Naman Sood

Morte. É o que parece gritar irônico e suave aos meus ouvidos. A culpa grita... O sangue vertido das entranhas minhas, a flecha lançada. O corpo em cima do meu. O peso másculo e doloroso. A força que necessitei fazer para aquilo — ser inumano —, sair de cima de mim. Somente o encaro pela necessidade de conferir se ele estava mesmo morto. Se não fosse a minha lança, quem estaria morta seria eu. Mas estou. Morta por dentro.

Os olhos dele estão fechados, entretanto não há coragem da minha parte em aproximar-me e conferir se ele ainda respira. Eu choro — estava fraca, fraca de tanto lutar contra ele. Por que tua pele alvacenta bronzeada me feriu, por quê? Por que eu? Penso demais, enquanto olho aquele corpo ali, enquanto um fio de sangue passeia pacientemente doído e quente pelo interior de uma coxa minha. As entranhas ardem. Mas não dá tempo de chorar de dor agora.

— Eu o matei? — Vejo a lança cravada em seu peito, antes, com tantas perfurações profundas. Posso ser frágil intimamente, mas a minha força braçal não é brincadeira.

 — Preciso fugir. Agora. — Penso. — Se ele acorda eu estaria condenada, ainda que ele também fosse até ser pego. Eu seria perseguida. Mas em um ato de coragem, me aproximo, 'inda distante, e puxo a lança dele. Nesse momento os seus olhos abrem grandiosos e a sua mão voa em direção ao meu tornozelo, o firmando. Eu grito!

Desperto, gritante, suada e chorosa. Não, ele não puxou o meu tornozelo, deu tempo de fugir e ele morreu, morreu... Tranquilizo a mim mesma. O pesadelo sempre me persegue. Pesadelo de uma cena real. Mas a sua mão parece tocar-me ainda. Sinto-me enojada como se tivesse acontecido hoje o ocorrido. Não posso assustar os residentes daqui assim, não posso... Mas sossego-me, respirando fundo. Onde estariam as governantas deste lugar neste momento? Preciso de ajuda. Preciso acalmar-me.

Lembro-me do banho doloroso que tomei no rio. A água lavou-me completamente, pele por pele. Os meus olhos fechados tentavam ver alguma esperança em continuar vivendo. Enterrei a lança em um lugar próximo. Jamais a usaria novamente. Assassina. Nauärah, assassina. A voz desconhecida ecoa em meus ouvidos. Mas ecoa também a violação que o meu corpo sofreu, antes de eu conseguir ceifar a sua vida. Espero eu que ele não tenha sobrevivido. Ou ele estaria sempre à espreita, me esquinando, me industriando por onde eu passar, para vingar-se... ou matar-me.

Dez anos... dez anos e nada esqueci. Nunca soube dele. Deve ter morrido com aquela lança que fora consagrada pelo nosso líder. O triste é que toda a sua geração foi amaldiçoada. Eles não têm culpa. Mas a alma do alvacento que me agradeça. Se ele sai vivo, eu não quero imaginar o rito diabólico que fariam com seu corpo. Das primeiras torturas até a entrega da sua carne aos animais da selva.

Paro de lembrar de dores e aconchego-me ao dossel que me acolhe, adormecendo. Não estou sozinha, sinto. E as presenças, por mais obscuras que eu possa sentir neste recinto cheio de mistério, são também dos meus protetores, visíveis e invisíveis.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Glícia Nathállia Campos

Nascida em um outono, na capital da Bahia, cresci em uma família que me proporcionou muito incentivo ao estudo e à cultura de qualidade. É por isso que sou uma pessoa que ama a leitura, o conhecimento, a escrita e outras áreas artísticas. Minha paixão pela arte faz aprofundar-me nela. Enfim, sou alguém com uma sensibilidade aflorada; aprendi a lidar com situações com muita humanidade, senso e responsabilidade. Sou livre de convenções e de preconceitos.

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