Artemísia
A pressão rompe o silêncio na madrugada | Vibra o éter como música e ressoa | Reverbera no acetato, ainda...
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A pressão rompe o silêncio na madrugada
Vibra o éter como música e ressoa
Reverbera no acetato, ainda longe da alvorada
Cadente, nos ouvidos desta pessoa
Aos poucos me vem memoráveis momentos
Que longe vai o meu pensar
Reavive voraz a figura e me revira o intento
Faltava a substância de alucinar
Aquela do verde frasco deixado na prateleira
Insiste, ainda que eu queira,
No convite para expirar os vapores novamente
Doces ilusões inspiradas na mente…
Tão logo nas minhas mãos impregnaram seu cheiro,
Contra a janela fumaça e nevoeiro,
E o perfume se expande neste cômodo lugar
Como se arrebentasse um vidro de perfume inteiro
E subitamente se espalhasse pelo ar
Descomedido, fui além do que posso aguentar
Oito taças me arrisquei ingerir
Insistindo por várias horas sobre a mesa do jantar
Para no último gole então descobrir
Materializava um corpo bem onde eu estava
A forma feminina a dançar em minha fronte
Mais derretido e sombrio eu ficava
Como se um riacho desaguasse no aqueronte
Sufocado eu pedia uma fonte de água
Depois, eletrificado, perdi de vez o sentido
Nesta hora era o tempo de ter me arrependido
Restou apenas um misto de todos os sentimentos
De todos os vapores, emplastros e unguentos
A rolar na minha pele como um óleo qualquer.
Algo então se rompeu em mim, algo que eu não saberia bem como explicar. Era uma lembrança talvez, ou talvez fosse um tipo de vontade (mais certo que era). Culpei o álcool e o exagero, mas a vida contigo foi um exagero em dobro, uma embriaguez de tantos anos que me assombravam naquele momento e se fixavam naquela forma perdida e naquele movimento.
Era um ideal, enfim entendi
Algo que estava em mim, mas não em você
E deixei-me jogado naquela cadeira
Sem me preocupar se havia um porquê
Fiquei contemplando o corpo despido
Por baixo da transparência daquele vestido
Eu dançava com os olhos, da minha maneira
Será que é sólida para que eu a abrace firmemente?
Não lembro ocasião de ter visto um ser todo verde
Mas sim com o rosto corado num tom de rosé
Tem forma, tem corpo e tem face
E todos eles pertencem a você.
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Lëvri
Azul luar, amor d’um vil talvez… | Eterno sussurrar-te, adocicado… | A tua natureza e profundez, | Paixão de meu desejo delicado…
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Azul luar, amor d’um vil talvez…
Eterno sussurrar-te, adocicado…
A tua natureza e profundez,
Paixão de meu desejo delicado…
Detrás d’estranha máscara senti,
Envolto a mil segredos, segurava
Buquê de níveas flores, assenti
A dança carmesim que me aguardava;
Após minha loucura angustiante:
Um vínculo febril, um deflorar
Vultoso em seu valor, e mais: errante!
Verdades desvelara sobre o amar
Que súbito se instaura livremente
Até o lembrar da rosa, sutilmente,
Fazendo um vil segredo me afastar.
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Promessas Vazias
Você me disse que eu teria um final feliz | Que haveria flores sobre mim | Que sobre à terra eu iria descansada permanecer | E que você não se esqueceria...
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Você me disse que eu teria um final feliz
Que haveria flores sobre mim
Que sobre à terra eu iria descansada permanecer
E que você não se esqueceria de sempre ir me ver
E ficar feliz por mim
Pelo meu merecido descanso
Estou pacientemente aqui deitada
Esperando tu Morte, porém sem sorte
Mais uma vez não veio me visitar
Isso tem se tornado entediante
Esse sofrimento constante de te esperar
Você que me garantiu que logo viria
E com isso já vivi mais do que deveria
Porque tudo não passou de promessas vazias.
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El Pesanta
En sombras de la noche, a tientas va, | silente entre los sueños, cruel es su andar, | un ser de pesadumbre y de pesar, | que roba al corazón su calma ya...
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En sombras de la noche, a tientas va,
silente entre los sueños, cruel es su andar,
un ser de pesadumbre y de pesar,
que roba al corazón su calma ya.
Con manos de ceniza, al alma da
un peso inquebrantable, un hondo mar,
respiración cortada, turbio azar,
el eco de un gemido al despertar.
Es él, el Pesanta, Señor del miedo,
que oprime los pechos con fría patada,
y siembra en la penumbra su desvelo.
Mas cuando el alba rompe con su fuego,
se disipa el terror, su forma niebla,
dejando solo sombras en su sueño.
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Matinal
O cheiro do café e a saliva no canto da boca | É verde manhã que se vê da janela | Paisagem de folhas roçando | E o silvo nos galhos os ventos balançam...
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O cheiro do café e a saliva no canto da boca
É verde manhã que se vê da janela
Paisagem de folhas roçando
E o silvo nos galhos os ventos balançam
Numa sinfonia matinal um baile de insetos que dançam
Decompondo restos mortais
Lá fora, despedidas, beijo na boca e automóveis desfilam operários
O concreto racha e sucumbe às raízes
Floresce um amanhecer jardim neste fabulário
De vida e de morte
E na memória viva da noite passada
Madrugada adentro os dois estavam
Descrevendo as partes de suas próprias naturezas
Agora, é alvorecer do verde manhã se
Estendo ao azul céu
São as folhas das árvores que se desprendem e voam;
Aqui, etéreo é o cheiro do café, das salivas e da danação matinal
Os gatos regressam pra casa;
O lixo se detém nas calçadas;
Damos um trago na xícara e
Respiramos o ar marginal.
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Sangue
Sangue. | Lápide fria | Noite escura, céu acima. | Sangue. | Você me abomina | Mas suas vísceras são minhas. | Sangue. | Seu carmesim cintilante | Colore o cemitério…
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Sangue.
Lápide fria
Noite escura, céu acima.
Sangue.
Você me abomina
Mas suas vísceras são minhas.
Sangue.
Seu carmesim cintilante
Colore o cemitério neste instante
Anjos choram pela inocência
Profanam minha existência
Mas ela os devora
Sangue.
Um olhar mais acima...
A garotinha é minha!
Sangue.
Debaixo de uma cruz
A pele pálida reluz.
Sangue.
O túmulo cinza me suplica
“Dance para mim, querida”
Sangre...
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A Luz se Apaga
Majestosa, | Brilhante e inigualável estrela no céu. | Reinando em um mar de escuridão | Mas impiedosa, | Tão bela quanto cruel. | Tomou meus olhos…
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Majestosa,
Brilhante e inigualável estrela no céu.
Reinando em um mar de escuridão
Mas impiedosa,
Tão bela quanto cruel.
Tomou meus olhos
Meu corpo e espírito.
Elevou-me a mais linda visão
Para em seguida abandonar-me
Na escura solidão.
Não era vida
O que eu via.
Sua morte brilhava
Iluminando um negro céu.
Não era vida
O que eu sentia.
Era o último suspiro
De quem jazia a sabor de mel.
Leia mais em “Poesias”:
Dissoluções
Desfalecem os sonhos | Que sucumbem à incompleteza | Em grandes ondas, | No profundo mar da inconstância | Naufraga impotente a nau da incerteza…
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Desfalecem os sonhos
Que sucumbem à incompleteza
Em grandes ondas,
No profundo mar da inconstância
Naufraga impotente a nau da incerteza
Agoniza o sonho de vil substância
Dissolve nas águas como um papel delicado
O frágil objeto de laços estreitos
Carregando fragmentos de sonhos desfeitos
Nas fluidas correntes do mar agitado
Leva o coração de um sonhador acordado
Até, por fim, encontrar no éter defeitos
Há um doido a nadar nestas águas
No licor de negrume do fosco luar
Se debatendo entre velhas resíduas
Golpeia a superfície escura do mar.
Luta valente com golpes fantásticos
E a lua aberta, mãe dos lunáticos,
Severa assiste seu filho afogar
Que salvem ele, ó navegantes!
Tirem ele deste mar de espinhos!
Mas se for para que volte a ser como antes
Deixemos então que se mate sozinho!
Leia mais em “Poesias”:
Espólios
O chão de mortes rubro e corpos cheio | (Vedado por metais, escudos falhos), | Por nuvens de abutres carniceiros | Agora é posto em sombras, surgem vários…
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O chão de mortes rubro e corpos cheio
(Vedado por metais, escudos falhos),
Por nuvens de abutres carniceiros
Agora é posto em sombras, surgem vários
Girando em asas torpes, altaneiros
— Selado o fim da guerra, de mortais —,
Até que um voo rasante, já sem medo,
No vão mais degradante ele decai.
Saltit‘entre o despojo abandonado;
Mordisca a parte sua da mortalha —
Vitória sem lesão, nenhum ataque.
Banquete assim aberto, assinalado…
De sobra a fosca pilha de medalhas —
Sem brilho e de valor menor que a carne.
Leia mais em “Poesias”:
Cosmo Soturno
caminho pela escuridão da noite | tentando imaginar minha vida | sem a correnteza das águas que | caem abundantemente em sua face…
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caminho pela escuridão da noite
tentando imaginar minha vida
sem a correnteza das águas que
caem abundantemente em sua face
tê-la em meus braços fora o
único momento bom deste
viver melancólico e sombrio
que arrastei por todos os anos
neste corpo gélido, não sinto mais
a força pulsante dos mares de
sangue que fluem inundando
minha soturna existência
às sombras arrancaram de mim
toda a solidão cravada em meu peito
lançando em um abismo obscuro
o mal sedento e submerso por ti
onde estou ainda consigo ouvir
tuas súplicas arrependidas e
desesperadas por mim
clamando por meu retorno
lançado em um universo onde
as trevas devoram minha alma
suplico em meus devaneios para quê
a solitude em meu peito aproxime nossas almas.
Leia mais em “Poesias”
Entropia
Todas profundas marcas que deixaste em mim | São tão irremovíveis quanto a dor que sinto… | Por isso, em lutar por ti eu não mais insisto: | Que o Cosmos…
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Todas profundas marcas que deixaste em mim
São tão irremovíveis quanto a dor que sinto…
Por isso, em lutar por ti eu não mais insisto:
Que o Cosmos se dedique a nos juntar, enfim!
Na aglutinação dos astros com os insetos,
Quando os organismos todos verem, unidos,
A chegada de apocalípticos cometas...
Então a hecatombe final do universo
Vai me unir a teu amor não correspondido
Em seus próprios detritos de sóis e planetas…
Leia mais em “Poesias”:
Tempus Fugit III
Alguém verá esta noite, que estrelada, | A sós vislumbro em toda a imensidão? | E mesmo que a perceba agraciada | Compreende seu sabor de solidão? …
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Alguém verá esta noite, que estrelada,
A sós vislumbro em toda a imensidão?
E mesmo que a perceba agraciada
Compreende seu sabor de solidão?
Alguém, sentindo a aragem tão sutil,
Enquanto a escuridão é mui soturna,
Talvez encontre lá, sentidos mil,
Os quais estão, p’ra mim, na fé sonurna...
Ó, quanta vastidão, do firmamento,
Assombra, pois, infinitesimal,
Mui faz do meu haver — triste relento;
Soterro-me em vazio adagial...
— O sopro d’uma vida passadiça —
Andar errante à sombra fronteiriça
Das horas no relógio arterial.
Leia mais em “Sonuras”:
Sonuras de Áurea Lihran: Fragmentada
Estás n’est’alma lôbrega tão minha, | Resides ou, quiçá, no corpo meu? | Silente agora, vens cruzar a linha | Que tênue marca em mim o sangue teu?
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Estás n’est’alma lôbrega tão minha,
Resides ou, quiçá, no corpo meu?
Silente agora, vens cruzar a linha
Que tênue marca em mim o sangue teu?
Sondando n’estes livros, no ancestral,
Quaisquer dos mais vis ritos, pois confesso
Que estar em fragmentos e imortal
É mórbido p’ra mim… horror excesso!
“Escreva, minha bela Aesatt, que sei
As faces da tua judas-pretensão;
Protejo-te nas trevas quais sou rei
E morro co’a tua afável gratidão…”
Irônica a tua voz grave a verter,
Escuto e então silente faz-se ser
Por noites… Seth… volta, maldição!
Leia mais em “Sonuras”:
Sonuras de Áurea Lihran: Seth
Orquídeas negras tecem a ninguém, | Silêncio aveludado no jardim, | Apresso-me temendo vir alguém | Desperto pelo horror do olor carmim;…
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Orquídeas negras tecem a ninguém,
Silêncio aveludado no jardim,
Apresso-me temendo vir alguém
Desperto pelo horror do olor carmim;
Perfiz todo o balcedo estéril e vi
A névoa cinerária se achegando,
Tão tácita espargia — eu m’envolvi…
Sua lôbrega humidade circundando;
Desvelo, cinza e triste vilarejo,
Porém, ao meu espanto, flama à vela
E o som d’um tragimorbo realejo…
Vertigem brusca, bagas de Glïzehla
Nas mãos de humana tez, viril demônio,
Semblante tão terrífico em adônio —
“Não temas teu Arcanjo, bel donzela”.
Leia mais em Sonuras:
Promessa de Solstício
Amado, esta invernia quando vem, | Na tua serenidade apaziguante, | Almejo o aconchego que nos tem | Somente em nosso leito lacrimante;…
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Amado, esta invernia quando vem,
Na tua serenidade apaziguante,
Almejo o aconchego que nos tem
Somente em nosso leito lacrimante;
No peito teu deitar-me aquecida
E penso: a eternidade fulgurante
Protege nosso amor e faz da vida
Promessa de um só vínculo constante;
Tu me és tenro perfume de memórias
Em tanto formidáveis, por cuidado,
És lume, amor, p’ra toda a nossa história…
Segredas-me que estás propositado
A ouvir-me parolando as minhas juras,
Zelando, assim, sereno a mi’a candura…
Promete sempre estar, pois, ao meu lado?
Leia mais em Sonuras:
Mártir
Exangue, sua antiga força agora | Distante está de todo o heroísmo… | Mas vê-se, no bater d’última hora, | Seu corpo combater o derrotismo:…
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Exangue, sua antiga força agora
Distante está de todo o heroísmo…
Mas vê-se, no bater d’última hora,
Seu corpo combater o derrotismo:
Os olhos — duas órbitas pra fora —
Erguidos, qual chorassem, comovidos…
Seus braços, envolvendo toda a glória,
Num gesto de abraçar algo invisível…
A dor de humana ação parece pouca
Perante o rosto altivo, quase indene,
Lavando com seu sangue o turvo chão…
De onde faz-se ouvir, de boca em boca:
Sem dúvida nenhuma dentro dele
Pulsava a cor vermelha da paixão.
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Senda de passos brancos (fragmento)
A longa estrada ao Vale se inicia | na noite descorada — lama e geada. | O primeiro dos cantos acompanha | a névoa fina, o fim da madrugada…
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A longa estrada ao Vale se inicia
na noite descorada — lama e geada.
O primeiro dos cantos acompanha
a névoa fina, o fim da madrugada,
o vento frio, cortante, umedecido.
Rebanhos já despertam pelos campos
rodeando lagos, evitando as sombras
de altos pinheiros feitas pelos postes
antigos e vencidos pelo escuro.
Ao longe, aquele bosque…
E cobrem o caminho tantas árvores,
disformes estas, sempre tão fechadas,
mas elas pouco ocultam, tão somente
galhos partidos, folhas ressecadas
e sonhos esquecidos.
Ainda além da via do Castelo,
cercada por metálicos ruídos,
ergue-se a Catedral, e a sua alvura
reflete em si os raios d'alvorada
em róseos dedos já reavivada.
Os brônzeos sinos soam piamente
pela cidade frígida, vazia,
e ecoa pelas torres uma angústia
de vãs lembranças, de esperanças mortas
há tempos pela vida.
Altíssima entre as nuvens da manhã
a cruz se mostra, mesmo enferrujada.
No tempo antigo, quando foi alçada,
quanto luzia, quanto serenava
o espírito infeliz…!
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Pesadelo
Desperto numa rústica tapera… | Com passos range a paliçada antiga; | ventos colidem contra a porta, e as vigas | reverberam gemidos de quimera…
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Desperto numa rústica tapera…
Com passos range a paliçada antiga;
ventos colidem contra a porta, e as vigas
reverberam gemidos de quimera.
Ouço pelo ar gelado: os sons da fera
mais aparentam fúnebres cantigas
compostas pelas hostes inimigas
de bruxas e xamãs, há muitas eras.
Contemplo pela mísera ventana
a mata que contorna esta cabana —
ao longe aquele vulto apavorante!
Uma anciã do Volga, a pele nua,
argêntea como a lucidez da Lua,
caliginosa, ainda que brilhante!
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Rotineiro
Condenados aos trilhos de ferro, com olhares cansados, | Cabelos bagunçados | Dentre almas sem esperança | Viajando em enganoso momento de bonança…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Condenados aos trilhos de ferro, com olhares cansados,
Cabelos bagunçados
Dentre almas sem esperança
Viajando em enganoso momento de bonança.
Entorpecedor sono que amortece os sentidos
Desejos que se tornam, então, omitidos
Amor que neste chão jaz sepultado
Como produto do próprio resultado
Paixões que nascem e morrem a cada nascer da luz
Aos mais jovens corações seduz
A troca de olhares breves, omissos
Toque que, aqui, se faça inciso
Telas luminosas que entretêm o sentido.
Desprezo, em suma, contido.
Barras frias, corpos amontoados,
A caminho daquilo que foram condenados.
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Dilacerante
No dia que o revés lhe bate à porta, | ele escuta a notícia lastimável | e implacável de que ela agora é morta, | que jaz num mausoléu inviolável….
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
No dia que o revés lhe bate à porta,
ele escuta a notícia lastimável
e implacável de que ela agora é morta,
que jaz num mausoléu inviolável.
Alucinado pela dor pungente,
nada pensa senão da perda o horror
e obedece ao infeliz rapidamente
a loucura que pede o seu amor:
Na ânsia de ver sua vestal preclara,
chega ao jazigo em pressurosos passos,
quebra o mármore impérvio que separa
os dois, deixando, como ele, em pedaços
o féretro de sua bela amante
para ver novamente o seu semblante,
para mais uma vez tê-la em seus braços.
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…