Perfeitos Estranhos
Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de […] | Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui […]
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de sol, para que eu me dirija para as matas lidar com os animais perigosos? Não... eu não estou em meu país — preciso lembrar.
Lentamente, ainda no escuro, levanto-me da maciez dos lençóis de cetim e sinto os meus olhos ainda sonolentos, se ajustando à baixa luz da alcova onde me encontro.
Ao me aproximar da janela deste quarto no antigo castelo, os meus olhos se fixam nos majestosos montes que se erguem ao longe. Lá, entre os mistérios da madrugada, surge uma silhueta, e mais do que isso, uma figura solitária, destacando-se contra o horizonte sereno. Um homem, cujos contornos se misturam com a imponência das montanhas distantes.
Minha feição muda para um possível receio, enquanto observo aquele estranho visitante. Uma sensação indescritível me envolveu, um misto de curiosidade e medo, como se o universo tivesse conspirado para que eu visse alguém a uma hora dessas.
Me afasto do grande vidro, rogando a Tupã que aquilo não tenha me enxergado assim como eu o enxerguei e vou correndo até a porta do quarto conferir se está mesmo trancada. Eu poderia buscar à Olga Nivïttiz, mas preciso me controlar e dominar os meus medos. É só um andarilho, vizinho, talvez. Ou será mais um residente do Castelo? Não, não sou capaz de ver nenhuma figura masculina em minha frente. Bastam todas aquelas pessoas estranhas que vi na grande embarcação cuja qual me trouxe até aqui.
Preciso registrar tudo, tudo, para mostrar aos meus líderes, à minha família. Busco meus papiros e sento-me na escrivaninha que me é possível, próxima ao dossel onde estou descansando, e escrevo, relato, amedrontada, mas o faço.
Meus lábios se entreabriram, tentando questionar tudo isso comigo mesma, mas nenhuma palavra escapa deles. Eu permaneço aqui, imóvel, como se temesse que qualquer movimento pudesse dissipar a visão diante de seus olhos.
O vento que escapa de uma fresta discreta brinca suavemente com as cortinas de renda, criando uma dança etérea ao redor dela, enquanto meus pensamentos se perdem na figura misteriosa lá fora que eu acabo de vislumbrar.
Eu posso sentir a pulsação do meu próprio coração, cada batida ecoando no silêncio da madrugada. O desconhecido nos montes parecia tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante. Uma inexplicável sensação de conexão se estabeleceu, como se “aquilo” pudesse compreender-me ou, até mesmo, ter vivido uma história similar à minha. Muitas vezes, histórias se cruzam e eu preciso parar de temer as pessoas, preciso parar de pensar que todos os seres masculinos são diabólicos e monstros. Talvez até eu ganhe um amigo-irmão um dia. É o que vibra em meu coração, como se houvesse um fio invisível de verdade. Para isso eu preciso parar de acertar homens com a minha flecha. Não farei mais isso. Não aqui. Com ninguém. Prometo para mim mesma.
Com um suspiro involuntário, me aproximo novamente da janela e não mais o vejo. Será alucinação? Alucinose? Ele desaparece dos meus olhos, mas a imagem do homem nos montes permanece gravada em minha mente. E se ele se aproximou do castelo e conseguiu entrar? Fecho os olhos, como se assim eu sentisse mais veracidade e sensibilidade no ambiente e percebo que ele pode ter adentrado no castelo. Ele está presente neste lugar, sei que está. Olho novamente para a porta e me acalmo. Por mais presente que aquela criatura Indecifrável esteja, ela não será capaz de adentrar às portas das alcovas particulares deste grande recinto.
O mistério daquele quase encontro noturno paira no ar, deixando-me ansiando pelo desenrolar dos acontecimentos que o destino reserva para mim neste castelo.
...
Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui. Abracei o incerto, o irreal, abandonando minha vida anterior atrás de algo que, à princípio, me parecia um mero devaneio, mas agora é angustiantemente verdadeiro.
Juntei todas as economias que pude, me desfazendo de todos os bens que me cabiam, para poder partir com todos os recursos possíveis. Após dias e mais dias de uma jornada cruel e longa, cheguei a um pequeno povoado. Muitos idosos, poucos adultos e nenhuma criança. Este último fato me causou um desconforto visceral e inesperado.
Eu deveria esperar pela carruagem que me levaria pelo último trecho do meu caminho.
Os moradores mal se dirigiam a mim, e quando eu os forçava, por meio de minhas diversas e invasivas perguntas, eles condensavam suas respostas ao mínimo possível, apenas me indicando onde esperar pelo cocheiro.
O povoado era pequeno, bem pequeno para os meus padrões. Úmido, escuro, quase pútrido. Não esbarrei com uma dúzia de pessoas, o que me causou uma estranheza exponencial.
Conforme o esperado, a noite chegou, e o cocheiro também. Eu seria seu único cliente, se é que posso me identificar desta forma. O sujeito vestia um manto escuro, denso, velho e maltratado. Era pouco mais baixo do que as outras pessoas que observei, embora sua estatura reduzida não condissesse com sua força sobrenatural, a qual demonstrou ao erguer minha única mala, desprezando totalmente o peso exagerado.
A viagem seguiu sem maiores intercursos. Não trocamos palavras, nem olhares, nem coisa alguma. Seguimos floresta adentro, por uma trilha que mal era visível. Me questionei quantas vezes ele teria realizado aquele caminho… Inúmeras, talvez.
Após uma subida íngreme e desleal, ele parou. Senti uma estranha angústia descer pela garganta e tomar conta do meu estômago. Não o vi descer do banco frontal, tão pouco ouvi retirar minha mala de trás da diligência. Abriu a porta lateral e fez menção para que eu saísse. Senti que, se ousasse desafiar sua sugestão, seria estripado e largado à própria sorte. Estava acuado, como uma presa indefesa, mas segui a ordem.
Não pude localizar o povoado, nem me esforçando para tal. A floresta era densa e escura, iluminada por poucos pontos de luz, espaçados, que indicavam a presença de lamparinas. No segundo seguinte, tanto a diligência quanto o cocheiro haviam desaparecido, sem deixar rastro ou som algum. Nada ali fazia sentido, tão pouco o que eu presenciei em seguida.
O Castelo erguia-se imponente, tal como uma entidade sobrenatural, atemporal e titânica. A morte reinava em cada torre, cada quarto, cada porta e janela. Tudo me causara terror, mas não o terror que eu já conhecia, e que escrevia em minhas obras, mas sim um terror feroz, cruel, brutal, rígido e ávido por sangue.
A ânsia e o desespero congelaram cada músculo do meu corpo, de forma que levei alguns segundos, ou horas, para me recompor. Minha cognição estava prejudicada, talvez pela longa viagem, talvez pelo espanto, talvez pela falta de tabaco.
Balancei a cabeça, tentando me ater ao último fio de sanidade que me restara. Foi quando meus olhos me pregaram uma peça cruel.
Pude ver, dentro do Castelo, uma figura feminina. Sim, claramente uma mulher. Soube, dentro do meu ser, que ela também havia me visto, apesar da generosa distância entre nós.
Havia vida dentro daquelas paredes, restando-me descobrir que tipo de vida era aquela. Poderia, também, ser uma penosa e bem delineada armadilha. Eu poderia estar sendo guiado para um abatedouro, destinado ao fim mais mórbido que meu lado pessimista pudesse imaginar.
Antes que eu pudesse conceber qualquer pensamento concreto, a figura desapareceu, fechando as cortinas da janela. Ela era real. Real e viva, tão viva quanto eu. Fora este o momento oportuno para que eu pudesse recobrar o controle sobre minhas pernas e caminhar em direção à porta do Castelo.
Faço uma pequena e rápida prece aos deuses e bato à porta.
Ela se abre sozinha.
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Mistério
Vê, meu amigo, a dor deste lugar... | Que figura se mostra ao teu olhar, | da qual podes dizer: esta conheço!? | Qual nome hoje se mostra à sepultura…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Vampira, bruxa ou só uma alma errante
que dança flutuando no salão?
A valsa corre num pulsar vibrante
e lá com ela vai meu coração.
Baila, conversa e ri... Eu, invisível,
ao seu encontro vou de peito aberto.
Louco – digo comigo – é impossível...
e, contra esta razão, chego mais perto.
Seu semblante não vejo... eu, entretanto,
com firmeza vos digo que ela é bela,
porque as janelas da alma dão o encanto:
o que a máscara oculta o olhar revela.
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Prólogo: Desperta
Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas em meu peito, a poesia da escuridão ao lado do horizonte noturno. O espírito da finitude não beija meus lábios, de alguma forma eu sei disso. Despertei pela fresta de luz de um luar brando e vívido. Lembrei-me dos caminhos que fiz pelos sonhos mais frígidos e sei que atravessei cordilheiras distantes e precipícios símeis aos pélagos úmidos e aos arvoredos orvalhados.
A poeira ao redor sobre os lençóis de cetim escarlate, o espelho embaçado, as teias tecidas com esmero pelas aracnídeas cuja natureza é fascinante e silente. Estou acordada. O mundo humano ainda é o mesmo? A lua ainda reside no firmamento, embora as estrelas aparentem estar muito mais distantes do que outrora. Apoio-me no balaústre da varanda, quão alta esta torre se faz… posso ver o abismo e todos os pinheiros negros ao redor, junto à parte do castelo que está tomado por neve e galhos secos, sinto — enquanto estremeço — a brisa internamente densa em sua gélida composição. É inverno. Pela palidez que cai a neve em lentidão, não tenho dúvidas que estou no ápice da estação mais frígida. Quantos anos se passaram? Por que não envelheci?
Não ouço nada além do sibilar mórbido da aragem estonteante, e dos corvos a crocitarem tristes vez ou outra. Tenho pouquíssimas memórias, sinto-me como n’um nascimento prematuro, ainda entranhada em reminiscências do ventre em suas sombras, calidez e sons imprecisos, nada mais. Ainda não me fiz destrancar este umbral que me separa dos recônditos obscuros d’este lugar, pois temo — eis a razão desoladora. Do fogo que acendi na lareira umedecida, emergiu-me uma imagem efêmera de olhos escarlate e uma intensa dor em minh’alma, então senti minhas pálpebras estafantes, adormeci serena e lôbrega nos braços de alguém que não me lembro o semblante. Agora escrevo, porque posso não sentir a vida ebulir em minhas veias, mas sinto as mais fúnebres emoções que a ela pertencem.
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Conjuntra
Meu celular descarregou e agora tenho que anotar tudo em meu diário, ainda estou juntando algumas informações dessa sala em que me encontro…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Meu celular descarregou e agora tenho que anotar tudo em meu diário, ainda estou juntando algumas informações dessa sala em que me encontro. A cor de antes não se faz tão presente. Algo me diz que…
—Miau
— Jason querido, estou indo!
Tiramos quase todos os quadros possíveis em busca de alguma pista e agora o Jason, de frente para este quadro com o número quatro escrito envolto de rosas negras com uma serpente abocanhando o algarismo, me convida a abrir a maçaneta e entrar no oculto que eu tanto esperava.
— Miau
Jason me leva até algo.
Mal entrei no quarto para analisar tudo ao meu redor com calma, e já me deparo com um diário que muito me assusta, pois está datado em um ano muito distante do que estamos.
Quem será a dona destas palavras tão solitárias? Ela já teve acesso ao anfitrião? Será que ela ainda está viva?
“Benquisto amigo.
Admito minha insanidade ao crer na necessidade de oferecer-lhe o meu perdão, uma vez que és um ser inanimado, incapaz de ouvir-me ou sentir quaisquer sentimentos a respeito de minha terrível desatenção. A despeito disto, não devia tê-lo abandonado sobre a antiga arca no interior da sala de jantar, porém não controlei o impulso de atrair-me pela vista do antigo poço do pátio interno à luz do dia, envolto à neve nobre e alva, assentado sobre o pátio delicadamente. Sinto-me cada dia mais alheia e enfraquecida. Não usarei minha fraqueza como desculpa.
Penalizo-me por nossos segredos íntimos serem decodificados por uma figura masculina desconhecida. Pouco importa para mim sua origem, no entanto admito sentir o impulso de esbofeteá-lo no momento em que seus dedos tocaram sua encadernação e os óculos deslizaram em direção ao nariz assim que a respiração alcançou as páginas, embora, caso minha falha não fosse certa, descobriria não só o bisbilhoteiro como tantos outros embaixo do mesmo teto, como a mulher pálida de longos cachos cobres e seu gato, ambos sorrateiros como eu, escondidos nas sombras. Gostaria de poder conhecê-los, porém escondo-me em meu quarto por detestar quaisquer interações sociais.”
Me sento na cama para mergulhar ainda mais nessa evidência. Não consigo discernir muito bem os segredos dessa moça cujo nome parece ser Astrid, talvez ela tenha tido grande relevância para o aristocrata e poderia nos ajudar a encontrar as vozes que circulam no castelo.
Bisbilhotei ao máximo o diário, indo contra a minha vontade e me entregando na curiosidade de encontrar outra pessoa nesse castelo. Levantei-me da cama e já ia anotar no meu diário os acontecimentos, quando sinto um cheiro gostoso. O único alimento para esse corpo em que habito. Eis que me deparo com uma jovem atônita entrando no quarto, aparência jovial assim como minhas amigas de Fortaleza. Os cabelos cacheados, morena e…
— Jason!
— Miau!
— Meu amor, tenha cautela, preciso de sua ajuda neste momento, lembra de tudo o que conversamos. Estamos distantes de casa e precisamos ter calma, esconde essas presas agora.
Jason escondeu as presas e as garras, atendendo fielmente aos meus pedidos. Ele, vez ou outra, desperta um lado mais aguçado do vampirismo. Acredito que seja por ele ser um animal. Ainda estou aprendendo sobre tudo isso.
— Olá! Não tenha medo. Ele estava apenas sendo territorial. Chamo-me Maria e ele Jason, como já deve ter percebido. Como se chama?
Pergunto para a moça que está prestes a fugir. A jovem mulher quase despenca ao lado da cama, parece enfraquecida, meço a temperatura dela, porém ela se afasta bruscamente, provavelmente sentiu o quanto minha temperatura é diferente das demais pessoas, por eu ser uma vampira.
— És um dos moradores do castelo, estou certa?
Ela me questiona com um tom de voz arrastado.
— Não me considero bem uma moradora, sinto que estou apenas de passagem. Peço desculpas novamente pelo Jason, estávamos à procura do anfitrião e do diário que acabei encontrando… Aliás, você é Astrid?
Acho impossível que essa mulher tenha vivido anos sem ser uma vampira. Porém, não custa nada perguntar.
— É bom olhar para um rosto sob a claridade, não como vultos encobertos nas sombras. Sou Astrid Lencastre Mascarenhas.
Respondeu ela, massageando os pulsos de veias azuis salientes.
— Estamos em uma década diferente da qual está nas anotações do seu diário, Astrid. Hoje em dia temos uma tecnologia mais avançada e que as mulheres têm mais liberdade de escolha. Ainda falta muito a ser melhorado, mas posso te ajudar se quiser entender um pouco mais. Pergunto-me como viveu todos esses anos trancafiada neste lugar assombroso, sem se deparar com criaturas que vagueiam pela noite à procura de um pescoço para abocanhar. Tens noção que o anfitrião é um dos vampiros mais antigos?
Fico a pensar como ela, com essa aparência tão jovem, tem vivido aqui por todos esses anos sem se tornar a presa de alguma criatura do anfitrião. Será que ela é alguém tão importante para ele? Preciso descobrir mais detalhes e assim poderei entender melhor o que neste castelo me aguarda.
— Papai, e o meu colégio...
Respondeu Astrid levando a mão a boca, interrompendo sua frase, chocada com a notícia da passagem do tempo e da inexistência de pessoas do seu passado.* (Acrescentei)
— Já não existem mais!
Respondi confirmando seu maior temor
— Não estou pronta para ponderar a respeito.
A jovem mulher deixa o olhar vagar pela janela em busca de consolo na paisagem exterior.
— Eu escutei algumas vozes no castelo, mas não me atrevi a procurar outras pessoas senão o anfitrião.
Dei outro rumo ao assunto afim de dissipar a névoa melancólica que estava prestes a nos afastar.
— Eu a vi, ocorreu-me sobre sua necessidade de esconder-se, como eu. Não estou aqui por vontade própria, como sabes.
Ela aponta os dedos pequenos e pálidos em direção ao encadernado aberto sobre a cama.
— Não conheço o anfitrião, ele e seu estranho advogado, embora o tenha visto poucas vezes, geralmente pela noite, acredito que papai o tenha pedido para aterrorizar-me com suas estranhezas após...
— Quanto tempo você acreditava estar aqui, Astrid?
— Não compreendo parte do que vem ocorrendo e nada sei sobre o tempo, sinto-me ainda presa ao pesadelo remoto, justamente o qual venho vivenciando dias após dias.
— Entendo.
— Sonhas, Maria? Não sei discernir meus sonhos, ou melhor, pesadelos, desde minha estada neste castelo. Quando sonho vejo um relógio incrustado em ametistas, repousa ao meu lado, neste leito, embora eu o tenha abandonado anteriormente. Eu o aprecio e pouco me espanto no momento em que se transforma em uma obra de arte composta por ametistas rubras como o sumo da vida corrente em minhas veias, porém o rubro verte-se por todo o leito, emporcalhando a chemise em demasia, mesmo eu torno-me pegajosa e vermelha, e o sonho parece-me uma lembrança, uma lembrança ruim, a qual já não posso revelar. No fim, penso despertar, porém ainda estou presa ao sangue, mergulhada, e não mais no vermelho de outrora, agora a cor torna-se escura. Envolta ao plasma sangrento e viscoso, alcanço meu relógio de algibeira ao lado, e ao pousar meus olhos sobre ele, deixando a marca de minha impureza gosmenta e escorregadia, o dispositivo move os ponteiros freneticamente ao mesmo tempo em que o sino da catedral próxima, badala teimosamente quatro vezes.
Revelou Astrid.
— Bom, faz algum tempo que não tenho sonhos no meu leito, almejo muitas coisas, as quais minha alma gélida de alguma forma preenche o buraco que ficou quando a minha vida mudou drasticamente. Agora que você citou esse sonho, preciso te dizer, que ao entrar neste quarto, me deparei com um quadro com uma serpente e o algarismo quatro envolto de rosas negras, estas rosas para mim remetem a morte e nisso eu tenho experiência de sobra. Precisamos encontrar esse relógio, sinto que ele irá nos levar até as vozes e talvez até onde um certo aroma tem me inebriado desde que fui corrompida por uma sala violeta.
Expliquei a Astrid.
— Sei onde está o relógio incrustado em ametista.
Sinto certa surpresa por Astrid esconder essa informação durante todo o nosso encontro e me pergunto se seria muito intrometida em pedir sua ajuda para encontrar o objeto. *
— Por que nós três não saímos em busca das respostas?
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4. Jardim da Morte
Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem…
Kay Steventon - The Wheel of Fortune
Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem; onde as flores eternamente exalam seu perfume como suspiros finais e os raios de uma lua cheia incomum derramam-se pálidos sobre a relva, uma mulher está sentada esperando. Os animais que lá estão já não podem ser diferenciados dos objetos que compõem aquele cenário, pouco se movem e mal fazem ruídos, parecem apenas aguardar, se ouve apenas o sussurro inquietante do vento, como se fosse um eco dos lamentos dos que se foram. Uma ceifadora, envolta com sua capa negra como uma mortalha, chega e se senta de frente à mulher em uma mesa de mármore gasta, com fissuras e imperfeições. A mulher, que aparenta estar habituada a toda aquela encenação, inicia a conversa:
— Vamos jogar xadrez desta vez?
A ceifadora responde com uma voz calma:
— Hoje não, deixarei você escolher.
A mulher, imersa em seus pensamentos, lembra-se que em vida era boa com cartas:
— Vamos jogar carteado dessa vez, nesse eu sou boa. — Murmura ela, com uma pontada de esperança de que dessa vez iria ganhar.
A ceifadora pega sua maleta, um artefato antigo coberto de runas estranhas, e tira um baralho tarô. As cartas, gastas pelo tempo, são embaralhadas com um ranger sinistro.
— Sério? Você vai ler meu futuro? — A mulher pergunta, com um riso nervoso. — Estou morta, não tenho um futuro.
— Apenas vamos jogar e ver o que pode acontecer. — Responde a ceifadora.
Com habilidade ela segura as cartas como se fosse um leque e olha para a mulher: — Tire uma carta, para que se dê início ao jogo.
A mulher olha a ceifadora com dúvida e pergunta:
— O que isso significa? Normalmente você é quem escolhe o jogo e é a mais falante e agora fica nesse silêncio e me pede para escolher uma carta? — A mulher dá mais um riso nervoso — Não era esse tipo de jogo que eu estava falando, há algo que eu preciso saber?
A ceifadora suspira e olha para a mulher:
— Há certas regras aqui no Sheol que não posso burlar, porém há outras que algumas pessoas que estão fora dele podem. E é isso que estou fazendo agora, fazendo um favor a um conhecido que pode burlar essas regras. Então apenas escolha a carta.
A mulher fita as cartas com uma mistura de temor e esperança. Sem saber muito bem o que esperar. A mulher tirou uma carta do leque e entregou à ceifadora que sorriu e mostrou a ela a carta.
— Ótimo, la roue de fortune. — Cantarola a ceifadora numa pronúncia perfeita e musical — A roda da fortuna.
— E isso significa que? — A mulher pergunta curiosa.
A ceifadora sorriu para ela, segurou as mãos da mulher e falou:
— Essa carta significa o ciclo da vida e com ela irei dar a você a oportunidade de ver a sua amada, pois eu sei que isso que passa pela sua cabeça o tempo inteiro, não é?
— Sim, isso passa pela minha cabeça sempre, falo sobre ela para você o tempo todo, mas se ela tiver que morrer para que isso ocorra eu prefiro não a ver.
A ceifadora falou: — Nesse momento ela está num local envolto em magia, num local de vivos, mortos e não tão mortos — a mulher arregalou os olhos — Calma, ela está viva e consciente, é claro — disse a ceifadora acalmando a mulher — Então será possível que vocês tenham um breve encontro, nesse exato momento, então aproveite.
— Eu tenho que ir? — A mulher fez uma careta.
— Oras, mas é claro, estou te dando a oportunidade de encontrar a sua amada em um lugar além dos véus da morte. Só aproveite, nem todos têm a chance de reencontrar os que perderam.
— Isso meio que parece uma pegadinha — diz a mulher ainda em dúvida.
— Oras, querida, apenas vamos, não há muito o que se fazer aqui no Sheol, um passeio fora irá ser bom para você, e não se preocupe, estarei por perto para te trazer de volta. — A ceifeira se levanta sorrindo e segura a mão da mulher — Então, vamos?
A mulher fecha os olhos e inspira profundamente e solta o ar por hábito:
— Sim, vamos, não é sempre que algo diferente ocorre nesse lugar.
E assim, uma porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas envolta em uma névoa púrpura se materializou, a mulher e a ceifadora desaparecem daquele jardim incomum, deixando para trás apenas o eco de suas palavras e as cartas sobre a mesa.
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Escarlate
Antes de adentrar ao castelo, contemplei por mais uma vez aquela monstruosidade arquitetônica. Dentre as janelas, gárgulas e torres, algo me chamava a atenção…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Antes de adentrar ao castelo, contemplei por mais uma vez aquela monstruosidade arquitetônica. Dentre as janelas, gárgulas e torres, algo me chamava a atenção, se tratava das belíssimas e grandiosas rosáceas, despertando em mim as mais profundas emoções. Elas traziam um tom escarlate bastante vívido e brilhante, o pálido luar deixava-as ainda mais lindas, como se a tinta usada para as pintar fosse sangue. Ainda absorta, me aproximei da aldrava e, ao tocá-la, senti meu peito palpitar em desassossego, meu colo inflava de ansiedade, era nítido que aquele lugar clamava por mim e eu por ele. Fechei os olhos e escutei sutis passos, e sussurros, até mesmo um leve passar de páginas, algum escritor ou escritora talvez, mas eu estava decidida a entrar.
Minhas trêmulas mãos abriram delicadamente a majestosa porta rúbea, o ranger dela ecoou castelo adentro. Fui recebida por uma cálida lufada que embaraçava meus cabelos. Eu estava completamente arrepiada, pois aquele ambiente me parecia familiar, contudo, eu tinha de ser cautelosa, pois não sabia quem eu iria encontrar.
Pois bem, resolvi andar lentamente admirando tudo e, de fato, sua fachada era imponente, mas nada se comparava ao interior, quão aprazível era admirar aquele teto altíssimo, imaginar cada pedra sendo erguida, paredes sendo construídas, a decoração era de muito bom gosto, algumas poltronas vitorianas em tons escuros, uma mesa enorme de jacarandá repleta de cadeiras de veludo roxas. Notei uma grande quantidade de pratos de porcelana branca e talheres de prata dispostos, havia também guardanapos e taças de cristal que brilhavam ao longo da mesa; preciso citar o notável candelabro de ferro fundido. Outros móveis compunham o castelo, senti-me uma mísera formiga diante daquele majestoso lugar.
Os anseios em descobrir quem era o anfitrião deste castelo e quem eram os demais inquilinos que perambulam neste colossal castelo, preenchiam minha mente, porém, estava temerosa, pois logo menos eu sentiria fome.
Distraída em meus devaneios, me deparei com uma determinada porta, igualmente linda, com adornos talhados a mão. Admirei com um certo fascínio e respirei fundo ao sentir a gélida maçaneta de prata. Com o coração disparado, abri a pesada porta de mogno. Diante de mim estava um enorme cômodo que me parecia ser uma descomunal biblioteca recheada de incontáveis livros, todos em capa de couro das mais variadas cores, perfeitamente organizados do tom mais claro ao tom mais escuro. A estante ocupava toda a extensão das paredes que mediam por volta de quatro metros de altura. Toda a marcenaria foi pintada no mesmo tom presente nas rosáceas. No centro, havia uma mesa redonda vitoriana coberta por um manto negro e de imediato recordei do notável fenômeno das mesas girantes, popularmente difundido na Europa durante o século XIX. Acima da mesa havia uma obra de numerosas páginas, ao me aproximar, percebi algo nefasto, pois sua capa parecia ser feita de pele humana, exalava um terrível odor pútrido, sua coloração também era desagradável, um misto de tons avermelhados com pinceladas de marrom. As páginas estavam puídas, as traças haviam devorado horrivelmente as laterais das páginas.
Quanto mais eu contemplava aquele livro, mais queria folheá-lo. Finalmente fui derrotada pela minha curiosidade, cheguei até a mesa e debrucei-me diante dele, um misto de excitação e pavor percorria minha pele. Ao tocá-lo constatei que realmente era pele humana, eu estava prestes a abri-lo quando ouvi um ranger vindo da porta, alguém acabara de adentrar na biblioteca, paralisada, sinto a brisa soturna acariciar minha nuca, pergunto para mim mesma quem será? Ou... o que será?
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3. Castelo Vampírico: Agora e na Hora de Nossa Morte
Diário de Rute Fasano. 12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Diário de Rute Fasano
12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula, pude me sentir inspirada o bastante para escrever. Aquilo foi um pouco parecido com a experiência que tive quando minha terapeuta me recomendou usar 2g do Psilocybe cubensis para tratar minha ansiedade, foi uma experiência ao qual eu não estava preparada e não sei definir se foi boa ou ruim, uma mistura de medo e prazer, inquietação e paz, que não quero repetir por ser algo muito imprevisível. Mesmo que depois dela eu tenha me tornado mais funcional por um breve momento. E assim como a viagem de cogumelo, eu não sei definir se quero outro encontro com Drácula. Esqueça as flores, esqueça o afeto por elas. Eu gostei daquele gesto, mas a experiência que veio antes eu não consigo definir bem o bastante para saber se quero repetir.
Estou um pouco irracional ultimamente, mesmo sendo bastante mente aberta e curiosa por demais, tem coisas que tem acontecido que estão além de uma explicação racional. Uma delas é essa minha vontade de andar nas madrugadas pelo castelo, feito aquelas damas de filmes góticos antigos com vestidos esvoaçantes e castiçal em mãos. Outra é a sensação latente de que eu irei ouvir a voz da minha amada a qualquer momento como um o sussurro do vento e seus dedos gélidos baterem à minha janela para que eu a deixe entrar. Isso faz com que eu queira perambular pelo castelo e apenas voltar para o quarto quando tiver que dormir. E realmente foi o que fiz, perambulei por todo ele sem encontrar uma alma viva ou morta. Investigando cada local que fosse possível e memorizando todos os caminhos que eu poderia passar sem que ninguém me percebesse.
13 de dezembro - Essas madrugadas de caminhada pelo castelo tem sido um bálsamo para mim, sem aquela ansiedade anterior que eu tinha de talvez encontrar Drácula ou um hóspede do castelo. Sei que uma hora ou outra terei que me dirigir a eles e compartilhar minhas dúvidas e reflexões sobre esse local que agora todos habitamos. Mas ainda não sinto que é chegada a hora. Estou escrevendo alguns contos, mas não os sinto bons o bastante, aquela sensação latente de sair do quarto tem me agitado, mais tarde sairei para caminhar.
Mais tarde - Escrevo isso com ódio, com um choro preso na garganta e usando tanta força para escrever que chega a marcar o papel. Fui, como de costume, perambular pelo castelo como há quatro dias já havia feito e caminhando pelos mesmos caminhos que eu havia memorizado. Me perdi por um momento em pensamentos sobre o que escrever dessa vez, o que fez com que eu caminhasse sem rumo. Encontrei uma capela abandonada em ruínas, odor de mofo entranhado nas paredes de pedra, bancos de madeiras todos danificados, castiçais com velas velhas e quebradas com suas chamas extintas, mesmo em destroços e esquecida, havia nela traços de que um dia fora bela e imponente, ainda era bela da sua maneira. Vitrais coloridos quebrados que em outros tempos mostravam imagens sacras, um crucifixo de ouro envelhecido acima do altar ao qual não pude olhar atentamente, pois a grande bíblia sobre o ambão tomou toda a minha atenção. Suas páginas estavam amareladas pelo tempo, porém intactas em comparação a todo o cenário envolta dela, aberta aguardando para ser lida. Toquei suas páginas e como esperado estava no salmo 91, porém marcado com o que parecia ser sangue seco estava o salmo 89, tentava em vão conseguir ler o versículo 48 que estava mais manchado, até que ouvi um sussurro muito perto do meu ouvido a pronunciar essas palavras:
— Que homem pode viver e não ver a morte, ou livrar-se do poder da sepultura?
Surpreendida, olhei a pessoa dona daquele sussurro, uma figura translúcida oscilante, vestida de branco, me aproximei devagar, sentindo o peso do meu próprio desconforto e angústia aumentarem. Seus olhos castanhos claros e a palidez sobrenatural que sempre a envolvera. Era ela, aquela que amei incondicionalmente sem nunca entender o porquê. Aquela que sempre soube que havia algo errado comigo, que via além das máscaras que eu usava para enfrentar o mundo, que compreendia minhas obsessões estranhas e meus medos mais profundos. Aquela que o nome eu nem sequer ouso mais pronunciar. Olhou-me com aquele seu olhar paciente e gentil e aquele sorriso doce que sempre me desarmava, e naquele momento minha mente se esqueceu do motivo de estar ali, pois nada mais importava. Tomei ela nos braços, senti-a com todo o meu corpo e meu coração, sentindo seu cheiro doce, fresco e leve. A beijei sem pressa como se nunca tivesse partido, ela me olhou ainda sorrindo e se desvencilhou delicadamente, segurou minha mão esquerda, e colocou minha mão em sua cintura e depois pôs a mão em meu ombro, e começamos a valsar, naquele silêncio incômodo, como nos velhos tempos. Dançamos, não sei por quanto tempo, até que abruptamente rodopiamos uma, duas, três, quatro vezes, ela olhou em meus olhos e curvou o corpo para trás com certa violência no meu braço direito e parou, e era como se eu tivesse despertado para aquele momento. Tudo aconteceu tão rápido que fui impedida de conseguir fugir da situação que me paralisou.
O pouco de cor que sua pele pálida tinha foi roubado, tornando seu rosto uma máscara de cera, seu belo rosto desvanecendo em um grito surdo. Aquela casca vazia, mole e sem movimentos. Pesada em meus braços, e sendo um peso sufocante em meu coração. Havia vozes, vindas não sei de onde, em uníssono sussurrando como em uma oração: — Pallor Mortis.
Seu corpo começava a pesar mais e mais, fazendo com que eu fosse obrigada a me sentar e acomodar melhor seu corpo sem vida, um frio gélido a envolveu, penetrando minha carne, me causando calafrios e um ardor nos olhos, como se eu tivesse em meus braços um mármore gelado. As vozes novamente: — Algor Mortis.
Eu tentava aquecê-la em vão, impedir que se fosse, friccionar sua pele, mas nada adiantava. Seus músculos se enrijeceram, uma imobilidade agonizante, deveria tê-la soltado para que não presenciasse mais nada daquilo, só que não havia coragem em mim para deixá-la sozinha mais uma vez. Vozes: — Rigor Mortis.
Sua pele começou a adquirir tons avermelhados profundos, com sangue estagnado nas extremidades, marcando seu corpo agora inchado, meus dedos afundaram na sua carne mole e apodrecida enquanto eu a banhava em lágrimas que não conseguia conter, pois, a cada estágio, sua falta de vida era um peso no meu coração, que me consumia e matava aos poucos. Vozes: — Livor Mortis.
Seu corpo começou lentamente a se desfazer nos meus braços, deixando seu rosto disforme, desconhecido. O odor repulsivo e forte, já conhecido meu, invadiu minhas narinas e adentrou a minha garganta, sentir ele tão fresco, tão perto, era lancinante, fazia revirar o meu estômago e tentava me controlar para não regurgitar, o que foi em vão, pois além de lágrimas, também a sujei de restos malcheirosos do meu estômago. Vozes: — Putrefação.
Ela foi resumida a um esqueleto com vestígios de algo que antes seria alguém. Despida de sua antiga beleza, para uma beleza macabra, sem carne, envolta num manto alvo, como uma santidade cadavérica. Vozes: — Decomposição.
As vozes em coro silenciaram. Seu esqueleto em meus braços. Vestígios de tudo que foi e nunca mais será. E eu presenciei cada etapa de seu inevitável fim. Aquele fim que imaginei detalhadamente quando a deixei sozinha apodrecendo naquele cemitério. Ela definhou em meus braços, pela segunda vez. Entre lágrimas e dor, vi-a morrer pela segunda vez. Meu olhar então se voltou para a cruz que antes eu não havia dado atenção, e lá, em lugar do Cristo morto, vi uma figura que me encheu de ódio. Era um Jesus vampírico, uma distorção grotesca daquilo que um dia acreditei por ela. Na primeira morte dela, reneguei Deus; agora, diante dessa imagem profana, reneguei Drácula, por me fazer passar por essa agonia novamente. Seu sorriso maldito parecia zombar de minha dor, alimentando ainda mais a minha revolta.
Ele desceu lentamente daquela cruz, como uma figura divina, era como se o tempo desacelerasse ao seu redor, coroado e envolto em um manto de sangue e carne, extremamente pálido como se não houvesse sangue em seu corpo. Eu tremia, não queria mais nenhum encontro com Drácula, mas aqui estamos novamente, e eu o temo e o odeio, porém sua figura parecia obrigar uma contemplação forçosa e uma paz ilusória que lutei para não me permitir sentir. Não agora, pois naquele momento eu precisava odiá-lo. Cada vez mais, a presença opressiva de Drácula se fazia sentir, seu olhar penetrante atravessando minha alma enquanto eu lutava para manter minha mente própria. Não queria permitir que ele exercesse nenhum poder sobre mim.
Eu estava perdida naquela capela abandonada, presa entre o céu e o inferno, entre o amor e o ódio, entre a vida e a morte. Talvez condenada àquele purgatório que era o castelo, uma prisioneira, talvez assim como Drácula. Sua presença me oprimindo, e com um comando de mãos, como da última vez, me fez despertar mais uma vez em meu quarto, onde estou nesse momento a escrever meu segundo encontro com ele.
P.S. Talvez Drácula, tentando pensar racionalmente agora, use desses subterfúgios para que os que estão no castelo se sintam mais inspirados, ou tenham sobre o que escrever, talvez olhar nossa dor, analisá-la e escrever sobre ela, não sei. Só sei que ele ultrapassou alguns limites nesses seus métodos. Usou de coisas que eu tentava esquecer ou achei que deveria esquecer. Outra coisa que percebi foi que em nossos encontros, nunca trocamos palavras, mas sim pensamentos, sensações, como se respeitássemos mutuamente a decisão de manter o silêncio. Ainda não o compreendo e isso me perturba, porém naquele momento terrível, pude compreender que minha jornada estava bem longe de terminar.
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A Morte Ecoa
Morte. É o que parece gritar irônico e suave aos meus ouvidos. A culpa grita... O sangue vertido das entranhas minhas, a flecha lançada…
Naman Sood
Morte. É o que parece gritar irônico e suave aos meus ouvidos. A culpa grita... O sangue vertido das entranhas minhas, a flecha lançada. O corpo em cima do meu. O peso másculo e doloroso. A força que necessitei fazer para aquilo — ser inumano —, sair de cima de mim. Somente o encaro pela necessidade de conferir se ele estava mesmo morto. Se não fosse a minha lança, quem estaria morta seria eu. Mas estou. Morta por dentro.
Os olhos dele estão fechados, entretanto não há coragem da minha parte em aproximar-me e conferir se ele ainda respira. Eu choro — estava fraca, fraca de tanto lutar contra ele. Por que tua pele alvacenta bronzeada me feriu, por quê? Por que eu? Penso demais, enquanto olho aquele corpo ali, enquanto um fio de sangue passeia pacientemente doído e quente pelo interior de uma coxa minha. As entranhas ardem. Mas não dá tempo de chorar de dor agora.
— Eu o matei? — Vejo a lança cravada em seu peito, antes, com tantas perfurações profundas. Posso ser frágil intimamente, mas a minha força braçal não é brincadeira.
— Preciso fugir. Agora. — Penso. — Se ele acorda eu estaria condenada, ainda que ele também fosse até ser pego. Eu seria perseguida. Mas em um ato de coragem, me aproximo, 'inda distante, e puxo a lança dele. Nesse momento os seus olhos abrem grandiosos e a sua mão voa em direção ao meu tornozelo, o firmando. Eu grito!
Desperto, gritante, suada e chorosa. Não, ele não puxou o meu tornozelo, deu tempo de fugir e ele morreu, morreu... Tranquilizo a mim mesma. O pesadelo sempre me persegue. Pesadelo de uma cena real. Mas a sua mão parece tocar-me ainda. Sinto-me enojada como se tivesse acontecido hoje o ocorrido. Não posso assustar os residentes daqui assim, não posso... Mas sossego-me, respirando fundo. Onde estariam as governantas deste lugar neste momento? Preciso de ajuda. Preciso acalmar-me.
Lembro-me do banho doloroso que tomei no rio. A água lavou-me completamente, pele por pele. Os meus olhos fechados tentavam ver alguma esperança em continuar vivendo. Enterrei a lança em um lugar próximo. Jamais a usaria novamente. Assassina. Nauärah, assassina. A voz desconhecida ecoa em meus ouvidos. Mas ecoa também a violação que o meu corpo sofreu, antes de eu conseguir ceifar a sua vida. Espero eu que ele não tenha sobrevivido. Ou ele estaria sempre à espreita, me esquinando, me industriando por onde eu passar, para vingar-se... ou matar-me.
Dez anos... dez anos e nada esqueci. Nunca soube dele. Deve ter morrido com aquela lança que fora consagrada pelo nosso líder. O triste é que toda a sua geração foi amaldiçoada. Eles não têm culpa. Mas a alma do alvacento que me agradeça. Se ele sai vivo, eu não quero imaginar o rito diabólico que fariam com seu corpo. Das primeiras torturas até a entrega da sua carne aos animais da selva.
Paro de lembrar de dores e aconchego-me ao dossel que me acolhe, adormecendo. Não estou sozinha, sinto. E as presenças, por mais obscuras que eu possa sentir neste recinto cheio de mistério, são também dos meus protetores, visíveis e invisíveis.
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Devaneios
É inevitável negar a mudança em mim. Não somente mais bonita e sagaz, mas mais inspirada também. Sinto meu corpo tão frio e ao mesmo tempo tão vivo…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
É inevitável negar a mudança em mim. Não somente mais bonita e sagaz, mas mais inspirada também. Sinto meu corpo tão frio e ao mesmo tempo tão vivo. Sei que beira a insanidade, mas me delicio com cada gesto que faço ou toque que sinto em minha pele. A sensibilidade é imensa e igualmente prazerosa, fato esse que me manteve ocupada com Malus, explorando as novas sensações e necessidades.
Tenho sonhado com mais frequência, mesmo acordada. Alucinada, talvez. Suponho que tenha alguma ligação com o sangue azul de outrora. Mas não há sobre o que me queixar. O Conde Drácula me deu as boas-vindas pessoalmente. Um tanto fantasmagórico, concordo, mas foi uma noite memorável. Sedutor, cordial e erudito como ninguém, me fez ansiar por colocar no papel as palavras que imploram por saírem de mim.
Não sei dizer quanto tempo faz que não escrevo em meu diário, meu pobre amigo que por diversas vezes foi testemunha das minhas alegrias e tristezas. Provavelmente deve ter sido descartado após minha partida. Ainda absorta em lembranças, apanho meu novo companheiro de escrita, deixado por Malus como presente em minha escrivaninha, e começo o registro de minha jornada até aqui.
Poderia lamentar a perda de meus antigos poemas, mas a memória é uma dádiva, eis que deixo aqui um dos primeiros que escrevi, enquanto me deslumbrava com a Lua de Sangue.
Seu brilho mortal
Enche minha alma de esperança.
Nas noites
Você reina,
Solitária e autoritária,
Radiante, pálida e fria.
Como desejei ser como você,
Com inigualável beleza,
Lua de Sangue.
Muito eu ouvi falar do paraíso. De como as pessoas almejam ir para lá. Cá onde estou é deveras temido e amaldiçoado pelos tolos que de longe avistam. Mas o que diria minha mãe ao me ver plena, dona do meu próprio ser, como nunca antes? O que diriam os imbecis que zombaram de mim e que tanto fizeram, mas é o inferno que está destinado a eles? Ah, as palavras... saltam de meu interior em busca de morada nas páginas em branco... eu cedo a elas.
Dançando em harmonia, sensações e desejos percorrem o papel. Sussurros e sombras oscilam em meus aposentos. Poesias fluem, ecoam nas paredes frias e famintas deste castelo e eu as sinto se deliciarem junto a mim.
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Post Mortem
Era inverno. Era a melhor época do ano, estando em Londres ou em Coimbra. Londres certamente combinava mais comigo; era, na maioria das vezes…
Imagem criada pelo autor com IA
Era inverno. Era a melhor época do ano, estando em Londres ou em Coimbra. Londres certamente combinava mais comigo; era, na maioria das vezes, fria e sombria e o inverno nessa cidade era a época que mais me dava forças para seguir. Pensando em toda a minha trajetória até aqui, começarei a relatar todas as desvantagens de minhas origens, que já se encontram em um passado um pouco distante, datando aproximadamente de quase cem anos. Venho de uma linhagem de plebeus simples que viviam em Portugal. Minha vida era comum e sem grandes acontecimentos; eu fui casado primeiramente com uma mulher simples de nome Emília, porém, com pensamentos ambiciosos.
Eu era um homem pobre e vivia adoentado, não tinha forças até para recuperar minha própria honra diante de toda a Coimbra, que se aproveitava destes meus defeitos até para ferir ainda mais o meu nome, sabendo que eu pouco poderia fazer para mudar os fatos. O caso da desonra se deu porque Emília passou a se prostituir a partir do momento em que viu que eu não conseguiria garantir seus luxos; eu vivia em um bairro relativamente nobre da cidade, pois havia herdado uma casa que pertencera aos meus pais e que, por sua vez, também havia pertencido aos meus avós, porém, tão pouco o meu sustento de marceneiro dava para cobrir os gastos mensais da casa e, apesar da origem de Emília ter sido mais simples que a minha, ela passou a invejar as outras mulheres da vizinhança por terem artefatos e objetos mais caros e pomposos do que os que eu conseguia dar a ela. Pela soberba, minha falecida esposa havia desonrado meu nome e o dela e eu seguia a vida como se já não quisesse viver. Eu vivia pelos cantos da cidade alcoolizado, até que certa vez, em uma noite, entre um porre e outro de vinho, tropecei em uma tumba misteriosa nos arredores de Coimbra.
A tumba era antiga e enegrecida pelo tempo, escondida sob a sombra de árvores centenárias que se localizavam numa área isolada do cemitério São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades. O portão do cemitério havia sido esquecido entreaberto pelo coveiro ou por algum parente de qualquer moribundo. Intrigado, decidi adentrar no local e me deparei imediatamente com um mausoléu que se destacava dos outros; resolvi investigar seu interior. Ao abrir a tampa de pedra, deparei-me com uma visão terrível: os restos mortais de um ser que não parecia humano envolvidos em uma aura de mistério e escuridão. Um arrepio percorreu minha espinha quando uma voz sussurrou em minha mente, instigando-me a consumir a carne podre daquele monstro. Um instinto telepático me envolveu, me puxando em direção aos restos mortais da criatura sobrenatural. Apesar do medo e da repulsa, uma força irresistível me dominou, e cedi ao impulso sinistro. Com um misto de horror e curiosidade, eu me curvei sobre os restos da aberração e engoli um pedaço de sua carne podre.
Minha vida havia mudado para sempre. As consequências do meu ato misterioso me assombraram, mas também me fascinaram. O que aconteceu comigo depois daquela noite fatídica? Essa é uma pergunta que ainda me intriga, assim como intriga a todos que ouvem minha história. Alguns dizem que me tornei um ser das sombras, condenado a vagar pela eternidade em busca de sangue para saciar minha ávida sede.
Outros afirmam que desapareci misteriosamente, deixando para trás apenas um rastro de lendas e mistérios; ainda há também quem diga que de fato desencarnei, mas a verdade sobre meu destino final permanece oculta, talvez para sempre. Enquanto isso, eu, Filipe, continuo a contar minha história, um simples plebeu que teve um encontro fatídico com a escuridão em uma noite sombria em Coimbra.
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Realidade
Não é que prestes a entrar naquela fumaça cor-de-violeta, onde eu estava a me considerar a um pé de algum mundo fantástico — ainda mais do que este, eu supunha…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Não é que prestes a entrar naquela fumaça cor-de-violeta, onde eu estava a me considerar a um pé de algum mundo fantástico — ainda mais do que este, eu supunha — e quase mergulhando num maior desconhecido, dei de cara com a própria realidade? Pois é…
Não que eu esperasse me deparar com algum tipo de entrada numa dimensão alternativa, um portal para além da zona de exclusão que é este tempo-espaço, com o qual já estou vividamente acostumado, preso; como eu já havia me dado conta, o próprio ambiente do Castelo e seus membros, com os quais eu também travara contato (ainda que tímido), já eram mais do que prova de que eu adentrara num território supranatural — ou talvez fosse melhor dizer num “maravilhoso breu” …
(Começo a pensar que alguma força me impele a construir neologismos, a me dar indicativos de que somente assim poderei transmitir o que sinto e vejo neste lugar…)
Voltando ao que escrevia… Tal fumaça, de aparência mágica, um tanto quanto esotérica, logo após eu ter pisado naquele curioso recinto, dissolveu-se por completo, o que logo em seguida fez-me sentir calma e súbita certeza de que nada me faria mal — outra razão ao que eu já tinha assimilado: as ameaças aqui são inexistentes, existindo mais nos pensamentos que tendemos a elaborar do que nas capacidades reais de um pretenso mal… Sim, não me sinto intimidado por nada, não até agora.
Se posso deixar registrado o que senti após ver aquela fumaça desvanecer-se, fugir pelo corredor e tornar ao caminho misterioso no qual surgira, devo dizer que foi algo no mínimo reconfortante, uma sensação de que, por mais estranhas e imprevisíveis sejam as impressões tidas nesse lugar, tudo está repleto de sentido, devendo eu apenas me concentrar e interpretar os fatos presenciados para algum próprio desígnio…
O que intriga, de fato, é este inegável cheiro de sangue… ferroso odor, rascante, pairando sobre o ar do Castelo nos instantes em que me desloco pelos seus cômodos…
Não que eu já tenha visto em alguma de suas torres a figura espectral desse que dá nome ao lugar, sabidamente apreciador do plasma alheio… mas… as pessoas daqui: são elas que, talvez, devam me fornecer respostas ao melhor observá-las — não podendo ainda me certificar de suas verdadeiras naturezas e reais intenções… O acesso à escrita delas (algo que todos nós, estabelecidos aqui, partilhamos constantemente) é que me guiará, creio, a uma categórica afirmação sobre…
P.S. Alguém está batendo na porta… curiosamente, fazendo com que eu termine mais um aventuroso relato para ir de encontro a mais um… (as coisas aqui parecem realmente funcionar de maneira sistemática). Espero retornar e registrar do que se trata.
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Descrença
Com as mãos trêmulas, levo mais um copo de whisky à boca. O sabor forte afoga minha língua e anestesia a sensação…
Imagine
Com as mãos trêmulas, levo mais um copo de whisky à boca. O sabor forte afoga minha língua e anestesia a sensação de desespero e pavor que toma conta do meu ser.
Sou incapaz de descrever o medo visceral que sinto. Estou congelado, petrificado em frente ao computador, com uma tela de busca aberta. Facilmente eu seria tido como tolo por qualquer ser existente neste mundo, mas as coordenadas que recebi durante meus sonhos apontam para um local real. É anti-natural acreditar que isso seja verdade, mas assim o é!
Já há alguns meses tenho tido sonhos cada vez mais vívidos. Um anfitrião (ou anfitriã?) me convoca a sua casa, ao seu Castelo, onde devo produzir uma grande obra em sua homenagem. Durante os primeiros sonhos a figura se mostrava distante, observadora, mas aos poucos passou a ficar cada vez mais próxima, chegando ao ponto de me estender as mãos pálidas e esguias. Pude ver a pele cinza, pútrida, com ossos quase aparentes, que causou uma repulsa intrínseca ao meu ser.
Durante o último sonho, recebi ordens concretas de me dirigir a sua residência sem maiores delongas. Inclusive a figura agora vestia um grande manto negro e surrado. Por uma pequeníssima fração de segundo, pude ver seus olhos de cor púrpura, tão profundos e famintos quanto o próprio inferno. Fora me informado as coordenadas, com exatidão. Acordei em sobressalto e resolvi escrever os números antes que acabasse esquecendo.
Agora, pela manhã, me propus a pesquisar, por mera curiosidade e para poder, finalmente, dormir em paz.
Estou em estado de choque, como nunca estive antes. O local é real, o Castelo é real, ele existe tal como meu computador, minhas anotações, minha casa… Ele reside lá, no topo da montanha, com sua majestade brutal e melancólica. O musgo em seus muros como seu manto. As torres como sua coroa.
Já tive que lutar contra meu café da manhã para que continuasse onde está, além de dividir espaço com as três ou quatro doses de whisky que tomei.
Nada reduz o tremor, o espanto, a amargura, a angústia… Desejo ao mesmo tempo tanto me esconder quanto ir até lá!
Bem, deixarei aqui este registro, para que saibam que resgatei minhas economias, reuni tudo que pude e partir para aferir se é possível existir alguma verdade em tal abismo de descrença e loucura.
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Púrpura Espectral
Ainda não havia encontrado Malus, mas muito me foi oferecido no Castelo Drácula. Fui instalada em um suntuoso quarto vitoriano…
MidjourneyAI
Ainda não havia encontrado Malus, mas muito me foi oferecido no Castelo Drácula. Fui instalada em um suntuoso quarto vitoriano. Nunca tive tanto à minha disposição. A atmosfera sombria e gélida do castelo adentra a minha alcova e sinto paz. A tapeçaria em tons de púrpura é um deleite, sendo eu tão apaixonado por esta cor rara no vilarejo de onde vim.
A cama é de uma beleza e conforto inenarráveis, me delicio com o toque da ceda pura em minha pele. Reparo que toda a mobília mantém os mesmos ornamentos. Me distraio com apetrechos específicos em cima da penteadeira, mas a escrivaninha me chama ainda mais a atenção.
Ao me aproximar, uma vela de chama roxa acende sozinha. Pego a flor negra solitária que repousava em cima de um envelope, dentro havia uma carta com os seguintes dizeres:
Ane, sinto por não estar presente durante sua chegada, pois foram-me designadas ocupações para além do castelo. Você está segura aos cuidados do Conde.
Há um baú, você deve ter notado, nele encontrará o traje para a noite de hoje. Sim, se a chama violeta acendeu para você, é hora de se aprontar, minha cara.
Anseio pelo nosso reencontro.
Malus.
Um longo, mas não muito volumoso, vestido de um roxo tão escuro quanto o céu que eu podia ver por detrás das cortinas das janelas entreabertas, me deslumbrou. Suas delicadas rendas me fizeram lembrar das roupas simples que outrora usava, mas agora era diferente. Não mais me parecia com a frágil camponesa que fitava a lua. Eu sinto o poder que emana de mim, e embora tudo pareça tão fantástico, sinto-me despertar para a vida.
Ouvi o badalar das 7 horas. Não tinha certeza de qual parte do castelo o som saiu, mas sem alguém para me acompanhar ou impedir, caminhei até o jardim. Um vulto com roupas em tons violáceos me chamou a atenção. Segui-o. Suponho que estava perdido, pois, mesmo eu estando ali pela primeira vez, percebia que seus passos não eram seguros de si.
Estava obcecada. Não poderia desejar nada mais do que perfurar suas veias e beber de seu sangue, gota a gota. Quando finalmente me aproximei o suficiente para realizar tal ato de luxúria, fui abordada por uma voz cavernosa.
— Apreciando a noite, senhora?
— Muito mais me alegra apreciar você.
Uma névoa lilás translúcida nos envolveu. Malus tocou meu rosto e me beijou. Olhou por trás de mim e sorriu maliciosamente.
— Você estava caçando? Pois bem, faremos juntos.
De um modo o qual não compreendia, aquela figura, que antes me parecia perdida, caminhou para o nosso encontro. Pude ver que se tratava de um homem. Meu companheiro beijou sutilmente minha mão direita e a segurou. Mordeu o pescoço que eu tanto ansiava e, se voltou a mim. De suas presas enormes escorria um líquido roxo. Consentiu com a cabeça e me entregou o ser.
Indescritível o êxtase que me foi fornecido. O sangue púrpura se apoderou de mim e me arrebatou em uma explosão de sentimentos. Sensações nunca antes experimentadas me deixaram atônita. Tudo ao meu redor agora era de um esplendor violeta.
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Sob a Luz da Chama Purpúrea
Nenhuma voz, nenhum som garganta afora…
MidjouneyAI
Diário de Nauärah, não datado
Nenhuma voz, nenhum som garganta afora. Percebo apenas um lumiar em tom violáceo no salão onde eu me encontro e essa tonalidade transmite-me algo importante que eu tinha aprendido em minha aldeia: a cromoterapia, o poder das cores. Ver a cor violeta é sempre uma dádiva. Além do mais, lembro da violeta, a flor que tantas mulheres da nossa aldeia admiram.
Começo a pensar se foi boa a ideia de me aproximar deste castelo. Em meio a pensamentos distraídos e neste grande salão frio, noto, ao longe, uma silhueta. Cabelos negros e presos, com mechas soltas. Vestes levemente vitorianas com traços góticos. Bem… é uma dama, certamente, mas a sua energia etérea — que posso sentir daqui da outra extremidade, me faz engolir medrosamente menos de um mililitro de saliva, principalmente, quando percebo que ela não se move e parece tomar notas em uma espécie de papiro.
Antes mesmo que ela pusesse seus supostos serviçais para me colocarem para correr, penso em me apresentar, humildemente, porque está clarividente que ela reside por aqui ou é a esposa do Drácula. Ou, até mesmo, é o próprio Drácula em uma figura feminina.
Entre a iluminação violácea, não percebo que a criatura de pele translúcida já está perto de mim. Tão entretida com a beleza deste local, não a notei em seus movimentos. Mas a olho, fixa e medrosamente. A sua pele translúcida, quase, me amedronta. Se ela se atrever a me tratar de maneira rude, os meus arcos já estão na posição correta e as minhas flechas se armariam em segundos. Mas são apenas pensamentos de medo pelo que passei com alguns homens de pele caucasiana. Com essa criatura não consigo ser tão ruim. É como se eu buscasse nela força e cumplicidade para apaziguar os meus traumas.
Eu estou acostumada com animais da mata, a lutar, como uma boa arqueira. Para mim, é natural. Mas aqui eu teria que abaixar a minha guarda de indígena rude, pelo menos, enquanto necessito. Aqui há humanos, mais do que isso — seres híbridos, quase, até vampiros, eu tenho certeza. Mas se eu não pareço tão rude quanto demonstro, possivelmente ninguém também será, dos que residem por aqui. Certamente, se eu impuser limites aos hóspedes seria apenas uma maneira de preservar a minha segurança.
Com certeza, as minhas armas a assustaram. Paro de pensar demais e tento abaixar os arcos e flechas, abaixando, também, a minha cabeça e fazendo um gesto que aprendi com o meu pai, que aprendeu com o meu avô pajé: fechar o punho e o colocar sobre a testa, em sinal de rendição. O faço.
— Sou da família “Tupiniquim” — profiro, quase me sentindo uma tola. Mas a minha força interior me ergue e continuo. — Uma aldeia antiga da região do pantanal do Amazonas, no Brasil. Sou filha de Uyara e Nanquim. E o meu nome é Nauärah.
Eu não faço ideia se ela compreende um terço sobre o que eu digo. Confesso que nossos nomes são específicos e quase incompreensíveis.
— Tenho muito conhecimento em caça, pesca, armas de arco, flecha e construções de madeira maciça. Conheço sobre as matas, ervas medicinais… Meus avós são curandeiros. Derroto qualquer animal, se necessário. Posso ser útil e a minha intenção aqui é a mais serena, senhora. Eu vim apenas colaborar, estudar. Por onde passo, eu sou assim. Foi o que minha aldeia me ensinou. — Solto o ar de cansaço. Aquele ar gélido estava adentrando a minha boca e nariz. Acostumada com o clima quente, já posso saber que eu teria que me acostumar por aqui ou mudar totalmente as minhas vestes. Uma capa longa na cor de terra não iria me proteger. — Se eu puder ficar, posso mostrar o dom da força que carrego dentro de mim, caso o Castelo precise e vocês serão ainda mais fortes.
Ouso e a olho, aguardando, temerosa, a sua aprovação, enquanto as luzes violetas parecem se direcionarem ao meu rosto, como se fossem as luzes, servas desta mulher.
Quase tremo, mas profiro em tom profícuo, para que ela me ouça, ainda que ela não entenda a minha linguagem — qual idioma ela fala? Qual? Pergunto-me, inutilmente. O meu nervosismo é visível e os meus apetrechos parecem tremer com algum movimento que faço. Mas sorrio leve para ela, pois fui sincera e genuína.
Trecho do Memórum de Olga Nivïtzz, página 299, ano desconhecido
— Frígidas são as alcovas e cômodos d’este sombrio lugar, caríssima senhorita. — Proferi em plácida voz, pois, o medo que emanava de sua energia evidenciava seu desconhecimento sobre o Oculto, ao menos, no que se refere à Magia de Sangue e, portanto, não pretendia alimentar seu temor. Reconheci-a como uma conviva, ela decerto ouvira o chamado do Portal e viera, portanto, é inestimável o seu bem-estar durante a estadia.
O eterno inverno úmido que reside no Castelo poderia matá-la, suas vestimentas eram propícias apenas para localizações tropicais. “De qual século tal peculiar dama deve advir?” pensei. Não reconheci sua nacionalidade proferida, ainda não sou capaz de dominar o universo em sua multiforme veracidade.
— Permita-me vestir-te com esta peça — indaguei-a, seu semblante expressava suspeita, retirei com delicadeza meu sobretudo e a sorri para pacificá-la o quanto me fosse possível. — Basta que retires as tuas armas de teu dorso. Estás segura comigo. — Afirmei.
Nauärah… interessante. Seu nome possui uma sonoridade bastante sui generis, no entanto, há resquícios reais da influência, ao que me soa, da língua da Magia; alehanuhra eriihs, eu diria. O idioma Mágico emergiu no vínculo entre todas as mais valiosas línguas da existência humana.
Ao oferecer-lhe minhas vestes, senti o frio ultrapassar o tecido de meu vestido; há éons que não me arrepio de tal forma com essa aragem de íntima gelidez. De fato, minha intuição consegue se estimular facilmente, a mera tez absorve inúmeros sinais. Desde que abri o Portal para trazer novos residentes a esse valioso receptáculo, meus pressentimentos estão assim, à flor da pele.
Diário de Nauärah, não datado
Zelo, presteza, excelência. Essas três palavras definem tal criatura feminil. Ainda me sinto confusa sobre seu nome e quem é, de fato. Por outro lado, sinto-me segura, realmente, como ela assegurou-me.
Ela veste-me com uma roupa ainda mais felpuda e calorosa do que o meu sobretudo. O roupão protetor é violáceo, quase negro. Eu não mudarei a minha essência e a qualquer momento que eu retirar esta capa, a minha identidade se revelará. Por outro lado, bom utilizar outras vestes que não deixem absolutamente nenhuma extensão da minha pele se revelar.
Apenas a olho, como quem acredita que ela não me importunaria. Não consigo proferir uma palavra. Ninguém me toca, ninguém nunca me tocou, exceto quando no terrível acontecimento. Não permito que ninguém se aproxime, mas, por um acaso, ela é uma dama. E não a proíbo que o faça.
— A vossa pessoa faz-me lembrar dos meus líderes. Minhas felicitações por isso. Não confio em ninguém, senhorita, entretanto, quiçá, haja uma primeira vez para que isso aconteça. — Sorrio, apenas com os meus lábios, mas consigo sorrir.
Olho os meus apetrechos pelo chão púrpuro, ainda assim, suave. Ninguém ousaria mexê-los. Talvez a minha sutil aspereza seja apenas uma capa, assim como esta. Esta capa tem uma energia intensa, mas propícia. Aprendi a silenciar e identificar as energias advindas de lugares inimagináveis. E isto aqui é poderoso, constato.
Trecho do Memórum de Olga Nivïtzz, página 299, ano desconhecido
— Sinto-me honrada em evocar tais valiosas memórias em ti — respondi afastando-me ligeiramente. — Fique à vontade n’este Castelo, há outros residentes que poderás conhecer. Eu sou Olga, meus cumprimentos. — Curvei-me de modo suave. Faz tanto tempo que estou imersa n’esta atemporalidade… já não sei se possuo a educação de minha infância, aquela que eu tinha quando eu era ainda uma humana a viver como qualquer outra; já não sei se estou em demasia ultrapassada, dado que hoje — seja o que for que o “hoje” signifique — há mais futuro do que passado.
— Não necessitarás de armas por aqui, não há inimigos que sofrerão com elas ou que sangrarão com o fincar das afiadas lanças. O mal que faz lar n’esta lacuna em que estamos, entre o tempo e o espaço, apenas jaz por meio de nossa única e verdadeira arma… a mente… — Aproximei-me da lareira, o lume que permeava a sala estava em um tom violeta muito mais profundo, sentia energizar meu ser. Nauärah em silêncio, é uma inteligente mulher — sei disso, pois noto pelas suas falas e referências. Sua mudez expressa muito da sua introspecção preciosa, a qual sempre darei grande valor. Sinto que há uma ligação dela com outros residentes, não compreendo se esta intuição advém do plano corpóreo, pois, ela emana uma espiritualidade incomum.
— Se me permites, preciso descansar um pouco, mas sempre que precisares de mim, vá ao último cômodo do corredor maior ao norte do Castelo, este é meu aposento; seus umbrais possuem um tom avermelhado e ornamentos específicos, como sigilos de uma antiga doutrina. Tu o reconhecerás, sem dúvida. — Despedi-me, ela gesticulou uma saudação. Seu olhar era de compreensão enquanto minha exaustão parecia ainda maior do que antes. Afastei-me devagar à saída que levava ao caminho de meu quarto, tudo estava frígido como se eu estivesse lá fora, na neve. Pouco antes de chegar aqui, assim, tão perto de abrir a porta e começar a escrever, senti uma mórbida e silente solidão que apertou meu peito em amargura — e que está ainda, insistente, perdurante enquanto observo a noite pelos vitrais e continuo recordando de todos aqueles que já deveriam ter se tornado reminiscências exíguas.
Diário de Nauärah, não datado
Vejo Olga sumir em um dos corredores. Decerto, ela pensaria que sou observadora demais por segui-la com o olhar até ver sumir a sua silhueta.
Por eu estar sozinha agora e não ter visto nenhum outro hóspede, eu sigo para um dos quartos e enquanto adentro-o, percebo tons violetas nas paredes do imponente castelo. Me vejo envolta por uma atmosfera de mistério e encanto. Retiro a capa colocada em mim por Olga e a guardo cuidadosamente. O meu corpo adornado por peças ancestrais se casa com os reflexos púrpuros das paredes com tapeçarias tecidas em tons violáceos. Isso cria um ambiente acolhedor e ao mesmo tempo enigmático.
Caminho silenciosamente em direção à janela alta, observando flores roxas no jardim. A lua, quase no mesmo tom, as lumia e as cortinas suaves parecem dançar a dança da noite sombria.
Uma luz violeta suave é lançada sobre os móveis de madeira escura que há neste quarto onde estou. Há também uma lareira, uma cadeira estofada e um umbrífero, mas caloroso dossel, que me convidava a descansar, enquanto ao redor, estão os meus artefatos indígenas cuidadosamente dispostos ao chão, sobre o tapete roxo. É coisa de Olga, penso... ela parece caprichosa no que diz respeito a ambientes.
Olho-me no espelho e penso em uma maneira de comunicar à minha aldeia a minha chegada. As minhas vestes trazem à tona lembranças da minha terra natal.
Viro-me e a cama majestosa, adornada com lençóis de seda violeta, parece convidar-me a mergulhar em sonhos profundos e reconfortantes. Por um momento, eu fecho os meus olhos, sentindo-me em casa mesmo em meio à grandiosidade e o desconhecido, ainda, deste castelo. Sei que aqui estou segura, não importa o hóspede que venha a chegar.
Confiro a tranca da porta — ainda temerosa, e suspiro aliviada. Ninguém me faria mal aqui. E se fizesse, certamente eu saberia a quem recorrer.
Exploro o banheiro e o som da minha respiração ecoa aqui. Respiro fundo e sorrio pela segunda vez neste lugar. A banheira em mármore lilás me encanta. E todo o ambiente está bem organizado e disposto.
Já refrescada e pronta para o sono, deito-me e me aqueço demasiadamente. E sei que o meu sono me levaria a lugares inimagináveis antes mesmo do amanhecer.
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Emanação Violácea
Ao abrir a porta, não consegui enxergar muito bem, mesmo com a visão de vampira, me senti como a míope que fui outrora…
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Ao abrir a porta, não consegui enxergar muito bem, mesmo com a visão de vampira, me senti como a míope que fui outrora antes da cirurgia, graças aos hospitais que fizeram um desconto… deixado um pouco de lado as minhas divagações, consegui sentir um cheiro… inebriante… totalmente diferente do cheiro de mofo que senti ao adentrar no castelo.
Percorri um longo caminho até aqui e, para a minha surpresa, ainda não cruzei meu caminho com o anfitrião. Eu sou apenas uma subordinada de algo maior, perdida num castelo com o meu gato. E se por algum momento eu cogitei tal façanha, não posso negar que experienciar essa jornada no castelo do Drácula, que já li no período escolar, faria algum sentido em minha “vida” pessoal. O vampirismo me trouxe diversas faces e eu me sinto sazonal em muitos momentos. Mas nessa sala em que me encontro tem um cheiro que me tortura e ao mesmo tempo me encanta.
Por que não consigo enxergar?
“Jason venha até aqui e pule nos meus braços, iremos nos guiar pelo cheiro que, parando para pensar de forma mais racional, me lembra muito nossa estalagem das lavandas.”
Quando fomos transformados em vampiros naquele lugar, o dia da minha morte e renascimento ao lado de quem mais amo, eu não podia imaginar que a lavanda — a flor que sempre me trouxera paz, a calmaria que me guiava nas noites de escritora virada por dias seguidos — seria tão presente nesse meu caminhar imortal. Agora sua cor e seu cheiro me transbordam tantos outros sentimentos, me levam ao mais profundo abismo de mim mesma e me inebriam algures.
Existe uma névoa intensa nessa sala e agora meus olhos estão se acostumando e o odor que percorre em minhas entranhas, me desliza caminhando para um ponto que tem uma outra porta. A madeira tem um toque de carvalho que acredito ser seu material.
“Devemos entrar Jason?”
“Miau”
Somos vampiros e, mesmo que imortais, estamos suscetíveis a uma outra morte. Se o Drácula aqui estiver, outros devem existir, sejam outros seres sobrenaturais ou outros como nós. Minha intuição diz que há outros vampiros e outros que possam ser futuras vítimas. O desconhecido nem sempre me encantou, vivi anos na monotonia de uma vida pacata com os amigos e meu gato. A curiosidade me despertou para esta “vida” e o amor que percorre em minhas veias resplandece nessa realidade gélida e nesse castelo assombrado. Meu coração padece dessas indagações momentâneas e giro a maçaneta.
Meus olhos descortinados agora vislumbram uma sala violeta e o aroma ainda é como um bálsamo, se isto é que me trouxera até aqui, preciso entender os fundamentos compostos desta sala. Essa cor que me lembra as lavandas…
Assim como o “violeta” está ligado ao nosso chakra coronário, irei me interligar com a minha espiritualidade. Quem diria que eu, uma vampira, ainda poderia me guiar por coisas tão humanas e entender o significado proposto dessa sala que é a cor referente a essa ligação interior.
“Venha Jason, vamos olhar por trás de cada quadro em busca de algo.”
E esse cheiro? Não sai do meu alcance, preciso examinar o ponto exato de sua emanação ou se está presente na sala inteira. São tantos quadros que iremos levar algum tempo, são todos de épocas diferentes e isso confirma meus pensamentos de antes. Será que em breve iremos encontrar alguém?
“Miau”
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Sábios e sensatos, incrédulos e indignos.
Não registrarei a data, pois nãos disponho mais deste conhecimento, deixo aqui o horário…
MidjourneyAI
Dia 2
Não registrarei a data, pois nãos disponho mais deste conhecimento, deixo aqui o horário estipulado por mim com base no astro solar e sua posição na abóboda celeste.
10:00
Querido diário.
Reconheço-me como uma criatura infeliz, não mais tenho a inteligência como uma dádiva, uma vez que a intelectualidade sabota meu ato racional no momento em que necessito de atenção. Compreendes minha indignação diante do confinamento? Estava prestes a conquistar o mundo, por duas vezes interromperam minha jornada, por agora vivo à mercê da hospitalidade masculina, a qual pouco dirige-se a minha presença e contribui para a instrução de conhecimento. O conhecimento vinha a ser tudo para mim.
O tempo dispara no decorrer do confinamento, vejo meu amadurecimento psicológico evoluir e eu ao menos compreendo o motivo deste fenômeno desconhecido. Independente de minha aparência jovial e genérica, atribuída a uma senhorita de dezessete anos, sinto-me amadurecida e equilibrada, porém, embora perceba a vida deixo-me deslumbrar diante de pequenos momentos, como caminhar sentido ao pátio central e em direção ao terraço, onde por vezes fui impedida de maravilhar-me pela revelação montanhosa e verde, proveniente dos vales.
Não duvido da existência de outros confinados sob o mesmo teto, não estou só, digo, além de mim, do Lorde e seu subordinado o qual aparece esporadicamente. Ouço vozes e passos, e por vezes questiono a veracidade de suas existências. Devo procurá-las? Questionei-me pela madrugada, evidente que o fiz, afinal nego-me a permanecer às sombras, alheia ao reconhecimento de meu esconderijo e os mistérios que o cercam, ‘‘Nada é escondido dos sábios e sensatos, enquanto aos incrédulos e indignos não é possível aprender os segredos’’, como diria Cornelius Agrippa.
Ao retornar após a expulsão do terraço em minha vã tentativa sentir o vento da noite sob o terraço, adentrei em meus aposentos pronta para iniciar aos rituais noturnos, porém, o momento em que trajei minha chemise e desarrumei minha cabeleira encaracolada, percebi uma misteriosa chama púrpura movimentar-se no cadeeiro, em uma agitação jamais percebida por mim, logo, todas as demais chamas ao redor, como a cálida flama no interior da lareira replicava a coloração, tomada por fim como espectral, tornando o entardecer retratado no afresco sob a lareira o mais purpúreo concebível.
As chamas deixavam escapar faíscas igualmente dançantes, as quais flutuavam através do ar em direção ao limiar convocando-me a segui-la. E eu o fiz, atravessando os corredores estreitos em direção a um cômodo de tonalidade semelhante à das chamas, adornado de forma antiquada, ostentando a mais bela e rara tapeçaria violeta estendida ao chão e sob um leito majestoso, talhado em madeira maciça, ornada por um dossel integrado a estrutura, o qual representava os contornos de uma catedral. Embora escurecida, a madeira refletia o roxo, condizente ao forro do tecido da cobertura em seu interior.
Ao lado da majestosa obra de arte, meus olhos seguiram o brilho oriundo a um relógio encrustado em ametistas repousado sobre o leito. Delicadamente o toquei na esperança de alcançá-lo, quiçá apanhá-lo tencionando esmiuçar seus segredos, porém, ao invés de fazê-lo, retornei ao quarto por intermédio de uma passagem secreta a qual conecta os andares, sentindo-me indigna de obter tal conhecimento, uma vez que fora ridicularizada e enxotada do único local capaz de ceder-me conhecimento, ainda que pouco comparado aos livros que li ao passar dos anos.
Finalizo o relato em prantos, ainda incrédula de minha ação e desconhecendo em mim o amadurecimento constatado anteriormente.
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2. Castelo Vampírico: O Encontro
4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de…
Diário de Rute Fasano
4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de falar algo errado, ou esquecer de dizer algo que era certo dizer. Pude observar de longe alguns membros, todos parecem muito interessantes. Depois do encontro de ontem na sala principal do Castelo, cada membro foi se ocupar dos seus interesses. Uns foram levados para um quarto do castelo, outros ficaram na sala principal admirando a decoração, outros conversavam entre si. Eu apenas observava e tentava criar um roteiro na minha cabeça de como me apresentar a cada um deles sem parecer estranha, enquanto tocava a ponta dos óculos o tempo todo como uma forma de me acalmar a cada momento que alguém trocava olhares comigo, isso fazia eu parecer realmente estranha.
Observei de longe os membros e poucas coisas pude perceber:
— Anelly tem aura romântica e etérea, parece vinda de um mundo de sonhos, alheio às sombras que permeiam o castelo.
— Astrid emana uma aura de seriedade e erudição, seus olhos penetrantes revelam um intelecto afiado.
— Jason é um gato, ele veio com Maria, observa tudo com uma curiosidade felina, suas ações parecem mais calculadas do que instintivas, e isso é bastante curioso.
— Maria parece ter conhecimento de ervas, desperta uma curiosidade misturada com cautela. Seu conhecimento de ervas faz ela ter a habilidade para aliviar a dor e também a capacidade de causar danos irreparáveis.
— Olga tem uma postura enigmática, transmite uma sensação de mistério, como se guardasse segredos profundos por baixo de uma expressão imperturbável.
Há dois membros que ainda não sei o nome:
— O rapaz que parece imerso em suas próprias reflexões, uma melancolia sutil paira sobre ele, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros.
— A jovem indígena que possui um olhar desconfiado, parece estar constantemente avaliando os motivos ocultos por trás das interações, sempre alerta para possíveis perigos.
Fiz todas essas observações, mas podem não ser exatas. Deduzi de apenas observar, ainda não conversei com nenhum deles para confirmar tais deduções. Ouvi alguém comentar que ainda tem mais membros chegando. Isso me deixa um pouco ansiosa.
Fui para o quarto e fiquei pensando no rumo que a minha vida tomou, sonhava na infância viver da escrita e de todas as ideias e histórias loucas na minha mente, mas a curiosidade intensa e a obsessão de entender o mundo e seu funcionamento fez com que eu fosse para o caminho da ciência. Não me arrependo nem um pouco disso, ela continua sendo a minha obsessão. Porém, cheguei à conclusão de que deixei o caminho de viver da escrita para chegar a esse momento em que eu preciso dela para manter essa entidade, o Castelo, viva. Que louco, não?
6 de dezembro — Eu acho que vi Drácula pelos corredores nesta madrugada, pode ser que não seja ele, mas sim o efeito da cafeína e noites maldormidas. Eu saí do meu quarto para esticar as pernas, mais ou menos às 3h da manhã, comecei a andar pelos corredores e os ecos dos meus passos aumentavam junto com aquela agradável sensação de solitude. Depois daquele passeio eu iria retornar ao conto que eu mal havia iniciado, passei a maior parte do tempo fazendo arabescos nas bordas da folha. Em meio à penumbra daquele corredor pouco iluminado, eu vi uma figura solitária diante de mim, caminhando lentamente, seu andar era quase etéreo e ecoava pelos corredores como sussurros.
Meu primeiro pensamento era de que outro hóspede do castelo teve a mesma ideia que eu e decidiu perambular pelos corredores. Essa figura segurava um castiçal que emitia uma luz suave que lançava sombras dançantes no corredor do castelo. Tudo que eu conseguia ver era suas costas. Vestia uma blusa branca de mangas bufantes com punho em renda que contrastava com a calça preta justa que parecia moldada a seu corpo. Para completar, botas de cano alto pretas. Os cabelos negros longos que caíam como cascata até a sua cintura e, quando virou à esquerda, fez uma breve pausa e olhou através de mim como se não me visse. Senti um arrepio subir a minha coluna que me fez paralisar. Um feixe de luz do castiçal que segurava revelou seu rosto e fui incapaz de definir se o que eu via era um homem ou uma mulher, mas tinha certeza de que não era nenhum dos hóspedes do castelo.
Seu rosto era uma obra de arte andrógina, sem traços que me ajudassem a definir o seu gênero. A pele pálida da figura parecia quase que translucida sob aquela luz fraca, o que me permitia vislumbrar suas veias roxas através dela. Nariz adunco que adicionava uma elegância à sua aparência. Mas foi nos olhos que vi a característica mais intrigante, um matiz de azul-violeta, mais profundos e enigmáticos do que os olhos de Elizabeth Taylor e ecoando o mistério do próprio castelo. E o seu cheiro! Tão pungente de uma mistura de rosas com nuances amadeiradas tão real que podia sentir o toque aveludado das pétalas das rosas na minha face —ou seria o toque de Drácula?
E o gosto de cobre suave e adocicado que me provocou um excesso de salivação, tive que pôr a mão na boca rapidamente — e assim me tirando daquela paralisia momentânea — para impedir que escorresse, pisquei para voltar a si. Decidi não esticar mais as pernas aquela noite, não exatamente por medo, quero dizer, claro que eu estava apavorada, mas ao mesmo tempo fascinada a ponto de não saber o que fazer, mas não estava preparada para aquela presença. Acho que foi o bastante por hoje para estimular meu cérebro a continuar produzindo. E assim me vi imersa em um mistério, aquela presença enigmática era Drácula?
O que quer que fosse deixou uma marca na minha mente.
P.S. Em meio à escrita, meu cérebro descontrolado foi criar teorias. Drácula existia isso era óbvio, e é de conhecimento geral também, mas será que Bram Stoker quando escreveu Drácula não usou suas próprias experiências com o Conde para escrever o livro? Isso seria um ótimo assunto para ter com os demais membros do Castelo. Adoraria ouvir as teorias deles, se eu tiver oportunidade para iniciar a conversa.
Estou incrivelmente surpresa que Drácula cheira tão bem para quem é um morto-vivo, imaginava algo como odor de putrefação, esse eu conheço bem, sangue seco e mofo escondido por baixo de um forte odor impregnante de canela e cravo. Se a figura for mesmo Drácula, isso eu ainda não tenho certeza.
7 de dezembro — Depois de pensar muito e me esconder no quarto fugindo de interações sociais, decidi esperar o mesmo horário que eu vi o que eu acho ter sido Drácula. Sai do quarto e dessa vez não havia ninguém no corredor, aliviada e, ao mesmo tempo, decepcionada, dei passos cautelosos pelo corredor e virei à esquerda. Aquele cheiro novamente, porém sem a figura que eu esperava. Segui adiante até chegar numa porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas, como aqueles que eu havia feito nas folhas em branco que eu deveria escrever. Empurrei a porta devagar e entrei e o cheiro ficava mais intenso. Uma névoa púrpura densa preenchia aquele lugar, e espectros disformes estavam de um lado a outro produzindo uma cacofonia de sons, fui em direção aquele que emanava o cheiro que eu imaginava ser o de Drácula. Caminhei em direção a esse espectro e o toquei.
Fui levada para um local onde a névoa púrpura estava mais fina, mas a música mais alta e a figura, que de alguma forma agora eu tinha certeza de que era Drácula, estava de costas para mim. Ele no alto de uma montanha, como um maestro, fazia movimentos e cada movimento formava uma parte do castelo, como uma parte de uma melodia numa partitura. Estávamos no castelo, porém fora, era como um mundo dentro de outro mundo, só que no castelo. Drácula de costas para mim se destacava de pé em uma colina escarpada contra aquele céu crepuscular arroxeado, fazendo gestos precisos como de um maestro conduzindo uma orquestra, e com cada gesto ele parecia moldar aquela névoa púrpura com as mãos.
Pude ouvir a música calma, atenuada, suave como uma valsa lenta. Olhava tudo em volta e aos poucos as vozes em coro iam crescendo, crescendo e tomando tudo ao redor. Com movimentos amplos ele fez as rochas se erguerem do chão formando as muralhas do castelo, tudo acompanhado da melodia, tudo em volta respondia à sua vontade. Eu sentia a melodia me apertar e pressionar, despertando os meus sentidos e crescendo como se a qualquer momento fosse explodir. E tudo era preenchido por essa melodia. O castelo tomava forma, as torres, as janelas, as portas, tudo se erguia como notas ascendentes em uma partitura, as janelas se abriram seguindo o ritmo da música e pude ver os hóspedes do Castelo, cada um ocupado com sua própria criação, e eu pude me ver dali.
Senti como se meus ouvidos fossem tapados com a pressão que a melodia causava expandindo sem cessar, eu não mais a ouvia, mas sentia a vibração e o ritmo através da minha pele e uma pulsação inexplicável dentro na minha cabeça que crescia e vibrava com a música. O último tijolo foi colocado e Drácula ergueu os braços para o céu fazendo a música atingir seu clímax. O castelo estava completo, e era uma obra de arte viva que nós, hóspedes, estávamos alimentando. Pude ver os finos filamentos violetas que interligam Drácula ao castelo e aos hóspedes.
A melodia cessou, algo que parecia eletricidade passou por aqueles filamentos em direção a mim e percorreu todo o meu corpo, se detendo no meu cérebro que relaxou. E uma sensação de leveza caiu sobre mim. Minha mente se aquietou, vazia, sem pensamentos. Ele olhou para trás com meio sorriso como se somente naquele momento tivesse percebido a minha presença, fez um lento e último gesto com a mão para que eu me fosse, mas assim que meu cérebro quis dar a ordem para minhas pernas se moverem, eu simplesmente apaguei.
8 de dezembro — Acordei na cama, renovada como nunca antes. Coloquei meus óculos que haviam sido deixados na mesa de canto e vi que em cima da escrivaninha um toca-discos tocava Réquiem em Ré menor de Mozart e também um vaso com belas orquídeas roxas. Automaticamente lembrei do que minha avó dizia: “o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas”. O que sei sobre o amor tem relação com bioquímica e escolha, então escolhi ter afeição por esse ato. E aqui está a trouxa que vos fala. É melhor eu começar a escrever agora. E que Deus, se existe um, tenha piedade de mim.
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Os outros
Como não poderia deixar de ser, tamanho Castelo não teria somente minha presença em suas dependências…
MidjourneyAI
Como não poderia deixar de ser, tamanho Castelo não teria somente minha presença em suas dependências… vejo que estou acompanhado por mais pessoas: homens e mulheres, das quais já sei alguns nomes, dividem comigo esse espaço. Listarei a seguir os que tomei nota.
Astrid, essa quem vi na posse do que parecia um diário (datado de 1880? isso mesmo que eu lera?); Anelly, cuja figura pálida, quase vampírica, por excelência, somada ao seu expresso apego por poemas e vinhos dispostos no lugar, atiçam de maneira peculiar a busca por querer saber mais sobre ela… Rute Fasano, uma presença que eu consideraria a menos digna de receios nesse Castelo; sua atenção dada às plantas, aos animais do ambiente… isso me leva a crer que seja, talvez, uma bióloga, cujo interesse deve abarcar tanto os domínios de sua presumida área quanto o mundo sobrenatural, que possivelmente nos rodeia… Uma estudiosa, por certo. E Maria, na companhia de seu gato (Jason creio ser o nome dele) … parecem estar aqui para algum objetivo específico, visto que ela e o felino parecem até se comunicar…
Entre todas essas figuras femininas, cujos nomes eu anotei, uma não consta por não saber justamente como chamá-la… com seu aspecto de verdadeira estirpe guerreira, imponente e, pelo que pude reparar — ainda que ela tentasse esconder, ao que parece —, dotada de arco e flechas… tudo isso me dá a certeza de estar num lugar completamente especial, fora de qualquer cogitação na tentativa de classificá-lo.
Digo fora de classificações por se tratar de um Castelo, aparentemente, à margem da realidade visível… chego a essa momentânea conclusão a partir das impressões vindas de outra presença nas torres desse lugar: Olga… Olga Nivïttiz (seja lá como se pronuncia esse seu sobrenome, anotado por mim ao bisbilhotar seu diário, ao que parece, que ela deixara de lado num raro momento, sobre um móvel do Castelo). Essa mulher, ao que tudo indica, possui algum tipo de conhecimento muito além do que eu poderia imaginar; talvez, contenha sob os bolsos de seu manto, dessa indumentária longa e escura que arrasta pelos corredores, a própria resposta para as perguntas que me surgem desde que passei a fazer parte das dependências desse habitáculo… algo assim não deixa de ser misterioso e, ao mesmo tempo, fascinante para querer solucionar…
Não registrei nas linhas anteriores os nomes de homens que frequentam o Castelo, mas com certeza (para deixar também aqui anotado) eles devem estar presentes: prova disso são os poemas e contos que pude ler, de autoria de alguns deles, sem menção a suas alcunhas, mas assinalados com os dizeres “escritor membro do Castelo Drácula” …
Finalizo agora essas anotações, prestes que estou a arriscar uma exploração maior pelos aposentos. Há pouco, vi o que parecia ser uma enorme entrada, numa das galerias daqui; por ela, tenho quase certeza de ter visto um fumacê de cor roxa… algo estranhíssimo e que, do mesmo modo, parece gritar pela minha presença…
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Queixas
Preso aos limites de um castelo antigo, hoje me encontro, mas não era assim quando eu andava só floresta adentro a matar infiéis…
MidjouneyAI
Preso aos limites de um castelo antigo,
hoje me encontro, mas não era assim
quando eu andava só floresta adentro
a matar infiéis, queimar as bruxas,
sendo um leal e bravo cavaleiro
do qual a Santa Igreja se orgulhava.
Contra o conde lutei pelo meu Cristo,
desembainhei inutilmente a espada
a fim de que varresse o mal do mundo,
mas sucumbi à luta de joelhos:
fui empalado e logo incinerado;
as cinzas despejadas sobre a lama
que cerca este castelo tenebroso.
Não tive quem por mim rezasse um terço,
somente uma sentença, a dura praga
que proferiu o conde aquele dia:
“Sofrerás, vil guerreiro, todo o peso
da eternidade como maldição.
Verás, como eu, em vão passar o tempo
e sem esta matéria que nos gela
aqui me servirás eternamente:
teu fim será louvar-me em tuas queixas,
preso aos limites deste meu castelo.”
Vivo então, invisível, a ecoar
a dor que resultou desta peleja
e que estes altos muros silenciam.
Vejo passar então os viajantes
e os hóspedes que insones cá pernoitam
a fim de conhecer aquele crápula.
Invisível, os vejo passo a passo
adentrar aos portões com um olhar
curioso e, ao mesmo tempo, fascinado.
Olhai, mas vede e não vos enganeis!
A mão de Deus, ilustres visitantes,
não pousará neste lugar maldito.
Não há como sentir-se aqui seguro
sob as nuvens cinzentas de um castelo
que nunca viu a luz do sol brilhar,
que nunca viu a cor azul do céu.
Na melhor das hipóteses, tereis,
daquele desalmado anfitrião,
a chance rara de voltar pra casa
para que lhe pinteis alguma fama.
Quanto a mim — pobre ser fantasmagórico —
terei, como ele, a triste maldição
de assim viver por incontáveis anos
arrastando-me às sombras do passado,
preso aos limites deste seu castelo.
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O abraço da Toreador - a gênese do vampiro Valentine Lencastre
Emergi das entranhas da Revolução Francesa, envolto pelo terror e caos que assolavam as ruas ensanguentadas de Paris…
MidjouneyAI
Emergi das entranhas da Revolução Francesa, envolto pelo terror e caos que assolavam as ruas ensanguentadas de Paris. Ferido durante os tumultos da revolta, fui forçado a desertar, buscando refúgio nas terras desoladas e sinistras que testemunharam a brutalidade da guerra. Meu corpo curvou-se à dor, e, em súbito, abracei o solo de uma floresta sob o testemunho de hematófagos morcegos.
Fui resgatado por uma senhora, cujas escamas no rosto a tornavam uma figura ímpar, distanciando-a de qualquer similaridade com a condição humana. Ela, detentora de um silêncio descomunal, cuidou do meu corpo como quem pretendia embalsamá-lo. Ervas e muitas tiras de tecido tocavam minha pele carcomida. Eu vi tudo!... Mas toda vez que tentava falar, indagar onde eu estava, a minha língua mais parecia uma lemimscata, limitada a movimentar-se perpetuamente em si.
Fiquei sete dias e sete noites sob a tutela da anciã, até que, numa noite de plenilúnio, ela resolveu servir-me como oferenda para uma jovem e bela mulher. Todavia, por detrás de todo aquele véu de beleza e sensualidade, estava escondida uma fera faminta. Antes que a criatura se aproximasse de mim, a velha bruxa despiu-me de todas as ervas e tecidos e, com uma jarra, encharcou-me de vinho enquanto proferia algumas palavras em língua estranha, as quais evocavam a feroz criatura que habitava o corpo mais belo que pude conhecer em vida, pois também despida, em meio à penumbra, suas curvas se desenhavam alimentando os meus olhos com um espetáculo de rara beleza.
Enquanto a cópula era presente, a dama da noite, o ser advindo das trevas, em lascívia abocanhou o meu pescoço e cravou sem piedade suas presas. Fui do prazer à dor, da dor à morte, da morte à vida, pois renasci como uma nova criatura, mal sabia eu que havia sido escolhido devido ao meu ofício quando humano. Eu era um arquiteto, um dos mais requisitados da França, e ela, a besta da noite, pertencia ao clã Toreador e estava recrutando os melhores artistas para servi-los. A fome me apertava e o cheiro de sangue me atiçava a querer atacar a anciã que assistia a tudo com expressão de prazer.
Com orientação da vampira e algumas regras expostas, disse que eu não precisava atacá-la, pois ela era sua carniçal em troca de alguns presentes. Pegou a jarra do meu banho de vinho, atacou suavemente a senhora e encheu de sangue aquele recipiente, servindo-me ainda quente. Entendi, naquele momento, que os traços de humanidade que havia em mim não mais me pertenciam. Fui abraçado pelas trevas, fui abraçado pela sedutora Toreador, clã ao qual agora sou filho.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…