⚜ Vantanúrida: Parte 1

Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos…

Mensagem da autora

Amáveis leitores, espero que esta nova série possa encantá-los tal como me encantou enquanto a escrevia. Publicarei capítulos bimestrais, alguns podem sair antes a depender do meu tempo disponível para escrevê-los. Assim que terminarem a leitura, venham me contar se Írides cativou vocês n’este primeiro encontro! Posso garantir que ela é incrível e são muitos os horrores e fascínios que a esperam no Castelo Drácula.

Boa leitura!
Com apreço, Sahra Melihssa

Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos se abriram vagarosos e demorei a me acostumar com a luz que, esplendorosa, irradiava na clareira. A cálida lagoa que se abençoava da linha pálida-solar, refletia em suas águas a cintilância iridescente dos céus de Opallihan e das flores de mesmo matiz. Quando distingui as cores e feixes, de imediato avistei, fora da clareira, certo tipo de eletricidade rasgando o espaço. Iniciara de um ponto absoluto em vazio, pairando no ar e expandindo-se célere para todos os lados. A princípio: fascínio! Era de beleza extraordinária como os fúlmens nuvieanos, porém, atraía-me sem temor. Pouco depois, as faíscas deram espaço ao que eu compreendi como “outro lado”, mostrando-me frondosa e azúlea floresta cingida por soturno mistério. Eu sequer podia piscar, pois estonteante era a experiência.

Levantei-me atenta, jamais vi algo tão extravagante. A eletricidade espargia sonidos, estalos e faíscas lívidas que se contorciam n’uma distorção atemporal. Andando envolta de tal “rasgo” — e somente d’esta maneira eu poderia apreendê-lo — nada havia além de sua existência possuída de duas únicas dimensões; símil a uma porta sem espessura. O turvo arvoredo azulescido estava dentro da fissura — embora fosse incabível haver intradimensão. Ousei aproximar-me, pois, ponderei tratar-se de algo deífico ou tão somente sonho de expressão lúcida causado pelo tempo de exposição ao perfume de lanuvenis. “No universo onírico, todo o horror é miragem e todo o enlevo é recordação.” — diz um antigo ditado.

Estendi minhas mãos; certa densidade opressiva as arrastara ao interior do fenômeno e a eletricidade nívea-faiscante alargou-se violenta. Assustei-me no rompante, clamei socorro. Um zumbido pujante e súbito ensurdeceu-me e, por mais insistente que eu fosse em apartar-me daquilo, minha força era ínfima perante o tragar da manifestação. Vi Saphihria aproximar-se, decerto ouvira meu chamar condoído, entretanto, a luz iridescente rarefez-se até pratear-se e... findar... antes que eu pudesse pronunciar quaisquer sílabas de alívio por encontrar minha irmã. A linha pálida-solar alterou-se ao breu amedrontador; descargas contínuas de energia contorceram-me o corpo, causaram-me dores exorbitantes nas veias e artérias — assim assimilei, nítido e legítimo, mesmo sendo tão breve e repentino.

Fui tragada para o cerne do fenômeno, caí d’outro lado — um outro lado de inominável conceber. Envolvi-me em terror que me trouxera hediondo abalo existencial e físico. Por átimos esperei despertar do pesadelo, mas quando senti exalar fragrâncias amarescentes... tão coercitivas... e respirei um ar de algidez inenarrável, ali compreendi que não se tratava de inócua ilusão.

Jamais cogitei sentir pavor — emoção residente tão só em lôbregas histórias sobre a lua noctígera —, entretanto, o sentimento expressou-se em meu espírito com ferocidade suficiente para fragmentar-me o equilíbrio; e apossou-se de mim, pois não havia retorno. E não havia retorno, pois o que vi... a eletricidade de beleza insondável que desejei demasiado tratar-se do contato de Deusas Iridescentes... infelizmente era uma grave, e lídima, armadilha. Desfez-se em sua centelha, a energia em lampejo, e tudo o que restou era azul-escuro e penumbra, e o arvoredo sombrífero, e os estranhos sons de naturezas hostis e... aquele céu vantanegro...

Eu estava ali, sem direções. Prensei minhas pálpebras. “Acorde, Írides!” — sussurrei ininterrupta por infindável duração e, somente quando toda a adrenalina se dissolveu em lágrimas, ousei abrir meus olhos. A primeva imagem — embaçada por gotículas salinas — fora de minha pele que, sob a escuridão intolerável, perdera seu tom castanho-profundo e tornara-se parte indissociável do breu azúleo — entretanto, de alguma estranha forma, produzia ou cintilava pontos douradiços. Senti-me instigada a fitar a floresta, por questões íntimas à sobrevivência e ao conhecimento de um devir indistinto, porém, havia aquele céu amedrontador... receei pela possibilidade de erguer minhas retinas a ele ao me deslumbrar, ou me estarrecer, com o que habitava sob ele.

Era preciso coragem e eu a desenterrei do jazigo de meu horror.

Ao derredor, tons de bronze-áureo esplendoravam em plantas, flores e insetos alados; por causa disso, minha tez lumiava naquele matiz como pelo reflexo desta fauna e flora, além do anil difuso que parecia penetrar os poros e invadir o ser. Levantei-me aturdida e notei que me encolhia sobre relva mediana e frígida — gélida como nunca senti. Respirei fundo. Em silêncio busquei em mim a paz iridescente das pérolas lunares e observei tudo, menos o céu vantanegro — e confesso que sua presença me oprimia. A imensurável pupila celeste era o terror mais insuportável já idealizado — antes fábula... e, de repente, concreta sobre mim...

A linha pálida-solar fenecera; o portal elétrico fechara-se. Nenhum orvalho bendizia a floresta e a única fonte de iridescência vinha de minha memória, protegida no meu coração. A pulsante vida lucífera de Opallihan — agora reminiscência — era guia dos meus sentidos diante do anseio de reencontrá-la, por isso restitui a fé; meus passos se iniciaram contidos, e andei mesmo sem Norte ou Sul. “Não... não estou só... elas me resgatarão... Deusas criadoras do cosmo plenicores... clamo a vós... que esta azulínea natureza insólita tenha senciência... e me devolva ao meu lar... Restitua, eu rogo, o pleniluzir dos céus... amanhã e para sempre... afasta-me d’horror d’esta pupila e do agouro que a precede...” — rezei, murmurante.

— Afasssta-me... d’horror d’essssta... pupila.... — ouvi sussurrarem...

Terrifiquei-me, tão próxima ao estupor catatônico. Um altar de árvores frondosas, nada além disso vinha ao encontro de minha visão.

— Agouro... agouro que precede... — espargira outro sussurro, agudo e distorcido.

— Q-quem me replica? Mostra-se! Mostra-se de uma vez! — bradei como pude, a voz ainda embargada pelo pânico ensandecido.

— Mossstra-se... mosssstra-se... — Horrifiquei-me ao ouvir e, apressada em abrigar-me de tamanha perturbação, fui desbravando a selva azulescida em trevas, gritando aos prantos lacrimais: “Vá embora! Afasta-te de mim!” — Até a fadiga obrigar-me à pausa, e a respiração ofegante calar-me.

Sozinha... exausta... afogada...

E então, um rosto longínquo... vários deles... todos calcificados... eu vi... dentre arbustos frondejantes... eles observavam-me em expressão de espanto e de seus orifícios oculares ocos e das bocas ovais vertia sangue vívido em tom escarlate intenso. Todos eles... inclinados... iníquos... sussurravam minhas palavras em uníssono. Meu cérebro pulsou em opressão irrefletida; era símil a dores pontiagudas, entretanto, carregava densidade agônica vinda da inconcebível constituição que possuía tais plantíferas criaturas.

Só podia ser pesadelo... inaceitável que o terrífico pudesse existir com grandiosa perfeição tangível... soterrando-me em suas vísceras bestiais... era inadmissível...

N’um surto de suplício atormentador, fitei a imensidão acima em sua pupila eterna, o vantanegro dos horrores mais martirizantes. Caí de joelhos na relva, sem afastar minhas retinas do betume celeste. “Por favor...” — roguei em lamúrias, contudo, os sussurros impediam-me de ouvir minha própria voz e meu pedido direcionava-se ao meu maior temor, pois, seu poder era o único capaz — e eu intuía essa verdade — de me amparar; ainda que fenecer em seu pélago infindável fosse a única saída.

E ele era... terrificamente belo...

A escuridão... a pupila dilatada no infinito...

Meu medo perturbador tornou-se atônito êxtase e, de repente... a quietude circundou-me. O breu desmesurado, insondável... como um manto parecera descer sobre mim. Eu o senti... e todo o arvoredo tornou-se silhueta... todo o anil atrovioleara... os fulvos lumes dealvaram... e o céu obsidiano — insigne... magnânimo... — olhou-me de volta, alcançando a profundez de minha alma irisada...

· · • • •✤• • • · ·

Glossário da autora:

Atroviolear: Tornar roxo-escuro.

Azulíneo, Azulescer, Azúleo, Azulear: De cor azul. Tornar azul. Azular.

Douradiço: Que possui cor dourada.

Esplendorar: Fazer brilhar. Resplandecer.

Intradimensão: Espaço tridimensional no interior de alguma coisa bidimensional.

Plantífero: Relativo a plantas. Corpo vegetal. Que possui características de plantas.

Plenicor: Iridescente. Todas as cores. Furta-cor.

Pleniluzir: Luz intensa espargida. Esplendor. Plena luz.

Vantanegro: Uma adaptação de “vantablack”. Vantablack é uma substância feita de nanotubos de carbono. É a substância mais preta conhecida, absorvendo até 99,965% de radiação.

Vantanúrida
A ínfima compreensão impossibilita-me de descrever o escuro perpétuo; esta matéria enegrecida envolvendo os céus que outrora foram puro esplendor iridescente. Nunca vi tal opressivo e misterioso poder... é como pupila de insondável dimensão que observa, perfurante, minh'alma através de meu absorto olhar. Chamam-na de Noite..., e eu a sinto vantanúrida em meu ser...

» Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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O Verso e o Reverso do Ser

Em cada ser, a vasta catedral se ergue, | onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge. | Um palco dual que a existência nos impôs, | onde o eu se forma, entre o antes o e depois…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Em cada ser, a vasta catedral se ergue,
onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge.
Um palco dual que a existência nos impôs,
onde o eu se forma, entre o antes o e depois. 

A Luz se revela, é o rosto da bondade,
o verbo claro, a perene claridade.
É a mão que ampara sem buscar recompensa,
é a fé inabalável, a nossa nobreza imensa. 

É a mente que desperta, que afasta a ilusão,
a força moral que domina o nosso coração.
E sonhamos em ser esse ouro tão puro,
um brilho constante, um futuro seguro. 

Mas vida ensina,
em seu lento labor,
que a luz sem sombra
perde todo seu valor. 

Pois existem as Trevas, o lado que negamos,
o arquétipo fundo que em nós carregamos.
Não é apenas o mal, aquele erro que nos seduz,
mas é aquele potencial que rejeita a luz. 

É a nossa Sombra, o instinto vital,
o lado selvagem, secreto e ancestral.
É a mágoa guardada, o ciúme que arde,
a força que brota fria e sem alarde. 

Se a negarmos, ela cresce faminta e voraz,
e nos assombra em sonhos e em segredos.
A força não vista vira vício ou rancor,
e a alma projeta o seu próprio temor. 

Quem só vive de Luz, na virtude irreal,
cria uma máscara, um rosto artificial.
Torna-se duro, justo em demasia,
um sol sem terra, fadado à fria agonia. 

A pureza extrema que o humano não veste,
é a tirania sutil que nossa alma contesta.
A negação das Trevas gera a hipocrisia,
o medo da queda que escurece nosso dia. 

E quem se entrega às Sombras, sem freio e medida,
é engolido pelo abismo, perde a direção de sua vida.
Vira cinismo o pranto, vira caos o desejo,
sem a Luz que guia o ser não tem pelejo.

A alma se afoga no oceano escuro e vasto,
um barco a deriva, sem porto, sem rastro.
Devorado é aquele que escolhe um só lado,
perdendo o sentido, pagando o preço cobrado.

A chave não está na escolha vã,
mas na aceitação de quem você é,
ontem, hoje e no amanhã. 

O equilíbrio é a dança sutil e sagrada,
onde a Luz acolhe as Trevas, não nega ou degrada.
É quando a Sombra, reconhecida, não mais domina,
e vira a forma que nos move, intenção genuína. 

A Luz precisa das Trevas
para ter profundeza,
para ser humilde
e compreender a fraqueza. 

Como a lua que acende seu brilho no escuro,
somos a soma inteira, o presente e o futuro.
É na dualidade, no meio-termo instável,
que a vida se torna real e suportável. 

Olhe para dentro, sem medo do que espreita,
e faça da Sombra a mestra que te alimenta.
Pois só na união destas partes, formando esse par,
é que a nossa totalidade poderá se manifestar.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Fraghvora: Parte 1

Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz…

“Meu cerne, lá reside mi’a verdade,
E pulsa, aqui real, eu lhe confio;
Ó sendo-me os sentidos finidade,
Sê olhos, coração, ao meu destino.”

— Dandeliz Ffaemor

Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz. Ela corria descalça, circundada pelo opaco gris e envolvida pelo véu do medo. Seus pés sentiam a textura agressiva dos caminhos nebulosos, cheios de pedras e cascalhos que por vezes a feriam. Entretanto, n’um estranho momento, seus passos a levaram ao silencioso precipício e seu corpo se prostrou a uma queda abrupta; rendendo-se à gravidade. Seus olhos fitaram a escuridão quando, n’um suspiro sôfrego e célere, hora em que devia cair, ela ouviu o estrondo da intempérie nascida lá fora. O vento frígido torceu as cortinas violentamente, virou as páginas dos livros na escrivaninha e, por fim, desenfreado, soprou os lençóis — tudo no mesmo segundo.

Antes que pudesse compreender as imagens daquele sonho, Dandeliz levantou-se para socorrer a si, trancando os vitrais que se abriram com a ventania e recolhendo a bagunça deixada sem permissão. Em menos de dois minutos, a chuva caiu com o mesmo terror que a névoa a cingira em seu plano onírico. Sentiu-se apavorada e segurou seu candeeiro, acendendo-o com o último nittos da caixa. Caminhou apressada para a biblioteca que ficava no porão, contornando a escuridão com o singelo resplandecer de sua iluminação pálida.

O sibilar do vento, a chuva violenta, os clarões e o ensurdecedor estrondo a cada átimo, era tudo insuportável demais para sua sensibilidade. Ela estremecia, em especial as mãos que, infirmes, faziam oscilar a chama do candeeiro. Seus passos se apressavam mais agônicos que há pouco.

P Para chegar ao seu destino — o qual era o mais distante da tormenta inominável que afligia o seu espírito tanto quanto perturbava toda a província naquela lutuosa noite —, Dandeliz tinha de, inevitavelmente, passar por aquele... corredor. Não era por causa da densa escuridão, tampouco pelas heras que, quão estranho, nasceram nos vasos mortos — com terra nunca adubada ou regada — e subiram pelas paredes perseguindo rachaduras e enraizando-se em fendas. A sua angústia vinha, especialmente, daquela parede que estreitava, ainda mais, a passagem.

Repleta de dodecaedros ornamentais de vitrita mortis, a parede do corredor lumiava a cada relâmpago e, igualmente, diante da tênue chama do candeeiro. De valor incalculável, os dodecaedros foram lapidados pela mãe de Dandeliz e, o material, minerado por seu pai. Ambos tinham boas intenções, mas estavam cientes de que tal ofício de mineração e lapidação os levaria à morte lenta e agônica — embora a fé os fizesse crer que, com eles, por algum tipo de milagre, seria diferente.

Vitrita mortis fora nomeada de tal modo não por acaso, era um mineral tóxico, de beleza vítrea e enegrecida, altíssimo índice de refração, repleto de nuances em tom de rosa-empoeirado e prata brilhante. Resplandecia, espelhava e, acima de tudo, seduzia. Quaisquer indivíduos dispostos a explorar tal raridade não viviam o suficiente para desfrutar da riqueza de sua comercialização. Os pais de Dandeliz, ao menos à princípio, sabiam que deixariam uma fortuna para sua menina — ainda que de maneira tão trágica.

O mineral exalava um incolor gás fatal quando posto sob pressão, altas temperaturas, atritos ou cortes. Estranhamente, sua toxicidade possuía recendência, isto é, fragrância! Algo jamais visto pelos gemólogos. A mãe de Dandeliz descrevera em seu diário: “O bálsamo que sinto é inebriante… um perfume arabesco… marcante como dama-da-noite, intenso como lírio, quente como cashemeran… um tanto ferroso e com algo a mais… indescritível… porventura groselha negra, laranja amarga… notas do que eu jamais poderia nomear...” — já envenenada há semanas, falecera na primavera, assim que o refinamento do último dodecaedro fora concluído.

Dandeliz nunca vendera os cimélios herdados, mesmo com a insistência do médico da família que estudava os sintomas finais do envenenamento do pai de Dandeliz: sinestesia necrosada e eco respiratório. “Porventura possamos encontrar a cura, desde que possas pagar para levá-lo à capital de Sihren” — dizia.

“Estes objetos são amaldiçoados, Dr. Voreau; vindos sob o custo da vida de mamãe e, também, de papai; eu sinto, doutor... uma intuição estranha que me diz que não há cura para tal horror...” — Não havia mentira nas dores enraizadas de Liz. Seu pai falecera no verão do mesmo ano e, desde então, a magnum opus estivera na parede, vívida, refletindo e resplandecendo.

— Algo emana disso... algo que me arrepia a pele... que me terrifica... — sussurrara a si logo em que chegou às margens do corredor escuro. — Caminhar devagar, olhos à frente... são apenas alguns passos...

A vereda era a mesma, entretanto, quando Dandeliz dera cinco passos à frente, já tão próxima dos diamantinos de vitrita mortis — nome cujo significado, devo dizer, é “viúva da morte” — a luz fugaz trouxera o violento trovão, iluminando o estreito lugar, criando sombras estarrecidas e horripilantes por causa das heras que pendiam do teto e, como se não bastasse, o vento ensandecido do lado de fora fez mostrar-se em ira outra vez. Tão logo abrira com força irremediável a janela à frente da parede mórbida, soprando com intensidade maligna. E os relâmpagos, irradiando luz, criavam luminescência rosê-prateada nos dodecaedros — o que rapidamente chamou a atenção de Dandeliz. Seus olhos se arregalaram e ela fitou, em todos os detalhes perfeitos, a parede esculpida. Gotículas da chuva lúgubre rapidamente tocaram as pedras preciosas. Dandeliz não pôde desviar o sua atenção.

Era mesmo perfeito... pareciam tão símeis a ela... os tons rosê-gris... como sua pele pálida e fria, como seus olhos e cabelos rosa-opacos. Ela não se lembrava do quão bela era aquela obra de arte ornamental — a qual se recusava a olhar há dois anos. O choro das nuvens invadiu o corredor e as heras, frágeis, eram arrancadas com o sopro. O assovio do vento e sua gelidez pareciam rasgar a tez de Dandeliz que usava tão somente um damanoute aveludado. Mas, com calma fúnebre, ela fechou a fenestra, sem tirar seus olhos dos brilhantes minerais. E mantendo-se igualmente serena, apertou o pavio do lume em seu candeeiro, dando poder à escuridão. Assim via melhor o reflexo irradiante das infinitas facetas perfeitamente alinhadas n’uma estrutura geométrica precisa. Era mais que magnífico, porém, era sombrio e... ameaçador.

— Groselha negra... laranja amarga... cashemeran... — sussurrou Dandeliz, lembrando-se das palavras de sua mãe e sendo invadida pelo perfume mortal de cada dodecaedro à sua frente. Como era possível? Não havia nada que os pudesse oprimir, nada que os superaquecesse, nada que danificasse as estruturas dos diamantes... ou havia?

Ainda em torpor, fitou de perto cada um deles, buscava quaisquer sinais de rachaduras para entender o que ocorria. Sem saber o que fazer, e sob um encanto cruel, viu apenas seu próprio reflexo — algo que não fizera até então, pois era tragada pelos detalhes lapidados, pelas nuances em rosa-empoeirado e pelo lúgubre brilho prata-escurecido. E viu-se. Sua face delicada, seu semblante de admiração.

E viu também um imenso castelo atrás de si; contornado em simetria obscura, com altas torres pontiagudas e um infinito oceano aos seus pés; e viu voar um pássaro, talvez uma variante da espécie Ramphastos-toco; era albino do grandioso bico às penas macias. Voltou-se à janela atrás de si, para tirar a prova de que não estava delirando. O Castelo não estava lá fora, tampouco o tucano pálido. Retornou aos dodecaedros e novamente viu o Castelo e o pássaro, pareciam viver nas vitrita mortis lapidadas, presos pela eternidade.

Dandeliz aproximou-se mais, estava sim amedrontada, porém, não bastasse a beleza daquelas preciosidades, o Castelo e o pássaro lhe despertaram uma curiosidade incontrolável — vinda de seu ceticismo, pensava estar sonhando ainda. Precisava de alguma prova de que aquilo fazia parte de sua realidade. Ergueu sua mão esquerda, úmida e com algumas folhas intrusas atadas ao orvalho da pele, e tocou o dodecaedro central. A vitrita mortis era fria e o encontro de tez e mineral fez um líquido rosê-prateado emergir do núcleo da pedra.

Liz buscava um significado para tudo aquilo, sufocada na essência com notas arabescas de lírio e dama-da-noite. O líquido contornava os dedos de sua esguia mão, criando caminhos tortuosos como raios que pareciam, aos poucos, invadi-la, atravessando seus poros e mesclando-se ao seu sangue, das veias às artérias, esfriando-a. Não era possível afastar-se do liquor rosê-gris, não havia temor nas emoções confusas de Dandeliz; o bálsamo que pairava parecia serená-la e a frigidez que empalidecia sua derme, não lhe causava dor alguma. Era, em verdade, de um maravilhamento esplendoroso.

Até o instante em que Dandeliz perdera a consciência —tendo a visão cegada e a realidade dissociada. Seu corpo estava gélido e frágil, tão fácil de cair à terra úmida e por ela ser consumida à sete palmos. Entretanto, Liz respirava —vagarosamente. Ouvia seu coração pulsante — como um longínquo badalar. E em determinado momento, sonhou.

Uma criatura inimaginável olhava-a: era alado, alvinegro, capaz de sobreviver sob tenebrosos oceanos tanto quanto áridas terras. Rosto de face pareidólica, lembrando humano e inseto; três grandes olhos lunares e lívidos, quelíceras retráteis na mandíbula, guelras em partes do abdômen, asas de libélula e articulações filiformes, espinhosas e retorcidas — um corpo adaptado ao impacto de mundos. Era tão sombrio e assustador que fez Dandeliz despertar por seu próprio grito — um pouco contido, mas ainda ecoante. O Castelo estava no horizonte, ouvia-se a maré calma do infinito oceano e, o pássaro, do alto carvalho seco, parecia apreensivo.

— Despertastes! — dissera o tucano albino, com voz suave, um barítono fora do comum. Dandeliz sentiu-se turva, levou suas mãos à cabeça, tocou sua pele fria. Lembrou-se da criatura e arrepiou-se. Mirou, portanto, o dono daquela voz e lembrou-se dele de imediato.

— Eu... tu estavas preso naquela pedra de vitrita mortis... se estás aqui... então estou igualmente presa? — questionara, um pouco hesitante. O tucano albino voou para mais próximo dela.

— Não compreendo tua indagação, poesia. Estive aqui desde sempre, sinto-me livre. Talvez ainda estejas confusa. — O tucano usava um par de óculos redondo para leitura, Dandeliz percebera e aquilo, de alguma forma, acalmou seu coração agitado. — Bem, tome isto e te sentirás melhor. — Entregou-lhe uma xicara esculpida em cerâmica, nela havia uma bebida cor marfim.

Textura de leite, levemente aquecido; notas de avelã, curva de paladar amargo como café; mas doce, com um granulado de sabor floral — este era o gosto daquela bebida e Dandeliz adorara, tomando-a por completo. De fato, embora não instantâneo, foi cingida por uma melhora considerável em seu estado franzino.

— É estranho, pois há pouco eu estava em minha casa, sob a ameaça de uma tempestade sombria. E eu observava aqueles diamantes amaldiçoados... e agora estou aqui. — O tucano respirou fundo, dedicado a compreendê-la.

— Deixe-me pensar... dos livros que li, das histórias que ouvi, nada se assemelha ao que me contas. Entretanto, posso te guiar ao Castelo de Olga e decerto lá encontrarás as tuas respostas. — Dandeliz empolgou-se com a possibilidade de talvez entender tudo aquilo, sua feição denunciara. — Devo, no entanto, alertá-la, e o faço com apreço, há muitos perigos neste mundo, poesia, e parte considerável deles reside no interior daquele alcácer. É belo, decerto, magnífico... — O pássaro abaixou a cabeça, como se ponderasse tristemente.

— Mas... é também um abismo de criaturas que devoram almas, que se alimentam de medo e sugam sangue e memórias. — Dandeliz lembrou-se da criatura em seu sonho.

Trépida, e sob um silêncio de temor, Liz olhou para cima, buscando um resquício de céu anil que lhe contasse sobre esperança e força — tal como sua mãe fazia na infância ao ler-lhe fábulas ricas em otimismo; porém, acima só havia nuvens rosê-gris carregadas de pranto melancólico; um mar de plangor que nunca desaguava.

— Poesia, se posso me atrever a tal, gostaria que me dissesses o teu nome, embora “poesia” seja bem adequado à tua imagem. — O tucano albino quebrantou os pensamentos remotos de Dandeliz. Eles se olharam enquanto a noite caía devagar.

— Dandeliz Ffaemor, de Numnura, província do reino Sihren. — dissera, como de costume em sua cultura.

— Que intrigante... anseio saber mais de Numnura... — Um desconforto silente nascera no pássaro. — Já Sihren, conheço muito bem... — Ele hesitou e tossiu. — Sou Penttur, a propósito. Sempre me encontrarás neste carvalho, admirando a estranha mutação das terras amargas da Imperatriz, estudando-as dia após dia.

— Penttur... vejo que muito sabes. Guia-me, te peço, não apenas ao Castelo, mas ao conhecimento de onde estou... sinto que... talvez... esteja sonhando ou... em um póstumo estágio... — Penttur dilatou suas pupilas em surpresa.

— Não, não, não, doce Dandeliz, este mundo não é um purgatório. — Voou Penttur, e os olhos de Liz acompanhavam sua dança nos ares. — Vês? Tampouco um sonho ao qual se pode acordar. — cantarolou ao retornar. Estendeu sua asa direita. Era como veludo, e tinha nuances de um bege níveo sobre a brancura levemente resplandecente. — Pareço-te irreal? — Dandeliz tocou-lhe as penas, encantou-se com a maciez; entretanto, a estranheza lhe consumia em dúvidas umbríferas. O outrora ainda lhe era uma incógnita.

— Todo o sonho soa real, Penttur, até que despertemos dele.

— Oh, sim... tu despertaste então, como te disse. Há quem te possa comprovar que tu não sonhavas com uma intempérie obscura e diamantes mórbidos?

— Creio que não, o despertar só o é porque nos devolve as memórias, elas são o solo estável da realidade. E daqui não tenho nenhuma recordação... nunca vi tal Castelo, jamais encontrei este carvalho. No mundo de onde vim, tive um início; nas terras debaixo da intempérie eu vivi uma linha do tempo imersa em significados que nunca olvidarei.

— Talvez este seja o teu início, Dandeliz. Nem todos os inícios são iguais. — Penttur demonstrou-se mais sério, envolvido por uma preocupação genuína acerca de Liz.

— Este? Desta forma? Sem nascer bebê, com pais adoráveis, n’um lar aquecido? Como é possível?

— Anoitece, poesia. Vamos à minha cabana, longe dos horrores noturnos, e lá te revelarei tudo o que sei sobre ti e sobre este reino. — Penttur voou.

E Dandeliz, já tão instigada, levantou-se e pôs-se a caminhar, despedindo-se do sereno oceano infindo e seguindo o fabuloso voo do seu amigo tucano. Em seu âmago, ela anelava ouvir cada detalhe; seu coração pulsava por desvendar os segredos daquela realidade inacreditável e, este pulsar — mais vívido que outrora e, portanto, cheio de certeza inabalável —, lhe dava vigor para enfrentar seu profundo medo do desconhecido.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Não há muralhas contra a névoa

“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Prólogo

“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite, enquanto reunia coragem para pular.

Mal conseguia ver o chão. No alto da torre antiga, o nevoeiro parecia mais denso do que nunca. A loucura chegara ao auge, a ponto de ele começar a ouvir vozes etéreas sussurrando ao vento, embora ainda não distinguisse palavras.

“Como isso pôde acontecer? Essas lutas, esse estresse, essa incerteza… Será que finalmente quebraram minha mente? Fragmentaram minha visão de mundo a ponto de eu já não saber o que é real? Ou há alguém por trás disso — alguma entidade brincando comigo? Tanto faz. Toda essa resistência, toda essa vigília constante… não há sanidade que sobreviva intacta”, continuava a lamentar para o vento enquanto tentava reunir a coragem necessária para pôr fim ao pesadelo.

A luta fora brutal. Furiosamente intensa. Viktor sentia dores em músculos que sequer sabia nomear. Três dias quase sem comer, sem dormir, sem descanso. Apenas a defesa desesperada de suas muralhas.

Mas o problema não era o inimigo. Era a névoa, que nada tinha de normal. Ela era cada vez mais frequente e mais corrosiva para sua já frágil sanidade. Em nada lembrava o comum fenômeno meteorológico da região, com sua aura fantasmagórica que parecia tirar tudo do lugar. Até agora havia conseguido repelir os homens, mas não há muralhas contra a névoa, que em tudo penetra.

A batalha era a única constante. Impedir a invasão, lacrar as brechas. Mas as armas não paravam de se transformar: numa hora, ele empunhava uma espada; na seguinte, quando a neblina que turvava repentinamente sua visão se dissipava, estava com uma câmera nas mãos. Um celular. Um bloco de notas.

De um instante para outro, a parede de escudos se convertia numa transmissão ao vivo desesperada. Torres de cerco tornavam-se guindastes, aríetes transmutavam-se em retroescavadeiras. Janízaros se metamorfoseavam em oficiais de justiça. 

Tudo isso sem que ninguém mais notasse qualquer estranheza, mesmo sendo as mesmas pessoas. Agiam como atores interpretando diferentes papéis. Tanto os que atacavam quanto os que defendiam mantinham-se firmes em suas posições, seguros de sua própria realidade. Apenas ele transitava entre tudo; ou talvez não transitasse por nada. Nada mais era garantido, nem sequer a natureza da realidade.

Os momentos de imersão completa, quando se sentia plenamente presente em um único papel, numa única era, pareciam cada vez mais raros. Nada de dissociação cognitiva, nem questionamento de sua percepção. Era por isso que temia quando a névoa voltava a se formar. Bastava um pequeno contato com a cerração para a fragmentação recomeçar cada vez pior. Mundos e séculos fundiam-se diante de seus olhos, e ele já não sabia quem era, nem onde estava.

Quando a voz sussurrante se tornou ainda mais audível, a ponto de ser possível identificar um etéreo timbre masculino e outro feminino dialogando entre o vento, o limite do suportável foi rompido. Isso precisava terminar. Viktor pulou da mais alta torre.

Antes que atingisse o chão fora da visibilidade, finalmente compreendeu parte do que estava sendo dito pela voz masculina vinda de uma fonte invisível: “Prosseguimos no tempo moderno ou medieval? O que você acha?” 

Seu último pensamento, “maldita conversa de fantasmas sem sentido”, fez com que se sentisse profundamente decepcionado. Assim como todos que já se imaginaram em seus momentos derradeiros, esperava ter algo mais nobre ou filosófico energizando em sua massa encefálica prestes a ser esparramada no chão oculto pela densa bruma.

Três dias antes…

“Se a motivação do prefeito é a preservação cultural — e não apenas o lucro — por que nossas propostas de tombamento estão paradas há anos, enquanto o licenciamento dessa empresa avança em poucos meses?”, é o que questiona Viktor Vatra, professor de história e militante pela preservação do patrimônio cultural. Ele seria, se a lenda popular for verdadeira, descendente de condes romenos que governavam um castelo medieval que inspirou este aqui, que podem ver ao fundo, localizado na serra da Mantiqueira, próximo à turística Campos do Jordão, construído em 1872 pelo trisavô do historiador.

A ocupação de professores e estudantes para impedir o início das obras de um parque temático que pretende revitalizar as ruínas do castelo e usá-las como o coração do centro de diversões já completou um mês. O professor e seus alunos não saem da construção há dias, cercados por equipamentos da construtora que já recebeu autorização da prefeitura para começar as obras. É por isso que viemos até esse castelo sitiado, propondo uma trégua para o debate. Eu sou Elaine Bastos, em reportagem oficial para o Domingo Fantástico, e estou aqui para dar voz aos dois lados enquanto o embate jurídico prossegue.

Em nota oficial, a Serra Viva Concessões S.A. declarou: “O projeto do parque temático Castelo Assombrado foi concebido com rigor técnico, respeito às normas ambientais e compromisso com o desenvolvimento sustentável da região. Todas as etapas seguem a legalidade.”

— Professor Viktor, começo com o senhor. Objetivamente: qual é o risco real que o projeto da Serra Viva representa para o castelo?

— O risco é a descaracterização progressiva do castelo e a degradação ambiental do entorno. Não é uma demolição explícita. É algo mais sutil, para torná-lo “rentável”. Patrimônio vira cenário, a história se perde e a floresta sofrerá ainda mais, quando as trilhas e estradas de terra se tornarem rodovias, os estacionamentos forem cimentados e toneladas de lixo diário começarem a ser produzidas. Isso sem falar no ruído, iluminação excessiva e muito mais.

— A empresa afirma que vai restaurar, investir e preservar, seguindo à risca as normas vigentes.

— Primeiramente, as regras já nasceram frouxas, e nem assim costumam ser seguidas. Toda empresa afirma isso no início. O problema é o que acontece depois da primeira flexibilização. Já vimos isso antes com essa própria construtora.

— Senhor Tariq Carvalho, representante da Serra Viva, o professor fala em “flexibilização”. Como o senhor responde?

— Primeiro, agradeço o espaço. Nossa empresa atua dentro da legalidade. Flexibilização é um termo interpretativo. O que existe são ajustes técnicos normais em qualquer projeto dessa magnitude. Não há nenhuma ilegalidade.

— O senhor é diretor de expansão da Serra Viva, correto?

— Sim.

— O professor mencionou histórico de denúncias em outras cidades.

— Denúncias não são condenações. Nenhuma construtora ou incorporadora de grande porte passa décadas no mercado sem enfrentar questionamentos administrativos. Em todos os casos, cumprimos as determinações legais. Não há condenações contra a empresa nem multas não pagas.

— Professor?

— Multas pequenas e termos de ajuste não significam ausência de problema. Muitas vezes significam que a infração foi convertida em custo operacional. Isso me lembra uma bela citação, infelizmente não lembro onde a vi, mas era algo como “se a pena por um crime é apenas uma multa, então a lei só existe para os pobres”. Ainda mais quando vale a pena continuar operando apesar de autuações, se o razonete contábil assim indicar, como é o caso do parque aquático termal que vocês construíram.

— Isso é uma acusação grave.

— É uma constatação estrutural. Se o retorno econômico da descaracterização e da poluição é maior que o valor da multa, a multa vira parte do orçamento.

— Isso é retórica — intervém Carvalho, mantendo o tom controlado. — O projeto prevê recuperação paisagística, criação de empregos, aumento da arrecadação municipal e estímulo ao turismo cultural. Estamos falando de desenvolvimento regional. Ou você prefere que seu município continue sendo apenas ponto de parada para Campos do Jordão? Você prefere que toda a renda do turismo continue subindo o morro, negando a oportunidade de desenvolver sua cidade natal também?

— Desenvolvimento para quem? Empregos sazonais? Bilheteria privada sobre um patrimônio de relevância histórica? O castelo e a floresta em volta não são produtos.

— Também não é um relicário intocável — retrucou Tariq Carvalho. — Patrimônio precisa ser integrado à dinâmica econômica para sobreviver. Sem investimento, degrada-se.

— Investimento não pode significar transformação em parque temático. Existe verba pública destinada aos patrimônios tombados exatamente por esse motivo, fora que ainda há até mão de obra voluntária para a manutenção. Eu mesmo e meus colegas docentes fazemos isso há anos, sempre com o apoio de alunos e da comunidade. 

— Professor, o senhor já analisou o projeto executivo completo? Nossos espectadores precisam saber se essa é uma oposição informada ou dogmática — questionou a entrevistadora.

— Analisei o que foi tornado público. E já aponta ampliação de estacionamento, centro de eventos, reconfiguração do acesso principal. Isso altera a ambiência histórica.

— Ambiência não paga manutenção; nossa empresa, sim.

— Memória também não deveria precisar se provar lucrativa para existir.

— Realizamos todos os estudos de impacto ambiental exigidos justamente para unir todos os interesses.

— Estudos aprovados com rapidez incomum.

— Rapidez não é irregularidade. É eficiência administrativa.

— E por que o processo de tombamento do castelo tramita há anos sem definição?

— Isso compete ao poder público. Não à empresa. O senhor precisa questionar isso nos órgãos responsáveis, não conosco.

— Mas a empresa se beneficia da ausência de tombamento definitivo.

— Nós nos beneficiamos da segurança jurídica. Se o bem não está formalmente tombado, ele pode receber investimento. Isso é o que a lei estabelece para o caso de imóveis assim, expropriados porque não há um IPTU pago há décadas.

— Professor, o senhor fala também de uma conexão pessoal com o castelo. — retomou Elaine, tentando reduzir a belicosidade da entrevista.

— Minha família tem origem na Transilvânia. Minha mãe sempre contou que descendíamos de uma linhagem ligada ao castelo original que inspirou esta construção. Recentemente fui à Romênia, consultei arquivos, levantei registros, inclusive em igrejas medievais. Estou organizando essa genealogia com apoio acadêmico local.

— O senhor confirma essa ancestralidade?

— Estou confirmando com rigor historiográfico. Já há documentos consistentes até o século XVIII.

— E isso influencia sua posição aqui?

— Influencia minha responsabilidade. Mas mesmo que eu não tivesse qualquer ligação familiar, minha posição seria a mesma. Patrimônio não é mercadoria.

— Senhor Carvalho, a empresa reconhece o valor histórico simbólico do local?

— Reconhece. Justamente por isso quer integrá-lo a um circuito cultural estruturado. A alternativa é o abandono gradual, já que o suposto conde aqui não tem a menor condição de se responsabilizar por nada. Eu esperava mais de alguém de sangue azul…

— Estamos diante de duas visões claras — interveio a jornalista, tentando novamente conter o escalonamento da contenda. — Professor, última pergunta: se o projeto avançar como previsto, o que o senhor teme que aconteça em dez anos?

— Que o castelo continue de pé, mas irreconhecível no sentido. Que vire pano de fundo para selfies, eventos corporativos e festivais temáticos. Que a história real que nós, professores, ensinamos nas escolas e mostramos ao vivo para os alunos, seja substituída por uma narrativa mais vendável, enquanto animais nativos, tão presentes hoje, virem apenas réplica na decoração, mortos ou espantados pela invasão da especulação imobiliária

— E qual a visão da Serra Viva Concessões?

— Em dez anos, vejo um polo turístico consolidado, gerando renda, empregos e estrutura arquitetônica preservada e nenhum impacto ambiental digno de nota. Vejo essa cidade sendo colocada no mapa, não mais apenas um ponto de passagem.

— Professor, uma frase final.

— Desenvolvimento sem memória é invasão e depredação.

— Senhor Carvalho, e qual a sua?

— Memória sem desenvolvimento não passa de ruína.

— Professor, a lenda urbana da cidade diz que o senhor pode ser um descendente do conde Vlad, é verdade? — recomeçou a jornalista, tentando finalizar de modo leve. 

— Ah, esse é um estereótipo comum, e não tinha como minha família escapar disso quando a réplica de um castelo medieval real é erguida aqui no Brasil por um imigrante romeno. A associação com vampiros era inevitável, mas eu acho divertido. Nunca preciso me preocupar com a fantasia de Halloween.

A repórter, rindo, estava prestes a tentar quebrar o gelo com o homem de negócios, mas precisou interromper a gravação, pois uma espessa névoa rapidamente eliminou toda a visibilidade na área de filmagem.

Também facilmente penetrou nas muralhas e atingiu o defensor do castelo, cansado após seu duelo verbal. Era uma névoa diferente, espectral. E o começo de seu pesadelo.

A breve dissipação

Viktor levou a mão à cabeça, subitamente capturado por uma vertigem que o desequilibrou. A sensação era de desconexão, mudando a temperatura, que caiu vertiginosamente, e transformando a fragrância do ambiente e a textura das pedras. Uma sensação familiar ao toque, que o remeteu imediatamente à recentemente visitada Transilvânia. 

Enquanto se perguntava o que havia acontecido com os seus sentidos, tropeçou numa grade metálica, parte de um antigo portão, que não estava ali antes. Quando abriu os olhos novamente, o peso o atingiu antes da visão.

Peso nos ombros. No peito. Nos braços. Metal. Ele estava de pé, envolto numa armadura. Uma espada na mão direita. Um escudo cujo formato lembrava um losango no braço esquerdo.

Mas a perplexidade não recebeu autorização para se instaurar. As elucubrações do professor transfigurado em cavaleiro foram interrompidas por uma lança que emergiu da névoa, avançando em direção ao seu torso.

Seu corpo reagiu antes que sua mente entendesse, por pura memória muscular que nem sabia ter adquirido. O escudo girou, desviando a ponta de ferro. A vibração do impacto percorreu-lhe o braço como um eco antigo. Sua espada subiu em um arco perfeito, obrigando o atacante a recuar com sua haste partida. 

Ele retornou segundos depois, após desembainhar sua cimitarra e girá-la nas mãos antes de tentar um amplo corte lateral. Viktor recuou no momento preciso, evitando a finta do adversário, enquanto posicionava sua espada sob a borda do escudo, para garantir uma estocada precisa no ponto fraco da cota de malha do agressor.

Seu corpo sabia, mesmo sem que ele soubesse como. O tempo de reação, a distância, o peso da lâmina… era como se conhecesse tudo isso intimamente por sua vida inteira, como se tivesse passado incontáveis dias treinando. 

A espada de Viktor encontrou a brecha. A breve resistência dos anéis metálicos se rompeu, a ponta afiada da espada reta deslizou quase suavemente carne adentro antes de encontrar a placa da armadura que agora defendia inutilmente a retaguarda do guerreiro, cuja traqueia havia sido habilmente perfurada.

Viktor sentia-se como um istmo atacado pelas ondas conflitantes de dois mares. De um lado, euforia crua, animal, pela vitória no duelo, os fios de memória ainda fixados no século XXI foram capazes até mesmo de lembrar de um brado klingon — idioma que ele, como nerd de primeira classe, quase dominava. 

A outra onda era de horror absoluto. Ele havia tirado uma vida. Sua mão ainda vibrava com o impacto. Sua memória muscular celebrava o movimento perfeito. Sua mente registrava o peso irreversível do gesto.

Mais inimigos surgiam da névoa, pelo menos uma dúzia. Sentiu um alívio ao pensar no inevitável fim, apesar da perícia recém-descoberta. Seria bom ser poupado de processar e digerir aquela violência e, se fosse um sonho, aquilo certamente o faria acordar. Mas antes que viessem os golpes dos inimigos, sentiu um contato em suas costas. Eram homens portando escudos no mesmo formato, vestindo as mesmas cores. Rapidamente, uma parede de metal e madeira se formou em volta. 

As lanças inimigas chocaram-se contra a cunha de cavaleiros, mas flechas vieram das ameias acima, indicando que a guarnição da muralha havia contido o assalto com escadas que Viktor agora lembrava ter acontecido momentos antes. Enfim, podiam contra-atacar.

— Meu senhor! — gritou alguém à sua esquerda. — O portão foi reforçado! Já podemos recuar!

Mais um susto para o comandante Viktor. Era impossível! Ao seu lado, estava um dos professores da escola. Ele sabia que aquele homem corrigia provas e reclamava do salário em reuniões pedagógicas. E, paradoxalmente, também sabia que ele comandava homens sob sua bandeira há mais de duas décadas. As duas certezas coexistiam. O mundo oscilou novamente.

— Recuar! — ordenou Viktor, sem saber de onde vinha a autoridade na própria voz.

A linha de escudos avançou para trás de forma coordenada, protegendo a retirada. O som da batalha diminuía à medida que se aproximavam das muralhas.

Quando atravessaram o portão e este se fechou com um estrondo pesado, Viktor sentiu as pernas quase cederem. Ele estava dentro do castelo. Mas não o castelo recriado nos trópicos, e sim o ancestral, que fora um entrave ao avanço do império otomano por mais tempo do que os sultões gostavam de admitir. Sua primeira intuição após a névoa estava certa, afinal de contas. Tochas nas paredes. Pedra úmida. Homens feridos sendo atendidos às pressas.

Ele mal teve tempo de respirar, pois um vigia o convocava à muralha.

— Emissário! Bandeira branca!

Da névoa, surgiu um cavalo. Montado nele, um homem com trajes ricamente adornados, portando uma alva bandeira no estandarte. O rosto e a voz eram inconfundíveis, nada mudara além de sua indumentária, título e sobrenome. 

— Senhor do castelo — sua voz ecoou firme — trago termos generosos. Sou Tariq Selim Karahan, Paxá ao serviço de Sua Majestade, o Sultão Mehmed II, e comandante desta hoste imperial. Rendam-se, e suas terras serão preservadas. Seus costumes, respeitados. Sua fé, tolerada. Sob o império, prosperarão. Permanecerão senhores, ainda que sob nossa soberania. Seus impostos serão revertidos em bonança. Resistir é apenas prolongar o sofrimento.

Viktor sentiu o chão fugir sob os pés. Ele bem conhecia os ecos daquele discurso, mesmo sem saber definir se vinham do passado, do futuro ou dos sonhos. Desenvolvimento, prosperidade, inutilidade da resistência, abandono de suas raízes… O emissário aguardava resposta. E não poderia ser outra.

— Este castelo resistiu antes — disse ele, a voz ecoando sobre a pedra. — E resistirá novamente, hoje e no futuro! 

Em sua versão emissário, o invasor podia externar seu ódio com muito mais liberdade do que sua versão paralela, usando terno e dando entrevista para o telejornal.

Mas sua carranca de ódio foi coberta pela névoa, e ele se viu numa outra batalha, onde portava um celular e lanterna, fazendo uma live que denunciava um início de incêndio florestal criminoso iniciado por jagunços da empreiteira. E, à medida que a neblina sobrevinha com mais frequência, esqueceu o gosto da comida ou a sensação de um travesseiro sob sua cabeça, sendo transportado entre uma batalha e outra, através das eras, até perder a conta e a sanidade.

Epílogo

— Prosseguimos no tempo moderno ou medieval? O que você acha? — perguntou o escritor.

— Estou surpresa… você conseguiu me deixar confusa. Eu tinha certeza de que preferiria a ambientação medieval quando você me falou da ideia. Um conto para a revista Castelo Drácula praticamente pede isso. Mas agora estou em dúvida.

— Pois é, minha amiga, eu te entendo — ele respondeu. — Também sou assim. Gosto de medievalismo, de fantasia. A temática de castelo envolto em névoa é quase um convite automático para espadas e muralhas sob ataque, não é? Mas, enquanto eu escrevia, essa ideia de um conflito moderno — alguém tentando preservar a história contra uma grande corporação — foi ganhando força. Ficou impossível ignorar.

— E aí a sua indecisão fez o favor de deixar esta editora de revista já sobrecarregada com um baita dilema, não é? Eu adoraria dizer para você apresentar dois contos: A Luta do Ancestral e A Luta Moderna de Viktor. Mas você sabe que só podemos publicar um texto na revista.

— Sim, eu sei. É por isso que agora estou com essa ideia híbrida. Minha indecisão virando o próprio nevoeiro que une ambas as batalhas.

— Daqui a pouco você terá um livro de contos só sobre anomalias temporais… Logo saberemos o que os leitores vão achar! 

— Uma pena que o prazo não permita desenvolver mais — ele suspirou. — Se eu tivesse que escolher, acredito que prosseguiria na luta moderna. A luta medieval é fascinante, e eu adoro descrever combates, mas podemos deduzir o desfecho. Os otomanos não engoliram a Transilvânia, com ou sem a intervenção do conde Vlad real, ou o Drácula mitológico. Já as batalhas pela cultura e pela ancestralidade, como as travadas pelo descendente Viktor, continuam em curso. E as grandes corporações de hoje são, muitas vezes, mais implacáveis do que qualquer império do passado.

— É… oficialmente, pela primeira vez, eu diria que preferiria saber o desfecho de uma história moderna ao de uma medieval. Parabéns por isso. Só lamento pelo seu personagem.

— Por quê?

— Ele vai acabar enlouquecendo com a sua confusão cronológica.


Escrito por:
Henrique Morgante

Henrique Morgante é um completo dependente do consumo de boas histórias em todos os formatos, sejam livros, filmes, séries ou games. Paulistano, formado em Administração e graduando em História, atuou em gestão de equipes e no setor bancário. Mas sempre teve por objetivo trabalhar com a criatividade. Escreve contos e romances, navegando entre o terror, a ficção científica, fantasia e, ocasionalmente, ensaios ou crônicas sobre eventos reais, além dos mais diversos temas propostos pelas antologias e revistas das quais participa sempre que possível. » Instagram do autor
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Sou última nascida em sangue e cinzas | Carrego a carapaça de osso e fúria, | Amálgama d’outrora em boas-vindas | À Vila Séttimor em sua lamúria;…

Sou última nascida em sangue e cinzas
Carrego a carapaça de osso e fúria,
Amálgama d’outrora em boas-vindas
À Vila Séttimor em sua lamúria;

Queria eu me olvidar, mas a lembrança
É símbolo da vida atemporal,
Em todos cá resiste uma esperança
Que nunca sentirei assim, vestal...

As sete mortes sei que a mim virão
E tenho de o facínora encontrar,
Jamais eu lhe darei qualquer perdão!

Se vim à Séttimor com tal olhar
Cravado na memória, há um motivo...
Dos órgãos meus, perfume efusivo...
Naquele grã-Castelo há de habitar.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
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Translúcidas as flores espectrais
N’um rosa-gris perpétuo adamantino;
Mi’a lacrima é um orvalho-nunca-mais,
Deságua sob o manto vespertino...

Memórias de raízes entranhadas
Em terras de umidade e gelidez...
Teu rosto uma mentira que me amarga,
Martírio do meu sonho — embriaguez;

Farol sem luz, ó ínsula dorida,
Pensei que, porventura, houvesse amor...
As nuvens trazem sombras já temidas...

Cai chuva ao rosto meu, feito em clamor;
Podia haver tentado que o jardim
Por nós sobrevivesse ao frio de mim,
Mas, dama... nada cura o dissabor...


Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
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Oh, tropéis insanos, vozes se aglutinam | Marchando silvos de compassos trôpegos | Junto aos metais, a miséria, aos córregos | Por onde se ouve o baforo dos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Oh, tropéis insanos, vozes se aglutinam
Marchando silvos de compassos trôpegos
Junto aos metais, a miséria, aos córregos
Por onde se ouve o baforo dos que andam  

No soar do açoite as turbas marcam
As horas da rua vaga, e disperso
Com o lápis e papel na mão, imerso
O poeta saúda aos mortos que emanam 

As horas da rua vaga são fardos
O tempo novamente soa o açoite
Das quimeras flamejando por todos’ lados 

Oh, poeta, mamífero enjeitado
Como queria cingir até à noite
Mas a cada letra testemunha a própria morte.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Tristeza Abissal

A névoa ergue-se como uma prece interrompida | um murmúrio que ninguém distingue, | mas que se aloja na pele | como o frio que anuncia a morte das coisas belas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A névoa ergue-se como uma prece interrompida
um murmúrio que ninguém distingue,
mas que se aloja na pele
como o frio que anuncia a morte das coisas belas.
Há orvalhos que descem lentos,
tão lentos,
que parecem medir o tempo pelo ritmo da dor.
E eu, que deveria esquecer,
repito o gesto antigo de quem espera
por algo que não vem,
mas fere.

A noite carrega um rosto que não finda.
Ela caminha comigo pelas falésias do sonho,
toca meu ombro como um segredo,
invade o silêncio como se fosse memória.
Profunda demais para que o corpo resista,
sombria demais para que a alma adormeça.
Vive num intervalo,
num quase,
num limiar
onde a existência se desbota.

O mundo se dobra adiante,
nesse cinza-rosado que sangra nostalgia.
Flores espectrais inclinam-se ao meu peso,
sabendo que trago um vazio
sem nome,
mas com um cheiro:
— o cheiro úmido daquilo que um dia esperei.
Rios imóveis,
mares hesitantes,
o vento, velho mensageiro,
incapaz de trazer respostas.
Talvez porque tudo esteja suspenso
num suspiro que se recusa a nascer.

E aquilo que devora por dentro
não tem pressa.
Seria fácil se viesse de súbito.
Mas não, age com a delicadeza cruel
das coisas que entendem
que a maior dor é sempre a lenta.
Senta-se ao meu lado,
toca meus versos,
e os torna mais verdadeiros
que minha própria respiração.

E então percebo:
é nesta penumbra translúcida,
onde tudo é passado e futuro ao mesmo tempo,
que aprendo a última lição
a de que, apesar de tudo,
ainda permaneço,
ainda espero,
ainda sangro poesia.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Pedido

São Baudelaire das causas impossíveis, | quisera assim orar Raul: |  – Livra-me, ó Senhor, | dos sofrimentos do jovem Werther; | fazei Goethe descer da minha cabeça,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

São Baudelaire das causas impossíveis,
quisera assim orar Raul:
 – Livra-me, ó Senhor,
dos sofrimentos do jovem Werther;
fazei Goethe descer da minha cabeça,
pois quero intacta
a plantação de neurônios
do fiel compadre Zaratustra.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Escrito por Tiago Serigy, -Poesias Tiago Serigy Escrito por Tiago Serigy, -Poesias Tiago Serigy

Partida

Andando pela praia | De mãos dadas com a brisa | E os pés penetrando a areia molhada | Aquele deserto sem lavra | Pondo ao sol, no ar, meu corpo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Andando pela praia
De mãos dadas com a brisa
E os pés penetrando a areia molhada
Aquele deserto sem lavra
Pondo ao sol, no ar, meu corpo 

De repente:
Imagem que guardei profundo como oceano
Tão despretensiosos passos desfilando
Num vestido azul marinho
Até sumir por quilômetros levando consigo a calmaria
Como se partindo deixasse tudo comigo
Para suportar

No horizonte que o sol brasa,
Os montes abrem caminhos e as rochas 
- donde os pássaros partem vôos -
Se despedaçam,
Ela brisa,
Como um poema que soa
Um mar em ressaca
E deixa de me acompanhar para acompanhá-la. 

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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O Veado na Neve

O Céu branco, sobre as cicutas curvadas sob a neve, | Não vistes, no início da noite, o cervo cornudo e sua corça parados no pomar de macieiras?…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O Céu branco, sobre as cicutas curvadas sob a neve,

Não vistes, no início da noite, o cervo cornudo e sua corça parados no pomar de macieiras?

Eu os vi, eu os vi subitamente partirem,

As caudas erguidas, com longos saltos belos e lentos,

Por cima do muro de pedra, adentrando o bosque, com as cicutas curvadas sob a neve.

Agora, deitado está ele aqui, o sangue selvagem fervendo a neve.

Quão estranha coisa é a morte, que o traz aos joelhos, traz aos chifres,

O cervo na neve.

Quão estranha é — a uma milha de distância ela deve estar — sob as pesadas cicutas que, enquanto os momentos passam, mudam um pouco sua carga,

deixando cair uma pena de neve — a vida, observando atenta pelos olhos da corça.

Edna St. Vincent Millay

(Tradução: Júlia Trevas)

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Edna St. Vincent Millay

Edna St. Vincent Millay (22 de Fevereiro de 1892 – 19 de Outubro de 1950) foi uma poetisa lírica e dramaturga americana, vencedora do Prémio Pulitzer na categoria Poesia. Ficou também conhecida pelo seu estilo de vida boémio, pouco convencional para a época, e pelos seus inúmeros casos amorosos. Utilizou o pseudónimo Nancy Boyd para o seu trabalho em prosa... » leia mais

Traduzido por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
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O Manto Sagrado da Noite

A névoa sobe como exércitos vencidos, | erguendo suas lanças translúcidas | num silêncio que antecede a ruína. | O orvalho desce como cortejos fúnebres,…

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A névoa sobe como exércitos vencidos,
erguendo suas lanças translúcidas
num silêncio que antecede a ruína.
O orvalho desce como cortejos fúnebres,
marcando cada passo meu
com o peso de eras esquecidas.
Caminho entre falésias que respiram,
ilhas quebradas do tempo,
onde cada pedra guarda o eco
de algo que nunca deveria ter sido ouvido.

A noite se abre como um manto antigo,
sagrada e terrível,
circundando-me com seus presságios.
Sinto-a avançar, lenta,
como criaturas que se aproximam
em um mundo onde o destino
já foi decidido antes do nascer das estrelas.
A fronteira se dobra diante de mim,
e dela surgem sombras que me reconhecem
mesmo quando não sei quem sou.

O mundo cintila em rosa cinéreo,
cidades fantasma ao longe,
mares que recuam como dragões fatigados,
rios imóveis guardando segredos
profundos demais para o sopro humano.
Flores espectrais abrem e fecham seus véus,
como clamores de um reino caído.
E o vento, o velho arauto,
se cala por respeito ao que se aproxima.

Dentro de mim, algo desperta.
Um antigo chamado.
Um juramento que não lembro de ter feito,
mas que pulsa como sangue nascido antes do mundo.
Toca meus versos:
— não como consolo,
mas como espada.
E então percebo:
minha luta não é contra monstros,
nem sombras,
nem destinos.
É contra o próprio eco do que fui.
E ainda assim avanço.

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Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Velian: O Banquete da Noite

Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra…

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Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra fora reencontrada — mas agora não havia nostalgia nem peso: o que ardia em sua alma era sede, não de simples sangue, mas de corpos, de jogos, de poder e vertigem. É que o vampiro intuía agora que de nada ou de pouca coisa valia seus esforços por encontrar sentido último na vida. Por meio de seus encontros atrozes com a deusa Nix, Velian entendia que, por mais magia que estudasse, não iria descobrir uma verdade última sobre a vida, que era imensa e se desdobrava demais até para ele. Com isso, o vampiro não pretendia deixar de lado seus estudos, pois percebera que sempre haveria mais coisas para entender, e, no processo, ficar ainda mais forte e poderoso.

Da varanda alta de um edifício antigo, o vampiro contemplava a cidade. Fortaleza estendia-se como uma tapeçaria noturna de luzes, fumaça e mar distante. E apesar de o vampiro admirar a cidade de vez em quando, ele não buscava beleza contemplativa; buscava movimento, carne, pulsares. Com um sorriso enviesado, lançou o chamado: não súplica, mas desafio. Convocou Cassandra por meios telepáticos. Não a queria como lembrança, mas como chama. Queria testá-la, tê-la ao lado, enfrentá-la no terreno mais fértil da luxúria, onde Cassandra era muito boa, melhor que ele na maioria das vezes, ele reconhecia. Só que, desta vez, o vampiro não se importava com quem fosse ganhar, se todos, no final, fossem ter prazer. O vampiro também se sentia recarregado em seu interior e sentia que estava preparado para Cassandra.

Ela veio. Surgiu como sombra lasciva em meio à escuridão e o breu do prédio em que Velian estava, o vestido colado à pele como promessa. Entre os dois, não havia saudade, apenas provocação. Ele a olhou como quem devora; ela riu como quem jamais se deixa conter. "Dessa vez foi rápido." — pensou o vampiro. Velian ainda não conhecia muito bem o poder da teletransportação, o vampiro precisava voar e percorrer longos caminhos, ainda que rápido, para chegar aos seus destinos.

— Ainda és capaz de me surpreender, Velian? — ela sussurrou, deixando o hálito frio roçar-lhe o pescoço.

— Não preciso surpreender, Cassandra. Preciso apenas… consumir.

A cidade se abriu para eles como palco obsceno. Primeiro, a boate pop, onde corpos reluzentes dançavam sob luzes de néon: ali sugaram a vitalidade de um casal, jovens que tremiam entre o medo e o êxtase. Depois, o subterrâneo rochoso do rock, onde o suor misturava-se ao sangue — um beijo rasgado em meio aos gritos das guitarras. Mais adiante, o caos punk, onde corpos se chocavam, e Velian se embebedou do gosto amargo de um rebelde, rindo ao ver Cassandra deixar marcas profundas nos ombros de uma mulher andrógina que se oferecia como oferenda. Por fim, o delírio ciberpunk: máquinas e carne, implantes cintilantes, olhos de néon. Ali, eles foram de todos e de ninguém — sorvendo, possuindo, misturando-se até que a madrugada não tivesse mais fronteira.

E então veio o chamado. Não humano, não terreno. Um som grave, como se as paredes vibrassem com a respiração de algo antigo. O ar magenta se adensou, dissolvendo a boate ciberpunk em ruínas úmidas. Diante deles erguia-se o Castelo Drácula, vivo, pulsante, enraizado em sombras.

Velian e Cassandra trocaram um olhar de puro gozo: a noite apenas começava.

Entraram. No salão principal, criaturas os aguardavam. Vampiros menores reverenciavam ou invejavam sua presença. Fantasmas serpenteavam, oferecendo toques frios como beijos eternos. Lobisomens os observavam com uma fúria erótica, como se o desejo fosse tão grande quanto a raiva. E, entre colunas que se erguiam como membros retorcidos, pairavam entidades mais antigas — quase divinas, encarnações da noite e do prazer.

Tudo respirava sob o signo do magenta profundo: cor entre o rosa mórbido e o vermelho do sangue, ardendo como febre nos vitrais e nas peles. Cassandra gargalhou, e sua risada ecoou como chicote. Velian apenas abriu os braços, como se o castelo inteiro lhe pertencesse.

Ali, não havia mais mortais, não havia mais limites. Apenas a noite, o desejo e o abismo. E Nix, Senhora da Noite, invisível, mas presente, erguia-se como símbolo absoluto, assistindo ao jogo de poder e luxúria entre seus filhos imortais.

A Noite Magenta reinava.

O salão respirava como uma garganta viva. Cada sombra parecia observar, cada sopro de vento trazia perfumes de sangue e de incenso queimado. Cassandra caminhava como se fosse a própria sacerdotisa da luxúria. O vestido desfazia-se em transparências, e dela emanava a volúpia de uma rainha indomada. Velian a seguia com olhos cerrados de desejo e ironia, consciente de que a provocação dela só o inflamava mais.

Dizes que me consomes, Velian… — Cassandra deixou escapar num murmúrio rouco. — Mas e se fores tu o devorado?

— Que me devorem então — respondeu, mordendo-lhe o pulso delicado.

O sangue escorreu quente, vermelho e febril, e ambos sorriram como predadores cúmplices. Ao redor, os convidados da noite se aproximavam. Uma vampira jovem, de olhos cinzentos, ajoelhou-se diante de Cassandra, oferecendo-lhe o pescoço. Cassandra aceitou com a delicadeza cruel de quem colhe uma flor para logo esmagá-la. Velian, observando, riu baixo.

— Sempre a rainha de súditos desesperados.

— E tu, sempre o cavaleiro que finge desdém, mas não resiste a entrar no jogo.

Um lobisomem se ergueu da sombra. O corpo musculoso, marcado de cicatrizes, observava-os com fúria erótica. Velian estendeu-lhe a mão e, num gesto inesperado, arrastou-o para perto. Beijou-lhe a boca com violência, arrancando-lhe um uivo de prazer e dor. Cassandra gargalhou, e o eco da risada fez os fantasmas estremecerem.

Velas altas ardiam em magenta, tingindo as paredes de febre. Entre colunas retorcidas, ninfas espectrais surgiam — seres de pura energia que tocavam com mãos etéreas, provocando tremores de êxtase. Uma delas deslizou por entre Cassandra e Velian, sussurrando um canto sem palavras. Velian fechou os olhos: o toque frio era como mergulhar em abismos de desejo sem fundo.

No centro do salão, uma mesa de pedra negra cobria-se de taças com sangue aromatizado por flores espinhosas. Ali, Cassandra puxou Velian pelo colarinho e o empurrou contra a superfície dura. O beijo deles foi brutal, quase uma batalha.

— És meu inimigo e meu deleite — ela sussurrou.

— E tu, Cassandra, és minha perdição favorita.

A sala inteira parecia vibrar em torno deles. Os outros seres — vampiros menores, fantasmas, lobisomens — não apenas assistiam, mas participavam, entregando-se a toques, beijos, mordidas, formando uma espiral orgiástica de desejo e violência. A noite pulsava como um coração colossal.

E, acima de tudo, Nix, Senhora da Noite, pairava invisível, mas inegável. Velian sentiu sua presença como sopro no pescoço, como mão invisível sobre o peito. Era mais que luxúria: era o eterno chamado da escuridão, o ventre cósmico de onde nascia o desejo.

Por um instante, Velian fechou os olhos. O tempo não existia — apenas ciclos de prazer, sangue e silêncio. A melancolia se dissolveu no delírio magenta, e até o vazio se transformou em alimento.

Era ali, entre o amor e o abismo, que agora ele se sentia mais vivo.

Ninfas dançavam entre pilares de pedra, seus corpos translúcidos refletindo tons rubros, que se misturavam à penumbra do castelo. Velian sentiu o chamado: não havia necessidade de força, apenas de entrega ao êxtase que o rodeava. As criaturas o cercavam, e cada toque era como eletricidade: não física, mas metafísica, percorrendo a sua forma vampírica em ondas de calor e frisson. O desejo era profundo, não vulgar — um trago da própria eternidade.

— Velian — murmurou uma voz etérea, deslizando pelo corredor como fumaça de incenso. Era uma das ninfas, seu corpo esculpido em curvas impossíveis, os olhos refletindo auroras de cores também impossíveis — Você sente? Não é fome, não é sede. É vontade de tudo possuir, e ainda assim nada deter. É o prazer do infinito que nos rodeia.

— Sinto — respondeu Velian, a voz baixa e rouca, reverberando nas paredes úmidas — Sinto o vazio e o desejo, tudo ao mesmo tempo. Sinto o poder de existir, mesmo sem precisar do desespero.

— E ainda assim há ironia em ti — disse outra presença, um fantasma andrógino que se aproximava por entre as colunas, roçando sua essência contra a aura de Velian — Tens força para moldar mundos, e escolhes caminhar por entre sombras, provando prazer do etéreo. É humano demais, ou vampiro demais?

O Castelo Drácula os envolveu com seus corredores labirínticos, onde o tempo se curvava e cada sombra parecia palpitar com vida própria. Velian, pulsando com uma energia voraz e confiante, sentiu a presença das criaturas — fantasmas translúcidos, ninfas que ondulavam entre a penumbra, e seres andróginos cujos olhos brilhavam com segredos antigos. A respiração de todos se mesclava ao ar denso, impregnado de aromas doces e metálicos, uma fragrância que falava de desejo e eternidade.

— Aqui, até o silêncio tem gosto de sangue — murmurou Cassandra, deslizando ao lado de Velian, sua voz quente como veludo, provocando arrepios nos seres que os observavam. — Cada respiração, cada toque, cada olhar é uma dança de poder.

Velian sorriu, mordendo o lábio com malícia. Ele não buscava humanos agora — apenas o calor vivo e intenso dessas entidades que respiravam o mesmo abismo e compartilhavam da mesma sede. Ele tocou uma das ninfas, sentiu sua pele etérea vibrar entre seus dedos, e percebeu como o prazer e o medo se entrelaçavam, como se cada suspiro fosse um cântico antigo, uma oração esquecida.

Entre risos e murmúrios, seres com corpos andróginos aproximaram-se, oferecendo olhares que queimavam e mãos que provocavam pequenas faíscas de eletricidade na pele. Velian aceitou o jogo com destreza, sua presença um magnetismo de desejo que atraía e incendiava cada ser à sua volta. Cassandra, sempre altiva, seguia seus passos, brincando de dominadora e cúmplice, deslizando sobre os corpos que se curvavam e arqueavam sob a tensão do prazer.

— Não é só sobre matar ou seduzir — disse Velian, a voz grave, o olhar em chamas, enquanto uma sombra de fantasma cruzava seu corpo — é sobre sentir a eternidade no toque, no êxtase, na fusão do desejo e da vida que pulsa por trás da escuridão.

— E ainda assim — replicou Cassandra, arqueando a sobrancelha, os lábios tingidos de rubor de vinho — há sempre algo mais. Sempre há. O poder, o prazer, a fome… nada disso se compara ao que se encontra quando aceitas a profundidade da noite, e daquilo que somos. Tu queres sentir tudo, não é? E eu estou aqui para que sintas.

O toque, os olhares, o jogo de aproximação e afastamento criavam uma coreografia de luxúria e poder, onde o prazer era apenas o início da compreensão de algo maior — da eternidade, da solidão compartilhada e da beleza perversa de existir. Fantasmas e ninfas entrelaçavam-se, vozes sussurrantes cantavam cânticos indecifráveis, e a arquitetura do Castelo parecia responder, pulsando, expandindo-se, como se respirasse com cada desejo consumado.

Velian e Cassandra, lado a lado, abraçavam a escuridão, percebendo que cada toque, cada carícia, cada arrepio era uma reafirmação de sua própria condição: eternos, sedentos, livres, mas ainda assim ansiosos por sentidos, laços e descobertas. O Castelo os envolvia, a noite os consumia, e a sensação de pertença àquilo que era maior que a própria vida os incendiava por dentro.

— Aqui, no fim, — murmurou Velian, sentindo a vibração de Nix, senhora da noite, pairando sobre todos — só o desejo e o vazio coexistem, e são eles que nos tornam mais vivos que qualquer mortal.

Cassandra sorriu, e juntos, absorvendo cada ser, cada suspiro, cada presença, permaneceram na dança eterna do Castelo, entregues ao prazer, ao poder e à própria eternidade, até que o vento metálico do limiar sugeriu que novas descobertas os aguardavam, e que a noite jamais terminaria.

O Castelo Drácula tremia. As paredes antigas estalavam como se quisessem expelir séculos de segredos, e as torres pareciam ceder ao peso da própria eternidade. Velian sentiu o chão vibrar sob seus pés, o ar metálico da noite se tornando denso demais, quase líquido, como se o próprio limiar se desfizesse. Fantasmas, ninfas e seres andróginos evaporaram em brumas ondulantes, deixando apenas o eco de suspiros e risadas antigas. O desejo, intenso e febril, continuava a arder dentro dele, mas o Castelo parecia avisá-lo: era hora de retornar.

Em um instante que durou simultaneamente uma eternidade e um sopro, Velian sentiu o mundo girar, e tudo desmoronar ao redor. A última visão do abismo do Castelo se desfez, e ele despertou.

O amanhecer já tocava Fortaleza. Raios de sol pálido atravessavam a cortina do quarto, dourando o ar ainda impregnado do calor da noite. Cassandra dormia ao seu lado, seus cabelos negros espalhados como sombras luxuosas sobre o travesseiro. O perfume dela misturava-se com o aroma do café da manhã não feito e o leve toque do sol nascente. Cada curva de seu corpo era uma promessa silenciosa, cada respiração, uma melodia antiga que atravessava os séculos.

Velian a observou, os olhos absorvendo cada detalhe: a delicadeza da pele, o arrepio dos fios de cabelo, o ritmo perfeito da respiração. Um sorriso lento curvou-lhe os lábios, a ironia e a certeza de si próprios entrelaçadas.

Revisado por Sahra Melihssa
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
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Sangue, Silício e Presságios / Capitulo I

Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao menos podemos dizer que notamos.

Imagino que o propósito fosse justamente esse: não tivéssemos a oportunidade de resistir, confrontar ou mesmo protestar.

Vi os passos que a indústria avançou nos últimos duzentos anos, um ritmo tão acelerado, surpreendendo a todos com tantas novas tecnologias e informações que, assumo com sinceridade, prendem nossa atenção. Era de tirar o fôlego.

Não sou um fã ensandecido da tecnologia, mas muitas delas me impressionaram também.

Voltando! Lembro-me bem daqueles dias, o sol começou a desaparecer, mergulhando, uma após a outra, as cidades numa realidade de escuridão. Mesmo que isso fosse algo bom, pensando nas crianças da noite, inegavelmente havia mais — muito mais escondido por detrás do véu dos poderosos.

Fiz uma pausa em minhas lembranças, levei minha mão de carne e sangue, a tocar minhas cicatrizes na face, implantes biônicos, uma cibernética que mescla o orgânico, metal, cabos e vidro, uma lembrança pesada de decisões que sinceramente me incomodam. Cada passo deve ter um destino, mas teria sido um gostado de ter mais opções em minhas mãos. Mas não pude, realmente, não tive, contudo, como lamentar minhas dores e angústias. A cada vez que toco as partes do meu corpo, que foram substituídas, busco manter meus olhos para meus objetivos. Infelizmente isso virou hábito, algo que me faz emergir, — retornar desse imenso lago sombrio sendo a minha vida.

Uma nova interrupção de meus pensamentos, o toque e brilho do celular que tocou.

Na tela, primeiro o nome, logo uma foto de um rosto conhecido de tempos mais interessantes. Quem sabe em outros tempos meu eu fosse mais gentil com os contatos, mas depois de tudo o que aconteceu, o ressentimento e desconfiança viraram regras irrevogáveis.

— Quem diria… Ele ainda se lembra que eu existo! — Minha voz saiu baixa e rouca. Respirei fundo e liberei lentamente o ar dos pulmões. Deixei o celular sobre a mesa do meu escritório.

Recostei-me na cadeira, fiz uma meia volta com ela, e fiquei olhando atentamente para o mundo além da janela e um lugar escuro e bem mais sombrio que se desdobrava.

Velho mundo, numa nova realidade obscura e desafiadora.

Como um reflexo involuntário, levei a mão até a costela, buscando o lugar onde carregava o coldre e a velha Lucy, uma pistola que passou a ser uma extensão de minha própria existência carnal e imortal. Ao notar a ausência, me fiz buscar na memória onde a deixei.

— Ah, sim. — exclamei alto de súbito, recordei o mancebo ao lado da porta, vi sua alça negra, junto aos casacos e o blazer que sempre deixo aqui no escritório, — me esqueço vezes demais de levá-la para casa. Algo tão banal; meu escritório é mais minha casa que a verdadeira.

Mergulhei novamente em pensamentos e lembranças.

No lugar do amarelo da alva nasceram tons brilhantes, veias luminescentes que deram vida ao mundo cinza de cimento e concreto.

Os diversos tons de neon ganharam espaço, a ponto de nos fazer sentir sermos as estrelas. A noite e o dia agora eram guiados por cores — azul, verde, vermelho — entre tantos tons infundidos em tubos de luz.

Muitos recém-abraçados celebraram a escuridão, e suspeito que alguns dos milenares também o fizeram.

Vampiros ainda se prendem a velhos hábitos e tradições, embora os recém-convertidos pareçam nutrir desprezo pelo véu que nos protegeu por séculos.

— O que veio após o caos inicial era previsível, no entanto, nada desejável, pelo menos para mim! — disse quase em murmúrio, ainda mergulhado na cadeira, com a carranca de insatisfação inundando meu rosto.

Veio a princípio pela voz de Maximillian Jones, presidente americano. Ele convoca as nações a se unirem na elaboração de uma organização multinacional chamada “Aegis Dominion Corp”.

Aquele homem era uma verdadeira raposa. Homem corpulento, de rosto redondo. Pele branca e pálida. Cabelos milimetricamente alinhados, como todo bom político. Ele sorria à sua frente, planejava ardilosamente pelas costas de aliados a rivais. Além do sistema burocrático, eles criaram uma unidade de atuação imediata chamada de “Cerberus State Division”, ou como ficou conhecida, a CSD.

Por detrás de toda aquela propaganda anti-crime havia a intenção de conter todos e tudo que fosse do guarda-chuva sobrenatural.

Alguns humanos não esqueceram o desastre dos primeiros meses de escuridão, presidente M.J. foi um desses rancorosos.

Que engraçado, eles tiveram rancor! Sua ânsia por revanche os levava a buscar meios de se proteger. Contra quem eles iriam? Nós!

Nós que existimos desde sempre. Humanos tentando proteger seu futuro das nossas mãos.

Conflitos foram deflagrados por várias regiões do mundo, a princípio no norte, uma verdadeira caçada a qualquer paranormalidade. Mortes relatadas de humanos e criaturas sobrenaturais. Um quadro horripilante a cada vez que você olhasse na internet, pelo celular, através da televisão. Os discursos vazios em nome de uma justiça cruel.

Daquele momento em diante, não era unicamente a escuridão que mudava nosso universo, mas a sociedade, as relações e as regras do mundo.

A tensão subiu tão rápido, que Magnus se viu forçado a fazer algo.

— “Quem é realmente, Magnus?” — pensei. O líder dos “Sangue de Obsidiana”, um homem único, ímpar por ser visionário. Nem sempre concordamos. Ele via com bons olhos algumas mudanças, e eu com cautela.

Magnus Draevon é um homem baixo em estatura, troncudo, de olhos leoninos de tom verde-claro e expressão pacata. Seu espírito parecia nunca se abalar, mesmo diante dos cenários mais terríveis. Aquele homem tinha o estranho hábito de ficar acariciando sua barba longa, ainda mais em conversas incômodas, aquilo o mantinha em serenidade aparente.

Para aquele que temos ele como pai e mentor, vimos nele força suficiente para acalmar nossos ânimos, com isso encontrar um caminho em meio àquele caos sanguinolento.

Imagino que já estive mais vezes em desacordo com Magnus, do que em acordo. Nosso modo de ver o mundo e a gestão da “família” eventualmente se chocavam.

Numa manhã, há uns dois, ou três anos, não recordo bem, mas não muito após o plano dos humanos sair na mídia, o líder me ligou.

É bem vivida a memória. Estava em minha casa, mergulhado no sofá com um copo de whisky na mão esquerda. Havia deixado o celular sobre a mesa, numa vã tentativa de distância da minha própria realidade.

A sala era ampla, móveis mínimos e modernos. Nunca fui de ter muitos objetos.

A tela se iluminou e começou a vibrar. O som reverberava numa melodia suave pelo ambiente. Então o nome no ecrã brilhou em letras austeras: Magnus.

Intensamente inalei o ar, levantei-me vagarosamente e soltei lentamente o ar. Dobrei o corpo, troquei o copo de mão e estiquei o braço até alcançar o aparelho.

Atendi e coloquei-o em viva voz.

— Dorian. — Sua voz ecoou pelo fone como trovão distante, grave e firme, mas com uma tonalidade que sempre me fazia comparar com o aço temperado.

— Mestre Magnus. — Respondi, as palavras escapando antes que pudesse pensar.

Não era só respeito; havia uma espécie de reflexo condicionado, como se meu corpo reconhecesse nele algo que jamais ousaria enfrentar.

Levantei-me do sofá e caminhei até a varanda. Lá fora, a manhã sem sol parecia imersa em calmaria, com um vento frio tocando meu rosto, como se o mundo aguardasse o desenrolar daquela ligação.

— Eles, os líderes da humanidade, estão prestes a piorar o nosso mundo. — disse ele. — O plano deles já não é um mero rumor. Viu as notícias? Notícia infeliz. É real, Dorian. Precisamos nos precaver e evitar o pior dos cenários.

Engoli seco, apertando o celular contra o ouvido.

— Quer que eu faça parte disso? — Eu girava o copo com o líquido âmbar na outra mão, impaciente com tudo aquilo.

Houve uma pausa. O som de sua respiração atravessou o fio invisível que nos unia — pesado, quase paternal.

— Não quero, Dorian. Preciso! Você foi um dos poucos que me sobraram. — Ele fez uma pausa que parecia levar anos. — As outras famílias têm dores de cabeça em seus próprios quintais; confiar é algo raro nessa nossa realidade.

A mão com o copo tremeu. Senti o suor frio escorrer pela nuca.

— Não sei se estamos prontos para enfrentar esse novo cenário… — Tomei um gole curto do whisky, sentindo-o queimar minhas entranhas.

— Nunca se está. — interrompeu com aquela certeza inabalável que me feria e erguia ao mesmo tempo. — Mas escute: não há outro em quem eu confie tanto para enfrentarmos essa crise.

Fechei os olhos. Na escuridão breve, pude imaginar seu olhar de aço, os traços duros de sua face marcada por uma cicatriz. Não era puramente meu mentor — era o peso de um caminho tortuoso que falava comigo.

— Entendi. — Respondi, a voz saindo mais firme do que eu esperava.

Do outro lado, ouvi o breve som de aprovação, quase um suspiro contido.

— Então, prepare-se. Logo, os demais serão convocados. Mas, antes de tudo, precisava conversar com você, ter seu apoio.

A ligação terminou, e o silêncio que restou parecia ainda mais pesado que sua voz. Magnus não havia somente me ligado. Havia marcado um ponto sem retorno.

Nasci onde o fim e o início se confundem, sob a proteção da tríplice fogueira. Sou Hékali Duarte, uma alma moldada sob o manto de uma lua que agonizava, enquanto o mundo mergulhava em uma escuridão que os astros já profetizavam como ruína. O sopro da criação, eu sentia que já vacilava desde o meu primeiro choro.

Sou o fruto de forças ancestrais e filha de Astéria, a guardiã dos mistérios etéreos, e de Pérsia, o caçador que não temia as sombras. Minhas raízes, elas se estendem e estão profundamente enterradas na antiga cidade de Lagina. A Cária esquecida, onde o Mar Egeu outrora beijava as pedras com sua espuma sagrada.

Mas não sei explicar direito a razão…

Temos, eu e minha família, tanta conexão com a França. Mamãe dizia ser grande parte de um legado espiritual.

Desde pequena fui ensinada, por aqueles que…

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...compartilham a mesma ligação, em diversas áreas do saber natural e comum, dentre esses conhecimentos, as línguas do mundo, começando pelo francês, assim como uma introdução mediana no inglês. Me apaixonei pelo espanhol e, por fim, uma exploração por uma língua morta, o latim.

Minha primeira morada fora uma casa de pedra e carvalho, equilibrada no limiar de um despenhadeiro à beira-mar. Lembro-me do cheiro do pinho no piso e da voz de minha mãe, um sussurro que ainda ecoa em mim.

— “Recorde, minha pequena, o mundo pode se abrir em muitos caminhos.” — Eu, movida por uma curiosidade febril, amava os livros e era dócil, “já não mais!” — Refleti quanto ao meu passado e o meu presente.

Uma sonhadora quando pequena? Sim. Observadora de seus ritos costumeiros, ainda mais aqueles feitos em hora avançada, no segredo da noite.

Ansiava pelo dia em que minhas mãos tecessem o invisível com a mesma maestria. Jamais devia ter desejado isso, agora tudo que conheço é sangue e breu.

Mas ela, tão somente me acalmava.

— “Shhh… Apenas durma, meu anjinho.” — A luz da alva e os astros que conheci na infância foram somente o prelúdio das trevas.

Meus pais foram ceifados… Não sei como… não sei quando… Tudo é tão nebuloso, as lembranças fragmentadas, a verdade deu espaço à dúvida, os segredos se apossaram de minha vida de forma tal que desconheço o local de descanso eterno de meus entes amados.

O que sei é que UM vampiro, cujo nome o próprio destino parece temer pronunciar, mas tornou-me herdeira de uma vingança implacável onde fui moldada na carne.

Assim segui, e o tempo voou em sua perene natureza, mas a dor permanece viva. Sentada em minha cama, recostada na parede, comigo no escuro enquanto observo o breu além da janela. — “O que o destino haverá de trazer?” — me veio este pensamento profundo que calou fundo em meu ser.

Naquele ano de perdas, encontrei meu porto seguro nos braços de Antea Uranai, minha avó materna.

O lar de vovó Antea Uranai era um labirinto de saberes profundos. Paredes de pedra, teto de ripas grossas e um silêncio interrompido tão somente pelo consumo lento das velas e pelo traçar de runas ancestrais na madeira.

Ali, entre luzes bruxuleantes e o aroma de mistério, eu fui forjada. Aprendi que o clã Duarte não carrega meramente um nome, mas um nó celta marcado na pele e a sina de caçar o que rasteja no escuro.

Espectros de carne, carniçais de cemitérios e as bestas corrompidas que não conseguem abandonar este plano. Não escolhi esse chamado; ele acendeu em meu peito como uma chama que é, ao mesmo tempo, meu poder e minha condenação.

Olho-me no espelho e vejo um paradoxo. Minha beleza é uma ferramenta, uma arma que fere e seduz com a mesma precisão, meus cansados olhos, quase não me reconhecem mais no espelho. Costumavam ser safiras que lembram abismos iluminados por relâmpagos, assim como meus negros fios, confundindo-se com a própria noite.

Lembro-me de alguém, acho que era como minha sombra de infância, rindo baixinho enquanto me olhava nos olhos, naquela tarde chuvosa sob o telhado rangente:

— Olha só para você, com essa pele alva como neve de um mundo que a gente já nem sonha mais ver… Aos vinte e sete, parecia que o tempo tremeu de medo e fugiu de você, sem ousar riscar sua lâmina eterna. Baixinha assim, pouco mais de um metro e meio, acham que passa batido? Tolos. — Ela fez uma pausa dramática. — Seus instintos são venenos disfarçados de mel, e sua inteligência corta como fio de navalha afiada. Esse mundo sem sol… ele te teme, amiga.”

A escuridão tornou-se uma substância palpável, governada por corporações de ferro e sombra como a Aegis Dominion Corp. Caminho por esse cenário como a Anima Mundi, a alma que ressoa com os lamentos dos céus e os ossos da Terra.

Nas ruínas do distrito de Lyssandria, onde cabos de energia tremeluziam como serpentes em crucifixos de metal, eu me sinto em casa. O ar tem gosto de ozônio e ferrugem. Sob letreiros de néon faiscantes, minhas tatuagens rúnicas pulsam em um azul-índigo, conectando-me às frequências ocultas.

— Os espíritos da rede estão famintos… — murmuro para o vazio.

“Não luto tão somente contra demônios e espíritos, mas, sim, uma luta pela existência humana neste mundo imerso em trevas.” — emergiu este pensamento do fundo do meu coração.

Enfrento os espectros-silício: consciências humanas aprisionadas em servidores, almas que trocaram o além pela eternidade sintética.

— Como pode uma criatura sem ossos desejar ser meramente uma energia elétrica? — Reflito em voz alta, com certo nojo e frieza na voz. — Eu os bano!

Após dizer aquelas palavras, senti a minha magia fundida à tecnologia fluir dentro de mim com inquietação.

Senti algo primitivo ferver em meu sangue recentemente. Um eco digital, um sinal que emana das profundezas de Lagina, minha terra natal. Lá, onde templos gregos colapsam sob antenas quânticas, o passado me chama.

Nasci órfã da luz, mas sou filha da noite. — “E agora, preciso descobrir: o que restará ao final da minha jornada? Sangue ou esperança?” — Esse era um pensamento recorrente: uma autocobrança.

Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Quando a Noite Cobra o Preço / Capitulo II

Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou. Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou.

Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos olhos da percepção, dizia ela que éramos antenas, portas de uma dimensão além do astral escuro. Assim como os “sanguíneos”, como ela costumava chamar, também sempre fomos abençoadas pelo sangue. Entre ossos de corvos e morcegos ela preparava na fogueira este elixir. Quando pronto, nós nos servimos; afirmo que já sabia da grandeza daquilo. Gradualmente me preparei para a grande virada que viria em minha vida.

Ela me abraçou forte.

— “Vovó te ama…” — Ainda recordo com pesar e isso ressoa em meu peito todos os dias. E então bebemos e adormecemos...

Estava tudo muito confuso, admito, estava sonolenta e ébria da realidade, parecia outro plano. Atordoada, um tanto atônita, recobrando meus sentidos, orientei-me ao presente instante, respirei fundo: “onde eu estava?” — me questionava em meus pensamentos.

Vagarosamente, minha turva visão foi vasculhando gradualmente o ambiente, junto aos dedos no escuro.

Tateando o breu do desconhecido até que minha visão se acostumou à tão escassa luz e minha dilatada pupila se adaptou. Eu estava prostrada, com uma certa dificuldade, uma fotofobia temporária, tentando localizar-me no ambiente, deixando meus olhos se ajustarem; gradualmente minha turva visão se acostumava.

Enxerguei minhas mãos calejadas, meus pés descalços e então lentamente levantei-me e prossegui automaticamente por impulso, instinto. Meus pés caminhavam sob uma superfície um tanto úmida, o que deixava o caminhar escorregadio. Em algumas partes, ao tato, era possível sentir porosa, era como caminhar em cima de pedras de sabão.

O aroma era ocre.

O lugar em si me parecia claustrofóbico, começou a me incomodar, era algum tipo de gruta?

Sentia-me isolada de mim mesma, um exílio íntimo, uma constatação de uma verdadeira solidão contemplativa — ou seria uma solitude sofrida? Não sei ao certo dizer, mas aquele ambiente me sufocava tanto meu interior. Eu sempre estava em exílio comigo mesma, com meus pensamentos. Meu espírito se sentia sempre acorrentado, por quê? Mas, de alguma maneira, era isso — e aqui constato que não posso recordar por que estar ali.

Continuei caminhando, o trecho foi gradualmente se iluminando, até que desemboquei em uma sala enorme e oblíqua, ao final me deparei com dois enormes castiçais que estavam grudados à parede com uma labareda de coloração cobalto.

Os pilares dessa sala e as rochas eram todas feitas de um tipo de rocha desconhecida para mim. Emulam uma sensação semelhante à superfície lisa e fria de um vidro, refletindo imagens turvas e espelhadas.

Havia esporos pelo ar e em algumas partes um tipo de limo rubro e pegajoso como um tipo de simbiose viva emanava um sol gutural borbulhante e pude perceber que ele sangrava e dele desabrochou em combustão ali.

Dois enormes morcegos de coloração escarlate vinham em minha direção. Um pânico me abraçou, uma sensação de impotência, insegurança, senti minha espinha se arrepiar, sentia-me zonza pelos seus sonares e uma certa confusão mental me envolveu por alguns segundos.

Ainda sentia aflição nos meus pés pela superfície molhada e porosa, o que me causava uma clara sensação de ojeriza. Contudo, meus sentidos estavam todos centrados em como derrotar aqueles sugadores.

Meus instintos mais profundos pulsaram através das minhas veias, o que fez minha mão esquerda mover-se, com precisão e delicadeza, como num ritmo, algo que tanto repeti até memorizar. Então me veio a mente os versos que me foram ensinados.

— “Que la chair du monde s’ouvre… — Comecei a recitar em voz baixa. — Desabrocha… Flor sem raiz… Nascida do abismo do instante.

 Uma energia com uma luz suave emerge do meu ombro e vai serpenteando até o meu punho fechado, quando eu o abro com a palma voltada para cima, como o caule de uma flor aparece. Até surgir uma flor em botão e lentamente ela desabrocha como uma flor.

Daquela flor tão exótica em minha palma, a luz começou a irradiar e acender, até que sua existência não mais se sustentou. As pétalas se desfizeram, dando origem a algo que pulsava antivida: uma adaga. Seu dorso de esmeralda com runas emanava, imponência; no fio, uma coloração verde, selvagem, como se pulsasse veneno em cor néon vibrante.

A adaga flutuava no ar como uma entidade néon. Ela se movia como se por vontade própria; ela os estripou, ambos os morcegos, em poucos instantes. Retalhando-os no ar enquanto batiam as asas. Assim que a lâmina sentiu o gosto do sangue das criaturas, ela retornou imediatamente para meu peito, dissipando-se no ar como partículas e faíscas luminosas de um verde intenso. Eu estava sem fôlego, o que foi aquilo?

A porta de vidro à minha frente se abriu… Assim…

· · • • • ✤🦇✤• • • · ·

…que senti minha presença, mergulhei na boca daquela gruta desconhecida da treva da solitude que me abraçou.

Uma mescla perfumosa de sangue e poesia espessa.

Sou a terceira da trina Chama da chave do acesso da imortalidade escura da alma.

Dias depois, Magnus convocou os poucos que ainda detinham influência suficiente para alterar o curso da noite. Urr Locust, dos Tecno-Exsangues. Khaal Zerik, dos Carniçais Carmesins. Nivra Veyra, das Criptas do Éter. E Soren Klyth, à frente dos incontroláveis Filhos da Ruptura.

Soren não respondeu. Não recusou. Tampouco enviou emissário. Simplesmente permaneceu em silêncio — e, naquela época, o silêncio dele era mais perturbador do que qualquer declaração de guerra.

Os demais compareceram ao prédio dos Sangues de Obsidianos: uma torre negra com um grande triângulo néon azul invertido e um olho cibernético.

A sala era ampla e retangular, no último andar daquela torre negra no centro da cidade. As paredes do sul e do oeste eram de vidro, dando uma visão única da cidade em passo avançado de adaptação à escuridão. Dentro, uma mesa retangular de madeira na cor caramelo, com bordas pretas. No centro, cadeiras de encosto alto, umas quantas plantas. Um ambiente elegante, com paredes de madeira.

Cada família que atendeu ao chamado enviou dois representantes: um líder para falar em nome do clã e um guardião para lembrar que palavras nem sempre bastam.

A reunião foi infame desde o primeiro instante. Arrastou-se por horas, depois por dias, fedendo a interesses velhos, apodrecendo como um ghoul abandonado à própria carne. Ninguém buscava consenso; cada casta empurrava suas ambições, puxava acordos pela força, tentando garantir vantagem antes que o mundo ruísse de vez.

Sustentar aquilo exigiu de Magnus um esforço quase desumano.

Nem dentro dos Sangues de Obsidiana havia lealdade plena. Alguns desejavam ultrapassar a visão do líder, acelerar a queda. Veynar, o arconte de caráter duvidoso, era o rosto mais visível dessa fissura — seus negócios já haviam cruzado a linha, mergulhando fundo no submundo do crime.

As feições beiravam o esquelético. Alto, de cabelos longos quase sempre trançados para trás. Com olhos viperinos, já havia experimentado mudar partes do próprio corpo antes mesmo do início da noite eterna. Ele falava arrastado e gesticulava demais.

Indo mais a fundo nas memórias, recordo o momento do nascimento da Noctis Consortium… Foi muito inusitado… Difícil!

Não se passaram eras, mas nos fizeram sentir que assim foi.

Mesmo com a oposição de figuras como Zerik — que acreditava em um confronto direto — e, de certa forma, minha própria resistência, não durou tanto quanto esperávamos.

Magnus prevaleceu ao argumentar em favor de uma convergência, e não de uma guerra. Sua lógica era implacável: um conflito aberto seria catastrófico para ambos os lados, e o aumento da nossa exposição nos guiaria a um caminho autodestrutivo. Em vez de sangue nas ruas, ele nos vendeu a visão de um Estado chamado de “A parasitose perfeita”; um sistema oculto e enraizado na própria estrutura humana, utilizando nossos infiltrados para manobrar o inimigo como peças em um tabuleiro.

Assim, fundaram a Noctis Consortium, ou Noc-Con, como passou a ser conhecida no mundo.

O símbolo que escolhemos não buscava apenas representar um tempo — ele queria clamar. Era um chamado silencioso e feroz, nascido do desejo de abandonar o canto empoeirado da história, onde sombras tão somente observam, para enfim pisar o palco do mundo como presenças vivas entre os homens.

Uma lua crescente, invertida, curvava-se como um gesto de acolhimento ao redor de uma gota de sangue lapidada em losango. Tudo repousava sobre um negro absoluto, profundo como um abismo sem nome, rasgado por um vermelho carmim que brilhava espectralmente, quase sobrenatural. Ali não havia excesso nem frieza técnica — somente a tradução visual de quem somos: uma essência sombria, rara, de beleza estranha e melancólica, feita para ser sentida antes de ser compreendida.

Devo admitir: era algo belo de se ver.

— Devo admitir que aqueles momentos foram únicos. Nunca imaginei que as famílias se uniriam ao projeto de Magnus. — Agarro os braços da cadeira, cobertos de couro, impulso-me e coloco-me de pé. Dou dois passos e paro diante da janela, observando as pessoas caminharem lá embaixo, na rua.

Acompanhei o mundo perder o compasso e mergulhar, de cabeça, num frenesi febril. Não… Foi um salto de cabeça — foi uma queda longa, silenciosa, quase posso dizer, elegante. Chamaram de progresso, como sempre fazem quando não querem dizer o nome real das coisas.

No começo, havia uma justificativa nobre: devolver pernas aos que rastejavam, olhos aos que tateavam no escuro, braços àqueles que já tinham esquecido o peso de um abraço. “Venha ter a sua cura”, diziam. Era a humanidade tentando remendar a si mesma.

Mas algo apodreceu no caminho…

O que antes era socorro virou vitrine. Braços, pernas, olhos — peças expostas como joias, vendidas com brilho e posição, não com compaixão. O corpo deixou de ser morada e passou a ser catálogo.

Os médicos cederam espaço a mercadores, e a ética foi substituída por cifras. Não havia mais juramento, somente contrato. A carne tornou-se obsoleta; o aço, desejável.

— Observei tudo aquilo com uma frieza que me assustou. Talvez porque, no fundo, eu já soubesse que isso aconteceria. O homem nunca quis ser inteiro — quis ser mais. Mais forte, mais rápido, mais eterno. — Aquelas palavras saíam dolorosamente por minha boca. A clareza de pensamento vinha do realismo dos fatos. — A dor nunca foi o problema; o problema sempre foi aceitar limites. E ali, naquele desfile grotesco de corpos refeitos, percebi que não estávamos curando falhas… estávamos amputando o que ainda os tornava humanos.

A humanidade não resistiu. Adaptou-se. Sempre se adapta. Primeiro com curiosidade, depois com indiferença, e por fim com desejo. Órgãos internos passaram a ser redesenhados não para salvar vidas, mas para ampliá-las — pulmões que não se cansavam, corações que não falhavam, sistemas nervosos afinados como máquinas de guerra. Tornou-se moda. Uma moda doentia, cruel, irreversível. Até os que cuspiam desprezo por essas mudanças acabaram ajoelhando diante delas. Eu também. Não por vaidade — por sobrevivência.

— Houve um instante em que entendi: não era mais escolha. Era submissão disfarçada de evolução. Quem permanecesse intacto seria lento, frágil, descartável. O mundo não odeia os fracos — ele simplesmente os deixa para trás. — Meu rosto no reflexo do vidro expressou um desprezo profundo, nojo, para ser mais claro. — E eu, que sempre observei com distância, senti o gelo da verdade: ou eu mudava… ou desaparecia.

Antes que você se pergunte, me chamo Dorian Kael, um vampiro da casa dos Sangues de Obsidiana, aqueles que viram propósitos na tecnologia e amargaram gotas de sofrimento.

Esta história tem seu início no princípio do fim de uma era.

Admito que me vi envolto em situações que me colocaram diante de caminhos díspares, distantes de seus ditames, além de minhas origens. Pelo meu clã cedi, dando espaço à invasão tecnológica. Uma corrupção fora de qualquer escala.

Essas mudanças sempre tiveram gosto de erro… Um caminho torto, ruim desde o primeiro passo — e, ainda assim, impossível de evitar. Não foi coragem o que me levou até ali, foi tentação. A mesma que empurra homens cansados a cruzarem linhas que juraram nunca tocar. Eu quis acompanhar os vivos, fingir que ainda caminhava no mesmo ritmo deles.

O olho esquerdo que carrego agora não nasceu de carne. É vidro frio, fios ocultos, fluidos que imitam vida sem jamais a possuir. Uma íris de jade observa o mundo por mim, perfeita demais para ser verdadeira. Ele vê o que olhos humanos, nem os dos vampiros, não alcançam: códigos sussurrados na escuridão da rede, sinais escondidos sob camadas de mentira. Enxerga além do mundo físico — e talvez por isso eu tenha começado a enxergar menos de mim mesmo.

Servia ao meu ofício. Negociar o que é raro, valioso, proibido. Ler o invisível, antecipar movimentos, nunca ser surpreendido. Era uma ferramenta, nada além disso. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. Porque admitir que aquela lente não me fortalecia, somente me tornava mais distante, exigiria uma honestidade que eu já não tinha estômago para suportar.

Não fui tão longe quanto meus pares. Muitos abandonaram a caça, chegando ao ponto de desfigurar suas presas. Banir tradições. O mais grotesco foi o surgimento do sangue sintético, que me causa náuseas — uma abominação, mais que a fusão da carne com as próteses.

Hoje, após minha punição promulgada pelo arconte Veynar, encontro-me às margens da sociedade, distante de olhares perigosos.

Não devia ter seguido com aquele maldito plano. Isso me custou a empresa, a vida e a condição social que gozava. Posto como pária em minha própria casa. Tudo por um humano infeliz.

— Isso é que dá estar no lugar e hora errados. — Baixei a cabeça, desaprovando minhas próprias atitudes. — O que posso dizer… senão… arrependimento…

Esses pensamentos foram interrompidos por passos no corredor e um toque ansioso:
— Senhor Dorian… Está aí dentro? — Uma voz feminina e aveludada, levemente rouca. — Sou eu, Milla. Posso entrar?

Creio que passei tempo demais divagando, me perdendo em lembranças. Esqueci que estava no escritório; ainda eram três horas da tarde.

— Entre, Milla, sem cerimônias, por favor. — Minha voz saiu rouca, mais que o costume, num tom autoritário e impaciente.

O som metálico do trinco soou ao ser destravado; a porta rangeu levemente, revelando uma imagem jovial. Cabelos curtos ao estilo de Cleópatra, loiros como o ouro mais puro, olhos escuros, pele pálida como marfim, e lábios divinamente finos.

Milla era uma vampira filha das Criptas do Éter. Uma criança que conhecia a hemomancia. Mesmo os mais jovens dessa raça eram assombrosamente incômodos. Beleza ímpar, mas de uma frieza além do natural.

— Senhor Dorian, a última de suas reuniões foi cancelada. — Ela caminhava com elegância e uma jovialidade impressionante. Jamais diria que tem mais de cem anos. — Acho que já posso ir para casa. O que acha?

Direcionei meus olhos para a tela do monitor, já eram mais de 18 horas.

— Sim, acho que já pode ir. Não temos mais atividades para hoje aqui no escritório. — Por um momento, fiquei reflexivo, olhando para o ambiente. — Que possa descansar. — Acabei falando num tom introspectivo, mais do que para a Milla, para mim mesmo.

Ela deu um giro nos calcanhares e rumou para a porta.

— Se o senhor precisar, sabe que pode contar comigo para o que precisar, chefe. — Havia em sua voz um tom reconfortante e que sabia serem verdadeiras suas palavras.

Ela sumiu, cruzando a porta em direção ao corredor, e seus passos eu podia ouvir bem, por causa do piso de madeira.

Sentei-me novamente e olhei em direção a um espelho no lado esquerdo. Um espelho retangular, posto horizontalmente, um objeto estético. Disseram que isso aumentaria minha sensação de espaço, o que me fez ter eventuais assombros com imagens distorcidas.

O presente nos deixou presentes tão incomuns. Nós, seres da noite, fomos afetados, voltamos de alguma forma a ter nossas imagens. Parece que a maldição dos primordiais enfraqueceu ou ganhou novas camadas.

Difícil realmente dizer até que ponto fomos afetados pela noite profunda e as tecnologias.

Quando me dei conta, percebi algo estranho acontecendo. A princípio, uma sensação de presença.

Meus instintos entraram em ação. As presas, depois as unhas. Sou um dos poucos que ainda mantém ambas as características de minhas origens e tradição. Sob a mesa de madeira à minha frente, preso a ela, um coldre de couro — nele repousa uma pistola, uma velha amiga, apontada em linha reta. Uma segurança a mais. Um recurso de tempos mais perigosos, que exigiam, mais que unicamente, ser um vampiro.

Meus olhos percorrem o ambiente — uma busca por infiltração. Primeiro física, logo depois medidas digitais, buscando sinais de invasão do meu próprio sistema, ou do meu escritório. Vasculhei o máximo que pude dos sistemas.

Quando encarei o espelho, o ambiente pareceu encolher. Distorções em minha visão começaram a surgir. Havia uma sombra ali — uma presença que não existia antes. No início, era somente um borrão inquieto, um erro no reflexo, algo que não deveria estar naquele lugar. Meu coração acelerou antes que a razão pudesse reagir.

Então a sombra ganhou contornos. Linhas surgiram, tortas, angulosas, como se alguém estivesse tentando nascer do vidro. Havia alguém ali. Senti antes de entender. O perigo veio primeiro, rasteiro, gelado, ativando cada instinto que ainda me restava.

A mente entrou em pânico e, por hábito, tentou se agarrar ao que conhecia.

— Analise! — ordenei a mim mesmo, quase como um reflexo de sobrevivência. Mas o pensamento veio quebrado, falho, tremendo: seriam padrões? Sinais? Fragmentos de código?

Sim, linhas e mais linhas. Somente naquela sombra? Poderia ser uma tentativa de infiltração? Olhei os arredores, buscando qualquer coisa fora do comum. Observei a tela do computador. Apertei umas quantas teclas e rodei outro sistema de depuração.

Eu nunca havia visto algo como aquilo!

À medida que tentava compreender, percebi em meu campo de visão algo… falhas de imagem. Não pareciam atacar, mas dava a entender ser um tipo de fantasma na rede.

A pergunta ecoou vazia. Porque, naquele instante, eu já sabia — aquilo não queria ser compreendido. Queria ser notado.

Existia algo… Muito além das linhas. A cada segundo, uma estranha sensação de terror tomava meu corpo. Caminhei em direção ao espelho. A sombra gradualmente foi tomando uma forma, mas, à medida que isso acontecia, surgiam interferências crescentes no meu olho cibernético.

Sua forma parecia de uma mulher com longos cabelos. Corpo pequeno e magro, mas seus detalhes eram como se estivessem envoltos de vapor, tão imprecisos e disformes.

Pouco antes de poder ver mais detalhes daquela imagem em meu espelho, senti uma forte dor em minha cabeça; meu corpo tornou-se pesado. Caí de joelhos, levando minhas mãos à cabeça; me dobrei no chão, enquanto tentava manter meus olhos naquela estranha visão. E, rapidamente, tudo ficou submerso em escuridão, e senti o impacto oco do meu corpo no chão do escritório.

Antes que minha mente fosse consumida pelo vazio, uma voz feminina, suave e delicada, invadiu meu cérebro — um eco distante.

— Temos tão… pouco tempo… a zona sul… Bar… antigo dos O-Tek… — A voz flutuava em seu volume, o que deixava ainda mais difícil entender o que estava dizendo. — Sangue… corrupto.

Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Memórias e Fantasmas

Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças de sua forma humana. Era consciente e carregava uma essência selvagem que protegia Minerva. No entanto, naquela circunstância, ela tentava apagar suas memórias, em busca de se entender independente dos acontecimentos e dos deuses. Ainda assim, sabia que dentro de si residia algo do castelo afogado, mesmo que adormecido.

Ela não lembrava dele há muito tempo, mas naquela noite o som da água abismal insistia em ressoar novamente em seus ouvidos. Minerva lutava contra aquilo. Um cansaço estranho, aos poucos, foi tomando seu corpo, desacelerando o tropegar de suas patas e obrigando-a a observar o caminho por onde passava, que se tornava cada vez mais conhecido para ela — embora já tivesse quase perdido a noção de quanto tempo passara no castelo.

A loba avistou algo ao longe e imaginou que fossem casas em seu campo de visão. Aquela era a estranha vila pela qual passara antes de adentrar o castelo. Sentiu algo puxando-a para perto daquele lugar, enquanto sua mente parecia duelar consigo mesma. Um nevoeiro denso se formava ao redor, criando braços cintilantes que dançavam junto a seu corpo em um ritmo lento, carregando-a para dentro daquele lugar.

Percebeu que estava por entre as casas errantes. Pessoas caminhavam ali, mas ela não conseguia discernir seus rostos. A mente turva a deixava cada vez mais imersa na paisagem acinzentada. Cansada, observou o formato de suas patas na neve, e uma expressão confusa se formou em seu rosto, como se não reconhecesse aquelas pegadas.

Ela se aproximou de uma casa, observando suas janelas, eram sete ao todo. Aquela era provavelmente a maior casa do vilarejo. Rostos estranhos a analisavam sem dizer nenhuma palavra. O cansaço parecia, finalmente, tê-la tomado. Os sete rostos a encaravam e assemelhavam-se a espirais que iam se contorcendo cada vez mais. Os olhos de Minerva-loba estavam hipnotizados e enevoados, totalmente inertes.

Alguém saiu pela porta da casa e fitou-a com intriga. Minerva não reconheceu o rosto, mas a voz lhe pareceu familiar. Era uma voz autoritária. Aquela voz elogiava algo que havia sido conquistado com soberba, embora ela não compreendesse o quê. Seu corpo, despojado sob as cicutas na neve, permanecia inerte ao mundo real, enquanto sua mente vagava por Settimor.

O rei Kheas estava ali, contando vantagem de sua experiência. Ele havia conseguido realizar a transmutação unindo magia e ciência. Sua filha era única, praticamente uma arma de guerra. A loba percebia aquela voz insistente. O medo não era o sentimento que habitava seu peito, mas a raiva. Minerva almejava ser livre novamente.

Ela estava presa em uma memória, os olhos acinzentados e os pelos negros, encobertos por inúmeras cicutas, a aprisionavam no feitiço do viajante. Minerva estava refém de uma lembrança.

Presa na masmorra, sua antiga moradia, ela uivava em lamento, ouvindo as aspirações insanas do pai. Desejava fugir, mas só conseguia se debater, puxando a corrente presa a seu pescoço.

O tempo era ilusório, ela não sabia se ele estava passando ou não. Seus sentimentos eram instáveis entre o tédio, o ódio e o desespero. Ela desprezava aquele homem que a torturava e não compreendia os limites que ele queria quebrar. As paredes arranhadas e a escuridão eram desoladoras, ela ardia em febre no frenesi das dores que lhe foram impostas.

Mas algo naquela lembrança começou a falhar. A voz do pai já não ocupava todo o espaço; tornava-se distante, fragmentada, como um som que se repete sem origem. A loba percebeu, então, que não estava sendo contida por ele, mas pela própria memória.

Naquele tempo, ainda humana, Minerva compreendeu em silêncio que a masmorra não era inviolável. A corrente em seu pescoço não existia para conter sua vontade, apenas seu corpo. E isso não bastava. O uivo que escapou de sua garganta não era súplica, mas sim uma decisão. O primeiro gesto de quem escolhia viver e não sobreviver.

Como loba, ela se lembrou: a fuga começou antes do movimento, antes da ruptura da carne ou do ferro. Começou quando deixou de pedir permissão para existir.

Ela lutava por si mesma.

Minerva-loba ainda transitava entre sonho e realidade; as cicutas a cobriam como um véu branco, misturando-se à neve. Seus olhos retornaram ao azul profundo. Aos poucos, sentiu o corpo voltar à vida. Em sua frente, um ser humanoide a observava. No lugar do rosto, havia uma espiral nebulosa, repleta de escuridão.

A criatura se dissipou à sua frente, levando consigo os sete rostos nas janelas. Dentro de si, Minerva se reconectou com seu poder, tornando-se mais uma vez tão destemida quanto na primeira vez em que desbravou os caminhos tortuosos que levam ao castelo Drácula. A loba sabia o que era e que ninguém tomaria sua liberdade. Clamou por Hekate, não como súplica, mas como sinal.

Ela não temia o deus do castelo afogado.

Revisado por Sahra Melihssa
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
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Espasmos do Silêncio

Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar; elas morrem na garganta antes de se tornarem poesia.

Estou diante de ti, Dama Lacrima. O pintor desconhecido que te prendeu nestas tramas de linho e óleo certamente conhecia o inferno, pois capturou-o com perfeição. Teus cabelos, longos e lisos, escorrem como cascatas de nanquim, emoldurando um rosto de uma palidez cadavérica. As tuas mãos, eternamente erguidas próximas à face, parecem querer esconder o mundo de ti, ou tu do mundo.

Se hoje castigado sou pelo teu descontentamento, que vibra através das camadas de verniz, posso até guardar a culpa. Mas as chaves da tua liberdade são para mim um grande peso que devo suportar. Sinto o ódio irradiar da moldura dourada.

— A tua ira deve ser contida — murmuro para a figura estática, mas viva. — A raça humana não merece perecer. Por mais que um ou outro nos sirvam como bolsas de sangue, aconselho: declina-te desta vingança desenfreada. O mundo ainda tem muito a te servir.

Vejo, então, a alteração na pintura. O óleo parece dissolver-se. Aqueles olhos... aquelas escleras tomadas por um negrume absoluto, sem luz, fitam-me com desprezo. E o que antes era pigmento seco, agora escorre. Tu choras. Não água, nem sangue, mas lágrimas de piche, espessas e negras, maculando a pureza mórbida da tua pele pintada.

— Crês que me fará parar?... Como és tolo, Valentine! — O meu nome soa como blasfêmia nesses teus lábios imortais.

— Lanço o desafio — indago, hipnotizado pelo rastro viscoso que desce pelas tuas bochechas —, até onde estarás disposta a ir com tal empreitada?

— Farei do purgatório a vossa nova morada!

— E depois?

— Como assim, "e depois"?

Aproximo-me da obra, sentindo o cheiro de terebintina misturado a algo podre e antigo. — Quando finalizar o teu intento, sentirás o peso do silêncio. Este mesmo silêncio que, até pouco, tanto me assombrava, não irá parar de te perturbar. Serás torturada pelo resto dos teus dias numa galeria vazia, num mundo morto. Nem mesmo as tuas súplicas serão suficientes para te salvar, pois para destruí-lo terás que destruir a ti mesma, rasgar a própria tela. Então, eu lhe pergunto: até onde estarás disposta a ir?

A imagem trêmula. O piche das tuas lágrimas parece ferver. — O que vês à tua frente, Valentine? — Tua voz agora é um lamento, um gemido de túmulo aberto. — Um retrato sombrio adornado por uma bela moldura arabesca? Um fantasma habitando uma tela em que o tempo ousa não apagar? Ou a representação maior dos teus medos?

Encaro o abismo negro dos teus olhos, duas poças de trevas infinitas. — Teu alarde para destruir-me e destruir o mundo é apenas uma fuga de teus próprios medos — digo, e cada palavra pesa como lápide sobre o cavalete. — Até os demônios mais baixos, minha cara Dama, possuem medos ocultos. E o teu medo é que, sem nós para te observarmos, tu deixes de existir.

O piche escorre mais rápido, mas o silêncio volta a reinar, pesado e insuportável, na sala fria.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Caellum Noctis, Parte I - O que eu perdi?

Havia retornado. E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Havia retornado.
E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou… De onde vim. Não me lembrava de nada. Quase nada.
Tinha apenas um nome que transbordava na superfície de minha mente, insistente como as notas pesadas de um piano desafinado.

Eleine Gallhan.

Repeti em voz alta tentando procurar um significado, forçando as peças do quebra-cabeça a se encaixarem. Eleine. Quem é você? Onde você está?

A única coisa que sabia era que aquele nome fazia meu peito doer. Então, instintivamente, levei a mão ao coração e apertei as roupas, tentando alcançar aquela dor, mesmo sabendo que não doía na pele, e sim na alma.

Ela mentiu, pensei.

Ela mentiu? Sim, eu sabia disso também. Quanto mais me forçava, mais doía, mais… Quase lembrava, como se a memória estivesse na ponta da língua e eu não pudesse dizer. Mas o pior não era a mentira. Era o silêncio que ela deixara dentro de mim.

Por que...? Por que não consigo me lembrar?

Meu próprio corpo parecia lutar para impedir que alcançasse essas lembranças. Mas por quê?

Tudo na minha cabeça girava, uma mistura de sentimentos sem imagem. Fechei os olhos e respirei fundo. E então, a pergunta. A pergunta que eu temia fazer. Aquela que fez o aperto no peito doer de verdade… E então, cessar.

Como você era?

Eu não me lembro do calor do seu toque. Do som da sua voz. Do peso do seu amor. Mas o rosto… o rosto era um buraco negro. Senti como se olhasse para um espelho depois de um banho quente, apenas um borrão que nunca tinha foco.

Eu preciso lembrar!

Abri os olhos e finalmente percebi onde estava. Aliás, consegui enxergar o que fora dos meus pensamentos, mas não sabia onde era aquele lugar.

O vento soprou uma pétala em minha mão, folha rosa que se desprendeu da grande árvore à minha frente. O toque suave fez tudo parecer, de certa forma, certo. E o mundo começou a devolver os fragmentos que eu mesmo trancava em minha mente.

— A árvore… Nós a plantamos, não é? — Sua voz ecoou, clara e traiçoeira, soprada pelo vento da memória:

“Quando voltarmos, iremos morar aqui. Eu, você, Lyfir… e nossos filhos.”

— Lyfir… — sussurrei. O nome tinha um gosto agridoce, como se eu não devesse pronunciá-lo em voz alta.

E então, mais peças se encaixaram: a sombra de um grande lobo negro ao seu lado. O olhar fixo de uma coruja pousada em seu ombro. Guardiões de uma mulher que eu não conseguia ver.

Quem é você, Eleine Gallhan?

Tentei forçar a memória. Mas, como já esperava: nada. Apenas o vazio com a forma dela.

Apertei as mãos, não com ódio, mas com uma frustração que doía nos ossos. Era a pessoa mais importante da minha vida; eu sentia isso, mas não me lembrava.

Foi então que a sombra daquela enorme árvore pareceu se espessar. E, de repente, um frio cortante, como o interior de uma cripta, fez os pelos da minha nuca arrepiarem. Alguém, ou alguma coisa, estava ali. Me observando.

— Você deseja… se lembrar? — A voz era um sussurro sedutor, como se a própria escuridão me convidasse a conhecê-la.

Ele se materializou não como uma forma, mas como uma falta de forma: uma silhueta humana feita de fumaça e sombra.

— Eles ouviram seu lamento — a voz sussurrada continuou. — Os Colecionadores de Memórias. Os Rostos Espirais não gostam de dívidas em aberto… nem de pactos incompletos.

Pacto. A palavra me atingiu como um estalo no crânio. E eu tive a terrível certeza: minha perda não era um acidente; era um contrato.

— Quem são eles? — Minha voz soou áspera, quebrada. — O que fizeram comigo?

E, se eu pudesse ver o rosto sob aquele manto, diria que ele sorriu com a minha pergunta.

— Eles guardam. Para cada memória tomada, uma razão. E a sua, Caellum Noctis, está guardada no coração do Castelo Drácula.

Ele fez uma pausa, deixando o horror se instalar.

— E se quiser recuperá-la… deverá adentrá-lo.

O Espectumbral estendeu as mãos. Seu corpo se desfez, transformando-se em um portal etéreo. No centro, apenas o nada me convidava a entrar.

Olhei para o portal. Depois, para a grande árvore, suas folhas caindo a cada lufada de vento. A promessa de um lar murchando como as pétalas caídas no chão. Fechei os olhos mais uma vez, criando coragem para encarar meu destino. Agora, eu sabia o que procurava. Agora, tinha um nome para meus algozes: Rostos Espirais.

Não havia escolha. A obsessão já era minha cela; agora, pelo menos, ela teria uma porta.

Estendi a mão e o toque não foi frio; foi uma ausência de calor, um vácuo que puxou algo vital de mim.

— Leve-me até eles — disse, e minha voz já soava diferente. Menos humana. Mais decidida.

O mundo ao redor começou a se desfocar, as cores escorrendo como aquarela na chuva.

E naquele instante, entre um suspiro e o próximo, tudo desapareceu.

Eu não estava mais em lugar nenhum.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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A Dança do Corvo #1

Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Terça-Feira, 28 de Setembro.

Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se identificar pelo vidro embaçado da janela daquele comboio a vapor que atravessava a linha ferroviária em plena madrugada.

Duas noites anteriores, uma carta fora destinada a mim, com a assinatura de meu pai que, por sua vez, escrevera aos prantos. Sua tão amada Hermina falecera depois de contrair uma doença à qual não me especificou nome. Talvez, nem mesmo ele soubesse o que afligira a sua esposa. Ele tinha medo. Soube disso, pois conseguira passar seu temor para o papel em letras trêmulas e garranchadas. Na mesma noite em que recebi a carta pelas mãos de uma das irmãs, dediquei toda minha euforia para ter a permissão de sair do convento e voltar para minha casa. Ela, e outras que também coordenavam o lugar, consentiram com minha saída, pois acharam que seria melhor eu cuidar de meu pai enquanto os tempos difíceis repousavam na minha família. Eu prometi que retornaria em breve e assim parti dois dias depois, sem ao menos imaginar que aquele seria um caminho completamente sem volta.

Junto a mim, nada carregava de muito valor. Ainda me lembrava daquela noite em travessia. Era apenas uma pequena mala contendo um saquinho de biscoito, cadernos e livros didáticos que eu deveria ler no tempo que estivesse fora da Escócia para compensar minha saída e o diário de minha falecida mãe que, não importava onde, sempre levava comigo.

O sono me pegou de surpresa, mas não se estendeu muito. O som rasante do comboio arranhando os trilhos conseguiu me despertar repentinamente em um pulo assustado. A madrugada já se tornava manhã e a parada da ferrovia já estava estampando minha visão. Já havia retornado à minha cidade e nenhuma surpresa me dominou por isso. Estava ali por um motivo de desgraça e nada daquilo me faria feliz.

· · • • • ✤🐦‍⬛✤• • • · ·

As ruas de St. Canard não estavam abarrotadas como eu nunca imaginei. Fazia já alguns anos desde que abandonei meu lar para seguir um caminho junto a Deus e seus ensinamentos, que pouco me lembravam do chão que voltei a pisar.

Mesmo assim, as lojas permaneceram da mesma forma enquanto eu me aprofundava pela cidade. As típicas mercearias, os ambulantes que dançavam nas calçadas animando quem passava... Sempre com um sorriso no rosto, as damas com seus leques e vestidos que vieram de boutiques caras nas quais nunca tive oportunidade de sequer entrar, pois era minha querida mãe que fazia – à base de trapos – minhas roupas humildes e, por fim, as carroças puxadas por cavalos que continuavam as mesmas, tirando o notável melhoramento em suas estruturas compostas de madeiras e metal, que agora eram mais charmosas e reluzentes do que antes. St. Canard não havia mudado muito em alguns anos. Sendo assim, ainda era fato de que eu sabia o caminho de minha casa.

A janela tinha suas persianas abertas quando encontrei minha antiga moradia sob um novo bazar que antes se encontrava em uma panificadora. A fachada estava com sua cor alterada. Antes, um bege quase branco se esticava por toda parede e agora havia um verde que já estava gasto e desbotado, porém a casa ainda parecia ser a mesma, esperava eu.

Decidi abandonar minha casa e seguir caminho ao encontro de Deus após o falecimento de minha mãe. Ela era nova, bonita e inteligente. Mesmo sem recursos financeiros, morávamos bem e sem problemas. Então as brigas entre ela e meu pai se tornaram mais frequentes e a casa foi ficando insuportável. Como antes dizia meu pai, ela o traía com outros homens, entre eles um eu conhecia: Dr. Marquês, filho do panificador que trabalhava em um hospital nas redondezas da cidade. Por sinal, ele era bem agradável. Nunca me dera motivos para sequer cogitar alguma coisa que o desagradasse, mas ao ser apontado por meu pai, sua ideologia formada em minha cabeça também foi pouco desgastada.

As acusações de adultério só foram comprovadas após o acidente no qual tirou a vida de minha mãe. Seu corpo foi encontrado na areia úmida da praia alguns dias depois que ela visitou uma amiga. Marquês se provou amante de minha mãe e alegou ter a ajudado com dinheiro para que ela comprasse tecidos, linhas e materiais para a customização de minhas roupas. Era fato de que, por um espaço de tempo naquela época, minha mãe estava aparecendo com mais tecidos do que o normal. Papai se casou novamente dois anos depois, por desgosto, e com Hermina teve outra filha: Emily, o bebezinho mais doce que eu vi na vida. E, quando isso aconteceu, eu parti para a Escócia, não por desgostar da minha nova irmã ou até mesmo da minha madrasta, mas por saber que somente encontraria o conforto que minha mãe dava nos braços do Senhor.

Antes de eu tocar na campainha ao lado da porta, meu pai já abriu e me encontrou segurando minha pequena mala. Tomou-me em seus braços e chorou por me ver, ao lembrar-se do motivo que me fizera retornar.

— Onde está Emily? – perguntei assim que pisei novamente em casa. O cheiro não era o mesmo. Ao invés de cheirar a assoalho velho e corroído por cupins, eu sentia algo desagradável o bastante que me faria voltar atrás. Não era nada condizente com minha sabedoria. – Quero vê-la. Tadinha... Deve estar acabada.

Meu pai seguiu à minha frente, percorrendo o corredorzinho no qual se dividiam os quartos, e chegou naquele onde eu já dormira um dia. Emily estava deitada com camadas de cobertas sobre seu corpo. Seu olhar cabisbaixo indicava doença, mal-estar. Seu cabelo loiro, que um dia eu vira por algumas pinturas ser lindo, brilhoso e radiante, estava embaraçado, seco e sem vida. Suas bochechas rosadas tinham um tom rude e cruel estampando-as, tornando a magreza de sua face mais evidente. O que estava acontecendo com ela? Os lábios carnudos também desapareceram incrivelmente, dando lugar a uma linha fina e roxa para representá-los. Seu colo tinha todas as cavidades do osso da clavícula marcadas. Ela estava magra igual a um esqueleto. E aquilo me assustava.

Respirei e, antes de me aproximar dela, fiz o sinal da cruz sobre o peito.

— Emily contraiu os mesmos sintomas de Hermina na mesma noite em que ela morreu, Lucy – dissera meu pai com sua voz acabada. – Eu não sei o que fazer mais. Não há remédio em minhas mãos que tarde essa maldita doença e, se existe algo, está muito além daquilo que posso arcar. Ela vai morrer... Vou perder minha filha, e você, sua irmã.

Acariciei a face de Emily, sorrindo para ela, mas acabei me levantando quando meu pai proferiu aquelas palavras banhadas de choro e medo. Agarrei suas mãos com força e as pousei sobre meu colo. — Não diga isso, papai. Vamos conseguir. Emy não irá morrer.

— O que podemos fazer para impedir tal acontecimento hostil? – perguntou ele, eufórico demais para raciocinar que eu estava tão próxima a ele e não necessitava elevar a voz ao falar comigo.

— Vamos primeiro contatar um doutor. Depois de curada, resolveremos o valor que devemos arcar. Tudo vai ficar bem, pai. O Senhor há de nos ajudar. Ele está conosco. – Meu pai pareceu não dar muita atenção para a parte em que falei da ajuda de Deus. Portanto, retornou com sua euforia e se mostrou um tanto duvidoso. – Marquês tinha um voluntário, Dr. Hoechlin. Emy o conheceu, talvez ele nos preste ajuda.

— Eu deveria negar por ser voluntário daquele senhor, mas caso aceite nos ajudar, será bem-vindo à minha casa – respondeu.

Emily se mexeu sob as cobertas. Tossiu, limpando a garganta, e chamou minha atenção com sua voz fraca e arranhada.

— Hoechlin partiu para Londres na noite retrasada. Voltará daqui a dois dias – comentou ela, esforçando-se para conseguir falar com clareza.

Olhei para meu pai com preocupação. Não sabíamos com o que estávamos lidando e, acima de tudo, aquilo poderia não existir cura alguma. Ele também estava preocupado. Com toda a certeza, não queria perder sua menina de dezesseis anos logo depois de sua mulher falecer.

— Quanto tempo Hermina suportou após contrair a doença, pai? – perguntei.

— Três semanas. – Uma semana se completaria para Emy quando o doutor chegasse. Ela teria que aguentar mais duas até os exames mostrarem uma saída.

Naquela noite, me ajoelhei perante a cama e rezei com toda minha fé. Tive medo de que oração alguma fosse forte o suficiente para afastar a sombra da Morte que pairava sobre a nossa casa.

· · • • • ✤🐦‍⬛✤• • • · ·

Quarta-Feira, 29 de Setembro.

Eu havia retornado ao quarto que me foi cedido, na extremidade do corredor, e o fiz não por cansaço, mas por um medo pungente de ser um estorvo àquela figura paterna já devastada pela dor. Minha prece fora fervorosa, mas o sono que se seguiu se mostrou leve e febril, interrompido a cada rangido do assoalho.

No fim, contive-me no som ritmado e pelas badaladas do relógio da sala que, ao longe, badalava as três da madrugada quando o silêncio da casa foi rasgado por um som aterrador. Não era o pigarro fraco que Emily vinha exibindo, mas sim um ruído quase gutural, violento demais e profundo, seguido de um gorgolejo que parecia vir do fundo de sua própria garganta.

Saltei da cama, com o desespero e o coração chocando-se contra as costelas, vesti apressadamente meu robe e corri descalça pelo corredor sem medo de talvez estivesse fazendo barulho em demasia para acordar meu pai. A porta do quarto de Emily estava entreaberta e a luz fraca da lamparina que eu havia deixado acesa na cômoda projetava sombras alongadas e distorcidas que dançavam quase como uma reverência ao meu medo.

Entrei. E ali, o terror se materializou em sua pior forma.

Nunca fui muito próxima do trabalho da morte. Muito pelo contrário… sempre permaneci distante dela para não parecer íntima demais a correr o risco de vê-la de novo. No entanto, as tosses vindas de Emily deixaram de ser comuns para mim quando a consequência seguinte fora vê-la se debater insanamente sobre a cama. O lençol branco que a envolvia já não existia mais, marcando em seu peito e pintando sobre o amontoado de fios uma paisagem infernal de carmesim. O sangue evidentemente estava espesso e quente, escorrendo de sua boca como riachos abundantes, manchando o queixo, o pescoço e a camisola que parecia ter sido mergulhada na mais rubra tinta. Os olhos de minha pobre irmã, antes esvaziados pela doença, arregalaram-se em uma súplica muda de socorro. Talvez eu nunca mais esquecesse o pânico estampado em sua face assim que me viu entrar em seu quarto.

Ela tentava puxar o ar, mas o esforço apenas fazia o sangue jorrar com mais violência, engasgando-a, silenciando-a como se algo condenasse a bela garota a um destino horrível e sangrento. — Emily! Oh, Deus, Emily! — Minha voz não passava de um sussurro rouco, quase abafado pelo som úmido do seu sufocar. E mesmo atingindo um tom acima do normal, pelo medo e desespero, ainda parecia baixa demais comparado aos engasgos e sufocamentos que originavam dela.

Corri para o seu leito, estendendo minhas mãos como uma forma fútil de tentar salvá-la, mas o desespero tomou conta da minha mente com uma força paralisante.

Eu não era médica; não era nem mesmo perto de ter os conhecimentos de uma mera enfermeira. Eu era apenas uma garota de vinte e quatro anos que, diante daquela cena de brutalidade biológica, toda minha fé e os ensinamentos do convento se dissolveram em um terror gélido e parvo. Tentei erguê-la, mas o toque na sua pele fria e pegajosa de suor e sangue fez-me recuar um passo atrás.

Eu falhei. Falhei miseravelmente com o desespero que também tomava conta de mim, assistindo à última e convulsiva exalação de vida de minha irmã, enquanto o sangue se espalhava em um mar espumoso sobre o travesseiro. No instante exato em que o último tremor abandonou o corpo de Emily, quando o gorgolejo cessou e o quarto mergulhou em um silêncio pesado e oco além do meu choro contido no alto da garganta, o ar ao redor do leito pareceu se condensar em um negrume mais denso que a própria noite. Não era a sombra projetada da lamparina, mas sim uma mancha de escuridão viva, alta e magra, que se desprendeu do colchão manchado como quem emergia de dentro da posição de mortalha dela na forma de um espectro obscuro.

Sombrio, sem rosto discernível, feito de fumaça e trevas.

O pavor me petrificou no lugar, e eu observei a personificação do demônio da morte tomar aquele ambiente como se fosse dele desde o início. Talvez de fato fosse, desde a partida da esposa de meu pai, pouco antes.

Não havia pés, nem o som em seus passos. A figura deslizava sobre o assoalho sem fazer qualquer ruído. Em vez de caminhar pelo chão, ela ascendia pela parede ao lado, como se a gravidade fosse uma simples sugestão e possibilidade de uma escolha inútil. Lenta e propositalmente, a aparição espectral moveu-se em direção a um canto escuro do quarto onde repousava, coberto por um tecido de linho branco, o grande espelho de vestir de Emily.

Talvez meu pai tivesse bloqueado o reflexo, tendo em vista o caos letal que acompanhava sua morada. Sua tentativa de ocultar o vidro fazia direta referência ao que diziam os supersticiosos e abandonados pela fé. Espelhos capturavam a alma dos doentes.

O espectro parou diante do espelho coberto, e ali permaneceu intacto, com sua silhueta escura parecendo fundir-se com a brancura do linho. Meus olhos, grudados naquele ponto de escuridão e tecido, não conseguiam mais se desviar. Eu estava hipnotizada. Horrorizada e sem qualquer força para fazer algo a respeito.

Lucy... Salve-me…! Está na hora de vir ao meu encontro, doce irmã. Liberte-me deste caos…  Arranque o véu, irmã. Arranque o véu e perambule pela escuridão. Está tão frio aqui…

Era a voz de Emily, pura, sem o ranger da doença, mas etérea e fria, ressoando não do corpo inerte no leito, mas através do espelho coberto. Suas súplicas eletrizaram meu corpo, arrepiando meus pelos. Foi o suficiente para que eu sentisse verdade em sua solicitação. Movida por uma força que não era minha, um magnetismo frio que irradiava do vidro, dei passos hesitantes até o espelho. Minhas mãos tremeram quando agarrei a beirada do linho úmido de poeira, obedecendo ao chamado.

Rasguei o tecido com um puxão violento, e o espelho foi revelado em um átimo.

Não vi meu próprio reflexo pálido e aterrorizado. O vidro do espelho havia se transformado em uma espécie de janela ou pintura tão realista quanto. Através dele, a cena era de uma grandiosidade gótica e infernal, de um castelo sombrio, escuro, no alto de uma colina rochosa e pontiaguda. Dei um passo para trás, hesitante, e arfei alto com certo receio e pavor. O céu acima não era o teto de nuvens baixas de St. Canard; em vez disso, manifestava-se na forma de um pesadelo de nuvens revoltas em tons de um vermelho doentio que mais se poderia contemplar o mesmo tom do sangue jorrado de Emily do que se o próprio inferno viesse à terra.

O espelho, por um instante, pareceu vibrar. E antes que eu pudesse recuar, antes que eu pudesse gritar por socorro, uma rachadura surgiu na superfície do vidro. E, através dela, um braço explodiu para fora, estendendo-se até mim em uma velocidade absurda. Uma mão negra, ossuda e com garras longas e afiadas saiu do espelho com a precisão de uma víbora. Agarrou-me pela garganta.

O aperto seco e gelado, como gelo de caveira, demonstrou uma força inacreditável. O ar me fugiu por completo naquele último segundo, e acreditei fielmente que morreria também em seguida. Fui puxada para dentro do espelho sem qualquer delicadeza ou cuidado. Meus olhos viram, antes de fazerem a travessia, o reflexo distorcido da minha face contemplada de horror no vidro rachado. Soube, depois daquilo, que jamais poderia ter volta.

No fim, o vidro estilhaçou-se em uma explosão de neblina escura, engolindo-me para dentro de um mundo além da salvação.

Revisado por Sahra Melihssa
A Dança do Corvo
Sob a bruma de uma Inglaterra vitoriana marcada por mistérios e mortes inexplicáveis, Lucy retorna ao lar pela primeira vez em anos ao saber que sua irmã Emily está morrendo por um doença estranha. Mas na noite em que tudo deveria terminar em silêncio, Lucy presencia a alma de Emily sendo sugada para dentro de um espelho velho e adornado que reflete um mundo sinistro e desconhecido repleto de sombras derivadas de um castelo antigo.

Movida por amor e desespero, Lucy atravessa o espelho e se vê em uma dimensão onde a noite se mostra eterna e um castelo gótico que vigia o mundo com suas paisagens aterradoras. Lá, entre sombras e segredos ancestrais, ela deve confrontar forças que desafiam a vida e a morte antes que a alma de Emily seja perdida para sempre. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Gabriel Cordeiro

Gabriel Cordeiro é autor de terror gótico, romance sobrenatural e dark romance, conhecido por tramas intensas, sensuais e profundamente emocionais. Suas histórias exploram o sobrenatural com personagens marcantes e monstros que podem amar demais. Sua escrita mistura poesia sombria, suspense psicológico e erotismo visceral... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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29. Ritos Fúnebres da Ordem

Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os procedimentos que regem a passagem e a negação da morte.

Registro da Ordem - reprodução integral.

Ritos Fúnebres da Ordem

A Ordem segue rituais rigorosos para garantir que os mortos atravessem corretamente o ciclo, sem serem corrompidos ou presos entre os véus. Esses ritos variam de acordo com a situação da alma e do corpo.

1. O Rito da Travessia (Para aqueles que morreram naturalmente e sem pendências espirituais)
Este é o ritual mais simples, realizado para garantir que a alma do falecido não fique presa ao mundo dos vivos. O corpo é limpo com ervas amargas para afastar influências indesejadas. O nome do morto é escrito com tinta negra em sua testa para que ele se lembre de quem é ao cruzar o véu. É recitada a “Oração da Travessia”, guiando a alma em sua jornada:

"Você veio da sombra e retornará a ela. Nenhuma dor o seguirá. Nenhum medo o prenderá. Apenas vá."

O corpo é queimado ou enterrado em solo sagrado, dependendo do costume local. Se a alma resistir ou houver sinais de inquietação, passa-se ao próximo rito.

2. O Rito da Libertação (Para aqueles que morreram em agonia ou deixaram assuntos inacabados)
Quando uma alma se recusa a partir ou algo a prende, esse rito força sua libertação. O corpo é posicionado com os braços cruzados sobre o peito e os olhos cobertos com um pedaço de véu negro, para impedir que veja os vivos. Uma moeda marcada com o símbolo da Ordem é colocada na boca do morto, não para pagar uma travessia, mas para silenciar os lamentos. A encarregada pelo rito deve tocar a testa do morto e sussurrar o nome dele três vezes. Em seguida, a “Oração da Ruptura” é recitada:

"Nenhum amor o chama. Nenhuma dor o prende. Você pertence ao esquecimento. Vá."

Se a alma ainda resiste, um corte é feito na palma da mão do falecido, liberando qualquer energia que ainda o segure no mundo dos vivos. Se isso falhar, significa que a alma se tornou algo pior.

3. O Rito do Silenciamento (Para aqueles que morreram e retornaram de maneira impura)
Este rito é reservado para aqueles que foram trazidos de volta de forma errada (mortos-vivos, espectros vingativos ou qualquer um que se recusou a aceitar sua morte). O nome do morto é riscado dos registros da Ordem, simbolizando que ele já não pertence ao ciclo natural. O corpo é perfurado com agulhas de ferro negro, um material sagrado para impedir sua ressurreição. O sangue de uma irmã de maior nível hierárquico é usado para traçar o “Selo da Dissolução” no peito do falecido. A “Oração do Esquecimento” é entoada:

"Você já não existe. O mundo não se lembrará. Sua história termina aqui."

Se a criatura ainda se mover, deve ser destruída sem hesitação. Este é o rito que mais pesa sobre as irmãs, pois significa negar a existência de alguém.

4. O Rito da Execução (Para aqueles que desonraram o ciclo em vida e não merecem descanso)

Nem todos os mortos merecem compaixão. Alguns devem ser apagados completamente, para que nunca se ergam novamente. O corpo é queimado antes da morte (se possível), para impedir que a alma permaneça presa a ele. O coração é arrancado e reduzido a cinzas, garantindo que nenhuma maldição o traga de volta. Nenhuma prece é dita, nenhum nome é pronunciado. O condenado é esquecido imediatamente. É o rito mais cruel da Ordem, mas necessário para aqueles que desafiaram a própria morte e tentaram se tornar imortais.

Esses ritos mostram como a Ordem vê a morte como algo inevitável, mas que deve ser tratado com respeito ou severidade, dependendo das circunstâncias.

Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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