Pergaminho de Requiem
O hálito gélido do Norte não trazia apenas a neve, mas o cheiro de cobre e seiva podre. O vilarejo, outrora um bastião de carvalho e honra, era agora…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O hálito gélido do Norte não trazia apenas a neve, mas o cheiro de cobre e seiva podre. O vilarejo, outrora um bastião de carvalho e honra, era agora um cemitério cromático. Sob o céu de um anil turvo e profundo, as flores não apenas desabrochavam; elas pariam horrores. Pétalas de marfim retorcido abriam-se em rostos pareidólicos que vertiam um sangue viscoso, e o vento, soprando sobre as Dunas Múrmuras, carregava o som de mil gargantas secas que tentavam, em vão, articular uma prece. O rio Magöhorror brilhava com uma bioluminescência maligna, transmutando a fauna em carcaças que se recusavam a repousar.
No centro do incêndio, onde o fogo lambia as vigas de madeira com uma fome de lobo, a garota de cabelos prateados como o luar de inverno via o mundo desmoronar. O calor das chamas era a única coisa que ainda a lembrava de que estava viva, enquanto criaturas de pele rachada e olhos vazios avançavam com a lentidão de um pesadelo inevitável. Foi quando o trovão metálico ecoou. Um cano longo e dourado cuspiu fogo, e a cabeça do carniçal mais próximo explodiu em um spray de polpa negra e fragmentos de osso.
Uma mão forte a puxou para as sombras. O homem tinha o olhar de quem já viu o fim de muitos mundos — uma esmeralda melancólica emoldurada por cicatrizes que cortavam sua beleza como sulcos de arado em terra morta. Ele não disse nada enquanto a guiava por passagens esquecidas até o ventre de uma gruta oculta por uma cortina de água estrondosa. Ali, o som da cachoeira abafava os gritos lá fora, criando um santuário de umidade e silêncio sepulcral.
Ela o observava enquanto ele limpava o sangue da arma, o silêncio entre eles mais pesado que a pedra acima de suas cabeças.
— Por que não impediu? — a voz dela era um sussurro quebradiço, o eco de uma esperança morta. — Você estava lá. Você via tudo.
Ele parou o movimento da flanela sobre o metal gravado. O brilho da tocha revelava runas que pareciam pulsar no cano da pistola.
— Há correntes que nem o aço mais forte pode cortar. O que você viu não é uma praga deste solo. É o cosmos sangrando. A energia que vaza das fendas da existência escolhe o que há de mais belo para corromper. As flores... elas são apenas os receptores mais sensíveis para essa escuridão.
Ele estendeu a mão, oferecendo um pequeno projétil de ouro. Símbolos arcanos estavam cravados na ogiva, emanando um calor antinatural.
— De onde eu venho, caçamos o que o resto do universo tenta esquecer.
— E quem é você? — ela perguntou, os dedos roçando o metal místico.
— No dialeto das minhas terras, chamam-me Leornn. — Ele fixou os olhos nos dela, buscando o rastro de força em meio ao prata de seus cabelos. — E você, portadora da neve?
— Clariegra — respondeu ela, sentindo o peso da bala na palma da mão.
Ele abriu um volume de couro curtido, cujas páginas pareciam feitas de pele humana. O cheiro de enxofre e sangue velho emanou do livro.
— Se quiser que o sol de amanhã signifique algo mais do que o início de uma nova agonia, aprenda. O sangue deles é o catalisador. A carcaça é o invólucro. Use a morte para ferir o que não pode morrer.
O amanhecer trouxe um sol pálido e doentio. O som ranhado de unhas contra a rocha anunciou que a trégua terminara. As criaturas, atraídas pela vibração das almas ainda quentes, escalavam as pedras úmidas. Leornn ergueu a pistola dourada, o olhar esmeralda fixo no vazio.
— Prepare o grimório, Clariegra. O banquete começou.
O aço e a magia se fundiram no ar saturado de neblina. Cada carniçal derrubado era uma fonte de matéria-prima. Entre o disparo e o golpe, eles colhiam o fluido negro e as vísceras místicas, forjando sob pressão e desespero as ferramentas de sua sobrevivência, enquanto o mundo lá fora continuava a ser devorado pela beleza letal da vêsffera sensiflora.
A névoa na gruta não era feita apenas de água; era o suspiro acumulado de séculos de solidão da pedra, agora misturado ao cheiro metálico da pólvora e ao odor adocicado da morte que pairava sobre eles. Clariegra sentia o peso do grimório em suas mãos, as páginas de pele pareciam pulsar contra seus dedos, uma biblioteca de dores antigas esperando para ser lida. O primeiro raio de sol, pálido e doentio, penetrou a cortina da cachoeira, não como uma promessa de esperança, mas como um holofote sobre a carnificina que os aguardava.
— O sangue deles é a tinta, Clariegra. — A voz de Leornn era um trovão baixo, ressoando na acústica da caverna. — O grimório é o papel. A sua vontade é a pena. Escreva a sua própria sobrevivência.
A primeira criatura rompeu a névoa. Não andava, mas se arrastava, uma abominação de membros alongados e pele que parecia casca de árvore queimada. Seus olhos, buracos vazios de escuridão, encontraram os de Clariegra. Houve um momento de reconhecimento silencioso, um eco de humanidade que se recusava a apagar. Clariegra viu, nas feições distorcidas, os traços de Elara, a padeira da vila, cujas mãos uma vez moldaram pães quentes e cujos olhos sempre sorriam para ela perfurou o peito. Não era a dor do medo, mas a dor da perda, a dor de ver a beleza de uma vida transformada em uma monstruosidade grotesca. O mundo ao seu redor pareceu desacelerar, o som da cachoeira abafado pelo batimento cardíaco frenético em seus ouvidos.
— Use a dor — comandou Leornn, sua voz agora uma âncora na tempestade emocional de Clariegra. — Transmute-a em poder.
Clariegra respirou fundo, o ar frio e úmido queimando seus pulmões. Ela abriu o grimório, suas páginas se abrindo como feridas expostas. Suas mãos, tremendo, traçaram as runas que pareciam queimar em sua mente.
O fluido negro, colhido dos corpos caídos, começou a ferver no grimório, emanando um calor antinatural.
A criatura que já foi Elara avançou, um rosnado gutural escapando de sua garganta.
Clariegra sentiu a magia fluir através dela, uma torrente de energia que parecia consumir sua própria essência.
Ela carregou a pistola com aquele orbe de sangue e disparou, uma explosão de luz prateada que envolveu a criatura. O carniçal gritou, um som que não era deste mundo, um lamento de dor e desespero.
Seu corpo começou a se desintegrar, a pele de casca de árvore queimada se desfazendo em cinzas.
Clariegra assistiu, com lágrimas nos olhos, enquanto a criatura que já foi sua amiga desaparecia no ar.
— Ela está livre agora — disse Leornn, sua voz suave por um breve momento.
Quando o sol finalmente começou a descer no horizonte, tingindo o céu de um carmesim doentio, a batalha cessou. A gruta estava silenciosa, exceto pelo som da cachoeira e pelo suspiro exausto de Clariegra. Leornn limpou o sangue de sua pistola dourada, seu olhar melancólico fixo na névoa que se dissipava.
— O mundo lá fora está em cinzas — disse ele, sua voz vazia de emoção.
Clariegra sabia que ele estava certo. A vila que ela uma vez chamou de lar era agora um cemitério cromático, as flores de vêsffera sensiflora desabrochando em horrores pareidólicos. Ela sentiu uma pontada de tristeza, uma saudade dolorosa da vida que ela conhecia.
Eles deixaram a gruta, caminhando pelas Dunas Múrmuras em direção à vila. O vento carregava o som de mil gargantas secas, um lamento constante que ecoava em seus ouvidos. Clariegra sentiu o peso do grimório em suas mãos, uma lembrança constante da escuridão que ela agora carregava consigo.
Ao chegarem na vila, Clariegra foi dominada pela visão de destruição. As casas de carvalho estavam reduzidas a cinzas, as vigas carbonizadas pairando no ar como esqueletos de um passado esquecido. O cheiro de queima e de morte era avassalador, um lembrete constante da beleza letal da vêsffera sensiflora.
Clariegra caminhou pelas ruas em ruínas, seus pés pisando nas cinzas de sua vida anterior. Ela sentiu uma solidão avassaladora, uma sensação de perda que parecia consumir sua própria essência. Foi quando ela ouviu um choro fraco, um som de dor e desespero que partiu seu coração.
—Platina? Ela exclama.
— Clari…egra? A criança incapaz de terminar a sentença, estava gravemente ferida açoitada pelo sangue daquele acontecimento,
— O que… o que houve? Clariegra estava trêmula ao ver aquela pobre criança naquele estado.
— Mortos-vivos, eles eram muitos, grunhindo, mastigando, entre eles estava um homem de armadura escura, um semblante terrível ele parecia um demônio, mas era humano, ele me pegou pelo pescoço e ordenou que eu dissesse onde estava Arale ou se eu conhecia tal moça, eu disse que não, então ele me apunhalou e me arremessou aqui…
—Calma… você vai ficar bem…
A garota cuspiu sangue e tossia enquanto gemia, a vida estava se apagando de seu globo ocular.
— Clariegra, só mais uma coisa, ele procurava um pergaminho e… obrigado por ser minha amiga...
—Platina? Platina…
Clariegra chorou com uma expressão de ódio e sentindo-se totalmente perdida.
— Arale? — Pergaminho? — Leornn por favor me ajude.
— Sim, não vou te abandonar, exatamente por isso estou aqui para encontrar Arale também…
Os olhos de Clariegra se arregalam, quem é Arale?
Leornn dá um sorriso de canto de boca e carrega sua arma.
— Abra o seu Códex Sangria e você vai descobrir.
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Fraghvora: Parte 1
Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz…
“Meu cerne, lá reside mi’a verdade,
E pulsa, aqui real, eu lhe confio;
Ó sendo-me os sentidos finidade,
Sê olhos, coração, ao meu destino.”
— Dandeliz Ffaemor
Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz. Ela corria descalça, circundada pelo opaco gris e envolvida pelo véu do medo. Seus pés sentiam a textura agressiva dos caminhos nebulosos, cheios de pedras e cascalhos que por vezes a feriam. Entretanto, n’um estranho momento, seus passos a levaram ao silencioso precipício e seu corpo se prostrou a uma queda abrupta; rendendo-se à gravidade. Seus olhos fitaram a escuridão quando, n’um suspiro sôfrego e célere, hora em que devia cair, ela ouviu o estrondo da intempérie nascida lá fora. O vento frígido torceu as cortinas violentamente, virou as páginas dos livros na escrivaninha e, por fim, desenfreado, soprou os lençóis — tudo no mesmo segundo.
Antes que pudesse compreender as imagens daquele sonho, Dandeliz levantou-se para socorrer a si, trancando os vitrais que se abriram com a ventania e recolhendo a bagunça deixada sem permissão. Em menos de dois minutos, a chuva caiu com o mesmo terror que a névoa a cingira em seu plano onírico. Sentiu-se apavorada e segurou seu candeeiro, acendendo-o com o último nittos da caixa. Caminhou apressada para a biblioteca que ficava no porão, contornando a escuridão com o singelo resplandecer de sua iluminação pálida.
O sibilar do vento, a chuva violenta, os clarões e o ensurdecedor estrondo a cada átimo, era tudo insuportável demais para sua sensibilidade. Ela estremecia, em especial as mãos que, infirmes, faziam oscilar a chama do candeeiro. Seus passos se apressavam mais agônicos que há pouco.
P Para chegar ao seu destino — o qual era o mais distante da tormenta inominável que afligia o seu espírito tanto quanto perturbava toda a província naquela lutuosa noite —, Dandeliz tinha de, inevitavelmente, passar por aquele... corredor. Não era por causa da densa escuridão, tampouco pelas heras que, quão estranho, nasceram nos vasos mortos — com terra nunca adubada ou regada — e subiram pelas paredes perseguindo rachaduras e enraizando-se em fendas. A sua angústia vinha, especialmente, daquela parede que estreitava, ainda mais, a passagem.
Repleta de dodecaedros ornamentais de vitrita mortis, a parede do corredor lumiava a cada relâmpago e, igualmente, diante da tênue chama do candeeiro. De valor incalculável, os dodecaedros foram lapidados pela mãe de Dandeliz e, o material, minerado por seu pai. Ambos tinham boas intenções, mas estavam cientes de que tal ofício de mineração e lapidação os levaria à morte lenta e agônica — embora a fé os fizesse crer que, com eles, por algum tipo de milagre, seria diferente.
Vitrita mortis fora nomeada de tal modo não por acaso, era um mineral tóxico, de beleza vítrea e enegrecida, altíssimo índice de refração, repleto de nuances em tom de rosa-empoeirado e prata brilhante. Resplandecia, espelhava e, acima de tudo, seduzia. Quaisquer indivíduos dispostos a explorar tal raridade não viviam o suficiente para desfrutar da riqueza de sua comercialização. Os pais de Dandeliz, ao menos à princípio, sabiam que deixariam uma fortuna para sua menina — ainda que de maneira tão trágica.
O mineral exalava um incolor gás fatal quando posto sob pressão, altas temperaturas, atritos ou cortes. Estranhamente, sua toxicidade possuía recendência, isto é, fragrância! Algo jamais visto pelos gemólogos. A mãe de Dandeliz descrevera em seu diário: “O bálsamo que sinto é inebriante… um perfume arabesco… marcante como dama-da-noite, intenso como lírio, quente como cashemeran… um tanto ferroso e com algo a mais… indescritível… porventura groselha negra, laranja amarga… notas do que eu jamais poderia nomear...” — já envenenada há semanas, falecera na primavera, assim que o refinamento do último dodecaedro fora concluído.
Dandeliz nunca vendera os cimélios herdados, mesmo com a insistência do médico da família que estudava os sintomas finais do envenenamento do pai de Dandeliz: sinestesia necrosada e eco respiratório. “Porventura possamos encontrar a cura, desde que possas pagar para levá-lo à capital de Sihren” — dizia.
“Estes objetos são amaldiçoados, Dr. Voreau; vindos sob o custo da vida de mamãe e, também, de papai; eu sinto, doutor... uma intuição estranha que me diz que não há cura para tal horror...” — Não havia mentira nas dores enraizadas de Liz. Seu pai falecera no verão do mesmo ano e, desde então, a magnum opus estivera na parede, vívida, refletindo e resplandecendo.
— Algo emana disso... algo que me arrepia a pele... que me terrifica... — sussurrara a si logo em que chegou às margens do corredor escuro. — Caminhar devagar, olhos à frente... são apenas alguns passos...
A vereda era a mesma, entretanto, quando Dandeliz dera cinco passos à frente, já tão próxima dos diamantinos de vitrita mortis — nome cujo significado, devo dizer, é “viúva da morte” — a luz fugaz trouxera o violento trovão, iluminando o estreito lugar, criando sombras estarrecidas e horripilantes por causa das heras que pendiam do teto e, como se não bastasse, o vento ensandecido do lado de fora fez mostrar-se em ira outra vez. Tão logo abrira com força irremediável a janela à frente da parede mórbida, soprando com intensidade maligna. E os relâmpagos, irradiando luz, criavam luminescência rosê-prateada nos dodecaedros — o que rapidamente chamou a atenção de Dandeliz. Seus olhos se arregalaram e ela fitou, em todos os detalhes perfeitos, a parede esculpida. Gotículas da chuva lúgubre rapidamente tocaram as pedras preciosas. Dandeliz não pôde desviar o sua atenção.
Era mesmo perfeito... pareciam tão símeis a ela... os tons rosê-gris... como sua pele pálida e fria, como seus olhos e cabelos rosa-opacos. Ela não se lembrava do quão bela era aquela obra de arte ornamental — a qual se recusava a olhar há dois anos. O choro das nuvens invadiu o corredor e as heras, frágeis, eram arrancadas com o sopro. O assovio do vento e sua gelidez pareciam rasgar a tez de Dandeliz que usava tão somente um damanoute aveludado. Mas, com calma fúnebre, ela fechou a fenestra, sem tirar seus olhos dos brilhantes minerais. E mantendo-se igualmente serena, apertou o pavio do lume em seu candeeiro, dando poder à escuridão. Assim via melhor o reflexo irradiante das infinitas facetas perfeitamente alinhadas n’uma estrutura geométrica precisa. Era mais que magnífico, porém, era sombrio e... ameaçador.
— Groselha negra... laranja amarga... cashemeran... — sussurrou Dandeliz, lembrando-se das palavras de sua mãe e sendo invadida pelo perfume mortal de cada dodecaedro à sua frente. Como era possível? Não havia nada que os pudesse oprimir, nada que os superaquecesse, nada que danificasse as estruturas dos diamantes... ou havia?
Ainda em torpor, fitou de perto cada um deles, buscava quaisquer sinais de rachaduras para entender o que ocorria. Sem saber o que fazer, e sob um encanto cruel, viu apenas seu próprio reflexo — algo que não fizera até então, pois era tragada pelos detalhes lapidados, pelas nuances em rosa-empoeirado e pelo lúgubre brilho prata-escurecido. E viu-se. Sua face delicada, seu semblante de admiração.
E viu também um imenso castelo atrás de si; contornado em simetria obscura, com altas torres pontiagudas e um infinito oceano aos seus pés; e viu voar um pássaro, talvez uma variante da espécie Ramphastos-toco; era albino do grandioso bico às penas macias. Voltou-se à janela atrás de si, para tirar a prova de que não estava delirando. O Castelo não estava lá fora, tampouco o tucano pálido. Retornou aos dodecaedros e novamente viu o Castelo e o pássaro, pareciam viver nas vitrita mortis lapidadas, presos pela eternidade.
Dandeliz aproximou-se mais, estava sim amedrontada, porém, não bastasse a beleza daquelas preciosidades, o Castelo e o pássaro lhe despertaram uma curiosidade incontrolável — vinda de seu ceticismo, pensava estar sonhando ainda. Precisava de alguma prova de que aquilo fazia parte de sua realidade. Ergueu sua mão esquerda, úmida e com algumas folhas intrusas atadas ao orvalho da pele, e tocou o dodecaedro central. A vitrita mortis era fria e o encontro de tez e mineral fez um líquido rosê-prateado emergir do núcleo da pedra.
Liz buscava um significado para tudo aquilo, sufocada na essência com notas arabescas de lírio e dama-da-noite. O líquido contornava os dedos de sua esguia mão, criando caminhos tortuosos como raios que pareciam, aos poucos, invadi-la, atravessando seus poros e mesclando-se ao seu sangue, das veias às artérias, esfriando-a. Não era possível afastar-se do liquor rosê-gris, não havia temor nas emoções confusas de Dandeliz; o bálsamo que pairava parecia serená-la e a frigidez que empalidecia sua derme, não lhe causava dor alguma. Era, em verdade, de um maravilhamento esplendoroso.
Até o instante em que Dandeliz perdera a consciência —tendo a visão cegada e a realidade dissociada. Seu corpo estava gélido e frágil, tão fácil de cair à terra úmida e por ela ser consumida à sete palmos. Entretanto, Liz respirava —vagarosamente. Ouvia seu coração pulsante — como um longínquo badalar. E em determinado momento, sonhou.
Uma criatura inimaginável olhava-a: era alado, alvinegro, capaz de sobreviver sob tenebrosos oceanos tanto quanto áridas terras. Rosto de face pareidólica, lembrando humano e inseto; três grandes olhos lunares e lívidos, quelíceras retráteis na mandíbula, guelras em partes do abdômen, asas de libélula e articulações filiformes, espinhosas e retorcidas — um corpo adaptado ao impacto de mundos. Era tão sombrio e assustador que fez Dandeliz despertar por seu próprio grito — um pouco contido, mas ainda ecoante. O Castelo estava no horizonte, ouvia-se a maré calma do infinito oceano e, o pássaro, do alto carvalho seco, parecia apreensivo.
— Despertastes! — dissera o tucano albino, com voz suave, um barítono fora do comum. Dandeliz sentiu-se turva, levou suas mãos à cabeça, tocou sua pele fria. Lembrou-se da criatura e arrepiou-se. Mirou, portanto, o dono daquela voz e lembrou-se dele de imediato.
— Eu... tu estavas preso naquela pedra de vitrita mortis... se estás aqui... então estou igualmente presa? — questionara, um pouco hesitante. O tucano albino voou para mais próximo dela.
— Não compreendo tua indagação, poesia. Estive aqui desde sempre, sinto-me livre. Talvez ainda estejas confusa. — O tucano usava um par de óculos redondo para leitura, Dandeliz percebera e aquilo, de alguma forma, acalmou seu coração agitado. — Bem, tome isto e te sentirás melhor. — Entregou-lhe uma xicara esculpida em cerâmica, nela havia uma bebida cor marfim.
Textura de leite, levemente aquecido; notas de avelã, curva de paladar amargo como café; mas doce, com um granulado de sabor floral — este era o gosto daquela bebida e Dandeliz adorara, tomando-a por completo. De fato, embora não instantâneo, foi cingida por uma melhora considerável em seu estado franzino.
— É estranho, pois há pouco eu estava em minha casa, sob a ameaça de uma tempestade sombria. E eu observava aqueles diamantes amaldiçoados... e agora estou aqui. — O tucano respirou fundo, dedicado a compreendê-la.
— Deixe-me pensar... dos livros que li, das histórias que ouvi, nada se assemelha ao que me contas. Entretanto, posso te guiar ao Castelo de Olga e decerto lá encontrarás as tuas respostas. — Dandeliz empolgou-se com a possibilidade de talvez entender tudo aquilo, sua feição denunciara. — Devo, no entanto, alertá-la, e o faço com apreço, há muitos perigos neste mundo, poesia, e parte considerável deles reside no interior daquele alcácer. É belo, decerto, magnífico... — O pássaro abaixou a cabeça, como se ponderasse tristemente.
— Mas... é também um abismo de criaturas que devoram almas, que se alimentam de medo e sugam sangue e memórias. — Dandeliz lembrou-se da criatura em seu sonho.
Trépida, e sob um silêncio de temor, Liz olhou para cima, buscando um resquício de céu anil que lhe contasse sobre esperança e força — tal como sua mãe fazia na infância ao ler-lhe fábulas ricas em otimismo; porém, acima só havia nuvens rosê-gris carregadas de pranto melancólico; um mar de plangor que nunca desaguava.
— Poesia, se posso me atrever a tal, gostaria que me dissesses o teu nome, embora “poesia” seja bem adequado à tua imagem. — O tucano albino quebrantou os pensamentos remotos de Dandeliz. Eles se olharam enquanto a noite caía devagar.
— Dandeliz Ffaemor, de Numnura, província do reino Sihren. — dissera, como de costume em sua cultura.
— Que intrigante... anseio saber mais de Numnura... — Um desconforto silente nascera no pássaro. — Já Sihren, conheço muito bem... — Ele hesitou e tossiu. — Sou Penttur, a propósito. Sempre me encontrarás neste carvalho, admirando a estranha mutação das terras amargas da Imperatriz, estudando-as dia após dia.
— Penttur... vejo que muito sabes. Guia-me, te peço, não apenas ao Castelo, mas ao conhecimento de onde estou... sinto que... talvez... esteja sonhando ou... em um póstumo estágio... — Penttur dilatou suas pupilas em surpresa.
— Não, não, não, doce Dandeliz, este mundo não é um purgatório. — Voou Penttur, e os olhos de Liz acompanhavam sua dança nos ares. — Vês? Tampouco um sonho ao qual se pode acordar. — cantarolou ao retornar. Estendeu sua asa direita. Era como veludo, e tinha nuances de um bege níveo sobre a brancura levemente resplandecente. — Pareço-te irreal? — Dandeliz tocou-lhe as penas, encantou-se com a maciez; entretanto, a estranheza lhe consumia em dúvidas umbríferas. O outrora ainda lhe era uma incógnita.
— Todo o sonho soa real, Penttur, até que despertemos dele.
— Oh, sim... tu despertaste então, como te disse. Há quem te possa comprovar que tu não sonhavas com uma intempérie obscura e diamantes mórbidos?
— Creio que não, o despertar só o é porque nos devolve as memórias, elas são o solo estável da realidade. E daqui não tenho nenhuma recordação... nunca vi tal Castelo, jamais encontrei este carvalho. No mundo de onde vim, tive um início; nas terras debaixo da intempérie eu vivi uma linha do tempo imersa em significados que nunca olvidarei.
— Talvez este seja o teu início, Dandeliz. Nem todos os inícios são iguais. — Penttur demonstrou-se mais sério, envolvido por uma preocupação genuína acerca de Liz.
— Este? Desta forma? Sem nascer bebê, com pais adoráveis, n’um lar aquecido? Como é possível?
— Anoitece, poesia. Vamos à minha cabana, longe dos horrores noturnos, e lá te revelarei tudo o que sei sobre ti e sobre este reino. — Penttur voou.
E Dandeliz, já tão instigada, levantou-se e pôs-se a caminhar, despedindo-se do sereno oceano infindo e seguindo o fabuloso voo do seu amigo tucano. Em seu âmago, ela anelava ouvir cada detalhe; seu coração pulsava por desvendar os segredos daquela realidade inacreditável e, este pulsar — mais vívido que outrora e, portanto, cheio de certeza inabalável —, lhe dava vigor para enfrentar seu profundo medo do desconhecido.
Sahra Melihssa
Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Vingança de Sophítria
Sou última nascida em sangue e cinzas | Carrego a carapaça de osso e fúria, | Amálgama d’outrora em boas-vindas | À Vila Séttimor em sua lamúria;…
Sou última nascida em sangue e cinzas
Carrego a carapaça de osso e fúria,
Amálgama d’outrora em boas-vindas
À Vila Séttimor em sua lamúria;
Queria eu me olvidar, mas a lembrança
É símbolo da vida atemporal,
Em todos cá resiste uma esperança
Que nunca sentirei assim, vestal...
As sete mortes sei que a mim virão
E tenho de o facínora encontrar,
Jamais eu lhe darei qualquer perdão!
Se vim à Séttimor com tal olhar
Cravado na memória, há um motivo...
Dos órgãos meus, perfume efusivo...
Naquele grã-Castelo há de habitar.
Sahra Melihssa
Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
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Velian: O Banquete da Noite
Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra fora reencontrada — mas agora não havia nostalgia nem peso: o que ardia em sua alma era sede, não de simples sangue, mas de corpos, de jogos, de poder e vertigem. É que o vampiro intuía agora que de nada ou de pouca coisa valia seus esforços por encontrar sentido último na vida. Por meio de seus encontros atrozes com a deusa Nix, Velian entendia que, por mais magia que estudasse, não iria descobrir uma verdade última sobre a vida, que era imensa e se desdobrava demais até para ele. Com isso, o vampiro não pretendia deixar de lado seus estudos, pois percebera que sempre haveria mais coisas para entender, e, no processo, ficar ainda mais forte e poderoso.
Da varanda alta de um edifício antigo, o vampiro contemplava a cidade. Fortaleza estendia-se como uma tapeçaria noturna de luzes, fumaça e mar distante. E apesar de o vampiro admirar a cidade de vez em quando, ele não buscava beleza contemplativa; buscava movimento, carne, pulsares. Com um sorriso enviesado, lançou o chamado: não súplica, mas desafio. Convocou Cassandra por meios telepáticos. Não a queria como lembrança, mas como chama. Queria testá-la, tê-la ao lado, enfrentá-la no terreno mais fértil da luxúria, onde Cassandra era muito boa, melhor que ele na maioria das vezes, ele reconhecia. Só que, desta vez, o vampiro não se importava com quem fosse ganhar, se todos, no final, fossem ter prazer. O vampiro também se sentia recarregado em seu interior e sentia que estava preparado para Cassandra.
Ela veio. Surgiu como sombra lasciva em meio à escuridão e o breu do prédio em que Velian estava, o vestido colado à pele como promessa. Entre os dois, não havia saudade, apenas provocação. Ele a olhou como quem devora; ela riu como quem jamais se deixa conter. "Dessa vez foi rápido." — pensou o vampiro. Velian ainda não conhecia muito bem o poder da teletransportação, o vampiro precisava voar e percorrer longos caminhos, ainda que rápido, para chegar aos seus destinos.
— Ainda és capaz de me surpreender, Velian? — ela sussurrou, deixando o hálito frio roçar-lhe o pescoço.
— Não preciso surpreender, Cassandra. Preciso apenas… consumir.
A cidade se abriu para eles como palco obsceno. Primeiro, a boate pop, onde corpos reluzentes dançavam sob luzes de néon: ali sugaram a vitalidade de um casal, jovens que tremiam entre o medo e o êxtase. Depois, o subterrâneo rochoso do rock, onde o suor misturava-se ao sangue — um beijo rasgado em meio aos gritos das guitarras. Mais adiante, o caos punk, onde corpos se chocavam, e Velian se embebedou do gosto amargo de um rebelde, rindo ao ver Cassandra deixar marcas profundas nos ombros de uma mulher andrógina que se oferecia como oferenda. Por fim, o delírio ciberpunk: máquinas e carne, implantes cintilantes, olhos de néon. Ali, eles foram de todos e de ninguém — sorvendo, possuindo, misturando-se até que a madrugada não tivesse mais fronteira.
E então veio o chamado. Não humano, não terreno. Um som grave, como se as paredes vibrassem com a respiração de algo antigo. O ar magenta se adensou, dissolvendo a boate ciberpunk em ruínas úmidas. Diante deles erguia-se o Castelo Drácula, vivo, pulsante, enraizado em sombras.
Velian e Cassandra trocaram um olhar de puro gozo: a noite apenas começava.
Entraram. No salão principal, criaturas os aguardavam. Vampiros menores reverenciavam ou invejavam sua presença. Fantasmas serpenteavam, oferecendo toques frios como beijos eternos. Lobisomens os observavam com uma fúria erótica, como se o desejo fosse tão grande quanto a raiva. E, entre colunas que se erguiam como membros retorcidos, pairavam entidades mais antigas — quase divinas, encarnações da noite e do prazer.
Tudo respirava sob o signo do magenta profundo: cor entre o rosa mórbido e o vermelho do sangue, ardendo como febre nos vitrais e nas peles. Cassandra gargalhou, e sua risada ecoou como chicote. Velian apenas abriu os braços, como se o castelo inteiro lhe pertencesse.
Ali, não havia mais mortais, não havia mais limites. Apenas a noite, o desejo e o abismo. E Nix, Senhora da Noite, invisível, mas presente, erguia-se como símbolo absoluto, assistindo ao jogo de poder e luxúria entre seus filhos imortais.
A Noite Magenta reinava.
O salão respirava como uma garganta viva. Cada sombra parecia observar, cada sopro de vento trazia perfumes de sangue e de incenso queimado. Cassandra caminhava como se fosse a própria sacerdotisa da luxúria. O vestido desfazia-se em transparências, e dela emanava a volúpia de uma rainha indomada. Velian a seguia com olhos cerrados de desejo e ironia, consciente de que a provocação dela só o inflamava mais.
Dizes que me consomes, Velian… — Cassandra deixou escapar num murmúrio rouco. — Mas e se fores tu o devorado?
— Que me devorem então — respondeu, mordendo-lhe o pulso delicado.
O sangue escorreu quente, vermelho e febril, e ambos sorriram como predadores cúmplices. Ao redor, os convidados da noite se aproximavam. Uma vampira jovem, de olhos cinzentos, ajoelhou-se diante de Cassandra, oferecendo-lhe o pescoço. Cassandra aceitou com a delicadeza cruel de quem colhe uma flor para logo esmagá-la. Velian, observando, riu baixo.
— Sempre a rainha de súditos desesperados.
— E tu, sempre o cavaleiro que finge desdém, mas não resiste a entrar no jogo.
Um lobisomem se ergueu da sombra. O corpo musculoso, marcado de cicatrizes, observava-os com fúria erótica. Velian estendeu-lhe a mão e, num gesto inesperado, arrastou-o para perto. Beijou-lhe a boca com violência, arrancando-lhe um uivo de prazer e dor. Cassandra gargalhou, e o eco da risada fez os fantasmas estremecerem.
Velas altas ardiam em magenta, tingindo as paredes de febre. Entre colunas retorcidas, ninfas espectrais surgiam — seres de pura energia que tocavam com mãos etéreas, provocando tremores de êxtase. Uma delas deslizou por entre Cassandra e Velian, sussurrando um canto sem palavras. Velian fechou os olhos: o toque frio era como mergulhar em abismos de desejo sem fundo.
No centro do salão, uma mesa de pedra negra cobria-se de taças com sangue aromatizado por flores espinhosas. Ali, Cassandra puxou Velian pelo colarinho e o empurrou contra a superfície dura. O beijo deles foi brutal, quase uma batalha.
— És meu inimigo e meu deleite — ela sussurrou.
— E tu, Cassandra, és minha perdição favorita.
A sala inteira parecia vibrar em torno deles. Os outros seres — vampiros menores, fantasmas, lobisomens — não apenas assistiam, mas participavam, entregando-se a toques, beijos, mordidas, formando uma espiral orgiástica de desejo e violência. A noite pulsava como um coração colossal.
E, acima de tudo, Nix, Senhora da Noite, pairava invisível, mas inegável. Velian sentiu sua presença como sopro no pescoço, como mão invisível sobre o peito. Era mais que luxúria: era o eterno chamado da escuridão, o ventre cósmico de onde nascia o desejo.
Por um instante, Velian fechou os olhos. O tempo não existia — apenas ciclos de prazer, sangue e silêncio. A melancolia se dissolveu no delírio magenta, e até o vazio se transformou em alimento.
Era ali, entre o amor e o abismo, que agora ele se sentia mais vivo.
Ninfas dançavam entre pilares de pedra, seus corpos translúcidos refletindo tons rubros, que se misturavam à penumbra do castelo. Velian sentiu o chamado: não havia necessidade de força, apenas de entrega ao êxtase que o rodeava. As criaturas o cercavam, e cada toque era como eletricidade: não física, mas metafísica, percorrendo a sua forma vampírica em ondas de calor e frisson. O desejo era profundo, não vulgar — um trago da própria eternidade.
— Velian — murmurou uma voz etérea, deslizando pelo corredor como fumaça de incenso. Era uma das ninfas, seu corpo esculpido em curvas impossíveis, os olhos refletindo auroras de cores também impossíveis — Você sente? Não é fome, não é sede. É vontade de tudo possuir, e ainda assim nada deter. É o prazer do infinito que nos rodeia.
— Sinto — respondeu Velian, a voz baixa e rouca, reverberando nas paredes úmidas — Sinto o vazio e o desejo, tudo ao mesmo tempo. Sinto o poder de existir, mesmo sem precisar do desespero.
— E ainda assim há ironia em ti — disse outra presença, um fantasma andrógino que se aproximava por entre as colunas, roçando sua essência contra a aura de Velian — Tens força para moldar mundos, e escolhes caminhar por entre sombras, provando prazer do etéreo. É humano demais, ou vampiro demais?
O Castelo Drácula os envolveu com seus corredores labirínticos, onde o tempo se curvava e cada sombra parecia palpitar com vida própria. Velian, pulsando com uma energia voraz e confiante, sentiu a presença das criaturas — fantasmas translúcidos, ninfas que ondulavam entre a penumbra, e seres andróginos cujos olhos brilhavam com segredos antigos. A respiração de todos se mesclava ao ar denso, impregnado de aromas doces e metálicos, uma fragrância que falava de desejo e eternidade.
— Aqui, até o silêncio tem gosto de sangue — murmurou Cassandra, deslizando ao lado de Velian, sua voz quente como veludo, provocando arrepios nos seres que os observavam. — Cada respiração, cada toque, cada olhar é uma dança de poder.
Velian sorriu, mordendo o lábio com malícia. Ele não buscava humanos agora — apenas o calor vivo e intenso dessas entidades que respiravam o mesmo abismo e compartilhavam da mesma sede. Ele tocou uma das ninfas, sentiu sua pele etérea vibrar entre seus dedos, e percebeu como o prazer e o medo se entrelaçavam, como se cada suspiro fosse um cântico antigo, uma oração esquecida.
Entre risos e murmúrios, seres com corpos andróginos aproximaram-se, oferecendo olhares que queimavam e mãos que provocavam pequenas faíscas de eletricidade na pele. Velian aceitou o jogo com destreza, sua presença um magnetismo de desejo que atraía e incendiava cada ser à sua volta. Cassandra, sempre altiva, seguia seus passos, brincando de dominadora e cúmplice, deslizando sobre os corpos que se curvavam e arqueavam sob a tensão do prazer.
— Não é só sobre matar ou seduzir — disse Velian, a voz grave, o olhar em chamas, enquanto uma sombra de fantasma cruzava seu corpo — é sobre sentir a eternidade no toque, no êxtase, na fusão do desejo e da vida que pulsa por trás da escuridão.
— E ainda assim — replicou Cassandra, arqueando a sobrancelha, os lábios tingidos de rubor de vinho — há sempre algo mais. Sempre há. O poder, o prazer, a fome… nada disso se compara ao que se encontra quando aceitas a profundidade da noite, e daquilo que somos. Tu queres sentir tudo, não é? E eu estou aqui para que sintas.
O toque, os olhares, o jogo de aproximação e afastamento criavam uma coreografia de luxúria e poder, onde o prazer era apenas o início da compreensão de algo maior — da eternidade, da solidão compartilhada e da beleza perversa de existir. Fantasmas e ninfas entrelaçavam-se, vozes sussurrantes cantavam cânticos indecifráveis, e a arquitetura do Castelo parecia responder, pulsando, expandindo-se, como se respirasse com cada desejo consumado.
Velian e Cassandra, lado a lado, abraçavam a escuridão, percebendo que cada toque, cada carícia, cada arrepio era uma reafirmação de sua própria condição: eternos, sedentos, livres, mas ainda assim ansiosos por sentidos, laços e descobertas. O Castelo os envolvia, a noite os consumia, e a sensação de pertença àquilo que era maior que a própria vida os incendiava por dentro.
— Aqui, no fim, — murmurou Velian, sentindo a vibração de Nix, senhora da noite, pairando sobre todos — só o desejo e o vazio coexistem, e são eles que nos tornam mais vivos que qualquer mortal.
Cassandra sorriu, e juntos, absorvendo cada ser, cada suspiro, cada presença, permaneceram na dança eterna do Castelo, entregues ao prazer, ao poder e à própria eternidade, até que o vento metálico do limiar sugeriu que novas descobertas os aguardavam, e que a noite jamais terminaria.
O Castelo Drácula tremia. As paredes antigas estalavam como se quisessem expelir séculos de segredos, e as torres pareciam ceder ao peso da própria eternidade. Velian sentiu o chão vibrar sob seus pés, o ar metálico da noite se tornando denso demais, quase líquido, como se o próprio limiar se desfizesse. Fantasmas, ninfas e seres andróginos evaporaram em brumas ondulantes, deixando apenas o eco de suspiros e risadas antigas. O desejo, intenso e febril, continuava a arder dentro dele, mas o Castelo parecia avisá-lo: era hora de retornar.
Em um instante que durou simultaneamente uma eternidade e um sopro, Velian sentiu o mundo girar, e tudo desmoronar ao redor. A última visão do abismo do Castelo se desfez, e ele despertou.
O amanhecer já tocava Fortaleza. Raios de sol pálido atravessavam a cortina do quarto, dourando o ar ainda impregnado do calor da noite. Cassandra dormia ao seu lado, seus cabelos negros espalhados como sombras luxuosas sobre o travesseiro. O perfume dela misturava-se com o aroma do café da manhã não feito e o leve toque do sol nascente. Cada curva de seu corpo era uma promessa silenciosa, cada respiração, uma melodia antiga que atravessava os séculos.
Velian a observou, os olhos absorvendo cada detalhe: a delicadeza da pele, o arrepio dos fios de cabelo, o ritmo perfeito da respiração. Um sorriso lento curvou-lhe os lábios, a ironia e a certeza de si próprios entrelaçadas.
Revisado por Sahra Melihssa
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Sangue, Silício e Presságios / Capitulo I
Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao menos podemos dizer que notamos.
Imagino que o propósito fosse justamente esse: não tivéssemos a oportunidade de resistir, confrontar ou mesmo protestar.
Vi os passos que a indústria avançou nos últimos duzentos anos, um ritmo tão acelerado, surpreendendo a todos com tantas novas tecnologias e informações que, assumo com sinceridade, prendem nossa atenção. Era de tirar o fôlego.
Não sou um fã ensandecido da tecnologia, mas muitas delas me impressionaram também.
Voltando! Lembro-me bem daqueles dias, o sol começou a desaparecer, mergulhando, uma após a outra, as cidades numa realidade de escuridão. Mesmo que isso fosse algo bom, pensando nas crianças da noite, inegavelmente havia mais — muito mais escondido por detrás do véu dos poderosos.
Fiz uma pausa em minhas lembranças, levei minha mão de carne e sangue, a tocar minhas cicatrizes na face, implantes biônicos, uma cibernética que mescla o orgânico, metal, cabos e vidro, uma lembrança pesada de decisões que sinceramente me incomodam. Cada passo deve ter um destino, mas teria sido um gostado de ter mais opções em minhas mãos. Mas não pude, realmente, não tive, contudo, como lamentar minhas dores e angústias. A cada vez que toco as partes do meu corpo, que foram substituídas, busco manter meus olhos para meus objetivos. Infelizmente isso virou hábito, algo que me faz emergir, — retornar desse imenso lago sombrio sendo a minha vida.
Uma nova interrupção de meus pensamentos, o toque e brilho do celular que tocou.
Na tela, primeiro o nome, logo uma foto de um rosto conhecido de tempos mais interessantes. Quem sabe em outros tempos meu eu fosse mais gentil com os contatos, mas depois de tudo o que aconteceu, o ressentimento e desconfiança viraram regras irrevogáveis.
— Quem diria… Ele ainda se lembra que eu existo! — Minha voz saiu baixa e rouca. Respirei fundo e liberei lentamente o ar dos pulmões. Deixei o celular sobre a mesa do meu escritório.
Recostei-me na cadeira, fiz uma meia volta com ela, e fiquei olhando atentamente para o mundo além da janela e um lugar escuro e bem mais sombrio que se desdobrava.
Velho mundo, numa nova realidade obscura e desafiadora.
Como um reflexo involuntário, levei a mão até a costela, buscando o lugar onde carregava o coldre e a velha Lucy, uma pistola que passou a ser uma extensão de minha própria existência carnal e imortal. Ao notar a ausência, me fiz buscar na memória onde a deixei.
— Ah, sim. — exclamei alto de súbito, recordei o mancebo ao lado da porta, vi sua alça negra, junto aos casacos e o blazer que sempre deixo aqui no escritório, — me esqueço vezes demais de levá-la para casa. Algo tão banal; meu escritório é mais minha casa que a verdadeira.
Mergulhei novamente em pensamentos e lembranças.
No lugar do amarelo da alva nasceram tons brilhantes, veias luminescentes que deram vida ao mundo cinza de cimento e concreto.
Os diversos tons de neon ganharam espaço, a ponto de nos fazer sentir sermos as estrelas. A noite e o dia agora eram guiados por cores — azul, verde, vermelho — entre tantos tons infundidos em tubos de luz.
Muitos recém-abraçados celebraram a escuridão, e suspeito que alguns dos milenares também o fizeram.
Vampiros ainda se prendem a velhos hábitos e tradições, embora os recém-convertidos pareçam nutrir desprezo pelo véu que nos protegeu por séculos.
— O que veio após o caos inicial era previsível, no entanto, nada desejável, pelo menos para mim! — disse quase em murmúrio, ainda mergulhado na cadeira, com a carranca de insatisfação inundando meu rosto.
Veio a princípio pela voz de Maximillian Jones, presidente americano. Ele convoca as nações a se unirem na elaboração de uma organização multinacional chamada “Aegis Dominion Corp”.
Aquele homem era uma verdadeira raposa. Homem corpulento, de rosto redondo. Pele branca e pálida. Cabelos milimetricamente alinhados, como todo bom político. Ele sorria à sua frente, planejava ardilosamente pelas costas de aliados a rivais. Além do sistema burocrático, eles criaram uma unidade de atuação imediata chamada de “Cerberus State Division”, ou como ficou conhecida, a CSD.
Por detrás de toda aquela propaganda anti-crime havia a intenção de conter todos e tudo que fosse do guarda-chuva sobrenatural.
Alguns humanos não esqueceram o desastre dos primeiros meses de escuridão, presidente M.J. foi um desses rancorosos.
Que engraçado, eles tiveram rancor! Sua ânsia por revanche os levava a buscar meios de se proteger. Contra quem eles iriam? Nós!
Nós que existimos desde sempre. Humanos tentando proteger seu futuro das nossas mãos.
Conflitos foram deflagrados por várias regiões do mundo, a princípio no norte, uma verdadeira caçada a qualquer paranormalidade. Mortes relatadas de humanos e criaturas sobrenaturais. Um quadro horripilante a cada vez que você olhasse na internet, pelo celular, através da televisão. Os discursos vazios em nome de uma justiça cruel.
Daquele momento em diante, não era unicamente a escuridão que mudava nosso universo, mas a sociedade, as relações e as regras do mundo.
A tensão subiu tão rápido, que Magnus se viu forçado a fazer algo.
— “Quem é realmente, Magnus?” — pensei. O líder dos “Sangue de Obsidiana”, um homem único, ímpar por ser visionário. Nem sempre concordamos. Ele via com bons olhos algumas mudanças, e eu com cautela.
Magnus Draevon é um homem baixo em estatura, troncudo, de olhos leoninos de tom verde-claro e expressão pacata. Seu espírito parecia nunca se abalar, mesmo diante dos cenários mais terríveis. Aquele homem tinha o estranho hábito de ficar acariciando sua barba longa, ainda mais em conversas incômodas, aquilo o mantinha em serenidade aparente.
Para aquele que temos ele como pai e mentor, vimos nele força suficiente para acalmar nossos ânimos, com isso encontrar um caminho em meio àquele caos sanguinolento.
Imagino que já estive mais vezes em desacordo com Magnus, do que em acordo. Nosso modo de ver o mundo e a gestão da “família” eventualmente se chocavam.
Numa manhã, há uns dois, ou três anos, não recordo bem, mas não muito após o plano dos humanos sair na mídia, o líder me ligou.
É bem vivida a memória. Estava em minha casa, mergulhado no sofá com um copo de whisky na mão esquerda. Havia deixado o celular sobre a mesa, numa vã tentativa de distância da minha própria realidade.
A sala era ampla, móveis mínimos e modernos. Nunca fui de ter muitos objetos.
A tela se iluminou e começou a vibrar. O som reverberava numa melodia suave pelo ambiente. Então o nome no ecrã brilhou em letras austeras: Magnus.
Intensamente inalei o ar, levantei-me vagarosamente e soltei lentamente o ar. Dobrei o corpo, troquei o copo de mão e estiquei o braço até alcançar o aparelho.
Atendi e coloquei-o em viva voz.
— Dorian. — Sua voz ecoou pelo fone como trovão distante, grave e firme, mas com uma tonalidade que sempre me fazia comparar com o aço temperado.
— Mestre Magnus. — Respondi, as palavras escapando antes que pudesse pensar.
Não era só respeito; havia uma espécie de reflexo condicionado, como se meu corpo reconhecesse nele algo que jamais ousaria enfrentar.
Levantei-me do sofá e caminhei até a varanda. Lá fora, a manhã sem sol parecia imersa em calmaria, com um vento frio tocando meu rosto, como se o mundo aguardasse o desenrolar daquela ligação.
— Eles, os líderes da humanidade, estão prestes a piorar o nosso mundo. — disse ele. — O plano deles já não é um mero rumor. Viu as notícias? Notícia infeliz. É real, Dorian. Precisamos nos precaver e evitar o pior dos cenários.
Engoli seco, apertando o celular contra o ouvido.
— Quer que eu faça parte disso? — Eu girava o copo com o líquido âmbar na outra mão, impaciente com tudo aquilo.
Houve uma pausa. O som de sua respiração atravessou o fio invisível que nos unia — pesado, quase paternal.
— Não quero, Dorian. Preciso! Você foi um dos poucos que me sobraram. — Ele fez uma pausa que parecia levar anos. — As outras famílias têm dores de cabeça em seus próprios quintais; confiar é algo raro nessa nossa realidade.
A mão com o copo tremeu. Senti o suor frio escorrer pela nuca.
— Não sei se estamos prontos para enfrentar esse novo cenário… — Tomei um gole curto do whisky, sentindo-o queimar minhas entranhas.
— Nunca se está. — interrompeu com aquela certeza inabalável que me feria e erguia ao mesmo tempo. — Mas escute: não há outro em quem eu confie tanto para enfrentarmos essa crise.
Fechei os olhos. Na escuridão breve, pude imaginar seu olhar de aço, os traços duros de sua face marcada por uma cicatriz. Não era puramente meu mentor — era o peso de um caminho tortuoso que falava comigo.
— Entendi. — Respondi, a voz saindo mais firme do que eu esperava.
Do outro lado, ouvi o breve som de aprovação, quase um suspiro contido.
— Então, prepare-se. Logo, os demais serão convocados. Mas, antes de tudo, precisava conversar com você, ter seu apoio.
A ligação terminou, e o silêncio que restou parecia ainda mais pesado que sua voz. Magnus não havia somente me ligado. Havia marcado um ponto sem retorno.
Nasci onde o fim e o início se confundem, sob a proteção da tríplice fogueira. Sou Hékali Duarte, uma alma moldada sob o manto de uma lua que agonizava, enquanto o mundo mergulhava em uma escuridão que os astros já profetizavam como ruína. O sopro da criação, eu sentia que já vacilava desde o meu primeiro choro.
Sou o fruto de forças ancestrais e filha de Astéria, a guardiã dos mistérios etéreos, e de Pérsia, o caçador que não temia as sombras. Minhas raízes, elas se estendem e estão profundamente enterradas na antiga cidade de Lagina. A Cária esquecida, onde o Mar Egeu outrora beijava as pedras com sua espuma sagrada.
Mas não sei explicar direito a razão…
Temos, eu e minha família, tanta conexão com a França. Mamãe dizia ser grande parte de um legado espiritual.
Desde pequena fui ensinada, por aqueles que…
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...compartilham a mesma ligação, em diversas áreas do saber natural e comum, dentre esses conhecimentos, as línguas do mundo, começando pelo francês, assim como uma introdução mediana no inglês. Me apaixonei pelo espanhol e, por fim, uma exploração por uma língua morta, o latim.
Minha primeira morada fora uma casa de pedra e carvalho, equilibrada no limiar de um despenhadeiro à beira-mar. Lembro-me do cheiro do pinho no piso e da voz de minha mãe, um sussurro que ainda ecoa em mim.
— “Recorde, minha pequena, o mundo pode se abrir em muitos caminhos.” — Eu, movida por uma curiosidade febril, amava os livros e era dócil, “já não mais!” — Refleti quanto ao meu passado e o meu presente.
Uma sonhadora quando pequena? Sim. Observadora de seus ritos costumeiros, ainda mais aqueles feitos em hora avançada, no segredo da noite.
Ansiava pelo dia em que minhas mãos tecessem o invisível com a mesma maestria. Jamais devia ter desejado isso, agora tudo que conheço é sangue e breu.
Mas ela, tão somente me acalmava.
— “Shhh… Apenas durma, meu anjinho.” — A luz da alva e os astros que conheci na infância foram somente o prelúdio das trevas.
Meus pais foram ceifados… Não sei como… não sei quando… Tudo é tão nebuloso, as lembranças fragmentadas, a verdade deu espaço à dúvida, os segredos se apossaram de minha vida de forma tal que desconheço o local de descanso eterno de meus entes amados.
O que sei é que UM vampiro, cujo nome o próprio destino parece temer pronunciar, mas tornou-me herdeira de uma vingança implacável onde fui moldada na carne.
Assim segui, e o tempo voou em sua perene natureza, mas a dor permanece viva. Sentada em minha cama, recostada na parede, comigo no escuro enquanto observo o breu além da janela. — “O que o destino haverá de trazer?” — me veio este pensamento profundo que calou fundo em meu ser.
Naquele ano de perdas, encontrei meu porto seguro nos braços de Antea Uranai, minha avó materna.
O lar de vovó Antea Uranai era um labirinto de saberes profundos. Paredes de pedra, teto de ripas grossas e um silêncio interrompido tão somente pelo consumo lento das velas e pelo traçar de runas ancestrais na madeira.
Ali, entre luzes bruxuleantes e o aroma de mistério, eu fui forjada. Aprendi que o clã Duarte não carrega meramente um nome, mas um nó celta marcado na pele e a sina de caçar o que rasteja no escuro.
Espectros de carne, carniçais de cemitérios e as bestas corrompidas que não conseguem abandonar este plano. Não escolhi esse chamado; ele acendeu em meu peito como uma chama que é, ao mesmo tempo, meu poder e minha condenação.
Olho-me no espelho e vejo um paradoxo. Minha beleza é uma ferramenta, uma arma que fere e seduz com a mesma precisão, meus cansados olhos, quase não me reconhecem mais no espelho. Costumavam ser safiras que lembram abismos iluminados por relâmpagos, assim como meus negros fios, confundindo-se com a própria noite.
Lembro-me de alguém, acho que era como minha sombra de infância, rindo baixinho enquanto me olhava nos olhos, naquela tarde chuvosa sob o telhado rangente:
— Olha só para você, com essa pele alva como neve de um mundo que a gente já nem sonha mais ver… Aos vinte e sete, parecia que o tempo tremeu de medo e fugiu de você, sem ousar riscar sua lâmina eterna. Baixinha assim, pouco mais de um metro e meio, acham que passa batido? Tolos. — Ela fez uma pausa dramática. — Seus instintos são venenos disfarçados de mel, e sua inteligência corta como fio de navalha afiada. Esse mundo sem sol… ele te teme, amiga.”
A escuridão tornou-se uma substância palpável, governada por corporações de ferro e sombra como a Aegis Dominion Corp. Caminho por esse cenário como a Anima Mundi, a alma que ressoa com os lamentos dos céus e os ossos da Terra.
Nas ruínas do distrito de Lyssandria, onde cabos de energia tremeluziam como serpentes em crucifixos de metal, eu me sinto em casa. O ar tem gosto de ozônio e ferrugem. Sob letreiros de néon faiscantes, minhas tatuagens rúnicas pulsam em um azul-índigo, conectando-me às frequências ocultas.
— Os espíritos da rede estão famintos… — murmuro para o vazio.
“Não luto tão somente contra demônios e espíritos, mas, sim, uma luta pela existência humana neste mundo imerso em trevas.” — emergiu este pensamento do fundo do meu coração.
Enfrento os espectros-silício: consciências humanas aprisionadas em servidores, almas que trocaram o além pela eternidade sintética.
— Como pode uma criatura sem ossos desejar ser meramente uma energia elétrica? — Reflito em voz alta, com certo nojo e frieza na voz. — Eu os bano!
Após dizer aquelas palavras, senti a minha magia fundida à tecnologia fluir dentro de mim com inquietação.
Senti algo primitivo ferver em meu sangue recentemente. Um eco digital, um sinal que emana das profundezas de Lagina, minha terra natal. Lá, onde templos gregos colapsam sob antenas quânticas, o passado me chama.
Nasci órfã da luz, mas sou filha da noite. — “E agora, preciso descobrir: o que restará ao final da minha jornada? Sangue ou esperança?” — Esse era um pensamento recorrente: uma autocobrança.
Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Quando a Noite Cobra o Preço / Capitulo II
Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou. Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou.
Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos olhos da percepção, dizia ela que éramos antenas, portas de uma dimensão além do astral escuro. Assim como os “sanguíneos”, como ela costumava chamar, também sempre fomos abençoadas pelo sangue. Entre ossos de corvos e morcegos ela preparava na fogueira este elixir. Quando pronto, nós nos servimos; afirmo que já sabia da grandeza daquilo. Gradualmente me preparei para a grande virada que viria em minha vida.
Ela me abraçou forte.
— “Vovó te ama…” — Ainda recordo com pesar e isso ressoa em meu peito todos os dias. E então bebemos e adormecemos...
Estava tudo muito confuso, admito, estava sonolenta e ébria da realidade, parecia outro plano. Atordoada, um tanto atônita, recobrando meus sentidos, orientei-me ao presente instante, respirei fundo: “onde eu estava?” — me questionava em meus pensamentos.
Vagarosamente, minha turva visão foi vasculhando gradualmente o ambiente, junto aos dedos no escuro.
Tateando o breu do desconhecido até que minha visão se acostumou à tão escassa luz e minha dilatada pupila se adaptou. Eu estava prostrada, com uma certa dificuldade, uma fotofobia temporária, tentando localizar-me no ambiente, deixando meus olhos se ajustarem; gradualmente minha turva visão se acostumava.
Enxerguei minhas mãos calejadas, meus pés descalços e então lentamente levantei-me e prossegui automaticamente por impulso, instinto. Meus pés caminhavam sob uma superfície um tanto úmida, o que deixava o caminhar escorregadio. Em algumas partes, ao tato, era possível sentir porosa, era como caminhar em cima de pedras de sabão.
O aroma era ocre.
O lugar em si me parecia claustrofóbico, começou a me incomodar, era algum tipo de gruta?
Sentia-me isolada de mim mesma, um exílio íntimo, uma constatação de uma verdadeira solidão contemplativa — ou seria uma solitude sofrida? Não sei ao certo dizer, mas aquele ambiente me sufocava tanto meu interior. Eu sempre estava em exílio comigo mesma, com meus pensamentos. Meu espírito se sentia sempre acorrentado, por quê? Mas, de alguma maneira, era isso — e aqui constato que não posso recordar por que estar ali.
Continuei caminhando, o trecho foi gradualmente se iluminando, até que desemboquei em uma sala enorme e oblíqua, ao final me deparei com dois enormes castiçais que estavam grudados à parede com uma labareda de coloração cobalto.
Os pilares dessa sala e as rochas eram todas feitas de um tipo de rocha desconhecida para mim. Emulam uma sensação semelhante à superfície lisa e fria de um vidro, refletindo imagens turvas e espelhadas.
Havia esporos pelo ar e em algumas partes um tipo de limo rubro e pegajoso como um tipo de simbiose viva emanava um sol gutural borbulhante e pude perceber que ele sangrava e dele desabrochou em combustão ali.
Dois enormes morcegos de coloração escarlate vinham em minha direção. Um pânico me abraçou, uma sensação de impotência, insegurança, senti minha espinha se arrepiar, sentia-me zonza pelos seus sonares e uma certa confusão mental me envolveu por alguns segundos.
Ainda sentia aflição nos meus pés pela superfície molhada e porosa, o que me causava uma clara sensação de ojeriza. Contudo, meus sentidos estavam todos centrados em como derrotar aqueles sugadores.
Meus instintos mais profundos pulsaram através das minhas veias, o que fez minha mão esquerda mover-se, com precisão e delicadeza, como num ritmo, algo que tanto repeti até memorizar. Então me veio a mente os versos que me foram ensinados.
— “Que la chair du monde s’ouvre… — Comecei a recitar em voz baixa. — Desabrocha… Flor sem raiz… Nascida do abismo do instante.
Uma energia com uma luz suave emerge do meu ombro e vai serpenteando até o meu punho fechado, quando eu o abro com a palma voltada para cima, como o caule de uma flor aparece. Até surgir uma flor em botão e lentamente ela desabrocha como uma flor.
Daquela flor tão exótica em minha palma, a luz começou a irradiar e acender, até que sua existência não mais se sustentou. As pétalas se desfizeram, dando origem a algo que pulsava antivida: uma adaga. Seu dorso de esmeralda com runas emanava, imponência; no fio, uma coloração verde, selvagem, como se pulsasse veneno em cor néon vibrante.
A adaga flutuava no ar como uma entidade néon. Ela se movia como se por vontade própria; ela os estripou, ambos os morcegos, em poucos instantes. Retalhando-os no ar enquanto batiam as asas. Assim que a lâmina sentiu o gosto do sangue das criaturas, ela retornou imediatamente para meu peito, dissipando-se no ar como partículas e faíscas luminosas de um verde intenso. Eu estava sem fôlego, o que foi aquilo?
A porta de vidro à minha frente se abriu… Assim…
· · • • • ✤🦇✤• • • · ·
…que senti minha presença, mergulhei na boca daquela gruta desconhecida da treva da solitude que me abraçou.
Uma mescla perfumosa de sangue e poesia espessa.
Sou a terceira da trina Chama da chave do acesso da imortalidade escura da alma.
Dias depois, Magnus convocou os poucos que ainda detinham influência suficiente para alterar o curso da noite. Urr Locust, dos Tecno-Exsangues. Khaal Zerik, dos Carniçais Carmesins. Nivra Veyra, das Criptas do Éter. E Soren Klyth, à frente dos incontroláveis Filhos da Ruptura.
Soren não respondeu. Não recusou. Tampouco enviou emissário. Simplesmente permaneceu em silêncio — e, naquela época, o silêncio dele era mais perturbador do que qualquer declaração de guerra.
Os demais compareceram ao prédio dos Sangues de Obsidianos: uma torre negra com um grande triângulo néon azul invertido e um olho cibernético.
A sala era ampla e retangular, no último andar daquela torre negra no centro da cidade. As paredes do sul e do oeste eram de vidro, dando uma visão única da cidade em passo avançado de adaptação à escuridão. Dentro, uma mesa retangular de madeira na cor caramelo, com bordas pretas. No centro, cadeiras de encosto alto, umas quantas plantas. Um ambiente elegante, com paredes de madeira.
Cada família que atendeu ao chamado enviou dois representantes: um líder para falar em nome do clã e um guardião para lembrar que palavras nem sempre bastam.
A reunião foi infame desde o primeiro instante. Arrastou-se por horas, depois por dias, fedendo a interesses velhos, apodrecendo como um ghoul abandonado à própria carne. Ninguém buscava consenso; cada casta empurrava suas ambições, puxava acordos pela força, tentando garantir vantagem antes que o mundo ruísse de vez.
Sustentar aquilo exigiu de Magnus um esforço quase desumano.
Nem dentro dos Sangues de Obsidiana havia lealdade plena. Alguns desejavam ultrapassar a visão do líder, acelerar a queda. Veynar, o arconte de caráter duvidoso, era o rosto mais visível dessa fissura — seus negócios já haviam cruzado a linha, mergulhando fundo no submundo do crime.
As feições beiravam o esquelético. Alto, de cabelos longos quase sempre trançados para trás. Com olhos viperinos, já havia experimentado mudar partes do próprio corpo antes mesmo do início da noite eterna. Ele falava arrastado e gesticulava demais.
Indo mais a fundo nas memórias, recordo o momento do nascimento da Noctis Consortium… Foi muito inusitado… Difícil!
Não se passaram eras, mas nos fizeram sentir que assim foi.
Mesmo com a oposição de figuras como Zerik — que acreditava em um confronto direto — e, de certa forma, minha própria resistência, não durou tanto quanto esperávamos.
Magnus prevaleceu ao argumentar em favor de uma convergência, e não de uma guerra. Sua lógica era implacável: um conflito aberto seria catastrófico para ambos os lados, e o aumento da nossa exposição nos guiaria a um caminho autodestrutivo. Em vez de sangue nas ruas, ele nos vendeu a visão de um Estado chamado de “A parasitose perfeita”; um sistema oculto e enraizado na própria estrutura humana, utilizando nossos infiltrados para manobrar o inimigo como peças em um tabuleiro.
Assim, fundaram a Noctis Consortium, ou Noc-Con, como passou a ser conhecida no mundo.
O símbolo que escolhemos não buscava apenas representar um tempo — ele queria clamar. Era um chamado silencioso e feroz, nascido do desejo de abandonar o canto empoeirado da história, onde sombras tão somente observam, para enfim pisar o palco do mundo como presenças vivas entre os homens.
Uma lua crescente, invertida, curvava-se como um gesto de acolhimento ao redor de uma gota de sangue lapidada em losango. Tudo repousava sobre um negro absoluto, profundo como um abismo sem nome, rasgado por um vermelho carmim que brilhava espectralmente, quase sobrenatural. Ali não havia excesso nem frieza técnica — somente a tradução visual de quem somos: uma essência sombria, rara, de beleza estranha e melancólica, feita para ser sentida antes de ser compreendida.
Devo admitir: era algo belo de se ver.
— Devo admitir que aqueles momentos foram únicos. Nunca imaginei que as famílias se uniriam ao projeto de Magnus. — Agarro os braços da cadeira, cobertos de couro, impulso-me e coloco-me de pé. Dou dois passos e paro diante da janela, observando as pessoas caminharem lá embaixo, na rua.
Acompanhei o mundo perder o compasso e mergulhar, de cabeça, num frenesi febril. Não… Foi um salto de cabeça — foi uma queda longa, silenciosa, quase posso dizer, elegante. Chamaram de progresso, como sempre fazem quando não querem dizer o nome real das coisas.
No começo, havia uma justificativa nobre: devolver pernas aos que rastejavam, olhos aos que tateavam no escuro, braços àqueles que já tinham esquecido o peso de um abraço. “Venha ter a sua cura”, diziam. Era a humanidade tentando remendar a si mesma.
Mas algo apodreceu no caminho…
O que antes era socorro virou vitrine. Braços, pernas, olhos — peças expostas como joias, vendidas com brilho e posição, não com compaixão. O corpo deixou de ser morada e passou a ser catálogo.
Os médicos cederam espaço a mercadores, e a ética foi substituída por cifras. Não havia mais juramento, somente contrato. A carne tornou-se obsoleta; o aço, desejável.
— Observei tudo aquilo com uma frieza que me assustou. Talvez porque, no fundo, eu já soubesse que isso aconteceria. O homem nunca quis ser inteiro — quis ser mais. Mais forte, mais rápido, mais eterno. — Aquelas palavras saíam dolorosamente por minha boca. A clareza de pensamento vinha do realismo dos fatos. — A dor nunca foi o problema; o problema sempre foi aceitar limites. E ali, naquele desfile grotesco de corpos refeitos, percebi que não estávamos curando falhas… estávamos amputando o que ainda os tornava humanos.
A humanidade não resistiu. Adaptou-se. Sempre se adapta. Primeiro com curiosidade, depois com indiferença, e por fim com desejo. Órgãos internos passaram a ser redesenhados não para salvar vidas, mas para ampliá-las — pulmões que não se cansavam, corações que não falhavam, sistemas nervosos afinados como máquinas de guerra. Tornou-se moda. Uma moda doentia, cruel, irreversível. Até os que cuspiam desprezo por essas mudanças acabaram ajoelhando diante delas. Eu também. Não por vaidade — por sobrevivência.
— Houve um instante em que entendi: não era mais escolha. Era submissão disfarçada de evolução. Quem permanecesse intacto seria lento, frágil, descartável. O mundo não odeia os fracos — ele simplesmente os deixa para trás. — Meu rosto no reflexo do vidro expressou um desprezo profundo, nojo, para ser mais claro. — E eu, que sempre observei com distância, senti o gelo da verdade: ou eu mudava… ou desaparecia.
Antes que você se pergunte, me chamo Dorian Kael, um vampiro da casa dos Sangues de Obsidiana, aqueles que viram propósitos na tecnologia e amargaram gotas de sofrimento.
Esta história tem seu início no princípio do fim de uma era.
Admito que me vi envolto em situações que me colocaram diante de caminhos díspares, distantes de seus ditames, além de minhas origens. Pelo meu clã cedi, dando espaço à invasão tecnológica. Uma corrupção fora de qualquer escala.
Essas mudanças sempre tiveram gosto de erro… Um caminho torto, ruim desde o primeiro passo — e, ainda assim, impossível de evitar. Não foi coragem o que me levou até ali, foi tentação. A mesma que empurra homens cansados a cruzarem linhas que juraram nunca tocar. Eu quis acompanhar os vivos, fingir que ainda caminhava no mesmo ritmo deles.
O olho esquerdo que carrego agora não nasceu de carne. É vidro frio, fios ocultos, fluidos que imitam vida sem jamais a possuir. Uma íris de jade observa o mundo por mim, perfeita demais para ser verdadeira. Ele vê o que olhos humanos, nem os dos vampiros, não alcançam: códigos sussurrados na escuridão da rede, sinais escondidos sob camadas de mentira. Enxerga além do mundo físico — e talvez por isso eu tenha começado a enxergar menos de mim mesmo.
Servia ao meu ofício. Negociar o que é raro, valioso, proibido. Ler o invisível, antecipar movimentos, nunca ser surpreendido. Era uma ferramenta, nada além disso. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. Porque admitir que aquela lente não me fortalecia, somente me tornava mais distante, exigiria uma honestidade que eu já não tinha estômago para suportar.
Não fui tão longe quanto meus pares. Muitos abandonaram a caça, chegando ao ponto de desfigurar suas presas. Banir tradições. O mais grotesco foi o surgimento do sangue sintético, que me causa náuseas — uma abominação, mais que a fusão da carne com as próteses.
Hoje, após minha punição promulgada pelo arconte Veynar, encontro-me às margens da sociedade, distante de olhares perigosos.
Não devia ter seguido com aquele maldito plano. Isso me custou a empresa, a vida e a condição social que gozava. Posto como pária em minha própria casa. Tudo por um humano infeliz.
— Isso é que dá estar no lugar e hora errados. — Baixei a cabeça, desaprovando minhas próprias atitudes. — O que posso dizer… senão… arrependimento…
Esses pensamentos foram interrompidos por passos no corredor e um toque ansioso:
— Senhor Dorian… Está aí dentro? — Uma voz feminina e aveludada, levemente rouca. — Sou eu, Milla. Posso entrar?
Creio que passei tempo demais divagando, me perdendo em lembranças. Esqueci que estava no escritório; ainda eram três horas da tarde.
— Entre, Milla, sem cerimônias, por favor. — Minha voz saiu rouca, mais que o costume, num tom autoritário e impaciente.
O som metálico do trinco soou ao ser destravado; a porta rangeu levemente, revelando uma imagem jovial. Cabelos curtos ao estilo de Cleópatra, loiros como o ouro mais puro, olhos escuros, pele pálida como marfim, e lábios divinamente finos.
Milla era uma vampira filha das Criptas do Éter. Uma criança que conhecia a hemomancia. Mesmo os mais jovens dessa raça eram assombrosamente incômodos. Beleza ímpar, mas de uma frieza além do natural.
— Senhor Dorian, a última de suas reuniões foi cancelada. — Ela caminhava com elegância e uma jovialidade impressionante. Jamais diria que tem mais de cem anos. — Acho que já posso ir para casa. O que acha?
Direcionei meus olhos para a tela do monitor, já eram mais de 18 horas.
— Sim, acho que já pode ir. Não temos mais atividades para hoje aqui no escritório. — Por um momento, fiquei reflexivo, olhando para o ambiente. — Que possa descansar. — Acabei falando num tom introspectivo, mais do que para a Milla, para mim mesmo.
Ela deu um giro nos calcanhares e rumou para a porta.
— Se o senhor precisar, sabe que pode contar comigo para o que precisar, chefe. — Havia em sua voz um tom reconfortante e que sabia serem verdadeiras suas palavras.
Ela sumiu, cruzando a porta em direção ao corredor, e seus passos eu podia ouvir bem, por causa do piso de madeira.
Sentei-me novamente e olhei em direção a um espelho no lado esquerdo. Um espelho retangular, posto horizontalmente, um objeto estético. Disseram que isso aumentaria minha sensação de espaço, o que me fez ter eventuais assombros com imagens distorcidas.
O presente nos deixou presentes tão incomuns. Nós, seres da noite, fomos afetados, voltamos de alguma forma a ter nossas imagens. Parece que a maldição dos primordiais enfraqueceu ou ganhou novas camadas.
Difícil realmente dizer até que ponto fomos afetados pela noite profunda e as tecnologias.
Quando me dei conta, percebi algo estranho acontecendo. A princípio, uma sensação de presença.
Meus instintos entraram em ação. As presas, depois as unhas. Sou um dos poucos que ainda mantém ambas as características de minhas origens e tradição. Sob a mesa de madeira à minha frente, preso a ela, um coldre de couro — nele repousa uma pistola, uma velha amiga, apontada em linha reta. Uma segurança a mais. Um recurso de tempos mais perigosos, que exigiam, mais que unicamente, ser um vampiro.
Meus olhos percorrem o ambiente — uma busca por infiltração. Primeiro física, logo depois medidas digitais, buscando sinais de invasão do meu próprio sistema, ou do meu escritório. Vasculhei o máximo que pude dos sistemas.
Quando encarei o espelho, o ambiente pareceu encolher. Distorções em minha visão começaram a surgir. Havia uma sombra ali — uma presença que não existia antes. No início, era somente um borrão inquieto, um erro no reflexo, algo que não deveria estar naquele lugar. Meu coração acelerou antes que a razão pudesse reagir.
Então a sombra ganhou contornos. Linhas surgiram, tortas, angulosas, como se alguém estivesse tentando nascer do vidro. Havia alguém ali. Senti antes de entender. O perigo veio primeiro, rasteiro, gelado, ativando cada instinto que ainda me restava.
A mente entrou em pânico e, por hábito, tentou se agarrar ao que conhecia.
— Analise! — ordenei a mim mesmo, quase como um reflexo de sobrevivência. Mas o pensamento veio quebrado, falho, tremendo: seriam padrões? Sinais? Fragmentos de código?
Sim, linhas e mais linhas. Somente naquela sombra? Poderia ser uma tentativa de infiltração? Olhei os arredores, buscando qualquer coisa fora do comum. Observei a tela do computador. Apertei umas quantas teclas e rodei outro sistema de depuração.
Eu nunca havia visto algo como aquilo!
À medida que tentava compreender, percebi em meu campo de visão algo… falhas de imagem. Não pareciam atacar, mas dava a entender ser um tipo de fantasma na rede.
A pergunta ecoou vazia. Porque, naquele instante, eu já sabia — aquilo não queria ser compreendido. Queria ser notado.
Existia algo… Muito além das linhas. A cada segundo, uma estranha sensação de terror tomava meu corpo. Caminhei em direção ao espelho. A sombra gradualmente foi tomando uma forma, mas, à medida que isso acontecia, surgiam interferências crescentes no meu olho cibernético.
Sua forma parecia de uma mulher com longos cabelos. Corpo pequeno e magro, mas seus detalhes eram como se estivessem envoltos de vapor, tão imprecisos e disformes.
Pouco antes de poder ver mais detalhes daquela imagem em meu espelho, senti uma forte dor em minha cabeça; meu corpo tornou-se pesado. Caí de joelhos, levando minhas mãos à cabeça; me dobrei no chão, enquanto tentava manter meus olhos naquela estranha visão. E, rapidamente, tudo ficou submerso em escuridão, e senti o impacto oco do meu corpo no chão do escritório.
Antes que minha mente fosse consumida pelo vazio, uma voz feminina, suave e delicada, invadiu meu cérebro — um eco distante.
— Temos tão… pouco tempo… a zona sul… Bar… antigo dos O-Tek… — A voz flutuava em seu volume, o que deixava ainda mais difícil entender o que estava dizendo. — Sangue… corrupto.
Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Memórias e Fantasmas
Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças de sua forma humana. Era consciente e carregava uma essência selvagem que protegia Minerva. No entanto, naquela circunstância, ela tentava apagar suas memórias, em busca de se entender independente dos acontecimentos e dos deuses. Ainda assim, sabia que dentro de si residia algo do castelo afogado, mesmo que adormecido.
Ela não lembrava dele há muito tempo, mas naquela noite o som da água abismal insistia em ressoar novamente em seus ouvidos. Minerva lutava contra aquilo. Um cansaço estranho, aos poucos, foi tomando seu corpo, desacelerando o tropegar de suas patas e obrigando-a a observar o caminho por onde passava, que se tornava cada vez mais conhecido para ela — embora já tivesse quase perdido a noção de quanto tempo passara no castelo.
A loba avistou algo ao longe e imaginou que fossem casas em seu campo de visão. Aquela era a estranha vila pela qual passara antes de adentrar o castelo. Sentiu algo puxando-a para perto daquele lugar, enquanto sua mente parecia duelar consigo mesma. Um nevoeiro denso se formava ao redor, criando braços cintilantes que dançavam junto a seu corpo em um ritmo lento, carregando-a para dentro daquele lugar.
Percebeu que estava por entre as casas errantes. Pessoas caminhavam ali, mas ela não conseguia discernir seus rostos. A mente turva a deixava cada vez mais imersa na paisagem acinzentada. Cansada, observou o formato de suas patas na neve, e uma expressão confusa se formou em seu rosto, como se não reconhecesse aquelas pegadas.
Ela se aproximou de uma casa, observando suas janelas, eram sete ao todo. Aquela era provavelmente a maior casa do vilarejo. Rostos estranhos a analisavam sem dizer nenhuma palavra. O cansaço parecia, finalmente, tê-la tomado. Os sete rostos a encaravam e assemelhavam-se a espirais que iam se contorcendo cada vez mais. Os olhos de Minerva-loba estavam hipnotizados e enevoados, totalmente inertes.
Alguém saiu pela porta da casa e fitou-a com intriga. Minerva não reconheceu o rosto, mas a voz lhe pareceu familiar. Era uma voz autoritária. Aquela voz elogiava algo que havia sido conquistado com soberba, embora ela não compreendesse o quê. Seu corpo, despojado sob as cicutas na neve, permanecia inerte ao mundo real, enquanto sua mente vagava por Settimor.
O rei Kheas estava ali, contando vantagem de sua experiência. Ele havia conseguido realizar a transmutação unindo magia e ciência. Sua filha era única, praticamente uma arma de guerra. A loba percebia aquela voz insistente. O medo não era o sentimento que habitava seu peito, mas a raiva. Minerva almejava ser livre novamente.
Ela estava presa em uma memória, os olhos acinzentados e os pelos negros, encobertos por inúmeras cicutas, a aprisionavam no feitiço do viajante. Minerva estava refém de uma lembrança.
Presa na masmorra, sua antiga moradia, ela uivava em lamento, ouvindo as aspirações insanas do pai. Desejava fugir, mas só conseguia se debater, puxando a corrente presa a seu pescoço.
O tempo era ilusório, ela não sabia se ele estava passando ou não. Seus sentimentos eram instáveis entre o tédio, o ódio e o desespero. Ela desprezava aquele homem que a torturava e não compreendia os limites que ele queria quebrar. As paredes arranhadas e a escuridão eram desoladoras, ela ardia em febre no frenesi das dores que lhe foram impostas.
Mas algo naquela lembrança começou a falhar. A voz do pai já não ocupava todo o espaço; tornava-se distante, fragmentada, como um som que se repete sem origem. A loba percebeu, então, que não estava sendo contida por ele, mas pela própria memória.
Naquele tempo, ainda humana, Minerva compreendeu em silêncio que a masmorra não era inviolável. A corrente em seu pescoço não existia para conter sua vontade, apenas seu corpo. E isso não bastava. O uivo que escapou de sua garganta não era súplica, mas sim uma decisão. O primeiro gesto de quem escolhia viver e não sobreviver.
Como loba, ela se lembrou: a fuga começou antes do movimento, antes da ruptura da carne ou do ferro. Começou quando deixou de pedir permissão para existir.
Ela lutava por si mesma.
Minerva-loba ainda transitava entre sonho e realidade; as cicutas a cobriam como um véu branco, misturando-se à neve. Seus olhos retornaram ao azul profundo. Aos poucos, sentiu o corpo voltar à vida. Em sua frente, um ser humanoide a observava. No lugar do rosto, havia uma espiral nebulosa, repleta de escuridão.
A criatura se dissipou à sua frente, levando consigo os sete rostos nas janelas. Dentro de si, Minerva se reconectou com seu poder, tornando-se mais uma vez tão destemida quanto na primeira vez em que desbravou os caminhos tortuosos que levam ao castelo Drácula. A loba sabia o que era e que ninguém tomaria sua liberdade. Clamou por Hekate, não como súplica, mas como sinal.
Ela não temia o deus do castelo afogado.
Revisado por Sahra Melihssa
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Espasmos do Silêncio
Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar; elas morrem na garganta antes de se tornarem poesia.
Estou diante de ti, Dama Lacrima. O pintor desconhecido que te prendeu nestas tramas de linho e óleo certamente conhecia o inferno, pois capturou-o com perfeição. Teus cabelos, longos e lisos, escorrem como cascatas de nanquim, emoldurando um rosto de uma palidez cadavérica. As tuas mãos, eternamente erguidas próximas à face, parecem querer esconder o mundo de ti, ou tu do mundo.
Se hoje castigado sou pelo teu descontentamento, que vibra através das camadas de verniz, posso até guardar a culpa. Mas as chaves da tua liberdade são para mim um grande peso que devo suportar. Sinto o ódio irradiar da moldura dourada.
— A tua ira deve ser contida — murmuro para a figura estática, mas viva. — A raça humana não merece perecer. Por mais que um ou outro nos sirvam como bolsas de sangue, aconselho: declina-te desta vingança desenfreada. O mundo ainda tem muito a te servir.
Vejo, então, a alteração na pintura. O óleo parece dissolver-se. Aqueles olhos... aquelas escleras tomadas por um negrume absoluto, sem luz, fitam-me com desprezo. E o que antes era pigmento seco, agora escorre. Tu choras. Não água, nem sangue, mas lágrimas de piche, espessas e negras, maculando a pureza mórbida da tua pele pintada.
— Crês que me fará parar?... Como és tolo, Valentine! — O meu nome soa como blasfêmia nesses teus lábios imortais.
— Lanço o desafio — indago, hipnotizado pelo rastro viscoso que desce pelas tuas bochechas —, até onde estarás disposta a ir com tal empreitada?
— Farei do purgatório a vossa nova morada!
— E depois?
— Como assim, "e depois"?
Aproximo-me da obra, sentindo o cheiro de terebintina misturado a algo podre e antigo. — Quando finalizar o teu intento, sentirás o peso do silêncio. Este mesmo silêncio que, até pouco, tanto me assombrava, não irá parar de te perturbar. Serás torturada pelo resto dos teus dias numa galeria vazia, num mundo morto. Nem mesmo as tuas súplicas serão suficientes para te salvar, pois para destruí-lo terás que destruir a ti mesma, rasgar a própria tela. Então, eu lhe pergunto: até onde estarás disposta a ir?
A imagem trêmula. O piche das tuas lágrimas parece ferver. — O que vês à tua frente, Valentine? — Tua voz agora é um lamento, um gemido de túmulo aberto. — Um retrato sombrio adornado por uma bela moldura arabesca? Um fantasma habitando uma tela em que o tempo ousa não apagar? Ou a representação maior dos teus medos?
Encaro o abismo negro dos teus olhos, duas poças de trevas infinitas. — Teu alarde para destruir-me e destruir o mundo é apenas uma fuga de teus próprios medos — digo, e cada palavra pesa como lápide sobre o cavalete. — Até os demônios mais baixos, minha cara Dama, possuem medos ocultos. E o teu medo é que, sem nós para te observarmos, tu deixes de existir.
O piche escorre mais rápido, mas o silêncio volta a reinar, pesado e insuportável, na sala fria.
Revisado por Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Caellum Noctis, Parte I - O que eu perdi?
Havia retornado. E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Havia retornado.
E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou… De onde vim. Não me lembrava de nada. Quase nada.
Tinha apenas um nome que transbordava na superfície de minha mente, insistente como as notas pesadas de um piano desafinado.
Eleine Gallhan.
Repeti em voz alta tentando procurar um significado, forçando as peças do quebra-cabeça a se encaixarem. Eleine. Quem é você? Onde você está?
A única coisa que sabia era que aquele nome fazia meu peito doer. Então, instintivamente, levei a mão ao coração e apertei as roupas, tentando alcançar aquela dor, mesmo sabendo que não doía na pele, e sim na alma.
Ela mentiu, pensei.
Ela mentiu? Sim, eu sabia disso também. Quanto mais me forçava, mais doía, mais… Quase lembrava, como se a memória estivesse na ponta da língua e eu não pudesse dizer. Mas o pior não era a mentira. Era o silêncio que ela deixara dentro de mim.
Por que...? Por que não consigo me lembrar?
Meu próprio corpo parecia lutar para impedir que alcançasse essas lembranças. Mas por quê?
Tudo na minha cabeça girava, uma mistura de sentimentos sem imagem. Fechei os olhos e respirei fundo. E então, a pergunta. A pergunta que eu temia fazer. Aquela que fez o aperto no peito doer de verdade… E então, cessar.
Como você era?
Eu não me lembro do calor do seu toque. Do som da sua voz. Do peso do seu amor. Mas o rosto… o rosto era um buraco negro. Senti como se olhasse para um espelho depois de um banho quente, apenas um borrão que nunca tinha foco.
Eu preciso lembrar!
Abri os olhos e finalmente percebi onde estava. Aliás, consegui enxergar o que fora dos meus pensamentos, mas não sabia onde era aquele lugar.
O vento soprou uma pétala em minha mão, folha rosa que se desprendeu da grande árvore à minha frente. O toque suave fez tudo parecer, de certa forma, certo. E o mundo começou a devolver os fragmentos que eu mesmo trancava em minha mente.
— A árvore… Nós a plantamos, não é? — Sua voz ecoou, clara e traiçoeira, soprada pelo vento da memória:
“Quando voltarmos, iremos morar aqui. Eu, você, Lyfir… e nossos filhos.”
— Lyfir… — sussurrei. O nome tinha um gosto agridoce, como se eu não devesse pronunciá-lo em voz alta.
E então, mais peças se encaixaram: a sombra de um grande lobo negro ao seu lado. O olhar fixo de uma coruja pousada em seu ombro. Guardiões de uma mulher que eu não conseguia ver.
Quem é você, Eleine Gallhan?
Tentei forçar a memória. Mas, como já esperava: nada. Apenas o vazio com a forma dela.
Apertei as mãos, não com ódio, mas com uma frustração que doía nos ossos. Era a pessoa mais importante da minha vida; eu sentia isso, mas não me lembrava.
Foi então que a sombra daquela enorme árvore pareceu se espessar. E, de repente, um frio cortante, como o interior de uma cripta, fez os pelos da minha nuca arrepiarem. Alguém, ou alguma coisa, estava ali. Me observando.
— Você deseja… se lembrar? — A voz era um sussurro sedutor, como se a própria escuridão me convidasse a conhecê-la.
Ele se materializou não como uma forma, mas como uma falta de forma: uma silhueta humana feita de fumaça e sombra.
— Eles ouviram seu lamento — a voz sussurrada continuou. — Os Colecionadores de Memórias. Os Rostos Espirais não gostam de dívidas em aberto… nem de pactos incompletos.
Pacto. A palavra me atingiu como um estalo no crânio. E eu tive a terrível certeza: minha perda não era um acidente; era um contrato.
— Quem são eles? — Minha voz soou áspera, quebrada. — O que fizeram comigo?
E, se eu pudesse ver o rosto sob aquele manto, diria que ele sorriu com a minha pergunta.
— Eles guardam. Para cada memória tomada, uma razão. E a sua, Caellum Noctis, está guardada no coração do Castelo Drácula.
Ele fez uma pausa, deixando o horror se instalar.
— E se quiser recuperá-la… deverá adentrá-lo.
O Espectumbral estendeu as mãos. Seu corpo se desfez, transformando-se em um portal etéreo. No centro, apenas o nada me convidava a entrar.
Olhei para o portal. Depois, para a grande árvore, suas folhas caindo a cada lufada de vento. A promessa de um lar murchando como as pétalas caídas no chão. Fechei os olhos mais uma vez, criando coragem para encarar meu destino. Agora, eu sabia o que procurava. Agora, tinha um nome para meus algozes: Rostos Espirais.
Não havia escolha. A obsessão já era minha cela; agora, pelo menos, ela teria uma porta.
Estendi a mão e o toque não foi frio; foi uma ausência de calor, um vácuo que puxou algo vital de mim.
— Leve-me até eles — disse, e minha voz já soava diferente. Menos humana. Mais decidida.
O mundo ao redor começou a se desfocar, as cores escorrendo como aquarela na chuva.
E naquele instante, entre um suspiro e o próximo, tudo desapareceu.
Eu não estava mais em lugar nenhum.
Revisado por Sahra Melihssa
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Dança do Corvo #1
Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Terça-Feira, 28 de Setembro.
Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se identificar pelo vidro embaçado da janela daquele comboio a vapor que atravessava a linha ferroviária em plena madrugada.
Duas noites anteriores, uma carta fora destinada a mim, com a assinatura de meu pai que, por sua vez, escrevera aos prantos. Sua tão amada Hermina falecera depois de contrair uma doença à qual não me especificou nome. Talvez, nem mesmo ele soubesse o que afligira a sua esposa. Ele tinha medo. Soube disso, pois conseguira passar seu temor para o papel em letras trêmulas e garranchadas. Na mesma noite em que recebi a carta pelas mãos de uma das irmãs, dediquei toda minha euforia para ter a permissão de sair do convento e voltar para minha casa. Ela, e outras que também coordenavam o lugar, consentiram com minha saída, pois acharam que seria melhor eu cuidar de meu pai enquanto os tempos difíceis repousavam na minha família. Eu prometi que retornaria em breve e assim parti dois dias depois, sem ao menos imaginar que aquele seria um caminho completamente sem volta.
Junto a mim, nada carregava de muito valor. Ainda me lembrava daquela noite em travessia. Era apenas uma pequena mala contendo um saquinho de biscoito, cadernos e livros didáticos que eu deveria ler no tempo que estivesse fora da Escócia para compensar minha saída e o diário de minha falecida mãe que, não importava onde, sempre levava comigo.
O sono me pegou de surpresa, mas não se estendeu muito. O som rasante do comboio arranhando os trilhos conseguiu me despertar repentinamente em um pulo assustado. A madrugada já se tornava manhã e a parada da ferrovia já estava estampando minha visão. Já havia retornado à minha cidade e nenhuma surpresa me dominou por isso. Estava ali por um motivo de desgraça e nada daquilo me faria feliz.
· · • • • ✤🐦⬛✤• • • · ·
As ruas de St. Canard não estavam abarrotadas como eu nunca imaginei. Fazia já alguns anos desde que abandonei meu lar para seguir um caminho junto a Deus e seus ensinamentos, que pouco me lembravam do chão que voltei a pisar.
Mesmo assim, as lojas permaneceram da mesma forma enquanto eu me aprofundava pela cidade. As típicas mercearias, os ambulantes que dançavam nas calçadas animando quem passava... Sempre com um sorriso no rosto, as damas com seus leques e vestidos que vieram de boutiques caras nas quais nunca tive oportunidade de sequer entrar, pois era minha querida mãe que fazia – à base de trapos – minhas roupas humildes e, por fim, as carroças puxadas por cavalos que continuavam as mesmas, tirando o notável melhoramento em suas estruturas compostas de madeiras e metal, que agora eram mais charmosas e reluzentes do que antes. St. Canard não havia mudado muito em alguns anos. Sendo assim, ainda era fato de que eu sabia o caminho de minha casa.
A janela tinha suas persianas abertas quando encontrei minha antiga moradia sob um novo bazar que antes se encontrava em uma panificadora. A fachada estava com sua cor alterada. Antes, um bege quase branco se esticava por toda parede e agora havia um verde que já estava gasto e desbotado, porém a casa ainda parecia ser a mesma, esperava eu.
Decidi abandonar minha casa e seguir caminho ao encontro de Deus após o falecimento de minha mãe. Ela era nova, bonita e inteligente. Mesmo sem recursos financeiros, morávamos bem e sem problemas. Então as brigas entre ela e meu pai se tornaram mais frequentes e a casa foi ficando insuportável. Como antes dizia meu pai, ela o traía com outros homens, entre eles um eu conhecia: Dr. Marquês, filho do panificador que trabalhava em um hospital nas redondezas da cidade. Por sinal, ele era bem agradável. Nunca me dera motivos para sequer cogitar alguma coisa que o desagradasse, mas ao ser apontado por meu pai, sua ideologia formada em minha cabeça também foi pouco desgastada.
As acusações de adultério só foram comprovadas após o acidente no qual tirou a vida de minha mãe. Seu corpo foi encontrado na areia úmida da praia alguns dias depois que ela visitou uma amiga. Marquês se provou amante de minha mãe e alegou ter a ajudado com dinheiro para que ela comprasse tecidos, linhas e materiais para a customização de minhas roupas. Era fato de que, por um espaço de tempo naquela época, minha mãe estava aparecendo com mais tecidos do que o normal. Papai se casou novamente dois anos depois, por desgosto, e com Hermina teve outra filha: Emily, o bebezinho mais doce que eu vi na vida. E, quando isso aconteceu, eu parti para a Escócia, não por desgostar da minha nova irmã ou até mesmo da minha madrasta, mas por saber que somente encontraria o conforto que minha mãe dava nos braços do Senhor.
Antes de eu tocar na campainha ao lado da porta, meu pai já abriu e me encontrou segurando minha pequena mala. Tomou-me em seus braços e chorou por me ver, ao lembrar-se do motivo que me fizera retornar.
— Onde está Emily? – perguntei assim que pisei novamente em casa. O cheiro não era o mesmo. Ao invés de cheirar a assoalho velho e corroído por cupins, eu sentia algo desagradável o bastante que me faria voltar atrás. Não era nada condizente com minha sabedoria. – Quero vê-la. Tadinha... Deve estar acabada.
Meu pai seguiu à minha frente, percorrendo o corredorzinho no qual se dividiam os quartos, e chegou naquele onde eu já dormira um dia. Emily estava deitada com camadas de cobertas sobre seu corpo. Seu olhar cabisbaixo indicava doença, mal-estar. Seu cabelo loiro, que um dia eu vira por algumas pinturas ser lindo, brilhoso e radiante, estava embaraçado, seco e sem vida. Suas bochechas rosadas tinham um tom rude e cruel estampando-as, tornando a magreza de sua face mais evidente. O que estava acontecendo com ela? Os lábios carnudos também desapareceram incrivelmente, dando lugar a uma linha fina e roxa para representá-los. Seu colo tinha todas as cavidades do osso da clavícula marcadas. Ela estava magra igual a um esqueleto. E aquilo me assustava.
Respirei e, antes de me aproximar dela, fiz o sinal da cruz sobre o peito.
— Emily contraiu os mesmos sintomas de Hermina na mesma noite em que ela morreu, Lucy – dissera meu pai com sua voz acabada. – Eu não sei o que fazer mais. Não há remédio em minhas mãos que tarde essa maldita doença e, se existe algo, está muito além daquilo que posso arcar. Ela vai morrer... Vou perder minha filha, e você, sua irmã.
Acariciei a face de Emily, sorrindo para ela, mas acabei me levantando quando meu pai proferiu aquelas palavras banhadas de choro e medo. Agarrei suas mãos com força e as pousei sobre meu colo. — Não diga isso, papai. Vamos conseguir. Emy não irá morrer.
— O que podemos fazer para impedir tal acontecimento hostil? – perguntou ele, eufórico demais para raciocinar que eu estava tão próxima a ele e não necessitava elevar a voz ao falar comigo.
— Vamos primeiro contatar um doutor. Depois de curada, resolveremos o valor que devemos arcar. Tudo vai ficar bem, pai. O Senhor há de nos ajudar. Ele está conosco. – Meu pai pareceu não dar muita atenção para a parte em que falei da ajuda de Deus. Portanto, retornou com sua euforia e se mostrou um tanto duvidoso. – Marquês tinha um voluntário, Dr. Hoechlin. Emy o conheceu, talvez ele nos preste ajuda.
— Eu deveria negar por ser voluntário daquele senhor, mas caso aceite nos ajudar, será bem-vindo à minha casa – respondeu.
Emily se mexeu sob as cobertas. Tossiu, limpando a garganta, e chamou minha atenção com sua voz fraca e arranhada.
— Hoechlin partiu para Londres na noite retrasada. Voltará daqui a dois dias – comentou ela, esforçando-se para conseguir falar com clareza.
Olhei para meu pai com preocupação. Não sabíamos com o que estávamos lidando e, acima de tudo, aquilo poderia não existir cura alguma. Ele também estava preocupado. Com toda a certeza, não queria perder sua menina de dezesseis anos logo depois de sua mulher falecer.
— Quanto tempo Hermina suportou após contrair a doença, pai? – perguntei.
— Três semanas. – Uma semana se completaria para Emy quando o doutor chegasse. Ela teria que aguentar mais duas até os exames mostrarem uma saída.
Naquela noite, me ajoelhei perante a cama e rezei com toda minha fé. Tive medo de que oração alguma fosse forte o suficiente para afastar a sombra da Morte que pairava sobre a nossa casa.
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Quarta-Feira, 29 de Setembro.
Eu havia retornado ao quarto que me foi cedido, na extremidade do corredor, e o fiz não por cansaço, mas por um medo pungente de ser um estorvo àquela figura paterna já devastada pela dor. Minha prece fora fervorosa, mas o sono que se seguiu se mostrou leve e febril, interrompido a cada rangido do assoalho.
No fim, contive-me no som ritmado e pelas badaladas do relógio da sala que, ao longe, badalava as três da madrugada quando o silêncio da casa foi rasgado por um som aterrador. Não era o pigarro fraco que Emily vinha exibindo, mas sim um ruído quase gutural, violento demais e profundo, seguido de um gorgolejo que parecia vir do fundo de sua própria garganta.
Saltei da cama, com o desespero e o coração chocando-se contra as costelas, vesti apressadamente meu robe e corri descalça pelo corredor sem medo de talvez estivesse fazendo barulho em demasia para acordar meu pai. A porta do quarto de Emily estava entreaberta e a luz fraca da lamparina que eu havia deixado acesa na cômoda projetava sombras alongadas e distorcidas que dançavam quase como uma reverência ao meu medo.
Entrei. E ali, o terror se materializou em sua pior forma.
Nunca fui muito próxima do trabalho da morte. Muito pelo contrário… sempre permaneci distante dela para não parecer íntima demais a correr o risco de vê-la de novo. No entanto, as tosses vindas de Emily deixaram de ser comuns para mim quando a consequência seguinte fora vê-la se debater insanamente sobre a cama. O lençol branco que a envolvia já não existia mais, marcando em seu peito e pintando sobre o amontoado de fios uma paisagem infernal de carmesim. O sangue evidentemente estava espesso e quente, escorrendo de sua boca como riachos abundantes, manchando o queixo, o pescoço e a camisola que parecia ter sido mergulhada na mais rubra tinta. Os olhos de minha pobre irmã, antes esvaziados pela doença, arregalaram-se em uma súplica muda de socorro. Talvez eu nunca mais esquecesse o pânico estampado em sua face assim que me viu entrar em seu quarto.
Ela tentava puxar o ar, mas o esforço apenas fazia o sangue jorrar com mais violência, engasgando-a, silenciando-a como se algo condenasse a bela garota a um destino horrível e sangrento. — Emily! Oh, Deus, Emily! — Minha voz não passava de um sussurro rouco, quase abafado pelo som úmido do seu sufocar. E mesmo atingindo um tom acima do normal, pelo medo e desespero, ainda parecia baixa demais comparado aos engasgos e sufocamentos que originavam dela.
Corri para o seu leito, estendendo minhas mãos como uma forma fútil de tentar salvá-la, mas o desespero tomou conta da minha mente com uma força paralisante.
Eu não era médica; não era nem mesmo perto de ter os conhecimentos de uma mera enfermeira. Eu era apenas uma garota de vinte e quatro anos que, diante daquela cena de brutalidade biológica, toda minha fé e os ensinamentos do convento se dissolveram em um terror gélido e parvo. Tentei erguê-la, mas o toque na sua pele fria e pegajosa de suor e sangue fez-me recuar um passo atrás.
Eu falhei. Falhei miseravelmente com o desespero que também tomava conta de mim, assistindo à última e convulsiva exalação de vida de minha irmã, enquanto o sangue se espalhava em um mar espumoso sobre o travesseiro. No instante exato em que o último tremor abandonou o corpo de Emily, quando o gorgolejo cessou e o quarto mergulhou em um silêncio pesado e oco além do meu choro contido no alto da garganta, o ar ao redor do leito pareceu se condensar em um negrume mais denso que a própria noite. Não era a sombra projetada da lamparina, mas sim uma mancha de escuridão viva, alta e magra, que se desprendeu do colchão manchado como quem emergia de dentro da posição de mortalha dela na forma de um espectro obscuro.
Sombrio, sem rosto discernível, feito de fumaça e trevas.
O pavor me petrificou no lugar, e eu observei a personificação do demônio da morte tomar aquele ambiente como se fosse dele desde o início. Talvez de fato fosse, desde a partida da esposa de meu pai, pouco antes.
Não havia pés, nem o som em seus passos. A figura deslizava sobre o assoalho sem fazer qualquer ruído. Em vez de caminhar pelo chão, ela ascendia pela parede ao lado, como se a gravidade fosse uma simples sugestão e possibilidade de uma escolha inútil. Lenta e propositalmente, a aparição espectral moveu-se em direção a um canto escuro do quarto onde repousava, coberto por um tecido de linho branco, o grande espelho de vestir de Emily.
Talvez meu pai tivesse bloqueado o reflexo, tendo em vista o caos letal que acompanhava sua morada. Sua tentativa de ocultar o vidro fazia direta referência ao que diziam os supersticiosos e abandonados pela fé. Espelhos capturavam a alma dos doentes.
O espectro parou diante do espelho coberto, e ali permaneceu intacto, com sua silhueta escura parecendo fundir-se com a brancura do linho. Meus olhos, grudados naquele ponto de escuridão e tecido, não conseguiam mais se desviar. Eu estava hipnotizada. Horrorizada e sem qualquer força para fazer algo a respeito.
Lucy... Salve-me…! Está na hora de vir ao meu encontro, doce irmã. Liberte-me deste caos… Arranque o véu, irmã. Arranque o véu e perambule pela escuridão. Está tão frio aqui…
Era a voz de Emily, pura, sem o ranger da doença, mas etérea e fria, ressoando não do corpo inerte no leito, mas através do espelho coberto. Suas súplicas eletrizaram meu corpo, arrepiando meus pelos. Foi o suficiente para que eu sentisse verdade em sua solicitação. Movida por uma força que não era minha, um magnetismo frio que irradiava do vidro, dei passos hesitantes até o espelho. Minhas mãos tremeram quando agarrei a beirada do linho úmido de poeira, obedecendo ao chamado.
Rasguei o tecido com um puxão violento, e o espelho foi revelado em um átimo.
Não vi meu próprio reflexo pálido e aterrorizado. O vidro do espelho havia se transformado em uma espécie de janela ou pintura tão realista quanto. Através dele, a cena era de uma grandiosidade gótica e infernal, de um castelo sombrio, escuro, no alto de uma colina rochosa e pontiaguda. Dei um passo para trás, hesitante, e arfei alto com certo receio e pavor. O céu acima não era o teto de nuvens baixas de St. Canard; em vez disso, manifestava-se na forma de um pesadelo de nuvens revoltas em tons de um vermelho doentio que mais se poderia contemplar o mesmo tom do sangue jorrado de Emily do que se o próprio inferno viesse à terra.
O espelho, por um instante, pareceu vibrar. E antes que eu pudesse recuar, antes que eu pudesse gritar por socorro, uma rachadura surgiu na superfície do vidro. E, através dela, um braço explodiu para fora, estendendo-se até mim em uma velocidade absurda. Uma mão negra, ossuda e com garras longas e afiadas saiu do espelho com a precisão de uma víbora. Agarrou-me pela garganta.
O aperto seco e gelado, como gelo de caveira, demonstrou uma força inacreditável. O ar me fugiu por completo naquele último segundo, e acreditei fielmente que morreria também em seguida. Fui puxada para dentro do espelho sem qualquer delicadeza ou cuidado. Meus olhos viram, antes de fazerem a travessia, o reflexo distorcido da minha face contemplada de horror no vidro rachado. Soube, depois daquilo, que jamais poderia ter volta.
No fim, o vidro estilhaçou-se em uma explosão de neblina escura, engolindo-me para dentro de um mundo além da salvação.
Revisado por Sahra Melihssa
A Dança do Corvo
Sob a bruma de uma Inglaterra vitoriana marcada por mistérios e mortes inexplicáveis, Lucy retorna ao lar pela primeira vez em anos ao saber que sua irmã Emily está morrendo por um doença estranha. Mas na noite em que tudo deveria terminar em silêncio, Lucy presencia a alma de Emily sendo sugada para dentro de um espelho velho e adornado que reflete um mundo sinistro e desconhecido repleto de sombras derivadas de um castelo antigo.
Movida por amor e desespero, Lucy atravessa o espelho e se vê em uma dimensão onde a noite se mostra eterna e um castelo gótico que vigia o mundo com suas paisagens aterradoras. Lá, entre sombras e segredos ancestrais, ela deve confrontar forças que desafiam a vida e a morte antes que a alma de Emily seja perdida para sempre. » Leia todos os capítulos.
Gabriel Cordeiro
Gabriel Cordeiro é autor de terror gótico, romance sobrenatural e dark romance, conhecido por tramas intensas, sensuais e profundamente emocionais. Suas histórias exploram o sobrenatural com personagens marcantes e monstros que podem amar demais. Sua escrita mistura poesia sombria, suspense psicológico e erotismo visceral... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
29. Ritos Fúnebres da Ordem
Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os procedimentos que regem a passagem e a negação da morte.
Registro da Ordem - reprodução integral.
Ritos Fúnebres da Ordem
A Ordem segue rituais rigorosos para garantir que os mortos atravessem corretamente o ciclo, sem serem corrompidos ou presos entre os véus. Esses ritos variam de acordo com a situação da alma e do corpo.
1. O Rito da Travessia (Para aqueles que morreram naturalmente e sem pendências espirituais)
Este é o ritual mais simples, realizado para garantir que a alma do falecido não fique presa ao mundo dos vivos. O corpo é limpo com ervas amargas para afastar influências indesejadas. O nome do morto é escrito com tinta negra em sua testa para que ele se lembre de quem é ao cruzar o véu. É recitada a “Oração da Travessia”, guiando a alma em sua jornada:
"Você veio da sombra e retornará a ela. Nenhuma dor o seguirá. Nenhum medo o prenderá. Apenas vá."
O corpo é queimado ou enterrado em solo sagrado, dependendo do costume local. Se a alma resistir ou houver sinais de inquietação, passa-se ao próximo rito.
2. O Rito da Libertação (Para aqueles que morreram em agonia ou deixaram assuntos inacabados)
Quando uma alma se recusa a partir ou algo a prende, esse rito força sua libertação. O corpo é posicionado com os braços cruzados sobre o peito e os olhos cobertos com um pedaço de véu negro, para impedir que veja os vivos. Uma moeda marcada com o símbolo da Ordem é colocada na boca do morto, não para pagar uma travessia, mas para silenciar os lamentos. A encarregada pelo rito deve tocar a testa do morto e sussurrar o nome dele três vezes. Em seguida, a “Oração da Ruptura” é recitada:
"Nenhum amor o chama. Nenhuma dor o prende. Você pertence ao esquecimento. Vá."
Se a alma ainda resiste, um corte é feito na palma da mão do falecido, liberando qualquer energia que ainda o segure no mundo dos vivos. Se isso falhar, significa que a alma se tornou algo pior.
3. O Rito do Silenciamento (Para aqueles que morreram e retornaram de maneira impura)
Este rito é reservado para aqueles que foram trazidos de volta de forma errada (mortos-vivos, espectros vingativos ou qualquer um que se recusou a aceitar sua morte). O nome do morto é riscado dos registros da Ordem, simbolizando que ele já não pertence ao ciclo natural. O corpo é perfurado com agulhas de ferro negro, um material sagrado para impedir sua ressurreição. O sangue de uma irmã de maior nível hierárquico é usado para traçar o “Selo da Dissolução” no peito do falecido. A “Oração do Esquecimento” é entoada:
"Você já não existe. O mundo não se lembrará. Sua história termina aqui."
Se a criatura ainda se mover, deve ser destruída sem hesitação. Este é o rito que mais pesa sobre as irmãs, pois significa negar a existência de alguém.
4. O Rito da Execução (Para aqueles que desonraram o ciclo em vida e não merecem descanso)
Nem todos os mortos merecem compaixão. Alguns devem ser apagados completamente, para que nunca se ergam novamente. O corpo é queimado antes da morte (se possível), para impedir que a alma permaneça presa a ele. O coração é arrancado e reduzido a cinzas, garantindo que nenhuma maldição o traga de volta. Nenhuma prece é dita, nenhum nome é pronunciado. O condenado é esquecido imediatamente. É o rito mais cruel da Ordem, mas necessário para aqueles que desafiaram a própria morte e tentaram se tornar imortais.
Esses ritos mostram como a Ordem vê a morte como algo inevitável, mas que deve ser tratado com respeito ou severidade, dependendo das circunstâncias.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
28. Diário da irmã da Ordem IV
Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 25 de novembro de 1374
Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho da catedral, caminhamos por ela um bom tempo até que ela parou e falou: “Este, Mara, é nosso verdadeiro túmulo”, ela disse, apontando para as árvores. “Aqui é a floresta das raízes silenciosas.” O nome era apropriado, só se ouvia ali o som do vento entre os troncos. “Quando morremos”, Irmã Teodora continuou, “nosso corpo não é guardado em pedra fria ou muito menos deixado para apodrecer em qualquer lugar, somos devolvidas à terra da qual nascemos outra vez.” Ela deu mais alguns passos e passou a mão em uma árvore de tronco escuro. “Cada irmã da ordem escolhe em vida a sua árvore e essa é a única escolha que lhes é garantida. Quando morremos, somos enterradas ao pé delas, e nossas raízes se entrelaçam com as delas e assim nos tornamos parte dela.” Toquei no tronco da árvore e por um momento ela pareceu pulsar sob meus dedos. “E aquelas irmãs que a ordem não consegue recuperar o corpo?”, perguntei. “Se uma de nós se perde, ainda assim lhe damos uma árvore, um túmulo sem corpo, mas não sem memória”, ela disse, olhando para a árvore. Fiquei imaginando quantas irmãs não tinham sido encontradas e quantas árvores cresciam no vazio. Fiquei a olhar todas aquelas árvores ao meu redor. “Qual árvore você escolheu?”, perguntei. Irmã Teodora sorriu, me surpreendendo, e disse: “Um carvalho, firme e duradouro.” Não perguntei mais nada, mas quando estávamos saindo da floresta olhei ao meu redor e me perguntei: “Se eu caísse, qual raiz carregaria meu nome? Será que suas raízes iriam crescer no vazio?”. Talvez eu ainda não deva me preocupar com isso agora.
Data: 13 de dezembro de 1374
Estava andando pelos corredores da abadia, quando ouvi vozes abafadas, duas irmãs sussurravam, parei atrás de uma coluna e ouvi. “...o poder dele está além da compreensão”, murmurou uma delas. “A ordem finge que ele não existe, mas sabemos que ele está lá, seu domínio nunca caiu de verdade”, disse a outra. “Se a ordem quisesse, poderia enfrentá-lo…”, a primeira delas falou. “Se quisessem mesmo, já teriam feito”, a segunda bufou. Fiquei imóvel, ouvindo o que talvez fosse uma conversa proibida. “Drácula nunca morre, nunca é esquecido e há um bom motivo para isso.” O nome ecoou na minha mente. “Talvez seja por isso que a ordem não interfere no domínio dele, talvez seja algo que não possamos mudar”, uma delas falou. Eu já ouvi esse nome antes, em relatos de viajantes que passavam pela catedral, e o li em textos antigos com poucas informações, mas a ordem nunca falava sobre ele diretamente, não sabia se ele era um aliado ou apenas uma sombra à espreita, mas na ordem ele era um silêncio deliberado. As irmãs continuaram sem notar minha presença, me afastei logo, antes que me percebessem, fui para meus aposentos e o nome foi comigo. Drácula, Drácula, Drácula, como a batida de um coração no fundo da minha cabeça.
Data: 14 de dezembro de 1374
O nome Drácula continuou ecoando na minha mente como um coração pulsante a manhã e a tarde toda, ele se recusava a ir embora. Quando estava limpando as lâminas com a irmã Isolda, a única irmã à qual eu tinha afinidade, não consegui conter minha dúvida e tentei, de maneira casual, perguntar a ela sobre Drácula, ela estava na ordem há mais tempo que eu e poderia me dar mais informações. “Irmã Isolda, ouvi algumas irmãs sussurrando nos corredores, elas falavam de Drácula.” Seus dedos pararam por um instante na lâmina que estava afiando. “Drácula”, repeti, testando sua reação ao nome. Seguiu-se um silêncio pesado e Irmã Isolda voltou a afiar a lâmina como se eu não tivesse dito nada. “A ordem não se preocupa com ele?”, perguntei. “Não é uma questão de preocupação, é uma questão de decisão”, ela falou sem erguer os olhos. “E o que isso quer dizer?”, perguntei. Ela suspirou por um momento e respondeu: “A senhora da Morte tem seus motivos para não interferir nos domínios de Drácula e isso é tudo que você precisa saber.” E foi isso, nenhuma explicação, nenhum detalhe, a conversa estava encerrada antes de começar. Mas algo em suas poucas palavras me fez entender que Drácula era um nome a ser evitado e me restava saber o motivo dessa escolha ter sido feita.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
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12 - Novo Chamado de Listheron
Desde aquele episódio, não havia pensado sobre minha origem. Contudo, por mais que eu tentasse suprimir qualquer ruído chamado, ouvia os sons…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
(Antes de iniciar essa leitura, recomendo ler o capítulo 6)
Relato de Lisa
Desde aquele episódio, não havia pensado sobre minha origem. Contudo, por mais que eu tentasse suprimir qualquer ruído chamado, ouvia os sons das engrenagens em funcionamento, sem parar.
Não sabia distinguir se as ouvia de algum lugar distante ou se estavam dentro de mim... Mas algo aqui dentro movia-se impassível, sem requerer minha permissão.
Compreendia que evocar Listheron poderia causar a destruição deste mundo e, como não poderia arriscar colocar Alana em risco, suprimi toda e qualquer comunicação, telepática ou não, que pudesse ter com meus antepassados.
Mas eles não pensavam assim. Para Listheron, as batidas do relógio cósmico não cessavam; as engrenagens continuavam se movendo no compasso correto, aguardando mais uma chance para me convocar.
Meu tempo estava acabando...
***
Naquele dia, Alana estava interagindo com Drácula, e eu fui andar no bosque, localizado ao redor dos muros do Castelo. Não me afeiçoei a Drácula; apesar de ele ser gentil e ter salvo a minha vida neste plano, não tenho intenções de formar laços profundos com ele. Não tenho medo de que ele nos faça mal, não é isso. Mas a sensação é de que agiu movido apenas por interesse. Só ainda não descobri qual. Ou talvez meus instintos estejam prejudicados por causa dos sons, e isso afete minha capacidade de análise.
Saí quando a noite dominava, e os bosques jaziam iluminados com as costumeiras luzes indiretas vindas do Castelo, que conferiam ao lugar um clima lúgubre. A brisa mansa trazia odores de terra recém-molhada, mas não por chuva ou orvalho, e sim por algum líquido indecifrável.
Caminhava por entre as densas folhagens; subia nas copas para sentir melhor a invasão do ar puro em meu peito e sentia-me observada pelos olhos flamejantes.
Impressões ou fatos?
Em dado momento, notei que a lua tornava-se amarelada. No começo, achei que fosse apenas uma ilusão de ótica ou uma névoa fina que surgia, mas logo percebi que aquela mudança tinha substância: era real e a tingia de ouro em brasa, como um metal aquecido em fornalha, pronto para ser moldado. Adensava perante mim, deslizando para o lado direito, como que duplicando-se. Logo, a esfera dividiu-se em duas, e constatei que eram Olhos de julgamento.
Raios de luz saíam para fora das esferas, como se fossem pálpebras com cílios mal definidos. O olhar fixou-se em mim.
Senti um arrepio. Era Listheron. Vinha reclamar minha submissão.
Havia tensão no ar. Não conseguia desviar o olhar e então o ouvi:
— Venha para mim.
Senti as engrenagens movendo-se novamente dentro de mim, pressionando meus pulmões e roubando o ar que havia conquistado:
— BASTA. Irei quando quiser! — Bradei a plenos pulmões, minha voz retumbou forte e o atingiu em cheio.
Silêncio. Senti alívio
A pressão no tórax recuou e, por um instante, pensei que estava livre, até que a nossa discussão telepática começou arder dentro da minha cabeça.
Eu protestava, ele exigia.
Lutamos sem mover um músculo.
O óleo fervia e os tubos que conduziam o éter da vida estavam prestes a explodir.
Mas eu não iria voltar atrás.
Até que ele cedeu.
Firmamos um pacto, assinado com a precisão de um contrato estranho: continuaria sendo Lisa, mas precisaria ser Lisath por sete horas, a cada sete amanheceres.
Não havia outra alternativa. Era isso ou me tornar Lisath para sempre. Ah, a beleza do livre-arbítrio.
Concordei. Por livre e espontânea manipulação.
Lisath é algo que Alana jamais suportaria conhecer.
Por isso, a cada sete dias, eu desapareço. E torço para que ela não descubra aonde vou e o que preciso fazer...
Revisado por Sahra Melihssa
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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10 - Na hora certa
O diário ainda estava quente entre minhas mãos quando o cerrei. Não conseguia me conformar com o que fizera a Viktor. As palavras dele latejavam…
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Diário de Sibila von Lichenstein
15 de Outubro de 1870?
O diário ainda estava quente entre minhas mãos quando o cerrei. Não conseguia me conformar com o que fizera a Viktor. As palavras dele latejavam em minha mente, como se tivessem sido infundidas com um veneno pernicioso. Ah, se eu pudesse exterminar essa frase maldita da minha mente. Tal lembrança pesava em meu peito. Escrevê-las dava uma certeza cada vez mais absoluta sobre uma verdade que eu já sabia, mas não queria aceitar… Eu não o odiava tanto quanto imaginara. Eu não era consumida somente pela culpa. O que também me atormentava era a certeza de que essa estranha saudade rangia: eram as engrenagens da razão e do coração que nunca se encaixavam. A sensação era de agonia e alegria. Eu evitava pensar nele, não só para evitar um choro convulsivo carregado de arrependimentos pelas escolhas erradas que fiz.
Eu evitava pensar nele porque a saudade me dilacerava; eu sentia falta de estar deitada ao lado dele em seu quarto, lendo compêndios enormes de medicina. Sim… era isso: eu amava o meu preceptor e também amava odiá-lo.
Foi então que um galho seco se partiu atrás de mim, um estalo súbito que cortou o ar gelado. Saí do transe. Era hora de subir. Hora de deixar as memórias — ou ser devorada por elas. Um gato, que tive a impressão de ser Meia-Noite, apareceu, deixando as marcas de suas patas no chão frio. Ele subia a estradinha que levava para Séttimor. Antes de virar uma curva e desaparecer, ele miou e olhou diretamente em meus olhos, assustado.
Levantei-me apressadamente, perseguindo a lembrança de algo familiar; ou talvez, só para ter a certeza de que era apenas um gato comum. Ao dobrar a curva, ele já não estava lá. Conforme eu subia, um murmúrio começou a se avolumar. Reconheci aqueles sons. Sim. Eu já os ouvira antes. Eram vozes infantis — choros abafados, soluços frágeis, lamentos curtos — exatamente como os que ouvira quando estagiava no berçário do hospital. Quanto mais eu avançava pela montanha, mais elas se multiplicavam.
Pensei estar aproximando-me do topo, mas aquilo não fazia sentido; eu não avistava nada além do vento cortante ululando por entre árvores de galhos ressequidos. O frio fazia minha carne tremer e meus dentes rangerem.
Era eu contra a montanha.
Os músculos doíam, mas já não sentia meus pés e mãos. Apesar disso, continuei a subir. Era caminhar ou morrer. Meus olhos começaram a vasculhar, procurando por um mínimo sinal de vida: alguma construção, alguma luz distante ou até mesmo a fumaça de alguma chaminé. Apeguei-me à vontade de sobreviver. No entanto, a esperança frágil de que algum tipo de vida habitava aquela montanha começava a desvanecer-se em meu peito, que agora doía mais e mais.
O caminho enrodilhava-se na montanha; eu seguia por ele, à procura das pequenas almas que deixavam aqueles fracos choros escapar de seus pulmões. Com exceção das árvores e plantas, nada prosperava por ali. Foi então que algumas delas capturaram a minha atenção. Ao longe, eu via pontos brancos; eram de tamanhos diversos, dependurados em vários galhos. Sustentando-os, finíssimos fios, que brilhavam sob a luz pálida do sol poente. Cobrindo os galhos ressecados, uma espécie de teia, feita destes mesmos fios. Seduzida pela misteriosa beleza da cena, subi, aproximando-me.
Ao alcançar as árvores, notei que não se tratava de teias; ao longe, pareciam finíssimos fios de seda tecidos pela natureza. Observando-os mais de perto, notei que eles pareciam ser uma espécie de rede integrada entre os casulos. Por dentro deles, havia um líquido branco como leite, alimentando os casulos, ao que parecia; lembrei-me do sistema linfático das aulas de anatomia de Viktor. Segui com os olhos até onde um ia dar. Acabava em um casulo, como pensei. Afastei o algodão que os envolvia, eles eram translúcidos, e deslumbrei-me com o que vi. Um dedinho fino se movia. Era a mãozinha de um feto; estava vivo!
Aproximei meu rosto, prendendo a respiração. Meu espírito se inflou de súbito. Que espécie de vida era aquela? O casulo agitou-se ao tocá-lo. Era um feto que refazia a sua posição. Quando terminou, pude ver seu rostinho. Um sentimento de ternura apoderou-se de meu ser. Mas, simultaneamente, comecei a sentir uma tristeza alheia a mim. Meu coração foi repentinamente esmagado. Era confuso: uma saudade chorosa de algo — que eu não sabia dizer do que era — invadiu meu peito… Como se eu desejasse algo com todas as forças, mas fosse interrompida, impedida.
Movida pela curiosidade diante daquele ser, notei que uma única lágrima, negra como piche, escorria do olho do feto. A lágrima manchou o branco leitoso do casulo. Quando terminou de escorrer, saindo do casulo, se desfez no ar. Então voltei a respirar sobressaltada.
Vencida pela ânsia científica, toquei-o novamente. O feto pareceu reagir, movendo-se delicadamente. Na segunda vez, escutei um som de tecido molhado. Lembrei-me do som que os cadáveres faziam quando eu os partia em pedaços, para poder levá-los em sacos de lixo. Seu casulo reluzia à luz quente dos últimos raios daquele dia. Admirei-o. Poderia dizer que éramos íntimos. Não… Era outra coisa, algo mais grandioso, visceral, antigo, primitivo… Éramos mãe e filho. Era isto que me fazia querer abraçá-lo. Afastei a minha mão. Outra lágrima escorreu, como se o bebê se ressentisse do meu distanciamento.
Notei algo estranho em mim. A agonia de uma saudade profunda invadiu-me. Junto a ela, a pressão no peito novamente, consegui tocar meu rosto… Uma lágrima escorria e molhou meu dedo. Depois desta primeira lágrima, muitas outras vieram. Murmúrios uterinos se multiplicavam. Até mesmo choros infantis se misturavam a eles. Horrorizada com aquilo, decidi fugir. Apesar do fascínio que aqueles fetos de algodão exerciam sobre mim, fui impelida a fugir. Minhas pernas se moveram, antes que eu pudesse comandá-las. A fúria dos sentimentos, contra o instinto de sobrevivência. Fora um lampejo de consciência. Eu sabia que devia fugir. Eu sofria por deixá-los, belos e inocentes. Agora, quase nenhuma luz os iluminava. Em breve, receberiam o abraço de prata dos raios lunares.
Continuei a subir, perturbada pelo que tinha visto. Apertei o passo, fugindo daqueles sentimentos torturantes. Continuei por cerca de vinte minutos. Eu juro que podia sentir meus pulmões ardendo pelo esforço.
Apesar disso, eu precisava avançar. Quanto antes chegasse em Séttimor, antes conseguiria a erva do descanso. Eu precisava daquela erva para deter o que Eleanor me fizera; ou talvez o que eu precisasse mesmo fosse do abraço sombrio da morte. Não! Desistir não era uma opção! Não iria me entregar. Depois de tudo o que eu passara nas garras de Viktor, eu não iria simplesmente desaparecer. Precisava voltar à Prússia: lugar que agora me parecia cada vez mais distante.
Desacelerei. Só então percebi que estava em uma parte mais densa da floresta. Estava quase escuro; meus olhos se ajustavam vagarosamente. Então pude escutar, ao longe, sons de galhos partindo-se. Estaquei, lembrando-me da criatura horrenda que Arale enfrentou. Poderia ser outro ser, mas igualmente perigoso. O chão da estrada parecia recentemente pisoteado.
Perdida nessas reflexões, reparei que um galho se movera atrás de mim. Virei-me e tive a impressão de ver um braço fino sumir atrás das folhagens. Então fugi. Mas não consegui correr mais do que cinco metros à frente; minhas pernas falhavam. Olhei para a trilha que eu acabara de vencer: eu estava só.
Sentei-me para recuperar o fôlego. Então eu vi. Atrás de alguns arbustos, três pequenos seres vinham subindo a trilha, mas tentavam esconder-se. Crianças. Julguei que fossem, pela estatura. Mas não tive certeza, pois seus olhos eram brancos; não havia pupilas, nem íris. Paravam de tempos em tempos para cochichar. Uma delas fez menção de aproximar-se, mas outra a impediu, segurando-a pelo ombro.
Novamente aquele peso no peito… Amaldiçoei meu destino, mas seria possível? Que toda criatura viva desta montanha estaria amaldiçoada com essa tristeza saudosa de tudo aquilo que não floresceu?
Então a terceira criança cruzou a barreira dos arbustos. Permaneci imóvel. Ela vinha em minha direção; um de seus braços estava estendido. O dedo pálido como o de um cadáver, em riste. Toda a sua pele era assim; seu corpo estava quase todo desnudo. Era um menino. Cabelos longos e desgrenhados moveram-se com a sua cabeça, a qual se inclinava curiosa. Ele parou para ajeitar a tanga, única peça que trajava.
Chegou muito próximo e movia-se como um símio, ora para frente, ora para trás. Quando bem próximo, eu fui invadida por outros sentimentos. Era um calor interno, de alma. Então uma memória atravessou meu cérebro, tão fugaz quanto nítida. Eu vi uma roda de hominídeos; ao centro, uma chama; estávamos sentados. Pisquei. Não os vi mais, apenas aquele ser à minha frente.
Foi como antes. A proximidade dele despertou em mim visões alheias. Eu enxergava por ele. Não era apenas isso — eu estava dentro do que ele lembrava. As roupas daqueles homens primitivos pareciam-se com as dele. Pertenciam a um passado muito distante, séculos antes de eu nascer, quando o homem acabava de inventar o fogo. Sim, pude sentir a paz de ser protegida por ele. Tudo se parecia com as noites em frente à lareira que dividi com papai.
Eu apreciei a valiosa sensação de estar segura. No entanto, afastei-me. Era necessário, era premente… Então, descansada, pude retomar a minha caminhada em direção ao cume. Séttimor aguardava-me. A estrada continuava montanha acima. Estava mais íngreme, menos pavimentada. Meus pés faziam pedriscos deslizarem, e utilizei-me de raízes expostas para agarrar-me. Logo avistei, mais adiante, que a trilha estava rompida. Um deslizamento de terra. Do outro lado do abismo estreito que ele formara, pude ver, iluminada pela luz da lua, a erva do descanso.
Pensei em apenas esticar minhas pernas, torcendo para serem suficientes para alcançar o outro lado. Por uma minúscula diferença, isso seria improvável. Era arriscado. Então eu soube que saltaria. Aproximei-me da borda, testei-a com os pés; pedras rolaram até o fundo. Não escutei o som delas batendo lá embaixo. Inspirei, profunda e conscientemente.
De ré, fui afastando-me do abismo. Iniciei uma corrida — minhas costas gelaram — antes de saltar. Flexionei os quadris e… senti como se algo em minhas espáduas tivesse se rompido. Não houve som algum, mas a sensação era vivaz! Aterrissei do outro lado, e lá estava ela: a erva do descanso. Era linda! Não me contive diante da beleza; arranquei-a e macerei com raízes e tudo. Apliquei a pasta em meu pescoço e colo. Um toque gelado como o da morte espalhou-se por todo o meu corpo. Eu estava tão fria quanto um cadáver — e aliviada.
O alívio se desfez ao virar da curva. Do outro lado do abismo, onde eu acabara de estar, uma luz dourada rasgou o véu escuro da noite. Um som cadenciado e vagaroso rompeu o silêncio. Eram cascos de cavalo. Eu o vi. Estava longe; surgiu por entre a bruma noturna. Era um daqueles alazões que cruzaram meu caminho. O mesmo do cocheiro na floresta dos Pinheiros Tristes.
Apertei as mãos. Senti as batidas do meu coração acelerarem. Mesmo sentada, recuei. Meus olhos percorreram o caminho das patas ao lombo do animal, instintivamente. Então eu vi uma figura imponente sobre ele. Trajava um jaleco branco.
Acho que senti o sangue correr de minha face:
— Quem é você?
O alazão não avançou. Permaneceu imóvel à beira do abismo, como se a própria noite o mantivesse suspenso. Então relinchou — um som oco, espectral, que não parecia pertencer a um animal vivo. O cavaleiro apertou as rédeas com lentidão deliberada. Seu rosto não se deixava ver: era apenas um borrão instável, dissolvido na névoa.
Levei a mão ao rosto. Minha pele ardia, embora eu estivesse fria por dentro. O coração batia fora de compasso, e ainda assim eu não conseguia me mover.
Foi então que a frase retornou, intacta, como sempre retornava. Não como lembrança, mas como marca. Ferro em brasa pressionado contra a carne da memória.
“Há coisas que só podem ser aprendidas na hora certa.”
Ele dizia isso com calma. Com paciência. Como quem não avisa — apenas espera.
E, ao encarar aquela presença imóvel do outro lado do abismo, compreendi, com um terror mudo, que talvez aquela fosse a hora.
Revisado por Sahra Melihssa
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
27. Se eu esperar, a sepultura será a minha casa; nas trevas estenderei a minha cama
Data Incerta – Mara ainda dormia, inteira, ainda humana. E eu senti um golpe de alívio em meu peito, controlei minha respiração, pois não queria que ela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta – Mara ainda dormia, inteira, ainda humana. E eu senti um golpe de alívio em meu peito, controlei minha respiração, pois não queria que ela acordasse e percebesse o meu descontrole. Levantei-me em silêncio, mas não o bastante, pois Mara acordou, mas não se levantou de imediato. Lavei o rosto em uma bacia de metal e pude ver meu reflexo embaçado, meus olhos carregados de névoa, como se houvesse uma película esbranquiçada que parecia carregar em si as lembranças do sonho da noite passada. Sentei-me em uma cadeira perto da janela e fingi normalidade, enquanto Mara se levantava em silêncio.
— Você sonhou — disse ela, afirmando.
— Acho que todos sonham, não é? — eu disse, tentando soar irônica. — Espero não ter falado enquanto dormia.
Mara me olhou por tempo demais e depois desviou o olhar.
— Vamos sair da torre. Preciso falar com você longe de tantos olhos e ouvidos atentos.
Não a questionei, apenas a segui, e a ordem parecia nem se importar com nossa saída, ou fingia não se importar.
Fomos para a vila, poucas janelas abertas, poucas portas entreabertas e poucos olhos e ouvidos. Enquanto andávamos, tive a sensação de que cada casa tinha suas cores dessaturadas, com contornos levemente trêmulos, como se tudo à nossa volta estivesse envolto em vidro embaçado, e a névoa fixa no céu parecia um negativo mal revelado.
Cada vez que eu piscava para tentar desembaraçar minha visão, parecia que algo se movia fora do tempo normal; eu me sentia puxada para dentro de algo que não era eu. Mara notou meu ritmo alterado.
— Você está lenta — ela disse.
— Só estou tentando me manter acordada.
Ela franziu o cenho e continuou andando.
Vi então um pequeno cemitério entre as casas antigas, pedras partidas, alguns lápides sem nome, musgo crescendo suave. E ali, sobre um mármore branco, juro que vi algo por um segundo, como um livro. Pisquei e não havia mais nada lá, mas a sensação ficou, como se, a qualquer instante, uma lembrança pudesse me atravessar e apagar o agora. Paramos naquele cemitério, e Mara fez questão de verificar que estávamos sozinhas antes de começar a falar. Tínhamos apenas a companhia dos mortos, mas, depois de tudo que passei, eu não estava certa de que poderia confiar no silêncio deles.
— Aquelas mulheres, há algo de errado nelas — Mara começou a sussurrar bem perto de mim — a ordem nunca protegeu o castelo e também nunca interferiu no domínio de Drácula. Essa ramificação da ordem quer proteger o domínio dele por algum motivo, e não é por bondade no coração delas, isso eu tenho certeza. Há algo mais por trás disso. E por qual motivo agora a verdadeira ordem quer intervir?
Eu a ouvia, mas parecia que ela fazia essas perguntas a si mesma, e não a mim, que não possuía nenhum conhecimento prévio sobre a ordem. Eu apenas estava no lugar errado na hora errada.
— Aquelas mulheres no teatro não eram apenas espectadoras; elas estavam esperando algo — ela continuou.
Olhei para ela.
— Você?! — eu disse, surpresa com quão óbvio isso parecia.
Ela assentiu.
— A ordem nunca se preocupou com Drácula, nunca tive conhecimento de nenhuma de nós entrando no castelo, a não ser eu.
— Você acha que isso é por sua causa? — perguntei.
— Talvez, mas quando elas me viram ali, de frente para ele, inteira, isso deve ter dado a elas a ideia de que eu sou a porta de entrada para o castelo — seu rosto se contraiu.
— Então elas vieram atrás de você — confirmei.
— Não posso ter certeza, é tudo teoria, eu não sei o que pensar — o silêncio ficou entre nós.
— Tudo bem, você deve ter uma ideia do que elas podem querer de você, não é? — eu disse.
— Como eu disse, talvez eu seja a entrada delas ao castelo, mas a dúvida que fica é o que elas querem lá…
Enquanto Mara falava, o mundo parecia se deformar à minha volta bem devagar. As lápides, as árvores, as ruas pareciam ondular; as casas tremulavam de leve, e as sombras se moviam com atrasos. Tive a sensação bem nítida de que, se eu me deixasse levar, eu poderia cair em algo que não era eu. Não sei como explicar melhor, mas eu sentia que aquele algo, que não sei descrever, era algo fora de mim que estava dentro de mim. Senti que estava sendo observada e sacudi a cabeça.
— Elas sabem que não conseguimos voltar ao castelo? — eu disse, tentando ainda voltar ao normal.
— Talvez saibam, mas isso não irá impedi-las de tentar entrar — Mara falou e olhou para mim com mais cuidado. — Você também percebeu isso, não é? Que elas não são do tipo que desistem.
Assenti.
— Então precisamos de uma forma de voltar para o castelo sem levá-las conosco — falei, e ela soltou um riso breve e amargo.
— Quando se trata da ordem, não sei se isso será possível, mas podemos tentar. Agora, melhor voltarmos.
Voltamos a andar e começou como um erro de profundidade: o chão parecia estar logo ali, mas, ao pisar, ele cedia um centímetro além do que era esperado. Como um degrau que não existe, meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar, e meu coração deu um salto.
— Rute — a voz de Mara veio de longe, ou talvez muito perto; eu não conseguia distinguir.
A vila começou a perder a cor, as casas se tornaram tão pálidas que começaram a desaparecer e o céu ganhou uma aparência embaçada. Eu pisquei e um livro se abriu, mas não havia livro em minhas mãos; havia páginas sendo viradas em minha cabeça. Vi uma mulher que não era eu ajoelhada diante de uma lápide sem nome. Vi mãos pequenas segurando uma adaga grande demais. Vi sangue escorrendo sobre um tecido que já fora branco. Vi o rosto mais jovem de Mara, endurecido, mas sem o peso que hoje ela parece carregar, e aquele mesmo olhar de quem não sabe como voltar atrás. Tudo se movia com uma luz neon branca, fraca e pulsante. O torpor veio doce e terrível, eu sentia como se meu eu presente na realidade começasse a se soltar de suas costuras; senti meu corpo ficar pesado e distante, como se estivesse sendo abandonado de mim ou por mim mesma. O ar começou a ficar espesso demais para respirar. Duas fendas se abriram na névoa; eram olhos não hostis, mas atentos, e, ao vê-la, algo dentro de mim doeu com uma nostalgia que eu não reconhecia como minha.
— O que está te prendendo? — disse.
Senti outras imagens querendo emergir. O teatro, o caleidoscópio, Drácula aplaudindo, Mara sendo refeita diante dos meus olhos, meu próprio rosto sendo refletido dentro de um vidro infinito. Senti o presente perder a importância, meus joelhos falharam e minha mente também; então algo me puxou com violência para trás.
— RUTE!
Mara segurava meu braço com força suficiente para doer. Sua mão era quente, real, dolorosamente real. O mundo retornou de uma só vez, com brutalidade, e eu caí contra Mara. Respirei em golfadas curtas e descontroladas; eu senti como se estivesse me afogando de novo.
— Você estava caindo — disse ela, com a voz controlada, mas os olhos não.
— Eu vi coisas que eu não vi — eu disse, e percebi que não fazia sentido nenhum.
Ela fechou os dedos nos meus braços com mais força.
— O que você viu? — ela perguntou, séria demais.
Engoli em seco, ainda não entendia aquilo que observava por trás dos meus olhos.
— Lembranças que não são minhas, mas querem ser — eu disse, desesperada, e Mara ficou em silêncio, me observando por tempo demais.
— Vamos voltar, finja que está tudo bem e volte para o quarto — ela me encarava enquanto dizia o que eu precisava fazer.
Voltamos e entramos na velha construção onde a ordem estava e, sob os olhos daquelas que fingiam não se importar, voltei para o quarto, pois estava cansada demais para os vivos, para os mortos e para a ordem.
Mais tarde — Essa noite eu sonhei de novo, ou tive uma lembrança que não era minha, não sei dizer ao certo. No sonho ou lembrança, eu já estava triste sem saber por quê. O céu era de um cinza vazio, como se nada no mundo pudesse preenchê-lo. Não havia vento; as flores ao meu redor eram brancas demais, quase fantasmagóricas, e, a cada movimento meu, elas se duplicavam, uma após outra, depois três ou quatro versões atrasadas de si mesmas, como se cada movimento meu estivesse dando defeito no tempo. Eu caminhava sem destino, sem urgência. Tinha apenas um peso no peito, uma tristeza antiga. Então vi o mar, e ele recuava a cada passo meu, como se tivesse medo de mim. Meus pés sentiam ainda a areia úmida. Tudo permanecia imóvel se eu permanecesse imóvel. Tudo respirava se eu respirasse, mas nada parecia vivo de verdade. Foi quando tudo começou a se misturar. Vi minhas mãos segurando uma lâmina que nunca toquei. Vi o rosto de Mara jovem, endurecido por uma dor que não era minha, mas que doía em mim. Vi uma lápide sem nome que me despertava uma culpa sem motivo. Eu queria chorar, mas não sabia qual das versões de mim deveria. A névoa aumentou, e duas fendas se abriram nela. Olhos, os mesmos de antes, e, ao vê-la, senti de novo aquela nostalgia absurda que não era minha, de algo que nunca vivi.
— Você está se perdendo? — disse a voz que eu sentia conhecer.
— Isso é meu, essas lembranças? — perguntei, e os olhos me observavam sem piscar.
— Agora é.
Olhei para baixo, meus pés não tocavam o chão e eu caminhava sobre aquela água inexistente, feita de lembranças alheias e das minhas lembranças. Eu olhava para elas, e a sensação era de que tudo estava prestes a desaparecer. Vi cenas que não reconheci como minhas. Senti medo, mas não o medo desesperador; foi mais um cansaço, pois eu estava farta de existir há muito mais tempo do que minha vida permitia.
— Se eu ficar aqui, isso passa? — perguntei.
— Nada aqui passa — a coisa respondeu — tudo apenas se sobrepõe.
Meu peito apertou e uma tristeza que eu reconhecia como sendo mesmo minha cresceu. Junto com aquela sensação de que existir havia se tornado pesado demais para uma vida só. Foi quando ouvi, de muito longe, meu nome sendo chamado, como se estivesse atravessando diversas camadas. A paisagem começou a rachar, as flores se desfizeram e o céu cinza se desfez. Os olhos recuaram.
— Volte ao cemitério, você ainda tem onde cair — disse a coisa.
E eu caí. Acordei com o peito em convulsão e o ar entrando como golpes em meu pulmão, como se eu tivesse sido puxada com violência, outra vez, do oceano. Meus olhos avistaram os de Mara, desesperados, e, como sempre, não sei dizer se era preocupação com a minha vida ou com a dela, que estava presa à minha, mas era uma preocupação genuína. Eu estava em seus braços novamente.
— Precisamos voltar ao cemitério agora — puxei o ar e disse, em desespero.
Saímos e fomos em direção ao cemitério. Não vi ninguém lá a princípio, mas tinha a sensação de estar sendo observada; foi então que os vi perto de uma lápide sem nome.
— Ali, você está vendo isso? Está vendo eles ali? — apontei para a lápide para confirmar que Mara via o que eu via.
— Eu não vejo nada — ela disse, negando com a cabeça — me diga o que você vê.
— Corpos imóveis, roupas que não parecem pertencer a tempo nenhum e os rostos em espiral. Não são máscaras, eles são mesmo assim, retorcidos por dentro, como se seus rostos tivessem sido entortados até chegar ao abismo da alma — disse a ela.
Mesmo assim, eu me sentia observada por aquelas faces sem olhos que conseguiam me atravessar. Eles continuavam parados, apenas observando, e eu comecei a caminhar, e eles continuavam lá, parados e distantes. Cada passo meu os tornava sutilmente mais próximos. Eu senti que não deveria chegar a eles rápido demais, mesmo que eu quisesse. Mara perdeu o foco, e eu sabia que ela falava algo, mas não conseguia escutá-la. Então um deles se aproximou o suficiente e não tocou em mim, apenas inclinou a cabeça e sussurrou:
— Esta não é sua, e não tem relevância.
Senti algo sendo arrancado de mim, mas não senti dor, e sim alívio. Sabia que algo tinha sido levado, mas não sabia o que. Então outro rosto em espiral se aproximou de mim e também arrancou algo.
— Essa você não vai precisar — sussurrou para mim.
Depois, um terceiro rosto em espiral e, ao invés de tirar, empurrou algo para dentro de mim. Minhas mãos começaram a tremer. Um outro rosto chegou mais perto, tão perto que quase chegou a me tocar. Então senti um incômodo, uma queimação na ideia de ser quem eu sou. Eu sentia como se uma parte de mim tivesse sido raspada por dentro, bem devagar, mas não como lâmina; era com algo mais bruto e doloroso. Comecei a gritar e eles continuavam me olhando sem olhos. Vi um rosto em espiral que parecia o meu ou que viria a ser o meu. Me sentia desorganizada dentro de mim mesma, reescrita. Apenas me lembro de ser arrastada com violência, vozes em torno de mim, os olhos de Mara em desespero, mãos me apertando e a sensação de que algo foi roubado e que algo que nunca foi meu crescia dentro de mim.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
9 - Toda dádiva reclama seu tributo
Diário de Sibila von Lichenstein. (Sem data - que dia é hoje?) A partida de Arale deixou um vazio em meu interior. Era curioso — talvez até contraditório…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Sibila von Lichenstein
(Sem data - que dia é hoje?)
A partida de Arale deixou um vazio em meu interior. Era curioso — talvez até contraditório — que ela, tão claramente não humana, tenha sido a primeira criatura a me tratar como igual neste mundo. Porque aquele braço, e os apetrechos que manejava com tanta maestria, não pareciam pertencer a este tempo, nem a este plano. Nunca vira algo semelhante, e essa estranheza me dizia, sem palavras, que Arale não era feita da mesma matéria que eu. E, talvez por isso mesmo, soubesse: Arale, assim como eu, também não pertencia a lugar algum. Pois tanto ela quanto eu ansiávamos por algo — não algo que pudesse ser tocado com as mãos, mas algo que preenchesse de dentro para fora. E não saber exatamente o que era essa coisa tornava o buraco ainda maior. Sua companhia nos últimos dias me fez recordar os tempos em que passava as tardes na faculdade, auxiliando minha amiga Eleanor, que era assistente de laboratório. Amigos verdadeiros como Eleanor são raros — e Arale dera sinais de que, se o destino e nossos anseios não tivessem nos afastado, seríamos grandes amigas.
Apesar de ela ter me guiado até aqui, cuidado de mim, dividido sua comida e quase dado a própria vida para me salvar — e por mais grata que eu esteja por isso — ainda assim, sinto-me extenuada.
Acho que nunca irei me perdoar por ter atraído Eleanor para as garras de Frankenstein, por mais que, à época, eu não soubesse das verdadeiras intenções dele.
Ao mirar-me no reflexo de uma poça esta manhã, percebi que os hematomas que o fantasma de Eleanor — ou o que quer que tenha sido aquilo — deixara em meu pescoço se alastravam agora pelo colo. Algumas ervas que Arale me ensinou a macerar estavam retardando esse efeito, mas algo me dizia que eu não tinha muito tempo. À medida que a mancha crescia, menos vontade eu tinha de viver. Menos necessário se tornava o ato de falar. Urgia a vontade de sobreviver, se movimentar. Mas agora, diferente de muitas outras vezes, eu sabia para onde estava indo.
Resgatava forças das profundezas do meu ser para continuar caminhando. Minhas roupas ainda estavam úmidas do orvalho da manhã recém-anunciada. Além do ardor do hematoma — que queimava como fogo sorrateiro em meu peito — todo o meu corpo gritava por descanso. Eu estava cansada. Mas seguiria em frente. Ou melhor: para cima.
As parcas indicações diziam que Séttimor estava logo ali. Mas, para alcançá-la, era preciso seguir por uma trilha estreita de terra que serpenteava ao redor de uma montanha alta, feita de formações rochosas tão escuras quanto o ébano. Ao menos, era o que dizia o mapa desenhado na página arrancada do livro de botânica. O terreno começava a se elevar gradualmente, e continuei subindo até encontrar o início de uma trilha estreita que parecia seguir para o alto da montanha. No início da trilha, uma placa de madeira desgastada em formato de seta, pregada sobre um cepo, apontava para cima. Tive de passar os dedos sobre ela para ler as palavras quase apagadas pelas intempéries: “Vila de Séttimor”. Segui pela trilha, animada por estar no caminho certo.
Ao contornar uma das curvas, rastreando o chão em busca da erva do descanso, não ouvia som algum — apenas o vento, cada vez mais cortante. Eu sabia que estava só. Procurava não olhar muito para cima; mantinha os olhos no chão pedregoso, até que decidi parar para descansar aos pés de uma conífera enorme. Minhas roupas não eram para aquele clima frio e úmido, e a temperatura caía à medida que eu subia. Então o frio se apoderou de mim, invasivo e cortante. Percebi que não deveria ter parado. Aquele frio me lembrou do dia em que a lareira se apagou após a morte de meu pai. Eu estava deitada sobre o corpo gélido dele havia horas, mas só começara a sentir frio quando o fogo se apagara.
Era inverno, e era necessário que a lareira fosse constantemente abastecida para nos manter aquecidos. Mas meu pai sucumbira à peste — e eu, com ele. Nada vagava pela minha mente, a não ser o desejo de morrer. Lembro-me do corpo dele perdendo o calor, e com esse calor se esvaía também toda a garantia de que eu estava segura no mundo. Eu não comera, não me levantara para urinar, não dormira... Tinha a impressão de que já não estava mais viva. Quem cuidaria de mim? Recordo-me apenas da sucessão de claros e escuros através do vidro embaçado da janela, marcando a solidão que durou dias.
Foi então que ele apareceu. Primeiro, batendo à porta e espreitando pelo vidro da janela de nossa humilde cabana. Como eu não fizera menção de me mover ou responder, abriu a porta, que estava desimpedida.
— Santo Deus, finalmente a encontrei! Estava preocupado. Você simplesmente não veio mais ao trabalho. Perguntei de você para os alunos e professores, mas ninguém sabia dizer. Parece que não é muito sociável com os outros, não é, menina? Venha... me dê a mão. Deixe-me ver o que posso fazer pelo seu pai.
Eu já conhecia o doutor, mas nunca imaginara que ele viria atrás de mim. Pois, antes de me levar para morar com ele, eu não era estudante de medicina — era apenas assistente de laboratório. Minha função era limpar os corpos doados para estudo e cuidar da manutenção dos laboratórios da faculdade de medicina. Mais especificamente, era assistente do Dr. Frankenstein. Ele não se acertara com nenhum outro, e isso, para mim, era formidável, porque me permitia perguntar, observar e aprender. Mesmo que a universidade não permitisse alunas — apenas homens podiam se matricular — eu alimentava a ilusão de estar mais próxima do meu sonho. Mas era apenas isso: uma ilusão. Eu nunca seria aceita como estudante. Eu era uma mulher pobre e fraca, filha de um simples camponês.
Talvez seja por isso que aceitei a oferta de Viktor, morar em sua casa, sob a desculpa de que seria sua assistente particular em projetos pessoais que não envolviam suas atividades na faculdade. Em troca, eu poderia continuar sendo sua assistente na faculdade e assistir a todas as suas aulas, contanto que ficasse quieta e perguntasse apenas ao final. A morte de meu querido pai fora traumática, mas foi o que me catapultara. Em alguns meses, eu não era apenas assistente dele. Graças ao prestígio e após entrevistas com os professores donos das bancas do alto conselho da universidade, eu me tornei a primeira aluna mulher do curso.
Foi nesse mesmo período que Viktor passou a me chamar com frequência ao seu consultório, sempre com o pretexto de revisar gráficos e anotações de galvanismo.
— Sibila, minha querida, conseguiu terminar de revisar os gráficos de ontem?
— Ainda não, Dr. Frankenstein. Fiquei até o término da minha aula e depois fui para casa, fiquei estudando até tarde. Mas prometo que hoje terminarei.
— Eu já não te avisei de que o trabalho aqui do laboratório precisa estar em dia, Sibila? — perguntou com a cabeça baixa, mas os olhos azuis cravados em meus olhos.
Eu me virei, tentando disfarçar a minha preocupação.
— É claro, doutor! Me perdoe, acho que posso deixar de assistir a minha última aula, para vir até aqui e revisar.
— Mas por que não revisa agora, já que está aqui, minha cara? —
Aproximou-se sorrateiro, e falou próximo a mim, baixo e em tom professoral: — Entendo que dê valor aos seus estudos, mas espero que entenda também que nenhuma mão que nos estende algo, sairá vazia... Tudo tem um preço, ainda que não seja dinheiro. Por exemplo...
Senti seus dedos deslizarem da base do meu pescoço para o topo da nunca, enquanto fazia isso, terminou de falar:
— Eu dou a faculdade destaque com minhas pesquisas inovadoras no campo da medicina. O galvanismo pode ter aberto as portas, mas serei eu, o primeiro médico a fazer o ser humano a... Bem, não preciso falar sobre minhas pesquisas, você as conhece bem. O que queria dizer é que dei prestigio a essa casa de ensino e em troca pude cobrar favores, como exigir que a faculdade oficializasse o que já fazíamos, oficializando-a como minha aluna. Ou acha que, se você viesse bater à porta deles, como uma camponesa órfã de pai e de mãe, eles te dariam ouvidos? Eles sequer abririam as portas para te receber. Portanto, você deve se dedicar aos estudos, mas não se esqueça de que também me deve algo, certo minha pequena? — Agora a mesma mão que passeara pelo meu pescoço, enlaçando as pontas dos dedos nos cabelos finos e quentes da minha nuca, agora tentavam enlaçar a minha cintura.
Afastei-me um pouco assustada, mas mantive o rosto e o meu tom sério:
— Claro, doutor. Eu irei me dedicar.
Ele sorriu satisfeito. Olhou por cima das lentes dos óculos, o olhar cortante como gelo:
— Claro, querida, tenho certeza de que não vai me decepcionar, não é mesmo?
Seria aquele o primeiro sinal? Será que eu deveria ter percebido que Viktor era muito mais do que apenas um professor bondoso tentando ajudar uma órfã, filha de um velho conhecido seu? Naquele dia eu não percebi nada, eu nem sabia porque aquele toque me incomodara tanto. Mas, de alguma maneira, ele fizera os sinais de alerta do meu corpo tocarem: pelos eriçados, o coração acelerado, a respiração no limiar de se descontrolar, não fosse o meu foco nos gráficos de galvanismo.
— Quando terminar, cara aluna, venha para casa. Aguardarei você para o jantar.
Viktor saiu, não sem antes me lançar um olhar de contentamento. Sorri de volta, mais por educação do que por vontade. Eu sabia que não podia desagradá-lo; qualquer deslize poderia colocar em risco o meu futuro promissor na medicina. Após terminar de analisar os gráficos e deixar os resultados sobre a mesa do seu escritório, atravessei os corredores em direção à saída.
No corredor, dois retratos enormes dominavam as paredes: Bismarck e Humboldt, erigidos quase como ícones de devoção. Diante deles, dois alunos discutiam as teorias mais modernas. Lembro-me de ouvir as palavras galvanismo e eletricidade, mas, à medida que me aproximava, percebi que a conversa rapidamente se inclinava para a política, que definitivamente não era o meu foco. Eu não compreendia como aqueles homens jovens e privilegiados poderiam alegra-se tanto com a perspectiva que a guerra trazia, eles se consideravam os “soldados do conhecimento”. A meu ver: tolos. De qualquer forma, quem era eu para mudar alguma coisa nesse mundo, se nem senhora da minha própria realidade eu era? Eu sabia bem como me viam: uma mera trabalhadora, igual a tantas outras…
Ao longo dos outros corredores, as vozes se multiplicavam e ecoavam contra o mármore frio das paredes. Jovens exaltavam a promessa de uma Alemanha unificada sob a força de Bismarck, outros comentavam sobre as campanhas militares iminentes, como se a guerra fosse apenas mais um experimento inevitável. Entre eles, alguns exaltavam os avanços da medicina e chamavam Viktor de “o futuro da ciência prussiana”. Eu caminhava em silêncio, absorvendo cada palavra como quem ouve o cântico de um templo ao qual nunca pertenceria.
Um galho caiu próximo de mim, me despertando do transe em que as lembranças sobre Viktor me colocavam. Estava exausta, mas parar, naquele frio significava morte. Não precisava ser estudante de medicina para saber disso, eu precisava levantar. Então, para colocar o corpo em movimento, decidi colocar a mente para funcionar primeiro. Coloquei o meu diário sobre as minhas coxas e comecei a escrever. Eu ia escrevendo e transmitia as palavras de meu íntimo para o papel, as letras saíam trêmulas, mas não vacilantes:
“Hoje, pensei em Viktor novamente. Me surpreendi ao sentir falta dele. Antes dele, eu era uma camponesa órfã e desempregada. Depois dele, eu era a assistente estudante de medicina do Dr. Frankenstein. Eu era a mulher, dentre tantos homens, eu era a grande escolhida, o mais novo prodígio que se sobressaíram aos olhos dele. Assim eles diziam, mas eu sabia que era só órfã e útil. Hoje eu sei, ele se achava um deus e eu era seu sacrifício.”
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
25. Cada um, porém, é tentado pelo seu próprio desejo, sendo por este arrastado e seduzido
Data incerta - Achei que havíamos conseguido escapar por um momento da lembrança do castelo. Que naquele vilarejo, mesmo que estranho…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data incerta - Achei que havíamos conseguido escapar por um momento da lembrança do castelo. Que naquele vilarejo, mesmo que estranho, conseguimos respirar um pouco. Pelo menos por uma noite, só uma, poderíamos nos sentar e assistir algo que não tivesse relação com o castelo. Quase acreditei que teríamos tempo. A peça era sobre nós, era sobre o castelo, cada palavra, cada movimento, cada pensamento como se tivesse sido arrancado dos nossos ossos e costurados com precisão ali naquele maldito palco, com aquele final que parecia fora do roteiro, um tanto improvisado talvez. Quando a peça acabou eu não senti alívio, mas um calafrio subir minhas costas como aqueles que eu sentia no castelo e já faziam parte da minha rotina lá. Quando cobri Mara com o manto para sairmos do teatro, senti olhos nos observarem mais intensamente do que qualquer outros ali.
Roupas escuras e presença quase fantasmagórica, mas havia algo mais, olhos treinados e corpos que sabiam matar e fazer isso com perfeição. Elas não estavam ali para aplaudir, estavam ali por ela, por Mara, que agora estava inteira. E antes que eu ou Mara pudéssemos reagir, fomos cercadas, um golpe seco, um cheiro de ferro e tudo escureceu. Acordei em uma cela de concreto úmido, tubulações vibrantes e luzes mortiças, Mara estava ao meu lado, sentada.
— Elas são da ordem — ela disse quando me viu acordar — Eu fiz parte disso, antes do castelo.
Depois de horas de espera fomos arrastadas até uma sala cheia de símbolos estranhos e um cheiro forte de ozônio. A ordem me olhava com desprezo, quantas mulheres haviam ali? Quinze, vinte? Eu não saberia dizer. Eu ouvi o plano delas, eliminar o elemento estranho, ela é descartável, um peso morto, um risco, então uma delas puxou uma faca e veio até mim, senti a morte chegando, a presença daquela mulher que vinha em minha direção era como a presença mortal, mas Mara se colocou entre nós, com uma fúria igual a de uma fera encurralada ela lutou com as mãos nuas com a motivação de quem já matou mil vezes e poderia matar muitos mais. E a beleza de Mara furiosa era aterradora, essa é a palavra que melhor descreve a sua aparência, com aquela pele de um tom quente, um âmbar escuro, sobrancelhas e olhos escuros muito intensos e ferinos, nariz levemente aquilino e lábios cheios, marcados e cerrados, olhá-la tão de perto, tão real, despertava em mim aquela sensação de quando se vê de frente a um grande felino selvagem, belo e mortal, e não se sabe se o acaricia como um pequeno gato ou se corre sabendo que não irá tão longe. Ela quebrou ossos, rasgou carne e assim que conseguiram contê-la, ela gritou:
— Se matarem ela, morremos as duas.
O silêncio foi total, todas elas olharam para Mara.
— Estamos ligadas — ela disse arfando — por uma magia do castelo, por algo que eu não entendo, mas que é real, se uma de nós morrer a outra morre também.
E contra minha vontade e a vontade da ordem eu entrei num plano que colocaria mais dificuldade em minha vida. A base da ordem, pelo que soube depois, era em um templo abandonado protegido por símbolos e amuletos que escondem a presença delas de outros membros da ordem. O mesmo amuleto foi dado a nós, um fragmento de obsidiana envolto com prata com uma runa estranha. E agora faço parte disso, uma ex-cientista cética amarrada ao destino de uma assassina de uma seita estranha. E o pior de tudo era que parte de mim agora quer saber até onde essa loucura vai. Uma reunião foi convocada, a qual Mara fez questão que eu estivesse presente, pois agora eu fazia parte disso, ela mantinha um olhar firme. A líder da ordem, que se apresentou como irmã Iridia, uma mulher de feições duras e olhos sem emoções, nos conduziu até um salão, com paredes de pedra, cadeiras e mesas grandes de madeira, castiçais com velas na cor magenta e algumas flores vermelhas aqui e ali. As outras mulheres estavam bem posicionadas ao redor dela em silêncio. Todas elas com capuzes baixos paradas como soldados esperando uma ordem, mas que não ocultavam totalmente seus rostos. Eram mulheres de idades e corpos diferentes.
Iridia falou com uma voz clara e calma.
— O castelo está morrendo e quando ele morre, não apenas ele perece, mas morre também aquilo que o sustenta e ele sustenta, todas as histórias que contêm dor e revelação, os livros que contêm vida, e os espíritos que ainda não foram lembrados pelo nome certo. Se ele morrer, o tempo aqui se contorce e leva tudo com ele. Devemos impedir que a antiga ordem faça isso acontecer.
Ela caminhou em círculo, os pés nus tocando as pedras frias daquele templo com uma familiaridade.
— Nossa função, como sempre, é garantir que o ciclo não se complete. Que os que chegam aprendam, que os que resistem escrevam e vocês — ela olhou para nós — estão presas a isso.
— Presas? — Mara sussurrou, como se a palavra tivesse um gosto ruim na boca.
— O castelo não permite que saiam, ainda não — Iridia respondeu — …vocês devem nos ajudar a fazer o castelo sobreviver.
— Mas como? — perguntei sentindo a pergunta me doer a garganta.
— Com tudo o que vocês têm, culpa, ódio, amor, luto, medo, desejo, e também com a matéria sombria presente no castelo.
Mara cruzou os braços, estava inquieta e percebi que ela observava cada membro da ordem com um olhar avaliador. Até que seus olhos pararam em uma delas, uma mulher de postura altiva, ombros largos e maxilar marcado.
— Eu lembro que o propósito da ordem nunca foi interromper o ciclo, e também achei que somente mulheres faziam parte da ordem — ela disse isso sem malícia, mas com a franqueza quase ríspida que era típica dela. — não sabia que tinham começado a aceitar homens agora.
Houve por um momento um silêncio constrangedor, a mulher ergueu o queixo e respondeu sem alterar o seu tom de voz.
— Eu sou uma mulher e a ordem nunca aceita homens.
O olhar de Mara hesitou por um breve momento, talvez de surpresa ou talvez vergonha, não sei ao certo, mas a mulher não esperou que ela se desculpasse ou se consertasse e continuou:
— O que a ordem aceita são mulheres que estão dispostas a sangrar de verdade. Não o gênero imposto, o nome que nós próprias enterramos não importa, mas o nome que escolhemos usar para renascer para a ordem.
Mara murmurou algo que não entendi e seu rosto se contorceu de raiva. Então, depois dessa interrupção Irina retomou:
— A ordem se ramificou e uma parte dela entende que certos ciclos não devem ser encerrados, então se desejam sobreviver, vocês terão de lutar e escrever, mas não basta contar o que viram, vocês precisam contar o que sentem, o que temem. A história só vive se for honesta e o castelo só respira se for alimentado com o que vocês não querem lembrar.
Depois de toda a conversa Iridia disse às outras que estavam liberadas e pediu que eu e Mara esperássemos no salão para poder jantar e depois nos levaria a nossos aposentos para que pudéssemos descansar. Nos sentamos em uma grande mesa com diversas comidas e bebidas, as freiras, pois era o que elas pareciam para mim, caminhavam pelo salão como sombras, descalças, sem fazer barulhos com seus movimentos leves. Diferente de horas antes que estavam vestidas todas de cores escuras, agora vestiam vestidos leves que roçavam nas coxas, deixando escapar vislumbres de pele sob as luzes trêmulas das velas na cor magenta que iluminavam aquele salão. Não havia aquela disciplina que observei antes, aqui agora elas riam entre si, bebiam vinho em longos goles e algumas trocavam beijos demorados, mas discretos, diante de todas, mãos que deslizavam por tecidos frouxos, como se aquele comportamento fosse parte da ordem. Aquele magenta profundo das velas, era uma cor que me lembrava carne, feridas, dor, prazer. Eu observava aquilo no começo incomodada, mas aos poucos me aceitando como parte daquilo. Mara crispava os lábios, seu semblante sério e sua rigidez era um contraste estranho com aquele ambiente e entendi que ela pertencia a um tempo que a ordem não era assim.
— Isso não é devoção — ela murmurou baixo para que só eu a ouvisse. — isso é fraqueza. A ordem é feita de silêncio, lâminas, dor e jejum. E agora o que vejo diante de mim? Uma geração que reza através de beijos e carícias e matam com o que? Perfume de flores venenosas? O propósito da ordem é manter o ciclo e destruir aqueles que o interrompem…
Ela reclamou por bastante tempo e falou mais do que eu já a tinha ouvido falar e com suas queixas eu descobri que a ordem era como uma seita que mantinha o ciclo natural da vida intacto e que destruía tudo e todos que quisessem ultrapassar o ciclo natural, isso incluía Drácula, mas a ordem que víamos agora e que, não por escolha, fazíamos agora parte, queria manter o castelo vivo. Seu olhar endurecido e sua irritação por aquela nova ordem me incomodou mais que a cena diante de nós e me senti um pouco culpada, pois em segredo eu invejava aquelas mulheres, a forma como riam sem medo, como se permitiam tocar e serem tocadas, como se o mundo fosse apenas aquela noite e o único mandamento que seguiam fosse o de se deixar sentir. E eu senti, contra a minha vontade, uma chama lenta se acender dentro de mim. O cheiro do vinho e das peles suadas misturavam-se ao cheiro de ozônio daquele lugar. O som dos sussurros, dos risos contidos e dos lábios encontrando beijos, me faziam recordar Hadassa, minha amante perdida, aquela cuja ausência ainda me doía o peito.
Naquele instante percebi que a sensualidade não vinha apenas dos corpos das freiras, estava em tudo na cor das velas, no templo, nas flores, na comida, no vinho, no ar saturado com cheiro de ozônio, luxúria e morte que me faziam sentir um sabor forte na boca, um sabor que depois de leves movimentos da língua se desfaz e traz com ele pequenas mortes. A sensualidade estava também em mim e ao meu lado, Mara não percebia que o seu desprezo por tudo aquilo não faria mudar nada naquele lugar. E talvez essa fosse a intenção do local, a intenção dessa ordem, nos fazer sentir até doer. Acabamos de comer e fomos levadas por Iridia a um pequeno quarto com colchões improvisados, Iridia nos deixou nos lembrando que no outro dia tínhamos mais a conversar. Me deitei naquele colchão improvisado e tentei encontrar algum descanso, mas o sono fugia de mim. Mara estava deitada em outro colchão ao meu lado ainda desperta e percebi como estava impaciente pela forma que batia os dedos na faca que tinha sobre si, faca essa que não sei onde ela tinha conseguido, ela estava impaciente como se estivesse à espera de um inimigo invisível que precisasse atacar.
Ela se ajeitou no colchão, com os olhos ainda fixos no teto, seu silêncio pesava como de costume, cortante e incômodo como a lâmina que agora carregava consigo. E imagino que cada riso, cada beijo das freiras era um insulto, uma afronta à disciplina que ela tinha. Porém dentro de mim, algo se movimentava, eu via um pecado bem-vindo onde ela via fraqueza e esse contraste me devorava por dentro. E comecei a pensar nas velas que queimavam lentamente, nas freiras que se acariciavam sem pressa, que bebiam sem pudor, que faziam Mara desviar o olhar furiosa, mas eu não conseguia desviar o olhar, meus olhos me traíam e quanto mais eu tentava afastá-los mais eles se voltavam. E o desejo e culpa se confundiam em mim, tanto que fizeram meu peito começar a doer só de imaginar. Virei meu rosto discretamente para Mara, seu perfil duro e impiedoso, mas também belo, mais belo ainda agora em carne e ossos, parecia tão alheia ao que talvez eu estivesse sentindo e pensando, ou talvez soubesse e por isso se mantinha em silêncio. Eu sentia que eu estava cedendo ao abismo, enquanto Mara construía uma muralha entre nós e nada continuava sendo dito, e eu queria dizer algo ou que algo fosse dito, e percebi que o desejo faz doer mais quando não se encontra as palavras certas.
Adormeci sem perceber, como se estivesse sendo engolida pelo abismo que eu já queria ceder, quando abri os olhos já não estava mais no quarto, meu corpo nu aquecido por uma água de cor fúcsia-brilhante, paredes que pareciam como carne viva e acima de mim um teto escuro com flores carmim que pingavam sangue naquela grande piscina com água quente. As freiras estavam lá, mas seus rostos eram véus escuros sem feições, e mesmo assim me olhavam, suas mãos estavam estendidas em minha direção delicadas e suaves e quando tocavam minha pele eram frias como ferro, beijavam-se ao meu redor com seus rostos sem feições, riam baixo e cada riso era como uma lâmina penetrando meus ouvidos. Mara emergiu do centro da piscina, vestida de branco, tecido molhado colado ao corpo, o vestido salpicado com o sangue que pingava do teto, ela não falava, não sorria, apenas me olhava e eu não sabia dizer se aquilo era uma censura ou um convite. Eu tentei ir até ela, mas meus braços e pernas estavam presos por raízes cheias de espinhos que se cravaram em minha carne causando feridas que sangravam demais. As freiras acariciavam minhas feridas com gestos delicados e cada toque trazia dor e êxtase ao mesmo tempo.
Quando finalmente consegui me soltar das raízes e das freiras, cheguei perto de Mara e quando toquei sua pele quente, ela dissolveu em pó e dela surgiu um esqueleto perfeito, como o que eu vi quando Drácula a reconstruiu no palco. O esqueleto sorriu um sorriso insano e se cobriu de sangue, que fez a piscina transbordar e sua água fúcsia ficar em um vermelho vivo. Do fundo ouvi palmas, lentas e pesadas e quando olhei em direção a elas vi Drácula sentado na plateia do meu sonho, sorrindo, como se fosse um crítico que estivesse observando e analisando cada detalhe da peça. Foi nesse instante que acordei com o coração disparado e o corpo suado. Mara dormia no colchão ao meu lado de costas para mim e dentro de mim eu desejava que aquilo fosse apenas um sonho e não um presságio.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Delírio Febril
Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro? Abro a porta, olho em volta e, aparentemente, não há ninguém. Perambulando, encontro um dos muitos corredores existentes; conforme atravesso, lembro do encontro interessantíssimo que tive com o professor Monm, uma figura distinta. Dificilmente esqueceria o brilho em seus olhos, pois ele é semelhante ao meu... gostaria muito de ser uma de suas alunas, tenho certeza de que seu conhecimento seria de valor inestimável para mim. Espero que o Castelo proporcione nosso reencontro.
Ao final do corredor, encontro o grandioso salão, palco de uma noite memorável. Foi exatamente aqui onde ocorreu o primeiro baile de máscaras. As lembranças que pareciam estar adormecidas despertam com mais intensidade. Imediatamente, vislumbrei o vazio se materializar através de memórias fantasmagóricas.
Com clareza, vi o lugar sendo ocupado por mulheres e homens em trajes de gala, ostentando suas exuberantes máscaras. Reverberava em meu ouvido as funestas notas da peça Toccata and Fugue (música tocada pelo quarteto naquela ocasião). Contemplo os vultos em longos vestidos rodopiando em tonalidades diferentes, sem contar aquele vertiginoso encontro com aquela criatura lúgubre de olhos azuis, tão enigmáticos quanto a vastidão do universo.
Defronte para o silêncio, sussurro seu nome com a delicadeza de quem assopra a chama de uma vela: “Nickollas”. Meus caninos sobressaltam; não consegui disfarçar o desejo sombrio. Fito a janela onde ele me levou naquela noite para observar a túrgida lua — lembro de como a veia em seu pulso resplandecia à penumbra do luar e do excitante som ao rasgá-lo.
Mas algo me trouxe à tona: um brilho arcano de tonalidade magenta surgia pelos arredores do Castelo. Conforme ia se aproximando, clareava o recinto. O que será isto? Assustada, vou até a janela e a atravesso. O frescor da brisa toca minha tez ávida (não lembro a última vez que saí do Castelo).
Era impressionante a dimensão da névoa. Via-se pouquíssimo do firmamento, assim como a vasta e verdejante vegetação composta por exuberantes carvalhos com suas belas folhas, altas faias, baixos arbustos e, pelo chão, gramíneas cresciam desenfreadamente. Avisto uma esguia trilha que se estendia mata adentro; decido segui-la.
Nos primeiros passos, um frescor inexplicável invade meus pulmões, como se ali tivesse caído uma forte chuva. Tive a nítida sensação de que a vegetação se movia, como se estivesse respirando. Abaixo e inspiro aquele cheiro melancólico; então, enterro meus dedos sob aquele solo úmido, deixo escapar um gemido inaudível, acompanhado de intenso salivar. Retiro-os ainda úmidos (isso foi intenso) e sigo em frente.
A bruma que outrora era magenta adquiriu tons em escarlate e também ficou mais densa. Após muito caminhar, tenho um vislumbre espetacular: perante a mim, erguia-se um arco esculpido em mármore branco, de altura considerável. Os galhos das faias abraçaram aquela estrutura com afinco.
Estava perplexa com este lugar. Será que acessei outra realidade? Um brilho longínquo surgia dentro da mata. Munida de curiosidade e excitação, atravesso e, mais alguns passos à frente, encontro uma ampla piscina. Parece ser profunda, sua borda feita do mesmo material do arco. As águas eram serenas e sombrias, de mesmo tom da névoa, porém a cor escarlate era predominante.
Um incontrolável desejo de mergulhar se apoderou de mim. Estava prestes a realizar tal ato quando ouço passos em meio à névoa. Sem dúvidas, uma visão espantosa, semelhante a uma aparição fantasmagórica, movia-se com espantosa graça. Parou em frente à borda; então, tive um vislumbre estupendo.
Uma figura feminina, de altura média, sua pele lívida, semelhante a uma boneca de porcelana, dona de uma beleza arrebatadora. Seus olhos eram um excitante enigma o qual adoraria desvendar. As sobrancelhas eram arqueadas, o nariz afilado, emoldurando aquele rosto, longos cabelos negros com duas mechas brancas, chegando na altura dos quadris.
Usava um vestido translúcido; havia rendas francesas tanto na barra como no provocativo decote, ressaltando ainda mais os esplendorosos e firmes seios. Caminhava naquela névoa, tal qual uma bailarina.
Mesmo sem saber a natureza daquela aparição, anseio ardentemente possuí-la. Assisto-a andar pela borda com muita destreza. Em certo momento, ela mergulha a ponta do seu pé direito na água, espalhando gotículas vermelhas no ar, maculando o vestido, assim como a borda. Vi nascer de seus lábios um sorriso tão enigmático quanto o da Mona Lisa.
É impressionante o poder que ela exerce sobre mim. Seus gestos suaves afloram meu lado selvagem, atiçando uma luxúria quase obscena. Um desejo ancestral floresce do meu âmago; nunca pensei que fosse sentir tais sentimentos.
Desenvolvo uma certa obsessão, beirando ao voyeurismo. É excitante pensar na possibilidade dela estar me vendo... Depois de andar, ela senta com elegância e toca suavemente as águas com os dedos indicador e médio em movimentos circulares, criando calmas ondas. Hipnotizada, contemplo seu reflexo distorcido; então, escuto um sussurro vindo da criatura:
— Me chamo Olívian d’Nehr — finalmente pude ouvi-la. Sua voz era doce e irresistível, como o licor das maçãs sangrentas.
O movimento circular se intensificou, deixando a água cada vez mais agitada. Aquele som fez meu corpo contorcer em espasmos libidinosos. Das minhas entranhas escapam gemidos, até que os movimentos cessam (mas as águas permaneceram inquietas, assim como meu âmago). Em seguida, fitou-me e sorriu, enquanto meu colo pulsava em descompasso. Das águas, ergueu os dedos e me chamou silenciosamente; assim o fiz, caminhei ao seu encontro, sem questionar.
Olívian estava de pé, parada. Seus cabelos bailavam com muita leveza ao som dos ventos. Então, fechou os olhos e despiu-se. Fui acometida por um estado febril intenso; abracei a volúpia com fervor. Neste momento, éramos como Adão e Eva na imensidão do Éden e estávamos prestes a morder o fruto proibido. Gostaria de ter pincéis, tintas e um quadro para eternizá-la; seria uma pintura digna de filas quilométricas, sua beleza era assustadora.
Me despi com uma certa rapidez. Vi seus olhos castanhos escuros brilharem diante do meu corpo nu. Finalmente, estou face a face. Sua respiração tranquila, porém quente, toca meu rosto. Ela tinha as mesmas expressões da pintura “Deusa Vênus” feita pelo talentoso pintor italiano, Sandro Botticelli.
— É um prazer inefável conhecê-la, Olívian — as palavras foram silenciadas pelo desejo. Meneou a cabeça cordialmente, seguido do sorriso enigmático. Ouço novamente mais um sussurro: — Acompanhe-me.
Caminhamos por algum tempo até que avistamos uma frondosa árvore a qual me era familiar. Reconheceria aqueles frutos até de olhos vendados. Daquela árvore vinham as afrodisíacas maçãs sangrentas. Olívian pegou uma das inúmeras maçãs, olhou ardentemente em meus olhos e mordeu com avidez, espalhando pelo ar gotículas. A espessa seiva também serpenteou por entre dedos, mãos, queixo, pescoço, passando por entre o colo, cessando em suas pernas.
Ela me oferece a maçã; mordo com vontade, sinto novamente aquele gosto sombrio, porém inesquecível. Deixo a maçã escapar de minhas mãos. Banhadas pela bruma e pelo tênue luar, nossos corpos ardentes se entrelaçam, tornando-se um só. Sob o úmido chão, me entrego ao oceano de prazeres e libertinagem inimagináveis.
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Balthazar Crown – O Chamado do Castelo
A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu — abandonada em um fim de agonia, sem consolo, sem salvação.
Balthazar repousou a pena. O silêncio que se seguiu era denso, como se o próprio ar lamentasse. Então veio a recompensa: um calor súbito percorreu suas veias, reacendendo-lhe a vitalidade; a pele pálida brilhou com frescor juvenil; os músculos se retesaram com a firmeza de quem jamais conheceu decadência.
E então vinha o deleite. Não simples vigor, mas um arrebatamento febril, comparável ao êxtase da carne. Cada fibra de seu corpo vibrava como se mãos invisíveis o percorressem. O calor que lhe incendiava o peito não era apenas vida — era gozo, puro e incontido.
A imortalidade lhe trouxera a dádiva de provar todos os sabores da carne e, ao mesmo tempo, o fardo de que nenhum sabor permanecia por muito tempo. Mulheres, homens, corpos cis e trans, ativa ou passivamente — a eternidade lhe dera palco para todas as formas de prazer.
E, ainda assim, o tédio era sua sombra inseparável. Até o êxtase, quando repetido, tornava-se um abismo de monotonia. Talvez fosse por isso que a dor de seus personagens o excitasse tanto: era a única novidade capaz de incendiar-lhe a alma já cansada.
Ergueu-se da cadeira, esguio, elegante, com o porte ereto de um príncipe amaldiçoado. Atravessou o aposento até uma mesa lateral, onde repousava uma taça de cristal. Serviu-se de vinho vermelho-escuro, tão denso que lembrava sangue coagulado.
Elevou a taça na penumbra e brindou com a ausência invisível. — Mais um, minha silenciosa companheira. Mais um que se extingue para que eu continue. Tu não me tomas, mas jamais me deixas. Brindemos, pois, à eternidade que me cobra sempre em sofrimento alheio.
O cristal soou no vazio, e nenhum eco respondeu.
Foi então que o ar se quebrou. Não em som, mas em essência. O vinho tremeu dentro da taça, as velas se curvaram todas em uníssono, e um frio atroz se ergueu das pedras do chão, escalando-lhe os ossos como serpentes geladas.
Balthazar não piscou. Observava. Notou que as chamas não vacilavam ao acaso, mas oscilavam num mesmo compasso. Notou que o frio vinha em pulsos, intervalados como batidas de coração. Notou, sobretudo, que não estava só.
Uma presença sutil, quase imperceptível, pairava no ar. Algo invisível o estudava, respirava junto às suas palavras, como se o chamasse para atravessar os limites do aposento. O ar pulsava, pesado, e o frio que subia pelos ossos parecia guiar seus passos para um destino além da realidade conhecida.
A sombra diante dele não possuía forma fixa. Oscilava, dobrava-se, esticava-se. Em certos instantes lembrava um véu flutuando; em outros, curvas insinuantes, bocas que suspiravam, rostos deformados — talvez ecos das vítimas que enterrara em suas narrativas. O aposento inteiro cheirava a livros úmidos e a perfume noturno, como se cada palavra escrita por suas mãos tivesse se dissolvido no ar para compor aquele espectro.
Um homem comum teria recuado, mas Balthazar sorriu. — Ah… então és tu quem me observa quando escrevo.
Os olhos treinados dele conseguiram captar um espectro. Era parecido com as manifestações espectrais de seus personagens, que surgiam diante de si após escrever seus finais trágicos e dolorosos. Mas tinha algo a mais. Uma atração quase irresistível. Era como se a pena que repousava em seu bolso o puxasse na direção dela, como se o próprio ar o acariciasse.
Um passo na direção da presença e o chão dissolveu-se. As paredes tombaram como cortinas rasgadas. E ele caiu — não em queda, mas em transição. Quando abriu os olhos, o mundo era outro.
À sua frente erguia-se uma fortaleza impossível, construída à beira de um penhasco sem fim. Suas torres góticas se retorciam em direção ao céu, mas o céu era um vazio sem estrelas, um firmamento oco que não conhecia sol nem lua. As muralhas respiravam em silêncio, como se cada pedra fosse parte de um corpo vivo.
E os jardins… Infinitos. Labirintos de flores negras e árvores que se curvavam em ângulos proibidos, multiplicando-se como reflexos em espelhos partidos. As estátuas, espalhadas em meio à vegetação, fitavam-no com olhos que se moviam quando não eram vistos. Algumas possuíam corpos nus entrelaçados, contorcidos em êxtase petrificado. Pétalas úmidas brilhavam como se estivessem molhadas de lágrimas — ou de suor.
Balthazar caminhou até a beira do abismo. O vento inexistente não lhe tocava o sobretudo, mas ainda assim ele se abriu, como asas prontas a alçar voo. Seus olhos azul-acinzentados refletiam o nada infinito.
Ergueu a taça de vinho que ainda segurava. O líquido permanecia intacto, como se tivesse atravessado os mundos com ele.
— Eis teu palco, morte. — Ele sorriu com cinismo. — Ainda não ousas tocar-me, mas ainda assim me segues. Que teatro sem tempo é este, que aguarda pela minha pena?
O silêncio respondeu, profundo, eterno.
Mas então, outra voz se ergueu — não vinda do vento, mas da própria essência do abismo. Era doce e terrível, como sinos fúnebres ao longe, e carregava um perfume que lembrava tanto o velório quanto o leito.
— Chamam-no de Castelo do Drácula. — A figura surgiu diante dele, moldada em beleza impossível. Seus cabelos eram véus de treva, sua pele, mármore iluminado por uma luz sem fonte, e seus olhos, dois poços nos quais todos os séculos afundavam. — Um lugar fora do tempo, fora do espaço. Se chegou até aqui, é porque já o aguardavam. Mas não cabe a mim lhe explicar mais.
Balthazar sorriu com ironia suave, erguendo a taça na direção dela.
— E por que não vens comigo? Foste minha única companheira verdadeira por todas essas décadas.
Os lábios da Morte se curvaram, entre riso e desdém.
— Seria deveras interessante, Balthazar. Mas não fui convidada. Você sim. O que começa aqui, no receptáculo que se alimenta das tuas palavras, é apenas o primeiro capítulo.
O vento inexistente silvou como gargalhada. A Morte sorriu pela última vez — gesto que era tanto consolo quanto sentença — e então se desfez no ar, como névoa tragada pelo próprio vazio. Nenhum passo, nenhum som: apenas deixou de estar, tão abrupta quanto surgira.
Balthazar, sozinho outra vez, voltou-se para os portões colossais do Castelo. O vinho ainda repousava intacto em sua taça, e seu reflexo nas paredes vivas parecia observá-lo com expectativa. Ele respirou fundo, bebeu o líquido em um gole só, e uma centelha de júbilo percorreu-lhe o olhar.
— Está certo, então. A eternidade já estava ficando entediante. Aqui inicio um novo capítulo na minha história.
E caminhou, sem pressa, como quem escreve as próprias páginas com o simples peso de seus passos, sem saber ainda todos os segredos que aguardavam por ele no coração do Castelo Drácula.
Hel J. L. Costa
Hel J. L. Costa é escritor, poeta e editor da Editora Helden. Sétimo filho, nascido em Ribeirão das Neves (MG), em 1985, encontrou na escrita uma vocação desde a adolescência. Dedica-se a obras de fantasia, terror e temas sobrenaturais. Participa de diversas antologias e é autor do romance A Donzela e o Vampiro, disponível na Amazon. » leia mais...
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Encontros tórridos com Eco reinventada
Contornei as curvas do belo corpo. Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Por Alana Mortensen
Contornei as curvas do belo corpo.
Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o sexo e rosto pueril, os dentes alinhados, sem a brancura excessiva resultado de tratamentos estéticos. A textura e odor das flores era o que mais me aprazia — podia sentir o frescor agradável tocar minhas narinas. Os efeitos que a iluminação e perspectiva suscitavam em sua tez reforçavam o cenário onírico.
O balanço gentil do rio acalmava quaisquer perturbações. Técnica ou efeitos do Castelo na tela?
O líquido carmim, que aspergi em seu colo, realçava a beleza delicada, primal e arredia. O processo contínuo e minucioso acalmou as elucubrações daquele dia, mas garras de perturbação insistiam em se engalfinhar na obra. O êxtase era obtido sem pressa.
Éramos peças postas de forma estratégica no tabuleiro-tela.
Aquela figura suave parecia desfilar na tela, meus pincéis já sabiam acompanhar seus intentos. Desnudava-me de meus preconceitos, deslizando por entre caprichos de Eco. A forma corpórea perdia-se entre as névoas magentas; a superfície assemelhava-se a espelho d'água. Contemplava a mim?
“Venha, não tenha medo... medo... edoo... edoo”, a voz vacilante, afogada pelas águas que abarcavam suas pernas; o olhar fixado, como quem não esmorece diante de nada; a mão estendida, convidativa, exercendo influência sobre mim. Tal qual fora a minha chegada a este Castelo, fui persuadida a adentrar aquele mundo rubro-desbotado. As águas do meu interior fervilharam ao tocar a mão fria, mas macia.
Meu quarto transformou-se no cenário irretocável, irreal e plástico. Eco escancarou a porta, cujo olho-mágico era a tela. Hipnotizada, deixei-me conduzir por seus encantos, sem conseguir emitir som, pois voz não fazia parte daquele momento pictórico. Deslizamos sobre a relva úmida, recordando sensações há tempos adormecidas.
Já tiveste contato verdadeiramente íntimo com alguém, a ponto de não precisar estimular as terminações nervosas da flor que desabrocha na adolescência, mas mesmo assim, sentir-se em estado de êxtase? Conseguiria afirmar que isso é possível?
Decorreram-se horas ou dias, isso não tem importância, o tempo já me é alheio. Após esses primeiros contatos, físicos ou metafísicos, chegamos ao seu lugar de refúgio, um reservatório com águas calmas e rubras, vigiado por oito colunas, com seus capitéis dóricos suntuosos, dispostos como voyeurs das nossas tórridas aventuras. Minhas mãos percorriam ágeis, agora sem pincéis, as curvas de Eco. Sentia-me fadigada, mas não conseguia interromper o ciclo retroalimentado pelo deleite extraído e provocado.
Continuei nessa posição até sentir uma pressão no tornozelo, que logo transformou-se em agonia. Recobrei meus sentidos e percebi que Lisa cravara suas presas com afinco. Por que não gritara?
— Não era Eco, mas uma criatura maléfica. Chamei reiteradas vezes... Esta foi a forma de trazê-la de volta. Ela minaria suas forças até você ... — respondeu, hesitante, e adivinhando meus pensamentos.
Meu braço ainda exibia a marca do beijo-toque, feito ferro em brasa, que a tinta fresca imprimiu em mim. Eu não saíra daquele quarto e, agora sabia, algo maléfico viera ao meu encontro.
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…