Lar Assombrado Lar

Perdida na confusão dos meus pensamentos, me encontro prostrada nas ruínas da minha própria existência. Em um receptáculo onde os raios…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Perdida na confusão dos meus pensamentos, me encontro prostrada nas ruínas da minha própria existência. Em um receptáculo onde os raios de sol não conseguem penetrar totalmente, minha alma rasteja pelos corredores sombrios da minha carne, e meu ser se assemelha mais a uma casa mal-assombrada do que a um templo resplandecente, o qual tanto almejei ser. Não enxergo meu corpo como um templo. Vejo-o como uma morada macabra pela qual minha alma está condenada a vagar. Sombras dançam nos cantos e os ecos do passado ressoam nos longos corredores escuros. Minhas lembranças são os fantasmas que perambulam por esses corredores, olhando através dos meus olhos, como janelas embaçadas. Cada cicatriz, cada ruga, cada tatuagem é uma marca deixada pelo tempo, uma história gravada na pele com tinta permanente. 

Meu cérebro, um sótão empoeirado e repleto de caixas seladas, guarda memórias empalidecidas. É lá que as lembranças se entrelaçam em teias de nostalgia. Os fatos, as certezas, são como morcegos que ali encontraram refúgio, suspensos nas vigas, usando meu crânio como abrigo. Às vezes, seus guinchos ressoam, me lembrando de que nem todas as verdades são agradáveis. No coração, o mais profundo dos porões, reside a esperança, um fio tênue que se agita nas sombras das minhas entranhas. É lá que os sentimentos e os afetos caminham lentamente como espectros famintos, produzindo um som oco que ecoa em meu peito. Cada batida é um eco das emoções que habitam esse subterrâneo, um sussurro de desejos não realizados e amores perdidos. 

Eu sonhava em ver o meu corpo como um templo bem cuidado, erguido com a pureza de uma catedral luminosa. Porém, a cada amanhecer, venho me acostumando com a escuridão que permeia essas paredes internas. As sombras, os fantasmas, os morcegos e os sussurros ocos têm se tornado minhas constantes companhias. Ainda assim, na penumbra da minha existência, minha alma teimosamente sempre acende uma vela, na esperança de enxergar cada canto escuro e tornar essa casa um lar. Ansiando pelo dia em que a luz irá penetrar pelas rachaduras dessas paredes, dissipando o mal que deixei se apossar de mim. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Soneto do Horror

Nas sombras dançam ecos de terror | Sussurro tenso e frio pela parede | Do espelho veja a morte — que horror! | Que bebe do meu sangue em muita sede…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Nas sombras dançam ecos de terror
Sussurro tenso e frio pela parede
Do espelho veja a morte — que horror!
Que bebe do meu sangue em muita sede

Assombração que ronda tal lamento
Gargalham vozes tais, tão traiçoeiras
As velas que se apagam com tormento
Do próprio fogo e sangue são herdeiras

Sorriso desenhado no lençol
Em sangue, pele, carne e teu suor 
Que embala o pesadelo noite afora

Já chega da tortura tão cortês
Vos rogo, me atormentem d’uma vez
À morte digo: “Olá, me leve embora”.

 
 

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Levante de Halloween

A escuridão se avoluma, | sob sua luz escaldante. | Hoje, a Lua é Sol, | e o Sol se veste de noite. | Brilha como o próprio Sol, | seu açoite é abrasante. | Minh ‘alma se acostuma…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A escuridão se avoluma,
sob sua luz escaldante.
Hoje, a Lua é Sol,
e o Sol se veste de noite. 

Brilha como o próprio Sol,
seu açoite é abrasante.
Minh’alma se acostuma,
mira ossos caminhantes. 

São vultos em brasas!
Folhas de outono a queimar...
Abóboras laranjas,
velas a incendiar 

Saem das sepulturas,
os mortos a vagar.
Suas formas, impuras,
vêm os vivos abocanhar.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Artemísia

A pressão rompe o silêncio na madrugada | Vibra o éter como música e ressoa | Reverbera no acetato, ainda...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A pressão rompe o silêncio na madrugada 
Vibra o éter como música e ressoa 
Reverbera no acetato, ainda longe da alvorada  
Cadente, nos ouvidos desta pessoa  

Aos poucos me vem memoráveis momentos 
Que longe vai o meu pensar 
Reavive voraz a figura e me revira o intento 
Faltava a substância de alucinar  

Aquela do verde frasco deixado na prateleira 
Insiste, ainda que eu queira, 
No convite para expirar os vapores novamente 
Doces ilusões inspiradas na mente…  

Tão logo nas minhas mãos impregnaram seu cheiro, 
Contra a janela fumaça e nevoeiro, 
E o perfume se expande neste cômodo lugar 
Como se arrebentasse um vidro de perfume inteiro 
E subitamente se espalhasse pelo ar  

Descomedido, fui além do que posso aguentar 
Oito taças me arrisquei ingerir 
Insistindo por várias horas sobre a mesa do jantar 
Para no último gole então descobrir  

Materializava um corpo bem onde eu estava 
A forma feminina a dançar em minha fronte 
Mais derretido e sombrio eu ficava  
Como se um riacho desaguasse no aqueronte 
Sufocado eu pedia uma fonte de água 
Depois, eletrificado, perdi de vez o sentido 
Nesta hora era o tempo de ter me arrependido 
Restou apenas um misto de todos os sentimentos 
De todos os vapores, emplastros e unguentos 
A rolar na minha pele como um óleo qualquer.  
Algo então se rompeu em mim, algo que eu não saberia bem como explicar. Era uma lembrança talvez, ou talvez fosse um tipo de vontade (mais certo que era). Culpei o álcool e o exagero, mas a vida contigo foi um exagero em dobro, uma embriaguez de tantos anos que me assombravam naquele momento e se fixavam naquela forma perdida e naquele movimento.  

Era um ideal, enfim entendi 
Algo que estava em mim, mas não em você 
E deixei-me jogado naquela cadeira 
Sem me preocupar se havia um porquê 
Fiquei contemplando o corpo despido 
Por baixo da transparência daquele vestido 
Eu dançava com os olhos, da minha maneira   

Será que é sólida para que eu a abrace firmemente? 
Não lembro ocasião de ter visto um ser todo verde  
Mas sim com o rosto corado num tom de rosé 
Tem forma, tem corpo e tem face 
E todos eles pertencem a você. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Sete Maneiras de ir para Setealém — Parte 02 

Se você não leu a primeira parte das sete maneiras de ir para Setealém, “volte uma casa” e leia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Se você não leu a primeira parte das sete maneiras de ir para Setealém, “volte uma casa” e leia.

Apesar de ser um manual que soa divertido, ele é assustador e não perde a força real que há na energia desse lugar, então, lembre-se de deixar alguém avisado sobre as suas experiências ou até ter alguma pessoa por perto. Tentar ir para Setrealém estando sozinho pode ser perturbador.

Vamos ver outras sete maneiras de ir para Setealém:

08.  Através de Um Ônibus

Essa é a maneira mais comum e conhecida de se chegar em Setealém. Conta-se por aí que ao andarmos pela rua e avistarmos um ônibus, devemos perguntar para onde ele vai. É óbvio que o(a) motorista dirá que é para algum lugar que você conhece, aqui deste mundo. Mas, a depender da sua intenção, se você fizer isso, a resposta pode ser "Para Setealém", e se você subir nesse ônibus, já sabe onde vai parar. Há outro viés da história que diz que ao entrar em qualquer ônibus e alguém dentro dele disser para você descer, significa que ele irá para Setealém. Cabe a você querer ficar dentro do ônibus e não arredar o pé dali ou descer imediatamente.

Se você for aficionado(a) por esse lugar assim como eu sou, você pode dizer em voz alta que deseja ir para Setealém. É óbvio que as pessoas vão te olhar ou você vai encontrar passageiros que queiram fazer o mesmo. Caso sinta vergonha de fazer isso, diga apenas em pensamento. Vale a pena tentar. Mas se você perceber o ônibus sendo conduzido por outro caminho estranho e escuro, você já sabe para onde ele está indo. E nessa hora, não dará para desistir no meio do caminho.

09.  Através de um Ritual

Essa é uma das maneiras mais perigosas de ir para Setealém. Rituais envolvem muitas coisas: energias, objetos, ambientes. A depender do ritual que você estiver fazendo, o seu estado de concentração para acessar aquela energia lhe conduzirá a Setealém. Ou, até mesmo, um ritual que lhe conduza especificamente para lá. Eu não aconselho ser dessa maneira. É perigoso e atrai muitas energias não tão suaves.

10.  Através de Elevadores

Elevadores são misteriosos e muito surreais. Ao mesmo tempo que modernos e divertidos, contam histórias terríveis que já aconteceram ali. Para ir para Setealém através de um elevador é simples: entrar nele, apertar o botão do último andar e fechar os olhos até ele parar, é suficiente para você chegar nesse mundo. Mas cuidado. O risco de o elevador dar um probleminha de funcionamento é grande.

11.  Através de Escadas

Essa maneira de ir para Setealém é assustadora. Pois quando você começa a subir ou descer as escadas na intenção de chegar em Setealém, elas parecem não ter fim. Escolher ir para Setealém de escadas é entrar em uma espécie de looping que pode durar minutos eternos. Isso porque as escadas começam a ficar infinitas e o seu trajeto por elas parece não ter fim. Mas somente assim para conseguir acessar o lugar. Então lembre-se deste detalhe: quanto mais você subir as escadas, mais demorado vai ser para você chegar em Setealém, mas será rápido você voltar, e quanto mais você descer as escadas, mais rápido vai chegar em Setealém, porém mais demorado vai ser para você retornar. Cuidado com essa escolha.

12.  Através de Banheiras

Ir para Setealém após entrar em uma banheira é muito comum e causa muito medo. Até porque em banheiras já aconteceram muitos acidentes, inclusive, mortes. Então, é uma maneira muito sombria, mas você pode conseguir acessar esse mundo quase submerso em uma delas. Só é necessário ter cuidado para não ficar em um estado inerte demais e sofrer algum desmaio, resultando em afogamento. Por isso, a necessidade de deixar alguém próximo a você nesse momento é obrigatória, para que a pessoa te puxe para fora imediatamente, caso haja algum “problema técnico”. Mas cuidado: no desespero, pode ser que o visitante de Setealém acabe puxando a pessoa para dentro da banheira. Bem, eu prefiro não imaginar a confusão.

13. Através do Banho

Outra maneira parecida com a banheira é através do banho. Mas acontece de maneira diferente. No banheiro sabemos o quão fácil é as pessoas chorarem e se sentirem mal, por isso, a aura que ronda na parte do chuveiro é sombria. Ao tomar um banho, a depender do seu estado de relaxamento ou de sentimento, você pode acessar o mundo de Setealém por alguns instantes. É como se você estivesse lá e tudo ao seu redor fosse o ambiente setealemiano. Antes você precisa fechar os olhos enquanto a água cai pelo seu corpo, e logo você vai se sentir no lugar. O problema é o desperdício de água. Cuidado com isso.

14. Através do Pensamento

Sabemos que o que pensamos, atraímos. Pois é o pensamento que cria a vibração de determinada coisa que está rondando a nossa mente, resultando, assim, na criação daquilo. É um processo que faz parte da cocriação. Se concentre, então, se imagine saindo desta órbita e adentrando Setealém, calmamente. E vai se sentir lá, de fato. É a maneira mais simples e mais segura, pois você vai acessar o lugar, estando onde está, apenas através da sua imaginação. Mas cuidado com o seu pensamento, ele pode te levar para Setealém, de fato, e você nunca mais voltar.

Estou apenas brincando. Ou será que não estou?

Lembre-se: Setealém não é brincadeira. Se você brincar com esse lugar, ele também vai brincar com você.

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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O Sobrado Do Meu Avô

A casa do meu avô não possuía nada em sua aparência que tendenciasse quaisquer amedrontamentos da minha parte ou da parte de qualquer indivíduo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A casa do meu avô não possuía nada em sua aparência que tendenciasse quaisquer amedrontamentos da minha parte ou da parte de qualquer indivíduo. Era um sobrado bem bonito, no que diz respeito ao seu esqueleto, porque, por dentro, tinha quase nada; a casa não estava terminada tal como o planejado, faltava as mobílias sob medida, faltava o gesso nas paredes pintadas de branco. A casa era bem clara, tudo meio minimalista. A porta do meu quarto, por exemplo, só foi colocada após umas duas semanas em que eu estava morando lá. Uma porta comum de madeira leve. Com este cenário, eu não imaginava que vivenciaria situações de terror durante minha estadia, a qual durou bastante, visto que morei na residência durante quase toda a minha graduação.

Tais momentos terríficos, no entanto, não foram extremos — talvez, se o tivessem sido, teriam criado menos traumas. Parece-me que situações de horror que confundem nossa mente e perturbam nossos sentidos de maneira tênue têm um impacto gigantesco em nossa vida, mais do que ver o próprio demônio em pessoa. E assim foi com a casa de meu avô. Era um sobrado grande e, por vezes, eu ficava sozinha em seu interior, dado que meu avô trabalhava de madrugada junto com meu tio — eles mudavam de horário a cada temporada, no entanto, a maioria das vezes estavam trabalhando nas madrugadas. Na época em que me mudei eu estava prestes a completar dezoito anos e por lá vivi até os vinte e um. Como mencionei, as situações bizarras não foram descomunais; contarei as mais importantes apenas para que você compreenda a tensão que vivi em certas situações, algo que não se repetiu quando me mudei para minha atual residência. 

Ao chegar no sobrado, eu ainda possuía uma dificuldade que desenvolvi na infância, tratava-se da dificuldade de dormir de costas para a porta do quarto. Isso acontecia porque, entre meus seis a dez anos de idade, eu sentia continuamente uma “presença” atrás de mim quando eu passava pelo corredor da casa da minha avó — a qual morei quase toda a minha infância e adolescência. Isso se transformou nesse temor de adormecer com as costas desprotegidas e, ao contrário do que eu imaginei, a sensação piorou quando me mudei para a casa do meu avô. Para contextualizar melhor, esse sobrado ficava no interior de São Paulo e era do meu avô por parte de pai, enquanto minha casa na infância era de minha avó por parte de mãe.

Não considerei esse receio uma problemática do local, mas não pude deixar de perceber que havia se acentuado. Mesmo com a porta trancada, era extremamente angustiante adormecer de costas para ela, aquela “presença” era insuportável. Como eu já era mais adulta do que criança, acabei me condicionando a não sentir aquilo, desviava a atenção, dormia com travesseiros ao redor e acreditava profundamente que se tratava de uma fantasia da minha cabeça. No entanto, houvera outras situações perturbadoras, uma delas foi sentir a presença na sala de estar enquanto eu usava o computador principal da casa. Eu estava sozinha e conversava com um amigo pelo aplicativo de mensagens online quando percebi que alguma coisa estava estranha naquela noite. Eu lembro que o escrevi: “Estou sentindo um tipo de presença estranha atrás de mim”. O computador ficava em um móvel encostado na parede da sala e, atrás de quem o utilizava, ficava a porta de entrada da casa e a cozinha que não possuía porta. Bem como o lavabo do pequeno corredor e a porta do quarto de hóspedes — que na época, meu avô que usava.

Eu olhava para trás e nada via. Não havia ninguém além de mim. Estava tudo aceso, todas as luzes; e as portas estavam trancadas — todas as portas. Além disso, eu mantinha a televisão ligada, para fazer algum som e me dar a sensação de companhia, uma vez que a casa era profundamente silenciosa. Mesmo assim, aquela bizarra presença, naquela noite, foi aterradora. Tentei, mais uma vez, acreditar que era coisa da minha cabeça, mesmo sabendo que a tal “presença” só era perceptível quando eu me deitava na cama de costas para a porta do quarto ou quando eu passava no corredor da casa da minha avó, eu nunca a havia sentido assim, enquanto estava em um cômodo comum. Lembro que meu amigo me respondera: “Pega o sal” e eu dei risada, embora ele parecesse falar sério. Depois entendi o poder do sal para afastar maus espíritos, segundo algumas religiões esotéricas. Mas, como já mencionei, eu tentava não acreditar no que eu sentia, eu tentava com bastante afinco. Mesmo assim, naquela noite, deixei o sal por perto.

Outra vivência estranha fora de um sonho perturbador que nunca esqueci. Sempre fui muito sonhadora, isto é, até hoje tenho dificuldades de dormir por hiperestimulação da minha mente; tenho contínuos sonhos lúcidos com dezenas de histórias longas e personagens quais parecem completamente independentes de mim, como se fossem mesmo filmes passando pela minha cabeça. Não era diferente na época. No entanto, por alguma razão, de todos os milhares de sonhos e pesadelos, aquele sonho em específico, ficou marcado para mim. Nele, eu saía do meu quarto e tudo estava bem escuro; descia, então, as escadas devagar e, quando chegava ao último degrau, com a visão perfeita da entrada do sobrado, do arco da cozinha e de parte da sala de estar; eu via uma criatura grotesca com cabeça de boi e olhos vermelhos; olhando fixamente para mim. Estava em duas patas, quando, para um animal, deveria estar em quarto. Era gigantesca e, sinceramente, só de me lembrar já me dá um profundo desconforto. Alguns dizem que este símbolo, o boi, poderia ser um alerta de situações difíceis a serem enfrentadas no futuro, como um aviso do inconsciente. Eu não sou supersticiosa, também não sou religiosa; mesmo assim, levando em consideração tudo o que vivi naquela época, até que faz sentido esse significado.

O sobrado possuía um sótão, subíamos até ele por uma escada comum de alumínio, aquelas clássicas escadas de construção ou de trabalhos elétricos. Não possuía nenhuma barreira, era um buraco quadrado no teto do quarto do meu tio e você podia subir por essa escada que ficava ali. Meu tio usava o sótão com frequência para jogar RPG. O problema é que aquele cômodo ficou sem porta por longos meses e aquele maldito buraco escuro no teto do quarto dele me amedrontava. Por isso eu mantinha a luz acesa, de todos os aposentos; e todas as portas que existiam se mantinham fechadas — quando eu estava sozinha na casa. Esse buraco no teto era perturbador; diversas vezes sonhei que algo mórbido saía daquela escuridão do sótão — algo que eu não via, mas sentia; e eu evitava subir lá. Talvez você questione ser, tudo isso, fantasia de uma mente criativa e, bem, se hoje sou escritora de terror, decerto que tenho uma mente criativa; mas essas situações que vivenciei, tenho certeza, foram culpadas de minha inclinação para esse tipo de escrita sombria.

Com o passar dos meses e dos anos, meu quarto era o único cômodo em que eu não me sentia mal. A sensação foi aumentando de forma absurda, então eu passava quase todo o tempo fechada no meu quarto e evitava ao máximo todos os outros cômodos da casa, em especial à noite. Era um incômodo espiritual, diferente de um medo qualquer, mesmo com as luzes acesas, mesmo com outras pessoas presentes. Depois de um tempo outras pessoas vieram morar na casa, aí deixou de ser mal-assombrada e passou a ser mal-frequentada rsrsr. Brincadeiras à parte, eu nunca esqueci nada disso e me pergunto até hoje o que significava tudo aquilo e porque só eu parecia atormentada por tais sensações bizarras. Sei que pode não parecer tão terrível, porém, para mim, era sufocante e até hoje, sempre que sonho com a casa, é um pesadelo. Hoje mesmo, só estou escrevendo isso porque tive um. Eu estava gravando um curta-metragem, eu parecia morar na residência. Tudo estava muito escuro e eu gravava, falava com a câmera. A casa estava diferente, mas era ela, era o mesmo sobrado.

Todavia, ao descer as escadas, eu retornava para o mesmo lugar da casa em que eu estava. Era sem fim. Como um espaço liminar. Eu descia e estava sempre naquele pequeno hall entre o quarto que era meu, o que era do meu tio e o que se tornou o quarto do meu avô. Então, no sonho, no quarto do meu tio havia, digamos, uma pessoa esquisita, com olhos fundos, uma feição macabra como de um psicopata. E ele chegava cada vez mais perto de mim. Essa pessoa tem nome e face reais, ela existe, mas não a mencionarei aqui por ser, afinal, um relato real da minha experiência e, portanto, essa pessoa pode facilmente ler o que escrevo e se identificar com as situações narradas. Por hora apenas posso dizer que o indivíduo era tão bizarro quanto no sonho que tive e ele estava sempre por perto, parecia um abutre — como sempre pareceu, só que pior; então, além das paranormais sensações da casa, eu ainda tinha que lidar com um tipo de stalker impertinente que tinha acesso à casa e, sinceramente, era fácil ter acesso àquele sobrado, porque na época nem a porta da frente era trancada — passou a ser trancada comigo. Estou feliz por hoje não viver mais lá e me apego às boas lembranças para que essas coisas ruins não sobressaiam. Pelo menos, tenho histórias para contar.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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