Solidão
Nas horas nebulosas, de enfadonhos | Momentos, a tristura estando alta, | Tristonhos ficam mais os pensamentos | Que tenho, ao lembrar que dei as costas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Nas horas nebulosas, de enfadonhos
Momentos, a tristura estando alta,
Tristonhos ficam mais os pensamentos
Que tenho, ao lembrar que dei as costas
A quem mostrou dispor do próprio tempo,
Chamando pra jogar conversa fora —
A chance que passou e não disponho;
Um dia que hoje sinto fazer falta…
Um erro que lateja na lembrança,
Ao lado de uma vil desesperança:
As duas apostando a minha sorte…
Disputa em que só perco o desatino…
Um jogo sob as cartas do destino,
Que temo persistir até à morte…
Wallace Azambuja
Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Navegante
Já houve dias de calmaria, dias de tempestade. Já houve uma época que eu nem navegava. Por que raios fui me enfiar neste mar?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Já houve dias de calmaria, dias de tempestade. Já houve uma época que eu nem navegava. Por que raios fui me enfiar neste mar?
Minha embarcação não está apta para navegar em águas tão inóspitas, as ondas jogam-me pra lá e pra cá, penso em desistir... Não estou acostumada às provas que essa vida náutica me impõe.
Por outro lado, sinto que se não fosse os dias sombrios e devastadores, eu nunca haveria aprendido, eu nunca haveria me tornado perita nesse assunto, são as mazelas que nos transformam em algo superior ao que erámos, nossa evolução de nós mesmos. Isso que importa.
Continuo na esperança de avistar minha ilha perdida, aquela que trará meu refúgio terrestre. Como se todo esse sofrimento fosse recompensado no imediato momento que percebo aquele pedaço de terra, ali, boiando sob uma imensidão de água. Como somos pequenos!
Somos um nada em relação ao tudo, tudo que não consigo entender, tudo o que está lá fora. Se nem consigo entender tudo o que está aqui dentro, ora, que dirá o que rondeia lá fora. Ademais, essa minha cisma de entender o porquê das coisas já passou há muito tempo, porque entendi que entender é nada em relação ao sentir o que preciso sentir. Só não aprendi a ser menos confusa, isso me é quase impossível!
No entanto, há algum tempo já atraquei em uma ilha, muito bonita por sinal, tranquila e inabitada, um paraíso nesta terra. Tinha um ambiente agradável e belezas indescritíveis. Era tanta paz e sossego que me irritou, e não consegui permanecer nem mais um segundo ali. Retornei para o meu mar, agressivo e intempestivo. Eu corri para seus braços de amor, amor que reconheci na hora em que ele começou a me jogar para lá e para cá novamente.
Acho que finalmente entendi o porquê de ter me enfiado neste mar, só acho que não estou preparada para a resposta. Talvez deva permanecer quieta e continuar a manter essa incógnita para mim mesma, talvez eu deva continuar me enganando. Talvez eu deva parar de procurar outra ilha, porque eu pressinto que irei me irritar novamente, porque eu sou assim. Talvez minha felicidade não dependa de um paraíso, mas provenha e necessite do caos. Talvez eu esteja só divagando no nada, talvez eu nem exista. Talvez...
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Sob o Véu da Noite: Velian e o Abismo
O vento cortante do Rio de Janeiro soprava com hálito de tempestade, uivando entre as rachaduras dos prédios…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O vento cortante do Rio de Janeiro soprava com hálito de tempestade, uivando entre as rachaduras dos prédios antigos como se os deuses da noite trovejassem advertências em línguas esquecidas. Em Copacabana, onde o mar se confundia com o céu de chumbo, Velian caminhava como um espectro pelas vielas iluminadas apenas por postes trêmulos. Seu corpo parecia não pertencer àquele tempo. Seus olhos — sombreados por dúvidas e ecos de existências anteriores — buscavam algo que não se nomeava: talvez consolo, talvez uma resposta, talvez apenas um instante de silêncio.
Ao chegar à cobertura de Cassandra, um dos últimos refúgios onde o luxo e a decadência coexistiam como amantes cansados, foi recebido com o cheiro inebriante de rosas escuras e sangue fresco. O perfume era tão antigo quanto as paredes decoradas com tapeçarias negras e espelhos entalhados em molduras de ossos e marfim. A luz vermelha banhava o aposento como se a própria luxúria tivesse se tornado luminária.
Cassandra estava ali — de pé diante da sacada, alta, imponente, cabelos longos e ondulados escorrendo pelos ombros como serpentes de ébano. Os lábios, tingidos por batom e sangue, exibiam o vermelho da fome e do sarcasmo. Sua presença, mesmo silenciosa, falava mais do que muitos discursos mortais. Quando se virou, os olhos brilharam com aquele tom perigoso de quem conhece a verdade, mas prefere rir dela a se curvar.
— Ainda vives com teus dilemas existenciais, Velian? — disse ela, cruzando os braços nus e perfumados. — Sempre essa tua sede insaciável por sentido. É tão… humano.
— Tu sabes que não é simples — respondeu ele, pousando a capa encharcada sobre a cadeira. — A eternidade exige mais que apenas sobreviver. Ela exige… compreender.
Cassandra soltou uma risada baixa, melódica, quase cruel.
— Compreender? Olhe pela janela, querido. Veja essa cidade. É sangue, sexo, vício e ganância. Não muito diferente de nós. A diferença? Eles morrem. Nós… não temos esse luxo.
Ela caminhou lentamente até ele, e suas palavras ressoavam como encantamentos cortantes:
— Queres saber o sentido da vida? É poder. É gozar do que o tempo não pode apagar. É dominar. Se não dominas, és dominado. E tu, Velian, estás sempre vacilante entre querer destruir e querer entender. Isso te enfraquece.
Velian cerrou os punhos. A tensão entre eles era elétrica. Não havia medo, mas respeito — o tipo perigoso, como o que se sente diante de uma fera indomável que por capricho ainda não devorou.
— Cassandra… o Castelo Drácula… eu estive lá. Em suas múltiplas dimensões. Há algo ali… ancestral, devorador. É como se o próprio vazio tivesse se assentado naquele trono de trevas.
Os olhos de Cassandra brilharam, desta vez com algo próximo da admiração.
— Ah, então enfim provaste do ventre de Soramithia. A ponte entre o fascínio e o terror… Eu conheço suas entranhas, Velian. Sei onde a escuridão deixa de ser símbolo e se torna carne. Vem comigo. Levar-te-ei a uma das câmaras esquecidas do castelo, onde a treva é mais densa que o tempo. Talvez ali encontres o que tanto procuras.
No Coração do Abismo: ou quando até os monstros sentem falta de si mesmos
O portal se abriu como uma ferida antiga na pele do mundo.
O ar da dimensão de Soramithia tinha gosto de ferro e orvalho podre. Era como respirar através do pulmão de um cadáver encantado. Velian entrou primeiro, não por coragem, mas porque preferia cair antes de hesitar.
— Bem-vindo ao útero da tua alma — disse Cassandra, com aquele sorriso que misturava erotismo e ameaça. A capa dela ondulava como fumaça viva. Seus pés não pareciam tocar o solo. Talvez nunca tivessem tocado.
O castelo se erguia na paisagem de uma realidade que já não reconhecia o tempo. Era feito de ossos negros, torres retorcidas e espelhos partidos, onde o reflexo recusava obediência. A cada passo, Velian sentia algo pressionar seu peito — como se o próprio lugar estivesse curioso sobre quem ele era.
— Soramithia… — ele sussurrou, testando a palavra na língua. — O nome soa como um gemido de flor morrendo. Poesia para os mortos.
— Ou um feitiço para os vivos que ainda não sabem que morreram — retrucou Cassandra, com a voz baixa, quase carinhosa.
Ela observava Velian com o cuidado de quem segura uma taça de vinho muito caro: sabendo que pode se partir, mas desejando sentir seu gosto até o fim.
Velian riu, um riso breve e sem humor.
— Este lugar fede a memória. A nossa, a deles, a de todos os que tentaram se salvar mergulhando. Sabe, Cassandra, às vezes penso que toda eternidade é só um eco mal interpretado.
Cassandra não respondeu. Seus olhos, negros como tinta fresca, pousaram sobre ele com uma intensidade silenciosa. Ela sabia que Velian falava mais por defesa do que por clareza. Ele cuspia sabedoria como uma lâmina afiada, mas por dentro ainda carregava o menino que sangrava pelas dúvidas que ninguém nunca respondeu.
Ao atravessarem a antessala do Trono das Raízes — uma estrutura viva de cipós petrificados que sussurravam em idiomas mortos —, Cassandra se voltou e o encarou.
— Aqui tu não és senhor de nada, Velian. Nem do teu próprio sangue. Soramithia exige entrega. Aqui, até tua ironia será comida pelas sombras. E só restará o que tu sempre foste.
Velian fechou os olhos por um instante. Queria responder com sarcasmo. Algo como: “Então me diga, minha adorável sacerdotisa da morte, o que eu sou, além de um vampiro entediado com uma libido filosófica?”
Mas não disse. Porque ele sentia. O castelo pulsava como um coração sombrio e antigo, e cada batida parecia esvaziá-lo um pouco mais.
Ali, ele se lembrava.
Da cela. Do frio.
Da fome.
Do som do próprio corpo sendo esquecido por si mesmo.
As memórias voltavam como fantasmas carinhosos e cruéis.
— Lembro do som da água escorrendo… — murmurou. — Tinha cheiro de ferrugem e abandono. Cada gota parecia zombar da minha sede. E sabe o mais curioso, Cassandra? Eu ria. Ria como quem sabe que o pior já aconteceu, e o resto é só detalhe.
Ela se aproximou lentamente. Tocou-lhe o rosto.
Mas não com piedade — com uma espécie de reverência sombria.
— Tu sobreviveste à prisão dos ancestrais sem enlouquecer. Pelo menos, não completamente. E ainda és belo. Ainda desejas. Ainda dúvidas. Isso… é o que mais me assusta em ti.
Velian ergueu uma sobrancelha, divertido.
— Está admitindo que sente medo de mim?
— Não. — Ela hesitou. — Estou admitindo que admiro tua fome. Essa sede por algo que nem sabes nomear. Como um cavaleiro medieval, perdido entre cruzadas sem cruz, buscando o Santo Graal de uma identidade impossível.
Silêncio.
Profundo.
Sagrado.
Eles se sentaram sobre o chão pulsante da câmara central. Abaixo deles, diziam, estava a raiz do mundo. A primeira gota de sangue. O primeiro erro.
Cassandra falou, olhando o vazio:
— O que tu és, Velian, não pode ser definido. Teu gênero dança entre o toque e o abismo. Tua fome mistura gozo e medo. Teu corpo recusa destino. Por isso tu sobrevives. E por isso me perturbas.
Velian sorriu, cansado. A voz saiu baixa:
— Eu sou a pergunta que nunca quer a resposta. Talvez isso seja o pior tipo de monstro. Ou o mais sincero.
Epílogo: Os Lábios da Noite
Mais tarde, deitados sob os véus de névoa da câmara íntima de Cassandra, os dois corpos se enroscavam como raízes em busca de luz. As paredes pulsavam um brilho orgânico, como se a própria estrutura do castelo respirasse junto com eles. O chão sob a pele lembrava carne morna, viva, e os sussurros das almas seladas nos pilares continuavam, mas agora pareciam cânticos distantes — respeitando aquele instante como se fosse um ritual.
Cassandra o observava como quem contempla um eclipse: com medo e êxtase. Seus dedos traçavam linhas invisíveis no peito de Velian, como se lesse nele um livro de sombras escritas em linguagem esquecida. Ele, por sua vez, fingia sono, mas sentia tudo: o cheiro de incenso e sangue ressecado; a textura da pele dela, queimada pelo tempo e ainda assim macia; o peso do mundo antigo repousando sobre o silêncio.
Ela se aproximou, colando os lábios no ombro dele, e murmurou com um fiapo de voz:
— Amanhã te odeio de novo.
O tom era quase maternal, mas carregado de ironia triste.
Um riso cruzou o canto da boca de Velian.
— Só amanhã? Que generosidade repentina… — provocou, abrindo os olhos, revelando um brilho âmbar que os séculos não apagaram.
— Esta noite eu te pertenço um pouco — completou ela, como se ignorasse o sarcasmo, mas sem deixar de notar o calor que aquilo gerava entre os dois.
Velian a fitou por um momento longo demais. A penumbra tremulava com as brasas de velas verdes e negras, e por um instante, ela viu nele não o vampiro desafiador, mas o homem anterior a todas as máscaras. A criatura ainda em busca. A alma inquieta que jamais aceitou o conforto da resposta fácil.
— Um pouco é tudo o que se pode ter de alguém como eu — respondeu ele, sério agora, sem teatro. Havia cansaço no olhar. Mas também havia desejo. Desejo de existir. De ser tocado para além da carne.
Fizeram amor como se cada toque fosse uma última chance. Como se seus corpos guardassem segredos que só o atrito revelaria. A língua dele desenhou runas em sua barriga. As unhas dela se cravaram em suas costas como tatuagens rituais. A cada gemido, a estrutura de Soramithia tremia levemente, como se o castelo reconhecesse que dois de seus filhos mais antigos estavam — por um breve instante — vivos de verdade.
Ela gemeu seu nome como quem invoca um deus. Ele sussurrou o dela como quem confessa um pecado.
E então vieram as mordidas. Lentamente. No pulso. No pescoço. Na virilha. Ambos sangraram. Ambos beberam. Os fluidos se misturaram. A eternidade estremeceu.
Quando o silêncio caiu de novo, espesso como névoa de pântano, Cassandra repousou a cabeça sobre o peito dele. Tocou-lhe o esterno, sentindo algo bater lá dentro. Um resto de batida. Uma ilusão? Talvez. Mas não menos real.
— Ainda tens alma, Velian… — ela disse, com a voz embargada. — E isso é o que mais me desespera. Porque tua alma é selvagem. Tu podes destruí-la a qualquer instante. Ou usá-la pra nos destruir a todos.
Ele passou os dedos pelo cabelo dela, enredando os fios longos e escuros entre os próprios. Não respondeu de imediato. Apenas olhou o teto da câmara, onde formas estranhas se moviam, como se fossem lembranças encarnadas em sombra líquida.
Depois, falou com a voz mais grave, baixa e firme:
— Eu sou o que resta quando a fé morre e o desejo sobrevive. Sou o cavaleiro que nunca encontra a relíquia. Que se apaixona pelo caminho, mas odeia cada estrada. Eu sou a fome que pensa.
Ela ficou em silêncio. Não por falta de palavras — Cassandra nunca as perdeu —, mas porque ali, deitada com ele, sabia: aquele era o momento mais íntimo que já viveram. E talvez o mais frágil. E talvez o último.
Mesmo partida, ela o admirava.
Admirava o fato de ele duvidar. De ele sangrar. De ele se recusar a tornar-se máquina, lenda ou servidão. Havia nele uma nobreza antiga, torta, quase extinta — como um livro que sobreviveu a todas as fogueiras.
“Mesmo partido," pensou, "tu és mais perigoso que todos os reis que beijei. Porque tu duvidas. E um monstro que duvida… é capaz de fazer o impossível.”
Ela fechou os olhos.
E por um instante, talvez um único,
o castelo adormeceu com eles.
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Ninfa Sepultada
Como uma ninfa aos céus desobediente, | lançada às sombras frias e penitentes, | a Solidão, um véu de névoa ardente, | mora em um abismo, muda e reticente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Como uma ninfa aos céus desobediente,
lançada às sombras frias e penitentes,
a Solidão, um véu de névoa ardente,
mora em um abismo, muda e reticente.
Sua prisão é um poço sem guarida,
profundo como uma dor não percebida,
escura como a noite que quando ferida,
vaza o silêncio de uma alma corrompida.
Do fundo exala um murmúrio, uma voz que arranha,
num ciclo que se forma e nunca se acanha:
é a própria dor que a si mesmo acompanha,
num riso espectral que nossa alma profana.
Vazia, ela se duplica em repetência,
uma voz que responde em penitência,
ressonância feita de consciência,
que eternamente prova sua existência.
Os deuses, ao moldá-la como expurgo,
teceram seu destino, frio e turvo.
Agora, em sua essência, tudo é luto,
reverbera o nada, eterno e absoluto.
Cláudio Borba
Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O pergaminho do limiar
Arale vestira um capuz escuro, cor de carvalho envelhecido. Olhando para trás, de uma forma enigmática, desejando que a garota que conhecera…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Arale vestira um capuz escuro, cor de carvalho envelhecido.
Olhando para trás, de uma forma enigmática, desejando que a garota que conhecera estivesse bem, estivesse segura, sentia um aperto no peito, desejando tê-la acompanhado até o exato lugar que devia ter ido... “Sibila...” Ela sentia que não esqueceria esse nome tão cedo... “Por favor, esteja bem...”
Ponderava enquanto caminhava.
“Me perdoe, isso é algo que preciso fazer desde que cheguei ao Castelo. Minha máquina de escrever está me guiando ao sangue. Meu destino é sempre sangue. Geralmente o mar, a noite, a neve, a chuva... algo me envolve, e agradeço à natureza deste planeta, pois nele sinto-me em casa, apesar de tão distante. Conhecê-la, querida Sibila, me fizera acreditar mais nas pessoas...”
Arale sentia seus instintos aflorados, uma intuição de que algo que a aguardava seria revelador e doloroso. Ela lidava com o mistério e a dor diariamente, mesmo quando repousa. Seus sonhos são permeados de cânticos sagrados que a envolvem sempre para a batalha — é a identidade que conhece: a morte...
Ela é um espectro do exício, um espírito de solidão na consagração do sangue que busca purificação. Uma extensão dos agentes cósmicos de uma tribo dizimada, uma geração de ceifadores que foram apagados pelo pó do tempo, pelos ossos das palavras. Ela é um eco do ceifador xamã que sente o beijo da terra, o sopro da vida e a oração da transmutação. Nas asas do terror, nas portas da morte, uma escada que só desce...
Arale começa a ouvir sinos badalarem, crianças correndo e chorando, pessoas gritando. De onde viriam? Seriam efeitos torpes de sua mente? Ela enxerga belas luzes coloridas quando fecha os olhos — e todas se derretem, mesclando-se em sangue e ossos.
Quando foi que começara a ouvir vozes? Culpa, lágrimas, dúvida...
Quando foi que começara o questionamento de sua sombra, de sua sanidade? Ela continuava caminhando, tentando manter-se firme.
Talvez Arale tenha enxergado em Sibila um horizonte de vida e esperança, brilho, beleza que perdera em seu coração que sangra; uma ingenuidade pura, uma amizade transparente.
Não fora apenas mais um trabalho de mercenária fria. Não tem sido apenas isso já faz um tempo. Desde o encontro com Laparus e a vitória daquela comemoração sagrada, Arale estava já há muito distante de qualquer vínculo humanizador — até que necessitou lidar com seus demônios internos mais do que com qualquer outro que ela enfrentasse e ceifasse com seu machado voraz e faminto...
Arale corria, arfante, enquanto sua máquina de escrever perpetuava pelos ares da recém-chegada noite partículas de luz e brilho escarlate — como um tipo de lágrima espectral.
A máquina conhecia Arale e sentia quando ela não estava bem...
O capuz esvoaçante balançava ao ritmo do vento frio.
A aurora da ilha gelada tingia o horizonte com um tom incerto, algo entre o cinza e o prateado, como uma cor que se recusa a se definir. Arale sentiu o ar cortante, como facas invisíveis, arranhando sua pele, enquanto avistava chegar a um tipo de porto de madeira. Um humilde transporte surgia em sua linha de visão: o barco se aproximava do cais abandonado, um lugar onde o silêncio era mais forte do que qualquer grito.
Um aparente pântano núrido, com uma humilde lamparina no cajado bestial que mesclava luz e putrefação, cintilava.
O mercante encapuzado, seu rosto oculto pelas sombras de seu capuz, aguardava de pé, como uma estátua desconfortavelmente viva. Ele parecia uma extensão do próprio ermo gélido que os cercava. “Olá, estranha... hehe”, dissera com uma voz cadavérica.
“O preço de um passageiro, jovem caçadora, é sempre uma caçada”, disse ele, a voz um eco distante, como se tivesse vindo de um mundo onde o tempo se arrastava de maneira mais lenta.
Arale observou o homem, sua figura esfumaçada pelo gelo e pelo vento. Seus olhos não conseguiram discernir o que estava embaixo da capa, mas a promessa de uma carona era tentadora. Ela se sentia atraída, como uma mariposa para a chama de um perigo desconhecido. Agraciada e bem-vinda, sempre se sente assim — isso a faz viva, inconsequente, cruelmente perigosa e a melhor no que faz. A oferta era simples: caçar algo em troca da viagem. Algo terrível. Algo que ela não poderia recusar.
O perigo não era morrer, era se perder de si mesma.
Naquele instante, a máquina de ossos sangrou e escreveu um pergaminho com informações valiosas:
“A floresta de gelo, a Thilzarra”, era o nome — o nome daquilo que o barqueiro encapuzado confirmara com um gesto e para o qual sugerira cuidado. Com seus dedos trêmulos, parecia distante. Não era um nome que pudesse ser pronunciado sem certo receio. Era o tipo de floresta que habitava os pesadelos dos viajantes perdidos.
Arale, com sua máquina de escrever pulsando em sua bolsa, sabia que não poderia fugir do destino quando ele lhe escrevia um pergaminho.
A caçada seria sua, e o caminho que tomaria levaria a uma jornada da qual talvez nunca retornasse. O barqueiro indicou o caminho. Estava perto. Caminhara mais alguns metros, avistou árvores imensas e uma entrada obscura — e então mergulhou.
Ao adentrar a floresta, o ar se tornou mais espesso, mais denso, como se a própria natureza estivesse respirando de maneira irregular, quase insustentável.
O musgo esmeralda das árvores pulsava como se vivesse, e os dentes nas suas raízes pareciam sussurrar promessas sombrias e irrefutáveis. O sangue das folhas, grosso e espesso, se espalhava no chão com a consistência de vinho velho, tingindo a terra marrom e dourada com uma aura de decadência.
Arale não conseguiu desviar o olhar.
Ela sabia, intuitivamente, que aquilo não era apenas uma floresta — era um cemitério. A cada árvore que cruzava, uma sensação de vertigem a tomava. Olhou para os troncos, onde, nas cavidades profundas da casca, as figuras pareciam se mover — mas não eram mais humanas. A metamorfose já havia se concretizado: pessoas haviam sido transformadas em cascas vivas, prisioneiras de um ciclo de condenação eterna.
A máquina de escrever, que Arale carregava como uma companheira fiel, começou a emitir sons estranhos.
Cada tecla pressionada parecia liberar uma página, uma verdade. Cada novo pergaminho que emergia, a história da floresta se desdobrava diante dela — como um poema maldito.
Ela leu, pela primeira vez, as palavras escritas:
"Thilzarra. Um cemitério de almas.
A maldição dos elfos, selada nas raízes do mundo.
Aqueles que caminham aqui, não podem mais voltar."
A sensação de engano se solidificou como uma prisão.
Ela não havia sido escolhida para caçar a criatura.
Ela mesma era a caça. A floresta a observava, e agora, sabia que a busca pela criatura da maldição não era apenas um caminho físico. Era uma jornada emocional e psicológica.
Cada passo que ela dava era como uma invasão do seu próprio ser.
Ouviu um sino em forma de coruja cega,
Que chorava hortelã de um céu lilás,
Sentiu nos lábios o amargor da paz
Enquanto a dor do som na pele pega.
Sabores frios sussurram: “Nunca mais”,
No ar um tom de lágrima que rega
O chão febril da mente que carrega
Luz púrpura em filetes viscerais.
As árvores cantavam tons de gelo,
E os troncos sussurravam com a voz
Do sangue doce em cada caramelo.
Arale — um eco que o destino atroz
Mistura em névoas, sons e pesadelo:
Foi tinta a lágrima que a vida pôs.
Haikai Sinestésico
Vinho grita azul,
cheiro de vidro e memória—
a floresta ouve.
Poetrix Críptico
Sinos têm sabor de medo
luz escorre dos ossos —
Arale mastiga estrelas.
As árvores gritavam sua memória,
Num dialeto feito de raízes,
Sangue escorria em letras cicatrizes,
Versando em dor a anti-história da glória.
O musgo a envolvia em cicatriz sonora,
E a mente — lâmina em espiral —
Debatia-se em guerra abissal,
Dançando com a esquizofrenia aurora.
Encontrai a lágrima esmeralda agora,
Sussurra o chão em voz de vinho e limo,
Enquanto a névoa em forma de alma implora.
Mas cada passo é um passo em desatino —
O feitiço é um espelho que devora,
E Arale busca o fim no próprio sino.
A Boca da Névoa, ecoa o sangue,
Onde o silêncio range como escama,
Há uma raiz que respira mentiras.
A névoa é feita de véus e de drama,
Quem entra se apaga em trilhas vazias.
O Espelho de limo a água reflete aquilo que engana:
Um rosto antigo, ou o que não se é.
Não toque, não grite, não diga "me ama",
O musgo devora quem busca por fé.
O Círculo dos dentes-arvores-cães mordem o ar aflito.
Folhas rangem como penas em pranto.
Pisa devagar no chão eremita —
O sangue escuta e pinta o manto.
a clareira de ossos cantantes,
Lá se dança com as vozes do vento,
cada costela entoa um nome esquecido,
Há um tambor feito de firmamento,
Toque-o e revele o que tem sido.
Na ponte de carne e areia,
Um rio de lembranças flui sob os pés.
O chão pulsa.
O medo te nomeia.
Olhos surgem onde pisas, em rés
Caminho. A verdade ali se incendeia o portal
das guelras de luz se os ouvidos ouvirem em cor,
a língua falar em perfume,
então verás o último torpor,
um vulto de esmeralda e lume,
A Árvore-Relicário
no coração da floresta que chora,
Há um tronco que respira teu nome.
Abraça-o. E talvez, nessa hora,
A lágrima verde em tua alma tome.
Canta, Arale, no ventre da espessura,
Lágrima viva da alma da árvore,
Quebra o encanto da carne em clausura,
Sangra esperança no fel da palavra.
Três vezes dize o nome do espelho,
Com os olhos fechados em vinho e fumaça,
Deixa que a dor escorra em conselho,
Enquanto a floresta tua sombra abraça.
Na raiz onde o tempo se curva e enlouquece,
Ali verte a lágrima verde, tão rara —
Quem a encontrar, que nunca se esquece:
A alma retorna, e o feitiço dispara.
Arale está em uma dimensão onde as árvores são sustentadas por raízes suspensas, presas a um tipo de fio sanguíneo gigantesco. O solo é um ocre rubi, umedecido e pastoso. No céu, engrenagens criam correntes de luz, onde imensos sinos dourados dobram.
Ela avista diversas ruínas flutuando, sangrando cores e pesadelos, exalados das almas petrificadas no coração das árvores cheias de dentes predatórios e grotescos.
Arale enxerga, em uma pequena folha, um espelho de cristal — e nele vê Sibila. Sabe que ela lhe daria força e que não desistiria...
Arale fecha os olhos e canaliza o poder em seu machado, arremessando-o contra o coração central daquele espectro fantasmagórico. Um arranha-céu multicolorido se desmancha, virando-se de ponta cabeça sob os pés de Arale. Ela enxerga uma porta — ou seria uma janela? — e a adentra.
Ao mergulhar por esta secreta janela, depara-se com um recôndito familiar: era um cômodo do Castelo Drácula. Como?
Arale prosseguia por um tapete de lâmpadas plasmáticas.
Ela enxergava um quadro na parede com um olho vivo. Este sentinela lhe solicitava que adentrasse, como um tipo de elevador orgânico. Arale mergulha no olho prismático, sendo transportada para o altar do céu — um tipo de torre obscura no Castelo Drácula. Lá, percebe o salão escarlate e uma criatura acorrentada por fios de energia e símbolos de magia, flutuando sobre um tapete de sangue.
A máquina de escrever de Arale sangrara outro pergaminho, chamado: “O Gênese de Sangue...” Seu nome: Var’Ghul.
“Bem-vinda, felina cibernética dos cosmos longínquos. Tu, que és a caçadora dos oceanos de estrelas, o que desejas?”
Arale fica intrigada, pois acreditava que ele seria uma criatura que devesse ser caçada. Porém, seu instinto — e o pergaminho — não sugeriam tal batalha. Arale prossegue.
“Teu sangue ferve. Tua caçada é nobre. Tua purificação, necessária. Lhe sugiro um serviço: se me trouxer três itens, farei uma forja especial em seu machado para lhe auxiliar na caçada. O que achas?”
Arale aceita, sem questionar. Se fosse uma ameaça ou um golpe, já teria ocorrido. Ela aguarda, silenciosa.
“Traga-me um prisma-espelho de sangue de Wendigo, uma engrenagem de criatura orgânica do Limiar e uma lamparina da maçã fantasma. Esses itens estão pelo Limiar, guardados pela filosofia do enigma dos símbolos energéticos. Você saberá. Com eles, conseguirei ativar meu códex umbra e lhe forjar uma arma devastadora, que certamente lhe auxiliará.”
Arale está paralisada, pois a energia do lugar enfraquece os nervos do corpo — como se a asfixiasse. Ela se afasta, retornando à porta, e percebe que estava novamente na floresta, no coração do Limiar. Ela finalmente consegue respirar aliviada, prosseguindo a peregrinação das flores mortas.
A máquina sangra outro pergaminho, que lhe revela a pista que devias seguir:
“Arale... sob a noite lôbrega, absorvem a energia das rachaduras e elas se marcam no mapa, como se tivessem um vínculo com o papel. São lugares, ilhas perdidas, afundadas e erigidas das profundezas. O Oceano é uma entidade.
Encontre Allant Elirrahz,
o Cartógrafo dos Mares Limiares.”
Ela enxerga, naquele gélido inferno de raízes que chamuscam o glacial âmago da melancolia cristalizada pelos ares,
uma chama críptica que oscila e pulsa pelos oceanos.
Arale fica deslumbrada com a beleza relicária.
Pinturas se desmancham, quadros choram, partituras derretem. Milhares e milhares de páginas sussurram e voam pelos ares.
Cristais brotam do solo. Estalagmites choram e estouram.
Pequenas criaturas peludas flutuam e deslizam, sussurrando alguma travessura inocente — como luvas feitas de plumas.
Arale enxerga um tipo de montaria: um corcel com cabeça de engrenagem e olhos de fuligem. Ela domina a criatura e percorre aquela imensidão enevoada. Por muito tempo cavalga, até que os mares se findam no horizonte e Arale avista vários gobelinus trotando, tentando perseguir o corcel maquinário, que destila carvão de sangue enquanto trepida. Ela continua determinada, como uma filosofia absurda que envenena um espírito sadio. Na conexão que realizara com a criatura, ela busca uma saída, uma resposta, uma solução, um sentido...
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
8 – Limiar azulado: paisagens de melancolia e (des)conforto
Encarei o vazio nos olhos do abismo, | onde a flama ardia como lava do vulcão à beira da eclosão…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Encarei o vazio nos olhos do abismo,
onde a flama ardia como lava do vulcão à beira da eclosão.
Das profundezas aspergia luzes vívidas, azul-amarelada.
Da sua fluorescência emanava uma força primal, feroz.
Era aterrador, ao passo que hipnotizante.
Contra todas as probabilidades, sobrevivi.
A tela clamava por mais pinceladas, entretanto, receberia meus dedos: os enfiei nos tubos de tintas e desafiei o acaso — o que surgiria daquela confusão pictórica dependia exclusivamente dele! — Se ele sabia jogar, eu também sabia.
Aos poucos as cores daquele psicodélico amálgama disforme convergiram para uma única: “azul”, esta, acompanhada de todas as nuances possíveis associadas a ela: bebê, gelo, celeste, água, cobalto, marinho, petróleo, turquesa, índigo, acinzentado... O véu estrelado cobria meus pensamentos na noite vazia, e sozinha, continuei naquele transe criativo.
Como as memórias puderam se transformar de maneira tão brusca?
Prazer. Sofrimento. Contentamento. Desilusão.
Concluí que minhas emoções eram tão instáveis, melhor não tentar explicá-las.
Estava em estado criativo, mas essa singular interação e sucessão de coisas desconexas não seria uma espécie de loucura? As coisas ocultas em meu inconsciente não estavam rebelando-se, e com isso, ganhando vida na tela? No inglês o azul é associado à melancolia, na colorimetria ao conforto.
Fui invadida por esses pensamentos, mas o que diabos isso quer dizer?
É um teste? eu não sei. Mas posso afirmar que o inferno não é metafísico e nem “os outros”. Poderia ser nós — em mim habitam demônios demais, tantos que já não tenho tempo para me preocupar com os de fora —, mas o inferno é essa vida cotidiana, que escoa por nossos dedos, enfiando-se em lugares ocultos, sem pedir permissão, como um verme que a tudo corrói. Sem piedade. Sem distinção. Sem pudor.
Sob efeitos desses pensamentos e possuída por uma ânsia de fazer emergir “aquilo” que ainda não sei nomear, continuei...
Durante a fase mais conturbada da minha vida — acredite, houve uma época em que tudo era pior e eu quase sucumbi —, procurava com afinco tentar entender os mistérios da mente.
Devorei livros de filosofia e psicologia, contudo, aquelas palavras pareciam confirmar as minhas suspeitas de que nada fazia sentido.
Para quê continuar?
Em nenhum momento aqueles escritos declararam isso, mas em meio à desesperança os olhos são conduzidos por um caminho tortuoso, e como eu era vulnerável, acreditei nessa mentira autoimposta! Durante um bom tempo... Longo tempo...
Mais tons de azul surgiram na tela... Tantos que nem sei mais como nomear...
Melancolia e conforto. Conforto de menos, melancolia demais.
Eram nuvens? Besteira, nuvens não são azuis! Eram similares a bolinhas de algodão-doce azuladas, mas quando abocanhei uma porção o gosto era amargo.
Então, naquela época — a tal época mais difícil da minha vida —, embrenhei-me na arte: das palavras e das tintas. Como sabes, minhas obras sempre foram repletas de formas sombrias e que evidenciam os tormentos de uma alma que não descansa, mas essa é a minha verdade, e como não consigo ser diferente, sigo evocando esses seres que aprisionam eu dentro de mim.
E encerro essa divagação — não ouso dizer que é um relato —, confessando que foi naquele tempo, entre sombras espectrais e silêncio perfurante, que percebi: há um consolo estranho na melancolia, desde que eu tenha forças para moldá-la em criação.
Uma obra é uma catarse.
É por isso que escrevo.
É por isso que pinto.
O inferno, às vezes, pode vir em tons de azul — melancólico, sereno, quase acolhedor.
Mas se será amargo ou doce...
Só você poderá dizer.
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Crê
Crê em mim, filho da vergonha | Crê em mim, sou o senhor do inferno | Sombrio e distante como útero materno | São os tempos loucos e ninguém mais sonha…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Crê em mim, filho da vergonha
Crê em mim, sou o senhor do inferno
Sombrio e distante como útero materno
São os tempos loucos e ninguém mais sonha
Sombra em torno de nós, medonha
Reza para mim homens! De joelhos!
Ovelhas adestradas, ouvem meus conselhos
“Segue o Mito, renegue a verdade, enfadonha”
Sede ingrato, maldito e sincero
Sedes o mal agouro do desterro
Ser atribulado com os ruídos de uma guerra
Oh! Ninguém mais vê e nem sente o desespero
A dor do poeta tecendo um erro
Anunciando Mefistófeles a pairar sobre a terra.
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
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A Maldade Humana
Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição morbígera da vida. Ela é o sopro contrário na natureza que, mesmo criadora da bênção da razão, não se vê livre das suas deficiências excepcionais, entretanto, quando a exceção é mais comum que o anfêmero, os papéis de invertem.
Posso ousar em dizer que a maldade humana está essencialmente alojada na ignorância — os véus do desconhecimento do que é ser; o manto da insipiência causado pelo circunstancial. Entretanto, a escolha individual ainda tem um papel fundamental e, por vezes, ela não excede seu apedeutismo. Isso me leva a crer que a ignorância é fruto híbrido de duas espécimes putrefatas: decisão subjetiva e influência do meio.
O ego é outro culpado; necessitar, pois, pertencer a algo além de si, quando não se basta em seu próprio interior. Ser capaz de quaisquer atrocidades para sentir tal dopamina-do-pertencimento — a qual, por sua vez, é sempre uma mentira bem-contada. Ou, ainda pior, ser capaz de horrores por não estar pertencido; buscar vingança e dar sofrimento a outrem por puro ego ferido. O cúmulo da ignorância.
O conhecimento, a informação e a sabedoria se aliam para dissipar essas tendências doentias, porém, não se resolvem em si mesmos. Do conhecimento, espera-se mentes capazes de assimilá-lo; da informação, espera-se mentes capazes de refutá-la e comprová-la; da sabedoria, espera-se mentes capazes de compreendê-la. Se, para evitar que a maldade floresce em seu cerne, é preciso cultivas tais capacidades — as quais não se igualam a uma tarefa simples tal qual respirar — percebemos que, a cada nova geração, a escassez da maldade parece mais utópica.
Ainda lidamos com a tendência humana em achar que conhecimento é saber da verdade e defendê-la — quando, na verdade, conhecimento é eterna busca por infindáveis verdades e a quando se começa a defender uma única ideia “perfeita”, torna-se idealismo. Ainda lidamos com a comum ideia de que a informação é tudo aquilo que nos vem de encontro no mundo — quando, na verdade, informação é base de averiguação de fatos. Continuamos erroneamente crentes de que a sabedoria é um estado sublime, religioso ou pertencente apenas aos idosos que viveram demais e sabem muito— quando, na verdade, ser sábio é ser capaz de compreender toda a forma de existência sem o filtro da sua própria vida — crianças são boas nisso e, portanto, têm mais sabedoria do que idosos, adolescentes ou adultos.
A maldade humana, portanto, floresce onde as certezas adubam a mente; onde os egos são a verdade líquida que rega a terra psíquica. A maldade humana se ascende diante da maldade humana — alimentando-se ad aeternum. Indiferença, inveja e mágoa são o capim d’este jardim imundo e violento. É mais fácil, enfim, deixar que as coisas sigam os caminhos quais já foram trilhados — quão árduo é ser mestre nas três capacidades essenciais contra a maldade humana! Quem está disposto? Quem estaria disposto? Quem ousaria a tal disposição, mesmo sabendo que passará por injustiças, não terá o ego agraciado, sofrerá mais do que os outros e ainda verá a decadência com os olhos bem abertos? Quem resistiria?
É uma escolha e, como tal, tem o ônus e o bônus. É uma escolha e, como tal, se não for conscientemente tomada, há de ser imposta como uma faísca infernal acesa sem consentimento. Das verdades do mundo humano, eis uma das minhas preferidas: Não duvide da sua capacidade de ser influenciado, muito menos de ser convencido — isso acontece a todo o instante. Não acredite. Sempre pense por si mesmo. Faça suas escolhas e esteja consciente das consequências. E, se me permite, que a prudência e a empatia sejam as únicas certezas da sua vida — as únicas que merecem ser defendidas em uma guerra política
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
DA SEIN
Nas águas turbulentas do pensamento eu me abraço, | Recebendo do inconsciente memórias do passado. | Observo o sol ao longe pousando no horizonte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Nas águas turbulentas do pensamento eu me abraço,
Recebendo do inconsciente memórias do passado.
Observo o sol ao longe pousando no horizonte.
A sinestesia me envolve entre a vida e a morte!
É inevitável não encarar meu próprio eu neste mundo,
O existencialismo me toma. Assim,
Vagueio com olhar vazio e profundo,
Buscando sentido no infinito imundo.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Ato de escrever I
Um poeta sentado escrevendo. Cenário que mescle contemporâneo e vintage (pode ser até um apartamento, prédio…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Os astros fulgem como ações próprias; as janelas do castelo brilham em um tom de pele madura. A forma dela se desenha nesse grande holofote. O poeta, de cabelos brancos como uma lebre, declama sua arte por todos os poros.
Mas a obra do artista é seu sangue, e este é imortal. Como um quadro pintado com tinta ainda quente, pulsa. Ferida ao peito, caneta em riste.
— Expulsa! Um coração que não se esvai em poemas.
Assim acaba a noite e um microconto, pois todos os poetas são iguais: não aguentam o peso do mundo sozinhos e precisam, em linhas tortas, devagar seu pranto.
Companheira grafia de luz, de noite, de dia.
Garrafa de vinho, uma cama, um fogo e a mais profunda tragada — retrocedendo o cigarro com o tragar do passado da alma, que foi tocar no não vivido, que foi lamentar e escrever o que não ocorreu.
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Velas Para Dezembro
Repartir as flores, espanar o mármore… | adornar aquele nome, | ofuscado na poeira. | Dar, ao ontem, um regalo…
2 minutos de leitura
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Repartir as flores, espanar o mármore…
adornar aquele nome,
ofuscado na poeira.
Dar, ao ontem, um regalo.
Quantas vidas teria vivido?
Quantas horas de brusco encontro?
Quantas idas ao mercado?... O relógio parou.
Dorme, sepultado em pedra.
Dorme, mas sempre me deixa
recado.
“estive por mim… vivi e ousei;
soube amar!”
Fora cristalizado em pleno vôo,
o pássaro,
no âmbar de um dezembro passado.
E a chuva, maldosa,
inquietava às ondas e
escondia o luar.
Fora, ele, um peixe
na contra-correnteza.
Um quase general.
Tão pouco sabia odiar…
Bem conhecia o outro lado
da moeda e da história.
Escarrava aos reizinhos, filosofava no botequim,
com o bandolim de um amigo
a cantar.
Sonhava, em fôlego de Homero,
com o sopro morno
do litoral.
Com a liberdade
e a ventania
sacra
que surge da bruma do mar.
Lídia Machado
Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Degelo da Rosa
É o medo de nadar no lago, | e afundar no raso, | e morrer sem ar. | É o medo de inundar o peito, de fôlego e de amor, | E findar no nada, | e, no oco do inferno…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
É o medo de nadar no lago,
e afundar no raso,
e morrer sem ar.
É o medo de inundar o peito, de fôlego e de amor,
E findar no nada,
e, no oco do inferno, praguejar e sangrar.
É a vida abrindo à víscera da morte;
O ontem, o hoje — o medo, a sorte —,
todos os cheiros e as linhas tortas do amanhã.
A brutalidade do ar.
A ferida, salgada, inflamando,
apodrecendo, desconcertando,
pra depois curar.
É o inverno dos dias encontrando a aurora,
funeral que se encerra
em chuva mansa, prato quente e botão de rosa.
O abismo dessa terra dourada,
abrindo-se com graça,
nos desafiando a pular.
Lídia Machado
Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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Mudança compulsória
Dizem que sou reclamona. Eu concordo. Mas discordo quando insinuam que essa característica é “má”. Não se acomodar com as situações adversas é que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dizem que sou reclamona. Eu concordo. Mas discordo quando insinuam que essa característica é “má”. Não se acomodar com as situações adversas é que faz o mundo evoluir... Ou você acha que se o homem estivesse contente até hoje em andar a cavalo ele teria inventado o carro? O ser humano só muda quando algo o incomoda. Muda para benefício próprio. Por conforto.
Outrossim, concordo que tudo que é descomedido torna-se insuportável. Eu sou descomedida. Consequentemente, insuportável. Mas nem sempre me vejo como uma criatura desprezível e isso não interfere na minha capacidade de conviver nessa sociedade — tão desprezível quanto —, mas inconsciente de tal condição.
Sobre os incômodos e mudanças do homem é assustador, porém libertador, quando percebemos que é exatamente assim: a mudança deriva de alguma necessidade intrínseca de cada um. Não tem nada a ver com altruísmo e caridade. Somente interesse. As exceções se dão quando o indivíduo o faz sem ter a plena consciência de seu interesse, acreditando que tudo ocorreu devido à sua própria “capacidade de ser bom”.
Não é pessimismo. É a verdade estridente que nós, se não fôssemos tão românticos, a ouviríamos clara e intensamente. Mas acredito que muitos irão se escandalizar. Normal. Outros dirão que é um absurdo qualquer imbecil dizer-lhes que não agem por bondade. Não julguemos, não é isso o que faço. Só lhes digo que se quiserdes enxergar as coisas mais nitidamente é imprescindível deixarem de lado estereótipos e paradigmas. Este é o começo de qualquer mudança. Deixar de lado o eu utópico e a hipocrisia e, ao menos uma vez, ser sincero consigo.
Ademais, na qualidade de humana, eu também sou interesseira, não me coloco à margem de tal condição. Uns tendem a comparar o quão interesseiros são, como se fizesse alguma diferença. Outros terão a capacidade de se acharem “interesseiros, mas por uma boa causa”, mesma coisa que justificar um massacre. Se for para o bem, tudo podem, assim acreditam.
Seja como for, haja o que houver não poderíamos e nem conseguiríamos mudar o curso dessa embarcação. Não é a minha força de vontade ou meus desejos que fazem as coisas acontecerem, pois são tudo coisas abstratas, será que não entendem? É preciso me apossar de um remo, utilizar meus braços e remar. O Remo por si só também não pode agir. Bem que ele tenta, mas coitado, ele não consegue. Bem que ele queria que seu imensurável “querer” se transformasse em ação. O seu “querer” não é a consumação de sua existência. Ele precisa de alguém para utilizá-lo. Ele precisa de alguém para que seu destino seja consumado.
O quão esforçados somos! Admira-me a nossa tendência para acharmos o melhor em nós mesmos e o pior nos outros. Se falássemos que os outros são interesseiros concordaríamos imediatamente, mas quanto a nós... Justificar-nos-íamos.
Contudo, as coisas precisam ser dessa forma. O mundo precisa continuar em sua órbita normalmente. Não queremos que as mudanças, por vezes compulsórias, nos façam como terráqueos-extraterrestres. É muito ruim ser um extraterrestre, melhor ser só terráqueo, igual aos demais. Tudo igual. É sempre melhor ser primitivo. Ser egoisticamente troglodita é sem dúvida melhor!
Melhor continuar tudo como está?!
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Flor da Lua
Coragem, amor, | pois a vida é ligeira em inundar o que vem vazio. | Cobre-te de ouro e falsa seda, | protege-te do espinho e perderá, também…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Coragem, amor,
pois a vida é ligeira em inundar o que vem vazio.
Cobre-te de ouro e falsa seda,
protege-te do espinho e perderá, também,
o perfume da flor.
Arruma tua vida,
remenda esse peito do estrago.
Quem foi teu desamor?
Quem és tu quando se desembrulha?
O que te traz o engasgo?
Borrei teu nome e arranquei, daquele crisântemo, toda a cor.
Removi-te de meus cadernos e tomei,
de volta,
a poesia pra mim.
Cai um dado, arranha o peito,
morde o pano do travesseiro,
solve-se em raiva!
Mas coagula em amor, por favor…
Continua a remendar,
e confia na flor que o lírio dá,
ainda que lhe tome o ano todo,
E que descubra,
no amargo da culpa,
que há de regar.
Lídia Machado
Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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A Queda do Inferno
A chama comia papel — desordenada, a mando maior —, | Rasgaram livro na praça, | Devoraram à mocidade, também…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A chama comia papel — desordenada, a mando maior —,
Rasgaram livro na praça,
Devoraram à mocidade, também.
Maldita, maldita… maldita praga que rasteja por Berlim!
Onde dorme aquela menina?
Boneca de pano, riso cálido
Dedo frágil a fazer poesia…
Num salto medroso, remendava o pano da janela.
Num ainda maior, corria.
Nem se percebia tão fria,
Já não beijava a luz do sol.
Corria, no céu, uma mulher despida
em cavalo alado.
Anunciava o fim do dia,
E trazia, no peito, o último trago.
Um gole velho de querosene,
A incendiar a boa vontade dos “nobres”.
Era o fim do dia,
E a menina não via.
Dormia!
E o sono de Aninha…
Ah, eles não hão de azedar.
Lídia Machado
Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A angústia é uma farpa
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que floresceram em nós sem que, por vezes, pudéssemos perceber. Para a Psicologia, o “dar-sentido” é o valor real do ser que somos; entretanto, ainda sinto que há algo que nunca será amordaçado pelo discurso do ânimo: essa angústia tão familiar, que se manifesta de infindáveis formas.
Na imensidão mórbida do inautêntico, vemos o cansaço ofuscar o lume da angústia, vemos a hiperestimulação construir seu palácio de vidro ao redor do abismo desta aflição muda — o silêncio soturno é ouvido mesmo quando o alarde, dentro e fora de si, é inominável. Mesmo ocupados demais para nos voltarmos a nós mesmos, o poço da nossa constituição faz-se cada vez mais fundo — e não há como impedi-lo.
Mesmo assim, insistimos. E a rolagem infinita, guiada pelo nosso dedo indicador, é o glitter que cega nossos olhos, e vicia. Ora choramos, ora rimos; em frações de segundos, temos uma descarga mental absurda. Ora nos preocupamos com as contas mensais, ora rezamos pelo fim do mundo. A angústia é o pano de fundo de um cotidiano abarrotado de razoabilidade.
Podemos temer uma nova pandemia, a terceira guerra ou, ainda, a revolução das máquinas; a mudez ensurdecedora do espírito continuará perturbando nosso banho de dopamina, deixando um rastro úmido de desalento sôfrego. E, quanto mais o tempo passa, estando cada vez mais soterrada, a angústia, uma hora, torna-se maior do que aquele a quem ela pertence — mesmo oprimida e muda, mesmo tão ínfima como uma farpa.
Uma crítica é apenas uma crítica; uma verdade é sempre mais do que uma verdade. Podemos deixar as redes sociais? Podemos abraçar o tédio? O tempo transfigurado em infinito sem um ecrã luminoso para a bel lascívia psíquica? Não podemos. E os que podem estão mortos — incapazes de lidar com o tamanho de suas angústias ou iludidos pelo ego de suas pseudo-superioridades sobre a massa que consideram ignorante.
Estamos dispostos a discordar e questionar, não estamos dispostos a pensar, quietos.
Há anos — é minha percepção — não escrevo pensamentos e reflexões, tomada pela sensação de que meu pensar trará ódio daqueles que vagam, almas vagantes, na world wide web. Intolerantes por toda parte. E eu mesma, talvez, veja a hipocrisia no espelho. Ornamental e sublime hipocrisia. Pela constância com que me vejo nesse mundo, a Matrix dentro da Matrix, um sonho dentro de um sonho, eu não poderia pensar diferente disso.
Mas o que mais dói no silêncio da minha angústia é o quão alto ela grita e o quão solitária ela faz eu me sentir.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Velian – O Som das Engrenagens na Eternidade
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado…
Criatura núrida, tu estás prestes a ler um dos capítulos da história de Velian, um vampiro cuja profundez existencial é capaz de tocar em nossos modos-de-ser, nos imergindo em reflexões existenciais de inestimável valor. O autor tem uma técnica fascinante para que a leitura, ainda que densa em existencialidade, nos desperte um inenarrável prazer, dada a sua qualidade literária. Aprecie e boa leitura!Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado das ruas noturnas. Pensava o vampiro que em outros tempos as ruas das grandes cidades que conhecera, como Londres, Amsterdã, Paris, entre tantas outras, eram ruins em épocas diferentes, por motivos diferentes, como pestes, pobreza e muito mais, Porém agora tudo era ruim porque parecia muito mecânico, mesmo com o suor das danças noturnas, com a sobrecarga de trabalho dos humanos e todo o sofrimento, parecia para Velian, que havia uma sombra pairando a humanidade, principalmente nas grandes zonas urbanas, em que tudo era muito, muito mecânico, pensava Velian sobre a vida nesses últimos meses, em suas idas e vindas pelo Castelo Drácula. Velian tinha certeza de que o Castelo Drácula era uma manifestação de outras dimensões, seu conhecimento espiritual e de ser sobrenatural lhe davam essa certeza.
Porém o Vampiro sabia também que o Castelo lhe mostrava muito de seu mundo interno e ele às vezes ficava confuso e se perguntava se realmente era digno de entrar no Castelo por não entender muitas vezes as simbologias, mensagens e significados das várias dimensões do Castelo Drácula. Por vezes Velian desejava encontrar o próprio Drácula, mas sempre era submetido a entrar em outras camadas do Castelo e conhecer diferentes seres. Velian não estava tão confortável em apreciar apenas vagamente esses seres que às vezes lhe provocavam medo e o vampiro tinha que lutar e se dispor de todos os seus poderes para encarar tais seres grandiosos, mas que ia e vinham brevemente. Voltando a pensar sobre sua vida em Fortaleza e a observar como vivia, percebeu: as luzes dos postes piscavam sobre as calçadas rachadas, refletindo o mundo moderno que parecia ao mesmo tempo imutável, decadente e repetitivo. Fazia meses que sua fome se tornara diferente — não era apenas por sangue, mas por algo que ele ainda não sabia nomear.
Matara mais do que o habitual. Seduziu mulheres e homens com beijos e promessas vazias, apenas para desaparecer de suas vidas e os deixar no desespero do abandono. Gostava da ilusão de controle, de ver os corações partidos como espelhos estilhaçados refletindo fragmentos de sua própria alma quebrada. Mas nada disso o preenchia. Nem a caça, nem o desejo, nem o caos que espalhava ao redor. Ele se perguntava se algum dia voltaria a realmente sentira prazer nesses jogos ou se tudo não passava de um reflexo pálido do tédio e da insatisfação.
Ele olhou para o céu. Cinzento. Impessoal. Como se o universo estivesse indiferente à sua presença.
E então o chamado veio. Velian entendia que precisava de mais tempo para outro sobressalto do Castelo e uma outra dimensão que apenas iria novamente, mas ainda assim o chamado veio.
O Castelo Drácula sempre o convocava quando sua alma estava prestes a afundar demais na monotonia do mundo. Sentiu o puxão em seu peito, como se algo arrancasse sua consciência da cidade e a atirasse para um outro lugar. O vento mudou. O cheiro de ferrugem e vapor substituiu a maresia. O calor úmido do Ceará deu lugar a um frio metálico. Quando abriu os olhos, não estava mais em Fortaleza.
Estava diante do Castelo. Mas ele não era o mesmo (como sempre).
O Som das Engrenagens
As engrenagens giravam nos cantos mais improváveis. Tubulações surgiam dos muros, exalando vapor denso. Os corredores pareciam agora parte de uma máquina viva, movendo-se lentamente, respirando em estalos metálicos. O céu era tomado por uma poeira dourada que obscurecia as estrelas, e no horizonte dois sois ardentes se erguiam, lançando uma luz acobreada sobre tudo.
Velian caminhou pelo pátio, sentindo o chão de metal frio sob seus pés. Uma sensação de inevitabilidade o tomou. Era como se estivesse dentro de um mecanismo muito maior do que sua compreensão. Tudo era efêmero, tudo seguia uma programação invisível. Ele, um vampiro há séculos no mundo, poderia ser imortal, mas diante da engrenagem do destino, até mesmo ele parecia insignificante.
Foi então que a viu.
No centro do pátio, entre as engrenagens e o vapor, uma mulher de manto negro que o vampiro identificou como a mesma mulher da última visita. Tudo ao seu redor era diferente, mas a mulher, sua presença e sua poderosa energia eram a mesma, Velian ficou até feliz de ver o mesmo ser, mesmo em outra dimensão, ela caminhava lentamente, guiando um pequeno rebanho de cabras negras, como da última vez. Seu cajado de carvalho era encimado por uma pedra negra, pulsante como um coração. Havia algo de bruxa nela. Algo de vampira. Algo de deusa ancestral que existia antes mesmo que os mundos tivessem forma. Velian se preparava para ter com esse ser e não podia ser coincidência que ela ali estivesse novamente.
Ela o olhou, e sua voz cortou o silêncio com um tom que não pertencia a este tempo.
— Tu andas perdido, como sempre.
Velian cruzou os braços, sentindo o incômodo de ser lido tão facilmente.
— E há outro caminho a seguir? A não ser a dúvida? A não ser a angústia?
Ela sorriu de forma enigmática.
— A engrenagem gira, e essa dimensão representa apenas isso – as faces das eras não param, apesar da monotonia de alguns instantes, mas não és tu quem a move. Tens vivido como se buscasses o sentido nas ruínas do desejo, nas cinzas das paixões destruídas. Mas até quando?
Ele desviou o olhar para os dois sois difusos.
— E qual seria a alternativa? Seguir um destino rígido? Aceitar um papel pré-escrito? Como essas engrenagens malditas dessa dimensão, seja lá qual for ela? Se tudo está conectado por engrenagens invisíveis, há como quebrar esse ciclo?
Ela se aproximou, e o cheiro de terra antiga, ferrugem e sangue fresco emanou dela.
— A dúvida te corrói, mas também te mantém vivo. No dia em que parares de perguntar, serás apenas mais uma peça nessa máquina infinita. Há tempos olhas para a eternidade e te perguntas o que fazer com ela. Mas eu te digo… o que fazes com um único instante?
Velian a fitou. Sua presença era hipnótica. Ele sentia que, de algum modo, tinha aprendido algo, ou entendido algo, mas ainda não sabia o quê.
O vapor sibilou ao redor deles, e, por um breve momento, tudo pareceu congelar. A mulher sorriu novamente antes de desaparecer na névoa dourada.
Mas Velian não gostava daquilo. Um mundo de engrenagens para ele, um ser romântico nos termos de um poeta louco, seu sentir demais, não gostava daquele mundo que agora pairava sobre ele, desejou ainda dialogar mais que esse ser ancestral que ia e vinha das várias dimensões e desejou sair daquela dimensão em que estava, pois não gostava de engrenagens e do conceito de destino e de tudo ser meramente funcional, como as engrenagens naquela dimensão pareciam mostrar.
Entre a Máquina e o Sangue
Ele detestava a visão do Castelo transformado em uma prisão de engrenagens. A ideia de um destino rígido, de um ciclo que girava por si só, o enojava. O que era um ser imortal senão um errante sem caminho definido? Ele não queria ser parte de uma máquina sem alma, programado para existir sem sentir.
Foi nesse momento que compreendeu algo muito importante.
Não era o caos, a destruição ou o vazio que o movia. Não era a sedução para o abandono, o prazer na angústia alheia, nem o desejo de quebrar corações apenas para ver os estilhaços. Nada disso o preenchia. O que verdadeiramente o sustentava era a conexão, ainda que efêmera.
A troca de olhares no meio da noite. O calor de um corpo desconhecido em sua cama. O sussurro de um segredo que nunca seria repetido.
Não importava que os momentos fossem passageiros. Não importava que, no fim, tudo se dissolvesse no esquecimento. Enquanto duravam, eles eram reais. Com esse pensamento, ele decidiu que era hora de voltar.
Mudaria de identidade mais uma vez, deixando para trás o vampiro que devorava e destruía por tédio. Não se livraria de suas dúvidas, mas aprendera que elas eram parte dele. Não era assim também com a humanidade? A incerteza, o medo, a busca por sentido no vazio?
Talvez ele fosse, afinal, a personificação da humanidade.
Sempre teria questionamentos. Sempre sentiria o vazio corroer sua alma. Mas agora entendia que, no meio da escuridão, existiam fagulhas de conexão que tornavam a eternidade suportável. Em meia a devaneios e reflexões, olhou novamente para o mundo mecânico, mas tudo o que viu foi o topo do prédio em que estava após sua última cassada, estava de volta à velha capital cearense e estava feliz pela primeira vez de não estar em alguma dimensão perdida, principalmente aquela feita de engrenagens.
E talvez fosse a hora de visitar Cassandra.
Não para buscar respostas, o vampiro ponderou que respostas e conhecimento eram coisas diferentes, então decidiu partir em busca de Cassandra e de conhecimentos que nem ele conhecia bem, mas que a vampira ancestral, por mais debochada e irônica que fosse, dominava muito bem.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Além do Ser
"Torna-te aquilo que és" abrange o aceitar sua condição única, mas, no mesmo nível, traz a significação do eterno tornar-se, pois nunca, de fato, poderemos dizer que somos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
"Torna-te aquilo que és" abrange o aceitar sua condição única, mas, no mesmo nível, traz a significação do eterno tornar-se, pois nunca, de fato, poderemos dizer que somos. Tornar-se o que se é não é possível, pois não somos. "Ser" refere-se a uma condição substancial, e o que "somos" é, tão somente, um vir-a-ser perpétuo. Sob o véu da morte lúgubre, findamos sem nunca termos sido. E, se "eterno vir-a-ser" é ser, então somos e não somos ao mesmo tempo.
A razão pela qual esta reflexão está sendo redigida não é apenas o deleite de pôr o "ser" em questão – como nos velhos tempos da filosofia. Estou certa de que a condição de ruína da humanidade reside na incapacidade de aceitar sua condição nadificante e, portanto, volto-me à questão do ser. Mas esta não é a única questão, pois "ser" é uma criação humana.
O que nos torna ainda mais dispostos ao vazio pertencente é o fato de que nada na natureza "é". O "ser-algo" é essencialmente uma questão humana. Nada que respira, exceto a humanidade, está "sendo", uma vez que quem criou o conceito de "ser" nem sempre existiu. As coisas que respiram estavam aqui, existindo. E nós, incapazes de tão somente existir, criamos o conceito de "ser".
"Ser" é, para nós, profundamente mais valioso do que "existir" – embora seja justamente no primeiro caso que a condição nadificante nos perturba. Enquanto você apenas existe, o "nada" não é uma questão. Mas, a partir do momento em que se "é" (do verbo "ser"), o nada torna-se o fantasma que se oculta nas sombras de seus próprios corpos. A dádiva de "ser" é a maldição de carregar o seu peso nadificante. "Ser" deveria significar uma condição superior ao "existir", mas tornamo-nos aquilo que somos apenas para desvelarmos que somos nada, tal como tudo o que existe.
"Tornar-se" implica que há algo a advir, entretanto, se o Nada é a única verdade, não há um "advir" a desvelar. Portanto, redundante, a frase se manifesta assim: "Nada há a advir para aquilo que nada se é". Se o Nada é o invólucro da vida, por que viver? Vivemos, justamente, em função do Nada; sem ele, não haveria vida tal como a conhecemos. Aceita-te como o Nada que és – talvez esta seja a frase correta.
Em um tempo de idolatria ao "sou", a revelação do Nada é, decerto, perturbadora. O Nada é dificilmente aceito pela lógica da racionalidade, o que é um fato curioso, já que viemos dele e voltaremos a ele. Alguns se questionam sobre o que "é" o Nada; alguns o chamam de Deus. Outros dizem que não pode haver um "nada", pois o "nada" é o insignificante ou o ausente. Mas o Nada não é insignificante, tampouco ausente – por isso é tão difícil para a mente humana aceitá-lo. O Nada é nada.
"Somos" o Nada, vivemos o Nada, estamos no Nada. O Nada é o único Deus. Somente no Nada é possível um Algo – ele é o ambiente propício, a condição basilar. Então, antes de tornar-te aquilo que és, reconhece-te como parte de uma totalidade nadificante. Pois não importa o que tu és, pois não "és"; o que importa é o que chamo de "Antesser": tudo o que se faz, pensa, expressa, sabe, sente e aprende no processo do caminhar consciente sobre o Nada. Isso é antesser.
"Antesser" é um conceito humano para significar a existência em suas mutabilidades e características psíquicas, considerando a constituição nadificante própria da vida. Não apenas considerando-a, mas principalmente valorizando-a. Antes de "sermos" – se é que é possível "ser" – precisamos antesser.
Eis aqui mais uma bela razão para viver: a condição da vida, florescida no solo nadificante, é a única que pode nos permitir o Antesser. Se digo que “sou”, é porque a condição de "ser" já se significou ou como um estado a ser alcançado, como um destino final, uma verdade imutável e perpétua. Enquanto isso, antesser é essencialmente provisório, instável, efêmero. Como um livro, ele faz-se de capítulos que contam uma história completa. Se antessou, é porque sei que tudo o que fiz e farei, tudo o que já pensei e hei de pensar; tudo o que aprendi, conheci, me arrependi ou mudei – absolutamente tudo, no passado, presente e futuro – faz-me na profundidade que me significa. E isso não é linear ou preditivo. Não é algo a ser alcançado ou algo a se tornar. É plural e total, contínuo e dinâmico, assentado sobre o Nada.
Antesser não é o mesmo que Estar. O Antesser considera toda a sua historicidade, mutações, conquistas, compreensões, conhecimentos e sabedorias. E, principalmente, sua condição de Nada – antes disso tudo e depois disso tudo. Eu antessou porque o que sou é Nada: o Nada antes e o Nada depois. Entre ambos, antessou o que antessou. E não há como não antesser enquanto houver vida. E mesmo que eu antesseja na certeza de "ser" algo, isto é, pois, antesser.
Sim, ser e antesser são criações humanas. Mas "ser" foi criado para identificar as coisas que existem e, depois, para significá-las: aquilo "é" um peixe, eu "sou" uma pessoa, eu "sou" especial e você não "é" especial. Em antesser, tudo isso é válido, mas sob outra ótica: não posso ser especial a todo momento, nem para todas as pessoas. É ridículo considerar que "sou" bonita ou feia, pois sou ambos – depende do dia, de quem olha, de minhas condições físicas. Se estou mais arrumada, se dormi mal. Apegados ao "ser", limitamos nossa compreensão da condição humana.
"Tornar-te aquilo que és"? Isso implica que "és" algo e que não se pode tornar-se o que não se é. Mas "somos" humanos tal como um peixe "é" um peixe? Tal como um peixe não pode "ser" um macaco? Pois um peixe não só não pode ser um macaco, como também não pode agir ou parecer um macaco. Nós, humanos, vamos além do "ser". Ainda assim, dizemos "eu sou", tal como um peixe "é".
Antesser afasta a ideia de que o que "sou" é o que "sou" e que não posso ser outra coisa além do que estou fadado a ser. Antesser é sobre todas as possibilidades da existência humana – possibilidades que nos diferem de um simples peixe. Antessomos humanos porque, mesmo que não sejamos um peixe, podemos aprender a nadar. Antessomos humanos porque, mesmo que não sejamos um peixe, criamos maquinários que nos permitem mergulhar nas profundezas do oceano.
Antesser é "ante" porque indica anterioridade – não no sentido cronológico, mas no sentido de estar sempre antes do ser: antes que eu possa ser algo, eu mudo; antes que o imutável me alcance, eu me desvio; antes que eu me defina como caminhante, aprendo a nadar. Portanto, não sou apenas caminhante. Sou caminhante e nadador. E um peixe é apenas um nadador. E mesmo que sua espécie evolua para além disso, ele nunca terá o mesmo grau de possibilidades de um humano. Eis a razão do antesser.
"Torna-te aquilo que ante-és" – é o que, por fim, faz verdadeiro sentido. Pois aceitar o antesser é aceitar sua condição dinâmica e sua capacidade de tornar-se qualquer coisa.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Naufrágio
A mais caudalosa turbulência, | a rebeldia que transportava espumas | para o colo do barco, | fazia surgir o medo constante | de conhecer o fundo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
A mais caudalosa turbulência,
a rebeldia que transportava espumas
para o colo do barco,
fazia surgir o medo constante
de conhecer o fundo escuro do oceano.
Ao sobressaltar a visão,
embaçador, mas lúgubre,
com a fronte alçada em desafio.
Partindo caminho, devastando e empurrando o próprio mar,
mas não há disputa, nem trégua.
Antes do golpe, toda dança e cerimônia,
um ritual, tal qual uma primitiva celebração ou
uma câmera lenta moderna.
Baforando ódio por sobre o barco, engolindo, aglutinando madeira, carne, água e trovões.
Um baile de máscaras molhadas,
que ficará apenas registrado na história das águas.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Simbologia de uma torre imponente
Definha’s estruturas obra inacabada | Abalada em si pela agonia | Bela torre bradava ao céu alada | Babel em momento de alegria…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Definha’s estruturas obra inacabada
Abalada em si pela agonia
Bela torre bradava ao céu alada
Babel em momento de alegria
Faz sempre nos passos dos gigantes
O vínculo mágico da apatia
Facínoras! Amores tão fluentes
Os quais escarram minh’agonia
Um poroso monstro nasceu triste
Por alusão a grandeza da torre
Fatigado em preâmbulos morre
Escondendo-se à agonia desiste
De ser obra onipotente, orgulhosa
A tempestade derruba, ela escorre.
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…