Lôbrego Pássaro

Virente alfombra, um manto surreal | Curvando nas estantes, relva e flor, | Abaixo d’um solar transcendental, | Um flúmen próprio rega o esplendor; ...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Virente alfombra, um manto surreal 
Curvando nas estantes, relva e flor, 
Abaixo d’um solar transcendental, 
Um flúmen próprio rega o esplendor; 

Ouvindo um canto lôbrego e sublime 
Por entre livro e arbusto, eu o encontrei, 
Um preso negripúrpuro —  ó crime! 
Com asas, sem voar… eu lhe afaguei; 

Cantava como a morte e igual a um flúmen 
Corvino, longa crista, formidável! 
Porém, nos olhos úmidos, um lúmen; 

Narrou-me: “Será que há de ser curável 
As úlceras d’um’alma encarcerada? 
Se livre, verei a vida obliterada 
Ou sonho de fortuna venerável?”... 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Lëvri

Azul luar, amor d’um vil talvez… | Eterno sussurrar-te, adocicado… | A tua natureza e profundez, | Paixão de meu desejo delicado…  

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Azul luar, amor d’um vil talvez… 
Eterno sussurrar-te, adocicado… 
A tua natureza e profundez, 
Paixão de meu desejo delicado…  

Detrás d’estranha máscara senti,  
Envolto a mil segredos, segurava 
Buquê de níveas flores, assenti 
A dança carmesim que me aguardava; 

Após minha loucura angustiante: 
Um vínculo febril, um deflorar 
Vultoso em seu valor, e mais: errante! 

Verdades desvelara sobre o amar 
Que súbito se instaura livremente 
Até o lembrar da rosa, sutilmente, 
Fazendo um vil segredo me afastar. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 4: Medos e Fraquezas

O céu era de uma profunda escuridão estrelada. Eu estava próxima de um arvoredo denso cujo negrume das copas, banhadas pelo caráter do infinito acima…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O céu era de uma profunda escuridão estrelada. Eu estava próxima de um arvoredo denso cujo negrume das copas, banhadas pelo caráter do infinito acima, se condensavam em sombras oscilantes. Eu parecia só, embora uma presença se manifestasse próxima, como se contemplasse cada um de meus movimentos. Eu colhia flores de um azul límpido e fosco que envolvia, em arbustos pequenos, os arredores daquela floresta. Ao meu lado, e carregado por mim conforme eu caminhava para um pouco mais adentro da balça ou para os lados onde mais flores assomavam, um cântaro. Eu estilava as flores dentro do cântaro com água límpida, uma infusão lenta e à frio. Aos poucos, a água que era mesmo hialina, azulescia e ganhava um sabor cítrico adocicado e uma textura encorpada. Embora eu estivesse feliz com as flores colhidas, eu sabia e tinha uma certeza inenarrável de que, mais à fundo naquele balcedo, eu encontraria as melhores flores para a infusão. Era perigoso, no entanto, seria de fato um deleite encontrá-las, pois, através daquela memória, parecia-me se tratar de uma data especial e, por esta razão, eu preparava a bebida. 

Escrever a lembrança não transfere a dor mórbida que atravessara meu cerne mais uma vez. Segurei meu coração pelo toque no tórax, arrastei-me à porta do cômodo para abri-la; meu corpo frêmito suava e a morte parecia envolver a minha alma. Um pânico tétrico conduzia minha visão que se escureciam aos poucos em razão da algia horrenda. Cai sobre o assoalho em um corredor e apenas gritei por socorro, pois, àquele instante, a dor perdurava diferente de outrora, aguda estalando em cada órgão de meu corpo e mais, aturdindo minha mente e mortificando-a. A cada nova lembrança a dor parecia ascender e eu não suportava mais. Fui segurada rapidamente por aquelas pessoas que me receberam com afável conduta, ouvi suas vozes longínquas, como se estivessem no horizonte eterno. “Virëhs nohlom, nohlom virëhs! Nill’aeme! Nill’aeme!” — Ouvi, diversas vezes. Fui levada para fora da casa e uma fogueira pálida fora acendida, a flama crepitante luzia e aquecia meu corpo enquanto a dor perdurava. Envolveram-no em um manto e deram-me um liquor amargo para sorver; tinha notas de cacau e fundo férreo com aroma silvestre. Como um entardecer sereno, a agonia torturante esmoreceu gradativamente conforme sorvia do liquor. Muitos dos residentes quais me recepcionaram desde o início naquela vila, ficaram em volta da fogueira e olhavam-me atentos. 

Te sentes melhor? — Dissera a mesma voz feminina, era ela a que me acomodara naquele aposento. Movimentei-me a cabeça para concordar com sua indagação, falar era-me árduo demais. — Algo insalubre deleita-se sinistro em tua alma, jovem... — Senti seu toque em meu rosto. — Estás febril... — Ela olhou para um dos outros. — Somme Glizullahs aelim. — Proferiu a ele, aquilo o fizera levantar-se rapidamente e adentrar uma das casas próximas; parecia ter sido ordenado a fazer alguma coisa. Assim, portanto, o silêncio abrandou a todos e a mim; ouvia grilos pela floresta ao redor da vila e outras criaturas cujos sibilos eu não saberia identificar. Alguns dos cidadãos, mais aliviados, assaram alguns frutos à chama tórrida enquanto conversavam entre si naquele idioma pulcro. Quando o horror cessara de fato, aquele que fora embora a mando da mulher retornou com uma cumbuca contendo algum tipo de alimento. — Coma. — Ela dissera. Olhei para aquilo e vi que se tratava das mesmas bagas dadas por Seth, as quais recusei; estavam submersas em um líquido vermelho vivo e acompanhadas por folhas semelhantes ao louro. Degustei sem receios. Era uma iguaria de sangue frutado, agridoce, com uma leveza picante. 

O que é este lugar? — Murmurei, todos me ouviram e silenciaram. 

Estás em Séttimor, querida minha; uma vila construída com afabilidade e honra. 

Somos os séttimôros! — Afirmou alegre uma das crianças próximas, parecia não conviver tanto com o meu idioma, mas o compreendia em certo nível. 

Sou Liliana. — Ela tinha parte do rosto ausente, como se nunca tivesse existido. Seu olho direito, no entanto, reluzia vítreo e seus longos cabelos brancos eram finos, esvoaçantes e ondulados. Impressionei-me com suas vestes, tecidos costurados entre si, em tons prateados. Pormenores quais só pude observar naquele momento. Todas as meninas e mulheres se vestiam de maneira semelhante; os homens e meninos possuíam tecidos menos prateados e com nuances em carmim escuro. Também usavam cortes diferentes, mais leves que os femininos. As roupas indicavam parte crucial da cultura da Vila, eu acreditava assim; eles se complementavam, davam-me essa certeza tão somente ela forma como se comportavam. 

Obrigada por tão gentil acolhimento, Liliana. Receio não poder apresentar-me com meu nome, pois, perdi minhas memórias e não me reconheço mais naquela que fui... porventura nem mesmo nesta que sou... — Liliana sorriu, ternamente, tocou-me as mãos aquecidas. 

Deve ser, então, o exato momento de resignificar-se a si mesma, minha querida. — Ela disse e suas palavras, desde então, colidem em minha consciência.  

Posso ficar aqui? — Pedi com a voz embargada. Liliana expressava uma mansidão magistral. 

Adoraríamos que pudesses ficar, no entanto, tu sucumbirias ao Paradoxo da Atemporalidade em, pelo menos, algumas noites. — Explicara. — Sei que pode parecer confuso, no entanto, desde que o primeiro séttimôro encontrou os arredores do Castelo Drácula e de lá, do Castelo, foi expulso; temos lidado e aprendido com o Paradoxo que existe pela ausência de tempo e de espaço. 

Percebo haver algo estranho, de fato, com o tempo deste lugar e em como tudo acontece rápido em demasia ou tão vagarosamente quanto a eternidade... 

Sim. Dentro do Castelo, querida, a Magia de Olga Nivïttz protege seus residentes do Paradoxo, no entanto, aqui fora... — Liliana respirou fundo, parecia pensativa. — Aqui não há proteção. — Doeu-me ouvi-la amargurada. 

Olga pareceu-me tão cortês. Por que ela os expulsa do Castelo? Deixando-vos ao léu dos perigos insalubres? 

Ela decerto tem suas razões, querida virëhs. Sabemos que somos diferentes dela e de todos os residentes do Castelo, algo sobre nós deve estar guardado nos arcanos da Magista e de seu fiel Conde. — Pensei, silente, sobre as informações compartilhadas. — Não se martirize. Agradecemos por viver em Séttimor. Criamos nossa verdade, nossos rituais, nossa existência; nada disso aconteceria se estivéssemos no Castelo. 

Olhei ao redor; aquelas pessoas com rostos vazios e, por vezes, fumegantes como se exalassem a névoa que envolve toda a Séttimor. Elas pareciam bem. Guiadas por uma fé resoluta e uma paixão pela existência; eram criaturas únicas, com ensinamentos insondáveis. Por instantes considerei morrer pelo Paradoxo em nome da sensação agradável e sombria de pertencer à Séttimor. 

Tu precisas partir. — Ouvi. A voz era masculina, vinha de um séttimôro que se aproximara de nós. Ele tinha apenas os lábios em seu rosto, e escuridão mórbida. Esvaía de seus poros a névoa cinérea; o fumegar era fúnebre. — O Nevoeiro Ramoso está se densificando e pode prender-te em Séttimor por longas noites. — Ouvi e voltei-me ao olho vítreo de Liliana. 

O Castelo é um claustro sem fim, abismal e vazio; suas entranhas ludibriam, iludem os sentidos, atormentam a alma... — Confessei em lamúria. 

Tens muito a viver e desvelar no afligir das paredes de pedra do Castelo. Não temas, tens a força para enfrentar o que quer que cruze o teu caminho. — Expressara Liliana, com intensa cordialidade. 

Temos recebido muito visitantes nos últimos dias, parece-me que uma transição percorre aquele lugar. — Expôs o homem. 

É verdade... Lëvri fora o último, antes de ti. — Senti minha garganta fechar ao ouvir aquele nome — Buscava por alguém, por isso nos encontrou.  

Lëvri? — Indaguei com a voz falha. 

Sim, tu o conheces? Buscava por Ennehris, vociferara pelo nevoeiro o nome dela, ouvimos daqui; até que o encontramos, estava exausto pelo que o Paradoxo causa, a desorientação, a vertigem. Tentara dizer detalhes sobre a moça, sua aparência e roupas que usava, no entanto, sufocara-se em demasia no nevoeiro e foi levado por Szënin até o Castelo. 

Sim, eu o levei. E creio que devo levar-te também. — Disse o homem. Szënin. Eu estava, intimamente, perturbada. Saber de Lëvri... saber que ele me procurava fez minhas emoções irromperem em um declínio amargo e solitário; apenas dentro de mim, uma sensação que corrompia, uma saudade que me atristava. “Gostas... minha Ennehris... que eu faça... devagar?” — Lembrei. Descansei minhas pálpebras, ocultando meus olhos por segundos infinitesimais. Revivi o seu toque, seu afundar-se em meu oceano íntimo; seus lábios, sua voz... e a extensão da sua natureza, o ímpeto, a voracidade da sua sede... o cuidado comigo, terno e caloroso. Lëvri... com a Rosaemori tatuada em suas costas. Meu corpo respondeu à lembrança, senti-me tórrida e lânguida; e olhei de novo para a flama da fogueira. 

Seus olhos... avermelharam-se como mágicos quartzos! Nunca vi algo assim! — Ouvi de Liliana que expressava em sua fronte um assombro e um encantamento. Todos ali sussurraram ininteligíveis palavras, espantados como Liliana. Levantei-me, retirando a manta de meu dorso. 

Devo ir... e vou só. Agradeço o cuidado, Liliana. E agradeço o alerta, Szënin. Reconheço toda a recepção que tive em Séttimor; não me olvidarei de vós. 

Não olvidaremos de ti, querida. — Liliana levantou-se, abraçando-me cautelosa. Ela tinha um aroma de Lycoris radiate. Algumas das crianças expressavam tristeza; todos pareciam apreciar visitantes como eu. Almejei morrer em Séttimor, no entanto... Lëvri... eu precisava vê-lo outra vez e se a morte era inevitável, então que ela me coroasse com a sua presença excelsa quando, pelas mãos de Lëvri, eu me embebedasse do fluído bruto da Rosaemori. 

Encarei, então, a nívea e silente névoa; vi Liliana cada vez mais longe, erguendo-me sua mão em um gesto de adeus. E vi todas aquelas pessoas com seus rostos vazios, tomados por um tipo de abandono, sensação que permeava meu coração igualmente. Caminhei cada vez mais à fundo na palidez e, em seu interior, eu vi estranhos ramos brancos e secos que se espalhavam ao derredor e se movimentavam como se vivos, respirando. “O nevoeiro não é apenas um fenômeno natural, senhorita. Esteja atenta. Ele conduz a sua mente e corpo, ele evoca o horror da sua própria alma. Não pare, siga sempre adiante, mesmo se ouvir uma voz familiar. Siga sempre adiante.” — Essas foram as palavras de Szënin e embora sua expressão fosse menos afável que a de Liliana, ele igualmente se preocupava comigo. Mantive suas recomendações em minha consciência e jurei que veria Seth personificado, no entanto, ele estava ausente; sua voz abissal não penetrava meus pensamentos desde nosso desentendimento. Esperei-o, portanto, para me defender daquela sinistra palidez; nada acontecera. Os males narrados por Szënin pareciam, naquele ínterim, uma lenda e nada mais. Contudo, em meu peito, uma solidão mórbida enraizava-se. 

Os ramos brancos aparentavam, cada vez mais, como árvores e, em seus galhos eu via cordas negras. Andei sem parar, todavia, a névoa tocava minha tez e, por meio dela, parecia alcançar a minha alma; fui imersa, sem que eu pudesse me resguardar, na solidão obscura, enquanto todas as cordas negras cingiam-me o pescoço, chamavam-me sem um único som. Se há ninguém neste antro, se estarei na eternidade isolada; por que viver? — eu pensava, uma conclusão que não parecia vir de mim mesma. Um bálsamo de infelicidade e melancolia, esmorecimento insistente; a certeza do perpétuo exílio no intermúndio de minha essência desfigurada por tantos acontecimentos e mistérios. Desejei envolver aquelas cordas em meu pescoço e cair no abismo que tanto harmonizava-se com o meu imo. Avancei sobre todos os ramosos esquálidos e inclinei-me sobre seus vértices almejando rasgar minha tez e sangrar até a morte; por átimos ponderei sobre a vida detrás do fim, se eu encontraria Lorrt e se, lembrando-me de tudo, por fim, o amaria de novo. Arrancaria do peito o que dói, destruiria minha maldição que, mesmo maldita, não se manifestava ali — abandonara-me igualmente, eu sentia, tal como a vida e tudo o que eu mesma sou. 

“Estou aqui” — ouvi, não era uma voz humana; não se tratava do abismo de Seth. Senti o tênue dilatar de minhas pupilas e foi naquele único momento que cessei meus passos. As palavras constituíam-se de um tipo de sibilar, um sonido etéreo e melódico. “Quem és?” — questionei sob um encantamento que quebrantara todos os meus mais tetros horrores. Quando fitei as cercanias em busca da origem daquele som, notei as paredes de pedra, o Castelo Drácula estava logo à frente e a névoa já dissipava. Senti que estava, de novo, como dona dos meus pensamentos e aquela mórbida angústia passara como o dia passa e a noite se achega trazendo quietude. Respirei fundo e adentrei, mais uma vez, aos umbrais daquele lugar. Um remanso em meu ser, uma certeza estranha de que aquilo que proferira as palavras de presença, é a chave para o sossego da minha conturbada existência, no entanto, naquele átimo frágil, eu estava apenas cingida pelo silêncio absoluto; e a poeira rarefeita, as luzes trêmulas e a solidão perpétua. 

Vaguei pelos claustros e cômodos, guiando-me pelo que já conhecida daquele lugar. Indaguei-me se aquele rapaz, sorvido pelos meus lábios... aquele cujo sangue vertera inocente... estaria vivo. Compreendi a necessidade de encontrar Lëvri outra vez e confessei ao próprio âmago dorido que a esperança de revê-lo era intensa e pulsante, porém, não com Seth. Embora Seth estivesse ausente. Era-me estranho não tê-lo sussurrando em meu crânio; despida da tua incorpórea maldição. Assim que encontrei o meu aposento, percebi que a solidão se estendia por todo o cômodo, densificando o ar. Era noite e as estrelas lá fora reluziam longínquas. Retirei as vestes pálidas e, nua, caminhei à banheira de marfim. Imersa na mais límpida água cujos sais adicionados aromantavam como flores em um campo veranil, relembrei tudo o que se tornara memória àquele ínterim. Eu odiava estar só, percebi; um ódio que conduzia minha angústia e transfigurava-a em profundo poço insalubre. Ao menos o banho revigorara minhas energias e vesti-me para poupar a pele da frígida noite, mas, eu não pude permanecer naquela alcova lânguida. Retomei a caminhada pelos passadiços e aposentos até encontrar o mais belo lugar naquela mórbida residência: a biblioteca. 

Embora o meu intuito estivesse enraizado em meu corpo, evitei pensar diretamente a respeito, pois, decerto Seth não teria esvaído como se nunca tivesse se envolvido, de alguma forma, com Lahgura e, portanto, comigo. As portas abriram-se rangendo e vi, logo à frente, um quadro de um homem. Parecia-me familiar. Aproximei-me com a sutileza de um felino e vislumbrei a tinta à óleo e os traços marcantes daquela face masculina. Possuía cabelos grisalhos, como a barda; tinha belos olhos azuis e uma postura imponente. Desejei querer me recordar, no entanto, estando tão só, tive medo da dor. Então caminhei pelos corredores mais escuros, onde livros mais empoeirados e pesados jaziam sôfregos e silentes. Li dezenas de títulos, acreditei no abismo da minha esperança de que, decerto, eu encontraria um livro, apenas um, dotado do conhecimento preciso para destruir a minha maldição — seja o que fosse preciso sacrificar em nome da magia mais oculta e perigosa. Foi então que eu o senti; sua mão gélida em meu pescoço, virando-me contra ele na penumbra sombria. Minha tez fez-se uma voragem de arrepios súbitos e quando vi seus olhos azuis brilhando na escuridão, eu temi; o medo mais pulcro da minha alma. 

Hum... — Ele gemeu. Segurei seus braços na tentativa de fazê-lo parar de me sufocar, embora um pouco de ar conseguisse fissuras para encontrar meus pulmões oprimidos. — Confesse, minha bela Aesatt, que sei as faces da tua judas-pretensão. Protejo-te nas trevas quais sou rei e morro co’a tua afável gratidão… — Sussurrou, irônico. 

Seth... — Tentei falar, no entanto, a voz espargia fraca. Ele trouxe meu corpo para perto dele, ainda segurando meu pescoço; seu semblante de ódio estava próximo e sua feição segredava rancor, eu pude sentir. Então, devagar, sua mão tornou-se menos agressiva e seu olhar fitara meus lábios. 

Exorcizar-me... que plano fascinante... — Ouvi-o com sua voz símil aos oceanos mais profundos. Sua mão deslizara para minha nuca e fez oscilar minha estrutura. — Ah... se eu pudesse... — Murmurou, ainda encarando meus lábios e estando, pois, com todo o seu corpo justo ao meu.  

O que? — Ousei questioná-lo em sussurro e vi seu sorriso nascer como o cume de uma adaga no dorso, atravessada. 

Curiosa... — Sua mão reteve meus cabelos, puxando-os para baixo; com o impacto, meu queixo se ergueu e eu ouvi a risada de Seth; sombria como ele. Logo depois, a mesma feição de rancor, ainda mais intensa. E ele me olhou por algum tempo, em silêncio. Suas mãos deslizaram mais uma vez, uma ao torso, outra à cintura; e senti seu hálito até, por fim, a névoa negra da sua ausência abrupta. O exílio em seu eterno retorno — talvez a minha verdadeira calamidade. Meu corpo, trêmulo; meu desejo, atiçado — e nada além, nada mais. Apenas a mudez do ambiente crepuscular. Suspirei... e sentei-me à poltrona mais próxima. Odiei-me por desejá-lo e por, vítima da minha compulsão por um significado fora da minha genuína aflição, não conseguir suportar mais uma dose de soledade. Uma dose era suficiente para me embriagar. 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Tempus Fugit III

Alguém verá esta noite, que estrelada, | A sós vislumbro em toda a imensidão? | E mesmo que a perceba agraciada | Compreende seu sabor de solidão? …

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Alguém verá esta noite, que estrelada, 
A sós vislumbro em toda a imensidão? 
E mesmo que a perceba agraciada 
Compreende seu sabor de solidão? 

Alguém, sentindo a aragem tão sutil, 
Enquanto a escuridão é mui soturna, 
Talvez encontre lá, sentidos mil, 
Os quais estão, p’ra mim, na fé sonurna... 

Ó, quanta vastidão, do firmamento, 
Assombra, pois, infinitesimal, 
Mui faz do meu haver — triste relento; 

Soterro-me em vazio adagial... 
— O sopro d’uma vida passadiça — 
Andar errante à sombra fronteiriça 
Das horas no relógio arterial. 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Fragmentada

Estás n’est’alma lôbrega tão minha, | Resides ou, quiçá, no corpo meu? | Silente agora, vens cruzar a linha | Que tênue marca em mim o sangue teu? 

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Estás n’est’alma lôbrega tão minha, 
Resides ou, quiçá, no corpo meu? 
Silente agora, vens cruzar a linha 
Que tênue marca em mim o sangue teu? 

Sondando n’estes livros, no ancestral, 
Quaisquer dos mais vis ritos, pois confesso 
Que estar em fragmentos e imortal 
É mórbido p’ra mim… horror excesso! 

Escreva, minha bela Aesatt, que sei 
As faces da tua judas-pretensão; 
Protejo-te nas trevas quais sou rei 

E morro co’a tua afável gratidão…” 
Irônica a tua voz grave a verter, 
Escuto e então silente faz-se ser 
Por noites… Seth… volta, maldição! 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 3: A Natureza do Ser

Lancei-me contra as sombras do corredor, apressei cada um de meus passos enquanto minha mente atordoada se alimentava de sua própria angústia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Lancei-me contra as sombras do corredor, apressei cada um de meus passos enquanto minha mente atordoada se alimentava de sua própria angústia. Covarde. Vi o lume lunar se extinguindo e o silêncio se aguçando como o adentrar no fundo de um oceano mortal. É assim que farás justiça em nome de teu único amor? De algum modo inexato, tracei o caminho ao meu aposento, embora o Castelo parecesse um labirinto. A aragem soprava uma mórbida invernagem e conduzia, com sua extensão bizarra, todo o meu terror. Quanta tolice. Atravessei os umbrais semiabertos, e vi, como outrora, o meu leito. As sete vozes do abismo permaneciam, enquanto meu coração era um frenético pêndulo. Volte e acabe com isso! Em alguma instância, as lágrimas passaram a liderar minhas emoções. “Silêncio! Silêncio!” — Bradei, em busca de serenidade. Ele é mais forte, ele vai te encontrar. Eram límpidas e douradas, pois vertiam e desciam pelo meu rosto, a nascente de meus olhos, contornando meu queixo e morrendo na curva de meus seios. Então vi a cor. E vi que também ruíam coralinas. A morte dele seria um alívio. Vesti-me em busca de aquecimento e considerei cavar o túmulo de minha solidão perpétua. Todavia, eu não partiria antes de reter a minha missiva, decerto que possuiria valiosas verdades acerca de meu passado. “Lëvri… por quê?” — Pensei, ele não saía de minha mente. Traidor facínora, esqueça-o! Não havia escolha, era preciso encontrar Drácula. 

Amável Áurea, teu semblante plácito incita minha esperança, aquém da morte encarnada, corroendo minha existência. Não conto com a tua lembrança, porque sei que Pherhesí, se mal manipulada tal como fora, poderá resultar em angústias de inominável poder. Perdoe-me, minha dócil, perdoa este que amou a tua humanidade e tirou-a de ti sem considerar as consequências. Não sei no que te transformaste... e anseio, com tudo o que há de mais humano em meu cerne, que sejas uma nova Illitan e que possas recomeçar a nossa raça em nome de quem sou, aquele que te amou e há de amar-te além-vida. Não anelo, sob o estado em que me encontro, considerar o pior. Áurea, amante minha, dulcífera criatura; encontre a quem amar e, se fores Illitan, dê à luz. Se não o fores, te recordes do último Illitan, honre meu nome à posteridade, de alguma forma. 

Sinto a morte em minhas entranhas, ela é lenta e profunda; como um invadir de raízes dentre as minhas veias, alimentando-se do poder que me faz ser quem eu sou. Quão amargo não mais dar-te um primogênito; tampouco a pequena cabana aos pés da neve, com o oceano mórbido ao horizonte. Eu sinto muito. Ao despertares, não te aproximes desta belíssima flor que vês em meu peito, reluzente em carmim, com pétalas abertas como um lírio e outras semifechadas como as rosas mais sublimes, não toque nas raízes âmbar, tenha cuidado com os espinhos. Um toque bastará para que o veneno lhe adoeça à morte sôfrega. Fuja, Áurea minha, e agora que não mais lhe posso privar do hediondo saber, tenha cautela... e não pise, em hipótese alguma, seja o que for ou quem for que te guie, no império de Krvier, tampouco pelas terras de Vonssihren; vá para as Ruínas e em algum lugar de lá, crie seu próprio reinado. 

A carta terminava com palavras ininteligíveis enquanto minha astenia súbita se alastrara por todo o meu corpo. Lorrt morrera, decerto, enquanto redigia; sua dor parecia atravessar meus ossos e o papel em minhas mãos tinha aroma de sangue. Quando a li, fui soterrada por uma tortura pontiaguda no coração, agulhas abruptas no âmago meu, entre lágrimas e temor — era insuportável. Prostrei-me, de joelhos, na alfombra de algodão sob meus pés e desejei a morte para ser digna do descanso eterno, sem as vozes abíssicas, sem a dor da lembrança, sem tudo o que parecia compor minha desgraça. Naquele recôndito, nenhuma luz lunar reluzia nas janelas; a noite, na verdade, parecia-me outra e essa confusa sensação temporal, atordoava-me. Só pude retomar minha sanidade, quando o mal que me doía destilou-se e o vi em névoa cinérea pelo lado de fora do Castelo, através dos vitrais semiabertos. 

Illitan era a raça vampírica de Lorrt e seu falecimento acontecera durante, ou talvez depois, do ritual de transmutação vampírica — o qual me fez o que sou. Os Ohrmons, decerto, foram os que o mataram, como na visão que tive, vampiros da raça inimiga, com seus olhos negros sem esclera; eu jazia inconsciente em meu leito naquela noite ao lado de Lorrt, no entanto, não em completude, pois a dor mórbida que tomara meu corpo advinha da lembrança do momento em que os Ohrmons invadiram o local e vi Lorrt matar um por um até ser infectado pela Rosaemori no movimento último de um dos inimigos. O amor acima de sua própria vida. Ainda não compreendo a totalidade do que é a Rosaemori e o porquê ela existe, mas sei que um dos Ohrmons possuía uma adaga dourada imersa em seu veneno, ele a fincou, por fim, em meu único amor. Parte da revelação da carta fora dada a mim por meio de Lahgura, tudo fazia sentido. Quiçá, portanto, ali naquele Castelo misterioso, residisse a última vampira da raça Illitan — assim o compreendi. Notei, pela missiva de Lorrt, o quanto isso tinha valor para ele; lutou até o fim para não extinguir a sua raça e pensou nisso até o último instante de sua trágica morte, encorajando-me a procriar para dar à luz a novos vampiros de sua estirpe. O amor abaixo do curioso egoísmo de promover o próprio legado?  

Embora eu lembrasse, por fim, de nosso vínculo, de seu heroico cuidado sobre meu corpo inerte naquele leito e de toda a sua nobreza; nada confortava meu espírito. Quando tive em mãos o papel, observei-o com longa demora, hesitei em lê-lo, pois, este desconforto enraizara-se desde que deixei Lëvri e fui guiada pelo cântico sombrio. “É parte de quem tu és, Ennehris; não temas a tua história” dissera Olga Nivïttiz. Fora ela quem me encontrara à esmo pelo Castelo, em busca de Drácula; sua feição era bela, como uma impactante mulher; tinha olhos de um azul pálido e era plácida como as nuvens de verão, carregava a carta em suas mãos enquanto andejava à minha procura — embora eu tenha pressentido o saber dela acerca do local em que eu estava naquele momento; a mulher que emanava algo obscuro e oculto — o que desejei não saber a respeito — tinha um tipo visível de elo com cada parede de pedra a nos cingir; cada vela e candelabro; cada escuro canto; ela parecia dominar as sombras e as luzes, e o fremir do silêncio. Seu sorriso singelo, ao fitar-me sob intranquilidade, aqueceu-me um pouco, na frialdade do meu amargor. Apresentou-se, formal e afável. Não a interroguei sobre o local, meu desgosto e confusão mental em razão daquelas mórbidas vozes deturpavam minha racionalidade e impediam-me de tomar as decisões mais corretas. Porém, tive a calmaria de ser convidada por Olga a recorrer ao seu aposento caso eu precisasse de quaisquer favores e esclarecimentos, assim, em razão do convite, não me senti na obrigação de prolongar, naquele átimo, a nossa conversa. 

Todavia, quando a dor cessou e a solitude beijou novamente os meus lábios; uma das mórbidas vozes, única e mais grave, em meu sepulcro mental, antevira um instinto obsceno que eu jamais vivenciei; ecoou em meu crânio enquanto minha visão se encarnava. Sangue... Sangue... Sangue... Tudo, as tapeçarias, as pedras, o mobiliário do aposento; tudo era puro e negrume rubi, a cor mais vermelha e sanguinolenta que um dia imaginei existir. Senti-me sufocada, com todos os sentidos atormentados e, com uma sobrenatural rapidez, uma célere e monstruosa cinesia, tracei os claustros e passagens do Castelo Drácula, abandonando a carta que, até o momento que decidi abri-la, não a havia soltado. Aos meus ouvidos conduzia-se, tão somente, minha respiração afoita, meu coração pulsante frenético e o silêncio sombrio da minha sede. Temi a morte, no ápice da agonia. Então, n’uma caça qual nem eu mesma compreendia, avistei um homem adentrar um cômodo há pouco mais de dois metros de mim. Segui-o lentamente e vi-me transfigurada em sombras que tomavam cada canto daquele aposento, conduzindo o olhar do rapaz a um semblante de insegurança. 

Não é uma dádiva a memória daquele momento, confesso que desejava esquecê-lo de modo integral, pois, a agressividade do que me conduzia e a visão encarnada trouxera-me uma estranheza medonha, um horror íntimo que só pude notar no fim, quando se dissipou. Até lá, no entanto, eu era apenas um títere escoltado pelas mãos do instinto daquilo que me tornei, refém do meu próprio poder. Uma vampira... obcecada pela seiva acerejada... doce liquor da vida humana. Consegui obscurecer todo o ambiente e ainda não era vista pelo jovem que estava cada vez mais amedrontado, embora sua feição não transmitisse horror em si, mas sim um encanto imerso em medo e angústia. Eu vislumbrava-o, cada artéria de seu corpo, cada veia; sua pele parecia translúcida e seu coração estava tão convulso quanto o meu, eu o sentia. Da névoa negra dissipando, fiz meus olhos serem vistos e, depois, meu corpo. Não sei como eu estava, contudo, através daqueles olhos por detrás dos óculos de grau, aquele rapaz avistava uma mulher sedenta e desta maneira, ébria e ávida, aproximei-me de seu corpo humano, ele não se afastava de mim, estava sendo conduzido por algo meu que eu mesma desconhecia. De perto pude ver um brilho pulcro em suas retinas, e as pupilas dilatadas e trêmulas, em estado de transe. 

Então toquei-lhe o rosto empalidecido, descendo minha mão pelo seu pescoço viril enquanto fitava seu sangue ardente, quase fulgurante ao meu olhar, esplendoroso e acelerado. Aquele homem exalava vida, um tipo de vida que eu não tinha mais. Sei que o sorri naquele momento, porque mesmo dominada pelo inferno da minha condição, eu ainda era eu. Segurei sua cintura, lentamente; e próxima, por fim, de seu pescoço, finquei-lhe meus dentes que afundaram em sua carne sem dificuldade; o tórrido líquido entornou-se pelos meus lábios, inundando minha garganta gélida. Sorvi de seu éter com uma morosidade diabólica... embriagava-me em exultação perniciosa... e senti a estrutura física de meu mártir vibrar, ele gemia, lamúrias baixas, murmúrios de pavor e deleite. O licor vital escorria, traçando curvas pelo meu queixo e pelo corpo de minha vítima, manchando sua camisa branca, eternamente assinalada por minha atrocidade. Pouco a pouco a visão carmim se extinguia e eu voltava à sanidade, o suficiente para parar o meu ato e olhar para o corpo pálido daquele rapaz inocente. Seus olhos se fecharam devagar, eu não o havia matado, no entanto, retirei de seu corpo parte de sua vida, o qual carregarei para sempre em mim, mesmo que de modo tão simbólico. Deitei-o desacordado na cama, beijei-lhe o rosto frígido. “Eu sinto muito...” — sussurrei e olhei-o mais uma vez para, por fim, fugir. E fugi para o mais longe que pude, sem saber o que me esperava fora daquele lúgubre templo de morte. Corri na mesma urgência de outrora, quando dominada por minha bestialidade, e vi as torres altas do Castelo transmutarem-se, pouco a pouco, a um horizonte de névoa erma. 

A cinérea bruma era densa, turvava-me o senso de direção. Caminhando com cautela, perscrutei o silêncio e a palidez anuviada, uma cerração quase tangível que, de forma sutil, pressionava minha alma, oprimia meu espírito, imergia-me na insólita sensação de dissipação existencial. Com delicadeza e, sobretudo, lentidão; a névoa parecia desgastar minha pele, mesmo não havendo nenhuma mudança visível; da mesma forma, conforme meu caminhar se prolongava sob a tortura daquele fenômeno, ouvindo corvos no horizonte, fui submetida a uma queimação, como o fumegar de meus órgãos e um fervilhar de minha seiva, embora o crocitar doasse-me tenra esperança por existir, naquela vastidão nuviosa, algum tipo de vida além da minha. Ainda assim, era um cruel suplício onde meu único alívio advinha do absoluto silêncio das sete vozes do abismo. Não sei, contudo, por quanto me inundaria de paz aquele vazio, pois um sonido fantasmagórico preencheu a falta de minha maldição e parecia-me sussurrar o inaudível, símil à chuva e à respiração ecoante, no longínquo e, ao mesmo tempo, ao meu lado. Um medo aterrador ascendeu meu pânico à uma fobia de toda aquela ausência de visão, contornada pela névoa, minha respiração tornou-se ofegante e comecei a correr outra vez até ver tudo lentificado, como dezenas de espectros no meu olhar, embaçado e tardio, completamente turvo e confuso. Assim caí de joelhos no que me parecia restos de uma densa floresta, com flores e folhas secas. Busquei pelo ar, mais e mais, toquei meu torso, como que para segurar meu coração que, estranhamente, parecia parar, embora continuasse pulsando. 

Quando ouvi passos, temi em maior aterramento e olhei na direção do som. Mais passos. Por todas as direções. Mais e mais passos. Ofegante, estremeci em um horror conturbado, mas não havia força alguma em meu corpo, não havia como esgueirar-me dessa vez. Pensei em toda a culpa que carregava e supus ser o meu carma por sorver, sem permissão, daquele sangue. Então fui pega por criaturas com faces sombrias, pareciam humanos, pareciam pessoas com feições distorcidas. Demorou para que eu pudesse vê-los de fato, pois, toda a minha visão tornara-se palidez pura, enquanto eu me conduzia apenas pelos sussurros da névoa. Como fluíam as coisas... há pouco devorando uma frágil criatura humana, sendo apinhada de energia e poder sobrenatural, tendo em meus olhos encarnados o luzir da glória, o sabor quente do sangue nos lábios e, logo depois, ser a presa da densa névoa, uma vítima da natureza insondável daquele lugar. Não havia quaisquer possibilidades diante do que eu sentia, em meu peito havia, decerto, um relógio e, naquele instante, não só estava em perpétua paralisia, como duplicava-se e distorcia-se adulterado e violento — e triste, lúgubre, toldado de sua própria existência. 

Quando restaurei meu precípuo sentido, enxerguei incontáveis casas em uma longa estrada de pedra. E vi mais daquelas pessoas com rostos estranhos, elas atentamente curiosas ao meu respeito, traziam consigo itens, dentre eles mantas, cálices de frutas. E notei casas com luzes trêmulas, das velas em castiçais de prata. Fui carregada a um dos lares, sendo posta em uma cama com frondosas cobertas cujo tecido assemelhava-se a um veludo estufado como um pedaço de algodão puro, conduzia um calor próprio; muitas as vestes daquele povo assemelhavam-se a este tecido, intrigava-me, porém, seus semblantes deformados e toda a sensação que transmitiam: pacificidade, solidão; um laço que os envolvia, a cada um deles. Os que me carregaram, prostraram-se diante meu corpo deitado, colocando artefatos e frutos trazidos pelos demais — alguns eram jovens, lembro-me de ver uma pequena criança carregando um frasco em suas delgadas mãozinhas. 

Trhe eroen virëhs! Eroen, eroen riamn! — Dissera o mais próximo de mim, pude confirmar a grafia de suas palavras a posteriori. Todos se retiraram do quarto e, daquele que permanecera, senti suas mãos tocarem minha fronte. — Ficarás bem, descansa-te. — Sussurrara, era uma voz feminina e o toque feminil fora tórrido e esmerado. Vi-a deixar o aposento, acendendo algumas velas apagadas pelo movimento fora do comum e fechando a porta em seguida. Som algum ressoou-se no perpassar dos instantes, inclusive deduzi que dormiam, quando os ouvi, ao que parecia, beijar seus rostos, eram como uma família, e repetiam a frase: “Nouen ehelun”, silenciando, todos eles, no suceder, quando lá fora, no nevoeiro, a noite se achegava — via pela fenestra diagonal do meu atual recanto. Assim que pude retomar a sanidade, sentei-me no leito e bebi da frígida água deixada na moringa sobre a mesa de canto próxima. Era água e não duvidei que seria; algo naquelas pessoas transmitiram-me profunda confiança, ainda que o terrífico de suas faces me assombrasse. 

Dessarte, na penumbra, o calmo cuidado deixado pelos residentes, metamorfoseou-se na mórbida sensação de abismo, onde o medo e escuridão são as veredas por onde posso me orientar. Olhei à direita e vi mãos masculinas segurando bagas de um pequeno fruto de envoltório negro, como uvas ou mirtilos, porém maiores. Fitei, por fim, a face do indivíduo, possuía uma aparência adônia com olhos azuis, conspícua expressão, sem embargo ao seu tenro sorriso pontiagudo. Vestia-se de um negrume noturno, roupas de inverno intenso, embora não pesadas e em cortes oblíquos; assemelhava-se a couro, no entanto, não reluzia como tal. Diferentes os que me receberam, os que pronunciavam palavras de um idioma ancestral, este, em evidência, era como eu e não pertencia àquela cultura dos que não possuíam faces completas. Indaguei-me no súbito momento se, por acaso, tratava-se de um vampiro. Hesitei em pegar o fruto que me oferecia, pois, sua aura era funérea e instável. 

Não temas teu Arcanjo, bel donzela.Voz de voragem, tom cruel; dúbia existência indigna da minha compreensão. Hesitei em respondê-lo. Levou uma das bagas à sua boca, mastigou-a com elegância, deixando as restantes sobre a ânfora destinada a frutas. O homem — se era mesmo um — sentou-se à cadeira de balanço, próxima à porta, e fitou-me pacífico, ainda, todavia, obscuro. 

Quem és tu? — Fui obrigada a questioná-lo. 

Tua maldição. — Respondera intenso. Confundi-me por instantes. — Ou apenas Seth, se preferires. — Decerto demonstrei ainda mais do conflito mental, o distúrbio da incompreensão, pois que ele, Seth, ajustou-se em seu acento, olhando-me fixamente — Sou teu Arcanjo, Áurea. Destinado a impedir que quaisquer males afetem a tua preciosa existência, pelo preço de conduzir tuas ações com as sete vozes do abismo, as quais são minhas, como podes notar. — De fato, sua voz era familiar, embora mais grave. Respirei fundo, olhando para a janela, indagando-me o porquê de todas as coisas. Senti-o se aproximar. Sentou-se ao meu lado, em meu leito aquecido. Olhei-o. 

Então te personificas humano... e, pelo visto, sabes tudo sobre mim. Andas, como a hialina aragem e estás ao meu lado como um gárrulo das sombras. — Ele sorriu, parecia mesmo um Arcanjo, dada a beleza viril que o preenchia da pele à barba rala, das veias aos olhos, dos poros à totalidade.

Não. Geralmente estou... dentro de ti. — Silenciamo-nos por um tempo. 

Há como revogar minha aspiração? Olvidar todos os horrores, tal como outrora? 

Não, Áurea... Lahgura é uma perversa magista, manipula suas vítimas com maestria. 

Serves a ela, pelo visto, Senhor Arcanjo; tendo o trabalho norteado como uma tábula resignada, obrigado a fenecer ao meu lado a favor da minha existência. 

Errado, que previsível... — Olhei-o com mais atenção, seus olhos reluziam gentis, mesmo e apesar de seu poder ocultista e de sua ironia. — Existo dentro da tua alma... e corpo. Sinto o que tu sentes, ouço o que tu pensas... Tua morte, portanto, significará a minha. Não conheço todo o poder de Lahgura, tampouco sei como é possível que ela faça o que fez. Mas sei que estou vivo agora, através de ti. 

Se te personificas, por que não te ausentas do meu corpo? Se não tens vínculo com Lahgura, por que apenas não cala as tuas vozes abissais? — Outro sorriso, dele para mim, e um apoiar-se na cama, como se a ela pertencesse. 

Tua inocência pode acabar com a nossa vida. — Seth aproximou-se súbito, segurando meu queixo e respirando próximo de meus lábios; meu assombro despertou o que outrora estivera conduzido pela estranha vertigem e nada mais. — Não tenho elos com Lahgura, mas tenho contigo. Personifico-me, todavia, como a noite se afasta sob o alvor do sol no horizonte, não sou capaz de permanecer fora de ti por mais do que algumas horas. — Explicou, retirando sua mão de mim e voltando à cama, apoiando-se. — É isso que sei, pois sinto; é o que determina minha existência. 

A consciência assimilada cingia-me sem pressa e o delíquio ascendia como o frio. À minha visão, um homem denominado Seth cuja personificação de minha maldição o significava, sendo, mais do que isso, uma criatura codependente de mim; convencida de suas palavras, lidava com a sensação de inabalável descrença, uma dualidade que me machucava — confabulado sobre Arcanjos, temia que ele fosse, em verdade, um demônio e, sendo um, dominador assíduo da mentira à vista disso. Silenciada, busquei refúgios em mim, esquecendo-me que a ele pertenço e provando do acre sabor dessa maldição ominosa. 

Áurea... — Fitei-o, odiava ouvir-lhe chamar-me pelo mesmo nome que Lortt em sua missiva inestimável. Prensei meus dentes como fuga do meu ódio. — Eu sei o que sentes... e o que pensas... — Reforçou, em razão de todas as verdades desveladas. Ele se levantou e tão logo senti sua mão em minha nuca, forçando-me a levantar. Assim pude notar sua estatura alta, ele não estava comprimindo o meu pescoço. — Irrita-me teu ódio contra mim, eu que sou o teu defensor; enfurece-me ouvir estas tuas afrontas silentes que atravessam meu crânio! — Seus olhos estavam ainda mais azuis e sua voz mais grave do que antes, seu rosto era como a noite mais mórbida dos mais medonhos pesadelos. — Tu achas que não estou sob a lôbrega coerção das tuas vozes abissais enquanto te vitimizas da maldição que tu escolheste? — Seth segurou meus cabelos com mais intensidade, aproximando-se de novo da minha face assustada. — Eu... diferente de ti... — Sua voz abaixava tanto que trazia o timbre do inferno, eu sentia fremer minha alma ao ouvi-lo. — Não tive escolha. 

Então, seus olhos que eram azuis começaram a empalidecer e sua pele translucidar. Todo o seu corpo tangível transfigurava-se em um fantasmagórico organismo etéreo e aquilo, como um tipo denso de névoa, penetrava meus olhos, boca, narinas e ouvidos. Doía em minhas veias, sim, cada artéria por onde deveria correr a minha seiva humana. Eu o sentia por todos os meus músculos, pele e carne; um tipo de energia corrosiva, súbita e poderosa. Quando findara, tudo o que ele era já não estava ali — ao menos não personificado; contudo, no meu âmago, eu sentia o peso da sua existência, ascendido de forma desmedida se comparado com antes de conhecê-lo, quando era apenas sete vozes e não Seth, o Arcanjo. A intensidade fora tão insondável, que caí sobre o chão de madeira, batendo minha cabeça sobre a mesa de canto e, com isso, derruindo a ânfora no chão. Vi seu quebrantar, estraçalhado; e a água vertendo nas curvas naturais da madeira. Algo naquela cena, em seus detalhes exíguos, despontava reminiscências próximas à minha consciência. 

 

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Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Seth

Orquídeas negras tecem a ninguém, | Silêncio aveludado no jardim, | Apresso-me temendo vir alguém | Desperto pelo horror do olor carmim;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Orquídeas negras tecem a ninguém,
Silêncio aveludado no jardim,
Apresso-me temendo vir alguém
Desperto pelo horror do olor carmim;

Perfiz todo o balcedo estéril e vi
A névoa cinerária se achegando,
Tão tácita espargia — eu m’envolvi…
Sua lôbrega humidade circundando;

Desvelo, cinza e triste vilarejo,
Porém, ao meu espanto, flama à vela
E o som d’um tragimorbo realejo…

Vertigem brusca, bagas de Glïzehla
Nas mãos de humana tez, viril demônio,
Semblante tão terrífico em adônio — 
Não temas teu Arcanjo, bel donzela”.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Promessa de Solstício

Amado, esta invernia quando vem, | Na tua serenidade apaziguante, | Almejo o aconchego que nos tem | Somente em nosso leito lacrimante;…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Amado, esta invernia quando vem,
Na tua serenidade apaziguante,
Almejo o aconchego que nos tem
Somente em nosso leito lacrimante;

No peito teu deitar-me aquecida
E penso: a eternidade fulgurante
Protege nosso amor e faz da vida
Promessa de um só vínculo constante;

Tu me és tenro perfume de memórias
Em tanto formidáveis, por cuidado,
És lume, amor, p’ra toda a nossa história…

Segredas-me que estás propositado
A ouvir-me parolando as minhas juras,
Zelando, assim, sereno a mi’a candura…
Promete sempre estar, pois, ao meu lado?

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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O Sobrado Do Meu Avô

A casa do meu avô não possuía nada em sua aparência que tendenciasse quaisquer amedrontamentos da minha parte ou da parte de qualquer indivíduo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A casa do meu avô não possuía nada em sua aparência que tendenciasse quaisquer amedrontamentos da minha parte ou da parte de qualquer indivíduo. Era um sobrado bem bonito, no que diz respeito ao seu esqueleto, porque, por dentro, tinha quase nada; a casa não estava terminada tal como o planejado, faltava as mobílias sob medida, faltava o gesso nas paredes pintadas de branco. A casa era bem clara, tudo meio minimalista. A porta do meu quarto, por exemplo, só foi colocada após umas duas semanas em que eu estava morando lá. Uma porta comum de madeira leve. Com este cenário, eu não imaginava que vivenciaria situações de terror durante minha estadia, a qual durou bastante, visto que morei na residência durante quase toda a minha graduação.

Tais momentos terríficos, no entanto, não foram extremos — talvez, se o tivessem sido, teriam criado menos traumas. Parece-me que situações de horror que confundem nossa mente e perturbam nossos sentidos de maneira tênue têm um impacto gigantesco em nossa vida, mais do que ver o próprio demônio em pessoa. E assim foi com a casa de meu avô. Era um sobrado grande e, por vezes, eu ficava sozinha em seu interior, dado que meu avô trabalhava de madrugada junto com meu tio — eles mudavam de horário a cada temporada, no entanto, a maioria das vezes estavam trabalhando nas madrugadas. Na época em que me mudei eu estava prestes a completar dezoito anos e por lá vivi até os vinte e um. Como mencionei, as situações bizarras não foram descomunais; contarei as mais importantes apenas para que você compreenda a tensão que vivi em certas situações, algo que não se repetiu quando me mudei para minha atual residência. 

Ao chegar no sobrado, eu ainda possuía uma dificuldade que desenvolvi na infância, tratava-se da dificuldade de dormir de costas para a porta do quarto. Isso acontecia porque, entre meus seis a dez anos de idade, eu sentia continuamente uma “presença” atrás de mim quando eu passava pelo corredor da casa da minha avó — a qual morei quase toda a minha infância e adolescência. Isso se transformou nesse temor de adormecer com as costas desprotegidas e, ao contrário do que eu imaginei, a sensação piorou quando me mudei para a casa do meu avô. Para contextualizar melhor, esse sobrado ficava no interior de São Paulo e era do meu avô por parte de pai, enquanto minha casa na infância era de minha avó por parte de mãe.

Não considerei esse receio uma problemática do local, mas não pude deixar de perceber que havia se acentuado. Mesmo com a porta trancada, era extremamente angustiante adormecer de costas para ela, aquela “presença” era insuportável. Como eu já era mais adulta do que criança, acabei me condicionando a não sentir aquilo, desviava a atenção, dormia com travesseiros ao redor e acreditava profundamente que se tratava de uma fantasia da minha cabeça. No entanto, houvera outras situações perturbadoras, uma delas foi sentir a presença na sala de estar enquanto eu usava o computador principal da casa. Eu estava sozinha e conversava com um amigo pelo aplicativo de mensagens online quando percebi que alguma coisa estava estranha naquela noite. Eu lembro que o escrevi: “Estou sentindo um tipo de presença estranha atrás de mim”. O computador ficava em um móvel encostado na parede da sala e, atrás de quem o utilizava, ficava a porta de entrada da casa e a cozinha que não possuía porta. Bem como o lavabo do pequeno corredor e a porta do quarto de hóspedes — que na época, meu avô que usava.

Eu olhava para trás e nada via. Não havia ninguém além de mim. Estava tudo aceso, todas as luzes; e as portas estavam trancadas — todas as portas. Além disso, eu mantinha a televisão ligada, para fazer algum som e me dar a sensação de companhia, uma vez que a casa era profundamente silenciosa. Mesmo assim, aquela bizarra presença, naquela noite, foi aterradora. Tentei, mais uma vez, acreditar que era coisa da minha cabeça, mesmo sabendo que a tal “presença” só era perceptível quando eu me deitava na cama de costas para a porta do quarto ou quando eu passava no corredor da casa da minha avó, eu nunca a havia sentido assim, enquanto estava em um cômodo comum. Lembro que meu amigo me respondera: “Pega o sal” e eu dei risada, embora ele parecesse falar sério. Depois entendi o poder do sal para afastar maus espíritos, segundo algumas religiões esotéricas. Mas, como já mencionei, eu tentava não acreditar no que eu sentia, eu tentava com bastante afinco. Mesmo assim, naquela noite, deixei o sal por perto.

Outra vivência estranha fora de um sonho perturbador que nunca esqueci. Sempre fui muito sonhadora, isto é, até hoje tenho dificuldades de dormir por hiperestimulação da minha mente; tenho contínuos sonhos lúcidos com dezenas de histórias longas e personagens quais parecem completamente independentes de mim, como se fossem mesmo filmes passando pela minha cabeça. Não era diferente na época. No entanto, por alguma razão, de todos os milhares de sonhos e pesadelos, aquele sonho em específico, ficou marcado para mim. Nele, eu saía do meu quarto e tudo estava bem escuro; descia, então, as escadas devagar e, quando chegava ao último degrau, com a visão perfeita da entrada do sobrado, do arco da cozinha e de parte da sala de estar; eu via uma criatura grotesca com cabeça de boi e olhos vermelhos; olhando fixamente para mim. Estava em duas patas, quando, para um animal, deveria estar em quarto. Era gigantesca e, sinceramente, só de me lembrar já me dá um profundo desconforto. Alguns dizem que este símbolo, o boi, poderia ser um alerta de situações difíceis a serem enfrentadas no futuro, como um aviso do inconsciente. Eu não sou supersticiosa, também não sou religiosa; mesmo assim, levando em consideração tudo o que vivi naquela época, até que faz sentido esse significado.

O sobrado possuía um sótão, subíamos até ele por uma escada comum de alumínio, aquelas clássicas escadas de construção ou de trabalhos elétricos. Não possuía nenhuma barreira, era um buraco quadrado no teto do quarto do meu tio e você podia subir por essa escada que ficava ali. Meu tio usava o sótão com frequência para jogar RPG. O problema é que aquele cômodo ficou sem porta por longos meses e aquele maldito buraco escuro no teto do quarto dele me amedrontava. Por isso eu mantinha a luz acesa, de todos os aposentos; e todas as portas que existiam se mantinham fechadas — quando eu estava sozinha na casa. Esse buraco no teto era perturbador; diversas vezes sonhei que algo mórbido saía daquela escuridão do sótão — algo que eu não via, mas sentia; e eu evitava subir lá. Talvez você questione ser, tudo isso, fantasia de uma mente criativa e, bem, se hoje sou escritora de terror, decerto que tenho uma mente criativa; mas essas situações que vivenciei, tenho certeza, foram culpadas de minha inclinação para esse tipo de escrita sombria.

Com o passar dos meses e dos anos, meu quarto era o único cômodo em que eu não me sentia mal. A sensação foi aumentando de forma absurda, então eu passava quase todo o tempo fechada no meu quarto e evitava ao máximo todos os outros cômodos da casa, em especial à noite. Era um incômodo espiritual, diferente de um medo qualquer, mesmo com as luzes acesas, mesmo com outras pessoas presentes. Depois de um tempo outras pessoas vieram morar na casa, aí deixou de ser mal-assombrada e passou a ser mal-frequentada rsrsr. Brincadeiras à parte, eu nunca esqueci nada disso e me pergunto até hoje o que significava tudo aquilo e porque só eu parecia atormentada por tais sensações bizarras. Sei que pode não parecer tão terrível, porém, para mim, era sufocante e até hoje, sempre que sonho com a casa, é um pesadelo. Hoje mesmo, só estou escrevendo isso porque tive um. Eu estava gravando um curta-metragem, eu parecia morar na residência. Tudo estava muito escuro e eu gravava, falava com a câmera. A casa estava diferente, mas era ela, era o mesmo sobrado.

Todavia, ao descer as escadas, eu retornava para o mesmo lugar da casa em que eu estava. Era sem fim. Como um espaço liminar. Eu descia e estava sempre naquele pequeno hall entre o quarto que era meu, o que era do meu tio e o que se tornou o quarto do meu avô. Então, no sonho, no quarto do meu tio havia, digamos, uma pessoa esquisita, com olhos fundos, uma feição macabra como de um psicopata. E ele chegava cada vez mais perto de mim. Essa pessoa tem nome e face reais, ela existe, mas não a mencionarei aqui por ser, afinal, um relato real da minha experiência e, portanto, essa pessoa pode facilmente ler o que escrevo e se identificar com as situações narradas. Por hora apenas posso dizer que o indivíduo era tão bizarro quanto no sonho que tive e ele estava sempre por perto, parecia um abutre — como sempre pareceu, só que pior; então, além das paranormais sensações da casa, eu ainda tinha que lidar com um tipo de stalker impertinente que tinha acesso à casa e, sinceramente, era fácil ter acesso àquele sobrado, porque na época nem a porta da frente era trancada — passou a ser trancada comigo. Estou feliz por hoje não viver mais lá e me apego às boas lembranças para que essas coisas ruins não sobressaiam. Pelo menos, tenho histórias para contar.

Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 2: Abíssicas Escolhas

Embevecida pelo silêncio dos sonhos mais profundos, tudo se externava em suavinura. Andejei sob infinda serenidade por dentre um substancial…

Embevecida pelo silêncio dos sonhos mais profundos, tudo se externava em suavinura. Andejei sob infinda serenidade por dentre um substancial jardim de raras e inigualáveis espécimes florais — as quais eu parecia conhecer tão bem. E a crepuscular solitude felicitava minha alma dulcificada, enquanto no horizonte as cores tórridas se esvaneciam e o sol se amainava conforme a aragem soprava a noite fria. Cessei meus passos e olhei para trás, avistei um colossal castelo; à vista de meus olhos oníricos, a vida exalava de suas entranhas. Cada janela um tremeluzir se via, dos lumes das velas nos castiçais; cada torre ornamental, esculpida como se a mãos, por um único artista, quebrantava os céus, e protegia-me. O alcácer era incomensurável, havia um reino em seu âmago, preenchendo todas as suas terras. Era um lar, tinha alma de lar — como eu queria me lembrar. No entanto, sob a gana de alcançar a memória, desadormeci... e a luz azul-pálida tocara minhas pupilas, vinha da estranha lua túrgida visível das fenestras daquele aposento — em uma delas, uma silhueta viril eu avistei; ele admirava a beleza invulgar do índigo anoitecer perpétuo. 

Ainda vestida em escarlate, reconheci o desvario daquele outrora quando os rostos eram terríficas cenas por espelhos fincados em seus semblantes. Lembrei-me de minha angústia, da dança macabra, do mórbido pavor. Contudo, indagava-me há quantos dias este baile acontecera e por quanto tempo residi em ilusões inconscientes. Quem trouxe-me aqui? Decerto aquele homem aguardava-me, talvez tenha salvo-me de meu delírio. Era imprescindível vê-lo, inestimável agradecê-lo e, sobretudo, reconhecê-lo. No entanto, aos meus lentos movimentos, passos serenos, não pude abandonar o lumiar lunar cujos tons níveo-cerúleos expandiam-se pelas trevas n’um azul-mar-abismo. As cores moldavam meu espírito e manipulavam minhas emoções e sei disso, pois ao que revelava meu despertar sonial, transmutava-se a realidade em outro sonho, capaz de extasiar tanto quanto. Assim, conforme me aproximava daquele homem, em desejo frígido — o suficiente para queimar —, eu me envolvia. 

Sentes-te melhor, mítica dama? — Dissera, com seus olhos voltando-se a mim, belos olhos enegrecidos, com escleras igualmente negras; eram como duas helleborus lihri-nocturnus, flor sempre adornada por uma essência invernal. Tal espécime é um cruzamento bastante peculiar entre o heléboro púrpura e o Lírio do Nilo, por isso tem a cor roxa profunda que, aos olhos, assemelha-se a um preto intenso. Um tênue sorriso ascendi ao homem misterioso e reconheci seus lábios, eram os mesmos daquele que me convidara para dançar na fatídica noite. Lëvri... eu me lembro. Lëvri levantou-se, portanto, segurando uma de minhas mãos e beijando-a, amoroso. 

Temo não ter despertado ainda. — Ele sorriu à minha resposta. 
A noite é o mistério índigo dos teus olhos rubros... ou, devo dizer, áureos? — Sua expressão encarava-me com uma virilidade instigante e, sob a estranha noite, eu sentia florescer em meu corpo a frenesia mais pujante. 

Não sei ao certo... não posso olhar para espelhos. — Revelo, ainda incerta; com a reminiscência dos fragmentos espelhados nas faces sangrentas dos convivas do baile. Turvei-me um pouco diante do lembrar e vi a rapidez de Lëvri para segurar meu corpo instável. Olhamo-nos como falésias à escuridão oceânica. 

Frágil... doçura pálida... por que enlevas a escuridão do meu universo com tua alma de Ennehris? — Ele ajuda-me a sentar na poltrona que outrora ele se sentara; sem que seu olhar esvaísse do meu. Pus-me sob a mais intensa luz lunar. Lëvri semi-ajoelhou-se em minha frente. 

Ennehris? — O fitar sedutor metamorfoseou-se em afabilidade. 

A história de Ennehris... Deixe-me contar-te... — assenti — De nome Ennehris, a estrela mais fulgurante do firmamento, tão mais que o sol, porém, longínqua. E de todas as longínquas, Ennehris, inestimável, é sempre a realçada na lúgubre antemanhã. Estrela-fascínio, mentora nas trevas daqueles que caminham ou navegam à noite. Alguns juram tê-la visto descer dos céus, para guiá-los com sua apaziguadora voz. — Segurou minhas mãos nas suas e, seguindo em silêncio, tocou-me a face gélida. — Disseste-me não saber teu nome, porventura esta seja a razão... estrelas da imensidão nunca sabem seus próprios nomes. — Sorri-lhe, pois, quão cativante as suas palavras se proferiam. 

Ah... que formidável seria ter este nome... 

E tens... — Lëvri levantou-se e, segurando-me, levantou-me envolvendo seu braço em minha cintura. — Ennehris... — Seus olhos negros fitavam meus lábios. — Hum... Posso ver... — Dissera-me ao voltar-se aos meus olhos. — Rubros outra vez... — A maneira como Lëvri estonteava-me era inenarrável. Todo o meu corpo respondia ao seu toque, à vivacidade de uma paixão lôbrega nos poros de minha tez. — Teu enigma confunde meus princípios... 

Lëvri... — Murmurei, ocultando-me nas minhas pálpebras fechadas, buscando as sensações do tato, as mãos dele em mim, seu hálito tão próximo de meu rosto e todo aquele palor lunar, induzindo-nos. Senti-o tocar minha nuca com a calmaria dos mais brandos mares. E beijei-o sem que as tristuras, tão humanas, me acovardassem. O beijo de saliva afrodisia, ardente mesmo que fôssemos tão álgidos; e seu sondar em meus cabelos, soltando-os, envolvendo-os para meu delírio íntimo, entre sussurros ininteligíveis. Lëvri pegou-me, à sua força vigorosa, levando-me para a cama onde veemente era a penumbra. Deitou-me, gentil; e toquei em seu torso, passando meus dedos dentre os botões de sua vestimenta, sentindo-o arfante. As veias de seu corpo, em especial em seu pescoço e fronte, avultaram-se de modo significante e seus olhos tornaram-se ainda mais escuros. 

Ennehris... — Soprou Lëvri, sensibilizando com seus lábios o que se enunciava da curva de meus seios por causa do corset e, enquanto seu semblante afogava-se ali, tateei as veias de sua fronte com a ponta de meus dedos. Quão ansiosa eu estava... dentre o índigo sombrio, o predizer soturno da lua plangente; minha alma condenada ao prazer inefável a desprezar quaisquer conjecturas da razão. Lëvri beijou-me voraz, pegando-me o corpo, levantando-me suavemente ao passo em que se mantinha no beijo vesano. E senti suas mãos desatarem os laços de meu corset que se fez tão logo afrouxado e, hábeis, suas mãos vieram a deslizar, com apreço, as mangas de meu vestido, resvalando pelos meus braços. Neste ínterim, pude vê-lo outra vez, sobre mim, livrando-me do vestido, devagar, beijando cada espaço pequeno da pele que se revelava. 

Esculpida... em perfeição... — Ouvi-o dizer, ao olhar-me os seios soltos e despidos. Logo, as veias de seu rosto pulsaram, em plenitude visíveis, e ele parecia sentir dor, pois abaixou sua face, franziu a fronte e fechou seus olhos negros. 

Lëvri? Estás bem? — Indaguei em completo receio, uma preocupação genuína. 

Sim... — Sua resposta não me agradara, mas ele voltou a me olhar, tocando meus lábios com seus dedos. — É apenas... a minha natureza... — Disse em seu tom mais grave. Degustei de seus dedos e o ouvi gemer sem distinguir se era a sua dor ou seu prazer, pois eu sabia que seu corpo sofria pelo desejo. — Tua enseada... há de acalmar... a minha nau... — Murmurou, e toda a minha enseado fez-se o mais bravio oceano. — Venha... — Fui conduzida por suas mãos e, como se dançássemos, Lëvri pôs-me em pé, perto de nosso leito, o vi deitar-se em seguida, ordenando-me que permanecesse de pé, e na cama ele se pôs de modo que pudesse avistar-me por completo. — Desvista-se para mim... 

Naquele instante, parecia que o palor da lua túrgida me tocava de fato, senti o tato de seu lume misterioso pelo meu dorso nu. Olhei para os vitrais abertos, mas neles não me demorei. Com a lentidão de minha inocente lascívia, retirei aos poucos a minha vestimenta, exibindo meu corpo para Lëvri e vi minha sombra azul-escura tateando os lençóis daquela cama, os quais eram negros e possuíam uma maciez de lanugem, além de uma sutil transparência. Então, como uma escultura de gesso, eu estava nua e Lëvri semicerrava seus olhos, fechando seus punhos enquanto suas veias pulsavam por sua face e pescoço, cada vez mais animalesco. Assim, mais cuidadoso que outrora, ele se levantou para tocar minha nuca e beijar meus lábios. A brisa da noite anil arrepiava minha tez e conduzia a invernia por cada poro. 

Álveo ninho... deitei-me sobre a lanugem negrume, colocada, novamente, pelas mãos firmes de Lëvri. E o vi-o tocar suas roupas... após fechar-nos no dossel que ilusionava aos nossos olhos uma suave névoa ao derredor. — Feche estes teus pulcros olhos rubros... minha Ennehris... — Eu estava atenta, ele percebera... eu estava atenta ao seu movimento e àquilo que eu veria por detrás daquela indumentária escura. Todavia, fui privada por aquele momento, hesitei em obedecê-lo. — Ah... sim... tua curiosidade... — Lëvri tocou-me os lábios outra vez... — Antes de vê-lo... tu sentirás... em ti... — Fremi e sei que gemi, ocultando minha visão e sentindo Lëvri se aproximar... sua respiração ofegante e o seu, agora, estranho calor. Ali, na penumbra em índigo poder, o corpo de Lëvri sobre o meu e o toque de sua rigidez... tão perto. — Sinta... assim... devagar... 

Todo o seu teso viril, firme adentrara-me pouco a pouco e... eu o senti... em toda a sua extensão consistente... dilatava-me à margem de uma leve algia, no entanto, o prazer se ressaltava para mim e meu corpo tremia, tanto que meus olhos se abriram e meus lábios se entreabriram, e vi evaporar dos olhos vis de Lëvri um fumo umbroso, o qual eu respirava, pois estávamos próximos. Respirá-lo trazia-me vertigem, como um elixir fumegando e tendo suas essências difundidas. Tudo o que cruzava minha visão vinha zonzo, letárgico... e a penetração parecia tocar-me o ventre... eu lacrimejava. — Tão... fundo... — Sussurrei. 

Eu posso... regressar... — Disse-me, com uma voz bestial, embora fosse ainda a sua voz. 

Não... — Quantas intensas e antagônicas sensações, eu não poderia abdicar delas. — Quero... me sentir completa... — Ao revelá-lo meu anseio, embrenhou-se rígido ainda mais em mim, onde a gruta inundada sofrera estendida e contraída. Fui tomada por um tipo assombroso de energia que me convulsionava. Lëvri movimentou-se, então, n’um ir e revir de anômala rapidez e os sons que emitia, gemidos e sussurros de dor vinculados à extrema luxúria, ampliavam meu delíquio pelo vapor negro de seus olhos. As veias de seu avultoso poder, dentro de mim, estavam igualmente protraídas, tal como em seu pescoço e face... era um deleite senti-las em minha arculva. Todavia, Lëvri estava cada vez mais instável; sua cabeça se movia célere o tanto que sequer eu a compreendia, em determinada hora, quando aquela alcova parecia mais brilhante, como se a lua tão cheia excedesse no infinito a sua luminosidade, senti o aroma se sangue esvair pelo seu corpo, mas eu estava tão enervada... 

Por... favor... — Implorei e isso o fez amansar em segundos. 

Estou... hum... Ennehris... estou ferindo-te? — Senti-o acariciar meus cabelos, preocupado apesar de sua... natureza. 

Não... eu... — Era tão difícil proferir quaisquer palavras racionais. — Sinto-me... eu não estou... — Seus movimentos diminuíram, embora penetrasse compassado. Então suas mãos tocaram minha garganta e pressionaram-na para cessar minha respiração. Pude vê-lo outra vez sem desanuviar a imagem, pois não mais inalava a insanidade da sua aura sombria. Isso recuperou um tanto de meu vigor o que me levou a contrair meu interior; rapidamente Lëvri soltou-me, respirei apressada; seus olhos de escuridão fitaram meu espírito. 

Gostas... minha Ennehris... que eu faça... devagar? — Ouvi-o, embriagada. Meu sorriso o respondia que sim, envolto aos meus gemidos acentuados. — Agrada-me teu riso pulcro... doce... longânime... — Segurei-o firme, no intenso êxtase, arranhava-lhe as costas a cada aprofundar de seu plenitúrgido em mim e, assim, em certo instante, eu nada via além de meu abstrato prazer, um regozijo lascivo excelso atravessava-me violento vibrando minha alma, carne e pele. Então, pacifiquei-me, e ainda de olhos fechados, senti se entranhar em meu ventre um tórrido néctar, como um caule de Nelumbo Nucifera, e em meus ouvidos disseminaram-se os murmúrios sombrios de Lëvri, os quais me fizeram abrir os olhos. O seu corpo deslizara para meu lado, em nosso leito, e apreciei todas as veias negras desaparecerem lentamente, na imensidão do que vivíamos, pela natureza dele e a minha. Lëvri fitou-me em seguida e afagou meu rosto, deitei-me em seu peito sob seu chamado. 

Adormecemos juntos sob o esotérico luar, abraçados como eternos amantes, todavia, amanheci outra vez, acredito que em poucos instantes depois, pois a imensa lua alumbrava da mesma forma. O que me levara a avivar meus sentidos fora um cântico mágico, o qual me guiara, em estranha curiosidade, para os jardins secos do inverno lá fora. Lëvri se mantinha na profundez de seus sonhos soturnos. Caminhei descalça, em níveo damanoute, pelo álgido índigo, sem me importar, pois, o cântico era como um encantamento que me protegia da friagem hedionda. “As sombras e o silêncio guiarão. A luz da tua memória ofusca o ouro. O escuro abraçará teu coração. Recorde estrela mítica, tesouro. Teus olhos brilharão, rubáurea rara.” — O cântico entonava em uma língua estranha, mas eu compreendia. 

Um lago, de águas em tom azul-claro, avistei, e o vocalizar vinha de seu interior. Era uma queda-d'água, esplêndida por não estar congelada diante tais baixíssimas temperaturas. Em seu envolto, flores azuis bioluminescentes e altos pinheiros sombrios. Havia também pedras cinéreas a cingi-lo, como uma mágica fonte termal. No meu achegar, a neve deslizara das nuvens lívidas da imensidão anil-umbrosa, numa nevada de flocos tenros, no entanto, o Luar mantinha seu reinado poderoso. Assim me aproximei do lago envolvente e pouco a pouco fui reconhecendo aquela voz feminil... era a minha voz, fleumática como a neve que pendia na aragem. Ajoelhei-me sobre o pálido manto macio e fitei o interior do lago. O que vi não fora o meu reflexo, mas sim o de uma criatura símil à máscara que usei naquele baile carmim-dourado. Ali ela estava vívida, olhava-me atenta, piscava e respirava como eu. Parecíamos unidas na fantasia daquelas águas. 

Era um animal magistral. De tez símil a um dragão, de um tom rubinegro que se alastrava acima para o vermelho vivo e abaixo para o preto profundo. Tinha um crânio corvino em osso marfim puro, e grandes olhos dourados. Seu corpo era como o de uma ampla serpente, conquanto rastejasse como uma, por vezes, comportava-se muito mais como um dragão, embora não voasse. Os pormenores de suas condutas não refletiam nas águas, sem embargo e decerto por uma lembrança fidagal, eu os compreendia. Gostaria, porém, de saber ao certo de onde vinha a criatura e qual seria a sua ligação comigo, eu percebia que havia muito dela a colidir com meus momentos desde que despertei, assim como o sangue — o qual me fascinava degustar. Então, como, porventura, Narciso fizera à sua própria venustidade, amantética vi-me no refletir onde a criatura mítica, tão estonteante, aparentava desejar algum diálogo comigo. Toquei as águas serenas, por fim, tão embevecida eu estava com o animal de áureos olhos. 

Resvalei da neve de súbito, imergindo-me na imensidão do lago cerúleo cujas águas eram como um licor de luar e noite invernal, dentro delas, então, havia uma voragem, um infinito de escuridão, tal o oceano pacífico. Completamente imersa. Ouvi o cântico debaixo desse abismo. “As sombras e o silêncio guiarão. A luz da tua memória ofusca o ouro. O escuro abraçará teu coração. Recorde estrela mítica, tesouro. Teus olhos brilharão, rubáurea rara”. Destarte, tão brusco como a queda d’outrora, avistei, assustada, o lago; eu não havia imergido em seu interior e já não havia a criatura mítica no reflexo da fluência das águas encantadas, havia apenas eu; e vi meus olhos, por fim, um em tom rubro intenso e o outro em dourado nitente. Foi nesta surpresa misteriosa que uma voz feminina serena alcançou meus ouvidos, dispersando o ruído do vento; não era mais a minha voz. Olhei na direção da entonação e uma criatura se fez corpórea à minha frente, seduzindo meus sentidos. 

Bem-vinda, alma perdida. — Dissera-me. Levantei-me da regélida maciez alva e fitei os detalhes daquele espírito cuja forma assemelhava-se a uma mulher de longos cabelos brancos; seu corpo era um espectro azul-celeste. Um fantasma, eu diria, translúcido, porém, tangível, ao que me parecia. — Somente as mais pulcras essências são despertadas pelo meu lago. O que buscas, coração ferido? — Indagara com um tom de voz tênue que espargia longínquo. 

Quem... tu és? — Eu estava deslumbrada, cativada e envolvida pela aparição. 

Sou Lahgura, um espírito vilíneo. — Sua voz ecoava, um eco longo e exuberante. — Se posso ser vista pela tua heterocromia, então fui evocada por teu sortilégio... aquele que até mesmo tu desconheces. — Eu não a compreendia, era um ser insigne. Seu esvoaçar aproximou-se de mim, reluzindo em perfeição. 

Tens as respostas que busco? — Tremi pela possível resposta, ciente de que tudo naquele estranho lugar era guiado pelas mãos d’algum ilusionista. 

Posso tê-las... sim... eu sinto a tua esperança. Diga-me, flor pálida, diga-me o que desejas. 

Eu... desejo lembrar... eu... — Lágrimas nasceram em meus olhos ardorosos — Eu gostaria de... estar protegida... como no meu sonhar desta manhã... o belíssimo jardim de raras espécimes... o castelo familiar... 

Pulcra lacrimal, densa emoção. Ouça que tão logo desvanecerei... Eu, Lahgura, concedo-lhe o que vocifera em silêncio a tua tristura. Mas, não lhe posso abençoar sem um preço. 

Preço? Eu... eu... nada tenho a oferecer... — Sua corpórea espiritual tocava minha face, deixando-me aquecida. 

Não peço, gentil languidez, porém, tudo o que te darei trará consigo uma sombra. À memória recordada, virá tua dor a cada lembrar-se futuro. À tua proteção perpétua, virão as sete vozes do abismo. — Ponderei por longos instantes, entendendo a maldição que o enigma daquele ser conduzia. 

Recordarei tudo? Todo o meu passado? 

Singelo ser, a grandeza da penumbra equivale à amplidão do teu desejo... Lembrar-te de tudo o que és, resultará na maldição mais perversa que o esquecimento. 

Então... o que lembrarei? 

Cândida femínea, trar-te-ei uma memória de valor, tua, que precisa com urgência vir à consciência. — A compreensão começava a florir d’um peculiar botão enterrado em minha angústia e regado pelo meu medo. 

Após esta revelação, toda e qualquer outra, trar-me-á dor ao retornar à consciência. Tenho compreendido? 

Sim, vestal. 

E a proteção trar-me-á sete vozes do abismo... elas estarão sempre comigo? 

Virão quando estiveres em conflitos mentais. Entenda que o que sou é uma dádiva e uma calamidade; limiar do infortúnio à benção. Contudo, vejo em tua fronte um poder surreal, lidarás, decerto, com maestria a ambos os horrores. — Silenciei a ouvi-la, ponderando. — Uma única lembrança inestimável será o guia para tua existência e a proteção trará o sangue dos hostis aos teus lábios vampíricos. 

Eu não poderia negar uma lembrança que lumiaria minha escuridão, embora aquele cântico... tão meu... entoando que “As sombras e o silêncio guiarão”. Por que eu diria tal desatino a mim mesma? Nada se vê no escuro, nada que não o temor. Que custosa fora tal decisão, e a tomei antes de articulá-la por fim. E Lahgura constatou. Ergueu suas mãos finas para que as flores bioluminescentes em anil envolvessem-me dos pés aos olhos em suas pétalas que se erguiam sutis, frígidas e vívidas. Rezou Lahgura, uma reza que não distingui. E então eu me lembrei; reconheci aquele que amei, morto pela Rosaemori, da espécie de classe única, veneno ao nosso clã. Presenciei outra vez o sangue flavescente, suas últimas palavras para mim e a crueldade dos olhos negros. Lembrei-me e, quando voltei a fitar o horizonte, nenhum lago permanecera e tudo o que ficara fora o intenso frio e a compreensão amarga. 

Retornei ao cômodo que outrora estive, debaixo do dossel. E vi, tão logo aproximei-me do leito, era Lëvri. Adormecido. E em suas costas, ao meu espanto, porém, previsível em algum nível singular, seu dorso contemplava uma imensa Rosaemori tatuada em sua tez. A rosa maligna. O veneno do clã. E sim, eu o amei, o senti dentro de mim e vi bem seus olhos de trevas. Finalmente eu entendi quem ele era. 

“Mate-o"...“Ele é um traidor”... “Mate-o”...“Mate-o agora!”... “Ele é um traidor”...“Ele está vulnerável”... “Mate-o”...“Não seja fraca”... “Mate-o agora!”...“Destrua-o"... “Não seja fraca!”... “Ele matou seu único amor”... — Ouvi, insistentes e perenes, repetindo enquanto eu fitava o dorso de Lëvri. Eu ouvi... caóticas e intensas; mórbidas e lúgubres... eu ouvi... ouvi as sete vozes do abismo. 

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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Ouvia o sussurrante estridor do rígido inverno e o pálido horizonte nevoado assustava-me em sua imensidão anilada. Estes meus incrédulos…

Ouvia o sussurrante estridor do rígido inverno e o pálido horizonte nevoado assustava-me em sua imensidão anilada. Estes meus incrédulos olhos nunca estiveram de frente a tal terrífica paisagem; tampouco o fremir das ondas sonoras deste estranho sibilar penetrara meus tímpanos alguma vez. No mais longínquo do que eu podia observar, as cordilheiras negras preenchiam uma infinitude sombria e, detrás das nuvens glaciais, havia o sol remoto— eu sei, pois seu reluzir fantasmagórico manifestava-se pelas céleres clareiras repentinas, como rachaduras no céu, eram raras frestas de lume solar, cada vez mais infinitesimais. Facilmente, debaixo daquela intensa nevasca, nada sobreviveria. 

A flama que crepitava na lareira era um vagalume na vastidão azul-grisácea, tomada pelo seu imanente índigo. A madeira da cabana ilusionava-se mais escurecida e úmida, algo deveras insólito; em certo aspecto, parecia envelhecida. Minha percepção era de que a morte, em sua mais bruta manifestação, fomentaria um pavor verossímil à vívida crueldade da natureza climática. Apesar dessa mórbida verdade, a morte era a entidade que espreitava, na sua escuridão, as minhas visões paralelas; como três olhos fundos pelos cantos imersos em um estranho breu, onde a brasa, lânguida, não tateava. Antes do enregelar fúnebre, almejado pelo espectro de Exício que circundava, eu sentia que quando o sopro tétrico do exterior extraísse minha única fonte de aquecimento, o sibilo da insanidade causaria o efeito que narrava em seus decibéis e, então, eu cortaria meu pescoço com a lâmina de tungstênio da minha faca de caça. 

No antro de minha existência, jamais cogitei tal medonha blasfêmia. O sibilo do vento antártico insinuava uma influência perversa, tanto quanto o espreitar da escuridão. A vida, em suas quedas mais abismais, tecera cenários terríficos que assombraram meu âmago, sob angústia e medo, no entanto, jamais ao nível daquilo — e não me refiro ao sopro diabólico da nevasca, tampouco às intimidantes trevas da cabana. Quando já não me era possível permanecer sob a frágil luz da última lenha queimada, protegi-me com o traje adequado, reforçado em razão do nível de horror branco no lado de fora; por instinto peguei alguns itens, como a faca de caça, uma corda, um candeeiro e suprimentos. Meu destino era o casebre da lenha, lar de Gahsper, meu irmão. Não ficava muito longe dali, aliás, deveria ser visível da fenestra do meu quarto, se não fosse o mal tempo. 

Andejar na árdua neve acumulada, com a frígida e impetuosa aragem, assemelhava-se às veredas dos vales das montanhas mais afastadas, as que se enegreciam no horizonte. Tive de armar os báculos para me locomover com mais segurança, no entanto, o casebre de lenha não se desvelava à frente e, em minha análise, nele eu já deveria ter chegado. Quando fitei a bússola estagnada, completamente inerte, entendi que o pressentimento amargo não advinha de uma fraqueza mental, pois algo estava, sem dúvidas, errado; uma aura perigosa cingia-me de modo que, impossível de voltar à cabana para morrer de frio, segui com rapidez arriscada, à frente. Quando encontrei uma poça de líquido vermelho espargido na pálida neve cerúlea, n’uma cor vívida, como se tivesse sido vertido há segundos, empunhei a faca de caça e segui na direção da poça que permeava um corpo indistinguível. Como previ, sangue. O que... aconteceu aqui? E a pobre criatura estraçalhada, decapitada e devorada, era humana. Era Gahsper. Gahsper... 

Nunca senti o tétrico gelar da minha alma, mesmo vivendo há tantos anos em Nehen. Ainda, pelo rosto de meu irmão, assombrado em um pânico indizível, por certo, aquela morte não fora causada por um animal selvagem. Seus olhos estavam arregalados, as pupilas congelaram dilatadas. Nunca esquecerei o seu semblante dantesco, nem o seu sangue vertido — a única cor naquela brancura desoladora. Aquilo era tão obsceno e… pavoroso…que não pude chorar, pois, o temor impedia qualquer alarde emocional e, até hoje, inibe. É verdade que por esta razão, tudo o que escrevo é tão frígido quanto o fenômeno daquele dia; eu não sinto nada além do medo, visceral e íntegro, como uma chama no peito, acesa no perpétuo dos meus pesadelos, incitando-me à lembrança hedionda. A opressão deste pânico silencioso arruinou muito do que havia de contentamento em minha vida, pois me ronda, desde então, aviventando o pavor e a solidão que me residem. 

Retirei a corrente de Gahsper, ela repousava no sangue; observei os arredores e guardei o objeto no bolso. Ainda cogitando voltar para a cabana, olhei na direção do meu rastro na neve, prestes a se perder no nevoeiro de gelo. Então, meus olhos viram o que fez meu coração disparar frenético em um macabro assombro. O sussurrante estridor do rígido inverno expandiu-se agônico de modo que meu crânio padeceu, no imediato instante, de uma dor aguda em cada têmpora. Um homem, é o que ele parecia, em uma nudez dismórfica, estava há poucos metros de distância de mim. Sua pele descamava e uma carne enegrecida e pútrida, mesmo longe, podia ser vista por detrás da cútis. Seus braços eram finos, seus olhos enegrecidos eram como dois poços profundos; havia sangue em seu rosto, mãos e torso. Ele fitava meu espírito como somente uma criatura do inferno poderia fazer. Seus dentes eram afiados, ele possuía vários em sua boca oval, e ao contorno da sua silhueta deformada, uma aura de breu, a mesma da cabana, o cingia. No centro de sua face medonha, havia um terceiro olho n’uma metamorfose bizarra na cavidade encarnada de seu nariz. De todos os orifícios de seu corpo absurdo em bestialidade, um escuro líquido espesso gotejava. 

Eu desviei meus olhos da morbífica criatura humanoide e me apressei, ofegante, entre o sopro terrífico que se difundia cada vez mais violento e a paisagem que se tornava, em segundos, mais pálida. A caudalosa invernia, pela nevasca mais perturbadora que já vi, não cessaria; se aquela coisa sinistra me seguiria, eu não deduzi; ao guia de meu mais abismal pavor, apenas corri como me era possível, afundando na neve já embriagada de seu próprio poder destrutivo. Mas, reconhecia meus limites; do meu corpo a fremer de frio e horror, enquanto a imagem das vísceras de Gahsper vinham à minha mente ao lado dos dentes afiados e dos três olhos repulsivos e lôbregos; lampejos de um pesadelo no qual não se pode despertar. Assim fui consumida por uma ansiedade, talvez pela certeza de encontrar a morte de fato, da pior maneira; talvez porque eu não desejasse morrer, pois que eu amava, no mais fidedigno da minha essência, o poético viver naquela cidade perdida e consumida pela noite. Amava, também, todo aquele continente, pelos trens aquecidos, os quais eu viajava por longas horas e até mesmo por dias; pelos mistérios de seus habitantes que me ascendiam a um sentimento de vínculo profundo que galgava os entraves climáticos. Talvez porque eu ainda não tinha sido amada, tal como fora a minha mãe, pelo meu pai, por mais de cinquenta anos. 

Afundei na neve nívea quando vi no céu as sombras fúnebres perpassarem com a chegada da noite. Ofegante cada vez mais. A escuridão era quase tangível, achegava-se como o vento pujante e se não mente a minha lembrança, a vi distorcer-se em determinados momentos, como se dançasse junto à nevasca, como se fosse sobrenatural. E eu, eu não conseguia correr nem mesmo um metro à frente. Avistei partes de uma torre ao longe, eu decerto estava próxima de um possível abrigo. Era tarde demais, como geralmente é quando encaramos demais o semblante da morte. A visão que antecedera o meu desmaio, fora da plenitude noturna e daquela mesma sensação que tive na cabana… o estranho breu que parecia me encarar com três olhos… ali, no entanto, diferente de antes, eu sabia muito bem que tipo de coisa me encarava daquela forma na escuridão. 

O sopro da morte álgida, em frações de tempo, dissipou-se. O silvo se fez rarefeito, um símbolo à lembrança perturbadora. Meus olhos se abriram com uma lentidão difusa e queria eu ter visto a madeira da cabana e ouvido o crepitar na lareira, estalando a lenha; seria, inclusive, aceitável estar debaixo de um monte nevado, sentindo meus membros necrosarem. No entanto, nada disso era factual. Quando fui capaz de distinguir as sombras no verter do fluído de minhas retinas — as quais, cobertas pelas pálpebras, descansaram sabe-se lá por quantas horas — então, avistei paredes de pedra úmida e ouvi sons de correntes coincidentes aos meus movimentos. O que... o que é isso...? Meu corpo frágil desidratava, olhei em direção ao som ferroso e vi uma grossa argola enferrujada a prender meu tornozelo a uma corrente fundida na parede rochosa. Arfei trêmula, puxando a corrente diversas vezes. Foi em vão. E pairava um contínuo ruído por aquele ambiente sanguinolento, eu ouvia minha respiração cada vez mais acelerada, destacando-se no ruído. Esperei a morte, com duas faces: meu corpo decepado sobre a poça vermelha, como Gahsper, e ser necrosada até a morte pelo frio cruel. Todavia, estava encarcerada; nada do que eu poderia prever. 

Fica... calma... Um enjoo germinou pútrido no meu estômago, decerto ocasionado pelo odor de plasma, de morte, de umidade. Turva, levei minhas mãos ao rosto, qualquer alívio seria suficiente. Então vislumbrei minha possível e única saída, advinha dela uma luz trêmula e fraca de pontos longínquos de luz por um corredor estreito; um lume que permitia as sombras do gradil se propalarem pela minha cela. Nestas grades arqueadas, contudo, um corpo jazia... contorcido. Discerni algumas coisas ao seu respeito, pois, a visão era limitada. Primeiro, o que me era mais inestimável, um molho de chaves esplendia em sutileza, resvalando do bolso do indivíduo; e seu cadáver vestia um tipo de traje específico, símil a uniformes usados pelos Humanos da Ordem, quando se erguia o inverno no continente acima. Era mais que fundamental alcançar o falecido, mesmo que para isso fosse inevitável uma irreparável perda. Não tenho escolha... Então comecei a esticar meu corpo, apoiando-me no chão enegrecido e sujo. Eu sentia a argola enferrujada rasgar a pele de meu tornozelo, um suor intenso escorria de minha testa e o enjoo se intensificava. Eu... me lembro... me lembro do quanto as emoções foram suprimidas e, meu corpo, distendido; lembro da minha carne sendo penetrada por aquele grilhão oxidado, a dor... a dor inominável... e o grito escravizado pelo medo sob as asas da mais verossímil aflição. 

Alcancei as chaves e me libertei das correntes. Mas vi os ossos e tendões de meu calcanhar, tudo esfolado em uma ardência que parecia subir aos nervos de toda a perna esquerda. Aquela cena foi o meu estopim. Regurgitei tudo o que me era possível, à espera de expelir, talvez, minha própria alma. E quando fui capaz de cessar o vômito, percebi o perigo daquela perda excessiva de sangue. Rasguei a roupa do cadáver para envolvê-lo em mim, para extinguir o que vertia contínuo. Retirei do sujeito uma adaga, fincada em seu tórax — algo que vi ao abrir as grades do cárcere. Sim, eu caminhava, lenta e com vívida dor, mancando, decerto e apenas, por causa da adrenalina. O defunto nas grades, usava em sua face uma estranha máscara negra que escondia sua feição, ilusionava estar unificada à pele de seu rosto; de uma estranheza terrífica. Já o corredor, segui cambaleante por sua amplitude, no lado direito cuja luz espargia fraca. Fui buscando uma saída do pesadelo mórbido que preenchia todos os meus debilitados sentidos. 

Subi por escadas longas e vi mais celas e corpos mutilados pelo caminho e era... tenebroso... ainda mais pelo contínuo ruído baixo... como se aquele lugar fosse vivo.... cada parede de pedra... cada sangue jorrado... algum tipo de energia. Dentro da última sala, após me esgueirar por escombros, encontrei um candeeiro e mais uma adaga, a qual, todavia, diferente da anterior retirada do torso do homem no gradil, esta era feita de algum tipo de material peculiar, como um quartzo bem rígido. Subi, portanto, mais uma quantia de degraus e entre o ruído aterrorizante, vozes longínquas passei a ouvir enquanto um cômodo se revelava à minha frente; sua amplitude era considerável e tinha um formato encíclico, nele difundia-se uma luz avermelhada que evidenciava altas estantes cheias de livros e mais dezenas de símbolos estranhos pelo chão e paredes, organizados criteriosamente. Pensei que encontraria a origem das vozes, cada vez mais altas em meus ouvidos como sussurros de morte, socorro e gritos abafados entre palavras indescritíveis. Contudo, ao adentrar de vez pela porta semiaberta e fitar cada detalhe daquela ritualística câmara, nada havia lá dentro... ninguém além de mim... enquanto as vozes tornavam-se verdadeiros bramidos.... Alessia... Alessia... aos meus tímpanos... Socorro... Ajuda-nos... Alessia... Socorro... Ajuda-nos... como se dezenas de pessoas estivessem ao meu redor. 

Choro morbígero, urros bestiais... as vozes cada vez mais altas entre risos distorcidos... Alessia... Salve nossa alma... Socorro.... Enlouquecida, ajoelhei-me no chão, tapei meus ouvidos em busca de alívio, mas... aquilo estava dentro de minha mente... Alessia... inclusive a voz de Gahsper. Entre tantos clamores bizarros, eu o ouvia... Irmã.... fuja... fuja agora... minha... Alessia... Fechei meus olhos, cerrando minhas pálpebras em busca de um despertar. As lágrimas caíam de meus olhos vedados à força, verdadeiras como na infância, quando não se sabe de onde vem a primeira dor sentida... De súbito, porém, entre as frases e gritos desconexos, logo fitei a sala pelo pavor de sentir a presença de outro ser no ambiente... Ninguém... ninguém que podia ser reconhecido pelos meus olhos amedrontados. Comecei a retroceder, tendo aquela presença invisível cada vez mais próxima... arrastando-se contra mim, fazendo-me de imã à sua atroz consciência inominável. Socorro... Cuidado... Morra! Morra! Ajude-nos! Foi... extremamente difícil sair daquele lugar... o fiz com extensa agrura, fechei a porta da sala carmesim e empunhei a primeira adaga de ferro entre a porta e a parede, impedindo-a de ser aberta por dentro. Não importava saber o que havia naquele lugar, mas, decerto, importava-me trancar, o que quer que fosse, lá dentro. 

A insanidade prospera quando o horror irriga o espírito... e nunca sabemos como lidar com tamanho abismo, por isso, somos sorvidos pelo estado catatônico de nosso semblante e pelo instinto à sobrevivência... a qualquer custo... a qualquer preço. Mesmo à parte daquele salão de espectro aterrador, em estado de perturbação, com as vozes já dilatadas, eu corri numa pressa sobre-humana, abrindo todas as portas que via e entrando em todas as salas que eu podia em busca da saída. Corri... sem questionar como... sem sentir nenhuma dor no tornozelo... e encontrei a primeira luz pálida vinda de uma imensa porta meio vertical, em uma cor prata, lisa, com um único símbolo estranho, entalhado no material, algo jamais imaginado por mim ou por qualquer outro ser humano, tenho certeza. Ela estava entreaberta, a fresta de luz também carregava o frio e a nevasca hedionda, a esperança de sair outra vez na densa neve nunca me soou como tamanho alívio e proteção, mas ali me soava. 

Uma sombra, entretanto, parou frente à fissura e ouvi uma voz humana masculina, grave e avultada, proferindo a seguinte palavra: “Ttyrttyuor” — deduzo sua grafia. Sob seu som, a porta cujo lume de seu exterior era minha única esperança, abriu-se em completude de modo a exasperar meus olhos. A palavra era a sua chave. Esgueirei-me em escombros próximos e notei serem duas pessoas, uma delas vestia-se como o guarda da minha cela. O outro sujeito, porém... era uma opaca sombra indistinguível na escuridão, uma silhueta de um homem alto com uma face oculta — não busquei olhar sua face vazia, nem mesmo compreender a sua existência... ele era como a energia pesada daquela sala... sua presença assemelhava-se àquela do cômodo escarlate como se fosse, ele próprio, o cômodo em si. Escondi-me como pude, prendi minha respiração. 

Certifique-se de que todos estão mortos, prenda-os se não estiverem. Estarei no anfiteatro sangrento. — Arrepiava-me ouvi-lo, era temível estar em sua presença abissal. Ainda assim, dediquei-me ao silêncio e respirei apenas quando estava prestes a esmaecer mesmo depois de não sentir mais a proximidade deles, no dissipar daquela energia diabólica. Retornei, portanto, à porta fechada, sem nenhuma fissura de luz; e restou-me pronunciar o que ouvi... e o fiz, em sussurro, com os lábios bem rentes ao símbolo esculpido. 

Ttyrttyuor... — Uma intolerável dor cingira-me repentina, pulsando meu organismo como um pêndulo que se abala, dramático e solene, no antro de uma catedral; e vi minha pele rasgar em inúmeros cortes onde o sangue verteu célere e vigoroso e tomou a forma do símbolo entalhado. A porta se abriu em um segundo posterior e, imersa em pungente algia agônica, corri pela neve... desesperada... sem olhar para trás, com o rastro do meu sangue na palidez e o cruel sopro gelado coagulando, aos poucos, as cissuras da pele. Eu jamais pronunciarei aquilo outra vez... muitos daqueles cortes permaneceram em minha pele... mesmo após tantos anos. E, como se ainda fosse vivido, a energia hedionda daquele homem... daquela sala... afluiu-se pelos poros de minha pele, à minha carne, ossos e sangue vertido... senti perder o controle de minha alma, por átimos de um tempo além do tempo... e quando vi a neve, quando corri para minha liberdade, eu estava... instável... desnorteada e... oca... 

À beira da morte pelo frio, correndo sem cessar debaixo da eterna nevasca, tive a impressão de ser cercada por escuridão, outra vez, a energia... deduzi que era a morte ou a proximidade dela, todavia, a luz retornou às minhas retinas como se cobertas, tão somente, por uma espessa nuvem passageira, então, quando tive de volta a minha visão, percebi haver casas à frente, era uma vila desconhecida; luzes tremeluziam nas janelas de algumas delas, pinheiros indicavam vida aos arredores e, se posso dizer que sorri, naquela condição desgraçada, não estaria mentindo, pois algum tipo de sorriso construiu-se em meu semblante traumatizado quando observei um homem na janela de uma das primeiras casas avistadas e, com minhas últimas forças, levantei meus braços para sinalizar minha decadência, meu pedido de socorro. 

Como está o chá? — A voz de Samael era suave, embora viril como seu rosto. Abriu a porta de seu lar para mim, sem saber quem eu era. Ao ser acudida por ele, tive os cuidados mais inestimáveis; e deitada entre as cobertas tórridas, frente à lareira mais serena, tomei de seu chá de especiarias. Conversamos um pouco, não o revelei minha terrífica história. 

Perfeito... — murmurei, ainda exausta. 

É impossível sobreviver a tal nevasca... o Criador tem planos para a tua vida... tenho certeza...  

Criador? — Eu não entendia, genuinamente. Samael olhou-me atento. 

Tu não és de Múrmura? — Demonstrei desconhecimento através de meu silêncio angustiado. 

Estranho... Tens a marca de nascença de todos os múrmuros... No seu tornozelo... 

Então olhei, pela primeira vez desde a cela, quando me turvei pelo sangue, pelos ossos expostos, pela mórbida dor... eu olhei para meu tornozelo. Nele residia um imenso estigma, uma perfeita cicatriz contornando todo o espaço onde fora corroído pela argola enferrujada quando eu estava naquele inferno. Sobre parte desta cicatriz, um símbolo estranho estava marcado, como se feito à ferro quente em minha pele. Tudo, porém, curado. E jurei ter visto o mesmo emblema naquele quarto escarlate, quando caí no chão, perturbada pelas vozes. Samael mostrou-me o mesmo símbolo em seu braço direito e explicou-me que advinha do batismo sagrado realizado com os recém-nascidos por toda a província em que estávamos. 

Tu estás em Múrmura, estranha-me que sejas de Nehen, pois... não existe este lugar... quero dizer... é uma província denominada “fantasma”, lugar aonde não se chega, a menos que sejas guiado por Lúcifer. 

Lúcifer? — Minha cabeça doía, minhas mãos tremiam a cada fisgada em minhas têmporas. 

Acalma-te, Alessia... — Samael sentou-se ao meu lado, levando à minha fronte um cálido pano banhado outrora em águas fumegantes. — Não te entulharei com indagações ou explicações agora, perdoe-me. Descanse... os próximos dias serão melhores, eu prometo. 

Os dias foram, de fato, melhores, no entanto, a lembrança perdurou a cada adormecer; não posso esquecê-la, mesmo sob a benção do Criador que, hoje sei, esteve comigo a todo o momento, embora eu não compreenda como poderia aquele antro horrífico carregar um símbolo sagrado, igualmente desconfio de como pude não ser assassinada enquanto fugia, visto que, não há como negar, aquele homem sombrio e sem face possuía um poder diabólico que, sob uma impiedosa habilidade, me desolaria em segundos. Ainda assim, eu fugi... e desde então, tudo se fez reminiscências de um pesadelo. Mantenho o colar de Gahsper dentro de minha Bíblia e, no baú, a adaga de quartzo negro. Não compreendo, não vejo lógica ou explicação que possa elucidar o horror que vivi, por mais que eu tente pensar — e aqui escrevi com esse intuito —, parece que quanto mais insisto, mais distante de uma resolução eu me encontro. Eu continuo sem compreender... talvez seja, realmente, melhor assim. 

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

Símbolo Castelo Drácula

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Capítulo 1: O Adágio Sibilino

Um flúmen carmesim cruzava o níveo balcedo e, deste liquor consistente, eu me inebriava, sorvendo sem temores, e imergindo-me nua em seu sereno caudal…

Um flúmen carmesim cruzava o níveo balcedo e, deste liquor consistente, eu me inebriava, sorvendo sem temores, e imergindo-me nua em seu sereno caudal cujo aroma ferroso seduzia-me. O álgido inverno mordaz congelava-me os cílios, alvejava meus negros cabelos e sobrancelhas enquanto a torrente escarlate era estranhamente tórrida como uma nascente termal. Eu não sabia a origem daquele sangue, no entanto, em minh’alma residia a intuição de que advinha de um mórbido pecado. Despertei deste sonho após tal intuição fissurar o plano onírico e, então, senti sede. Não foi uma sede qualquer, parecia-me como mãos a asfixiarem-me a garganta; senti dilatarem as minhas pupilas e um ímpeto terrífico embaçara em rubro a minha visão. Foi isso que aconteceu naquele dia após o sono sombrio no amanhecer. Despertei às dezessete horas, completamente alucinada.

Então, lá estava ela; uma taça de ouro lapidado e brilhante que por certo fora disposta sobre a mesa poeirenta enquanto eu devaneava, uma vez que eu não a vi n’outro momento desde meu despertar primevo, quando tudo era-me tão somente uma penumbra de indagações a pairar pelo ambiente frígido. N’um único movimento suave, segurei o lustroso cálice e levei-o aos meus lábios sequiosos após notar que dentro dele habitava um espesso líquido acarminado, em demasia semelhante ao flúmen de meus oníricos recônditos. Posso ter olvidado cada uma das memórias do meu passado, todavia, ainda detenho os conhecimentos mais precisos, e alguns além, que me permitem compreender o mundo; um destes saberes é que este sangue não deveria ser tão apetitoso para mim, tampouco matar deveria esta minha inominável sede.  

Na voracidade mitigada pelo degustar, observei um envelope esculpido em um tipo de material valioso, talvez um quartzo. Toquei-o, estava próximo à cama e, em minhas mãos, ele lumiava como uma folha feita de um excêntrico e natural rubi fissurado por ouro. Era apenas um papel, todavia, não poderia advir dos eucaliptos setentrionais. Em seu interior, letras conduziam uma misteriosa mensagem.  

“A escuridão do ressurgir possui ímpar esplendor, contudo, o exício d’alma, como Rosaemori, habita na dança da meia-noite pela lembrança ao refletir, onde o doce carmim se putrefaz às faces dos que jamais se delatam.” 

Um peculiar enigma de essência familiar, embora tão ofuscado pelo mórbido vazio de minhas mais ínfimas memórias. Conservei uma proximidade à letra cursiva, mas desconfiei apenas encontrar-me delirante. Esforcei-me em profundo pensamento, no entanto, o “exício d’alma, como Rosaemori,” e as “faces dos que jamais se delatam” soavam-me como um longínquo corvejar em um horizonte crepuscular inebriante, isto é, passível de admiração intensa, mas não de compreensão. Dobrei a epístola insondável e escondi-a em meu vestido, próxima aos seios; e asseei meus lábios úmidos pelo fascinante e fresco vinho da profanação. Era hora de deixar aquele sôfrego aposento e conceber novos retratos à conservação dos momentos advir — e tentar colher do inconsciente as mais ocultas verdades, pois, possuíam seu incontestável valor. 

Abri com ampla facilidade os altos umbrais e dirigi-me pelo corredor silencioso. Candelabros espargiam de si um lumiar trêmulo, porém, vigoroso, e clareavam as veredas obscuras. À vista dos vitrais de um grandioso salão, o qual adentrei sem anelo por meio de um esmo perscrutar, observei um esguio homem no jardim; à sua frente uma mesa de carvalho servia de repouso a incontáveis itens fúlgidos e tecidos de apurada aparência. Destinada a conhecê-lo, busquei escadas que me levassem ao andar de baixo e não demorei a encontrá-las, pelo caminho, contudo, examinei alguns quadros, estantes vazias, livros e gavetas. Tudo era símil a uma abandonada mansão, mas, de forma ambígua, habitada por um singelo número de pessoas, o suficiente para que a poeira se esquivasse aos cantos por onde pés não andejam. 

Ó! Fascinante donzela! Ande! Apressa-te! Esgotar-se-á o teu tempo, tens uma mísera hora para aprontar-se para o Baile, vamos, venha, venha! — Proferiu o homem ao ver-me aproximar; seu sorriso era largo, tétrico e pontiagudo, seu rosto era pálido e seus olhos lembravam-me das chamas sobre as velas dos candelabros. Os dentes afiados pareciam esculpidos em etéreo marfim e os dedos das mãos quais se abanavam n’um gesto chamativo em minha direção, eram franzinos e longos. Os trajes do indivíduo peculiar possuíam uma fina elegância, envoltos aos tons mais negrumes com adornos sublimes e áureos. Sob uma tenda rubra ele se mantinha em pé, um relógio de bolso dependurava-se em seu braço e, pela indumentária extravagante, o curso de uma corrente lhe enfeitava as mãos ao vincular-se aos seus anéis de pedras preciosas. Quando próxima, vi-o erguer alguns vestidos. 

Há excelsas peças, Dama soturna, veja, veja, veja! 

Perdoa-me... — Iniciei uma conversa hesitante — Não compreendo sobre o que falas ao mencionares um... baile? — Indaguei com a sutileza mais sincera, o homem cessou seus movimentos apressados e fitou-me atento. 

Não recebeste o convite? — Indagou, cismático. Ponderei por instantes fugazes sobre revelá-lo o bilhete enigmático, no entanto, receei. — Vamos, diga-me teu nome! — Ele voltou a movimentar-se entre seus apetrechos, em especial as gavetas de uma grande mobília detrás dele. 

Eu... — Eu não sabia meu nome. 
Diga-me! O Tempo se escassa a cada átimo! — Abrindo e fechando cada uma das gavetas, o homem procurava por algo. 

Eu não... sei... — Revelei. Novamente, mirou-me seus olhos lumiados. E, então, cruzou seus braços magérrimos e elevou, com sutileza polida, seu maxilar. 

Hum... — Ele parecia pensar, seus sonidos eram de, porventura, um abismal refletir. — Creio que tu sejas, então, a esperada... 

A esperada? — Questionei em uma curiosidade infante. O homem retirou de sua manga, em uma lentidão performática, um envelope fascinante em simetria e perfeição. Estendeu-o a mim. Nada havia escrito ao lado de fora do envelope, todavia, era selado com um tipo de mecanismo único feito com delgados ornamentos fulvos e, no centro, um único elemento cetrino, era um verídico Realgar esculpido em formato orbicular. 

Fui instruído a dar este invite à primeira donzela inominada que viesse ao meu encontro. 

Quem o instruiu? — Minha voz estva mais célere, enquanto eu me sentia embriagada pela beleza do artefato que agora eu segurava em minhas mãos. 

Ora, ora... um alguém... — Ele olhou para o tecido à sua frente, retirando-lhe uma longa agulha e, com um monóculo, observou a fenda por onde, sem delongas, atravessou uma rúbida linha. 

Quem, afinal? Possuía um nome? — O homem gargalhou com requinte diante meu questionamento. 

Perdoa-me o riso... é que tu, inominada como és, estás a indagar sobre o nome de outrem? Ora, parece-me tão pitoresco. — Respirei impaciente. Olhei para o belíssimo invite e toquei-o, admirada. Assim que o fiz, em especial na preciosa Realgar, o envelope abriu-se n’uma deslumbrante carta e todos os ornamentos dourados fragmentaram-se à fulvo pó com aroma de cestrum nocturnum

“Caríssima dama! Que adorável noite! Venho por meio desta missiva convidar-te à Masqarilla, a qual terá seu início às dezenove horas. A solenidade saudará os novos residentes com o liquor-carmesim e dançaremos sob o luar. Como desperta, é de inefável valor que venhas ao nosso encontro e participe deste fascinante festejo, este é seu novo lar. Tenho sob minha guarda uma carta destinada, creio eu, à senhorita; decerto é de teu interesse tê-la em mãos. Com apreço, Conde Drácula.” 

Como o reconhecerei? — Sussurrei. 
Conde Drácula? — O homem à minha frente indagou, ainda obcecado por costurar o seu tecido. Respondi-lhe que sim. — Tu o reconhecerás, não te preocupes. A influência da presença do Conde é notável, mesmo no mais longínquo. — O Homem ergueu, após sua fala, o vestido que costurava. — Que tal este? Do teu exato tamanho, vermelho como os teus olhos. 

Belíssimo! — Encantei-me com a peça e, ao tocá-la, vislumbrei abaixo, no mais oculto da mesa de carvalho negro, uma máscara peculiar. — E esta? 

Ó... Esta? Sim, sim, uma máscara especial de uma criatura mítica há muito esquecida. 

Pensei tratar-se de um corvo. 

— Um crânio fidedigno, caríssima inominada, de uma criatura mítica dos dédalos florestais... Segure, isso mesmo, experimente! Deve servir em tua fronte. — Era perfeita para mim, tive tal certeza ao vesti-la; somou-se a uma proximidade tênue que senti no exato instante. — Sabes que uma taça de ouro do Castelo pagaria facilmente o indumento e a máscara... — Disse o homem esguio, com seus olhos dispersos e lábios trêmulos, de alguma estranha forma ele sabia da taça que eu possuía em meu aposento. Curvei-me a ele em um cortejo formal e, em alguns minutos, lhe entreguei o fulvo cálice para tão logo aprontar-me para o festejo misterioso, mas... algo me estorvava a empolgação de desvelar os segredos da tal carta em posse do Conde; ou mesmo de conhecer mais sobre este imensurável castelo à beira do abismo. “O exício d’alma, como Rosaemori” — aquele insólito bilhete era a razão do meu remorar frente aos umbrais de minha alcova. 

Não obstante, entretanto, corri pelos claustros e passadiços, passei pela galeria e o saguão, até ouvir ao longe o murmúrio dos convivas. Afoita e um pouco sem fôlego, antes de chegar à câmara do festim, busquei a serenidade de minha mente e corpo e, assim, pelos meus íntimos pensamentos, revisitei cada questionamento que me perturbava desde o despertar do dia anterior. Não importa quem, mas decerto — eu pensava — que alguém naquele lugar sanaria minhas vertiginosas dúvidas. Cingida por esta certeza, adentrei o grandioso salão e meus olhos reluziram pela riqueza dourada que se desvelou a eles com magnitude. 

À leste, o vermelho, todavia, espargia das tapeçarias aos ornamentos que decoravam o pequeno púlpito destinado à banda, a qual, por sua vez, era composta por treze pessoas; tocavam valsas marcantes, onde o violino tinha destaque ao lado do acordeão. Meia dúzia de outras pessoas compunham um pequeno coral ao lado, com vozes marcantes que ecoavam à valsa que, julgo dizer, possuía ares circenses. Todo o som difundia pelo gigantesco local e parecia conduzir, pela abóbada de rubi, um encanto fantasmagórico estonteante. Lembrar-me da cena transporta-me a ela, parece vívida em sua volúpia teatral e, certamente, estivera; a mastodôntica câmara abrigaria mais de mil indivíduos, estou certa disso e, porventura, ali estivessem mil e um. Todos com elegantes trajes e máscaras sombrias, que fascinante! Compreendi a razão pela qual o Conde a nomeara “Masqarilla” e não apenas “Mascarada”, a primeira palavra em si tinha gosto de cereja, as mesmas dispostas em cachos na ampla mesa destinada ao banquete; além disso, ornada pelo “q”, perpassava a sensação de mórbido assombro por causa da extravagante ourada, os veludos de ouro, os vitrais de ouro, o néctar de cacau banhado à ouro para acompanhar as cerejas, tudo exótico e aclarado, sim, luminoso como um dia de sol, embora penumbral como a mais fúnebre noite. 

Embora eu fitasse com minhas atentas retinas cada lôbrego e exuberante pormenor, dos cântaros com cestrum nocturnum a exalar um aroma notívago, aos candelabros cujas chamas febris estavam envoltas por decágonos feitos de um tipo de quartzo — eu alvitraria tratar-se de sirehnniha, pois se mesclavam entre o escarlate e o marfim, o que causava um efeito bizarro no ambiente à medida em que as chamas fremiam pela aragem; e, enfim, a despeito de tudo isso, quando eu conduzia minhas atenções aos olhos daqueles que cruzavam o meu caminho, os quais eram igualmente fascinantes em suas vestimentas, joias, peças e máscaras, eu parecia não ser vista. Talvez o crânio da criatura mítica a me ocultar o contorno facial fosse um empecilho para as aproximações virtuosas — ainda assim, eu não o retirei de meu semblante, pois, de modo incomum, detrás dele eu me sentia protegida. 

Acabei por passar boa parte do tempo assentada n’uma das poltronas de um belvedere interno, acessado por escadas encíclicas, por onde o horizonte da Masqarilla era mais bem admirado. Isso me permitiu notar que, com o passar das horas, as velas envoltas aos decágonos de sirehnniha marfim iam se apagando, de modo que o ambiente, n’um aspecto tétrico profundo, se avermelhava cada vez mais. Além disso, a lua cheia subia no firmamento lucífugo e aos poucos o seu lumiar soturno se espargia pela abóbada de rubi acima do encalço destinado às danças. Essas minúcias provocavam-se uma inquietação ofuscante, no entanto, algo me prendia àquele lugar, não apenas algo brumal e símil a tudo o que se desvelou a mim desde meu despertar; houvera algo ainda mais misterioso, porém tangível, que me impeliu a permanecer na meia-luz escarlate.  

Em um fantasmagórico cárcere que vinha sobre mim no silêncio de minha mente conturbada, um alguém de vestes obscuras sentou-se ao meu lado e o vi apenas quando sua voz grave sonorizou sua presença à minha audição que se alucinava com o mórbido som do órgão de tubos. 

A morte é a eterna dança da alma no abismo. — Dissera, intenso, entregando-me um ramo ornamentado de cestrum nocturnum. O bálsamo da flor penetrou, marcante, meu olfato e, tamanha era sua veemência que, por instantes, desorientei-me. — Dance comigo. — Sussurrou o homem com a mesma delicadeza viril, então segurei o belíssimo e inebriante ramo que era erguido em minha direção e ponderei sobre qual seria o sabor daquelas pequenas flores lívidas, pois que o perfume me era um êxtase sui generis. O misterioso Dom à minha frente aguardava, atento e sombrio. 

A quem devo a honra? — Indaguei, segurando-lhe a mão estendida. O homem a ergueu, beijando-a. Ele usava uma ornamental máscara negra que se assemelhava a um rosto humano com traços felinos; o vazio dos olhos tinha um exagerado tamanho, curvados como os de um tigre e cobertos por uma manta interna, no mesmo tom noturno. Somente seus lábios estavam à disposição, onde pude sentir sua pele fria; todo o restante de sua feição estava sob a paralisia do felino rosto ornamental feito de escuridão dourada. As mãos, por sua vez, estavam sob a proteção de luvas de couro e seu traje régio dispunha-se dos mesmos tons trevais por onde jaziam seus olhos ocultos. Uma umbrosa gema, talvez obsidiana, fora lapidada na fronte de sua máscara. Com este vulto de um alguém, iniciei o bailar ao som da umbrífera valsa.  

— Lëvri Dorean — Revelara-me enquanto nos movíamos sob o som sepulcral. Muitos ao nosso redor seguiam na coreografia, o que nos impedia de um diálogo contínuo. Entretanto, enquanto a lua chegava ao cume da abóboda-rubi e quase todas as velas no decágono marfim se apagavam, o carmim transfigurava o ouro em sangue e tudo o que víamos era nós dois, a cada cinesia organizada, seguimos um diálogo em partes, entre as sombras de outrem. — E qual haveria de ser o nome da tua espécie? — Ele questionou com seriedade. 

Minha espécie? — Perguntei atenta enquanto a penumbra roubava-me a serenidade, conquanto a presença marcante daquele que não desviava seus olhos ocultos de mim fosse o apaziguar da solidão e do esquecimento, ainda que evolasse de sua aura algo inenarrável a me enlear ao medo lúgubre. 

É o que as flores possuem... espécie, classe e gênero. Da classe, sem dúvidas, és da mais excelsa; do gênero, decerto feminil. Falta-me a espécie. — Explicara, como um gomil a verter sobre minha pele um puríssimo néctar das belíssimas flores da arbórea Calliandra angustifolia. E meu corpo próximo ao dele, as palavras sedutoras, uma cura plena cujo mistério impedia-me de dosar o quanto eu poderia ficar imersa, ludibriada, e então sentir o veneno pela dosagem exacerbada. 

Dama-da-noite. — Ele sorriu com sutileza ao me ouvir, no entanto, um regélido arrepio tétrico percorreu meu corpo, originando uma desagradável angústia, de modo que seu sorriso se afigurou mais vil do que cativante. 

Quero o teu nome real, o qual eu possa sussurrar quando estiver só em meu aposento. — Neste íntimo, unimos outra vez os nossos corpos, com as mãos dadas, à valsa da morte. Era quase meia-noite. As sensações desoladoras ascendiam céleres, e os efeitos dos decágonos vermelhos à luz das chamas, me entonteciam. 

Eu te diria, se assim pudesse. Mas não me recordo... — À altura daquele diálogo, tudo de horrífico que eu pressentia, alastrou-se de repente. E, assim, uma pungente dor em meu crânio expandiu-se terrífica e meus olhos lacrimejaram detrás da máscara. Cessei meus movimentos, a lua era o astro de sangue no píncaro da abóboda de rubi, iluminando em um denso rubro tudo que debaixo estava, e a música não cessava. A aragem ao redor esfriara no exato átimo em que a aflição dardejara de mim, pelas têmporas. Fui obrigada a retirar, de súbito, minha máscara, revelando meu rosto entre os que bailavam à meia-noite vermelha, e minha dor hórrida espargia e se dilatava; lembro-me de olhar para o abismo dos olhos de Lëvri, ele me observava estático e, talvez, amedrontado — eu nunca poderia saber. Então, no aterramento da tortura, quando minha lancinante dor aguda colidiu-se com a minha sanidade, perdi-me dentre os corpos dançantes, perdi-me de Lëvri. 

Na morbígera dança, colidindo com os corpos, as máscaras se distorciam à minha visão, elevavam às sombras cetrinas uma hórrida composição pavorosa. O som do violino agudo confrangia meu coração acelerado e o pulsar da dor abissal em minha mente era como tambores insondáveis. Um, dois, três, em cada ouvido, tímpanos invadidos por sonatas em tenebrosa essência, um adágio de repugnante e diabólico vibrar. Eu só podia estar delirando e eu não conseguia deixar o encalço dos dançantes, conforme a meia-noite se prolongava, e o que me parecia ser uma desgraça de infortúnio, tornou-se o maior dos meus pesadelos, pois, perante os tambores do antro do meu crânio, na dor cruel e violenta, todos aqueles que dançavam tornaram-se inertes. Um a um. Viraram seus rostos para mim enquanto a música intensificava, perversa. 

Em movimentos lentos, no meu desesperar medonho por fitar as máscaras distorcidas, o escarlate tremeluzindo; cada uma das pessoas, uma a uma, retiraram os sinistros objetos desfigurados de seus rostos, e o que vi não foram semblantes. Cada rosto possuía entranhado, em suas faces sanguinolentas, um fragmento fincado de espelho. Pedaços que, de imediato, voltados a mim, refletiram o que deveria ser eu, mas não era. Fui terrificada por imagens perturbadoras do mais cruel possível ao meu olvidar, eu não soube se eram reais ou não. Mortificada, corri para sair daquele lugar, no entanto, não havia saída, mesmo que todos estivessem paralisados; olhavam-me no infinito salão. Eu não podia fechar meus olhos. Cada reflexo desvelava-se n’uma cena macabra e, no primeiro deles, vi um homem com uma flor de cor negra-gaultéria fincada em suas entranhas pelo torso aberto com lâmina dourada; a planta sorvia dele, mirrando seu corpo dolorosamente; e a cada rosto que eu olhava, o reflexo d’esta cena, aos gritos soturnos do homem, se evidenciavam. 

Em outro instante, fora refletido um animal símil às serpentes, embora com um aspecto corvino, era decerto idêntico à minha máscara; mas vivo. A criatura mítica. Seus olhos eram amarelos e fúlgidos e seu corpo fascinante era esfaqueado por homens de olhos negros, sem esclera. O sibilar, vociferado pela criatura, era o clamor ensurdecedor do mais execrável sofrimento. E repetia-se a cada refletir dos espelhos, o quais cravados nas frontes dos inertes, sangravam cada vez mais; eram como manequins por todo o salão dourado daquele festejo cruel, manequins humanos. E na última cena — pois que após ela eu já não pude mais permanecer consciente — havia um ventre protegendo um feto que foi banhado por um líquido níveo, transfigurado em sangue logo depois, e partes deste embrião se via pelo sangue, rasgado e moído como carne fresca; e o fluído alvo-enrubescido manava de dentro de meu ventre, do meu corpo imerso em águas salinas que se escaldavam em vermelhidão; a água escarlate e ferrosa de um rio... a água que eu bebia... do flúmen carmesim de meu sonho daquela manhã. 

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Prólogo: Desperta

Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas em meu peito, a poesia da escuridão ao lado do horizonte noturno. O espírito da finitude não beija meus lábios, de alguma forma eu sei disso. Despertei pela fresta de luz de um luar brando e vívido. Lembrei-me dos caminhos que fiz pelos sonhos mais frígidos e sei que atravessei cordilheiras distantes e precipícios símeis aos pélagos úmidos e aos arvoredos orvalhados.

A poeira ao redor sobre os lençóis de cetim escarlate, o espelho embaçado, as teias tecidas com esmero pelas aracnídeas cuja natureza é fascinante e silente. Estou acordada. O mundo humano ainda é o mesmo? A lua ainda reside no firmamento, embora as estrelas aparentem estar muito mais distantes do que outrora. Apoio-me no balaústre da varanda, quão alta esta torre se faz… posso ver o abismo e todos os pinheiros negros ao redor, junto à parte do castelo que está tomado por neve e galhos secos, sinto — enquanto estremeço — a brisa internamente densa em sua gélida composição. É inverno. Pela palidez que cai a neve em lentidão, não tenho dúvidas que estou no ápice da estação mais frígida. Quantos anos se passaram? Por que não envelheci?

Não ouço nada além do sibilar mórbido da aragem estonteante, e dos corvos a crocitarem tristes vez ou outra. Tenho pouquíssimas memórias, sinto-me como n’um nascimento prematuro, ainda entranhada em reminiscências do ventre em suas sombras, calidez e sons imprecisos, nada mais. Ainda não me fiz destrancar este umbral que me separa dos recônditos obscuros d’este lugar, pois temo — eis a razão desoladora. Do fogo que acendi na lareira umedecida, emergiu-me uma imagem efêmera de olhos escarlate e uma intensa dor em minh’alma, então senti minhas pálpebras estafantes, adormeci serena e lôbrega nos braços de alguém que não me lembro o semblante. Agora escrevo, porque posso não sentir a vida ebulir em minhas veias, mas sinto as mais fúnebres emoções que a ela pertencem.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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1 —O Encontro

No erguer-se do luar alcantilado | Crocita um corvo enquanto sou lamúria | Assusto-me e o percebo afortunado, | Pois voa contra o vento da penúria;…

No erguer-se do luar alcantilado
Crocita um corvo enquanto sou lamúria
Assusto-me e o percebo afortunado,
Pois voa contra o vento da penúria;

Ao leito o meu sombrífero sonhar
Desvela-se à mi’a fronte lentamente,
Um cântico, porém, junto ao nevar
Desperta-me e a lareira queima ardente;

Que o fogo se acendera repentino?
Clamei seguindo à porta da sacada,
Ninguém d’entre os pinheiros, nem um hino…

Silêncio tão perpétuo “Fui brindada
Co’as sombras de mi’a mente solitária
”,
Mas ouço, no rompante… mortuária…
Atrás de mim… presença murmurada…

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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O Eterno Mestre do Terror: Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário profundamente influente que ecoa através dos séculos e há de ecoar, perpétuo, como um grito num abismo sem fim. Nascido em 1809, Poe viveu uma vida marcada por tragédias e dificuldades, isso moldou sua visão sombria do mundo e tornou sua escrita incomparável.

Poe começou sua carreira literária como crítico, destacando-se por suas análises afiadas e incisivas. No entanto, foi como escritor de contos e poemas que ele alcançou fama duradoura. Suas histórias, permeadas por elementos góticos e sobrenaturais, exploram os recantos mais sombrios da psique humana, mergulhando em temas como morte, insanidade e o desconhecido. O escritor e poeta influenciou todos os autores posteriores a ele, contos como “Os crimes da Rua Morgue” e “O Gato Preto” tornar-se-iam, quem diria, em obras relevantes não apenas na literatura, mas em todos as outras artes e, também, nos movimentos artísticos, tais como o romantismo, além de abraçar a escrita policial que veio a ser valiosíssima para autores como Conan Doyle e Agatha Christie (BELLIN, 2011).

Entre suas obras mais conhecidas, também consta "O Corvo", um poema que narra a visita de uma ave misteriosa a um homem atormentado pelo luto e pela perda. A musicalidade e a melancolia deste poema o tornaram um clássico da literatura mundial, ecoando através das eras e sendo adaptado para o cinema de forma recorrente e de maneiras singulares, sendo também símbolo na cultura gótica com sua marcante frase “Nevermore”.

Além de "O Corvo", Poe é célebre por contos como "O Coração Delator" — que, aliás, é um dos meus preferidos; nesta obra-prima, um narrador perturbado confessa um assassinato motivado pela obsessão com o olho de um idoso e, no final, sem spoiler, a profunda angústia e aflição são transmitidas ao leitor — algo que, para mim, nenhum outro escritor foi capaz de fazer com tanta maestria. "A Queda da Casa de Usher" é outro clássico de Poe, uma história de decadência e loucura que captura a imaginação com sua atmosfera sinistra e surreal; atualmente este conto foi adaptado, e modernizado, para uma série da Netflix, junto com outros elementos e obras importantes do autor, como a extravagância de “A Máscara da Morte Rubra”.

A habilidade de Poe em criar um clima de suspense e horror, aliada à sua prosa cuidadosamente elaborada, estabeleceu os padrões para o gênero do conto de terror e influenciou inúmeras gerações de escritores. Sua habilidade de penetrar nas profundezas da psique humana e explorar os abismos da alma humana continua a fascinar leitores até os dias de hoje. No entanto, o autor também foi influenciado pelos autores de sua época e antecessores, nomes como Lord Byron, William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge teriam sido suas instigantes leituras, com mistérios boêmios, descrições poéticas e sobrenaturais acontecimentos (BELLIN, 2011).

Segundo García (2019), Edgar parece residir em cada espectro da literatura sombria, até mesmo no que viera antes de sua existência, e não há como negar essa verdade, aliás, devo reiterá-la em outro aspecto: Poe habita os corações de toda a literatura gótica em razão do seu explorar profundo, em cada uma de suas tramas, das nuances perturbadoras da humanidade; sua técnica narrativa foi e é um marco tão imensurável, que é impossível ler quem quer que seja sem compará-lo à grandiosidade do autor de “Silêncio: Uma Fábula” — citado por ser o conto número um na minha lista de preferidos do poeta.

“Edgar Allan Poe parece estar em todos os lugares, e sua presença é tão impregnante que nos faz inverter o eixo cronológico, e ler até mesmo aqueles autores que o antecederam a partir dele. Em outras palavras, não apenas encontramos Poe em H. P. Lovecraft, Richard Matheson, Shirley Jackson e Stephen King: lemos Ann Radcliffe, Charles Maturim, Matthew Lewis e Mary Shelley, também a partir de Allan Poe” - García (2019)

Infelizmente, a vida pessoal de Poe foi marcada por tragédias e lutas constantes. Ele enfrentou dificuldades financeiras ao longo de sua vida e sofreu com o alcoolismo e a depressão. Parece que sua genialidade foi interrompida pela pobreza de suas condições básicas e suas amarguras emocionais. Sua morte prematura em 1849, aos 40 anos, permanece envolta em mistério, com as circunstâncias exatas ainda debatidas por estudiosos e admiradores. As causas de sua morte foram atribuídas a uma miríade de possibilidades, incluindo delirium tremens, doenças cardíacas, envenenamento por metais pesados e até mesmo rabia, mas nenhuma delas foi conclusivamente provada (ALLEN, 2001).

Apesar das adversidades, o legado de Edgar Allan Poe perdura como um monumento à imaginação humana e à capacidade de transformar o terror em arte. Sua obra continua a inspirar e fascinar leitores e escritores, garantindo-lhe um lugar permanente no panteão dos grandes mestres da literatura. Abaixo está uma lista dos contos publicados por Poe durante sua vida, nos títulos originais.

  • 1831 - "Metzengerstein" - A primeira história que Poe publicou, marcando sua incursão no conto com um sabor gótico.

  • 1832 - "The Duc de L'Omelette" - Um conto irônico e satírico sobre um duelo póstumo.

  • 1832 - "A Tale of Jerusalem" - Um conto humorístico ambientado durante um cerco na Jerusalém antiga.

  • 1833 - "MS. Found in a Bottle" - Um conto de terror marítimo e fantástico que ganhou um concurso literário.

  • 1835 - "Berenice" - Uma história de terror psicológico focada em uma obsessão mórbida.

  • 1835 - "Morella" - Uma reflexão sobre a reencarnação e a identidade.

  • 1835 - "Lionizing" - Uma sátira sobre a fama e a sociedade.

  • 1838 - "Ligeia" - Uma das obras mais elogiadas de Poe, explorando a morte e a ressurreição.

  • 1839 - "The Fall of the House of Usher" - Um dos contos mais famosos de Poe, exemplificando o terror gótico.

  • 1839 - "William Wilson" - Um conto que explora o doppelgänger e a consciência culpada.

  • 1840 - "The Man of the Crowd" - Um estudo sobre a alienação e a observação urbana.

  • 1841 - "The Murders in the Rue Morgue" - Frequentemente citado como o primeiro conto de detetive moderno.

  • 1842 - "The Masque of the Red Death" - Uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte. Excêntrico e trágico.

  • 1842 - "The Pit and the Pendulum" - Uma história de suspense e terror ambientada durante a Inquisição Espanhola.

  • 1843 - "The Tell-Tale Heart" - Um conto psicológico de culpa e loucura.

  • 1843 - "The Gold-Bug" - Uma aventura envolvendo criptografia e um tesouro enterrado.

  • 1843 - "The Black Cat" - Um conto de perversidade e culpa.

  • 1844 - "The Premature Burial" - Uma história que explora o medo de ser enterrado vivo.

  • 1845 - "The Purloined Letter" - Um conto de detetive que enfoca a psicologia do crime.

  • 1845 - "The Facts in the Case of M. Valdemar" - Um conto que mistura elementos de horror e ficção científica.

  • 1846 - "The Cask of Amontillado" - Uma história de vingança meticulosamente planejada.

Referências

KIEFER, Charles. A poética de Edgar Allan Poe. Letras de Hoje, v. 44, n. 2, 2009.

BELLIN, Greicy. Edgar Allan Poe e o surgimento do conto enquanto gênero de ficção. Anuário de literatura: Publicaçao do Curso de Pós-Graduaçao em Letras, Literatura Brasileira e Teoria Literária, v. 16, n. 2, p. 41-53, 2011.

ALLEN, Hervey. Vida e obra de Edgar Allan Poe. POE, Edgar Allan. Ficção Completa, Poesia & Ensaios. Trad. Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.

GARCÍA, Flavio; COLUCCI, Luciana; GAMA-KHALIL, Marisa Martins; PHILIPPOV, Renata (Orgs.). Edgar Allan Poe: efemérides em trama. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2019.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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2 — O Vínculo

“Angústia vil… sou rígida fereza… | A morte lacrimal de teu semblante… | Tormento me convida à tua pureza | Olvidas-me a pensar ser delirante…”

Angústia vil… sou rígida fereza…
A morte lacrimal de teu semblante…
Tormento me convida à tua pureza
Olvidas-me a pensar ser delirante…

Segreda-me em arcano linguajar
Tem face oculta em manto de negror,
Há névoa carmesim, sangue a pulsar,
Envolta de seu corpo possessor;

Um medo, então me aturde, mortifica
E sou paralisada pela mão
Do monstro-humano em gesto que dedica…

Respira, brusco, adentra o coração
Oscilo pelo horror, lacrimo exígua
Por minha dor que em júbilo se irrígua
Belíssima” ele diz “Contemplação”.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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A Lenda de Ohropo e Sepulcro

Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada, retorna ao seu corpo sob um manto negro e pesado — vertendo abismo. Deste modo, quando Ohropo olha em direção ao som violento, a noite está ofuscada e, murmurando, ela ascende em seu coração um temor inominável que, de súbito, outorga-lhe nítidas memórias hediondas. Instável, caminha pelas sombras, e lamuria. Compreende que seu destino inconcusso, na tarefa imorredoura de irrigar o mundo humano com seu aspecto soturno, é o sentido primevo da sua criação — e desta fatalidade ele não pode esgueirar-se, mesmo que resida, no seu mais íntimo ser, um pequeno esplendor de desejo cuja emersão advém em uma indagação longínqua, uma dúvida ínfima, um tão-somente “por quê?”.

— Qual horizonte teus pronos olhos à maldição perscrutam? — A voz que indaga possui um sibilo indistinto, de entonação lôbrega como o canto gregoriano. É Sepulcro. Ohropo volta-se devagar a Sepulcro que se orvalha na cinesia do frígido vento crepuscular; é bela como anjos lapidados pelas covas que a compõe. Ohropo nunca vira Sepulcro.

— Quem és tu? — Sonda Ohropo cuja voz é franzina em angústia.

— “Quem sois?” é o que consultas, pois que não me restrinjo a uma. — Responde Sepulcro, altiva.

Há custosa aflição à fronte de Ohropo cuja verve falecera no primeiro despertar ao entardecer, quando em seu cerne ainda habitava a si mesmo e quando suas mãos eram retratos pulcros de desgraça e sangue. Naqueles tempos, Ohropo vociferava, plangia, e nada mais.

— Vejo... És as mortes todas... — conclui, pelo que vê, através de seus olhos ainda semicerrados em ranzinza tragédia.

— Ora, que proseio contigo do além? Nada disso. Estou à vida como tu estás ao teu caminho, sempre fiel — ufana Sepulcro, elegantemente.

— Sempre fiel... — Ohropo repete, pois está confuso, algo no âmago da sua tétrica constituição oscila.

— Leva-me contigo, — implora Sepulcro — posso deixar menear teu fardo no interior de meu cálice que há de envolvê-lo em sua seiva sepulcral.

— Não posso... — Ohropo responde e suspira — Este fardo é horrendo, há de desolar todo o vosso encanto.

— Há nada que me ascenda o temor — teima Sepulcro.

— Impossível... — insiste Ohropo — Pavores são o soprar da aragem fria, e são o agora, o amanhã, o tudo o que é e há de ser.

Sepulcro sorri em revide.

Sua beleza revela uma reminiscência a Ohropo, símil ao que o oscila no cerne, o esplendor lúgubre de seu outrora tão cruel. A lágrima que vertera pela última vez há tanto tempo, renasce tímida, intolerável. Contudo um som execrável impede o alívio etéreo do broto da emoção, é a estrondosa sonância da foice de Exício. O corpo esquálido de Ohropo se consome ao desespero lutuoso, sua sentença ressurge do abismo entre ele e a inalcançável Sepulcro que, naquele átimo de tempo, fechou seus olhos santos e ideou um enlevo ao lado de Ohropo.

— Sepulcro! — Ouvem ambos, e tremulam, a voz é grave e trevosa, Exício a chama, feroz e austero; por isso Sepulcro vai ao seu encontro, pois a ele pertence, então desvanece. Ohropo senta-se sob a sua perdurável dor em solitude, frente d’onde outrora vira Sepulcro; e, sob um semblante medonho, ele espera até poder vê-la outra vez.

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3 — A Revelação

Co’as pálpebras cerradas… eu mui sinto | “Evoque à tua memória em meninez | Ao leito d’uma morte…” — ouço e pressinto | “Brutal que preservei tua languidez…

Co’as pálpebras cerradas… eu mui sinto
Evoque à tua memória em meninez
Ao leito d’uma morte…
” — ouço e pressinto
Brutal que preservei tua languidez

Co’ a espada envernizada pelo sangue
Daquele que feri-la pretendia.
Servil do inominável que te langue…
Ó, venha-me, conheça-me, que o dia

Emerge a sucumbir-me ao meu inferno…
Entendo a dele essência e seu poder
Sentindo-o na minh’alma, sempiterno…

Meu corpo se enternece, a névoa a arder
Esvai, tudo se abranda, e a mão tão fria
Tocando-me no afago em poesia
Do amor de sombra e algia a me embeber.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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4 — A Perturbação

Atento o meu olhar “Quem és, ó Dom” | Indago n’agonia em mim crescente“ | Herói que salva ou mal que ofende o ambom? | Por que me causas mágoa caulescente…

Atento o meu olhar “Quem és, ó Dom
Indago n’agonia em mim crescente
Herói que salva ou mal que ofende o ambom?
Por que me causas mágoa caulescente

Por tanto em meu servil contentamento?
Se juras proteção, do submundo,
Tu podes vir ao bem-de-sacramento?

Dilemas vãos…” responde “Do improfundo…

Em grave voz d’um anjo excomungado,
Assim em sua ausência a que se deu
Tão logo no aurorar imaculado

Manchou-me do pecado sob o breu
Fartando-me de paz como jamais
E quanto m’impregna amar demais
Deixaste uma saudade em apogeu…

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Dama Sonura

Ouviu Dama Sonura a lacrimar | Com alma e solidão, preces soturnas, | Ao sopro d’um abismo à chuva-lar | Que dela faz as letras tão noturnas;…

Däm sor, Däm Sonurae nar om perpétuos

Ouviu Dama Sonura a lacrimar
Com alma e solidão, preces soturnas,
Ao sopro d’um abismo à chuva-lar
Que dela faz as letras tão noturnas;

Amou n’um triste ínfimo a nobreza,
Cortês, em sombra e névoa, desejoso
Versou quaisquer palavras, afoiteza,
Causou um estranhamento cauteloso;

Há nada de tão belo, assim parece
Expôs quando uma ausência s’engendrou
Do simples-compreensível te carece…

Eu, Mundo, tenho pouco — se exautou
Do tempo p’ra tolices eloquentes…
A Dama em sua Sonura complacente
Perpétuo amor ao fósmeo então jurou.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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