Quando a Noite Cobra o Preço / Capitulo II
Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou. Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou.
Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos olhos da percepção, dizia ela que éramos antenas, portas de uma dimensão além do astral escuro. Assim como os “sanguíneos”, como ela costumava chamar, também sempre fomos abençoadas pelo sangue. Entre ossos de corvos e morcegos ela preparava na fogueira este elixir. Quando pronto, nós nos servimos; afirmo que já sabia da grandeza daquilo. Gradualmente me preparei para a grande virada que viria em minha vida.
Ela me abraçou forte.
— “Vovó te ama…” — Ainda recordo com pesar e isso ressoa em meu peito todos os dias. E então bebemos e adormecemos...
Estava tudo muito confuso, admito, estava sonolenta e ébria da realidade, parecia outro plano. Atordoada, um tanto atônita, recobrando meus sentidos, orientei-me ao presente instante, respirei fundo: “onde eu estava?” — me questionava em meus pensamentos.
Vagarosamente, minha turva visão foi vasculhando gradualmente o ambiente, junto aos dedos no escuro.
Tateando o breu do desconhecido até que minha visão se acostumou à tão escassa luz e minha dilatada pupila se adaptou. Eu estava prostrada, com uma certa dificuldade, uma fotofobia temporária, tentando localizar-me no ambiente, deixando meus olhos se ajustarem; gradualmente minha turva visão se acostumava.
Enxerguei minhas mãos calejadas, meus pés descalços e então lentamente levantei-me e prossegui automaticamente por impulso, instinto. Meus pés caminhavam sob uma superfície um tanto úmida, o que deixava o caminhar escorregadio. Em algumas partes, ao tato, era possível sentir porosa, era como caminhar em cima de pedras de sabão.
O aroma era ocre.
O lugar em si me parecia claustrofóbico, começou a me incomodar, era algum tipo de gruta?
Sentia-me isolada de mim mesma, um exílio íntimo, uma constatação de uma verdadeira solidão contemplativa — ou seria uma solitude sofrida? Não sei ao certo dizer, mas aquele ambiente me sufocava tanto meu interior. Eu sempre estava em exílio comigo mesma, com meus pensamentos. Meu espírito se sentia sempre acorrentado, por quê? Mas, de alguma maneira, era isso — e aqui constato que não posso recordar por que estar ali.
Continuei caminhando, o trecho foi gradualmente se iluminando, até que desemboquei em uma sala enorme e oblíqua, ao final me deparei com dois enormes castiçais que estavam grudados à parede com uma labareda de coloração cobalto.
Os pilares dessa sala e as rochas eram todas feitas de um tipo de rocha desconhecida para mim. Emulam uma sensação semelhante à superfície lisa e fria de um vidro, refletindo imagens turvas e espelhadas.
Havia esporos pelo ar e em algumas partes um tipo de limo rubro e pegajoso como um tipo de simbiose viva emanava um sol gutural borbulhante e pude perceber que ele sangrava e dele desabrochou em combustão ali.
Dois enormes morcegos de coloração escarlate vinham em minha direção. Um pânico me abraçou, uma sensação de impotência, insegurança, senti minha espinha se arrepiar, sentia-me zonza pelos seus sonares e uma certa confusão mental me envolveu por alguns segundos.
Ainda sentia aflição nos meus pés pela superfície molhada e porosa, o que me causava uma clara sensação de ojeriza. Contudo, meus sentidos estavam todos centrados em como derrotar aqueles sugadores.
Meus instintos mais profundos pulsaram através das minhas veias, o que fez minha mão esquerda mover-se, com precisão e delicadeza, como num ritmo, algo que tanto repeti até memorizar. Então me veio a mente os versos que me foram ensinados.
— “Que la chair du monde s’ouvre… — Comecei a recitar em voz baixa. — Desabrocha… Flor sem raiz… Nascida do abismo do instante.
Uma energia com uma luz suave emerge do meu ombro e vai serpenteando até o meu punho fechado, quando eu o abro com a palma voltada para cima, como o caule de uma flor aparece. Até surgir uma flor em botão e lentamente ela desabrocha como uma flor.
Daquela flor tão exótica em minha palma, a luz começou a irradiar e acender, até que sua existência não mais se sustentou. As pétalas se desfizeram, dando origem a algo que pulsava antivida: uma adaga. Seu dorso de esmeralda com runas emanava, imponência; no fio, uma coloração verde, selvagem, como se pulsasse veneno em cor néon vibrante.
A adaga flutuava no ar como uma entidade néon. Ela se movia como se por vontade própria; ela os estripou, ambos os morcegos, em poucos instantes. Retalhando-os no ar enquanto batiam as asas. Assim que a lâmina sentiu o gosto do sangue das criaturas, ela retornou imediatamente para meu peito, dissipando-se no ar como partículas e faíscas luminosas de um verde intenso. Eu estava sem fôlego, o que foi aquilo?
A porta de vidro à minha frente se abriu… Assim…
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…que senti minha presença, mergulhei na boca daquela gruta desconhecida da treva da solitude que me abraçou.
Uma mescla perfumosa de sangue e poesia espessa.
Sou a terceira da trina Chama da chave do acesso da imortalidade escura da alma.
Dias depois, Magnus convocou os poucos que ainda detinham influência suficiente para alterar o curso da noite. Urr Locust, dos Tecno-Exsangues. Khaal Zerik, dos Carniçais Carmesins. Nivra Veyra, das Criptas do Éter. E Soren Klyth, à frente dos incontroláveis Filhos da Ruptura.
Soren não respondeu. Não recusou. Tampouco enviou emissário. Simplesmente permaneceu em silêncio — e, naquela época, o silêncio dele era mais perturbador do que qualquer declaração de guerra.
Os demais compareceram ao prédio dos Sangues de Obsidianos: uma torre negra com um grande triângulo néon azul invertido e um olho cibernético.
A sala era ampla e retangular, no último andar daquela torre negra no centro da cidade. As paredes do sul e do oeste eram de vidro, dando uma visão única da cidade em passo avançado de adaptação à escuridão. Dentro, uma mesa retangular de madeira na cor caramelo, com bordas pretas. No centro, cadeiras de encosto alto, umas quantas plantas. Um ambiente elegante, com paredes de madeira.
Cada família que atendeu ao chamado enviou dois representantes: um líder para falar em nome do clã e um guardião para lembrar que palavras nem sempre bastam.
A reunião foi infame desde o primeiro instante. Arrastou-se por horas, depois por dias, fedendo a interesses velhos, apodrecendo como um ghoul abandonado à própria carne. Ninguém buscava consenso; cada casta empurrava suas ambições, puxava acordos pela força, tentando garantir vantagem antes que o mundo ruísse de vez.
Sustentar aquilo exigiu de Magnus um esforço quase desumano.
Nem dentro dos Sangues de Obsidiana havia lealdade plena. Alguns desejavam ultrapassar a visão do líder, acelerar a queda. Veynar, o arconte de caráter duvidoso, era o rosto mais visível dessa fissura — seus negócios já haviam cruzado a linha, mergulhando fundo no submundo do crime.
As feições beiravam o esquelético. Alto, de cabelos longos quase sempre trançados para trás. Com olhos viperinos, já havia experimentado mudar partes do próprio corpo antes mesmo do início da noite eterna. Ele falava arrastado e gesticulava demais.
Indo mais a fundo nas memórias, recordo o momento do nascimento da Noctis Consortium… Foi muito inusitado… Difícil!
Não se passaram eras, mas nos fizeram sentir que assim foi.
Mesmo com a oposição de figuras como Zerik — que acreditava em um confronto direto — e, de certa forma, minha própria resistência, não durou tanto quanto esperávamos.
Magnus prevaleceu ao argumentar em favor de uma convergência, e não de uma guerra. Sua lógica era implacável: um conflito aberto seria catastrófico para ambos os lados, e o aumento da nossa exposição nos guiaria a um caminho autodestrutivo. Em vez de sangue nas ruas, ele nos vendeu a visão de um Estado chamado de “A parasitose perfeita”; um sistema oculto e enraizado na própria estrutura humana, utilizando nossos infiltrados para manobrar o inimigo como peças em um tabuleiro.
Assim, fundaram a Noctis Consortium, ou Noc-Con, como passou a ser conhecida no mundo.
O símbolo que escolhemos não buscava apenas representar um tempo — ele queria clamar. Era um chamado silencioso e feroz, nascido do desejo de abandonar o canto empoeirado da história, onde sombras tão somente observam, para enfim pisar o palco do mundo como presenças vivas entre os homens.
Uma lua crescente, invertida, curvava-se como um gesto de acolhimento ao redor de uma gota de sangue lapidada em losango. Tudo repousava sobre um negro absoluto, profundo como um abismo sem nome, rasgado por um vermelho carmim que brilhava espectralmente, quase sobrenatural. Ali não havia excesso nem frieza técnica — somente a tradução visual de quem somos: uma essência sombria, rara, de beleza estranha e melancólica, feita para ser sentida antes de ser compreendida.
Devo admitir: era algo belo de se ver.
— Devo admitir que aqueles momentos foram únicos. Nunca imaginei que as famílias se uniriam ao projeto de Magnus. — Agarro os braços da cadeira, cobertos de couro, impulso-me e coloco-me de pé. Dou dois passos e paro diante da janela, observando as pessoas caminharem lá embaixo, na rua.
Acompanhei o mundo perder o compasso e mergulhar, de cabeça, num frenesi febril. Não… Foi um salto de cabeça — foi uma queda longa, silenciosa, quase posso dizer, elegante. Chamaram de progresso, como sempre fazem quando não querem dizer o nome real das coisas.
No começo, havia uma justificativa nobre: devolver pernas aos que rastejavam, olhos aos que tateavam no escuro, braços àqueles que já tinham esquecido o peso de um abraço. “Venha ter a sua cura”, diziam. Era a humanidade tentando remendar a si mesma.
Mas algo apodreceu no caminho…
O que antes era socorro virou vitrine. Braços, pernas, olhos — peças expostas como joias, vendidas com brilho e posição, não com compaixão. O corpo deixou de ser morada e passou a ser catálogo.
Os médicos cederam espaço a mercadores, e a ética foi substituída por cifras. Não havia mais juramento, somente contrato. A carne tornou-se obsoleta; o aço, desejável.
— Observei tudo aquilo com uma frieza que me assustou. Talvez porque, no fundo, eu já soubesse que isso aconteceria. O homem nunca quis ser inteiro — quis ser mais. Mais forte, mais rápido, mais eterno. — Aquelas palavras saíam dolorosamente por minha boca. A clareza de pensamento vinha do realismo dos fatos. — A dor nunca foi o problema; o problema sempre foi aceitar limites. E ali, naquele desfile grotesco de corpos refeitos, percebi que não estávamos curando falhas… estávamos amputando o que ainda os tornava humanos.
A humanidade não resistiu. Adaptou-se. Sempre se adapta. Primeiro com curiosidade, depois com indiferença, e por fim com desejo. Órgãos internos passaram a ser redesenhados não para salvar vidas, mas para ampliá-las — pulmões que não se cansavam, corações que não falhavam, sistemas nervosos afinados como máquinas de guerra. Tornou-se moda. Uma moda doentia, cruel, irreversível. Até os que cuspiam desprezo por essas mudanças acabaram ajoelhando diante delas. Eu também. Não por vaidade — por sobrevivência.
— Houve um instante em que entendi: não era mais escolha. Era submissão disfarçada de evolução. Quem permanecesse intacto seria lento, frágil, descartável. O mundo não odeia os fracos — ele simplesmente os deixa para trás. — Meu rosto no reflexo do vidro expressou um desprezo profundo, nojo, para ser mais claro. — E eu, que sempre observei com distância, senti o gelo da verdade: ou eu mudava… ou desaparecia.
Antes que você se pergunte, me chamo Dorian Kael, um vampiro da casa dos Sangues de Obsidiana, aqueles que viram propósitos na tecnologia e amargaram gotas de sofrimento.
Esta história tem seu início no princípio do fim de uma era.
Admito que me vi envolto em situações que me colocaram diante de caminhos díspares, distantes de seus ditames, além de minhas origens. Pelo meu clã cedi, dando espaço à invasão tecnológica. Uma corrupção fora de qualquer escala.
Essas mudanças sempre tiveram gosto de erro… Um caminho torto, ruim desde o primeiro passo — e, ainda assim, impossível de evitar. Não foi coragem o que me levou até ali, foi tentação. A mesma que empurra homens cansados a cruzarem linhas que juraram nunca tocar. Eu quis acompanhar os vivos, fingir que ainda caminhava no mesmo ritmo deles.
O olho esquerdo que carrego agora não nasceu de carne. É vidro frio, fios ocultos, fluidos que imitam vida sem jamais a possuir. Uma íris de jade observa o mundo por mim, perfeita demais para ser verdadeira. Ele vê o que olhos humanos, nem os dos vampiros, não alcançam: códigos sussurrados na escuridão da rede, sinais escondidos sob camadas de mentira. Enxerga além do mundo físico — e talvez por isso eu tenha começado a enxergar menos de mim mesmo.
Servia ao meu ofício. Negociar o que é raro, valioso, proibido. Ler o invisível, antecipar movimentos, nunca ser surpreendido. Era uma ferramenta, nada além disso. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. Porque admitir que aquela lente não me fortalecia, somente me tornava mais distante, exigiria uma honestidade que eu já não tinha estômago para suportar.
Não fui tão longe quanto meus pares. Muitos abandonaram a caça, chegando ao ponto de desfigurar suas presas. Banir tradições. O mais grotesco foi o surgimento do sangue sintético, que me causa náuseas — uma abominação, mais que a fusão da carne com as próteses.
Hoje, após minha punição promulgada pelo arconte Veynar, encontro-me às margens da sociedade, distante de olhares perigosos.
Não devia ter seguido com aquele maldito plano. Isso me custou a empresa, a vida e a condição social que gozava. Posto como pária em minha própria casa. Tudo por um humano infeliz.
— Isso é que dá estar no lugar e hora errados. — Baixei a cabeça, desaprovando minhas próprias atitudes. — O que posso dizer… senão… arrependimento…
Esses pensamentos foram interrompidos por passos no corredor e um toque ansioso:
— Senhor Dorian… Está aí dentro? — Uma voz feminina e aveludada, levemente rouca. — Sou eu, Milla. Posso entrar?
Creio que passei tempo demais divagando, me perdendo em lembranças. Esqueci que estava no escritório; ainda eram três horas da tarde.
— Entre, Milla, sem cerimônias, por favor. — Minha voz saiu rouca, mais que o costume, num tom autoritário e impaciente.
O som metálico do trinco soou ao ser destravado; a porta rangeu levemente, revelando uma imagem jovial. Cabelos curtos ao estilo de Cleópatra, loiros como o ouro mais puro, olhos escuros, pele pálida como marfim, e lábios divinamente finos.
Milla era uma vampira filha das Criptas do Éter. Uma criança que conhecia a hemomancia. Mesmo os mais jovens dessa raça eram assombrosamente incômodos. Beleza ímpar, mas de uma frieza além do natural.
— Senhor Dorian, a última de suas reuniões foi cancelada. — Ela caminhava com elegância e uma jovialidade impressionante. Jamais diria que tem mais de cem anos. — Acho que já posso ir para casa. O que acha?
Direcionei meus olhos para a tela do monitor, já eram mais de 18 horas.
— Sim, acho que já pode ir. Não temos mais atividades para hoje aqui no escritório. — Por um momento, fiquei reflexivo, olhando para o ambiente. — Que possa descansar. — Acabei falando num tom introspectivo, mais do que para a Milla, para mim mesmo.
Ela deu um giro nos calcanhares e rumou para a porta.
— Se o senhor precisar, sabe que pode contar comigo para o que precisar, chefe. — Havia em sua voz um tom reconfortante e que sabia serem verdadeiras suas palavras.
Ela sumiu, cruzando a porta em direção ao corredor, e seus passos eu podia ouvir bem, por causa do piso de madeira.
Sentei-me novamente e olhei em direção a um espelho no lado esquerdo. Um espelho retangular, posto horizontalmente, um objeto estético. Disseram que isso aumentaria minha sensação de espaço, o que me fez ter eventuais assombros com imagens distorcidas.
O presente nos deixou presentes tão incomuns. Nós, seres da noite, fomos afetados, voltamos de alguma forma a ter nossas imagens. Parece que a maldição dos primordiais enfraqueceu ou ganhou novas camadas.
Difícil realmente dizer até que ponto fomos afetados pela noite profunda e as tecnologias.
Quando me dei conta, percebi algo estranho acontecendo. A princípio, uma sensação de presença.
Meus instintos entraram em ação. As presas, depois as unhas. Sou um dos poucos que ainda mantém ambas as características de minhas origens e tradição. Sob a mesa de madeira à minha frente, preso a ela, um coldre de couro — nele repousa uma pistola, uma velha amiga, apontada em linha reta. Uma segurança a mais. Um recurso de tempos mais perigosos, que exigiam, mais que unicamente, ser um vampiro.
Meus olhos percorrem o ambiente — uma busca por infiltração. Primeiro física, logo depois medidas digitais, buscando sinais de invasão do meu próprio sistema, ou do meu escritório. Vasculhei o máximo que pude dos sistemas.
Quando encarei o espelho, o ambiente pareceu encolher. Distorções em minha visão começaram a surgir. Havia uma sombra ali — uma presença que não existia antes. No início, era somente um borrão inquieto, um erro no reflexo, algo que não deveria estar naquele lugar. Meu coração acelerou antes que a razão pudesse reagir.
Então a sombra ganhou contornos. Linhas surgiram, tortas, angulosas, como se alguém estivesse tentando nascer do vidro. Havia alguém ali. Senti antes de entender. O perigo veio primeiro, rasteiro, gelado, ativando cada instinto que ainda me restava.
A mente entrou em pânico e, por hábito, tentou se agarrar ao que conhecia.
— Analise! — ordenei a mim mesmo, quase como um reflexo de sobrevivência. Mas o pensamento veio quebrado, falho, tremendo: seriam padrões? Sinais? Fragmentos de código?
Sim, linhas e mais linhas. Somente naquela sombra? Poderia ser uma tentativa de infiltração? Olhei os arredores, buscando qualquer coisa fora do comum. Observei a tela do computador. Apertei umas quantas teclas e rodei outro sistema de depuração.
Eu nunca havia visto algo como aquilo!
À medida que tentava compreender, percebi em meu campo de visão algo… falhas de imagem. Não pareciam atacar, mas dava a entender ser um tipo de fantasma na rede.
A pergunta ecoou vazia. Porque, naquele instante, eu já sabia — aquilo não queria ser compreendido. Queria ser notado.
Existia algo… Muito além das linhas. A cada segundo, uma estranha sensação de terror tomava meu corpo. Caminhei em direção ao espelho. A sombra gradualmente foi tomando uma forma, mas, à medida que isso acontecia, surgiam interferências crescentes no meu olho cibernético.
Sua forma parecia de uma mulher com longos cabelos. Corpo pequeno e magro, mas seus detalhes eram como se estivessem envoltos de vapor, tão imprecisos e disformes.
Pouco antes de poder ver mais detalhes daquela imagem em meu espelho, senti uma forte dor em minha cabeça; meu corpo tornou-se pesado. Caí de joelhos, levando minhas mãos à cabeça; me dobrei no chão, enquanto tentava manter meus olhos naquela estranha visão. E, rapidamente, tudo ficou submerso em escuridão, e senti o impacto oco do meu corpo no chão do escritório.
Antes que minha mente fosse consumida pelo vazio, uma voz feminina, suave e delicada, invadiu meu cérebro — um eco distante.
— Temos tão… pouco tempo… a zona sul… Bar… antigo dos O-Tek… — A voz flutuava em seu volume, o que deixava ainda mais difícil entender o que estava dizendo. — Sangue… corrupto.
Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Memórias e Fantasmas
Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças de sua forma humana. Era consciente e carregava uma essência selvagem que protegia Minerva. No entanto, naquela circunstância, ela tentava apagar suas memórias, em busca de se entender independente dos acontecimentos e dos deuses. Ainda assim, sabia que dentro de si residia algo do castelo afogado, mesmo que adormecido.
Ela não lembrava dele há muito tempo, mas naquela noite o som da água abismal insistia em ressoar novamente em seus ouvidos. Minerva lutava contra aquilo. Um cansaço estranho, aos poucos, foi tomando seu corpo, desacelerando o tropegar de suas patas e obrigando-a a observar o caminho por onde passava, que se tornava cada vez mais conhecido para ela — embora já tivesse quase perdido a noção de quanto tempo passara no castelo.
A loba avistou algo ao longe e imaginou que fossem casas em seu campo de visão. Aquela era a estranha vila pela qual passara antes de adentrar o castelo. Sentiu algo puxando-a para perto daquele lugar, enquanto sua mente parecia duelar consigo mesma. Um nevoeiro denso se formava ao redor, criando braços cintilantes que dançavam junto a seu corpo em um ritmo lento, carregando-a para dentro daquele lugar.
Percebeu que estava por entre as casas errantes. Pessoas caminhavam ali, mas ela não conseguia discernir seus rostos. A mente turva a deixava cada vez mais imersa na paisagem acinzentada. Cansada, observou o formato de suas patas na neve, e uma expressão confusa se formou em seu rosto, como se não reconhecesse aquelas pegadas.
Ela se aproximou de uma casa, observando suas janelas, eram sete ao todo. Aquela era provavelmente a maior casa do vilarejo. Rostos estranhos a analisavam sem dizer nenhuma palavra. O cansaço parecia, finalmente, tê-la tomado. Os sete rostos a encaravam e assemelhavam-se a espirais que iam se contorcendo cada vez mais. Os olhos de Minerva-loba estavam hipnotizados e enevoados, totalmente inertes.
Alguém saiu pela porta da casa e fitou-a com intriga. Minerva não reconheceu o rosto, mas a voz lhe pareceu familiar. Era uma voz autoritária. Aquela voz elogiava algo que havia sido conquistado com soberba, embora ela não compreendesse o quê. Seu corpo, despojado sob as cicutas na neve, permanecia inerte ao mundo real, enquanto sua mente vagava por Settimor.
O rei Kheas estava ali, contando vantagem de sua experiência. Ele havia conseguido realizar a transmutação unindo magia e ciência. Sua filha era única, praticamente uma arma de guerra. A loba percebia aquela voz insistente. O medo não era o sentimento que habitava seu peito, mas a raiva. Minerva almejava ser livre novamente.
Ela estava presa em uma memória, os olhos acinzentados e os pelos negros, encobertos por inúmeras cicutas, a aprisionavam no feitiço do viajante. Minerva estava refém de uma lembrança.
Presa na masmorra, sua antiga moradia, ela uivava em lamento, ouvindo as aspirações insanas do pai. Desejava fugir, mas só conseguia se debater, puxando a corrente presa a seu pescoço.
O tempo era ilusório, ela não sabia se ele estava passando ou não. Seus sentimentos eram instáveis entre o tédio, o ódio e o desespero. Ela desprezava aquele homem que a torturava e não compreendia os limites que ele queria quebrar. As paredes arranhadas e a escuridão eram desoladoras, ela ardia em febre no frenesi das dores que lhe foram impostas.
Mas algo naquela lembrança começou a falhar. A voz do pai já não ocupava todo o espaço; tornava-se distante, fragmentada, como um som que se repete sem origem. A loba percebeu, então, que não estava sendo contida por ele, mas pela própria memória.
Naquele tempo, ainda humana, Minerva compreendeu em silêncio que a masmorra não era inviolável. A corrente em seu pescoço não existia para conter sua vontade, apenas seu corpo. E isso não bastava. O uivo que escapou de sua garganta não era súplica, mas sim uma decisão. O primeiro gesto de quem escolhia viver e não sobreviver.
Como loba, ela se lembrou: a fuga começou antes do movimento, antes da ruptura da carne ou do ferro. Começou quando deixou de pedir permissão para existir.
Ela lutava por si mesma.
Minerva-loba ainda transitava entre sonho e realidade; as cicutas a cobriam como um véu branco, misturando-se à neve. Seus olhos retornaram ao azul profundo. Aos poucos, sentiu o corpo voltar à vida. Em sua frente, um ser humanoide a observava. No lugar do rosto, havia uma espiral nebulosa, repleta de escuridão.
A criatura se dissipou à sua frente, levando consigo os sete rostos nas janelas. Dentro de si, Minerva se reconectou com seu poder, tornando-se mais uma vez tão destemida quanto na primeira vez em que desbravou os caminhos tortuosos que levam ao castelo Drácula. A loba sabia o que era e que ninguém tomaria sua liberdade. Clamou por Hekate, não como súplica, mas como sinal.
Ela não temia o deus do castelo afogado.
Revisado por Sahra Melihssa
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Espasmos do Silêncio
Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar; elas morrem na garganta antes de se tornarem poesia.
Estou diante de ti, Dama Lacrima. O pintor desconhecido que te prendeu nestas tramas de linho e óleo certamente conhecia o inferno, pois capturou-o com perfeição. Teus cabelos, longos e lisos, escorrem como cascatas de nanquim, emoldurando um rosto de uma palidez cadavérica. As tuas mãos, eternamente erguidas próximas à face, parecem querer esconder o mundo de ti, ou tu do mundo.
Se hoje castigado sou pelo teu descontentamento, que vibra através das camadas de verniz, posso até guardar a culpa. Mas as chaves da tua liberdade são para mim um grande peso que devo suportar. Sinto o ódio irradiar da moldura dourada.
— A tua ira deve ser contida — murmuro para a figura estática, mas viva. — A raça humana não merece perecer. Por mais que um ou outro nos sirvam como bolsas de sangue, aconselho: declina-te desta vingança desenfreada. O mundo ainda tem muito a te servir.
Vejo, então, a alteração na pintura. O óleo parece dissolver-se. Aqueles olhos... aquelas escleras tomadas por um negrume absoluto, sem luz, fitam-me com desprezo. E o que antes era pigmento seco, agora escorre. Tu choras. Não água, nem sangue, mas lágrimas de piche, espessas e negras, maculando a pureza mórbida da tua pele pintada.
— Crês que me fará parar?... Como és tolo, Valentine! — O meu nome soa como blasfêmia nesses teus lábios imortais.
— Lanço o desafio — indago, hipnotizado pelo rastro viscoso que desce pelas tuas bochechas —, até onde estarás disposta a ir com tal empreitada?
— Farei do purgatório a vossa nova morada!
— E depois?
— Como assim, "e depois"?
Aproximo-me da obra, sentindo o cheiro de terebintina misturado a algo podre e antigo. — Quando finalizar o teu intento, sentirás o peso do silêncio. Este mesmo silêncio que, até pouco, tanto me assombrava, não irá parar de te perturbar. Serás torturada pelo resto dos teus dias numa galeria vazia, num mundo morto. Nem mesmo as tuas súplicas serão suficientes para te salvar, pois para destruí-lo terás que destruir a ti mesma, rasgar a própria tela. Então, eu lhe pergunto: até onde estarás disposta a ir?
A imagem trêmula. O piche das tuas lágrimas parece ferver. — O que vês à tua frente, Valentine? — Tua voz agora é um lamento, um gemido de túmulo aberto. — Um retrato sombrio adornado por uma bela moldura arabesca? Um fantasma habitando uma tela em que o tempo ousa não apagar? Ou a representação maior dos teus medos?
Encaro o abismo negro dos teus olhos, duas poças de trevas infinitas. — Teu alarde para destruir-me e destruir o mundo é apenas uma fuga de teus próprios medos — digo, e cada palavra pesa como lápide sobre o cavalete. — Até os demônios mais baixos, minha cara Dama, possuem medos ocultos. E o teu medo é que, sem nós para te observarmos, tu deixes de existir.
O piche escorre mais rápido, mas o silêncio volta a reinar, pesado e insuportável, na sala fria.
Revisado por Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Caellum Noctis, Parte I - O que eu perdi?
Havia retornado. E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Havia retornado.
E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou… De onde vim. Não me lembrava de nada. Quase nada.
Tinha apenas um nome que transbordava na superfície de minha mente, insistente como as notas pesadas de um piano desafinado.
Eleine Gallhan.
Repeti em voz alta tentando procurar um significado, forçando as peças do quebra-cabeça a se encaixarem. Eleine. Quem é você? Onde você está?
A única coisa que sabia era que aquele nome fazia meu peito doer. Então, instintivamente, levei a mão ao coração e apertei as roupas, tentando alcançar aquela dor, mesmo sabendo que não doía na pele, e sim na alma.
Ela mentiu, pensei.
Ela mentiu? Sim, eu sabia disso também. Quanto mais me forçava, mais doía, mais… Quase lembrava, como se a memória estivesse na ponta da língua e eu não pudesse dizer. Mas o pior não era a mentira. Era o silêncio que ela deixara dentro de mim.
Por que...? Por que não consigo me lembrar?
Meu próprio corpo parecia lutar para impedir que alcançasse essas lembranças. Mas por quê?
Tudo na minha cabeça girava, uma mistura de sentimentos sem imagem. Fechei os olhos e respirei fundo. E então, a pergunta. A pergunta que eu temia fazer. Aquela que fez o aperto no peito doer de verdade… E então, cessar.
Como você era?
Eu não me lembro do calor do seu toque. Do som da sua voz. Do peso do seu amor. Mas o rosto… o rosto era um buraco negro. Senti como se olhasse para um espelho depois de um banho quente, apenas um borrão que nunca tinha foco.
Eu preciso lembrar!
Abri os olhos e finalmente percebi onde estava. Aliás, consegui enxergar o que fora dos meus pensamentos, mas não sabia onde era aquele lugar.
O vento soprou uma pétala em minha mão, folha rosa que se desprendeu da grande árvore à minha frente. O toque suave fez tudo parecer, de certa forma, certo. E o mundo começou a devolver os fragmentos que eu mesmo trancava em minha mente.
— A árvore… Nós a plantamos, não é? — Sua voz ecoou, clara e traiçoeira, soprada pelo vento da memória:
“Quando voltarmos, iremos morar aqui. Eu, você, Lyfir… e nossos filhos.”
— Lyfir… — sussurrei. O nome tinha um gosto agridoce, como se eu não devesse pronunciá-lo em voz alta.
E então, mais peças se encaixaram: a sombra de um grande lobo negro ao seu lado. O olhar fixo de uma coruja pousada em seu ombro. Guardiões de uma mulher que eu não conseguia ver.
Quem é você, Eleine Gallhan?
Tentei forçar a memória. Mas, como já esperava: nada. Apenas o vazio com a forma dela.
Apertei as mãos, não com ódio, mas com uma frustração que doía nos ossos. Era a pessoa mais importante da minha vida; eu sentia isso, mas não me lembrava.
Foi então que a sombra daquela enorme árvore pareceu se espessar. E, de repente, um frio cortante, como o interior de uma cripta, fez os pelos da minha nuca arrepiarem. Alguém, ou alguma coisa, estava ali. Me observando.
— Você deseja… se lembrar? — A voz era um sussurro sedutor, como se a própria escuridão me convidasse a conhecê-la.
Ele se materializou não como uma forma, mas como uma falta de forma: uma silhueta humana feita de fumaça e sombra.
— Eles ouviram seu lamento — a voz sussurrada continuou. — Os Colecionadores de Memórias. Os Rostos Espirais não gostam de dívidas em aberto… nem de pactos incompletos.
Pacto. A palavra me atingiu como um estalo no crânio. E eu tive a terrível certeza: minha perda não era um acidente; era um contrato.
— Quem são eles? — Minha voz soou áspera, quebrada. — O que fizeram comigo?
E, se eu pudesse ver o rosto sob aquele manto, diria que ele sorriu com a minha pergunta.
— Eles guardam. Para cada memória tomada, uma razão. E a sua, Caellum Noctis, está guardada no coração do Castelo Drácula.
Ele fez uma pausa, deixando o horror se instalar.
— E se quiser recuperá-la… deverá adentrá-lo.
O Espectumbral estendeu as mãos. Seu corpo se desfez, transformando-se em um portal etéreo. No centro, apenas o nada me convidava a entrar.
Olhei para o portal. Depois, para a grande árvore, suas folhas caindo a cada lufada de vento. A promessa de um lar murchando como as pétalas caídas no chão. Fechei os olhos mais uma vez, criando coragem para encarar meu destino. Agora, eu sabia o que procurava. Agora, tinha um nome para meus algozes: Rostos Espirais.
Não havia escolha. A obsessão já era minha cela; agora, pelo menos, ela teria uma porta.
Estendi a mão e o toque não foi frio; foi uma ausência de calor, um vácuo que puxou algo vital de mim.
— Leve-me até eles — disse, e minha voz já soava diferente. Menos humana. Mais decidida.
O mundo ao redor começou a se desfocar, as cores escorrendo como aquarela na chuva.
E naquele instante, entre um suspiro e o próximo, tudo desapareceu.
Eu não estava mais em lugar nenhum.
Revisado por Sahra Melihssa
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Dança do Corvo #1
Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Terça-Feira, 28 de Setembro.
Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se identificar pelo vidro embaçado da janela daquele comboio a vapor que atravessava a linha ferroviária em plena madrugada.
Duas noites anteriores, uma carta fora destinada a mim, com a assinatura de meu pai que, por sua vez, escrevera aos prantos. Sua tão amada Hermina falecera depois de contrair uma doença à qual não me especificou nome. Talvez, nem mesmo ele soubesse o que afligira a sua esposa. Ele tinha medo. Soube disso, pois conseguira passar seu temor para o papel em letras trêmulas e garranchadas. Na mesma noite em que recebi a carta pelas mãos de uma das irmãs, dediquei toda minha euforia para ter a permissão de sair do convento e voltar para minha casa. Ela, e outras que também coordenavam o lugar, consentiram com minha saída, pois acharam que seria melhor eu cuidar de meu pai enquanto os tempos difíceis repousavam na minha família. Eu prometi que retornaria em breve e assim parti dois dias depois, sem ao menos imaginar que aquele seria um caminho completamente sem volta.
Junto a mim, nada carregava de muito valor. Ainda me lembrava daquela noite em travessia. Era apenas uma pequena mala contendo um saquinho de biscoito, cadernos e livros didáticos que eu deveria ler no tempo que estivesse fora da Escócia para compensar minha saída e o diário de minha falecida mãe que, não importava onde, sempre levava comigo.
O sono me pegou de surpresa, mas não se estendeu muito. O som rasante do comboio arranhando os trilhos conseguiu me despertar repentinamente em um pulo assustado. A madrugada já se tornava manhã e a parada da ferrovia já estava estampando minha visão. Já havia retornado à minha cidade e nenhuma surpresa me dominou por isso. Estava ali por um motivo de desgraça e nada daquilo me faria feliz.
· · • • • ✤🐦⬛✤• • • · ·
As ruas de St. Canard não estavam abarrotadas como eu nunca imaginei. Fazia já alguns anos desde que abandonei meu lar para seguir um caminho junto a Deus e seus ensinamentos, que pouco me lembravam do chão que voltei a pisar.
Mesmo assim, as lojas permaneceram da mesma forma enquanto eu me aprofundava pela cidade. As típicas mercearias, os ambulantes que dançavam nas calçadas animando quem passava... Sempre com um sorriso no rosto, as damas com seus leques e vestidos que vieram de boutiques caras nas quais nunca tive oportunidade de sequer entrar, pois era minha querida mãe que fazia – à base de trapos – minhas roupas humildes e, por fim, as carroças puxadas por cavalos que continuavam as mesmas, tirando o notável melhoramento em suas estruturas compostas de madeiras e metal, que agora eram mais charmosas e reluzentes do que antes. St. Canard não havia mudado muito em alguns anos. Sendo assim, ainda era fato de que eu sabia o caminho de minha casa.
A janela tinha suas persianas abertas quando encontrei minha antiga moradia sob um novo bazar que antes se encontrava em uma panificadora. A fachada estava com sua cor alterada. Antes, um bege quase branco se esticava por toda parede e agora havia um verde que já estava gasto e desbotado, porém a casa ainda parecia ser a mesma, esperava eu.
Decidi abandonar minha casa e seguir caminho ao encontro de Deus após o falecimento de minha mãe. Ela era nova, bonita e inteligente. Mesmo sem recursos financeiros, morávamos bem e sem problemas. Então as brigas entre ela e meu pai se tornaram mais frequentes e a casa foi ficando insuportável. Como antes dizia meu pai, ela o traía com outros homens, entre eles um eu conhecia: Dr. Marquês, filho do panificador que trabalhava em um hospital nas redondezas da cidade. Por sinal, ele era bem agradável. Nunca me dera motivos para sequer cogitar alguma coisa que o desagradasse, mas ao ser apontado por meu pai, sua ideologia formada em minha cabeça também foi pouco desgastada.
As acusações de adultério só foram comprovadas após o acidente no qual tirou a vida de minha mãe. Seu corpo foi encontrado na areia úmida da praia alguns dias depois que ela visitou uma amiga. Marquês se provou amante de minha mãe e alegou ter a ajudado com dinheiro para que ela comprasse tecidos, linhas e materiais para a customização de minhas roupas. Era fato de que, por um espaço de tempo naquela época, minha mãe estava aparecendo com mais tecidos do que o normal. Papai se casou novamente dois anos depois, por desgosto, e com Hermina teve outra filha: Emily, o bebezinho mais doce que eu vi na vida. E, quando isso aconteceu, eu parti para a Escócia, não por desgostar da minha nova irmã ou até mesmo da minha madrasta, mas por saber que somente encontraria o conforto que minha mãe dava nos braços do Senhor.
Antes de eu tocar na campainha ao lado da porta, meu pai já abriu e me encontrou segurando minha pequena mala. Tomou-me em seus braços e chorou por me ver, ao lembrar-se do motivo que me fizera retornar.
— Onde está Emily? – perguntei assim que pisei novamente em casa. O cheiro não era o mesmo. Ao invés de cheirar a assoalho velho e corroído por cupins, eu sentia algo desagradável o bastante que me faria voltar atrás. Não era nada condizente com minha sabedoria. – Quero vê-la. Tadinha... Deve estar acabada.
Meu pai seguiu à minha frente, percorrendo o corredorzinho no qual se dividiam os quartos, e chegou naquele onde eu já dormira um dia. Emily estava deitada com camadas de cobertas sobre seu corpo. Seu olhar cabisbaixo indicava doença, mal-estar. Seu cabelo loiro, que um dia eu vira por algumas pinturas ser lindo, brilhoso e radiante, estava embaraçado, seco e sem vida. Suas bochechas rosadas tinham um tom rude e cruel estampando-as, tornando a magreza de sua face mais evidente. O que estava acontecendo com ela? Os lábios carnudos também desapareceram incrivelmente, dando lugar a uma linha fina e roxa para representá-los. Seu colo tinha todas as cavidades do osso da clavícula marcadas. Ela estava magra igual a um esqueleto. E aquilo me assustava.
Respirei e, antes de me aproximar dela, fiz o sinal da cruz sobre o peito.
— Emily contraiu os mesmos sintomas de Hermina na mesma noite em que ela morreu, Lucy – dissera meu pai com sua voz acabada. – Eu não sei o que fazer mais. Não há remédio em minhas mãos que tarde essa maldita doença e, se existe algo, está muito além daquilo que posso arcar. Ela vai morrer... Vou perder minha filha, e você, sua irmã.
Acariciei a face de Emily, sorrindo para ela, mas acabei me levantando quando meu pai proferiu aquelas palavras banhadas de choro e medo. Agarrei suas mãos com força e as pousei sobre meu colo. — Não diga isso, papai. Vamos conseguir. Emy não irá morrer.
— O que podemos fazer para impedir tal acontecimento hostil? – perguntou ele, eufórico demais para raciocinar que eu estava tão próxima a ele e não necessitava elevar a voz ao falar comigo.
— Vamos primeiro contatar um doutor. Depois de curada, resolveremos o valor que devemos arcar. Tudo vai ficar bem, pai. O Senhor há de nos ajudar. Ele está conosco. – Meu pai pareceu não dar muita atenção para a parte em que falei da ajuda de Deus. Portanto, retornou com sua euforia e se mostrou um tanto duvidoso. – Marquês tinha um voluntário, Dr. Hoechlin. Emy o conheceu, talvez ele nos preste ajuda.
— Eu deveria negar por ser voluntário daquele senhor, mas caso aceite nos ajudar, será bem-vindo à minha casa – respondeu.
Emily se mexeu sob as cobertas. Tossiu, limpando a garganta, e chamou minha atenção com sua voz fraca e arranhada.
— Hoechlin partiu para Londres na noite retrasada. Voltará daqui a dois dias – comentou ela, esforçando-se para conseguir falar com clareza.
Olhei para meu pai com preocupação. Não sabíamos com o que estávamos lidando e, acima de tudo, aquilo poderia não existir cura alguma. Ele também estava preocupado. Com toda a certeza, não queria perder sua menina de dezesseis anos logo depois de sua mulher falecer.
— Quanto tempo Hermina suportou após contrair a doença, pai? – perguntei.
— Três semanas. – Uma semana se completaria para Emy quando o doutor chegasse. Ela teria que aguentar mais duas até os exames mostrarem uma saída.
Naquela noite, me ajoelhei perante a cama e rezei com toda minha fé. Tive medo de que oração alguma fosse forte o suficiente para afastar a sombra da Morte que pairava sobre a nossa casa.
· · • • • ✤🐦⬛✤• • • · ·
Quarta-Feira, 29 de Setembro.
Eu havia retornado ao quarto que me foi cedido, na extremidade do corredor, e o fiz não por cansaço, mas por um medo pungente de ser um estorvo àquela figura paterna já devastada pela dor. Minha prece fora fervorosa, mas o sono que se seguiu se mostrou leve e febril, interrompido a cada rangido do assoalho.
No fim, contive-me no som ritmado e pelas badaladas do relógio da sala que, ao longe, badalava as três da madrugada quando o silêncio da casa foi rasgado por um som aterrador. Não era o pigarro fraco que Emily vinha exibindo, mas sim um ruído quase gutural, violento demais e profundo, seguido de um gorgolejo que parecia vir do fundo de sua própria garganta.
Saltei da cama, com o desespero e o coração chocando-se contra as costelas, vesti apressadamente meu robe e corri descalça pelo corredor sem medo de talvez estivesse fazendo barulho em demasia para acordar meu pai. A porta do quarto de Emily estava entreaberta e a luz fraca da lamparina que eu havia deixado acesa na cômoda projetava sombras alongadas e distorcidas que dançavam quase como uma reverência ao meu medo.
Entrei. E ali, o terror se materializou em sua pior forma.
Nunca fui muito próxima do trabalho da morte. Muito pelo contrário… sempre permaneci distante dela para não parecer íntima demais a correr o risco de vê-la de novo. No entanto, as tosses vindas de Emily deixaram de ser comuns para mim quando a consequência seguinte fora vê-la se debater insanamente sobre a cama. O lençol branco que a envolvia já não existia mais, marcando em seu peito e pintando sobre o amontoado de fios uma paisagem infernal de carmesim. O sangue evidentemente estava espesso e quente, escorrendo de sua boca como riachos abundantes, manchando o queixo, o pescoço e a camisola que parecia ter sido mergulhada na mais rubra tinta. Os olhos de minha pobre irmã, antes esvaziados pela doença, arregalaram-se em uma súplica muda de socorro. Talvez eu nunca mais esquecesse o pânico estampado em sua face assim que me viu entrar em seu quarto.
Ela tentava puxar o ar, mas o esforço apenas fazia o sangue jorrar com mais violência, engasgando-a, silenciando-a como se algo condenasse a bela garota a um destino horrível e sangrento. — Emily! Oh, Deus, Emily! — Minha voz não passava de um sussurro rouco, quase abafado pelo som úmido do seu sufocar. E mesmo atingindo um tom acima do normal, pelo medo e desespero, ainda parecia baixa demais comparado aos engasgos e sufocamentos que originavam dela.
Corri para o seu leito, estendendo minhas mãos como uma forma fútil de tentar salvá-la, mas o desespero tomou conta da minha mente com uma força paralisante.
Eu não era médica; não era nem mesmo perto de ter os conhecimentos de uma mera enfermeira. Eu era apenas uma garota de vinte e quatro anos que, diante daquela cena de brutalidade biológica, toda minha fé e os ensinamentos do convento se dissolveram em um terror gélido e parvo. Tentei erguê-la, mas o toque na sua pele fria e pegajosa de suor e sangue fez-me recuar um passo atrás.
Eu falhei. Falhei miseravelmente com o desespero que também tomava conta de mim, assistindo à última e convulsiva exalação de vida de minha irmã, enquanto o sangue se espalhava em um mar espumoso sobre o travesseiro. No instante exato em que o último tremor abandonou o corpo de Emily, quando o gorgolejo cessou e o quarto mergulhou em um silêncio pesado e oco além do meu choro contido no alto da garganta, o ar ao redor do leito pareceu se condensar em um negrume mais denso que a própria noite. Não era a sombra projetada da lamparina, mas sim uma mancha de escuridão viva, alta e magra, que se desprendeu do colchão manchado como quem emergia de dentro da posição de mortalha dela na forma de um espectro obscuro.
Sombrio, sem rosto discernível, feito de fumaça e trevas.
O pavor me petrificou no lugar, e eu observei a personificação do demônio da morte tomar aquele ambiente como se fosse dele desde o início. Talvez de fato fosse, desde a partida da esposa de meu pai, pouco antes.
Não havia pés, nem o som em seus passos. A figura deslizava sobre o assoalho sem fazer qualquer ruído. Em vez de caminhar pelo chão, ela ascendia pela parede ao lado, como se a gravidade fosse uma simples sugestão e possibilidade de uma escolha inútil. Lenta e propositalmente, a aparição espectral moveu-se em direção a um canto escuro do quarto onde repousava, coberto por um tecido de linho branco, o grande espelho de vestir de Emily.
Talvez meu pai tivesse bloqueado o reflexo, tendo em vista o caos letal que acompanhava sua morada. Sua tentativa de ocultar o vidro fazia direta referência ao que diziam os supersticiosos e abandonados pela fé. Espelhos capturavam a alma dos doentes.
O espectro parou diante do espelho coberto, e ali permaneceu intacto, com sua silhueta escura parecendo fundir-se com a brancura do linho. Meus olhos, grudados naquele ponto de escuridão e tecido, não conseguiam mais se desviar. Eu estava hipnotizada. Horrorizada e sem qualquer força para fazer algo a respeito.
Lucy... Salve-me…! Está na hora de vir ao meu encontro, doce irmã. Liberte-me deste caos… Arranque o véu, irmã. Arranque o véu e perambule pela escuridão. Está tão frio aqui…
Era a voz de Emily, pura, sem o ranger da doença, mas etérea e fria, ressoando não do corpo inerte no leito, mas através do espelho coberto. Suas súplicas eletrizaram meu corpo, arrepiando meus pelos. Foi o suficiente para que eu sentisse verdade em sua solicitação. Movida por uma força que não era minha, um magnetismo frio que irradiava do vidro, dei passos hesitantes até o espelho. Minhas mãos tremeram quando agarrei a beirada do linho úmido de poeira, obedecendo ao chamado.
Rasguei o tecido com um puxão violento, e o espelho foi revelado em um átimo.
Não vi meu próprio reflexo pálido e aterrorizado. O vidro do espelho havia se transformado em uma espécie de janela ou pintura tão realista quanto. Através dele, a cena era de uma grandiosidade gótica e infernal, de um castelo sombrio, escuro, no alto de uma colina rochosa e pontiaguda. Dei um passo para trás, hesitante, e arfei alto com certo receio e pavor. O céu acima não era o teto de nuvens baixas de St. Canard; em vez disso, manifestava-se na forma de um pesadelo de nuvens revoltas em tons de um vermelho doentio que mais se poderia contemplar o mesmo tom do sangue jorrado de Emily do que se o próprio inferno viesse à terra.
O espelho, por um instante, pareceu vibrar. E antes que eu pudesse recuar, antes que eu pudesse gritar por socorro, uma rachadura surgiu na superfície do vidro. E, através dela, um braço explodiu para fora, estendendo-se até mim em uma velocidade absurda. Uma mão negra, ossuda e com garras longas e afiadas saiu do espelho com a precisão de uma víbora. Agarrou-me pela garganta.
O aperto seco e gelado, como gelo de caveira, demonstrou uma força inacreditável. O ar me fugiu por completo naquele último segundo, e acreditei fielmente que morreria também em seguida. Fui puxada para dentro do espelho sem qualquer delicadeza ou cuidado. Meus olhos viram, antes de fazerem a travessia, o reflexo distorcido da minha face contemplada de horror no vidro rachado. Soube, depois daquilo, que jamais poderia ter volta.
No fim, o vidro estilhaçou-se em uma explosão de neblina escura, engolindo-me para dentro de um mundo além da salvação.
Revisado por Sahra Melihssa
A Dança do Corvo
Sob a bruma de uma Inglaterra vitoriana marcada por mistérios e mortes inexplicáveis, Lucy retorna ao lar pela primeira vez em anos ao saber que sua irmã Emily está morrendo por um doença estranha. Mas na noite em que tudo deveria terminar em silêncio, Lucy presencia a alma de Emily sendo sugada para dentro de um espelho velho e adornado que reflete um mundo sinistro e desconhecido repleto de sombras derivadas de um castelo antigo.
Movida por amor e desespero, Lucy atravessa o espelho e se vê em uma dimensão onde a noite se mostra eterna e um castelo gótico que vigia o mundo com suas paisagens aterradoras. Lá, entre sombras e segredos ancestrais, ela deve confrontar forças que desafiam a vida e a morte antes que a alma de Emily seja perdida para sempre. » Leia todos os capítulos.
Gabriel Cordeiro
Gabriel Cordeiro é autor de terror gótico, romance sobrenatural e dark romance, conhecido por tramas intensas, sensuais e profundamente emocionais. Suas histórias exploram o sobrenatural com personagens marcantes e monstros que podem amar demais. Sua escrita mistura poesia sombria, suspense psicológico e erotismo visceral... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
29. Ritos Fúnebres da Ordem
Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os procedimentos que regem a passagem e a negação da morte.
Registro da Ordem - reprodução integral.
Ritos Fúnebres da Ordem
A Ordem segue rituais rigorosos para garantir que os mortos atravessem corretamente o ciclo, sem serem corrompidos ou presos entre os véus. Esses ritos variam de acordo com a situação da alma e do corpo.
1. O Rito da Travessia (Para aqueles que morreram naturalmente e sem pendências espirituais)
Este é o ritual mais simples, realizado para garantir que a alma do falecido não fique presa ao mundo dos vivos. O corpo é limpo com ervas amargas para afastar influências indesejadas. O nome do morto é escrito com tinta negra em sua testa para que ele se lembre de quem é ao cruzar o véu. É recitada a “Oração da Travessia”, guiando a alma em sua jornada:
"Você veio da sombra e retornará a ela. Nenhuma dor o seguirá. Nenhum medo o prenderá. Apenas vá."
O corpo é queimado ou enterrado em solo sagrado, dependendo do costume local. Se a alma resistir ou houver sinais de inquietação, passa-se ao próximo rito.
2. O Rito da Libertação (Para aqueles que morreram em agonia ou deixaram assuntos inacabados)
Quando uma alma se recusa a partir ou algo a prende, esse rito força sua libertação. O corpo é posicionado com os braços cruzados sobre o peito e os olhos cobertos com um pedaço de véu negro, para impedir que veja os vivos. Uma moeda marcada com o símbolo da Ordem é colocada na boca do morto, não para pagar uma travessia, mas para silenciar os lamentos. A encarregada pelo rito deve tocar a testa do morto e sussurrar o nome dele três vezes. Em seguida, a “Oração da Ruptura” é recitada:
"Nenhum amor o chama. Nenhuma dor o prende. Você pertence ao esquecimento. Vá."
Se a alma ainda resiste, um corte é feito na palma da mão do falecido, liberando qualquer energia que ainda o segure no mundo dos vivos. Se isso falhar, significa que a alma se tornou algo pior.
3. O Rito do Silenciamento (Para aqueles que morreram e retornaram de maneira impura)
Este rito é reservado para aqueles que foram trazidos de volta de forma errada (mortos-vivos, espectros vingativos ou qualquer um que se recusou a aceitar sua morte). O nome do morto é riscado dos registros da Ordem, simbolizando que ele já não pertence ao ciclo natural. O corpo é perfurado com agulhas de ferro negro, um material sagrado para impedir sua ressurreição. O sangue de uma irmã de maior nível hierárquico é usado para traçar o “Selo da Dissolução” no peito do falecido. A “Oração do Esquecimento” é entoada:
"Você já não existe. O mundo não se lembrará. Sua história termina aqui."
Se a criatura ainda se mover, deve ser destruída sem hesitação. Este é o rito que mais pesa sobre as irmãs, pois significa negar a existência de alguém.
4. O Rito da Execução (Para aqueles que desonraram o ciclo em vida e não merecem descanso)
Nem todos os mortos merecem compaixão. Alguns devem ser apagados completamente, para que nunca se ergam novamente. O corpo é queimado antes da morte (se possível), para impedir que a alma permaneça presa a ele. O coração é arrancado e reduzido a cinzas, garantindo que nenhuma maldição o traga de volta. Nenhuma prece é dita, nenhum nome é pronunciado. O condenado é esquecido imediatamente. É o rito mais cruel da Ordem, mas necessário para aqueles que desafiaram a própria morte e tentaram se tornar imortais.
Esses ritos mostram como a Ordem vê a morte como algo inevitável, mas que deve ser tratado com respeito ou severidade, dependendo das circunstâncias.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
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28. Diário da irmã da Ordem IV
Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 25 de novembro de 1374
Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho da catedral, caminhamos por ela um bom tempo até que ela parou e falou: “Este, Mara, é nosso verdadeiro túmulo”, ela disse, apontando para as árvores. “Aqui é a floresta das raízes silenciosas.” O nome era apropriado, só se ouvia ali o som do vento entre os troncos. “Quando morremos”, Irmã Teodora continuou, “nosso corpo não é guardado em pedra fria ou muito menos deixado para apodrecer em qualquer lugar, somos devolvidas à terra da qual nascemos outra vez.” Ela deu mais alguns passos e passou a mão em uma árvore de tronco escuro. “Cada irmã da ordem escolhe em vida a sua árvore e essa é a única escolha que lhes é garantida. Quando morremos, somos enterradas ao pé delas, e nossas raízes se entrelaçam com as delas e assim nos tornamos parte dela.” Toquei no tronco da árvore e por um momento ela pareceu pulsar sob meus dedos. “E aquelas irmãs que a ordem não consegue recuperar o corpo?”, perguntei. “Se uma de nós se perde, ainda assim lhe damos uma árvore, um túmulo sem corpo, mas não sem memória”, ela disse, olhando para a árvore. Fiquei imaginando quantas irmãs não tinham sido encontradas e quantas árvores cresciam no vazio. Fiquei a olhar todas aquelas árvores ao meu redor. “Qual árvore você escolheu?”, perguntei. Irmã Teodora sorriu, me surpreendendo, e disse: “Um carvalho, firme e duradouro.” Não perguntei mais nada, mas quando estávamos saindo da floresta olhei ao meu redor e me perguntei: “Se eu caísse, qual raiz carregaria meu nome? Será que suas raízes iriam crescer no vazio?”. Talvez eu ainda não deva me preocupar com isso agora.
Data: 13 de dezembro de 1374
Estava andando pelos corredores da abadia, quando ouvi vozes abafadas, duas irmãs sussurravam, parei atrás de uma coluna e ouvi. “...o poder dele está além da compreensão”, murmurou uma delas. “A ordem finge que ele não existe, mas sabemos que ele está lá, seu domínio nunca caiu de verdade”, disse a outra. “Se a ordem quisesse, poderia enfrentá-lo…”, a primeira delas falou. “Se quisessem mesmo, já teriam feito”, a segunda bufou. Fiquei imóvel, ouvindo o que talvez fosse uma conversa proibida. “Drácula nunca morre, nunca é esquecido e há um bom motivo para isso.” O nome ecoou na minha mente. “Talvez seja por isso que a ordem não interfere no domínio dele, talvez seja algo que não possamos mudar”, uma delas falou. Eu já ouvi esse nome antes, em relatos de viajantes que passavam pela catedral, e o li em textos antigos com poucas informações, mas a ordem nunca falava sobre ele diretamente, não sabia se ele era um aliado ou apenas uma sombra à espreita, mas na ordem ele era um silêncio deliberado. As irmãs continuaram sem notar minha presença, me afastei logo, antes que me percebessem, fui para meus aposentos e o nome foi comigo. Drácula, Drácula, Drácula, como a batida de um coração no fundo da minha cabeça.
Data: 14 de dezembro de 1374
O nome Drácula continuou ecoando na minha mente como um coração pulsante a manhã e a tarde toda, ele se recusava a ir embora. Quando estava limpando as lâminas com a irmã Isolda, a única irmã à qual eu tinha afinidade, não consegui conter minha dúvida e tentei, de maneira casual, perguntar a ela sobre Drácula, ela estava na ordem há mais tempo que eu e poderia me dar mais informações. “Irmã Isolda, ouvi algumas irmãs sussurrando nos corredores, elas falavam de Drácula.” Seus dedos pararam por um instante na lâmina que estava afiando. “Drácula”, repeti, testando sua reação ao nome. Seguiu-se um silêncio pesado e Irmã Isolda voltou a afiar a lâmina como se eu não tivesse dito nada. “A ordem não se preocupa com ele?”, perguntei. “Não é uma questão de preocupação, é uma questão de decisão”, ela falou sem erguer os olhos. “E o que isso quer dizer?”, perguntei. Ela suspirou por um momento e respondeu: “A senhora da Morte tem seus motivos para não interferir nos domínios de Drácula e isso é tudo que você precisa saber.” E foi isso, nenhuma explicação, nenhum detalhe, a conversa estava encerrada antes de começar. Mas algo em suas poucas palavras me fez entender que Drácula era um nome a ser evitado e me restava saber o motivo dessa escolha ter sido feita.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
27. Se eu esperar, a sepultura será a minha casa; nas trevas estenderei a minha cama
Data Incerta – Mara ainda dormia, inteira, ainda humana. E eu senti um golpe de alívio em meu peito, controlei minha respiração, pois não queria que ela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta – Mara ainda dormia, inteira, ainda humana. E eu senti um golpe de alívio em meu peito, controlei minha respiração, pois não queria que ela acordasse e percebesse o meu descontrole. Levantei-me em silêncio, mas não o bastante, pois Mara acordou, mas não se levantou de imediato. Lavei o rosto em uma bacia de metal e pude ver meu reflexo embaçado, meus olhos carregados de névoa, como se houvesse uma película esbranquiçada que parecia carregar em si as lembranças do sonho da noite passada. Sentei-me em uma cadeira perto da janela e fingi normalidade, enquanto Mara se levantava em silêncio.
— Você sonhou — disse ela, afirmando.
— Acho que todos sonham, não é? — eu disse, tentando soar irônica. — Espero não ter falado enquanto dormia.
Mara me olhou por tempo demais e depois desviou o olhar.
— Vamos sair da torre. Preciso falar com você longe de tantos olhos e ouvidos atentos.
Não a questionei, apenas a segui, e a ordem parecia nem se importar com nossa saída, ou fingia não se importar.
Fomos para a vila, poucas janelas abertas, poucas portas entreabertas e poucos olhos e ouvidos. Enquanto andávamos, tive a sensação de que cada casa tinha suas cores dessaturadas, com contornos levemente trêmulos, como se tudo à nossa volta estivesse envolto em vidro embaçado, e a névoa fixa no céu parecia um negativo mal revelado.
Cada vez que eu piscava para tentar desembaraçar minha visão, parecia que algo se movia fora do tempo normal; eu me sentia puxada para dentro de algo que não era eu. Mara notou meu ritmo alterado.
— Você está lenta — ela disse.
— Só estou tentando me manter acordada.
Ela franziu o cenho e continuou andando.
Vi então um pequeno cemitério entre as casas antigas, pedras partidas, alguns lápides sem nome, musgo crescendo suave. E ali, sobre um mármore branco, juro que vi algo por um segundo, como um livro. Pisquei e não havia mais nada lá, mas a sensação ficou, como se, a qualquer instante, uma lembrança pudesse me atravessar e apagar o agora. Paramos naquele cemitério, e Mara fez questão de verificar que estávamos sozinhas antes de começar a falar. Tínhamos apenas a companhia dos mortos, mas, depois de tudo que passei, eu não estava certa de que poderia confiar no silêncio deles.
— Aquelas mulheres, há algo de errado nelas — Mara começou a sussurrar bem perto de mim — a ordem nunca protegeu o castelo e também nunca interferiu no domínio de Drácula. Essa ramificação da ordem quer proteger o domínio dele por algum motivo, e não é por bondade no coração delas, isso eu tenho certeza. Há algo mais por trás disso. E por qual motivo agora a verdadeira ordem quer intervir?
Eu a ouvia, mas parecia que ela fazia essas perguntas a si mesma, e não a mim, que não possuía nenhum conhecimento prévio sobre a ordem. Eu apenas estava no lugar errado na hora errada.
— Aquelas mulheres no teatro não eram apenas espectadoras; elas estavam esperando algo — ela continuou.
Olhei para ela.
— Você?! — eu disse, surpresa com quão óbvio isso parecia.
Ela assentiu.
— A ordem nunca se preocupou com Drácula, nunca tive conhecimento de nenhuma de nós entrando no castelo, a não ser eu.
— Você acha que isso é por sua causa? — perguntei.
— Talvez, mas quando elas me viram ali, de frente para ele, inteira, isso deve ter dado a elas a ideia de que eu sou a porta de entrada para o castelo — seu rosto se contraiu.
— Então elas vieram atrás de você — confirmei.
— Não posso ter certeza, é tudo teoria, eu não sei o que pensar — o silêncio ficou entre nós.
— Tudo bem, você deve ter uma ideia do que elas podem querer de você, não é? — eu disse.
— Como eu disse, talvez eu seja a entrada delas ao castelo, mas a dúvida que fica é o que elas querem lá…
Enquanto Mara falava, o mundo parecia se deformar à minha volta bem devagar. As lápides, as árvores, as ruas pareciam ondular; as casas tremulavam de leve, e as sombras se moviam com atrasos. Tive a sensação bem nítida de que, se eu me deixasse levar, eu poderia cair em algo que não era eu. Não sei como explicar melhor, mas eu sentia que aquele algo, que não sei descrever, era algo fora de mim que estava dentro de mim. Senti que estava sendo observada e sacudi a cabeça.
— Elas sabem que não conseguimos voltar ao castelo? — eu disse, tentando ainda voltar ao normal.
— Talvez saibam, mas isso não irá impedi-las de tentar entrar — Mara falou e olhou para mim com mais cuidado. — Você também percebeu isso, não é? Que elas não são do tipo que desistem.
Assenti.
— Então precisamos de uma forma de voltar para o castelo sem levá-las conosco — falei, e ela soltou um riso breve e amargo.
— Quando se trata da ordem, não sei se isso será possível, mas podemos tentar. Agora, melhor voltarmos.
Voltamos a andar e começou como um erro de profundidade: o chão parecia estar logo ali, mas, ao pisar, ele cedia um centímetro além do que era esperado. Como um degrau que não existe, meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar, e meu coração deu um salto.
— Rute — a voz de Mara veio de longe, ou talvez muito perto; eu não conseguia distinguir.
A vila começou a perder a cor, as casas se tornaram tão pálidas que começaram a desaparecer e o céu ganhou uma aparência embaçada. Eu pisquei e um livro se abriu, mas não havia livro em minhas mãos; havia páginas sendo viradas em minha cabeça. Vi uma mulher que não era eu ajoelhada diante de uma lápide sem nome. Vi mãos pequenas segurando uma adaga grande demais. Vi sangue escorrendo sobre um tecido que já fora branco. Vi o rosto mais jovem de Mara, endurecido, mas sem o peso que hoje ela parece carregar, e aquele mesmo olhar de quem não sabe como voltar atrás. Tudo se movia com uma luz neon branca, fraca e pulsante. O torpor veio doce e terrível, eu sentia como se meu eu presente na realidade começasse a se soltar de suas costuras; senti meu corpo ficar pesado e distante, como se estivesse sendo abandonado de mim ou por mim mesma. O ar começou a ficar espesso demais para respirar. Duas fendas se abriram na névoa; eram olhos não hostis, mas atentos, e, ao vê-la, algo dentro de mim doeu com uma nostalgia que eu não reconhecia como minha.
— O que está te prendendo? — disse.
Senti outras imagens querendo emergir. O teatro, o caleidoscópio, Drácula aplaudindo, Mara sendo refeita diante dos meus olhos, meu próprio rosto sendo refletido dentro de um vidro infinito. Senti o presente perder a importância, meus joelhos falharam e minha mente também; então algo me puxou com violência para trás.
— RUTE!
Mara segurava meu braço com força suficiente para doer. Sua mão era quente, real, dolorosamente real. O mundo retornou de uma só vez, com brutalidade, e eu caí contra Mara. Respirei em golfadas curtas e descontroladas; eu senti como se estivesse me afogando de novo.
— Você estava caindo — disse ela, com a voz controlada, mas os olhos não.
— Eu vi coisas que eu não vi — eu disse, e percebi que não fazia sentido nenhum.
Ela fechou os dedos nos meus braços com mais força.
— O que você viu? — ela perguntou, séria demais.
Engoli em seco, ainda não entendia aquilo que observava por trás dos meus olhos.
— Lembranças que não são minhas, mas querem ser — eu disse, desesperada, e Mara ficou em silêncio, me observando por tempo demais.
— Vamos voltar, finja que está tudo bem e volte para o quarto — ela me encarava enquanto dizia o que eu precisava fazer.
Voltamos e entramos na velha construção onde a ordem estava e, sob os olhos daquelas que fingiam não se importar, voltei para o quarto, pois estava cansada demais para os vivos, para os mortos e para a ordem.
Mais tarde — Essa noite eu sonhei de novo, ou tive uma lembrança que não era minha, não sei dizer ao certo. No sonho ou lembrança, eu já estava triste sem saber por quê. O céu era de um cinza vazio, como se nada no mundo pudesse preenchê-lo. Não havia vento; as flores ao meu redor eram brancas demais, quase fantasmagóricas, e, a cada movimento meu, elas se duplicavam, uma após outra, depois três ou quatro versões atrasadas de si mesmas, como se cada movimento meu estivesse dando defeito no tempo. Eu caminhava sem destino, sem urgência. Tinha apenas um peso no peito, uma tristeza antiga. Então vi o mar, e ele recuava a cada passo meu, como se tivesse medo de mim. Meus pés sentiam ainda a areia úmida. Tudo permanecia imóvel se eu permanecesse imóvel. Tudo respirava se eu respirasse, mas nada parecia vivo de verdade. Foi quando tudo começou a se misturar. Vi minhas mãos segurando uma lâmina que nunca toquei. Vi o rosto de Mara jovem, endurecido por uma dor que não era minha, mas que doía em mim. Vi uma lápide sem nome que me despertava uma culpa sem motivo. Eu queria chorar, mas não sabia qual das versões de mim deveria. A névoa aumentou, e duas fendas se abriram nela. Olhos, os mesmos de antes, e, ao vê-la, senti de novo aquela nostalgia absurda que não era minha, de algo que nunca vivi.
— Você está se perdendo? — disse a voz que eu sentia conhecer.
— Isso é meu, essas lembranças? — perguntei, e os olhos me observavam sem piscar.
— Agora é.
Olhei para baixo, meus pés não tocavam o chão e eu caminhava sobre aquela água inexistente, feita de lembranças alheias e das minhas lembranças. Eu olhava para elas, e a sensação era de que tudo estava prestes a desaparecer. Vi cenas que não reconheci como minhas. Senti medo, mas não o medo desesperador; foi mais um cansaço, pois eu estava farta de existir há muito mais tempo do que minha vida permitia.
— Se eu ficar aqui, isso passa? — perguntei.
— Nada aqui passa — a coisa respondeu — tudo apenas se sobrepõe.
Meu peito apertou e uma tristeza que eu reconhecia como sendo mesmo minha cresceu. Junto com aquela sensação de que existir havia se tornado pesado demais para uma vida só. Foi quando ouvi, de muito longe, meu nome sendo chamado, como se estivesse atravessando diversas camadas. A paisagem começou a rachar, as flores se desfizeram e o céu cinza se desfez. Os olhos recuaram.
— Volte ao cemitério, você ainda tem onde cair — disse a coisa.
E eu caí. Acordei com o peito em convulsão e o ar entrando como golpes em meu pulmão, como se eu tivesse sido puxada com violência, outra vez, do oceano. Meus olhos avistaram os de Mara, desesperados, e, como sempre, não sei dizer se era preocupação com a minha vida ou com a dela, que estava presa à minha, mas era uma preocupação genuína. Eu estava em seus braços novamente.
— Precisamos voltar ao cemitério agora — puxei o ar e disse, em desespero.
Saímos e fomos em direção ao cemitério. Não vi ninguém lá a princípio, mas tinha a sensação de estar sendo observada; foi então que os vi perto de uma lápide sem nome.
— Ali, você está vendo isso? Está vendo eles ali? — apontei para a lápide para confirmar que Mara via o que eu via.
— Eu não vejo nada — ela disse, negando com a cabeça — me diga o que você vê.
— Corpos imóveis, roupas que não parecem pertencer a tempo nenhum e os rostos em espiral. Não são máscaras, eles são mesmo assim, retorcidos por dentro, como se seus rostos tivessem sido entortados até chegar ao abismo da alma — disse a ela.
Mesmo assim, eu me sentia observada por aquelas faces sem olhos que conseguiam me atravessar. Eles continuavam parados, apenas observando, e eu comecei a caminhar, e eles continuavam lá, parados e distantes. Cada passo meu os tornava sutilmente mais próximos. Eu senti que não deveria chegar a eles rápido demais, mesmo que eu quisesse. Mara perdeu o foco, e eu sabia que ela falava algo, mas não conseguia escutá-la. Então um deles se aproximou o suficiente e não tocou em mim, apenas inclinou a cabeça e sussurrou:
— Esta não é sua, e não tem relevância.
Senti algo sendo arrancado de mim, mas não senti dor, e sim alívio. Sabia que algo tinha sido levado, mas não sabia o que. Então outro rosto em espiral se aproximou de mim e também arrancou algo.
— Essa você não vai precisar — sussurrou para mim.
Depois, um terceiro rosto em espiral e, ao invés de tirar, empurrou algo para dentro de mim. Minhas mãos começaram a tremer. Um outro rosto chegou mais perto, tão perto que quase chegou a me tocar. Então senti um incômodo, uma queimação na ideia de ser quem eu sou. Eu sentia como se uma parte de mim tivesse sido raspada por dentro, bem devagar, mas não como lâmina; era com algo mais bruto e doloroso. Comecei a gritar e eles continuavam me olhando sem olhos. Vi um rosto em espiral que parecia o meu ou que viria a ser o meu. Me sentia desorganizada dentro de mim mesma, reescrita. Apenas me lembro de ser arrastada com violência, vozes em torno de mim, os olhos de Mara em desespero, mãos me apertando e a sensação de que algo foi roubado e que algo que nunca foi meu crescia dentro de mim.
Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Delírio Febril
Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro? Abro a porta, olho em volta e, aparentemente, não há ninguém. Perambulando, encontro um dos muitos corredores existentes; conforme atravesso, lembro do encontro interessantíssimo que tive com o professor Monm, uma figura distinta. Dificilmente esqueceria o brilho em seus olhos, pois ele é semelhante ao meu... gostaria muito de ser uma de suas alunas, tenho certeza de que seu conhecimento seria de valor inestimável para mim. Espero que o Castelo proporcione nosso reencontro.
Ao final do corredor, encontro o grandioso salão, palco de uma noite memorável. Foi exatamente aqui onde ocorreu o primeiro baile de máscaras. As lembranças que pareciam estar adormecidas despertam com mais intensidade. Imediatamente, vislumbrei o vazio se materializar através de memórias fantasmagóricas.
Com clareza, vi o lugar sendo ocupado por mulheres e homens em trajes de gala, ostentando suas exuberantes máscaras. Reverberava em meu ouvido as funestas notas da peça Toccata and Fugue (música tocada pelo quarteto naquela ocasião). Contemplo os vultos em longos vestidos rodopiando em tonalidades diferentes, sem contar aquele vertiginoso encontro com aquela criatura lúgubre de olhos azuis, tão enigmáticos quanto a vastidão do universo.
Defronte para o silêncio, sussurro seu nome com a delicadeza de quem assopra a chama de uma vela: “Nickollas”. Meus caninos sobressaltam; não consegui disfarçar o desejo sombrio. Fito a janela onde ele me levou naquela noite para observar a túrgida lua — lembro de como a veia em seu pulso resplandecia à penumbra do luar e do excitante som ao rasgá-lo.
Mas algo me trouxe à tona: um brilho arcano de tonalidade magenta surgia pelos arredores do Castelo. Conforme ia se aproximando, clareava o recinto. O que será isto? Assustada, vou até a janela e a atravesso. O frescor da brisa toca minha tez ávida (não lembro a última vez que saí do Castelo).
Era impressionante a dimensão da névoa. Via-se pouquíssimo do firmamento, assim como a vasta e verdejante vegetação composta por exuberantes carvalhos com suas belas folhas, altas faias, baixos arbustos e, pelo chão, gramíneas cresciam desenfreadamente. Avisto uma esguia trilha que se estendia mata adentro; decido segui-la.
Nos primeiros passos, um frescor inexplicável invade meus pulmões, como se ali tivesse caído uma forte chuva. Tive a nítida sensação de que a vegetação se movia, como se estivesse respirando. Abaixo e inspiro aquele cheiro melancólico; então, enterro meus dedos sob aquele solo úmido, deixo escapar um gemido inaudível, acompanhado de intenso salivar. Retiro-os ainda úmidos (isso foi intenso) e sigo em frente.
A bruma que outrora era magenta adquiriu tons em escarlate e também ficou mais densa. Após muito caminhar, tenho um vislumbre espetacular: perante a mim, erguia-se um arco esculpido em mármore branco, de altura considerável. Os galhos das faias abraçaram aquela estrutura com afinco.
Estava perplexa com este lugar. Será que acessei outra realidade? Um brilho longínquo surgia dentro da mata. Munida de curiosidade e excitação, atravesso e, mais alguns passos à frente, encontro uma ampla piscina. Parece ser profunda, sua borda feita do mesmo material do arco. As águas eram serenas e sombrias, de mesmo tom da névoa, porém a cor escarlate era predominante.
Um incontrolável desejo de mergulhar se apoderou de mim. Estava prestes a realizar tal ato quando ouço passos em meio à névoa. Sem dúvidas, uma visão espantosa, semelhante a uma aparição fantasmagórica, movia-se com espantosa graça. Parou em frente à borda; então, tive um vislumbre estupendo.
Uma figura feminina, de altura média, sua pele lívida, semelhante a uma boneca de porcelana, dona de uma beleza arrebatadora. Seus olhos eram um excitante enigma o qual adoraria desvendar. As sobrancelhas eram arqueadas, o nariz afilado, emoldurando aquele rosto, longos cabelos negros com duas mechas brancas, chegando na altura dos quadris.
Usava um vestido translúcido; havia rendas francesas tanto na barra como no provocativo decote, ressaltando ainda mais os esplendorosos e firmes seios. Caminhava naquela névoa, tal qual uma bailarina.
Mesmo sem saber a natureza daquela aparição, anseio ardentemente possuí-la. Assisto-a andar pela borda com muita destreza. Em certo momento, ela mergulha a ponta do seu pé direito na água, espalhando gotículas vermelhas no ar, maculando o vestido, assim como a borda. Vi nascer de seus lábios um sorriso tão enigmático quanto o da Mona Lisa.
É impressionante o poder que ela exerce sobre mim. Seus gestos suaves afloram meu lado selvagem, atiçando uma luxúria quase obscena. Um desejo ancestral floresce do meu âmago; nunca pensei que fosse sentir tais sentimentos.
Desenvolvo uma certa obsessão, beirando ao voyeurismo. É excitante pensar na possibilidade dela estar me vendo... Depois de andar, ela senta com elegância e toca suavemente as águas com os dedos indicador e médio em movimentos circulares, criando calmas ondas. Hipnotizada, contemplo seu reflexo distorcido; então, escuto um sussurro vindo da criatura:
— Me chamo Olívian d’Nehr — finalmente pude ouvi-la. Sua voz era doce e irresistível, como o licor das maçãs sangrentas.
O movimento circular se intensificou, deixando a água cada vez mais agitada. Aquele som fez meu corpo contorcer em espasmos libidinosos. Das minhas entranhas escapam gemidos, até que os movimentos cessam (mas as águas permaneceram inquietas, assim como meu âmago). Em seguida, fitou-me e sorriu, enquanto meu colo pulsava em descompasso. Das águas, ergueu os dedos e me chamou silenciosamente; assim o fiz, caminhei ao seu encontro, sem questionar.
Olívian estava de pé, parada. Seus cabelos bailavam com muita leveza ao som dos ventos. Então, fechou os olhos e despiu-se. Fui acometida por um estado febril intenso; abracei a volúpia com fervor. Neste momento, éramos como Adão e Eva na imensidão do Éden e estávamos prestes a morder o fruto proibido. Gostaria de ter pincéis, tintas e um quadro para eternizá-la; seria uma pintura digna de filas quilométricas, sua beleza era assustadora.
Me despi com uma certa rapidez. Vi seus olhos castanhos escuros brilharem diante do meu corpo nu. Finalmente, estou face a face. Sua respiração tranquila, porém quente, toca meu rosto. Ela tinha as mesmas expressões da pintura “Deusa Vênus” feita pelo talentoso pintor italiano, Sandro Botticelli.
— É um prazer inefável conhecê-la, Olívian — as palavras foram silenciadas pelo desejo. Meneou a cabeça cordialmente, seguido do sorriso enigmático. Ouço novamente mais um sussurro: — Acompanhe-me.
Caminhamos por algum tempo até que avistamos uma frondosa árvore a qual me era familiar. Reconheceria aqueles frutos até de olhos vendados. Daquela árvore vinham as afrodisíacas maçãs sangrentas. Olívian pegou uma das inúmeras maçãs, olhou ardentemente em meus olhos e mordeu com avidez, espalhando pelo ar gotículas. A espessa seiva também serpenteou por entre dedos, mãos, queixo, pescoço, passando por entre o colo, cessando em suas pernas.
Ela me oferece a maçã; mordo com vontade, sinto novamente aquele gosto sombrio, porém inesquecível. Deixo a maçã escapar de minhas mãos. Banhadas pela bruma e pelo tênue luar, nossos corpos ardentes se entrelaçam, tornando-se um só. Sob o úmido chão, me entrego ao oceano de prazeres e libertinagem inimagináveis.
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Balthazar Crown – O Chamado do Castelo
A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu — abandonada em um fim de agonia, sem consolo, sem salvação.
Balthazar repousou a pena. O silêncio que se seguiu era denso, como se o próprio ar lamentasse. Então veio a recompensa: um calor súbito percorreu suas veias, reacendendo-lhe a vitalidade; a pele pálida brilhou com frescor juvenil; os músculos se retesaram com a firmeza de quem jamais conheceu decadência.
E então vinha o deleite. Não simples vigor, mas um arrebatamento febril, comparável ao êxtase da carne. Cada fibra de seu corpo vibrava como se mãos invisíveis o percorressem. O calor que lhe incendiava o peito não era apenas vida — era gozo, puro e incontido.
A imortalidade lhe trouxera a dádiva de provar todos os sabores da carne e, ao mesmo tempo, o fardo de que nenhum sabor permanecia por muito tempo. Mulheres, homens, corpos cis e trans, ativa ou passivamente — a eternidade lhe dera palco para todas as formas de prazer.
E, ainda assim, o tédio era sua sombra inseparável. Até o êxtase, quando repetido, tornava-se um abismo de monotonia. Talvez fosse por isso que a dor de seus personagens o excitasse tanto: era a única novidade capaz de incendiar-lhe a alma já cansada.
Ergueu-se da cadeira, esguio, elegante, com o porte ereto de um príncipe amaldiçoado. Atravessou o aposento até uma mesa lateral, onde repousava uma taça de cristal. Serviu-se de vinho vermelho-escuro, tão denso que lembrava sangue coagulado.
Elevou a taça na penumbra e brindou com a ausência invisível. — Mais um, minha silenciosa companheira. Mais um que se extingue para que eu continue. Tu não me tomas, mas jamais me deixas. Brindemos, pois, à eternidade que me cobra sempre em sofrimento alheio.
O cristal soou no vazio, e nenhum eco respondeu.
Foi então que o ar se quebrou. Não em som, mas em essência. O vinho tremeu dentro da taça, as velas se curvaram todas em uníssono, e um frio atroz se ergueu das pedras do chão, escalando-lhe os ossos como serpentes geladas.
Balthazar não piscou. Observava. Notou que as chamas não vacilavam ao acaso, mas oscilavam num mesmo compasso. Notou que o frio vinha em pulsos, intervalados como batidas de coração. Notou, sobretudo, que não estava só.
Uma presença sutil, quase imperceptível, pairava no ar. Algo invisível o estudava, respirava junto às suas palavras, como se o chamasse para atravessar os limites do aposento. O ar pulsava, pesado, e o frio que subia pelos ossos parecia guiar seus passos para um destino além da realidade conhecida.
A sombra diante dele não possuía forma fixa. Oscilava, dobrava-se, esticava-se. Em certos instantes lembrava um véu flutuando; em outros, curvas insinuantes, bocas que suspiravam, rostos deformados — talvez ecos das vítimas que enterrara em suas narrativas. O aposento inteiro cheirava a livros úmidos e a perfume noturno, como se cada palavra escrita por suas mãos tivesse se dissolvido no ar para compor aquele espectro.
Um homem comum teria recuado, mas Balthazar sorriu. — Ah… então és tu quem me observa quando escrevo.
Os olhos treinados dele conseguiram captar um espectro. Era parecido com as manifestações espectrais de seus personagens, que surgiam diante de si após escrever seus finais trágicos e dolorosos. Mas tinha algo a mais. Uma atração quase irresistível. Era como se a pena que repousava em seu bolso o puxasse na direção dela, como se o próprio ar o acariciasse.
Um passo na direção da presença e o chão dissolveu-se. As paredes tombaram como cortinas rasgadas. E ele caiu — não em queda, mas em transição. Quando abriu os olhos, o mundo era outro.
À sua frente erguia-se uma fortaleza impossível, construída à beira de um penhasco sem fim. Suas torres góticas se retorciam em direção ao céu, mas o céu era um vazio sem estrelas, um firmamento oco que não conhecia sol nem lua. As muralhas respiravam em silêncio, como se cada pedra fosse parte de um corpo vivo.
E os jardins… Infinitos. Labirintos de flores negras e árvores que se curvavam em ângulos proibidos, multiplicando-se como reflexos em espelhos partidos. As estátuas, espalhadas em meio à vegetação, fitavam-no com olhos que se moviam quando não eram vistos. Algumas possuíam corpos nus entrelaçados, contorcidos em êxtase petrificado. Pétalas úmidas brilhavam como se estivessem molhadas de lágrimas — ou de suor.
Balthazar caminhou até a beira do abismo. O vento inexistente não lhe tocava o sobretudo, mas ainda assim ele se abriu, como asas prontas a alçar voo. Seus olhos azul-acinzentados refletiam o nada infinito.
Ergueu a taça de vinho que ainda segurava. O líquido permanecia intacto, como se tivesse atravessado os mundos com ele.
— Eis teu palco, morte. — Ele sorriu com cinismo. — Ainda não ousas tocar-me, mas ainda assim me segues. Que teatro sem tempo é este, que aguarda pela minha pena?
O silêncio respondeu, profundo, eterno.
Mas então, outra voz se ergueu — não vinda do vento, mas da própria essência do abismo. Era doce e terrível, como sinos fúnebres ao longe, e carregava um perfume que lembrava tanto o velório quanto o leito.
— Chamam-no de Castelo do Drácula. — A figura surgiu diante dele, moldada em beleza impossível. Seus cabelos eram véus de treva, sua pele, mármore iluminado por uma luz sem fonte, e seus olhos, dois poços nos quais todos os séculos afundavam. — Um lugar fora do tempo, fora do espaço. Se chegou até aqui, é porque já o aguardavam. Mas não cabe a mim lhe explicar mais.
Balthazar sorriu com ironia suave, erguendo a taça na direção dela.
— E por que não vens comigo? Foste minha única companheira verdadeira por todas essas décadas.
Os lábios da Morte se curvaram, entre riso e desdém.
— Seria deveras interessante, Balthazar. Mas não fui convidada. Você sim. O que começa aqui, no receptáculo que se alimenta das tuas palavras, é apenas o primeiro capítulo.
O vento inexistente silvou como gargalhada. A Morte sorriu pela última vez — gesto que era tanto consolo quanto sentença — e então se desfez no ar, como névoa tragada pelo próprio vazio. Nenhum passo, nenhum som: apenas deixou de estar, tão abrupta quanto surgira.
Balthazar, sozinho outra vez, voltou-se para os portões colossais do Castelo. O vinho ainda repousava intacto em sua taça, e seu reflexo nas paredes vivas parecia observá-lo com expectativa. Ele respirou fundo, bebeu o líquido em um gole só, e uma centelha de júbilo percorreu-lhe o olhar.
— Está certo, então. A eternidade já estava ficando entediante. Aqui inicio um novo capítulo na minha história.
E caminhou, sem pressa, como quem escreve as próprias páginas com o simples peso de seus passos, sem saber ainda todos os segredos que aguardavam por ele no coração do Castelo Drácula.
Hel J. L. Costa
Hel J. L. Costa é escritor, poeta e editor da Editora Helden. Sétimo filho, nascido em Ribeirão das Neves (MG), em 1985, encontrou na escrita uma vocação desde a adolescência. Dedica-se a obras de fantasia, terror e temas sobrenaturais. Participa de diversas antologias e é autor do romance A Donzela e o Vampiro, disponível na Amazon. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Encontros tórridos com Eco reinventada
Contornei as curvas do belo corpo. Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Por Alana Mortensen
Contornei as curvas do belo corpo.
Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o sexo e rosto pueril, os dentes alinhados, sem a brancura excessiva resultado de tratamentos estéticos. A textura e odor das flores era o que mais me aprazia — podia sentir o frescor agradável tocar minhas narinas. Os efeitos que a iluminação e perspectiva suscitavam em sua tez reforçavam o cenário onírico.
O balanço gentil do rio acalmava quaisquer perturbações. Técnica ou efeitos do Castelo na tela?
O líquido carmim, que aspergi em seu colo, realçava a beleza delicada, primal e arredia. O processo contínuo e minucioso acalmou as elucubrações daquele dia, mas garras de perturbação insistiam em se engalfinhar na obra. O êxtase era obtido sem pressa.
Éramos peças postas de forma estratégica no tabuleiro-tela.
Aquela figura suave parecia desfilar na tela, meus pincéis já sabiam acompanhar seus intentos. Desnudava-me de meus preconceitos, deslizando por entre caprichos de Eco. A forma corpórea perdia-se entre as névoas magentas; a superfície assemelhava-se a espelho d'água. Contemplava a mim?
“Venha, não tenha medo... medo... edoo... edoo”, a voz vacilante, afogada pelas águas que abarcavam suas pernas; o olhar fixado, como quem não esmorece diante de nada; a mão estendida, convidativa, exercendo influência sobre mim. Tal qual fora a minha chegada a este Castelo, fui persuadida a adentrar aquele mundo rubro-desbotado. As águas do meu interior fervilharam ao tocar a mão fria, mas macia.
Meu quarto transformou-se no cenário irretocável, irreal e plástico. Eco escancarou a porta, cujo olho-mágico era a tela. Hipnotizada, deixei-me conduzir por seus encantos, sem conseguir emitir som, pois voz não fazia parte daquele momento pictórico. Deslizamos sobre a relva úmida, recordando sensações há tempos adormecidas.
Já tiveste contato verdadeiramente íntimo com alguém, a ponto de não precisar estimular as terminações nervosas da flor que desabrocha na adolescência, mas mesmo assim, sentir-se em estado de êxtase? Conseguiria afirmar que isso é possível?
Decorreram-se horas ou dias, isso não tem importância, o tempo já me é alheio. Após esses primeiros contatos, físicos ou metafísicos, chegamos ao seu lugar de refúgio, um reservatório com águas calmas e rubras, vigiado por oito colunas, com seus capitéis dóricos suntuosos, dispostos como voyeurs das nossas tórridas aventuras. Minhas mãos percorriam ágeis, agora sem pincéis, as curvas de Eco. Sentia-me fadigada, mas não conseguia interromper o ciclo retroalimentado pelo deleite extraído e provocado.
Continuei nessa posição até sentir uma pressão no tornozelo, que logo transformou-se em agonia. Recobrei meus sentidos e percebi que Lisa cravara suas presas com afinco. Por que não gritara?
— Não era Eco, mas uma criatura maléfica. Chamei reiteradas vezes... Esta foi a forma de trazê-la de volta. Ela minaria suas forças até você ... — respondeu, hesitante, e adivinhando meus pensamentos.
Meu braço ainda exibia a marca do beijo-toque, feito ferro em brasa, que a tinta fresca imprimiu em mim. Eu não saíra daquele quarto e, agora sabia, algo maléfico viera ao meu encontro.
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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26. Diário da irmã da Ordem III
A voz sempre esteve lá, não como um grito, nem como uma ordem, mas como um sussurro paciente no fundo da minha cabeça, sugerindo e esperando…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 5 de outubro de 1374
A voz sempre esteve lá, não como um grito, nem como uma ordem, mas como um sussurro paciente no fundo da minha cabeça, sugerindo e esperando sua vontade ser feita. Quando eu era mais jovem, acreditava que todos ouviam algo assim, que todos sentiam um vazio que precisavam preencher de qualquer forma, mas percebi que o que para os outros não passava de um pensamento momentâneo, para mim era uma vontade constante que precisava ser saciada. Irmã Teodora percebeu, ela sempre percebe tudo com aqueles seus olhos argutos; desde que entrei para a Ordem, ela me observa, medindo cada ação minha. Minha última missão, um tanto chamativa, só confirmou o que ela já desconfiava, e quando chegou à conclusão, não demonstrou medo ou repulsa, apenas veio até mim e me falou das regras.
“As leis da Ordem são a lógica em sua forma mais pura”, ela disse calma. “Elas existem para orientar aqueles que precisam de orientação”. Então ela criou um código, diretrizes adaptadas dentro das leis da Ordem, limites que eu deveria respeitar para uma boa convivência dentro da abadia e fora dela. Não era por moralidade que ela fazia isso, mas por necessidade de me fazer escolher entre um impulso sem propósito e um propósito que serviria a algo muito maior. Se eu fizer a vontade da voz, seguindo as regras obviamente, a voz se acalma, não desaparece, ela sempre está lá, mas fica satisfeita. Sei que irmã Teodora confia em mim para segui-las, sei também que se eu quebrá-las, ela será a primeira a me punir e com razão. Ainda tenho dúvidas se é pelo propósito que continuo aqui ou se pela facilidade de matar sem ser punida; talvez seja por isso que ela continua a me observar.
Data: 15 de outubro de 1374
Hoje fui acompanhar os moribundos, tarefa da Ordem que acho tediosa. Irmã Teodora me levou até um quarto onde jazia a irmã Anatólia; seu corpo estava definhando e sua mente se agarrava à vida, ela não queria partir. “Não podemos impedir a morte, mas podemos torná-la suportável”, disse irmã Teodora. Sentei ao lado da irmã Anatólia e segurei sua mão; sua pele era fina ao toque e seu pulso estava fraco. “Ouça-a”, irmã Teodora ordenou e saiu do quarto, nos deixando a sós. Passei horas ali; ela me contou sobre missões antigas, arrependimentos, desejos que não se realizaram e então, finalmente, ela fechou os olhos e aceitou a morte. Saí do quarto e a irmã Teodora estava à minha espera. “A morte para alguns deve vir como uma amiga e não como uma vingadora e nós somos quem a apresenta”, ela disse. Ainda não entendi muito bem que lição ela está querendo que eu aprenda, mas já entendi que é uma punição.
Data: 29 de outubro de 1374
Nem toda morte é sagrada como a da irmã Anatólia; algumas são roubadas ou profanadas. Aprendi que há criaturas que desonram esse ciclo: os necromantes, ladrões de almas, parasitas do além e tantas outras criaturas que não aceitam o fim e tentam se agarrar à vida de maneiras profanas, e a tarefa da Ordem é destruí-los. Hoje enfrentei um profanado; havia nele um parasita do além que se recusava a sair, usava dele para se alimentar dos vivos. Eu aprendi a matar sem causar sofrimento, mas também aprendi a prolongar o sofrimento se fosse necessário. Então o torturei até que ele saísse do profanado e eu pudesse destruí-lo. Ele se foi, mas o que restou estava um trapo e não merecia piedade; o matei sem hesitar, algo nele implorava por descanso. Ou algo em mim implorava para que ele fosse morto.
Data: 3 de novembro de 1374
Hoje fomos levadas a uma casa onde havia um homem que estava agonizando há dias devido a uma maldição. Sua família havia nos implorado que fizéssemos algo. Irmã Teodora se ajoelhou ao lado dele e perguntou baixo: “Você quer ajuda para atravessar?” O homem, com os lábios secos e os olhos assustados, confirmou com a cabeça. Seu peito subia e descia em pequenos espasmos. Ele tinha medo, e isso ainda o segurava à vida. Irmã Teodora olhou para mim para que eu tomasse seu lugar, então me ajoelhei ao lado dele e repeti as palavras que aprendi: “A morte não é sua inimiga, ela vem para levá-lo ao descanso.” Irmã Teodora olhou para mim. “Faça o que é necessário.” Então dei a ela a bebida que o livrou da dor da maldição e também do fardo da vida e com isso o medo se foi.
Data: 11 de novembro de 1374
Fui enviada para capturar um homem que vendia sangue de vampiro para feiticeiros. Um traidor do ciclo natural. Ele fugiu para as florestas, mas a Ordem é paciente e eu sou paciente. Passamos três noites esperando, observando cada movimento. E quando ele sentiu que estava seguro, cheguei silenciosa enquanto dormia. “Eu sei quem você é”, ele sussurrou, acordando antes que eu o tocasse. “Vocês não são salvadoras, são carrascos.” A lâmina atravessou sua clavícula antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Eu deveria levá-lo vivo, mas naquela noite a voz precisava ser saciada. Seu corpo não merecia ritos; deixei o fogo levar o que restava dele enquanto eu observava. A Ordem nos ensina que os indignos não devem deixar rastros e eu o considerava indigno.
Data: 13 de novembro de 1374
Os vivos e os mortos correm de nós, isso é um fato. Fui enviada para outra missão: convencer um espírito que ele deveria ir. Uma criança morta há algumas semanas em um incêndio, que ainda brincava em um quarto que não existia mais. Irmã Teodora pediu para que eu lidasse com isso, mesmo que ela não dissesse nada, eu entendia aquela missão como uma punição. Me sentei ao lado da criança naquela casa invisível e por horas brinquei com ela até que perdesse o medo de mim. “Você não precisa ficar aqui”, sussurrei para ela. Ela me olhou com aqueles olhos negros e vazios. “Eu não posso ir, tenho que esperar mamãe”, disse ela. “Sua mãe está te esperando no lugar para onde você deve ir”, eu disse. Ela chorou: “Mamãe está morta?” perguntou. Confirmei com a cabeça sem ter certeza se isso era uma verdade. Então ela sumiu. A Ordem nos ensina que devemos libertar as almas, mas nunca nos dizem ao certo para onde elas vão.
Data: 19 de novembro de 1374
A Ordem julga em silêncio, mata em silêncio, mas às vezes também mata diante de todos. Hoje uma mulher que usava cadáveres para rituais proibidos foi trazida diante de nós e depois foi levada a uma praça pública a quilômetros da abadia, para que fosse um exemplo. Estava amarrada, sangrando e sem arrependimentos nos olhos. A praça estava cheia e muitos olhos curiosos observavam. “Ela perturbou o ciclo, ela roubou os mortos de seu descanso”, disse irmã Teodora. “Seu castigo será dado por aquela que está pronta para servir a Ordem.” Então ela olhou para Isolda e os olhares das outras irmãs foram em sua direção. A morte dessa mulher seria a aceitação final de Isolda, uma aceitação que talvez eu nunca chegasse a conseguir. Isolda parou diante da mulher e ela sorriu de modo desafiador. “Eu só roubei corpos, vocês roubam almas”, ela gritou. A lâmina de Isolda atravessou sua garganta, o sangue escorreu e a multidão ficou em silêncio. Isolda foi aceita, mas em que exatamente ela se tornou?
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
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24. A tua fé te salvou
Data incerta – Saímos da caverna em silêncio, como alguém que abandona um templo. Siehiffar nos acompanhou até a saída, onde a floresta retornava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data incerta – Saímos da caverna em silêncio, como alguém que abandona um templo. Siehiffar nos acompanhou até a saída, onde a floresta retornava. Ela me olhou com carinho e me abraçou. Senti uma pontada de pesar nos olhos dela, mas foi à Mara que ela entregou algo: um manto escuro e grosso. Um manto para protegê-la ou ocultá-la? Eu não sabia dizer. Ela apenas o vestiu, e imagino eu que só aceitou o presente por ser algo que o destino lhe dava.
— O lugar para onde vocês vão não é bom chamar a atenção de muitos olhos — ela disse, puxando o capuz sobre o rosto translúcido de Mara. — Mas quem caminha pela fé em algo, ainda que rachada, é visto mesmo no escuro.
Então partimos e caminhamos por muito tempo. Perdi a noção de quantas horas, pois o tempo se arrastava como um animal ferido. As árvores foram se tornando mais tortas, mais silenciosas, e a vegetação, rasteira. O céu, com nuvens paradas, opacas, cinzentas — nem uma cor vibrante podia ser vista.
E então chegamos a um lugar que não era Séttimor e também não era um vilarejo como os outros. Era uma extensão de alguma civilização que não deveria existir ali, mas existia. Havia casas em ruínas, outras eretas e bem conservadas, outras com janelas fechadas com tábuas e portas entreabertas. Havia névoa, muita névoa, espessa e úmida, e eu sentia um cheiro de cabra, sangue seco e metal oxidado.
Logo à frente vimos uma mulher de manto negro, com um capuz que cobria quase todo o seu rosto, exceto o queixo e os lábios. Carregava um cajado que parecia de carvalho. Atrás dela, tinha um pequeno rebanho de cabras negras, que nos observavam curiosas e em silêncio.
— Vocês não são daqui — disse ela sem emoção quando nos aproximamos, confirmando o óbvio.
— Estamos procurando o caminho para o castelo — falei. Mara manteve o rosto abaixado e coberto.
— O castelo está em todos os lugares e também não está em lugar nenhum. Vocês sabem disso, mas estão fingindo que não sabem, não é?
Eu sentia que ela não iria nos ajudar, mas precisava saber mais sobre o lugar em que estávamos.
— Que lugar é esse em que estamos? — perguntei.
— É o que resta de uma fé esquecida, daqueles que um dia buscavam a luz e encontraram a escuridão, a mesma escuridão que vocês encontraram.
— Só precisamos que nos mostre a direção e sairemos do seu caminho — disse Mara, impaciente.
A mulher não respondeu. As cabras começaram a berrar, como se estivessem chamando a atenção para algo, e então uma delas se aproximou de nós, e os olhos dela eram quase humanos.
— Continuem pela trilha — ela disse, e por um momento achei que era a cabra que falava. — Mas não toquem nas portas, nem respondam aos sussurros, a menos que gostem de distração.
— E você, quem é? — perguntei.
— E isso importa? Não é a mim que procuram — ela disse, e depois nos virou as costas e caminhou para longe, sendo acompanhada pelo seu rebanho.
Seguimos pela trilha, ouvindo o som dos nossos passos. Atrás de nós, o berrar das cabras, um céu escuro e opaco, e, muito ao longe, uma música, como se alguém tocasse para a nossa chegada. A trilha era estreita, coberta de folhas e galhos. Cada passo fazia o solo ranger, e me veio, não sei de onde, o pensamento de que estávamos pisando em ossos velhos, e aquele ar úmido tinha um forte gosto ferroso.
À medida que avançávamos, mais casas iam aparecendo. Mara caminhava em silêncio, o manto escondendo seu rosto, mas as pessoas que nos observavam em suas casas pareciam perceber a sua diferença.
Vimos uma mulher acompanhada de uma criança. Estavam paradas perto de uma cerca derrubada. A mulher vestia um vestido marfim encardido e os cabelos muito claros presos em um coque. Nos braços, uma menina de olhos bem abertos e perdidos no nada chupava o dedo sujo de terra.
— Boa tarde — eu disse sem ter certeza se realmente era tarde.
A mulher não respondeu de imediato, ajeitou a menina no colo e me olhou com aqueles olhos fundos, que não eram tristes, mas pareciam olhos que não descansavam fazia dias. Olhos que viram mais do que deveriam. Não sabia dizer se eram olhos alertas ou assustados.
— Onde estamos? — perguntei.
— Vocês estão onde sempre estiveram — ela respondeu com voz baixa e apática. — Nos domínios do castelo Drácula. Tudo isso é parte do castelo: a estrada, a névoa, as casas, cada pedra, árvore e cada animal. O castelo não é só feito de pedras e torres, sabia?
— Mas o castelo mesmo, onde está? — Mara falou, mostrando o quanto estava impaciente.
— Continuem, sigam a trilha que inevitavelmente vocês chegarão lá.
A menina no colo da mulher parou de chupar o dedo e olhou direto para nós, e seus olhos agora eram vermelhos.
— Ele está com saudades de vocês — ela disse com uma voz que não parecia de uma criança pequena.
Senti um frio no estômago. Mara deu um passo à frente, pegando no meu braço.
— Vamos — disse ela, firme.
A mulher e a criança apenas sorriram, nos seguindo com os olhos até sairmos na névoa.
— Vocês estão mais perto dele do que pensam — ela disse, ainda sorrindo.
A trilha começava a subir, se tornando mais íngreme, e a floresta ao nosso redor parecia se calar, como se estivesse segurando a respiração. Havia algumas árvores mortas, mas nenhuma delas estava caída. Seus galhos ainda pareciam avançar em direção àquele céu opaco. O solo tinha um cheiro de umidade antiga e, em alguns momentos, eu podia jurar que tinha visto silhuetas correndo entre as árvores. Formas humanas demais para serem confundidas com animais, distantes demais para se ter uma certeza do que eram.
O céu permaneceu o mesmo por quilômetros: cinzento, opaco e cheio de neblina. Depois de horas — ou talvez dias, não havia como eu saber com exatidão — a trilha se abriu e a névoa cedeu um pouco quando chegamos a uma pequena elevação. E de lá vimos outro vilarejo. Casas coladas umas às outras, com telhados cobertos de líquen. Cada rua como uma veia estreita que conduzia a mais casas. Havia roupas estendidas, crianças correndo de um lado a outro, vasos de flores — alguns secos — e incensos, muito incenso.
Mara puxou mais um pouco o capuz, pois sua aparência a traía.
— Não é possível que isso também seja parte do castelo — eu disse, mais para mim mesma do que para ela.
Mas ela assentiu, levantando a cabeça para olhar o topo de uma casa. Continuamos andando em silêncio. O vilarejo não estava abandonado, havia pessoas lá vivendo suas vidas, indo e vindo sem se dar conta de nossa presença. Outros poucos paravam e nos olhavam com estranheza, mas logo continuavam seu caminho.
E então o sino tocou. Um som oco e lento por três vezes, e, após o terceiro badalar, mais portas começaram a abrir e mais pessoas saíram de suas casas, enchendo as ruas. Mara segurou minha mão e, pela primeira vez desde que essa nossa aventura começou, eu senti que ela tremia. E, por algum motivo, eu achava que isso tinha algo a ver com o sonho que ela teve na caverna, ao qual ela não me revelou.
O centro do vilarejo tinha uma grande construção circular de pedra escura. Esculpido em cima do portal estavam as palavras em latim “Dominatio per Consanguinitatem” — domínio por consanguinidade ou coisa parecida. A porta estava aberta e de lá saía um cheiro doce de sangue. Todas as pessoas iam em direção àquela construção.
Uma mulher, um pouco mais jovem do que a maioria ali, se aproximou de nós. Usava um véu de um vermelho carmesim e um livro de couro preso à cintura. Seus olhos pareciam acolhedores, mas seus movimentos eram ensaiados demais.
— O senhor está acordado esta noite, e ele quer se divertir — ela disse.
— Qual senhor? — perguntei.
Ela não respondeu, apenas indicou a entrada com a cabeça.
— Se chegaram até aqui foi porque ele quis. Então entrem e participem da diversão, antes de continuarem seu caminho.
Quando me dei conta, já estávamos entrando junto com a multidão que esperava na entrada. Uma mulher de voz rouca, vestindo um vestido feito de panos e véus costurados um ao outro, nos recebeu com uma leve reverência.
— Entrem, entrem, a peça está prestes a começar — disse ela. — Tomem seus lugares.
Não perguntei do que se tratava a peça. A verdade é que havia algo em mim que já desconfiava que não seria algo que eu teria escolha em assistir ou não, então não adiantaria nada perguntar.
O interior era uma mistura de teatro e catedral, com bancos dispostos em semicírculo e grandes vitrais escuros de vidro vermelho e âmbar, e um palco ornamentado com bordas entalhadas em dourado, alto e fundo. Ao fundo, um órgão podia ser ouvido, bem sutil.
Um homem encapuzado se aproximou de nós. Em suas mãos tinha um objeto que logo reconheci como sendo um caleidoscópio — um tubo antigo de prata desgastada, com inscrições em volta que pareciam algo como o hebraico ou uma língua desconhecida. Ele estendeu o artefato e perguntou:
— Querem olhar? Observem, antes da peça, assim reconhecerão o ato — ele falou, oferecendo o objeto a mim, pois Mara se recusou a pegá-lo. Como ela não se opôs a que eu pegasse, aceitei o artefato.
Peguei o objeto, aproximei os olhos e a primeira imagem estava confusa — cores girando, vidros coloridos estilhaçados e formas abstratas — mas logo as imagens se organizaram e então eu vi. Ou melhor, eu me vi, ali no palco: eu chegando ao castelo, eu hesitando, dançando no baile de máscaras, chorando por Hadassa, conversando com Ameritt e Monm, falando com Mara, abrindo um diário, gritando para espelhos, segurando um cálice, me afogando e correndo e, então, eu observava a mim mesma com o caleidoscópio nos olhos.
Quase deixei o caleidoscópio cair, mas o homem o pegou, como se já esperasse a minha fraqueza depois de ver tudo aquilo.
— Tudo que foi visto, será encenado. É a lei do palco, é a única lei que aqui dentro obedecemos. — Ela falou isso e andou em direção ao palco.
Fomos conduzidas aos bancos de frente ao palco. A plateia cochichava, esperando o espetáculo começar. Todos pareciam ansiosos.
Uma voz feminina, grossa e alta, veio do palco, como se estivesse vindo do teto:
“Nesta peça, as visitantes reencontrarão a perda. Nesta peça, a alma se tornará carne. Nesta peça, nenhuma palavra será mentira.”
As cortinas pesadas, as luzes mortiças presas nas alturas, o som do órgão que produzia uma música densa, lenta e lacrimosa, a plateia com seus rostos apreensivos, ansiosos pelo que iria ser representado no palco.
Acho que toda a perda de memória começou com o caleidoscópio — aquele objeto simples que, quando toquei, arrancou sutilmente minhas lembranças sem que eu nem percebesse. Esqueci meu nome, minha história, minha dor. Me esqueci de tudo, e nada me fez falta.
A peça começou. No palco, uma mulher surgiu. Caminhava rápido demais, falava de menos, fazia escolhas bastante equivocadas, olhava com desconfiança para tudo e todos e carregava uma tristeza profunda e um ceticismo extremo nos olhos cansados.
Eu não sabia quem era ela, mas odiei cada escolha que ela fazia — ou deixava de fazer. Então, a cada ato, minhas memórias iam voltando, e percebi que ela era eu. Minha vida estava sendo encenada de trás para frente. E eu, sentada na poltrona, só conseguia criticar tudo.
Por que essa mulher — eu, no caso — se deixava ser engolida por aquilo tudo? Por que negava tudo? Por que se prendia tanto à lógica e à razão, se o mundo que agora a cercava era feito de delírios, criaturas inomináveis, fé e horror?
“Burra”, pensei — e logo calei esse pensamento, pois senti a dor do julgamento se voltando contra mim.
O teatro continuou a voltar mais e mais, até antes de Mara se tornar a criatura translúcida. Ali, naquele ponto da peça, algo mudou. A personagem — a outra eu — não encenava mais minhas lembranças. Ela impediu Mara de tocar o livro. A impediu de continuar o ritual, e, com isso, Mara não se desfez. Ela não se tornou aquela criatura translúcida. Na peça, ela permaneceu humana.
E a peça terminou.
A plateia aplaudiu, e uma figura em particular se levantou: Drácula, terrível e majestoso. Ele subiu ao palco, agradecendo os aplausos com uma sutil reverência. Ele me olhou — não a personagem, mas a eu sentada ali, presenciando aquele final de peça que não fazia sentido. Então voltou seus olhos a Mara e a chamou para o palco. E ela foi sem hesitar, ficando de frente a ele, que tirou o manto que ela usava, mostrando a pele translúcida que parecia feita com luz da lua.
E então eu senti como se tivesse sido arrancada de mim. Um ar espesso começou a sair da boca de Drácula e envolveu Mara, que estava diante dele, desaparecendo lentamente. Sua pele se tornou tão translúcida como vidro que eu podia ver Drácula através dela — ver as luzes e o próprio palco. Ela estava se desfazendo diante dos meus olhos e eu não podia fazer nada, pois estava presa à poltrona. Eu só podia vê-la sumir diante dos meus olhos.
Aquele ar espesso que saía da boca dele parecia aquecer aos poucos e começou a tomar forma. Os ossos de Mara — primeiro a espinha, depois as costelas, as pernas e braços — eram como algo se montando pedaço por pedaço.
Ele se aproximou mais dela. Seus lábios, antes distantes, agora tocavam o crânio recém-formado dela, e seus dedos afundavam na carne que começava a se formar. Mara gritava de dor, um grito abafado pelos lábios de Drácula — um som tão angustiante que parecia que sua alma estava sendo costurada à carne, e acredito que era isso que estava acontecendo. Veias, nervos, músculos, órgãos — eu via tudo: sangue fluindo, músculos formando e carne.
Os dedos de Drácula, ainda cravados no crânio dela, agora envoltos em carne e cabelo, formavam um contraste tão íntimo e brutal que não consegui conter o horror que se apossou de mim.
Ele então a deitou no chão, ajoelhou ao lado dela — que o olhava apavorada — e sussurrou algo no seu ouvido que eu não pude escutar, mas que a fez estremecer. Ele então olhou para mim, como se estivesse verificando se eu estava olhando, e depois voltou o olhar a Mara com um sorriso terrível e disse:
— Vá, minha filha, a tua fé te salvou. — Deu um beijo na testa de Mara e se levantou.
Depois desceu do palco e sumiu na multidão antes que eu pudesse ir atrás dele.
A plateia agora aplaudia de pé, pessoas emocionadas com o que tinha acontecido naquele palco. Mara permaneceu no chão por um tempo. Respirava. Estava viva, em carne e osso. Mas ainda assim, algo me dizia que não era só ela ali.
Depois que consegui me levantar, fui até ela. A abracei, sem saber ao certo o motivo de ter feito isso. A cobri com o manto novamente e saímos dali, acompanhadas pelos aplausos da plateia — que, ainda emocionada, continuava a aplaudir. Mas, por mais que nós não estivéssemos mais no palco, eu ainda me sentia dentro da peça.
Revisão por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Capítulo 14 (Final): Reconhecimento — Rubi Áurea
Ser soterrada por minha desumanidade fez emergir no meu peito um vazio inominável que despertou algo que outrora nunca houvera..
Ser soterrada por minha desumanidade fez emergir no meu peito um vazio inominável que despertou algo que outrora nunca houvera. Eu sentia a mudança, ela vinha como ondas à beira da praia, como um sussurro dos ventos pacíficos, como o fim da primavera. Eu sentia que me encontrava, reconhecendo a mim mesma dentro da imersão daquele Castelo misterioso que sempre me guiava para onde eu precisava ir, direcionando meus passos sem que eu soubesse a razão. Um alcácer, talvez, ilusório. Embora extremamente inestimável para mim.
No âmago daquele momento, caminhando pelos corredores — eu a ouvi. Sua voz era a minha voz, como fora n’outras vezes. “Eu te mostrarei”, ela disse, “Eu te mostrarei a verdade”. Não era o Deus Maior, Lúcifer ou o próprio Castelo; era eu e ela, compartilhando de um amálgama insondável — na imersão do que éramos, sem um conhecimento racional, mas instintivo. Sem a presença d’outrem, apenas nós; não havia Seth e muito menos os resquícios de um vínculo com o Oráculo — igualmente, o elo há pouco descoberto, vinculando-me ao inferno, parecia translúcido. Por instantes, nada existia, metamorfoseamos a realidade, porventura, em um invólucro da nossa própria consciência.
Então, avistei aquela porta. Tinha um tom de ouro envelhecido. Ornamentada e ornada com volutas, espirais e, principalmente, fragmentos cintilantes — como se feixes minúsculos de luz a atravessassem. N’estes limiares soldorados, uma poeira em pontos de lume pairava, entretanto, tamanha a sutileza que apenas olhos profundamente atentos poderiam enxergar. Tornavam quase tangível o ar e despertavam a nossa vontade de adentrá-la. “É aqui”, eu ouvi no eco do meu interior. Toquei seu ornato esférico, gelificado pelo tempo, volteei-o com a lentidão da infinitude. Eu poderia esperar que, em seu interior, estivesse eu, ainda menina e, diante de tal cena, uma escolha me adviesse: voltar para o passado, emergindo n’uma linha do tempo diferente em um multiverso misterioso, fingir que sou humana outra vez ou seguir com o futuro que se redige a cada novo attossegundo; ou, continuar daqui... inumana.
Eu não entendia a razão pela qual a desumanidade me feria; decerto que tal sentimento estava intrinsecamente ligado ao que eu era no passado, entretanto, parecia doer mais do que devia e diante disso, eu não sabia como agir e sequer conseguia identificar o que sentia. Sob a minha voz no cerne de mim e diante daquela porta que, mais uma vez, na medula daquele lugar sombrio, se apresentava como a verdade e a revelação, eu não tinha certezas ou esperanças, mas segurava firme em um hialino medo porque eu sabia, em certo nível de consciência, que algo mudaria de forma mais substancial do que outrora mudou. Ela estava cada vez mais perto... a mudança...
Adentrei o cômodo e o imenso umbral, pesado como não fora para abri-lo, fechou-se logo atrás de mim, quando meus pés avançaram para o centro do aposento. Era um lugar despedaçado — tal como eu. Uma vidraça arcada no alto estava quebrada e, por ela, uma névoa marfim advinha. Era a única fonte de luz, talvez vinda do sol ou de sua efígie. Por todo o ambiente, dezenas de molduras estavam destruídas nas ruínas dos espelhos que emolduraram n’algum remoto outrora. Os cacos reflexivos variavam em tamanho e forma, mas todos estavam empoeirados — o que me contava, mesmo em silêncio, uma história bastante antiga. Os reflexos da luz criavam um espectro de raios luminosos que atingiam todo o ambiente, como um caleidoscópio. O local não era grande, embora fosse alto. Onde a luz tocava, no centro do cômodo, sentei-me ao chão. Podia ver dezenas dos espelhos e tocá-los, se assim desejasse — e eu desejava. Eu sentia vontade profunda de ver minha própria imagem outra vez.
Passei, com calma e delicadeza, minha mão sobre o primeiro e mais próximo espelho quebrado. A poeira dispersou-se e o feixe de luz espargiu. O que vi fora minha face, meu olho direito era dourado, meu olho esquerdo era rubro. Meus cabelos negros e lisos, sutilmente movimentavam-se em razão de uma brisa quase indetectável. E a nutrúrnia em meu peito... cujas pétalas estavam igualmente em sutil cinesia, deveria transmitir sua escuridão abíssica, entretanto, eu a podia controlar agora — eu almejava, naquele instante, o círio do firmamento quimérico, a cintilância do caleidoscópio, e não o poço da matéria escura. Ainda sob este indelével desejo, segurei um fragmento menor e solto, de outro espelho, levando-o para mais perto de minha face. Limpei-o igualmente, a poeira reluziu pelo ar, rarefeita. Então fitei a imensidão de minha pupila, negra e profunda — eu fitei a escuridão de qualquer forma.
Eu sabia a razão pela qual fazia aquilo — e o saber era intuitivo. Eu conhecia meu poder — e o conhecimento era axiomático. Assim eu vi o meu passado e decidi não ver o meu futuro. Pois era isso que me fazia mais do que uma Illitan: ser capaz de controlar o que vejo e escolher o que quero. Mesmo depois de tanto tempo, tenho árdua dificuldade em descrever o que sentia, pois tudo era constituído de uma profunda verdade que nem mesmo os deuses ousariam sentir sobre si mesmos. A criatura em meu cerne, e toda a sua mítica existência, era capaz de me guiar tal como a lua faz com a maré do mais índigo e violento oceano. Eram as memórias, adormecidas, minhas e dela, envoltas em um véu de sono imersivo e, junto delas, uma infinidade de sentimentos e emoções. “Se eu não sou humana, o que eu verdadeiramente sou?” — murmurei, caminhando sem caminhar, pela escuridão e a luz das lembranças.
E a primeira delas foi da criatura Corphidrae, criada por Soron Vonssihren há muitos e muitos anos. No fulcro da pupila dilatada, eu vi o continente Sihren. E vi o ancestral nascer da Corphidrae — ou de seu primeiro antepassado. Sihren estava imersa por destruição mascarada em heras e musgos; uma densa flora, significativa e abundante, crescia sob o azúleo céu. As mãos do Soberano Soron, com a essência de Sirehnersí e verbo mahesihsta, vibrando a realidade por detrás da interface — eu vi. Surgira a criatura mítica e dela vieram outras e todas com o poder da vidência, entretanto, como animais míticos, não tinham fala e razão; nascidos para proteger a flora e fauna do continente perfeito, acelerando o florestamento sobre os escombros de concreto ainda visíveis. Sirehnersí lhes deu poder, para além das mãos mahesihstas de Soron, pois que Sirehnersí vem do Ente Primevo, o alvor: o Verbo.
Era lindo... e fascinante. Compreendi a história de todas as coisas desde muito antes de ter meu corpo produzido nas câmaras indheren. Vi-me criança, adolescente, jovem adulta e vi meus pés descalços sobre a neve da altíssima e obscura floresta de Amorttam, perdida na escuridão de suas entranhas, em busca de clareiras onde reluzia a lua túrgida de Selenoor, vestida em rubro tecido e, finalmente, protegida pelo lume da azulescida Phehr — a lua detrás da tão mais longeva lua Senlen. Eu vi tudo e vi Lorrt, encontrando-me e guiando-me de volta ao lar dos H. Sttrattan, aos pés da Mansão Negra. E vi seus cabelos grisalhos e seu rosto viril. E ouvi suas palavras: “Um raro rubi perdido em Amorttam!” e vi meu sorriso de medo pela imensidão arbórea e, ao mesmo tempo, aliviada por encontrar o que pensei ser um humano. Na lembrança intensa, fechei meus olhos sem que pudesse perceber — adentrei uma vastidão ainda mais escura onde todos os fragmentos de espelhos flutuavam ao meu redor. Eu sabia que eu estava em minha consciência.
Um fulgor esquálido vinha de cima, iluminando-me e refletindo nos fragmentos. A poeira pairava nívea e eu fitava lugar nenhum, com as íris perdidas no pélago da memória. O som de um triste piano me alcançou e um rosto então embaçado a princípio tornou-se vívido como um sonho e eu me observava ao seu lado, ainda tão jovem. O homem era mais velho, eu vi o contorno de seu rosto, eu vi seus olhos âmbar.
“Tu és especial pelo dom do amor” — ouvi, era a voz de meu pai Lars. “Impressiona-me tudo o que construíste aqui...” — ele falava do jardim. E ali, eu estava mostrando para ele as flores que já floresciam e as árvores que já cresciam. “Eu tenho algo que guardei para presentear-te quando fosse o momento e, acredito, este é o momento.” Do seu bolso, retirou um colar de ouro, com um pingente feito de vidro protegendo o que me parecia uma pétala opalina. “Adenium Opalinia, uma flor muito rara encontrada somente em Morttam profunda. A pétala é apenas uma réplica, entretanto, representa a raridade do teu ser e do teu dom com as plantas” — explicara, e eu desejei saber onde estava aquele colar.
Pouco depois, entre dezenas de memórias singelas, eu a vi: seu olhar brilhava, seus cabelos volumosos. Ela vinha em minha direção, com bastante empolgação.
“As luas conduzirão o vosso encontro, querida; Phehr e Selen sabem a razão.” — dissera Valeriere, minha avó. E eu cuidava do jardim nas manhãs e meus irmãos mais novos corriam entre os arbustos.
“O que queres dizer, vovó?” — perguntei, ainda confusa.
“Há algo destinado a ti, querida. Algo grande. As cartas disseram, eu as tirei hoje para ti.” — o Tarot não era bem-visto em Sihren, mas Valeriere tinha algum tipo de vínculo com o inenarrável espiritual. Eu a admirava por isso.
“Espero que não seja doloroso” — disse-lhe, de forma descontraída.
“Será” — olhei para seu rosto, senti a seriedade em sua voz. “Grandes feitos precisam de grandes sacrifícios.”
“Já está predestinado?” — perguntei, inquieta.
“Sim, pois, tu já escolheste o caminho antes mesmo de encontrá-lo.”
Rarefeita na luz e na escuridão, esta lembrança deu lugar a outra e a outra e sucessivamente, cada uma delas tocavam minh’alma com a verdade absoluta de minhas vivências. E quando eu revi a mulher da minha vida, eu lacrimejei de emoção.
“Este homem parece-me... como devo dizer... eu não sei, Áurea querida... a presença dele é... amedrontadora” — disse Dehian, minha mãe. Sua voz era veludo, sua proteção recaiu sobre mim como se eu estivesse ao seu lado, de verdade.
“Ele tem um bom coração, mamãe” — proferi, apaixonada. “Mas não te esconderei a verdade, ele foi criado para o mais terrível... e está aqui porque decidiu não seguir a lei de seu criador. Em razão de sua rebeldia, tem sido perseguido, jurado de morte por aquele que lhe deu a vida” — expliquei. Mamãe parecia preocupada.
“Se o encontrarem, o que acontecerá contigo?” — sua indagação me levou à janela, olhando para o jardim, pensativa.
“Eu não sei, mas eu lutarei por ele... por nosso amor... se preciso...” — Mamãe veio a mim, abraçando-me.
“Tenho medo de te perder, minha filha” — confessou. Toquei seu rosto, carinhosamente.
“Eu sempre estarei no jardim” — afirmei.
A compreensão me atravessara... do amor, da dedicação e o dom; uma história vivida e contada por mim mesma, na imensidão da menina dos meus olhos. Não era fácil lembrar, pois meu coração apertava-se e lacrimava dolorido; eu previ a mudança e o seu achegar silencioso através do indescritível. E elas vinham, as memórias, como sopros de tempo, como um livro aberto.
“Esta é Celehstera, a Corphidrae que usaremos no ritual” — disse Lorrt. Eu olhei os olhos dourados da criatura, perfeita e majestosa.
“É linda...” — admirei-a como nunca admirei nenhum outro animal.
“Escolhi este nome, pois, dei-lhe o significado de uma criatura fascinante” — explicara.
“Ela vai se sacrificar?” — senti-me entristecida ao questionar.
“Ela aceitou isso, em nome dos Illitan e de nossa sobrevivência; carregamos, afinal, a sua essência.” — Voltei-me a Lorrt ao ouvi-lo e, depois, novamente aos olhos da Corphidrae. Então, ela apareceu para mim, Celehstera, entre os fragmentos e a poeira. Exatamente como eu a vi naquele primeiro dia, ao lado de Lorrt.
— Tu sabias, por isso aceitaste estar no ritual... teu poder, tão imensurável, facilmente poderia te levar à fuga naquele momento. — Proferi, sem palavras.
— Sim, Áurea. Eu vi a minha morte e minha dor; eu vi a minha ressurreição em teu corpo. Era preciso acontecer.
— Tu és racional?
— Eu sou o que tu és agora, somos um único ser. Não há mais distinção entre nós.
— Então... existe destino? Como indaguei à vovó, não é sobre escolhas?
— O destino é um emaranhado, nós somos capazes de enxergar a linha mais provável do futuro, em razão de sua proximidade com a historicidade do ser qual estamos prevendo. Valeriere viu a linha mais próxima, já escolhida por ti, pois, para alguns, a alma atemporal é mais consciente do que o corpo sob o comando do tempo n’esta interface de vida.
— Se somos uma, eu é que me digo esta verdade? E a verdade de toda a Sihren? Como posso saber de tudo?
— Sim, este é o processo de racionalização tua para com a minha memória. Tudo o que vivi e tudo o que sei, agora também é teu, e a tua razão torna tangível à consciência, como se eu estivesse aqui, dizendo-te cada palavra. Tu sabes disso porque eu sei e porque tua alma sabe, ainda que tu, n’esta interface, não saiba.
— O que é a Interface? O que há de ti em mim?
— Em teu cerne eu sou uma centelha. A tua centelha metamorfoseada. A interface é o tangível, é Sihren, é o Castelo Drácula. Apenas uma miragem cobrindo o código da vida.
— Tu esteves sempre aqui... eu estive... e os enigmas? E Seth?
— Tu estiveste sempre aqui, Áurea, protegendo-se de si, escrevendo a ti mesma, afastando a possessão de Seth. Tudo o que fiz foi feito por ti, pois eu sou o que tu és, não há mais distinção.
— Compreendo... — dissemos, em uníssono. — Não existe mais eu ou tu, somos nós como se assim fôssemos desde sempre. — proferi e repetimos a frase no átimo em que retornei à sala dos espelhos.
Demorei por um tempo incalculável para reconhecer o que há tão pouco tempo me era completamente obscuro. Demorei-me no silêncio, entre os feixes de lumes refletidos, o caleidoscópio de mim mesma. Prolonguei-me n’esta estranha inércia entre saber e assimilar.
Celehstera, nome dado por Lorrt para a Corphidrae, estivera protegendo-me da possessão de Seth, por isso ele sumia e se personificava. Expulso de mim. Ela destruiu todas as maldições de Lahgura. Ela me guiou quando estive em Séttimor e, previu as más intenções do Oráculo e o surgimento de Monm, para me salvar. Com os sigilos pherhesistas e o Olho do Oráculo, intensificou o seu poder para que fosse capaz de me conduzir à verdade completa de todas as coisas, pois a minha resistência em proteger a minha humanidade a estava impedindo. Ela, que fez tudo por mim, ela sou eu.
Eu estava me guiando, me protegendo e, sobretudo, me tornando mais poderosa e forte para enfrentar quaisquer horrores e, em especial, o horror do meu próprio medo. Encontrar Lúcifer, fincar a nutrúrnia, tudo foi estritamente pensado para minha assimilação do fim da minha humanidade. A ideia de ainda ser humana era tão profunda e intensa que, muito antes do meu despertar, essa singela ideia já havia criado a maciça barreira do esquecimento.
Eu me sentia... diferente.
Abri os umbrais pesados daquele cômodo e, a partir daquele momento, eu sabia, tudo aconteceria de outra maneira. Mas uma coisa eu tinha certeza, dentre tantas e confusas decisões que eu poderia tomar naquele átimo, a principal delas era, pois, a mais estável: retornar a Sihren... mas, seria possível? Rever os que amo e abraçá-los, após tanto tempo... se assim acontecesse, eu voltaria no tempo? E se o Castelo era apenas uma interface da interface, como sair deste núcleo se mal sei como cheguei aqui? As dúvidas atravessavam minha mente e doíam. Foi então que ele veio à minha mente... Lorrt. Se eu pudesse reencontrá-lo em Somníria... olhar de novo em seu semblante... dizer-lhe que me lembro de tudo... pois, fora daqui, eu sei, não o encontrarei mais. Lorrt estava morto, eu tinha ciência d’esta mórbida verdade e saber disso, naquele instante, me doía tanto... Deixar o Castelo significava, essencialmente, perder o acesso a todos os multiversos — perder Lorrt de vez.
Indagava-me, porém, se eu seria capaz de retornar ao Inferno... e ouvir a proposta de Lúcifer outra vez. E, sendo um demônio, poderia voltar ao mundo humano? Era muito para mim, e eu não conseguia compreender tanta informação; imergia-me n’um oceano de dúvidas ainda mais mórbidas do que antes, contudo, nada era, de fato, igual... a mudança não foi uma mentira, as memórias resgatadas tinham a perfeição de uma fotografia. Eu havia mudado, como previ, e a mudança agora contornava meu medo e todos os sentimentos derivados da estranheza de estar livre de minha humanidade, sem perdê-la de mim. Era estranho, era um paradoxo, mas as coisas mais complexas são, essencialmente, as mais deslumbrantes.
Saí. Deixei meu olhar cair sobre os arredores infinitos do Castelo Drácula.
E aquele momento era o prólogo do meu novo despertar.
Revisão por Sahra Melihssa
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
10: Sobre as versões de nós
Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou.
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Por Alana Mortensen
Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou. A forma de comunicação transformou-se, mais ágil e nem sempre assertiva, mas os anseios são os mesmos. A nossa insistência em tentar definir e nomear aquilo, o desconhecido que fascina e aterroriza em iguais proporções.
Lembro-me da primeira vez que li “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a Alana de quatorze anos ainda tinha sonhos e alegrias por vir. O impacto foi repentino e indecifrável: recebi os golpes, sem saber precisar de qual direção e remetente provinham. A fascinação foi ainda maior após reconhecer que o protagonista somente conseguia ser sincero, porque o além-vida lhe proporcionava esse despreendimento. Entende o que eu quero dizer? O medo de ser rejeitado nos prende à vida cotidiana, aquela na qual todos vagam sem experienciar a Vida.
Para que continuar seguindo as convenções se tudo o que outrora era vida já não mais existe?
Para que continuar dançando a valsa da vida se não há mais parceiros e a música cessou?
Sinto que, ao adentrar o Castelo, sofri a mesma transição que Brás Cubas: já não preciso me preocupar com a minha utilidade na sociedade; já não preciso continuar lidando com as situações sufocantes; já não preciso simular.
Tornei-me transparente. Não vês os meus circuitos internos? Olha como meu coração ainda bate, em um ritmo só dele, ainda bombeando o sangue que faz irrigar cada parte seca do meu corpo.
Quando era criança adorava fingir ser quem não era: professora, médica, forte, executando a “função” com tanta seriedade que ninguém ousava dizer que eu não era uma professora ou médica, ou forte. Aos poucos fui perdendo essa autoconfiança, a adolescência sufoca qualquer voz interior que tenta afirmar que “você é capaz”, ou assim nos fazem acreditar… Falam tanto na nossa cabeça que acreditamos exatamente naquilo que elas querem.
A jovem adulta não ficou menos hesitante, só aprendeu a suprimir esses dissabores, ninguém gosta de pessoa que seja e pareça fraca. Nem eu gostava. Mas aprendi que se deixar sangrar, deixar que vejam meu escoamento também é uma forma de força.
Essa bateria de palavras é somente as divagações de hoje. Aqui eu aprendi que eu posso e serei quem eu quiser. E não me importo se tentarem cerrar as cortinas, pois eu irei transpassá-las e continuarei com a minha apresentação, custe o que custar!
Revisão por Sahra Melihssa
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Primeiro Ato
Permaneci parada como se os deuses estivessem parados os ponteiros do infindável tempo, porém aquele ritmo cadenciado do relógio permanecia ressoando…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Permaneci parada como se os deuses estivessem parados os ponteiros do infindável tempo, porém aquele ritmo cadenciado do relógio permanecia ressoando em minha mente, como um mantra.
Mesmo sem vislumbrar a figura atrás de mim, notei sua sombra imponente projetada à luz do úmido piso de pedras, à oscilante luz vinda da lamparina, preenchendo aquela biblioteca, sem dúvidas tratava-se de alguém muito importante.
Uma tosse vinda da figura interrompeu o breve momento onde o silêncio se fazia presente, senti uma tensão quase eletromagnética percorrendo meu corpo, sua forte respiração aguçava minha curiosidade. Finalmente sua voz ecoou forte e calma, (estava correta, era um homem).
Cautelosa, virei-me, os cachos escondiam minha tez franzida, e de fato era alguém mui importante, suas vestimentas perfeitamente alinhadas, trajava uma camisa social branca com detalhes renascentistas no punho e gola, colete e terno eram pretos, cabelos curtos igualmente pretos, olhos penetrantes porém cativantes, na mão direita trazia uma lamparina, voltei minha atenção para seus ágeis dedos manuseando um relógio de bolso feito ouro envelhecido, a caixa de no estilo savonnette com detalhes em arabesco, o mostrador era num tom azul petróleo, os ponteiros eram de prata, e a longa corrente também em ouro velho.
— Perdoe-me por assustá-la, não era minha intenção. Me chamo Professor Monm, (apesar de sua voz ser um tanto grave, como um barítono), havia também nuances melancólicas, seu olhar sereno certamente era de alguém que já enfrentou muitas provações ao longo de sua vida.
— Bem, confesso que havia conhecido poucas figuras masculinas aqui no Castelo, a não ser os rápidos encontros durante as festividades, mas... posso fazer uma pergunta, se me permite? O que o senhor leciona?
Primeiramente ele sorriu com os lábios, e disse que era um prazer me conhecer. Em seguida, fechou a porta. Pairava naquela biblioteca uma misteriosa calmaria. Chamei-o para caminhar, ele aceitou de bom grado, e continuarmos a conversa.
— Com toda franqueza, senhorita, esta é uma pergunta complexa, mas pode-se dizer que leciono transmutação temporal, além de ser exímio conhecedor em relógios.
Meus olhos saltam de curiosidade pois lembrei das obras de alquimia que folheei incontáveis vezes, sempre às escondidas. Foi difícil esconder minha euforia, a sede pelo conhecimento me movia (mesmo que esse conhecimento fosse “proibido”).
Minha reação foi notada pelo professor, que esboçou um tímido sorriso e, em seguida, perguntou se possuía algum conhecimento sobre o assunto. Assenti, (li bastante a respeito). Vi então seu semblante mudar sutilmente, acho que o surpreendi.
Ele falava dos relógios com uma notável paixão e, sinceramente, seria uma honra poder ouvi-lo discursar sobre cada engrenagem e suas particularidades por horas.
Erguendo a lamparina à altura dos olhos, iluminou as enormes estantes de carvalho que se estendiam até o final da biblioteca, repleta de inúmeras e empoeiradas obras.
Meus olhos fitaram as centenas de obras, algumas deterioradas severamente pelo inexorável tempo e pelas insaciáveis traças. Conforme andávamos, ergui levemente meus dedos e me permiti sentir cada puídas lombadas de couro e suas respectivas marcas.
Alguns resíduos permaneceram em meus dedos. Observei também o impecável trabalho das aranhas ocupando aquele estreito espaço. “Será que um dia eu o encontrarei?” Monm, que também observava as estantes, cessou os passos e pousou os olhos castanhos sobre mim.
— O que disse, senhorita?
— Não foi nada, apenas pensei alto, mas... ou talvez o senhor possa me ajudar, absorta, inicio minha narrativa.
— Certa noite, perambulando pelo Castelo, encontrei algo que se tornaria minha obsessão, e desde então tenho procurado com afinco. Trata-se de um horrífico e grandioso Códex, confeccionado em couro humano. Sua deteriorada capa era uma desagradável fusão entre marrom e tons de escarlate. Trazia ainda um símbolo arcano, o qual nunca tinha visto, mas parecia ser tão antigo quanto a própria existência. Ele também emanava um odor pútrido terrível. Foi ali que o encontrei, sobre aquela mesa redonda vitoriana.
Saí do estado letárgico, ofegante, meu corpo tremia, com meu braço direito estendido apontando para a mesa vazia. Olhei para o professor, que me ouvia com atenção. Vi suas feições adquirirem contornos espantosos. Ele passou a mão esquerda sobre a testa e disse:
— Sem dúvidas, é um relato muito impressionante. Gostaria muito de poder ajudá-la, mas conheço bem esse caminho...
Seus lábios emudeceram. Então, vi o horror estampado em sua fronte, seguida por uma profunda e terrível melancolia. Os batimentos reverberavam no recinto, atônito, o professor recorreu novamente ao relógio, abrindo e fechando sem cessar. Em vão tentei chamá-lo, estava absorto, talvez por alguma lembrança.
Até que ele “voltou” num estado de confusão mental, que me deixou preocupada. Será que, neste período ausente, ele teve acesso a outras realidades? Se foi, gostaria muito de aprender.
— Professor Monm, o senhor está bem?
— Sim, senhorita, não se preocupe, está tudo bem, permita-me dizer que foi um prazer conhecê-la, mas infelizmente tenho que partir. Bom, espero que possamos nos encontrar novamente.
Checou o relógio mais uma vez, como se estivesse atrasado. Antes de cruzar a porta, ele sussurrou: — Muito cuidado com a obsessão, Rose, é um caminho bastante tortuoso, confie em mim, você não quer isso...
Aquele conselho soou estranhamente, o timbre de sua voz trazia um pesar, um arrependimento, o qual nunca saberei. Nos despedimos com um cordial aceno.
A introspecção recai sobre mim, trazendo à margem alguns pensamentos: quanto tempo mais suportarei manter esta falsa máscara de normalidade? Será que alguém realmente sabe quem sou? Será que interpretei bem o meu papel de falsa humana? Se bem que Ameritt conheceu meu verdadeiro eu...
Caminho até a porta envolta de questionamentos, toco na maçaneta e fico parada por alguns instantes, tal qual um ator que está prestes a entrar em cena. Ouço resquícios de diálogos que desaparecem pelos extensos corredores, passos apressados ecoam pelo Castelo, risadas que se perdem. Qual será o próximo acto desta magistral peça teatral?
Revisão por Sahra Melihssa
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Canto para meus tormentos
Abracei o teu convite e vim prestigiar a ópera. A Vida, a Morte e o Tempo estarão presentes no teatro das sombras. Abram vossas mentes para as experiências que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Abracei o teu convite e vim prestigiar a ópera. A Vida, a Morte e o Tempo estarão presentes no teatro das sombras. Abram vossas mentes para as experiências que farão um por um transmutar e viajar por entre os planos. Será uma noite inesquecível...
A dádiva da arte é para mim um novo sopro do ânima. É a força motriz que me sustenta longe da dor que é viver sob esta forma decadente. Agarro-me à esperança de que tal ópera seja uma ode ao meu escapismo. Perdoem-me, almas ancestrais, bestas viajantes, apreciadores de uma boa taça de sangue: em mim habita a angústia que dilacera tal qual os malditos raios do sol.
Lencastre está prestes a confrontar seus próprios demônios...
Na penumbra do teatro, sou fragmento suspenso entre dimensões. A matéria que compõe este receptáculo vampírico vibra em frequências ancestrais, pois em minhas veias corre o tempo líquido, essência primordial dos navegantes da eternidade. O palco diante de mim não é mero tablado — é portal onde as esferas se tangenciam, onde o Limiar permite vislumbrar os segredos que habitam o âmago do ser.
As cortinas se erguem, e eis que reconheço: sou aquele que desperta as criaturas, sou o convocador inconsciente de meus próprios tormentos. A orquestra entoa acordes que ressoam no ventre do caos, cada nota uma navalha a gerar carnificina em minha alma fragmentada.
No centro do palco, materializa-se a primeira visão: meu eu humano, tessituras de luz dourada emanando de sua forma. Vejo-me quando ainda pulsava em sintonia com o ritmo cósmico, quando o sol era bênção, não maldição. A criatura que fui estende-me as mãos, e em seus olhos habita a pergunta eterna:
— Por que escolheste navegar pelas sombras, quando podias dançar na luz?
Mas o Limiar rejeita respostas simples. O tempo sob seu comando é serpente que devora a própria cauda, e compreendo: não houve escolha, apenas o desenrolar do destino.
O palco transmuta-se em arena cósmica. Na fenda mais profunda de minha consciência, criaturas se gladiam — são deuses de suas histórias, manifestações dos medos que habitam o âmago do vampiro que me tornei. Cada demônio empunha lâminas forjadas nas essências da culpa, do remorso, da solidão infinita.
Vejo-os duelarem: a Nostalgia, de armadura dourada, combate contra a Sede Eterna, de garras escarlates. O Medo da Eternidade, gigante de olhos vazios, confronta a Culpa Ancestral, que chora lágrimas de sangue. Em cada golpe desferido, fragmentos de minha essência se desprendem como pétalas negras no vento cósmico.
Sou espectador e arena simultaneamente. Em meu peito, o coração que não bate ressoa como tambor de guerra. As criaturas lutam por domínio sobre o receptáculo que me tornei, mas todas ignoram uma verdade fundamental: sou o gladiador supremo, aquele que deve enfrentar a si mesmo na batalha derradeira.
Em minhas veias corre mais que sangue alheio — corre o poder dos navegantes primevos, daqueles que primeiro caminharam entre os mundos. Sou herdeiro de linhagem que remonta aos tempos quando a separação entre vida e morte era mera ilusão criada pelos mortais.
Ergo-me da poltrona, mas não sou mais Lencastre. Sou entidade que carrega em si a sabedoria das eras, receptáculo onde predador e protetor são um só no tecer dos destinos. Minha forma física começa a transmutar — não em destruição, mas em transcendência.
A carne se dilata, expandindo-se além dos limites mortais. Cada poro torna-se portal, cada célula uma estrela pulsante no cosmos interior. O sangue que jorra não é perda — é oferenda sagrada ao altar da transformação. Cada gota que toca o palco germina em flor de luz sombria, criando jardim onde o belo e o terrível dançam em harmonia.
Não há dor — apenas êxtase da dissolução consciente. Sou chuva de meteoros atravessando o véu entre os mundos, sou canção que ecoa nos corredores do tempo.
Minha voz, agora multidimensional, entoa o cântico final:
— Do sacrifício nasce a aliança sagrada... do receptáculo fragmentado emerge o navegante eterno... nas essências derramadas, a continuidade...
O teatro desaparece, e na sinfonia infinita que permeia o universo, minha nota ressoa eterna — não como lamento, mas como hino à transformação que aguarda todos os navegantes do tempo.
Revisão por Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Máscaras de Sangue
Sangro em silêncio, e a vida me devora, | sou mais ausência do que corpo, um fardo. | A cada passo o abismo me implora, | mas visto a máscara do riso pardo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Sangro em silêncio, e a vida me devora,
sou mais ausência do que corpo, um fardo.
A cada passo o abismo me implora,
mas visto a máscara do riso pardo.
Meu ser é cárcere em noite sonora,
eco perdido em labirinto, aguardo.
A dor é carne, o espírito a devora,
e o nada sussurra seu hino bastardo.
Procuro em vão sentido que me una,
mas a existência é lâmina e me fere.
Tudo é penumbra, e o mundo, a minha ruína.
O ser-em-si se cala e me difere,
mas sigo — alma vazia, vaga, nua —,
na máscara de sangue que me confere.
Sangro.
Sangro por dentro como quem se desfaz de si mesmo.
Ser-para-a-morte, Heidegger murmura,
mas a morte não vem,
a morte não vem!
e eu permaneço,
eu permaneço preso à minha própria carne trincada.
A máscara… ah, a máscara é tudo que resta.
Sangue coagulado que pinto sobre o rosto do espírito.
Riso falso.
Lágrimas costuradas.
O mundo não pode ver que, por baixo,
sou um corpo oco,
um eco oco,
um dasein fraturado.
“A angústia desvela o nada”,
dizem os mestres.
Sim.
Mas o nada me abraça como um amante ciumento,
e suga meus ossos até que só reste
o som de um coração
que bate para ninguém.
Caminho pelas ruas como um espectro com nome.
Carrego as palavras que já não me pertencem.
O ser-em-si me devora.
O ser-com-os-outros me apodrece.
O ser-para-a-morte me observa do canto da sala,
com seus olhos vazios,
pacientes.
E eu — poeta ou coisa —
cavo túneis dentro de mim
à procura de algo que não existe.
(há silêncio, depois grito, depois silêncio de novo)
A máscara escorre.
O sangue seca.
E ainda assim coloco outra por cima.
Para quê?
Para quem?
Não sei.
Talvez para a plateia invisível
que um dia vai aplaudir
quando finalmente eu tombar,
rasgado,
sem máscara.
Sonho-vos nos corredores de cinza,
phantasma talhado de osso ao luar.
Vossa pele alva — porcellana, perfeita, intacta —
persegue-me como cathedral devorada por fogo.
Vossos olhos d’azul são tormentas
que me desnudam a alma,
rasgando a medulla de minhas noites,
inda que jamais vos tenha tocado.
Saboreio-vos no sangue em minha língua,
imaginando vossos beiços, frios como sepulcros d’inverno,
a pregarem-se nos meus em beijo
que me perderia, e tal perdição cobiço como lobo famélico.
A distância é lâmina torcendo-se em minhas costelas,
cruel mar tragando cada brado.
Romperia a terra em pedaços,
queimaria cidades até se fazerem esqueletos negros,
por estar uma só vez — só uma —
no eclipse de vossa sombra.
Beberia a luz de vossas veias,
se apenas assim vos guardara,
por dar carne a vosso espectro,
sentir-vos tremer ao quebrar
toda a cadeia que nos aparta.
Mas quedo-me aqui,
escrevendo vosso nome em sangue
nas paredes que ninguém jamais verá,
enquanto vossa formosura me devora vivo
desde mil léguas de distância.
As cortinas de veludo rubro abrem-se com um ranger que parece o suspiro dos ossos.
Korzavéll surge no palco.
Sua máscara está rachada.
O trono de ossos o espera, mas ele não se senta.
Ele fala ao vazio, aos espectros, aos vivos fingidos.
Ah, plateia de mortos disfarçados, de corações que fingem pulsar! Vede-me! Vede o miserável!
Sou o último tecido niilista de humanidade costurado ao peito de um daemon cansado.
Eis-me aqui, cuspindo palavras como se fossem sangue coagulado,
no palco onde os espelhos só devolvem rostos partidos. Ergue os braços, como quem invoca um deus ausente.
Riem de mim?
Riem de Korzavéll,
lágrimas negras?
— Pois saibam: cada gargalhada que lançais é um prego a mais em minha carne!
E que carne é esta?
Esta ruína que palpita ainda porque eu a amo...
Sim, amo-a!
A bruxa de olhos azuis que toca minha face em astral projeção,
Caminhai devagar sobre os espelhos, cortando os pés descalços. O sangue escorre.
Ele ri, com um som quase infantil.
Oh, como ferem e enfeitiçam esses olhos!
Safiras lapidadas pela própria Hékate!
Olhos que me arrancam a medula,
que me dilaceram sem nunca ter me visto!
Ah, minha feiticeira distante...
Tu és o veneno que bebo com devoção.
Tu és a lâmina que me arranca a última esperança e, ainda assim, eu imploro por mais cortes, rasgai a própria máscara e revela um rosto manchado de lágrimas e sangue.
Dizei-me, plateia de espectros:
O que resta de um homem quando a beleza que ele adora lhe é inalcançável?
Resta-lhe o delírio.
Resta-lhe o teatro.
Resta-lhe a dança na beira do abismo, enquanto a razão se desfaz como cera ao sol.
Korzavéll ajoelha-se diante do trono de ossos.
Escutai-me, ó deusa dos cães e dos encruzilhados!
Hékate, senhora da noite que me moldou neste grotesco invólucro!
Tomai minha alma, já nada há que possa salvá-la.
Que eu me torne espectro, fera, poeira — o que quiserdes!
Mas deixai-me tocar sua pele uma vez...
Uma vez apenas!
Nem que eu tenha de beber o mundo inteiro em sangue para comprá-la!
Um silêncio mortal se instala.
Ele ergue a cabeça, com os olhos vidrados e vazios.
Mas vós sabeis, vós todos sabeis:
Eu permanecerei aqui, minha consciência estilhaçou,
rasgando meu próprio peito, escrevendo seu nome nas paredes que nunca verão a luz.
Ele se levanta,
tropeçando nos espelhos, deixando rastros de sangue.
Olhem bem para mim, malditos!
Olhem bem, pois eu sou o retrato do vosso destino:
a fome sem fim.
A espera que não conhece aurora.
O aplauso que não salva, apenas adia o silêncio.
A luz da lua cai sobre ele, fria, cortante.
Ele abre os braços como um crucificado.
A cortina descerá um dia.
Então, como eu, chorareis.
Como eu, vos sabereis ridículos.
Como eu, suplicareis por um olhar,
um beijo,
um toque de um amor que jamais vos alcançará.
Ele ri, um riso rachado,
ecoando no teatro vazio.
A luz se apaga.
Ah, permiti que as cortinas se descortinem em véus de sombra e suspiros — pois eis que surge Korzavéll, o cômico das lágrimas negras, habitante do palco onde o riso e o pranto se abraçam numa dança macabra e sublime.
No coração do teatro antigo, em pedra fria e madeira rangente, repousa um cenário que é sonho e pesadelo entrelaçados.
O teto, outrora inteiro, agora ostenta uma fenda descomunal — ferida aberta nos ossos do edifício — por onde a luz gélida da lua escorre como prata morta, pincelando os cantos com silêncios estelares.
As estrelas, testemunhas mudas da ruína, espreitam o palco com olhos de condenação, e a brisa da noite varre o salão como um sussurro de promessas quebradas.
O ar, espesso como o hálito de um morto-vivo, traz o odor metálico da melancolia e o doce azedo da ironia.
Lá, candeeiros de bronze, talhados em formas retorcidas de gárgulas que parecem espreitar os próprios espectadores, lançam uma luz trêmula — um fogo bruxuleante que se torna sombra, sombra que se torna lamento.
O chão é um mosaico de espelhos partidos, cada fragmento refletindo um rosto que se perde e se procura, um sorriso que fenece antes de nascer.
As cortinas, vestidas em veludo escarlate enegrecido pela fumaça das velas, respiram com a mesma tristeza que um prisioneiro antes da sentença.
Sobre o palco, um trono de ossos entrelaçados, feito não de poder, mas de promessas quebradas, espera o Cômico em seu reino de desespero teatral.
Quando Korzavéll pisa nesse tablado, o ar se adensa — e o tempo se curva ante sua presença.
Sua máscara, de porcelana fina rachada, sorri com os lábios de uma ironia que dilacera.
Cada passo seu ecoa como o tambor de um coração que bate na desesperança, e sua voz, rouca, se derrama como um cálice transbordando de lágrimas petrificadas.
“Ó vós, plateia de espectros e vivos ensaiados, quão frágil é o véu que vos separa do abismo!
Riam, chorem, pois tudo é um ato e eu sou o último suspiro antes do silêncio.”
Dançai — não como um homem, mas como a própria alma do teatro que se desfaz em cinzas.
As paredes sussurram antigos segredos em línguas esquecidas, e o vento, agora tocado pelo luar, parece carregar o lamento de mil risos jamais ouvidos.
O relógio, parado, acusa a eternidade de um instante em que a esperança perece, e Korzavéll, com sua máscara quebrada, é o maestro dessa sinfonia de desventura sob a luz fria da lua. Com as estrelas refletidas nos olhos de porcelana, ele murmura, como quem cospe uma profecia:
“Aqueles que se escondem no riso, hão de chorar quando o aplauso cessar — pois a alegria encenada não salva, apenas atrasa o cortejo.”
O teatro respira sua dor.
E Korzavéll reina — não para destruir, mas para mostrar que, no palco da vida, somos todos meros atores, condenados a representar a dor vestida em risos, até que a cortina final caia, e o escuro reine, silencioso e absoluto.
Revisão de Sahra Melihssa
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Sanctitas
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça. Atônita, contemplo o baile sombrio mover-se com extrema volúpia. Meus olhos não eram capazes de acompanhar os movimentos. Fecho os olhos, pois fui acometida por fortes náuseas. Deixo a taça no chão e, vagarosamente, caminho. Mesmo estando longe, era possível ouvir o doce dedilhar sob as cordas dos delicados violinos, assim como as risadas libertinas. Tiro a máscara, e minha tez está febril. Conforme ando, o som das festividades foi se distanciando, se igualando a estranhos sussurros vindos de alguma civilização esquecida há éons.
Em meu íntimo, desejo voltar para o baile. Minhas entranhas suplicam mais um gole do detestável licor. Tento silenciar os pensamentos, contemplando o Castelo. Ao fazer isto, constato que o mesmo se modificou — sua estrutura ganhara dimensões abissais; sofrera, também, graves mudanças. O Castelo estava imerso numa aura lúgubre; cada pedra foi consumida por uma cor inenarrável, profunda e viscosa.
As pedras também sofreram com a presença de terríveis musgos, ocupando as frestas presentes em cada pedra. Noto uma sutil, mas aterrorizante, mudança no ar, tornando árduo o ato de respirar. Vi o véu que guarda segredos além do tempo sendo rasgado perante mim, e então o imaginário se materializou.
— Eram semelhantes a inúmeras partículas de uma pálida poeira, pairando misteriosamente, alcançando todo o interior do Castelo. Fui até uma das janelas e constatei que vinham de fora. As palavras de Evelyn Dubois recaem sobre mim; sorrindo, ela dizia: “Com o passar do tempo, você irá se acostumar.”
A visão que tive foi demasiadamente extraordinária — a poeira ocupava cada centímetro daquela região. O céu ganhara horripilantes pinceladas num desagradável tom de azul-petróleo. Já no horizonte, a magnífica e dourada lua, em sua fase quarto crescente, resplandecia imponente, contornando o cume das montanhas, bem como toda a vegetação, desde as grandes árvores até os pequenos arbustos. Alumiava também os grãos pálidos da arcana poeira, que obedeciam fielmente ao soprar dos ventos. Inclusive, pude sentir um característico cheiro pútrido marítimo, deixando-me atordoada.
Pois bem, estarrecida, afasto-me da janela. Olho em volta; a quantidade de partículas aumentou consideravelmente. Assustada, cubro meu rosto com a mão direita e caminho sem direção, até que encontro um esguio e mal iluminado corredor. Por alguma razão, decido atravessá-lo. À medida que ando, as velas se tornam mais escassas. Noto também que a poeira está se dissipando conforme ando.
Estou entregue à minha própria sorte. Com pesar, observo seu moroso derretimento. Lembrei do meu pai — ele disse que cada vela derretia de uma forma; disse também que o mesmo acontecia com o pavio. Tal lembrança deixou meus olhos marejados. “Ah, pai, queria tanto te ver...” — a frase saiu sem querer, ecoando no imenso corredor. Se eu fechasse os olhos, conseguiria ver sua vasta biblioteca; o cheiro dos livros me acalmava. No centro, havia uma mesa de jacarandá, sempre ornamentada com anotações importantes, livros para pesquisa. Ocupando as laterais, estantes repletas de livros.
Assim como eu, ele era um curioso em relação ao desconhecido. O pouco que sei foi graças a ele. Naquela noite, meus pais não queriam que eu saísse (parecia que estavam prevendo meu terrível destino), mas eles cederam à minha insistência.
Se não fosse por aquele convite — tornei-me taciturna —, onde minh’alma fora devorada por aqueles sedutores e sombrios olhos azuis, eu estaria... Não importa. Estou condenada a carregar a mesma escuridão que meu algoz — ele estava enraizado em meu âmago, e às vezes soprava em meu ouvido verdades incontestáveis. São momentos assim que desejei o aprazível abraço da morte. Porém, algo me resgata do abismo.
Ando mais alguns metros. Vejo uma espécie de aura longínqua e, a princípio, parece disforme. Ando mais depressa, pois era uma visão intrigante. Cheguei perto o suficiente para ver do que se tratava: era uma luz branda, etérea, quase angelical. Fui acometida por uma estranha paz — senti algo semelhante quando estive em Somníria. A quantidade de poeira diminuiu consideravelmente. Paralisada, contemplo o gracioso mover da intrigante luz. Me questiono qual será sua natureza.
Sigo-a até uma porta alta e simples de madeira. Espantada, assisto ela atravessar a porta e desaparecer. Um terrível arrepio percorre meu corpo. Relutante, abro a porta — e não posso crer: achei a biblioteca que incansavelmente busquei. Foi aqui onde encontrei aquele Códex sinistro, que, desde então, havia se tornado uma obsessão. Por breves segundos, esqueci daquela figura espectral. Ela estava no final da biblioteca, levitando próxima da mesa redonda vitoriana, alcançando o abobadado teto — tal qual o famoso espiritualista escocês Daniel Dunglas Home.
Sem dúvidas, era uma visão espantosa. Fechei a porta; sua presença doce preencheu aquele lugar. Era como uma santa. Olhando mais atentamente, havia traços humanos: os cabelos negros ondulados balançavam sob o ar. Vi também um rosto delicado. Os olhos fechados traziam mansidão; já as palmas unidas em oração continham esperança. Para quem seriam aquelas preces?
Fascinada, caminho devagar ao seu encontro. Porém, algo me impede. Escuto, então, passos firmes vindo de fora, acompanhados de um sutil, mas pontual, tique-taque. (Sabia que se tratava de um relógio de bolso, pois era uma das paixões do meu pai.) A porta se abriu lentamente, emitindo um penoso ranger. Mas, antes disso, contemplei a figura sacra desaparecer da mesma forma que surgiu. Um sussurro escapa de meus lábios — mais um evento o qual não teria respostas.
Após isso, uma brisa gélida invadiu aquele âmbito. Meus olhos dançam frenéticos sob as pálpebras. Quem será que adentrou neste recinto? Que presença é esta?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 13: Nada além da verdade — Rubi Áurea
Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como…
Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como a nota grave de um órgão profano — era a própria frequência do desespero, da solidão e da orfandade existencial. Uma salmodia vibrante de abandono, alojada sob a soturnía do medo persecutório, vibrava nas camadas hialinas do ar, no calor do mármore e nos lagos de lava escarlate. Sim, tão inextricável e abissal quanto estas lôbregas palavras que descrevem cada detalhe.
Reintegrei-me em corpo — ou no simulacro que me restava dele — envolvida por um fogo que fazia parte de minha tez e alma. Reintegrei-me ali, naquele vasto e montanhoso domínio, onde céus de nuvens negras em fugaz cinesia deslizavam, guiadas por um vento atroz e fastígio. E, além delas, ardia um firmamento escarlate, imóvel como um presságio. Eu via — e saberia que jamais poderia deixar de ver — um reino de edificações negras, cuja arquitetura parecia construída na linguagem do luto, à sombra de arbustos altos e secos, esqueletos de entidades vegetais. Ruínas de uma civilização obliterada pelo próprio peso da existência.
De essência aterradora, sim, entretanto, algo íntimo cingia-me, acolhendo minha desgraça. E o reino todo alcançava meus olhos absorvidos e fascinados. “Lindo...” — murmurei, talvez para mim mesma, talvez em silêncio. Logo notei meus pés descalços e meu corpo envolto a uma peça que esvoaçava pelo álgido ar que vinha dos céus; era estranha, parecia rasgada em retalhos, queimada, feita de um tecido fino e semitransparente. E para meu corpo olhei quando senti calor em meus pés; vi que o chão era mármore negro, cálido, com fissuras em um vermelho intenso — como uma pedra bruta proibida... que sangra.
Olhei para trás, portanto, buscando compreender o derredor... o que veio às minhas retinas, então, deixou-me estarrecida. Era um imenso palácio de mármore negro e rubi, uma inconcebível arquitetura... e inominável. Seus altos e colossais umbrais abertos poderiam ser-me um convite, entretanto, neles estava um ser sublime que me observava atento e imponente. Sei que minhas pupilas se contraíram ao enxergá-lo, pois quão fascinante o esplendor eterno da sua luz perfeita. Eu intuía... e, por isso, tão logo caí-me aos seus pés porque o que eu intuía conduzia meu ser... aquela criatura era nume, celestial, perfeita. Era uma divindade. Eu compreendia. Prostrei-me porque nunca vi tamanha beleza... nunca senti tamanho embevecimento.
— Levanta-te, pois que não tenho servos, tenho aliados. — ouvi. A voz daquela divindade era o universo ecoando em seu próprio abismo constituinte... eu já o havia ouvido antes... eu já conhecia o seu idioma. Obedeci-o prontamente e fitei a sua graça magnânima. Era mesmo de uma beleza surreal e continha grandiosas asas e vestia-se com vestes régias e negras, com detalhes em rubi, tal como o seu palácio. Era como um homem, entretanto, seu corpo era forte e decerto possuía mais de três metros de altura; além disso, eu intuía, mais uma vez, que não havia gênero em sua estrutura... ele era quem ele quisesse ser... quando ele quisesse ser...
— Lussifferr... — sussurrei... reconheci...
— Tenho vários nomes, este é um deles. Seja bem-vinda ao meu reino. — ouvi. Eu sabia que estar ali era um privilégio de poucos...
— Não temas. — disse ele e convidou-me, com um gesto, a adentrar a sua residência sublime.
Caminhei sem pressa e vi, no interior do local, um lago que reluzia carmim e colunas de rubi que tinham, esculpidos em si, rostos de homens e mulheres de magnífica pulcritude. A deidade sentou-se em seu trono portentoso.
— Pergunto-me a razão pela qual há uma nutrúrnia fincada em teu torso... enraizada em teu coração... — senti-me enrubescer ao ouvi-lo. Lembrei-me de Seth. Ponderei em como eu poderia me explicar.
— Não me conte. Aprecio mistérios. — proferiu com um sorriso perverso e sombrio.
— Tu sabes o que és, Áurea Lihran? — meu nome em sua voz de matéria escura. Um deus sabe todos os nomes daqueles que encontram seu reino?
— Eu não sei se sei. — respondi, murmurando.
— Tu és um demônio. Um demônio que nunca caiu. Diferente de todos aqueles que residem em meu mármore... que raridade. — eu o sentia cada vez mais sombrio, suas palavras naquele idioma ancestral me deixavam turva e com um tipo de admiração que beirava o temor.
— Entretanto, ainda és humana e, para minha surpresa, vampira e animal mítico. — engoli minha saliva como se fosse espinhos. Algo me dizia que Lúcifer sabia muito mais de mim do que eu mesma.
— E como se não bastasse, senhorita Lihran, carregas o Olho do Oráculo como pingente e quatro sigilos pherhesistas repousam em teu pulso. — olhei para meus pulsos, revivi aquele momento tão perigoso.
— Portanto, posso convencer-me de que também és Magista e... vidente. Que fardo! — olhei para os lados, a paisagem nas paredes translúcidas era esplêndida; por fora, nada se via no interior do palácio; por dentro, tudo do exterior se via. Eu não sabia o que dizer, eu estava em êxtase.
— Fardo... — repeti como se internalizasse aquele termo.
— Há conhecimentos que somente uma criatura rara como tu pode alcançar, e é por isso que te proponho um pacto. — fitei seus olhos escarlates.
— Tenho más experiências com — hesitei — vínculos a entidades poderosas... — segredei, incerta de recusar algo de um ente tão superior. Lúcifer sorriu outra vez.
— Não sou uma entidade poderosa, Áurea. Sou um deus. — tremi ao ouvi-lo; um estranho frio espargiu e minha tez se arrepiara.
— Posso dar-te quase tudo o que quiseres, em absoluto; sem entrelinhas. Desde que me dê o que quero. É justo para todos os envolvidos.
— Podes trazer todas as minhas memórias à consciência? — instiguei, quase o interrompendo.
— Não posso. — surpreendi-me.
— Não sou capaz de quebrar o poder do livre-arbítrio. — senti-me confusa. — Tu queres manter tuas memórias ocultas, Áurea; teu querer inconsciente é maior do que o teu desejo racional. — tremi mais uma vez. Eu estava me sabotando? Pensei, silenciada.
— Entretanto, tenho algo de teu interesse... algo mais significativo... e tudo o que peço em troca é a tua devoção ao conhecimento que me é valioso... domine-o e traga-o para mim.
— Pherhesí... — intuí e murmurei. Lúcifer sorriu.
— Isso... agrada-me que tua intuição já esteja vinculada a mim, o teu deus.
— Não posso... não posso... quais serão as consequências? — meândrica, o questionei. Lembrei-me de Olga dizendo-me dos riscos daquela magia.
— Muitas. Entretanto, serão consequências diferentes daquelas que terás que arcar se não aceitares minha proposta. Tudo o que fazes traz frutos; a resultância emerge mesmo quando nos recusamos a existir.
— Não... não posso aceitar... — olhei para os umbrais e vi o inferno em sua imensidão. — Por causa da nutrúrnia eu... sou obrigada? Eu devo algo a ti? — entristeci-me.
— Não, criatura. Mas a consequência é a que vês. Estamos vinculados. Há um elo que te trará ao meu reino quando bem quiseres ou quando for do meu interesse. Os poderes demoníacos estão em tua posse; és capaz de compreender minha linguagem. És um anjo que nunca caiu, porém, está caído. E não há como retornar. — Lúcifer fitou meus olhos com precisão.
— Factum est! — conjurou. Um selo para a minha nova verdade. Um selo do meu espírito diante daquele deus..., mas, o que isso significava para além de sua significação?
Factum est!
Nada mais. E um silêncio perdurou enquanto minha mente estava em ebulição de pensamentos apavorantes. Mais um pacto? Com um ser bem mais poderoso? Uma falha, o livre-arbítrio, usado por mim para apartar-me do que fui? Aquela mulher que eu era precisava ser esquecida?
— Eu preciso crer? — questionei, ainda em torpor de meus pensamentos. Lúcifer não me respondeu de imediato.
— “Precisar” significa acender a faísca de um desejo sob argumentação tendenciosa. E “crer”, ah, esta sim... esta é a palavra... a mais irrelevante palavra. A crença é tão só uma mentira, afável mentira. Induz a razão pela veia da ignorância. Se almejas a verdade, nada além da verdade, não creia... beije os lábios da factualidade... lide com as consequências... e que a única calidez advenha do mármore sob teus pés e nunca do teu coração.
Lúcifer se levantou, caminhando ao redor, devagar.
— Mas... quão humana ainda és? Quão ávida estás pelo amor olvidado? Pela paixão proibida? Pela dor e pelo prazer de amar? Ah sim... eu sei... — meu imo ardia ao ouvi-lo.
— A humanidade ainda pulsa na tua carne, não é? Tu sentes o deleite... o vigor... a intensidade. Algo que apenas um humano pode sentir. — Ele continuava me cingindo com seus passos sorrateiros, como um lobo faminto. Parecia um pouco mais próximo, em tamanho, como um ser humano; metamorfoseava-se para que eu não sentisse estranheza, talvez; Lúcifer dominava, persuadia, hipnotizava.
— A fé é tão símil à excitação venérea... induz ao gozo precipitado ou ao tântrico estado perpétuo de realização afrodisia, em ambos os casos, é idealização projetada. Aceite a verdade... as coisas que são como são; e, então, faça do teu sentido aquilo que ele deve ser e não uma deformada efígie dos teus ideais.
Abracei-me com minhas mãos, como se me comprimisse em mim mesma.
— Tenho toda a eternidade para que aceites o pacto que ofereço. Pense, eu estarei sempre aqui... e eu não estarei sozinho...
Eu intuía algo, profundamente brumoso, na última frase de Lúcifer. Voltei a admirar o horizonte do inferno.
— O que me ofereces? — inquiri. Lúcifer sentara-se outra vez.
— Esta é a pergunta certa, e ela te será respondida no momento certo. — argumentou, e eu, devota à sua grandiosidade, apenas assenti. — Ouça bem, esta flor em teu peito, se retirada, levar-te-á para a Morte Rubra. Aquele que tentar contra suas pétalas, sorverá da tormenta; aquele que tentar contra as suas pétalas, será mortificado pela escuridão. As pétalas da nutrúrnia poderão ser arrancadas, entretanto, seu caule tem a força destas colunas lapidadas em carmiantte, e está enraizado, envolto a todas as tuas veias. Só poderá ser retirado, portanto, se tu fores dissecada. — intimidei-me sob assombro silente, quase plangi de súbito por tão somente imaginar tão horrífico fim.
— O que é a Morte Rubra? — indaguei, incerta de que saber fosse preciso. A deidade sorriu, apontando para as colunas lapidadas.
— Carmiantte é a fundamentação d’este reino; um mármore negro-carmesim, de dureza mais acentuada que o diamante vestal. Se lapidado, assemelha-se ao rubi, dado seu esplendor escarlate. — Lúcifer levantou-se, tocando os lábios de um pilar-estátua feminino. — Cada escultura vive suportando o peso de si mesma, senciente. Ou ainda, brutas, sob teus pés aquecidos pela lava vermelha. Onus aeternum. Tudo aqui é carmiantte, e carmiantte é feito de Morte, e é rubro porque sangra.
— Demônios sangram carmesim? — lembrei-me da seiva negra de Seth.
— Não, mas humanos sim. Por isso é rubinegro. Alguns virão para o inferno em razão de seus pecados; outros encontrarão a Morte Rubra por quebrarem o pacto que comigo fizeram. — compreendi, e antes que eu lhe pudesse questionar tanto mais, senti novamente meu corpo transfigurar-se em fogo cetrino, como papel queimando.
— O que...? Por que...? — senti-me confusa e ardente.
— Desejas retornar ao teu Castelo, e a intenção intuitiva do desejo se basta para que o fogo efetive o retorno. — eu queimava, e o medo outra vez tomou-me como um amante febril. — Assim será quando quiseres voltar para meu reino, ainda que não sejas capaz de ouvir o teu intuitivo desejo. — olhei para os olhos de Lúcifer. Ele estava incólume. Olhei para as estátuas de carmiantte; pareciam me observar. — Logo saberás fazê-lo racionalmente. — afirmou a deidade, proferindo o que não pude ouvir em seguida. Senti-me desmaterializar pouco depois de ser preenchida por uma estranha inquietude.
Então, eu estava de volta. As mesmas paredes de pedra, o mesmo silêncio e solidão. Envolvida pela escuridão que me pertencia, ainda tomada pela incerteza e instável verdade da minha existência. Entardecia. Nuvens em bege profundo se espalhavam nos céus simulados; ao derredor, folhagens em marrom-outono dançavam ao vento enfraquecido. Eu estava em casa, a vicissitude do lar ao qual eu pertencia era a ilusão perfeita do espaço-tempo, eu sentia. O inferno era mais real do que o Castelo Drácula — ou seria Castelo Nivïttiz?
Andando a esmo, sem esperanças a conduzirem meus passos, sem razões para direcionar meu comportamento. Toquei a algidez das pedras úmidas, senti o ar rarefeito do dia lá fora; visitei túmulos daqueles que jamais saberão sobre a Morte Rubra e que talvez estivessem, naquele instante, suportando o peso de si mesmos, sendo pilares lapidados do palácio de Lúcifer. Ou eram carmiantte bruto, debaixo dos pés dos residentes do reino que eu agora conhecia? Lembrei-me de Lúcifer e senti a liberdade do seu poder. “Não tenho servos, tenho aliados.” Lúcifer não era um pai, seus princípios de liberdade acima de tudo conduziam minha alma à verdade sombria: estamos sempre sós. Mas, por que estamos? Eu me perguntava nos caminhos irrelevantes daquele alcácer. Por que nos tornamos e agora somos?
“Divino é a criação, ou quem a criou? Fui criada por Lorrt na transmutação vampírica e, antes, criada por meus pais e, muito antes, por quem? Quem estivera antes da vida que agora, na vida, já não está? E se a liberdade é a verdade, junto à factualidade das imensidões subjetivas, então é tudo verdade, então é tudo mentira? Quão livre é estar livre, se há prisões que nos percorrem o corpo e alma, desde o próprio corpo até a própria alma? As indagações tão perenes não são prisões subjetivas tal como as respostas às indagações? Este Castelo, o que é? Por que é? E o que é sê-lo?”
Adentrei uma porta qualquer, irrisória para mim; mais uma dentre tantas. E continuava a pensar. Contudo, era um quarto com tapeçaria amarronzada e detalhes em dourado envelhecido. Vi um belíssimo leito com dossel de ouro translúcido e veludo marfim. Uma escrivaninha com papéis escritos, uma pena de ponta manchada de tinta negra e um cântaro com flores brancas. Isso foi tudo o que vi a princípio e, tão logo, aproximei-me curiosa. O local transmitia uma energia pacífica, embora os lumes de suas velas se ocultassem na minha escuridão. Um canto gregoriano evidenciou-se quando os umbrais foram fechados por minhas mãos, vinha do interior do quarto, especificamente uma estreita porta à esquerda, ornamentada por uma cruz dourada, antiga.
Abeirei-me em silêncio, no mais insano, conduzida pelo enlevo das vozes em coro, ecoando como se fossem donos da eternidade da existência. Lá dentro, espreitei pela porta: uma mulher ajoelhada sobre um pulvinar castanho, costurado com loura lã, tinha suas mãos unidas e seus olhos fechados em um semblante de mansuetude. Seus longos cabelos ondulados eram símeis às folhas secas do outono, pela cor; e em evidência, tão macios quanto o veludo marfim do leito outrora observado. Seu vestido mantinha o tom castanheiro, como se os carvalhos mais ancestrais habitassem o cômodo; tudo era madeira marrom, tudo era entalhado no ouro.
A mulher rezava. Eu sentia. E sua oração me perturbava. Não pelo som que sequer saía de seus lábios, mas pela fé que resplandecia dos poros de sua tez cor de cravo-da-índia. Reluzia sutil a sua tez, azeitada pela natureza própria que a fundamentava. E a cruz-pingente no colar que segurava em suas mãos enfurecera-me, como se fosse um insulto à minha vida. À sua frente, nada além de diversos vasos com flores secas, galhos de árvores, pinhas, velas, água corrente. Havia, também, argila em formas incompreensíveis e, também, um tipo estranho de aparelho por onde as vozes saíam naquele salmo em coro religioso.
Abri a porta um pouco mais, mas aquele fulgurar estranho, feito de pequenos pontos de ar pairando no ambiente, como se crepitasse devagar, constituídos de pura energia de fé, impediam-me de me aproximar. O som da porta despertara, em seguida, a concentração da mulher que, célere, olhara-me atenta. Toda a luz que afrontava minha existência se espargiu como poeira levantada pelo bater intenso de um tapete. A mulher sorriu para mim e perguntou-me se eu precisava de ajuda. Eu precisava? Não sei. Mas aliviada estava por não mais ouvir, ver e sentir aquele obscuro agravo, coberto por fervor espiritual, capaz de me sufocar à Morte Rubra.
— Não sei como encontrei este... altar... — proferi. Minha voz estava diferente, mais séria, mais persuasiva. Sequer parecia ser minha.
— Talvez o tenhas encontrado porque assim foi preciso. Deus pode tê-la direcionado a mim, por suas razões celestiais. Assim acredito, pois que nunca recebi outra visita que não de meu amado pai. — proferira com a voz mais mélea do que qualquer outra que já ouvi. Era como um anjo egrégio, embora compará-la a tal era-me estranho, pois que nunca vi anjo algum, não daqueles que decerto teriam a essência insigne que transpassava, dela a mim, através daquela voz e daquele rosto e de toda aquela luminosidade feita de fé e devoção.
— Devo duvidar, pois que qual deus poderia guiar um coração demoníaco como o meu? — indaguei sem buscar por uma resposta, ao menos não racionalmente.
— Acabo de vir do inferno, o deus que conheci não guia ações, não interfere em minha vida, apenas propõe pactos e vínculos essencialmente convenientes.
— Tenho certeza de que o deus que viste não é o verdadeiro Deus de Todas as Coisas. Tenho certeza, caríssima, que a tua vida é por este Deus Maior guiada e cuidada como deve ser para todas as criaturas debaixo do céu.
— E debaixo do céu carmesim do inferno profundo também?
— O Deus de todas as coisas é piedoso e bondoso, é capaz de tirar uma criatura de seu inferno sob a condição de rendição. Rejeite tudo o que não vier d’Ele e, então, terás a salvação eterna.
— E de quem me salvarei eternamente senão de mim? E se me sou sempre a me ser, como posso salvar-me de mim enquanto me sou? — a mulher fez silêncio.
— Feche teus olhos, dama. Feche-os e profira no teu silente coração amaldiçoado pelo inferno: “Deixe-me sentir-te, Deus, fala comigo, eu rogo!” e Ele falará contigo, se for preciso, se for o momento. — compreendi sob o véu do ceticismo e intensamente enjoada.
“Deixe-me... sentir-te... Deus...”, ponderei. O vazio nunca foi tão vazio quanto o tamanho do vazio que senti ao pensar em tal ridícula oração. “Fala comigo, eu rogo!”, insisti, sentindo vontade de gargalhar e chorar ao mesmo tempo.
— Não sei encenar como tu... não há Deus Maior que me ouça. E se fosse do meu feitio, Deus algum a ouvia agora e eu poderia sorver do teu sangue vestal e te levar mais perto de Deus... ceifando tua vida...
— Mas não o fará... por quê? — questionou mais calma do que previ diante minha insondável ameaça.
— Porque não quero... não tenho sede... não tenho razão... nem sentido.
— Deus me protege de todo o mal. Ele é capaz de fazer o mal desistir do mal, para cuidar de mim, eu sei.
— Um Deus seletivo... entendo... cuida de seus preferidos e renega os que dele mais precisam, pois que estes que não lhe estão sob os princípios, desviados de sua salvação eterna, não são, pois, os que mais deveriam ouvi-lo? Não são, pois, os que mais precisavam de apoio? Intriga-me que sejas tão devota a um Deus assim.
— E quem disse que Ele não está dedicado aos que não o adoram? Sei que o Deus Maior não rejeita ninguém. Apenas é preciso um pouco de sensibilidade para ouvi-lo, mas Ele sempre diz e sempre quer se fazer ouvido. Ele não é racional, Ele está acima da razão, e Ele não pode obrigar-te a ouvi-lo tal como o teu desejo de ouvi-lo não pode trazer-te a capacidade de o fazer.
Silenciei e olhei para a luz tenra que advinha da janela ao lado da escrivaninha; a luz crepuscular dourada tocava as pétalas das lívidas tulipas e difundia-se nos soltos papéis. Um porta-retrato protegia uma fotografia de Monm ao lado da mulher imersa em sua fé inabalável. Sorriam, profundamente felizes, como Monm não parecera ser capaz de fazer quando o conheci.
— Este é meu pai, Abdalla... — olhei para trás, sequer notei que havia andado alguns passos em direção à luz. Hesitei. — E eu sou Siehiffar Monm... ou apenas Sieh. — senti sua proximidade, e isso me desestabilizou.
Havia, de fato, poder em sua crença — um tipo de poder que não poderia coexistir com a daemoniss que eu era, que eu me tornara, que sempre seria rejeitada pelo Deus Maior. Caminhei para os umbrais principais da alcova sacrossanta e, sem olhar para trás, sem proferir uma única sílaba de adeus, fui embora.
Havia uma dor em mim, que não doía... e uma desesperança tão amarga, que não amargurava... havia uma verdade apenas, dentre tantas, a única que me conduzia diante da solidão eterna: Eu não pertencia àqueles que seriam salvos, e eu não era mais humana.
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…