⚜ Suspeita

Estou-me à rede, calma, descansando… | O vento é-se regélido e assoviante | E vem só d'uma fresta se apossando | Da noite no horizonte vigilante;…

Estou-me à rede, calma, descansando…
O vento é-se regélido e assoviante
E vem só d'uma fresta se apossando
Da noite no horizonte vigilante;

Mi'as pálpebras pesadas cerram lentas
E abrindo-se parecem relutantes;
Um sonho que à mi'a mente vem lamenta…
"Olá" — morbo sussurro no rompante!

No susto me arregalo os olhos: medo!
O escuro e nada mais ali se ajeita.
Respiro, pego as chaves, ainda quedo;

Estranha sensação me vem suspeita;
Emperro a porta, impeço sua abertura,
Abaixo-me p'ra olhar na fechadura:
É rubra a vil pupila que me espreita.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Muffins de Caramelo

Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Mensagem da autora

Minha ideia inicial foi escrever um conto sobre uma garotinha que fica presa nas memórias da tia. De forma alguma descartei a ideia, mas o dia a dia me afogou de tarefas chatas impossíveis de serem negligenciadas de tal forma que só consegui me dedicar ao conto que os senhores vão ler em breve. E ele começou com uma ideia de nossa anfitriã: vampiros que amam o Sol.

Fiquei pensando em como um sugador de sangue poderia se apaixonar pelo que o mata, e concluí que esse sentimento exigiria uma relação distorcida com a sobrenaturalidade. Decidi transformar algo profundamente melancólico numa ironia, levado o gótico doméstico à linha tênue entre a ingenuidade e o delírio de minha personagem.

Aconselho que leia o restante desta nota DEPOIS da leitura do conto.

Sério, corre lá! Eu estarei aqui.

Akily preserva um tipo de afeto deslocado pelo cotidiano humano, agarrando-se a vantagens insignificantes diante de seus verdadeiros poderes. Esse apego funciona muito bem como uma forma de alienação ao longo da eternidade, o que a ajudou a preservar sanidade durante mais tempo do que podemos humanamente conceber.

Ela se preocupa por esquecer de colocar o lixo para fora, por não ter onde pendurar uma mandala supostamente mística, tentando esconder de si que é o mesmo ser capaz de levitar e manipular pessoas. Esse contraste revela uma escolha contínua de ignorar a própria natureza, o único traço de personalidade que verdadeiramente fazia sentido para mim nessa narrativa.

Há uma imagem que considero particularmente reveladora de sua personalidade: “Havia esquecido as chaves dentro de casa; encostou o portão e saltitou com bastante convicção até a loja Bruxa Boa.” Essa descrição aparentemente banal, como todas as descrições aparentemente banais, dói somente depois da mordida. Ela sintetiza sua forma de existir, na qual o trivial é romantizado e elevado, enquanto o extraordinário é deliberadamente negligenciado. Esse traço se repete ao longo do conto porque se repete ao longo de sua vida.

Sua relação com o sol surge, então. É mais do que fascínio, mas Akily não consegue compreender a magnitude disso. Trata-se de algo profundo e animalesco que pede interrupção, como se sua própria natureza exigisse uma pausa na encenação contínua.

Optei por evitar o uso excessivo de vírgulas, buscando um ritmo que acompanhasse o fluxo de pensamento de Akily.

A repetição dos gestos de sorrir e deixar o corpo pesar é deliberada, bem como o uso de verbos “proibidos” como “sentir” e “perceber”. Akily atravessa um momento em que suas decisões são guiadas por uma força emocional mais intensa e menos racional. Não há, nesse contexto, receio da repetição, nem tentativa de suavizá-la. Pelo contrário, ela reforça a ausência de censura diante de seu poder em relação à sua vontade de romantizar a vida para que ela não perca sentido. Até que o sentido se torna, finalmente, a perda total da vida.

Sophia Kaiser

Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo. Ela sorriu, reorganizando os ímãs na geladeira. Mas o sorriso se esmaeceu com peso na linha onde deveriam nascer rugas, e ela notou que alinhava ímãs já alinhados; que seu favorito estava descolando do esmalte ciano na porta do congelador.

Esqueceu de colocar o lixo para fora; agora os camarões podres teriam que esperar até o dia seguinte, aprisionados num cubículo de plástico quente junto das cascas de ovo e das rosas de Alberto. Passou aquele dia inteiro sozinha, embora não se sentisse assim. Começou preparando seus muffins de caramelo, cuja receita podia jurar que era primeira no mundo; separou a pasta em pequenas ilhas e as pôs no forno. Ligou a pequena Philco suspensa no teto num daqueles canais em que ela nunca sabia se as francesas discutiam ou se reconciliavam. Não é que, durante todos os séculos, não tivesse aprendido francês; havia parado de ouvir quando não lhe era necessário.

Havia passado o tempo correto. Ela abriu aquela grande boca de aço e sem querer queimou o polegar. A fumaça preta nunca havia saído do forno junto com os muffins. O sopro infernal subia tão agressivo que Akily largou o tabuleiro na mesa um segundo antes de espatifar no chão. Quanto mais a abanava, mais ela tomava formas distorcidas e dramáticas. Quanto mais a encarava, mais era encarada de volta; contornava seu corpo e encontrava seu rosto em algum ângulo imprevisível. Akily bufou. Não sabia quantas vezes teria checado a textura da massa antes de botar no compartimento pré-aquecido em toda a sua vida. Culinária vinha da mesma fonte que a música; um ajuste definia todo o corpo da receita, a melodia, a proporção; o que ela fazia com bolos de carne e tortas de maçã um século antes não era diferente, com exceção dos venenos açucarados extremamente gostosos dessa geração. Para ela, aquilo era felicidade com promessa e entrega instantâneas, seu estômago trituraria qualquer mal, as toxinas alimentariam seu sangue com vigor tal qual uma fruta colhida do pessegueiro alimentado com os restos da última bruxa de Salém.

Desligou a televisão. O francês a estava deixando com muito calor. Ouviu o barulho do lixeiro passando outra vez e abriu a boca, sentindo seu pulmão comprimir. Quando voltou à cozinha viu como o tabuleiro havia adquirido uma segunda pele de escamas marrons e pretas. Parecia a metade de cima de um dragão filhote, se eles não fossem mera fantasia. Enfiou seu dedo na massa e lambeu. O sabor familiar do caramelo em cubinhos nunca veio. A crosta de noz-pecã derretida amargou o céu da boca, mas o açúcar estava derretido o suficiente pela massa solada. Decidiu que estava bom. Apanhou uma mãozada e comeu assistindo seu reflexo cinza pela TV.

Ainda carregava satisfação em seu corpo quando resolveu se banhar à luz das velas aromáticas de uva, como se o caramelo tivesse escapado para o coração. Lembrou que devia beber logo do estoque novo de sangue, as três bolsas que guardara na geladeira junto da manteiga na promoção e o sangue quente que deixara no armário perto dos dois potes gigantes de creme de avelã. Faria isso assim que saísse do banho. Seu roupão fino permitia que a brisa gelada revelasse partes de seu corpo de que ela gostava bastante. Os cabelos, há muitos séculos retratados em pinturas agora engavetadas como liso morto, haviam conquistado ondulações suntuosas que refletiam as curvas de seus seios, coxas, dedos dos pés.

Pisou na água morna dentro da banheira, e só então se lembrou das pétalas de rosa guardadas num saquinho da loja esotérica dois quarteirões distante. Buscou-as e, num impulso que geralmente não lhe acometia, antes de notar que elas já murchavam, ao invés de jogá-las dentro da água: jogou-as para cima.

Estava submersa até a cintura; uma nova brisa gelada arrepiou sua clavícula, e sorriu de um modo que seus pelos se arrepiaram. Acabara de receber uma amostra do sopro de vida, tal como os seres vivos recebiam a água e o sol. O sol. Seu rosto contorceu, passando os dedos molhados pela barriga seca. “Se a vida é uma valsa cósmica que baila com o divino, a de um vampiro estará sempre um tempo atrasado, nunca sendo guiada pelas mãos do sol.” A frase da irmã ainda grudava. Ela não deixaria que a valsa parasse, mesmo assim. Seu coração se enchia tanto que enxergou sua condição com amor materno, tal qual um recém-nascido com uma alergia grave; mesmo que espirrasse, seriam espirros perfeitos, que a aproximariam cada vez mais do divino. Akily se levantou e fez os dedos contornarem a borda de alumínio do batente com bastante cuidado. Abriu mais a janela.

Depois que seus seios já balançavam na gravidade confortável da água, ela não sentiu vontade nenhuma de se tocar. Quando voltou para o quarto, havia decidido algo tão íntimo quanto seu nome ou quanto beber sangue.

Ao abrir o guarda-roupa de mogno antigo, dedilhou os vestidos suspensos no cabide e só parou em um daqueles poucos que nunca havia usado. Escolheu aquele azul com detalhes em marfim, que fora comprado num ato de altruísmo para sua irmã, antes que a dona cheia de pintas passasse na loja no dia seguinte. Se esqueceu de entregá-lo, afinal de contas, mas conseguia ver o rosto da irmã por entre as dobras de renda com cheiro de talco.

Demorou duas horas inteiras na frente do espelho da penteadeira, esfregando as cerdas macias pelos cabelos que passaram tempo demais no condicionador. Cheirava o sabonete em sua pele e depois dava um sorriso, seus olhos quase transbordando gotículas que faziam seus globos oculares doer. Sua barriga roncou. Pensar na bolsa de sangue fresca na geladeira pareceu tê-la saciado de quase todas as formas. Passou mais duas horas sentindo o quarto gelar com o ar-condicionado no 16. Lembrou-se do doce vento da Irlanda, a brisa gelada que arrepiou a pele quente e encheu o estômago de ar.

Só parou de alisar o lençol quando a palma da mão se irritou com a seda, e então repousou a cabeça de lado como quando dividia a cama com a irmã e deixou as pálpebras pesarem. Na manhã seguinte, quis ver a luz do sol pelo bumbum do tabuleiro de fazer muffins de caramelo.

Lavou a crosta doce com cheiro de açúcar artificial com força, afinal, não tinha tempo para compensar o vacilo de não o ter deixado de molho. Voltou para o quarto, calçou suas novas papetes roxas de borracha e vestiu a capa grossa de chuva com a qual recolhia as flores de Alberto diariamente. Caminhou fazendo barulho pelo azulejo do lado de fora e esticou o braço até o metal molhado encontrar a claridade do céu.

De repente sua varanda azuleou de tal modo que Akily se atribuiu asas. Estava voando por um verão sem nuvens, e então se deu conta de que havia tantos seres voadores no mundo. Podia fincar suas presas sorridentes e indolores nos corpos penados e ainda não faria a liberdade crescer em suas costas. Uma sobrancelha se levantou. Ela podia, claro que podia levitar. Mas não via graça nenhuma em manipular a gravidade com aquele formigamento todo na sola dos pés, na ponta dos dedos, das orelhas e pelo pescoço até o queixo. Ela queria voar como os anjos; mas não como nas pinturas no teto distante das catedrais em 1823 que tanto a irritavam. Detestava aquela leveza. Ela desejava os músculos eróticos que a conquistaram muito antes disso, que a tornariam uma deusa feita de curvas impossíveis; invejava o poder de voar até os céus com a promessa de ser um com o universo. No fundo, mesmo que não gostasse da ideia, sabia que seu voo pareceria muito mais leve do que gostaria.

Ainda contemplava em agradecimento a infinita luz azul, se perguntando se o sol era azul também, quando o tabuleiro escapuliu de seus dedos encapuzados. Seus ouvidos murcharam com o barulho estridente de um azulejo quebrado, o clarão do sol irradiando de uma forma que Akily se acuou para dentro da cozinha. Bateu a porta com tanta força que precisou conferir se a havia quebrado. Botou a mão no peito com os olhos arregalados. Não sabia o que dentro dela doía tanto. E então deu uma gargalhada desafinada e trêmula que expulsou o espírito daquela velha curandeira que lhe havia praguejado algumas décadas antes. Logo percebeu que respirava forçado demais, e ficou encarando o calendário da empresa de botija de gás enquanto sua alma, que voava tão alto, voltava para si. Teria esperado anoitecer para sair outra vez, mas sua garganta fechou; esperar algumas horas era tortuoso demais. Abriu a porta só mais um instante, um feixe de luz potente alcançando a geladeira ciano. Que luz poderosa e absoluta! Fechou a porta devagar e sem rir dessa vez.

Uma cólica tremenda a atravessou, a vista queimando. Um cheiro estranho e sinistro percorreu seu corpo. O lixo dentro de casa fazia aniversário. Se agachou para pegar o pote de Nutella, seu corpo pesando com exaustão. Foi para o quarto e ligou a TV. O francês piorou as dores no corpo. Passou o dia e a noite na cama.

Não se lembrava do sonho da madrugada, mas havia acordado com vontade de jogar mais pétalas para o ar. Ela viu o sol. Fechou os olhos com um sorriso bobo, quase como se pudesse ignorar as dores nas articulações. Por um momento, se imaginou novamente refletida naquela imensidão azuleada do céu da hora do almoço. Era quase como se tivesse memórias infantis que envolvessem dias solares encantados, embora soubesse que estava terrivelmente enganada. Preferia não ficar se corrigindo o tempo todo.

Tentou se levantar. Seu corpo não quis. Então espirrou tão forte que seu peito a fez deitar de novo. Em que momento havia resfriado? Passou a mão pelos braços, o rastro doendo até as dobras dentro da pele. A porta da cozinha devia estar se sentindo exatamente daquele jeito, foi o que pensou. O pote de creme de avelã havia deitado para dormir com ela e, por sorte, tivera sua boca fechada antes de ambos pegarem no sono. No fundo da colher ainda tinha Nutella, então ela a tomou na boca enquanto abria o pote outra vez.

No final do mesmo dia, estava tão faminta que precisou ir se arrastando com seu robe de seda rosa até o armário da cozinha. Embora seus cotovelos ainda lhe fossem fiéis, suas pernas tremiam como varas, e ela pensou que ter dado aquela risada histérica lhe havia custado caro; espantara espíritos importantes, que tomavam conta dela. Quando chegou no armário, percebeu como havia acumulado poeira no tecido fino. Arremessou o braço para dentro e rasgou a bolsa com a força que lhe restava. Virou-se para cima e deixou a cabeça descansar no travesseiro duro que era o chão do armário. Inclinou o líquido tão menos gostoso que avelã em direção à boca, mas seus braços fracos derramaram a primeira dose no colo do roupão.

Seu pescoço se levantou para abocanhar o corte no plástico, o sangue recheando sua boca por completo. Seu corpo mexeu um pouco. Ela tomou todo o sangue antes de lembrar de respirar, depois sentiu um espasmo fazendo-a contorcer como se despreguiçasse finalmente. Balançou os pés por um tempo, sentindo a dormência sendo expulsa, as unhas em vermelho descascadas. Estava completamente abastecida, o que a irritou profundamente. Conseguiu se levantar, xingando o roupão todo sujo. Ela não tinha deixado o chão imundo como parecia, aquilo não era verdade. Abriu a torneira e tomou água até que o gosto de ferro se dissipasse. Quando fez o movimento de jogar o restante da água na pia, sentiu que as juntas ainda reclamavam. Voltaria à loja esotérica para comprar mais pétalas depois que o sol se pusesse, mas antes das seis, se melhorasse. Compreendeu que era melhor, no fim, dormir em seu caixão naquela noite.

Ela só tirou o rosto do fundo estofado vermelho depois de algumas semanas; o velho despertador cismou de funcionar, e era sua primeira vez naquele ano inteiro, então Akily entendeu que era um sinal. Deu um pulo quando conferiu o horário; as cinco e meia da manhã na verdade eram cinco e meia da tarde, e então ela subiu pela escada em caracol até o quarto e trocou de roupa. Prendeu o cabelo, calçou a papete. Jogou o lixo podre no latão da rua. Catou o tabuleiro no chão da varanda. Havia esquecido as chaves dentro de casa; encostou o portão e saltitou com bastante convicção até a loja Bruxa Boa. Resolveu comprar uma balinha de cada tipo que pendia ao lado do caixa, a atendente dando piscadas tão demoradas que a tornou confortável em espiar tudo o que havia. Ah, vou levar essa mandala, também. Passou tudo no crédito pelo celular.

Fechou o portão e trancou a porta com carinho. Esticou a mandala pela mesa da cozinha, lamentando não ter um furo na parede para pendurá-la em sua cama. Comeu as três balinhas de alga de uma só vez, tendo certeza de que as cores diferentes não mudavam o sabor. Se o barulho do metal caindo ao chão não fosse tão alto, faria o sol aparecer pelo tabuleiro na tarde seguinte de novo. Abriu a barrinha de alfarroba e fez uma careta, depois pressionou o gosto com a língua até o céu da boca. Estava melhor do que seu muffin fracassado. Quando foi tomar banho para jogar as pétalas para o alto, passou pelo seu quarto e viu o pote de Nutella. Levou-o consigo.

O vapor do banho não queria subir, ruminando o calor dentro da água e transformando a banheira numa panela de cerâmica branca. Akily mergulhou lentamente, equilibrando a colher e o pote enquanto deixava a pele ceder e, quando os seios desceram, o perfume de rosas transbordou e molhou o tapete felpudo. Ao fundo, ouviu uma televisão vizinha alta, ligada na mesma novela que passava na Bruxa Boa. Deu um sorriso manso e levou uma colher cheia até a boca. Depois da segunda ou terceira colherada, resolveu que não precisava de doce para ser feliz, então a depositou no chão e inspirou profundamente. Encarou a janela, imaginando que tinha feito a noite se tornar manhã, recebendo o sol diretamente no rosto. Pensou que o calor que a cozinhava era dele, somente dele, e se pegou mordendo os lábios. Observou as pétalas que caíram com ela, tão murchas como a ponta de seus dedos, seus bebês com alergia grave. Ficou séria durante todo o resto do banho, seus olhos pesando tão pouco que ela mal precisava piscar.

Saiu da banheira, despediu-se da janela e foi para o quarto. As pegadas não a incomodariam daquela vez. Vestiu-se com o corpo ainda molhado, aquele vestido azul com rendas marfim que usara pela primeira vez semanas antes. Somente agora parecia entender tudo. Ousou rodopiar na frente do espelho da penteadeira. Sua irmã a teria puxado para dançar se lhe tivesse contado a descoberta. Colocou as mãos na frente da boca e rodopiou mais algumas vezes. Encarou-se no espelho como se não reconhecesse seus traços, embora ainda se achasse muito bonita. Talvez fosse um pássaro, quem sabe um Anjo. Era aquele passo que faltava em sua valsa.

Fez novos muffins, mas o caramelo havia sido orgulhosamente trocado pelo creme de avelã. Akily havia descoberto uma nova maravilha no mundo.

Aproveitou que ainda era antes das onze e ligou para Alberto. Dessa vez, não quis que ele a buscasse de carro, afinal, ela era a imortalidade encarnada, foi o que concluiu depois de séculos. Esqueceu a chave outra vez, mas fechou com firmeza a porta e o portão. Seus cabelos ainda escorriam e faziam cócegas molhadas pelas costas quando fez seus pés formigarem. Começou a levitar apenas o suficiente para o asfalto não machucar, e então foi levando seu corpo para frente. Mas o formigamento não valia a vagareza, portanto se atirou para o céu tão rápido que a fez se contorcer de frio. Como era bonito o bairro que escolhera para morar, pensou, à noite; apenas algumas luzes douradas acesas, sem o crescimento vertical excessivo das metrópoles poluídas. Desceu bem na frente da casa de Alberto e entrou sem tocar a campainha.

Alberto a tocou com paixão. Ela já lhe avisara que viajava às vezes, e ele compensou cada segundo de saudade com estocadas firmes. Akily o deixou admirar a pele nova sem que ele percebesse: ela não era mais como conhecia. Estava mantendo a virgindade de seu novo eu. Imaginou como seria enxergar o sol. Não era como se ela visse um fiapo de raio se esgueirando minutos antes do amanhecer para lhe beliscar a bochecha ou um clarão idiota num tabuleiro idiota. De forma alguma era aquilo. Sua boca se tornou passagem de gemidos molhados quando pensou no sol a enxergando de volta. Ele abriria os olhos, talvez um de cada vez, ou os dois ao mesmo tempo. Compreenderia suas feições, a cor de sua pele, e lhe diria com quem ela se parecia mais: a mãe ou o pai. Ela já não se lembrava, mas derreteu nos braços de Alberto, imaginando que se parecia mais com a mãe.

No dia seguinte, vestiu sua capa de chuva por cima do mesmo vestido azul e buscou as flores no correio. Rosas vermelhas. Não as jogou fora, porque aquele novo ser gostava muito das rosas vermelhas de Alberto. Na verdade, gostava dele como um todo, o suficiente para passar no banco e transferir a ele uma boa quantia do seu dinheiro secular antes de voltar para casa e se arrumar. Tinha um encontro, afinal de contas.

Preparou uma pequena lancheira da época de quando as escolas começaram a aceitar mulheres como alunas. Era o tipo de quinquilharia que ela não sabia para que guardava, mas preferiu não se julgar naquela situação agora que lhe era tão conveniente. Arrumou uma refeição com dois sanduíches de queijo e manteiga, depois foi até o banheiro, pegou o pote e enrolou mais dois pães-de-forma no creme de avelã. Faltava algum líquido, mas ela sabia que podia parar na banquinha logo antes de pegar o trem e comprar uma Coca-Cola. Guardou também o buquê de rosas.

­— Desculpe, senhorita. Nós acabamos de fechar.

Akily não conseguia entender como a estação de trem tinha tão pouca opção na parte da noite. Então ela engoliu em seco e moveu lentamente seu polegar. O dono da banquinha perdeu qualquer expressão nos olhos, tornando-se o que Akily não gostava muito. Ele enfiou a mão com Parkinson no bolso largo da frente e buscou pela chave correta. Abriu a porta minúscula e barulhenta e catou uma latinha de Coca-Cola e uma garrafa de água com gás, as mais geladas que havia na geladeira e as depositou no chão sujo da estação. Ela segurou as bebidas e as limpou na barra do vestido azul. Abriu a água e deu uma golada, depois guardou as duas na lancheira e seguiu para a plataforma. Só deixou o homem retomar o controle depois que o fizera caminhar para bem longe, esperando que o tivesse guiado pela direção que ele pretendia.

Era 22:22 quando ela recebeu uma mensagem de Alberto. Estava fora de si, escrevendo palavras quase irreconhecíveis. Alguém havia mandado três milhões para a conta dele. Estava com medo de ser testemunha ou cúmplice ou mandante de algum crime, mandou áudio dizendo que seu coração doía. Akily pôs a mão no peito e se lembrou de quando o dela também doeu, compreendendo que o que sentira ao ver o sol no tabuleiro foi a sensação absurda de sorte que Alberto sentia agora. Mandou uma mensagem fazendo-o prometer que não contaria para ninguém que o dinheiro saíra de sua conta. Não queria que ele morresse, nem de preocupação nem de felicidade. Por fim enviou uma selfie e, sem esperar visualização, bloqueou a tela. Quando ouviu o trem que ela precisava pegar chegando na estação, jogou o celular no trilho e se preparou para embarcar.

Somente lá dentro conseguiu sentir um pouco de calma para observar o redor. Tudo o que existia na frente da vidraça manchada era um adolescente que ocupara seu lugar no banco. Desviou o olhar tão naturalmente que se esqueceu que tinha a intenção de observar. Aproveitou o assento de madeira bem alto e ficou mexendo as pernas descalça como estava, fazendo carinho na gola do vestido, enquanto encarava os homens de chapéu passando rumo a outra plataforma. A estação não era tão bem iluminada quanto a cidade vista do alto pelos seus pés formigantes, e concluiu que os limpadores não deviam receber tanto.

Quando o trem iniciou sua jornada às Dunas Múrmuras, algo dentro dela despertou uma felicidade extrema, como se Alberto a tivesse entendido. Como era prazerosa a nova carne recém parida, ainda nascente como sol do dia seguinte. Ela chegaria no deserto às 4h da manhã. Apanhou um sanduíche de queijo e manteiga já de olho no de Nutella. Sentia uma fraqueza sutil roendo seus braços. Abriu a Coca-Cola com um estalo orgulhoso e observou a paisagem como se a visse pela última vez. Sabia que em breve a pequena cidade seria substituída por uma série de construções cheias de janela, fumaça preta invasiva, trânsito que ela morreria dez vezes antes de pensar em pegar. Depois de algumas horas, jogou seu corpo para o lado e fingiu que o estofado vermelho era o interior de seu caixão.

Acordou com um formigamento e se assustou, pensando que estava tentando levitar dentro do trem. O breu que tomava conta do lado de fora só não a engoliu de vez por causa das luzinhas simpáticas que costuravam o tapete da cabine. Podia ter trazido um livro, ou até mesmo seu Kindle, se tivesse compreendido, antes, que seu novo eu gostava bastante de ler. Desceu na estação correta e estranhou ter sido a única. Colocou a lancheira nas costas e levitou lenta.

Akily sabia que precisava se afastar o máximo possível do trilho em linha reta. Logo tudo o que conseguia ver era a fina lua no céu, a aliança que o dia entregara para a noite como prova de seu amor. Seu dedão do pé bateu num monte mais volumoso de areia, e então ela percebeu que estava na hora de levitar mais alto. Atirou-se para frente numa súbita empolgação, o coração palpitando. Não sentia aquilo há mais tempo do que conseguia contar. O deserto brincava com seus olhos, de forma que parecia haver muitos pontos de luz colorida dentro da escuridão azúlea. Era como ir de encontro com o nada, sentindo a brisa fresca furando a pele com grãos gelados de areia. Eram tão virgens quanto ela, acariciando a face de um ser vivo pela primeira vez na vida, foi o que escolheu pensar. Sentiu-se fraca outra vez. Se já não estivesse no coração das Dunas, ao menos estaria em seu pulmão.

Deixou seu peso cair na areia quando percebeu uma leve declinação. Abriu a lancheira para retirar o buquê, acabou devorando logo os dois sanduíches cremosos antes que apodrecessem. Fechou os olhos, e cada vez que os abria, uma nova onda de claridade laçava seu corpo e a fazia tremer. Qual delas era a verdadeira face do Sol?

Ela vibrou quando se lembrou dele. Estava o evitando desde quando saiu do caixão, mas cada centímetro de sua pele nova gritava por ele, ansiava por sua aparição como os povos na época que ela nasceu. Falou seu nome em voz alta, depois seu queixo tremeu e sua risada virou um choro dolorido de sair dos olhos. Olhou para as pétalas que faziam cócegas no colo e sorriu, vendo que seu choro havia azuleado algumas das rosas vermelhas.

Um vento fez o corpo de Akily se expandir até sentir frio. Ela inclinou o rosto para não respirar areia, mas conseguia senti-la dançando entre os fios do cabelo. Seus olhos lacrimejaram outra vez. Enxergava tudo e qualquer coisa em sua frente. As dunas remetiam às catedrais com tetos que tanto lhe irritavam. As cordilheiras pareciam repetir as curvas de seu corpo, infinitas fileiras de areia moldada pelo vento, organizadas como nuvens num céu renascentista. Estava se casando. Fechou os olhos, sentindo uma fraqueza sem fim, e viu Alberto como um padrinho feliz, contente com o presente que acabara de receber na conta. Mas, do começo da passarela onde estava, Akily ainda não via seu noivo.

O arranjo no buquê continuava azulescendo; as rosas que já haviam azulescido antes tinham miolos distorcidos em marfim, como se Akily segurasse pequenas caveiras. Ela só não se lembrava em qual momento havia planejado um buquê daqueles. Mas não tinha problema; uma noiva deveria se lembrar de mil coisas e esquecer outras mil.

E então ela enxergou.

Ele não abriu um olho ou dois. O fogo galopava no horizonte trêmulo em cima de um cavalo dourado e forte. Akily gemeu quando sentiu a testa queimar, seus olhos incapazes de compreender o que via, ao passo que compreendia absolutamente tudo. O mundo era dourado para os que voavam.

Seu pescoço quase não se moveu, seus ossos rangendo conforme ela executava qualquer gesto. Somente ela podia se casar com ele, guardou aquela certeza em seu coração quando percebeu que não segurava mais o buquê. As duas rosas ainda vermelhas se derretiam em sangue pela areia. Num espasmo, as arrematou de volta e as lambeu, o gosto de ferro revigorando seu ser com um fogo quase tão ardente quanto o de seu futuro marido.

Seu estômago se revirou em ânsia; algumas cinzas inconvenientes tomaram a vista, mas, quando se viu livre delas, estava leve, como os anjos que tanto desgostava, e começou a rir. O fogo irradiava de seu peito para o deserto, seus olhos cegos por um clarão que a tomava inteira. Era a noiva mais linda, sairiam dizendo isso. Ela recebia o Sol impiedoso. Ele a atravessava crua. Não reconhecia aqueles pedaços de pele que rolavam com o vento forte sobre a areia fina.

Ela era toda Dourado, ela era toda Anjo, e recebia a coroa solar sobre o cabelo de fogo, na pele virgem que havia parido para ele.

Quando ele a segurou e a levou pelo horizonte em brasa, Akily enfim revirou os olhos e deixou uma última lágrima escapar, esquecendo-se de todos os muffins de caramelo que fez na vida.


Escrito por:
Sophia Kaiser

S. Kaiser é escritora de ficção gótica contemporânea, fascinada por vampiros que parasitam o cérebro humano em forma de culpa e desejo. Sempre escreveu sobre ferida que grita antes que a palavra a decifre, geralmente na perspectiva do monstro rejeitado, tentando seu máximo para não romantizá-lo na vida real. Fortemente influenciada pela melancolia de Louis em “Entrevista com o Vampiro”, pela narração visceral de “Império do Vampiro” e pela complexidade psicológica de Dostoiévski e Clarice Lispector. Atualmente, revisita sua obra para relançamento na Amazon. » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

⚜ Pálida Seda: Parte 1

Um mórbido crocitar grotesco rompera minha plácida solidão. Meu torso fora tomado por súbita gelidez e espargia-se, no mesmo instante, um tipo de som em baixa…

Capítulo I:
Retorne à tua matriz, besta pervurme¹!
Jamais vi coisa atroz como este horror!
E como a Trama ousara te compor?
Afronta à Vida! Monstro de chorume!

Um mórbido crocitar grotesco rompera minha plácida solidão. Meu torso fora tomado por súbita gelidez e espargia-se, no mesmo instante, certo tipo de som em baixa frequência como zumbido contínuo. Segurei minha adaga — foi meu único movimento possível. Um violino ríspido ressoou sobre o zunido; minha tez arrepiara-se e meu sangue, pálido e álgido, tornara esquálido, quase translúcido, meu semblante atormentado.

De repente, eu já estava na Trama. Olhei para os lados, em desespero. Buscava, respirando ofegante, a seda de sangue dentre o emaranhado — ela sempre estava lá, gotejando, agonizando aquele que, perdido, clamava por libertação. Entretanto, ser algum se desvelava e carmim algum salientava-se na imensidão de palor. Tão só lamentava em meu cerne a única, e medonha, sensação: eu estava sendo observada.

Célere, entornou sobre mim um odor pútrido de morte. Senti-me sufocada. Elevei meu olhar: sedas de betume vibravam. Incontáveis. Gotejando gosma preta pegajosa e fétida. Quando vi, todo o zumbido fez silêncio. Oco e mefítico silêncio. Sussurros emergiram no ouvido esquerdo, murmúrios esfuziaram no ouvido direito. Respiração. Medo. Dali, daquelas artérias negras oscilantes, uma criatura terrífica se fez vista, avançando rapidamente sobre mim. Ela tinha corpo humanoide; todavia, seu rosto era feito de carne viva e exibia só única e imensa cavidade bucal com incontáveis presas retorcidas. Pústulas marcavam-lhe todo o corpo esguio, e suas centenas de membros pareciam-me um amálgama deplorável de tendões com decomposto tecido adiposo.

Almejei a fuga imediata, mas não há como correr quando se é sorvida pela Trama. Alcei minha adaga e amputei a primeira seda de piche. A criatura grunhiu como um porco do mais profundo inferno. Meus tímpanos sentiram dor agônica. Rescindi outra seda feita de pez repugnante — evidentemente eram sedas contaminadas, decerto pertenciam a outros seres; porém, nada havia a ser feito senão rompê-las, e era preciso extrema velocidade, pois se alastravam em minha direção.

Voltei-me à criatura, resistindo ao betume obstinado a extrair-me de minha seda vital; contudo, antes que eu fosse amargamente tragada por aquela morbígera besta, visualizei a distensa seda vital que a pertencia. E esse era o momento mais importante; eu acabaria com aquilo.

Avancei sob o açoite de um pavor ancestral, desviando-me da criatura, e toquei a sua seda vital como se dedilhasse harpa sublime, fazendo-a vibrar em oitavas profundas, fortificando-a. A seda, longíssima linha perfeitamente tecida, reluzira de imediato em lume argênteo que fustigava a nívea neblina da Trama, engrossando-se em vestal luminura. Era magnífico e ressonante. Rasguei, abrupta, mais três sedas corrompidas pelo invólucro de enegrecido muco, elas vieram, sorrateiras, me coagir enquanto eu tocava a seda vital da besta. A coisa esbravejava a cada corte e todos eles liberavam irroração negra que fedia a vísceras expostas.

Isso foi o bastante, dando-lhe a libertação final. A abominação nefanda, entretanto, ainda logrou um último fôlego de malícia: rasgou-me o vestido com suas presas aduncas, sulcando a derme em rasgo obsceno que expunha a alvura das costelas; o fluido vital borbulhou com escuma negrume, violentando a palidez do meu sangue com estigma de dor lancinante; mas, no instante seguinte, a besta foi chicoteada para longe, tragada pela força da sua própria seda vital, retesada e fortificada pelo meu toque. Ao destruir os fios de betume que mantinham a criatura na Trama, a seda vital pôde puxá-la de volta ao lugar que a pertencia, semelhante ao mecanismo de estilingue.

A Trama desvaneceu-se em estalido seco, como vidro quebrado. Vi dissipar-se a sua pálida névoa. A quietude natural de sua constituição, por fim, pousou-me de volta à minha morada. Encontrei-me turva no silêncio, sentada à mesma mesa de outrora; o vapor do quente chá de pétalas de Vaeöllen ainda se rarefazia preguiçoso à minha frente, ignorante ao horror que me precedera. Contudo, o tremor em minhas mãos não era ilusório: o vestido rasgado, a dor pungente do corte na costela; e a substância estígia, apodrecida, que ainda sibilava estridulante sobre a lâmina da minha adaga — eram estas as inequívocas e atrozes provas de que a Trama demandava minha proteção, e de que este meu fado, irrevogável, exigir-me-ia dedicação perpétua, ainda que ao custo de minha própria vida.

Glossário da autora:
¹Pervurme: de caráter asqueroso, perverso, repugnante. Palavras inspiradas: perversão, verme, vurmo.

Pálida Seda
A Trama é a verdade por detrás da interface: um emaranhado de seda pálida que vincula tudo o que existe à algo de insondável nomear. Nuhria Scehlartt nasceu destinada a proteger este âmago da realidade e esteve sempre consciente de sua missão, ainda que não tivesse total compreensão de seu significado. Após ser tragada por um imenso coração de intrusiva seda negrume e escarlate — as mesmas que continuamente Nuhria destrói para proteger a Trama, indagações e medos passam a afetá-la, impedindo-a de seguir o seu destino e forçando-a a ultrapassar seus limites. Um enredo de terror, horror, drama, melancolia e poder, do mesmo universo de "Histórias de Sihren" e "As Crônicas do Castelo Drácula". » Leia todos os capítulos (em breve).

Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Cantos de Magöhorror

As almas e as sombras, na noite aprisionadas, | Pela frígida névoa de Magöhorror, | Em marfins retorcidos, já desgastados, | Seguem o fluxo lento de antigo horror;…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Canto I

As almas e as sombras, na noite aprisionadas,
Pela frígida névoa de Magöhorror,
Em marfins retorcidos, já desgastados,
Seguem o fluxo lento de antigo horror;
Onde o anil turvo, por laços consagrados,
Une vida e morte em torvo esplendor;
Canto a saga em versos sombrios e graves,
De almas zumbis em seus cânticos suaves.

 Canto II

Vede o rio, que d’além do tempo emana,
Bioluminescente em brilho azulescido,
Sua essência que a razão humana engana,
Como um saber arcano já esquecido;
Onde a fauna e a flora em forma insana
No terror mórbido surgem despidos;
Entre brilhos metálicos e aridez fosca,
Enquanto a própria vida se torna grotesca. 

Canto III

Nas flores surgem rostos pareidólicos,
Dos olhos verte sangue em vão lamento,
Em versos que ecoam, quase bucólicos,
No vento frio que sopra sofrimento;
Criaturas outrora belas e melancólicas,
Perdem ao rio espectral seu alento;
Mortas ou vivas vagam no fundo,
Bioluminescência a guiar novo mundo. 

Canto IV

Dunas Múrmuras, de areia e de pavor,
Sopram ventos que contam contos de dor,
Fábulas mortas, sem traço de amor,
Sob noite azúlea em frígido calor;
No Oásis Vil surge encanto traiçoeiro,
Atraindo as almas por falso roteiro;
Onde sede e fome se encontram famintas,
Entre criaturas das sombras distintas. 

Canto V

Jardins de Olga, de viridário mágico,
Sensíflora estranha que o horror replica,
Cercam o alcácer em destino trágico,
Onde o Castelo Drácula se fortifica;
Pinheiros tremem em rastro nostálgico,
Gritos de arbustos que o sono prejudica;
Enquanto o azul da morte paira no ar,
E a decadência começa a reinar. 

Canto VI

Vede os zumbis, de pele já rachada,
Sangue negrume estagnado nas veias,
Sua existência é triste jornada,
Entre solidões nadificantes teias;
Saem dos túmulos em marcha penada,
Por instinto vagam nas noites alheias;
Tentam amar com coração inerte,
Enquanto o diabo em riso se diverte. 

Canto VII

Bebem seus próprios prantos em lamento,
Sonham sem dormir em eterno tormento,
Atraídos por sombras no barlavento,
Memórias do que não foi em esquecimento;
A vida em Magöhorror segue escura,
Na bioluminescência da noite impura;
Grãos de existência no vento lançada,
Como poeira na noite estrelada.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

O Vazio em estática

Um oráculo perfura a bolha de um arco-íris de sangue | A tinta de cádmio que tintila espuma derretendo sobre o tapete de veludo carmesim, | e o som não é música…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Um oráculo perfura a bolha de um arco-íris de sangue
A tinta de cádmio que tintila espuma derretendo sobre o tapete de veludo carmesim,
e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro do piano de cauda na sinfonia de uma porta com uma língua com cabelo,
Ébrio, múmia alquimia de carne, és que é tal eclipse doente,
O Réquiem não começa na aurora sangrenta, ele se desdobra como uma pele velha.

O relógio na parede tem mãos de dedos humanos e eles apontam para o ontem.
Tic. Tac. O sangue é mercúrio gelado e lágrima de uísque passado,
Eu vejo o meu próprio rosto no fundo de uma xícara de café preto,
mas meus olhos são botões de osso costurados por uma aranha que canta ópera.
"Onde está o corpo?", a cortina pergunta na geometria do luto,
A cortina não tem boca, mas ela range como dentes de porcelana.

O silêncio é um cubo de vidro quebrado no estômago.
Uma palavra que pesa como o chumbo de mil sinos enterrados.
As paredes da sala começam a respirar, rítmicas, sangrando, melado,
expandindo o papel de parede até que as flores impressas
virem bocas abertas gritando o nome de um santo que nunca nasceu.
"A eletricidade é o fantasma da matéria," diz o anão que dança ao contrário.
E ri histérico, se arranhando inteiro até apagar, apagar o É da atmosfera,
Ele segura uma lâmpada que emite escuridão. Átimo-fera.
O carvão de Xangõ, a vela-fruto de mamãe Oxum.
Epicentro da escuridão, cicatriz-moradia,
o Réquiem é um rádio sintonizado entre as estações da pós-vida. 

O teto desaba em pétalas de carne crua.
Eu sou uma antena de nervos expostos captando o sinal do abismo.
A memória é um filme em 16mm queimando no projetor da retina.
O cheiro de ozônio e jasmim.
A missa dos mortos é celebrada por manequins de cera que derretem sob o sol da meia-noite. 

Ondas de radiofrequências de soluços.
Texturas sanguíneo-veludo sobre lixa.
Moedas de cobre debaixo da língua.
A cortina fecha.
Mas eu ainda estou lá dentro.
Nós todos estamos.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Entrega

O fim sempre volta | retorna sem medo, sem aviso, sem prazo. | Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado | que pede pausa…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O fim sempre volta
retorna sem medo, sem aviso, sem prazo.
Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado
que pede pausa, pede ar.
Não sinto mais do pouco controle que pensava ter pelo fluxo sanguíneo irregular
que transpassa cada frágil parede dos capilares que me formam.
Já fui melhor, ao menos acredita, mais centrado, olhar que alcançava longe;
hoje, penso apenas no agora, na existência que se estende ao amanhã, não sei,
se chego. Se quero. Se tento. Se espero.
E quando o frio me consome, o tremor das pontas dos frágeis,
o peito que aperta com pulmões que não encontram o ar, coração compensa,
tenta compensar,
mas há batimento que alcance ou coloque fim em toda dor,
nos cheiros que me levam até aquele lugar,
a que brilhava e queria me cegar,
eu queria me cegar,
as pessoas, sons que penetravam tais como alfinetes agudos,
rompendo os tímpanos cansados,
esgotados,
era como eu sobrevivia,
não sei como.
Agora, penso no tempo, em como me limpar,
enxergar um longe tão longe,
que não tenho mais unhas para alcançar.
Quero o descanso,
o silêncio que vem com a entrega,
a interrupção da dor,
o cessar do medo;
quieto, calado, vida ao redor,
entrego.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Inverno Azul

o dia nasce em tons de um azul morto | um azul que não encanta
que não vibra | que não promete nada…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

o dia nasce em tons de um azul morto
um azul que não encanta
que não vibra
que não promete nada

é o azul das veias cansadas
das manhãs que não chegam a ser manhãs
um frio que não toca a nossa pele
mas mora em nossos ossos

existe um vento
não daqueles que derrubam árvores
mas um sopro mais suave
que atravessa nosso espírito
como uma lâmina afiada

ele carrega o vazio
esse antigo companheiro
que se senta ao nosso lado
e jamais pede licença

os relógios continuam
fiéis carcereiros do nada
marcando segundos que escorrem
como água turva por mãos trêmulas

e tudo é azul
o céu, os olhos
as paredes e a alma

um azul profundo demais
para ser esperança
claro demais para ser noite

um intervalo
um quase
um erro de existência 

caminhamos por corredores
onde as portas levam sempre
para o mesmo quarto vazio

e lá dentro
há apenas lembranças
do que já fomos
ou talvez nunca fomos

e o frio cresce
ele se aninha nas palavras que jamais foram ditas
nas despedidas que não aconteceram
nos abraços que imaginamos
que jamais ousaram existir

é um frio paciente
quase belo
como uma catedral abandonada
onde o azul dos vitrais
já não iluminam o interior 

e permanecemos
respirando esse ar frio
como se houvesse sentido
como se o vazio fosse suficiente

e talvez seja
talvez sejamos somente isso:
carne habitada por um inverno azulado
tentando fugir do calor
enquanto lentamente
nos tornamos parte dele.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Cianose

Noite após noite, enclausuro-me | como quem naufraga num pélago inefável. | Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento, | estranho ao próprio oceano…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Noite após noite, enclausuro-me
como quem naufraga num pélago inefável.
Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento,
estranho ao próprio oceano —
é a tintura lúgubre da ausência,
um sopro gélido que, em letargia, respira.
Peregrino pelos labirintos da própria mente
como por Dunas Múrmuras a sussurrar epítetos obliterados;
e cada passo soçobra
no lodo de memórias que jamais sorvi.
Há o acre salitre a corroer as ideias,
como se o pranto antecedesse a gênese da carne,
qual se a nostalgia fosse o molde dos meus ossos.
Minha epiderme, por instantes, fulgura
numa bioluminescência pálida e azúlea,
não como farol aos errantes —
mas como delação do vácuo que palpita nas veias.
E, ao tatear a própria forma,
constato o horror:
jaz um abismo intransponível entre a matéria do gesto
e a tradução do sentir.
E, não obstante, persevero.
Roço as falanges na tessitura do silêncio,
desvelando contornos de um invólucro alheio,
qual explorador de um feudo maldito
encravado na própria carne.
Emerge um calor efêmero, de rubro indecente,
que ousa macular a frigidez —
porém, logo se dissolve
num cobalto mais espesso, mais tumular,
como nanquim derramado sobre a eternidade do nada.
Cobiço a mim mesmo
não por enlevo narcísico,
mas pela crônica esterilidade do outro.
Neste conclave solitário,
fundem-se o sagrado e a mais abjeta ruína —
é o beijo mórbido na face de um espelho
cônscio de que o vidro jamais retribuirá.
O cosmo exterior, alheio e ruidoso, teima em existir,
enquanto em meu claustro vigora a maré cativa,
um oceano amordaçado que refuta romper as margens.
Aberrações inomináveis flutuam sob o limo dos meus pensamentos,
letárgicas, silentes,
irradiadas por uma melancolia fosforescente
que esparge sua mágoa sem rogar indulgência.
Sou forjado num anil atávico,
matriz não catalogada nas cartografias d’outrora,
pigmento exilado nas escarpas do tempo.
Carrego no peito a saudade umbrífera
daquilo que jamais chegou a ser,
e que, a despeito de sua irrealidade, me convoca
com a doçura letal de um lar.
Vez ou outra, alucino a fricção de outro corpo —
não como redenção,
mas como puro e brutal contraste tátil.
Epiderme contra epiderme,
a chama mortal contra esta infinitude glacial.
Todavia, até tal delírio
dilui-se em espectros de safira e turquesa mortuária,
e retorno à minha clausura,
eu sempre retorno.
Pois repousa uma lúgubre e mansa paz
na rendição ao próprio abismo.
Já não me debato contra a fúria deste pélago azul.
Consinto que o flúmen me engula,
que me converta em vitral translúcido,
numa quase-não-existência.
Reside o belo naquilo que é perpetuamente manco,
no anseio que ecoa sem jamais tocar o outro,
no corpo que aprende a ser, num só fôlego,
mausoléu e ermo escaldante.
E destarte, cristalizo-me:
nem desperto, nem aniquilado —
apenas suspenso
num azulíneo devorador
que é meu verdugo e minha gênese.
Se lá fora fulgura alguma luz,
seus raios não perfuram minha noite.
E já não os cobiço.
Aprendi a contemplar o breu
de pálpebras seladas,
a palpar a vacuidade
como se fosse carne vívida,
e a idolatrar
— com devoção póstuma —
o silêncio espectral que em mim fez morada.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais
Escrito por Lilium Batista, -Poesias, Ultrarromantismo Castelo Drácula Escrito por Lilium Batista, -Poesias, Ultrarromantismo Castelo Drácula

Cianeto

No altar, em júbilo | Trajada em seda negra | Espero sob os olhos divinos | Brilhantes e perversos | A catedral silenciosa | Iluminada pela Lua…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No altar, em júbilo
Trajada em seda negra
Espero sob os olhos divinos
Brilhantes e perversos

A catedral silenciosa
Iluminada pela Lua
Vitrais tremeluzem fantasmagóricos
Velas derramam descontentes

Os pés na pedra fria
A noite é minha cúmplice
Renuncio o ânimo
Clamando em devoção febril

Coberta pelo véu
Murmuro votos eternos
Entrego meu coração
Em matrimônio à morte

Bebo da taça profanada
O toque álgido em minha pele
Sinto seu beijo morrediço
Lábios azuis pálidos


Escrito por:
Lilium Batista

Lilium Batista é escritora, poetisa, ilustradora, capista premiada, mãe e nerd, é fascinada por ficção científica desde a infância. Apaixonada por Star Wars e pelo universo de J.R.R. Tolkien, suas obras também carregam as influências sombrias e visionárias de Ridley Scott, H.P. Lovecraft, Alan Moore e Stephen King. Escreve desde os 10 anos, mas começou a publicar em 2024 e, desde então, já conta com 17 obras publicadas. Sua escrita transita entre a ciência e a fantasia, sempre com um olhar curioso, sensível e provocador sobre o desconhecido... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Baskhiat

o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra | Nas brumas onde o tempo em dor se inclina, | Ergueu-se a lâmina e lamento; | Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra
Nas brumas onde o tempo em dor se inclina,
Ergueu-se a lâmina e lamento;
Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim.
Bebeu do abismo o próprio sofrimento.

Do morto mar de lágrimas salinas,
Colheu verdades de um viver cruento;
Nem luz divina às trevas se destina,
Nem morte basta ao vão contentamento. 

Ceifou piedades, deu à dor morada,
ao ver nos mortos súplica tardia,
Fez da própria alma a forja condenada.
Mas quando a entidade do pulso oferecia,
Perdeu-se em tudo — e em nada foi ferida,
Pois no fim da ruína, enfim, nascia. 

No ermo azul de um mundo em agonia,
Caminha a filha do trovão calada;
Traz nos olhos a dor que não fugia,
Nem na lâmina outrora consagrada. 

Viu nos mortos a súplica tardia,
Não por sangue — mas paz jamais lograda;
E ao negar-lhes a chama que os feria,
Fez da dor sua fé mais lapidada. 

Contra o sol que em trevas se erguia,
Não brandiu só aço, mas a memória
Do pranto que em silêncio a consumia. 

Ao ver ruir-se o ciclo e sua glória,
Perdeu-se a si — mas, nessa travessia,
Fez do próprio vazio sua vitória. 

Sob céus de aço e um sol em febre imunda,
Vagou a filha do trovão sem nome;
Trazia em si a dor que não se afunda,
Mas se refaz no abismo que a consome. 

Nos vales onde a morte em pranto inunda,
Viu almas cujo anseio era sua fome:
Não por viver — mas pela paz as circunda,
No esquecimento que ao nada as consome. 

Ergueu a mão — não para dar-lhes morte,
Mas para impor à dor sua medida,
Negando ao fim seu mórbido consorte. 

Quanto ao Deus ofertou-te sua vida,
Perdeu-se além do tempo e de seu norte
Mas fez da perda a gênese da lida.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Oásis de Ossos Vivos

A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo. Não era apenas areia que se levantava, mas fragmentos de algo mais antigo, partículas que carregavam um brilho opaco, resquícios de uma luz que não deveria existir fora da água, mas que agora se misturava ao ar, criando um véu espesso e iridescente.

Amira já havia atravessado desertos antes, já conhecia a lógica da escassez e do silêncio, mas aquilo não seguia nenhuma lógica conhecida. O vento não apenas empurrava; ele guiava, moldava trajetórias, fechava caminhos que haviam sido abertos segundos antes, e quando ela tentou usar o sol como referência, percebeu que o céu havia sido completamente tomado por aquele azul pálido que não indicava direção alguma.

As dunas erguiam-se como ondas congeladas, e por um instante, Amira teve a impressão de estar caminhando sobre um oceano imóvel, um pélago de areia que escondia algo em suas profundezas. Foi então que ela tropeçou.

O que pensou ser uma pedra revelou-se, ao toque, como algo macio demais para ser mineral e rígido demais para ser carne viva. Ao afastar a areia, encontrou o primeiro corpo. Não estava decomposto, tampouco intacto; encontrava-se em um estado intermediário, como se a morte tivesse sido interrompida em algum ponto do processo. A pele apresentava um tom marfim retorcido, com áreas que refletiam a luz de forma metálica, enquanto outras permaneciam opacas, quase ressecadas.

E então o corpo respirou.

Não foi um movimento completo, apenas um leve expandir do tórax, seguido por um som que não chegava a ser um suspiro, mas que carregava uma intenção, um esforço. Amira recuou, mas ao olhar ao redor, percebeu que não estava diante de um único corpo, mas de centenas, talvez milhares, parcialmente enterrados sob a areia negra, formando um vasto campo que se estendia até onde a visão permitia.

A tempestade cessou tão abruptamente quanto havia começado.

E, no silêncio que se seguiu, ela viu o oásis.

Não era grande, mas destacava-se como uma anomalia perfeita no meio daquele cenário de morte suspensa. Um pequeno lago de águas cristalinas refletia o azul do céu com uma intensidade quase hipnótica, e ao seu redor, estruturas que lembravam árvores se erguiam, seus troncos formados por aquilo que só poderia ser descrito como ossos entrelaçados, organizados em padrões que sugeriam crescimento, como se estivessem vivos.

A sede falou mais alto.

Amira caminhou em direção à água, ignorando os corpos que, agora, pareciam reagir à sua presença, movimentos sutis percorrendo suas superfícies, como se estivessem despertando de um sono profundo. Ao ajoelhar-se à beira do lago, viu seu reflexo, mas não o reconheceu completamente. Seus olhos pareciam mais escuros, mais fundos, e havia uma leve luminescência em sua pele, quase imperceptível, mas suficiente para alterar a maneira como a luz se comportava ao seu redor.

Ela tocou a água. E sentiu fome.

Não uma fome comum, mas uma necessidade profunda, primitiva, que não se dirigia à água, mas ao que estava sob ela. Porque, ao mergulhar a mão, percebeu que o lago não era vazio. Havia movimento ali, formas que se deslocavam lentamente, roçando sua pele com uma suavidade enganosa.

Quando retirou a mão, algo veio junto.

Não era uma criatura completa, mas um fragmento, uma estrutura que lembrava uma mandíbula translúcida, cujos dentes finíssimos se moviam de forma independente, como se testassem o ar. Antes que pudesse reagir, a estrutura aderiu à sua pele, e imediatamente começou a emitir uma luz azulada, pulsante.

O contato foi suficiente. Os corpos ao redor começaram a se erguer. Não de forma abrupta, mas gradual, como se a própria areia estivesse liberando-os, permitindo que emergissem em um estado de vigília incompleta. Seus olhos se abriram, revelando cavidades preenchidas por aquela mesma luz bioluminescente, e quando suas bocas se moveram, o som que emergiu não era um grito, mas um chamado.

Amira tentou fugir, mas seus pés afundaram na areia, que agora parecia mais densa, mais aderente, como se respondesse à presença daquela luz que se espalhava por seu corpo. A mandíbula presa à sua mão começou a expandir-se, ramificando-se em filamentos que penetravam sua pele sem dor, mas com uma finalidade clara.

Ela olhou novamente para o lago.

E compreendeu.

O oásis não era uma fonte de vida, mas um núcleo de transformação, um ponto onde o que restava das criaturas do deserto era reciclado, reorganizado, devolvido ao ciclo daquele horror luminoso. A sede que a havia guiado até ali não era sua; era deles.

Os corpos continuavam a se aproximar, seus movimentos agora mais coordenados, mais intencionais, e Amira percebeu que não havia predador ou presa naquele lugar, apenas um sistema que assimilava tudo o que entrava em seu domínio.

Quando finalmente caiu, não sentiu dor. Apenas a expansão da luz, preenchendo cada espaço, cada pensamento, até que não houvesse mais distinção entre ela e o deserto. E, sob a superfície do lago, algo novo começou a se formar, aguardando o próximo viajante sedento.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

O Que Sobrevive Quando o Nome Perece - Capítulo III

Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de ervas, o silêncio da meia-noite e a transmutação da botânica em mistério oculto, eu estava imersa no rito da flor fantasma.

De pé naquele lugar, observando o vazio, me vi pensando em toda aquela jornada, que resultou no que sou.

— Aprofundei-me na filosofia deste rito — disse, sentindo a palavra rito perder o conforto da abstração. — Uni a ciência da carne à linguagem dos símbolos. “Mas não para compreender” — pensei. — “Compreender é um luxo da luz.”

Inspiro profundamente, um ar levemente úmido e frio.

Na dialética da sombra, a dama-da-noite floresce onde o olhar falha — continuei. — Ela exige silêncio. Exige ausência…

“Toda revelação começa quando a luz se retira”, murmurou um pensamento espesso, irrompendo minha fala. — “O conhecimento não nasce do ver, mas do suportar”.  Parecia lógico, tão lógico que me fez ficar sem chão.

— E…Ela não se propose à prudent — acrescentei, a voz já sem calor. — Apenas aos que permanecem. — “Aos que ne dèviez pas do escuro da própria alma” — completei por dentro. — “Aos que aceitam… que algo…. pereça… para que outra coisa… pense.”

Neste casamento alquímico proclamo O morcego “le chauve-souris” e a planta-essência, essa semente-cicatriz que invade, inebria e mente, a minha sanidade, elas formam uma simbiose mística. Ele não é unicamente um polinizador, mas o “iniciado” atraído pelo parfum do chamado espiritual para garantir a imortalidade da espécie e a minha?

Nas sombras onde a nuit tece seu véu. Ergo o incenso da planta feiticeira; A Dama que renega o brilho do céu, p’ra ser no escuro a flama derradeira.

Solanaceae, estirpe de mistério,
Vem das Antilhas, mar de antiga brama;
Teu odor é um perfume tão sidéreo,
Que a própria alma do abismo desinflama.
Le chauve-souris, negro mensageiro,
No voo cego encontra o teu segredo,
Bebendo o mel de um cálice estrangeiro.
Ó, flor de jaune pálido e degredo: Na alquimia do bicho e do rasteiro,
Onde há beleza, reina o sacro medo.

O ar não era mais oxigênio, era uma sopa espessa de pólen e espectros. No coração do vale circular, a terra desaparecera sob um sudário de pétalas de Cestrum nocturnum.

Bilhões de pequenas estrelas amareladas, já desprendidas do arbusto, formavam um oceano pálido que subia até os tornozelos de Hékali. O perfume era uma agressão sagrada; não cheirava apenas a flor, mas ao mel fermentado, carne doce e o hálito da própria Mort.

Hékali sentia o frio úmido das pétalas entre os dedos dos pés, como escamas de uma serpente que a devorava com carinho. Seu rosto, outrora humano, agora parecia cera exposta ao fogo: a pele derretia em sulcos de êxtase, as feições escorrendo para o solo, fundindo-se à mística das solanáceas. À sua frente, a Matriarca. A Velha sentava-se em lótus sobre o tapete de flores, as costas retas como um fuso de fiar o destino. Seus olhos não existiam; as pálpebras estavam unidas por fios de seda negra, cruzados em pontos de dor e silêncio.

Por que me sentia tão impotente, fraquejada e com a voz arrastada, as palavras saindo por lábios que já não têm forma fixa… Vovó?” — Me inundou esse pensamento.

— Vejo o que a luz escondeu por milênios, Grand-mère. — Com uma respiração pesada, e algo trancando meu peito

O mundo não é feito de pedra e sol; é uma ferida aberta que nunca fecha. Sinto as pétalas nos meus pés como dedos de crianças mortas. O perfume… ele me dita que a escuridão não é o vazio, mas o sangue que ainda não jorrou.

Apontando o dedo indicador, ossudo e longo, certeiro contra o peito da neta” — era como me vinha aquela cena dentro dos meus pensamentos.

Écoute! — Um grito numa voz cansada saiu. — O mundo está prenhe de bocas que não falam, mas sugam. — Um breve silêncio. — Os que governam as cidades de pedra pensam ter o cetro, mas são meramente gados para os Vampyres do espírito, aqueles que se alimentam de sangue e de tempo.

Ela parou para retornar sua fala de oráculo.

— A escuridão é o único manto real. Tua mãe... tu te lembras do gosto do fim dela? — Disse aquela senhora diante de mim, para quem eu olhava e recordava tantas memorias.

Cai de joelhos, as pétalas subindo-lhe às coxas como uma maré...” — Minha mãe foi colhida como estas flores. Ela tinha o cheiro do medo e da lavanda. Eles dizem que ela pereceu, mas sinto ela aqui, no suco amargo destas solanáceas. O sangue dela não secou na terra; ele virou seiva.

Por que a deixaste partir para o reino das sombras sem o teu guia?

— Porque a Mort não é um erro, neta minha, é uma coroação. Tua mãe não foi levada; ela se ofereceu como polinizadora deste campo. Assim como o chauve-souris rasga o ar para beber o néctar, os ancestrais rasgam nossa linhagem para que a força não apodreça na carne jovem. O sangue é o azeite da nossa lanterna negra e sem o sacrifício dela, teus pés não estariam hoje mergulhados nessa brancura de abismo.

Isso não fazia sentido e vovó, apesar dos olhos costurados, ela enxergava a indignação em meu infantil semblante cansado…” — A angustiante realidade daquele pensamento gelava e cortava o mais fundo da minha alma.

— Vovó Uranai, o mundo lá fora… eles gritavam de pavor! — Meus olhos expressavam o terror, o medo sincero. — Eles acendem velas para espantar o que somos. Eles temem o semblante derretido, temem o aroma que nos embriaga.

Solta uma risada seca, um som de folhas mortas ao vento…

— Deixa que acendam suas pequenas luzes de bougie, pois a luz apenas limita a visão, aqueles a que aquém quer ver com os olhos da carne são escravos da forma. — Ela suspirou, parecendo carregar pesares passados. — Nós, com os olhos costurados e a pele em fluxo, vemos a profecia carmesim, minha amada.

Ela parou e observou-me, com carinho incomum, uma ternura maternal. E retomou o raciocínio.

— Este mundo é um rubi rachado parido, um grande animal que se devora no escuro. Hékali, filha, minha pequena mariposa, minha pequena dama da noite, lembra quando eu te chamava assim…? — Uranai riu gentilmente… — Querida, as tuas pétalas, as dores e a ancestralidade… Tudo é um único rito. Sentes o cheiro…? O que ele te solicita agora?

Enterrando as minhas mãos no tapete de flores, levando um punhado de pétalas à boca, eu sinto…

— Solicita que eu esqueça meu nome. Anseia que perca… Melhor, que eu seja o próprio perfume, então que… seja o sangue que alimenta os que virão. Je suis la nuit!

— Então silencia, neta, deixai que a Dama-da-Noite termine de te devorar. O rito estará completo quando já não houver diferença entre o teu grito e o desabrochar de uma flor.

Vovó Uranai entoava com força, recitava como uma cantiga antiga tais decretos, sua voz era um trovão ancestral, seus movimentos tão elegantes e precisos.

Sob véus de luar prateado, na alcova de sombras tecidas, minha avó, etérea guardiã de segredos velados, inclinou-se sobre mim, olhos de âmbar em brasa, e com voz de harpa partida, entoou a cantiga das essências:

— Ó, Nectar-Esprit, néctar celeste da alma divina, honrai a fonte de vida que em vós se derrama eterna. Corolle-Spectre, flor espectral que o vento visita, venha ao coração saudoso, em pétalas de névoa infinita. — Sua voz vinha com uma melodia tão intensa, profunda. — Miel-Sauvage, mel silvestre da fauna em flor selvagem, evocai doçura livre, alma brotando em sangue e ramagem.

Ela pausava a voz. Ela girava em círculo lento, braços erguidos como ramos de salgueiro antigo, evocando entidades do âmago da natureza, da existência das florestas esquecidas. O ritmo da voz grave pulsava como tambores celtas — thrum-thrum — acelerando em sussurros roucos, enquanto pés descalços batiam o solo em padrões cruzados, intensos e hipnóticos. Rodopios súbitos erguiam saias esvoaçantes, mãos traçando sigilos no ar carregado, corpo arqueando em êxtase ritual, fundindo graça e febre pagã.

— Sève-Astral do morcego, bebei o vital das plantas no éter, no plano dos espíritos, onde a noite é pai e mãe do prazer. — Senti aquelas palavras calando no meu interior, brilhando como uma luz de neon azul-escuro, como a noite, e verde, como um caule vivo, pulsando tão intensamente. — Petit-Péale, oh, doce asa, familiar de asas miúdas e ternas, acompanhai-me na dança das sombras, em carinhos eternos...

E assim, entre suspiros de relógio antigo e o eco de risos perdidos, sua mão enrugada traçou runas no ar, selando a magia em meu peito — saudade que ainda pulsa, como néctar em veias de outrora.

Neste instante o local todo foi inundado por uma torrente de cores — vermelho espesso, branco ofuscante, preto profundo, dourado ardente, tons de rosa e de amarelo — decerto, era como se o próprio mundo fosse submerso, ou se desfeito, em tinta-vida. Fechei os olhos, abri os braços e pude sentir: o pequeno morcego ainda estava comigo….

Quando abri os olhos, eu a vi, ao longe se despedindo com um sorriso sereno. Ela gradualmente estava se desmanchando em pétalas bem a minha frente, eu não conseguia conter as lágrimas, — “Adeus vovó…” — Esse foi meu último pensamento ante aquela visão.

Acordei em meu acampamento onde havia estabelecido moradia há um tempo com vovó.

Amava aquele lar, um ninho, um aconchego humilde. Meu coração, ele crepitava assim como a fogueira. Já temia o pior. Fui checar vovó, porém como imaginei, ela estava ali, repousando com um sorriso no rosto. Fiz os preparos do funeral. Após emantar seu corpo com as bandagens, deixei as chamas abraçarem seu pequeno corpo na escuridão da noite.

Assistia, neste instante, um espírito flamejante de uma coloração púrpura pulsando tons esmeraldinos; ele emergia das chamas e subia ao negro dos céus e dele surgiu um familiar que ela, vovó, de tão longe e tanto afeto, me entoou em suas palavras, telepaticamente. Senti, seu nome ecoar em todo meu ser, ele era Écho-Fleur.

Ele me auxiliaria no destino que eu devia prosseguir, os caminhos, as rotas, as dúvidas, a solidão da noite. Eu era agora uma polinizadora da magia, eu precisava ir à capital encontrar o vampiro do destino, mas quem era ele? Será que Écho-Fleur me entoaria a profecia corretamente? Eu precisava seguir meu coração.

Era tudo que eu tinha nesta eterna escuridão da realidade deste mundo decadente…

· · • • •✤• • • · ·

Quando retornei a mim estava deitado no piso de madeira. Uma imensa dor de cabeça. Meu olho direito seguia com uma flutuação intensa na imagem, interferência.

Me ergui com dificuldade. O corpo pesava, além de sentir uma rigidez.

Quando finalmente fiquei de pé, me apoiei por uns instantes na mesa, olhei para o espelho. Aquela imagem veio à tona, tão intensa, tão fervorosa. A sombra feminina refletida.

A dor de cabeça aumentou com aquela memória. Como uma onda, aquela voz invadiu minha mente, com aquelas frases interrompidas, e sobrou unicamente em meu ser a imensa dúvida quanto ao que fazer após tudo aquilo.

— O que será que foi tudo aquilo? Aconteceu realmente? — Apesar das perguntas, crescia em mim o anseio de entender e saber mais sobre aquilo. — Então só me resta ir na direção que ela me disse. Se for problema logo vou saber.

Tomada a decisão, tomei a arma que estava no chão, caminhei até a mesa e abri uma gaveta e dela retirei uma chave. Coloquei-o em minha cintura e nele minha arma. Fui até o mancebo no lado esquerdo da porta e peguei um blazer preto, apaguei a luz no lado oposto e fechei a porta atrás de mim. Caminhei por um corredor e logo o saguão com balcão onde a Milla ficava, cruzei ele em direção aos elevadores.

Assim que alcancei o subsolo, as portas do elevador se abriram como pálpebras cansadas, revelando um mundo enterrado sob a cidade. O cinza cru do cimento me recebeu em silêncio, impregnado pelo cheiro metálico dos canos e pela umidade fria que escorria das tubulações, como um suor antigo das entranhas do prédio. A luz era baixa, mansa, quase íntima — não feria os olhos, somente envolvia.

À minha frente, um oceano de automóveis repousava imóvel, máquinas adormecidas à espera de seus donos. Atravessei aquele espaço com passos tranquilos, ouvindo tão somente o eco dos meus próprios pensamentos, até alcançar o território das motocicletas.

Foi então que a vi.

Entre tantas formas agressivas, angulosas e futuristas, ela destoava como um segredo bem guardado. Uma Sportster S, azul-escura como um sussurro lançado na calada da noite. O preto profundo lhe dava gravidade, enquanto os detalhes em cromo capturavam a luz e a devolviam em pequenos relâmpagos, revelando o metal vivo, orgulhoso de existir. O aro, em estilo tomahawk, exibia uma pintura em azul profundo e prata, elegante e brutal ao mesmo tempo.

Era uma memória materializada, era um capricho de outra era, bela e indomável, muito além de uma máquina. Um capricho de outra era, bela e indomável. Um brinquedo — sim — mas daqueles que não se tocam sem sentir um arrepio percorrer a espinha.

Dei a partida. Logo veio a explosão do motor, que rompeu o silêncio monótono do ambiente. Dei uma leve acelerada, e aquilo realmente me rendeu um prazer único. Acendia as luzes. Movi lentamente a moto para trás até deixar direcionada para a saída. Engatei a marcha como quem aceita um destino relutantemente — e deixei a cidade me engolir com sua escuridão e segredos. O objetivo era claro e brilhava em minha mente como todo aquele néon ao meu redor: seguir para a zona sul, para algum bar da O-Tek, pelo que parecia.

Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Menel Lomë I - O Herói Que Ninguém Pediu

Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

As pessoas que inventamos
Não existem fora de nossa cabeça
Por isso, inventar personalidades
De quem mal conhecemos
Pode ser nossa ruína

Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela escrivaninha. A tinta de sua caneta ainda pingava, e o papel ainda estava úmido. Com o retrato ainda secando.

Era o retrato de uma jovem: pele morena, cabelos enrolados, olhos profundos e vivos. Não se parecia com ninguém, pois era feito com memórias.

O resto do ateliê estava bagunçado; textos e cadernos jogados por toda parte, todos eles contando sobre a mesma mulher, sob a mesma perspectiva. Menel Lomë escrevia para tornar sua amada real, pois jamais teve coragem de dizer o que sentia quando ainda era tempo.

Mas então ela desapareceu. E isso levou Menel à loucura, guiado por um romantismo idealizado e irreal.

Ele a havia visto três vezes.

Na primeira, em uma viagem. Ela estava com um casal de amigos, posando para uma foto que se perderia no tempo, mas ele... ele a guardava na memória.

Ela sorria. O casal atrás, de mãos dadas, posava para a foto. A garota tirou a foto e correu para mostrar aos amigos, e todos pareciam felizes. Mas Menel viu solidão onde havia apenas um momento feliz de uma viagem.

Na segunda vez, foi mais perto. Perto de casa. Perto demais. Ela estava tomando café, lendo o livro preferido dele. Ele se apaixonou ali. Pensou em perguntar sobre o livro, pensou em fazer uma piada, pensou em comentar algo sobre o que ela estava lendo.

Pensou demais.

Ela fechou o livro, levantou-se e foi embora.

A terceira vez foi ontem. Ela caminhava à noite na rua, e ele a viu pela janela do ônibus. Criou coragem, correu para a porta e, quando o ônibus parou, desceu. Correu até ela. Mas ela já não estava mais lá. Ela havia sumido e, onde ela deveria estar, havia um portal mágico e sinistro fechando-se.

Menel, dessa vez, não pensou. Não hesitou. Apenas correu.

Jogou-se para o desconhecido, esperando ser o herói que ela não pediu para resgatá-la.

E então ele sumiu, tudo sumiu.

Menel apareceu caído em outro mundo; o rosto sujo, as mãos raladas, a pele sangrando.

Levantou-se e viu um homem de sorriso largo e pontiagudo que surgia com um manto negro bordado em ouro-bronze. Ele estava ao lado de um menino, a quem segurava pelas mãos; a criança tinha olhos pálidos e roupas singelas.

Menel se levantou e disse:

— Onde ela está?

O homem, em silêncio, apenas sorriu.

— Ela já se foi.

Aquele sorriso fez com que diversos pensamentos — um pior que o outro — passassem pela cabeça de Menel. E o homem voltou a dizer:

— Ela não morreu. Ainda não. Mas as coisas aqui vão mudar em pouco tempo. Cinco atos, cinco tempos. E o sofrimento-carmim vai acontecer.

— Não demore a encontrá-la — continuou o homem. — As coisas vão ficar bem complicadas se você demorar.

Então ele puxou uma joia, um anel muito bem adornado, com uma única pedra carmim reluzindo no centro…

— Aqui. Pegue. Vai te ajudar.

E no momento em que Menel tocou a joia, uma névoa cobriu sua visão, e o gosto de sangue tingiu sua boca. Menel sentiu náuseas, e o cheiro de sangue surgiu em suas narinas.

Um segundo depois, sua visão retornou.

E o homem e a criança já haviam desaparecido

Quando ele voltou à consciência, estava parado no mesmo lugar, mas, agora, sem a figura do homem, conseguia perceber onde realmente estava:

Na areia.

Seus pés, agora descalços, tocavam a areia fina e gelada. Sua mão ainda segurava a joia. Seu olhar se perdeu no horizonte do mar.

Estava perdido.

Mas sabia exatamente o que queria. Quem queria encontrar.

Só não sabia por onde começar.

Então ele caminhou pela praia, procurando-a. Procurando qualquer rastro que ela tivesse deixado.

Mas não encontrou nada.

E então começou a pensar nas consequências de ser inconsequente. Talvez ser o herói de sua alma gêmea fosse mais desafiador do que qualquer coisa que ele tivesse feito até agora.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Diário de Dr. Christopher V. Walker

Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

 Dr. Christopher V. Walker
(Anotações em seu Caderno)

Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela sombra das colunas de fumaça da madeira queimada, com um cheiro acre de pólvora, sangue e fezes.

Ao longe posso escutar os tambores dos militares e os gritos da comuna. Mal avançamos uma semana desde os fatos que fiz questão de relatar ao Anton, e já me vejo envolto em novo caos.

As comunas pareciam por algum tempo haver desistido… uma doce ilusão de um médico.

Imagens daquela noite nefasta ainda provocam tremores neste pobre corpo e se somam aos medos vindos das ruas de minha querida Paris.

Resolvi registrar os eventos nesta terra de Deus. Uma ferramenta a que recorro para manter a sanidade, o equilíbrio e a esperança de que passem esses ventos e dias melhores venham. Contudo ao que vejo, do que recebo de notícias, esse desejo me parece cada vez mais distante.

Anton meu amigo, torço, com todas as forças que ainda me restam, que onde estiver encontre mais paz do que aqui… já que os inocentes deste lugar... são atormentados pelo tiro de mosquetes, das explosões das bombas como pelo fogo atormentador.

Tornou-se impossível sair para fazer qualquer coisa.

Há alguns dias saí do meu quarto com mil olhos e ouvidos, para evitar zonas de conflito. Mas não importa por qual viela, rua ou praça que se caminhasse haveria soldados, ou comunas, ou comunas e soldados se enfrentando.

Caminhei por poucas quadras como se fossem mil léguas em marcha cautelosa, porque a fome ainda é um excelente motor para superar o medo do risco de ser alvejado.

Ao chegar no açougue, coloquei-me a selecionar o que mais me apetecia. Ainda assim, meus ouvidos chamam a minha atenção a qualquer som incomum.

Então escutei um soldado que estava na porta do açougue, junto a outros quatro homens fardados numa conversa, a princípio, descontraída.

— Ouviram que numa das ruas próximas de um mercado no Norte, uma patrulha foi atacada por esses malditos baderneiros da comuna… — Por um breve momento parecia que o homem alto de cabelos loiros e olhos aquilinos tinha receio de seguir o relato. — Disseram… santo Cristo… que um dos atacantes avançou desarmado… que em sua boca os dentes eram como de um animal, e suas mãos pareciam de um demônio…

Todos se entreolharam, até que outro dos soldados tomou a palavra.

— Ora… que isso David! Está ouvindo historinhas de crianças contadas pelo sargento Dubois. — Ele soltou uma gargalhada, que fez o clima tenso se dissipar. Depois pegou um naco de salsicha defumada e deu uma bela mordida. Os demais igual riram. — Quer dizer que, além da comuna nos infernizando, temos que nos preocupar com monstros ajudando os inimigos?

— Ah, Thomas, quem me contou foi um dos que sobreviveram da patrulha atacada. Se fosse o Dubois eu contaria como uma piada e não com essa seriedade. — O rapaz claramente ficou vermelho de raiva.

De todos, ele parecia ser o mais jovem. Batendo a caneca de ferro fundido que tinha nas mãos — cujo líquido, derramado dela, parecia cerveja por causa cor.

— Haha… — Outro dos soldados ria em voz alta com a boca cheia de pão e queijo semicomidos. Começou a falar de boca cheia. — David deixe o menino em paz. — Ele terminou de falar e engoliu como um bom glutão. — Olhe, Alexander, nesse momento, muitas histórias estranhas vão ser contadas. Em sua maioria mentiras.

A atenção de todos recaiu sobre aquele homem imenso de tão alto e rechonchudo. Sua expressão era serena, apesar da cicatriz na face indo da sobrancelha até os lábios.

— Tá… tá… está bem. Apenas queria distrair o novato inocente. — Falou o soldado David em tom de deboche e uma cara de fuinha louca.

Devo dizer que ouvir aquilo gelou a minha alma. Um homem que tinha dentes e mãos como de uma fera selvagem… sim… sim… poderia ser.

Saí do açougue com umas poucas compras até o meu quarto. A jornada foi imersa em pensamentos e reflexões sombrias.

— Aquele jovem chamado… David… sim. Disse que foi uma patrulha ao Norte. — O pensamento que começava a ganhar forma em minha mente já causava arrepios, até que as lembranças daqueles monstros na faculdade e dos seus gritos me fizeram parar por um par de minutos.

— Tenho que me recuperar. — falei para mim mesmo. Quase me senti um louco fazendo aquilo no meio da rua.

Eu não iria sozinho buscar um perigo daqueles.

Óbvio… muito óbvio…

Precisaria de ajuda, e não de qualquer ajuda.

Alguém… uma pessoa, sim! Que tenha visto e participado comigo e que não duvidaria de minhas intenções e pensamentos.

 · · • • •✤• • • · ·

Dia 22 de agosto à tarde — Recorri à única pessoa que me era familiar para aquela situação. O oficial Joules. Este homem que compartilhou comigo… a maldita experiência… a mais nefasta de toda a minha vida.

— Meu amigo Anton, se um dia tiver acesso a este diário espero que não fique chocado com o que encontrar. Torço por sua compreensão quanto a estes fatos que narro aqui.

Tomei o rumo para a delegacia onde Joules trabalhava. Na esperança de que ele estivesse disponível e disposto a participar de uma empreitada que para poucos podemos dizer ser convidativa.

De minha casa até a delegacia, de carruagem, seria trinta minutos, no entanto, com toda a baderna dos conflitos dentro de Paris, encontrar esse transporte se converteu em algo impossível.

Então tive que me aventurar por vielas e ruas caóticas. Desviando de áreas que estivessem com conflito deflagrado.

Por umas quantas vezes… Nessa curta viagem pelas entranhas de uma Paris em banho de sangue. Pude presenciar a angústia e desesperança encarnadas em rostos infantis. Era como ver anjos deprimidos e perdidos, caídos em meio a pólvora, a pedra e o sangue.

Mulheres correndo com suas crias na intenção de protegê-las, homens guarnecendo suas janelas e portas na vã tentativa de evitar o confronto.

Corpos estirados nas vias, com seu cheiro peculiar de podridão e morte. Ratos correndo por sobre eles e dentro deles.

Pobres almas saqueando corpos mortos e moribundos. Um cenário angustiante e doloroso. Por algumas vezes fui pego no meio do conflito das facções e tendo que desviar dos projéteis de ambos os lados.

Num dado ponto da jornada fui forçado a invadir uma casa, que por infeliz surpresa havia uma jovem senhora com suas crianças.

— Ca… calma! — Minha voz estava entrecortada de tanta correria. O peito não conseguia se encher de ar, as narinas ardiam com o cheiro da fumaça; limpei a fuligem da roupa e o suor da minha face. — Não vou fazer mal a sua família.

Uma das crianças começou a chorar de medo. A mãe gritou alguma coisa que eu realmente não… não consigo recordar… ou não posso… sei que deveria!

Sei que o que fiz a colocou em perigo iminente e nem lembro da voz dela.

Logo atrás de mim, na casa da frente, uma explosão das bombas dos granadeiros nos fez cair ao chão com a onda de choque.

— Ahhhh… ahhh… — Por uns momentos… ali naquele chão de madeira empoeirado, sujo e desgastado, senti um zunido forte nos meus ouvidos, o coração acelerado somado à dificuldade de respirar.

Mal pude recuperar minha razão, percebi o ar denso, cheio de fumaça e fuligem.

— Ah… que dor em meu estômago… — Caí sobre algo. Senti cada músculo, até as fibras do meu cabelo doíam. Sentia a fadiga.

Me ergui como pude, tropeçando em meus pés, como se estivesse bêbado; corri para a porta para fechá-la da melhor maneira possível pensando em proteger aquela família.

Apenas escutei o choro desesperado das crianças, e a mãe entre tossir e chorar dizer algo que pudesse acalmar as crianças.

Me virei e olhei aquela cena, mas em minha mente havia um objetivo maior. Eu tinha que chegar até Joules.

— Vocês estão bem? — Sei que disse isso… ou gritei. Naquele momento ambas as coisas pareciam uma só.

Meus ouvidos começaram a ouvir novamente com clareza, sem o som irritante.

Me apoiei nos joelhos tentando recuperar o controle, enquanto do lado de fora se ouvia os disparos, os gritos de ordem.

Então um grito no andar superior da casa que me fez gelar. Era diferente do que estava acontecendo do lado de fora. Era… de terror.

Olhei para a mulher, que tinha uma expressão de não entender a razão do grito. Da escada apertada na lateral da sala da casa, se ouviu o som oco de algo rolando escada abaixo, até parar no térreo, atrás de uma pequena mesa com cadeiras caídas no chão.

Estava ali diante dos nossos olhos.

Levei uns momentos para entender o que era aquela massa diante de nós.

Ao me aproximar um pouco, pude perceber a parte superior de um tronco humano que parecia ter sido cortado ao meio por alguma lâmina.

— Mas… o que é isso? — Meus olhos se arregalaram, e minha mente tentava traduzir aquela imagem. — Isso… isso não… não pode ser!

Quando notei que o corpo gotejava um líquido mais escuro... preto! As memórias vieram. — Meu Deus… — Minha voz falhou neste momento, levei a mão à boca.

Minha cabeça seguia a escada, o que me fez olhar para o teto e um temor em meu coração cresceu.

Do andar de cima um grunhido feroz soou.

Não tive dúvidas, olhei ao redor e para o fundo da casa, foi quando notei que havia uma porta para um pátio traseiro, e que estava aberta.

— Co… corram. Corram para o fundo! — Foi um grito desesperado.

Não pensei muito, tão somente obedeci minhas pernas e meus instintos de sobrevivência. Avancei na direção da mulher e seus filhos. Todos se levantaram e correram para o fundo do ambiente. Tomei uma das crianças nos meus braços — que chorava e me abraçava, chamando por sua… sua… mãe. Oh, Deus! Como lembrar disso me atormenta, me angustia a alma.

A mãe tomou a outra criança até cruzarmos a porta.

Chegando ali, olhei para trás com aquele bebê em meus braços; observei aquele monte de carne no chão da casa da pobre mulher.

— Por favor, que eu esteja errado… Por favor, Deus… — Eu não consegui respirar direito, o peito doía, o ar com fumaça dificultava ainda mais. Os músculos tremiam de cansaço e dor. O corpo… aquele ser… humano?... Não, não sei afirmar… se ele era humano…

Ali no chão… Aquilo começou a vibrar fortemente, os braços se contorciam. Havia um cheiro forte de podridão no ar. Não sei dizer se vinha dele, ou do conflito… suponho que de ambos… Aquela cena não pertencia ao mundo de nosso Senhor.

— Aquilo poderia ser algo vindo do inferno para atormentar a humanidade? — Então… por um momento… um breve instante... aquele ser… parou.

Um silêncio mortal imperou.

Nem disparos, gritos ou mesmo explosões se ouviam. O mundo ficou num silêncio ensurdecedor. Os segundos pareciam levar décadas para avançar.

Logo, do andar superior, vindo pelas escadas, um som de passos pesados... descendo... quebrando aquela frágil redoma de ausência de som.

Naquele momento o desespero aumentou. Uma sensação de que algo abissal estava vindo, sim, algo que eu já havia possivelmente presenciado.

Por uma graça que só posso atribuir ao divino, a nuvem de fumaça negra que estava cobrindo o céu sobre a casa — e a região — passou a se dissipar gradualmente. Aos poucos, os raios amarelos surgiram dentro da casa, como uma luz gloriosa avançando divinamente. Cobrindo progressivamente; da cabeça até a parte faltante do corpo.

Aos poucos o corpo parecia incendiar-se, faíscas saíam de todas as partes, o ser abriu os olhos vermelhos e a boca com dentes pontudos. Começou a se debater empurrando a mesa para o outro lado da sala, e pude ver bem, chamas saindo de seu interior, sua pele se escurecendo como carvão... lento... e claramente fatal para a coisa.

Quando me dei conta, a mãe… ela… estava ao meu lado com o outro filho em seus braços, observando aquela mesma cena hedionda.

A pobre criança que estava comigo… oh, a pobre e inocente criatura estava estática em meus braços, com os olhos fixos no corpo no chão.

Parecia que algo havia sugado sua essência angelical.

Pus a criança no chão; a mãe sem dizer nada tomou sua mão e logo se colocou a andar em direção a um corredor que dava para uma via lateral e, então, à rua de trás.

Ver os olhos… sim… aqueles olhos da criança sem reação, mortos. Me rompeu… quebrou minha alma. Nenhum desses inocentes deveria ver algo tão terrífico como aquilo. Aquela imagem vai perturbar minha mente pelo resto de minha vida.

— Meu Senhor, o que foi isso? Que coisa nefasta é essa que corrompe a natureza? — A angústia tomava minha voz, consumia meu interior.

Aquele momento me fez derramar lágrimas. Derrubando muros que construí.

No andar superior se ouviu que algo foi rompido, como uma explosão. Claramente algo saiu correndo, já que se ouvia seu avanço de parede em parede.

Aqueles estrondos fizeram minhas lágrimas cessarem, parte da razão retornou à minha mente, ainda havia mais coisas ocultas.

Dentro da casa restou apenas um corpo carbonizado… um silêncio e um vazio… como se ali já não houvesse qualquer vestígio do divino.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Caellum Noctis, Parte II - Minhas Memórias

Eu havia entrado no que a Espectumbral chamou de Irihria. E nem nos meus melhores — ou piores — sonhos, eu imaginava algo tão… mágico…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Eu havia entrado no que a Espectumbral chamou de Irihria. E nem nos meus melhores — ou piores — sonhos, eu imaginava algo tão… mágico.

Aos poucos, minha visão se ajustou e comecei a entender onde estava, mesmo que isso fosse irreal. Eu tentei entender, mas acho que enlouqueci, pois nada do que conseguia ver parecia real. O céu era vermelho, o rio era brilhante e o cheiro parecia velho e antigo. Apesar de estar ao ar livre, era como estar preso em uma sala empoeirada demais.

O azulíneo do rio brilhava ou parecia brilhar. A luz iluminava apenas o suficiente para que minha imaginação completasse o resto — formas que se moviam nas bordas da visão, sombras que podiam ser árvores ou coisas observando, esperando o melhor momento para atacar.

Aquele lugar era hostil, eu podia sentir. Mas não era uma hostilidade comum, era como se qualquer coisa pudesse me matar... a qualquer momento..., mas escolhia esperar, escolhia não ter que caçar e apenas esperar para quando eu não pudesse mais fugir.

E então, eu a vi.

Como se sempre tivesse estado ali. Me observando.

— Eleine — sussurrei, esperando que meus olhos e minha mente entrassem em acordo sobre aquilo ser real ou apenas minha mente pregando uma peça.

Não era possível. Não podia ser ela. Era fácil demais.

Mas meu peito não queria saber. Ele acreditava. E isso é o poder que a imaginação tem sobre os homens apaixonados…

Descobri depois o poder daquele azulescer. As plantas que pareciam chorar sangue tinham algum efeito sobre a mente. E eu fui apenas mais uma vítima.

A última coisa de que me recordei, antes de desmaiar, fora seus cabelos: pretos de um lado, uma mecha branca do outro. Ela se ajoelhou perto de mim, e eu pude ouvir sua voz preocupada, perguntando-me se estava tudo bem.

E então…

O vazio.

Quando acordei, estava deitado em uma cama dura. Minha boca tinha gosto amargo, e minha mente continuava nublada, como um quebra-cabeças com peças faltando. Se recuperei alguma memória ao vir para cá, eu a esqueci novamente.

— Vejo que acordou — disse uma voz.

Suave. Melodiosa. Quase sedutora.

— Tive que cuidar de você e te tirar de lá. Aquele lugar é difícil para recém-chegados.

Segui o som da voz, procurando de onde vinha. E então a encontrei.

Ela era diferente da mulher que vi na minha ilusão. Não era Eleine. Eu não conseguia sentir o desejo, o amor, o prazer que me atravessavam quando pensava no que Eleine significava. Aqui, havia apenas curiosidade. E cansaço.

— Quem…? — tentei perguntar.

Queria fazer tantas perguntas: “Onde estou? Quem é você? Onde encontro respostas sobre mim?”. Queria saber tudo, mas não sabia como me expressar. Minha cabeça doía. Minha boca não falava o que eu mandava.

— O remédio ainda vai levar um tempo. — Ela se aproximou, sentando-se numa cadeira ao lado da cama. — Os efeitos colaterais… bom, tudo ainda vai levar algum tempo para melhorar. — Ela colocou a mão em minha testa, sentindo o calor do meu corpo, me examinando.

Ela me observou em silêncio por um momento. Os olhos dela eram estranhos, de uma cor que nunca tinha visto antes, de uma cor que não existia. Mas ali, era tão real quanto qualquer coisa. Se é que alguma dessas coisas eram reais.

— Não sei por que está aqui, estranho — ela continuou, inclinando a cabeça. — Mas talvez tenha seus motivos. Todos têm.

— Quero... quero encontrar minhas memórias...

E eu pude notar sua expressão, ela sabia o que eu estava procurando, ela sabia quem eu estava procurando.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

30. Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo é o caminho que leva à perdição

Data Incerta - Senti os braços me levando pela trilha principal, desviou por trás das casas tortas, passou por corredores estreitos entre muros de pedra úmida…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta - Senti os braços me levando pela trilha principal, desviou por trás das casas tortas, passou por corredores estreitos entre muros de pedra úmida, onde havia símbolos antigos riscados sobre o que parecia inscrições mais recentes, como se muitas crenças disputassem aquele espaço durante muito tempo. Eu ainda sentia o peso do sonho no meu corpo, aqueles sonhos ou memórias que não eram meus, mas insistiam em ranger dentro da cabeça.

— Aqui. — ela disse e pude reconhecer a voz da líder da Ordem.

Havia uma porta de metal, grossa, enferrujada, com sinais de solda recente; quando ela bateu, não foi com força, foram três toques exatos, musicais e bem calculados. Demorou, mas o som que ouvi vindo lá de dentro não foi de passos, mas de engrenagens. A porta se abriu só o suficiente para um olho nos observar, um olhar frio, contido e avaliador. Mara falou o nome.

— Arturio?!

A porta foi aberta por completo, ele estava diferente, mais seco, mais rígido. E o mesmo corpo que um dia fora humano agora parecia um esboço de máquina que ainda não decidira em qual lado terminar. Seus braços estavam reforçados por placas mecânicas discretas e o seu olhar, aquele olhar parecia ter presenciado mais funerais do que eu poderia contar.

— Você voltou a existir — ele disse para Mara, sem surpresa alguma. — Então minhas premonições ainda estão mal calibradas.

Entramos e o interior era um santuário de aço, ossos mecânicos pendurados pelas paredes, exoesqueletos incompletos suspensos. Havia algo de quase religioso na organização daquele lugar. Algo de necromântico na engenharia. "Necromântico" essa palavra parecia dançar na minha cabeça.

— Precisamos de ajuda. — a líder da Ordem disse. — E ela está marcada.

Arturio me observou com mais cuidado agora, mas não como quem olha para uma pessoa, mas como uma máquina com defeito.

— Parece que alguém tentou reescrever as memórias dela à força. — ele disse.

Engoli seco.

— Eu só sonhei.

Ele inclinou a cabeça.

— “Sonho” é o nome que você dá quando não sabe que está sofrendo uma invasão.

Mara ficou tensa.

— Dá para algo ser feito?

Ele caminhou até uma mesa cheia de mapas estranhos.

— Talvez, mas tudo o que eu crio cobra algo — disse. — Até mesmo quando salva.

Ele me olhou de novo.

— E geralmente o preço é a alma.

Nesse momento percebi nele um cansaço que não vinha do corpo, como se ele estivesse sempre chegando atrasado à própria vida.

— Você ainda anda tendo as visões? — perguntou a líder da Ordem.

Silêncio.

— Todas as noites, as mortes primeiro, os detalhes depois. Às vezes eu acerto, outras eu erro por minutos, outras por anos. Ainda não sei se vejo o futuro ou se estou preso revendo algo que já aconteceu em alguma dobra errada do mundo.

Ele abriu uma gaveta e retirou um objeto pequeno envolto em um metal escuro.

— Vou precisar introduzir esse mecanismo na base do seu crânio — disse para mim. — Vai ser rápido, você não irá sentir nada.

Meu estômago se contraiu ao ouvir aquilo.

Ele pegou uma pistola, que parecia de ar comprimido, que parecia mais uma pistola para abate; colocou o artefato dentro e pediu que eu me virasse, então ele disse, quase gentil:

— Se você sobreviver a esse limbo de memórias, Rute, não será por acaso.

Senti um frio a percorrer a espinha.

— Nada neste lugar é por acaso — completou.

E colocou a pistola em minha nuca; eu apenas ouvi um som oco e desmaiei. Cada passo meu de volta ao castelo e eu só estava trocando um tipo de perigo por outro

· · • • •✤• • • · ·

Data Incerta - Hoje acordei sabendo amarrar nós que nunca aprendi, minhas mãos se moveram sozinhas ao prender o laço do manto que Siehiffar deu a Mara. Os dedos sabiam exatamente onde puxar, onde tensionar, não pensei, apenas fiz. Quando percebi, estava com o coração acelerado, como se tivesse feito algo errado. Mara notou.

— Quem te ensinou isso?

Abri a boca para responder, mas nenhum nome veio, só o cheiro de ferrugem, madeira molhada, um canto antigo em língua que não reconheço, mas que minha garganta quase repetiu. Balancei a cabeça.

— Não sei.

Ela não insistiu na pergunta, mas ficou me observando. As memórias não chegavam completas, eram mais como sensações, às vezes boa, às vezes neutras e muitas vezes incômodas, como o peso de uma arma na cintura que nunca carreguei, o orgulho de um juramento que não fiz, a certeza de um afogamento que não foi o meu. E, às vezes, a sensação mais terrível de todas é a de ter amado alguém que nunca existiu para mim.

Hoje, enquanto Mara discutia com uma das mulheres da Ordem, eu me distraí contando as janelas da torre, sete, oito, nove. Interrompi ao perceber que já sabia qual delas escondia o alçapão secreto e apontei sem pensar. Algumas das mulheres se viraram para mim e o silêncio foi imediato.

— Como você sabia? — uma delas perguntou.

Eu não sabia, mas alguém em mim sabia e isso me incomodava. À noite, enquanto escrevo, minhas frases mudam de caligrafia sozinhas, algumas linhas ficam mais retas, mais técnicas, mais frias, como se outra pessoa estivesse usando minha mão com cuidado, não para me possuir, mas para se esconder através de mim.

O pior lapso aconteceu agora há pouco, olhei para Mara, que dormia sentada, exausta, e por um instante absoluto eu não vi Mara, vi um corpo translúcido, depois ossos e carne refeita; vi mãos pressionando um crânio ainda quente, vi Drácula sorrindo. Minha respiração travou. Quando o mundo voltou ao normal, eu estava chorando em silêncio, com a mão cobrindo a boca para não acordá-la, mas a única certeza que eu tinha era que essa memória me pertencia.

Tenho medo, não de enlouquecer, mas de me tornar uma colagem de vidas alheias, e se continuarem arrancando e costurando minhas lembranças? Se cada perda vier acompanhada de um enxerto? Será que talvez "eu" ainda caminhe, que talvez "eu" ainda escreva? Mas não saberei mais quem está fazendo isso dentro de mim, não sei mais dizer com certeza onde termina o que sou, o que fui e onde começam os que agora me habitam.

E então, novamente antes de dormir, mais uma memória terrível. O corpo não parecia dela, era essa a primeira coisa que não fazia sentido, não o rosto, pois ele ainda era o mesmo, ou uma versão silenciosa dele. A boca, que sempre tinha algo a dizer, agora estava fechada de um jeito definitivo, mas o resto, o resto estava errado.

As mãos, eu conhecia aquelas mãos melhor do que qualquer outra coisa no mundo, sabia o peso delas sobre a minha pele, a forma como seguravam uma caneca quente, o jeito distraído de afastar o cabelo do rosto. Agora estavam imóveis sobre o próprio corpo, rígidas, como se tivessem sido colocadas ali por alguém que só tinha visto as mãos dela uma vez. Não eram dela ou talvez fossem, e isso era ainda pior.

O velório estava silencioso demais, um silêncio cansado, pesado. Algumas pessoas choravam, outras apenas olhavam e muitos que nem deveriam estar ali, julgavam. Eu só observava, esperando por alguma coisa que eu não saberia reconhecer mesmo que acontecesse.

— Você quer ficar um pouco sozinha?

A voz veio de algum lugar atrás de mim, eu não me virei. Se eu me movesse, talvez tudo se tornasse real e eu ainda não tinha decidido se queria que aquilo fosse real.

— Não — respondi como se eu me importasse.

O caixão estava aberto, eu não sabia quem tinha tomado essa decisão, talvez a família dela ou alguém que acreditasse que despedidas precisavam de evidência; como se saber não fosse suficiente para aceitar, não era, e dei um passo à frente e depois outro e cada movimento meu parecia deslocado, errado, como se meu corpo estivesse se movimentando com um pequeno atraso, em relação ao resto das pessoas presentes ali.

Parei ao lado dela e de perto, era pior. Havia algo na pele, não era a cor, pois isso eu já esperava, mas a falta de algo. Tudo estava completo, correto e ainda assim estava faltando, perfeitamente mobiliada como uma casa, onde ninguém vive nela.

Estendi a mão antes de perceber o que estava fazendo, eu a toquei, estava fria, minha respiração falhou por um segundo. E, naquele intervalo, algo aconteceu, não fora, mas dentro de mim, uma ideia, não, não uma ideia, ideias são construídas. Aquilo veio pronto para mim, inteiro e errado. Isso não precisa ser o fim.

Retirei a mão como se tivesse sido queimada e olhei ao redor, ninguém parecia ter notado ou escutado nada, pois ninguém nunca nota. Voltei os olhos para ela, imóvel e ausente e ainda assim...

— Não — murmurei, mais para mim do que para qualquer outra coisa. — Não é assim.

O pensamento voltou, só que mais forte dessa vez.

Você sabe que não é.

Eu não sabia, a verdade é que eu não sabia de nada, mas queria saber, e naquele momento, isso foi suficiente; fiquei ali por mais alguns minutos ou horas. O tempo tinha se tornado irrelevante, algo que acontecia com outras pessoas e, antes de sair, olhei pela última vez, tentei memorizar. Não o rosto morto, pois isso seria fácil demais de lembrar, mas o erro, a ausência, a coisa invisível que transformava tudo aquilo em algo inaceitável, porque se havia algo errado, então talvez eu pudesse corrigir. Naquela noite, não chorei. Abri o caderno e comecei a escrever. E com isso as minhas memórias comprovam que nem sempre fui sincera em tudo que escrevi, pois há vozes em mim que me obrigam agora a ser sincera no que escrevo. Então a escuridão veio e meu corpo começou a tremer, e eu tive uma convulsão.

Não me chamaram de paciente, me chamaram de campo instável; fui levada para uma sala que ficava abaixo da torre inclinada, onde as pedras eram mais úmidas e mornas, e as velas tinham chamas azuladas, pareciam queimar alguma substância que não era deste mundo ou melhor do meu mundo. Mara foi obrigada a ficar do lado de fora, disseram que ela atrapalharia, não gostei da forma como disseram isso. Me deitaram sobre uma mesa de metal antigo, cheia de ranhuras e símbolos sobrepostos, alguns religiosos, outros matemáticos, outros que eu não reconhecia, mas o meu corpo respondia a eles com náusea. Arturio estava lá e não falou muito, só me observava como quem avalia um motor quebrado.

— Suas memórias não estão apenas sendo roubadas — ele disse. — Estão sendo sobrepostas em frequências erradas.

Uma das freiras explicou que eu estava em ressonância involuntária, que parte de mim estava sintonizada com o mesmo campo onde alguns seres operam. Que não era possessão, mas algo pior. Eu apenas ouvia tudo aquilo em silêncio, sem entender nada realmente. Então prenderam meus pulsos e tornozelos. As correntes estavam frias demais... colocaram na minha testa um artefato circular de metal escuro, cravejado de cristais vermelhos. Quando encostou na minha pele, ouvi vozes sussurrando algo que eu não conseguia entender. Depois vieram as agulhas, não entraram no corpo, mas nas minhas memórias, cada perfuração era uma lembrança organizada à força, não as minhas. E eu via flashes desconexos enquanto gritava sem som: Um menino correndo num deserto que não existe, uma mulher ensanguentada sorrindo, um mapa sendo desenhado sozinho, um rosto em espiral se desfazendo em poeira branca. Meu corpo tremia, mas minha mente parecia ser organizada em camadas, como páginas arrancadas de vários livros e reorganizadas com muita violência. Em algum ponto, comecei a rezar, não sei exatamente para quem, talvez para Siehiffar, talvez para o seu Deus sem forma ou para Drácula. O procedimento durou tempo demais para caber no tempo e quando terminou, senti algo fechar dentro de mim, não curar, mas fechar como se fecha uma ferida profunda com grampos, um pouco segura, mas ainda infeccionada. Arturio foi direto.

— Você foi estabilizada apenas no eixo consciente, porém os rastros continuam no inconsciente.

Claro que traduziram para mim em termos mais simples, não vou mais apagar no meio do dia, não vou perder o controle repentinamente, não vou atravessar realidades andando. Quando me soltaram, eu mal conseguia ficar de pé. Mara entrou correndo e segurou meu rosto com força demais, como se tivesse medo de que eu escorresse pelos dedos.

— Você está aqui? — perguntou.

Demorei um segundo a mais do que devia para responder:

— Estou.

O procedimento que eles fizeram não me devolveu inteira, mas apenas impediu que eu continuasse me despedaçando rápido demais, porém agora eu só me desfaço devagar. Mara me ajudou a caminhar até o quarto e logo desceu, fiquei lá analisando pensamentos que no momento eu sabia que eram meus. Alguns minutos se passaram então uma discussão começou antes que eu percebesse que ainda estava fraca demais para sair do quarto. Eu ouvia as vozes do andar superior atravessarem as pedras da torre. Arturio foi o primeiro a falar em tom alto.

— Vocês brincam com símbolos e magia como se fossem crianças, o que ela sofreu é perigoso, é um colapso das camadas de memória que são incompatíveis.

A resposta veio em coro contido, feminino, duro:

— Você não entende o que fala, Ferreiro, há coisas que não se consertam com suas ferramentas.

Ouvi passos, muitos passos, o som de metal leve escondido sob tecido e, quando enfim consegui me erguer e abrir a porta para olhar o que acontecia, encontrei os dois mundos frente a frente. Arturio estava com o sobretudo aberto, revelando partes de um exoesqueleto inativo sob as roupas. As freiras o cercavam em meia-lua, algumas com os vestidos rasgados, outras adornadas com amuletos e sigilos tatuados na pele e Mara estava entre eles, tensa com sua lâmina.

— Vocês me chamaram de traidora — disse ela. — Mas foram vocês que me forçaram a usar Rute como entrada para o castelo.

Uma das líderes deu um passo à frente.

— E você aceitou vir ao castelo. Você acha que não sabemos quem você é? Mara e Isolda, as líderes da revolução da Ordem; bem que dizem para não conhecermos nossos ídolos, só espero que o que Isolda construiu em seu nome não tenha sido em vão.

Silêncio, então Arturio falou de novo:

— Vocês querem lutar para manter o castelo vivo, mas Drácula não precisa de vocês para isso. E ela — apontou para mim — é a única que sobreviveu aos mecanismos internos do castelo sem se tornar totalmente parte dele.

A líder sorriu.

— E isso a torna quase uma mártir.

Outra freira avançou um pouco demais.

— Se ela romper de novo, nós a eliminamos, mas enquanto ela servir como entrada para o castelo ela fica viva.

Foi quando Mara sacou a lâmina e nunca esquecerei o som seco.

— Vocês não tocam nela — disse. — Nem para salvá-la, nem para sacrificá-la.

A ameaça era real e Arturio, então, fez o movimento com seu braço mecânico.

O ar da sala mudou.

— Se vocês a matarem — disse ele com a voz finalmente sem controle — eu abro cada torre de amuleto que esconde vocês da visão da Ordem, uma por uma.

Um suspiro coletivo percorreu a sala e a líder da Ordem estreitou os olhos:

— Você nos exterminaria.

— Eu apenas deixaria que elas enxergassem vocês — respondeu Arturio.

Mara olhou para mim.

— Se vocês tentarem tocar nela de novo — disse Mara — vocês vão descobrir que eu aprendi mais no castelo do que nos seus templos.

Silêncio absoluto e a líder, por fim, recuou meio passo.

— Ela permanece fora dos planos, por enquanto.

Arturio abaixou lentamente o braço mecânico. A tensão não cessou, ela foi apenas arquivada. Quando todos saíram, eu ainda tremia. Arturo passou por mim.

— Você é o campo de batalha agora, garota — disse, sem crueldade. — Não se esqueça disso.

Mara me acompanhou ao quarto logo depois, como se quisesse me esconder do mundo inteiro. A Ordem não confia mais em mim, Arturio não confia mais na Ordem e Drácula... bom, ele deve estar se divertindo com tudo isso em algum lugar.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Azulíneo

A lembrança etérea me faz companhia enquanto sigo floresta adentro; meu instinto diz para não voltar ao Castelo, não sei explicar o motivo, talvez intuição ou simplesmente…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A lembrança etérea me faz companhia enquanto sigo floresta adentro; meu instinto diz para não voltar ao Castelo, não sei explicar o motivo, talvez intuição ou simplesmente para sanar essa curiosidade obsessiva pelo desconhecido. Sutilmente, o cenário mudou; elevei meus olhos e senti um calafrio, as nuvens se dissiparam, o céu agora vestia um assombroso manto azulado, tinha também aquele brilho insólito das estrelas.

Em determinado trecho, escuto algo longínquo, como um sussurro, talvez seja apenas o vento; caminho com mais afinco enquanto o som reverberava no interior dos meus ouvidos, porém sou forçada a cessar os passos, pois perante a mim se encontra uma altíssima muralha de difícil acesso, composta por galhos e folhas de diferentes espessuras entrelaçados, coberto por musgos e líquens. Tentei enxergar sua altura, logo fui acometida por uma leve vertigem; me recomponho e vou ao seu encontro.

Aquele vislumbre arrancou gemidos inexprimíveis, aguçando ainda mais minha curiosidade; preciso atravessá-lo, os musgos dificultam a passagem, mas persisto. Então senti o gentil toque da brisa fresca em meu rosto, ela era úmida como se eu estivesse próxima de algum mar. Não estava preparada para tal paisagem, meu colo pulsa em desassossego diante de tamanha beleza. No passado presenciei este mesmo fenômeno da bioluminescência quando estive com a doce Ameritt na biblioteca, porém isto aqui é incomparável, este viridário é de uma beleza aterrorizante! Seu brilho alterna entre um pálido-anil e azul-turvoso, há também uma enigmática nevoa do mesmo tom terrífico.

Lembro de achar fascinante o processo no qual envolve a molécula luciferina e a enzima luciferase, resultando neste fenômeno de tirar o fôlego. Sinto que estou mergulhando no abismo oceânico, onde criaturas inimagináveis habitam a mais profunda escuridão. Tanto a flora como fauna são horripilantes, ali vida e morte coexistem; essa dualidade causa um grande incômodo, ora se vê um jardim exuberante, já outras vezes vê-se flores em decomposição, desafiando os mais sábios mestres alquímicos como Paracelso.

Além deste aspecto obscuro, elas executam uma dançar terrífica, orquestrada pelo nefasto azulescer. Porém, uma espécie endêmica é predominante, detentora de uma beleza extraordinária; as folhas verde oliva abraçam todo o caule e parte do cálice de pétalas externo é totalmente negro, contrastando com seu interior carmesim brilhante; são curvilíneas e levemente pontudas — lembrei das enigmáticas flores de Ovaeren que também escondiam em seu interior sua verdadeira beleza escarlate.

Imagino que possa existir um grimório oculto de botânica, catalogando todo espécime de plantas e suas respectivas finalidades. Enquanto divago, algo paira pelo ar, como materialização de um ectoplasma, vem ao meu encontro. "Será uma carta?” — Meu pensamento ecoa no ímpeto azul, assisto o objeto pousar em meus pés; abaixo-me para pegar e tenho a confirmação: é um fragmento de um mapa geográfico. Deduzo ser um gráfico grandioso pelas linhas incompletas, confeccionado em papiro, demonstra a região em que resido. Meus olhos decaem sobre o registro com extremo fascínio.

Aos arredores do Castelo está o Jardins de Olga — parece ser minha atual localização. Minha imaginação se perde nas linhas inacabadas, aquele lugar se tornou ainda mais tangível. Um nome que me causou grande tormenta, a “trilha do nevoeiro ramoso”, anteriormente pude presenciar a presença assombrosa do nevoeiro envolvendo o Castelo, bem como o arranhar dos galhos sob a superfície áspera das inúmeras pedras — tal lembrança me causa calafrios.

Vejo também duas vilas povoadas, as quais: Séttimor — a qual ouvi histórias a seu respeito; e a outra é a Vila Nemonium, no meio delas se encontra os Bosques Núridos, mais à frente uma região montanhosa chamada de Cimos Nevados. Meus olhos saltam ao ler: “Rio Bioluminescente de Magöhorror” — ele atravessa a área de montanhas. Vejo também a área de desertos chamada de “Dunas Múrmuras” e, no meio da região, um pequeno desenho sobressai e me faz estremecer: uma ilha indica um oásis. Ergo o mapa na altura dos olhos, traço os pontos cardeais com os dedos, e inicio minha peregrinação ao rio da Bioluminescência, sabendo que desta vez terei um norte para seguir. Seguro o mapa como se minha vida dependesse dele — o que não deixa de ser um fato.

Este lugar está começando a me afetar, talvez seja por conta do fúnebre flúmen que esparge pelo ar. Olho ao redor e vejo uma horrenda mudança nas flores: no lugar das deslumbrantes pétalas carmim, rostos pálidos disformes, com olhares vazios, são emoldurados por pétalas fúnebres num azul indescritível; por fim, um brilho metálico contorna cada uma. Elas parecem entonar lamúrias, como uma espécie de coral fúnebre. Acelero os passos, enquanto os olhares dos rostos me encaram; ao longe o calmo quebrar do mar ecoa. Checo o mapa e sigo a Leste, acredito que seja a maneira mais rápida de chegar ao Rio Bioluminescente.

Continuo ouvindo o fúnebre cântico; quando a brisa me surpreende trazendo consigo silenciosas gotículas que tocam meu rosto, imediatamente lembro dos incontáveis banhos de chuva tomados na adolescência, quando eu abria o portão e, com os pês descalços, corria pelos escorregadios paralelepípedos. Engulo amargamente aquela memória, não tenho mais espaço em minha galeria para ela. Melancólica, caminho, e acabo encontrando a estranha flor, porém estava diferente, tinha se fechado, assumindo uma forma de um coração anatômico. O tom carmim voltara a ser predominante, as pontas ficaram mais rígidas, pode ser apenas seu ciclo natural, ou algum fator mágico.

Fito novamente o vertiginoso firmamento, enquanto ele conduz minh’alma para um espiral de infindáveis horrores; essa cor traz à tona coisas adormecidas como culpas, arrependimentos, lembranças amargas e pensamentos que habitam as profundezas do meu âmago.

“A imortalidade é uma mera ilusão” — a frase escapa de meus lábios apáticos, enquanto isso, presencio mais uma transformação da misteriosa rosa: agora ela desabrochou por completo, suas pétalas traziam uma tonalidade de vinho-profundo, eram finas, alongadas e espinhosas. Essas transformações eram intrigantes, abaixo-me para observar melhor, tinha uma beleza obscura, queria estudá-la, porém tenho que partir. O familiar som das ondas me faz andar mais rápido, alcanço então as margens onde as calmas ondas beijavam com ternura os alvos grãos de areia; há também uma embarcação ancorada que já teve seus dias de glória, do modelo cúter. Aproximo-me dela e, no casco, tinha um nome: “Veleiro de Allant Clirrathz”.

Media por volta de dez metros de comprimento, um único mastro sustentava as duas velas amareladas feitas de poliéster, já desgastadas em certas partes. Em certas partes, cautelosa, adentro no veleiro; arrepios percorrem meu corpo, imagino as inúmeras pessoas que velejaram neste barco; será que foram testemunhas do inimaginável? O que descobriram sob estas águas negras...?

A embarcação fora erguida em cedrinho muito bem estruturado, ainda se via as pinceladas de verniz; havia um alçapão abaixo das velas e eu fui em sua direção, levantei sua pesada porta, desci alguns degraus. Lá encontrei uma simples pia, à direita um pequeno armário com alguns utensílios para cozinha, na esquerda uma cama com uma sutil mesa de canto, por fim um banheiro.

Nunca velejei antes; o pouco que conhecia foi através de livros. Subo os degraus, caminho até a proa e contemplo o imponente do céu azul neon, iluminando as águas negras. Vou para a popa, ligo o motor e, trêmula, seguro o leme; estou entregue ao destino, espero que ele seja gentil comigo.

Por incrível que pareça, o som do mar acalma meus demônios; em contrapartida, a solidão é avassaladora, o vazio consome minhas entranhas. Vasculho o bolso e tiro o mapa; será que me arrisquei nesta jornada? Talvez fosse melhor contornar os Bosques Núridos, cruzando as áreas montanhosas até finalmente chegar no tão desejado Rio da Bioluminescência... Mas espera, por que não vi isto antes? Quase no final do mapa, havia um nome que me fez tremer: “Oceano Sem Fim”. Logo abaixo estava escrito: Estranhas criaturas do mar. O que será que estas águas escondem? Talvez o temível Kraken ou espécies que fazem parte da criptozoologia.

Já se passaram algumas horas e até que estou me saindo bem. Minha maior dificuldade tem sido controlar as velas; às vezes o zombeteiro destino joga os dados e me surpreende com ventos fortes, desestabilizando o veleiro, porém isto passou a ser constante, deixando a viagem árdua; além disso, existe um terror primordial no infindável oceano que me causa extrema angústia, ademais prossigo.

Mas o destino é incansável e vil. Desta vez ele trouxe ventos tenebrosos, gerando ondas altas; uma delas atingiu o casco, deixando o bombordo quase imerso e o convés inundado. Se eu não fosse tão ágil, certamente a embarcação estaria naufragada; contornei as investidas dos ventos, não obstante segurei com afinco no leme e continuei.

Avisto finalmente a terra, deixo a embarcação ancorada. Assim que desci, vi que a vegetação é a mesma encontrada nos Bosques; aqui a espécie predominante era das rosas que sofreram aquela mutação sombria, em específico em sua primeira fase. Será que a flor teve origem aqui? Tímido, o rio anuncia sua presença, serpenteando por entre a vegetação de rostos disformes, um verdadeiro espetáculo horrífico em pálido-anil, desaguando no oceano, deixando rastros luminosos por onde passa; conseguirei alcançar sua nascente?

Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

31. Quero trazer à memória o que me pode dar esperança

Data Incerta - Eu descobri por acidente, foi num gesto mais estúpido e cotidiano possível. Ao tentar lembrar do rosto da minha mãe, a imagem não vinha…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta - Eu descobri por acidente, foi num gesto mais estúpido e cotidiano possível. Ao tentar lembrar do rosto da minha mãe, a imagem não vinha, era só um vazio, como quando se passa a língua num dente que foi arrancado há anos e a ausência incomoda; então eu forcei a lembrança, com vontade, fechei os olhos no meio do corredor da torre, encostada na parede úmida. Me concentrei no rosto dela como quem cutuca uma ferida que não cicatrizou por inteiro. No início, nada; depois náusea e depois sangue, mas não da memória e sim do meu corpo. O gosto metálico subiu rápido pela garganta e quando cuspi no chão de pedra, veio escuro demais para ser só saliva. E então a imagem abriu: minha mãe estava de costas, diante da pia da cozinha antiga, o cabelo preso errado, o barulho da água, o cheiro de café passado, uma rachadura na parede que eu tinha esquecido da existência, tudo perfeito demais. E logo veio a dor, como uma agulha quente enfiada na base do meu crânio; minhas pernas falharam e eu caí sentada, ainda vendo a cena, ainda presa nela. Eu estava tendo uma leve convulsão e mesmo assim eu não queria soltar, porque entre um espasmo e outro, eu percebi que tentar lembrar me custava algo, mas funcionava. Quando finalmente perdi o acesso, o corredor voltou em golpes, pedras úmidas, sombras, luzes trêmulas e meu próprio sangue escorrendo pelo queixo. Eu ri, uma risada curta e quebrada, pois isso só podia ser castigo.

Depois disso, testei de novo dias depois, mas outra memória, outro preço e, às vezes, era um apagão de horas; às vezes febre, às vezes uma tristeza tão densa que eu passava o dia inteiro olhando para a parede, com vontade de pedir desculpa para pessoas que eu não sabia quem eram. As lembranças vinham inteiras, nítidas e absurdas de tão claras e, junto delas, a certeza insuportável de que eu não merecia tê-las de volta. E por vezes eu chorei sem saber exatamente por quem. Eu não contei a ninguém no início, nem a Arturio e muito menos a Mara, porque se eles soubessem que eu posso acessar, vão querer regular e talvez explorar e eu já tinha sido explorada o bastante. As recaídas começaram a vazar para o cotidiano, eu perdia palavras no meio das frases, confundia nomes, respondia a perguntas que ninguém tinha feito. Uma vez chamei Mara pelo nome da minha amada, ela não me corrigiu, mas também não esqueceu e o pior não era a dor era a tentação. Saber que tudo que eu perdi ainda está lá, trancado atrás de um mecanismo que cobra em carne, em sanidade, em culpa, em sangue, isso é uma forma lenta de tortura. Eu não estou apenas revisitando memórias, eu estou ficando viciada nelas.

· · • • •✤• • • · ·

Data Incerta - Fui em minha primeira missão, e elas não chamaram de missão, chamaram de treinamento de campo. A palavra “treinamento” me deu mais medo do que qualquer outra coisa que já ouvi naquele lugar. Fui acordada sem toque, apenas abriram a porta e ficaram paradas no escuro; três silhuetas vestidas com o mesmo tecido pesado que parecia absorver a pouca luz do corredor.

 — Levante-se, Rute.

E eu apenas obedeci por inércia. Enquanto eu me vestia, senti uma sensação sob a pele, senti que alguma coisa em mim já estava sendo preparada para algo que eu não tinha escolhido. No corredor, vi Mara encostada na parede, braços cruzados, o rosto fechado demais até para o padrão dela, foi a única que não desviou o olhar quando passei. Descemos, então entendi o objetivo quando chegamos ao limite do vilarejo, havia uma casa isolada, velha demais até para aquele lugar e, dentro dela, algo que elas chamaram apenas de eco.

— Não é uma entidade — disse uma das mulheres. — Não exatamente.

Ninguém explicou melhor, porque não era necessário, eu já sentia, a memória que não era minha começou a se agitar no fundo do meu crânio, como um animal preso. Aparentemente eu só estava ali para reagir ao que quer que aquilo fosse.

— Se aproximar demais, ela vai ativar — disse outra. — Se não chegar perto o suficiente, ela não morde.

Fiquei parada.

— “Ela” quem? — perguntei.

A mulher apontou para mim.

— Você.

A porta da casa se abriu sozinha ou alguém por dentro a abriu, não faz diferença; um cheiro de poeira, coisa antiga, veio. Dei dois passos e já senti as pernas pesarem, algo lá dentro reconhecia algo em mim e isso era exatamente o que elas queriam. O eco se manifestou como uma distorção no ar, não tinha forma definida, era como um erro na continuidade do espaço e quando me aproximei demais, uma dor explodiu; memória, não a minha.

Uma mulher correndo por um corredor que não existia, sangue na parede, uma escada em espiral que parecia crescer enquanto ela descia, vozes chamando por um nome que não era o dela. Meu corpo travou, a Ordem avançou enquanto eu não podia me mover. Elas passaram por mim como quem passa por uma porta aberta e o eco reagiu e reagiu em mim. Uma imagem se sobrepôs ao mundo e a casa virou o corredor, o chão virou os degraus, então eu gritei, não de medo, mas do excesso, era uma memória dolorosa demais para uma mente só. Senti algo sendo arrancado, ouvi o som do impacto ao longe — algo foi contido e depois, só depois entendi que a missão tinha sido bem-sucedida para elas; para mim sobrou o chão frio, o gosto de ferrugem na boca e a certeza horrível de que agora havia mais de uma vida circulando dentro da minha cabeça. Quando voltei a conseguir respirar direito, vi Mara de joelhos na minha frente.

— Elas já estão indo longe demais — sussurrou ela. Eu assenti uma única vez.

— Acho que desde o começo.

· · • • •✤• • • · ·

Data Incerta - Não foi um sonho, isso não. Eu estava sentada, tentando lavar o sangue seco das mãos, um sangue que eu não lembrava de ter derramado quando o mundo simplesmente perdeu a continuidade e o chão se tornou escada em espiral. As paredes não eram paredes, eram superfícies úmidas, orgânicas, algo que respirava lentamente demais para estar vivo, rápido demais para estar morto. Um cheiro doce e apodrecido tomava conta de tudo, como flores deixadas tempo demais num quarto fechado. Eu estava descendo; eu não queria, mas minhas pernas se moviam sozinhas. Minhas mãos agora estavam sujas de sangue fresco e eu sabia que aquilo não era meu corpo, mas era o meu agora; então ouvi vozes, algumas distantes e outras perto demais.

— Volte.

— Ainda dá tempo.

— Você irá ser vista.

Um nome era repetido entre as vozes, um nome que se acumulava nas paredes como mofo e eu não vou escrever esse nome, pois algo em mim diz que ele não merece existir de novo. Quanto mais eu descia, mais a escada se estreitava, as paredes começaram a tocar meus ombros, meus braços, meu rosto, me esmagando, me reconhecendo como parte da estrutura. Vi corpos presos entre as dobras da parede, absorvidos, rostos ainda conscientes, olhos abertos, bocas presas no meio de um pedido de ajuda, talvez; e alguns deles sussurravam comigo.

— Não lembra.

— Não abre.

— Não aceita.

— Não escreva.

Mas eu já tinha feito tudo isso, já tinha descido até o fundo, e no centro da espiral havia uma sala circular, o chão era coberto por símbolos. No centro, uma mulher ajoelhada, eu a conhecia, mas não pelo nome; ela levantou o rosto que começou a girar, carne se reorganizando em espiral, os olhos sendo puxados para dentro, a boca sendo torcida até virar um poço e ainda assim ela olhou para mim. E algo saiu dela e entrou em mim: uma memória comprimida demais para existir inteira em um só corpo. Eu acordei assustada, ou pensei que havia acordado, o quarto estava lá, o teto estava lá e minhas mãos estavam limpas, mas meu corpo estava quente demais e no fundo da minha cabeça agora havia uma nova presença, então voltei a dormir logo depois. Mara me acordou e sussurrou no meu ouvido que tínhamos que ir, pois Arturio nos esperava na entrada.

Saímos antes do amanhecer, Arturio disse que impediria que a Ordem nos seguisse e ficou para trás. Mara não explicou muito, uma passagem nos levou para fora do vilarejo e para uma região onde a luz parecia envelhecida. O primeiro sinal disso foi a cor, não era azul comum, era uma palidez azúlea que parecia roubar calor da pele; o céu, a areia, até o ar tinham tonalidades que iam do azul pálido ao anil profundo, como se a noite tivesse sido moída e espalhada sobre o mundo. Quando chegamos à margem, vi o rio. O rio brilhava com uma bioluminescência pulsante, parecia que organismos dentro dele acendiam e apagavam num ritmo próprio. O brilho subia da superfície em vapores luminosos que flutuavam pelo ar antes de desaparecer, foi então que percebi a flora, as flores cresciam nas margens do rio, translúcidas e finas, cada uma tinha um rosto moldado na pétala, formado pela própria anatomia da planta. Um rosto abriu os olhos e sangue escorreu, uma lamúria saiu de dentro da flor, e eu congelei.

— Não olhe muito tempo — disse Mara.

Mas era tarde, aquela coisa estava olhando de volta. O vento que soprava era suave e atravessava a areia produzindo um ruído baixo, contínuo; o deserto se estendia além do rio, as dunas pareciam se mover lentamente, cada rajada revelava formas efêmeras, mãos, rostos, corpos emergindo por um segundo antes de voltarem a ser apenas areia de novo. Caminhamos pela margem até vermos algo no centro das dunas: um oásis, água negra, calma demais, palmeiras esqueléticas inclinadas como velas de um barco deteriorado. O lugar parecia convidativo, mas de um jeito errado. E foi ali que o vimos um homem alto, ele estava parado perto da água, usando um manto negro bordado com fios de ouro-bronze que refletiam a luz azul do rio. O sorriso dele era largo demais, quase pontiagudo e ao lado dele, uma criança, o menino segurava sua mão com naturalidade, ele usava roupas simples, claras, e tinha olhos pálidos que refletiam a bioluminescência do rio como se fossem feitos da mesma substância, então o homem falou antes que perguntássemos qualquer coisa:

— Vocês chegaram cedo demais.

Sua voz era tranquila, cordial.

— Quem é você? — perguntou Mara.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Um viajante, talvez um observador, alguns já me chamaram de vidente. Outros acreditam que venho de um mosteiro antigo onde aprendemos a ler o tempo como se fosse um texto mal escrito.

Ele olhou diretamente para mim.

O sorriso não mudou.

— E você, já começou a ler páginas que não são suas?

Senti o peso de uma memória vibrar dentro do meu crânio.

— O Castelo Drácula está prestes a atravessar cinco atos temporais — continuou ele.

Mara cruzou os braços.

— E por que deveríamos acreditar em você?

Ele não respondeu imediatamente, o vento das dunas soprou mais forte.

— Porque, se não se prepararem, vocês experimentarão algo chamado sofrimento-carmim.

— O que é isso? — perguntei.

O homem fez um gesto breve de impaciência, como se o tempo realmente estivesse curto.

— Não tenho tempo de explicar tudo, minha tarefa é apenas advertir os residentes do castelo.

Ele tirou algo do bolso do manto: uma joia, era um pingente de metal escuro, com um símbolo gravado com algo entre espiral, estrela e rachadura — estendeu- em sua a mão.

— Use isto.

— Por quê? — perguntei.

— Porque quando o primeiro ato temporal começar, vocês vão precisar de âncoras.

O menino ao lado dele me observava fixamente, seus olhos pálidos eram inquietantes por parecerem antigos demais para uma criança. Aceitei o pingente, assim que ele tocou minha pele, senti uma leve pressão na cabeça, quando levantei os olhos novamente, o homem e o menino já estavam caminhando para longe pelas dunas e o vento apagava as pegadas deles quase instantaneamente. Mara olhou para mim. Segurei o pingente, ele estava quente, e tive a sensação clara de que alguém, ou alguma coisa, estava tentando nos preparar para algo muito pior do que o castelo. Eu aceitei a joia por instinto e Mara não gostou.

— Você aceitou rápido demais.

— Ele disse que precisamos de âncoras.

— Homens que aparecem no meio do nada raramente oferecem algo sem cobrar depois.

Não respondi e de repente tudo ficou vermelho, uma névoa espessa cobriu completamente minha visão e tinha gosto metálico, cheiro de sangue quente, recém derramado. O ar ficou denso, durou um segundo, mas dentro desse segundo havia coisas demais. Eu vi o castelo, não como ele é agora, torres quebradas em ângulos impossíveis, corredores que se dobravam sobre si mesmos, pessoas caminhando repetindo os mesmos movimentos eternamente. Vi Mara e ela estava ajoelhada diante de uma estátua que eu não conseguia olhar diretamente, o corpo de Hadassa petrificado como de uma mártir. Seu rosto estava coberto de lágrimas, mas ela sorria de um jeito que me deu medo. Vi muitos rostos observando, esperando e no centro de tudo o castelo sangrava, sangrava de verdade, o vermelho escorria pelas paredes como um organismo vivo, descendo pelas escadas, enchendo salas, invadindo a terra ao redor; então a visão terminou, o mundo voltou de uma vez só em azúleo e marfim fosco. Mara segurou meu braço.

— O que foi?

Levei um momento para responder.

Minha boca ainda tinha gosto de sangue.

— A joia funciona.

— Como você sabe?

Olhei para o pingente.

— Porque talvez ela tenha me mostrado um segundo do que vem depois.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

13 - Azulácia de uma vida azul

“E se pudesses pintar suas memórias, de que cor seriam?” Lisa sempre surgia com perguntas que estimulavam minha imaginação, às vezes demandava tempo para…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Relato de Alana Mortensen

 “E se pudesses pintar suas memórias, de que cor seriam?”

Lisa sempre surgia com perguntas que estimulavam minha imaginação, às vezes demandava tempo para elaborar respostas que estivessem à altura. Contudo, desta vez, minha voz saiu rápida e assertiva: “Azul”.

Não sei precisar se tenho uma cor favorita, para ser sincera nunca vi sentido em pensar nessas coisas, mas agora sei o quanto gostava de azulescer meus sentimentos; o quanto gostava do límpido azulíneo da lua; o quanto azulescia-me cada vez que pensava no meu passado.

A vida é assim: quando menos se espera entramos nessas elucubrações sem propósito, e qual é o sentido de viver se não for para viajar por caminhos tortuosos?

Meu cabelo preto, de tão escuro e denso, tornou-se azulado. Nosso sangue não parece ser azul olhando de fora? Não entendo o porquê ele insiste em tornar-se apaixonante, cor vibrante quando arrancado das veias, pois enquanto aqui dentro — dentro de cada um de nós — ele mal tem forças para gritar, quem dirá ser paixão. Para mim, ser azul, aceitar o “Azul”, faria muito mais sentido.

Sentido.

E lá vou eu novamente falando de sentido.

Fugindo dele, na maioria das vezes.

Quiçá procurando um destino.

Das cores da sobrevida.

Destinos desconexos.

Sem sentido.

Sentindo.

Indo.

Lisa olhou-me como se eu fosse um espectro, mas sei que ela me entende. Óbvio que ela entende o que falo, porquanto fala também, mas me refiro a entender o que sinto. Nessa relação fico em desvantagem, porque não sei dos sentimentos dela, já que não gosta de se sentir vulnerável — nem sei se algum dia ficou indefesa —, mas é como se ela soubesse exatamente tudo o que trago dentro de mim. E tudo o que deixei transbordar.

E, atendendo aos pedidos expressos por seus lindos olhos amarelos, começo a transportar para a tela as nuances “azuis” das cores da minha alma.

Com os pincéis crio vórtices de vários tons e tamanhos, eles preenchem os espaços diferentemente do que ocorre em mim.

“Quais vórtices esses redemoinhos enigmáticos irão despertar?”, pergunta.

“Órbita que precede o óbito”.

Lisa desaprova. “Nada de óbitos!”.

Conto a ela que só estou devolvendo o tempo emprestado. Ela não acredita, e insiste para continuar.

“E se a morte aqui no Castelo não for real, Lisa?”

Ela grita “Eu morri, você não lembra?”.

Era verdade e eu tinha esquecido. Se eu tentasse, desta vez, poderia não ter Drácula para me salvar.

Afasto tais pensamentos. Para onde vou?

Não quero voltar para casa, mas também não quero ficar.

Lisa propõe uma jornada, um passeio pela região e então os vórtices na tela começam a girar.

Assim como minha chegada ao Castelo foi por meio da minha arte, minha nova escapada aconteceu por causa daqueles vórtices; minha arte, pois, abrira um portal para as terras que ainda não havia explorado.

Mais tarde, descobri que fora transportada para as Dunas Múrmuras, um local repleto de areias, não as do tempo, mas as areias que cobrem terras secas e praias. Mas não havia mar, somente um Rio que chamou minha atenção.

 Já olhastes luzes salvadoras após se ver perdida em meio à escuridão?

Quando criança, fingia não ter medo do escuro, porque não podia ter medo daquilo que não via. Quando cresci percebi que é exatamente aquilo que não vemos, ou sabemos, que nos causa mais medo. Como combater um monstro invisível?

 O Rio era habitado por criaturas. Não só eram bem nítidas, como nos atraíam. A fotoluminescência agia como um canto sagrado — ou maldito —, que transpassava a armadura que havia colocado em volta de mim. Não pude ficar longe de suas formas e brilho intenso... convidavam-me para adentrar às águas. A voz de Lisa foi quase sufocada, sufoquei o instinto que clamava. Sabia que não poderia ceder tão facilmente, mas a quantos chamados estranhos já não havia respondido após chegar ao Castelo?

A ida para aquele mausoléu, por si só, já era uma atitude deveras ousada para mim, não era?

As formas aquáticas avolumavam-se à medida que me aproximava da margem do Rio Magöhorror. Sim, este era seu nome. Estava tão focada nos horrores submersos que demorei para notar que tudo ao meu redor tornava-se vívido. Não eram animais e flores comuns, pareciam mais provindos de uma floresta maldita. As flores com as bordas metálicas foram as que mais me chamaram atenção; lindas, assemelhavam-se aos espectros do passado, de outras eus e outras pessoas que desejava esquecer. Os esqueletos não estavam no armário, mas plantados na terra (não sei em qual momento a areia tornou-se terra, e quando o deserto virou miragem. Era uma miragem?).

Quando estava próxima demais da margem, Lisa me arranhou, já que eu insistia em não a ouvir. A floresta não me traria problemas, as flores tinham poderes de cura e apresentavam aquele aspecto por estarem carregadas demais. Porém, as águas azuis-índigo eram prisões de criaturas maléficas. Eram elas que me chamavam e não as águas.

Eu tinha esse dom de atrair monstros terríveis e de acreditar que sempre estaria segura. Lisa me olhava com indignação, e eu também me olharia assim se tivesse espelho naquele momento.

Não era uma tarefa fácil proteger alguém atraída pelo obscuro.

Lisa sorriu e disse que tinha todo o tempo do mundo.

E eu soube — mesmo sem provas — que enquanto houvesse azul em mim, ela estaria sempre atenta.

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Pigmeus — A Origem

Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Legião é o meu nome, porque somos muitos.”.
Marcos 5:9

Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas limitações não permitiriam fazer nada por ele — a não ser lhe fazer companhia —, após deixar todas as luzes da casa acesas, peguei um dos meus livros, sentei-me ao seu lado e iniciei uma interessante leitura na companhia de Hercule Poirot, que deveria desvendar um mistério sobre fantasmas, bruxas ou coisas do tipo. Talvez tenha sido a noite mais longa da minha vida. Em menos de duas horas de leitura, a estória já havia terminado; mesmo assim, a noite ainda continuava fria e bastante escura lá fora. A única coisa que poderia fazer era esperar o dia clarear para ir em busca de ajuda.

Vez por outra, eu ouvia barulhos estranhos, tanto no telhado sobre minha cabeça, como por sob o piso assoalhado abaixo de mim. Pareciam ser dezenas de pés correndo de um lado para outro no mais completo desassossego. Tentei me convencer de que era apenas um bando de ratos famintos, que sempre empesteiam velhas casas de fazenda, mas algo me dizia que eu estava redondamente enganado. Mesmo tentando afastar de meus pensamentos qualquer menção sobre terríveis criaturas da noite, eu ficava me lembrando das últimas palavras daquele inerte senhor, — que agora estava sobre a proteção das luzes acesas e, sabendo que havia alguém velando por ele, dormia pesadamente. Na verdade, nunca saberei se seu sono era devido à dose cavalar de calmante que eu havia lhe dado, ou pelo susto que tivera ao acordar e perceber que os tais “Pigmeus” o observavam na calada da noite. Algumas dúvidas me vieram à cabeça…

— Quem ou o que eram esses Pigmeus? Eram seres malignos? Que mal poderiam causar a um ser humano? Essas questões me atormentaram pelo restante da noite. De certo modo eu sabia que o termo “Pigmeu” se referia aos habitantes de uma nação imaginária onde as pessoas não tinham mais de um côvado de altura. Eu ainda me lembrava das esplêndidas aulas de História da África ministradas pelo professor Luís Carlos. Ele adorava mesclar fatos historiográficos com crenças populares que, segundo ele, eram tão válidos quanto qualquer fato científico. Mestre Luís dizia: “... A sabedoria popular é a mãe de todas as ciências. Antes da escrita, veio a fala. Há inúmeras verdades nos relatos dos mais velhos, suas estórias são carregadas de um velado misticismo que esconde inúmeros mistérios de um tempo a muito esquecido...”.

Decidi que assim que conseguisse ajuda para aquele pobre senhor, eu me encarregaria de fazer uma aprofundada pesquisa sobre esses tais pigmeus; quem sabe até mesmo fizesse uma visita ao meu velho e saudoso professor — isto é, se acaso ele ainda estivesse vivo. Quem sabe ele conseguisse me ajudar de alguma forma, com alguma informação que talvez eu não pudesse encontrar nos livros. Até aquele momento, — de uma forma bastante equivocada — eu me enxergava como uma pessoa que deveria ter algum tipo de problema em discernir a realidade com aquilo que minha cabeça pudesse criar. No entanto, o fato de conhecer alguém que temia tanto a noite quanto eu mesmo, e também saber que essa pessoa — um senhor de idade que parecia ter um caráter completamente ilibado — via coisas que outras pessoas não poderiam ver, mas que eu também vi; me fez perceber que o mundo é um lugar mais perigoso do que a maioria das pessoas possam acreditar, pois estamos rodeados de criaturas, fatos e fenômenos que estão bem acima de nossa humilde compreensão.

Assim que o sol raiou, abri todas as portas e janelas da casa; pude perceber que a casa estava toda iluminada pela luz da manhã, então fui em busca de socorro para aquele meu amigo que dava mostras de ter se desligado por completo do mundo. Antes de deixá-lo só, ainda tive o cuidado de verificar se ele ficaria em segurança, mas por mais que eu tentasse interagir com ele, não havia nenhum tipo de resposta de sua parte. Mesmo percebendo que eu me preparava para deixá-lo só, ele nem um pouco se inquietou, pois sabia que agora estava sob a segurança da luz do dia e nenhuma criatura da noite poderia vir a atormentá-lo. Senti em seu olhar — mesmo vazio — o mesmo desejo que eu tinha quando era criança: fazer a manhã durar para sempre, sem necessidade de um entardecer.

Querendo uma solução rápida para aquela situação, e sem mínima vontade de passar mais uma noite naquela casa, caminhei por alguns quilômetros e logo consegui ajuda numa casa às margens da estrada. O proprietário, que muito cortês veio me atender ainda na porta de entrada, disse-me que teria imenso prazer em ajudar. Convidou-me para entrar e tomar uma xícara de café, enquanto ele colocava uma veste mais adequada para ir até a cidade. Em menos de duas horas já estávamos dentro do pequeno hospital da cidade. Meu velho e recém-conhecido companheiro seria transferido para a capital, pois seu caso era grave. Mesmo com toda a deficiência de um hospital interiorano, fora possível — devido a abissal competência do médico que o atendeu — um diagnóstico de catatonismo crônico. Esse mesmo diagnóstico fora corroborado depois, por uma junta médica da capital após vários exames detalhados do paciente.

Em seu laudo dizia que o caso era bastante grave e momentaneamente irreversível, muito possivelmente o paciente jamais conseguiria discernir a realidade novamente. Um choque psicológico tinha o reduzido a quase um vegetal. Era triste ver o fim daquele tal amável senhor. De certo modo eu me sentia um pouco culpado, afinal fora eu que dera os comprimidos para ele beber. E também fora eu mesmo quem apagara as luzes que ele tinha todo o cuidado de manter sempre acesas. Sorte minha que ninguém mais sabia disso. De alguma forma o efeito do álcool em seu sangue potencializou o efeito do calmante sem deixar nenhum vestígio que pudesse ter sido identificado por algum exame. Sua própria filha me agradeceu pelo cuidado com seu pai e me tranquilizara dizendo que sabia que mais dia menos dia algo daquele tipo poderia acontecer. Segundo ela, seu pai bebia demais, exagerava no café e quase não dormia direito...

Depois de uma noite bastante tumultuada e de um dia que se iniciou com muitas desventuras, cheguei em casa completamente exausto. Eu que deveria retornar apenas duas semanas depois, em menos de cinco dias já estava de volta. Minha vizinha — uma viúva, solteirona e sem filhos, que vivia sempre me oferecendo mil favores — havia ficado responsável de olhar minha casa e regar minhas plantas enquanto eu estivesse fora; ela logo se assustou quando cheguei. Estava justamente, naquele momento, na varanda da frente, terminando de regar minhas samambaias quando eu abri o portão. Depois de um grito acompanhado de um risinho malicioso, ela me disse:

— Ora, ora, ora! Não é que esse reflexivo pensador retorna para o seio de sua amada... O que aconteceu? Dissesses-me que ficaria fora por duas semanas...

— Houve um acidente! O senhor que me contratara teve algum tipo de ataque, derrame ou coisa que o valha que me impossibilitou de terminar o serviço. Estou chegando agora do hospital, onde o deixei internado, agora sob a responsabilidade de sua filha. Parece-me que ele não conseguirá terminar essa obra nem qualquer outra sequer. Sua data de validade expirou...

— Diga-me uma coisa? Você não fora justamente substituir uma pessoa que havia também sofrido um acidente? — questionou-me ela, com olhar curioso...

— Sim! Havia sido seu ex-ajudante que havia caído do telhado sobre uma pilha de madeira.

— Eita! Que trabalho mais sinistro esse. Sendo assim, sua rápida aventura como carpinteiro terminou antes de começar? — disse ela, até com certo ar de galhofa.

— É! Parece que devo voltar às minhas profundas reflexões sobre as verdades do Universo, e deixar o ofício do pai de Nosso Senhor para aqueles que têm maior afinidade com o assunto.

Ela, que já estava terminando seus voluntariosos afazeres, ainda me questionou se eu precisava de algo mais. Agradeci profundamente sua boa vontade e disse que estava tudo bem. Tudo que eu mais queria era poder tomar um banho, fazer um lanche reforçado e depois tentar descansar um pouco. Ela, que certamente jamais desistiria de suas investidas, me questionou.

— Quer que eu esfregue suas costas? Também posso lhe preparar um jantar, se você quiser...

— Obrigado mais uma vez! Você tem sido uma pessoa muito carismática comigo. Mas nesse momento tudo eu que preciso é apenas de um pouco de paz...

Assim que ela saiu pelo portão, busquei pela paz e a quietude do meu humilde lar. Como era bom estar em casa. Tomei um banho, fiz um lanche e iniciei algumas pesquisas. Primeiro eu gostaria de saber onde se encontrava meu venerável professor Luís Carlos. Através de uma sobrinha sua, que havia sido minha aluna, descobri que ele estava vivo e muito bem de saúde. Ela me disse que ele ficaria deslumbrado em me receber em sua casa, pois sempre falara muito bem de mim como um brilhante aluno, sempre muito curioso quanto a coisas inexplicáveis. Disse-me ainda que seu tio certa vez comentara o fato de sempre ter visto em mim um aluno curioso, alguém que via o mundo de uma forma diferente dos demais.

Além do endereço, ela também me deu a certeza que eu poderia visitá-lo sem precisar agendar nada com ele. Segundo ela, ele muito raramente saía de casa e ficaria bastante satisfeito com a surpresa de minha visita. Ainda procurei por uma coisa ou outra sobre os pigmeus na internet, mas como não consegui encontrar mais nada de tão interessante e como já era noite escura, decidi que daria aquela fastidioso dia por encerrado e logo fui me recolher. Fechei meus olhos, relaxando ao som profundo e ressoante da chuva que caía lá fora e só voltei a abri-los por volta das quatro horas da manhã, quando após a forte descarga de um relâmpago ter causado uma momentânea queda de energia. Em menos de dez segundo a luz havia retornado, mas foi tempo suficiente para que meus olhos se acostumassem às sombras espessas da madrugada e então pude ver que havia diversos pontos amarelados me espreitando dos cantos escuros do quarto. Percebi que aquelas mesmas criaturas que haviam lançando aquele bondoso senhor num lastimável estado vegetativo, haviam me seguido de alguma forma.

Levantei-me mais do que depressa e acendi todas as luzes da casa. Como a noite já se encaminhava para seu término — fato que era notório pelas primeiras luzes que despontavam no horizonte, trazidas por um sol que não tardaria a nascer —, decidi que já iniciaria minha jornada daquele dia, naquela mesma hora, e não voltaria mais para cama. Tomei um banho e, após preparar um café reforçado, iniciei minhas pesquisas novamente. Depois de quase duas horas em frente ao computador, entendi que aquilo tudo era uma grande perda de tempo. Não havia nada de substancial sobre aquilo que eu realmente queria saber. Todos os sites falavam dos Pigmeus como sendo de tribos de seres humanos de uma estatura um pouco abaixo de um ser humano comum. Não encontrei nenhuma menção sobre seres pequeninos de olhos amarelos incandescentes que vagueiam pelas trevas e temem qualquer tipo de luz.

Logo começaram os primeiros movimentos da manhã, com pessoas indo e vindo de um lado para o outro nas ruas. A cidade desapertava e trazia consigo seus inúmeros habitantes, cada um com seus problemas em busca de uma evolução espiritual e tentando dar respostas às suas questões existenciais, completamente alheios às dificuldades uns dos outros. Vivendo um dia após o outro, na ânsia de chegar a algum lugar, mesmo sem saber para onde ir. Depois de protelar por um longo tempo, me vesti adequadamente e decidi ir procurar a casa de meu antigo professor. Quando cheguei ao local que o endereço me indicava, imaginei que estivesse no lugar errado, mas para minha surpresa, Professor Luís estava na porta varrendo sua calçada — típico de um professor aposentado — e quando me viu ficou muito satisfeito, mesmo sem ainda saber que eu estava ali para visitá-lo, pois num primeiro momento ele pensou que eu estivesse apenas de passagem pela rua. Cumprimentou-me com bastante alegria dizendo:

— Bom dia! Mas vejam só, se não é meu curioso e destemido aluno. O que o trazes aqui para esses lados tão distantes da civilização, meu jovem?

Ele falava como se vivesse numa solitária cabana no meio do deserto e me tratava como se eu ainda tivesse uns dezessete anos. Sua casa parecia uma pequena floresta, com árvores de todos os tipos e cores, por isso a necessidade diária e continua de estar sempre varrendo a calçada, devido ao excesso constante de folhas caídas quase o tempo todo. Após dar uma olhada panorâmica pelo lado de fora daquela pitoresca moradia respondi ao seu cumprimento tentando ao máximo corresponder a alegria que ele demonstrava em me ver.

— Bom dia, Professor Luís! É um prazer imenso poder revê-lo e poder verificar com meus próprios olhos que gozas de plena saúde e muita disposição. Consegui seu endereço com sua sobrinha Letícia que, diga-se de passagem, foi minha aluna. Peço mil desculpas por vir sem avisar, mas ela me disse que o senhor não tem telefone e me garantiu que o senhor muito apreciaria minha visita. Estou precisando muito de seus sábios conhecimentos sobre alguns assuntos um tanto quanto particulares e obscuros. Talvez o senhor possa me ajudar...

— Letícia é uma menina de ouro, sempre que tem um tempo de sobra, vem aqui me visitar. Mas tratando de você, sim! Vamos entrar, venha conhecer meu humilde lar. Não sei se poderei ajudá-lo em alguma coisa, mas aquilo que estiver ao meu alcance, certamente o farei.

Respondeu ele com bastante alegria na voz. Ao entrarmos em sua casa, pensei que estivesse numa espécie de museu de antiguidades e objetos exóticos. Havia uma miscelânea de um tudo e mais um pouco. Dava para ver de imediato que ele vivia sozinho, pois havia somente uma xícara usada sobra a mesa e todo o resto levava a essa dedução. Contudo, mesmo com a imensa balburdia de inúmeros objetos espalhados pela casa e pelas paredes, tudo estava muito organizado e limpo, como se a qualquer momento ele fosse receber um turbilhão de visitantes ao seu museu particular. Fui convidado a me sentar e ele logo me serviu café com bolinhos fritos. Em nenhum momento pensei em recusar, pois sei que pessoas da idade dele se sentem bastante ofendidos se não puderem ser prestativos de alguma forma. A nuance entre o amargo do café e o doce dos bolinhos trazia um prazer indelével ao paladar.

Assim que me vi satisfeito e certamente ele também o estava, decidi que já era hora de usufruir um pouco de sua sabedoria. Contei-lhe em pormenores o motivo de minha visita, solicitando por fim sua ajuda. Fato que, de alguma forma, inflou seu ego, pois logo se levantou e disse que eu o aguardasse onde estava. Para me dar algum tipo de resposta ele queria me mostrar algo primeiro. Após alguns minutos, retornou com alguns livros velhos que logo foram colocados à minha frente. Um em especial, com capa de couro encerado, foi mantido consigo debaixo do braço e, apontando para as encadernações à minha frente, disse com bastante entusiasmo:

— Essas obras à sua frente são do tipo de literatura comum e estão disponíveis em qualquer sebo ou livraria do gênero. São livros rasos que, para serem publicados, têm um conteúdo prolixo, cheio de regras e fundamentações científicas com notas de rodapé e todas essas bobagens. Contudo, esse livro aqui é uma espécie de enciclopédia do obscurantismo. Seu autor ou autores são desconhecidos. O que se sabe realmente é que é uma obra jesuítica, muito utilizada pelos membros da Companhia de Jesus em suas inúmeras viagens às terras desconhecidas e nunca dantes desbravadas pelo homem civilizado. É uma obra que cita toda e qualquer criatura — deste mundo ou não — que se tenha notícia; para que se alguém, porventura, se deparar com algum desses seres, pelo menos saiba do que se trata. E talvez consiga tentar enfrentá-los.

Com bastante receio, como se estivesse me entregando um recém-nascido, ele colocou o livro em minhas mãos. Logo pude perceber que era um exemplar raríssimo, mas bastante conservado. Folhei o livro com cuidado e pude perceber que estava escrito em diversas línguas diferentes, como se fosse a união de inúmeros textos avulsos. Sorte minha que o índice estava em castelhano. Fui correndo o dedo pela ordem alfabética e me deparado com alguns seres não tão estranhos ao meu humilde conhecimento: Almajonas, Cuckoo, Kurupi e a lista era enorme e bastante curiosa; de repente meus olhos se depararam com um título inusitado: “Órfãos”. Antes de abrir na página indicada, perguntei ao professor Luís:

— Como assim? Órfãos? Órfãos de quem?

— Quem sabe? O livro diz que são criaturas que ficavam vagando pelas cercanias dos cemitérios como se fossem pedintes na porta de uma igreja. Geralmente andam em forma de um casal com a aparência de duas crianças inocentes que estão em busca de seus pais. Segundo o livro, todo aquele que uma vez se encontrou com os órfãos e sobreviveu para contar a estória, jamais voltou a ser a mesma pessoa; a maioria findou seus dias na mais completa demência.

Após o nome dos órfãos, meu dedo indicador se deparou com aquilo que eu estava procurando — Pigmeus! Abri o local indicado pelo índice e me deparei com uma imagem bastante sinistra. Um humanoide com grandes olhos amarelos, sem nariz e sem orelhas, com uma enorme boca cheia de dentes serrilhados — que mesmo na imagem era possível constatar que seriam terrivelmente afiados. Abaixo da imagem havia uma breve descrição numa língua que não consegui identificar, mas logo minhas dúvidas foram sanadas, pois rapidamente professor Luis me explicou em pormenores do que se tratava o texto.

— O texto em si traz, em primeiro plano, várias descrições desses seres em diversas civilizações ao longo da História, desde o Egypto antigo, passando pelo mundo Greco-romano, Idade Média, até serem confundidos com algumas tribos de seres de baixa estatura do continente africano. Tais criaturas já foram confundidos com anões mineradores na antiga Núbia, onde trocavam enormes quantidades de ouro e pedras preciosas por crianças inocentes. Já estiveram no imaginário nórdico como duendes que viajavam através do arco-íris e trocavam potes de ouros por jovens ainda imberbes. E em muitos outros locais de variadas formas diferentes.

No entanto, os verdadeiros pigmeus que seu amigo alega ter visto e você também, talvez o tenha, — e não duvido de jeito algum — são seres maléficos tão antigos quanto a própria existência deste mundo. Certamente já habitavam os recônditos sóbrios do caos antes mesmo da luz ser criada. Esses terríveis seres sobrevivem do medo daqueles a quem eles perseguem, geralmente pessoas com problemas de insônia ou aqueles que de alguma forma padecem de nictofobia, pois para se alimentar do medo de suas vítimas, estas devem estar acordadas para liberarem a energia vital que se desprende em momentos de maior angústia de um indivíduo. Por serem criaturas propriamente das trevas, temem a luz acima de qualquer coisa e não há relatos que tenham atacado, quem quer que fosse, em plena luz do dia.

Infelizmente o texto não relata nenhuma forma concreta de como podem ser enfrentados, pois sua verdadeira força não se encontra neles mesmos, mas na fraqueza e aflição de suas vítimas que devem a todo custo tentar enfrentar seus próprios medos e encarar as trevas de frente. No texto, há algumas orações, certos encantamentos e disposições de certos itens pelo quarto da vítima que pode vir a afastá-los, mas não há relatos de algo que possa expulsá-los por completo de uma forma definitiva. Uma vez perseguido por um pigmeu, a vítima deverá se atentar a sempre dormir num ambiente iluminado e, se possível, na companhia de outras pessoas...

A imagem daquela horrenda criatura ficou gravado na minha memória e, as palavras de meu antigo professor, cravadas no meu peito. Por um momento fiquei bestificado com tudo aquilo. Saber que havia tantos seres que transitam entre nosso mundo e o outro bem além de nossa compreensão e que essas tais criaturas sempre foram de conhecimento da própria igreja, e o pior de tudo era pensar que pessoas como eu, quando relatam sobre a existência de tais seres, — até mesmo para alguma autoridade clerical — são tidos como mentalmente perturbados.

Sem deixar transparecer ao meu venerável professor meu profundo abalo emocional, agradeci a ele por sua ajuda e, ao demonstrar que estava de saída, antes de me despedir fui convencido a ficar em sua casa e lhe fazer companhia para um almoço que ele mesmo preparara. Foi um repasto simples, mas bastante saboroso. Nesse meio tempo ainda falamos bastante sobre vários outros assuntos, pois percebeu ele que a estória dos pigmeus havia relamente me abalado. Após o almoço, já um pouco mais calmo, assim que me despedi de meu antigo e sábio professor, decidi dar um passeio pelo centro da cidade e, no horário de visitas, passar pelo hospital para ver como estava meu companheiro de rápida experiência em carpintaria.

Para minha surpresa ele já não estava mais naquela instituição. Naquele momento, seu corpo estava sendo velado numa capela próxima de sua antiga casa. Ele havia falecido naquela mesma madrugada. Uma enfermeira da noite o havia encontrado já sem vida numa de suas rondas pela madrugada. Como eu não era da família, o havia conhecido a menos de um mês e não tive maiores intimidades com sua filha, achei melhor não me aproximar naquele momento tão íntimo. Depois eu levaria flores em seu túmulo. Bastante contrariado, cansado e até mesmo melancólico, decidi retornar para casa. Talvez com mais dúvidas ainda do que quando eu havia saído. Quando cheguei de frente ao meu portão de um lado da rua, minha vizinha também chegava do mercado pelo outro lado. Nos cumprimentamos e, naquele momento, pela primeira vez, eu a vi com outros olhos e percebi o quanto ela era atraente e sedutora. Decidi ser um pouco mais atrevido e me arrisquei a perguntar:

— Essas coisas são para aquele jantar que tens me prometido há tempos?

— Não necessariamente! Mas, se assim você o desejar, passaram a ser... — disse ela um tanto quanto assustada com minha atitude, mas bastante animada com a ideia.

Em poucas palavras ficou decidido entre nós que ela faria o jantar e que comeríamos na varanda de minha casa. Eu me encarregaria do vinho e das velas. Tudo correu de forma esplêndida. O tempo estava fresco, o céu limpo, e logo fomos agraciados pela magnificência de uma enorme lua cheia que abrilhantou ainda mais a beleza daquela noite. Depois de umas taças a mais de vinho, nos animamos além do que o normal e, quando dei por mim, já estávamos deitados um nos braços do outro em trajes de Eva após alguns momentos de louca euforia, onde pudemos acertar nossas diferenças. Ela, por ter exaurido suas forças numa insana cavalgada, que não parecia ter mais fim, estava ressonado em meus braços, fungando em meu pescoço um hálito doce com frescor de hortelã — até um pouco estranho para quem havia bebido quase uma garrafa de vinho. Devido aquela inebriante labuta vivida momentos antes, havia exigências em meu corpo que deveriam ser sanadas imediatamente. Com muito cuidado retirei meu braço de debaixo de sua cabeça e silenciosamente fui até o banheiro para me aliviar. Demorei um pouco mais do que o necessário e, quando estava retornando ao quarto, percebi que ela estava sentada no meio da cama em completo estado de choque, olhando para um dos cantos do quarto...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais