Balada Vampiresca
Uma sombra a cavalo se movia | Sob as chuvas torrenciais de agosto, | Uma capa escura o protegia | Enquanto um chapéu ocultava seu rosto…
MidjourneyAI
“Despair has its own calms.”
— Drácula, Bram Stoker
Uma sombra a cavalo se movia
Sob as chuvas torrenciais de agosto,
Uma capa escura o protegia
Enquanto um chapéu ocultava seu rosto.
Aquela silhueta de animal e cavaleiro
Negrume cobria a forma por inteiro;
A luz dos raios azuis o guiava,
Trovões ecoavam como chamados,
Na escuridão estes clangores ressoavam.
A parede branca de uma casa avistara
Com a pouca luz que ainda perdurava
Do cair da tarde com as nuvens escuras.
Pelo caminho enlameado, as pedras duras,
E a casa ainda ao longe se encontrava.
Se havia hora de chegar, já passara o tempo,
Pra quê se apressar? Anteciparia o lamento
Ou então era um equívoco, mas só tinha uma maneira
Para saber qual o destino: passar pela soleira.
Atingiu já bem tarde a construção abandonada
No horário que vira a data, hora malfalada,
Quando acontecem as coisas pavorosas,
Ainda mais nestas sinistras noites chuvosas.
E, no volume de uma nova enxurrada,
A água pingava daquela capa encharcada,
O mato tomava algumas paredes caídas,
Um muro se estendia adiante das vigas,
O casarão imponente da época colonial,
Uma casa grande há muito esquecida
Afogada nos novos tempos e no temporal.
Era certeza de ali haver nenhum vivente,
Nisso nenhuma alma esteve impelida,
A certeza não era uma sensação querida,
As ruínas ocultavam algum ar comovente
Cercadas de mato, espinhos e árvores mortas;
À frente um grande portão de ferragens tortas
Subia entre as pedras, um caminho desgastado,
Um túmulo, então, surdo de um esplendor sepultado
Trazia, na decadência, a escuridão conservada
Como as grutas sinistras na beira da estrada.
Assim, desceu da sela, frente à entrada,
Desembainhou uma lâmina, revelou seu fio,
Checou a extensão do corte e a escada subiu,
Não há o que duvidar, era prata, por certo,
Reluzia e fulgurava aquela língua triangular
Contrastando a extrema escuridão do lugar.
Foi entrando prudente no salão deserto,
A adaga à frente e a garrucha por perto,
Foi penetrando na ameaçadora escuridão
Procurando um aposento naqueles destroços,
O escuro e o medo causaram um tremor;
Ele não percebeu, mas pisava em ossos
Enquanto caminhava pelo corredor.
Viu uma claridade e uma porta aberta
E um mal pressentimento o desperta,
Adentrou o cômodo na procura ávida,
E uma mulher morta estava ali deitada,
O corpo estendido e a pele pálida.
Reconheceu a feição no rosto da amada...
O breve luto deu lugar ao desespero,
Pudesse ter passado por tal desterro
Em perder quem mais amou,
Mas o amor não vai tão cedo
Mesmo apesar do pavor e do medo.
A lágrima cadente, o sangue não compensou...
Se por sangue, derramado em vão,
Exigido frente à face da morte,
Mais exigente é, então, o perdão
E mais violento que o preciso corte.
Este outro sangue, a fúria incendeia,
Efervescido, corre o furor nas veias,
Chora como a chuva lá fora...
Torrencial desespero que vela a sepultura,
Seu olhar vermelho apavora;
Para esta perda não há nenhuma cura,
Mas, eis que o inesperado acontece!
Abre os olhos a mulher que está deitada,
Mas, tem algo de errado, olhando parece
Que ela jamais esteve acordada;
Não se move como a um corpo convém
E, mesmo serena, seu olho é vermelho também;
Se ergue do leito contrariando a Osíris
E o vermelho nos olhos está nas suas íris;
Estalam-se estes olhos como se ofuscados,
Mas, no escuro, sem luz para serem incomodados,
Vagarosamente ela começa a acordar
De um modo desconjuntado, sem calor interno,
Seus movimentos são como o espreguiçar
Só que de quem acorda no inferno,
Ele, que chora por ela derramando lágrimas,
Não sabe a que prece ou atitude recorrer,
Mas não são lágrimas que ela deseja ter...
Impediu seus avanços nas últimas lástimas,
A força de um animal toma o corpo feminino,
Retorce seus membros sem nenhuma dor causar
Como um tenebroso desenho do império bizantino.
O rosto inocente já não é mais familiar,
Transfigurava a face e a musculatura
E de uma bela mulher tornou-se horrenda criatura,
Não há espaço para dúvida, era a maldição otomana,
A vê-la assim, preferiria vê-la sob as chamas,
Era algo terrível que ele não poderia suportar,
Os horrores que aquele olhar voraz revela
Toma seu corpo nos braços, naquele relutar,
A ponta da adaga mirada no peito dela.
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Däm sor, Däm Sonurae nar om perpétuos
Ouviu Dama Sonura a lacrimar
Com alma e solidão, preces soturnas,
Ao sopro d’um abismo à chuva-lar
Que dela faz as letras tão noturnas;
Amou n’um triste ínfimo a nobreza,
Cortês, em sombra e névoa, desejoso
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Causou um estranhamento cauteloso;
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— Do tempo p’ra tolices eloquentes… —
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Com as mãos trêmulas, levo mais um copo de whisky à boca. O sabor forte afoga minha língua e anestesia a sensação…
Imagine
Com as mãos trêmulas, levo mais um copo de whisky à boca. O sabor forte afoga minha língua e anestesia a sensação de desespero e pavor que toma conta do meu ser.
Sou incapaz de descrever o medo visceral que sinto. Estou congelado, petrificado em frente ao computador, com uma tela de busca aberta. Facilmente eu seria tido como tolo por qualquer ser existente neste mundo, mas as coordenadas que recebi durante meus sonhos apontam para um local real. É anti-natural acreditar que isso seja verdade, mas assim o é!
Já há alguns meses tenho tido sonhos cada vez mais vívidos. Um anfitrião (ou anfitriã?) me convoca a sua casa, ao seu Castelo, onde devo produzir uma grande obra em sua homenagem. Durante os primeiros sonhos a figura se mostrava distante, observadora, mas aos poucos passou a ficar cada vez mais próxima, chegando ao ponto de me estender as mãos pálidas e esguias. Pude ver a pele cinza, pútrida, com ossos quase aparentes, que causou uma repulsa intrínseca ao meu ser.
Durante o último sonho, recebi ordens concretas de me dirigir a sua residência sem maiores delongas. Inclusive a figura agora vestia um grande manto negro e surrado. Por uma pequeníssima fração de segundo, pude ver seus olhos de cor púrpura, tão profundos e famintos quanto o próprio inferno. Fora me informado as coordenadas, com exatidão. Acordei em sobressalto e resolvi escrever os números antes que acabasse esquecendo.
Agora, pela manhã, me propus a pesquisar, por mera curiosidade e para poder, finalmente, dormir em paz.
Estou em estado de choque, como nunca estive antes. O local é real, o Castelo é real, ele existe tal como meu computador, minhas anotações, minha casa… Ele reside lá, no topo da montanha, com sua majestade brutal e melancólica. O musgo em seus muros como seu manto. As torres como sua coroa.
Já tive que lutar contra meu café da manhã para que continuasse onde está, além de dividir espaço com as três ou quatro doses de whisky que tomei.
Nada reduz o tremor, o espanto, a amargura, a angústia… Desejo ao mesmo tempo tanto me esconder quanto ir até lá!
Bem, deixarei aqui este registro, para que saibam que resgatei minhas economias, reuni tudo que pude e partir para aferir se é possível existir alguma verdade em tal abismo de descrença e loucura.
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Púrpura Espectral
Ainda não havia encontrado Malus, mas muito me foi oferecido no Castelo Drácula. Fui instalada em um suntuoso quarto vitoriano…
MidjourneyAI
Ainda não havia encontrado Malus, mas muito me foi oferecido no Castelo Drácula. Fui instalada em um suntuoso quarto vitoriano. Nunca tive tanto à minha disposição. A atmosfera sombria e gélida do castelo adentra a minha alcova e sinto paz. A tapeçaria em tons de púrpura é um deleite, sendo eu tão apaixonado por esta cor rara no vilarejo de onde vim.
A cama é de uma beleza e conforto inenarráveis, me delicio com o toque da ceda pura em minha pele. Reparo que toda a mobília mantém os mesmos ornamentos. Me distraio com apetrechos específicos em cima da penteadeira, mas a escrivaninha me chama ainda mais a atenção.
Ao me aproximar, uma vela de chama roxa acende sozinha. Pego a flor negra solitária que repousava em cima de um envelope, dentro havia uma carta com os seguintes dizeres:
Ane, sinto por não estar presente durante sua chegada, pois foram-me designadas ocupações para além do castelo. Você está segura aos cuidados do Conde.
Há um baú, você deve ter notado, nele encontrará o traje para a noite de hoje. Sim, se a chama violeta acendeu para você, é hora de se aprontar, minha cara.
Anseio pelo nosso reencontro.
Malus.
Um longo, mas não muito volumoso, vestido de um roxo tão escuro quanto o céu que eu podia ver por detrás das cortinas das janelas entreabertas, me deslumbrou. Suas delicadas rendas me fizeram lembrar das roupas simples que outrora usava, mas agora era diferente. Não mais me parecia com a frágil camponesa que fitava a lua. Eu sinto o poder que emana de mim, e embora tudo pareça tão fantástico, sinto-me despertar para a vida.
Ouvi o badalar das 7 horas. Não tinha certeza de qual parte do castelo o som saiu, mas sem alguém para me acompanhar ou impedir, caminhei até o jardim. Um vulto com roupas em tons violáceos me chamou a atenção. Segui-o. Suponho que estava perdido, pois, mesmo eu estando ali pela primeira vez, percebia que seus passos não eram seguros de si.
Estava obcecada. Não poderia desejar nada mais do que perfurar suas veias e beber de seu sangue, gota a gota. Quando finalmente me aproximei o suficiente para realizar tal ato de luxúria, fui abordada por uma voz cavernosa.
— Apreciando a noite, senhora?
— Muito mais me alegra apreciar você.
Uma névoa lilás translúcida nos envolveu. Malus tocou meu rosto e me beijou. Olhou por trás de mim e sorriu maliciosamente.
— Você estava caçando? Pois bem, faremos juntos.
De um modo o qual não compreendia, aquela figura, que antes me parecia perdida, caminhou para o nosso encontro. Pude ver que se tratava de um homem. Meu companheiro beijou sutilmente minha mão direita e a segurou. Mordeu o pescoço que eu tanto ansiava e, se voltou a mim. De suas presas enormes escorria um líquido roxo. Consentiu com a cabeça e me entregou o ser.
Indescritível o êxtase que me foi fornecido. O sangue púrpura se apoderou de mim e me arrebatou em uma explosão de sentimentos. Sensações nunca antes experimentadas me deixaram atônita. Tudo ao meu redor agora era de um esplendor violeta.
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Nenhuma voz, nenhum som garganta afora…
MidjouneyAI
Diário de Nauärah, não datado
Nenhuma voz, nenhum som garganta afora. Percebo apenas um lumiar em tom violáceo no salão onde eu me encontro e essa tonalidade transmite-me algo importante que eu tinha aprendido em minha aldeia: a cromoterapia, o poder das cores. Ver a cor violeta é sempre uma dádiva. Além do mais, lembro da violeta, a flor que tantas mulheres da nossa aldeia admiram.
Começo a pensar se foi boa a ideia de me aproximar deste castelo. Em meio a pensamentos distraídos e neste grande salão frio, noto, ao longe, uma silhueta. Cabelos negros e presos, com mechas soltas. Vestes levemente vitorianas com traços góticos. Bem… é uma dama, certamente, mas a sua energia etérea — que posso sentir daqui da outra extremidade, me faz engolir medrosamente menos de um mililitro de saliva, principalmente, quando percebo que ela não se move e parece tomar notas em uma espécie de papiro.
Antes mesmo que ela pusesse seus supostos serviçais para me colocarem para correr, penso em me apresentar, humildemente, porque está clarividente que ela reside por aqui ou é a esposa do Drácula. Ou, até mesmo, é o próprio Drácula em uma figura feminina.
Entre a iluminação violácea, não percebo que a criatura de pele translúcida já está perto de mim. Tão entretida com a beleza deste local, não a notei em seus movimentos. Mas a olho, fixa e medrosamente. A sua pele translúcida, quase, me amedronta. Se ela se atrever a me tratar de maneira rude, os meus arcos já estão na posição correta e as minhas flechas se armariam em segundos. Mas são apenas pensamentos de medo pelo que passei com alguns homens de pele caucasiana. Com essa criatura não consigo ser tão ruim. É como se eu buscasse nela força e cumplicidade para apaziguar os meus traumas.
Eu estou acostumada com animais da mata, a lutar, como uma boa arqueira. Para mim, é natural. Mas aqui eu teria que abaixar a minha guarda de indígena rude, pelo menos, enquanto necessito. Aqui há humanos, mais do que isso — seres híbridos, quase, até vampiros, eu tenho certeza. Mas se eu não pareço tão rude quanto demonstro, possivelmente ninguém também será, dos que residem por aqui. Certamente, se eu impuser limites aos hóspedes seria apenas uma maneira de preservar a minha segurança.
Com certeza, as minhas armas a assustaram. Paro de pensar demais e tento abaixar os arcos e flechas, abaixando, também, a minha cabeça e fazendo um gesto que aprendi com o meu pai, que aprendeu com o meu avô pajé: fechar o punho e o colocar sobre a testa, em sinal de rendição. O faço.
— Sou da família “Tupiniquim” — profiro, quase me sentindo uma tola. Mas a minha força interior me ergue e continuo. — Uma aldeia antiga da região do pantanal do Amazonas, no Brasil. Sou filha de Uyara e Nanquim. E o meu nome é Nauärah.
Eu não faço ideia se ela compreende um terço sobre o que eu digo. Confesso que nossos nomes são específicos e quase incompreensíveis.
— Tenho muito conhecimento em caça, pesca, armas de arco, flecha e construções de madeira maciça. Conheço sobre as matas, ervas medicinais… Meus avós são curandeiros. Derroto qualquer animal, se necessário. Posso ser útil e a minha intenção aqui é a mais serena, senhora. Eu vim apenas colaborar, estudar. Por onde passo, eu sou assim. Foi o que minha aldeia me ensinou. — Solto o ar de cansaço. Aquele ar gélido estava adentrando a minha boca e nariz. Acostumada com o clima quente, já posso saber que eu teria que me acostumar por aqui ou mudar totalmente as minhas vestes. Uma capa longa na cor de terra não iria me proteger. — Se eu puder ficar, posso mostrar o dom da força que carrego dentro de mim, caso o Castelo precise e vocês serão ainda mais fortes.
Ouso e a olho, aguardando, temerosa, a sua aprovação, enquanto as luzes violetas parecem se direcionarem ao meu rosto, como se fossem as luzes, servas desta mulher.
Quase tremo, mas profiro em tom profícuo, para que ela me ouça, ainda que ela não entenda a minha linguagem — qual idioma ela fala? Qual? Pergunto-me, inutilmente. O meu nervosismo é visível e os meus apetrechos parecem tremer com algum movimento que faço. Mas sorrio leve para ela, pois fui sincera e genuína.
Trecho do Memórum de Olga Nivïtzz, página 299, ano desconhecido
— Frígidas são as alcovas e cômodos d’este sombrio lugar, caríssima senhorita. — Proferi em plácida voz, pois, o medo que emanava de sua energia evidenciava seu desconhecimento sobre o Oculto, ao menos, no que se refere à Magia de Sangue e, portanto, não pretendia alimentar seu temor. Reconheci-a como uma conviva, ela decerto ouvira o chamado do Portal e viera, portanto, é inestimável o seu bem-estar durante a estadia.
O eterno inverno úmido que reside no Castelo poderia matá-la, suas vestimentas eram propícias apenas para localizações tropicais. “De qual século tal peculiar dama deve advir?” pensei. Não reconheci sua nacionalidade proferida, ainda não sou capaz de dominar o universo em sua multiforme veracidade.
— Permita-me vestir-te com esta peça — indaguei-a, seu semblante expressava suspeita, retirei com delicadeza meu sobretudo e a sorri para pacificá-la o quanto me fosse possível. — Basta que retires as tuas armas de teu dorso. Estás segura comigo. — Afirmei.
Nauärah… interessante. Seu nome possui uma sonoridade bastante sui generis, no entanto, há resquícios reais da influência, ao que me soa, da língua da Magia; alehanuhra eriihs, eu diria. O idioma Mágico emergiu no vínculo entre todas as mais valiosas línguas da existência humana.
Ao oferecer-lhe minhas vestes, senti o frio ultrapassar o tecido de meu vestido; há éons que não me arrepio de tal forma com essa aragem de íntima gelidez. De fato, minha intuição consegue se estimular facilmente, a mera tez absorve inúmeros sinais. Desde que abri o Portal para trazer novos residentes a esse valioso receptáculo, meus pressentimentos estão assim, à flor da pele.
Diário de Nauärah, não datado
Zelo, presteza, excelência. Essas três palavras definem tal criatura feminil. Ainda me sinto confusa sobre seu nome e quem é, de fato. Por outro lado, sinto-me segura, realmente, como ela assegurou-me.
Ela veste-me com uma roupa ainda mais felpuda e calorosa do que o meu sobretudo. O roupão protetor é violáceo, quase negro. Eu não mudarei a minha essência e a qualquer momento que eu retirar esta capa, a minha identidade se revelará. Por outro lado, bom utilizar outras vestes que não deixem absolutamente nenhuma extensão da minha pele se revelar.
Apenas a olho, como quem acredita que ela não me importunaria. Não consigo proferir uma palavra. Ninguém me toca, ninguém nunca me tocou, exceto quando no terrível acontecimento. Não permito que ninguém se aproxime, mas, por um acaso, ela é uma dama. E não a proíbo que o faça.
— A vossa pessoa faz-me lembrar dos meus líderes. Minhas felicitações por isso. Não confio em ninguém, senhorita, entretanto, quiçá, haja uma primeira vez para que isso aconteça. — Sorrio, apenas com os meus lábios, mas consigo sorrir.
Olho os meus apetrechos pelo chão púrpuro, ainda assim, suave. Ninguém ousaria mexê-los. Talvez a minha sutil aspereza seja apenas uma capa, assim como esta. Esta capa tem uma energia intensa, mas propícia. Aprendi a silenciar e identificar as energias advindas de lugares inimagináveis. E isto aqui é poderoso, constato.
Trecho do Memórum de Olga Nivïtzz, página 299, ano desconhecido
— Sinto-me honrada em evocar tais valiosas memórias em ti — respondi afastando-me ligeiramente. — Fique à vontade n’este Castelo, há outros residentes que poderás conhecer. Eu sou Olga, meus cumprimentos. — Curvei-me de modo suave. Faz tanto tempo que estou imersa n’esta atemporalidade… já não sei se possuo a educação de minha infância, aquela que eu tinha quando eu era ainda uma humana a viver como qualquer outra; já não sei se estou em demasia ultrapassada, dado que hoje — seja o que for que o “hoje” signifique — há mais futuro do que passado.
— Não necessitarás de armas por aqui, não há inimigos que sofrerão com elas ou que sangrarão com o fincar das afiadas lanças. O mal que faz lar n’esta lacuna em que estamos, entre o tempo e o espaço, apenas jaz por meio de nossa única e verdadeira arma… a mente… — Aproximei-me da lareira, o lume que permeava a sala estava em um tom violeta muito mais profundo, sentia energizar meu ser. Nauärah em silêncio, é uma inteligente mulher — sei disso, pois noto pelas suas falas e referências. Sua mudez expressa muito da sua introspecção preciosa, a qual sempre darei grande valor. Sinto que há uma ligação dela com outros residentes, não compreendo se esta intuição advém do plano corpóreo, pois, ela emana uma espiritualidade incomum.
— Se me permites, preciso descansar um pouco, mas sempre que precisares de mim, vá ao último cômodo do corredor maior ao norte do Castelo, este é meu aposento; seus umbrais possuem um tom avermelhado e ornamentos específicos, como sigilos de uma antiga doutrina. Tu o reconhecerás, sem dúvida. — Despedi-me, ela gesticulou uma saudação. Seu olhar era de compreensão enquanto minha exaustão parecia ainda maior do que antes. Afastei-me devagar à saída que levava ao caminho de meu quarto, tudo estava frígido como se eu estivesse lá fora, na neve. Pouco antes de chegar aqui, assim, tão perto de abrir a porta e começar a escrever, senti uma mórbida e silente solidão que apertou meu peito em amargura — e que está ainda, insistente, perdurante enquanto observo a noite pelos vitrais e continuo recordando de todos aqueles que já deveriam ter se tornado reminiscências exíguas.
Diário de Nauärah, não datado
Vejo Olga sumir em um dos corredores. Decerto, ela pensaria que sou observadora demais por segui-la com o olhar até ver sumir a sua silhueta.
Por eu estar sozinha agora e não ter visto nenhum outro hóspede, eu sigo para um dos quartos e enquanto adentro-o, percebo tons violetas nas paredes do imponente castelo. Me vejo envolta por uma atmosfera de mistério e encanto. Retiro a capa colocada em mim por Olga e a guardo cuidadosamente. O meu corpo adornado por peças ancestrais se casa com os reflexos púrpuros das paredes com tapeçarias tecidas em tons violáceos. Isso cria um ambiente acolhedor e ao mesmo tempo enigmático.
Caminho silenciosamente em direção à janela alta, observando flores roxas no jardim. A lua, quase no mesmo tom, as lumia e as cortinas suaves parecem dançar a dança da noite sombria.
Uma luz violeta suave é lançada sobre os móveis de madeira escura que há neste quarto onde estou. Há também uma lareira, uma cadeira estofada e um umbrífero, mas caloroso dossel, que me convidava a descansar, enquanto ao redor, estão os meus artefatos indígenas cuidadosamente dispostos ao chão, sobre o tapete roxo. É coisa de Olga, penso... ela parece caprichosa no que diz respeito a ambientes.
Olho-me no espelho e penso em uma maneira de comunicar à minha aldeia a minha chegada. As minhas vestes trazem à tona lembranças da minha terra natal.
Viro-me e a cama majestosa, adornada com lençóis de seda violeta, parece convidar-me a mergulhar em sonhos profundos e reconfortantes. Por um momento, eu fecho os meus olhos, sentindo-me em casa mesmo em meio à grandiosidade e o desconhecido, ainda, deste castelo. Sei que aqui estou segura, não importa o hóspede que venha a chegar.
Confiro a tranca da porta — ainda temerosa, e suspiro aliviada. Ninguém me faria mal aqui. E se fizesse, certamente eu saberia a quem recorrer.
Exploro o banheiro e o som da minha respiração ecoa aqui. Respiro fundo e sorrio pela segunda vez neste lugar. A banheira em mármore lilás me encanta. E todo o ambiente está bem organizado e disposto.
Já refrescada e pronta para o sono, deito-me e me aqueço demasiadamente. E sei que o meu sono me levaria a lugares inimagináveis antes mesmo do amanhecer.
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Em um mundo repleto de diferenças e subjetividades, nem todas as preferências são iguais. Para alguns, o despontar…
MidjourneyAI
Em um mundo repleto de diferenças e subjetividades, nem todas as preferências são iguais. Para alguns, o despontar de um novo dia, com a estonteante beleza da aurora trazendo luz e cores, representa um leque de possibilidades e um novo amanhecer promissor. Contudo, para outras criaturas, a chegada da luz de um novo dia pode significar dor, sofrimento ou até mesmo o fim — mesmo para aqueles já mortos.
Ewerton, antes mesmo do alvoroço dos galináceos iniciar nos distantes quintais ao longo da estrada, já estava de pé, preparando seu café em uma improvisada fogueira sob um frondoso e florido Flamboyant. Enquanto a água aquecia lentamente — após ter feito sua higiene pessoal matinal —, ele observava ao longe o despertar de um novo dia. A beleza das cores do amanhecer era hipnotizante, com nuances de amarelo e vermelho se alternando em um espetáculo mágico, capaz de fazer qualquer um se perder em seus próprios pensamentos, esquecendo-se completamente do mundo ao redor. Foi assim, perdido em devaneios, que ele não percebeu a aproximação de uma bela jovem vestida de negro, como uma dama da noite, que se aproximava sorrateiramente até o outeiro onde ele se encontrava.
A jovem, caminhando trôpega, tentava se manter de pé, aparentando estar embriagada — o que poderia ser considerado normal, dadas as vestes festivas que usava e o forte perfume que exalava. No entanto, Ewerton logo percebeu que não se tratava de mera embriaguez. A jovem estava gravemente ferida, com um dardo — possivelmente lançado acidentalmente por algum caçador — cravado no lado direito de seu ventre, de onde escorria um líquido viscoso e enegrecido com um odor acre, que sob a luz do dia, seria facilmente identificado como sangue. No entanto, no crepúsculo do amanhecer, era difícil discernir sua natureza. De imediato, soube-se apenas que era um ferimento grave e que ela necessitava de ajuda.
Educado a sempre ajudar os mais fracos e a proteger os indefesos, Ewerton prontamente se lançou ao socorro da jovem, que mal conseguia se manter de pé. Ao abraçá-la, sentiu um estranho arrepio, pois ela estava tão fria quanto uma manhã chuvosa de novembro. Suas faces pálidas e cadavéricas não mostravam o rubor da vida, um sinal claro do ferimento e da contínua perda de sangue, pensou ele. Com cuidado, a deitou em seu próprio leito — uma cama improvisada com os apetrechos de sua montaria —, onde ele próprio havia passado a noite sob as estrelas. Ao examinar mais de perto, percebeu que o ferimento era mais grave do que parecia e que, sem ajuda, ela não sobreviveria por muito tempo.
Antes de retirar o dardo, decidiu que deveria cauterizar a ferida para tentar estancar o sangramento. Após aquecer a lâmina de sua faca no fogo, com cuidado e firmeza, removeu o dardo do ferimento com um único movimento. A retirada da seta fez com que o líquido enegrecido escorresse ainda mais. Enquanto preparava a faca para a cauterização, ele analisou o estranho dardo, artesanalmente talhado, com uma ponta de prata e uma pequena incrustação de uma cruz de malta ao longo de sua haste. Após esse breve inventário, cauterizou a ferida com a faca aquecida. A jovem, saindo de seu estado letárgico, emitiu um urro lancinante e, com uma força descomunal, lançou-se sobre ele, derrubando-o ao chão.
Sem esperar por uma reação daquele tipo, ele que estava desprevenido, caiu de costas e logo percebeu que ela estava sobre ele com suas finas e delicadas mãos — que naquele momento não tão delicadas — agarradas ao seu pescoço num movimento de estrangulamento. Contudo, antes que qualquer outra coisa pudesse ter acontecido, a jovem levantou sua face em sentido ao horizonte e os traços de uma séria preocupação alterou suas feições. Antes que Ewerton pudesse esboçar qualquer reação ou dizer uma única palavra sequer, sentiu uma forte pancada na fronte e suas vistas se escureceram por completo fazendo com que ele perdesse tanto o sentido do tempo, bem como de tudo ao seu redor por alguns momentos, só voltando a si quando recebera em sua face um jorro de água fria que um estranho cavaleiro lhe aplicara.
Tonto e meio atordoado com tudo o que havia ocorrido, ele logo quis saber o que se passava naquela atípica manhã. Primeiro, uma jovem ferida em busca de ajuda; em seguida, a pancada que recebera, levando-o a um nocaute; e agora, quatro estranhos cavaleiros vestidos de forma bastante peculiar se apresentavam. Vestidos de preto da cabeça aos pés, ostentavam um estranho símbolo de uma cruz de malta no peito — a mesma marca presente no dardo — e, além de tudo, comportavam-se de maneira ainda mais estranha. Assim que foi despertado pela água fria, de maneira bastante hostil, um dos cavaleiros, segurando seu queixo com a mão protegida por uma manopla de aço — com a força de uma tenaz — inspecionou seu pescoço de todos os lados em busca de algum ferimento. Como nenhum arranhão foi encontrado, esse mesmo cavaleiro, com um olhar penetrante e traços sombrios, quase sussurrando, mas com uma entonação de liderança, disse aos seus companheiros:
– Por sorte ou pela proteção divina, quem sabe, esse daqui escapou ileso. Para seu próprio bem, é melhor que não se lembre de nada!
Virando-se uma vez mais para Ewerton, que ainda estava sendo firmemente segurado pelo queixo, dissera-lhe com voz firme em tom de soberania:
– Durma rapaz! Tudo não passou de um terrível pesadelo…
E mais uma vez Ewerton caiu na escuridão…
Já passava das dez da manhã, quando ele despertou. Sua cabeça doía absurdamente, como se ele estivesse enfrentando a pior ressaca de sua vida. Contudo, não se lembrava de ter bebido uma única gota na noite anterior. Fato que circunstância desmentiam em absoluto, pois sua camisa estava com cheiro de álcool e havia gosto de bebida em sua boca. Ainda um pouco zonzo, sentado em seu improvisado leito, tentou recolocar as ideias no lugar. Bem devagar, seus pensamentos foram se estabilizando e sua memória fora clareando aos poucos. Ao se recordar por completo de tudo que havia ocorrido com ele ainda de madrugada, rapidamente se colocou de pé e olhou ao redor em busca de algo que corroborasse o que havia acontecido. Para sua surpresa, tudo dava indícios que ele havia bebido tudo que podia e, pelo efeito da embriaguez, certamente havia tido aquele estranho pesadelo.
Próximo ao leito em que passara a noite havia uma garrafa de bebida completamente vazia, a fogueira — que ele aquecera a faca — estava apagada de tempos, e até mesmo a chaleira que deveria estar no fogo com a água para o preparo do café jazia pendurada entre suas coisas num dos galhos do Flamboyant. Após fazer uma busca minuciosa pelo dardo que retirara da ferida da jovem ou algum vestígio de sangue ao redor de um amplo perímetro ao longo da sombra da árvore e não encontrando nada, como já havia dormido embriagado por muitas outras vezes e também tido sonhos estranhos nessas noites ébrias, se deu por convencido que tudo não passara do fruto de uma mente bastante fértil. Ainda de pé, com a cabeça latejando nas têmporas, ficou por um tempo parado, olhando ao longo da estrada que ele já deveria estar trilhando desde as primeiras horas da manhã, decidiu pela enésima vez que deveria dar um tempo com a bebida — sua única companheira de noites insones –.
Rapidamente acendeu a fogueira, e sem demora preparou um café que logo fora saboreado com seu desjejum, um satisfatório pedaço de broa, com um naco de carne salgada. Com suas forças restabelecidas, selou seu cavalo — que naquela manhã estava bastante arredio e parecendo assustado — e saiu estrada a fora rumo ao seu destino, — uma cidade na qual ele era esperado para acompanhar uma boiada que seria levada para outro estado. Ewerton era peão estradeiro e vivia de tocar boiada de um lugar a outro. Tropeiro era seu ofício e as estradas seu ganha pão. Em mais de quinze anos na profissão, já conhecera muitos lugares diferentes. Contudo, naquela estrada em que se encontrava naquele momento, era a primeira vez que viajava, naquele ermo caminho, tudo era desconhecido. Cada curva, regato ou ponte era algo novo para se conhecer.
O dia claro de sol forte e brisa fresca possibilitou que a marcha tivesse um resultado bastante satisfatório, uma vez que ele já havia se alimentado bem e não precisou fazer nenhuma parada mais longa, exceto uma vez ou outra para se aliviar. Numa cavalgada continua, conseguiu vencer mais de oito léguas de estrada. Por volta das quatro da tarde, decidiu que deveria buscar um local mais apropriado para pernoitar, pois, logo à frente, uma forte tempestade se anunciava no horizonte e, debaixo de uma árvore ao relento, não seria apropriado passar a noite.
Não tinha seguido mais do que dois quilômetros, quando estando ele contornando uma curva bastante fechada após ter atravessado um belo regato de águas serenas e cristalinas, se deparou com um suntuoso casarão abandonado na beira da estrada. Era uma enorme construção em estilo colonial com traços de uma arquitetura bastante rebuscada. Suas feições — mesmo em ruínas, aparentando estar a bastante tempo abandonado — demonstravam que em seus tempos áureos havia sido um belo palacete. Talvez a residência de uma família muito importante, ou quem sabe uma pousada bastante movimentada na região. Porém, como tudo tem um fim, aquela bela casa estava encontrando o seu, nas garras do tempo, e se um dia fora habitada ou visitada por várias pessoas ilustres, naquele momento, certamente era moradia de várias criaturas que viviam nas sombras se escondendo na escuridão, e que naquela noite em particular, também lhe daria abrigo contra uma chuva que se anunciava de forma violenta e duradoura.
Muito cansado da viagem e das desventuras da noite anterior onde no mesmo sonho ele fora espancado duas vezes, Ewerton após apear e desarrear seu cavalo — deixando-o pastar livremente — decidiu adentrar o casarão e procurar uma forma de acender uma fogueira, tanto para lhe aquecer e espantar algum animal peçonhento bem como deixar o lugar mais iluminado. Por dentro o casarão não era de todo diferente ao seu externo. Tudo estava na mais completa ruína. O ambiente tinha um cheiro fétido de mofo e abandono. A poeira do tempo tomava conta do lugar. Havia alguns móveis abandonados, mas estavam velhos e comidos por traças, servindo apenas de suporte para as inúmeras teias de aranhas que infestavam o lugar. Temendo se deparar com alguma serpente ou algo do tipo, devido a escuridão interna que ocupava todos os cantos da casa, decidira ele, ficar no salão principal que contava com uma bela e grandiosa lareira. Rapidamente, utilizando-se de pedaços de alguns moveis velhos, logo conseguiu acender uma crepitante fogueira que trouxe luz e calor para aquele lúgubre ambiente.
Em um de seus embornais, ainda havia uma pequena garrafa com licor que ele logo abrira, emborcando alguns goles para acompanhar mais um pedaço de broa e alguns nacos de carne salgada, que naquela noite seria seu único jantar. Assim que terminou esse breve repasto, colocou mais alguns restos de cadeiras velhas no fogo e após de ter a certeza que num velho estofado de frente a lareira não havia nenhum animal peçonhento se escondendo em seu interior, se deitou e ficou ouvindo o crepitar das chamas na lareira e o ribombar dos trovões e da chuva que caia pesada no telhado, sem maiores preocupações, logo pegou no sono.
Acordou sobressaltado já tarde da noite com alguém lhe acariciando a face. Era uma bela donzela de olhos na cor de mel com longos cabelos ruivos na cor do entardecer. Ele jazia com a cabeça em seu colo e ela muito prestativamente lhe velava o sono. Num movimento rápido, se colocou de pé e logo percebeu que tudo ao seu redor havia mudado bruscamente. O casarão em ruínas cedera lugar a um suntuoso palacete cheio de luz e muito movimento, a mobília estava nova e brilhante, havia belíssimas cortinas nas janelas, o piso estava recoberto com finíssimos tapetes em alguns lugares. Havia inúmeras pessoas por todos os lados. Comendo, bebendo e se divertindo bastante como se uma animada festa estivesse ocorrendo ali naquela noite.
Belas e perfumadas mulheres de todas as idades, distintos cavalheiros com pose de serem homens bastante importantes se faziam presentes como convidados ilustres. Na lareira — que agora estava bela e limpa — ardia uma frondosa fogueira com toras de madeira perfumada dando ao local um agradável odor almiscarado. Num dos cantos do salão, um afinado piano alegrava o ambiente com notas musicais bastante animadas. Tudo era muito alegre e festivo como num sonho, até mesmo a chuva parecia ter dado uma trégua naquele momento. O barulho ao seu redor era de risos, animadas conversas e o harmonioso som do piano.
Um tanto embasbacado com tudo aquilo e ainda meio atordoado pelo sono, Ewerton foi conduzido até um recinto reservado. Lá, uma deslumbrante mulher, possivelmente na casa dos quarenta anos, conversava alegremente com um jovem ainda na flor da idade, que lhe fazia companhia. Esta mulher foi apresentada a ele como a Condessa do Araripe, viúva do nobre Conde do Araripe e proprietária daquela badalada pousada. Ela gerenciava o estabelecimento com a ajuda de suas três filhas e, naquela noite, seria sua anfitriã. A condessa era uma mulher de estatura alta, com longos cabelos cacheados tão negros quanto uma escura noite sem luar, que caíam em cascata pelas costas. Seus olhos brilhantes, da cor de esmeraldas, destacavam-se em seu rosto claro como a neve, e seus lábios na cor de carmim delineavam um sorriso que, embora inocente, denotava a seriedade e responsabilidade de quem governa um renomado estabelecimento e cuida de indefesas donzelas.
Assim que o distinto cavaleiro lhe foi apresentado, a condessa, que naquela noite trajava um longo vestido de veludo na cor verde como seus olhos, levantou-se e, após uma delicada reverência, ofereceu-lhe uma de suas mãos para que Ewerton a beijasse. Ao aproximar seu rosto da mão da condessa, ele pôde sentir o mesmo perfume que emanava da jovem ferida a quem ele havia prestado socorro — era o mesmo aroma de frescas flores de jasmim. Já bastante desconfiado de tudo aquilo, Ewerton se colocou ainda mais na defensiva, mas deixou que os eventos se desenrolassem para ver onde tudo aquilo iria culminar. A condessa então lhe ofereceu uma bebida, servida por outra de suas filhas — tão bela quanto a primeira –, uma jovem loira de olhos azuis como o céu em uma manhã de primavera. Com a bebida em mãos, mas ainda sem experimentá-la, ele refletiu por um instante, questionando-se se tudo aquilo não seria apenas mais um sonho. Para ter certeza dessa vez, e sem ser notado, para não parecer um lunático diante de tão belas mulheres, decidiu morder o lábio, de modo que a dor pudesse esclarecer suas dúvidas.
Talvez tenha sido esse seu maior erro, pois a mordida foi mais forte do que pretendia, resultando em um fino fio de sangue brotando de seus lábios. Esse brilhante fio escarlate se tornou sua perdição, pois, antes mesmo que pudesse reagir, logo se viu preso por braços que mais pareciam duas tenazes, enquanto a condessa se lançava sobre ele, abraçando-o como uma serpente. A bela face da condessa transformou-se em algo assustador e animalesco; os belos olhos, que antes eram de um verde estonteante, agora tinham a cor rubra do fogo mais ardente; seus dentes, longos e afiados, estavam prestes a banquetearem-se de sua carne. Ele já sentia o morno bafejar de sua boca em seu pescoço e uma língua pegajosa roçando sua pele como se estivesse saboreando-o. Ele tentou se libertar de todas as formas e, percebendo que era inútil se debater, fez a única coisa possível. Juntou o que restava de suas forças e, num átimo de desespero, soltou um grito tão alto e vigoroso que teve a certeza de que aquele ensurdecedor barulho despertaria qualquer coisa ao seu redor.
Por sorte ou mero acaso, seu grito de desespero lhe foi bastante promissor, pois quando imaginou que aquele seria o seu fim, ouviu uma voz doce próximo a ele, intercedendo a seu favor.
— Mãe! Solte-o! Tenho uma dívida de honra com esse cavalheiro! Foi ele, que ainda hoje pela manhã, veio em meu socorro. Se não fosse por ele, certamente os Cruzados teriam me capturado e talvez eu nem estivesse mais por aqui. Ele é digno de todo nosso respeito e proteção.
O abraço de morte que a condessa lhe aplicava se tornou num abraço de afeto e sincero agradecimento. As feições da condessa retornaram ao que era antes e ela mais uma vez estava encantadoramente bela outra vez. Ainda segurando Ewerton pela face, — que ainda tomado de pavor, sentia-se meio hipnotizado e sem reação — lhe beijou a testa e após deixar uma marca em sua face com uma de suas afiadas unhas, disse-lhe de forma muito afetuosa e maternal:
— Nada, nem ninguém em meus domínios tocara num único fio de cabelo seu! Nenhuma criatura da noite atentará contra sua integridade. De hoje em diante você será meu protegido!
A mesma jovem que ele ajudara pela manhã, agora tão bela quanto sua mãe — uma vez que as duas eram muito parecidas — também lhe dera um afetuoso abraço de agradecimento e logo após, soprou em sua face um pó esbranquiçado que mais uma vez o lançara no véu da escuridão. Ewerton acordara já bem tarde na manhã seguinte, com uma terrível dor de cabeça, — como na manhã anterior — ainda estava deitado no velho sofá de fronte a lareira que agora jazia apagada e mais uma vez fria e sem vida. Tudo no casarão estava igual ao momento em que ele ali adentrara; ruínas, abandono e sujeira por todos os lados. Mais que depressa, ajuntou suas coisas e logo deixou aquele assombroso ambiente. Já pelo lado de fora, na segurança da luz do sol, que naquela manhã brilhava radiante fez mais inventário de todos os acontecimentos e mais uma vez se fez convencer que tivera outro pesadelo horripilante. Seu cavalo, fora logo selado e mesmo sem preparar seu café, decidiu seguir viagem se afastando rapidamente daquele lugar.
Sobre sua sela, já a trote rápido, pegou um naco de carne para o desjejum, mas não conseguiu comê-lo devido ao sal que ofendia a ferida que ele tinha no lábio inferior…
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Violenta
Qual luz de um céu distante, inalcançável, | Sonhando formas de abraçá-la um dia… | A essa altura os pensamentos vagam...
MidjourneyAI
Qual luz de um céu distante, inalcançável,
Sonhando formas de abraçá-la um dia…
A essa altura os pensamentos vagam
Envoltos pelo azul-melancolia…
A raiva a qual se chega, malfadados
Os planos dessa antiga travessia,
Resultam veios sobrecarregados
De cor vermelho-sangue-rebeldia…
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Agora em só lembranças transformados:
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Sinal daquele orgulho, reprimido…
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Emanação Violácea
Ao abrir a porta, não consegui enxergar muito bem, mesmo com a visão de vampira, me senti como a míope que fui outrora…
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Ao abrir a porta, não consegui enxergar muito bem, mesmo com a visão de vampira, me senti como a míope que fui outrora antes da cirurgia, graças aos hospitais que fizeram um desconto… deixado um pouco de lado as minhas divagações, consegui sentir um cheiro… inebriante… totalmente diferente do cheiro de mofo que senti ao adentrar no castelo.
Percorri um longo caminho até aqui e, para a minha surpresa, ainda não cruzei meu caminho com o anfitrião. Eu sou apenas uma subordinada de algo maior, perdida num castelo com o meu gato. E se por algum momento eu cogitei tal façanha, não posso negar que experienciar essa jornada no castelo do Drácula, que já li no período escolar, faria algum sentido em minha “vida” pessoal. O vampirismo me trouxe diversas faces e eu me sinto sazonal em muitos momentos. Mas nessa sala em que me encontro tem um cheiro que me tortura e ao mesmo tempo me encanta.
Por que não consigo enxergar?
“Jason venha até aqui e pule nos meus braços, iremos nos guiar pelo cheiro que, parando para pensar de forma mais racional, me lembra muito nossa estalagem das lavandas.”
Quando fomos transformados em vampiros naquele lugar, o dia da minha morte e renascimento ao lado de quem mais amo, eu não podia imaginar que a lavanda — a flor que sempre me trouxera paz, a calmaria que me guiava nas noites de escritora virada por dias seguidos — seria tão presente nesse meu caminhar imortal. Agora sua cor e seu cheiro me transbordam tantos outros sentimentos, me levam ao mais profundo abismo de mim mesma e me inebriam algures.
Existe uma névoa intensa nessa sala e agora meus olhos estão se acostumando e o odor que percorre em minhas entranhas, me desliza caminhando para um ponto que tem uma outra porta. A madeira tem um toque de carvalho que acredito ser seu material.
“Devemos entrar Jason?”
“Miau”
Somos vampiros e, mesmo que imortais, estamos suscetíveis a uma outra morte. Se o Drácula aqui estiver, outros devem existir, sejam outros seres sobrenaturais ou outros como nós. Minha intuição diz que há outros vampiros e outros que possam ser futuras vítimas. O desconhecido nem sempre me encantou, vivi anos na monotonia de uma vida pacata com os amigos e meu gato. A curiosidade me despertou para esta “vida” e o amor que percorre em minhas veias resplandece nessa realidade gélida e nesse castelo assombrado. Meu coração padece dessas indagações momentâneas e giro a maçaneta.
Meus olhos descortinados agora vislumbram uma sala violeta e o aroma ainda é como um bálsamo, se isto é que me trouxera até aqui, preciso entender os fundamentos compostos desta sala. Essa cor que me lembra as lavandas…
Assim como o “violeta” está ligado ao nosso chakra coronário, irei me interligar com a minha espiritualidade. Quem diria que eu, uma vampira, ainda poderia me guiar por coisas tão humanas e entender o significado proposto dessa sala que é a cor referente a essa ligação interior.
“Venha Jason, vamos olhar por trás de cada quadro em busca de algo.”
E esse cheiro? Não sai do meu alcance, preciso examinar o ponto exato de sua emanação ou se está presente na sala inteira. São tantos quadros que iremos levar algum tempo, são todos de épocas diferentes e isso confirma meus pensamentos de antes. Será que em breve iremos encontrar alguém?
“Miau”
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Sábios e sensatos, incrédulos e indignos.
Não registrarei a data, pois nãos disponho mais deste conhecimento, deixo aqui o horário…
MidjourneyAI
Dia 2
Não registrarei a data, pois nãos disponho mais deste conhecimento, deixo aqui o horário estipulado por mim com base no astro solar e sua posição na abóboda celeste.
10:00
Querido diário.
Reconheço-me como uma criatura infeliz, não mais tenho a inteligência como uma dádiva, uma vez que a intelectualidade sabota meu ato racional no momento em que necessito de atenção. Compreendes minha indignação diante do confinamento? Estava prestes a conquistar o mundo, por duas vezes interromperam minha jornada, por agora vivo à mercê da hospitalidade masculina, a qual pouco dirige-se a minha presença e contribui para a instrução de conhecimento. O conhecimento vinha a ser tudo para mim.
O tempo dispara no decorrer do confinamento, vejo meu amadurecimento psicológico evoluir e eu ao menos compreendo o motivo deste fenômeno desconhecido. Independente de minha aparência jovial e genérica, atribuída a uma senhorita de dezessete anos, sinto-me amadurecida e equilibrada, porém, embora perceba a vida deixo-me deslumbrar diante de pequenos momentos, como caminhar sentido ao pátio central e em direção ao terraço, onde por vezes fui impedida de maravilhar-me pela revelação montanhosa e verde, proveniente dos vales.
Não duvido da existência de outros confinados sob o mesmo teto, não estou só, digo, além de mim, do Lorde e seu subordinado o qual aparece esporadicamente. Ouço vozes e passos, e por vezes questiono a veracidade de suas existências. Devo procurá-las? Questionei-me pela madrugada, evidente que o fiz, afinal nego-me a permanecer às sombras, alheia ao reconhecimento de meu esconderijo e os mistérios que o cercam, ‘‘Nada é escondido dos sábios e sensatos, enquanto aos incrédulos e indignos não é possível aprender os segredos’’, como diria Cornelius Agrippa.
Ao retornar após a expulsão do terraço em minha vã tentativa sentir o vento da noite sob o terraço, adentrei em meus aposentos pronta para iniciar aos rituais noturnos, porém, o momento em que trajei minha chemise e desarrumei minha cabeleira encaracolada, percebi uma misteriosa chama púrpura movimentar-se no cadeeiro, em uma agitação jamais percebida por mim, logo, todas as demais chamas ao redor, como a cálida flama no interior da lareira replicava a coloração, tomada por fim como espectral, tornando o entardecer retratado no afresco sob a lareira o mais purpúreo concebível.
As chamas deixavam escapar faíscas igualmente dançantes, as quais flutuavam através do ar em direção ao limiar convocando-me a segui-la. E eu o fiz, atravessando os corredores estreitos em direção a um cômodo de tonalidade semelhante à das chamas, adornado de forma antiquada, ostentando a mais bela e rara tapeçaria violeta estendida ao chão e sob um leito majestoso, talhado em madeira maciça, ornada por um dossel integrado a estrutura, o qual representava os contornos de uma catedral. Embora escurecida, a madeira refletia o roxo, condizente ao forro do tecido da cobertura em seu interior.
Ao lado da majestosa obra de arte, meus olhos seguiram o brilho oriundo a um relógio encrustado em ametistas repousado sobre o leito. Delicadamente o toquei na esperança de alcançá-lo, quiçá apanhá-lo tencionando esmiuçar seus segredos, porém, ao invés de fazê-lo, retornei ao quarto por intermédio de uma passagem secreta a qual conecta os andares, sentindo-me indigna de obter tal conhecimento, uma vez que fora ridicularizada e enxotada do único local capaz de ceder-me conhecimento, ainda que pouco comparado aos livros que li ao passar dos anos.
Finalizo o relato em prantos, ainda incrédula de minha ação e desconhecendo em mim o amadurecimento constatado anteriormente.
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Púrpura
Pálida, | Sua tez de porcelana | Alva e fria. | Desprovida de um coração pulsante | Ainda és bela | E graciosa como a morte…
MidjourneyAI
Pálida,
Sua tez de porcelana
Alva e fria.
Desprovida de um coração pulsante
Ainda és bela
E graciosa como a morte.
Seu olhar intruso
Penetra meu âmago
Desperta a concupiscência.
Minha criança,
Suas vestes púrpuras
São delicadas
E remetem à inocência de seu ser,
Mas ainda sim são tão escuras
Quanto a alma que pensas ainda ter.
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2. Castelo Vampírico: O Encontro
4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de…
Diário de Rute Fasano
4 de dezembro — Ainda não tomei coragem para socializar com outros membros do Castelo, fico com receio de falar algo errado, ou esquecer de dizer algo que era certo dizer. Pude observar de longe alguns membros, todos parecem muito interessantes. Depois do encontro de ontem na sala principal do Castelo, cada membro foi se ocupar dos seus interesses. Uns foram levados para um quarto do castelo, outros ficaram na sala principal admirando a decoração, outros conversavam entre si. Eu apenas observava e tentava criar um roteiro na minha cabeça de como me apresentar a cada um deles sem parecer estranha, enquanto tocava a ponta dos óculos o tempo todo como uma forma de me acalmar a cada momento que alguém trocava olhares comigo, isso fazia eu parecer realmente estranha.
Observei de longe os membros e poucas coisas pude perceber:
— Anelly tem aura romântica e etérea, parece vinda de um mundo de sonhos, alheio às sombras que permeiam o castelo.
— Astrid emana uma aura de seriedade e erudição, seus olhos penetrantes revelam um intelecto afiado.
— Jason é um gato, ele veio com Maria, observa tudo com uma curiosidade felina, suas ações parecem mais calculadas do que instintivas, e isso é bastante curioso.
— Maria parece ter conhecimento de ervas, desperta uma curiosidade misturada com cautela. Seu conhecimento de ervas faz ela ter a habilidade para aliviar a dor e também a capacidade de causar danos irreparáveis.
— Olga tem uma postura enigmática, transmite uma sensação de mistério, como se guardasse segredos profundos por baixo de uma expressão imperturbável.
Há dois membros que ainda não sei o nome:
— O rapaz que parece imerso em suas próprias reflexões, uma melancolia sutil paira sobre ele, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros.
— A jovem indígena que possui um olhar desconfiado, parece estar constantemente avaliando os motivos ocultos por trás das interações, sempre alerta para possíveis perigos.
Fiz todas essas observações, mas podem não ser exatas. Deduzi de apenas observar, ainda não conversei com nenhum deles para confirmar tais deduções. Ouvi alguém comentar que ainda tem mais membros chegando. Isso me deixa um pouco ansiosa.
Fui para o quarto e fiquei pensando no rumo que a minha vida tomou, sonhava na infância viver da escrita e de todas as ideias e histórias loucas na minha mente, mas a curiosidade intensa e a obsessão de entender o mundo e seu funcionamento fez com que eu fosse para o caminho da ciência. Não me arrependo nem um pouco disso, ela continua sendo a minha obsessão. Porém, cheguei à conclusão de que deixei o caminho de viver da escrita para chegar a esse momento em que eu preciso dela para manter essa entidade, o Castelo, viva. Que louco, não?
6 de dezembro — Eu acho que vi Drácula pelos corredores nesta madrugada, pode ser que não seja ele, mas sim o efeito da cafeína e noites maldormidas. Eu saí do meu quarto para esticar as pernas, mais ou menos às 3h da manhã, comecei a andar pelos corredores e os ecos dos meus passos aumentavam junto com aquela agradável sensação de solitude. Depois daquele passeio eu iria retornar ao conto que eu mal havia iniciado, passei a maior parte do tempo fazendo arabescos nas bordas da folha. Em meio à penumbra daquele corredor pouco iluminado, eu vi uma figura solitária diante de mim, caminhando lentamente, seu andar era quase etéreo e ecoava pelos corredores como sussurros.
Meu primeiro pensamento era de que outro hóspede do castelo teve a mesma ideia que eu e decidiu perambular pelos corredores. Essa figura segurava um castiçal que emitia uma luz suave que lançava sombras dançantes no corredor do castelo. Tudo que eu conseguia ver era suas costas. Vestia uma blusa branca de mangas bufantes com punho em renda que contrastava com a calça preta justa que parecia moldada a seu corpo. Para completar, botas de cano alto pretas. Os cabelos negros longos que caíam como cascata até a sua cintura e, quando virou à esquerda, fez uma breve pausa e olhou através de mim como se não me visse. Senti um arrepio subir a minha coluna que me fez paralisar. Um feixe de luz do castiçal que segurava revelou seu rosto e fui incapaz de definir se o que eu via era um homem ou uma mulher, mas tinha certeza de que não era nenhum dos hóspedes do castelo.
Seu rosto era uma obra de arte andrógina, sem traços que me ajudassem a definir o seu gênero. A pele pálida da figura parecia quase que translucida sob aquela luz fraca, o que me permitia vislumbrar suas veias roxas através dela. Nariz adunco que adicionava uma elegância à sua aparência. Mas foi nos olhos que vi a característica mais intrigante, um matiz de azul-violeta, mais profundos e enigmáticos do que os olhos de Elizabeth Taylor e ecoando o mistério do próprio castelo. E o seu cheiro! Tão pungente de uma mistura de rosas com nuances amadeiradas tão real que podia sentir o toque aveludado das pétalas das rosas na minha face —ou seria o toque de Drácula?
E o gosto de cobre suave e adocicado que me provocou um excesso de salivação, tive que pôr a mão na boca rapidamente — e assim me tirando daquela paralisia momentânea — para impedir que escorresse, pisquei para voltar a si. Decidi não esticar mais as pernas aquela noite, não exatamente por medo, quero dizer, claro que eu estava apavorada, mas ao mesmo tempo fascinada a ponto de não saber o que fazer, mas não estava preparada para aquela presença. Acho que foi o bastante por hoje para estimular meu cérebro a continuar produzindo. E assim me vi imersa em um mistério, aquela presença enigmática era Drácula?
O que quer que fosse deixou uma marca na minha mente.
P.S. Em meio à escrita, meu cérebro descontrolado foi criar teorias. Drácula existia isso era óbvio, e é de conhecimento geral também, mas será que Bram Stoker quando escreveu Drácula não usou suas próprias experiências com o Conde para escrever o livro? Isso seria um ótimo assunto para ter com os demais membros do Castelo. Adoraria ouvir as teorias deles, se eu tiver oportunidade para iniciar a conversa.
Estou incrivelmente surpresa que Drácula cheira tão bem para quem é um morto-vivo, imaginava algo como odor de putrefação, esse eu conheço bem, sangue seco e mofo escondido por baixo de um forte odor impregnante de canela e cravo. Se a figura for mesmo Drácula, isso eu ainda não tenho certeza.
7 de dezembro — Depois de pensar muito e me esconder no quarto fugindo de interações sociais, decidi esperar o mesmo horário que eu vi o que eu acho ter sido Drácula. Sai do quarto e dessa vez não havia ninguém no corredor, aliviada e, ao mesmo tempo, decepcionada, dei passos cautelosos pelo corredor e virei à esquerda. Aquele cheiro novamente, porém sem a figura que eu esperava. Segui adiante até chegar numa porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas, como aqueles que eu havia feito nas folhas em branco que eu deveria escrever. Empurrei a porta devagar e entrei e o cheiro ficava mais intenso. Uma névoa púrpura densa preenchia aquele lugar, e espectros disformes estavam de um lado a outro produzindo uma cacofonia de sons, fui em direção aquele que emanava o cheiro que eu imaginava ser o de Drácula. Caminhei em direção a esse espectro e o toquei.
Fui levada para um local onde a névoa púrpura estava mais fina, mas a música mais alta e a figura, que de alguma forma agora eu tinha certeza de que era Drácula, estava de costas para mim. Ele no alto de uma montanha, como um maestro, fazia movimentos e cada movimento formava uma parte do castelo, como uma parte de uma melodia numa partitura. Estávamos no castelo, porém fora, era como um mundo dentro de outro mundo, só que no castelo. Drácula de costas para mim se destacava de pé em uma colina escarpada contra aquele céu crepuscular arroxeado, fazendo gestos precisos como de um maestro conduzindo uma orquestra, e com cada gesto ele parecia moldar aquela névoa púrpura com as mãos.
Pude ouvir a música calma, atenuada, suave como uma valsa lenta. Olhava tudo em volta e aos poucos as vozes em coro iam crescendo, crescendo e tomando tudo ao redor. Com movimentos amplos ele fez as rochas se erguerem do chão formando as muralhas do castelo, tudo acompanhado da melodia, tudo em volta respondia à sua vontade. Eu sentia a melodia me apertar e pressionar, despertando os meus sentidos e crescendo como se a qualquer momento fosse explodir. E tudo era preenchido por essa melodia. O castelo tomava forma, as torres, as janelas, as portas, tudo se erguia como notas ascendentes em uma partitura, as janelas se abriram seguindo o ritmo da música e pude ver os hóspedes do Castelo, cada um ocupado com sua própria criação, e eu pude me ver dali.
Senti como se meus ouvidos fossem tapados com a pressão que a melodia causava expandindo sem cessar, eu não mais a ouvia, mas sentia a vibração e o ritmo através da minha pele e uma pulsação inexplicável dentro na minha cabeça que crescia e vibrava com a música. O último tijolo foi colocado e Drácula ergueu os braços para o céu fazendo a música atingir seu clímax. O castelo estava completo, e era uma obra de arte viva que nós, hóspedes, estávamos alimentando. Pude ver os finos filamentos violetas que interligam Drácula ao castelo e aos hóspedes.
A melodia cessou, algo que parecia eletricidade passou por aqueles filamentos em direção a mim e percorreu todo o meu corpo, se detendo no meu cérebro que relaxou. E uma sensação de leveza caiu sobre mim. Minha mente se aquietou, vazia, sem pensamentos. Ele olhou para trás com meio sorriso como se somente naquele momento tivesse percebido a minha presença, fez um lento e último gesto com a mão para que eu me fosse, mas assim que meu cérebro quis dar a ordem para minhas pernas se moverem, eu simplesmente apaguei.
8 de dezembro — Acordei na cama, renovada como nunca antes. Coloquei meus óculos que haviam sido deixados na mesa de canto e vi que em cima da escrivaninha um toca-discos tocava Réquiem em Ré menor de Mozart e também um vaso com belas orquídeas roxas. Automaticamente lembrei do que minha avó dizia: “o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas”. O que sei sobre o amor tem relação com bioquímica e escolha, então escolhi ter afeição por esse ato. E aqui está a trouxa que vos fala. É melhor eu começar a escrever agora. E que Deus, se existe um, tenha piedade de mim.
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Como não poderia deixar de ser, tamanho Castelo não teria somente minha presença em suas dependências…
MidjourneyAI
Como não poderia deixar de ser, tamanho Castelo não teria somente minha presença em suas dependências… vejo que estou acompanhado por mais pessoas: homens e mulheres, das quais já sei alguns nomes, dividem comigo esse espaço. Listarei a seguir os que tomei nota.
Astrid, essa quem vi na posse do que parecia um diário (datado de 1880? isso mesmo que eu lera?); Anelly, cuja figura pálida, quase vampírica, por excelência, somada ao seu expresso apego por poemas e vinhos dispostos no lugar, atiçam de maneira peculiar a busca por querer saber mais sobre ela… Rute Fasano, uma presença que eu consideraria a menos digna de receios nesse Castelo; sua atenção dada às plantas, aos animais do ambiente… isso me leva a crer que seja, talvez, uma bióloga, cujo interesse deve abarcar tanto os domínios de sua presumida área quanto o mundo sobrenatural, que possivelmente nos rodeia… Uma estudiosa, por certo. E Maria, na companhia de seu gato (Jason creio ser o nome dele) … parecem estar aqui para algum objetivo específico, visto que ela e o felino parecem até se comunicar…
Entre todas essas figuras femininas, cujos nomes eu anotei, uma não consta por não saber justamente como chamá-la… com seu aspecto de verdadeira estirpe guerreira, imponente e, pelo que pude reparar — ainda que ela tentasse esconder, ao que parece —, dotada de arco e flechas… tudo isso me dá a certeza de estar num lugar completamente especial, fora de qualquer cogitação na tentativa de classificá-lo.
Digo fora de classificações por se tratar de um Castelo, aparentemente, à margem da realidade visível… chego a essa momentânea conclusão a partir das impressões vindas de outra presença nas torres desse lugar: Olga… Olga Nivïttiz (seja lá como se pronuncia esse seu sobrenome, anotado por mim ao bisbilhotar seu diário, ao que parece, que ela deixara de lado num raro momento, sobre um móvel do Castelo). Essa mulher, ao que tudo indica, possui algum tipo de conhecimento muito além do que eu poderia imaginar; talvez, contenha sob os bolsos de seu manto, dessa indumentária longa e escura que arrasta pelos corredores, a própria resposta para as perguntas que me surgem desde que passei a fazer parte das dependências desse habitáculo… algo assim não deixa de ser misterioso e, ao mesmo tempo, fascinante para querer solucionar…
Não registrei nas linhas anteriores os nomes de homens que frequentam o Castelo, mas com certeza (para deixar também aqui anotado) eles devem estar presentes: prova disso são os poemas e contos que pude ler, de autoria de alguns deles, sem menção a suas alcunhas, mas assinalados com os dizeres “escritor membro do Castelo Drácula” …
Finalizo agora essas anotações, prestes que estou a arriscar uma exploração maior pelos aposentos. Há pouco, vi o que parecia ser uma enorme entrada, numa das galerias daqui; por ela, tenho quase certeza de ter visto um fumacê de cor roxa… algo estranhíssimo e que, do mesmo modo, parece gritar pela minha presença…
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Descuido da morte
Eu o vi afastado entre as aberturas de meus dedos afastados. As mãos sobre minha face ferida, apertadas com designo…
MidjourneyAI
Eu o vi afastado entre as aberturas de meus dedos afastados. As mãos sobre minha face ferida, apertadas com designo de proteger-me do terror que me acometia decorrente a circunstância de morte presente, já não me auxiliava.
A escuridão havia tomado todo o cômodo, aos prantos prostei sobre a esteira aguardando em silêncio, contendo os murmúrios e apelos preservados em minha garganta. Eu o matara, e como haveria de fazer o contrário diante da violência a qual vinha sofrendo anos a fio? Não fora intencional, muito menos arquitetado, embora aceitei veemente a oportunidade de apunhalá-lo segundos antes do ato.
Nossos filhos jamais perdoariam meu ato desesperador, pois em suas cabeças pueris somos o mais puro e simplório retrato familiar genérico introduzida em nosso contexto social, embora, eu creio que a desumanidade esteja presente em todas as classes, no fim, somos todos idênticos.
‘‘Desumanidade’’
Marquei com o plasma sangrento em minha própria carne como lembrança. No decorrer de minha consciência, pousei as mãos sobre a chemise em descanso, e ressentida decidi dar um fim a figura masculina finada diante de meus olhos. Era bonito, senti pena, a beleza pouco é igualada dentro e fora da carcaça humana, tomo meu pai como exemplo, foi bonito e sabido, porém agressivo e infiel, receio que minha filha sinta necessidade de encontrar um par como o meu, assim como fiz, espelhando-me em minha mãe.
No presente momento em que olhei para meu finado companheiro, e tomei em minhas mãos algo que pudesse limpá-lo e também minha casa, compreendi meu infeliz roteiro, sei que diferente de minha mãe reagi por instinto, instinto esse desconhecido, uma vez que não enxergava dentro de mim impulso algum responsável por este desfecho dramático.
Pois bem, tão logo o limpei vi o defunto voltar a corar, os lábios empalidecidos voltaram a dar-lhe a beleza e vitalidade, porém a costumeira expressão odiosa, a qual pesava-lhe na inclinação das sobrancelhas mesmo na morte, fora atenuada, dormia sereno, longe de pesadelos, e o cheiro da decomposição, a qual vinha deixando-me de certa forma satisfeita por comprovar meu livramento, havia desaparecido por completo.
Aproximei o rosto de seus lábios, os lábios que outrora despejaram provocações e beijaram-me com uma ferocidade atroz. Não tencionava beijá-lo, esse anseio já não me provocava há anos, tencionava apenas comprovar por meio de sua respiração a morte efetiva, porém o maldito voltou a respirar, embora suave, e as pálpebras tremeluziram em um sonho agitado.
Levei a mão aos lábios contendo o grito, pois percebia minha insanidade e refleti sobre a possibilidade de a morte não passar de uma idealização projetada em minha mente como consequência de sérias complicações em minhas faculdades mentais. Logo o choro e o desespero regressaram urgentes junto ao despertar de meu marido e a fixação de seus olhos aflitos.
O não mais falecido permaneceu sentado onde havia desencarnado, apertando os lábios como em um choro reprimido, mas não se atreveu a questionar os últimos acontecimentos, somente refletiu ao tomar ciência de sua localização. Quis apagá-lo outra vez, apanhar meus filhos na moradia vizinha e fugir da capital, todavia não o fiz, aguardei assombrada. Ele não tornou a agredir-me, embora demonstrasse agressividade na forma como ergueu o tronco e deixou a casa apressado.
Aguardei seu retorno acuada por detrás das cortinas, repetindo o procedimento habitual de quando nos deixava a fim de se aventurar entre tavernas e residências de messalinas portuguesas desfavorecidas. Antes do anoitecer do terceiro dia, Mario atravessou a porta abatido, questionou-me cauteloso a respeito de nossa família e emprego, o qual evidente não existia, uma vez que há tempos eu vinha sustentando a casa e seus vícios através da costura.
Confuso, respondeu de forma branda, quase não ouvi sua voz, o que me deu coragem para exaltar a minha, proferindo todo tipo de injuria, devolvendo a agressão verbal e corporal sofrida por anos, aguardando que revidasse e enfim findasse minha vida, visto que a sua não poderia ser tomada apesar de todo meu esforço.
Mario tornara-se impassível, mostrando-se eficiente em cuidar dos meninos e de nossa moradia. Por semanas fui testemunha de sua loucura, antes fora a encrenca encarnada, porém agora o equilíbrio tomava sua personalidade, transformando a leviandade em uma amarga lembrança. Mario e nossos filhos formaram uma amizade jamais cogitada por mim, diminuindo minha guarda em relação o pavor de dias remotos.
Certa manhã, eu o vi levantar discreto, e crendo na proeza de sua prudência vestiu-se e deixou a casa sorrateiro. Eu o segui em desconfiança, por pouco desacreditei na cena a qual se desenrolou a frente de meus olhos; Mário observava uma família através das janelas com um profundo ar melancólico. A dor em seu semblante desprendeu em mim uma afeição jamais sentida, embora houvesse chances de estar diante da residência onde se passara mais uma de suas infidelidades. Mário tornou a voltar para casa ao fim do dia, e como de costume aprontou parte do serviço no campo e acariciou os filhos com o mais profundo carinho de seu coração.
Os dias correram, e com o correr meu coração abriu-se outra vez para o amor, embora enfrentasse um dilema moral, afinal, como retornar a relacionar-me com um sujeito cujo desrespeito e agressividade uma vez operaram em cada um de seus atos? Como doeu, e dói refletir sobre o passado, leitor. Pouco ponderei minhas tomadas de decisões, não controlava os pensamentos involuntários sobre como proceder, havia somente duas opções: encobrir, e dessa forma alcançar a felicidade tão idealizada, ou o diagnosticar como louco e esgueirando-me como havia planejado há tempos. O que farias em meu lugar?
Eu permaneci ao seu lado, tornando a enxergar beleza em seus olhos e lábios, desprendida do medo e cativada como em nossa juventude. Acredito que esta história findará repleta de contrariedades e desagradará grande parte dos leitores, por este motivo relato minha experiência, para que saibam o quanto ainda me ressinto dos dias de horror experimentados outrora.
Mario conservava sua rotina ligada ao trabalho braçal, olhar as crianças e amar-me com ardor, porém, pela manhã, sorrateiramente partia em direção a casa desconhecida e a observava tristonho. Imaginei que o preço de ter uma vida feliz era aceitar este estranho passei matutino, no entanto, sentindo-me dona da coragem o confrontei, e meu confronto atraiu a família observada a qual esboçou dúvida sobre os protestos desenfreados próximos a sua residência.
Mário, sentiu necessidade de apaziguar apenas a preocupação da mulher recém-chegada, a penosa mulher de belos trajes e modos de uma verdadeira dama de elevada classe, causando em mim grande ressentimento. Em casa, a sós, meu esposo contornou a cozinha taciturno, quieto em busca de sossego, porém via-me no direito de ouvir a verdade e calcular por mim mesma os riscos de conhecer o preço da felicidade. Eu o confrontei, e a verdade pareceu-me dolorida e inverossímil, jamais compreenderei a eventualidade sucedida após o desencarnar do corpo de Mário meses atrás.
O homem ao lado vivia no íntimo de meu esposo, usava de seu corpo, articulava com sua voz e corria com seus pés, porém não era ele. O que ocorreu fora que após o desencarnar de Mário outra alma ocupara seu corpo de forma inesperada, a passagem não fora concluída e dessa forma o pobre homem, impossibilitado de retornar ao próprio corpo e aproveitar os carinhos de sua boa esposa e filhos privilegiados, obrigou-se a aceitar a nova vida, mantendo-se saudoso, dia após dias.
Após dialogarmos, decidimos aceitar sua nova chance, nossa nova chance, afinal, o descuido da morte presenteou a mim e minha família com o que jamais dispusemos, revogando nossa crença na bondade masculina e salvando minha filha da possibilidade de adentrar em um matrimônio como o meu, e passar adiante a desgraça das mulheres de nossa linhagem.
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Hereditário, Parte I — Gardênia, Capítulo II — Desilusão
Com o passar do tempo, — esse extraordinário deus, bem como o rio Lete que em suas límpidas e serenas águas…
MidjourneyAI
Com o passar do tempo, — esse extraordinário deus, bem como o rio Lete que em suas límpidas e serenas águas guarda todas as lembranças daqueles que saciam sua sede, também cicatriza todas as feridas e muito rapidamente lança várias lembranças para o abismo do esquecimento — Gardênia, aconselho de seu sábio e amoroso pai, colocou uma pedra sobre o assunto e seguiu com sua vida e logo se tornaria uma bela mulher, esbanjando charme e sensualidade, contudo por quase dez anos, ninguém nada soubera sobre qualquer tipo de relacionamento dela com quem quer que fosse. Quando alguém um pouco mais corajoso ou apenas mais um desavisado, se aproximava dela um pouco mais romanesco e demonstrando segundas intenções, ela logo o repelia. Entre o populacho — essa raia miúda que não tem muitas ocupações — surgiu inclusive alguns bochichos sobre o verdadeiro interesse de tão bela jovem, pois essa por sua vez, sempre preferia a companhia de outras mulheres, principalmente mulheres separadas, viúvas ou jovens solteiras como ela mesma o era.
Além de Gardênia trazer consigo a desconfiança sobre a verdadeira causa da morte do Coronel Guilhermino, e temer que aquele tipo de mal se repetisse a outra pessoa e repelisse qualquer um que se aproximasse dela, a maioria dos então possíveis pretendentes da região — que já não eram muitos — temiam profundamente os boatos sobre o pai dela e se mantinham há uma distância segura. Assim, essa bela e prendada jovem, após sua primeira e dolorosa experiência que se demonstrou bastante traumática de todas as formas, só veio a conhecer o carinho de um homem no leito com mais de vinte e cinco anos, quando seu corpo quase retornara ao estágio virginal novamente.
Seu único e verdadeiro caso de amor, ou pelo menos aquilo que se pode se chamar de amor — sentimento recíproco entre dois seres que ocorre de forma espontânea e com consentimento mútuo — se deu nos braços do boiadeiro Emanoel Batista, que estava de passagem pela região acompanhando uma tropa de boiadeiros, — da qual ele mesmo fazia parte — tocando uma enorme boiada em sentido ao Pantanal mato-grossense. O encontro entre Emanoel e Gardênia se deu por um simples deslize do acaso, pois o boiadeiro estava acampado às margens do Rio das Almas, aguardando as águas baixarem um pouco, pois como havia chovido muito e de forma inesperada nos últimos dias, a correnteza estava letalmente violenta, tanto para os animais, bem como para os peões. Tentar atravessar o rio naquelas condições era um risco que o velho e sábio capataz não estava atinado a correr. Sua ordem ao chegar às margens do rio havia sido direta e inquestionável:
— O acampamento deve ser armado às margens do rio e assim que as águas baixarem um pouco e a violência da correnteza se amainar, poderemos atravessar em segurança sem nenhum tipo de prejuízo ou lamentação posterior.
Depois de três dias acampados às margens daquele caudaloso rio, aguardando por uma travessia segura, como a chuva teimava em cair cada vez mais forte — houve um tempo que nessas ermas regiões era comum chover semanas inteiras sem a presença do sol nem por um momento se quer. Emanoel — conhecido entre seus companheiros como Mané Faísca, devido a sua fogosa personalidade e intrépida rapidez sobre o lombo de uma animal — como era uma dessas criaturas de espírito inquieto, que não conseguem ficar ociosas por muito tempo, decidiu dar algum tipo de ocupação a si mesmo, enquanto a natureza seguia vagarosamente seu eterno e incansável fluxo. Se por um lado a maioria dos boiadeiros daquela tropa se mantinham sossegados debaixo de suas improvisadas barracas, protegidos da chuva e do frio, dormindo em suas redes na maioria do tempo ou envolvidos em jogatinas entre uma refeição e outra, Mané Faísca por sua vez, após selar sua mula e comunicar ao capataz, decidiu conhecer a região de forma mais íntima, fazendo uma cortês visita aos moradores da região. Esse simpático boiadeiro sempre deixava rastros de sincera amizade por onde passava, as vezes até algo mais do que uma simples amizade.
Na terceira casa onde bateu palmas, logo foi alegremente recebido pelo proprietário, acompanhado de seu filho mais velho — nas outras duas casas anteriores, como só havia mulheres e crianças presentes, não fora convidado a entrar, pois era comum nessas regiões não receber visitas se o dono da casa não estivesse presente. Até mesmo a estrutura da casa era planejada e construída prevendo uma situação assim, caso o assunto fosse urgente, o visitante aguardaria a chegada do proprietário num local específico do lado de fora da casa denominado alpendre, — uma espécie de varanda na frente da casa, onde o visitante pudesse aguardar o tempo que fosse necessário acolhido do sol e da chuva, fosse o caso de uma espera tardia. Nesse terceiro casebre onde ele se anunciou, como toda a família estava presente naquele dia em questão, inclusive recebendo outra visitante, logo ele também foi convidado a apear de sua montaria e entrar na casa para se proteger da chuva que, naquele momento, caia fina e bastante friorenta, acompanhada de um vento calmo mais constante.
O dono da casa, seu Antônio Fidelis, um homem de aparência bastante peculiar, estava trajado com suas vestes domingueiras, pois justamente além de ser dia do domingo, coincidentemente havia outra visita em casa. Nhô Tunico, como era verdadeiramente conhecido por todos na região, era um homem roliço, já pelos cinquenta anos, — talvez até um pouco mais –, acompanhando seu físico avantajado, o rosto era rechonchudo e liso, reluzindo a sabonete barato, utilizado para retirar a barba. Tinha os olhos castanhos e umedecidos, como se estivesse prestes a chorar a qualquer momento, esses mesmos olhos eram caídos e distantes como se quisesse enxergar ao longe, talvez buscando longínquas lembranças de um tempo bastante ido. Esse gentil senhor, mesmo sendo um homem simples, mas bastante hospitaleiro, logo decidiu dar guarida ao recém-chegado, convidando-o a entrar em sua humilde casa, lhe oferecendo logo em seguida uma xícara de café bem quente que, de imediato, foi aceito pelo boiadeiro com gratidão e afetuosidade.
Emanoel ao adentrar na sala de Nhô Tunico se deparou com quase toda a família ali reunida. Demonstrando gentileza e polidez, correu a vista por todo o recinto, cumprimentando a todos de forma unanime independentemente da idade de cada um. Contudo, logo seus olhos matreiros de bom caçador, se depararam com a bela silhueta de Gardênia, que naquele exato momento, também adentrava na sala por outra porta, proporcionalmente oposta a que ele estava adentrando ao recinto. Como se fosse por objeto de magia do próprio destino, os olhares dos dois se cruzaram, entre tantos outros, e mesmo antes de serem apresentados, um ao outro, parece que já se conheciam intimamente de outros tempos idos. Algo inverossímil e extraordinário sucedeu a ambos ao mesmo tempo, pois de forma rápida e bastante tímida, na troca daqueles poucos e discretos olhares, parece que mil juras de amor foram proferidas um ao outro de forma cúmplice e verdadeira.
Nhô Tunico, como homem polido e bom anfitrião que sempre fora, após apresentar sua família ao forasteiro, logo lhe ofereceu uma toalha limpa, para que o visitante pudesse se secar. Também fora lhe oferecido uma confortável cadeira para que se acomodasse o melhor possível. Rapidamente, uma das filhas da casa trouxera-lhe uma fumegante xícara de café, com um cheiro bastante atrativo, e ao experimentar um gole, logo o boiadeiro pôde comprovar que o sabor fazia jus ao aroma.
Emanoel agradeceu polidamente a gentileza, mas sem muito entusiasmo, pois a mulher que lhe servira o café já não era tão jovem e muito menos dotada de algum tipo de simpatia. Tinha ela um aspecto taciturno e bastante carrancudo, — semblante este comum a pessoas frustradas e infelizes. Tratava-se da filha mais velha da casa, — ou pelo menos assim se fez parecer. Foi apresentada a ele como Maria Lisandra, mas também foi lhe oferecido a intimidade de ser tratada pelo seu apelido mais conhecido — Liana. Era uma mulher na altura de seus trinta e cinco anos, — talvez, quem sabe, até um pouco mais. Logo de primeira vista era possível perceber que era uma solteirona sem as mínimas pretensões ao matrimônio. Os motivos eram muito aparentes, mas o principal e mais notório talvez fosse o conformismo latente em sua face que, além de muito sombria, também era bastante queimada pelo sol. Seus cabelos eram curtos e lisos de uma cor amarelada como palha seca, suas mãos eram grandes e grosseiras ao extremo, como couro curtido, com dedos compridos e cheio de nódulos que se encerravam em unhas amarelecidas pelo uso contínuo do tabaco. Não havia o mínimo traço de sorriso em seus lábios secos e rachados. No geral, seus traços se resumiam numa masculinidade velada, talvez pelo árduo trabalho no campo que ela desempenhava tão bem como se fosse um homem rude, — dependendo do homem, até um pouco melhor. Ao fim não era bonita de fato. Por outro lado, sua feiura estava longe de assustar alguém, mas era o suficiente para afastar qualquer pretendente da região, ou de qualquer outro lugar que fosse. Pelo seu olhar duro e sombrio, demonstrava clara resiliência quanto ao seu destino, certo e imutável, de eterna beata, ao qual ela caminhava a passos largos e contínuos.
Após saborear seu café, Emanoel acendeu seu cigarro de palha e deu boas baforadas. Pois, como a maioria dos presentes na sala também já o tinha feito, sendo assim, não seria falta de educação alguma empestear o recinto com mais um pouco de fumaça. Aquela mesma sala se tratava de uma local amplo e bastante arejado com várias janelas, num total de quatro ao todo. Duas delas estavam fechadas devido ao vento e a chuva que não dava mostras de estiar tão logo, mas as outras três, que davam para uma varanda lateral, estavam abertas e ventilavam satisfatoriamente o ambiente. O piso era assoalhado, mas não tão bem cuidado como necessário, contudo, pelo menos estava limpo. Além de uma enorme mesa de madeira com umas doze cadeiras, tinha, também, dois sofás de couro oleado e duas outras cadeiras de balanço. Num dos cantos da sala, havia um guarda louça com diversas quinquilharias, dividindo espaço com poeira e uma ou outra teia de aranha pendurada aqui ou acolá. Entretanto, o que mais chamava a atenção no ambiente era um belíssimo oratório no canto oposto ao da porta lateral da sala, que ficava justamente na direção da nascente. No centro desse oratório havia um majestoso crucifixo de madeira, posicionado de forma estratégica, proporcionando o ato de que Jesus Cristo pudesse receber todas as manhãs o nascer do sol em seus braços abertos. Aos pés desse crucifixo brilhava bruxuleante uma tímida vela caseira que exalava um agradável perfume de canela ou almíscar talvez.
Nesta sala além de Nhô Tunico, — o dono da casa, obviamente —, também estavam presentes; Liana e os demais filhos do proprietário. O mais velho lhe foi apresentado pelo nome de Antonio Lisandro — nome que ele simplesmente odiava — dando preferência por ser tratado apenas como Naldo ou Mestre Naldo — como seus alunos o chamavam. Era uma criatura de aspecto um tanto quanto peculiar. Completamente o oposto ao de Liana, sua irmã. Trazia em si movimentos sensíveis demais para um homem do campo que eram corroborados pela sua sutil aparência. Tinha os cabelos sedosos e cacheados, levemente crescidos tampando sua nuca. Muito bem cuidados, tal qual os de uma donzela casamenteira. Seus olhos eram brilhantes e carregados de certa malícia, sua pele clara e macia demonstrava completa repugnância a exposição ao sol, fato esse confirmado por suas mãos finas e delicadas, que denotavam à primeira vista nunca terem tocado uma ferramenta grosseira. Seus dedos eram finos e alongados com unhas limpas e bem cuidadas. Por fim, tinha um sorriso fácil e solto que sempre deixava à mostra, dentes brancos como marfim. Muito diferente de sua irmã Liana, que além de cumprimentar Emanoel com muita má vontade, nada mais lhe dissera, ignorando-o por completo. Naldo, por sua vez, se demonstrava falante e muito curioso quanto a tudo que o visitante dizia. Talvez porque fizesse parte de sua profissão — ouvir e falar — que era de mestre-sala de pequenos jovens da região, — a maioria filhos de fazendeiros prósperos, que o contratavam para lhes ensinar a ler e a escrever, além de lhes apresentar o místico mundo da matemática com seus números e as complicadas operações aritméticas. Para quem, porventura se interessasse, Mestre Naldo também ensinava música, além do canto, o fino trato com os instrumentos de corda, como o violão, a viola e o bandolim, não somente a simplesmente tocar os instrumentos, bem como, delicadamente a afiná-los. Além das aulas práticas ele fazia questão de ensinar todas as questões que envolviam a teoria musical.
O boiadeiro acostumado a lidar com companheiros rústicos, à primeira vista, — com seu jeito um tanto quanto matuto e até mesmo ignorante perante a certas novidades –, tinha sido preconceituoso e até mesmo leviano para com a sensível aparência do rapaz, logo repreendeu seus pensamentos e se autocensurou , convencendo a si mesmo que talvez aquela estranha aparência delicada de Naldo — que estava sendo tão educado a atencioso para com ele — era devido a sua intimidade para com as crianças, que se sentiam mais à vontade próximo a alguém com uma aparência menos grotesca. Emanoel também logo entendeu que, devido as circunstâncias, estava comparando Naldo com sua irmã Liana e aquela referência pode claramente ter exercido uma errônea influência em seu crítico e precoce julgamento. Próximo a Liana qualquer um — mesmo um rude lenhador — poderia muito facilmente ser confundido com uma donzela.
Naldo era um tipo de pessoa de diálogo fácil a agradável, pois falava corretamente e tinha um vocabulário bastante rico, até mesmo com palavras estranhas ao uso comum no cotidiano de uma pessoa simples. Era um sujeito muito querido por todos que o conheciam. Num raio de muitos quilômetros era um dos raríssimos letrados daquela erma região. Quando se fazia necessário, era ele quem redigia cartas a quem precisasse enviar uma mensagem a quem estivesse distante, e depois era ele também quem lia alguma epístola recebida. Como era bastante requisitado na questão que abrangia o universo das letras, além de saber muito sobre a vida de quem sempre o procurava, para um documento qualquer ou um simples escrito também era muito respeitado por sua sabedoria e polida discrição, naquilo que tangia aos assuntos alheios.
Para completar o grupo ali presente naquele ambiente, além de Gardênia que também estava como visitante, bem como ele mesmo — apesar de que Gardênia era uma visita mais íntima, pois era confidente de Naldo, seu antigo professor e conselheiro. Também era muito amiga da filha do meio de Nhô Tunico, Lisandra Maria. Havia também na sala o jovem Daniel, um belo rapaz, e mais três outras crianças menores, brincando num canto mais afastado, com alguma coisa bastante divertida, pois estavam bem entretidos e riam quase o tempo todo. Emanoel, vez por outra, também ouvia bulhas de uma criança de colo em outro cômodo, nos fundos da casa, talvez fosse o caçula da família. Lisa e Daniel pareciam ter mais ou menos a mesma idade com diferença de no máximo dois anos talvez, sendo Lisa mais velha. Contudo, Emanoel ficou pasmo quando soube do curioso fato de que Liana e Naldo eram gêmeos, algo surpreendente e complicado de acreditar, pois ambos eram completamente antagônicos entre si, e não somente na aparência física, havia ainda a questão temporal. Liana parecia ser pelos menos uns dez anos mais velha do que Naldo.
Após ter tomado mais um gole de café — que lhe fora novamente oferecido — e de mais algumas baforadas com seu palheiro já ambientado com o lugar e tomado certa intimidade tanto com a casa bem como com seus habitantes, Emanoel iniciou uma agradável prosa com o dono da casa e todos ali presentes, fato esse que muito agradou Nhô Tunico que se mostrou bastante interessado na conversa do boiadeiro. A vida de peão estradeiro é sempre cheia de histórias e muitas aventuras, algumas até verdadeiras, outras nem tanto. Contudo, nem mesmo por isso, deixam de ser interessantes e curiosas. Dentre os presentes ali naquela sala, o mais interessado nessas estórias de estrada era o jovem Daniel, — que logo se soube –, tinha apenas dezenove anos, e sonhava mais que tudo nessa vida, deixar a casa paterna e conhecer o mundo e poder desfrutar de tudo que essa vida pudesse lhe oferecer. Desde que nascera nunca havia colocado os pés para fora de casa e se alguma vez assim o fizera, fora em companhia dos pais pelas cercanias, nunca além dos limites da região onde vivia desde sempre. O que conhecia sobre o mundo era através do que Naldo lhe falava pelos livros — e de uma ou outra viagem que este fizera até a capital — ou pelas estórias de um ou outro viajante que muito raramente fazia parada por sua casa. Por muitas noites ficava até tarde acordado olhando, pela janela de seu quarto, o longínquo horizonte, sempre devaneando que a qualquer momento se lançaria pelo mundo e que, por sua vez, seria ele quem contaria as histórias de terras distantes quando retornasse a casa paterna.
Daniel era um jovem muito sonhador que sempre vivia suspirando ais de tristeza ao observar um pôr do sol ou ao contemplar um céu estrelado, pensando na grandiosidade do mundo que se perdia de vista no horizonte, enquanto ele estava preso ali naquela humilde casa desde que nascera. Primeiro de baixo da proteção de sua mãe, quando ainda criança sempre agarrado a barra de sua saia e agora, já quase um homem adulto, ainda não conseguiu se desvencilhar da sombra do chapéu de seu pai. Esse, até então, frustrado jovem, era meio termo dos dois irmãos mais velhos. Mais alto e mais forte do que Naldo, contudo bem menos grosseiro do que Liana. Tinha os olhos de expressão tristonha e distante que demonstrava ansiedade e muita sede de aventuras. No rosto ainda juvenil, já trazia os traços de um homem adulto, pois um fino bigode ainda tímido estava sendo cultivado com muito esmero. Suas mãos eram fortes e demonstravam uma ânsia incontrolável de tomar as rédeas de seu próprio destino e logo se enveredar pelas estradas da vida. Por mais duras e grosseiras que suas mãos pudessem parecer, quando Naldo trouxe o violão de seu quarto e a ele o entregou, rogando-lhe que alegrasse ainda mais a casa com algumas canções, de imediato pôde ser percebido que havia inconteste suavidade no contato de seus dedos com as delicadas cordas daquele instrumento. Lisa rapidamente sentou-se ao seu lado e enquanto ele tocava com bastante maestria, ela o acompanhava com uma voz bastante melodiosa, num tom quase angelical, demonstrando perfeita sintonia entre ambos.
A chuva continuava de forma insistente, mesmo sendo apenas um leve chuvisqueiro, mas bastante frio e como a conversa e agora também a cantoria estava bastante agradável, o tempo foi passando depressa e o visitante estava cada vez mais à vontade e ainda mais ficou, quando lhe ofereceram o violão, e lhe perguntaram se porventura ele sabia tocar. Emanoel com muito jeito, se apropriou do instrumento e disse:
— Um boiadeiro que se preze tem que saber lidar com o gado e ter certa intimidade com um violão para alegrar as noites frias e vazias longe de casa.
De posse do violão, logo Emanoel demonstrou que sabia muito bem como se deve tratar um instrumento como aquele. Das pontas de seus dedos, doridos acordes foram tirados daquelas sonoras cordas, e como sua voz era um pouco grave, as canções foram muitos bem recebidas. Quando, muito rapidamente ele olhava para Gardênia, algo dentro de si lhe dizia que aquelas melodiosas canções estavam tocando no fundo do coração daquela bela mulher, teve até mesmo a sensação de tê-la visto suspirar uma vez ou outra. Emanoel sabia melhor do que ninguém que a música acalma e agrada até mesmo a mais rude das criaturas e, quando a canção é dedicada a alguém de alma doce e transparente, o resultado se torna algo ainda bem mais satisfatório.
Após várias estórias e inúmeras canções, logo aquele boiadeiro entendeu que deveria ser tempo de se despedir e seguir seu caminho. Mas quando, ousou demonstrar suas intenções, logo foi convencido do contrário, quase que por unanimidade a ficar um pouco mais e aguardar pelo almoço, — que já estava na verdade para ser servido, a qualquer momento. Emanoel um pouco sem jeito por tanta hospitalidade que lhe era despendida, até que tentou, com certa relutância, recusar o convite, mas para surpresa de todos, foi a bela Gardênia que, quebrando a timidez e o recato de uma mulher solteira, o convenceu a ficar, dizendo a ele com uma voz quase suplicante e toda cheia de charme.
— Ainda chove lá fora e como a prosa está muito agradável, não vejo motivos que o impeça de nos privilegiar um pouco mais com sua companhia e ficar para o almoço. Se o senhor nos agraciar com sua presença à mesa, além de ter a chance de experimentar o humilde tempero da casa, poderá provar também dos deliciosos licores que Tia Jandira prepara com frutos colhidos por ela mesma. Posso lhe garantir que não se arrependerá por ter esperado um pouco mais.
Com essas convincentes palavras que a bela Gardênia tão docemente lhe dirigiu, quase que, na verdade lhe convocando para o almoço, temendo ele fazer uma grosseira ofensa ao dono da casa, logo se viu na iminência de aceitar o convite, até porque, também já estava farto da repetida refeição de seu acampamento que, seguindo uma regra básica de comida de estrada, era quase sempre o mesmo cardápio. Feito com muito asseio, mas tudo junto e misturado — até porque a estrada não permite certos luxos. Assim que foi anunciado que ele ficaria para o almoço, logo foi aberta uma garrafa de licor de jenipapo que foi recebida por todos com bastante regozijo, até mesmo pelas crianças que, devido ao frio, foram também autorizadas a tomarem um pequeno trago cada uma. Quando Gardênia, dizendo-lhe que a espera seria bem recompensada, insistiu para que ele ficasse, de forma alguma ela faltou com a verdade. Realmente, o almoço valeu a pena a espera, pois estava divinamente apetitoso e bastante sortido.
Emanoel soube depois que aquele fantástico repasto, fora preparado por Jandira, uma espécie de serviçal da casa que a bem da verdade era uma prima em segundo grau da esposa de Nhô Tunico. Tia Jandira — como todos a chamavam — era uma mulher de pele escura e corpo avantajado e aspecto forte, mas com uma aparência agradavelmente bonacheira. Mesmo trazendo consigo uma grotesca corcunda e uma das pernas quase esquecida, tornando o seu caminhar uma atividade bastante estranha e ruidosa, não tinha uma aparência que pudesse causar espanto, pois tinha sempre um sincero sorriso na face de bochechas salientes e nariz adunco. Seus proeminentes lábios cobriam uma dentição perfeita de dentes brancos e fortes. Por fim, Tia Jandira era discreta ao extremo, até porque nunca fora escrava de suas palavras, mas sempre senhora de seu silêncio, desde sempre vivera sua singela vida no mais absoluto mutismo, sem nunca pronunciar qualquer tipo de tagarelice desnecessária, mas utilizando-se dos verbos somente em necessidade extrema. Tia Jandira, em troca da proteção e do abrigo que lhe era oferecido desde sempre, retribuía tão nobre gentileza se fazendo de serviçal doméstica, assumindo para si praticamente todo o serviço da casa. Ainda que, fazendo sempre de tudo um pouco, tudo o que fazia era executado com esmerada maestria. Sendo assim, o almoço daquele dia em questão, não o fora diferente — estava divino.
O cardápio era simples, mas bastante caprichado no tempero. Arroz branco — soltinho e bem cozido —, feijão refogado na banha de porco com bastante alho, mandioca cozida, banana frita, couve refogada, salada de rúcula com tomates e o prato principal: frango ao molho de açafrão com pimenta e cheiro verde. Aquela comida tipicamente caseira, com todas as suas peculiaridades, muito agradou ao paladar do boiadeiro. Uma vez tendo perdido a timidez, não se fez de rogado e repetiu o prato sem nenhuma cerimônia. De certo modo, houve uma ponta de arrependimento, por parte do visitante, em ter exagerado no almoço em si, pois assim que findou aquela refeição principal, logo em seguida foi servida uma farta sobremesa com vários tipos de doces e licores de fabricação caseira. Juntamente com a sobremesa foi disposto sobre a mesa outro fumegante bule de café recém-preparado e um belo queijo fresco.
Não apenas a comida em si, mas os doces e, também, as bebidas eram fruto do trabalho de Tia Jandira. Segundo Naldo, — que logo deixou explicito que naquela casa era quem mais a respeitava — Tia Jandira não sabia o significado da palavra preguiça, por isso, tudo era preparado por ela com alegria e muito boa vontade, sobretudo os licores, que ela preparava a base de cachaça artesanal — que ela mesma produzia — e frutos colhidos no faustoso pomar do quintal. Daniel, de uma forma jocosa relatou que, Tia Jandira enquanto preparava os licores experimentava um e outro, testando o teor de cachaça e vez por outra se animando além da conta. Qualquer um que não a conhecesse pessoalmente poderia jurar que a qualquer momento ela iria começar a cantarolar uma bela canção. Contudo aquela servil e humilde criatura levava sua vida de forma simples e desinteressada, relegando sua existência num completo e resiliente silêncio.
É costume — independente de qualquer coisa ou qualquer dia que seja — em qualquer residência de fazenda interiorana que se preze que o almoço seja servido logo bem cedo. E naquele dia não foi diferente, e antes mesmo das onze horas o barulho de talheres no fundo dos pratos se fez ouvir.
Ao meio-dia a prosa ainda continuava muito alegre e mais algumas canções foram ouvidas, mas mesmo entre música, estórias e um gole e outro de licor, assim que a chuva deu uma pequena trégua, Emanoel logo percebeu a oportunidade de não abusar da hospitalidade alheia e decidiu que era hora de partir. Aquele destemido e aventureiro boiadeiro, depois de ser agraciado com uma manhã tão agradável na companhia de tão amáveis e prestativas pessoas — fora lhe oferecido um belo queijo e uma garrafa de licor de Jenipapo como prenda em agradecimento pela visita — nem imaginava por alto que fosse que o destino estava traçando o trágico início do final de sua jornada por essa estrada, que todos chamam de vida. Emanoel estava se encaminhando de forma totalmente involuntária para a última curva de sua estrada.
Ainda que, naquele momento, a chuva tivesse dado uma trégua, o céu ainda se mantinha carregado com nuvens pesadas e escuras, dando a entender que a qualquer momento poderia chover forte novamente. Após despedir-se de todos os presentes com galhardia e polidez, Emanoel dirigiu-se ao local onde sua mula pastava sossegadamente. Caminhando tranquilamente e com os pensamentos em completa abstração, ele, que naquele momento, tinha o rosto afogueado pelo efeito dos vários cálices de licores saboreados com avidez exagerada, nem se deu conta de que alguém lhe dirigia a palavra timidamente às suas costas, seguindo-o timidamente. Quando percebeu que estava sendo solicitado, virou-se para responder ao chamado e logo se deparou com Gardênia — que durante quase toda a manhã não havia tirado os olhos dele, fato que o havia deixado muito animado — e que, ao perceber que havia conseguido sua atenção, perguntou-lhe de forma bastante meiga, quase suplicante:
— Será que haverá algum incômodo se eu o acompanhar pela estrada, uma vez que o caminho que seguiremos será o mesmo até certo ponto?
Para qualquer mulher solteira, um ato como aquele poderia se caracterizar como um escândalo, especialmente considerando a época e aquele ermo local. Contudo, no caso de Gardênia, não havia perigo algum; e se porventura houvesse, com plena certeza, esse perigo jamais seria para ela. Emanoel, por sua vez, ficou muito satisfeito com a companhia em si. De certo modo, ficou até surpreso com a forma como tudo se encaminhava. De forma muito cavalheiresca, ofereceu a garupa de sua mula a ela. Gardênia, no entanto, devido à sua conduta moral e irrepreensivelmente ilibada, agradeceu a gentileza, mas negou veementemente montar em sua mula junto a ele, e seguiu a pé ao seu lado.
Caminhando então juntos, ambos estavam a pé, pois ele, de forma solidária, também apeou de sua montaria e foi andando ao lado dela, arrastando sua mula atrás de si — fato esse que trouxe certo regozijo àquele imberbe muar, que de forma alguma quisera protestar. Foram caminhando próximos um ao outro e conversando animadamente sobre diversos assuntos da vida, como se já se conhecessem desde sempre. Toda a inibição que pudesse ter existido entre eles se desfez por completo nos vapores dos licores, consumidos por ambos, evidentemente que por parte dela de forma mais comedida, mas, mesmo assim — para alguém que não tinha o mais leve costume de consumir bebidas alcoólicas — ela estava com o corpo quente, sentindo o caminhar mais leve e os gestos mais soltos. Seu sorriso se desprendia com maior facilidade a cada gracejo dele. O assunto entre eles não tinha um tema específico; na verdade, era aberto e diversificado. Contudo, nenhum dos dois se atrevia a falar sobre si mesmos, mantendo uma aura de mistério sobre suas intimidades. Se por um lado, um não perguntava nada a respeito, o outro, por sua vez, não respondia tampouco.
Quando já estavam mais ou menos na metade do trajeto, onde cada um deveria seguir o seu caminho em direções diferentes, a chuva voltou a cair forte novamente, contudo, dessa vez, com fortes rajadas de vento e estrondosos trovões que balançavam o firmamento. Rapidamente o céu se cobriu de um negrume tenebroso, tornando o dia claro de, talvez, no máximo, umas duas horas da tarde ainda, em quase noite fechada. Logo, os dois caminhantes se viram obrigados a procurarem um abrigo. Por sorte, numa encruzilhada próxima, logo avistaram uma pequena capela de há muito tempo abandonada, mas ainda muito bem conservada pelo tempo. Há um velho ditado que diz: “…quando o morador abandona seu lar, logo a construção se desfaz. Contudo, em se tratando de uma construção sagrada, seu verdadeiro residente jamais se muda.”
Essa pitoresca construção ficava às margens da estrada e parecia ser um local bastante promissor para se abrigar de todo aquele aguaceiro que estava sendo despejado pelo céu e não dava mostras de se encerrar tão logo. Dentro da capela estava frio e muito escuro, entretanto estava seco e acolhedor. Com certa relutância, logo Emanoel conseguiu fazer uma fogueira com alguns pedaços de madeira que havia dentro da capela. Além de servir como lume, aquela pequena e improvisada fogueira serviria também para aquecer a bela jovem que tiritava de frio, pois estava ela completamente encharcada com a água da chuva. Suas roupas pingavam de tão molhadas, suas mãos estavam trêmulas, talvez de frio, ou quem sabe até mesmo por nervosismo, por se encontrar presa ali naquela capela, mais uma vez sozinha na presença de um homem.
Gardênia, naquele dia, trajava um belo vestido de algodão cru de tecido leve na cor bege claro, com delicados florais bordados à mão. Como estava molhado ao extremo, o tecido lhe colara ao corpo, deixando quase à mostra uma pele firme e macia. Devido ao frio, seus mamilos, ainda quase virginais, estavam acesos e deixavam uma sedutora protuberância no tecido molhado. Emanoel viu tudo aquilo com uma ardente volúpia que lhe queimava profundamente suas entranhas. Todavia, seu recato de homem sério e seu senso cavalheiresco lhe impediam de tirar alguma vantagem de uma donzela em que lhe confiara sua inocência, quando decidira acompanhá-lo por parte do caminho que ambos deveriam seguir na mesma direção.
A capela onde os dois estavam abrigados não era muito grande e, como a fogueira acesa ainda estava entre ambos, os dois se viram obrigados a ficarem muito próximos um ao outro. Emanoel, que sempre fora muito gentil e prestativo, ofereceu à Gardênia sua camisa que, estando por baixo de uma jaqueta de couro que ele trajava, havia se mantido seca, mesmo com toda a chuva que tiveram que enfrentar até conseguirem entrar ali naquela capela. Gardênia, por sua vez, obviamente tentou recusar a oferta, mas se viu obrigada a aceitar, por temer estar ofendendo tão nobre gesto de delicadeza e, logicamente, por estar realmente com bastante frio. Desde o primeiro momento que seus olhos se depararam com o corpo másculo do boiadeiro que adentrava a casa de Nhô Tunico naquele início de manhã, um estranho sentimento tomou conta de todo o seu ser. Um estranho arrepio correu-lhe por toda a sua espinha e um frio apoderou-se de seu ventre a ponto de ela pedir para que Daniel lhe servisse um gole de licor, para aquecer-se do frio.
O jovem e prestativo Daniel tinha-lhe muito apreço, pois havia uma grande amizade entre eles, e foi justamente devido a essa bela amizade que ele de forma muito cortês lhe servira uma satisfatória dose daquela perfumada e adocicada bebida. O licor, saído de uma garrafa recém-aberta, estava com o teor alcoólico bastante concentrado e quando Gardênia tomou aquela dose de um único gole, o efeito em sua garganta foi de imediato, aquecendo-a por completo, entretanto de nada adiantou contra as estranhas palpitações que estava sentindo naquele momento. Uma vez a cada mês, nas vésperas de suas regras, Gardênia sentia essas mesmas sensações estranhas, contudo logo eram controladas por um banho frio e um chá de camomila, mas agora, ali naquela capela, ela estava sentindo a mesma coisa. Sentia frio devido a estar bastante molhada, mas também sentia calor devido ao efeito dos licores consumidos de há pouco.
Sua cabeça estava zonza e de certa forma parecia que ela havia perdido o controle de suas emoções. Aquelas sensações, que lhe tiravam o sono vez por outra, estavam se tornando cada vez mais fortes ali naquele local e ficaram quase incontroláveis quando Emanoel despiu sua camisa e ficou com parte de seu corpo nu. Naquele momento, Gardênia que já sentia sua cabeça pesada, perdeu por completo o controle de suas atitudes e quando se levantou meio trôpega para receber a camisa que ele lhe entregava tão solicitamente, sentiu falharem as suas pernas. Emanoel ao perceber que ela poderia cair sobre a fogueira que estava imediatamente entre ambos, logo se lançou em seu socorro. Contudo, ao tentar ampará-la, o fez de forma muito desajeitada, pois foi surpreendido por não esperar por aquele incidente e, ao tentar segurá-la, involuntariamente uma de suas mãos se deparou com um seio rijo que se encaixou perfeitamente entre sua mão em forma de concha naquele momento. Gardênia, estando totalmente zonza e desequilibrada, caiu em seus braços.
No mesmo instante que ele, por um momento, chegou a imaginar que seria grosseiramente censurado por ela, Gardênia quase desfalecida em seus braços, languidamente ofereceu-lhe seus lábios e os dois se perderam completamente em um longo e ardente beijo. Ainda que, mesmo molhados e arrepiados devido ao frio, logo seus corpos se acenderam de tal maneira, como se a chama que emanava de dentro deles fosse proveniente das profundezas do próprio Tártaro.
Gardênia, a bem da verdade, nunca havia estado realmente nos braços de um homem, pois sua primeira e traumática experiência não passou de um ato de brutal selvageria, ela jamais havia sentido o verdadeiro calor de um corpo nu sobre o seu muito menos a volúpia de estar enlaçada a outro corpo por vontade própria. Por outro lado, Emanoel, mesmo sendo ainda bastante jovem, havia sido iniciado nas práticas do amor, nos braços de experimentadas matronas, pelos incontáveis prostíbulos que havia frequentando até então, pelas inúmeras cidades que, vez por outra, sua tropa acampava. Quando ele era ainda muito jovem, mas bastante vigoroso e ainda possuidor de poucas posses, sempre lhe sobravam as matronas já desprovidas de beleza e qualquer encanto aparente, muitas delas já em fins de carreira, que nem sempre lhe cobravam por seus préstimos, todavia o amavam com todo o fervor de suas lascivas almas, saboreando o frescor juvenil que emanava de seu corpo ainda em formação, mas, em troca, dando-lhe prazer gratuito e o ensinando os segredos mais íntimos da sedução.
Por ser conhecedor dos caminhos que levam ao prazer no leito, Emanoel assumiu logo o controle da situação. Gardênia totalmente entregue e sem controle algum sobre si mesma, se deixou conduzir sem relutância alguma, como se ela mesma desejasse aquilo mais que tudo na vida. A mesma camisa que deveria ter sido usada por ela para lhe proteger do frio foi jogada no chão daquela velha capela abandonada. Estando os dois já completamente nus, como chegaram ao mundo, logo o amor aconteceu. No início, Gardênia sentiu uma dor desconfortável, que logo cedeu lugar a algo que ela nunca sentira antes. O prazer por ela sentido era tão grande que, por breve momento, aquela penumbrosa e friorenta capela se iluminou por completo, como uma bela manhã de primavera. O deleite que ela estava sentindo era de tal forma inexplicável, ao ponto dela se esquecer de onde estava e até mesmo de quem ela era. Num pequeno lapso temporal teve um breve deslumbre do que poderia vir a ser o paraíso e de todas as delícias que ali, porventura, poderiam existir.
Emanoel após chegar ao êxtase, por um breve momento sentiu todo o seu corpo esmorecer e deitou-se ao lado de Gardênia sobre o piso frio e empoeirado daquela pequena capela. Ficaram ambos em silêncio por alguns minutos, ouvindo apenas o barulho da tempestade que caía de forma ainda bastante violenta pelo lado de fora, com estrondosos e retumbantes trovoadas que davam mostras que o firmamento desabaria sobre a terra a qualquer momento. Vez por outra o clarão dos relâmpagos iluminava a capela pelas frestas que havia, tanto nas paredes, bem como pelo telhado entre um lugar e outro. Quando aquele silêncio entre ambos já o estava incomodando, ele reuniu coragem para dizer algo, percebeu que Gardênia se deitava sobre ele e mais uma vez se encaixou em seu corpo. Sobre a luz bruxuleante da fogueira que já estava se extinguindo, pôde contemplar o belo corpo dela sobre ele, logo seu membro acordou para uma vez mais cumprir sua obrigação. Dessa vez foi Gardênia quem tomou o controle da situação, pois para o amor não há necessidade de experiência alguma, quando acontece de forma permissiva por ambos, a natureza age sozinha. E ela com delicados e sensuais movimentos cavalgando sobre ele, logo chegou ao êxtase novamente, dando lancinantes gemidos, e puxando seus cabelos num completo estupor de incontrolável prazer, assim o fez gozar novamente.
Emanoel, completamente saciado de prazer, se deu por satisfeito de tal forma que chegou a imaginar que, se sua vida terminasse ali, naquele momento, tranquilamente sem nenhum pesar na consciência se entregaria nos braços do anjo da morte. Mal sabia ele que aquilo aconteceria tragicamente muito em breve. Assim que se refizeram daquela deliciosa viagem ao mundo das delícias infinitas, logo se vestiram com suas devidas roupas e, quando intentaram iniciar um diálogo, perceberam que a chuva estava diminuindo e em poucos minutos cessou por completo, ao saírem do interior da capela puderam visualizar que o céu estava limpando e dava mostras que o tempo ficaria limpo pelo resto da tarde. Gardênia, após retomar o controle de todas as suas faculdades mentais e tomar conta de si mesma outra vez, se sentiu um pouco envergonhada com tudo aquilo, e um tanto quanto constrangida por ter se entregado daquela forma a um estranho e disse a Emanoel com uma voz que denotava certo arrependimento.
— Já está ficando tarde e meu pai certamente deve estar preocupado comigo, devemos retornar logo.
Emanoel, por sua vez, não disse nada e, assim que se desfez dos resquícios da fogueira que ainda fumegava timidamente, temendo que, se deixasse qualquer sinal de fogo dentro da capela, poderia haver um incêndio consumindo aquele abandonado lugar sagrado. Concordou com ela com gestos tímidos e logo retornaram a caminhada.
Devido a quantidade de chuva derramada até aquele momento, a estrada, que, na verdade, era apenas um caminho boiadeiro, feito pelo incessante trotar de animais de carga de um lado para o outro, estava muito lamacenta e escorregadia, ao ponto de Emanoel, calçado com botas de montaria e estar caminhando a pé arrastando sua mula atrás de si, teve que por duas vezes se dependurar nas rédeas do animal para não cair na lama. Gardênia, mesmo com seu semblante meio encabulado, talvez até arrependido, sorria timidamente com o sofrimento do boiadeiro em tentar manter-se de pé, enquanto a estrada caprichosamente insistia em lhe derrubar. Durante todo o restante do trajeto, seguiram ambos no mais absoluto silêncio. Ela demonstrava notório arrependimento e uma vergonha profunda. Ele, no entanto, mesmo estando saciado, trazia consigo uma crise de consciência, afinal, ela parecia ser uma moça direita e só se entregou a ele daquela maneira num momento de fraqueza, de certo modo ele aproveitara de sua inocência. Emanoel como era um homem casado e com três filhos para sustentar, nada tinha a oferecer a ela, e estava incomodado imaginando o que poderia dizer a ela se, na hora de seguirem direções diferentes, ela porventura lhe questionasse alguma coisa.
Caminharam por mais de meia hora, e o discurso de despedidas já estava pronto. Contudo, todo seu esforço em imaginar belas palavras de adeus, após tão agradável tarde junto a ela foi inútil, pois a ensaiada oratória não pôde ser proferida. Numa encruzilhada do caminho um pouco a frente, mesmo ainda ao longe, a silhueta de alguém pode ser identificada. Era um homem negro de estatura alta, que Gardênia logo reconheceu como sendo seu pai que certamente estaria vindo atrás dela. Gardênia contando com a vantagem da distância que havia entre eles e seu pai e tendo a certeza de que, de forma alguma, poderia ser ouvida por ele, disse de forma deliberada:
— Peço-lhe que tenha cuidado com suas palavras boiadeiro, meu pai é um homem muito sábio e perspicaz, diferente de qualquer pessoa que você possa ter conhecido na vida, certamente seria muito perigoso para sua segurança se ele viesse a desconfiar do que aconteceu entre nós esta tarde.
Ao se aproximarem do local onde seu pai estava a esperando de pé encostado junto a cerca, Gardênia logo foi apresentando o forasteiro a seu pai e dizendo em seguida que aquele gentil senhor lhe oferecera companhia e proteção pela estrada, uma vez que, bem como ela mesma, ele também era convidado de Nhô Tunico para o almoço. Sendo o caminho de ambos o mesmo até aquele local, ela decidira que aceitaria sua respeitosa companhia, para não ter de caminhar sozinha pela estrada durante todo aquele temporal. Emanoel mais que depressa, tirou seu chapéu e cumprimentou o pai dela. Com muita simpatia e respeito, contudo Pai Tomaz apenas lhe acenou com um leve gesto de cabeça, sem ao menos tirar sua cartola em resposta à cortesia recebida — cartola essa, muito bem-feita por ele mesmo, Pai Tomaz era o chapeleiro da região. A grande maioria de homens e mulheres da região usavam chapéus produzidos por ele, para todos essa era sua profissão oficial. Além do cumprimento frio e desprovido de simpatia, Pai Tomaz lançou ao boiadeiro um estranho olhar, medindo o rapaz de baixo acima como se estivesse tentando se lembrar de onde o conhecia. Emanoel se arrepiou por completo. Sua mula, até então, sempre muito pacata, deu um violento refugo levantando um forte e desesperado esturro, como se estivesse vendo algo sutilmente pavoroso, tão sinistro que, talvez, nem mesmo pertencesse a esse mundo.
Emanoel, que possuía aquele animal desde que ela nascera, nunca tinha presenciado aquele tipo de comportamento por parte dela, pois uma criatura que desde sempre fora extremamente dócil, naquele momento, sem nenhum motivo aparente se mostrava bastante assustada. Com gestos de afagos e ternas palavras, Emanoel logo conseguiu acalmá-la. Contudo, ainda assim, ela se mostrava impaciente e bastante arredia. Seu desconforto naquele lugar era bastante evidente, pois demonstrava claramente suas intenções de sair logo dali. Emanoel, por sua vez, também não tinha intenções diferentes, havia algo de muito macabro no ar, — tal como sua mula que sempre fora dócil até então —, de alguma forma ele o podia sentir. Se sentindo muito desconfortável, sem muito mais delongas, quisera ele logo se despedir, sem dizer quaisquer outras palavras que não fosse um simples adeus. Porém, antes mesmo de montar em sua mula e partir logo dali, teve a desagradável e arrepiante oportunidade de ouvir a voz do pai de Gardênia. Era um som bastante sereno, mas cortante como uma navalha. Sua voz cavernosa ao extremo era carregada com uma entonação que demonstrava claramente muita sabedoria, pois suas palavras eram proferidas de forma pausada e com perfeita dicção:
— O senhor demonstra estar bastante apressado cavalheiro. Talvez fosse melhor agir com menos celeridade. Diz um velho provérbio que, “… aquele que tem muita pressa na vida, logo se apressa a encontrar a morte…”.
Emanoel, com o corpo todo arrepiado, recebeu aquelas palavras, ditas de uma forma calma e num tom bastante ameno, como uma velada ameaça e, mais assustado ainda, ficou, quando Pai Thomaz deu alguns passos em sua direção olhando dentro de seus olhos e disse-lhe, acariciando a face de sua mula, que naquele momento ficou completamente inerte como se tivesse sido hipnotizada pela mais astuta das serpentes.
— O senhor, pelo que pude presenciar, parece ter muita destreza no trato com uma montaria, tomara que, também assim o seja, com sua própria vida! Porque, tal qual esse animal, que sem mais nem menos, de repente ficou arredio e violento, assim também é a vida, que quando menos se espera, muda de uma hora para outra e pode te jogar no chão. E algumas quedas, meu intrépido e destemido jovem, são de tal forma violentas, que se tornam quase que impossível de se levantar novamente. Agora que estou te vendo mais de perto estou me recordando de sua aparência e de onde eu o conheço. O senhor é mais conhecido como Mané Faísca o famoso peão de rodeio. Espero que o senhor possa também se lembrar de minha humilde pessoa, mesmo que já tenha passado algum tempo desde que travamos conhecimento um com o outro.
O já então assustado boiadeiro, ficou ainda mais desconfortável ao ouvir essas palavras, pois, por mais que se esforçasse ao extremo, não estava conseguindo se lembrar de onde pudesse ter conhecido tão estranha e sinistra criatura. A elegância de Pai Thomaz se fez presente uma vez mais, e logo lhe logrou sua dúvida ao dizer-lhe:
— Há uns cinco anos, talvez até um pouco mais, um cunhando seu, — acredito eu — veio à minha procura em busca de alguma beberagem que aliviasse uma moléstia que estava acometendo um de seus filhos. Pelo que me lembro na época, sua esposa estava de resguardo de uma menina muito viçosa que havia nascido naquela mesma semana. Pelo que me foi dito, a criança em questão, havia sido picado por uma serpente venenosa e agonizava em febre há mais de três dias. Mas o efeito da peçonha da serpente já estava passando e apenas lhe dei uma beberagem simples e ele logo se restabeleceu. Na mesma época, o senhor também se recuperava de uma forte gripe que havia pegado numa de suas viagens de tropa, por isso, estava em sua casa.
Emanoel disse que se lembrava do episódio em que seu filho mais velho havia sido ofendido por uma cobra jararaca e que um benzedor havia orado por ele e lhe curado da moléstia. Contudo, não estava conseguindo reconhecê-lo como o autor de tão nobre gesto, mas que de qualquer forma lhe era bastante grato por tamanha gentileza. Pai Thomaz em sinal de enorme senso de sociabilidade questionou-lhe sobre sua família. Sobre a saúde de sua senhora e o desenvolvimento de seus filhos. Perguntou-lhe também como a criança que ele atendera havia se recuperado após sua despedida. Ouvindo Pai Thomaz citar sua família e desejoso de saber novidades sobre sua esposa e filhos, Emanoel olhou para Gardênia de forma muito desconcertada e com as faces em completo rubor como se tivesse perante a mais ardente chama e, meio sem jeito, respondeu:
— Graças a Deus estão todos em paz. Realmente o senhor não se enganou quanto ao tempo que decorreu esse episódio, pois no último mês de maio minha filha Amélia completou cinco anos, mas ainda fomos contemplados com outro menino, somando um total de três filhos ao todo, o filho mais velho que o senhor conheceu juntamente com a recém-nascida e o meu caçula, nascido a menos de um mês pouco antes de minha partida. Ainda não tive o privilégio de estar muito tempo com ele. Como o senhor bem o sabe a vida de um pai de família não é muito fácil.
Ouvindo aquele desagradável diálogo entre seu pai e o até então encantador boiadeiro que havia conseguido seduzi-la com seu charme e sua música, Gardênia lhe desferiu um último olhar de adeus. Contudo, já não era mais aquele olhar lânguido que o havia enfeitiçado desde o primeiro momento em que o vira, e sim um olhar que demonstrava um ódio terrível e um profundo arrependimento. Com um sorriso bastante amarelo ela se esforçou ao extremo, mas não conseguiu disfarçar um involuntário suspiro, baixando os olhos levemente lacrimejados, perguntou a ele com a voz um pouco embargada pela decepção em saber a verdade sobre a vida dele.
— O senhor, em momento algum durante o dia de hoje mencionou que era um pai de família com mulher e filhos para cuidar.
— Com todo o respeito, minha gentil senhora, não me lembro de alguém ter me questionado nada a respeito de minha vida particular. Mas certamente, se alguém o tivesse feito, com todo o prazer teria uma resposta bastante satisfatória. Não vejo motivos que me levem a esconder que sou um homem sério e honrado pai de família.
— Senhorita, por gentileza. Ainda sou uma senhorita! Não sou compromissada com ninguém, excerto com minha própria honra e dignidade.
Respondeu ela, dizendo em seguida.
— Perdoe-me minha indiscrição. Apenas achei estranho que em momento algum o senhor tenha mencionado sua honrada família, mas o senhor tem razão, sua vida particular só ao senhor mesmo diz respeito. De qualquer forma, obrigada pela companhia pelo caminho, o senhor realmente foi muito gentil e bastante cavalheiro para comigo. Que Deus o proteja e o acompanhe em sua jornada.
Gardênia suspirou uma vez mais e olhou diretamente em seus olhos. Daquela vez o olhar daquela sedutora jovem tinha algo diferente, era um olhar de terrível ódio, mas também de um profundo remorso de alguém que olha para um condenado que caminha a passos largos para o cadafalso em seus últimos instantes de vida.
Emanoel, que havia ficado mais desconfortável ainda com toda aquela situação, decidiu que o melhor a se fazer era sair logo dali. Aproveitando a despedida de Gardênia, montou em sua mula, — que naquele momento estava novamente dócil e tranquila como sempre o fora —, e, após tirar seu chapéu e se despedir de forma meio desajeitada, seguiu seu caminho. Pai Thomaz, que de certo modo já sabia de todo o acontecido entre eles e vendo como sua filha havia ficado emocionalmente instável em saber que ele era um homem casado, — mas principalmente pela resposta indiferente que ele lhe dera quando ela o questionou sobre esse fato maliciosamente omitido, o acompanhou com o olhar, vendo-o se afastar. Gardênia, — mesmo com as entranhas ardendo pelo mais profundo ódio — ficou toda arrepiada vendo seu pai com a mão levantada, sussurrando alguma coisa ininteligível a ela, como se estivesse benzendo Emanoel pelas costas.
Após aquele estranho tipo de benção proferido por seu pai, iniciaram os dois a caminhada de volta em direção a sua casa. Gardênia caminhava ao lado de seu pai no mais absoluto silêncio, aguardando a qualquer momento que ele dissesse algo. Contudo, para seu desespero, Pai Tomaz estava calado e com o olhar distante, mirando o vazio, como se estivesse enxergando algo além das aparências. O mutismo de seu pai estava deixando-a bastante desconfortável. Em determinadas situações o silêncio se faz necessário, entretanto em outras ocasiões, pode ferir muito mais do que qualquer palavra que pode ser dita. Percebendo que ele nada diria, resolveu ela mesmo iniciar um breve diálogo e após escolher sabiamente as palavras disse:
— Logo após o almoço, assim que a chuva deu uma trégua, decidi voltar logo para casa, esse gentil senhor, de forma muito respeitosa, me ofereceu sua companhia, como nosso caminho seria o mesmo, pela boa educação que recebi do senhor meu pai, resolvi aceitar de muito bom grado. Contudo, mesmo caminhando com passo acelerado, ainda assim, a chuva nos alcançou quase em frente à antiga capela, onde o senhor um dia me disse que mamãe sempre rezava. Como o vento estava muito forte e os trovões estavam assustadores, decidimos que deveríamos nos abrigar dentro da capela e aguardar a chuva passar, ou pelo menos diminuir um pouco. Levando em consideração que raramente frequento lugares assim, aproveitei a ocasião para colocar minhas preces em dia, relembrando o que o senhor mesmo um dia me dissera, que mamãe também adorava demonstrar sua devoção no interior daquela simples capelinha.
Pai Tomaz, mesmo esboçando um misterioso sorriso amarelo, pareceu ter si dado por satisfeito, mas não deixou passar a oportunidade de expressar sua opinião sobre o que pensava sobre aquele gentil e prestativo cavalheiro.
— Homens como este rapaz, minha filha, são indivíduos persuasivos, charmosos e sedutores e na maioria das vezes, torna-se quase impossível perceber que atrás de sua fala macia e doce demonstrando muito boa vontade, se esconde um ser bastante lascivo e carregado de más intenções.
Gardênia sabia que ao mencionar o nome de sua mãe, rapidamente daria aquele impalatável assunto por encerrado. Astutamente ela aprendera que a simples menção de qualquer lembrança que rememorasse a memória de sua falecida mãe, — que ela mal conhecera, — era motivo para todo e qualquer assunto ser finalizado por completo. Qualquer assunto que se referisse a sua mãe era assaz doloroso para ele. Mesmo que aquele assunto tivesse sido momentaneamente encerrado, ainda assim, Gardênia continuou revestida de um ódio profundo, por ter sido tão facilmente enganada, mas, ao mesmo tempo, muito preocupada com o desenlace de toda aquela história. De certo modo, ela só teve um pouco de sossego quando os dois chegaram em casa, e naquele dia, seu pai não lhe dera nenhuma beberagem, assim como o fora quando, há muitos anos ela fora violentada pelo então falecido Coronel Guilhermino.
Após o acontecimento com o Coronel Guilhermino, — fato esse que, até onde é sabido, ninguém nunca ouviu nem mesmo comentários que pudessem delatar o acontecido entre ambos no riacho. O tempo foi logo passando, e entre uma conversa e outra, entre mulheres em suas intimidades, Gardênia ouviu dizer que para evitar uma gravidez indesejada, existem certas ervas medicinas, que ao serem preparadas de forma correta e ingeridas em tempo hábil, tem um efeito deliberativamente eficaz. Tempos depois de seu idílio com Emanoel, naquela chuvosa tarde, Gardênia entendeu com o peito arfando em remorso, que talvez tivesse sido melhor, que naquela mesma tarde, quando tudo aconteceu, ela tivesse logo relatado tudo a seu pai de um modo cúmplice e esclarecedor, pois resultado de sua infeliz negligência para com seu pai, foi algo drástico e determinante, tanto para Emanoel, — que se encontrou com o único e inevitável objetivo de cada ser vivo de forma triste e dolorosa, — bem como para ela mesma, que se viu obrigada a criar um filho sem pai, vez por outra tendo que enfrentar os olhares perscrutadores da raia miúda da região, que via aquela maternidade independente com certo ar de mistério e maledicência.
Assim que chegaram em casa, tanto ela, bem como seu próprio pai, cada um do seu modo, foram cuidar de seus afazeres cotidianos. Pai Thomaz foi para suas hortaliças com o intuito de ali terminar por aquela tarde entre suas ervas e se manter distante do olhar tristonho e quase arrependido de Gardênia. Ela por sua vez foi cuidar de seus afazeres domésticos, do jantar que logo foi preparado e servido em seguida. Sempre após a última refeição do dia, seu pai se sentava numa cadeira de balanço na varanda e ficava por um longo tempo fumando seu cachimbo, e tal como a própria fumaça baforada por ele, que ficava pairando sobre o ar de forma solta e preguiçosa, assim também era seus pensamentos e reflexões, que Gardênia nunca soubera quais eram. Seu pai sempre fora um homem taciturno e ensimesmado, contudo sempre muito carinhoso e atencioso para com ela. Ao mesmo tempo que era um pai bastante amável e sempre fiel naquilo que tange as funções de um progenitor, por outro lado, para com os outros demais, era um ser sombrio e desconfiado de tudo e de todos.
Gardênia, após servir o jantar e juntamente com seu pai comer, mesmo estando sem fome, para não demonstrar nenhum tipo de sentimentalidades fora do comum, tratou logo de organizar a cozinha, que deveria pernoitar limpa e organizada. Assim que findou seus afazeres, sentou-se também na varanda com uma costura no colo, e disfarçadamente enquanto fingia que cosia o tecido, vez por outra perdia o olhar ao longe na direção do rio, onde possivelmente estava o acampamento da tropa de Emanoel. A direção do rio por capricho do destino era a mesma do pôr do sol, que naquela tarde fora bastante melancólico, entre nuvens ralas, deixando faixas de vários tons diferentes, mesclando entre si, amarelo, laranja e vermelho acobreado. O crepúsculo rapidamente se desfez dando lugar a um céu parcialmente nublado, anunciando mais chuvas pela noite adentro, contudo, naquele momento, a parte do céu que estava parcialmente limpa apresentava várias estrelas que cintilavam ao longe, dando companhia a uma tímida lua nova, que se mostrava vez ou outra entre as nuvens soltas aqui e ali. Essa mesma lua também pairava sobre a direção do rio. Assim que a lua se despediu e foi iluminar outras regiões na direção do poente, Gardênia após pedir a benção a seu pai e também sua permissão, foi logo se recolher em seus aposentos. Antes de se deitar ainda abriu a janela de seu quarto, que dava para a direção contraria da varanda e o que viu deixou-a ainda mais melancólica. Se do lado do poente o céu estava parcialmente limpo e até mesmo estrelado, do lado do oriente a visão era aterradora. Escuras e pesadas nuvens se levantavam ameaçadoras, vez por outra iluminadas por terríveis relâmpagos que anunciavam uma forte tempestade que certamente não tardaria a cair sobre eles outra vez.
Apoiada sobre os cotovelos no umbral de sua janela, ficou bastante tempo observando o negrume da noite, e aquela noite em si, pareceu ser uma noite muito diferente e angustiante. Gardênia, de repente, começou a tremer todo o corpo, como se padecesse de uma febre terrível. Aquele estremecimento estranho não era do vento frio que soprava da direção da chuva que já se aproximava, muito menos por estar ela com trajes menores que sempre usava para dormir, mas de um sinistro frio que lhe vinha do fundo de sua alma. Um tremor cheio de maus presságios do triste e anunciado destino que se aproximava a violentos e apressados passos do desavisado boiadeiro. Naquele momento, ali na solidão de seu quarto, Gardênia em misto de ódio por tudo e pleno desespero, teve uma profunda vontade de chorar, de se apartar de tudo e de todos e de ir embora para muito longe dali, onde ninguém a conhecesse, nem muito menos sua história. Envolta a esses pensamentos torturantes na escuridão de sua alcova, após apagar o lume que parcamente iluminava o ambiente, após deitar-se em sua cama, logo adormeceu pesadamente…
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Queixas
Preso aos limites de um castelo antigo, hoje me encontro, mas não era assim quando eu andava só floresta adentro a matar infiéis…
MidjouneyAI
Preso aos limites de um castelo antigo,
hoje me encontro, mas não era assim
quando eu andava só floresta adentro
a matar infiéis, queimar as bruxas,
sendo um leal e bravo cavaleiro
do qual a Santa Igreja se orgulhava.
Contra o conde lutei pelo meu Cristo,
desembainhei inutilmente a espada
a fim de que varresse o mal do mundo,
mas sucumbi à luta de joelhos:
fui empalado e logo incinerado;
as cinzas despejadas sobre a lama
que cerca este castelo tenebroso.
Não tive quem por mim rezasse um terço,
somente uma sentença, a dura praga
que proferiu o conde aquele dia:
“Sofrerás, vil guerreiro, todo o peso
da eternidade como maldição.
Verás, como eu, em vão passar o tempo
e sem esta matéria que nos gela
aqui me servirás eternamente:
teu fim será louvar-me em tuas queixas,
preso aos limites deste meu castelo.”
Vivo então, invisível, a ecoar
a dor que resultou desta peleja
e que estes altos muros silenciam.
Vejo passar então os viajantes
e os hóspedes que insones cá pernoitam
a fim de conhecer aquele crápula.
Invisível, os vejo passo a passo
adentrar aos portões com um olhar
curioso e, ao mesmo tempo, fascinado.
Olhai, mas vede e não vos enganeis!
A mão de Deus, ilustres visitantes,
não pousará neste lugar maldito.
Não há como sentir-se aqui seguro
sob as nuvens cinzentas de um castelo
que nunca viu a luz do sol brilhar,
que nunca viu a cor azul do céu.
Na melhor das hipóteses, tereis,
daquele desalmado anfitrião,
a chance rara de voltar pra casa
para que lhe pinteis alguma fama.
Quanto a mim — pobre ser fantasmagórico —
terei, como ele, a triste maldição
de assim viver por incontáveis anos
arrastando-me às sombras do passado,
preso aos limites deste seu castelo.
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Fim
A morte-rubi me espreitando | E o choro adornado de medos, | Escuro-carmim sufocando... | Dois olhos me incitam segredos...
A morte-rubi me espreitando
E o choro adornado de medos,
Escuro-carmim sufocando...
Dois olhos me incitam segredos...
Atrai-me, tão ébria e em silêncio
Avisto o contorno viril...
Estou à tua sede — Ó! Quão sêncil!
Fadada, cativa e febril...
Vampiro-demônio, mistério...
Fendendo tu estás o meu peito,
Tal órgão vital, sempre estéril,
Retiras do torso, e eu me deito...
Agora tua fronte é tão lúcida
E a lápide faz-me translúcida...
O Exício mordaz diz meu nome...
Minh’alma, tu vens, e consome...
Tão lânguida... aqui... m’esvaneço,
Adeus grande amor, adormeço
À sete mil palmos, amém.
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Confissão
Ao atravessarmos a encruzilhada, | desprezamos segmentos remotamente | nascidos da tal conformidade enredada, …
MidjourneyAI
Ao atravessarmos a encruzilhada,
desprezamos segmentos remotamente
nascidos da tal conformidade enredada,
Revestida de intimidade vazia,
Compreendida da autêntica e imunda
Gravura de despedida há pouco esboçada.
Raiz essa do meu delírio;
a felicidade surgida do amargor
da tua estrada.
Como o fulvo do Cerrado morto e infecundo,
Confronto meu pesar, obrigando-me
A repousar ao centro da queimada,
Regozijando da enfermidade abatida sobre ti
E a morte que se aproxima na alvorada,
Diante disto, rendida, exprimo ao universo
Meu profundo obrigada.
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O abraço da Toreador - a gênese do vampiro Valentine Lencastre
Emergi das entranhas da Revolução Francesa, envolto pelo terror e caos que assolavam as ruas ensanguentadas de Paris…
MidjouneyAI
Emergi das entranhas da Revolução Francesa, envolto pelo terror e caos que assolavam as ruas ensanguentadas de Paris. Ferido durante os tumultos da revolta, fui forçado a desertar, buscando refúgio nas terras desoladas e sinistras que testemunharam a brutalidade da guerra. Meu corpo curvou-se à dor, e, em súbito, abracei o solo de uma floresta sob o testemunho de hematófagos morcegos.
Fui resgatado por uma senhora, cujas escamas no rosto a tornavam uma figura ímpar, distanciando-a de qualquer similaridade com a condição humana. Ela, detentora de um silêncio descomunal, cuidou do meu corpo como quem pretendia embalsamá-lo. Ervas e muitas tiras de tecido tocavam minha pele carcomida. Eu vi tudo!... Mas toda vez que tentava falar, indagar onde eu estava, a minha língua mais parecia uma lemimscata, limitada a movimentar-se perpetuamente em si.
Fiquei sete dias e sete noites sob a tutela da anciã, até que, numa noite de plenilúnio, ela resolveu servir-me como oferenda para uma jovem e bela mulher. Todavia, por detrás de todo aquele véu de beleza e sensualidade, estava escondida uma fera faminta. Antes que a criatura se aproximasse de mim, a velha bruxa despiu-me de todas as ervas e tecidos e, com uma jarra, encharcou-me de vinho enquanto proferia algumas palavras em língua estranha, as quais evocavam a feroz criatura que habitava o corpo mais belo que pude conhecer em vida, pois também despida, em meio à penumbra, suas curvas se desenhavam alimentando os meus olhos com um espetáculo de rara beleza.
Enquanto a cópula era presente, a dama da noite, o ser advindo das trevas, em lascívia abocanhou o meu pescoço e cravou sem piedade suas presas. Fui do prazer à dor, da dor à morte, da morte à vida, pois renasci como uma nova criatura, mal sabia eu que havia sido escolhido devido ao meu ofício quando humano. Eu era um arquiteto, um dos mais requisitados da França, e ela, a besta da noite, pertencia ao clã Toreador e estava recrutando os melhores artistas para servi-los. A fome me apertava e o cheiro de sangue me atiçava a querer atacar a anciã que assistia a tudo com expressão de prazer.
Com orientação da vampira e algumas regras expostas, disse que eu não precisava atacá-la, pois ela era sua carniçal em troca de alguns presentes. Pegou a jarra do meu banho de vinho, atacou suavemente a senhora e encheu de sangue aquele recipiente, servindo-me ainda quente. Entendi, naquele momento, que os traços de humanidade que havia em mim não mais me pertenciam. Fui abraçado pelas trevas, fui abraçado pela sedutora Toreador, clã ao qual agora sou filho.
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Fogo Santo na Igreja
Minha querida A.: Penso em você constantemente, e isso tem me afastado de Deus, pois pensar em você é pecar…
Foto de Nathan Dumlao na Unsplash
“Porque o nosso Deus é um fogo consumidor.” Hebreus 12:29
3 de abril
Minha querida A.:
Penso em você constantemente, e isso tem me afastado de Deus, pois pensar em você é pecar contra ele. Tenho feito as peregrinações que eu disse a você que eu faria. Cada cidade que vou sempre tento alugar um local modesto perto de igrejas. Tenho feito bom uso do dinheiro que você me deu, além de alimentação, papeis e tinta, doações para os necessitados. Sei que você me alertou para usar esse dinheiro com sabedoria, mas alguns hábitos são mais fortes. Numa dessas peregrinações me instalei numa pequena cidade em busca de perdão, mas minha antiga natureza me impulsiona a frequentar as missas noturnas aos domingos e buscar perdão nos confessionários de madeira polida. Mesmo sendo uma criatura contrária à natureza, você sabe que ainda carrego os dogmas e rituais da fé católica. Desde a primeira missa que frequentei naquela pequena igreja pude perceber o caráter duvidoso do padre Marcos, cujas más intenções ele escondia por trás de uma fachada de humildade. Ao ter minha presença nas missas e no confessionário, uma mórbida curiosidade e desejo sobre mim, despertou nele. Fui em todos os dias possíveis da quaresma e o via me olhar com intenso interesse enquanto falava de jejum, arrependimento e penitência, naqueles dias de reflexão e respeito a paixão, a morte e ressurreição de nosso Cristo. Eu sentia o pecado latente nele por baixo daquelas vestes púrpuras. Observava seus olhares furtivos em minha direção enquanto lia a palavra, ou das vezes que eu participava da santa ceia e ele se deleitava ao me oferecer o corpo e o sangue de Cristo.
Me confessei com ele diversas vezes e o assunto sempre era você, e isso o cobria de curiosidade e ele me enchia de perguntas. Contei a ele como você é diferente de mim. Ama a liberdade e a natureza e acredita que a sua natureza é uma benção de entidades da floresta de onde veio. Disse que me apaixonei por você quando a vi há muitos anos em uma de suas visitas ao convento, numa das suas excursões, e sabia que estava pecando contra Deus só por admirá-la à distância. Falei da nossa primeira conversa, que descobri o quanto seu humor poderia ser profano, e mesmo escandalizada com algumas de suas palavras eu percebi que estava me afeiçoando de maneira proibida por uma criatura pecadora. Você recitou de cor 1 Coríntios 13, e fazendo eu me banhar em lágrimas e assim me apaixonar, você percebeu isso e quis compartilhar comigo a sua liberdade. Eu aceitei e logo após isso me arrependi, e você seguiu o seu caminho me prometendo que voltaria quando eu estivesse pronta. Depois disso não pude continuar fazendo parte das irmãs, pois elas perceberiam logo que eu estava afundada em pecado, e que as deixei com aperto no peito de quem deixa os membros favoritos de sua família. Segui minha peregrinação de expiação dos pecados. Me perdoe minha amada confessar essas coisas a ele. Não revelei mais do que deveria. De qualquer forma não faria diferença.
Eu tenho conhecimento da minha beleza, porém sempre me percebi com certa estranheza, mas usando as suas palavras, essa minha aparência suave, olhos doces, lábios rosados e a face mestiça com maçãs do rosto avermelhadas como se estivesse ruborizada o tempo inteiro, esse ar de inocência que te atraiu, também atraiu ele. Percebi o desejo do padre e isso me encheu de repulsa. Para mim um homem que escolheu amar a Cristo sobre todas as coisas cobiçar uma pessoa, seja ela mulher ou homem, e na pior das hipóteses crianças, é uma heresia imperdoável, ainda mais desejando a mim, uma criatura condenada por Deus! Se ele fosse mesmo um escolhido de Deus, já teria percebido que minha presença é maligna. Decidi confrontá-lo. No final da missa entreguei a ele um bilhete com essas mesmas palavras:
“Posso lhe contar com mais detalhes que ela fez comigo. Me encontre na igreja à meia-noite. — L.”
Então numa noite quase sem lua, marquei um encontro na igreja com Padre Marcos. Sobre a luz fraca das velas e o sutil odor de incenso me ajoelhei no genuflexório com meu terço em mãos e rezei. Pedi a Deus que minha impressão sobre o padre não estivesse correta e que ele não aparecesse ao encontro vendo naquele bilhete uma afronta a fé dele. Porém, mesmo atrasado, ele apareceu, tocou no meu ombro enquanto eu estava prostrada em oração e, quando olhei sua face, eu vi aquele sorriso repulsivo e herético de desejo. Impulsiva pulei sobre ele e o mordi, não havia planejado aquilo, eu juro, mas deixei minha natureza sombria tomar o controle da situação. Puxei seus cabelos para trás para ter um acesso melhor ao seu pescoço e mais uma vez cravei meus dentes, a ferida aberta bem grande, e o sangue saía como um fluxo intenso tingindo tudo ao redor, suguei e lambi todo aquele sangue. Mas minha natureza sombria não estava satisfeita apenas com aquilo. Olhei seu rosto em agonia, ele estava a ponto de perder os sentidos, sorri para ele e disse:
— Eu sou a sua salvação e, ainda que você morra, você viverá.
Repetindo o ritual que você havia realizado comigo, mordi meu braço com força e arranquei um pedaço da minha carne:
— Esta é minha carne. — Coloquei em sua boca e tive que usar dos dedos para conseguir fazer descer pela sua garganta, tapei sua boca com a minha mão e o fiz engolir. Quando vi a carne descer pela sua laringe, mordi novamente o braço para abrir mais a ferida e verter mais sangue:
— Esse é o meu sangue, para o perdão dos seus pecados.
Depois desse ritual, arranquei a grande cruz do altar, pedindo a Deus perdão, mas sem conseguir controlar meus atos, levei até ele e com a ajuda dos tecidos púrpuros que havia no púlpito e que cobriam as imagens dos santos, amarrei suas mãos e cintura na cruz, a base dela sobre o púlpito para que ficasse inclinada e invertida, ele não era digno de ser crucificado como Cristo, me afastei para olhar a minha obra com a companhia dos santos que agora não estavam mais cobertos. A cena era perfeita para a expiação de pecados. Abri as portas da igreja, pois o dia logo ia nascer. Os primeiros raios de sol já atravessavam os vitrais coloridos, queimavam aos poucos a pele do padre, seu grito ecoava pelas paredes sagradas da igreja, eram música para os meus ouvidos. Um odor de carne queimada se misturava ao cheiro sutil do incenso da igreja. Os gritos chamaram a atenção dos moradores da cidade que correram para a igreja e ficaram alarmados quando se depararam com a terrível cena.
O padre envolto em chamas, preso à cruz como um sacrifício profano de expiação de pecados. Enquanto isso eu me escondia no confessionário, observei com deleite a justiça sendo feita, enquanto pedia perdão a Deus por estar pecando contra a minha fé novamente. Eu juro, não era minha intenção fazer isso, pois de Deus é a vingança e a justiça, não minha. Depois de um tempo algumas coisas da igreja começaram a pegar fogo, aproveitei a algazarra para me esconder nos fundos até que fosse seguro sair. Fui para o quarto que eu tinha alugado, me lavei, fiz as malas e parti. A sociedade cuidou desse caso, estou surpresa de que os jornais o trataram como um suicídio, mesmo assim esse ato teve consequências. Soube através de um membro que você partiu para uma viagem de pesquisa de grande relevância. Deus é testemunha do quanto eu admiro seu trabalho e que eu não a incomodaria se não fosse algo de extrema importância. Rezo para que essa carta chegue a você em segurança onde quer que você esteja e que você possa interceder por mim em meu julgamento.
Com amor L.
P.S. Você sempre está nas minhas orações.
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Wildbad Gastein in the evening (Anton Romako)
História de anciões, cantigas, lendas:
Terreno por selvagens percorrido;
Avesso a humanas leis, segundo a crença,
Lugar de estranhas vias, sons, gemidos.
Escuso paradeiro de oferendas,
A fim de agraciar deuses antigos.
Ladino bosque, infligidor de penas
A qualquer invasor desconhecido.
Se fato ou mitológico… mistério;
Circundam seus limites tranca e ferro,
De apoio à segurança dos portões;
Defesa ante ameaças, o estrangeiro
Na busca por descanso, acolhimento,
Não entra mais depois que o sol se põe…
Profundo o breu da noite espreita o sono, | O medo finca a horrenda sensação: | Há nada além de mórbido abandono | E Deus é vurmo pútrido no chão...