Poema

Ah, fé, | Só com ti o mais descrente pode absorver o consumo da realidade | De acreditar que pode haver amanhã mesmo em fúria | A fé que aprendemos desde crianças…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

IV
Ah, fé,
Só com ti o mais descrente pode absorver o consumo da realidade
De acreditar que pode haver amanhã mesmo em fúria
A fé que aprendemos desde crianças
Quando fazemos as brincadeiras sem saber por quê
Sem definir as atividades, apenas soltos no tempo e espaço
Ainda sem conceitos, primitivos
A fé é o retorno ao primeiro
A infância que acredita no futuro, pois ainda está por conhecê-lo
Como Kierkegaard, saber da fé além da razão
Ter a morte uma só vez experimentada
Oh, poetas, vocês têm fé,
Pois sonham
Não vos resta somente o cotidiano
Não sacia a sede o concreto
É a imagem do que é ideal
O que se espera
O que se apresenta por detrás da angústia da vida
Um novo ar, como o da fotografia sensual
Quieta e ardente, parada e fugaz,
Uma prova estática e assustadora da morte
Valeu o clique da foto como vale o eterno retorno
Além daqui existe o sonho
O cotidiano por si só não basta
E os poetas sonham
Como a transa secular das palavras e das coisas
Os corpos que se tocam e gemem desejos
Onomatopeias do sexo
Do prazer com que a carne tenaz sacia a loucura
A fé, mesmo que não a tenhas aos moldes cristãos,
Estás sujeito a tê-la
É a presença da incerteza
A dinâmica do jogo dos erros
É a lógica sem pé nem cabeça do mundo incerto
A fé não se engana
A realidade é que não suporta os sonhos
O novo
A fé é a loucura dos sonhos que se esvaem na realidade
A sombra do viajante
A coisa das causas
Paixão dos amantes que irrompem agressivos
O poema que se fez carne e a carne que morreu por uns versos
Enquanto o poeta, quase sem fé,
Com a corda na mão,
Nutre-se novamente


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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O rádio de válvulas na sala de estar chia uma estática de sangue, e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro de um piano…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O rádio de válvulas na sala de estar chia uma estática de sangue, e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro de um piano de cauda de veludo carmesim, vertendo flores doces e pétalas com odor de esperança.

O perfume de vaga-lumes dos campos elísios,
O útero de Einherjar
Sob o crepúsculo enfermiço de onde o tempo se dobra como
ferro incandescente sob o martelo de deuses esquecidos,
uma pele velha e suada sobre um assoalho de xadrez infinito. 

As luzes de néon cádmio derretem nos cantos do teto,
transformando-se em corvos de cera que gotejam piche quente sobre o linho branco da realidade, enquanto o Vidente do Manto Negro — uma ferida aberta no espaço — desliza acompanhado por uma criança de olhos de mármore cheios de fumaça elétrica.
Não há consolo, apenas a sentença: o colar de prata lunar, onde a engrenagem
e o olho lacrimejante se fundem em um beijo de parasita,
é apertado contra a garganta, lançando a alma a um oceano de horror ontológico. 

Pelas frestas do inconsciente, as aranhas de cristal emergem com patas de agulha, costurando o silêncio ao pânico, enquanto carniçais de sombra sentam-se à mesa para mastigar substantivos e devorar a própria noção de identidade em um banquete de memórias que nunca existiram. Acima, no teto que desaba em pétalas de carne crua, os baiacus cósmicos incham de hidrogênio e segredos de estrelas mortas, seus espinhos roçando a geometria do luto. Caminha sobre ossos de poesia, vértebras de estrofes quebradas que rangem sob o peso do chumbo, atravessando mares de sangue oxidado onde os mortos não buscam carne, mas um afeto impossível de vidro onde as paredes respiram e as flores do papel de parede gritam o nome de um santo que nunca nasceu, ela empunha o prisma sanguíneo — metade osso, metade circuito pulsante — recusando-se a ser pó, recusando o convite do sofá de veludo do esquecimento. 

Não há fim, apenas um zoom infinito para dentro do átomo de uma lágrima de mercúrio; a dor não é um acidente, é a linguagem primordial, o grito que esqueceu como rugir, o eco de uma porta que se fecha em uma casa que nunca existiu enquanto o rádio continua a chiar no azul profundo da eletricidade.
As luzes da sala de estar piscam em um código Morse feito de estática e soluços.
O cheiro não é de morte, mas de eletricidade queimando sobre açúcar.
O teto é um espelho líquido onde o céu se torna um oceano invertido.
Os corvos de cera estão empoleirados nos fios de alta tensão que atravessam a cozinha.
Eles não grasnam; eles derretem.
Gotas de piche quente caem sobre o linho branco, formando manchas que parecem testas de lenha queimada.
Quando a cera atinge o chão, ela cria raízes de gordura.
Eles observam com olhos que são apenas buracos de fechadura —
se você olhar através deles, verá uma estrada vazia à noite, esticando-se até o infinito.
Teias de vidro e ossos de versos, frestas do assoalho, as aranhas de cristal emergem.
Suas patas são agulhas de luz que costuram o silêncio ao pânico.
Elas não tecem teias para moscas, mas para capturar o hálito de quem decreta oração.
No centro da sala, uma pilha de ossos de poesia range sob o peso do invisível.
As vértebras são estrofes quebradas; o fêmur é uma rima que nunca se encontrou.
Se você encostar o ouvido no rádio de costelas, ouvirá uma voz distorcida sussurrando:
Onde o verbo termina, o cálcio começa a gritar.
Velas e corvos e castiçais dançam nuas no salão de Sessrúmnir.
Os carniçais entram pela porta dos fundos, mas eles não têm pés.
Espectrais sombras sólidas, esfomeados por substantivos e adjetivos.
Vultos do destino de vozes quebradas e estilhaçadas faces,
não querem sua carne; eles querem o significado das suas memórias.
Com colheres de sombra, eles raspam o vocabulário das paredes.
Eles mastigam a palavra "Poesia" e cospem areia preta.
Eles devoram o "Amanhã" e o tempo para de fluir, tornando-se uma poça de óleo estagnada. 

Imundo intra-pecadores, pescadores, ínfimos, anfíbios da imaginação.
os Tetraodontiformes, parasitas cósmicos flutuam no ar denso.
Lentos. Inchados de hidrogênio e segredos de estrelas mortas.
Sua pele é feita de galáxias que sofrem de acne-marfim.
Eles incham até que os espinhos toquem os seus pensamentos.
Bolhas, brumas e pesadelos derretidos no copo da manhã,
Quando um Plectognathi explode, não há som, não há fim,
apenas a cópula-cápsula-crisálida, cruz, crua flor oca,
ocre cor amarela ocupando o lugar de todo o oxigênio do mundo. 

O telefone da entropia toca no corredor vermelho.
Você atende, mas sua voz é apenas um punhado de penas de cera.
A pessoa do outro lado é você mesmo, trinta anos mais velho,
dentro de um televisor amarelado-desligado,
comendo uma aranha de cristal e rindo em câmera lenta.
O som de um fósforo riscando o vácuo.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Em cada ser, a vasta catedral se ergue, | onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge. | Um palco dual que a existência nos impôs, | onde o eu se forma, entre o antes o e depois…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Em cada ser, a vasta catedral se ergue,
onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge.
Um palco dual que a existência nos impôs,
onde o eu se forma, entre o antes o e depois. 

A Luz se revela, é o rosto da bondade,
o verbo claro, a perene claridade.
É a mão que ampara sem buscar recompensa,
é a fé inabalável, a nossa nobreza imensa. 

É a mente que desperta, que afasta a ilusão,
a força moral que domina o nosso coração.
E sonhamos em ser esse ouro tão puro,
um brilho constante, um futuro seguro. 

Mas vida ensina,
em seu lento labor,
que a luz sem sombra
perde todo seu valor. 

Pois existem as Trevas, o lado que negamos,
o arquétipo fundo que em nós carregamos.
Não é apenas o mal, aquele erro que nos seduz,
mas é aquele potencial que rejeita a luz. 

É a nossa Sombra, o instinto vital,
o lado selvagem, secreto e ancestral.
É a mágoa guardada, o ciúme que arde,
a força que brota fria e sem alarde. 

Se a negarmos, ela cresce faminta e voraz,
e nos assombra em sonhos e em segredos.
A força não vista vira vício ou rancor,
e a alma projeta o seu próprio temor. 

Quem só vive de Luz, na virtude irreal,
cria uma máscara, um rosto artificial.
Torna-se duro, justo em demasia,
um sol sem terra, fadado à fria agonia. 

A pureza extrema que o humano não veste,
é a tirania sutil que nossa alma contesta.
A negação das Trevas gera a hipocrisia,
o medo da queda que escurece nosso dia. 

E quem se entrega às Sombras, sem freio e medida,
é engolido pelo abismo, perde a direção de sua vida.
Vira cinismo o pranto, vira caos o desejo,
sem a Luz que guia o ser não tem pelejo.

A alma se afoga no oceano escuro e vasto,
um barco a deriva, sem porto, sem rastro.
Devorado é aquele que escolhe um só lado,
perdendo o sentido, pagando o preço cobrado.

A chave não está na escolha vã,
mas na aceitação de quem você é,
ontem, hoje e no amanhã. 

O equilíbrio é a dança sutil e sagrada,
onde a Luz acolhe as Trevas, não nega ou degrada.
É quando a Sombra, reconhecida, não mais domina,
e vira a forma que nos move, intenção genuína. 

A Luz precisa das Trevas
para ter profundeza,
para ser humilde
e compreender a fraqueza. 

Como a lua que acende seu brilho no escuro,
somos a soma inteira, o presente e o futuro.
É na dualidade, no meio-termo instável,
que a vida se torna real e suportável. 

Olhe para dentro, sem medo do que espreita,
e faça da Sombra a mestra que te alimenta.
Pois só na união destas partes, formando esse par,
é que a nossa totalidade poderá se manifestar.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Oh, tropéis insanos, vozes se aglutinam | Marchando silvos de compassos trôpegos | Junto aos metais, a miséria, aos córregos | Por onde se ouve o baforo dos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Oh, tropéis insanos, vozes se aglutinam
Marchando silvos de compassos trôpegos
Junto aos metais, a miséria, aos córregos
Por onde se ouve o baforo dos que andam  

No soar do açoite as turbas marcam
As horas da rua vaga, e disperso
Com o lápis e papel na mão, imerso
O poeta saúda aos mortos que emanam 

As horas da rua vaga são fardos
O tempo novamente soa o açoite
Das quimeras flamejando por todos’ lados 

Oh, poeta, mamífero enjeitado
Como queria cingir até à noite
Mas a cada letra testemunha a própria morte.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Tristeza Abissal

A névoa ergue-se como uma prece interrompida | um murmúrio que ninguém distingue, | mas que se aloja na pele | como o frio que anuncia a morte das coisas belas…

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A névoa ergue-se como uma prece interrompida
um murmúrio que ninguém distingue,
mas que se aloja na pele
como o frio que anuncia a morte das coisas belas.
Há orvalhos que descem lentos,
tão lentos,
que parecem medir o tempo pelo ritmo da dor.
E eu, que deveria esquecer,
repito o gesto antigo de quem espera
por algo que não vem,
mas fere.

A noite carrega um rosto que não finda.
Ela caminha comigo pelas falésias do sonho,
toca meu ombro como um segredo,
invade o silêncio como se fosse memória.
Profunda demais para que o corpo resista,
sombria demais para que a alma adormeça.
Vive num intervalo,
num quase,
num limiar
onde a existência se desbota.

O mundo se dobra adiante,
nesse cinza-rosado que sangra nostalgia.
Flores espectrais inclinam-se ao meu peso,
sabendo que trago um vazio
sem nome,
mas com um cheiro:
— o cheiro úmido daquilo que um dia esperei.
Rios imóveis,
mares hesitantes,
o vento, velho mensageiro,
incapaz de trazer respostas.
Talvez porque tudo esteja suspenso
num suspiro que se recusa a nascer.

E aquilo que devora por dentro
não tem pressa.
Seria fácil se viesse de súbito.
Mas não, age com a delicadeza cruel
das coisas que entendem
que a maior dor é sempre a lenta.
Senta-se ao meu lado,
toca meus versos,
e os torna mais verdadeiros
que minha própria respiração.

E então percebo:
é nesta penumbra translúcida,
onde tudo é passado e futuro ao mesmo tempo,
que aprendo a última lição
a de que, apesar de tudo,
ainda permaneço,
ainda espero,
ainda sangro poesia.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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São Baudelaire das causas impossíveis, | quisera assim orar Raul: |  – Livra-me, ó Senhor, | dos sofrimentos do jovem Werther; | fazei Goethe descer da minha cabeça,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

São Baudelaire das causas impossíveis,
quisera assim orar Raul:
 – Livra-me, ó Senhor,
dos sofrimentos do jovem Werther;
fazei Goethe descer da minha cabeça,
pois quero intacta
a plantação de neurônios
do fiel compadre Zaratustra.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Partida

Andando pela praia | De mãos dadas com a brisa | E os pés penetrando a areia molhada | Aquele deserto sem lavra | Pondo ao sol, no ar, meu corpo…

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Andando pela praia
De mãos dadas com a brisa
E os pés penetrando a areia molhada
Aquele deserto sem lavra
Pondo ao sol, no ar, meu corpo 

De repente:
Imagem que guardei profundo como oceano
Tão despretensiosos passos desfilando
Num vestido azul marinho
Até sumir por quilômetros levando consigo a calmaria
Como se partindo deixasse tudo comigo
Para suportar

No horizonte que o sol brasa,
Os montes abrem caminhos e as rochas 
- donde os pássaros partem vôos -
Se despedaçam,
Ela brisa,
Como um poema que soa
Um mar em ressaca
E deixa de me acompanhar para acompanhá-la. 

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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O Veado na Neve

O Céu branco, sobre as cicutas curvadas sob a neve, | Não vistes, no início da noite, o cervo cornudo e sua corça parados no pomar de macieiras?…

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O Céu branco, sobre as cicutas curvadas sob a neve,

Não vistes, no início da noite, o cervo cornudo e sua corça parados no pomar de macieiras?

Eu os vi, eu os vi subitamente partirem,

As caudas erguidas, com longos saltos belos e lentos,

Por cima do muro de pedra, adentrando o bosque, com as cicutas curvadas sob a neve.

Agora, deitado está ele aqui, o sangue selvagem fervendo a neve.

Quão estranha coisa é a morte, que o traz aos joelhos, traz aos chifres,

O cervo na neve.

Quão estranha é — a uma milha de distância ela deve estar — sob as pesadas cicutas que, enquanto os momentos passam, mudam um pouco sua carga,

deixando cair uma pena de neve — a vida, observando atenta pelos olhos da corça.

Edna St. Vincent Millay

(Tradução: Júlia Trevas)

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Edna St. Vincent Millay

Edna St. Vincent Millay (22 de Fevereiro de 1892 – 19 de Outubro de 1950) foi uma poetisa lírica e dramaturga americana, vencedora do Prémio Pulitzer na categoria Poesia. Ficou também conhecida pelo seu estilo de vida boémio, pouco convencional para a época, e pelos seus inúmeros casos amorosos. Utilizou o pseudónimo Nancy Boyd para o seu trabalho em prosa... » leia mais

Traduzido por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
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O Manto Sagrado da Noite

A névoa sobe como exércitos vencidos, | erguendo suas lanças translúcidas | num silêncio que antecede a ruína. | O orvalho desce como cortejos fúnebres,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A névoa sobe como exércitos vencidos,
erguendo suas lanças translúcidas
num silêncio que antecede a ruína.
O orvalho desce como cortejos fúnebres,
marcando cada passo meu
com o peso de eras esquecidas.
Caminho entre falésias que respiram,
ilhas quebradas do tempo,
onde cada pedra guarda o eco
de algo que nunca deveria ter sido ouvido.

A noite se abre como um manto antigo,
sagrada e terrível,
circundando-me com seus presságios.
Sinto-a avançar, lenta,
como criaturas que se aproximam
em um mundo onde o destino
já foi decidido antes do nascer das estrelas.
A fronteira se dobra diante de mim,
e dela surgem sombras que me reconhecem
mesmo quando não sei quem sou.

O mundo cintila em rosa cinéreo,
cidades fantasma ao longe,
mares que recuam como dragões fatigados,
rios imóveis guardando segredos
profundos demais para o sopro humano.
Flores espectrais abrem e fecham seus véus,
como clamores de um reino caído.
E o vento, o velho arauto,
se cala por respeito ao que se aproxima.

Dentro de mim, algo desperta.
Um antigo chamado.
Um juramento que não lembro de ter feito,
mas que pulsa como sangue nascido antes do mundo.
Toca meus versos:
— não como consolo,
mas como espada.
E então percebo:
minha luta não é contra monstros,
nem sombras,
nem destinos.
É contra o próprio eco do que fui.
E ainda assim avanço.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Cântico da Luxúria Noturna

Ó noite sem mácula, mãe da luxúria e do pecado, | abre o teu ventre de trevas sobre meu corpo acorrentado, | pois não há cárcere que baste…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ó noite sem mácula, mãe da luxúria e do pecado,
abre o teu ventre de trevas sobre meu corpo acorrentado,
pois não há cárcere que baste, não há corrente que contenha
o desejo que em mim nasce e em minha própria dor se banha.

Sou mais que presa: sou riso e sou gozo,
sou vício que arde em um gesto piedoso
da mão que me fere pensando em punir-me,
mas encontra na carne apenas o convite de possuir-me.

Ó caçador, frágil em tua ânsia de domínio,
não percebes que és servo de meu desatino?
Quanto mais tu me prendes, mais livre me torno,
e quanto mais me negas, mais em teu peito retorno.

Na vertigem do êxtase, os grilhões são coroas,
as feridas são flores, e as sombras, pessoas.
De meus lábios escorre um riso soturno,
que faz da agonia um cântico noturno.

Ah! O aço que corta não é espada, é um beijo,
e a mordaça que cala me entrega ao desejo,
cada nó da corda é um caminho secreto
para o altar oculto de um amor inquieto.

E tu, que acreditas deter a minha essência,
aprendes no rito da mais dura ciência
que o prazer é abismo e a dor é vertente,
e que em mim o suplício floresce contente.

Sou vampira, sou chama, sou veneno, sou delírio,
sou templo erguido sobre o meu próprio martírio,
sou carne que arde, sou uma sombra que brilha,
sou gozo que nasce de minha própria partilha.

E quando enfim tombares, rendido aos meus pés,
ouvirás ao fundo belos hinos, sons cruéis,
e em meio ao crepúsculo, rubro e profano,
serei tua amante, teu inferno e teu engano.

Assim é o êxtase: um precipício em chamas,
um véu que devora, um abismo que inflama,
na noite absoluta, sou riso sacrílego e dor,
sou litania profana, sou luxúria e sou terror.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Por dentro do Castelo no qual vivo
Perdi-me em seus recintos escultóricos:
Envolto em branco mármore, cativo
Por linhas de um amor sem fim, pletórico…

Projeto de algum criador lascivo,
No espaço vi também seu traço eufórico:
De pé, com grossos veios sugestivos,
Não menos do que seis pilares dóricos…

À vista de silente estatuária,
Supus minha presença solitária
Naquele imenso átrio em que adentrei…

Sentindo-me contente e assombrado,
Jurei ter visto eu mesmo mergulhado
Num banho de prazer que ali sonhei…


Escrito por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
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Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

(Tatutograma)

Velha vontade vigora
veneno visceral, viola.
Vagueio vigiando vidas,
vazias, vulgares, viciosas.

Vejo você vagueando
volúpia volta voando.
Venero vossa virilidade,
vinculo vontade-vulgaridade.

Vejo varão viçoso,
vulcão volátil, vultoso.
Volume viril vicejante,
vulva viscosa, vibrante.


Escrito por:
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Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

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Escrito por:
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19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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A Transcendência do Silêncio

O silêncio é um corpo que respira no escuro, | pele de sombra colada à alma da noite. | Ele pulsa como ferida não dita, | como promessa trancada em lábios de ferro…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

I – O Silêncio

O silêncio é um corpo que respira no escuro,
pele de sombra colada à alma da noite.
Ele pulsa como ferida não dita,
como promessa trancada em lábios de ferro.

Há nele o peso de cem catedrais desertas,
onde cada eco é oração abortada.
O desejo se deita nele, invisível,
como fera à espreita no ventre da escuridão.

Nenhuma palavra se atreve a nascer,
mas os olhos gritam em febre clandestina.
Entre duas bocas suspensas,
o ar é um véu que treme, mas não se rompe.

O silêncio é punhal e é véu,
é cruz e é carne.
Não consola, não acolhe,
apenas incendeia o que tenta ocultar.

A respiração é oração contida,
rosário de gemidos que se negam a existir.
Mas o corpo, traidor da alma,
curva-se ao chamado de sua própria vertigem.

Quem toca o silêncio abre portais,
como quem pisa em solo sagrado profanado.
A quietude é apenas disfarce,
máscara da fúria que quer ser revelada.

O instante é prelúdio,
e o prelúdio já é queda.
Não há inocência no mutismo:
há apenas desejo coagulado.

Quando o silêncio enfim se rompe,
não há volta.
O grito é nascimento e sentença,
e quem o pronuncia já não se pertence.


II – O Sangue

O sangue é a língua do êxtase.
Ele escorre como vinho sacrílego,
rubro sagrado que consagra o instante
em que dor e prazer se entrelaçam.

Cada gota é pacto selado,
palavra gravada em carne viva.
É comunhão obscura
onde dois se tornam um abismo único.

A mordida é rito e coroação,
incisiva coroa feita de dentes e vertigem.
Ela não fere: ela liberta,
abre a porta para o gozo sem nome.

O rubro é banquete dos amantes da noite,
melodia de artérias em festa secreta.
Não há saciedade, apenas mais sede,
e cada sorvo é eternidade roubada.

Vampiros sabem: o sangue é oráculo.
Ele canta segredos nas veias,
ele revela a nudez da alma
no instante em que se mistura ao desejo.

Não há corpo sem ferida.
Não há prazer sem cicatriz.
A dor é oferenda,
e o êxtase, sua colheita.

Quando o rubro desce pela língua,
é mais que carne é universo.
O beijo sangrento é sacramento,
e a eternidade se escreve em veias abertas.

O sangue não mente.
Ele é a assinatura do prazer.
Quem o prova jamais retorna,
pois já pertence ao abismo.


III – A Luxúria

O corpo é templo profanado.
Cada curva, altar; cada sombra, labirinto.
A luxúria dança em sua nave,
chama que devora, mas não se extingue.

O prazer nasce na ruína.
Gemidos quebram muros internos,
suor é chuva que batiza o pecado,
e a carne se faz escritura viva.

O desejo não pede, exige.
Ele ordena como tirano amado,
e o súdito, em delírio,
oferece a própria ruína como trono.

Cada toque é incêndio.
Cada suspiro, queda.
Não há ternura:
há apenas a fome dos que sabem da morte.

O gozo não consola,
ele fere, ele abre, ele consome.
Mas a ferida é cântico,
e o cântico é mais doce que salvação.

A luxúria é caminho sem volta.
Um labirinto sem saída,
onde quem entra nunca retorna
pois aprende a amar a própria perdição.

O corpo não é cárcere:
é catedral em ruínas
onde anjos caídos ainda rezam
em idioma de gemidos.

Luxúria é divindade noturna.
Não julga, não absolve.
Apenas recebe como altar insaciável
todas as oferendas da carne ardente.


IV – A Transcendência

Após o gozo, não há descanso.
Há queda mais funda.
Há voo invertido
de quem toca o inferno para ver o divino.

O êxtase é um dos Deuses sem rosto,
que exige adoração em lágrimas.
Não é amor, não é pecado:
é a fusão febril dos dois.

O coração, crucificado,
pulsa como altar em chamas.
Cada batida é prece e maldição,
cada suspiro, ascensão pelo abismo.

Não há céu depois da vertigem,
apenas outro mergulho.
O prazer é espiral infinita,
onde cada fim já anuncia novo começo.
Quem goza morre.
Quem morre renasce no desejo.
Esta é a lei secreta:
morrer sempre mais para viver sempre mais.

A transcendência não é luz.
É treva que acolhe como mãe,
é sombra que alimenta,
é eternidade que se confunde com delírio.

O corpo exausto despenca,
mas a alma desperta em febre.
Descobre que o abismo é também escada,
que a vertigem é também voo.

O êxtase não se esgota.
Ele recomeça em cada olhar,
em cada silêncio, em cada gota de sangue.
O eterno é isto: morrer e renascer no desejo em silêncio.


Escrito por:
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Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Dentro de mim reside uma chama acesa, | Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso. | Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos…

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Dentro de mim reside uma chama acesa,
Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso.
Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos,
Desnuda meu peito inflamado, melancólico.
Etérea, me consome.

Ela crepita com cálida ternura,
Aproximando-me de seu ardor inebriante!
Guarda em mim seu doce incenso,
O aroma aveludado dos vinhos:
Amor marcado em mim eternamente.


Escrito por:
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Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
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Me pego a imaginar, já faz uns dias,
Você trajada em vestes antiquadas:
Num branco esvoaçante entrelaçada;
Cabelo solto ao vento… Qual rainha

Pisando em corredores, à tardinha,
Sem muito o que fazer, atarefada
Somente com ideias… Uma vida
De sonhos, num palácio baseada…

Às noites, quando quentes, imagino
Também você num quarto, se despindo
De todos adereços… e, na cama,

Seu corpo me dizendo ser bem-vindo
Meu tempo de prazer com essa dama
Que vejo semideusa em mundo antigo…


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Wallace Azambuja

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Coroação de Sangue

Cordas mordem sua pele como dentes impacientes, | marcando trilhas vermelhas | onde o sangue ameaça florescer. | Ela sorri, um eco rouco de prazer, | entre gemidos contidos…

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Cordas mordem sua pele como dentes impacientes,
marcando trilhas vermelhas
onde o sangue ameaça florescer.
Ela sorri, um eco rouco de prazer,
entre gemidos contidos.

Ele pensa ter vencido,
mas seu aperto apenas inflama a sede dela.
Cada nó é um convite proibido,
cada puxão,
desperta a besta.

Ela arqueia o corpo, oferece o pescoço,
deixando o pulso latejante,
altar e sacrifício.
Ela gosta do jogo, de fingir-se domada,
mas sob as amarras,
urge, é ameaça.

Um fio de sangue escorre lento,
perfume metálico,
urro intenso.
Seus olhos brilham rubros,
gargalha no escuro.

Por dentro, é explosão,
é desejo.
Dedos longos e ossudos,
presas sedentas.
É bicho, é monstro,
realeza.

Quando as cordas são rompidas,
não é libertação, é coroação.
Ela é a fome, é o êxtase,
é vítima, é carrasca.
É a morte, é o gozo,
ela é a noite que não se enjaula,
e ele, agora,
não passa de carne.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
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LXXXIII

Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas | Pretensiosos corações abnóxios, | inerte a razão ante a escuridão | Em habitação tão inócua de tua mente…

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Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas
Pretensiosos corações abnóxios,
inerte a razão ante a escuridão
Em habitação tão inócua de tua mente

Abjura sua íntima intenção, — Secretos e carnais anseios
Abrasamento inquietante das emoções
travessa criatura da noite

No interior de seu ergástulo, —Desnude sua alma ante a alva
O febril estado, os lábios trêmulos e a palpitação
Embriagando-se de ambrosia, — Da paixão com afronésia
o toque frio de imortal amor

Por filáucia mortal, — Transbordam palavras de cântaros de malícia
Fascina os ouvidos imprudentes,
Oh, estes alucinam avidamente o toque
Crônica de amores, — Refugio na noite magenta
Lucífugos corações relatam em seiva umbrífera
Revelações intricadas em folha tão pura,
nela a verdadeira anamnese do fim.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

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Intumescer

Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique! | Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo | soem em meus ossos como se o próprio firmamento…

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Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique!
Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo
soem em meus ossos como se o próprio firmamento
rasgasse em vísceras de treva, tua sensualidade abraça-me.
Bruxa de orbes cerúleos, amo-te como Gomez Addams.
Abysmal senhora das neblinas e mãe de todos os corvos,
sois meu cálice sanguíneo, sois minha queda, sois meu êxtase.

Em pergaminhos de carne me transfiguro,
folhas que voam em ventania noctívaga,
lágrimas de tinta que copulam com o vácuo.
Eis tu, minha senhora do arcano,
colhes minhas sílabas como se fossem
feridas sagradas em liturgia profana.
Eu que senti no osso do gozo, na culpa,
bálsamo na chaga, a dor é sacramento, e o éter-pecado, altar.

Vede o híbrido ser brandindo ao sexo sobre minha fronte,
desfazendo ídolos em pó e silêncio.
Um anjo corrompido pelo sangue do desejo,
um vampiro sexual,
um lupino que rasga com seu uivo de tesão,
até que apenas tua língua reste,
serpente rubra que me crava, que me possui,
até que não mais eu seja eu,
mas sim um delírio, epifania-mania, carne de tua carne,
espírito tragado pelo teu hálito de tempestade.

Ouvi teu uivo no ventre meu,
clamando sangue, clamando carne, clamando vertigem.
Uivo convosco, Senhora, minha treva plasmática, osmose dos desejos,
uivo contra Céus e contra Deuses, até que a lua, navalha da vida,
talhe nossos corpos em girassóis de pranto. Teu pompoarismo dissolveria meu rosto em teu espelho, tempo derretido a escorrer em teu belíssimo, formoso seio.
Ejaculo para ti a energia, ejaculo para ti minha persona, meu perispírito da noite,
ampulheta onde o instante é gozo e o gozo, eternidade.

Se a vida é labirinto, pois que seja, quero-te obcecadamente.
Eu, andarilho desnudo, me lanço às paredes em chamas,
não buscando saída, mas a coruja da resposta, o guardião da combustão. Incinero-me quando acordo pela manhã e o sol me toca a pele, mas não posso sentir o teu toque. Isso é maldição, isso sangra minha sanidade e meu coração se tomba ao trono do Drácula.

Pois o chão não existe,
apenas o céu me sustenta,
e este céu és minha cara senhoria das sombras.
Teu riso é raio, tua lágrima, oceano,
tua carne, relâmpago que me parte em duas metades.

Não desejo salvação, mas perdição absoluta.
Quero que teu feitiço me devore em chama,
que tua boca seja a guilhotina onde findo,
que teu ventre seja o sacrário onde renasço,
que teu sangue escorra em minha língua como letania de fogo.

Quando tudo em pó se fizer,
quando não houver senão cinza e gemido,
quando o verbo for silêncio e o silêncio for verbo,
então — ó Senhora, ó Bruxa, ó Maré dos Mundos —
seremos nada, seremos tudo, carne e sangue e poesia e êxtase.
Aceita: és minha e de ti me alimentarei, diária sucção de tua geradora de vidas,
e ti receberá minha língua profana e o leite de minha energia sexual em tua face.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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LXXXII

O silêncio, a angústia, assim como o inaperto | em jornada abstrusa | pela dissoluta existência. | Aqui entre a absolvição e a condenação…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

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O silêncio, a angústia, assim como o inaperto
em jornada abstrusa
pela dissoluta existência.
Aqui entre a absolvição e a condenação

Gotas para aluir a alma
aturdir toda sanidade
O ensejo ao caos interior

Ramos secos de inocência, — O luar lânguido no firmamento
Uma frincha para espíritos livres,
para campos de flores de quimeras.
Os jardins perdidos de seu interior

Astros celestes absortos no infinito, — Crianças da noite
embebidas em tantos pensamentos
Ah, a matiz negra, —Revoltoso mar de seu interior.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

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