O Verso e o Reverso do Ser

Em cada ser, a vasta catedral se ergue, | onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge. | Um palco dual que a existência nos impôs, | onde o eu se forma, entre o antes o e depois…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Em cada ser, a vasta catedral se ergue,
onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge.
Um palco dual que a existência nos impôs,
onde o eu se forma, entre o antes o e depois. 

A Luz se revela, é o rosto da bondade,
o verbo claro, a perene claridade.
É a mão que ampara sem buscar recompensa,
é a fé inabalável, a nossa nobreza imensa. 

É a mente que desperta, que afasta a ilusão,
a força moral que domina o nosso coração.
E sonhamos em ser esse ouro tão puro,
um brilho constante, um futuro seguro. 

Mas vida ensina,
em seu lento labor,
que a luz sem sombra
perde todo seu valor. 

Pois existem as Trevas, o lado que negamos,
o arquétipo fundo que em nós carregamos.
Não é apenas o mal, aquele erro que nos seduz,
mas é aquele potencial que rejeita a luz. 

É a nossa Sombra, o instinto vital,
o lado selvagem, secreto e ancestral.
É a mágoa guardada, o ciúme que arde,
a força que brota fria e sem alarde. 

Se a negarmos, ela cresce faminta e voraz,
e nos assombra em sonhos e em segredos.
A força não vista vira vício ou rancor,
e a alma projeta o seu próprio temor. 

Quem só vive de Luz, na virtude irreal,
cria uma máscara, um rosto artificial.
Torna-se duro, justo em demasia,
um sol sem terra, fadado à fria agonia. 

A pureza extrema que o humano não veste,
é a tirania sutil que nossa alma contesta.
A negação das Trevas gera a hipocrisia,
o medo da queda que escurece nosso dia. 

E quem se entrega às Sombras, sem freio e medida,
é engolido pelo abismo, perde a direção de sua vida.
Vira cinismo o pranto, vira caos o desejo,
sem a Luz que guia o ser não tem pelejo.

A alma se afoga no oceano escuro e vasto,
um barco a deriva, sem porto, sem rastro.
Devorado é aquele que escolhe um só lado,
perdendo o sentido, pagando o preço cobrado.

A chave não está na escolha vã,
mas na aceitação de quem você é,
ontem, hoje e no amanhã. 

O equilíbrio é a dança sutil e sagrada,
onde a Luz acolhe as Trevas, não nega ou degrada.
É quando a Sombra, reconhecida, não mais domina,
e vira a forma que nos move, intenção genuína. 

A Luz precisa das Trevas
para ter profundeza,
para ser humilde
e compreender a fraqueza. 

Como a lua que acende seu brilho no escuro,
somos a soma inteira, o presente e o futuro.
É na dualidade, no meio-termo instável,
que a vida se torna real e suportável. 

Olhe para dentro, sem medo do que espreita,
e faça da Sombra a mestra que te alimenta.
Pois só na união destas partes, formando esse par,
é que a nossa totalidade poderá se manifestar.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Não há muralhas contra a névoa

“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Prólogo

“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite, enquanto reunia coragem para pular.

Mal conseguia ver o chão. No alto da torre antiga, o nevoeiro parecia mais denso do que nunca. A loucura chegara ao auge, a ponto de ele começar a ouvir vozes etéreas sussurrando ao vento, embora ainda não distinguisse palavras.

“Como isso pôde acontecer? Essas lutas, esse estresse, essa incerteza… Será que finalmente quebraram minha mente? Fragmentaram minha visão de mundo a ponto de eu já não saber o que é real? Ou há alguém por trás disso — alguma entidade brincando comigo? Tanto faz. Toda essa resistência, toda essa vigília constante… não há sanidade que sobreviva intacta”, continuava a lamentar para o vento enquanto tentava reunir a coragem necessária para pôr fim ao pesadelo.

A luta fora brutal. Furiosamente intensa. Viktor sentia dores em músculos que sequer sabia nomear. Três dias quase sem comer, sem dormir, sem descanso. Apenas a defesa desesperada de suas muralhas.

Mas o problema não era o inimigo. Era a névoa, que nada tinha de normal. Ela era cada vez mais frequente e mais corrosiva para sua já frágil sanidade. Em nada lembrava o comum fenômeno meteorológico da região, com sua aura fantasmagórica que parecia tirar tudo do lugar. Até agora havia conseguido repelir os homens, mas não há muralhas contra a névoa, que em tudo penetra.

A batalha era a única constante. Impedir a invasão, lacrar as brechas. Mas as armas não paravam de se transformar: numa hora, ele empunhava uma espada; na seguinte, quando a neblina que turvava repentinamente sua visão se dissipava, estava com uma câmera nas mãos. Um celular. Um bloco de notas.

De um instante para outro, a parede de escudos se convertia numa transmissão ao vivo desesperada. Torres de cerco tornavam-se guindastes, aríetes transmutavam-se em retroescavadeiras. Janízaros se metamorfoseavam em oficiais de justiça. 

Tudo isso sem que ninguém mais notasse qualquer estranheza, mesmo sendo as mesmas pessoas. Agiam como atores interpretando diferentes papéis. Tanto os que atacavam quanto os que defendiam mantinham-se firmes em suas posições, seguros de sua própria realidade. Apenas ele transitava entre tudo; ou talvez não transitasse por nada. Nada mais era garantido, nem sequer a natureza da realidade.

Os momentos de imersão completa, quando se sentia plenamente presente em um único papel, numa única era, pareciam cada vez mais raros. Nada de dissociação cognitiva, nem questionamento de sua percepção. Era por isso que temia quando a névoa voltava a se formar. Bastava um pequeno contato com a cerração para a fragmentação recomeçar cada vez pior. Mundos e séculos fundiam-se diante de seus olhos, e ele já não sabia quem era, nem onde estava.

Quando a voz sussurrante se tornou ainda mais audível, a ponto de ser possível identificar um etéreo timbre masculino e outro feminino dialogando entre o vento, o limite do suportável foi rompido. Isso precisava terminar. Viktor pulou da mais alta torre.

Antes que atingisse o chão fora da visibilidade, finalmente compreendeu parte do que estava sendo dito pela voz masculina vinda de uma fonte invisível: “Prosseguimos no tempo moderno ou medieval? O que você acha?” 

Seu último pensamento, “maldita conversa de fantasmas sem sentido”, fez com que se sentisse profundamente decepcionado. Assim como todos que já se imaginaram em seus momentos derradeiros, esperava ter algo mais nobre ou filosófico energizando em sua massa encefálica prestes a ser esparramada no chão oculto pela densa bruma.

Três dias antes…

“Se a motivação do prefeito é a preservação cultural — e não apenas o lucro — por que nossas propostas de tombamento estão paradas há anos, enquanto o licenciamento dessa empresa avança em poucos meses?”, é o que questiona Viktor Vatra, professor de história e militante pela preservação do patrimônio cultural. Ele seria, se a lenda popular for verdadeira, descendente de condes romenos que governavam um castelo medieval que inspirou este aqui, que podem ver ao fundo, localizado na serra da Mantiqueira, próximo à turística Campos do Jordão, construído em 1872 pelo trisavô do historiador.

A ocupação de professores e estudantes para impedir o início das obras de um parque temático que pretende revitalizar as ruínas do castelo e usá-las como o coração do centro de diversões já completou um mês. O professor e seus alunos não saem da construção há dias, cercados por equipamentos da construtora que já recebeu autorização da prefeitura para começar as obras. É por isso que viemos até esse castelo sitiado, propondo uma trégua para o debate. Eu sou Elaine Bastos, em reportagem oficial para o Domingo Fantástico, e estou aqui para dar voz aos dois lados enquanto o embate jurídico prossegue.

Em nota oficial, a Serra Viva Concessões S.A. declarou: “O projeto do parque temático Castelo Assombrado foi concebido com rigor técnico, respeito às normas ambientais e compromisso com o desenvolvimento sustentável da região. Todas as etapas seguem a legalidade.”

— Professor Viktor, começo com o senhor. Objetivamente: qual é o risco real que o projeto da Serra Viva representa para o castelo?

— O risco é a descaracterização progressiva do castelo e a degradação ambiental do entorno. Não é uma demolição explícita. É algo mais sutil, para torná-lo “rentável”. Patrimônio vira cenário, a história se perde e a floresta sofrerá ainda mais, quando as trilhas e estradas de terra se tornarem rodovias, os estacionamentos forem cimentados e toneladas de lixo diário começarem a ser produzidas. Isso sem falar no ruído, iluminação excessiva e muito mais.

— A empresa afirma que vai restaurar, investir e preservar, seguindo à risca as normas vigentes.

— Primeiramente, as regras já nasceram frouxas, e nem assim costumam ser seguidas. Toda empresa afirma isso no início. O problema é o que acontece depois da primeira flexibilização. Já vimos isso antes com essa própria construtora.

— Senhor Tariq Carvalho, representante da Serra Viva, o professor fala em “flexibilização”. Como o senhor responde?

— Primeiro, agradeço o espaço. Nossa empresa atua dentro da legalidade. Flexibilização é um termo interpretativo. O que existe são ajustes técnicos normais em qualquer projeto dessa magnitude. Não há nenhuma ilegalidade.

— O senhor é diretor de expansão da Serra Viva, correto?

— Sim.

— O professor mencionou histórico de denúncias em outras cidades.

— Denúncias não são condenações. Nenhuma construtora ou incorporadora de grande porte passa décadas no mercado sem enfrentar questionamentos administrativos. Em todos os casos, cumprimos as determinações legais. Não há condenações contra a empresa nem multas não pagas.

— Professor?

— Multas pequenas e termos de ajuste não significam ausência de problema. Muitas vezes significam que a infração foi convertida em custo operacional. Isso me lembra uma bela citação, infelizmente não lembro onde a vi, mas era algo como “se a pena por um crime é apenas uma multa, então a lei só existe para os pobres”. Ainda mais quando vale a pena continuar operando apesar de autuações, se o razonete contábil assim indicar, como é o caso do parque aquático termal que vocês construíram.

— Isso é uma acusação grave.

— É uma constatação estrutural. Se o retorno econômico da descaracterização e da poluição é maior que o valor da multa, a multa vira parte do orçamento.

— Isso é retórica — intervém Carvalho, mantendo o tom controlado. — O projeto prevê recuperação paisagística, criação de empregos, aumento da arrecadação municipal e estímulo ao turismo cultural. Estamos falando de desenvolvimento regional. Ou você prefere que seu município continue sendo apenas ponto de parada para Campos do Jordão? Você prefere que toda a renda do turismo continue subindo o morro, negando a oportunidade de desenvolver sua cidade natal também?

— Desenvolvimento para quem? Empregos sazonais? Bilheteria privada sobre um patrimônio de relevância histórica? O castelo e a floresta em volta não são produtos.

— Também não é um relicário intocável — retrucou Tariq Carvalho. — Patrimônio precisa ser integrado à dinâmica econômica para sobreviver. Sem investimento, degrada-se.

— Investimento não pode significar transformação em parque temático. Existe verba pública destinada aos patrimônios tombados exatamente por esse motivo, fora que ainda há até mão de obra voluntária para a manutenção. Eu mesmo e meus colegas docentes fazemos isso há anos, sempre com o apoio de alunos e da comunidade. 

— Professor, o senhor já analisou o projeto executivo completo? Nossos espectadores precisam saber se essa é uma oposição informada ou dogmática — questionou a entrevistadora.

— Analisei o que foi tornado público. E já aponta ampliação de estacionamento, centro de eventos, reconfiguração do acesso principal. Isso altera a ambiência histórica.

— Ambiência não paga manutenção; nossa empresa, sim.

— Memória também não deveria precisar se provar lucrativa para existir.

— Realizamos todos os estudos de impacto ambiental exigidos justamente para unir todos os interesses.

— Estudos aprovados com rapidez incomum.

— Rapidez não é irregularidade. É eficiência administrativa.

— E por que o processo de tombamento do castelo tramita há anos sem definição?

— Isso compete ao poder público. Não à empresa. O senhor precisa questionar isso nos órgãos responsáveis, não conosco.

— Mas a empresa se beneficia da ausência de tombamento definitivo.

— Nós nos beneficiamos da segurança jurídica. Se o bem não está formalmente tombado, ele pode receber investimento. Isso é o que a lei estabelece para o caso de imóveis assim, expropriados porque não há um IPTU pago há décadas.

— Professor, o senhor fala também de uma conexão pessoal com o castelo. — retomou Elaine, tentando reduzir a belicosidade da entrevista.

— Minha família tem origem na Transilvânia. Minha mãe sempre contou que descendíamos de uma linhagem ligada ao castelo original que inspirou esta construção. Recentemente fui à Romênia, consultei arquivos, levantei registros, inclusive em igrejas medievais. Estou organizando essa genealogia com apoio acadêmico local.

— O senhor confirma essa ancestralidade?

— Estou confirmando com rigor historiográfico. Já há documentos consistentes até o século XVIII.

— E isso influencia sua posição aqui?

— Influencia minha responsabilidade. Mas mesmo que eu não tivesse qualquer ligação familiar, minha posição seria a mesma. Patrimônio não é mercadoria.

— Senhor Carvalho, a empresa reconhece o valor histórico simbólico do local?

— Reconhece. Justamente por isso quer integrá-lo a um circuito cultural estruturado. A alternativa é o abandono gradual, já que o suposto conde aqui não tem a menor condição de se responsabilizar por nada. Eu esperava mais de alguém de sangue azul…

— Estamos diante de duas visões claras — interveio a jornalista, tentando novamente conter o escalonamento da contenda. — Professor, última pergunta: se o projeto avançar como previsto, o que o senhor teme que aconteça em dez anos?

— Que o castelo continue de pé, mas irreconhecível no sentido. Que vire pano de fundo para selfies, eventos corporativos e festivais temáticos. Que a história real que nós, professores, ensinamos nas escolas e mostramos ao vivo para os alunos, seja substituída por uma narrativa mais vendável, enquanto animais nativos, tão presentes hoje, virem apenas réplica na decoração, mortos ou espantados pela invasão da especulação imobiliária

— E qual a visão da Serra Viva Concessões?

— Em dez anos, vejo um polo turístico consolidado, gerando renda, empregos e estrutura arquitetônica preservada e nenhum impacto ambiental digno de nota. Vejo essa cidade sendo colocada no mapa, não mais apenas um ponto de passagem.

— Professor, uma frase final.

— Desenvolvimento sem memória é invasão e depredação.

— Senhor Carvalho, e qual a sua?

— Memória sem desenvolvimento não passa de ruína.

— Professor, a lenda urbana da cidade diz que o senhor pode ser um descendente do conde Vlad, é verdade? — recomeçou a jornalista, tentando finalizar de modo leve. 

— Ah, esse é um estereótipo comum, e não tinha como minha família escapar disso quando a réplica de um castelo medieval real é erguida aqui no Brasil por um imigrante romeno. A associação com vampiros era inevitável, mas eu acho divertido. Nunca preciso me preocupar com a fantasia de Halloween.

A repórter, rindo, estava prestes a tentar quebrar o gelo com o homem de negócios, mas precisou interromper a gravação, pois uma espessa névoa rapidamente eliminou toda a visibilidade na área de filmagem.

Também facilmente penetrou nas muralhas e atingiu o defensor do castelo, cansado após seu duelo verbal. Era uma névoa diferente, espectral. E o começo de seu pesadelo.

A breve dissipação

Viktor levou a mão à cabeça, subitamente capturado por uma vertigem que o desequilibrou. A sensação era de desconexão, mudando a temperatura, que caiu vertiginosamente, e transformando a fragrância do ambiente e a textura das pedras. Uma sensação familiar ao toque, que o remeteu imediatamente à recentemente visitada Transilvânia. 

Enquanto se perguntava o que havia acontecido com os seus sentidos, tropeçou numa grade metálica, parte de um antigo portão, que não estava ali antes. Quando abriu os olhos novamente, o peso o atingiu antes da visão.

Peso nos ombros. No peito. Nos braços. Metal. Ele estava de pé, envolto numa armadura. Uma espada na mão direita. Um escudo cujo formato lembrava um losango no braço esquerdo.

Mas a perplexidade não recebeu autorização para se instaurar. As elucubrações do professor transfigurado em cavaleiro foram interrompidas por uma lança que emergiu da névoa, avançando em direção ao seu torso.

Seu corpo reagiu antes que sua mente entendesse, por pura memória muscular que nem sabia ter adquirido. O escudo girou, desviando a ponta de ferro. A vibração do impacto percorreu-lhe o braço como um eco antigo. Sua espada subiu em um arco perfeito, obrigando o atacante a recuar com sua haste partida. 

Ele retornou segundos depois, após desembainhar sua cimitarra e girá-la nas mãos antes de tentar um amplo corte lateral. Viktor recuou no momento preciso, evitando a finta do adversário, enquanto posicionava sua espada sob a borda do escudo, para garantir uma estocada precisa no ponto fraco da cota de malha do agressor.

Seu corpo sabia, mesmo sem que ele soubesse como. O tempo de reação, a distância, o peso da lâmina… era como se conhecesse tudo isso intimamente por sua vida inteira, como se tivesse passado incontáveis dias treinando. 

A espada de Viktor encontrou a brecha. A breve resistência dos anéis metálicos se rompeu, a ponta afiada da espada reta deslizou quase suavemente carne adentro antes de encontrar a placa da armadura que agora defendia inutilmente a retaguarda do guerreiro, cuja traqueia havia sido habilmente perfurada.

Viktor sentia-se como um istmo atacado pelas ondas conflitantes de dois mares. De um lado, euforia crua, animal, pela vitória no duelo, os fios de memória ainda fixados no século XXI foram capazes até mesmo de lembrar de um brado klingon  idioma que ele, como nerd de primeira classe, quase dominava. 

A outra onda era de horror absoluto. Ele havia tirado uma vida. Sua mão ainda vibrava com o impacto. Sua memória muscular celebrava o movimento perfeito. Sua mente registrava o peso irreversível do gesto.

Mais inimigos surgiam da névoa, pelo menos uma dúzia. Sentiu um alívio ao pensar no inevitável fim, apesar da perícia recém-descoberta. Seria bom ser poupado de processar e digerir aquela violência e, se fosse um sonho, aquilo certamente o faria acordar. Mas antes que viessem os golpes dos inimigos, sentiu um contato em suas costas. Eram homens portando escudos no mesmo formato, vestindo as mesmas cores. Rapidamente, uma parede de metal e madeira se formou em volta. 

As lanças inimigas chocaram-se contra a cunha de cavaleiros, mas flechas vieram das ameias acima, indicando que a guarnição da muralha havia contido o assalto com escadas que Viktor agora lembrava ter acontecido momentos antes. Enfim, podiam contra-atacar.

— Meu senhor! — gritou alguém à sua esquerda. — O portão foi reforçado! Já podemos recuar!

Mais um susto para o comandante Viktor. Era impossível! Ao seu lado, estava um dos professores da escola. Ele sabia que aquele homem corrigia provas e reclamava do salário em reuniões pedagógicas. E, paradoxalmente, também sabia que ele comandava homens sob sua bandeira há mais de duas décadas. As duas certezas coexistiam. O mundo oscilou novamente.

— Recuar! — ordenou Viktor, sem saber de onde vinha a autoridade na própria voz.

A linha de escudos avançou para trás de forma coordenada, protegendo a retirada. O som da batalha diminuía à medida que se aproximavam das muralhas.

Quando atravessaram o portão e este se fechou com um estrondo pesado, Viktor sentiu as pernas quase cederem. Ele estava dentro do castelo. Mas não o castelo recriado nos trópicos, e sim o ancestral, que fora um entrave ao avanço do império otomano por mais tempo do que os sultões gostavam de admitir. Sua primeira intuição após a névoa estava certa, afinal de contas. Tochas nas paredes. Pedra úmida. Homens feridos sendo atendidos às pressas.

Ele mal teve tempo de respirar, pois um vigia o convocava à muralha.

— Emissário! Bandeira branca!

Da névoa, surgiu um cavalo. Montado nele, um homem com trajes ricamente adornados, portando uma alva bandeira no estandarte. O rosto e a voz eram inconfundíveis, nada mudara além de sua indumentária, título e sobrenome. 

— Senhor do castelo — sua voz ecoou firme — trago termos generosos. Sou Tariq Selim Karahan, Paxá ao serviço de Sua Majestade, o Sultão Mehmed II, e comandante desta hoste imperial. Rendam-se, e suas terras serão preservadas. Seus costumes, respeitados. Sua fé, tolerada. Sob o império, prosperarão. Permanecerão senhores, ainda que sob nossa soberania. Seus impostos serão revertidos em bonança. Resistir é apenas prolongar o sofrimento.

Viktor sentiu o chão fugir sob os pés. Ele bem conhecia os ecos daquele discurso, mesmo sem saber definir se vinham do passado, do futuro ou dos sonhos. Desenvolvimento, prosperidade, inutilidade da resistência, abandono de suas raízes… O emissário aguardava resposta. E não poderia ser outra.

— Este castelo resistiu antes — disse ele, a voz ecoando sobre a pedra. — E resistirá novamente, hoje e no futuro! 

Em sua versão emissário, o invasor podia externar seu ódio com muito mais liberdade do que sua versão paralela, usando terno e dando entrevista para o telejornal.

Mas sua carranca de ódio foi coberta pela névoa, e ele se viu numa outra batalha, onde portava um celular e lanterna, fazendo uma live que denunciava um início de incêndio florestal criminoso iniciado por jagunços da empreiteira. E, à medida que a neblina sobrevinha com mais frequência, esqueceu o gosto da comida ou a sensação de um travesseiro sob sua cabeça, sendo transportado entre uma batalha e outra, através das eras, até perder a conta e a sanidade.

Epílogo

— Prosseguimos no tempo moderno ou medieval? O que você acha? — perguntou o escritor.

— Estou surpresa… você conseguiu me deixar confusa. Eu tinha certeza de que preferiria a ambientação medieval quando você me falou da ideia. Um conto para a revista Castelo Drácula praticamente pede isso. Mas agora estou em dúvida.

— Pois é, minha amiga, eu te entendo — ele respondeu. — Também sou assim. Gosto de medievalismo, de fantasia. A temática de castelo envolto em névoa é quase um convite automático para espadas e muralhas sob ataque, não é? Mas, enquanto eu escrevia, essa ideia de um conflito moderno — alguém tentando preservar a história contra uma grande corporação — foi ganhando força. Ficou impossível ignorar.

— E aí a sua indecisão fez o favor de deixar esta editora de revista já sobrecarregada com um baita dilema, não é? Eu adoraria dizer para você apresentar dois contos: A Luta do Ancestral e A Luta Moderna de Viktor. Mas você sabe que só podemos publicar um texto na revista.

— Sim, eu sei. É por isso que agora estou com essa ideia híbrida. Minha indecisão virando o próprio nevoeiro que une ambas as batalhas.

— Daqui a pouco você terá um livro de contos só sobre anomalias temporais… Logo saberemos o que os leitores vão achar! 

— Uma pena que o prazo não permita desenvolver mais — ele suspirou. — Se eu tivesse que escolher, acredito que prosseguiria na luta moderna. A luta medieval é fascinante, e eu adoro descrever combates, mas podemos deduzir o desfecho. Os otomanos não engoliram a Transilvânia, com ou sem a intervenção do conde Vlad real, ou o Drácula mitológico. Já as batalhas pela cultura e pela ancestralidade, como as travadas pelo descendente Viktor, continuam em curso. E as grandes corporações de hoje são, muitas vezes, mais implacáveis do que qualquer império do passado.

— É… oficialmente, pela primeira vez, eu diria que preferiria saber o desfecho de uma história moderna ao de uma medieval. Parabéns por isso. Só lamento pelo seu personagem.

— Por quê?

— Ele vai acabar enlouquecendo com a sua confusão cronológica.


Escrito por:
Henrique Morgante

Henrique Morgante é um completo dependente do consumo de boas histórias em todos os formatos, sejam livros, filmes, séries ou games. Paulistano, formado em Administração e graduando em História, atuou em gestão de equipes e no setor bancário. Mas sempre teve por objetivo trabalhar com a criatividade. Escreve contos e romances, navegando entre o terror, a ficção científica, fantasia e, ocasionalmente, ensaios ou crônicas sobre eventos reais, além dos mais diversos temas propostos pelas antologias e revistas das quais participa sempre que possível. » Instagram do autor
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Turba

Oh, tropéis insanos, vozes se aglutinam | Marchando silvos de compassos trôpegos | Junto aos metais, a miséria, aos córregos | Por onde se ouve o baforo dos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Oh, tropéis insanos, vozes se aglutinam
Marchando silvos de compassos trôpegos
Junto aos metais, a miséria, aos córregos
Por onde se ouve o baforo dos que andam  

No soar do açoite as turbas marcam
As horas da rua vaga, e disperso
Com o lápis e papel na mão, imerso
O poeta saúda aos mortos que emanam 

As horas da rua vaga são fardos
O tempo novamente soa o açoite
Das quimeras flamejando por todos’ lados 

Oh, poeta, mamífero enjeitado
Como queria cingir até à noite
Mas a cada letra testemunha a própria morte.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Tristeza Abissal

A névoa ergue-se como uma prece interrompida | um murmúrio que ninguém distingue, | mas que se aloja na pele | como o frio que anuncia a morte das coisas belas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A névoa ergue-se como uma prece interrompida
um murmúrio que ninguém distingue,
mas que se aloja na pele
como o frio que anuncia a morte das coisas belas.
Há orvalhos que descem lentos,
tão lentos,
que parecem medir o tempo pelo ritmo da dor.
E eu, que deveria esquecer,
repito o gesto antigo de quem espera
por algo que não vem,
mas fere.

A noite carrega um rosto que não finda.
Ela caminha comigo pelas falésias do sonho,
toca meu ombro como um segredo,
invade o silêncio como se fosse memória.
Profunda demais para que o corpo resista,
sombria demais para que a alma adormeça.
Vive num intervalo,
num quase,
num limiar
onde a existência se desbota.

O mundo se dobra adiante,
nesse cinza-rosado que sangra nostalgia.
Flores espectrais inclinam-se ao meu peso,
sabendo que trago um vazio
sem nome,
mas com um cheiro:
— o cheiro úmido daquilo que um dia esperei.
Rios imóveis,
mares hesitantes,
o vento, velho mensageiro,
incapaz de trazer respostas.
Talvez porque tudo esteja suspenso
num suspiro que se recusa a nascer.

E aquilo que devora por dentro
não tem pressa.
Seria fácil se viesse de súbito.
Mas não, age com a delicadeza cruel
das coisas que entendem
que a maior dor é sempre a lenta.
Senta-se ao meu lado,
toca meus versos,
e os torna mais verdadeiros
que minha própria respiração.

E então percebo:
é nesta penumbra translúcida,
onde tudo é passado e futuro ao mesmo tempo,
que aprendo a última lição
a de que, apesar de tudo,
ainda permaneço,
ainda espero,
ainda sangro poesia.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Pedido

São Baudelaire das causas impossíveis, | quisera assim orar Raul: |  – Livra-me, ó Senhor, | dos sofrimentos do jovem Werther; | fazei Goethe descer da minha cabeça,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

São Baudelaire das causas impossíveis,
quisera assim orar Raul:
 – Livra-me, ó Senhor,
dos sofrimentos do jovem Werther;
fazei Goethe descer da minha cabeça,
pois quero intacta
a plantação de neurônios
do fiel compadre Zaratustra.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Partida

Andando pela praia | De mãos dadas com a brisa | E os pés penetrando a areia molhada | Aquele deserto sem lavra | Pondo ao sol, no ar, meu corpo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Andando pela praia
De mãos dadas com a brisa
E os pés penetrando a areia molhada
Aquele deserto sem lavra
Pondo ao sol, no ar, meu corpo 

De repente:
Imagem que guardei profundo como oceano
Tão despretensiosos passos desfilando
Num vestido azul marinho
Até sumir por quilômetros levando consigo a calmaria
Como se partindo deixasse tudo comigo
Para suportar

No horizonte que o sol brasa,
Os montes abrem caminhos e as rochas 
- donde os pássaros partem vôos -
Se despedaçam,
Ela brisa,
Como um poema que soa
Um mar em ressaca
E deixa de me acompanhar para acompanhá-la. 

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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O Veado na Neve

O Céu branco, sobre as cicutas curvadas sob a neve, | Não vistes, no início da noite, o cervo cornudo e sua corça parados no pomar de macieiras?…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O Céu branco, sobre as cicutas curvadas sob a neve,

Não vistes, no início da noite, o cervo cornudo e sua corça parados no pomar de macieiras?

Eu os vi, eu os vi subitamente partirem,

As caudas erguidas, com longos saltos belos e lentos,

Por cima do muro de pedra, adentrando o bosque, com as cicutas curvadas sob a neve.

Agora, deitado está ele aqui, o sangue selvagem fervendo a neve.

Quão estranha coisa é a morte, que o traz aos joelhos, traz aos chifres,

O cervo na neve.

Quão estranha é — a uma milha de distância ela deve estar — sob as pesadas cicutas que, enquanto os momentos passam, mudam um pouco sua carga,

deixando cair uma pena de neve — a vida, observando atenta pelos olhos da corça.

Edna St. Vincent Millay

(Tradução: Júlia Trevas)

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Edna St. Vincent Millay

Edna St. Vincent Millay (22 de Fevereiro de 1892 – 19 de Outubro de 1950) foi uma poetisa lírica e dramaturga americana, vencedora do Prémio Pulitzer na categoria Poesia. Ficou também conhecida pelo seu estilo de vida boémio, pouco convencional para a época, e pelos seus inúmeros casos amorosos. Utilizou o pseudónimo Nancy Boyd para o seu trabalho em prosa... » leia mais

Traduzido por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
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O Manto Sagrado da Noite

A névoa sobe como exércitos vencidos, | erguendo suas lanças translúcidas | num silêncio que antecede a ruína. | O orvalho desce como cortejos fúnebres,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A névoa sobe como exércitos vencidos,
erguendo suas lanças translúcidas
num silêncio que antecede a ruína.
O orvalho desce como cortejos fúnebres,
marcando cada passo meu
com o peso de eras esquecidas.
Caminho entre falésias que respiram,
ilhas quebradas do tempo,
onde cada pedra guarda o eco
de algo que nunca deveria ter sido ouvido.

A noite se abre como um manto antigo,
sagrada e terrível,
circundando-me com seus presságios.
Sinto-a avançar, lenta,
como criaturas que se aproximam
em um mundo onde o destino
já foi decidido antes do nascer das estrelas.
A fronteira se dobra diante de mim,
e dela surgem sombras que me reconhecem
mesmo quando não sei quem sou.

O mundo cintila em rosa cinéreo,
cidades fantasma ao longe,
mares que recuam como dragões fatigados,
rios imóveis guardando segredos
profundos demais para o sopro humano.
Flores espectrais abrem e fecham seus véus,
como clamores de um reino caído.
E o vento, o velho arauto,
se cala por respeito ao que se aproxima.

Dentro de mim, algo desperta.
Um antigo chamado.
Um juramento que não lembro de ter feito,
mas que pulsa como sangue nascido antes do mundo.
Toca meus versos:
— não como consolo,
mas como espada.
E então percebo:
minha luta não é contra monstros,
nem sombras,
nem destinos.
É contra o próprio eco do que fui.
E ainda assim avanço.

REVISADO POR SAHRA MELIHSSA

Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Velian: O Banquete da Noite

Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra…

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Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra fora reencontrada — mas agora não havia nostalgia nem peso: o que ardia em sua alma era sede, não de simples sangue, mas de corpos, de jogos, de poder e vertigem. É que o vampiro intuía agora que de nada ou de pouca coisa valia seus esforços por encontrar sentido último na vida. Por meio de seus encontros atrozes com a deusa Nix, Velian entendia que, por mais magia que estudasse, não iria descobrir uma verdade última sobre a vida, que era imensa e se desdobrava demais até para ele. Com isso, o vampiro não pretendia deixar de lado seus estudos, pois percebera que sempre haveria mais coisas para entender, e, no processo, ficar ainda mais forte e poderoso.

Da varanda alta de um edifício antigo, o vampiro contemplava a cidade. Fortaleza estendia-se como uma tapeçaria noturna de luzes, fumaça e mar distante. E apesar de o vampiro admirar a cidade de vez em quando, ele não buscava beleza contemplativa; buscava movimento, carne, pulsares. Com um sorriso enviesado, lançou o chamado: não súplica, mas desafio. Convocou Cassandra por meios telepáticos. Não a queria como lembrança, mas como chama. Queria testá-la, tê-la ao lado, enfrentá-la no terreno mais fértil da luxúria, onde Cassandra era muito boa, melhor que ele na maioria das vezes, ele reconhecia. Só que, desta vez, o vampiro não se importava com quem fosse ganhar, se todos, no final, fossem ter prazer. O vampiro também se sentia recarregado em seu interior e sentia que estava preparado para Cassandra.

Ela veio. Surgiu como sombra lasciva em meio à escuridão e o breu do prédio em que Velian estava, o vestido colado à pele como promessa. Entre os dois, não havia saudade, apenas provocação. Ele a olhou como quem devora; ela riu como quem jamais se deixa conter. "Dessa vez foi rápido." — pensou o vampiro. Velian ainda não conhecia muito bem o poder da teletransportação, o vampiro precisava voar e percorrer longos caminhos, ainda que rápido, para chegar aos seus destinos.

— Ainda és capaz de me surpreender, Velian? — ela sussurrou, deixando o hálito frio roçar-lhe o pescoço.

— Não preciso surpreender, Cassandra. Preciso apenas… consumir.

A cidade se abriu para eles como palco obsceno. Primeiro, a boate pop, onde corpos reluzentes dançavam sob luzes de néon: ali sugaram a vitalidade de um casal, jovens que tremiam entre o medo e o êxtase. Depois, o subterrâneo rochoso do rock, onde o suor misturava-se ao sangue — um beijo rasgado em meio aos gritos das guitarras. Mais adiante, o caos punk, onde corpos se chocavam, e Velian se embebedou do gosto amargo de um rebelde, rindo ao ver Cassandra deixar marcas profundas nos ombros de uma mulher andrógina que se oferecia como oferenda. Por fim, o delírio ciberpunk: máquinas e carne, implantes cintilantes, olhos de néon. Ali, eles foram de todos e de ninguém — sorvendo, possuindo, misturando-se até que a madrugada não tivesse mais fronteira.

E então veio o chamado. Não humano, não terreno. Um som grave, como se as paredes vibrassem com a respiração de algo antigo. O ar magenta se adensou, dissolvendo a boate ciberpunk em ruínas úmidas. Diante deles erguia-se o Castelo Drácula, vivo, pulsante, enraizado em sombras.

Velian e Cassandra trocaram um olhar de puro gozo: a noite apenas começava.

Entraram. No salão principal, criaturas os aguardavam. Vampiros menores reverenciavam ou invejavam sua presença. Fantasmas serpenteavam, oferecendo toques frios como beijos eternos. Lobisomens os observavam com uma fúria erótica, como se o desejo fosse tão grande quanto a raiva. E, entre colunas que se erguiam como membros retorcidos, pairavam entidades mais antigas — quase divinas, encarnações da noite e do prazer.

Tudo respirava sob o signo do magenta profundo: cor entre o rosa mórbido e o vermelho do sangue, ardendo como febre nos vitrais e nas peles. Cassandra gargalhou, e sua risada ecoou como chicote. Velian apenas abriu os braços, como se o castelo inteiro lhe pertencesse.

Ali, não havia mais mortais, não havia mais limites. Apenas a noite, o desejo e o abismo. E Nix, Senhora da Noite, invisível, mas presente, erguia-se como símbolo absoluto, assistindo ao jogo de poder e luxúria entre seus filhos imortais.

A Noite Magenta reinava.

O salão respirava como uma garganta viva. Cada sombra parecia observar, cada sopro de vento trazia perfumes de sangue e de incenso queimado. Cassandra caminhava como se fosse a própria sacerdotisa da luxúria. O vestido desfazia-se em transparências, e dela emanava a volúpia de uma rainha indomada. Velian a seguia com olhos cerrados de desejo e ironia, consciente de que a provocação dela só o inflamava mais.

Dizes que me consomes, Velian… — Cassandra deixou escapar num murmúrio rouco. — Mas e se fores tu o devorado?

— Que me devorem então — respondeu, mordendo-lhe o pulso delicado.

O sangue escorreu quente, vermelho e febril, e ambos sorriram como predadores cúmplices. Ao redor, os convidados da noite se aproximavam. Uma vampira jovem, de olhos cinzentos, ajoelhou-se diante de Cassandra, oferecendo-lhe o pescoço. Cassandra aceitou com a delicadeza cruel de quem colhe uma flor para logo esmagá-la. Velian, observando, riu baixo.

— Sempre a rainha de súditos desesperados.

— E tu, sempre o cavaleiro que finge desdém, mas não resiste a entrar no jogo.

Um lobisomem se ergueu da sombra. O corpo musculoso, marcado de cicatrizes, observava-os com fúria erótica. Velian estendeu-lhe a mão e, num gesto inesperado, arrastou-o para perto. Beijou-lhe a boca com violência, arrancando-lhe um uivo de prazer e dor. Cassandra gargalhou, e o eco da risada fez os fantasmas estremecerem.

Velas altas ardiam em magenta, tingindo as paredes de febre. Entre colunas retorcidas, ninfas espectrais surgiam — seres de pura energia que tocavam com mãos etéreas, provocando tremores de êxtase. Uma delas deslizou por entre Cassandra e Velian, sussurrando um canto sem palavras. Velian fechou os olhos: o toque frio era como mergulhar em abismos de desejo sem fundo.

No centro do salão, uma mesa de pedra negra cobria-se de taças com sangue aromatizado por flores espinhosas. Ali, Cassandra puxou Velian pelo colarinho e o empurrou contra a superfície dura. O beijo deles foi brutal, quase uma batalha.

— És meu inimigo e meu deleite — ela sussurrou.

— E tu, Cassandra, és minha perdição favorita.

A sala inteira parecia vibrar em torno deles. Os outros seres — vampiros menores, fantasmas, lobisomens — não apenas assistiam, mas participavam, entregando-se a toques, beijos, mordidas, formando uma espiral orgiástica de desejo e violência. A noite pulsava como um coração colossal.

E, acima de tudo, Nix, Senhora da Noite, pairava invisível, mas inegável. Velian sentiu sua presença como sopro no pescoço, como mão invisível sobre o peito. Era mais que luxúria: era o eterno chamado da escuridão, o ventre cósmico de onde nascia o desejo.

Por um instante, Velian fechou os olhos. O tempo não existia — apenas ciclos de prazer, sangue e silêncio. A melancolia se dissolveu no delírio magenta, e até o vazio se transformou em alimento.

Era ali, entre o amor e o abismo, que agora ele se sentia mais vivo.

Ninfas dançavam entre pilares de pedra, seus corpos translúcidos refletindo tons rubros, que se misturavam à penumbra do castelo. Velian sentiu o chamado: não havia necessidade de força, apenas de entrega ao êxtase que o rodeava. As criaturas o cercavam, e cada toque era como eletricidade: não física, mas metafísica, percorrendo a sua forma vampírica em ondas de calor e frisson. O desejo era profundo, não vulgar — um trago da própria eternidade.

— Velian — murmurou uma voz etérea, deslizando pelo corredor como fumaça de incenso. Era uma das ninfas, seu corpo esculpido em curvas impossíveis, os olhos refletindo auroras de cores também impossíveis — Você sente? Não é fome, não é sede. É vontade de tudo possuir, e ainda assim nada deter. É o prazer do infinito que nos rodeia.

— Sinto — respondeu Velian, a voz baixa e rouca, reverberando nas paredes úmidas — Sinto o vazio e o desejo, tudo ao mesmo tempo. Sinto o poder de existir, mesmo sem precisar do desespero.

— E ainda assim há ironia em ti — disse outra presença, um fantasma andrógino que se aproximava por entre as colunas, roçando sua essência contra a aura de Velian — Tens força para moldar mundos, e escolhes caminhar por entre sombras, provando prazer do etéreo. É humano demais, ou vampiro demais?

O Castelo Drácula os envolveu com seus corredores labirínticos, onde o tempo se curvava e cada sombra parecia palpitar com vida própria. Velian, pulsando com uma energia voraz e confiante, sentiu a presença das criaturas — fantasmas translúcidos, ninfas que ondulavam entre a penumbra, e seres andróginos cujos olhos brilhavam com segredos antigos. A respiração de todos se mesclava ao ar denso, impregnado de aromas doces e metálicos, uma fragrância que falava de desejo e eternidade.

— Aqui, até o silêncio tem gosto de sangue — murmurou Cassandra, deslizando ao lado de Velian, sua voz quente como veludo, provocando arrepios nos seres que os observavam. — Cada respiração, cada toque, cada olhar é uma dança de poder.

Velian sorriu, mordendo o lábio com malícia. Ele não buscava humanos agora — apenas o calor vivo e intenso dessas entidades que respiravam o mesmo abismo e compartilhavam da mesma sede. Ele tocou uma das ninfas, sentiu sua pele etérea vibrar entre seus dedos, e percebeu como o prazer e o medo se entrelaçavam, como se cada suspiro fosse um cântico antigo, uma oração esquecida.

Entre risos e murmúrios, seres com corpos andróginos aproximaram-se, oferecendo olhares que queimavam e mãos que provocavam pequenas faíscas de eletricidade na pele. Velian aceitou o jogo com destreza, sua presença um magnetismo de desejo que atraía e incendiava cada ser à sua volta. Cassandra, sempre altiva, seguia seus passos, brincando de dominadora e cúmplice, deslizando sobre os corpos que se curvavam e arqueavam sob a tensão do prazer.

— Não é só sobre matar ou seduzir — disse Velian, a voz grave, o olhar em chamas, enquanto uma sombra de fantasma cruzava seu corpo — é sobre sentir a eternidade no toque, no êxtase, na fusão do desejo e da vida que pulsa por trás da escuridão.

— E ainda assim — replicou Cassandra, arqueando a sobrancelha, os lábios tingidos de rubor de vinho — há sempre algo mais. Sempre há. O poder, o prazer, a fome… nada disso se compara ao que se encontra quando aceitas a profundidade da noite, e daquilo que somos. Tu queres sentir tudo, não é? E eu estou aqui para que sintas.

O toque, os olhares, o jogo de aproximação e afastamento criavam uma coreografia de luxúria e poder, onde o prazer era apenas o início da compreensão de algo maior — da eternidade, da solidão compartilhada e da beleza perversa de existir. Fantasmas e ninfas entrelaçavam-se, vozes sussurrantes cantavam cânticos indecifráveis, e a arquitetura do Castelo parecia responder, pulsando, expandindo-se, como se respirasse com cada desejo consumado.

Velian e Cassandra, lado a lado, abraçavam a escuridão, percebendo que cada toque, cada carícia, cada arrepio era uma reafirmação de sua própria condição: eternos, sedentos, livres, mas ainda assim ansiosos por sentidos, laços e descobertas. O Castelo os envolvia, a noite os consumia, e a sensação de pertença àquilo que era maior que a própria vida os incendiava por dentro.

— Aqui, no fim, — murmurou Velian, sentindo a vibração de Nix, senhora da noite, pairando sobre todos — só o desejo e o vazio coexistem, e são eles que nos tornam mais vivos que qualquer mortal.

Cassandra sorriu, e juntos, absorvendo cada ser, cada suspiro, cada presença, permaneceram na dança eterna do Castelo, entregues ao prazer, ao poder e à própria eternidade, até que o vento metálico do limiar sugeriu que novas descobertas os aguardavam, e que a noite jamais terminaria.

O Castelo Drácula tremia. As paredes antigas estalavam como se quisessem expelir séculos de segredos, e as torres pareciam ceder ao peso da própria eternidade. Velian sentiu o chão vibrar sob seus pés, o ar metálico da noite se tornando denso demais, quase líquido, como se o próprio limiar se desfizesse. Fantasmas, ninfas e seres andróginos evaporaram em brumas ondulantes, deixando apenas o eco de suspiros e risadas antigas. O desejo, intenso e febril, continuava a arder dentro dele, mas o Castelo parecia avisá-lo: era hora de retornar.

Em um instante que durou simultaneamente uma eternidade e um sopro, Velian sentiu o mundo girar, e tudo desmoronar ao redor. A última visão do abismo do Castelo se desfez, e ele despertou.

O amanhecer já tocava Fortaleza. Raios de sol pálido atravessavam a cortina do quarto, dourando o ar ainda impregnado do calor da noite. Cassandra dormia ao seu lado, seus cabelos negros espalhados como sombras luxuosas sobre o travesseiro. O perfume dela misturava-se com o aroma do café da manhã não feito e o leve toque do sol nascente. Cada curva de seu corpo era uma promessa silenciosa, cada respiração, uma melodia antiga que atravessava os séculos.

Velian a observou, os olhos absorvendo cada detalhe: a delicadeza da pele, o arrepio dos fios de cabelo, o ritmo perfeito da respiração. Um sorriso lento curvou-lhe os lábios, a ironia e a certeza de si próprios entrelaçadas.

Revisado por Sahra Melihssa
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Sangue, Silício e Presságios / Capitulo I

Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao menos podemos dizer que notamos.

Imagino que o propósito fosse justamente esse: não tivéssemos a oportunidade de resistir, confrontar ou mesmo protestar.

Vi os passos que a indústria avançou nos últimos duzentos anos, um ritmo tão acelerado, surpreendendo a todos com tantas novas tecnologias e informações que, assumo com sinceridade, prendem nossa atenção. Era de tirar o fôlego.

Não sou um fã ensandecido da tecnologia, mas muitas delas me impressionaram também.

Voltando! Lembro-me bem daqueles dias, o sol começou a desaparecer, mergulhando, uma após a outra, as cidades numa realidade de escuridão. Mesmo que isso fosse algo bom, pensando nas crianças da noite, inegavelmente havia mais — muito mais escondido por detrás do véu dos poderosos.

Fiz uma pausa em minhas lembranças, levei minha mão de carne e sangue, a tocar minhas cicatrizes na face, implantes biônicos, uma cibernética que mescla o orgânico, metal, cabos e vidro, uma lembrança pesada de decisões que sinceramente me incomodam. Cada passo deve ter um destino, mas teria sido um gostado de ter mais opções em minhas mãos. Mas não pude, realmente, não tive, contudo, como lamentar minhas dores e angústias. A cada vez que toco as partes do meu corpo, que foram substituídas, busco manter meus olhos para meus objetivos. Infelizmente isso virou hábito, algo que me faz emergir, — retornar desse imenso lago sombrio sendo a minha vida.

Uma nova interrupção de meus pensamentos, o toque e brilho do celular que tocou.

Na tela, primeiro o nome, logo uma foto de um rosto conhecido de tempos mais interessantes. Quem sabe em outros tempos meu eu fosse mais gentil com os contatos, mas depois de tudo o que aconteceu, o ressentimento e desconfiança viraram regras irrevogáveis.

— Quem diria… Ele ainda se lembra que eu existo! — Minha voz saiu baixa e rouca. Respirei fundo e liberei lentamente o ar dos pulmões. Deixei o celular sobre a mesa do meu escritório.

Recostei-me na cadeira, fiz uma meia volta com ela, e fiquei olhando atentamente para o mundo além da janela e um lugar escuro e bem mais sombrio que se desdobrava.

Velho mundo, numa nova realidade obscura e desafiadora.

Como um reflexo involuntário, levei a mão até a costela, buscando o lugar onde carregava o coldre e a velha Lucy, uma pistola que passou a ser uma extensão de minha própria existência carnal e imortal. Ao notar a ausência, me fiz buscar na memória onde a deixei.

— Ah, sim. — exclamei alto de súbito, recordei o mancebo ao lado da porta, vi sua alça negra, junto aos casacos e o blazer que sempre deixo aqui no escritório, — me esqueço vezes demais de levá-la para casa. Algo tão banal; meu escritório é mais minha casa que a verdadeira.

Mergulhei novamente em pensamentos e lembranças.

No lugar do amarelo da alva nasceram tons brilhantes, veias luminescentes que deram vida ao mundo cinza de cimento e concreto.

Os diversos tons de neon ganharam espaço, a ponto de nos fazer sentir sermos as estrelas. A noite e o dia agora eram guiados por cores — azul, verde, vermelho — entre tantos tons infundidos em tubos de luz.

Muitos recém-abraçados celebraram a escuridão, e suspeito que alguns dos milenares também o fizeram.

Vampiros ainda se prendem a velhos hábitos e tradições, embora os recém-convertidos pareçam nutrir desprezo pelo véu que nos protegeu por séculos.

— O que veio após o caos inicial era previsível, no entanto, nada desejável, pelo menos para mim! — disse quase em murmúrio, ainda mergulhado na cadeira, com a carranca de insatisfação inundando meu rosto.

Veio a princípio pela voz de Maximillian Jones, presidente americano. Ele convoca as nações a se unirem na elaboração de uma organização multinacional chamada “Aegis Dominion Corp”.

Aquele homem era uma verdadeira raposa. Homem corpulento, de rosto redondo. Pele branca e pálida. Cabelos milimetricamente alinhados, como todo bom político. Ele sorria à sua frente, planejava ardilosamente pelas costas de aliados a rivais. Além do sistema burocrático, eles criaram uma unidade de atuação imediata chamada de “Cerberus State Division”, ou como ficou conhecida, a CSD.

Por detrás de toda aquela propaganda anti-crime havia a intenção de conter todos e tudo que fosse do guarda-chuva sobrenatural.

Alguns humanos não esqueceram o desastre dos primeiros meses de escuridão, presidente M.J. foi um desses rancorosos.

Que engraçado, eles tiveram rancor! Sua ânsia por revanche os levava a buscar meios de se proteger. Contra quem eles iriam? Nós!

Nós que existimos desde sempre. Humanos tentando proteger seu futuro das nossas mãos.

Conflitos foram deflagrados por várias regiões do mundo, a princípio no norte, uma verdadeira caçada a qualquer paranormalidade. Mortes relatadas de humanos e criaturas sobrenaturais. Um quadro horripilante a cada vez que você olhasse na internet, pelo celular, através da televisão. Os discursos vazios em nome de uma justiça cruel.

Daquele momento em diante, não era unicamente a escuridão que mudava nosso universo, mas a sociedade, as relações e as regras do mundo.

A tensão subiu tão rápido, que Magnus se viu forçado a fazer algo.

— “Quem é realmente, Magnus?” — pensei. O líder dos “Sangue de Obsidiana”, um homem único, ímpar por ser visionário. Nem sempre concordamos. Ele via com bons olhos algumas mudanças, e eu com cautela.

Magnus Draevon é um homem baixo em estatura, troncudo, de olhos leoninos de tom verde-claro e expressão pacata. Seu espírito parecia nunca se abalar, mesmo diante dos cenários mais terríveis. Aquele homem tinha o estranho hábito de ficar acariciando sua barba longa, ainda mais em conversas incômodas, aquilo o mantinha em serenidade aparente.

Para aquele que temos ele como pai e mentor, vimos nele força suficiente para acalmar nossos ânimos, com isso encontrar um caminho em meio àquele caos sanguinolento.

Imagino que já estive mais vezes em desacordo com Magnus, do que em acordo. Nosso modo de ver o mundo e a gestão da “família” eventualmente se chocavam.

Numa manhã, há uns dois, ou três anos, não recordo bem, mas não muito após o plano dos humanos sair na mídia, o líder me ligou.

É bem vivida a memória. Estava em minha casa, mergulhado no sofá com um copo de whisky na mão esquerda. Havia deixado o celular sobre a mesa, numa vã tentativa de distância da minha própria realidade.

A sala era ampla, móveis mínimos e modernos. Nunca fui de ter muitos objetos.

A tela se iluminou e começou a vibrar. O som reverberava numa melodia suave pelo ambiente. Então o nome no ecrã brilhou em letras austeras: Magnus.

Intensamente inalei o ar, levantei-me vagarosamente e soltei lentamente o ar. Dobrei o corpo, troquei o copo de mão e estiquei o braço até alcançar o aparelho.

Atendi e coloquei-o em viva voz.

— Dorian. — Sua voz ecoou pelo fone como trovão distante, grave e firme, mas com uma tonalidade que sempre me fazia comparar com o aço temperado.

— Mestre Magnus. — Respondi, as palavras escapando antes que pudesse pensar.

Não era só respeito; havia uma espécie de reflexo condicionado, como se meu corpo reconhecesse nele algo que jamais ousaria enfrentar.

Levantei-me do sofá e caminhei até a varanda. Lá fora, a manhã sem sol parecia imersa em calmaria, com um vento frio tocando meu rosto, como se o mundo aguardasse o desenrolar daquela ligação.

— Eles, os líderes da humanidade, estão prestes a piorar o nosso mundo. — disse ele. — O plano deles já não é um mero rumor. Viu as notícias? Notícia infeliz. É real, Dorian. Precisamos nos precaver e evitar o pior dos cenários.

Engoli seco, apertando o celular contra o ouvido.

— Quer que eu faça parte disso? — Eu girava o copo com o líquido âmbar na outra mão, impaciente com tudo aquilo.

Houve uma pausa. O som de sua respiração atravessou o fio invisível que nos unia — pesado, quase paternal.

— Não quero, Dorian. Preciso! Você foi um dos poucos que me sobraram. — Ele fez uma pausa que parecia levar anos. — As outras famílias têm dores de cabeça em seus próprios quintais; confiar é algo raro nessa nossa realidade.

A mão com o copo tremeu. Senti o suor frio escorrer pela nuca.

— Não sei se estamos prontos para enfrentar esse novo cenário… — Tomei um gole curto do whisky, sentindo-o queimar minhas entranhas.

— Nunca se está. — interrompeu com aquela certeza inabalável que me feria e erguia ao mesmo tempo. — Mas escute: não há outro em quem eu confie tanto para enfrentarmos essa crise.

Fechei os olhos. Na escuridão breve, pude imaginar seu olhar de aço, os traços duros de sua face marcada por uma cicatriz. Não era puramente meu mentor — era o peso de um caminho tortuoso que falava comigo.

— Entendi. — Respondi, a voz saindo mais firme do que eu esperava.

Do outro lado, ouvi o breve som de aprovação, quase um suspiro contido.

— Então, prepare-se. Logo, os demais serão convocados. Mas, antes de tudo, precisava conversar com você, ter seu apoio.

A ligação terminou, e o silêncio que restou parecia ainda mais pesado que sua voz. Magnus não havia somente me ligado. Havia marcado um ponto sem retorno.

Nasci onde o fim e o início se confundem, sob a proteção da tríplice fogueira. Sou Hékali Duarte, uma alma moldada sob o manto de uma lua que agonizava, enquanto o mundo mergulhava em uma escuridão que os astros já profetizavam como ruína. O sopro da criação, eu sentia que já vacilava desde o meu primeiro choro.

Sou o fruto de forças ancestrais e filha de Astéria, a guardiã dos mistérios etéreos, e de Pérsia, o caçador que não temia as sombras. Minhas raízes, elas se estendem e estão profundamente enterradas na antiga cidade de Lagina. A Cária esquecida, onde o Mar Egeu outrora beijava as pedras com sua espuma sagrada.

Mas não sei explicar direito a razão…

Temos, eu e minha família, tanta conexão com a França. Mamãe dizia ser grande parte de um legado espiritual.

Desde pequena fui ensinada, por aqueles que…

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...compartilham a mesma ligação, em diversas áreas do saber natural e comum, dentre esses conhecimentos, as línguas do mundo, começando pelo francês, assim como uma introdução mediana no inglês. Me apaixonei pelo espanhol e, por fim, uma exploração por uma língua morta, o latim.

Minha primeira morada fora uma casa de pedra e carvalho, equilibrada no limiar de um despenhadeiro à beira-mar. Lembro-me do cheiro do pinho no piso e da voz de minha mãe, um sussurro que ainda ecoa em mim.

“Recorde, minha pequena, o mundo pode se abrir em muitos caminhos.” — Eu, movida por uma curiosidade febril, amava os livros e era dócil, “já não mais!” — Refleti quanto ao meu passado e o meu presente.

Uma sonhadora quando pequena? Sim. Observadora de seus ritos costumeiros, ainda mais aqueles feitos em hora avançada, no segredo da noite.

Ansiava pelo dia em que minhas mãos tecessem o invisível com a mesma maestria. Jamais devia ter desejado isso, agora tudo que conheço é sangue e breu.

Mas ela, tão somente me acalmava.

“Shhh… Apenas durma, meu anjinho.” — A luz da alva e os astros que conheci na infância foram somente o prelúdio das trevas.

Meus pais foram ceifados… Não sei como… não sei quando… Tudo é tão nebuloso, as lembranças fragmentadas, a verdade deu espaço à dúvida, os segredos se apossaram de minha vida de forma tal que desconheço o local de descanso eterno de meus entes amados.

O que sei é que UM vampiro, cujo nome o próprio destino parece temer pronunciar, mas tornou-me herdeira de uma vingança implacável onde fui moldada na carne.

Assim segui, e o tempo voou em sua perene natureza, mas a dor permanece viva. Sentada em minha cama, recostada na parede, comigo no escuro enquanto observo o breu além da janela. — “O que o destino haverá de trazer?” — me veio este pensamento profundo que calou fundo em meu ser.

Naquele ano de perdas, encontrei meu porto seguro nos braços de Antea Uranai, minha avó materna.

O lar de vovó Antea Uranai era um labirinto de saberes profundos. Paredes de pedra, teto de ripas grossas e um silêncio interrompido tão somente pelo consumo lento das velas e pelo traçar de runas ancestrais na madeira.

Ali, entre luzes bruxuleantes e o aroma de mistério, eu fui forjada. Aprendi que o clã Duarte não carrega meramente um nome, mas um nó celta marcado na pele e a sina de caçar o que rasteja no escuro.

Espectros de carne, carniçais de cemitérios e as bestas corrompidas que não conseguem abandonar este plano. Não escolhi esse chamado; ele acendeu em meu peito como uma chama que é, ao mesmo tempo, meu poder e minha condenação.

Olho-me no espelho e vejo um paradoxo. Minha beleza é uma ferramenta, uma arma que fere e seduz com a mesma precisão, meus cansados olhos, quase não me reconhecem mais no espelho. Costumavam ser safiras que lembram abismos iluminados por relâmpagos, assim como meus negros fios, confundindo-se com a própria noite.

Lembro-me de alguém, acho que era como minha sombra de infância, rindo baixinho enquanto me olhava nos olhos, naquela tarde chuvosa sob o telhado rangente:

— Olha só para você, com essa pele alva como neve de um mundo que a gente já nem sonha mais ver… Aos vinte e sete, parecia que o tempo tremeu de medo e fugiu de você, sem ousar riscar sua lâmina eterna. Baixinha assim, pouco mais de um metro e meio, acham que passa batido? Tolos. — Ela fez uma pausa dramática. — Seus instintos são venenos disfarçados de mel, e sua inteligência corta como fio de navalha afiada. Esse mundo sem sol… ele te teme, amiga.”

A escuridão tornou-se uma substância palpável, governada por corporações de ferro e sombra como a Aegis Dominion Corp. Caminho por esse cenário como a Anima Mundi, a alma que ressoa com os lamentos dos céus e os ossos da Terra.

Nas ruínas do distrito de Lyssandria, onde cabos de energia tremeluziam como serpentes em crucifixos de metal, eu me sinto em casa. O ar tem gosto de ozônio e ferrugem. Sob letreiros de néon faiscantes, minhas tatuagens rúnicas pulsam em um azul-índigo, conectando-me às frequências ocultas.

— Os espíritos da rede estão famintos… — murmuro para o vazio.

“Não luto tão somente contra demônios e espíritos, mas, sim, uma luta pela existência humana neste mundo imerso em trevas.” — emergiu este pensamento do fundo do meu coração.

Enfrento os espectros-silício: consciências humanas aprisionadas em servidores, almas que trocaram o além pela eternidade sintética.

— Como pode uma criatura sem ossos desejar ser meramente uma energia elétrica? — Reflito em voz alta, com certo nojo e frieza na voz. — Eu os bano!

Após dizer aquelas palavras, senti a minha magia fundida à tecnologia fluir dentro de mim com inquietação.

Senti algo primitivo ferver em meu sangue recentemente. Um eco digital, um sinal que emana das profundezas de Lagina, minha terra natal. Lá, onde templos gregos colapsam sob antenas quânticas, o passado me chama.

Nasci órfã da luz, mas sou filha da noite. — “E agora, preciso descobrir: o que restará ao final da minha jornada? Sangue ou esperança?” — Esse era um pensamento recorrente: uma autocobrança.

Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Quando a Noite Cobra o Preço / Capitulo II

Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou. Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou.

Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos olhos da percepção, dizia ela que éramos antenas, portas de uma dimensão além do astral escuro. Assim como os “sanguíneos”, como ela costumava chamar, também sempre fomos abençoadas pelo sangue. Entre ossos de corvos e morcegos ela preparava na fogueira este elixir. Quando pronto, nós nos servimos; afirmo que já sabia da grandeza daquilo. Gradualmente me preparei para a grande virada que viria em minha vida.

Ela me abraçou forte.

“Vovó te ama…” — Ainda recordo com pesar e isso ressoa em meu peito todos os dias. E então bebemos e adormecemos...

Estava tudo muito confuso, admito, estava sonolenta e ébria da realidade, parecia outro plano. Atordoada, um tanto atônita, recobrando meus sentidos, orientei-me ao presente instante, respirei fundo: “onde eu estava?” — me questionava em meus pensamentos.

Vagarosamente, minha turva visão foi vasculhando gradualmente o ambiente, junto aos dedos no escuro.

Tateando o breu do desconhecido até que minha visão se acostumou à tão escassa luz e minha dilatada pupila se adaptou. Eu estava prostrada, com uma certa dificuldade, uma fotofobia temporária, tentando localizar-me no ambiente, deixando meus olhos se ajustarem; gradualmente minha turva visão se acostumava.

Enxerguei minhas mãos calejadas, meus pés descalços e então lentamente levantei-me e prossegui automaticamente por impulso, instinto. Meus pés caminhavam sob uma superfície um tanto úmida, o que deixava o caminhar escorregadio. Em algumas partes, ao tato, era possível sentir porosa, era como caminhar em cima de pedras de sabão.

O aroma era ocre.

O lugar em si me parecia claustrofóbico, começou a me incomodar, era algum tipo de gruta?

Sentia-me isolada de mim mesma, um exílio íntimo, uma constatação de uma verdadeira solidão contemplativa — ou seria uma solitude sofrida? Não sei ao certo dizer, mas aquele ambiente me sufocava tanto meu interior. Eu sempre estava em exílio comigo mesma, com meus pensamentos. Meu espírito se sentia sempre acorrentado, por quê? Mas, de alguma maneira, era isso — e aqui constato que não posso recordar por que estar ali.

Continuei caminhando, o trecho foi gradualmente se iluminando, até que desemboquei em uma sala enorme e oblíqua, ao final me deparei com dois enormes castiçais que estavam grudados à parede com uma labareda de coloração cobalto.

Os pilares dessa sala e as rochas eram todas feitas de um tipo de rocha desconhecida para mim. Emulam uma sensação semelhante à superfície lisa e fria de um vidro, refletindo imagens turvas e espelhadas.

Havia esporos pelo ar e em algumas partes um tipo de limo rubro e pegajoso como um tipo de simbiose viva emanava um sol gutural borbulhante e pude perceber que ele sangrava e dele desabrochou em combustão ali.

Dois enormes morcegos de coloração escarlate vinham em minha direção. Um pânico me abraçou, uma sensação de impotência, insegurança, senti minha espinha se arrepiar, sentia-me zonza pelos seus sonares e uma certa confusão mental me envolveu por alguns segundos.

Ainda sentia aflição nos meus pés pela superfície molhada e porosa, o que me causava uma clara sensação de ojeriza. Contudo, meus sentidos estavam todos centrados em como derrotar aqueles sugadores.

Meus instintos mais profundos pulsaram através das minhas veias, o que fez minha mão esquerda mover-se, com precisão e delicadeza, como num ritmo, algo que tanto repeti até memorizar. Então me veio a mente os versos que me foram ensinados.

— “Que la chair du monde s’ouvre… — Comecei a recitar em voz baixa. — Desabrocha… Flor sem raiz… Nascida do abismo do instante.

 Uma energia com uma luz suave emerge do meu ombro e vai serpenteando até o meu punho fechado, quando eu o abro com a palma voltada para cima, como o caule de uma flor aparece. Até surgir uma flor em botão e lentamente ela desabrocha como uma flor.

Daquela flor tão exótica em minha palma, a luz começou a irradiar e acender, até que sua existência não mais se sustentou. As pétalas se desfizeram, dando origem a algo que pulsava antivida: uma adaga. Seu dorso de esmeralda com runas emanava, imponência; no fio, uma coloração verde, selvagem, como se pulsasse veneno em cor néon vibrante.

A adaga flutuava no ar como uma entidade néon. Ela se movia como se por vontade própria; ela os estripou, ambos os morcegos, em poucos instantes. Retalhando-os no ar enquanto batiam as asas. Assim que a lâmina sentiu o gosto do sangue das criaturas, ela retornou imediatamente para meu peito, dissipando-se no ar como partículas e faíscas luminosas de um verde intenso. Eu estava sem fôlego, o que foi aquilo?

A porta de vidro à minha frente se abriu… Assim…

· · • • • ✤🦇✤• • • · ·

…que senti minha presença, mergulhei na boca daquela gruta desconhecida da treva da solitude que me abraçou.

Uma mescla perfumosa de sangue e poesia espessa.

Sou a terceira da trina Chama da chave do acesso da imortalidade escura da alma.

Dias depois, Magnus convocou os poucos que ainda detinham influência suficiente para alterar o curso da noite. Urr Locust, dos Tecno-Exsangues. Khaal Zerik, dos Carniçais Carmesins. Nivra Veyra, das Criptas do Éter. E Soren Klyth, à frente dos incontroláveis Filhos da Ruptura.

Soren não respondeu. Não recusou. Tampouco enviou emissário. Simplesmente permaneceu em silêncio — e, naquela época, o silêncio dele era mais perturbador do que qualquer declaração de guerra.

Os demais compareceram ao prédio dos Sangues de Obsidianos: uma torre negra com um grande triângulo néon azul invertido e um olho cibernético.

A sala era ampla e retangular, no último andar daquela torre negra no centro da cidade. As paredes do sul e do oeste eram de vidro, dando uma visão única da cidade em passo avançado de adaptação à escuridão. Dentro, uma mesa retangular de madeira na cor caramelo, com bordas pretas. No centro, cadeiras de encosto alto, umas quantas plantas. Um ambiente elegante, com paredes de madeira.

Cada família que atendeu ao chamado enviou dois representantes: um líder para falar em nome do clã e um guardião para lembrar que palavras nem sempre bastam.

A reunião foi infame desde o primeiro instante. Arrastou-se por horas, depois por dias, fedendo a interesses velhos, apodrecendo como um ghoul abandonado à própria carne. Ninguém buscava consenso; cada casta empurrava suas ambições, puxava acordos pela força, tentando garantir vantagem antes que o mundo ruísse de vez.

Sustentar aquilo exigiu de Magnus um esforço quase desumano.

Nem dentro dos Sangues de Obsidiana havia lealdade plena. Alguns desejavam ultrapassar a visão do líder, acelerar a queda. Veynar, o arconte de caráter duvidoso, era o rosto mais visível dessa fissura — seus negócios já haviam cruzado a linha, mergulhando fundo no submundo do crime.

As feições beiravam o esquelético. Alto, de cabelos longos quase sempre trançados para trás. Com olhos viperinos, já havia experimentado mudar partes do próprio corpo antes mesmo do início da noite eterna. Ele falava arrastado e gesticulava demais.

Indo mais a fundo nas memórias, recordo o momento do nascimento da Noctis Consortium… Foi muito inusitado… Difícil!

Não se passaram eras, mas nos fizeram sentir que assim foi.

Mesmo com a oposição de figuras como Zerik — que acreditava em um confronto direto — e, de certa forma, minha própria resistência, não durou tanto quanto esperávamos.

Magnus prevaleceu ao argumentar em favor de uma convergência, e não de uma guerra. Sua lógica era implacável: um conflito aberto seria catastrófico para ambos os lados, e o aumento da nossa exposição nos guiaria a um caminho autodestrutivo. Em vez de sangue nas ruas, ele nos vendeu a visão de um Estado chamado de “A parasitose perfeita”; um sistema oculto e enraizado na própria estrutura humana, utilizando nossos infiltrados para manobrar o inimigo como peças em um tabuleiro.

Assim, fundaram a Noctis Consortium, ou Noc-Con, como passou a ser conhecida no mundo.

O símbolo que escolhemos não buscava apenas representar um tempo — ele queria clamar. Era um chamado silencioso e feroz, nascido do desejo de abandonar o canto empoeirado da história, onde sombras tão somente observam, para enfim pisar o palco do mundo como presenças vivas entre os homens.

Uma lua crescente, invertida, curvava-se como um gesto de acolhimento ao redor de uma gota de sangue lapidada em losango. Tudo repousava sobre um negro absoluto, profundo como um abismo sem nome, rasgado por um vermelho carmim que brilhava espectralmente, quase sobrenatural. Ali não havia excesso nem frieza técnica — somente a tradução visual de quem somos: uma essência sombria, rara, de beleza estranha e melancólica, feita para ser sentida antes de ser compreendida.

Devo admitir: era algo belo de se ver.

— Devo admitir que aqueles momentos foram únicos. Nunca imaginei que as famílias se uniriam ao projeto de Magnus. — Agarro os braços da cadeira, cobertos de couro, impulso-me e coloco-me de pé. Dou dois passos e paro diante da janela, observando as pessoas caminharem lá embaixo, na rua.

Acompanhei o mundo perder o compasso e mergulhar, de cabeça, num frenesi febril. Não… Foi um salto de cabeça — foi uma queda longa, silenciosa, quase posso dizer, elegante. Chamaram de progresso, como sempre fazem quando não querem dizer o nome real das coisas.

No começo, havia uma justificativa nobre: devolver pernas aos que rastejavam, olhos aos que tateavam no escuro, braços àqueles que já tinham esquecido o peso de um abraço. “Venha ter a sua cura”, diziam. Era a humanidade tentando remendar a si mesma.

Mas algo apodreceu no caminho…

O que antes era socorro virou vitrine. Braços, pernas, olhos — peças expostas como joias, vendidas com brilho e posição, não com compaixão. O corpo deixou de ser morada e passou a ser catálogo.

Os médicos cederam espaço a mercadores, e a ética foi substituída por cifras. Não havia mais juramento, somente contrato. A carne tornou-se obsoleta; o aço, desejável.

— Observei tudo aquilo com uma frieza que me assustou. Talvez porque, no fundo, eu já soubesse que isso aconteceria. O homem nunca quis ser inteiro — quis ser mais. Mais forte, mais rápido, mais eterno. — Aquelas palavras saíam dolorosamente por minha boca. A clareza de pensamento vinha do realismo dos fatos. — A dor nunca foi o problema; o problema sempre foi aceitar limites. E ali, naquele desfile grotesco de corpos refeitos, percebi que não estávamos curando falhas… estávamos amputando o que ainda os tornava humanos.

A humanidade não resistiu. Adaptou-se. Sempre se adapta. Primeiro com curiosidade, depois com indiferença, e por fim com desejo. Órgãos internos passaram a ser redesenhados não para salvar vidas, mas para ampliá-las — pulmões que não se cansavam, corações que não falhavam, sistemas nervosos afinados como máquinas de guerra. Tornou-se moda. Uma moda doentia, cruel, irreversível. Até os que cuspiam desprezo por essas mudanças acabaram ajoelhando diante delas. Eu também. Não por vaidade — por sobrevivência.

— Houve um instante em que entendi: não era mais escolha. Era submissão disfarçada de evolução. Quem permanecesse intacto seria lento, frágil, descartável. O mundo não odeia os fracos — ele simplesmente os deixa para trás. — Meu rosto no reflexo do vidro expressou um desprezo profundo, nojo, para ser mais claro. — E eu, que sempre observei com distância, senti o gelo da verdade: ou eu mudava… ou desaparecia.

Antes que você se pergunte, me chamo Dorian Kael, um vampiro da casa dos Sangues de Obsidiana, aqueles que viram propósitos na tecnologia e amargaram gotas de sofrimento.

Esta história tem seu início no princípio do fim de uma era.

Admito que me vi envolto em situações que me colocaram diante de caminhos díspares, distantes de seus ditames, além de minhas origens. Pelo meu clã cedi, dando espaço à invasão tecnológica. Uma corrupção fora de qualquer escala.

Essas mudanças sempre tiveram gosto de erro… Um caminho torto, ruim desde o primeiro passo — e, ainda assim, impossível de evitar. Não foi coragem o que me levou até ali, foi tentação. A mesma que empurra homens cansados a cruzarem linhas que juraram nunca tocar. Eu quis acompanhar os vivos, fingir que ainda caminhava no mesmo ritmo deles.

O olho esquerdo que carrego agora não nasceu de carne. É vidro frio, fios ocultos, fluidos que imitam vida sem jamais a possuir. Uma íris de jade observa o mundo por mim, perfeita demais para ser verdadeira. Ele vê o que olhos humanos, nem os dos vampiros, não alcançam: códigos sussurrados na escuridão da rede, sinais escondidos sob camadas de mentira. Enxerga além do mundo físico — e talvez por isso eu tenha começado a enxergar menos de mim mesmo.

Servia ao meu ofício. Negociar o que é raro, valioso, proibido. Ler o invisível, antecipar movimentos, nunca ser surpreendido. Era uma ferramenta, nada além disso. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. Porque admitir que aquela lente não me fortalecia, somente me tornava mais distante, exigiria uma honestidade que eu já não tinha estômago para suportar.

Não fui tão longe quanto meus pares. Muitos abandonaram a caça, chegando ao ponto de desfigurar suas presas. Banir tradições. O mais grotesco foi o surgimento do sangue sintético, que me causa náuseas — uma abominação, mais que a fusão da carne com as próteses.

Hoje, após minha punição promulgada pelo arconte Veynar, encontro-me às margens da sociedade, distante de olhares perigosos.

Não devia ter seguido com aquele maldito plano. Isso me custou a empresa, a vida e a condição social que gozava. Posto como pária em minha própria casa. Tudo por um humano infeliz.

— Isso é que dá estar no lugar e hora errados. — Baixei a cabeça, desaprovando minhas próprias atitudes. — O que posso dizer… senão… arrependimento…

Esses pensamentos foram interrompidos por passos no corredor e um toque ansioso:
— Senhor Dorian… Está aí dentro? — Uma voz feminina e aveludada, levemente rouca. — Sou eu, Milla. Posso entrar?

Creio que passei tempo demais divagando, me perdendo em lembranças. Esqueci que estava no escritório; ainda eram três horas da tarde.

— Entre, Milla, sem cerimônias, por favor. — Minha voz saiu rouca, mais que o costume, num tom autoritário e impaciente.

O som metálico do trinco soou ao ser destravado; a porta rangeu levemente, revelando uma imagem jovial. Cabelos curtos ao estilo de Cleópatra, loiros como o ouro mais puro, olhos escuros, pele pálida como marfim, e lábios divinamente finos.

Milla era uma vampira filha das Criptas do Éter. Uma criança que conhecia a hemomancia. Mesmo os mais jovens dessa raça eram assombrosamente incômodos. Beleza ímpar, mas de uma frieza além do natural.

— Senhor Dorian, a última de suas reuniões foi cancelada. — Ela caminhava com elegância e uma jovialidade impressionante. Jamais diria que tem mais de cem anos. — Acho que já posso ir para casa. O que acha?

Direcionei meus olhos para a tela do monitor, já eram mais de 18 horas.

— Sim, acho que já pode ir. Não temos mais atividades para hoje aqui no escritório. — Por um momento, fiquei reflexivo, olhando para o ambiente. — Que possa descansar. — Acabei falando num tom introspectivo, mais do que para a Milla, para mim mesmo.

Ela deu um giro nos calcanhares e rumou para a porta.

— Se o senhor precisar, sabe que pode contar comigo para o que precisar, chefe. — Havia em sua voz um tom reconfortante e que sabia serem verdadeiras suas palavras.

Ela sumiu, cruzando a porta em direção ao corredor, e seus passos eu podia ouvir bem, por causa do piso de madeira.

Sentei-me novamente e olhei em direção a um espelho no lado esquerdo. Um espelho retangular, posto horizontalmente, um objeto estético. Disseram que isso aumentaria minha sensação de espaço, o que me fez ter eventuais assombros com imagens distorcidas.

O presente nos deixou presentes tão incomuns. Nós, seres da noite, fomos afetados, voltamos de alguma forma a ter nossas imagens. Parece que a maldição dos primordiais enfraqueceu ou ganhou novas camadas.

Difícil realmente dizer até que ponto fomos afetados pela noite profunda e as tecnologias.

Quando me dei conta, percebi algo estranho acontecendo. A princípio, uma sensação de presença.

Meus instintos entraram em ação. As presas, depois as unhas. Sou um dos poucos que ainda mantém ambas as características de minhas origens e tradição. Sob a mesa de madeira à minha frente, preso a ela, um coldre de couro — nele repousa uma pistola, uma velha amiga, apontada em linha reta. Uma segurança a mais. Um recurso de tempos mais perigosos, que exigiam, mais que unicamente, ser um vampiro.

Meus olhos percorrem o ambiente — uma busca por infiltração. Primeiro física, logo depois medidas digitais, buscando sinais de invasão do meu próprio sistema, ou do meu escritório. Vasculhei o máximo que pude dos sistemas.

Quando encarei o espelho, o ambiente pareceu encolher. Distorções em minha visão começaram a surgir. Havia uma sombra ali — uma presença que não existia antes. No início, era somente um borrão inquieto, um erro no reflexo, algo que não deveria estar naquele lugar. Meu coração acelerou antes que a razão pudesse reagir.

Então a sombra ganhou contornos. Linhas surgiram, tortas, angulosas, como se alguém estivesse tentando nascer do vidro. Havia alguém ali. Senti antes de entender. O perigo veio primeiro, rasteiro, gelado, ativando cada instinto que ainda me restava.

A mente entrou em pânico e, por hábito, tentou se agarrar ao que conhecia.

— Analise! — ordenei a mim mesmo, quase como um reflexo de sobrevivência. Mas o pensamento veio quebrado, falho, tremendo: seriam padrões? Sinais? Fragmentos de código?

Sim, linhas e mais linhas. Somente naquela sombra? Poderia ser uma tentativa de infiltração? Olhei os arredores, buscando qualquer coisa fora do comum. Observei a tela do computador. Apertei umas quantas teclas e rodei outro sistema de depuração.

Eu nunca havia visto algo como aquilo!

À medida que tentava compreender, percebi em meu campo de visão algo… falhas de imagem. Não pareciam atacar, mas dava a entender ser um tipo de fantasma na rede.

A pergunta ecoou vazia. Porque, naquele instante, eu já sabia — aquilo não queria ser compreendido. Queria ser notado.

Existia algo… Muito além das linhas. A cada segundo, uma estranha sensação de terror tomava meu corpo. Caminhei em direção ao espelho. A sombra gradualmente foi tomando uma forma, mas, à medida que isso acontecia, surgiam interferências crescentes no meu olho cibernético.

Sua forma parecia de uma mulher com longos cabelos. Corpo pequeno e magro, mas seus detalhes eram como se estivessem envoltos de vapor, tão imprecisos e disformes.

Pouco antes de poder ver mais detalhes daquela imagem em meu espelho, senti uma forte dor em minha cabeça; meu corpo tornou-se pesado. Caí de joelhos, levando minhas mãos à cabeça; me dobrei no chão, enquanto tentava manter meus olhos naquela estranha visão. E, rapidamente, tudo ficou submerso em escuridão, e senti o impacto oco do meu corpo no chão do escritório.

Antes que minha mente fosse consumida pelo vazio, uma voz feminina, suave e delicada, invadiu meu cérebro — um eco distante.

— Temos tão… pouco tempo… a zona sul… Bar… antigo dos O-Tek… — A voz flutuava em seu volume, o que deixava ainda mais difícil entender o que estava dizendo. — Sangue… corrupto.

Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

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Aslam E. Ramallo

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Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças de sua forma humana. Era consciente e carregava uma essência selvagem que protegia Minerva. No entanto, naquela circunstância, ela tentava apagar suas memórias, em busca de se entender independente dos acontecimentos e dos deuses. Ainda assim, sabia que dentro de si residia algo do castelo afogado, mesmo que adormecido.

Ela não lembrava dele há muito tempo, mas naquela noite o som da água abismal insistia em ressoar novamente em seus ouvidos. Minerva lutava contra aquilo. Um cansaço estranho, aos poucos, foi tomando seu corpo, desacelerando o tropegar de suas patas e obrigando-a a observar o caminho por onde passava, que se tornava cada vez mais conhecido para ela — embora já tivesse quase perdido a noção de quanto tempo passara no castelo.

A loba avistou algo ao longe e imaginou que fossem casas em seu campo de visão. Aquela era a estranha vila pela qual passara antes de adentrar o castelo. Sentiu algo puxando-a para perto daquele lugar, enquanto sua mente parecia duelar consigo mesma. Um nevoeiro denso se formava ao redor, criando braços cintilantes que dançavam junto a seu corpo em um ritmo lento, carregando-a para dentro daquele lugar.

Percebeu que estava por entre as casas errantes. Pessoas caminhavam ali, mas ela não conseguia discernir seus rostos. A mente turva a deixava cada vez mais imersa na paisagem acinzentada. Cansada, observou o formato de suas patas na neve, e uma expressão confusa se formou em seu rosto, como se não reconhecesse aquelas pegadas.

Ela se aproximou de uma casa, observando suas janelas, eram sete ao todo. Aquela era provavelmente a maior casa do vilarejo. Rostos estranhos a analisavam sem dizer nenhuma palavra. O cansaço parecia, finalmente, tê-la tomado. Os sete rostos a encaravam e assemelhavam-se a espirais que iam se contorcendo cada vez mais. Os olhos de Minerva-loba estavam hipnotizados e enevoados, totalmente inertes.

Alguém saiu pela porta da casa e fitou-a com intriga. Minerva não reconheceu o rosto, mas a voz lhe pareceu familiar. Era uma voz autoritária. Aquela voz elogiava algo que havia sido conquistado com soberba, embora ela não compreendesse o quê. Seu corpo, despojado sob as cicutas na neve, permanecia inerte ao mundo real, enquanto sua mente vagava por Settimor.

O rei Kheas estava ali, contando vantagem de sua experiência. Ele havia conseguido realizar a transmutação unindo magia e ciência. Sua filha era única, praticamente uma arma de guerra. A loba percebia aquela voz insistente. O medo não era o sentimento que habitava seu peito, mas a raiva. Minerva almejava ser livre novamente.

Ela estava presa em uma memória, os olhos acinzentados e os pelos negros, encobertos por inúmeras cicutas, a aprisionavam no feitiço do viajante. Minerva estava refém de uma lembrança.

Presa na masmorra, sua antiga moradia, ela uivava em lamento, ouvindo as aspirações insanas do pai. Desejava fugir, mas só conseguia se debater, puxando a corrente presa a seu pescoço.

O tempo era ilusório, ela não sabia se ele estava passando ou não. Seus sentimentos eram instáveis entre o tédio, o ódio e o desespero. Ela desprezava aquele homem que a torturava e não compreendia os limites que ele queria quebrar. As paredes arranhadas e a escuridão eram desoladoras, ela ardia em febre no frenesi das dores que lhe foram impostas.

Mas algo naquela lembrança começou a falhar. A voz do pai já não ocupava todo o espaço; tornava-se distante, fragmentada, como um som que se repete sem origem. A loba percebeu, então, que não estava sendo contida por ele, mas pela própria memória.

Naquele tempo, ainda humana, Minerva compreendeu em silêncio que a masmorra não era inviolável. A corrente em seu pescoço não existia para conter sua vontade, apenas seu corpo. E isso não bastava. O uivo que escapou de sua garganta não era súplica, mas sim uma decisão. O primeiro gesto de quem escolhia viver e não sobreviver.

Como loba, ela se lembrou: a fuga começou antes do movimento, antes da ruptura da carne ou do ferro. Começou quando deixou de pedir permissão para existir.

Ela lutava por si mesma.

Minerva-loba ainda transitava entre sonho e realidade; as cicutas a cobriam como um véu branco, misturando-se à neve. Seus olhos retornaram ao azul profundo. Aos poucos, sentiu o corpo voltar à vida. Em sua frente, um ser humanoide a observava. No lugar do rosto, havia uma espiral nebulosa, repleta de escuridão.

A criatura se dissipou à sua frente, levando consigo os sete rostos nas janelas. Dentro de si, Minerva se reconectou com seu poder, tornando-se mais uma vez tão destemida quanto na primeira vez em que desbravou os caminhos tortuosos que levam ao castelo Drácula. A loba sabia o que era e que ninguém tomaria sua liberdade. Clamou por Hekate, não como súplica, mas como sinal.

Ela não temia o deus do castelo afogado.

Revisado por Sahra Melihssa
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Espasmos do Silêncio

Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar; elas morrem na garganta antes de se tornarem poesia.

Estou diante de ti, Dama Lacrima. O pintor desconhecido que te prendeu nestas tramas de linho e óleo certamente conhecia o inferno, pois capturou-o com perfeição. Teus cabelos, longos e lisos, escorrem como cascatas de nanquim, emoldurando um rosto de uma palidez cadavérica. As tuas mãos, eternamente erguidas próximas à face, parecem querer esconder o mundo de ti, ou tu do mundo.

Se hoje castigado sou pelo teu descontentamento, que vibra através das camadas de verniz, posso até guardar a culpa. Mas as chaves da tua liberdade são para mim um grande peso que devo suportar. Sinto o ódio irradiar da moldura dourada.

— A tua ira deve ser contida — murmuro para a figura estática, mas viva. — A raça humana não merece perecer. Por mais que um ou outro nos sirvam como bolsas de sangue, aconselho: declina-te desta vingança desenfreada. O mundo ainda tem muito a te servir.

Vejo, então, a alteração na pintura. O óleo parece dissolver-se. Aqueles olhos... aquelas escleras tomadas por um negrume absoluto, sem luz, fitam-me com desprezo. E o que antes era pigmento seco, agora escorre. Tu choras. Não água, nem sangue, mas lágrimas de piche, espessas e negras, maculando a pureza mórbida da tua pele pintada.

— Crês que me fará parar?... Como és tolo, Valentine! — O meu nome soa como blasfêmia nesses teus lábios imortais.

— Lanço o desafio — indago, hipnotizado pelo rastro viscoso que desce pelas tuas bochechas —, até onde estarás disposta a ir com tal empreitada?

— Farei do purgatório a vossa nova morada!

— E depois?

— Como assim, "e depois"?

Aproximo-me da obra, sentindo o cheiro de terebintina misturado a algo podre e antigo. — Quando finalizar o teu intento, sentirás o peso do silêncio. Este mesmo silêncio que, até pouco, tanto me assombrava, não irá parar de te perturbar. Serás torturada pelo resto dos teus dias numa galeria vazia, num mundo morto. Nem mesmo as tuas súplicas serão suficientes para te salvar, pois para destruí-lo terás que destruir a ti mesma, rasgar a própria tela. Então, eu lhe pergunto: até onde estarás disposta a ir?

A imagem trêmula. O piche das tuas lágrimas parece ferver. — O que vês à tua frente, Valentine? — Tua voz agora é um lamento, um gemido de túmulo aberto. — Um retrato sombrio adornado por uma bela moldura arabesca? Um fantasma habitando uma tela em que o tempo ousa não apagar? Ou a representação maior dos teus medos?

Encaro o abismo negro dos teus olhos, duas poças de trevas infinitas. — Teu alarde para destruir-me e destruir o mundo é apenas uma fuga de teus próprios medos — digo, e cada palavra pesa como lápide sobre o cavalete. — Até os demônios mais baixos, minha cara Dama, possuem medos ocultos. E o teu medo é que, sem nós para te observarmos, tu deixes de existir.

O piche escorre mais rápido, mas o silêncio volta a reinar, pesado e insuportável, na sala fria.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Caellum Noctis, Parte I - O que eu perdi?

Havia retornado. E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Havia retornado.
E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou… De onde vim. Não me lembrava de nada. Quase nada.
Tinha apenas um nome que transbordava na superfície de minha mente, insistente como as notas pesadas de um piano desafinado.

Eleine Gallhan.

Repeti em voz alta tentando procurar um significado, forçando as peças do quebra-cabeça a se encaixarem. Eleine. Quem é você? Onde você está?

A única coisa que sabia era que aquele nome fazia meu peito doer. Então, instintivamente, levei a mão ao coração e apertei as roupas, tentando alcançar aquela dor, mesmo sabendo que não doía na pele, e sim na alma.

Ela mentiu, pensei.

Ela mentiu? Sim, eu sabia disso também. Quanto mais me forçava, mais doía, mais… Quase lembrava, como se a memória estivesse na ponta da língua e eu não pudesse dizer. Mas o pior não era a mentira. Era o silêncio que ela deixara dentro de mim.

Por que...? Por que não consigo me lembrar?

Meu próprio corpo parecia lutar para impedir que alcançasse essas lembranças. Mas por quê?

Tudo na minha cabeça girava, uma mistura de sentimentos sem imagem. Fechei os olhos e respirei fundo. E então, a pergunta. A pergunta que eu temia fazer. Aquela que fez o aperto no peito doer de verdade… E então, cessar.

Como você era?

Eu não me lembro do calor do seu toque. Do som da sua voz. Do peso do seu amor. Mas o rosto… o rosto era um buraco negro. Senti como se olhasse para um espelho depois de um banho quente, apenas um borrão que nunca tinha foco.

Eu preciso lembrar!

Abri os olhos e finalmente percebi onde estava. Aliás, consegui enxergar o que fora dos meus pensamentos, mas não sabia onde era aquele lugar.

O vento soprou uma pétala em minha mão, folha rosa que se desprendeu da grande árvore à minha frente. O toque suave fez tudo parecer, de certa forma, certo. E o mundo começou a devolver os fragmentos que eu mesmo trancava em minha mente.

— A árvore… Nós a plantamos, não é? — Sua voz ecoou, clara e traiçoeira, soprada pelo vento da memória:

“Quando voltarmos, iremos morar aqui. Eu, você, Lyfir… e nossos filhos.”

— Lyfir… — sussurrei. O nome tinha um gosto agridoce, como se eu não devesse pronunciá-lo em voz alta.

E então, mais peças se encaixaram: a sombra de um grande lobo negro ao seu lado. O olhar fixo de uma coruja pousada em seu ombro. Guardiões de uma mulher que eu não conseguia ver.

Quem é você, Eleine Gallhan?

Tentei forçar a memória. Mas, como já esperava: nada. Apenas o vazio com a forma dela.

Apertei as mãos, não com ódio, mas com uma frustração que doía nos ossos. Era a pessoa mais importante da minha vida; eu sentia isso, mas não me lembrava.

Foi então que a sombra daquela enorme árvore pareceu se espessar. E, de repente, um frio cortante, como o interior de uma cripta, fez os pelos da minha nuca arrepiarem. Alguém, ou alguma coisa, estava ali. Me observando.

— Você deseja… se lembrar? — A voz era um sussurro sedutor, como se a própria escuridão me convidasse a conhecê-la.

Ele se materializou não como uma forma, mas como uma falta de forma: uma silhueta humana feita de fumaça e sombra.

— Eles ouviram seu lamento — a voz sussurrada continuou. — Os Colecionadores de Memórias. Os Rostos Espirais não gostam de dívidas em aberto… nem de pactos incompletos.

Pacto. A palavra me atingiu como um estalo no crânio. E eu tive a terrível certeza: minha perda não era um acidente; era um contrato.

— Quem são eles? — Minha voz soou áspera, quebrada. — O que fizeram comigo?

E, se eu pudesse ver o rosto sob aquele manto, diria que ele sorriu com a minha pergunta.

— Eles guardam. Para cada memória tomada, uma razão. E a sua, Caellum Noctis, está guardada no coração do Castelo Drácula.

Ele fez uma pausa, deixando o horror se instalar.

— E se quiser recuperá-la… deverá adentrá-lo.

O Espectumbral estendeu as mãos. Seu corpo se desfez, transformando-se em um portal etéreo. No centro, apenas o nada me convidava a entrar.

Olhei para o portal. Depois, para a grande árvore, suas folhas caindo a cada lufada de vento. A promessa de um lar murchando como as pétalas caídas no chão. Fechei os olhos mais uma vez, criando coragem para encarar meu destino. Agora, eu sabia o que procurava. Agora, tinha um nome para meus algozes: Rostos Espirais.

Não havia escolha. A obsessão já era minha cela; agora, pelo menos, ela teria uma porta.

Estendi a mão e o toque não foi frio; foi uma ausência de calor, um vácuo que puxou algo vital de mim.

— Leve-me até eles — disse, e minha voz já soava diferente. Menos humana. Mais decidida.

O mundo ao redor começou a se desfocar, as cores escorrendo como aquarela na chuva.

E naquele instante, entre um suspiro e o próximo, tudo desapareceu.

Eu não estava mais em lugar nenhum.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A Dança do Corvo #1

Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Terça-Feira, 28 de Setembro.

Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se identificar pelo vidro embaçado da janela daquele comboio a vapor que atravessava a linha ferroviária em plena madrugada.

Duas noites anteriores, uma carta fora destinada a mim, com a assinatura de meu pai que, por sua vez, escrevera aos prantos. Sua tão amada Hermina falecera depois de contrair uma doença à qual não me especificou nome. Talvez, nem mesmo ele soubesse o que afligira a sua esposa. Ele tinha medo. Soube disso, pois conseguira passar seu temor para o papel em letras trêmulas e garranchadas. Na mesma noite em que recebi a carta pelas mãos de uma das irmãs, dediquei toda minha euforia para ter a permissão de sair do convento e voltar para minha casa. Ela, e outras que também coordenavam o lugar, consentiram com minha saída, pois acharam que seria melhor eu cuidar de meu pai enquanto os tempos difíceis repousavam na minha família. Eu prometi que retornaria em breve e assim parti dois dias depois, sem ao menos imaginar que aquele seria um caminho completamente sem volta.

Junto a mim, nada carregava de muito valor. Ainda me lembrava daquela noite em travessia. Era apenas uma pequena mala contendo um saquinho de biscoito, cadernos e livros didáticos que eu deveria ler no tempo que estivesse fora da Escócia para compensar minha saída e o diário de minha falecida mãe que, não importava onde, sempre levava comigo.

O sono me pegou de surpresa, mas não se estendeu muito. O som rasante do comboio arranhando os trilhos conseguiu me despertar repentinamente em um pulo assustado. A madrugada já se tornava manhã e a parada da ferrovia já estava estampando minha visão. Já havia retornado à minha cidade e nenhuma surpresa me dominou por isso. Estava ali por um motivo de desgraça e nada daquilo me faria feliz.

· · • • • ✤🐦‍⬛✤• • • · ·

As ruas de St. Canard não estavam abarrotadas como eu nunca imaginei. Fazia já alguns anos desde que abandonei meu lar para seguir um caminho junto a Deus e seus ensinamentos, que pouco me lembravam do chão que voltei a pisar.

Mesmo assim, as lojas permaneceram da mesma forma enquanto eu me aprofundava pela cidade. As típicas mercearias, os ambulantes que dançavam nas calçadas animando quem passava... Sempre com um sorriso no rosto, as damas com seus leques e vestidos que vieram de boutiques caras nas quais nunca tive oportunidade de sequer entrar, pois era minha querida mãe que fazia – à base de trapos – minhas roupas humildes e, por fim, as carroças puxadas por cavalos que continuavam as mesmas, tirando o notável melhoramento em suas estruturas compostas de madeiras e metal, que agora eram mais charmosas e reluzentes do que antes. St. Canard não havia mudado muito em alguns anos. Sendo assim, ainda era fato de que eu sabia o caminho de minha casa.

A janela tinha suas persianas abertas quando encontrei minha antiga moradia sob um novo bazar que antes se encontrava em uma panificadora. A fachada estava com sua cor alterada. Antes, um bege quase branco se esticava por toda parede e agora havia um verde que já estava gasto e desbotado, porém a casa ainda parecia ser a mesma, esperava eu.

Decidi abandonar minha casa e seguir caminho ao encontro de Deus após o falecimento de minha mãe. Ela era nova, bonita e inteligente. Mesmo sem recursos financeiros, morávamos bem e sem problemas. Então as brigas entre ela e meu pai se tornaram mais frequentes e a casa foi ficando insuportável. Como antes dizia meu pai, ela o traía com outros homens, entre eles um eu conhecia: Dr. Marquês, filho do panificador que trabalhava em um hospital nas redondezas da cidade. Por sinal, ele era bem agradável. Nunca me dera motivos para sequer cogitar alguma coisa que o desagradasse, mas ao ser apontado por meu pai, sua ideologia formada em minha cabeça também foi pouco desgastada.

As acusações de adultério só foram comprovadas após o acidente no qual tirou a vida de minha mãe. Seu corpo foi encontrado na areia úmida da praia alguns dias depois que ela visitou uma amiga. Marquês se provou amante de minha mãe e alegou ter a ajudado com dinheiro para que ela comprasse tecidos, linhas e materiais para a customização de minhas roupas. Era fato de que, por um espaço de tempo naquela época, minha mãe estava aparecendo com mais tecidos do que o normal. Papai se casou novamente dois anos depois, por desgosto, e com Hermina teve outra filha: Emily, o bebezinho mais doce que eu vi na vida. E, quando isso aconteceu, eu parti para a Escócia, não por desgostar da minha nova irmã ou até mesmo da minha madrasta, mas por saber que somente encontraria o conforto que minha mãe dava nos braços do Senhor.

Antes de eu tocar na campainha ao lado da porta, meu pai já abriu e me encontrou segurando minha pequena mala. Tomou-me em seus braços e chorou por me ver, ao lembrar-se do motivo que me fizera retornar.

— Onde está Emily? – perguntei assim que pisei novamente em casa. O cheiro não era o mesmo. Ao invés de cheirar a assoalho velho e corroído por cupins, eu sentia algo desagradável o bastante que me faria voltar atrás. Não era nada condizente com minha sabedoria. – Quero vê-la. Tadinha... Deve estar acabada.

Meu pai seguiu à minha frente, percorrendo o corredorzinho no qual se dividiam os quartos, e chegou naquele onde eu já dormira um dia. Emily estava deitada com camadas de cobertas sobre seu corpo. Seu olhar cabisbaixo indicava doença, mal-estar. Seu cabelo loiro, que um dia eu vira por algumas pinturas ser lindo, brilhoso e radiante, estava embaraçado, seco e sem vida. Suas bochechas rosadas tinham um tom rude e cruel estampando-as, tornando a magreza de sua face mais evidente. O que estava acontecendo com ela? Os lábios carnudos também desapareceram incrivelmente, dando lugar a uma linha fina e roxa para representá-los. Seu colo tinha todas as cavidades do osso da clavícula marcadas. Ela estava magra igual a um esqueleto. E aquilo me assustava.

Respirei e, antes de me aproximar dela, fiz o sinal da cruz sobre o peito.

— Emily contraiu os mesmos sintomas de Hermina na mesma noite em que ela morreu, Lucy – dissera meu pai com sua voz acabada. – Eu não sei o que fazer mais. Não há remédio em minhas mãos que tarde essa maldita doença e, se existe algo, está muito além daquilo que posso arcar. Ela vai morrer... Vou perder minha filha, e você, sua irmã.

Acariciei a face de Emily, sorrindo para ela, mas acabei me levantando quando meu pai proferiu aquelas palavras banhadas de choro e medo. Agarrei suas mãos com força e as pousei sobre meu colo. — Não diga isso, papai. Vamos conseguir. Emy não irá morrer.

— O que podemos fazer para impedir tal acontecimento hostil? – perguntou ele, eufórico demais para raciocinar que eu estava tão próxima a ele e não necessitava elevar a voz ao falar comigo.

— Vamos primeiro contatar um doutor. Depois de curada, resolveremos o valor que devemos arcar. Tudo vai ficar bem, pai. O Senhor há de nos ajudar. Ele está conosco. – Meu pai pareceu não dar muita atenção para a parte em que falei da ajuda de Deus. Portanto, retornou com sua euforia e se mostrou um tanto duvidoso. – Marquês tinha um voluntário, Dr. Hoechlin. Emy o conheceu, talvez ele nos preste ajuda.

— Eu deveria negar por ser voluntário daquele senhor, mas caso aceite nos ajudar, será bem-vindo à minha casa – respondeu.

Emily se mexeu sob as cobertas. Tossiu, limpando a garganta, e chamou minha atenção com sua voz fraca e arranhada.

— Hoechlin partiu para Londres na noite retrasada. Voltará daqui a dois dias – comentou ela, esforçando-se para conseguir falar com clareza.

Olhei para meu pai com preocupação. Não sabíamos com o que estávamos lidando e, acima de tudo, aquilo poderia não existir cura alguma. Ele também estava preocupado. Com toda a certeza, não queria perder sua menina de dezesseis anos logo depois de sua mulher falecer.

— Quanto tempo Hermina suportou após contrair a doença, pai? – perguntei.

— Três semanas. – Uma semana se completaria para Emy quando o doutor chegasse. Ela teria que aguentar mais duas até os exames mostrarem uma saída.

Naquela noite, me ajoelhei perante a cama e rezei com toda minha fé. Tive medo de que oração alguma fosse forte o suficiente para afastar a sombra da Morte que pairava sobre a nossa casa.

· · • • • ✤🐦‍⬛✤• • • · ·

Quarta-Feira, 29 de Setembro.

Eu havia retornado ao quarto que me foi cedido, na extremidade do corredor, e o fiz não por cansaço, mas por um medo pungente de ser um estorvo àquela figura paterna já devastada pela dor. Minha prece fora fervorosa, mas o sono que se seguiu se mostrou leve e febril, interrompido a cada rangido do assoalho.

No fim, contive-me no som ritmado e pelas badaladas do relógio da sala que, ao longe, badalava as três da madrugada quando o silêncio da casa foi rasgado por um som aterrador. Não era o pigarro fraco que Emily vinha exibindo, mas sim um ruído quase gutural, violento demais e profundo, seguido de um gorgolejo que parecia vir do fundo de sua própria garganta.

Saltei da cama, com o desespero e o coração chocando-se contra as costelas, vesti apressadamente meu robe e corri descalça pelo corredor sem medo de talvez estivesse fazendo barulho em demasia para acordar meu pai. A porta do quarto de Emily estava entreaberta e a luz fraca da lamparina que eu havia deixado acesa na cômoda projetava sombras alongadas e distorcidas que dançavam quase como uma reverência ao meu medo.

Entrei. E ali, o terror se materializou em sua pior forma.

Nunca fui muito próxima do trabalho da morte. Muito pelo contrário… sempre permaneci distante dela para não parecer íntima demais a correr o risco de vê-la de novo. No entanto, as tosses vindas de Emily deixaram de ser comuns para mim quando a consequência seguinte fora vê-la se debater insanamente sobre a cama. O lençol branco que a envolvia já não existia mais, marcando em seu peito e pintando sobre o amontoado de fios uma paisagem infernal de carmesim. O sangue evidentemente estava espesso e quente, escorrendo de sua boca como riachos abundantes, manchando o queixo, o pescoço e a camisola que parecia ter sido mergulhada na mais rubra tinta. Os olhos de minha pobre irmã, antes esvaziados pela doença, arregalaram-se em uma súplica muda de socorro. Talvez eu nunca mais esquecesse o pânico estampado em sua face assim que me viu entrar em seu quarto.

Ela tentava puxar o ar, mas o esforço apenas fazia o sangue jorrar com mais violência, engasgando-a, silenciando-a como se algo condenasse a bela garota a um destino horrível e sangrento. — Emily! Oh, Deus, Emily! — Minha voz não passava de um sussurro rouco, quase abafado pelo som úmido do seu sufocar. E mesmo atingindo um tom acima do normal, pelo medo e desespero, ainda parecia baixa demais comparado aos engasgos e sufocamentos que originavam dela.

Corri para o seu leito, estendendo minhas mãos como uma forma fútil de tentar salvá-la, mas o desespero tomou conta da minha mente com uma força paralisante.

Eu não era médica; não era nem mesmo perto de ter os conhecimentos de uma mera enfermeira. Eu era apenas uma garota de vinte e quatro anos que, diante daquela cena de brutalidade biológica, toda minha fé e os ensinamentos do convento se dissolveram em um terror gélido e parvo. Tentei erguê-la, mas o toque na sua pele fria e pegajosa de suor e sangue fez-me recuar um passo atrás.

Eu falhei. Falhei miseravelmente com o desespero que também tomava conta de mim, assistindo à última e convulsiva exalação de vida de minha irmã, enquanto o sangue se espalhava em um mar espumoso sobre o travesseiro. No instante exato em que o último tremor abandonou o corpo de Emily, quando o gorgolejo cessou e o quarto mergulhou em um silêncio pesado e oco além do meu choro contido no alto da garganta, o ar ao redor do leito pareceu se condensar em um negrume mais denso que a própria noite. Não era a sombra projetada da lamparina, mas sim uma mancha de escuridão viva, alta e magra, que se desprendeu do colchão manchado como quem emergia de dentro da posição de mortalha dela na forma de um espectro obscuro.

Sombrio, sem rosto discernível, feito de fumaça e trevas.

O pavor me petrificou no lugar, e eu observei a personificação do demônio da morte tomar aquele ambiente como se fosse dele desde o início. Talvez de fato fosse, desde a partida da esposa de meu pai, pouco antes.

Não havia pés, nem o som em seus passos. A figura deslizava sobre o assoalho sem fazer qualquer ruído. Em vez de caminhar pelo chão, ela ascendia pela parede ao lado, como se a gravidade fosse uma simples sugestão e possibilidade de uma escolha inútil. Lenta e propositalmente, a aparição espectral moveu-se em direção a um canto escuro do quarto onde repousava, coberto por um tecido de linho branco, o grande espelho de vestir de Emily.

Talvez meu pai tivesse bloqueado o reflexo, tendo em vista o caos letal que acompanhava sua morada. Sua tentativa de ocultar o vidro fazia direta referência ao que diziam os supersticiosos e abandonados pela fé. Espelhos capturavam a alma dos doentes.

O espectro parou diante do espelho coberto, e ali permaneceu intacto, com sua silhueta escura parecendo fundir-se com a brancura do linho. Meus olhos, grudados naquele ponto de escuridão e tecido, não conseguiam mais se desviar. Eu estava hipnotizada. Horrorizada e sem qualquer força para fazer algo a respeito.

Lucy... Salve-me…! Está na hora de vir ao meu encontro, doce irmã. Liberte-me deste caos…  Arranque o véu, irmã. Arranque o véu e perambule pela escuridão. Está tão frio aqui…

Era a voz de Emily, pura, sem o ranger da doença, mas etérea e fria, ressoando não do corpo inerte no leito, mas através do espelho coberto. Suas súplicas eletrizaram meu corpo, arrepiando meus pelos. Foi o suficiente para que eu sentisse verdade em sua solicitação. Movida por uma força que não era minha, um magnetismo frio que irradiava do vidro, dei passos hesitantes até o espelho. Minhas mãos tremeram quando agarrei a beirada do linho úmido de poeira, obedecendo ao chamado.

Rasguei o tecido com um puxão violento, e o espelho foi revelado em um átimo.

Não vi meu próprio reflexo pálido e aterrorizado. O vidro do espelho havia se transformado em uma espécie de janela ou pintura tão realista quanto. Através dele, a cena era de uma grandiosidade gótica e infernal, de um castelo sombrio, escuro, no alto de uma colina rochosa e pontiaguda. Dei um passo para trás, hesitante, e arfei alto com certo receio e pavor. O céu acima não era o teto de nuvens baixas de St. Canard; em vez disso, manifestava-se na forma de um pesadelo de nuvens revoltas em tons de um vermelho doentio que mais se poderia contemplar o mesmo tom do sangue jorrado de Emily do que se o próprio inferno viesse à terra.

O espelho, por um instante, pareceu vibrar. E antes que eu pudesse recuar, antes que eu pudesse gritar por socorro, uma rachadura surgiu na superfície do vidro. E, através dela, um braço explodiu para fora, estendendo-se até mim em uma velocidade absurda. Uma mão negra, ossuda e com garras longas e afiadas saiu do espelho com a precisão de uma víbora. Agarrou-me pela garganta.

O aperto seco e gelado, como gelo de caveira, demonstrou uma força inacreditável. O ar me fugiu por completo naquele último segundo, e acreditei fielmente que morreria também em seguida. Fui puxada para dentro do espelho sem qualquer delicadeza ou cuidado. Meus olhos viram, antes de fazerem a travessia, o reflexo distorcido da minha face contemplada de horror no vidro rachado. Soube, depois daquilo, que jamais poderia ter volta.

No fim, o vidro estilhaçou-se em uma explosão de neblina escura, engolindo-me para dentro de um mundo além da salvação.

Revisado por Sahra Melihssa
A Dança do Corvo
Sob a bruma de uma Inglaterra vitoriana marcada por mistérios e mortes inexplicáveis, Lucy retorna ao lar pela primeira vez em anos ao saber que sua irmã Emily está morrendo por um doença estranha. Mas na noite em que tudo deveria terminar em silêncio, Lucy presencia a alma de Emily sendo sugada para dentro de um espelho velho e adornado que reflete um mundo sinistro e desconhecido repleto de sombras derivadas de um castelo antigo.

Movida por amor e desespero, Lucy atravessa o espelho e se vê em uma dimensão onde a noite se mostra eterna e um castelo gótico que vigia o mundo com suas paisagens aterradoras. Lá, entre sombras e segredos ancestrais, ela deve confrontar forças que desafiam a vida e a morte antes que a alma de Emily seja perdida para sempre. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Gabriel Cordeiro

Gabriel Cordeiro é autor de terror gótico, romance sobrenatural e dark romance, conhecido por tramas intensas, sensuais e profundamente emocionais. Suas histórias exploram o sobrenatural com personagens marcantes e monstros que podem amar demais. Sua escrita mistura poesia sombria, suspense psicológico e erotismo visceral... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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29. Ritos Fúnebres da Ordem

Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Entre os arquivos da Ordem, há um volume reservado apenas às iniciadas. Encadernado em couro escuro e sem autoria declarada, ele registra os procedimentos que regem a passagem e a negação da morte.

Registro da Ordem - reprodução integral.

Ritos Fúnebres da Ordem

A Ordem segue rituais rigorosos para garantir que os mortos atravessem corretamente o ciclo, sem serem corrompidos ou presos entre os véus. Esses ritos variam de acordo com a situação da alma e do corpo.

1. O Rito da Travessia (Para aqueles que morreram naturalmente e sem pendências espirituais)
Este é o ritual mais simples, realizado para garantir que a alma do falecido não fique presa ao mundo dos vivos. O corpo é limpo com ervas amargas para afastar influências indesejadas. O nome do morto é escrito com tinta negra em sua testa para que ele se lembre de quem é ao cruzar o véu. É recitada a “Oração da Travessia”, guiando a alma em sua jornada:

"Você veio da sombra e retornará a ela. Nenhuma dor o seguirá. Nenhum medo o prenderá. Apenas vá."

O corpo é queimado ou enterrado em solo sagrado, dependendo do costume local. Se a alma resistir ou houver sinais de inquietação, passa-se ao próximo rito.

2. O Rito da Libertação (Para aqueles que morreram em agonia ou deixaram assuntos inacabados)
Quando uma alma se recusa a partir ou algo a prende, esse rito força sua libertação. O corpo é posicionado com os braços cruzados sobre o peito e os olhos cobertos com um pedaço de véu negro, para impedir que veja os vivos. Uma moeda marcada com o símbolo da Ordem é colocada na boca do morto, não para pagar uma travessia, mas para silenciar os lamentos. A encarregada pelo rito deve tocar a testa do morto e sussurrar o nome dele três vezes. Em seguida, a “Oração da Ruptura” é recitada:

"Nenhum amor o chama. Nenhuma dor o prende. Você pertence ao esquecimento. Vá."

Se a alma ainda resiste, um corte é feito na palma da mão do falecido, liberando qualquer energia que ainda o segure no mundo dos vivos. Se isso falhar, significa que a alma se tornou algo pior.

3. O Rito do Silenciamento (Para aqueles que morreram e retornaram de maneira impura)
Este rito é reservado para aqueles que foram trazidos de volta de forma errada (mortos-vivos, espectros vingativos ou qualquer um que se recusou a aceitar sua morte). O nome do morto é riscado dos registros da Ordem, simbolizando que ele já não pertence ao ciclo natural. O corpo é perfurado com agulhas de ferro negro, um material sagrado para impedir sua ressurreição. O sangue de uma irmã de maior nível hierárquico é usado para traçar o “Selo da Dissolução” no peito do falecido. A “Oração do Esquecimento” é entoada:

"Você já não existe. O mundo não se lembrará. Sua história termina aqui."

Se a criatura ainda se mover, deve ser destruída sem hesitação. Este é o rito que mais pesa sobre as irmãs, pois significa negar a existência de alguém.

4. O Rito da Execução (Para aqueles que desonraram o ciclo em vida e não merecem descanso)

Nem todos os mortos merecem compaixão. Alguns devem ser apagados completamente, para que nunca se ergam novamente. O corpo é queimado antes da morte (se possível), para impedir que a alma permaneça presa a ele. O coração é arrancado e reduzido a cinzas, garantindo que nenhuma maldição o traga de volta. Nenhuma prece é dita, nenhum nome é pronunciado. O condenado é esquecido imediatamente. É o rito mais cruel da Ordem, mas necessário para aqueles que desafiaram a própria morte e tentaram se tornar imortais.

Esses ritos mostram como a Ordem vê a morte como algo inevitável, mas que deve ser tratado com respeito ou severidade, dependendo das circunstâncias.

Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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28. Diário da irmã da Ordem IV

Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho…

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Data: 25 de novembro de 1374

Irmã Teodora me levou para além dos muros da catedral hoje, caminhamos em silêncio até uma floresta densa e quieta, aquela que caminhei até encontrar o caminho da catedral, caminhamos por ela um bom tempo até que ela parou e falou: “Este, Mara, é nosso verdadeiro túmulo”, ela disse, apontando para as árvores. “Aqui é a floresta das raízes silenciosas.” O nome era apropriado, só se ouvia ali o som do vento entre os troncos. “Quando morremos”, Irmã Teodora continuou, “nosso corpo não é guardado em pedra fria ou muito menos deixado para apodrecer em qualquer lugar, somos devolvidas à terra da qual nascemos outra vez.” Ela deu mais alguns passos e passou a mão em uma árvore de tronco escuro. “Cada irmã da ordem escolhe em vida a sua árvore e essa é a única escolha que lhes é garantida. Quando morremos, somos enterradas ao pé delas, e nossas raízes se entrelaçam com as delas e assim nos tornamos parte dela.” Toquei no tronco da árvore e por um momento ela pareceu pulsar sob meus dedos. “E aquelas irmãs que a ordem não consegue recuperar o corpo?”, perguntei. “Se uma de nós se perde, ainda assim lhe damos uma árvore, um túmulo sem corpo, mas não sem memória”, ela disse, olhando para a árvore. Fiquei imaginando quantas irmãs não tinham sido encontradas e quantas árvores cresciam no vazio. Fiquei a olhar todas aquelas árvores ao meu redor. “Qual árvore você escolheu?”, perguntei. Irmã Teodora sorriu, me surpreendendo, e disse: “Um carvalho, firme e duradouro.” Não perguntei mais nada, mas quando estávamos saindo da floresta olhei ao meu redor e me perguntei: “Se eu caísse, qual raiz carregaria meu nome? Será que suas raízes iriam crescer no vazio?”. Talvez eu ainda não deva me preocupar com isso agora.

Data: 13 de dezembro de 1374

Estava andando pelos corredores da abadia, quando ouvi vozes abafadas, duas irmãs sussurravam, parei atrás de uma coluna e ouvi. “...o poder dele está além da compreensão”, murmurou uma delas. “A ordem finge que ele não existe, mas sabemos que ele está lá, seu domínio nunca caiu de verdade”, disse a outra. “Se a ordem quisesse, poderia enfrentá-lo…”, a primeira delas falou. “Se quisessem mesmo, já teriam feito”, a segunda bufou. Fiquei imóvel, ouvindo o que talvez fosse uma conversa proibida. “Drácula nunca morre, nunca é esquecido e há um bom motivo para isso.” O nome ecoou na minha mente. “Talvez seja por isso que a ordem não interfere no domínio dele, talvez seja algo que não possamos mudar”, uma delas falou. Eu já ouvi esse nome antes, em relatos de viajantes que passavam pela catedral, e o li em textos antigos com poucas informações, mas a ordem nunca falava sobre ele diretamente, não sabia se ele era um aliado ou apenas uma sombra à espreita, mas na ordem ele era um silêncio deliberado. As irmãs continuaram sem notar minha presença, me afastei logo, antes que me percebessem, fui para meus aposentos e o nome foi comigo. Drácula, Drácula, Drácula, como a batida de um coração no fundo da minha cabeça.

Data: 14 de dezembro de 1374

O nome Drácula continuou ecoando na minha mente como um coração pulsante a manhã e a tarde toda, ele se recusava a ir embora. Quando estava limpando as lâminas com a irmã Isolda, a única irmã à qual eu tinha afinidade, não consegui conter minha dúvida e tentei, de maneira casual, perguntar a ela sobre Drácula, ela estava na ordem há mais tempo que eu e poderia me dar mais informações. “Irmã Isolda, ouvi algumas irmãs sussurrando nos corredores, elas falavam de Drácula.” Seus dedos pararam por um instante na lâmina que estava afiando. “Drácula”, repeti, testando sua reação ao nome. Seguiu-se um silêncio pesado e Irmã Isolda voltou a afiar a lâmina como se eu não tivesse dito nada. “A ordem não se preocupa com ele?”, perguntei. “Não é uma questão de preocupação, é uma questão de decisão”, ela falou sem erguer os olhos. “E o que isso quer dizer?”, perguntei. Ela suspirou por um momento e respondeu: “A senhora da Morte tem seus motivos para não interferir nos domínios de Drácula e isso é tudo que você precisa saber.” E foi isso, nenhuma explicação, nenhum detalhe, a conversa estava encerrada antes de começar. Mas algo em suas poucas palavras me fez entender que Drácula era um nome a ser evitado e me restava saber o motivo dessa escolha ter sido feita.

Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

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Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
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12 - Novo Chamado de Listheron

Desde aquele episódio, não havia pensado sobre minha origem. Contudo, por mais que eu tentasse suprimir qualquer ruído chamado, ouvia os sons…

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(Antes de iniciar essa leitura, recomendo ler o capítulo 6)

Relato de Lisa 

Desde aquele episódio, não havia pensado sobre minha origem. Contudo, por mais que eu tentasse suprimir qualquer ruído chamado, ouvia os sons das engrenagens em funcionamento, sem parar.

Não sabia distinguir se as ouvia de algum lugar distante ou se estavam dentro de mim... Mas algo aqui dentro movia-se impassível, sem requerer minha permissão.

Compreendia que evocar Listheron poderia causar a destruição deste mundo e, como não poderia arriscar colocar Alana em risco, suprimi toda e qualquer comunicação, telepática ou não, que pudesse ter com meus antepassados.

Mas eles não pensavam assim. Para Listheron, as batidas do relógio cósmico não cessavam; as engrenagens continuavam se movendo no compasso correto, aguardando mais uma chance para me convocar.

Meu tempo estava acabando...

***

Naquele dia, Alana estava interagindo com Drácula, e eu fui andar no bosque, localizado ao redor dos muros do Castelo. Não me afeiçoei a Drácula; apesar de ele ser gentil e ter salvo a minha vida neste plano, não tenho intenções de formar laços profundos com ele. Não tenho medo de que ele nos faça mal, não é isso. Mas a sensação é de que agiu movido apenas por interesse. Só ainda não descobri qual. Ou talvez meus instintos estejam prejudicados por causa dos sons, e isso afete minha capacidade de análise.

Saí quando a noite dominava, e os bosques jaziam iluminados com as costumeiras luzes indiretas vindas do Castelo, que conferiam ao lugar um clima lúgubre. A brisa mansa trazia odores de terra recém-molhada, mas não por chuva ou orvalho, e sim por algum líquido indecifrável.

Caminhava por entre as densas folhagens; subia nas copas para sentir melhor a invasão do ar puro em meu peito e sentia-me observada pelos olhos flamejantes.

Impressões ou fatos?

Em dado momento, notei que a lua tornava-se amarelada. No começo, achei que fosse apenas uma ilusão de ótica ou uma névoa fina que surgia, mas logo percebi que aquela mudança tinha substância: era real e a tingia de ouro em brasa, como um metal aquecido em fornalha, pronto para ser moldado. Adensava perante mim, deslizando para o lado direito, como que duplicando-se. Logo, a esfera dividiu-se em duas, e constatei que eram Olhos de julgamento.

Raios de luz saíam para fora das esferas, como se fossem pálpebras com cílios mal definidos. O olhar fixou-se em mim.

Senti um arrepio. Era Listheron. Vinha reclamar minha submissão.

Havia tensão no ar. Não conseguia desviar o olhar e então o ouvi:

 — Venha para mim.

Senti as engrenagens movendo-se novamente dentro de mim, pressionando meus pulmões e roubando o ar que havia conquistado:

— BASTA. Irei quando quiser! — Bradei a plenos pulmões, minha voz retumbou forte e o atingiu em cheio.

Silêncio. Senti alívio

A pressão no tórax recuou e, por um instante, pensei que estava livre, até que a nossa discussão telepática começou arder dentro da minha cabeça.

Eu protestava, ele exigia.

Lutamos sem mover um músculo.

O óleo fervia e os tubos que conduziam o éter da vida estavam prestes a explodir.

Mas eu não iria voltar atrás.

Até que ele cedeu.

Firmamos um pacto, assinado com a precisão de um contrato estranho: continuaria sendo Lisa, mas precisaria ser Lisath por sete horas, a cada sete amanheceres.

Não havia outra alternativa. Era isso ou me tornar Lisath para sempre. Ah, a beleza do livre-arbítrio.

Concordei. Por livre e espontânea manipulação.

Lisath é algo que Alana jamais suportaria conhecer.

Por isso, a cada sete dias, eu desapareço. E torço para que ela não descubra aonde vou e o que preciso fazer...

Revisado por Sahra Melihssa
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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10 - Na hora certa

O diário ainda estava quente entre minhas mãos quando o cerrei. Não conseguia me conformar com o que fizera a Viktor. As palavras dele latejavam…

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Diário de Sibila von Lichenstein

15 de Outubro de 1870?

O diário ainda estava quente entre minhas mãos quando o cerrei. Não conseguia me conformar com o que fizera a Viktor. As palavras dele latejavam em minha mente, como se tivessem sido infundidas com um veneno pernicioso. Ah, se eu pudesse exterminar essa frase maldita da minha mente. Tal lembrança pesava em meu peito. Escrevê-las dava uma certeza cada vez mais absoluta sobre uma verdade que eu já sabia, mas não queria aceitar… Eu não o odiava tanto quanto imaginara. Eu não era consumida somente pela culpa. O que também me atormentava era a certeza de que essa estranha saudade rangia: eram as engrenagens da razão e do coração que nunca se encaixavam. A sensação era de agonia e alegria. Eu evitava pensar nele, não só para evitar um choro convulsivo carregado de arrependimentos pelas escolhas erradas que fiz.
Eu evitava pensar nele porque a saudade me dilacerava; eu sentia falta de estar deitada ao lado dele em seu quarto, lendo compêndios enormes de medicina. Sim… era isso: eu amava o meu preceptor e também amava odiá-lo.

Foi então que um galho seco se partiu atrás de mim, um estalo súbito que cortou o ar gelado. Saí do transe. Era hora de subir. Hora de deixar as memórias — ou ser devorada por elas. Um gato, que tive a impressão de ser Meia-Noite, apareceu, deixando as marcas de suas patas no chão frio. Ele subia a estradinha que levava para Séttimor. Antes de virar uma curva e desaparecer, ele miou e olhou diretamente em meus olhos, assustado.

Levantei-me apressadamente, perseguindo a lembrança de algo familiar; ou talvez, só para ter a certeza de que era apenas um gato comum. Ao dobrar a curva, ele já não estava lá. Conforme eu subia, um murmúrio começou a se avolumar. Reconheci aqueles sons. Sim. Eu já os ouvira antes. Eram vozes infantis — choros abafados, soluços frágeis, lamentos curtos — exatamente como os que ouvira quando estagiava no berçário do hospital. Quanto mais eu avançava pela montanha, mais elas se multiplicavam.
Pensei estar aproximando-me do topo, mas aquilo não fazia sentido; eu não avistava nada além do vento cortante ululando por entre árvores de galhos ressequidos. O frio fazia minha carne tremer e meus dentes rangerem.

Era eu contra a montanha.

Os músculos doíam, mas já não sentia meus pés e mãos. Apesar disso, continuei a subir. Era caminhar ou morrer. Meus olhos começaram a vasculhar, procurando por um mínimo sinal de vida: alguma construção, alguma luz distante ou até mesmo a fumaça de alguma chaminé. Apeguei-me à vontade de sobreviver. No entanto, a esperança frágil de que algum tipo de vida habitava aquela montanha começava a desvanecer-se em meu peito, que agora doía mais e mais.

O caminho enrodilhava-se na montanha; eu seguia por ele, à procura das pequenas almas que deixavam aqueles fracos choros escapar de seus pulmões. Com exceção das árvores e plantas, nada prosperava por ali. Foi então que algumas delas capturaram a minha atenção. Ao longe, eu via pontos brancos; eram de tamanhos diversos, dependurados em vários galhos. Sustentando-os, finíssimos fios, que brilhavam sob a luz pálida do sol poente. Cobrindo os galhos ressecados, uma espécie de teia, feita destes mesmos fios. Seduzida pela misteriosa beleza da cena, subi, aproximando-me.

Ao alcançar as árvores, notei que não se tratava de teias; ao longe, pareciam finíssimos fios de seda tecidos pela natureza. Observando-os mais de perto, notei que eles pareciam ser uma espécie de rede integrada entre os casulos. Por dentro deles, havia um líquido branco como leite, alimentando os casulos, ao que parecia; lembrei-me do sistema linfático das aulas de anatomia de Viktor. Segui com os olhos até onde um ia dar. Acabava em um casulo, como pensei. Afastei o algodão que os envolvia, eles eram translúcidos, e deslumbrei-me com o que vi. Um dedinho fino se movia. Era a mãozinha de um feto; estava vivo!

Aproximei meu rosto, prendendo a respiração. Meu espírito se inflou de súbito. Que espécie de vida era aquela? O casulo agitou-se ao tocá-lo. Era um feto que refazia a sua posição. Quando terminou, pude ver seu rostinho. Um sentimento de ternura apoderou-se de meu ser. Mas, simultaneamente, comecei a sentir uma tristeza alheia a mim. Meu coração foi repentinamente esmagado. Era confuso: uma saudade chorosa de algo — que eu não sabia dizer do que era — invadiu meu peito… Como se eu desejasse algo com todas as forças, mas fosse interrompida, impedida.

Movida pela curiosidade diante daquele ser, notei que uma única lágrima, negra como piche, escorria do olho do feto. A lágrima manchou o branco leitoso do casulo. Quando terminou de escorrer, saindo do casulo, se desfez no ar. Então voltei a respirar sobressaltada.

Vencida pela ânsia científica, toquei-o novamente. O feto pareceu reagir, movendo-se delicadamente. Na segunda vez, escutei um som de tecido molhado. Lembrei-me do som que os cadáveres faziam quando eu os partia em pedaços, para poder levá-los em sacos de lixo. Seu casulo reluzia à luz quente dos últimos raios daquele dia. Admirei-o. Poderia dizer que éramos íntimos. Não… Era outra coisa, algo mais grandioso, visceral, antigo, primitivo… Éramos mãe e filho. Era isto que me fazia querer abraçá-lo. Afastei a minha mão. Outra lágrima escorreu, como se o bebê se ressentisse do meu distanciamento.

Notei algo estranho em mim. A agonia de uma saudade profunda invadiu-me. Junto a ela, a pressão no peito novamente, consegui tocar meu rosto… Uma lágrima escorria e molhou meu dedo. Depois desta primeira lágrima, muitas outras vieram. Murmúrios uterinos se multiplicavam. Até mesmo choros infantis se misturavam a eles. Horrorizada com aquilo, decidi fugir. Apesar do fascínio que aqueles fetos de algodão exerciam sobre mim, fui impelida a fugir. Minhas pernas se moveram, antes que eu pudesse comandá-las. A fúria dos sentimentos, contra o instinto de sobrevivência. Fora um lampejo de consciência. Eu sabia que devia fugir. Eu sofria por deixá-los, belos e inocentes. Agora, quase nenhuma luz os iluminava. Em breve, receberiam o abraço de prata dos raios lunares.

Continuei a subir, perturbada pelo que tinha visto. Apertei o passo, fugindo daqueles sentimentos torturantes. Continuei por cerca de vinte minutos. Eu juro que podia sentir meus pulmões ardendo pelo esforço.

Apesar disso, eu precisava avançar. Quanto antes chegasse em Séttimor, antes conseguiria a erva do descanso. Eu precisava daquela erva para deter o que Eleanor me fizera; ou talvez o que eu precisasse mesmo fosse do abraço sombrio da morte. Não! Desistir não era uma opção! Não iria me entregar. Depois de tudo o que eu passara nas garras de Viktor, eu não iria simplesmente desaparecer. Precisava voltar à Prússia: lugar que agora me parecia cada vez mais distante.

Desacelerei. Só então percebi que estava em uma parte mais densa da floresta. Estava quase escuro; meus olhos se ajustavam vagarosamente. Então pude escutar, ao longe, sons de galhos partindo-se. Estaquei, lembrando-me da criatura horrenda que Arale enfrentou. Poderia ser outro ser, mas igualmente perigoso. O chão da estrada parecia recentemente pisoteado.

Perdida nessas reflexões, reparei que um galho se movera atrás de mim. Virei-me e tive a impressão de ver um braço fino sumir atrás das folhagens. Então fugi. Mas não consegui correr mais do que cinco metros à frente; minhas pernas falhavam. Olhei para a trilha que eu acabara de vencer: eu estava só.

Sentei-me para recuperar o fôlego. Então eu vi. Atrás de alguns arbustos, três pequenos seres vinham subindo a trilha, mas tentavam esconder-se. Crianças. Julguei que fossem, pela estatura. Mas não tive certeza, pois seus olhos eram brancos; não havia pupilas, nem íris. Paravam de tempos em tempos para cochichar. Uma delas fez menção de aproximar-se, mas outra a impediu, segurando-a pelo ombro.
Novamente aquele peso no peito… Amaldiçoei meu destino, mas seria possível? Que toda criatura viva desta montanha estaria amaldiçoada com essa tristeza saudosa de tudo aquilo que não floresceu?

Então a terceira criança cruzou a barreira dos arbustos. Permaneci imóvel. Ela vinha em minha direção; um de seus braços estava estendido. O dedo pálido como o de um cadáver, em riste. Toda a sua pele era assim; seu corpo estava quase todo desnudo. Era um menino. Cabelos longos e desgrenhados moveram-se com a sua cabeça, a qual se inclinava curiosa. Ele parou para ajeitar a tanga, única peça que trajava.

Chegou muito próximo e movia-se como um símio, ora para frente, ora para trás. Quando bem próximo, eu fui invadida por outros sentimentos. Era um calor interno, de alma. Então uma memória atravessou meu cérebro, tão fugaz quanto nítida. Eu vi uma roda de hominídeos; ao centro, uma chama; estávamos sentados. Pisquei. Não os vi mais, apenas aquele ser à minha frente.

Foi como antes. A proximidade dele despertou em mim visões alheias. Eu enxergava por ele. Não era apenas isso — eu estava dentro do que ele lembrava. As roupas daqueles homens primitivos pareciam-se com as dele. Pertenciam a um passado muito distante, séculos antes de eu nascer, quando o homem acabava de inventar o fogo. Sim, pude sentir a paz de ser protegida por ele. Tudo se parecia com as noites em frente à lareira que dividi com papai.

Eu apreciei a valiosa sensação de estar segura. No entanto, afastei-me. Era necessário, era premente… Então, descansada, pude retomar a minha caminhada em direção ao cume. Séttimor aguardava-me. A estrada continuava montanha acima. Estava mais íngreme, menos pavimentada. Meus pés faziam pedriscos deslizarem, e utilizei-me de raízes expostas para agarrar-me. Logo avistei, mais adiante, que a trilha estava rompida. Um deslizamento de terra. Do outro lado do abismo estreito que ele formara, pude ver, iluminada pela luz da lua, a erva do descanso.

Pensei em apenas esticar minhas pernas, torcendo para serem suficientes para alcançar o outro lado. Por uma minúscula diferença, isso seria improvável. Era arriscado. Então eu soube que saltaria. Aproximei-me da borda, testei-a com os pés; pedras rolaram até o fundo. Não escutei o som delas batendo lá embaixo. Inspirei, profunda e conscientemente.

De ré, fui afastando-me do abismo. Iniciei uma corrida — minhas costas gelaram — antes de saltar. Flexionei os quadris e… senti como se algo em minhas espáduas tivesse se rompido. Não houve som algum, mas a sensação era vivaz! Aterrissei do outro lado, e lá estava ela: a erva do descanso. Era linda! Não me contive diante da beleza; arranquei-a e macerei com raízes e tudo. Apliquei a pasta em meu pescoço e colo. Um toque gelado como o da morte espalhou-se por todo o meu corpo. Eu estava tão fria quanto um cadáver — e aliviada.

O alívio se desfez ao virar da curva. Do outro lado do abismo, onde eu acabara de estar, uma luz dourada rasgou o véu escuro da noite. Um som cadenciado e vagaroso rompeu o silêncio. Eram cascos de cavalo. Eu o vi. Estava longe; surgiu por entre a bruma noturna. Era um daqueles alazões que cruzaram meu caminho. O mesmo do cocheiro na floresta dos Pinheiros Tristes.

Apertei as mãos. Senti as batidas do meu coração acelerarem. Mesmo sentada, recuei. Meus olhos percorreram o caminho das patas ao lombo do animal, instintivamente. Então eu vi uma figura imponente sobre ele. Trajava um jaleco branco.

Acho que senti o sangue correr de minha face:

— Quem é você?

O alazão não avançou. Permaneceu imóvel à beira do abismo, como se a própria noite o mantivesse suspenso. Então relinchou — um som oco, espectral, que não parecia pertencer a um animal vivo. O cavaleiro apertou as rédeas com lentidão deliberada. Seu rosto não se deixava ver: era apenas um borrão instável, dissolvido na névoa.

Levei a mão ao rosto. Minha pele ardia, embora eu estivesse fria por dentro. O coração batia fora de compasso, e ainda assim eu não conseguia me mover.

Foi então que a frase retornou, intacta, como sempre retornava. Não como lembrança, mas como marca. Ferro em brasa pressionado contra a carne da memória.

“Há coisas que só podem ser aprendidas na hora certa.”

Ele dizia isso com calma. Com paciência. Como quem não avisa — apenas espera.

E, ao encarar aquela presença imóvel do outro lado do abismo, compreendi, com um terror mudo, que talvez aquela fosse a hora.

Revisado por Sahra Melihssa
As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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27. Se eu esperar, a sepultura será a minha casa; nas trevas estenderei a minha cama

Data Incerta – Mara ainda dormia, inteira, ainda humana. E eu senti um golpe de alívio em meu peito, controlei minha respiração, pois não queria que ela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta – Mara ainda dormia, inteira, ainda humana. E eu senti um golpe de alívio em meu peito, controlei minha respiração, pois não queria que ela acordasse e percebesse o meu descontrole. Levantei-me em silêncio, mas não o bastante, pois Mara acordou, mas não se levantou de imediato. Lavei o rosto em uma bacia de metal e pude ver meu reflexo embaçado, meus olhos carregados de névoa, como se houvesse uma película esbranquiçada que parecia carregar em si as lembranças do sonho da noite passada. Sentei-me em uma cadeira perto da janela e fingi normalidade, enquanto Mara se levantava em silêncio.

— Você sonhou — disse ela, afirmando.

— Acho que todos sonham, não é? — eu disse, tentando soar irônica. — Espero não ter falado enquanto dormia.

Mara me olhou por tempo demais e depois desviou o olhar.

— Vamos sair da torre. Preciso falar com você longe de tantos olhos e ouvidos atentos.

Não a questionei, apenas a segui, e a ordem parecia nem se importar com nossa saída, ou fingia não se importar.

Fomos para a vila, poucas janelas abertas, poucas portas entreabertas e poucos olhos e ouvidos. Enquanto andávamos, tive a sensação de que cada casa tinha suas cores dessaturadas, com contornos levemente trêmulos, como se tudo à nossa volta estivesse envolto em vidro embaçado, e a névoa fixa no céu parecia um negativo mal revelado.

Cada vez que eu piscava para tentar desembaraçar minha visão, parecia que algo se movia fora do tempo normal; eu me sentia puxada para dentro de algo que não era eu. Mara notou meu ritmo alterado.

— Você está lenta — ela disse.

— Só estou tentando me manter acordada.

Ela franziu o cenho e continuou andando.

Vi então um pequeno cemitério entre as casas antigas, pedras partidas, alguns lápides sem nome, musgo crescendo suave. E ali, sobre um mármore branco, juro que vi algo por um segundo, como um livro. Pisquei e não havia mais nada lá, mas a sensação ficou, como se, a qualquer instante, uma lembrança pudesse me atravessar e apagar o agora. Paramos naquele cemitério, e Mara fez questão de verificar que estávamos sozinhas antes de começar a falar. Tínhamos apenas a companhia dos mortos, mas, depois de tudo que passei, eu não estava certa de que poderia confiar no silêncio deles.

— Aquelas mulheres, há algo de errado nelas — Mara começou a sussurrar bem perto de mim — a ordem nunca protegeu o castelo e também nunca interferiu no domínio de Drácula. Essa ramificação da ordem quer proteger o domínio dele por algum motivo, e não é por bondade no coração delas, isso eu tenho certeza. Há algo mais por trás disso. E por qual motivo agora a verdadeira ordem quer intervir?

Eu a ouvia, mas parecia que ela fazia essas perguntas a si mesma, e não a mim, que não possuía nenhum conhecimento prévio sobre a ordem. Eu apenas estava no lugar errado na hora errada.

— Aquelas mulheres no teatro não eram apenas espectadoras; elas estavam esperando algo — ela continuou.

Olhei para ela.

— Você?! — eu disse, surpresa com quão óbvio isso parecia.

Ela assentiu.

— A ordem nunca se preocupou com Drácula, nunca tive conhecimento de nenhuma de nós entrando no castelo, a não ser eu.

— Você acha que isso é por sua causa? — perguntei.

— Talvez, mas quando elas me viram ali, de frente para ele, inteira, isso deve ter dado a elas a ideia de que eu sou a porta de entrada para o castelo — seu rosto se contraiu.

— Então elas vieram atrás de você — confirmei.

— Não posso ter certeza, é tudo teoria, eu não sei o que pensar — o silêncio ficou entre nós.

— Tudo bem, você deve ter uma ideia do que elas podem querer de você, não é? — eu disse.

— Como eu disse, talvez eu seja a entrada delas ao castelo, mas a dúvida que fica é o que elas querem lá…

Enquanto Mara falava, o mundo parecia se deformar à minha volta bem devagar. As lápides, as árvores, as ruas pareciam ondular; as casas tremulavam de leve, e as sombras se moviam com atrasos. Tive a sensação bem nítida de que, se eu me deixasse levar, eu poderia cair em algo que não era eu. Não sei como explicar melhor, mas eu sentia que aquele algo, que não sei descrever, era algo fora de mim que estava dentro de mim. Senti que estava sendo observada e sacudi a cabeça.

— Elas sabem que não conseguimos voltar ao castelo? — eu disse, tentando ainda voltar ao normal.

— Talvez saibam, mas isso não irá impedi-las de tentar entrar — Mara falou e olhou para mim com mais cuidado. — Você também percebeu isso, não é? Que elas não são do tipo que desistem.

Assenti.

— Então precisamos de uma forma de voltar para o castelo sem levá-las conosco — falei, e ela soltou um riso breve e amargo.

— Quando se trata da ordem, não sei se isso será possível, mas podemos tentar. Agora, melhor voltarmos.

Voltamos a andar e começou como um erro de profundidade: o chão parecia estar logo ali, mas, ao pisar, ele cedia um centímetro além do que era esperado. Como um degrau que não existe, meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar, e meu coração deu um salto.

— Rute — a voz de Mara veio de longe, ou talvez muito perto; eu não conseguia distinguir.

A vila começou a perder a cor, as casas se tornaram tão pálidas que começaram a desaparecer e o céu ganhou uma aparência embaçada. Eu pisquei e um livro se abriu, mas não havia livro em minhas mãos; havia páginas sendo viradas em minha cabeça. Vi uma mulher que não era eu ajoelhada diante de uma lápide sem nome. Vi mãos pequenas segurando uma adaga grande demais. Vi sangue escorrendo sobre um tecido que já fora branco. Vi o rosto mais jovem de Mara, endurecido, mas sem o peso que hoje ela parece carregar, e aquele mesmo olhar de quem não sabe como voltar atrás. Tudo se movia com uma luz neon branca, fraca e pulsante. O torpor veio doce e terrível, eu sentia como se meu eu presente na realidade começasse a se soltar de suas costuras; senti meu corpo ficar pesado e distante, como se estivesse sendo abandonado de mim ou por mim mesma. O ar começou a ficar espesso demais para respirar. Duas fendas se abriram na névoa; eram olhos não hostis, mas atentos, e, ao vê-la, algo dentro de mim doeu com uma nostalgia que eu não reconhecia como minha.

— O que está te prendendo? — disse.

Senti outras imagens querendo emergir. O teatro, o caleidoscópio, Drácula aplaudindo, Mara sendo refeita diante dos meus olhos, meu próprio rosto sendo refletido dentro de um vidro infinito. Senti o presente perder a importância, meus joelhos falharam e minha mente também; então algo me puxou com violência para trás.

— RUTE!

Mara segurava meu braço com força suficiente para doer. Sua mão era quente, real, dolorosamente real. O mundo retornou de uma só vez, com brutalidade, e eu caí contra Mara. Respirei em golfadas curtas e descontroladas; eu senti como se estivesse me afogando de novo.

— Você estava caindo — disse ela, com a voz controlada, mas os olhos não.

— Eu vi coisas que eu não vi — eu disse, e percebi que não fazia sentido nenhum.

Ela fechou os dedos nos meus braços com mais força.

— O que você viu? — ela perguntou, séria demais.

Engoli em seco, ainda não entendia aquilo que observava por trás dos meus olhos.

— Lembranças que não são minhas, mas querem ser — eu disse, desesperada, e Mara ficou em silêncio, me observando por tempo demais.

— Vamos voltar, finja que está tudo bem e volte para o quarto — ela me encarava enquanto dizia o que eu precisava fazer.

Voltamos e entramos na velha construção onde a ordem estava e, sob os olhos daquelas que fingiam não se importar, voltei para o quarto, pois estava cansada demais para os vivos, para os mortos e para a ordem.

Mais tarde — Essa noite eu sonhei de novo, ou tive uma lembrança que não era minha, não sei dizer ao certo. No sonho ou lembrança, eu já estava triste sem saber por quê. O céu era de um cinza vazio, como se nada no mundo pudesse preenchê-lo. Não havia vento; as flores ao meu redor eram brancas demais, quase fantasmagóricas, e, a cada movimento meu, elas se duplicavam, uma após outra, depois três ou quatro versões atrasadas de si mesmas, como se cada movimento meu estivesse dando defeito no tempo. Eu caminhava sem destino, sem urgência. Tinha apenas um peso no peito, uma tristeza antiga. Então vi o mar, e ele recuava a cada passo meu, como se tivesse medo de mim. Meus pés sentiam ainda a areia úmida. Tudo permanecia imóvel se eu permanecesse imóvel. Tudo respirava se eu respirasse, mas nada parecia vivo de verdade. Foi quando tudo começou a se misturar. Vi minhas mãos segurando uma lâmina que nunca toquei. Vi o rosto de Mara jovem, endurecido por uma dor que não era minha, mas que doía em mim. Vi uma lápide sem nome que me despertava uma culpa sem motivo. Eu queria chorar, mas não sabia qual das versões de mim deveria. A névoa aumentou, e duas fendas se abriram nela. Olhos, os mesmos de antes, e, ao vê-la, senti de novo aquela nostalgia absurda que não era minha, de algo que nunca vivi.

— Você está se perdendo? — disse a voz que eu sentia conhecer.

— Isso é meu, essas lembranças? — perguntei, e os olhos me observavam sem piscar.

— Agora é.

Olhei para baixo, meus pés não tocavam o chão e eu caminhava sobre aquela água inexistente, feita de lembranças alheias e das minhas lembranças. Eu olhava para elas, e a sensação era de que tudo estava prestes a desaparecer. Vi cenas que não reconheci como minhas. Senti medo, mas não o medo desesperador; foi mais um cansaço, pois eu estava farta de existir há muito mais tempo do que minha vida permitia.

— Se eu ficar aqui, isso passa? — perguntei.

— Nada aqui passa — a coisa respondeu — tudo apenas se sobrepõe.

Meu peito apertou e uma tristeza que eu reconhecia como sendo mesmo minha cresceu. Junto com aquela sensação de que existir havia se tornado pesado demais para uma vida só. Foi quando ouvi, de muito longe, meu nome sendo chamado, como se estivesse atravessando diversas camadas. A paisagem começou a rachar, as flores se desfizeram e o céu cinza se desfez. Os olhos recuaram.

— Volte ao cemitério, você ainda tem onde cair — disse a coisa.

E eu caí. Acordei com o peito em convulsão e o ar entrando como golpes em meu pulmão, como se eu tivesse sido puxada com violência, outra vez, do oceano. Meus olhos avistaram os de Mara, desesperados, e, como sempre, não sei dizer se era preocupação com a minha vida ou com a dela, que estava presa à minha, mas era uma preocupação genuína. Eu estava em seus braços novamente.

— Precisamos voltar ao cemitério agora — puxei o ar e disse, em desespero.

Saímos e fomos em direção ao cemitério. Não vi ninguém lá a princípio, mas tinha a sensação de estar sendo observada; foi então que os vi perto de uma lápide sem nome.

— Ali, você está vendo isso? Está vendo eles ali? — apontei para a lápide para confirmar que Mara via o que eu via.

— Eu não vejo nada — ela disse, negando com a cabeça — me diga o que você vê.

— Corpos imóveis, roupas que não parecem pertencer a tempo nenhum e os rostos em espiral. Não são máscaras, eles são mesmo assim, retorcidos por dentro, como se seus rostos tivessem sido entortados até chegar ao abismo da alma — disse a ela.

Mesmo assim, eu me sentia observada por aquelas faces sem olhos que conseguiam me atravessar. Eles continuavam parados, apenas observando, e eu comecei a caminhar, e eles continuavam lá, parados e distantes. Cada passo meu os tornava sutilmente mais próximos. Eu senti que não deveria chegar a eles rápido demais, mesmo que eu quisesse. Mara perdeu o foco, e eu sabia que ela falava algo, mas não conseguia escutá-la. Então um deles se aproximou o suficiente e não tocou em mim, apenas inclinou a cabeça e sussurrou:

— Esta não é sua, e não tem relevância.

Senti algo sendo arrancado de mim, mas não senti dor, e sim alívio. Sabia que algo tinha sido levado, mas não sabia o que. Então outro rosto em espiral se aproximou de mim e também arrancou algo.

— Essa você não vai precisar — sussurrou para mim.

Depois, um terceiro rosto em espiral e, ao invés de tirar, empurrou algo para dentro de mim. Minhas mãos começaram a tremer. Um outro rosto chegou mais perto, tão perto que quase chegou a me tocar. Então senti um incômodo, uma queimação na ideia de ser quem eu sou. Eu sentia como se uma parte de mim tivesse sido raspada por dentro, bem devagar, mas não como lâmina; era com algo mais bruto e doloroso. Comecei a gritar e eles continuavam me olhando sem olhos. Vi um rosto em espiral que parecia o meu ou que viria a ser o meu. Me sentia desorganizada dentro de mim mesma, reescrita. Apenas me lembro de ser arrastada com violência, vozes em torno de mim, os olhos de Mara em desespero, mãos me apertando e a sensação de que algo foi roubado e que algo que nunca foi meu crescia dentro de mim.

Revisado por Sahra Melihssa
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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