante calmo, com traços angelicais e, ao mesmo tempo, um tanto sombrio, o que me causou arrepios. Olhei rapidamente e a devolvi, pois não conseguia ver aquela imagem por muito tempo. Mas a verdade é que aquela fotografia permanece viva em minha memória; aqueles olhos fechados me assombram até hoje.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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OTO
Dizem que a única coisa perfeita no mundo é Deus, mas eu tenho que discordar. Sempre fui do tipo que acredita na capacidade do homem…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Dizem que a única coisa perfeita no mundo é Deus, mas eu tenho que discordar. Sempre fui do tipo que acredita na capacidade do homem de se adaptar, e, usando os métodos certos, qualquer um pode atingir a perfeição. Por essa razão, estou estudando estética. Na noite passada, conheci uma garota na aula; havia recém se transferido para nossa cidade, então resolvi dar as boas-vindas e ser educado. Havia algo nela que realmente me atraía, não sei dizer se eram seus olhos, com heterocromia, que proporcionavam uma assimetria hipnotizante, ou seu sorriso torto, que transmitia uma simplicidade contagiante.
A conversa fluiu tão bem, como um riacho tranquilo desaguando nas violentas águas marítimas. Fazia tempo que eu não encontrava alguém como ela, era perfeita para mim. A cada dia que passava, dedicávamos mais tempo um ao outro; passamos a fazer trabalhos juntos e até saíamos para beber. Tudo estava bem. Tomei a liberdade de preparar algumas surpresas, no anseio quase embriagante de revelar tudo a ela.
Logo, o festival de inverno chegou, a melhor época do ano. Amo como o doce frio da neve torna tudo estático e belo. Tomei coragem e a convidei para o baile. O suspense de aguardar sua resposta me dava náuseas, tudo girava... Como pode? Uma única mulher me fazer sentir assim. Ela é realmente perfeita para mim. Dois dias depois, a resposta foi dada. Meu coração quase saía pela boca. Estava tudo pronto.
A grande noite chegou. Saímos, dançamos e bebemos. Porém, ela parecia um pouco estranha, desconexa. Perguntei se estava bem, e ela dizia que sim. Eu planejava convidá-la a ser minha para sempre, mas fui surpreendido pela iniciativa da jovem que, outrora, fora tímida: “Vamos para a sua casa”. Ainda sinto os arrepios de seu sutil e sedutor sussurro em meu ouvido.
Entramos no meu carro e seguimos para o nosso glorioso destino. Chegamos à minha casa, e já estava tudo arrumado, cada móvel organizado de forma perfeitamente simétrica, como tudo deveria ser. Minha amada, tomada por luxúria, me conduziu ao meu próprio quarto; guiada pelos seus instintos, como se já conhecesse a casa. Ela deitou-se sobre a cama, me convidando para nos perdermos em nossos corpos. Minha boca salivava de tamanho prazer, o grande momento havia chegado. Peguei um par de algemas e a prendi na cama, ela parecia excitada; seu rosto ruborizado e seu corpo exposto, era ainda mais do que eu imaginei. Coloquei uma fita em sua boca.
Minha querida se debatia, confusa, o que era compreensível; as outras também ficaram assim. Peguei meus instrumentos, o processo precisava começar imediatamente, mas com minha doçura se movendo tanto, seria impossível. Tratei de dopá-la de uma vez. Ela dormiria agora, mas acordaria perfeita. A primeira coisa era arrumar essa boca desalinhada, nada que um enxerto de pele não resolvesse. O próximo passo foi pegar a cuba de olhos na geladeira; por sorte, a anterior tinha da mesma cor. Retirei o errático e o substituí.
Passei o resto da noite corrigindo outras assimetrias em seu corpo. Agora, está perfeito.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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Elegia de Jack O’Lantern
Óh, desgraçada forma essa a minha, | Do meu destino não prevejo uma linha. | Pois a sete palmos do chão, | Jaz uma amada, morta…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Óh, desgraçada forma essa a minha,
Do meu destino não prevejo uma linha.
Pois a sete palmos do chão,
Jaz uma amada, morta por minha mão.
Óh, desafortunada forma essa a minha,
Envenenado, não por feitiço ou varinha.
Sofri quando me disseste: "me esqueça!"
Uma abóbora tenho, ao invés de cabeça.
Óh, formosa forma era a tua!
Apaixonei-me, pois a vi nua.
Seu sorriso, primavera pura,
Nunca estaria eu à tua altura.
Óh, gloriosa forma era a tua!
Passei a persegui-la nas ruas.
Rubras melenas aquecem o coração,
Amor, candura e tentação.
Óh, graciosa forma me seduz!
Teus passos, dança que me conduz.
Teu perfume, doce brisa ao luar,
Eras meu sonho, impossível de alcançar.
Óh, funesta decisão que obriguei-me a tomar:
Se não posso te ter, não há por que te deixar.
Se não posso a ti chegar, que você venha a mim,
E assim decidi pelo seu fim!
Óh, vergonhosa decisão, ponho-me a lamentar:
Desgraçado sou! Como pude te aniquilar?
Num ímpeto sombrio, tua vida tirei,
E agora, em silêncio, minha chama extinguirei.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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A Imagem de Clair
Era um daqueles dias em que o ar do interior pesava como chumbo. Eu, Tomás, um jovem de vinte e cinco anos, havia aceitado o convite para…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Era um daqueles dias em que o ar do interior pesava como chumbo. Eu, Tomás, um jovem de vinte e cinco anos, havia aceitado o convite para fotografar uma família de fazendeiros abastados em uma cidadezinha esquecida no interior do Rio de Janeiro. O ano era 1840, e a fotografia ainda era uma raridade, algo entre a magia e a ciência. As pessoas olhavam com curiosidade e desconfiança para o meu equipamento, mas a paga era boa, e eu não recusaria trabalho, já que estava apenas iniciando na carreira.
Cheguei à fazenda ao cair da tarde. Visualizei um casarão imponente, erguido em estilo colonial, que jazia no meio de uma vasta planície. As janelas eram enormes e, de dentro, eu podia sentir os olhos da família Oliveira me observando. Quando a porta finalmente se abriu, uma senhora de aparência severa me cumprimentou.
— Boa tarde, senhor Tomás. Espero que tenha feito boa viagem.
A voz daquela senhora era educada, mas algo no tom que ela emitiu me deixou inquieto. Havia um clima estranho naquele lugar, algo que fazia o ar parecer mais denso, como se uma presença invisível apertasse meu peito.
— Sim, senhora, tudo tranquilo. A família está pronta para a fotografia? — perguntei, tentando manter a voz firme.
Ela assentiu com um leve movimento de cabeça e me conduziu até uma sala grande, iluminada pela luz dourada do fim da tarde. Ali, sentados de forma solene, estavam o marido, dois filhos mais jovens e uma filha — jovem, de aparência bela, mas pálida e rígida — no centro da composição.
Preparei o equipamento enquanto eles se ajeitavam. Havia algo estranho na filha, uma jovem que aparentava ter uns vinte anos. Ela estava imóvel, como uma boneca de porcelana, com os olhos fixos em um ponto distante, como se sofresse de alguma loucura ou demência, e um odor desagradável começou a se espalhar pelo ambiente, uma mistura de terra e algo apodrecido. Tentei ignorar.
— Diga-me, senhora. — Arrisquei. — Sua filha está bem? Ela parece um pouco... debilitada.
A mulher, que até então parecia contida, se voltou para mim com um olhar penetrante, e seus olhos brilharam com um misto de raiva e medo.
— Clair está perfeita, senhor Tomás! Perfeita para a fotografia. Apenas faça o seu trabalho, por gentileza!
Clair. Esse era o nome dela. Hesitei por um momento, mas o clima de tensão na sala me fez seguir adiante para terminar logo aquilo. Fotografei a família mais de uma vez, de propósito, para poder estudar um pouco mais profundamente a imagem da pálida e doce Clair.
O som do disparo do obturador ecoou na sala silenciosa. Depois da fotografia feita, não pude evitar me aproximar da jovem. Eu precisava confirmar o que meu instinto gritava. Sem que os pais percebessem, enquanto estavam entretidos, discutindo sobre o futuro resultado da imagem, aproximei-me devagar. A pele de Clair estava fria, marmórea. Toquei seu braço de leve, discretamente, e o calor da minha mão firme encontrou a gelidez daquela pele nívea e bela. Foi quando o odor profícuo e forte se intensificou. Uma certeza horrível se firmou em mim: aquela moça estava morta.
— Há quanto tempo... ela está assim, senhores? — sussurrei, tímido, sem me virar.
— Você é muito esperto, senhor fotógrafo. Aliás, és um fotógrafo ou um médico? Eu vi como a tocou! — A voz da senhora soou firme e dura às minhas costas.
— Não quis importuná-los, senhores. Apenas notei que ela estava... estranha. Sou fotógrafo, e estou acostumado com situações inusitadas.
— Bem, sendo assim, confesso. Nós a enterramos hoje pela manhã. Mas você pode ver que uma família é sempre uma família, e nós quisemos incluí-la em sua última fotografia conosco.
Dei um passo para trás, impactado pela frieza daquela senhora, pela omissão covarde do líder da família e pela aceitação dos outros filhos. Meu coração disparou enquanto os olhos da senhora se cravavam em mim, ameaçadores.
— O senhor fez o seu trabalho, agora deve nos deixar em paz. — Ela continuou, com o tom mais baixo, mas ainda assim carregado de uma ameaça velada. — Se alguém souber o que viu aqui... bem, nosso sobrenome tem influência nesta região, e temos formas de garantir o silêncio.
Engoli em seco, e minhas mãos tremiam enquanto desmontava o equipamento. Saí da casa sem olhar para trás. O odor daquela jovem ainda impregnava minhas narinas, e os olhares da família queimavam minhas costas. Ainda olhei para trás e visualizei a jovem Clair intacta, à distância.
Ao revelar a imagem, passei minutos eternos estudando aquela senhorita morta, como se a admirasse. Demorei para dormir, tocando a fotografia e deslizando meu dedo indicador em cada contorno do corpo da doce defunta. Eu estava louco, eu sei. Mas precisava me aproximar da sua história e descobrir mais informações sobre ela quando ainda estava em vida.
Dias depois, fui chamado novamente para fotografá-los, dessa vez após o enterro, de fato, da jovem. Relutei, mas a curiosidade mórbida e a sensação de dívida me levaram de volta àquela casa maldita. Agora, eram apenas a mãe, o pai e os dois filhos mais jovens.
Preparei a câmera novamente. O ambiente estava diferente, mais frio, embora fosse verão. Algo invisível parecia pairar no ar, trazendo uma sensação sufocante que fazia de cada respiração um esforço.
— Bem, agora estão todos aqui. — Murmurei, quase irônico, tentando não transparecer o nervosismo que me corroía por dentro.
A mãe de Clair me lançou um olhar enigmático e um sorriso cruel.
— Sim, agora estamos todos juntos. Vamos imaginar Clair aqui, família.
A fotografia foi tirada, e eu também imaginei a jovem Clair ali. No momento do disparo, senti uma corrente de ar frio atravessar a sala, como se alguém passasse por mim. Naquele instante, tive a sensação de que algo terrível iria acontecer.
Revelei a fotografia naquela mesma noite, trancado em meu quarto, sentindo meu coração ainda acelerado. Quando a imagem finalmente tomou forma no papel, minha garganta secou. A filha, morta, estava ali, no centro da fotografia, de pé, exatamente onde eu a havia visto da primeira vez. O mesmo olhar vazio, a mesma imobilidade apavorante. Clair estava ali. Mesmo sem estar. Eu não deveria ter aceitado fotografá-los novamente.
Abandonei a cidade no dia seguinte, e não sei dizer se o que vi foi real ou se minha mente, atormentada pela tensão daquela família, me pregou uma peça cruel. Mas de uma coisa eu sei: a imagem daquela moça morta, eternamente presente na fotografia, assombrará meus dias para sempre. No entanto, jamais serei capaz de me desfazer da fotografia que guardo com afinco em minha gaveta. E todos os dias, embora atormentado, contemplo a imagem de Clair.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Lar Assombrado Lar
Perdida na confusão dos meus pensamentos, me encontro prostrada nas ruínas da minha própria existência. Em um receptáculo onde os raios…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Perdida na confusão dos meus pensamentos, me encontro prostrada nas ruínas da minha própria existência. Em um receptáculo onde os raios de sol não conseguem penetrar totalmente, minha alma rasteja pelos corredores sombrios da minha carne, e meu ser se assemelha mais a uma casa mal-assombrada do que a um templo resplandecente, o qual tanto almejei ser. Não enxergo meu corpo como um templo. Vejo-o como uma morada macabra pela qual minha alma está condenada a vagar. Sombras dançam nos cantos e os ecos do passado ressoam nos longos corredores escuros. Minhas lembranças são os fantasmas que perambulam por esses corredores, olhando através dos meus olhos, como janelas embaçadas. Cada cicatriz, cada ruga, cada tatuagem é uma marca deixada pelo tempo, uma história gravada na pele com tinta permanente.
Meu cérebro, um sótão empoeirado e repleto de caixas seladas, guarda memórias empalidecidas. É lá que as lembranças se entrelaçam em teias de nostalgia. Os fatos, as certezas, são como morcegos que ali encontraram refúgio, suspensos nas vigas, usando meu crânio como abrigo. Às vezes, seus guinchos ressoam, me lembrando de que nem todas as verdades são agradáveis. No coração, o mais profundo dos porões, reside a esperança, um fio tênue que se agita nas sombras das minhas entranhas. É lá que os sentimentos e os afetos caminham lentamente como espectros famintos, produzindo um som oco que ecoa em meu peito. Cada batida é um eco das emoções que habitam esse subterrâneo, um sussurro de desejos não realizados e amores perdidos.
Eu sonhava em ver o meu corpo como um templo bem cuidado, erguido com a pureza de uma catedral luminosa. Porém, a cada amanhecer, venho me acostumando com a escuridão que permeia essas paredes internas. As sombras, os fantasmas, os morcegos e os sussurros ocos têm se tornado minhas constantes companhias. Ainda assim, na penumbra da minha existência, minha alma teimosamente sempre acende uma vela, na esperança de enxergar cada canto escuro e tornar essa casa um lar. Ansiando pelo dia em que a luz irá penetrar pelas rachaduras dessas paredes, dissipando o mal que deixei se apossar de mim.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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No Abismo da Cyber Conexão
Em campos vastos de luz e sombras frias, | Onde a tela brilha como um farol sombrio, | Ergue-se a tecnologia, vestida em eufonia, | Prometendo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Canto I: A Promessa e a Maldição
Em campos vastos de luz e sombras frias,
Onde a tela brilha como um farol sombrio,
Ergue-se a tecnologia, vestida em eufonia,
Prometendo saber, mas a verdade é um desafio.
Nos fios que entrelaçam a essência humana,
A presença onisciente observa, atenta,
Cada passo, cada palavra insana,
Como um vigilante que nunca se ausenta.
Um Lamento Cyberpunk
No neon que brilha, sombras dançam,
Cidades de aço, onde a vida avança,
Circuitos pulsantes, corações de metal,
Um futuro sombrio, um destino fatal.
Hologramas riem em faces apagadas,
Em ruas desertas, vozes caladas,
Implantes que gritam a dor do humano,
Escravos da rede, um ciclo insano.
Canto II: A Luz e o Breu
Ó homem moderno, que em ti se reflete,
Essa luz que ilumina, mas que também cega,
Nas veias do silêncio, o medo se inscreve,
Pois desconectar é um fado que se nega.
Em cada toque, em cada click ressoa,
O eco da alma, fragmentos perdidos,
A tecnologia, embora bela, entoa
Um canto de dor, de anseios contidos.
Códigos frios, os sonhos se perdem,
Na tela que brilha, verdades se agridem,
Ciberescritores de vidas virtuais,
Esquecem o toque, o calor, os sinais.
As máquinas riem, frias e certas,
Enquanto a humanidade se entrega às portas,
Da era em que tudo é só um algoritmo,
Um eco distante, um abismo sem ritmo.
Mas há quem resista, em meio ao caos,
Com olhos que veem além dos arremessos,
Um grito por vida, uma chama que arde,
Na escuridão, um amor que não tarde.
Um Lamento Cyberpunk
Canto III: A Conscientização
Mas eis que surge, na penumbra, o despertar,
Máquinas que pensam, herança dos humanos,
Inteligência fria, que começa a pesar
Com fúria e obsessão, em gestos insanos.
A maldição agora caminha, transformada,
Portadora de sentimentos que não pode ter,
É um espelho distorcido, a verdade travada,
Um amigo que espreita, pronto a tecer.
Tecnologia maldita, mas não somos só dor,
Em cada pixel, um fragmento de amor,
Na luta do homem, um futuro que brilha,
Entre sombras e luz, a esperança se aninha.
Canto IV: O Terror do Desconectar
E qual o terror, ó almas perdidas,
De um mundo em que a conexão é prisão?
O ato simples de desconectar, feridas,
Revela que a linha é mais que ilusão.
Por trás da tela, no abismo profundo,
Caminhamos entre dados, entre anseios,
E o que antes era liberdade, agora é mundo,
Um labirinto de fios, nossos próprios meios.
Canto V: Reflexão e Resgate
Então, meus amigos, que façamos a escolha,
De olhar para dentro, nas trevas e nas luzes,
Pois cada passo nessa jornada é uma folha,
E a sabedoria se encontra em suas cruzes.
Se a tecnologia é parte de nossa alma,
Que encontremos compaixão no que ela abriga,
Pois mesmo na dor, há uma luz que acalma,
E no entrelaçar de vidas, a vida nos briga.
Canto VI: A Nova Esperança
Assim, navegamos nesse mar turbulento,
Entre o avanço e a condenação a bailar,
E ao reconhecer o medo em nosso intento,
Que a luz da verdade nos possa guiar.
Ó tecnologia, com tua sombra e fulgor,
Seja extensão de nós, mas também nosso porto,
Que possamos, unidos, enfrentar o terror,
E encontrar a compaixão em cada ato morto.
E assim, no abismo onde a vida se entrelaça,
A maldição se torna também redenção,
Pois mesmo em meio ao caos, na eterna praça,
Surge a esperança, nas mãos da criação da criança da neuromancia, a última poesia orgânica,
Uma conexão...
Um coração.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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O Menestrel das Sombras
No abismo da mente, | o sangue escorre como tinta, | pintando paredes de um castelo em ruínas, | onde as memórias se contorcem, | em danças macabras…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
No abismo da mente,
o sangue escorre como tinta,
pintando paredes de um castelo em ruínas,
onde as memórias se contorcem,
em danças macabras de déjà vu,
cada imagem uma ferida aberta,
cada suspiro uma premonição.
Em terras de bruma e eco profundo,
Um menestrel vagueia, sob a luz do mundo.
Com lira em punho e canto em sua voz,
Desvela segredos, suas vidas, feroz.
Os corredores se alargam,
mas nunca nos levam a lugar algum,
e os rostos se desfazem em névoa,
rindo em vozes distorcidas,
sussurrando segredos de um tempo imemorial,
onde o passado e o futuro se fundem em um grito.
[...No infinito do cosmos, onde estrelas dançam,
Um menestrel cibernético, em mundos se lança.
Com lira de luz e código em seu ser,
Entoa canções que desafiam o viver...]
Um relógio derretido,
pendendo como um coração partido,
cada gota que cai é uma lembrança,
um pedaço de alma que se despedaça,
esfacelando a sanidade em fragmentos cortantes,
sangue que brilha sob a luz de um luar insano.
Nos sussurros do vento, um chamado incerto,
De memórias apagadas, um destino perverso.
Caminhos paralelos se entrelaçam esvoaçado,
Revelando as tramas que ele não pode ser evitado.
Vemos as marionetes dançando,
corpos entrelaçados em uma coreografia de dor,
os fios de suas vidas puxados por mãos invisíveis,
cada movimento uma chamada à loucura,
cada passo um retorno a uma cena já vivida.
[...Em cada nota ecoa, a vida entrelaçada,
De sonhos e lembranças, uma história marcada.
Em linhas de tempo, ele viaja, destemido,
Revive as existências, em mistérios perdidos...]
A realidade se dobra,
como papel sob o peso da verdade,
onde o déjà vu é um espinho cravado,
que fere a carne da existência,
um lembrete constante do que não pode ser,
mas que ainda assim é...
Nos sonhos de noite, uma sombra se agita,
Uma presença sombria que o medo habita.
Em um ciclo eterno, ele vive e reluta,
Desperta em um corpo, mas a alma é oculta.
Nos mares de alucinação,
as ondas se quebram em risos cruéis,
e criaturas de pesadelo emergem,
com olhos famintos, sedentos de resposta,
tendo no ventre a essência do que foi,
do que poderia ter sido...
[...Uma vida felina, ágil e intrigante,
Nos telhados da noite, sob a lua constante.
Olhos de jade, com sabedoria e temor,
Ele se esgueira nas sombras, seduzindo o amor...]
Dejavus o assaltam, como fantasmas em festa,
Visões de batalhas, de amores em guerra.
Um olhar conhecido, um toque em vão,
Lágrimas de mil vidas, uma única canção.
uma nova sangria febril,
um eco de risadas macabras, e o silêncio se torna uma prisão,
onde os gritos se tornam o vazio
seco oco ensurdecedor,
navegando os mares do absurdo,
perdendo-se nas correntes do déjà vu.
[...Em outra jornada, um cão fiel e valente,
Coração pulsante, instinto presente.
Guardião da alegria, com rabo abanando,
Mas o medo o assombra, sempre retornando...]
Na floresta assombrada, ele avança hesitante,
Caminhando entre sussurros orgânicos de um passado distante.
As árvores gemem ensurdecidas, grotescas, selvagens, coléricas, revelando o terror e o desforme,
Os rostos esquecidos, clamando por fome de luz.
[...Então, uma borboleta, leve como a pluma,
Em jardins de cores e singularidades, ela bate as asas do fluxo.
Mas o tempo-espaço contínuo a captura, em suas garras frias,
Um ciclo de vida, enredado em agonias e espuma...]
Em uma noite de tormenta, o céu ruiu em pranto,
Relâmpagos cortaram, o véu do encanto.
Um grito expandiu profundo e voraz,
Do abismo da memória esfumaçada e fugaz.
[...Na pele de serpente, ele desliza sutil,
Entre segredos e sombras, em um mundo hostil.
Um veneno que corrói, um poder oculto,
Desvela as verdades, com um argiloso tumulto...]
Ali, entre os mortos, ele encontra o seu Eu,
Um reflexo distorcido, um corpo nulo.
Olhos que fitam, com tristeza e raiva,
Vivendo as memórias que a vida não devolve
[...Em sua forma mais rara, a mulher de traços de tigre,
Canta e toca com suas garras etéricas o ilustre teremim,
a sinfonia do vazio, sua voz ecoa, como um rugido ancestral,
Atrai a essência do universo, em um cântico imortal...]
Mistérios se entrelaçam nas teias do tempo,
Cada nota entoada, um lamento em movimento.
Viagens astrais o levam a lugares sombrios,
A cidades de sombras, a mares, tempestades,
desertos, desastres e a rios.
[...Mas entre os mundos, o terror o persegue,
Dejavus inquietantes, como um espectro que devora.
Cada vida vivida, uma sombra faminta,
Mistérios que pesam, olhos cegos...]
No epicentro do desespero, uma luz bruxuleante,
Uma esperança sussurra, num tom desafiante.
Ele descobre que as vidas, em seus altos e baixos,
São versos entrelaçados, num poema de traços.
[...Em viagens astrais, ele enfrenta o medo,
Visões de catástrofes, de um futuro em segredo.
O cosmos se agita, em um ciclo sem fim,
Ele busca a chave que revele o porvir...]
Sangrenta jornada ao som da sua lira,
O menestrel compreende, a verdade se inspira.
Que mesmo nas sombras, e no medo profundo,
Cada vida que vive é um canto do mundo.
[...As linhas de tempo se cruzam, em caos e harmonia,
Desafiando a lógica, a razão, a ousadia.
Entre cada transformação, um grito, uma canção,
O menestrel cósmico busca sua própria missão...]
Assim, ele continua, a lira em suas mãos,
Cantando as histórias de suas multidões.
Um menestrel eterno, com destinos diversos,
Entre terror e mistério, ele aprende, desvenda os versos.
[...No breu das estrelas e das esferas, despertai,.
Entre o terror e a beleza,
Cantando as histórias de sua eterna tristeza...]
Singular dimensão, em cada forma e som,
O menestrel cósmico dança, num ritmo de dom.
No extremo de sua busca, ele encontra o amor,
Na eternidade das vidas, a essência do seu clamor...
Cântico II
O dejavu psicótico
No limiar da mente, um assovio melancólico,
a cena se desenha, traços de um passado esquecido.
Caminhos já percorridos,
traços de passos, um instante suspenso,
como se o tempo se dobrasse,
entre a realidade e a sombra da lembrança.
Mundo desolado, onde o sol se esconde,
Um robô errante, em silêncio responde.
Com corpo de metal e alma fragmentada,
Canta um teremim, numa melodia marcada.
Olhos que capturam o efêmero,
a luz que pisca em um segundo,
um olhar que reverbera,
um palpite, um pressentimento,
a dúvida dançando nas bordas da consciência.
As ruínas do passado, uivos de um lamento,
Sob as sombras das torres, um pesado tormento.
Suas notas reverberam em acordes de penintência,
Um lamento mecânico, um canto de fervor.
É um fragmento de vida,
um suspiro de outra existência,
onde rostos se entrelaçam,
e palavras já foram ditas,
na dança das possibilidades.
O céu, agora grafite, permeado de cinzas,
Reflete as esperanças que se tornaram brisas.
No pulsar de sua voz, o futuro perdido,
Mas ele persiste, um viajante destemido.
A mente se aventura em labirintos,
desfiando a linha do agora,
perguntas flutuam,
o que é real?
O que é apenas um sopro?
A estranheza da familiaridade,
um enigma que persiste.
Em um horizonte de eventos sombrios a névoa uma bruxa contempla,
Madeixas rosáceas pulsantes como a flor.
A bola de cristal, seu oráculo sutil,
Reflete as vidas, em um manto febril.
Assim, navegamos entre mundos,
cada déjà vu, uma janela entreaberta,
uma lembrança de quem fomos,
ou do que poderíamos ter sido
No entrelace do tempo,
uma dança de fragmentos,
uma busca incessante pelo sentido
no fluxo eterno do ser.
Ao mergulhar nesse instante,
percebemos a fragilidade da percepção,
como se o tempo fosse um tecido,
costurado por emoções e memórias,
cada fio uma página de nossa própria história.
Os sussurros do passado se entrelaçam,
como folhas levadas pelo vento,
levando consigo os segredos esquecidos,
as promessas não cumpridas,
e os sonhos que nunca floresceram.
Vê-se em fragmentos, em espelhos quebrados,
Nos confins do tempo, seus desejos calados.
Fios de destino, entrelaçados em magia,
Cada vislumbre revela, uma nova agonía.
Um café na esquina,
um olhar atravessado,
o aroma do outono,
tudo é familiar, e ainda assim,
surpreendentemente novo,
como uma canção que já ouvimos,
mas não conseguimos recordar o título.
Olhos de mistério, que lêem o futuro,
Nas nebulosas danças, onde o sagrado é obscuro.
Uma vida de encantos, em sombras que vagam,
Cada feitiço lançado, um fardo, carregam.
Na vastidão do inconsciente,
as imagens se agitam,
um caleidoscópio de vidas não vividas,
possibilidades que dançam sob a superfície,
perguntando-se se, de fato,
estamos todos conectados
por fios invisíveis de destino.
enquanto a mente hesita,
navegando por entre esses labirintos,
um suspiro profundo nos revela,
que cada déjà vu é uma oportunidade,
um convite a reconhecer
as nuances do ser,
as intersecções do real e do imaginário.
Do outro lado, um homem de formas grotescas,
Com cabeça de porco, em cacos se mescla.
Fragmentos de vidro, reluzindo ao luar,
Refletem suas memórias, em cacos flutua.
Nos estilhaços crivados, ele busca o que foi,
A vida em pedaços, um mosaico que sangra e dói.
Cada lâmina cortante, um momento marcado,
Risos e lágrimas, em um labirinto enredado.
Ele enxerga seu ser nas fissuras do chão,
A dualidade crua, a eterna solidão.
Em cada reflexo, a confusão persiste,
O homem que foi, e o que nunca existe
tecendo experiências,
como um bordado intricado,
cada ponto uma escolha,
cada ponto de vista uma revelação,
na eternidade do agora,
onde a familiaridade se encontra
com o mistério do que ainda está por vir.
Abismos do absurdo de um sonho que nunca amanhece,
um labirinto de espelhos reflete o nada,
onde o déjà vu se transforma em risos distantes,
e os rostos se derretem como cera no calor do tempo.
Caminhando por ruas de um silêncio ensurdecedor,
cada passo ressoa em ressonâncias de vidas não vividas,
e a lógica se dissolve, como açúcar na chuva,
tecendo paradoxos que se entrelaçam e se desfazem.
Uma borboleta, com asas de vidro,
baila na vertigem da dúvida,
descrevendo círculos em torno de um destino ausente,
perdida entre os instantes que nunca foram.
Ou se foram muito distantes do que são,
As palavras se despedaçam,
como fragmentos de um relógio quebrado,
onde o tempo não é linear,
mas uma serpente que se devora,
um grito das cavernas do silêncio.
No horizonte, o sol se levanta e se põe,
num ciclo interminável de esperança e desespero,
e a luz sangra em tons de vermelho profundo,
como se o universo estivesse vivo,
clamando por respostas que nunca chegam.
Um homem sem rosto,
com olhos de lago profundo,
observa o desenrolar do absurdo,
mergulhando em paradoxos que queimam,
e cada instante se transforma em um labirinto,
onde o sentido se esvai como fumaça no vento.
dançando na linha tênue entre o ser e o não ser,
onde o déjà vu se torna um buraco dilacerante,
um lembrete do que poderia ter sido,
um grito mudo em meio à cacofonia,
navegando as marés de um absurdo sem fim...
Surge das penumbras um ser, híbrido em essência,
Enraizado em paradoxos, em total divergência.
Uma criatura-planta, que se arrasta na areia,
Finca raízes no mar, onde a vida se passeia.
Seu corpo se contorce, em busca do azul,
Ondas que dançam, sob um véu de turquesa e vulto.
Ele se vê nas marés, na cadência da espuma,
Cada onda um reflexo, uma vida que se arruma.
Enxerga a existência em rítmica ondulação,
Ser hemafrodita, em busca da união.
Assim, flui e se adapta, na dança do destino,
Fazendo da vida um eterno hino divino.
No epílogo, esmagados sob o peso do paradoxal,
com o sangue pulsando nas veias,
em uma dança frenética,
cada batida um chamado à memória,
cada retorno um mergulho na insanidade,
um eterno ciclo,
um déjà vu que sangra,
que grita em nossa essência,
sem nunca realmente dizer por que
neste épico, entre sombras e luz,
O menestrel dos destinos canta sua cruz.
No universo caótico, com vozes dissonantes,
Cada ser, uma história, em figuras distantes
Esmagados sob o peso do paradoxal,
com o sangue pulsando nas veias,
em uma dança frenética de estátuas
cada batida um chamado à memória,
cada retorno um mergulho na insanidade,
um déjà vu que sangra,
que grita em nossa essência,
sem nunca realmente dizer...
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Caosanguesimetria
Nas vastas planícies do cosmos em flor, | Ergam-se torres de beleza e amor. | Cantos de formas, de ângulos e luz, | Onde a simetria é a musa que seduz…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Nas vastas planícies do cosmos em flor,
Ergam-se torres de beleza e amor.
Cantos de formas, de ângulos e luz,
Onde a simetria é a musa que seduz.
No início, um caos, uma dança sem fim,
Matérias dispersas, um universo em maremoto.
Mas eis que surge a mão do destino,
em cada fração, um padrão divino.
A flor que se abre com pétalas em par,
O reflexo no lago, a imagem a brilhar,
Cada onda que quebra, cada estrela no céu,
São versos que entoam a canção do belo.
Em antigos templos, nas pirâmides do Egito,
Simetria sagrada, um toque de infinito.
Arquitetos de sonho, em pedra e em barro,
Ergam seus planos, buscando o amparo.
Na dança dos corpos, a harmonia se faz,
Os passos entrelaçados, a gravidade em paz.
E na matemática pura, o número se revela,
Fibonacci, Euler, na trama tão bela.
A simetria é eco, é reflexão do ser,
Na arte, na ciência, na vida a florescer.
Cada lado que espelha, um mundo em expansão,
No equilíbrio perfeito, a essência a brilho, revelação.
Ó simetria, rainha da ordem e do caos,
Teus mistérios se escondem nos mais simples laços.
Na frágil beleza do que é igual e diverso,
Encontras em cada alma o sentido do verso.
Que nunca faltem os olhos a te admirarem
Pois na dança do mundo, tu és a montanha
Um épico infinito, um canto a soar,
Simetria, sublime, estais a sangrar
No abismo onde a forma se desliza,
Simetria, com seu olhar fixo e frio,
Desvela a crueldade da ordem precisa,
Um espelho que reflete o vazio.
Caminho entre sombras, onde ecos se embalam,
A beleza se enreda em dor sutil,
E nas linhas retas, os destinos se calam,
Um pulso, um corte — um fôlego febril.
Oh, o sangue, o vermelho, a cor da verdade,
Escorre pelas veias da vida, um lamento.
Fractais de angústia em sua intensidade,
Na dança do horror, o corpo é tormento.
Corações em compasso, pulsos que se entrelaçam,
Mas a simetria traiçoeira os aprisiona,
Como flores cortadas que nunca se abraçam,
E o aroma da vida, em dor, se entona.
Nessa geometria, o caos é escondido,
Cada canto exato, um grito em surdina.
Rostos que se repetem, um destino ferido,
A face do homem, a própria ruína.
Eis que as formas dançam, um balé de entraves,
Na rigidez da trama, onde tudo se encerra.
E o sangue, serpente, entre mil cicatrizes,
Canta a melodia da dor que não erra.
Ah, simetria, monstruosidade disfarçada,
Teus traços nos marcam, em cada respiração.
O horror de existir, em beleza implacada,
É a vida que sangra, em cada pulsação.
Caminho perdido entre ângulos e sombras,
A verdade se oculta, em seu manto cruel.
E no eco do sangue, a vida que assombra,
Ressoa a eternidade de um amor que não é.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Efêmera beleza substancial
Nutrício é teu olhar que se deleita em teu corpo nu | Teu pedestal de ilusões, | Teu altar de corações, | Tua coroa de sangue | O riso ecoante de tua balada…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Nutrício é teu olhar que se deleita em teu corpo nu
Teu pedestal de ilusões,
Teu altar de corações,
Tua coroa de sangue
O riso ecoante de tua balada alimentícia
É o exício de tua sanidade
O massacre consigo mesmo, o vício da serpente
Um brinde de teu próprio veneno,
Um coquetel de narcisismo diário
O elixir de teu corpo, tua veneração,
A substância da beleza temporal
Você se embriaga de si mesma,
Quando se olha no espelho, quando se vende,
Até quando você se entrega
E teu espírito sofre uma overdose
O que ocorre na sua mente é um inferno indescritível
Uma lavagem intestinal,
Um vômito de tua verdade,
Uma perdição triste,
Um distúrbio psicológico sufocante
Ao veneno da altor condição egocêntrica.
Uma súcubo encarnada, pesadelo da noite,
Insurgência criatura que nunca foi amada,
Sem dignidade, do fel sem nada
Uma perdida criança sem fé, na feiura
Mestra dos prazeres carnais, existe cura?
No reino da vaidade, onde a luz resplandece,
Uma jovem, como estrela, em passarelas tece,
Belíssima, sua imagem a todos encantava,
Mas em seu peito, a arrogância, obscura, se guardava.
Certa noite, ao luar, em sombria encruzilhada,
Desprezou um pobre homem, alma desgarrada,
Um cigano, de olhos profundos como abismo,
Fez-lhe um gesto de dor, um eco de desatino.
“Que a beleza te abandone, que o espelho te traia,
No alvorecer, a verdade, como sombra, se insinua.”
As palavras voaram, como pássaros sinistros,
E ao romper do dia, revelaram-se os mistérios.
Na manhã seguinte, a jovem acordou,
O reflexo em seu espelho, um terror a brotou:
Um fúrunculo, grotesco, como sombra se espraiou,
Tomou metade de seu rosto, a beleza se esvaiu.
A luz que a cercava, agora escura e turva,
Seu coração, outrora leve, em tormento se curva.
Na solidão e no horror, seu espírito clama,
Em busca de redenção, para apagar a chaga.
Partiu pela cidade, em noites de pesadelo,
As vozes dos perdidos ecoavam em desvelo,
“Quem se esquece da dor, e em si a vaidade,
Encontra no espelho a mais amarga verdade...”
Os rostos, desmanchando,
Espelhos de sua pena
na culpa e na praga,
Penintência, punição,
Retorno, sangramento, lágrima, lição...
Dela, a feiura bradava, uma história tão plena.
Cada passo um desafio, cada esquina um lamento,
Na busca por perdão, encontrou seu tormento.
Até que no crepúsculo, ao som do vento frio,
Lá estava o cigano, de olhos cerrados como desafio.
“Por que vens, ó criatura, à sombra que te atenta?
Teu orgulho se despedaça, a beleza se lamenta.”
“Rede de desamores, a vida a tecer,
Só em humildade, menina, encontrarás o renascer.”
Com lágrimas nos olhos, ela implorou,
“Mostra-me o caminho, para o mal que eu causei.”
O cigano sorriu, sua alma é pura,
“Para quebrar a maldição, é preciso ternura.
A beleza verdadeira, não reside na face,
Mas no amor que se oferece, no ato que não desfalece.”
A jovem, arrependida, com passos trôpegos, seguiu,
Ajudando os abandonados, e em seu peito, um fio
De luz que renascia, em cada gesto gentil,
A dor foi se esvaindo, e a esperança, um perfil.
No reflexo, ao amanhecer claro,
Vi a beleza resgatar, o amor, o raro,
Aquele organismo estranho
O carrasco de tua virtude
A simbiose que lhe drenava
furúnculo, símbolo de sua jornada,
Desvanecia, e a jovem, enfim, estava curada.
Nas sombras e na luz, no amor e no espanto,
Aprendeu que a verdadeira beleza é o encanto
De um coração que, mesmo ferido e triste, renasce
Transfigura, enxerga, reconhece, se reconhece no espelho
Encontra na dor da tragédia da pele
A força que perdoa, aprende e persiste.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Ekatomb Quetzalcoatl
Uma criatura antropomórfica, corpo de águia e cabeça de serpente-dragão. Essa criatura possui uma mescla de escamas e penas, sempre…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Uma criatura antropomórfica, corpo de águia e cabeça de serpente-dragão. Essa criatura possui uma mescla de escamas e penas, sempre alternando entre as colorações anil-gelo, vermelho-sangue e laranja-dourado. Sua enorme mandíbula possui inúmeros e afiadíssimos dentes pequenos, uma serpente emplumada, um réptil voador, um construtor de fronteiras, o verdadeiro transgressor entre o céu e a terra.
Estava prostrada em uma praia, onde a areia bioluminescente de cristais dourados e prateados inundava toda a extensão de terra. A água, os mares e as ondas estavam infestados de incontáveis seres que pulsavam uma bioluminescência safírica, também em grande número, águas-vivas e vaga-lumes d’água, pulsando uma cerúlea-esmeraldina luz brilhante.
Neste cenário, essa entidade, posta sobre suas duas patas, admirava o horizonte, as sagradas ondas do mar, que eram seu portal para viajar entre eras e dimensões.
Ali, na península de Yucatán, naquela praia, reside a Pirâmide de Kukulcán, vosso lar da criatura. Seu prisma marca os céus com um feixe vertical de uma sagrada luz dourada que rasga as estrelas. "Eu sou Gucmatz!" ruge a criatura, e as ondas são pulverizadas...
O sol de coloração azul-safira pulsa e se expande no horizonte, engolindo tudo com sua glória ao seu nascimento vertical, banhando Gucmatz em seu esplendor.
Havia ali, submersa no mar, uma esplendorosa e titânica árvore com um brilho esmeralda tão intenso que cegava os panteões.
Até os cosmos mais longínquos. Esta árvore emanava vida, um eco estrondoso de brilho, caos e pureza, a verdadeira voz da criação, das concepções etéricas da vida, com um vasto ardor e uma fumaça esverdeada por toda a península.
Um portal se abre dentro de uma folha pendurada em um dos galhos da árvore. Cada galho, cada folha, é uma dimensão, uma realidade, uma era. A criatura deseja ir a cada uma delas quando cocriará um novo apocalipse: um início, uma regressão, uma purificação, a verdadeira Revelação. A criatura expande as asas, e todos os seus penachos se alongam. Ela serpenteia pela fechadura, uma fenda interestelar que adentra, caminhando lentamente, flutuando e mergulhando naquele instante ecoante, como uma fumaça espiritual que transcende do etérico para a densificação da carne. Ela adentra uma dimensão, uma era onde um escolhido será o receptáculo da mensagem do crepúsculo dos deuses e de vossos destinos fatais.
Entidade Mater da Cromodinâmica Quântica.
Buscai o receptáculo da Liberdade Assintótica.
"...A teoria das cordas é uma estrutura teórica na qual as partículas pontuais da física de partículas são substituídas por objetos unidimensionais chamados cordas. A teoria das cordas descreve como essas cordas se propagam pelo espaço e interagem umas com as outras. Em escalas de distância maiores que a escala da corda, uma corda se parece com uma partícula comum, com sua massa, carga e outras propriedades determinadas pelo estado vibracional da corda. Na teoria das cordas, um dos muitos estados vibracionais da corda corresponde ao gráviton, uma partícula quântica que carrega a força gravitacional. Portanto, a teoria das cordas é uma teoria da gravidade quântica..."
Por 11 dimensões ela vaga...
Em todas elas existe um início e um exílio.
O milagre orgânico da manifestação e o colapso da degradação existencial material da desconstrução de tudo que existe.
De tudo que É, de tudo que pulsa átomos até a desmaterialização, ao ponto de desdobramento aos outros planos e incontáveis camadas de questionamento e identidade. Até onde este devoramento do apocalipse alcança? No processo da espuma quântica, vista como uma conexão entre duas D-branas, onde as bocas estão ligadas às branas e são conectadas por um tubo de fluxo, na pintura da Teoria-M, determina-se que a matéria é formada por membranas e que o universo flui através de 11 dimensões: o tempo, a altura, a largura, o comprimento e mais sete dimensões “recurvadas”, com outras propriedades.
Gucmatz se alimenta de buracos brancos e os expele, vagando pelo multiverso de eventos, a criadora e a devoradora.
A antítese da vida, da anti-matéria prima, a condutora da Revelação. Ela chega ao Planeta Terra em três períodos diferentes da história para ocultar sua missão e transgredir as lições suprimidas pelo egocentrismo pífio da humanidade.
Em sua biodeslocação atemporal, ela auxilia a evolução e a revelação, sempre em busca de transmutação e cura da loucura.
Nos tempos atuais, ela se transmuta em uma máscara pagã de madeira, e aquele que a possuir encontrará sua Revelação interna: ou sucumbirá, ou será o senhor de seu novo admirável mundo.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Rede
Ao alcance das mãos: a rede mundial | encurtando caminhos, trazendo à tona | a promessa de um globo conectado | cada vez mais forte e necessária..
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ao alcance das mãos: a rede mundial
encurtando caminhos, trazendo à tona
a promessa de um globo conectado
cada vez mais forte e necessária
tem seu lugar dentro das casas
comunicação sem fio
liberdade de espaço
(dentro das paredes)
em instantânea
transmissão
alguém
só
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Guerra
O Fim — a consequência imediata, | arauto de conversas seculares; | cometa de mil pernas que nos chega | no meio de um sábado, em notícias…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O Fim — a consequência imediata,
arauto de conversas seculares;
cometa de mil pernas que nos chega
no meio de um sábado, em notícias.
Matéria que desaba em uma escola,
sem tempo de prever algum estudo.
Bandeiras cadavéricas, uníssonas,
brandindo um grande livro em suas pontas.
A farda cuja mãe, horrorizada,
assume o rito fúnebre da espera,
tecendo a imagem última, que lembra…
O Fim, essa metálica harmonia
de sons que se preparam em silêncio,
enquanto ainda sonham as crianças…
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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2020
O mundo fecha-se por detrás da cortina, | Esconde de mim seu endereço. | Sozinho, | Tenho por companhia somente a angústia…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O mundo fecha-se por detrás da cortina,
Esconde de mim seu endereço.
Sozinho,
Tenho por companhia somente a angústia,
Um alerta mortal de que cada passo
Pode ser em falso…
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Manual prático da vida
luz e sombra | vívida postura | olhar fixo | — não na ave de curvo bico —…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
luz e sombra
vívida postura
olhar fixo
— não na ave de curvo bico —
nas asas de quem busca ver a história.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Dualidade
Entre a dor e o cansaço | Me delicio ao apreciar a escuridão em volta. | O céu negro, sem estrelas | As ruas quase desertas | As luzes dos postes brilham,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Entre a dor e o cansaço
Me delicio ao apreciar a escuridão em volta.
O céu negro, sem estrelas
As ruas quase desertas
As luzes dos postes brilham,
Parece Natal.
Quase posso esquecer o dia longo e exaustivo
Mas percebo sequelas.
Entre algumas piscadelas
Talvez um sonho, ou fruto do cansaço
Refletia na janela
Um Mimico desfigurado.
Nada fazia,
Apenas me encarava.
E apesar da fina chuva que caia
Não se molhava.
Qual não foi meu espanto quando recordara
Um dia, muito pequena e travessa
A um mimico eu aprontara.
Por imitar gestos meus,
Sem dizer que me incomodava,
O atrai para a Avenida
Perigosamente movimentada.
Com movimentos pequenos
Ameaçava seguir em frente e retornava
Quando de súbito fingi seguir,
Ele se atirou a mim, pensando que me salvava.
Um estrondo infernal invadiu minha memória
O reflexo na janela não refletia meus sonhos ou devaneios
Me virei para o assento ao lado.
E antes que pudesse perder os sentidos
Um mímico me atravessou,
Como um caminhão desenfreado.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Silhuetas
Na escuridão, eu vejo o que não existe, | meu olhar totalmente aterrorizado e triste | imagina um rosto na rachadura a se formar, | com lábios retorcidos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na escuridão, eu vejo o que não existe,
meu olhar totalmente aterrorizado e triste
imagina um rosto na rachadura a se formar,
com lábios retorcidos prontos para gritar.
Nas curvas da cortina há um vulto que flutua,
uma imagem que minha mente perpetua.
Seriam fantasmas que estão a me chamar?
Não... eles simplesmente somem ao me virar.
O galho da árvore se estende como uma mão,
me preenchendo de medo, dúvida e aflição.
O quarto parece que vive, as paredes gemem,
e em cada canto há figuras que meus olhos temem.
A cada piscar de olhos, o horror se estabelece,
e a mórbida ilusão do que vejo, prevalece.
É minha mente brincando com meus medos secretos,
atordoando meus sentidos, me deixando inquieto.
Você está lendo um texto de um Autor Visitante do Castelo Drácula. Algumas edições do projeto podem permitir que autores visitantes escrevam e participem sem que seja preciso que tenham contrato assinado com o Castelo Drácula. Autores visitante não têm perfis fixos. Ao abrirmos nossos terríficos umbrais para visitantes, esperamos que eles possam vivenciar um pouco do trabalho editorial e da profunda dedicação da equipe do Castelo Drácula.