Anomaly
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo. Caminho sem fim, sem trégua, nessa estrada que se apresenta tão conhecida, mas, sem memória, não posso. Estou sonâmbulo. Não sei se amanheceu ou se é noite ainda.
Abre-se uma clareira, repentina, ofuscando o olhar. Surgem árvores, mas ainda estou ofuscado; ramos sobem pelas minhas pernas, parecem dedilhar, mas não há dedos, não há apalpadelas. Envolvido, inseguro diante da segurança. A prensa amaciada pelas folhas grandes que sobem pela minha boca. Grito de socorro calado, como uma mão que tapa os lábios; sufoco.
Não é normal. Nada disso é normal. Apreensivo. Tudo ao redor começa a clarear. Não estou mais sufocado. Vejo tudo como câmera de cinema, minha visão de sétima arte: transeuntes ao redor com suas vidas normais e as sacolas cheias de pão, casais se beijando na porta da despedida, o cheiro de café e os cachorros nos postes, rasgando as bolsas de lixo. Mas ninguém me vê, nem toma nota; ambos passam com raiva, com gestos, alegria e desconfiança, mas ninguém parece me observar. Enquanto isso, tento sair da armadilha, implorar por aqueles seres humanos normais. Em vão. O bizarro me doma.
Perdendo as forças, exausto. Perecendo. Entregue totalmente àquilo que a natureza pode fazer aos homens; a mim. Perdido em um íntimo profundo e escuro, como entre as paredes do quarto.
Agora estou sentado na cama, sem ar. Suado como um porco pronto para o abate. Acendo meu cigarro. Ainda são três horas da madrugada. Devo um banho e passar um café. Logo mais terei de enfrentar a rotina.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa dedicada a leitura desde a infância, influenciado por…
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
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A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…
Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Canto Escuro
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
No canto ali do quarto
No escuro
Sentada e descalça, no chão frio
Observo as sombras que ninguém mais vê.
Rabisco na penumbra
Todas as formas distorcidas
Que não me causam mais medo.
Registro-as para mim mesma.
A luz que as afastava
É a mesma que machucava meu pobre coração.
Nunca suportei não ser igual aos demais
Talvez por isso, esse canto escuro seja o meu favorito no mundo.
Olhares vazios
Expressões que me julgavam
E até mesmo enojavam
Nunca foram fáceis de aceitar.
Mas duvidarem da minha sanidade
Do mundo ao qual eu realmente pertencia
Foi demais para mim
Adentrei ao véu.
Meu corpo falho
Face retorcida por um mau nascimento
Sempre a esquisita,
Anomalia...
Mas somente do outro lado
Eu vi que todos estavam errados
As sombras que ninguém enxergava
Eram os próprios defeitos, eles só tinham medo.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Ana Kelly, natural de São Paulo (SP), é poeta, escritora, contista e artesã, sócia-proprietária da loja de acessórios e artigos alternativos, Ivory Fairy. Tem poemas e contos publicados como co-autora em diferentes antologias. No ano de 2009 recebeu o prêmio de 1º lugar, em um concurso de poesias do tema “Natureza”, do Projeto Chance, no Centro de Educação Unificado ( CEU ) em Paraisópolis. Organizadora da segunda Semana Literária Digital de 2023…
Leia mais em “Poesias”:
Desconstrução
A construção estava em ruínas. Aquela casa devia ser mais velha que o mundo. Os matos cresciam desordenadamente e tomavam conta dos…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A construção estava em ruínas. Aquela casa devia ser mais velha que o mundo. Os matos cresciam desordenadamente e tomavam conta dos espaços vazios, reclamando silenciosamente a posse do imóvel – essa obtida por usucapião indevido – mas o imóvel não ousava protestar contra tal invasão e, nessa dinâmica mutualística, a casa já não sabia o que era ela e o que era mato.
Após anos dessa disputa muda, o Banco também resolveu reclamar sua posse. O antigo e inexistente ex-proprietário não tinha herdeiros, mas sua dívida permanecia mais viva que nunca — e que ele. Algo precisava ser feito; o Banco não podia ficar com esse prejuízo, coitadinho!
Foi expedida uma ordem de demolição. O terreno ficaria livre da velha construção, do matagal invasor e, consequentemente, de toda espécie de insetos e bichos que tanto atrapalhavam a vizinhança. Todos seriam contemplados pela decisão de uns poucos acionistas preocupadíssimos com o bem-estar da comunidade.
A empresa de demolição foi escolhida a dedo, não porque fosse a mais qualificada – talvez até fosse – mas o fato era que o sobrinho do acionista majoritário precisava dessa força. Quem poderia se opor ante tanta ajuda humanitária?
Geraldo, o encarregado do procedimento que aconteceria naquela casa, era um dos funcionários mais dedicados e experientes daquela empresa. Pai de dois meninos, ele tinha terminado o relacionamento com a ex-companheira há cinco anos, mas mantinham uma relação amistosa.
Obtivera ordens expressas para conduzir impecavelmente aquela ação. Como se o sobrinho do acionista majoritário precisasse reforçar pessoalmente as ordens e garantir que tudo transcorreria da melhor maneira possível, ele compareceu pontualmente ao local no dia marcado.
Em procedimentos desta natureza, era comum a empresa separar peças reaproveitáveis, tais como louças dos sanitários, pias, janelas, portas e qualquer outro móvel que ainda estivesse nos imóveis e em condições de uso. As peças eram então revendidas para casas de materiais para construções usados.
Tudo estava seguindo o planejamento; todos já estavam presentes e devidamente munidos de seus EPIs e ferramentas. Os caminhões, que levariam os entulhos e as possíveis peças reutilizáveis, já estavam a postos. A demolição ia começar!
Após entrarem naquele imóvel, todos ficaram surpresos com o que avistaram: internamente, aquele lugar não condizia com a aparência externa. Estava, de certo modo, limpo, sem insetos, teias de aranha ou qualquer outro indício que sinalizasse um local abandonado, como era de fato. De repente, parecia que estava iluminado por uma luz que não emanava de lâmpadas, mas como se o teto tivesse sido removido e a claridade externa tivesse tomado conta do local. Não era a claridade de sol do meio-dia, mas a luz levemente alaranjada de um belo entardecer. As janelas e portas permaneciam fechadas.
Parecia ser maior e com mais cômodos do que se imaginava. Ao chegarem a uma das salas, no canto direito de quem entra pela porta interna, havia uma mesinha com um computador ligado. Não havia qualquer fio conectado à tomada, mas ele estava ligado. Não era de um modelo atual e nem conseguiam identificar se era algum modelo antigo, pois os celulares e qualquer outro aparelho que portavam não funcionavam mais. O monitor era hexagonal e, pelo que se sabe, nunca houve na história dos computadores um monitor nesse formato. Não havia periféricos, mas somente a aproximação de alguém já fazia o cursor mover-se na tela. Tudo o que eles diziam era “digitado” e o texto era exibido na tela.
Indagavam-se que tipo de máquina seria aquela. O sobrinho, ao ver aquele estranho aparelho e suspeitando ter obtido uma tecnologia superior, aproximou-se bruscamente do computador e, ao tocar no monitor, desapareceu — não o monitor, mas ele — como se houvesse entrado por um portal oculto. Os homens ficaram apavorados. Uns tentaram correr, mas, ao tocarem na porta principal de entrada, também desapareceram.
Geraldo permanecia inerte, observando catatônico a cena. Ao olhar para a tela, percebeu que não era mais exibido o “prompt”, mas uma espécie de simulação 3D daquela sala. Ele era o único naquele plano terrestre. Na tela, todos os seus companheiros estavam correndo e gritando desesperadamente. Não se ouviam os sons, mas era possível ver as aberturas descomunais de suas bocas. Na sala, ele continuava imóvel, sem saber como agir dentro do imóvel.
Ouviu vozes e, após alguns segundos, as reconheceu: eram os seus filhos. Um medo crescente e perturbador percorreu todo o seu corpo; sentia cada batida de seu coração a saltar-lhe o peito. Conseguiu mover-se. Correu até a porta principal de entrada. Parou. Lembrou-se que todos que a tocaram desapareceram. A maçaneta começou a girar lentamente; ele precisava agir, não permitiria que seus filhos entrassem naquele local. Por impulso ou não, segurar a porta foi seu último movimento.
Na tela, era possível ver um Geraldo gritando mudo e desesperado.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Você está lendo um texto de um Autor Visitante do Castelo Drácula. Algumas edições do projeto podem permitir que autores visitantes escrevam e participem sem que seja preciso que tenham contrato assinado com o Castelo Drácula. Autores visitante não têm perfis fixos. Ao abrirmos nossos terríficos umbrais para visitantes, esperamos que eles possam vivenciar um pouco do trabalho editorial e da profunda dedicação da equipe do Castelo Drácula.
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Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
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Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
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Caos silencioso
Naquela manhã, tudo parecia exatamente no lugar. Os mesmos móveis, as mesmas cores e o mesmo silêncio rotineiro. Maria, como de costume, preparava…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Naquela manhã, tudo parecia exatamente no lugar. Os mesmos móveis, as mesmas cores e o mesmo silêncio rotineiro. Maria, como de costume, preparava o café enquanto o mundo ao redor se mantinha em sua confortável repetição. Mas havia algo diferente, algo que ela não conseguia identificar. Um incômodo, sutil, como uma leve coceira na mente, que insistia em pedir atenção.
Era um dia comum, mas algo dentro dela não estava. O reflexo no espelho da sala, por exemplo, sempre devolvera sua imagem fiel, mas hoje... o olhar estava diferente. Não era uma mudança óbvia, mas uma leve distorção, como se seus próprios olhos a observassem de um ângulo que ela não conhecia. O reflexo parecia mais cansado, como se carregasse uma angústia que ela ainda não havia aceitado. Aquilo a fez hesitar. Seria apenas cansaço ou algum pedaço de si que ela, até então, ignorava?
As pequenas mudanças continuavam a se acumular. O saleiro, que sempre ficava no centro da mesa, agora estava deslocado alguns centímetros para a direita. “Detalhes”, ela pensou. Mas ao mesmo tempo, esses detalhes pareciam sussurrar algo mais profundo. O que significava aquela mudança quase imperceptível? Por que a simples alteração na posição de um objeto a inquietava tanto?
Conforme o dia passava, Maria percebia que essas anomalias não estavam só na casa, mas dentro dela. Os pequenos desvios no mundo físico refletiam o caos silencioso de seu inconsciente. Talvez o espelho mostrasse uma versão sua que ela se recusava a reconhecer: uma parte de si aprisionada pela rotina, pelos papéis que assumira sem questionar. Aqueles detalhes fora de lugar não eram apenas externos. Eram manifestações de seu próprio desconforto, de uma alma sufocada pelas exigências e pelas formas padronizadas de viver.
Ainda assim, algo mais parecia se insinuar nas brechas dessa percepção. Quando o relógio da parede atrasou de forma inexplicável, ela se perguntou: e se as anomalias não fossem apenas dela? E se fossem também sinais de algo além, algo que a mente racional não conseguia captar? As fronteiras entre o consciente e o inconsciente, entre o que é interno e o que é externo, começavam a se diluir. Seriam essas distorções parte do que ela reprimia, ou haveria forças desconhecidas, invisíveis, que se manifestavam por meio delas?
Enquanto pensava nisso, sentiu uma corrente de ar gelado, embora as janelas estivessem fechadas. A sensação era estranha, como se algo de outra dimensão estivesse tocando sua realidade, quase de forma imperceptível. Maria se perguntava se aquilo que sentia – o desconforto crescente com a repetição dos dias – não era também uma abertura para o inexplicável. As anomalias poderiam ser tanto expressões de seu próprio interior quanto vestígios de algo que existia fora de seu entendimento, algo que não seguia as regras da ciência ou da lógica. Forças que, de algum modo, estavam em sintonia com sua angústia.
Os objetos fora do lugar, os reflexos distorcidos, o tempo que parecia perder sua coerência – eram duais. Parte de um processo interno que gritava por mudanças, por rupturas com a normalidade que a sufocava. Mas também, talvez, expressões de uma realidade maior, onde o que é percebido como estranho não está limitado ao psicológico. As anomalias sussurravam segredos de um mundo ainda desconhecido, talvez feito de camadas que a humanidade sequer começara a compreender.
Naquela noite, Maria não conseguiu dormir. Deitada, encarava o teto e sentia o peso dessas forças em equilíbrio. Sabia que, ao mesmo tempo em que aquelas distorções refletiam partes dela mesma que ela evitava, elas também podiam ser sinais de algo além do que ela conhecia. Entre as sombras, havia mais do que apenas metáforas de seu inconsciente: havia o toque silencioso do desconhecido.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras…
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Três e trinta e três
Oito anos após a morte de meu esposo. Coloco minha cabeça no travesseiro. Você não está mais ao meu lado, como sempre. É... já faz cinco, ou será que são…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Oito anos após a morte de meu esposo.
Coloco minha cabeça no travesseiro. Você não está mais ao meu lado, como sempre. É... já faz cinco, ou será que são sete anos? Eu não sei, mas o seu relógio despertador está ali, a dentadura, os óculos deixados de lado para dormir; tudo que você deixou está ali.
Oito anos e um dia após a morte de meu esposo.
Estranho... Hoje de manhã, quando acordei, o seu relógio despertador estava no chão. Estou certa de que ele vibra ao despertar e que estava próximo da beirada da mesa, mas não consigo me lembrar de tê-lo programado para isso.
Oito anos, um dia e 11 horas após a morte de meu esposo.
Eu me lembro de ter deixado o relógio despertador ligeiramente mais à direita hoje de manhã, quando o recoloquei na mesa.
Oito anos, um dia e meio após a morte de meu esposo.
Meia-noite. Acordei assustada durante um pesadelo. Pensei ter visto alguém na porta do quarto, parado e em pé. Não era nada, só o meu roupão pendurado no gancho.
Oito anos, um dia e quinze horas após a morte de meu esposo.
O despertador tocou às três horas da madrugada. Agora me lembro de tê-lo programado, mas era pra ter sido às três horas da tarde, e não agora. Me enganei.
Oito anos, um dia, quinze horas e cinco minutos depois da morte de meu esposo.
Sinto uma mão gélida afastar os cabelos que estão sobre a minha testa. Sinto uma fraquíssima, indelével corrente de ar, um toque frio na minha testa. Abro um olho. Devo estar sonhando.
Oito anos, um dia, quinze horas e dez minutos depois da morte de meu esposo.
Não consigo dormir. Sinto que não estou sozinha em meu próprio quarto. Começo a suar, está quente! A água... Vou tomá-la, ela sempre está aí. Do seu lado da cabeceira.
Oito anos, um dia, quinze horas, dez minutos e vinte segundos depois do assassinato de meu esposo.
Socorro! Minha garganta está fechando! Me solta... Tira as mãos do meu pescoço, querido, você não entende? Você tinha de morrer.
Oito anos, um dia, quinze horas, trinta e três minutos depois que matei meu esposo envenenado.
Está tudo escuro. Por que o despertador tocou? Abro os olhos e não vejo nada, apenas preto. Depois, nada...
3h33min
Óbito: Feminino, branca
Idade: Não informada
Causa provável do óbito: Intoxicação por medicamentos
Observações: Nenhum sinal de violência externa.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?…
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Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
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De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Autômato Anômalo
O ano é 2665. A metrópole Escarlate, situada no coração do mar Ártico, é sustentada por enormes reatores e tubulações que criam uma verdadeira…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O ano é 2665.
A metrópole Escarlate, situada no coração do mar Ártico, é sustentada por enormes reatores e tubulações que criam uma verdadeira fortaleza de titânio que alcança as nuvens e as estrelas.
O governo autoritário não permite animais, nem de estimação, nem para consumo. Também não é permitida nenhum tipo de criação literária ou musical. A cidade está sempre sob vigilância para que nenhum tipo de melodia seja reproduzida. Ela vive sob um domo de vidro enorme, assim como outras diversas cidades deste devastado mundo protegido por cúpulas, pois, fora delas, reside um selvagem deserto fervente e predatório durante o dia, que, à noite, torna-se um inferno congelante mortal.
Escarlate mantém-se abastecida por geradores ultramodernos, ligados por intermináveis cabos, tubos e conexões, além de incontáveis usinas hidrelétricas conectadas aos rios subterrâneos da cidade. A única forma de se deslocar para fora é por labirínticos túneis intermináveis que levam ao mundo exterior, caso se consiga sobreviver até encontrar a saída. Esses túneis abrigam criaturas grotescas, enormes vermes deformados e sedentos de sangue, entre outras ameaças. A superfície da cidade é inteiramente feita de titânio e concreto, está sempre chovendo, e o cenário é inteiramente cinzento e avermelhado, com um vermelho forte, como se a metrópole estivesse constantemente sangrando, iluminada por incontáveis luzes de neon de um vermelho-sangue.
A cidade é dividida em três partes: o subterrâneo da morte, o miolo e o topo.
A capital, situada no centro e chamada “Ruber”, fornece à elite todos os recursos necessários para a vida de luxo que os magnatas controlam com mão de ferro, sob constantes ameaças, medos, trabalho exploratório e a profunda exploração da mente e da racionalidade humana.
Devido a tais explorações, ao extremo estresse, à negligência médica e à violação da dignidade humana, os moradores de Ruber começaram a desenvolver uma espécie de doença em seus corpos.
Os cientistas da elite analisaram casos isolados e constataram que tal mutação ocorria devido a uma anomalia nas células dos indivíduos que apresentavam sintomas extremos de medo, tristeza, raiva e frustração. Em casos mais graves de tragédia ou traumas, as pessoas iam a óbito em poucos dias. Essa praga ficou conhecida como o Câncer Escarlate.
Medidas médicas não continuavam sendo tomadas, e a doença evoluía conforme a tecnologia também evoluía.
A elite desenvolveu humanoides autômatos para analisar, caçar e eliminar qualquer cidadão que fosse detectado com essa doença. Esse programa foi batizado por eles de
“A Purificação Escarlate”.
Logo, as ruas, avenidas e esquinas de toda a metrópole estavam sendo patrulhadas por inúmeros autômatos.
O que a elite não imaginava é que a doença se desenvolvesse ainda mais, criando mutações e transformações cada vez mais grotescas nas pessoas, tornando praticamente impossível esconder os sintomas da fiscalização robótica. A aparência das pessoas sofria mutações de acordo com a intensidade de seus sentimentos. Logo, todas as pessoas estavam assim; inclusive, os bebês já nasciam com deformidades, e todos, sem exceção, não se reconheciam mais. Todos se enxergavam deformados, com alguma anomalia na aparência e, principalmente, no interior. As poucas árvores e flores que coexistiam na metrópole também sofriam alterações genéticas, muitas tornando-se agressivas, predatórias e venenosas — criaturas sem vida ou beleza.
As pessoas começaram a aceitar suas condições e a compreender que essa maligna condição jamais alcançaria cura ou paz, e que a elite não permitiria exterminar todo o seu povo. Ou seriam eles capazes de tal extermínio?
Crianças com rostos queimados, sorrisos deformados, olhos com bolhas constantes, nódulos, entre outros...
Há formação constante de bolhas sob a pele quando ocorre infecção causada por bactérias em um ou mais folículos pilosos.
Os furúnculos começam como nódulos vermelhos e sensíveis. Eles se enchem de pus, crescem, se rompem e drenam. Um carbúnculo é um agrupamento de furúnculos.
Compressas quentes podem ajudar o furúnculo a amadurecer e drenar. Algumas pessoas se reuniam em centros na tentativa de tratamento, unindo-se, mas geralmente era em vão, pois todos eram contaminados, e a higiene raramente estava adequada para se viver.
Furúnculos grandes e carbúnculos precisavam de atendimento médico, que jamais ocorria, pois não havia o suficiente para toda a população.
Enquanto a elite mantinha sua aparência jovial, saudável, completamente imune e blindada, apenas observava o circo de horrores que acontecia. Devido a tal egoísmo, desprezo e verdadeiro abandono das condições de vida, nada mudava.
Quando a situação já parecia insustentável, mais um grave evento ocorreu: as máquinas também começaram a apresentar sintomas anômalos, como fungos crescendo em suas carcaças e raízes no lugar dos implantes de metal, entre outras variações.
Um dos cientistas de Ruber, chamado Dr. Kafra, um protótipo de autômato, descobriu, ao hackear sua própria memória, algumas informações comprometedoras que poderiam sentenciar sua vida e a de sua família.
Kafra descobriu que novos experimentos estavam sendo desenvolvidos nos laboratórios da elite e que algumas pessoas estavam respondendo à radiação desses experimentos. Estavam tornando-se insetos enormes, e muitas desenvolveram também uma intensa lepra, além de esquizofrenia e alucinações constantes, e membros amputados. Na verdade, o novo “Projeto Purificação”, que inicialmente seria para deslocar os casos mais graves para uma ala isolada, era, na realidade, uma expiação para isolar aqueles mais propensos a ameaçar esses testes e comprometer a saúde dos envolvidos... Nesse momento, um alarme disparou no circuito cerebral do autômato que reproduzia esses arquivos para Kafra, enviando um sinal para a central da elite, chamada “Matrix Hall”, e se autodestruindo alguns segundos depois.
Kafra imediatamente entrou em pânico.
Ele se virou, vendo seu reflexo deformado em um móvel de alumínio corroído, assim como seu corpo, seu semblante, seu pescoço — uma monstruosidade — e, mesmo assim, seus olhos se encheram de lágrimas.
Seu filho, Liam, de dezessete anos, o chamou.
O rapaz era pintor e sempre escondera suas pinturas do sistema.
Incontáveis quadros, criados a partir de misturas que ele encontrava nas sucatas e contrabandeando peças para conseguir tintas suficientes para seus trabalhos, refletiam a realidade da vida monstruosa que levavam.
Naquele instante, bateram à porta de metal da cápsula onde moravam.
“Abram imediatamente esta cápsula. Aqui quem fala é a guarda autômata a serviço da elite Matriz...”
Mais alguns segundos se passaram, e Kafra tentou explicar a Liam que ele precisava fugir... Liam ficou confuso, sem entender nada, e questionou. Mas Kafra, transtornado e transpirando frio, disse que não havia tempo e que ele precisava fugir imediatamente.
“Como vou deixar você e mamãe, papai?”
“Abra! Imediatamente...”
A esposa de Kafra e mãe de Liam abriu a cápsula.
“Não, Matra...”
“Do que se trata, oficiais?”
“Senhora, recebemos uma denúncia anônima de que seu filho está criando arte proibida pela lei do Estado, e devemos confiscar e levar ele e seu marido à custódia marcial.”
“Isso é um absurdo!” ela retrucou.
“O absurdo faz parte de nossa agenda, minha senhora.”
“NÃO!” Kafra gritou.
“Eu sei que não é por isso que estão aqui...”
Os olhos metálicos, mortais, vermelhos dos autômatos imediatamente se voltaram para Kafra.
Um dos autômatos apontou uma pistola elétrica para a esposa de Kafra e disparou bem no meio de seu peito, estourando e lavando todo o recinto com sangue, jogando-a contra a parede no mesmo instante.
Liam observou aquilo horrorizado.
“Mamãe...”
“CORRE, LIAM, FUJA!” gritou Kafra, seu pai, antes de também receber um tiro pelas costas, que atravessou seu peito, cuspindo sangue...
O garoto pulou pela janela, subiu em sua motocicleta flutuante e disparou em direção ao subterrâneo da cidade, em busca da única fuga possível daquele inferno...
Quando adentrou os esgotos subterrâneos da metrópole, parou por um momento para descansar. Olhou-se no reflexo daquela água imunda, toda aquela podridão. O garoto possuía cabelos loiros curtos, e metade de seu rosto era deformado, com veias enormes; um de seus braços era uma grotesca garra, que inchava quando ele ficava nervoso, causando-lhe uma dor descomunal. Além disso, ele sempre tinha alucinações quase todas as noites...
Será que Liam conseguiria escapar?
Liam vestia uma calça preta de borracha, botas de couro e um colete. Seu peito estava nu, exposto devido às variações de seu corpo, que sempre rasgavam as camisetas quando seu braço inchava, assim como seu coração...
Dentro do bolso da calça, ele encontrou uma carta de seu pai, que dizia:
“Liam, se está lendo isto, seu pai e sua mãe foram mais uma das vítimas de nossa sociedade. Fuja. Siga para Necropolis; lá existe um indígena capaz de ajudar. Ele foi um grande amigo de seu pai. Eles sofrem como nós, filho. Lá, toda a população se transformou em escravos esqueléticos, controlados pelo necromante líder, devorador de carne humana. Encontre meu amigo, e ele o auxiliará. Pergunte a ele sobre a relíquia encontrada no fundo do oceano Ártico e a chave encontrada nos confins da pirâmide subterrânea de gelo. Elas são a conexão para impedir que o governo Matriz continue sem sofrer com os próprios sentimentos. Essas duas substâncias precisam ser destruídas. O autômato que hackeei continha essas informações. Ele pode ajudá-lo. Adeus, filho. Boa sorte.” — Kafra
Através de uma janela subterrânea, Liam observava uma árvore apodrecida tentando sobreviver, com uma única folha no galho...
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Você está lendo um texto de um Autor Visitante do Castelo Drácula. Algumas edições do projeto podem permitir que autores visitantes escrevam e participem sem que seja preciso que tenham contrato assinado com o Castelo Drácula. Autores visitante não têm perfis fixos. Ao abrirmos nossos terríficos umbrais para visitantes, esperamos que eles possam vivenciar um pouco do trabalho editorial e da profunda dedicação da equipe do Castelo Drácula.
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…
Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Pesadelo
Os gritos histéricos e o agoniante ranger da cama ecoavam por toda a casa. Sob o lençol branco, seu corpo se contorcia num medonho frenesi. Ele acorda…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Os gritos histéricos e o agoniante ranger da cama ecoavam por toda a casa. Sob o lençol branco, seu corpo se contorcia num medonho frenesi. Ele acorda aterrorizado: a cama encharcada, os olhos quase saltando das órbitas, os braços estendidos implorando por alguma intervenção. Amedrontado, Pedro senta-se na cama, atordoado. Ele tenta buscar respostas para esse terrível pesadelo e sussurra:
— Isto foi tão assustador, e tão tangível quanto as paredes dessa casa.
Ofegante, ele fita a janela à frente da cama. Ouve o soprar dos ventos, que soam como o arrepiante uivo de lobos em plena lua cheia, e ouve também as flores do jardim e as altas gramas movendo-se de forma estranha. Enquanto encara a janela, uma terrível sensação de estar sendo observado toma conta dele. Munido de coragem, ele se levanta, e, ao acender a luz do quarto, nota algo estranho: o piso parecia maleável, prestes a ceder a qualquer momento. Ele caminha com cautela e acende as luzes o mais rápido que pode. As alterações pioram severamente. Ele podia ouvir o horrível ranger da estrutura da casa; a tinta das paredes parecia derreter. Seus olhos percorrem, apavorados, todo o lugar. Viu também que os móveis da sala haviam duplicado, adquirindo um indescritível aspecto.
— Não pode ser... Isto é loucura! Será que acordei, ou ainda estou dormindo?
Após cruzar a sala, Pedro chegou à porta que dava acesso ao jardim. Ao abrir, ele contemplou o inimaginável ganhando vida diante dos seus olhos: o jardim que outrora era gracioso e belo sofrera também as anomalias. As altas gramas transformaram-se em horrendos e viscosos tentáculos que dançavam sob o temível luar. O som era repugnante. A terra adquirira um aspecto lamacento, como um pântano. O limoeiro fora tomado pelo lamaçal.
Pedro eleva as mãos até a cabeça, e, tomado pelo terror, vocifera perante o inconcebível:
— Isto não é real!! Estou dormindo ainda!
Enquanto ele grita, os tentáculos partem ao seu encontro, deixando um rastro negro pelo chão. Ele corre para dentro de casa e, num piscar de olhos, está de volta em sua cama, apavorado, aliviado por ter amanhecido e pela luz brilhante do sol que invade o quarto. Levanta-se rapidamente, mas não consegue acreditar no que vê: as anomalias continuam lá.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual, com formação em Fotografia, o autor…
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Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…
Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
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Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
O Estranho Senhor Jack
Recentemente, fui contratada para cuidar do senhor Jack, um homem que precisava de atenção médica mais direta. Era uma tarde chuvosa, e as gotas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Recentemente, fui contratada para cuidar do senhor Jack, um homem que precisava de atenção médica mais direta. Era uma tarde chuvosa, e as gotas de água deslizavam pelas janelas, criando um som quase hipnótico. A princípio, sua aparência não me parecia incomum. Ele tinha cabelos brancos, um olhar profundo e uma pele enrugada que parecia contar histórias de uma vida inteira. Um senhor aparentemente calmo e terno. Mas logo percebi que havia algo estranho em seu jeito de ser.
— A senhorita é Liah, a nova cuidadora? — perguntou ele, com uma voz trêmula, mas carregada de uma firmeza que me desconcertou. Seus olhos brilhavam de maneira peculiar, como se cada piscar guardasse um segredo obscuro.
— Sim, senhor Jack. — Ajeito a minha roupa. — Estou aqui para ajudá-lo com o que precisar.
Respondi, tentando manter a voz calma, apesar do frio que começava a se espalhar discretamente pela minha pele. A voz dele era assustadora, quase tenebrosa. Mas resolvi iniciar o meu trabalho e ignorar essa impressão.
Nos primeiros dias, segui a rotina que me foi indicada: preparar refeições, administrar medicamentos e, quando possível, conversar com ele. Mas as conversas rapidamente tomaram um rumo incomum. Jack tinha uma maneira de se expressar que me deixava desconfortável. Ele se detinha em detalhes, descrevendo coisas que não faziam parte de sua realidade aparente.
— Você sabia que o mundo não é o que parece, Liah? Às vezes, a verdade está escondida sob a superfície, como um peixe à espreita nas profundezas do mar — ele disse em uma tarde, enquanto olhava pela janela para a tempestade lá fora. — Talvez a realidade esteja abaixo da minha própria pele.
Eu tremi. Ali, eu não tinha mais dúvidas sobre a estranheza do senhor Jack.
— Acho que sim, senhor. Mas o que quer dizer com isso? — perguntei, tentando parecer interessada, embora uma sensação de inquietude começasse a tomar conta de mim.
— Ah, a curiosidade. Uma chama que pode queimar, sabia? Às vezes, é melhor não saber. Às vezes, o que se vê não é real. — Ele voltou a olhar pela janela, seus olhos distantes, como se enxergasse algo que eu não conseguia.
Havia dias em que eu achava que ele estava perdido em outra época. Ele falava de amigos que eu sabia que já haviam partido há muito tempo, ou mencionava lugares que não existiam mais. Suas mãos tremiam ao segurar o copo, mas, quando falava, sua voz era clara e poderosa, uma anomalia que me deixava assustada.
— Liah, você já ouviu as vozes? — ele perguntou em uma noite, quando a luz fraca da lâmpada lançava sombras dançantes nas paredes. Meu coração disparou.
— Vozes? Que vozes, senhor? — Eu estava apreensiva, mas não queria parecer insensível.
— As que habitam os lugares onde as pessoas não vão. Às vezes, ouço sussurros vindos do sótão. Eles me chamam, sabe? Como se soubessem que estou aqui, que guardo algo importante.
Respirei fundo, torcendo o lábio com irritação. Ele inclinou-se para frente e manteve os olhos fixos nos meus, quase como se estivesse tentando me convencer de que havia algo mais naquela casa, algo nele.
Naquela noite, não consegui dormir. Os sussurros pareciam ecoar na minha mente. Olhei para o sótão, e a porta estava entreaberta, como um convite à curiosidade. No entanto, um medo paralisante me impediu de me aproximar. O que se escondia lá em cima?
— Não se preocupe, Liah. A curiosidade é a mãe de todas as descobertas, mas também a raiz do medo.
— Dá para o senhor parar de falar essas coisas? — bradei, irritada. — Desculpe, não queria gritar com o senhor. É que estou amedrontada com essa conversa.
Percebi que me deixei levar pelo medo e me desculpei com ele, acalmando-me, fechando os olhos e virando-me de costas. Nesse momento, o senhor Jack havia se aproximado sem que eu percebesse, e a maneira como deixou esvair o som da sua respiração fez meu sangue gelar. Junto a essa percepção, notei seu rosto se transformando, como se fosse um líquido pastoso a se derreter, e seus lábios se abriram como quem grita. Seu olhar arregalou-se, e eu gritei, fugindo da sua presença. Quando olhei para trás, ele parecia normal. Então, me acalmei e ignorei o ocorrido durante todo o dia.
No calar da noite, comecei a notar pequenas coisas: objetos que mudavam de lugar, a temperatura da casa que oscilava inexplicavelmente, como se algo estivesse vivendo ali, algo que se alimentava da confusão e do medo. Eu tentava convencer a mim mesma de que eram apenas os efeitos do estresse, mas a sensação de que a casa estava viva e me observava crescia a cada dia.
Uma tarde, ao preparar o almoço, decidi confrontá-lo com a minha teimosia de jovem.
— Senhor Jack, tem certeza de que está bem? O senhor parece… diferente. Como se estivesse lutando contra algo.
Ele sorriu, mas era um sorriso que não chegava aos olhos.
— Ah, minha querida, todos lutamos contra algo. A diferença é que alguns de nós conseguem ver o que realmente está em jogo. Você não sente? A casa está mais viva do que nunca.
Meu coração parou. Não era apenas a voz dele que soava estranha; eram suas palavras, carregadas de um peso que eu não conseguia entender. Naquela noite, enquanto a tempestade rugia lá fora, não pude mais me conter. Com um nó no estômago e um aperto no peito, decidi subir ao sótão.
A escada rangia sob meus pés, e cada passo que eu dava era um desafio à minha coragem. Ao abrir a porta, um frio insuportável me envolveu. O sótão era escuro, exceto por uma luz fraca que parecia emanar de um canto. Quando me aproximei, percebi que não era apenas uma luz, mas uma espécie de pulsar, como se algo estivesse se agitando ali dentro.
— Liah… — O chamado era suave, quase um sussurro. Era a voz do senhor Jack, mas não era dele. Era um eco distorcido, vindo do próprio coração da casa.
— Senhor Jack? O que está acontecendo?
Eu estava paralisada, mas a curiosidade me puxava para frente. A luz tornou-se mais intensa e, por um momento, vi o que estava se movendo: sombras dançantes, figuras que pareciam absorver a essência do lugar.
— Venha, Liah. Você pertence a nós agora. A verdade é uma anomalia, e você acabou de descobrir sua essência.
Senti o chão tremer sob meus pés e, em um instante, uma onda de frio me atingiu. Meu grito se misturou com o vento que uivava lá fora.
No dia seguinte, despertei no sótão, sozinha, sem lembrar como, de fato, adormeci. A casa estava silenciosa. O senhor Jack havia desaparecido. O único sinal de sua presença eram os ecos de suas palavras que ressoavam na minha mente e a porta do sótão, agora fechada, mas com uma luz tênue que ainda brilhava através das frestas.
Não pensei mais e deixei aquela casa. Nunca mais voltei.
Às vezes, quando a chuva cai e as sombras dançam nas paredes da minha casa, posso ouvir a voz e ver o rosto desfigurado do estranho senhor Jack. Ele me chama, como se eu também fosse uma parte daquela anomalia, perdida entre o que é real e o que nunca foi. O estranho senhor Jack será o meu eterno terror.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Você está lendo um texto de um Autor Visitante do Castelo Drácula. Algumas edições do projeto podem permitir que autores visitantes escrevam e participem sem que seja preciso que tenham contrato assinado com o Castelo Drácula. Autores visitante não têm perfis fixos. Ao abrirmos nossos terríficos umbrais para visitantes, esperamos que eles possam vivenciar um pouco do trabalho editorial e da profunda dedicação da equipe do Castelo Drácula.
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Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…
Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Jardim
vozerio giratório | 90 graus de alegria | disputa acirrada na pista de pneumáticos | pela janela…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
vozerio giratório
90 graus de alegria
disputa acirrada na pista de pneumáticos
pela janela
(ora atingível)
desespera-me ver do lado de fora
que o tempo fez de mim um brinquedo que
vai
e não volta
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…
Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Fome Abominável
Isso aconteceu há mais de cinquenta anos, quando eu ainda era um jovem adolescente em meu primeiro emprego, tentando juntar alguns trocados para sair…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Isso aconteceu há mais de cinquenta anos, quando eu ainda era um jovem adolescente em meu primeiro emprego, tentando juntar alguns trocados para sair da casa paterna e me aventurar na capital em busca de uma vida melhor. No entanto, sendo eu um rapaz de família humilde, deveria, a todo custo, tentar ajudar meus pais, que viviam de seu próprio suor e nada possuíam, a não ser a Graça de Deus sobre suas vidas. Eu era um dos três serviçais que trabalhavam na casa dos Genarus. Além de mim, que tinha a função de copeiro, havia uma faxineira e uma cozinheira. Fora da casa, havia mais de uma dúzia de serviçais que faziam todo tipo de função que uma grande propriedade poderia exigir.
A casa era um imenso palacete assobradado, onde era possível se perder entre os diversos aposentos. Nada estranho para uma construção que precisava abrigar uma família tão importante. Os Genarus que conheci eram uma família de nove pessoas ao todo, contando a matriarca, que estava se aproximando dos cem anos. Dona Gercira era a mais velha deles. Mesmo já bastante debilitada fisicamente, ainda mantinha certa lucidez e, sempre que havia alguém disposto a ouvi-la, relatava várias histórias sobre a opulência que envolvia a história de sua família. Se essas histórias realmente aconteceram, ninguém sabia ao certo, mas ela gostava de contar sobre a oportunidade que sua família teve de hospedar, em sua casa, o Imperador e sua esposa, numa viagem que a Família Real fizera por essas bandas.
O restante da família era composto pelo Coronel Severiano, sua esposa, Dona Amélia, seus quatro filhos, um irmão – que não tivera sucesso na vida e vivia às expensas do coronel – e, por último, um filho bastardo, que ninguém ousava admitir ser seu. Dentre os filhos do coronel, havia uma adorável jovem que, por sua beleza, era considerada a joia mais rara dos Genarus. Essa singular criatura era a jovem Elizabeth, a quem seu pai sempre chamava de Liz, comparando-a à delicada beleza da flor que era o símbolo da realeza da França, país de origem de sua esposa.
A propriedade dos Genarus era de um tamanho descomunal e, devido a essa infinitude de terras que se perdiam no horizonte, sempre havia um enorme contingente de pessoas de todos os tipos, num vai e vem infinito. Até porque a estrada real cortava suas terras de ponta a ponta. Por esse movimentado caminho, passavam dezenas de pessoas diariamente, de um lado para o outro. Próximo à casa grande, havia um enorme barracão que, outrora, em tempos bastante antigos, fora uma senzala abrigando mais de sessenta escravos, e que, na época em que trabalhei lá, era usado como abrigo para os viajantes. Coronel Severiano sempre fora um homem bastante benevolente e muito prestativo aos mais necessitados, desde que, por sua vez, soubessem o significado de respeito e obediência, e cada qual permanecesse em seu devido lugar.
O que causou a ruína da família Genaru aconteceu num friorento mês de janeiro, quando um agrupamento cigano acampou em suas terras. Logo após as festas de final de ano, sempre acontecia aqui em nossa cidade — e ainda acontece todos os anos — uma festa em homenagem aos três Reis Magos. Esse era o motivo pelo qual os ciganos estavam acampados ali, pois esses nômades perambulavam de cidade em cidade, aproveitando as festas para comercializar suas bugigangas e seus artifícios mágicos. Como nossa cidade era bastante pequena — e ainda é —, padre João Pedro, o pároco da época, não autorizou que eles acampassem pelas cercanias. Por isso, receberam autorização do Coronel para ficarem em suas terras.
Dentre esses curiosos nômades, havia um jovem chamado Iago, que era a perdição e o pecado em pessoa. Jovem alto, de corpo atlético, com belíssimos olhos claros, cabelos dourados encaracolados e sorriso fácil, esse belo rapaz muito se assemelhava à imagem de João Batista, de Da Vinci. Além de muito belo, era também eloquente, sabia tocar violão e cantava com uma voz tão doce quanto a de um anjo entoando um louvor ao firmamento. Quando Elizabeth, passeando a cavalo, acompanhada de seu irmão caçula, o viu pela primeira vez, ficou imediatamente seduzida pelos seus encantos.
Elizabeth, ninguém sabe ao certo como, conseguiu, numa determinada tarde, estar a sós com esse jovem, que já era o objeto de desejo da maioria das mulheres solteiras da cidade e, com certeza, de muitas casadas também. Ele era um homem que, apesar de ter uma aparência muito juvenil, já estava na casa dos seus vinte e cinco anos e, desde cedo, havia sido instruído pelas ciganas sem marido de sua tribo sobre os caminhos que levam ao paraíso carnal.
Iago sabia, desde muito jovem, como agradar uma mulher em todas as suas vicissitudes e desejos. Elizabeth, que recentemente completara dezessete anos, mesmo transpirando desejo e volúpia, ainda era muito inocente em certos assuntos. Sua família mal a deixava respirar longe de seus olhares vigilantes. Coronel Severiano era uma fera, e a maioria dos pretendentes o temia como o diabo teme a cruz. Mas Iago era indiferente a tudo isso; nem sequer sabia ao certo quem ela era, muito menos quem era seu pai. Quando se viu na iminência de conquistar mais um coração para sua crescente coleção, não se fez de rogado e a cobriu de galanteios e elogios, deixando a jovem e inocente Elizabeth completamente embriagada de desejos por ele.
No dia seguinte ao qual se conheceram, Elizabeth disse que queria estar a sós com ele em um local afastado, onde pudessem ter liberdade e privacidade para se conhecerem melhor. Combinaram, então, de se encontrar às margens do rio, onde buscariam algum lugar mais calmo, longe de olhares curiosos. Naquela tarde, ela selou o destino de toda sua família ao entregar sua inocência ao cigano Iago. Uma pessoa como Coronel Severiano tinha olhos por toda parte e conseguia enxergar tudo o que acontecia ao seu redor. Naquela mesma noite, o acampamento cigano foi incendiado. Muitos ciganos foram mortos, e o galante e belo Iago nunca mais foi visto — fato comum entre os desafetos do Coronel, que anoiteciam, mas não amanheciam, desaparecendo sem deixar vestígios.
A mãe de Iago — a cigana Soraya — era uma cartomante poderosa e tão bela e sedutora quanto o próprio filho, e estava fora do acampamento naquela noite, na casa do prefeito, prestando-lhe alguns de seus serviços sobrenaturais — consultando os astros para lhe mostrar o caminho mais rápido ao paraíso. O prefeito, na época, era um viúvo que jamais permitira que o leito outrora ocupado por sua finada esposa ficasse vazio. Quando Soraya soube do trágico acontecimento em sua tribo, teve uma incontrolável crise de loucura e partiu numa desenfreada correria até a casa dos Genarus. Um dos ciganos relatara a ela tudo o que acontecera, pois, de alguma forma, sobrevivera ao ataque ao acampamento. Escondido para preservar sua própria vida, ele pôde presenciar quando os jagunços do Coronel levaram Iago preso e amordaçado, arrastado por uma corda como um perigoso animal selvagem.
Era alta madrugada quando todos na casa foram acordados pelos gritos ensandecidos de uma mãe desesperada em busca de seu filho. A cigana estava no mais profundo desvario, urrando como um animal ferido e esmurrando violentamente a porta da frente, como se quisesse derrubá-la. Seus gritos eram de cortar o coração e, certamente, podiam ser ouvidos a uma enorme distância. Até hoje — mesmo depois de tantos anos — ainda posso ouvi-los em meus sonhos...
— Devolva meu filho... Devolva meu filho... Seu monstro!
Lembro-me de que, em cinco minutos, todos na casa estavam de pé. Coronel Severiano foi o primeiro a ir até a porta. Logo, dois de seus jagunços estavam ao seu lado e, ao abrir a porta, a pobre cigana não conseguiu se aproximar dele — se o fizesse, certamente o teria retalhado com suas unhas e dentes —, pois os jagunços a contiveram. Debatendo-se como um animal selvagem, foi necessário que mais alguns homens se juntassem aos dois primeiros para conseguirem segurá-la. Vendo que suas forças eram insuficientes para enfrentar o poderoso Coronel, ela baixou a cabeça e começou a chorar com profundos soluços de lamentação. Em dado momento, uniu forças, levantou a cabeça mais uma vez, olhou nos olhos do Coronel e perguntou-lhe:
— Me diga, por que tanta maldade com pessoas inocentes como nós? Só estávamos acampados por um breve momento em suas terras. Que mal fizemos ao senhor ou à sua família para merecermos tão violenta afronta à nossa humilde existência? O que fizeram com meu filho?
O Coronel, não querendo expor a imagem de sua filha — que logo seria enviada a um convento por uma longa temporada, a fim de expiar seus pecados e refletir sobre sua indecorosa ignomínia —, apenas lhe respondeu:
— Com muita prestatividade e toda boa vontade do mundo, abri as portas de minha propriedade para seu povo, mesmo quando a própria igreja lhes negara abrigo. Permiti que instalassem suas barracas imundas em meus domínios e fiz vista grossa perante suas profanas práticas de magia negra em minhas terras. Contudo, criaturas vis como vocês parecem nunca se contentar com o que lhes é oferecido; sempre tentam pegar aquilo que não lhes pertence. Da mesma maneira que são vistos por todos como gente de índole e costumes bastante duvidosos, mais uma vez demonstram aqui, perante todos os presentes, que são indivíduos covardes, desprovidos de qualquer forma de caráter. E ainda têm a ousadia de vir à minha casa me acusar de algum tipo de ato vil. Que culpa tenho eu se, por onde passam, conquistam apenas inimizade e repugnância de todos ao seu redor?
— Inimizade! Repugnância! É tudo que tens a me dizer?
Soraya, ao olhar ao seu redor e perceber que todos ali presentes — com toda aquela balbúrdia à frente da casa do Coronel, apinhada de gente — não ousariam, de forma alguma, contrariar nem questionar tão poderoso senhorio, entendeu que era inútil desperdiçar seu tempo e suas palavras em uma discussão tão inócua. Sabendo que muitos de seu grupo estavam mortos, os que restaram feridos e desprovidos de seus bens, e que certamente jamais veria seu filho novamente, decidiu usar seus conhecimentos sobre o mundo das sombras e invocar sobre o Coronel e toda sua família uma terrível maldição.
— Percebo que minhas palavras e minha dor, perante sua tão importante figura, são completamente irrelevantes. Contudo, nobre Coronel, quero que saibas que, por mais poderoso e quão importante o senhor possa se achar, logo perceberá que o senhor não é ninguém e que toda a riqueza que acha que possui não lhe servirá de nada. A vida de qualquer ser humano é como uma partida de xadrez: por mais longa e importante que pareça, ao final, todas as peças — sejam elas peões ou reis — retornam sempre para a mesma caixa.
— O senhor encheu a boca para dizer que somos seres repugnantes. A partir de hoje, tanto o senhor quanto toda a sua honrada família saberá o significado da palavra repugnância. Sei que não terei a chance nem ao menos de dar o último adeus ao meu amado filho — todos sabem o que acontece a quem afronta pessoas ditas poderosas como o senhor —, mas dou-lhe minha palavra: viverá para ver toda a sua família definhar diante de seus olhos, e somente quando o último de sua descendência não estiver mais entre os vivos, terá o privilégio da morte.
A cigana, que naquele momento estava com os braços livres, os levantou em direção ao Coronel e, após fazer alguns sinistros movimentos e proferir palavras em um idioma desconhecido, soltou uma gargalhada sinistra, como se a loucura a tivesse dominado de vez. Um dos jagunços — o tipo de homem com sangue nos olhos, que adquirira o abjeto prazer de tirar a vida de outro ser vivo — deu-lhe um tiro entre os olhos. A cigana caiu morta na varanda. Para justificar seu ato de violência gratuita, ele disse, alto o suficiente para que todos ouvissem:
— Ninguém, seja quem for, ameaça meu Coronel ou alguém de sua família em minha presença e sai impunemente, sem responder por tal desrespeito.
Esse mesmo jagunço seria encontrado morto três dias depois, arrastado por seu cavalo, preso pelo pé ao estribo. Seu corpo estava terrivelmente ferido, tanto pela queda quanto pelos coices que o cavalo, em completo estado de pavor, lhe aplicava repetidamente. A ruína dos Genarus começara no exato momento em que a cigana fora assassinada a sangue frio. O mesmo fogo que reduzira o acampamento cigano a cinzas, devido a uma estranha ventania, se alastrara pelas pastagens e plantações da fazenda, consumindo tudo o que estava à frente. Mais da metade de todos os animais da fazenda pereceu naquele violento incêndio. Nenhuma plantação ficou intacta. O prejuízo material foi extraordinário. Mas o pior ainda estava por vir, e teve início naquela mesma noite, quando Elizabeth, ao presenciar a cena lastimável da cigana morta diante de seus olhos, e ao saber dos planos de seu pai de enviá-la para um convento, decidira atentar contra sua própria vida.
Enquanto a imensa propriedade dos Genarus ardia em incontroláveis chamas, os ciganos que sobreviveram ao covarde ataque ao acampamento reuniam os parcos bens que lhes restaram e, após recolherem o corpo de Soraya, decidiram partir ainda naquela mesma noite. Nunca mais se ouviu falar deles. Na casa dos Genarus, quando o alarde da morte de Elizabeth foi dado, houve um desespero total, e a situação ficou ainda pior quando um dos serviçais chegou correndo para avisar que o irmão do Coronel havia perecido no incêndio, tentando salvar alguns animais das chamas. Para uma senhora quase centenária, todas aquelas desventuras foram demasiadas, e seu coração não pôde mais suportar tantas desgraças em uma única noite. Assim, a matriarca da família também se despediu do mundo dos vivos.
No dia seguinte, o caos continuou. Após as exéquias de três integrantes daquela poderosa família, logo se descobriu o porquê de a cigana ter dito que eles saberiam o significado da palavra "repugnância". Quando o jantar foi servido, aqueles que ousaram se alimentar não conseguiram; a comida estava estragada, havia até mesmo larvas no assado que fora servido. Como todos estavam cansados demais e extremamente desolados, decidiram, cada qual, se recolher a seus devidos aposentos. Dona Amélia, demonstrando estar bastante irritada com aquele desrespeitoso ato de negligência, deu a ordem para que toda a comida fosse descartada. A cozinheira, sentindo-se bastante ofendida, recolheu a comida da mesa sem entender nada do que se passava. Pela primeira vez, todos nós, os serviçais presentes naquela noite, nos refestelamos com um intocado banquete dos Genarus. A comida estava esplendidamente deliciosa.
No outro dia, quando o almoço fora servido, a cozinheira levara um bofetão por parte do coronel que, ao ter seu prato servido, se levantara da mesa e, num ato de violenta selvageria, se lançara sobre a pobre cozinheira a cobrindo de ofensas e impropérios. A filha mais jovem do Coronel vomitara sobre a própria mesa. Todos da família Genaru olhavam para a comida com a expressão do mais abjeto asco. Dona Amélia colocou as mãos sobre a face e começou a chorar desesperadamente diante do que ela via sobre sua bela mesa de jantar. Vermes enormes rastejavam entre os talheres e a prataria. Subindo pelas finas taças de cristal. Mais uma vez fora dada a ordem para descartar toda aquela comilança. O jejum dos Genarus continuava.
Naquele mesmo dia, após o jantar ser servido e a cena se repetir, a cozinheira, depois de mais de vinte anos servindo naquela casa, foi-se embora com o sentimento de mais profunda ingratidão. Sentia-se extremamente ofendida, pois sua comida estava em perfeita ordem e asseio. O odor era agradabilíssimo, e o sabor, melhor ainda. Mais uma vez, nos banqueteamos como se fôssemos pessoas de mais alta estirpe. A pobre faxineira ficou responsável por preparar as refeições até que uma nova cozinheira fosse contratada. No dia seguinte, assim que ela serviu o almoço — claro que não era nenhum banquete, mas tratava-se de um belo repasto —, perdeu até mesmo o emprego de faxineira. Nenhum dos Genarus sequer experimentou a comida daquela pobre coitada. Alguns saíram da mesa com ânsias, cobrindo os olhos e a boca, como se estivessem vendo a mais terrível das visões.
Desde aquele dia, nunca mais voltei àquela casa, mas soube que, em menos de quinze dias, mais dois integrantes daquela família se recolheram à cidade dos esquecidos. O restante os seguiu em pouco tempo — haviam todos morrido de fome. O filho bastardo do Coronel, não suportando toda a tragédia que se abateu sobre aquela casa, decidiu partir e nunca mais voltou. Notícias suas, ninguém mais teve por aqui. Se estava vivo ou morto, ninguém sabe.
Alguns acreditam que esse filho torto ainda esteja vivo — a menos que o Coronel tenha outro descendente desconhecido —, pois, segundo a profecia da cigana Soraya, o Coronel Severiano só teria o privilégio da morte quando o último de sua linhagem morresse de fome ou atentasse contra a própria vida. E ainda há quem ouse dizer — mesmo sendo uma das criaturas mais terríveis de se ver — que o Coronel ainda esteja vivo. Como, ninguém sabe ao certo, pois se alimenta muito raramente, uma vez ou outra, quando já não consegue mais suportar a fome. Quem já o presenciou comendo diz que é uma cena lastimável. O poderoso Coronel Severiano, para poder se alimentar, precisa vendar os olhos antes de ver a comida e, quando o faz, fica com ânsia de vômito o tempo todo, vez ou outra retirando vermes imaginários da boca...
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de…
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Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…
Ando pelo único caminho que se atravessa na neblina cinza. Preciso chegar; devo estar atrasado. Inóspito. Inseguro. Lanço dúzias de preces e continuo…
A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…
Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…
O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…
Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…
Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…
Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…
Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…
De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…
De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…
— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…
— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…
Tenho que acordar todos os dias às 7h da manhã. Mas levantar cedo nunca foi meu forte. Para que eu consiga, de fato, despertar até o horário…
Trabalhar era meu refúgio. | Eu via pessoas e conversava. | Me distraia, | Sorria... | Mas o mundo parou, | Silenciou | E diante de tanto horror, | Se trancou…
A grama arde | O ar sufoca | O canto dos pássaros foi silenciado. | As árvores, | Antes, imponentes e frutíferas,…
Pálida e fria como porcelana | Sentia-me como uma boneca. | Os olhos, antes cerrados, | Agora conseguiam observar tudo ao redor…
No canto ali do quarto| No escuro | Sentada e descalça, no chão frio | Observo as sombras que ninguém mais vê…
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…
Observo da janela o vazio lá fora; tudo está abandonado, assim como eu aqui dentro. O silêncio é preenchido apenas pelo sussurro do vento…
Na cidade pulsante de Nova Arcadia, onde o neon iluminava…
No coração de um lixão vasto e sombrio, onde o sol raramente penetrava a nuvem de lixo e decadência, vivia uma criança chamada Leo. Seu pai, um homem…
Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…
Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…
Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…
Espelho, espelho meu
Tal qual a Rainha Má do conto infantil da Branca de Neve, eu tinha como conselheiro o meu espelho, espelho este que, desde que minha avó materna…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Tal qual a Rainha Má do conto infantil da Branca de Neve, eu tinha como conselheiro o meu espelho, espelho este que, desde que minha avó materna falecera, quando eu tinha por volta de cinco anos de idade, passou a pertencer à minha mãe. O espelho fazia parte de uma penteadeira antiga, que foi disputada como parte da herança de minha avó entre minha mãe e minha tia. Para que não houvesse desavenças maiores na ocasião, meu tio mais velho decidiu dividir o móvel: o espelho, que era a parte de cima, pertenceria à minha mãe, e as gavetas com a base do móvel ficariam com minha tia. Depois de um tempo, já no período da minha adolescência, minha mãe havia deixado o espelho de lado. Eu, então, o resgatei na garagem de casa e tive a ideia de reformá-lo ao meu gosto: pintei sua base de madeira de preto e colei algumas meias pérolas em volta, a fim de torná-lo um adorno sombrio, tendo em vista que ele já possuía uma moldura no estilo provençal.
Passei a ter o espelho reformado em meu quarto, sempre no canto oposto à janela, de modo que a luz que entrava pela manhã refletia de maneira suave, quase sutil. No entanto, ao cair da noite, quando as sombras se alongavam, o espelho parecia ganhar vida própria. No início, não dei importância à sensação de que algo se movia ali, um brilho diferente, um jogo de luz que eu atribuía à iluminação fraca do abajur. Mas, com o passar dos dias, comecei a notar que o reflexo que ele me devolvia era… estranho.
Certa noite, ao escovar os cabelos diante do espelho, percebi algo que fez minha mão tremer: meu reflexo, por um instante, sorriu, mas eu não havia sorrido naquele momento. Meus lábios estavam imóveis, fechados, mas a figura no espelho ostentava um sorriso ligeiramente torto, quase zombeteiro. Afastei-me num sobressalto, culpando o cansaço e o sono por aquilo. Mas, no fundo, uma inquietação se instalou em mim.
A partir daquela noite, o espelho passou a me mostrar versões distorcidas de mim mesma. Eram sutilezas: um olhar um pouco mais sombrio, um contorno mais afiado do rosto, uma sombra nos cantos dos olhos que não estava lá quando eu me olhava em outros espelhos. Mas eu sabia que não era apenas uma ilusão de ótica. Algo mais profundo acontecia. O espelho, que antes eu considerava apenas um objeto de valor sentimental herdado de minha avó, parecia estar revelando algo de mim que eu não conhecia… ou talvez, algo que eu sempre soube, mas nunca quis admitir.
Quanto mais eu me olhava nele, mais sentia que ele me via de verdade, além do que era superficial. E então, numa noite, ouvi algo. Não era uma voz, ao menos não no sentido comum. Era como um sussurro, um pensamento, vindo do espelho, ecoando dentro de mim:
— Você vê o que realmente é?
Meu coração acelerou. A sensação de que o espelho me espreitava, me estudava, tornou-se insuportável. O medo crescia, mas havia algo irresistível também. Eu não conseguia parar de olhar. A cada dia, a imagem refletida parecia mais distorcida, mais feroz, como se minha própria essência estivesse se desfazendo e algo sombrio, profundamente maligno, estivesse tomando seu lugar.
Até que, numa madrugada de insônia, enquanto encarava o espelho na escuridão do quarto, percebi a distorção, as sombras, os traços desumanos que começavam a se formar. Não era apenas uma brincadeira da luz ou da mente; era a revelação de algo mais profundo. O espelho estava me mostrando minha alma, nua e crua. E ela era sombria, maliciosa, perversa. Parecia que, a cada olhar que eu dava no espelho, eu estava permitindo que essa parte oculta de mim emergisse.
Foi então que me lembrei das histórias que minha avó contava, de como aquele espelho pertencia a uma linhagem de mulheres poderosas, mas que todas, sem exceção, haviam sucumbido ao que ele revelava. Não era apenas um reflexo. Era uma janela para a alma, um julgamento silencioso e implacável. E agora eu entendia que minha avó, minha mãe e talvez todas as mulheres antes delas haviam visto o mesmo. Mas o espelho não deformava a realidade. Ele mostrava a verdade, a parte de nós que tentávamos esconder.
E quanto mais eu olhava, mais me tornava aquilo que o espelho refletia.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura gótica com…
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A Última Xícara
Todo dia começava com a mesma rotina. Fábio acordava às 6h, bocejava, descia para a cozinha e preparava uma xícara de café forte. Isso era imutável…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Todo dia começava com a mesma rotina. Fábio acordava às 6h, bocejava, descia para a cozinha e preparava uma xícara de café forte. Isso era imutável, praticamente um ritual. O aroma do café se espalhava pela casa, trazendo uma sensação de normalidade e conforto. Mas naquela manhã, algo parecia estranho.
A casa estava absurdamente silenciosa. Fábio não era o tipo de pessoa que se deixava levar por sensações vagas, mas, naquele dia, ele sentiu uma certa tensão no ar.
Ele entrou na cozinha, mas, em vez de sentir o habitual conforto, foi envolvido por uma sensação de desconforto. O relógio da parede, que sempre marcava 6h15min naquela hora, estava parado. O ponteiro dos segundos, congelado. Fábio ficou confuso e balançou a cabeça, tentando ignorar a sensação de que algo não estava certo.
Ele pegou a cafeteira, encheu-a com água e a colocou no fogão. Tudo parecia normal por alguns segundos, até que o som da água fervendo soou mais alto, como se ecoasse em um vazio profundo. O cheiro do café começou a se espalhar, mas havia algo estranho nesse aroma. Um toque metálico que ele nunca havia sentido.
Fábio tentou ignorar e se serviu de uma xícara. Quando a levou aos lábios, uma sensação fria percorreu sua espinha. Ao inclinar a xícara, percebeu que o líquido dentro não era como o café que tomava todos os dias. Era espesso, quase como sangue.
Ele deixou a xícara cair, e o líquido derramou no chão, revelando uma mancha escura que não parecia café nem sangue, mas algo entre os dois. O pavor tomou conta de seu corpo, e ele deu um passo para trás, escorregando no líquido que agora estava vivo, movendo-se lentamente em sua direção.
O barulho do relógio ressoou na cozinha novamente. Agora, os ponteiros haviam começado a girar ao contrário. O tempo estava distorcido, e o ambiente ao seu redor se transformava. As paredes da cozinha começaram a pulsar, como se fossem feitas de carne viva, e o teto parecia afundar, aproximando-se dele lentamente.
Fábio tropeçou ao tentar correr, e, quando olhou para trás, viu a cafeteira. Ela não estava mais no fogão, mas no meio da cozinha, e do bico dela escorria um líquido negro, denso como piche. Era como se o café estivesse vivo, tentando alcançá-lo.
Desesperado, ele correu até a porta, mas ela não estava mais lá. Em vez disso, havia uma parede lisa, como se a porta nunca tivesse existido. Ele se virou lentamente, e, na penumbra, viu uma figura de pé ao lado da mesa.
Era ele mesmo.
O outro Fábio, idêntico em todos os sentidos, exceto pelos olhos vazios e negros. O outro Fábio segurava uma xícara de café, com um sorriso vazio no rosto, e sussurrou com uma voz grave e distorcida:
— Agora, você nunca mais sairá.
Antes que Fábio pudesse reagir, o chão abaixo dele se abriu, e ele foi engolido, sentindo o cheiro metálico do café ao seu redor, como se estivesse se afogando em um oceano de escuridão.
Na manhã seguinte, a cafeteira estava no mesmo lugar de sempre. A rotina havia sido restaurada. Mas quando os primeiros raios de sol tocaram a cozinha, Fábio não estava mais lá.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura. Escreve escutando metal,…
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