Azulíneo

A lembrança etérea me faz companhia enquanto sigo floresta adentro; meu instinto diz para não voltar ao Castelo, não sei explicar o motivo, talvez intuição ou simplesmente…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A lembrança etérea me faz companhia enquanto sigo floresta adentro; meu instinto diz para não voltar ao Castelo, não sei explicar o motivo, talvez intuição ou simplesmente para sanar essa curiosidade obsessiva pelo desconhecido. Sutilmente, o cenário mudou; elevei meus olhos e senti um calafrio, as nuvens se dissiparam, o céu agora vestia um assombroso manto azulado, tinha também aquele brilho insólito das estrelas.

Em determinado trecho, escuto algo longínquo, como um sussurro, talvez seja apenas o vento; caminho com mais afinco enquanto o som reverberava no interior dos meus ouvidos, porém sou forçada a cessar os passos, pois perante a mim se encontra uma altíssima muralha de difícil acesso, composta por galhos e folhas de diferentes espessuras entrelaçados, coberto por musgos e líquens. Tentei enxergar sua altura, logo fui acometida por uma leve vertigem; me recomponho e vou ao seu encontro.

Aquele vislumbre arrancou gemidos inexprimíveis, aguçando ainda mais minha curiosidade; preciso atravessá-lo, os musgos dificultam a passagem, mas persisto. Então senti o gentil toque da brisa fresca em meu rosto, ela era úmida como se eu estivesse próxima de algum mar. Não estava preparada para tal paisagem, meu colo pulsa em desassossego diante de tamanha beleza. No passado presenciei este mesmo fenômeno da bioluminescência quando estive com a doce Ameritt na biblioteca, porém isto aqui é incomparável, este viridário é de uma beleza aterrorizante! Seu brilho alterna entre um pálido-anil e azul-turvoso, há também uma enigmática nevoa do mesmo tom terrífico.

Lembro de achar fascinante o processo no qual envolve a molécula luciferina e a enzima luciferase, resultando neste fenômeno de tirar o fôlego. Sinto que estou mergulhando no abismo oceânico, onde criaturas inimagináveis habitam a mais profunda escuridão. Tanto a flora como fauna são horripilantes, ali vida e morte coexistem; essa dualidade causa um grande incômodo, ora se vê um jardim exuberante, já outras vezes vê-se flores em decomposição, desafiando os mais sábios mestres alquímicos como Paracelso.

Além deste aspecto obscuro, elas executam uma dançar terrífica, orquestrada pelo nefasto azulescer. Porém, uma espécie endêmica é predominante, detentora de uma beleza extraordinária; as folhas verde oliva abraçam todo o caule e parte do cálice de pétalas externo é totalmente negro, contrastando com seu interior carmesim brilhante; são curvilíneas e levemente pontudas — lembrei das enigmáticas flores de Ovaeren que também escondiam em seu interior sua verdadeira beleza escarlate.

Imagino que possa existir um grimório oculto de botânica, catalogando todo espécime de plantas e suas respectivas finalidades. Enquanto divago, algo paira pelo ar, como materialização de um ectoplasma, vem ao meu encontro. "Será uma carta?” — Meu pensamento ecoa no ímpeto azul, assisto o objeto pousar em meus pés; abaixo-me para pegar e tenho a confirmação: é um fragmento de um mapa geográfico. Deduzo ser um gráfico grandioso pelas linhas incompletas, confeccionado em papiro, demonstra a região em que resido. Meus olhos decaem sobre o registro com extremo fascínio.

Aos arredores do Castelo está o Jardins de Olga — parece ser minha atual localização. Minha imaginação se perde nas linhas inacabadas, aquele lugar se tornou ainda mais tangível. Um nome que me causou grande tormenta, a “trilha do nevoeiro ramoso”, anteriormente pude presenciar a presença assombrosa do nevoeiro envolvendo o Castelo, bem como o arranhar dos galhos sob a superfície áspera das inúmeras pedras — tal lembrança me causa calafrios.

Vejo também duas vilas povoadas, as quais: Séttimor — a qual ouvi histórias a seu respeito; e a outra é a Vila Nemonium, no meio delas se encontra os Bosques Núridos, mais à frente uma região montanhosa chamada de Cimos Nevados. Meus olhos saltam ao ler: “Rio Bioluminescente de Magöhorror” — ele atravessa a área de montanhas. Vejo também a área de desertos chamada de “Dunas Múrmuras” e, no meio da região, um pequeno desenho sobressai e me faz estremecer: uma ilha indica um oásis. Ergo o mapa na altura dos olhos, traço os pontos cardeais com os dedos, e inicio minha peregrinação ao rio da Bioluminescência, sabendo que desta vez terei um norte para seguir. Seguro o mapa como se minha vida dependesse dele — o que não deixa de ser um fato.

Este lugar está começando a me afetar, talvez seja por conta do fúnebre flúmen que esparge pelo ar. Olho ao redor e vejo uma horrenda mudança nas flores: no lugar das deslumbrantes pétalas carmim, rostos pálidos disformes, com olhares vazios, são emoldurados por pétalas fúnebres num azul indescritível; por fim, um brilho metálico contorna cada uma. Elas parecem entonar lamúrias, como uma espécie de coral fúnebre. Acelero os passos, enquanto os olhares dos rostos me encaram; ao longe o calmo quebrar do mar ecoa. Checo o mapa e sigo a Leste, acredito que seja a maneira mais rápida de chegar ao Rio Bioluminescente.

Continuo ouvindo o fúnebre cântico; quando a brisa me surpreende trazendo consigo silenciosas gotículas que tocam meu rosto, imediatamente lembro dos incontáveis banhos de chuva tomados na adolescência, quando eu abria o portão e, com os pês descalços, corria pelos escorregadios paralelepípedos. Engulo amargamente aquela memória, não tenho mais espaço em minha galeria para ela. Melancólica, caminho, e acabo encontrando a estranha flor, porém estava diferente, tinha se fechado, assumindo uma forma de um coração anatômico. O tom carmim voltara a ser predominante, as pontas ficaram mais rígidas, pode ser apenas seu ciclo natural, ou algum fator mágico.

Fito novamente o vertiginoso firmamento, enquanto ele conduz minh’alma para um espiral de infindáveis horrores; essa cor traz à tona coisas adormecidas como culpas, arrependimentos, lembranças amargas e pensamentos que habitam as profundezas do meu âmago.

“A imortalidade é uma mera ilusão” — a frase escapa de meus lábios apáticos, enquanto isso, presencio mais uma transformação da misteriosa rosa: agora ela desabrochou por completo, suas pétalas traziam uma tonalidade de vinho-profundo, eram finas, alongadas e espinhosas. Essas transformações eram intrigantes, abaixo-me para observar melhor, tinha uma beleza obscura, queria estudá-la, porém tenho que partir. O familiar som das ondas me faz andar mais rápido, alcanço então as margens onde as calmas ondas beijavam com ternura os alvos grãos de areia; há também uma embarcação ancorada que já teve seus dias de glória, do modelo cúter. Aproximo-me dela e, no casco, tinha um nome: “Veleiro de Allant Clirrathz”.

Media por volta de dez metros de comprimento, um único mastro sustentava as duas velas amareladas feitas de poliéster, já desgastadas em certas partes. Em certas partes, cautelosa, adentro no veleiro; arrepios percorrem meu corpo, imagino as inúmeras pessoas que velejaram neste barco; será que foram testemunhas do inimaginável? O que descobriram sob estas águas negras...?

A embarcação fora erguida em cedrinho muito bem estruturado, ainda se via as pinceladas de verniz; havia um alçapão abaixo das velas e eu fui em sua direção, levantei sua pesada porta, desci alguns degraus. Lá encontrei uma simples pia, à direita um pequeno armário com alguns utensílios para cozinha, na esquerda uma cama com uma sutil mesa de canto, por fim um banheiro.

Nunca velejei antes; o pouco que conhecia foi através de livros. Subo os degraus, caminho até a proa e contemplo o imponente do céu azul neon, iluminando as águas negras. Vou para a popa, ligo o motor e, trêmula, seguro o leme; estou entregue ao destino, espero que ele seja gentil comigo.

Por incrível que pareça, o som do mar acalma meus demônios; em contrapartida, a solidão é avassaladora, o vazio consome minhas entranhas. Vasculho o bolso e tiro o mapa; será que me arrisquei nesta jornada? Talvez fosse melhor contornar os Bosques Núridos, cruzando as áreas montanhosas até finalmente chegar no tão desejado Rio da Bioluminescência... Mas espera, por que não vi isto antes? Quase no final do mapa, havia um nome que me fez tremer: “Oceano Sem Fim”. Logo abaixo estava escrito: Estranhas criaturas do mar. O que será que estas águas escondem? Talvez o temível Kraken ou espécies que fazem parte da criptozoologia.

Já se passaram algumas horas e até que estou me saindo bem. Minha maior dificuldade tem sido controlar as velas; às vezes o zombeteiro destino joga os dados e me surpreende com ventos fortes, desestabilizando o veleiro, porém isto passou a ser constante, deixando a viagem árdua; além disso, existe um terror primordial no infindável oceano que me causa extrema angústia, ademais prossigo.

Mas o destino é incansável e vil. Desta vez ele trouxe ventos tenebrosos, gerando ondas altas; uma delas atingiu o casco, deixando o bombordo quase imerso e o convés inundado. Se eu não fosse tão ágil, certamente a embarcação estaria naufragada; contornei as investidas dos ventos, não obstante segurei com afinco no leme e continuei.

Avisto finalmente a terra, deixo a embarcação ancorada. Assim que desci, vi que a vegetação é a mesma encontrada nos Bosques; aqui a espécie predominante era das rosas que sofreram aquela mutação sombria, em específico em sua primeira fase. Será que a flor teve origem aqui? Tímido, o rio anuncia sua presença, serpenteando por entre a vegetação de rostos disformes, um verdadeiro espetáculo horrífico em pálido-anil, desaguando no oceano, deixando rastros luminosos por onde passa; conseguirei alcançar sua nascente?

Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Aborom

Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser. Enquanto sorvia o chá, minhas papilas gustativas se entorpeciam com cada nota presente na infusão. Ela sorriu, levantou-se e me convidou para uma caminhada. Concordei meneando a cabeça, finalizei a xícara, elevei meu rosto e sorri. Ameritt respondeu ao meu gesto com um amável olhar. Inebriada pelos sabores, levantei-me e segui ao seu lado. 

Enquanto caminhava, secretamente me questionava sobre esta doce senhora. Quais segredos essa figura tão enigmática esconde? Ela é realmente um ser fascinante, de alguma forma que não compreendo. Sua presença me acalma. Talvez seja sua forma pacífica de falar, seus gestos e seu olhar sereno e penetrante. 

Iniciamos a caminhada, e a forma como ela pronunciou a palavra "besin" ressoava em minha mente como um doce sussurro. Era acolhedor e engraçado, arrancando de mim discretas risadas, fazendo-me recordar da minha mãe e do seu amável "boa noite, querida filha", seguido de um carinhoso beijo em minha testa. Espero sinceramente que tais lembranças não sejam esquecidas. Guardo-as em meu mais profundo íntimo e volto à realidade. Ameritt percebeu minha "ausência" e indagou se eu estava bem. Respondi que sim, e continuamos. 

Ela estava boquiaberta com a flora desta estufa. Disse-me que cuidava dela com muito esmero. Meus olhos pararam em algo que eu não havia notado antes: enormes abóboras, donas de um brilho hipnotizante. 

— Rose-besin — disse Ameritt calmamente, desacelerando seus passos. Receosa, eu a fitava, pois ela poderia saber algo sobre mim; seu olhar parecia sondar meu íntimo. 

— Saiba que tenho grande apreço por sua companhia. Não tenho recebido tantas visitas ao longo desses anos, apenas dos meus amáveis besouros. 

— Eu que fico lisonjeada com sua companhia. Confesso que... — respirei fundo e continuei —, a senhora me lembra muito minha mãe, tanto na fala quanto nos gestos. 

Abaixei a cabeça com grande pesar após dizer isso. Um silêncio pairou sobre nós. Ela não precisou dizer nada; suas feições falavam por si. Prosseguimos, enquanto eu ouvia suas explicações, tudo com uma paixão singular. Era encantador vê-la falando. 

— Rose-besin, você está ouvindo? Disse que sim. Que doce som as gotas de chuva fazem ao cair no chão, não é mesmo? Venha, gostaria de mostrar algo especial — ela acenou para o canto esquerdo da estufa. 

Após chegarmos, senti algo indescritível, e o que vi foi amedrontador, porém mágico. Eram enormes abóboras detentoras de um brilho único e hipnotizante, como um ardente pôr do sol colorindo o céu com notas alaranjadas. Ao lado delas, nascia um tipo de fungo chamado Obomitas (posteriormente ela explicou-me que era uma espécie de funghi) da mesma tonalidade. Ela disse que, por conta da meia estação, tanto as abóboras quanto os Obomitas se alastraram com rapidez sobrenatural sob as gramas. 

Eu ouvia tudo, mas meus olhos estavam usurpados por aquele brilho. Ela explicou o quão difícil era cuidar da estufa nessa época, pois a vegetação sentia a mudança no clima. 

— Não é só a vegetação que sente a mudança. — As palavras rastejaram para fora dos meus lábios. 

— Perdão, você disse algo, minha querida? Está tudo bem, Rose-besin? 

— Não disse nada — sorri, enquanto meus olhos inertes fitavam as abóboras. Estava claro que não poderia esconder quem eu sou, ainda mais para uma pessoa tão sábia como Ameritt. 

Ela olhou-me com sinceridade e disse: 

— Eu sei, minha querida, o que lhe ocorreu. Existem mais como você aqui no castelo. 

Essa informação me deixou surpresa e aliviada por saber que eu não era a única. Contei-lhe da minha transformação, bem como da minha jornada até ali. Ela ouvia atentamente, e seu semblante exibia um grande pesar. 

— Eu sinto muitíssimo, minha querida... — Interrompi sua fala, pois já sentia a presença dos pontiagudos caninos. 

— Preciso sair... — Mas caí de joelhos. Meus caninos se tornaram visíveis e brilhantes perante os tons alaranjados das abóboras. Gritos inumanos emergiam das minhas entranhas. Vi-a caminhar por entre a estante, enquanto meu corpo se contorcia com violência. Antes que a transformação fosse completa, ela retornou com algo nas mãos. Diante de mim, ergueu as mãos manchadas de terra em forma de concha. Com os olhos fechados, iniciou uma reza numa língua indecifrável. Em seguida, esmagou o que pareciam ser algumas ervas e folhas, produzindo um líquido viscoso esverdeado que caiu em minha boca. Senti um gosto terrível. O que seria isso que acabara de descer em minha garganta? 

Sem demora, senti os efeitos. As pálpebras dos meus olhos tornaram-se pesadas, até que finalmente meu corpo tocou o chão.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Insondável

Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea. Desde a minha “morte” tenho presenciado o desconhecido em suas variadas formas, mas nada como o inquietante arranhar dos pálidos galhos sob a estrutura do castelo, causando-me intensos arrepios.

Meus dedos escorregam pela maçaneta, deixando-a para trás. Fito mais uma vez o cinzento céu e caminho devagar rumo à janela. Ouço o soprar dos ventos que, sorrateiramente, rastejam por entre as frestas do castelo, remetendo aos acordes presentes na linda e fúnebre missa composta por Mozart, intitulada Réquiem.

A vejo surgir no canto esquerdo. Ela possui um estranho brilho, ao mesmo tempo que é opaca. A densa névoa parece dotada de algum tipo de inteligência, pois escala com muita perícia cada tijolo, tal qual uma astuta formiga que segue seu caminho com fervor. Volto meu olhar para a escuridão cinzenta e percebo então o que havia constatado há algum tempo: meu âmago é tão vazio e tenebroso quanto a nívea que se move lá fora, usurpando o tênue luar, bem como o brilho das estrelas.

Enquanto meus devaneios me afastam da realidade, uma horrenda dança orquestrada pelos ventos soturnos é iniciada. O balançar dos arbustos e das árvores soa como uma nefasta canção de ninar, proferida secretamente pelos deuses do infindável cosmo, espalhando pelas sombras suas verdes folhas.

Em estado de torpor, acompanho com meus olhos brilhantes o bailar da flora pelos arredores do castelo. Elas parecem obedecer aos comandos de alguma entidade que desconheço, assim como aquele ramoso nevoeiro.

Acabo atraindo a atenção dos incontáveis ramos, que logo vieram ao meu encontro, e finalmente vi sua horrenda forma com clareza. Eram compostos por extensos fragmentos esbranquiçados que, unidos, formavam os pavorosos e colossais ramos. Uma estranha sensação abraça meu corpo, sinto-me vulnerável, como se o ramoso nevoeiro conhecesse minha natureza. Minhas entranhas se contorcem, meu colo palpita desregulado.

Retiro minha mão do vidro com rapidez, mas eles permanecem ali, pairando na escuridão cinzenta, me observando e arranhando a janela de maneira ininterrupta, produzindo um som medonho que logo faz morada em meus ouvidos. Os ventos se intensificam, fazendo com que a dança dos galhos se torne mais intensa. Neste momento, uma dessas lembranças que nosso cérebro tanto se esforça para manter enclausurada nos confins do subconsciente decidiu nadar até a superfície.

Aquele arranhar dos galhos trouxe à tona algo que estava adormecido. Meus olhos agora vestiam uma sombria cortina de lágrimas que estava prestes a cair. Os amargos anos que passei ao lado do Airton foram repugnantes. O som dos galhos remetia aos talheres ainda com resquícios de macarronada deslizando sobre os pratos de porcelana branca, produzindo um som detestável. Ele fazia isso com um sorriso perverso no canto da boca, entre outras inúmeras grosserias. Seu respirar pesado e desagradável era como o soprar dos ventos lá fora. Infelizmente, ele ainda me assombra, tal qual um obsessor que sempre fica à espreita.

Lágrimas caíram e, por breves segundos, a ira se apoderou de mim. Meu corpo tremia, meus punhos estavam cerrados. Um grito emergiu das minhas entranhas: — Deixe-me em paz, criatura horrenda, não me tortures mais! — Gritei até meus pulmões cansarem, para a assombração que cruelmente sorria em meu subconsciente. Minhas palavras foram ouvidas por cada tijolo do castelo. Por mais que queira perder-me em lascívia, precisava me conter. Meu corpo se encontrava febril, minhas mãos sedentas. Com a finalidade de afugentar aqueles pensamentos, fecho a jaqueta, cruzo os braços e inicio uma caminhada em círculos, ignorando completamente o fato de que o assombroso nevoeiro ocupa grande parte do meu aposento.

Após um longo período, vou me acalmando. Mais uma vez, estou diante da porta. Tenho que sair. Respiro fundo e, antes de sair, noto uma presença atrás de mim. Cautelosa, olho por cima do ombro, com a mão na maçaneta. Então, vislumbro algo horripilante: a neblina havia tomado meu aposento quase por inteiro, tal qual a chegada sorrateira da noite, devorando os últimos raios de sol.

Munida de coragem, abro a porta. Sou agraciada por uma brisa gélida. Antes de fechar a porta, vejo pela fresta a névoa se movendo de forma estranha, em círculos. Sinto o frio na espinha me abraçar. Atrás de mim, um enorme corredor iluminado por anêmicas velas que lutavam para não cair dos candeeiros dispostos nas paredes. — Finalmente consegui sair! Sussurrei, enquanto meu olhar se perdia pelo corredor ornamentado pelas sombras disformes vindas das velas. Prossigo em direção à biblioteca; preciso folhear aquele livro mais uma vez.

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Palidez

A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A sensação de torpor parece não querer me abandonar, cada puído tijolo do meu aposento escuta com atenção minhas aflições, meu corpo ainda sofre com espasmos, a doce e sedutora voz do Conde reverbera em meu inconsciente, bem como as notas tocadas por aquela fúnebre orquestra.

As vagas lembranças eram confusas, a dança, o jantar, aquela versão obscura do castelo, por mais estranho que fosse, queria estar lá novamente. Continuo deitada em meus aposentos numa majestosa cama, feita de madeira sólida, ela ocupava grande parte do quarto. Elevo meus olhos e noto uma cabeceira imponente em mogno, esculpida à mão, com adornos que eram um verdadeiro deleite.

A cômoda ainda trazia um aconchegante estofado, em tons de roxo, diria que o anfitrião me conhece muito bem, pois esse tecido me remete a um passado quase esquecido. Fecho os olhos e deslizo suavemente meus dedos ainda manchados da última refeição, sentindo toda maciez do tecido, deixando escapar dos meus lábios escarlates tímidos sorrisos.

Sem perceber, sou conduzida para épocas felizes, quando ainda criança, meus pais me cobriam com uma manta de veludo verde musgo, nos dias chuvosos, lembro-me do doce cantar entoado pela minha mãe, quando os intensos relâmpagos invadiam meu quarto, sua voz me acalmava e me fazia dormir. Se eu buscasse nas profundezas do meu subconsciente, ainda conseguia ouvir o sussurrar amoroso, desejando um boa noite, deixando seu inconfundível sutil aroma de rosas.

Por breves segundos, voltei a ser a inocente Rose, cujas únicas preocupações eram: ser uma boa filha, brincar e tirar boas notas. Mas, ao abrir meus olhos inundados de nostalgia, vejo os brilhantes cristais presentes em um lindo lustre feito de ferro fundido, um lembrete de que ainda estou aqui, percebo também que ainda era dia, pois a luz rastejava pela fresta da enorme cortina, (que também era de veludo) em tom de roxo, escondo-me atrás da cabeceira e espero o anoitecer.

Sem demora, ela chegou, a encantadora noite, me levanto com leveza. Caminho para a imensa janela, abro-a e sou banhada pelo cálido luar, em seguida, sinto o toque gélido da noite em meu rosto e meus cachos dançam com o soprar noturno.

Vejo que, ao lado da cama, há uma cadeira vitoriana com minhas roupas dobradas, talvez tenha sido o mordomo; em frente à cama se encontra uma lindíssima banheira vitoriana e, à sua direita, uma pia esculpida em porcelana branca que parece ser do século XIX, com detalhes em dourado. 

Meu tempo é escasso, então, limpo meu rosto assim como algumas partes do meu corpo, sinto-me renovada com o toque da água gélida, só então troco de roupa, e torno a ficar em frente à janela.

Não sei ao certo, mas havia algo sombrio nos arredores do castelo, um medo irreal percorre cada centímetro do meu corpo, o terror se manifestar através de arrepios, vislumbro o céu com poucas nuvens, onde as estrelas ostentam um brilho nunca visto antes, a lua está em sua mais bela forma, imponente e cheia, minha atenção se volta para o horizonte, é possível contemplar inúmeras montanhas altíssimas, já outras menores, porém, todas brilhavam horrivelmente com o luar, e a vegetação presente nos picos das montanhas adquiriram um verde neon.

Uma visão arrebatadora, meus olhos seguem perambulando na escuridão, me deparo com vegetações mais rasteiras, e também alguns arbustos, mais abaixo, vejo algumas estradas serpenteando para diferentes direções, absorta, é quando vislumbro algo aterrador, em meio àquela escuridão, surge um denso nevoeiro, fazendo com que pouco a pouco as montanhas, estradas e vegetações desaparecessem em meio à neblina. 

Entretanto, não era um simples nevoeiro, eu estava prestes a testemunhar a materialização do desconhecido, nossa ínfima mente não está preparada para tal visão, conforme ela se movia, pude ver uma espécie de galhos longos e esbranquiçados, alcançando alturas inimagináveis.

Absorta, vejo o nevoeiro ultrapassar os altos muros do castelo, fecho a janela pois, ele se aproxima, meu colo palpita descompassado, senti a mesma sensação ao tocar aquele funesto livro confeccionado em pele humana.

Enrolo meus cachos com os dedos frenéticos, e começo a lembrar de algo terrífico; na segunda página do livro, dividindo a folha com outros símbolos e frases, havia um desenho que ocupava uma boa parte da folha, eram longos ramos brancos, o horror ancestral corrói minhas entranhas, meus olhos continuam tragados pelo desconhecido, pouco a pouco me torno nívea.

Já não é mais possível ver as montanhas e vegetações, nem mesmo o brilho da lua, apenas o mover dos brancos galhos na imensidão do céu, ouço passos temerosos subindo e descendo as escadas do castelo, ouço sussurros que se perdem pelos corredores, aquele quarto se torna sufocante, preciso ir novamente à biblioteca.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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